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Universidade Federal de Santa Catarina

Curso de Graduação em Engenharia Sanitária e Ambiental

DIMENSIONAMENTO DE UMA TORRE DE ENCHIMENTO


PARA REMOÇÃO DE H2S E CO 2 DE BIOGÁS PARA FINS
ENERGÉTICOS

Henrique da Cunha Sant’Ana

FLORIANÓPOLIS, (SC)
AGOSTO/2009
Universidade Federal de Santa Catarina
Curso de Graduação em Engenharia Sanitária e Ambiental

DIMENSIONAMENTO DE UMA TORRE DE ENCHIMENTO


PARA REMOÇÃO DE H2S E CO 2 DE BIOGÁS PARA FINS
ENERGÉTICOS

Henrique da Cunha Sant’Ana

Trabalho apresentado à Universidade


Federal de Santa Catarina para Conclusão
do Curso de Graduação em Engenharia
Sanitária e Ambiental.

Orientador
Prof. Paulo Belli Filho
Co-orientador
Rodrigo Mohedano

FLORIANÓPOLIS, (SC)
AGOSTO/2009

2
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Dedico este trabalho aos meus pais Lineu e Denise,
por todo amor, incentivo e apoio
em todas etapas de minha vida.

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AGRADECIMENTOS

À minha família: meus pais Lineu e Denise, meus irmãos Mariana e Gustavo,
e o caçula Rafa, por todo apoio, compreensão, ajuda e companheirismo, mesmo nos
momentos de distantes.
Ao prof. Paulo Belli Filho, pela orientação, confiança e oportunidade de
aprendizado junto ao Laboratório de Efluentes Líquidos e Gasosos (LABEFLU).
Ao doutorando Rodrigo de Almeida Mohedano, pela amizade ao longo do
tempo no laboratório e pelas contribuições para a realização do presente trabalho.
À banca examinadora, prof. Henrique de Melo Lisboa e Msc. Rafael Pulgar,
pelas valiosas contribuições no final da execução deste trabalho.
À empresa RTP Indústria de Equipamentos Ltda ME, incentivadora e
apoiadora do presente trabalho, por toda a ajuda e companheirismo durante o
desenvolvimento deste trabalho.
Ao LABEFLU pelo apoio e pela oportunidade oferecida.
À equipe do LABEFLU, pelo ótimo dia-a-dia neste ano juntos, regado a
muito café.
À Netuno, pelas boas ondas de sempre. E ao mar...
Aos meus amigos, que vivenciaram junto comigo toda a trajetória nestes anos
em Florianópolis. É difícil dar nomes, pois sempre nos esquecemos de alguns, mas
não posso deixar de ressaltar os seguintes: Kalil, Murilo, Buiu, Julião, Monstro,
Odreski, Delyra, Foca, Tico, Traki, Calil, Polaco, Japa, Mauricio M.P., Neif, André
Siqueira, 51, Mark, Bodó, Carol, Déia, FeR...
Ao Luizão, grande amigo e companheiro nestes anos de Ilha da Magia.
À Giliane, pelo carinho, companhia e pelos ótimos momentos juntos.
À Floripa...

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RESUMO

A necessidade de se ampliar a matriz energética nacional tem se evidenciado


com a ocorrência de fatores como o apagão de 2001 e a diminuição da oferta de gás
natural proveniente da Bolívia. Uma alternativa promissora para o Brasil é o uso de
biocombustíveis. A digestão anaeróbia de resíduos provenientes dos setores
industrial, rural e urbano gera um gás com alta concentração de metano, que o torna
um biocombustível com alto poder calorífico. Porém, o processo de digestão
anaeróbia gera também outros gases, como o sulfeto de hidrogênio (H2S) e o
dióxido de carbono (CO2), gases ácidos que danificam a estrutura de motores
geradores de energia elétrica movidos a biogás. Lavadores de gás são equipamentos
que há muito tempo vêm sendo utilizados como purificadores de gases e, dentre
eles, destaca-se o do tipo Torre de Enchimento, por ser um equipamento barato e
eficiente. Sendo assim, este trabalho teve como objetivo dimensionar um lavador de
biogás do tipo Torre de Enchimento em escala real para remoção de CO2 e H2S de
biogás a ser utilizado como biocombustível em grupos geradores de energia elétrica,
aumentando assim o poder calorífico deste biocombustível e a vida útil dos motores
de grupos geradores. Para a realização deste trabalho, não foi possível a aplicação de
metodologias usuais de dimensionamento de Torres de Enchimento. Optou-se por
adotar um dimensionamento prático embasado em exemplos e recomendações
encontrados na literatura. Para as condições estudadas neste trabalho, e
considerando-se uma vazão de 50m³/h de biogás e o uso de água como líquido de
absorção, conclui-se que as dimensões da torre são 0,25 m de diâmetro e 1,93 m de
altura, o volume de recheio é de 44,2 l, ocupando 0,9 m de altura da torre e a taxa de
circulação de líquido de 3,54 l/min.

PALAVRAS-CHAVE: Digestão Anaeróbia, Biogás, Purificação de Biogás, Torre


de Enchimento

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ABSTRACT

There has been a need to extend the matrix of national energy as a result of a
number of events such as the black-out in 2001 and the reduction of natural gas
supplies from Bolivia. One potential alternative for Brazil is the use of
biocombustibles. The anaerobic digestion of residues produced by the rural, urban
and industrial sectors yields a gas with a high concentration of methane that turns
them into a biocombustible with high calorific power. However, the process of
anaerobic digestion also produces other gases such as hydrogen sulphide (H2S) and
carbon dioxide (CO2), acidic gases that damage engines that generate electric energy
or are run on biogas. A long time ago, scrubbers were used for purifying gases and
one kind of equipment that is notable for being cheap and effective is called a Packed
Tower. In the light of this, the aim of this study is to design a biogas scrubber of a
Packed Tower kind that is suited to the removal of CO2 and H2S from the biogas that
is being used as a biocombustible in groups of generators of electric energy. In this
way, it will increase the calorific power of this combustible and the working life of
the engines of the generators. In this study, it was not possible the application of the
usual methodologies of dimensioning of Packed Towers. It was adopted a practical
dimensioning based on examples and recommendations found in literature. For the
conditions studied in this work, and taking into consideration the flow of 50m/h of
biogas and the use of water as the liquid of absorption, it may be concluded that the
dimensions of the tower are 0,25 m of diameter and 1,93 m of height. The volume of
packing is 44,2 l, occupying 0,9 m of the tower height and a flowrate of circulation
of liquid of 3,54 l/min.

KEY-WORDS: Anaerobic Digestion, Biogas, Biogas Purification, Packed Tower

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Esquema de uma Torre de Enchimento com fluxo contracorrente ........... 26


Figura 2: Esquema de um lavador de fluxo cruzado ............................................... 27
Figura 3: Esquema de uma coluna de prato de borbulhamento ............................... 27
Figura 4: Torres de recheio randômico e estruturado. ............................................ 29
Figura 5: Grupo gerador de energia elétrica a biogás instalado na Agropecuária
Carboni, no município de Videira – SC. ................................................................. 30
Figura 6: Biodigestores da Agropecuária Carboni.................................................. 31
Figura 7: Componentes do grupo gerador RTP modelo 8100B. ............................. 32
Figura 8: Componentes do sistema de cogeração de água quente ........................... 33
Figura 9: Dräger X-am 7000 ................................................................................. 34
Figura 10: Análises qualitativas do biogás da Granja Carboni ............................... 40
Figura 11: Anéis Pall ............................................................................................. 44
Figura 12: Distribuidores de líquido tipo I (a) e tipo II (b). .................................... 45
Figura 13: Grade-suporte simples .......................................................................... 46
Figura 14: Torre de Enchimento ............................................................................ 48

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Grupos de bactérias e fases distintas no processo de digestão anaeróbia. 18


Tabela 2: Características de diversos combustíveis. ............................................... 21
Tabela 3: Variação do poder calorífico em relação à composição do biogás. .......... 22
Tabela 4: Possíveis métodos de tratamento de biogás ............................................ 24
Tabela 5: Processos de remoção de CO2, H2S e água do biogás ............................. 25
Tabela 6: Desempenho previsto do grupo gerador RTP modelo 8100B.................. 32
Tabela 7: Faixas de concentração dos gases medidos pelo Drager X-am 7000. ...... 35
Tabela 8: Análises qualitativas do biogás da Granja Carboni ................................. 40
Tabela 9: Parâmetros adotados para o dimensionamento da Torre de Enchimento . 42
Tabela 10: Dimensionamento da Torre de Enchimento .......................................... 42
Tabela 11: Dimensões adotadas da Torre de Enchimento ....................................... 43
Tabela 12: Características do distribuidor de líquido................................................45
Tabela 13: Aspectos Gerais da Torre de Enchimento................................................47

