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Artigo

Ecologia da comunicação: desafios


para a concepção de uma comunicação
social cidadã*
Jorge Miklos**
Agnes de Sousa Arruda Rocco***

Resumo Abstract
Neste trabalho pretende-se pensar a interseção entre This work intends to think about the intersection be-
comunicação e cidadania na perspectiva integrada com tween communication and citizenship in the bonded
as ecologias: profunda, integral, dos saberes e da co- perspective with the ecologies: profound, whole, within
municação. Os estudos tradicionais de comunicação são the knowledges and communication. The traditional
moldados no paradigma cibernético e cartesiano e não communication studies are shaped in the cybernetic
permitem ponderações integrativas acerca da comuni- and cartesian paradigm and do not allow integrative
cação. Propõe-se pensar a “ecologia da comunicação” wondering about communication. The study propos-
como um desafio e uma possibilidade de revigorar os es to think “ecocommunication” as a challenge and
vínculos humanos sociais e robustecer a cidadania. Este a possibility to revigorate the social human links and
estudo se baseia, essencialmente, em três autores: Boff to strengthen the citizenship. This study is based on,
(1995; 1996); Romano (2004) e Santos (2010), fazendo essentially, three authors: Boff (1995;1996); Romano
ainda aproximações teóricas com Contrera (2010), Mo- (2004) e Santos (2010), narrowing theoretically with
rin (1979) e Wulf (2014). Contrera (2010), Morin (1979) e Wulf (2014).
Palavras-Chave: Comunicação cidadã. Ecologia integral. Keywords: Citizen communication. Integral ecology. Eco-
Ecologia da comunicação. logy of communication.

Introdução cer o modo de vida dos povos indígenas, suas


Comunicação é Tolerância. relações sociais, culturais e comunicativas,
(Harry Pross) bem como as experiências de resistência co-
munitária. Noventa por cento da população
Em 2015-16, os autores deste texto esti- oaxaquenha é de origem indígena, e a região
veram no sul do México, especificamente nos é considerada a mais pobre do país. Apesar
estados de Oaxaca, com o intuito de conhe- de estar geograficamente distante dos muros

* Data de recebimento: 26/10/2017


** Jorge Miklos: Professor Titular do PPG em Comunicação da Universidade Paulista (UNIP), Pós-doutorado na Universidade Federal do
Rio de Janeiro, Doutor em Comunicação pela PUC-SP, Mestre em Ciências da Religião e Graduado em História e Ciências Sociais. Contato:
jorgemiklos@gmail.com.
*** Agnes de Sousa Arruda Rocco: Mestre e Doutoranda com bolsa CAPES-Prosup do PPG em Comunicação da Universidade Paulista (UNIP). Possui
graduação em Comunicação Social - Jornalismo pelas Faculdades Integradas Teresa D´Ávila. Professora Coordenadora dos Cursos de Design Gráfico,
Jornalismo e Publicidade e Propaganda - da Universidade de Mogi das Cruzes. Contato: agnesarruda@gmail.com.
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estadunidenses, trata-se de uma população impresso – o que justificava, por si só, tê-los
reprimida, perseguida, humilhada e explo- como objeto de estudo.
rada pelos “gringos”. Vivem refugiados nos A estrutura dos meios, suas possibili-
povoados, nas selvas e nas pequenas cidades. dades de transmissão e os impactos da re-
Sua resistência reside no laço comunitário, na cepção das informações ganharam ensaios e
manutenção da memória coletiva por meio da mais ensaios, pesquisas técnicas, de merca-
agricultura habitual, da alimentação tradicio- do, acadêmicas... Ainda mais quando, após
nal, do vestuário originário e da consciência a Segunda Guerra Mundial, o imperialis-
de que a Terra é uma mãe que os alimenta e mo estadunidense e o capitalismo definiti-
os protege em suas entranhas. Entre a mãe vamente se tornaram realidades mundiais.
Terra e seus filhos a relação não é de uma es- Afinal, que outra ferramenta poderia ser
critura de propriedade, mas de pertencimen- tão eficaz para influenciar comportamentos
to mútuo. Muito antes de o biólogo alemão quanto à mídia? Dessa forma, financiados
Ernst Haeckel talhar o conceito de ecologia, pelos governos e pelas grandes empresas,
os povos originários já tinham uma percepção institutos de pesquisa se dedicaram cada
profunda da integração concreta e imaginária vez mais a investigar e a solucionar as mi-
do mundo e sabiam que, numa perspectiva núcias do processo midiático, atendendo a
do sagrado, é impossível separar a Terra dos uma única lógica: a do mercado.
filhos da Terra. Recentemente, no entanto, uma afirma-
O ímpeto comunicativo sempre fez parte ção óbvia, porém relegada aos últimos pla-
da vida do homem, ser gregário, que vive em nos nesse campo acadêmico, tem animado
bandos e precisa de seus pares para sobrevi- debates na área. Baitello (1998, p. 11), ao
ver, seja na selva de pedra cotidiana ou na sa- dizer que “Todo processo comunicativo
vana da época da queda, e que encontrou na tem suas raízes em uma demarcação espa-
troca de sinais uma das formas de fazer sua cial chamada corpo”, retoma a discussão
existência ter sentido. Foram necessários, no sobre comunicação dos meios para as pes-
entanto, milhares de anos de evolução para soas, sendo elas as principais – se não úni-
que estudiosos dedicassem suas pesquisas a cas – agentes interessadas nesse processo.
essa ação tão elementar para a humanidade:
a comunicação. Isso porque foi só em mea- A instância “corpo” é fundante
dos do século XX, com a Escola de Chicago, para o processo comunicativo. É com
que os primeiros estudos da área começaram ele que se conquista a vertical, a di-
a aparecer (MATTELART, 1999). mensão do espaço que configura as
À época, no entanto, interessava aos codificações do poder. É com ele que
pesquisadores não a comunicação em si, se conquistam a dimensão da hori-
mas as maravilhas proporcionadas pela tec- zontalidade e as relações solidárias de
nologia, que naquele momento começava a igualdade. É com o corpo, gerando
construir o sólido caminho das telecomu- vínculos, que alguém se apropria de
nicações. Isso porque o salto temporal do seu próprio espaço e de seu próprio
telégrafo à internet foi incrivelmente mais tempo de vida, compartindo-os com
curto que o das pinturas rupestres ao jornal outros sujeitos. Mas é também aí, no
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estabelecimento de vínculos, mate- Assim, como determinar que os proces-