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

°C Graus Celsius
AMP 2-amino-2-metil-1-propanol
atm Atmosfera
CCE Centro para a Conservação da Energia
CH4 Metano
cm Centímetros
CO2 Dióxido de Carbono
CuSO4 Sulfato de Cobre
DEA Dietanolamina
EDTA Etilenodiamino Tetra-acético
ETE Estação de Tratamento de Esgotos
Fe/EDTA Solução Catalítica de Ferro com EDTA
H2 Hidrogênio
H2S Sulfeto de Hidrogênio
in Polegada
kcal Quilocaloria
kg Quilograma
km Quilômetros
km² Quilômetros Quadrados
l Litros
l/min Litros por minuto
LABEFLU Laboratório de Efluentes Líquidos e Gasosos
m Metros
m/s Metros por segundo
m² Metros quadrados
m³ Metros cúbicos
m³/h Metros Cúbicos por Hora
m³/s Metros cúbicos por segundo
MDEA Metildietanolamina
MEA Monoetanolamina

10
mm Milímetros
N2 Nitrogênio
Nm³ Vazão normalizada (em metros cúbicos)
PCH Pequena Central Hidrelétrica
PE Polipropileno Expandido
PP Polipropileno
ppm partes por milhão
PVC Policloreto de Vinila
SC Santa Catarina
SO2 Dióxido de Enxofre
TBEE 2-tertiaributilamino-2-etoxietanol
UFSC Universidade Federal de Santa Catarina

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO .......................................................................................... 14

2. OBJETIVOS............................................................................................... 16

2.1 OBJETIVO GERAL .................................................................................. 16

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS........................................................................ 16

3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA .......................................................................... 17

3.1 DIGESTÃO ANAERÓBIA ......................................................................... 17

3.2 RESÍDUOS PARA A DIGESTÃO ANAERÓBIA ............................................. 19

3.3 BIOGÁS ................................................................................................ 20

3.4 BIOGÁS COMO RECURSO ENERGÉTICO................................................... 21

3.5 PURIFICAÇÃO DO BIOGÁS ..................................................................... 23

3.5.1 LAVADORES DE GASES............................................................................. 26


3.5.2 TORRES DE ENCHIMENTO ........................................................................ 28

4. MATERIAIS E MÉTODOS............................................................................ 30

4.1 IDENTIFICAÇÃO DA SITUAÇÃO REAL ...................................................... 30

4.1.1 CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA ...................................................................... 31


4.1.2 CARACTERIZAÇÃO DO GRUPO GERADOR ...................................................... 32

4.2 ANÁLISES DO BIOGÁS ........................................................................... 33

4.2.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS......................................................................... 33


4.2.2 MEDIÇÃO E AVALIAÇÃO DA COMPOSIÇÃO DO BIOGÁS ..................................... 34
4.2.3 MEDIÇÕES EM CAMPO............................................................................ 35

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4.3 DIMENSIONAMENTO DE LAVADOR DE BIOGÁS TIPO TORRE DE
ENCHIMENTO ................................................................................................. 36

4.3.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS......................................................................... 36


4.3.2 CÁLCULO DO DIÂMETRO DA TORRE ............................................................ 37
4.3.3 CÁLCULO DO VOLUME DE RECHEIO............................................................. 38
4.3.4 TAXA DE CIRCULAÇÃO DE LÍQUIDO ............................................................. 38
4.3.5 INTERNOS DA TORRE .............................................................................. 39

5. RESULTADOS E DISCUSSÕES...................................................................... 40

5.1 CARACTERÍSTICAS DO BIOGÁS A SER TRATADO ...................................... 40

5.2 TORRE DE ENCHIMENTO ....................................................................... 42

5.2.1 DIMENSIONAMENTO DA TORRE DE ENCHIMENTO .......................................... 42


5.2.2 INTERNOS DA TORRE .............................................................................. 43
5.2.2.1 ESCOLHA DO RECHEIO ....................................................................... 43
5.2.2.2 DISTRIBUIDOR DE LÍQUIDO .................................................................. 44
5.2.2.3 SUPORTE DE RECHEIO ........................................................................ 46
5.2.3 ASPECTOS GERAIS DA TORRE DE ENCHIMENTO.............................................. 46
5.2.4 DESENHO DA TORRE DE ENCHIMENTO ........................................................ 47

6. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES ............................................................ 49

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................. 51

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1. INTRODUÇÃO

A questão energética no Brasil passou a ter grande importância após o


racionamento de energia elétrica que ocorreu em 2001, também conhecido como
“escândalo do Apagão”. Este ponto frágil da história da matriz energética nacional
evidenciou a necessidade de se investir em sua ampliação, que veio se reforçar
recentemente com a diminuição da oferta de gás natural proveniente da Bolívia.
No estado de Santa Catarina, tem-se optado pela implementação de Pequenas
Centrais Hidrelétricas (PCH) para aumentar a oferta de energia elétrica. Porém,
existe no estado uma grande potencialidade de se obter energia através de biomassa e
biogás, ambos abundantes no meio rural, onde o estado se afirma como grande
produtor de suínos e aves, e no setor industrial, bem difundido e em amplo
desenvolvimento.
O tratamento anaeróbio dos dejetos gerados no meio rural, e dos efluentes
gerados nos setores industrial e urbano, podem resultar na produção de biogás,
importante matéria-prima que pode ser utilizada como combustível na geração de
energia elétrica. Para isto, é necessário a implementação de um processo de
purificação do biogás, devido à presença de diferentes contaminantes nele existentes.
Dentre eles, destacam-se principalmente o sulfeto de hidrogênio - ou gás sulfídrico
(H2S), que possui ação corrosiva nos geradores de energia e nos motores à
combustão adaptados ao uso do biogás, e o dióxido de enxofre (CO2), que diminui o
poder calorífico do biogás.
Lavadores de gases são equipamentos que há décadas vêm sendo utilizados
como purificadores, destacando-se dentre eles o do tipo Torre de Enchimento, por ser
um equipamento barato e eficiente.
O presente trabalho foi realizado junto ao Laboratório de Efluentes Líquidos e
Gasosos (LABEFLU), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), através
de um projeto coordenado pela empresa da RTP Indústria de Equipamentos Ltda
ME.
Com o desenvolvimento de equipamentos voltados ao aproveitamento
energético do biogás, pretende-se atender uma demanda pouco explorada no Brasil.

14
Para este tipo de aplicação são necessários equipamentos muito específicos, devido
às particularidades encontradas neste tipo de combustível. Os equipamentos que se
encontram hoje disponíveis no país são importados. Como benefícios para o setor
empresarial podem-se citar o desenvolvimento de mercado nacional fornecedor de
equipamentos, peças e serviços para o setor de biogás; desenvolvimento de mercado
exportador de produtos para biogás; redução da dependência de produtos importados;
auto-produção de energia elétrica, com incremento de renda para empresas que
dispõem de tratamentos de efluentes orgânicos e produção de biogás; geração
distribuída, utilizando energia renovável; e geração de empregos para a indústria de
máquinas e equipamentos.
Desta forma, o setor industrial poderá encontrar uma alternativa energética ao
uso do gás natural. Esta alternativa diminui a necessidade de se optar pelo uso de
combustíveis fósseis, que torna o processo industrial mais impactante ao meio
ambiente. Já o setor rural encontrará um incentivo ao tratamento dos dejetos gerados,
podendo encontrar no biogás um estímulo à implementação de biodigestores que
minimizem os impactos ambientais gerados no meio rural, protegendo os recursos
hídricos e gerando biocombustível. No setor urbano, o biogás pode viabilizar
energeticamente a implementação de estações de tratamento de esgotos (ETE) que
fazem uso de reatores anaeróbios no tratamento de dejetos humanos, possibilitando
uma maior abrangência da implementação do saneamento básico.
Assim, a sociedade catarinense como um todo pode ser beneficiada com a
proteção dos recursos hídricos, com a minimização dos impactos na atmosfera e com
a ampliação da matriz energética estadual.
Tendo em vista estes temas apresentados, este trabalho tem o objetivo de
dimensionar um lavador do tipo Torre de Enchimento, em escala real, para remoção
de gás sulfídrico (H2S) e dióxido de carbono (CO2) do biogás a ser utilizado como
biocombustível em grupos geradores de energia elétrica. Deste modo, aumentar-se-à
o poder calorífico deste biocombustível e a vida útil dos motores dos grupo
geradores. Este trabalho poderá contribuir para o desenvolvimento de tecnologias
para melhoria da qualidade do biogás produzido, visando à ampliação da matriz
energética atual.

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2. OBJETIVOS

2.1 Objetivo Geral

Dimensionar um lavador de biogás do tipo Torre de Enchimento em escala


real para remoção de gás sulfídrico (H2S) e dióxido de carbono (CO2) do biogás a ser
utilizado como biocombustível em grupos geradores de energia elétrica.

2.2 Objetivos Específicos

 Identificar uma situação real de utilização de biogás, em um grupo gerador de


energia elétrica existente, para fundamentar o dimensionamento da Torre de
Enchimento em escala real;

 Analisar o biogás a ser purificado na situação acima;

 Dimensionar um lavador de biogás tipo Torre de Enchimento compatível com


o grupo gerador da situação real identificada.

16
3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

3.1 Digestão Anaeróbia

A digestão anaeróbia é um processo biológico, em que alguns


microrganismos (principalmente bactérias anaeróbias e facultativas, fungos e
protozoários) atuando na ausência de oxigênio molecular (O2), transformam a
matéria orgânica complexa solubilizada, ou em estado semi-líquido (lodo), em
compostos mais simples o gás metano (CH4) e o gás carbônico (CO2), principais
constituintes do biogás (BELLI F°, 1995).
Segundo o Centro para a Conservação da Energia (CCE, 2000), a digestão
anaeróbia é um processo em que alguns microorganismos que atuam na ausência de
oxigênio atacam a estrutura de materiais orgânicos complexos, produzindo
compostos simples, como o metano (CH4) e o dióxido de carbono (CO2). Ao mesmo
tempo, estes microorganismos assimilam energia e os nutrientes necessários para sua
sobrevivência e reprodução.
A conversão efetiva de materiais orgânicos complexos em metano depende da
atividade combinada de diferentes populações de microorganismos, essencialmente
constituídas por diversos gêneros de bactérias anaeróbias obrigatórias e facultativas.
A digestão anaeróbia vem a ser um processo estável, resultado da ação coordenada
desses diferentes microorganismos.
A decomposição anaeróbia de compostos orgânicos pode ser descrita como
um processo de sete passos:
1. Hidrólise de proteínas, lipídios e hidratos de carbono
2. Fermentação de aminoácidos e açúcares
3. Oxidação anaeróbia de ácidos gordos de cadeia longa e alcoóis
4. Oxidação anaeróbia de ácidos gordos voláteis (exceto acético)
5. Conversão de CO2 e H2 em ácido acético
6. Conversão do ácido acético em CH4
7. Conversão do H2 em CH4

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De acordo com este esquema, podem-se distinguir quatro fases distintas do
processo de digestão anaeróbia, levadas a cabo por três grandes grupos de
microorganismos (Tabela 1).

Tabela 1: Grupos de bactérias e fases distintas no processo de digestão anaeróbia.

Fase Grupo de bactérias Passos


Hidrólise Fermentativas 1.
Acidogênese 2. e 3.
Acetogênese Acetogênicas 4. e 5.
Metanogênese Metanogênicas 6. e 7.

A primeira fase no processo de degradação anaeróbia consiste na hidrólise de


materiais particulados complexos (polímeros), como proteínas, lipídios e hidratos de
carbono, em materiais dissolvidos mais simples, ou seja, moléculas menores, que
podem atravessar as paredes celulares das bactérias fermentativas. Esta conversão é
obtida pela ação de exoenzimas excretadas por bactérias fermentativas hidrolíticas
(BELLI F°, 1995; CHERNICHARO, 1997).
Na segunda fase do processo de degradação anaeróbia, os produtos solúveis
oriundos da hidrólise são metabolizados no interior das células das bactérias
fermentativas, sendo convertidos em diversos compostos mais simples, os quais são
então excretados pelas células. Os compostos produzidos incluem ácidos graxos,
voláteis, alcoóis, ácido lático, gás carbônico, hidrogênio, amônia, sulfeto de
hidrogênio e novas células bacterianas (CHERNICHARO, 1997).
Os produtos gerados na fase acidogênica são oxidados por bactérias
acetogênicas em substratos apropriados para as bactérias metanogênicas. Estes
substratos são o hidrogênio, o dióxido de carbono e o acetato (CHERNICHARO,
1997).
As bactérias metanogênicas são responsáveis pela etapa final do processo de
degradação anaeróbia de compostos orgânicos em metano e dióxido de carbono.
Existem dois tipos fundamentais de bactérias metanogênicas, de acordo com o tipo
de substrato que utilizam: as bactérias metanogênicas hidrogenotróficas, que

18
produzem metano através de H2 e CO2; e bactérias metanogênicas acetoclásticas, que
utilizam o acetato (CHERNICHARO, 1997; CCE, 2000).
Além dessas quatro fases descritas anteriormente, o processo de digestão
anaeróbia pode incluir uma quinta fase, dependendo da composição química do
despejo a ser tratado. Despejos que contenham compostos de enxofre são submetidos
à fase de sulfetogênese, que consiste na redução de sulfato e formação de sulfetos. A
produção de sulfetos é um processo no qual o sulfato e outros compostos à base de
enxofre são utilizados como aceptores de elétrons durante a oxidação de compostos
orgânicos. Durante este processo, sulfato, sulfito e outros compostos sulfurados são
reduzidos a sulfeto através de um grupo de bactérias denominadas bactérias redutoras
de sulfato (ou bactérias sulforedutoras). Tais bactérias são consideradas um grupo
muito versátil de microorganismos, capazes de utilizar uma ampla gama de
substratos (CHERNICHARO, 1997).

3.2 Resíduos para a digestão anaeróbia

Os processos anaeróbios controlados pelo ser humano utilizam como


substratos resíduos de natureza orgânica. Neles os microrganismos encontram a
matéria orgânica e/ou os compostos químicos necessários para se desenvolverem.
É geralmente atribuída uma visão pejorativa aos resíduos, pois representam
um problema que necessita de solução, quer em termos de tratamento, quer em
termos de disposição final. A digestão anaeróbia pode assim ser uma ferramenta
importante para criar condições de sustentabilidade à gestão, tratamento e destino
final desses resíduos. A forte redução da carga poluente inicialmente presente nos
resíduos e a produção de biogás para valorização energética podem proporcionar
significativas economias em despesas de tratamento, podendo até mesmo gerar
receitas que aumentem o valor do resíduo (CCE, 2000).
Existem três grupos principais aos quais se podem aplicar os processos
anaeróbios:
I. Resíduos agro-pecuários
II. Resíduos industriais
III. Resíduos urbanos

19
Dentro de cada um destes grupos existe uma grande variedade de
oportunidades para aplicação da tecnologia de digestão anaeróbia, que fazem com
que essa tecnologia se afirme cada vez mais como uma das formas mais eficazes de
pré-tratamento e de valorização de resíduos (CCE, 2000).
A digestão anaeróbia é tida como forma de valorização de resíduos devido à
geração, neste processo, de resíduos que possuem valor econômico. Dentre eles,
destaca-se o biogás como uma alternativa energética de valorização de resíduos.

3.3 Biogás

O termo biogás é utilizado para denominar o gás gerado a partir da digestão


anaeróbia biológica da matéria orgânica. É composto por uma mistura de gases cuja
proporção varia de acordo com as características do tipo de resíduo e das condições
de funcionamento do processo de digestão.
Sem deixar de lado a grande contribuição ambiental do tratamento de esgotos,
reduzindo a poluição dos corpos hídricos, tem-se destacado no processo da digestão
anaeróbia a produção de um combustível alternativo, o biogás (AVELLAR et al.,
2002).
Os principais constituintes do biogás são o metano e o dióxido de carbono.
Outros gases, como o sulfureto de hidrogênio, também estão presentes, porém em
quantidades inferiores. As proporções típicas de metano e dióxido de carbono no
biogás são: CH4: 50 a 80%; CO2: 20 a 40%. Hidrogênio e azoto variam entre 1,5 e
6% e o sulfureto de hidrogênio, juntamente com outros gases, variam de 1 a 5% (LA
FARGE, 1995).
A coleta de um gás combustível obtido em um processo biológico foi
primeiramente documentada na Inglaterra, em 1895, em um sistema de tratamento
dos sólidos do esgoto municipal (METCALF e EDDY, 1979). O processo de
biodigestão anaeróbia do estrume de bovinos e outros resíduos do meio rural em
pequenos biodigestores foi estudado na Índia, em 1941 (MAZUMDAR, 1982) e,
desde então, o processo tem sido aplicado no tratamento de uma série de resíduos de
origem industrial, agropecuária e urbana.

20
O interesse como recurso energético do biogás deve-se à grande quantidade
de metano presente em sua composição, visto que, ao ser misturado com ar, se
transforma em uma mistura de alto potencial de combustão.