riais ou simbólicos, que inicia a apro- sos nos quais esse homem está inserido po-
priação do espaço e do tempo de vida dem ser considerados cartesianos, técnico-
de outros. -científicos, metodologicamente testados e
comprados se, por suas características, ele
Sob essa ótica, entender de comunica- é totalmente influenciado por sua bagagem
ção é, antes de tudo, entender de gente, do histórico-social? Como investigar aspec-
ser humano. Ser humano esse que, como tos de sua comunicação se as ontogêneses
explica Morin (1979), é muito mais com- das teorias sobre esse campo ignoram to-
plexo do que uma mera junção de matéria talmente essas questões e transformam o
e intelecto. O autor fala, em seus próprios processo comunicacional em um mero jogo
termos, do homem biopsicossociocultural, de pingue-pongue, que considera o modelo
ou Homo sapiens-demens, uma criatura que, “Emissor-Meio/Mensagem-Receptor” o
na queda, se descobriu mortal e que, desde único possível? E, por último, por enquan-
então, vem tentando superar essa mortali- to, como falar de comunicação cidadã se, na
dade. Suas alternativas variam do fazer-se lógica desses estudos, Meio e Mensagem
imortal por seus feitos e virar mito, à cria- atendem a um único senhor, o capital?
ção de sistemas complexos do imaginário São questionamentos que, a partir de
como as religiões, que preveem em alguns agora, guiam este trabalho, que reflete sobre
casos, na pós-morte, uma vida em paraíso essas questões e discute a formulação de uma
ou, em outros, a reencarnação. ecologia da comunicação, interligando sabe-
Para Morin, a demência está justamente res para uma comunicação social cidadã.
no fato de que esses sistemas não estão re-
lacionados ao racional. Afinal, apenas para
ilustrar, o que de racional há em um chefe Uma teia de vínculos comunicativos
de família que tira 10% de seu salário-mí- [...] a Terra não pertence ao homem; o
nimo, utilizado para sustentar uma família homem pertence à Terra. Isto sabemos: todas
com cinco filhos por um mês inteiro, para as coisas estão ligadas como o sangue que
ofertar a uma igreja como prova de sua leal- une uma família. Há uma ligação em tudo.
dade a um Deus que ele nunca viu, de quem O que ocorrer com a Terra recairá sobre
só ouviu falar? Racionalmente, esses 10% os filhos da Terra. O homem não tramou o
seriam usados para comprar comida, re- tecido da vida; ele é simplesmente um de
médios, roupas. Ou até um plano de dados seus fios. Tudo o que fizer ao tecido,
para acessar a internet pelo celular e, assim, fará a si mesmo.
de acordo com os discursos otimistas deste (Carta do chefe indígena Seattle ao
campo de estudo, ter acesso à informação presidente dos EUA)
e finalmente dar um rumo para a sua vida.
Mas na lógica do sapiens-demens, esse valor A conhecida carta do chefe Seattle escri-
é a garantia de que, num futuro próximo, ta no século XIX alertava para dois temas
na Terra ou em outro plano, seu bem-estar que comprometiam o futuro da espécie
e o de sua família estarão garantidos. Homo sapiens: (1) o desenvolvimento eco-
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nômico acelerado, escorado pela ideologia dã), navegamos no contexto de uma visão
do progresso (discurso dominante das eli- orquestral e interdisciplinar de comunica-
tes globais), acarretava exclusão, desigual- ção que nos permita perceber que estamos
dades e graves danos ambientais, agredindo enredados em processos biológicos, psico-
e restringindo direitos humanos essenciais; lógicos, sociais e comunicativos.
(2) A vida é um nó de relações. O chefe “Sem amigos”, escreveu Aristóteles em
Seattle antecipou os fundamentos básicos Ética a Nicômaco, “ninguém escolheria vi-
da ecologia profunda como demonstra Fri- ver, ainda que tivesse todos os outros bens”
tjof Capra: (2011, p. 34). Temos uma necessidade de
nos afiliarmos com os outros, e até de nos
A ecologia rasa é antropocêntrica, tornarmos fortemente ligados a algumas
ou centralizada no ser humano. Ela vê pessoas em relacionamentos íntimos e du-
os seres humanos como situados acima radouros. Os seres humanos têm um anseio
ou fora da natureza, como a fonte de de comunidade. Roy Baumeister e Mark
todos os valores, e atribui apenas um Leary (1995) reuniram evidências dessa
valor instrumental, ou de ‘uso’, à na- profunda necessidade de pertencimento.
tureza. A ecologia profunda não sepa- A necessidade de reconhecimento e de
ra seres humanos – ou qualquer outra convívio é diretamente ligada às pulsões de
coisa – do meio ambiente natural. Ela existir, cunhando o ambiente propício à in-
vê o mundo não como uma coleção de teração, que nada mais é do que essa relação
objetos isolados, mas como uma rede entre o eu e o outro. Segundo Todorov, a ne-
de fenômenos que estão fundamen- cessidade desse reconhecimento no outro,
talmente interconectados e são inter- presente na pulsão “existir”, nasce e morre
dependentes. A ecologia profunda re- com o indivíduo, acompanhando-o desde
conhece o valor intrínseco de todos os a tenra idade até o leito de morte. E, assim
seres vivos e concebe os seres humanos como se dá no transcorrer da vida, essa pul-
apenas como um fio particular na teia são cresce no início e diminui no final, o au-
da vida. (CAPRA, 2012, p. 23). mento da solidão e do isolamento do idoso
promove a diminuição de sua existência: “o
A vida se organiza e se desorganiza por ser humano vive talvez inicialmente em sua
meio de redes. Um dos fundamentos das pele, mas começa a existir apenas a partir do
redes são as permutas, que garantem seu olhar do outro” (TODOROV, 1996, p. 67).
movimento. Essas correspondências são o Na relação comunitária, o indivíduo,
que podemos apreender por Comunicação. ao partilhar da existência, se reconhece na
Esta é o que solidifica o fenômeno da vida vida do outro. Nesse sentido, é elucidativo
e da sociabilidade, a estratégia que permite saber: “[...] se eu quero que a minha vida
que nos liguemos ao mundo, nossa princi- tenha sentido para mim é necessário que te-
pal via de acesso ao ambiente. nha sentido para os outros” (BLANCHOT
Com o objetivo de compreendermos a apud PAIVA, 1997, p. 88).
emergência de um novo paradigma comu- Envolvidos em uma teia de vínculos,
nicacional (Ecologia da comunicação Cida- percebemos que os seres humanos partici-
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pam como sujeitos ativos da comunicação sos de significação constituídos nessas