3.4 Biogás como Recurso Energético

Para se realizar um estudo da viabilidade de emprego do biogás como recurso


energético, normalmente se avalia a equivalência energética entre o biogás e o
combustível a ser substituído. Além do poder calorífico, deve-se também observar
outras propriedades como acidez, pressão e presença de contaminantes. Estas
considerações contribuem para uma adequada previsão das adaptações que venham a
ser necessárias, tanto no caso do emprego do biogás como único recurso energético,
como no uso simultâneo do biogás com outro combustível (COSTA, 2006).
Observa-se na Tabela 2 uma análise comparativa entre alguns tipos de
combustíveis, contemplando valores de massa específica e poder calorífico inferior
(água em forma de vapor) e superior (água na forma líquida).

Tabela 2A: Características de diversos combustíveis.

Poder Calorífico
Combustível Massa Específica Inferior Superior
kg/Nm³ kcal/kg kcal/kg
Petróleo 867 10.200 10.900
Carvão vapor n.d. 4.000 4.460
Carvão Metalúrgico n.d. 7.425 7.700
Lenha 390 2.530 3.300
Cana de açúcar n.d. 917 1.030
Óleo Diesel 851 10.180 10.750
Óleo combustível 999 9.547 10.900
Gasolina 738 10.556 11.230
GLP 552 (liq.) 2,29 (gás) 11.026 11.750
Nafta 704 10.462 11.320
Querosene 787 10.396 11.090
Gás canalizado n.d. 4.230 4.700
n.d. = não disponível
No caso de gases trata-se de Nm³, nas CNTP (1 atm, 0°)
Fonte: ALVES (2000)

21
Tabela 2B: Características de diversos combustíveis.

Poder Calorífico
Combustível Massa Específica Inferior Superior
kg/Nm³ kcal/kg kcal/kg
Gás de coqueira n.d. 4.400 4.500
Coque de carvão
mineral n.d. 6.900 7.300
Lixívia 2100 n.d. 3.030
Carvão vegetal 250 6.115 6.800
Álcool anidro 791 6.400 7.090
Álcool hidratado 809 5.950 6.650
Bagaço de cana n.d. 1.777 2.257
Gás de refinaria 0,78 8.272 8.800
Gás natural n.d. 8.554 9.400
n.d. = não disponível
No caso de gases trata-se de Nm³, nas CNTP (1 atm, 0°)
Fonte: ALVES (2000)

As características do biogás variam de acordo com diversos fatores, como


temperatura, pressão, umidade, concentração de gases inertes e, principalmente,
devido à concentração de metano. A Tabela 3 apresenta a variação do poder
calorífico inferior do biogás em relação à concentração de metano e dióxido de
carbono.

Tabela 3: Variação do poder calorífico em relação à composição do biogás.

Composição Química Peso Específico Poder Calorífico


do Biogás Inferior
(kg/Nm³) (kcal/kg)
10% CH4, 90% CO2 1,8393 465,43
40% CH4, 60% CO2 1,4643 2.338,52
60% CH4, 30% CO2 1,2143 4.229,98
65% CH4, 35% CO2 1,1518 4.831,14
75% CH4, 25% CO2 1,0268 6.253,01
95% CH4, 05% CO2 0,7768 10.469,60
99% CH4, 01% CO2 0,7268 11.661,02
Fonte: AVELLAR (2001)

22
O metano puro, nas condições normais de temperatura e pressão, possui poder
calorífico inferior de aproximadamente 8.116 kcal/Nm³. O biogás com 65 % de
metano tem poder calorífico de aproximadamente 5.339 kcal/m³, uma vez que
apenas a porção de metano irá queimar. Para fins comparativos de energia fornecida,
1 m3 de biogás com 65% de metano equivale a 0,6 m3 de gás natural; 0,882 litros de
propano; 0,789 litros de butano; 0,628 litros de gasolina; 0,575 litros de óleo
combustível; 0,455 kg de carvão betuminoso ou 1,602 kg de lenha seca (ROSS et al.,
1996).
Para a recuperação de biogás, para fins energéticos, são identificadas poucas
empresas com tecnologia apropriada para o desenvolvimento de projetos deste
gênero. Para que o biogás possa ser utilizado, é fundamental que seja feita uma
redução das concentrações de H2S e CO2, assim como uma redução da umidade e de
eventuais materiais particulados do mesmo. A este processo dá-se nome de
purificação do biogás.

3.5 Purificação do Biogás

Os sistemas de purificação de biogás são desenvolvidos para corrigir as


propriedades naturais do biogás para que o mesmo atenda às especificações técnicas
dos equipamentos de conversão deste biocombustível em energia elétrica.
A presença de substâncias não combustíveis no biogás, como água e dióxido
de carbono, prejudica o processo de queima tornando-o menos eficiente. Estas
substâncias entram no lugar do combustível no processo de combustão e absorvem
parte da energia gerada. Pode ocorrer combustão incompleta, falha de alimentação,
perda de potência e corrosão precoce provocada pela presença do ácido sulfídrico
(H2S), diminuindo tanto o rendimento quanto a vida útil do motor térmico.
O biogás é um gás ácido e sua composição é variável. A maioria dos
digestores anaeróbios produz um biogás que contém entre 0,3 e 2% de H2S e
significantes quantidades de mercaptanas, observando-se também a presença de
traços de nitrogênio e hidrogênio (AJAX ENGINES, 1999; apud ALVES, 2000). O
H2S é tóxico e altamente corrosivo. Portanto, devido a algumas propriedades do H2S,
sua remoção normalmente é feita diretamente no local de produção do biogás.

23
Mostra-se na Tabela 4 um resumo de possíveis métodos de tratamento de
gases para diferentes constituintes do biogás, sendo que seus custos variam de acordo
com a disponibilidade tecnológica e de materiais na localidade.

Tabela 4: Possíveis métodos de tratamento de biogás

Compostos Alvo Tipo de Tratamento Alternativas


Adsorção sílica gel
peneiras moleculares
Água alumina
Absorção etileno glicol ( -30º)
solventes orgânicos
Condensação refrigeração
Adsorção Carbono ativado
Absorção Absorção em óleo de má qualidade
Hidrocarbonetos etilenoglicol ( -30º)
solventes orgânicos
refrigeração com etilenoglicol
Combinação acrescido
de adsorção por carvão ativado
Adsorção peneiras moleculares
Carbono ativado
CO2 e H2S Absorção solventes orgânicos
soluções alcalinas de sal; carbonato
de potássio quente
mono alcanolaminas, aminas
di-tri-etanol, diglycolamine
Separação por
membranas membrana de cavidade fibrosa
H2S esponja de ferro

Fonte: Biogás Purification Overview, G.M. Savage e L.F. Diaz, 8th Annual BioCycle
Conference On Renewable Energy From Organics Recycling – Madison, Wisconsin
(6 a 8 de outubro de 2008)

24
Na Tabela 5, encontram-se diferentes processos de remoção de CO2, H2S e
água do biogás, com os respectivos meios de extração e mecanismos de remoção.

Tabela 5: Processos de remoção de CO2, H2S e água do biogás

Mecanismo de
Processo Impureza Meio de extração remoção do gás
Lavador de gases CO2, H2S água absorção física
Selexol CO2, H2 S, H2O DMPEG absorção física
propileno
Solvente de Flúor CO2, H2S carbonato absorção física
Purisol CO2, H2S, H2O NMP absorção física
Rectisol CO2, H2S, H2O metanol absorção física
Desidratação com
glycol H2O TEG absorção química
Benfield CO2, H2S K2CO3 absorção química
Catacarb CO2, H2S K2CO3 absorção química
Giammarco-Vetrocoke CO2, H2S K2CO3 absorção química
Monoetanolamina CO2, H2S MEA absorção química
Dietanolamina CO2, H2S DEA absorção química
Flúor Econamina CO2, H2S DGA absorção química
absorção química e
Sulfinol CO2, H2S sulfolano física
Separação por absorção por
Membrana CO2, H2S membrana membranas
Peneiras Moleculares CO2, H2S, H2O peneira molecular adsorção física
Óxido de Ferro H2S FE2O3 absorção química

Fonte: Biogás Purification Overview, G.M. Savage e L.F. Diaz, 8th Annual BioCycle
Conference On Renewable Energy From Organics Recycling – Madison, Wisconsin
(6 a 8 de outubro de 2008)

Diversos estudos para remoção de CO2 e H2S têm sido realizados por
diferentes autores, envolvendo diferentes processos e mecanismos de remoção desses
gases, devido à grande importância deste tema.

25
3.5.1 Lavadores de gases

Lavador de gás é um nome genérico de um dispositivo de controle da


poluição do ar que usa processos de absorção para separar um poluente de um fluxo
gasoso. Absorção é o processo físico (muitas vezes intensificado quimicamente) em
que o poluente deixa a fase gasosa e é dissolvido na fase líquida, ou seja, no líquido
absorvente utilizado no lavador de gás. Tais lavadores são agrupados como se segue
(HEINSOHN 2000 apud DAVIS, 2000):
 Torres de Enchimento com fluxo contracorrente, de recheios
randômicos ou estruturados (Figura 1);
 Lavadores de fluxo cruzado (com recheios randômicos ou estruturados)
(Figura 2);
 Coluna de pratos de borbulhamento (Figura 3).

Figura 1: Esquema de uma Torre de Enchimento com fluxo contracorrente


Fonte: SCHNELLE et al., (2001).

26
Figura 2: Esquema de um lavador de fluxo cruzado
Fonte: SCHNELLE et al., (2001).

Figura 3: Esquema de uma coluna de prato de borbulhamento


Fonte: TREYBAL (1980).

27
No setor industrial, lavadores de gases têm sido usados há mais de um século.
Em 1836, por exemplo, uma patente de uma Torre de Enchimento foi emitida. Cem
anos depois, em 1935, os ingleses atingiram a remoção de 98% de SO2 através
lavadores de gases de combustão. Um lavador para controle de partículas foi
patenteado em 1901, estendendo o uso dos lavadores para controle de partículas e
gases (SCHIFFTNER, 1996).
Teoricamente, a absorção de um poluente de uma fase gasosa por contato em
uma fase líquida ocorre quando o líquido contém menos do que a concentração de
equilíbrio para esse poluente. Em outras palavras, o poluente da fase gasosa deve ter
alguma solubilidade na fase líquida. A absorção (transferência de massa) de um gás
por um líquido (ou vice-versa) é dependente das propriedades físicas da matriz gás-
líquido (difusividade, viscosidade, densidade) assim como das condições do sistema
de lavagem (temperatura, pressão, vazão de gás e líquido). Dentre os fatores que
aumentam a absorção e a eficiência dos lavadores de gases pode-se citar: baixas
temperaturas, grandes áreas de contato entre gás-líquido, grandes vazões de líquido
em relação ao gás e grandes concentrações do poluente na fase gasosa. Lavadores de
gases são muitas vezes as tecnologias escolhidas, se for necessário alta eficiência na
remoção de gases ácidos (WANG et al., 2004).
Dentre os sistemas de lavagem de gases, as Torres de Enchimento são
comumente usadas para absorver poluentes presentes em fluxos gasosos.

3.5.2 Torres de Enchimento

A Torre de Enchimento (ou Torre Recheada) é um tipo de lavador de gases


onde a fase líquida é dispersa no topo da coluna através de um distribuidor de
líquido, escoando na superfície dos elementos de recheio. A seção transversal da
torre é completamente ocupada por esses elementos, formando um leito poroso
através do qual o líquido e o gás escoam em contracorrente. O contato gás-líquido é
feito de maneira contínua. O recheio cumpre a função de sustentar o filme da fase
líquida da mesma maneira que permite um adequado contato entre as fases
(CALDAS et al., 2003).

28
Segundo WANG et al. (2004), as Torres de Enchimento levam vantagens
comparando-as a outros lavadores de gases, devido ao fluxo contracorrente: o gás
passa de maneira ascendente pela torre enquanto o líquido passa de maneira
descendente. A transferência de massa do gás para o líquido ocorre na parte recheada
da torre.
Os recheios de torres são divididos em dois grupos: os recheios randômicos e
os recheios estruturados. Os recheios estruturados são todos aqueles que podem ser
colocados na torre de forma ordenada ou arrumada. Já os recheios randômicos são
feitos de formas não-uniformes e foram desenvolvidos visando redução de custos.
(CALDAS et al., 2003)
A Figura 4 demonstra um esquema de torres com recheios randômico e
estruturado.

Figura 4: Torres de recheios randômico e estruturado.


Fonte: CALDAS et al. (2003)

29
4. MATERIAIS E MÉTODOS

4.1 Identificação da situação real

Para o dimensionamento de um lavador de biogás do tipo Torre de


Enchimento em escala real, foi necessário que se adotasse uma situação real em que
ocorresse a utilização de biogás por um grupo gerador de energia elétrica. Foi
assumido como principal critério para escolha da situação real um caso em que se
fizesse uso de um grupo gerador de energia elétrica da empresa RTP Indústria de
Equipamentos Ltda, por ser esta uma empresa parceira na realização deste trabalho, e
por facilitar assim o acesso às informações necessárias e ao local de pesquisa. Optou-
se também por buscar um caso de emprego de grupo gerador de energia elétrica na
suinocultura, devido à grande representatividade desta atividade no Estado de Santa
Catarina. Para isto, adotou-se como modelo a propriedade rural Agropecuária
Carboni, localizada em Videira - SC, onde existe instalado um grupo gerador movido
a biogás (Figura 5) para geração de energia elétrica, em funcionamento desde março
de 2009.

Figura 5: Grupo gerador de energia elétrica a biogás instalado na Agropecuária


Carboni, no município de Videira – SC.

30
4.1.1 Caracterização da área

A Agropecuária Carboni LTDA está situada na Rodovia SC 453, Km 53, na


região de Vinha Imbuial, pertencente ao município de Videira – SC. O município
está situado no Vale do Rio do Peixe, com área de 378,4 km², na latitude 27°00’28”
Sul e longitude 51°09’08” a Oeste do meridiano de Greenwich. Possui clima úmido
do tipo temperado, com as estações bem definidas e temperaturas médias que variam
de 35 °C no verão a 0 °C no inverno. A população atual é de aproximadamente
50.000 mil habitantes e tem nas atividades industriais, comerciais e agrícolas a base
de sua economia. No setor primário, o destaque é a fruticultura de pêssego, ameixa e
uvas; na pecuária, destaca-se na criação de suínos, aves e bovinos de leite; e no
comércio e indústria, o forte são as cantinas de vinho, indústrias de sucos e a empresa
Perdigão S A, um dos maiores frigoríficos da América Latina, possuindo a maior da
produção de aves e suínos do município e da região, gerando milhares de empregos
(VIDEIRA, 2009).
A propriedade é caracterizada como de atividade suinocultora, sendo
produtora de leitões. Portanto, consiste em um sistema de criação de suínos que
compreende as matrizes, o nascimento dos leitões e o crescimento inicial. Possui um
plantel de aproximadamente 960 matrizes e 4.000 leitões, que geram uma média de
29,5 m³ de dejetos por dia. Estes dejetos são encaminhados a dois biodigestores que,
juntos, possuem volume de armazenamento de efluentes de 3.790 m³ (Figura 6).

Figura 6: Biodigestores da Agropecuária Carboni.

31
4.1.2 Caracterização do grupo gerador

O grupo gerador de energia elétrica à biogás, denominado Grupo-gerador


RTP modelo 8100B, instalado na Agropecuária Carboni foi desenvolvido pela
empresa RTP Indústria de Equipamentos LTDA, e é composto pelos seguintes itens:
Motor a combustão interna tipo industrial, estacionário, modelo 8.1L V8 (Figura 7
(a) ), Gerador elétrico WEG (Figura 7 (b) ) e Painel de controle e proteção do grupo
gerador - marca Woodward (Figura 7 (c) ).

(a) Motor (b) Gerador (c) Painel


Figura 7: Componentes do grupo gerador RTP modelo 8100B.
Fonte: RTP Indústria de Equipamentos LTDA.

O motor acima possui peças internas protegidas contra efeitos corrosivos de


uma concentração de até 200 ppm de H2S presente no biogás. Foi desenvolvido para
operar com um percentual mínimo de 60% de metano no gás e com desempenho
previsto de acordo com a Tabela 6, abaixo.

Tabela 6: Desempenho previsto do grupo gerador RTP modelo 8100B

Regime de Operação
Contínuo
Potência 90 kW / 110 kVA
Consumo de biogás* 47 m³/h
Fator de Potência 0,8
Percentual de metano 65%
*Poder calorífico inferior considerado PCI = 5.958 kcal/Nm³
Fonte: RTP Indústria de Equipamentos LTDA.

32
O conjunto possui ainda um sistema de cogeração de água quente, em que um
trocador de calor (Figura 8 (a)) transfere calor do sistema para um tanque de água
quente, com capacidade de 1.000 litros (Figura 8 (b)). Desta forma, além de produzir
energia elétrica, o grupo gerador mantém um reservatório com 1 m³ de água quente
para usos diversos na propriedade suinocultora.