na medida em que sua incompletude os relações. Nesse sentido também pode-
obriga à constituição emergencial e perma- mos considerar a contribuição do estu-
nente de vínculo sociais e comunicativos, do dos vínculos comunicativos para um
como sugere Malena Contrera: alargamento da compreensão sobre os
meios de comunicação, entendendo-os
Considerando o vínculo “a base como espaços (físicos ou simbólicos)
primeira para a comunicação”, esses nos quais essa rede de vinculação deve
vínculos passam a ser uma das questões operar numa escala socialmente maior
centrais dos estudos sobre a comuni- do que a da comunicação interpessoal,
cação humana, ainda que não tenham e refletindo sobre se esses meios têm
sido devidamente considerados até o ou não, de fato, desempenhado esse
presente momento. Nesse sentido, é papel, ou se se tornaram meros espaços
importante que façamos uma ressalva funcionais por onde transitam infor-
acerca do fato de que é a desconsidera- mações assépticas e vazias de sentido,
ção do papel do vínculo para a comu- apenas quantitativa e mercadologica-
nicação que colabora para a manuten- mente consideradas. (CONTRERA,
ção de uma visão empobrecida sobre o 2010, p. 354).
processo comunicativo, muitas vezes
conferindo às trocas de informação seu Retomando a premissa de que tudo está
aspecto central. Ainda vemos, nos es- interligado e que a vida é um nó de relações,
tudos da comunicação, uma confusão a comunicação é basal no processo de vin-
entre teorias da informação e teorias da culação e pertencimento. Por meio dela, o
comunicação, sendo que as primeiras ser humano explora, aprende e constrói a
se ocupam normalmente de aspectos sua subjetividade e reconhece o seu entorno
funcionais e instrumentais das trocas social que, por sua vez, o constitui e engen-
informativas, alinhando-se muitas ve- dra sua identidade.
zes aos estudos da cibernética, enquan- Nesse sentido, há um reconhecimento
to a segunda deveria se ocupar dessa da relevância da comunicação e da liberda-
dimensão complexa da constituição e de de expressão, que passa a ser entendida
dinâmica dos vínculos comunicativos. como elemento fundamental da garantia dos
Isso estabeleceria uma clara distinção cidadãos livres, cabendo ao Estado estabele-
entre os papéis de informar e comuni- cer condições para assegurar seu exercício.
car, hoje usualmente confundidos. Ao A Declaração Universal dos Direitos Hu-
considerarmos os processos de vincu- manos (1948), em seu artigo 19, incorporou
lação, lançamos um novo sentido às como direito a ser garantido: “[…] todo in-
relações comunicativas, evitando uma divíduo tem direito à liberdade de opinião e
concepção de que trocas comunicativas de expressão; este direito inclui a liberdade
se assemelham a meras relações comer- de, sem interferência, ter opiniões e de pro-
ciais e instrumentais, e chamando a curar, receber e transmitir informações e
atenção para a importância dos proces- ideias por quaisquer meios, independente-
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mente de fronteiras” (Assembleia Geral das que aspiram a uma cidade e uma humani-
Nações Unidas, 1948, art. 19). Ao longo do dade melhores, reconhecem que a comuni-
século XX, essa garantia foi sendo progres- cação e o convívio são diretamente ligados
sivamente incorporada aos marcos jurídicos às pulsões de existir, o que cria o ambiente
nacionais e internacionais. propício da “interação”, que nada mais é do
O direito à comunicação e à liberdade de que essa relação entre o eu e os outros.
expressão assume uma moldura cada vez mais
coletiva e se une umbilicalmente ao conceito
desenvolvido pelo sociólogo francês Henri Sobre pontes, muros e catástrofes
Lefebvre, em Direito à cidade, livro publi- A ponte não é de concreto, não é de ferro/
cado pela primeira vez em 1968, no calor Não é de cimento/ A ponte é até onde vai
das manifestações estudantis. Lefebvre define o meu pensamento/ A ponte não é para
o direito à cidade como um direito de não ex- ir nem pra voltar/ A ponte é somente pra
clusão da sociedade urbana, das qualidades e atravessar/ Caminhar sobre as águas desse
dos benefícios da vida urbana. Direito à cida- momento. (Lenine)
de é expressão maior da cidadania.
Nos últimos anos tem havido muitos Refletindo a respeito dos vínculos co-
protestos e movimentos sociais sob o slogan municacionais na mídia, Norval Baitello
‘direito à cidade’, que aglutinam de mora- Jr., importante expoente do pensamento
dores de grandes capitais como São Paulo comunicacional brasileiro, escreveu um
e Rio de Janeiro, resistindo às remoções, a instigante texto:
artistas de rua, que reivindicam o grafite
como um processo comunicativo que hu- O que são os meios, ou seja, o que
maniza e transforma o espaço urbano: é a mídia? Por que nos preocupamos
Nesse sentido, se comunicação é a peça- tanto com os meios, com esse “meio de
-chave no processo de hominização e vin- campo” entre o um e o outro? Porque
culação social, o direito à comunicação não há aí um abismo. E abismos são vazios
está divorciado do direito à cidade, pois gigantescos e assustadores. Como te-
como frisa David Harvey: mos horror ao vazio, tentamos preen-
chê-lo com tudo o que temos à mão:
[...] a questão do tipo de cidade que que- com os gestos, com a voz, com os ras-
remos não pode ser separada da questão tros (olfativos, visuais, auditivos ou tá-
do tipo de pessoas que queremos ser, teis), com as imagens arcaicas, com es-
que tipo de relações sócias buscamos, critas de todos os tipos, com as imagens
que relações com a natureza nos satisfa- produzidas por máquinas e até mesmo
zem mais, que estilo de vida desejamos com as próprias máquinas de imagens.
levar, quais são os nossos valores estéti- Mas preencher o abismo é um trabalho
cos. (HARVEY, 2014, p. 28). insano e inglório, como enxugar gelo
ou esvaziar um rio. Há apenas lampe-
Lefebvre, Harvey, grafiteiros e militan- jos de um fugaz preenchimento, pon-
tes pelo direito à moradia, bem como outros tes fugazes que nos levam até o outro,
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transpondo por breves relances o vazio ra do abismo, para quem se atreve a