(a) Trocador de calor (b) Reservatório de água quente


Figura 8: Componentes do sistema de cogeração de água quente

4.2 Análises do Biogás

4.2.1 Considerações iniciais

Os biodigestores da Agropecuária Carboni produzem mais biogás do que o


necessário para o funcionamento do grupo gerador lá existente. O excesso de biogás
produzido é liberado na atmosfera, o que se constitui em um grave problema
ambiental que deve ser resolvido com, por exemplo, a instalação de um flare para
queima deste gás. Desta forma, este trabalho dedica-se somente à purificação do
biogás a ser utilizado na geração de energia elétrica, sendo as análises do biogás
bruto focadas para a caracterização qualitativa, para desta forma detectar as
concentrações de impurezas a serem retiradas do biogás.
As análises foram realizadas nos meses de março, abril e maio de 2009. Para
o tratamento dos dados das análises de biogás foi utilizado o programa Microsoft
Excel, através do qual foram elaborados tabela e gráfico que expressem os resultados
em relação à área de estudo.

33
4.2.2 Medição e avaliação da composição do biogás

Para a caracterização qualitativa de biogás no presente trabalho, os dados


coletados e analisados foram:

 Concentração de CH4 (%)


 Concentração de CO2 (%)
 Concentração de O2 (%)
 Concentração de H2S (ppm)

A medição da composição do biogás pelos parâmetros acima descritos


realizou-se através de um medidor portátil Drager X-am 7000, apresentado na Figura
9. Este medidor faz a detecção simultânea e continua dos gases através de sensores
infravermelhos e eletroquímicos, independentes. O aparelho possui uma bomba
interna que é acionada para retirar amostras de gases com uma vazão máxima de 0,5
m3/s, através de uma mangueira de 50 cm, e proporcionar a leitura da composição
através dos sensores. Os dados são armazenados em um datalogger (coletor de
dados) embutido no aparelho e transferidos para um computador.

Figura 9: Dräger X-am 7000


Fonte: www.draeger.com.br

34
Os tipos de sensores utilizados para cada gás e as diferentes faixas de
concentração dos gases são apresentados na seguinte Tabela 7:

Tabela 7: Faixas de concentração dos gases medidos pelo Drager X-am 7000.

Tipo de Faixa de
Gás Sensor concentração Erro
CH4 Infravermelho 0 - 100 % ≤± 5%
CO2 Infravermelho 0 - 100 % ≤± 5%
≤± 5
H2S Eletroquímico 0 - 1000 ppm ppm
O2 Eletroquímico 0 - 25 % ≤ ± 0,3%
Fonte: Manual do aparelho Drager X-am 7000.

A calibração do aparelho foi realizada quinzenalmente com diferentes gases


padrões, com composição de 50% de CH4 e com 50% de CO2, e de 500 ppm de H2S
com 500 ppm de N2.

4.2.3 Medições em campo

Através de uma mangueira própria do aparelho, o Dräger X-am 7000 foi


conectado a uma saída de biogás da tubulação que traz o gás do biodigestor até o
conjunto moto gerador. Em todas as medições, o aparelho permaneceu ligado até que
as concentrações estabilizassem, o que durava aproximadamente cinco minutos.
Posteriormente o Dräger X-am 7000 registrou em seu datalogger as concentrações
dos gases por uma hora, com intervalo de 30 segundos entre cada registro. O
resultado final da análise foi expresso através de uma média diária das
concentrações.

35
4.3 Dimensionamento de lavador de biogás tipo Torre de Enchimento

4.3.1 Considerações iniciais

Na literatura encontram-se diversas metodologias para dimensionamento de


Torres de Enchimento muito similares entre si, porém nenhuma envolvendo
purificação de biogás.
FOUST e colaboradores (1980) propuseram um dimensionamento de Torres
de Enchimento que envolve o cálculo do número de unidades de transferência (de
massa), realizando uma estimativa da altura da unidade de transferência de massa da
Torre de Enchimento, avaliando também a queda de pressão nestas torres. Isto gera
um dimensionamento de área e altura da região de transferência de massa da torre.
Robert Jennings Heinsohn apud DAVIS (2000) havia proposto um
dimensionamento muito similar baseado em transferência de massa, envolvendo
coeficientes de transferência de massa, coeficientes de difusão gás-líquido e líquido-
gás, viscosidade e densidade de gás e líquido, e Lei de Henry.
CALDAS e colaboradores (2003) organizaram um livro sobre componentes
internos de Torres de Enchimento (Torres de Recheio) e Torres de Pratos, que
também possui uma parte voltada ao dimensionamento de torres utilizando equações
fundamentais ligadas à transferência de massa em recheios.
Os métodos práticos utilizados para os cálculos de dimensionamento de
Torres de Enchimento foram desenvolvidos, em sua grande maioria, empiricamente,
para remoção de CO2 em plataformas de petróleo e em indústrias petroquímicas. Isso
faz com que estas metodologias de dimensionamento das torres tenham sido
desenvolvidas para altas vazões de gás, proporcionando lavadores de grande
magnitude.
Ao se aplicar estas metodologias para o presente trabalho, chegou-se a
resultados não esperados, de dimensões muito pequenas, que fogem do bom senso.
Optou-se por adotar um dimensionamento prático embasado nos exemplos
especificados pelos autores acima citados, entre outros, visando resultados mais
próximos dos exemplos comerciais encontrados no mercado atualmente.

36
Com relação à escolha do líquido de absorção a ser utilizado, diversos autores
apontam na literatura diferentes líquidos para absorção química simultânea de CO2 e
H2S. O principal problema quanto ao uso de solventes químicos na purificação do
biogás se dá na destinação final adequada ao resíduo líquido. Desta forma, optou-se
pelo uso de água como líquido de absorção, a fim de se realizar uma absorção física
das impurezas do biogás.
O dimensionamento da Torre de Enchimento para purificação do biogás aqui
estudado, para uso no grupo gerador de energia elétrica à biogás, denominado
Grupo-gerador RTP modelo 8100B, instalado na Agropecuária Carboni, em Videira,
SC, se iniciou com a adoção da vazão de biogás de 50 m³/h. A adoção deste valor se
deu por motivos comerciais, mesmo sendo o grupo gerador desenvolvido para
operar com 47 m³/h de biogás.
O critério principal nas tomadas de decisões referentes ao dimensionamento
da torre foi o de priorizar a remoção de H2S, visto que esta impureza é a que mais
prejudica o funcionamento do sistema como um todo.
A torre foi dimensionada para uma área de seção circular, o que facilita a
construção, operação e dimensionamento da mesma. A construção da torre pode ser
feita tanto em material plástico (PE, PVC, PP) como em aço inoxidável, sendo que a
escolha do material depende exclusivamente do custo de cada um deles.
Os cálculos foram realizados através do programa Microsoft Excel 2007, e os
desenhos da Torre de enchimento foram desenvolvidos no programa AutoCad 2008.

4.3.2 Cálculo do diâmetro da torre

É importante destacar que o diâmetro da Torre de Enchimento é calculado em


função do dimensionamento da área recheada da torre, ou seja, o diâmetro da torre é
o mesmo de sua área recheada.
O cálculo do diâmetro da Torre de Enchimento foi realizado fixando-se a
velocidade do biogás na torre em 0,3 m/s, para garantir um maior tempo de contato
entre gás e líquido, e também levando em consideração que os exemplos estudados
para remoção de CO2 e H2S utilizam este valor. A partir da velocidade e da vazão do
gás, encontra-se a área da seção, de onde se calcula o diâmetro da seção da torre.

37
Jorge Navaes Caldas (CALDAS et al., 2003) propõe o dimensionamento de
duas Torres de Enchimento: uma para remoção de CO2 e outra para remoção de H2S
de uma planta de craqueamento catalítico. Para os dois exemplos citados foram
utilizados diferentes métodos para o cálculo do diâmetro da torre, porém os
resultados tinham em comum proporcionar ao gás uma velocidade dentro da torre de
0,3m/s.
Tom Card (2001; apud STUETZ et al., 2001) relata que a velocidade máxima
do gás em Torres de Enchimento para controle de odores deve ser por volta de 3m/s,
sendo que muitos destes sistemas de controle de odor que operam bem são
dimensionados para velocidades entre 1 e 2m/s. Shigeru Yamagata (1990; apud
SUHARA, 1990) propõe para uma Torre de Enchimento removendo amônia uma
velocidade de 0,96m/s.

4.3.3 Cálculo do volume de recheio

Nas Torres de Enchimento, a transferência de massa entre as fases gasosa e


líquida ocorre na parte recheada da torre. Segundo Tom Card (2001; apud STUETZ
et al., 2001), 1 m3 de recheio para cada 0,5 m3/s de fluxo de gás irá promover 99% de
remoção de sulfeto de hidrogênio. Este valor foi fixado para tratamento de odores em
sistemas de tratamento de efluentes urbanos, o que condiz com seu uso em biogás,
portanto, adotado no presente trabalho.