do abismo. Como dizia Walter Benja- dar o passo nesse nada que se chama
min, em suas “Teses sobre a Noção de “ir em direção ao outro”. Muitos não
História”, ‘um lampejo no momento veem relação direta entre comunicação
de um perigo’. Para conseguir esses e comunhão, mas para mim ela parece
lampejos e tais relances é que experi- inegável. Mesmo que haja dissenso,
mentamos todos os meios, todo tipo que haja diferença, que haja tensão,
de mídia – dentre eles, as imagens, os não é nada disso que nos mobiliza a
sons, os gestos, os perfumes naturais e buscar uma comunicação possível. É
artificiais, os rastros e os cortes, as es- o comum que nos aproxima, que faz
critas todas. A essa atividade damos o com que mesmo em meio a toda a difi-
nome de comunicação, criação de pon- culdade, como diz Chico Buarque, eu
tes para atravessar o abismo que separa ‘ajeite o meu caminho para encostar
o eu do outro. (grifo dos autores). A no seu’. (CONTRERA, 2007).
essas pontes, como elas se colocam no
meio de campo damos o nome de “mí- As pontes aproximam os distantes e
dia” ou “meios” ou “media”. Repetin- unem os diferentes. Seres humanos são
do e resumindo, pois nunca é demais construtores de pontes (concretas e imagi-
enfatizar: mídia é meio de campo que nárias) que fecundam passagens e viagens
procura superar o abismo entre o eu e o iniciáticas. Por exemplo, os mitos são pon-
outro. Não se esqueça de que abismos tes que se abrem para a transcendência pos-
são zonas inóspitas, tais quais os deser- sibilitando a ligação dos homens aos deuses
tos. (BAITELLO JR., 2012, p. 34). (universo simbólico) e dos seres humanos a
outros seres humanos (universo social). É
Na medida em que todos os seres vivos interessante notar que o título de Pontífice
são sistemas abertos e vinculantes, a metáfo- (Pontifex), que era atribuído aos imperado-
ra da ‘ponte’ cai como uma luva para pensar res romanos e permanece sendo o do Papa,
a comunicação humana. As pontes, literais significa construtor de pontes (CHEVA-
e imaginárias possibilitam o movimento, a LIER; GHEERBRANT, 2002).
conexão, a comunhão e a vinculação, as tro- Porém, apesar de o ser humano ter uma
cas entre os seres vivos. Malena Contrera, natureza pontifícia, há quem opte pelos
na linha das pontes imaginárias, considera: muros imaginários e literais da exclusão, da
rigidez, da unilateralidade, da egolatria, da
Toda comunicação é uma tentativa desigualdade. A muralha da China, o muro
de re-união com o mundo, de estabe- de Berlim e o projeto do recém-eleito gover-
lecer um vínculo que possa ser ponte no estadunidense em construir um muro na
entre a consciência e o sentimento pri- fronteira entre os Estados Unidos da Améri-
mordial de fazer parte, de pertencer. ca e o México revelam os paradoxos do que
Toda comunicação verdadeira, neste podemos entender por comunicação.
sentido, é uma ponte que se estende O projeto do muro estadunidense esbo-
sobre o nada, que só aparece na bei- ça claramente o paradoxo da globalização
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percebido por Bauman que, diferente das xenofobia e do racismo, que separa os seres
pontes que ligam, pretende apartar: humanos entre eles. A opinião do advogado
e também de muitos brasileiros demonstra
Para os habitantes do Primeiro que já existem muitos muros invisíveis que
Mundo – o mundo cada vez mais cos- habitam a consciência coletiva.
mopolita e extraterritorial dos homens A recorrente metáfora do muro que ha-
de negócio globais, dos controladores bita o imaginário de líderes políticos indica
globais da cultura e dos acadêmicos que parte da humanidade está dissocia-
globais – as fronteiras dos Estados fo- da. O atual estado dominante no planeta
ram derrubadas, como o foram para constitui uma catástrofe global. Trata-se,
as mercadorias, o capital e as finanças. segundo Leonardo Boff (1995), de uma
Para os habitantes do Segundo Mundo, crise ecológica e de uma crise do paradigma
os muros constituídos pelos controles civilizacional.
de imigração, as leis de residência, a Um conjunto de catástrofes ambientais e
política de “ruas limpas” e “tolerância sociais (poluição e mudanças climáticas, es-
zero” ficaram mais altos; os fossos que cassez de água potável, perda da biodiversi-
os separam dos locais de desejo e da dade, deterioração da qualidade de vida hu-
sonhada redenção ficaram mais pro- mana e degradação social, recrudescimento
fundos, ao passo que todas as pontes, da desigualdade planetária, violência urba-
assim que se tenta atravessá-las, reve- na) permeia o cotidiano terrestre. O primei-
lam-se pontes levadiças. Os primeiros ro capítulo da encíclica Laudato Si: sobre o
viajam à vontade, divertem-se bastan- cuidado da casa comum, do Papa Francisco
te viajando (particularmente se vão de (2015), bem como vários relatórios escritos
primeira classe ou em avião particular), por entidades científicas, contribui não ape-
são adulados e seduzidos a viajar, sen- nas para evidenciar a ‘banalidade do mal’,
do sempre recebidos com sorrisos e de mas, sobretudo, para desconstruir o discur-
braços abertos. Os segundos viajam às so hegemônico sobre a globalização associa-
escondidas, muitas vezes ilegalmente, da à ideia de progresso inexorável.
às vezes pagando por uma terceira clas- Se as pontes oferecem caminhos de en-
se superlotada num fedorento navio contro, os muros prenunciam separações e
sem condições de navegar mais do que desencontros. Enfrentamos um paradoxo
outros pagam pelos luxos dourados de já profetizado por Walter Benjamin (2006)
uma classe executiva – e ainda por cima e seu anjo da história, e testemunhado por
são olhados com desaprovação, quan- Günther Anders (2011), que diagnosticou a
do não presos e deportados ao chegar. obsolescência do homem: destruição, morte
(BAUMAN, 1999, p. 97). e desesperança acompanham incríveis inova-
ções tecnocientíficas. Nesse cenário lúgubre,
Se a comunicação implica pontes, o evidencia-se o crescimento exponencial de
muro (mesmo imaginário) sugere inco- uma catástrofe comunicacional: recrudesci-
municação. O muro é a engenharia da ig- mento dos nacionalismos xenófobos, golpes
norância, do preconceito, da misoginia, da jurídicos-midiáticos, homofobia, misoginia,
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toda sorte de fundamentalismos (político e autonomia” (ARNOLD, 1999, p. 237).


religioso), consumolatria, espetacularização O exemplo notável da resiliência das
da existência, virtualização do corpo, con- Trümmerfrauen corrobora a afirmação de
centração midiática e o oligopólio midiático. Leonardo Boff de que “a crise é criativa e
Enfim, o progresso não tem conduzido, auto- o sofrimento nos faz pensar” (1996, p. 9).
maticamente, a uma sociedade melhor. Tem- Toda catástrofe engendra amargura, an-
-nos conduzido para a destruição. Muros são gústia, ansiedade, mas esses sentimentos
constituídos de paredes grossas e impermeá- podem lançar pontes para sonhos, espe-
veis. O desafio para a cidadania é construir ranças e utopias. É disso que se nutrem os
pontes transparentes, porosas e permeáveis, movimentos sociais. Da lucidez de que esse
ou seja, pontes comunicacionais. não é o melhor dos mundos, mas que pre-
cisa e pode ser transformado. O psicólogo
suíço Carl G. Jung assinalava essa presen-
Construindo pontes: emergência de ça enantiodrômica na natureza humana ao
um novo paradigma afirmar que: “Não há despertar de cons-
“A maior nobreza dos homens é a de ciência sem dor. As pessoas farão de tudo,
erguer sua obra em meio à devastação, chegando aos limites do absurdo para evi-
sustentando-a incansavelmente, a meio tar enfrentar a sua própria alma. Ninguém
caminho entre a agonia e a beleza.” se torna iluminado por imaginar figuras de
(Ernesto Sábato) luz, mas sim por tornar consciente a escuri-
dão” (JUNG, 2013, p. 182).
Berlim, maio de 1945. A invasão do A humanidade enlouqueceu de vez ou ape-
exército vermelho na cidade implicou a nas agora nos demos conta do quão loucos so-
destruição de 40% dos edifícios. Na Ale- mos? Esta pode ser uma dúvida, entre tantas
manha, sobraram apenas de 10% a 20% dos outras, que aflige aqueles que dedicam seus
centros urbanos. Em 1o de junho de 1945, estudos sobre a sociedade contemporânea e
as mulheres de Berlim receberam a ordem a sua relação com os meios de comunicação.
para remover entulhos e selecionar material Isso porque cada vez mais notícias sobre as
para a reconstrução. Munidas de baldes, mais improváveis ações e reações dos seres
elas juntavam e limpavam pedras e tijolos humanos nas mais diversas situações são
nas cidades arrasadas pelos bombardeios. extremamente frequentes. A cada semana,
As “mulheres dos escombros” (Trümmer- uma nova pauta toma conta da mídia e cada
frauen, como eram chamadas) estabele- uma aparenta ser mais surreal que a outra.
ceram os fundamentos da Alemanha do Pessoas matando suas próprias famílias a
pós-guerra. Uma dessas Trümmerfrauen, sangue-frio e à queima-roupa, outras que
Käthe Linke, lembra que essa esperança praticam crueldades com animais indefesos
se baseava, principalmente, na coesão e na e são responsáveis por desastres ambientais,
camaradagem entre os sobreviventes da ondas de violência, corrupção... A pergunta
guerra: “Queríamos poder ir ao teatro de que fica é se essas situações são consequên-
novo. E era bonito, também, descobrir que cia da vida contemporânea ou se elas sem-
as mulheres começavam a conquistar sua pre ocorreram. Mas, agora, com o acesso aos
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meios de informação, também se tem acesso A crise é a base de toda a evolução hu-
a essas notícias. De toda forma, a ideia que se mana. Apesar de gerar sentimentos de vio-
tem é a de que a humanidade caminha para lência e de violação, é a possibilidade de
o caos absoluto e que, em poucos anos, não tomada de consciência e evolução criativa.
haverá mais um caminho de volta para um Porque a crise, de maneira violenta, tira o
convívio saudável e harmonioso entre os se- indivíduo de sua rotina profana, em que a
res. Uma catástrofe. vida é vivida sem significado e sem senti-
No entanto, é Wulf (2014, p. 55-56) do, podendo levá-lo, pela necessidade de
quem afirma que, pela catástrofe, o homem superá-la, a uma dimensão de vínculo com
se reinventa: a solidariedade e com a empatia.
É nesse sentido que pensadores con-
Assim como indivíduos e socieda- temporâneos detectam a necessidade de
des, as espécies também são mortais. uma nova compreensão e uma nova ação
Incontáveis exemplos revelam que ne- que enfrentem os problemas globais. O já
nhuma espécie pode sobreviver para citado Capra (2006) propõe a Ecologia Pro-
sempre, e o fenômeno da extinção em funda, com novos valores de pensamento e
massa é conhecido por ter-se dado di- valores integrativos (o intuitivo, a síntese, o
versas vezes na história do nosso plane- holístico, o não linear, a cooperação, a par-
ta. [...] podemos concluir que a extinção ceria) e uma ética do cuidado.
é necessária para a evolução, e o prin- Leonardo Boff (1996), desconstruindo
cípio prevalecente era provavelmente a crença do senso comum de que ecologia