4.3.4 Taxa de circulação de líquido

A taxa de circulação ótima de líquido é normalmente 170 l/min para cada 1


m³/s de fluxo de gás. Esta taxa nunca deverá ser inferior a 85 l/min (STUETZ et al.,
2001). Shigeru Yamagata (1990; apud SUHARA, 1990) propõe duas vazões de
líquido para um mesmo estudo: 52,15 l/min para cada 1 m³/s de gás e 85,7 l/min para
cada 1 m³/s de gás. A diferença do uso destas duas vazões se dá na otimização da
torre, reduzindo o volume de recheio da mesma em 53,33% no segundo caso.
Como uma maior relação líquido/gás oferece uma otimização da torre e, por
conseqüência, uma melhor eficiência de remoção de impurezas, optou-se pela adoção

38
da taxa de circulação ótima proposta por Tom Card (2001; apud STUETZ et al.,
2001) de 170 l/min para cada 1 m³/s de fluxo de gás.
Após o uso no lavador, é necessária uma correta destinação do líquido de
absorção. Como neste caso utilizar-se-á água, não é necessário a implementação de
um sistema de tratamento do efluente gerado na torre, devido às características do
mesmo. É indicado que este líquido seja encaminhado ao sistema de cogeração de
água quente, sendo então reutilizado para a higienização dos chiqueiros dos suínos.

4.3.5 Internos da torre

Os internos de torres são todos os dispositivos colocados no interior das torres


de Enchimento e que são responsáveis pelo adequado funcionamento das mesmas. O
recheio a ser escolhido deve apresentar algumas qualidades, tais como: alta
porosidade e alta área específica, baixa perda de carga, resistência química e
mecânica, formato irregular de modo a evitar escoamento preferencial, baixo custo e
baixo peso específico (CALDAS et al., 2003).
Após o recheio, os internos mais importantes são o distribuidor de líquido e o
suporte de recheio. As torres que tiverem altas taxas de circulação de líquido e baixas
vazões de gás não necessitam que estes internos sejam sofisticados (STUETZ et al.,
2001).
Um parâmetro utilizado no projeto dos distribuidores de líquido em Torres de
Enchimento é o número de pontos de distribuição requerido por área de seção
transversal de coluna. É comum entre os fabricantes adotar 100 pontos por m²
(KOBAYASI, 1998).
A velocidade de entrada do gás na torre também deve ser cuidadosamente
projetada. O gás nunca deverá entrar na torre com velocidades acima de 7,6 m/s,
sendo que o ideal deverá ser 5 m/s (STUETZ et al., 2001).

39
5. RESULTADOS E DISCUSSÕES

5.1 Características do biogás a ser tratado

A Tabela 8 demonstra o resultado das análises qualitativas do biogás medido


na Granja Carboni. Este mesmo resultado foi ilustrado na Figura 10, para uma
melhor percepção visual.

Tabela 8: Análises qualitativas do biogás da Granja Carboni

10/03/2009 02/04/09 13/05/09


CH4 (%) 65 70,0 66,0
CO2 (%) 33,5 29,5 32,0
O2 (%) 1,5 0,5 2,0
H2S (ppm) ↑↑ 1.000 ↑↑ 1.000 ↑↑ 1.000

Figura 10: Análises qualitativas do biogás da Granja Carboni

40
Os resultados acima apontados representam uma média das análises feitas
durante o período de uma hora em cada dia identificado, porém, é importante
salientar que estes números não variaram durante as medições. O comportamento
homogêneo das concentrações dos gases do biogás durante as análises demonstra um
bom funcionamento dos biodigestores da Granja Carboni.
O grupo gerador RTP 8100 B foi desenvolvido para operar com concentração
mínima de 60% de CH4 no biogás. As análises realizadas demonstram que as
concentrações de metano no biogás da Granja Carboni tiveram pequenas variações
(67,5 ± 2,5%), e se mantiveram sempre acima do mínimo necessário para o bom
funcionamento do motor (60%), segundo o fabricante do mesmo. Se incluído o erro
de medição do aparelho Drager X-am 7000 (≤ ± 5 %) e supondo a pior condição
possível, o percentual mínimo encontrado de metano no biogás é justamente 60%, ou
seja, o mínimo exigido pelo fabricante.
Sendo assim, a remoção de CO2 do biogás passa a ser importante como uma
forma de aumentar o poder calorífico inferior do biocombustível, aumentando assim
o potencial energético do mesmo, mas deixa de ter papel fundamental para o
funcionamento do grupo gerador. Isto se deve ao fato de que a concentração mínima
de CH4 encontrada no biogás da Granja Carboni é suficiente e aceitável para o
funcionamento do sistema.
Os resultados obtidos para as concentrações de H2S sempre foram superiores
ao máximo detectável pelo aparelho Drager X-am 7000, 1000 ppm. Segundo Pires
(2000; apud PINTO, 2006), as concentrações de H2S no biogás podem chegar a 5000
ppm. Sabendo-se que o motor do grupo gerador possui proteção para que opere com
uma concentração de até 200 ppm de H2S no biogás, a remoção de sulfeto de
hidrogênio passa a ser fundamental para o bom funcionamento do sistema, de forma
a assegurar uma longa vida útil ao motor e gerar condições para que a tecnologia de
geração de energia elétrica através do biogás possa ser amplamente difundida.

41
5.2 Torre de Enchimento

5.2.1 Dimensionamento da Torre de Enchimento

A Tabela 9 indica um resumo dos parâmetros adotados, através dos quais se


realizou o dimensionamento da Torre de Enchimento, que se encontra na Tabela 10.

Tabela 9: Parâmetros adotados para o dimensionamento da Torre de Enchimento

Parâmetro
Vazão de biogás 50 (m³/h)
Velocidade do gás na torre 0,3 (m/s)
Volume de recheio 1 m³ para cada 0,5m³/s de gás
Taxa de circulação de líquido 170 l/min para cada 1m³/s de gás
Velocidade de entrada do biogás 5 (m/s)

Tabela 10: Dimensionamento da Torre de Enchimento

Resultado Valor Adotado


Diâmetro da torre (m) 0,2425 0,25
Volume de recheio (l) 27,76 28
Altura do recheio (m) 0,57 0,6
Taxa de circulação de líquido (l/min) 2,36 2,36
Diâmetro da entrada do biogás (mm) 59,45 60

Devido ao não conhecimento exato da concentração de H2S no biogás, e


sabendo-se que as concentrações deste gás no biogás proveniente da suinocultura são
altas, adotou-se um fator de segurança de 50% para a altura do recheio e,
conseqüentemente, para o volume de recheio, e para a taxa de circulação de líquido.
Sendo assim, a tabela anterior se modifica, gerando novos valores encontrados na
Tabela 11.

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Tabela 11: Dimensões adotadas da Torre de Enchimento

Valor Adotado
Diâmetro da torre (m) 0,25
Volume de recheio (l) 44,2
Altura do recheio (m) 0,9
Taxa de circulação de líquido (l/min) 3,54
Diâmetro da entrada do biogás (mm) 60

Fixando a velocidade de entrada do biogás na Torre de Enchimento em 5 m/s,


encontra-se um diâmetro de 59,45 mm para a tubulação de entrada do biogás na
torre. Adotou-se uma tubulação de PVC, devido a toda tubulação de biogás na
propriedade Carboni ser deste material, com diâmetro de 60 mm, pois é o diâmetro
comercial mais próximo do valor encontrado.

5.2.2 Internos da torre

5.2.2.1 Escolha do recheio

Para esta torre foi adotado a utilização de recheios randômicos, pois são os
que apresentam maior vantagem econômica, além de serem indicados para projetos
de pequenas vazões de gás (CALDAS et al., 2003).
Dentre os diversos tipos de recheios randômicos, optou-se pela escolha do
Anel Pall, mais conhecido por Pall Ring (Figura 11). É um recheio de alta eficiência,
com grande flexibilidade. Possui não somente propriedades operacionais superiores,
quando comparado a outros recheios randômicos clássicos, mas apresenta também
vantagens econômicas de fabricação, pois pode ser produzido com uma espessura de
parede bem fina.

43
Figura 11: Anéis Pall
Fonte: www.mtl-us.com

Os anéis Pall são disponíveis em metal e plástico de diversos tamanhos. Para


o uso em purificação de biogás, é indiferente o uso destes anéis de plástico ou de aço
inoxidável, prevalecendo a preferência pelo de menor custo. Segundo a Sermat
Calderaria e Montagens (www.sermatmon.com.br), os preços do anel Pall em aço
inoxidável e em plástico são muito similares, podendo variar se comprado em
maiores quantidades. Sendo assim, optou-se pelo de aço inoxidável.
Quanto ao tamanho, optou-se pelo de 16 mm, ou 5/8 pol., pois o diâmetro do
recheio deverá ser menor que 1/8 do diâmetro da torre, preferencialmente metade
deste valor, ou seja, 1/16 do diâmetro da torre (CALDAS et al., 2003).