uma extinção seletiva das espécies que é “coisa de rico”, recoloca a discussão do
não tinham nada a ver com a capacida- ecológico no social e no político e propõe
de de adaptação dos organismos. caminhos e práticas de várias ecologias: a
[...] ecotecnologia, a ecopolítica, a ecologia so-
Após o desaparecimento dos di- cial, a ética ecológica, a ecologia mental e a
nossauros, os mamíferos eram, ini- mística ecológica.
cialmente, muito pequenos, desenvol- Por exemplo, Boff, ao refletir sobre a
vendo-se com o tempo, em diversas ecologia social, denuncia que o atual mode-
formas, tais como roedores e cavalos lo de sociedade imperante no mundo:
primitivos, morcegos e baleias e maca-
cos e hominídeos. [...] apresenta-se profundamente
Portanto, as catástrofes desempe- dualista. Divide pessoa/natureza, ho-
nham um papel produtivo na evolução. mem/mulher, masculino/feminino,
Deus/Mundo, corpo/espírito, sexo/
Nesse sentido, apesar do diagnóstico pes- ternura. E esta divisão sempre bene-
simista, o prognóstico pode ser visto como ficia um dos polos, originando hierar-
uma luz no fim do túnel para a inter-relação quias e subordinações no outro. No
entre os seres humanos, confiando ainda que nosso caso trata-se de uma sociedade
essa inter-relação está intimamente ligada de estrutura patriarcal e machista.
aos processos de comunicação social. (BOFF, 1996, p. 31).
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Esse padrão excludente, binário, vio- res humanos que inventam novas formas
lento e redutor das possibilidades humanas de saberes e que concebem novas ações al-
e que reduz os seres humanos a meros autô- ternativas, interferindo para uma gestação
matos e reprodutores da “consumolatria”, do futuro.
foi denunciado pelo ex-presidente do Uru- Quem teoriza a respeito é Santos (2010),
guai, José Mujica que, ao ser chamado por ao dissertar sobre a Ecologia dos saberes.
um jornalista europeu de “o presidente mais Para o autor, o conhecimento é uma cons-
pobre do mundo”, respondeu: “Eu não sou trução social, e quanto maior for seu reco-
pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo nhecimento, “maior será sua capacidade
com apenas o suficiente para que as coisas para conformar a sociedade, para conferir
não roubem minha liberdade” (RABUF- inteligibilidade ao seu presente e ao seu
FETTI, 2015, p. 43). passado e dar sentido e direção ao seu fu-
Em oposição a esse modelo sombrio or- turo. [no entanto] [...] tende a estar tan-
ganizado pelo deus mercado, que desertifi- to menos quanto maior é o seu privilégio
ca o futuro, Boff saúda a possibilidade de epistemológico” (SANTOS, 2010, p. 137).
um modelo de sociedade que propicie as No entanto, ao privilegiar o conhecimento
múltiplas possibilidades do ser humano e científico, a sociedade ocidental o preten-
da sociedade. Um modelo no qual: deu imune às transformações do mundo,
o que é impossível. Afinal, quanto mais a
[...] a imaginação, a fantasia, a utopia, ciência intervém no mundo, mais contami-
o sonho, a emoção, o símbolo, a poesia, nada dele ela estará... E vice-versa.
a religiosidade devem ser tão valoriza- Acontece que há uma onda de pesqui-
dos quanto a produção, a organização, sa que prevê a não diferenciação entre as
a funcionalidade e a racionalidade. ciências naturais e as ciências sociais, sob
Masculino/feminino, Deus/mundo, uma perspectiva antirreducionista, ou, em
corpo/psique devem ser integrados no termos morinianos (MORIN, 1979), uma
horizonte de uma imensa comunidade perspectiva complexa. Nesse sentido, San-
cósmica. (BOFF, 1996, p. 33). tos (2010) propõe a renúncia a uma episte-
mologia geral para dar conta das coisas do
Esse novo modelo não é gestado no cen- mundo (o conhecimento técnico-científico)
tro do capitalismo, mas, ao contrário, em para que se volte a perceber que, na verda-
sua periferia. São os pobres, os excluídos de, existe no mundo uma condição de di-
dos direitos, as pessoas em situação de rua, versidade epistemológica, em uma terceira
que sobrevivem na sarjeta, os marginaliza- via entre a epistemologia convencional da
dos, os militantes da luta social, os negros ciência moderna e os outros sistemas de
brasileiros, os homossexuais muçulmanos, conhecimento alternativos à ciência; não
as mulheres cubanas, os refugiados sírios ignorando o método científico, mas res-
na Europa, as comunidades indígenas, gatando aquilo que de positivo foi por ele
zapatistas de Chiapas, os integrantes das produzido.
comunidades eclesiais de base cristãs na Trata-se de uma tomada de consciência
América Latina, entre outros. São esses se- sobre as circunstâncias e condições particu-
104 Ecologia da comunicação: desafios... • Jorge Miklos • Agnes de S. Arruda Rocco

lares em que o conhecimento é produzido, deve incidir não nos conhecimentos em


considerando que “[...] a definição dos obje- abstrato, mas nas práticas de conhecimento
tos do conhecimento é indistinguível de uma e seus impactos em outras práticas sociais.
relação com os sujeitos que são constituídos Dessa forma, “[...] o reconhecimento da di-
como os seus objetos” (SANTOS, 2010, versidade sociocultural do mundo favorece
p. 150). Além disso, a Ecologia dos saberes o reconhecimento da diversidade episte-
prevê perspectivas interculturais, conside- mológica de saberes do mundo” (SAN-
rando a existência de saberes plurais, alter- TOS, 2010, p. 156).
nativos à ciência moderna ou que com essa Para o autor, a Ecologia da comunicação
se articulam em novas configurações de co- surge com o impulso básico de resistência
nhecimentos, que Santos aponta serem con- prática ao capitalismo global por meio de
duzidas especialmente nas áreas mais perifé- ação. Ela está assentada “no reconhecimen-
ricas do sistema mundial moderno. to da pluralidade de saberes heterogêneos,
O autor questiona o fato de os conheci- da autonomia de cada um deles e da articu-
mentos não científicos serem considerados lação sistêmica, dinâmica e horizontal entre
eles” (ibidem, p. 157), cruzando-se saberes
[...] locais, tradicionais, alternativos e ignorâncias.
ou periféricos (sendo que) todo co-
nhecimento é parcial e situado, (dessa
forma) é mais correto comparar todos Ecologia da comunicação:
os conhecimentos [...] em função das uma proposta de comunicação cidadã
suas capacidades para a realização de La comunicación tiene una dimensión
determinadas tarefas em contextos so- ecológica y ética. (Vicente Romano)
ciais delineados por lógicas particula-
res. (SANTOS, 2010, p. 153). É o próprio Boaventura Santos que afir-
ma ser imperativo “renovar a teoria críti-
Nesse sentido, ele afirma que “O mul- ca para reinventar a emancipação social”.
ticulturalismo emancipatório parte do re- Uma ecologia social sugere o desafio de
conhecimento da presença de uma plura- pensar uma ecologia comunicacional em
lidade de conhecimentos e de concepções prol de uma vida livre.
distintas sobre a dignidade humana e sobre Foi o pensador espanhol Vicente Ro-
o mundo” (ibidem, p. 154). mano (1935-2014), intelectual espanhol e
Assim, considera-se que a diversidade aluno do cientista político alemão Harry
epistêmica do mundo é potencialmente in- Pross, que propôs pensar uma ecologia da
finita, não havendo conhecimentos puros comunicação. Para ele, o processo de comu-
nem completos, mas sim constelações de nicação humana nos possibilita a conexão,
conhecimentos, em um “[...] conjunto de a comunhão, a vinculação com os outros. É
epistemologias que parte da possibilida- através da comunicação que experimenta-
de da diversidade e da globalização contra mos as relações sociais, a vivência em co-
hegemônicas” (ibidem), sendo que não mum, os sentimentos de pertencimento a
há epistemologias neutras e que a reflexão uma comunidade.
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No livro, Ecología de la comunicación municação eletrônica na natureza humana,


(ainda sem tradução em português), Roma- na sociedade e no meio ambiente. Tem como
no estimula o pensamento integrativo eco- propósito libertá-la do jugo de simples meio
logia/social/comunicação, argumentando de produção, do seu aspecto tecnológico e
que: “Nesta experiência do comum, a comu- lucrativo, para transformá-la em comunica-
nidade é onde a função básica da comunica- ção que produz e conserva experiências.
ção é dada, de acordo com a tese ecológica: Na condição de um intelectual engajado,
comunicação cria comunidade, comunica- para Romano, criticar os efeitos negativos
ção cria comunhão.” (ROMANO, 2004, p. não significa ser apocalíptico ou tampouco
31, tradução nossa). Como já foi dito antes, manter-se na perspectiva catastrófica. Mas,
para ele, como vínculo entre um ser huma- ao contrário é reconhecer que a lucidez a res-
no e outro ser humano, a Comunicação tem peito dos processos desumanos da comuni-
uma dimensão ecológica e ética. cação é o primeiro passo em direção a uma
Entretanto, para Romano, a crescen- estratégia construtiva, no sentido de ampliar
te dissociação comunicativa (oligopólios a qualidade de vida dos seres humanos na
midiáticos, perda do tempo presente, dro- medida em que promove a saúde e a como-
mocracia) traz consequências contrárias ao didade na vida das pessoas e das coletivida-
vínculo. A técnica e a comercialização da des e contribui para a eliminação de quais-
comunicação implicaram a industrializa- quer formas de negligência, discriminação,
ção, com o objetivo de converter o indiví- exploração, violência, crueldade e opressão.
duo em receptor ideal. A solidão e a perda A Ecologia da Comunicação pretende
das relações, bem como o desequilíbrio da averiguar até que ponto é possível criar,
homeostase espiritual interna, são os efei- com a comunicação, comunidades em que o
tos mais evidentes. mundo surja como um meio e o ser humano
Para ele, atualmente predomina a Ideo- se sinta realizado. Para tanto, é urgente, se-
logia da Morte, ou seja, a realidade virtual gundo Romano, que os seres humanos am-
satisfaz mais que o real, o dinheiro impera pliem a consciência e assumam a responsa-
como sistema simbólico totalitário, a globa- bilidade diante do seu entorno comunica-
lização da comunicação traz efeitos nefastos cional, pois de modo análogo como ocorreu
para a democracia, a diversidade cultural é com o domínio da natureza por conta da
ameaçada pela crença fundamentalista, a técnica – domínio que se traduziu em um
natureza é submetida à tecnologia e a con- experimento falido e fatal – observa-se uma
cepção do tempo é alterada em termos de experiência semelhante na esfera da comu-
eficiência e velocidade. nicação, ou seja, o domínio dos processos
Nesse sentido, Romano considera que a comunicativos pela racionalidade técnico-
Ecologia da Comunicação é uma nova crí- -econômica trouxe consequências que obli-
tica da economia política da comunicação. teram a realização do vínculo humano, na
A Ecologia da Comunicação estabelece um medida em que a apropriação tecnológica
vínculo entre comunicologia e ecologia hu- está submetida aos interesses econômicos.
mana. Observa os efeitos da técnica na co- Vicente Romano analisa o processo de
municação humana e dos impactos da co- privatização dos espaços públicos, que an-
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tes eram espaços de comunicação, festa e significa, em outras palavras, adaptar as