5.2.2.2 Distribuidor de líquido

A adoção de 100 pontos de distribuição de líquido por m² de seção de torre,


muito usual em aplicações industriais, não satisfaz a necessidade do presente
trabalho. Se este parâmetro fosse adotado, o distribuidor de líquido teria 5 pontos de
distribuição, ou seja, 5 orifícios, o que facilitaria o surgimento de caminhos
preferenciais de escoamento. KOBAYASI, 1998, realizou um estudo comparativo de
dois diferentes distribuidores de líquido (Figura 12) em uma Torre de Enchimento de
pequena escala (diâmetro de 0,4 m) com diferentes vazões de líquidos.

44
(a) (b)
Figura 12: Distribuidores de líquido tipo I (a) e tipo II (b).
Fonte: KOBAYASI, 1998

O distribuidor de líquido tipo I (Figura 12 (a)) foi dimensionado pelo


parâmetro usual de aplicações industriais (100 pontos de distribuição/m²), em tubo de
PVC de 1 pol. enquanto o tipo II (Figura 12 (b)) foi feito em tubo de PVC de 1/2
pol., com orifícios distantes de 10 mm. Ambos os distribuidores se demonstraram
eficientes, porém para vazões menores, semelhantes às do presente trabalho, o
distribuidor de líquido tipo II se demonstrou melhor.
Adotou-se um distribuidor de líquido semelhante ao tipo II, apresentado por
KOBAYASI, 1998. As características do distribuidor se encontram na Tabela 12:

Tabela 12: Características do distribuidor de líquido

Material PVC
Diâmetro da tubulação (pol.) 1/2
Diâmetro do orifício (mm) 3
Distância entre os orifícios (mm) 10

A chegada de líquido no distribuidor será superior e central, através de


tubulação de PVC de 1/2 pol.. Para uma melhor homogeneização do distribuidor, a
região abaixo da chegada do líquido será desprovida de orifícios.

45
5.2.2.3 Suporte de recheio

Adotou-se a grade-suporte simples (Figura 13), também conhecida como


grade-suporte ondulada. Esta escolha foi feita por ser a opção mais barata e a mais
utilizada em Torres de Enchimento com diâmetro de até 0,6 m (CALDAS et al.,
2003, e www.sermatmon.com.br).

Figura 13: Grade-suporte simples


Fonte: www.sermatmon.com.br

5.2.3 Aspectos Gerais da torre de Enchimento

No desenvolvimento da Torre de Enchimento, optou-se por projetar um


reservatório de líquido na base da mesma. Esta medida foi adotada no caso de se
optar pelo funcionamento da torre com recirculação de líquido.
Os eliminadores de gotas são componentes colocados no topo da Torre de
Enchimento com o objetivo de retirar as gotas que não precipitaram no processo de
lavagem, ou foram carreadas pelo gás. O dimensionamento deste componente é
realizado pelos próprios fabricantes e seus cálculos não são disponibilizados. Para
este caso, foi requisitado pela Sermat Calderaria e Montagens, um espaço de 20 cm
de altura no topo da torre para a implementação deste componente.
A Tabela 13 especifica os aspectos gerais da Torre de Enchimento.

46
Tabela 13: Aspectos Gerais da Torre de Enchimento.

Vazão de Biogás (Nm³/h) 50


Líquido de Absorção Água
Taxa de Circulação de Líquido (l/min) 3,54
Altura da Torre (m) 1,93
Diâmetro da Torre (m) 0,25
Altura do Recheio (m) 0,9
Tipo de Recheio Anéis Pall
Tamanho do Recheio (pol.) 5/8
Volume de Recheio (l) 44,2
Material de Fabricação do Recheio Aço Inoxidável
Tipo de Suporte de Recheio Grade-Suporte Simples
Material do Suporte de Recheio Aço Inoxidável
Material de Construção da Torre Polipropileno
Tubulação de Entrada do Biogás (mm) 60
Tubulação de Saída do Biogás (mm) 60
Tubulação de Entrada do Líquido (pol.) 1/2 (PVC)
Tubulação de Saída do Líquido (pol.) 1/2 (PVC)
Tubulação do Distribuidor de líquido (pol.) 1/2 (PVC)
Altura Disponível para Eliminador de Gotas (cm) 20
Volume do Reservatório de Líquido (l) 42,4

5.2.4 Desenho da Torre de Enchimento

Na Figura 14 encontra-se o desenho detalhado da Torre de Enchimento,


dimensionada para a remoção de CO2 e H2S de um fluxo de 50 Nm³/h de biogás
proveniente do tratamento de dejetos suínos da Granja Carboni, em Videira – SC.
Em destaque no lado direito, encontra-se o esquema do distribuidor de líquido e a
disposição de seus orifícios.

47
Figura 14: Torre de Enchimento

48
6. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

Para a realização deste trabalho, não foi possível a aplicação de metodologias


usuais de dimensionamento de Torres de Enchimento. Pode-se concluir que tais
metodologias não se aplicam a ocasiões em que se deseja purificar baixas vazões de
gases, visto que as mesmas foram desenvolvidas para projetos em grande escala. Isto
aponta para a necessidade de se investir em pesquisas relacionadas à purificação de
biogás para a geração distribuída de energia elétrica, almejando suprir a falta de
metodologias no dimensionamento de equipamentos com esta finalidade.
Tendo em vista a necessidade de dimensionar uma Torre de Enchimento, para
purificar o biogás produzido por biodigestores na Granja Carboni, em Videira – SC,
operar em conjunto com o grupo gerador RTP modelo 8100B, e suprir a vazão de
50m³/h de biogás requerida pelo sistema, conclui-se que, para estas condições, as
dimensões da torre são 0,25 m de diâmetro e 1,93 m de altura, e o volume de recheio
é de 44,2 l, ocupando 0,9 m de altura da torre.
A Torre de Enchimento se demonstra um equipamento de aplicação viável,
visto que suas dimensões são compatíveis com o sistema implementado de geração
de energia elétrica. Por não ser constituída, em grande parte, de materiais onerosos,
torna-se também um equipamento economicamente viável, podendo ser amplamente
difundido e comercializado.
A partir das pesquisas realizadas, podem-se fazer as seguintes
recomendações:

 Deve-se realizar a remoção da umidade após a Torre de Enchimento,


visto que o uso do eliminador de gotas retira somente as gotas que não precipitaram
no processo e o biogás sai do processo saturado de água, o que pode prejudicar o
bom funcionamento do motor do grupo gerador;

 Propõe-se que seja medida a perda de carga para o sistema


apresentado após sua construção. É provável que seja necessário uma readequação da
potência do ventilador utilizada no sistema para suprir a perda de carga da torre;

49
 Outros líquidos de absorção podem ser utilizados para a remoção
conjunta de CO2 e H2S, como soluções aquosas de: EDTA, Fe/EDTA, MEA, MDEA,
TBEE, DEA, AMP, CuSO4*, e suas combinações. Estas soluções fazem com que a
absorção passe a ser física e química, potencializando a remoção das impurezas e
permitindo sua recirculação. A principal desvantagem do uso destes líquidos ao invés
de água é que não é possível a reutilização dos mesmos, devido à suas características
químicas. Nestes casos, é necessária a instalação de um processo para tratamento do
efluente gerado na lavagem do biogás. Este empecilho pode inviabilizar a
implementação deste sistema principalmente no meio rural, por ser carente de
sistemas de tratamento deste tipo de efluentes e pelo aumento do custo operacional
do sistema de purificação de biogás;
* Os significados das siglas correspondentes se encontram na Lista de Abreviaturas e
Siglas.

 Para o caso de se operar a Torre de Enchimento com recirculação do


líquido de absorção química, ou seja, outros líquidos que não seja a água, se deve
instalar um filtro para remoção de material particulado gerado no líquido, evitando
assim a colmatação do distribuidor de líquido da torre;

 O uso de pressões elevadas na operação da torre aumenta


consideravelmente a eficiência do processo de remoção de CO2. Porém, quando são
utilizadas pressões elevadas, obrigatoriamente utilizam-se equipamentos e peças de
maior porte, sendo normalmente mais onerosas. Pode-se trabalhar com pressões
levemente elevadas, através de válvulas reguladoras de pressão, quando houver
necessidade de maior remoção de CO2, sem elevar demasiadamente os custos;

 Recomenda-se a realização de trabalhos futuros envolvendo estudos


com o uso do efluente da suinocultura tratado como líquido de absorção na Torre de
Enchimento. Para este caso, deve-se instalar um filtro de material particulado antes
da entrada do líquido na torre. Recomenda-se também um estudo comparativo do
sistema apresentado neste trabalho com a purificação de biogás por adsorção através
de Óxido de Ferro.

50
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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