proximidade, não associados ao consumo, tecnologias da informação às combinações
mas à celebração e à comunhão do espaço ecocomunicológicas do ser humano.
e do tempo. A partir de uma perspectiva ecológica,
distinguem-se três enfoques na Ecologia da
A democracia, como sistema aberto, Comunicação:
implica necessariamente espaços aber- a) A questão do poder e do domínio
tos, para que todos possam ter acesso. O – o processo de desenvolvimento e
espaço público deve ser do público, ou a aplicação das novas tecnologias
melhor, de todos os públicos, o lugar de são regidos por interesses econô-
encontro do pluralismo e da interação micos em benefício privado
social. E, nesse sentido, os espaços pú- b) O psicológico – a comunicação é
blicos têm grande importância para o constitutiva para a formação da
desfruto e uso coletivo do tempo livre, identidade, a interação social e a
da comunicação, do consumo de cultu- socialização
ra, comodidades de um dia de folga, etc. c) O sistêmico – que responde ao ca-
(ROMANO, 2004, p. 97). ráter básico de restauração da co-
municação.
A Ecologia da Comunicação trata das
consequências e das intervenções tecnoló- Isso significa que a comunicação social
gicas da comunicação sobre seres humanos; deve possibilitar o desenvolvimento da
natureza extra-humana; sociedade, cultura identidade, o desenvolvimento corporal e
e comunicação. Sendo assim, estabelece ne- espiritual, a capacidade de relacionar-se, a
cessariamente vínculos e cria comunidades, competência de aprender e a ética da solida-
evitando o esgarçamento do tecido social e riedade. Essa ecologia propicia a resistência
fortalecendo a cidadania. às pretensões do poder e da dominação e o
A proposta de um Paradigma Ecológico fortalecimento da democracia, a responsa-
da Comunicação aponta para uma experiên- bilidade pelo entorno e por si mesmo.
cia na qual os seres humanos percebam que Para os sistemas social, econômico,
vivem em um só mundo, isto é, são parte de político, cultural e comunicacional con-
uma só comunidade. O ‘nós’ é mais impor- temporâneos, é interessante que sejamos
tante que o ‘eu’. Como prenuncia o umbuntu, monotemáticos, unilaterais, maniqueís-
uma antiga palavra africana que tem origem tas e unidimensionais. Porém, cada ser
na língua zulu (pertencente ao grupo lin- humano carrega a herança de sua história
guístico bantu), “uma pessoa é uma pessoa pessoal e de sua memória coletiva. Somos
através (por meio) de outras pessoas”. seres poliédricos, plurais, diversos, com-
A Ecologia da Comunicação perse- plexos e indeterminados. O bem e o mal
gue garantir um equilíbrio ecológico dos de uma vida não se decidem a partir de
meios, ou seja, adaptar as tecnologias da princípios preestabelecidos: eles se deci-
informação às condições e possibilidades dem na complexidade da própria vida da
da comunicação primária/presencial, o que qual se trata.
Paulus • Revista de Comunicação da FAPCOM • Volume 2 – No 3 – 1o semestre 2018 107

Entretanto, o sistema sociocomunica- cepção de que tudo está integrado e relacio-


cional atenta contra a liberdade e a cida- nado. Os dilemas contemporâneos reque-
dania na medida em que procura encerrar rem que a proposta da Ecologia da Comu-
cada indivíduo no casulo da mentalidade nicação não pode ser excluída da ecologia
submissa. Mas, como aponta Castells: ambiental, econômica, social, cultural e
cotidiana. Se tudo que acontece com a terra
Entretanto, uma vez que as socie- acontece com os filhos da terra, a ecologia
dades são contraditórias e conflitivas, da comunicação deve ampliar-se para uma
onde há poder há também contrapoder perspectiva de uma ecologia da comunica-
[...]. A verdadeira configuração do Es- ção integrativa.
tado e de outras instituições que regu- É fundamental pensar a comunicação
lam a vida das pessoas depende dessa humana e social no âmbito da complexida-
constante interação de poder e contra- de na qual se entende que na mesma me-
poder. (CASTELLS, 2013, p. 27). dida em que a natureza, a economia, a so-
ciedade, a cultura, o cotidiano afetam a co-
Dentro dessas contradições cresce uma municação, ela também é simultaneamente
consciência coletiva que anseia por liberda- afetada e afeta seu entorno.
de e democracia. O novo emerge. A expan- Os movimentos sociais que aspiram a
são da catástrofe, da barbárie e da brutali- uma sociedade mais justa, igualitária, de-
dade não é suficiente para aniquilar a espe- mocrática e livre podem compreender que
rança, pois na história da humanidade cada a comunicação não é um mero instrumento
ato de destruição encontrou sua resposta midiático de luta, mas um sistema comple-
num ato de criação. A proposta da Ecologia xo, diverso, indeterminado e vinculante.
da Comunicação aponta para um potencial A Ecologia da Comunicação está pre-
utópico, como dimensão do real gerando sente no paradigma da sustentabilidade,
forças de construção e de acolhida do novo. na educação ambiental, na luta pela ma-
nutenção dos biomas e da biodiversidade,
na preservação das florestas, no combate
Considerações finais contra o desmatamento, na possibilidade
A minha humanidade está inextricavelmente do uso da energia verde. Está presente na
ligada à sua humanidade. permacultura, na militância de Vandana
(Lema Umbuntu) Shiva (2003) e sua denúncia a respeito da
“monocultura da mente”.
A reflexão de Romano nos convoca a E Ecologia da Comunicação é insepará-
pensar a respeito das possibilidades da vel da ecologia econômica que propõe um
Ecologia da Comunicação que aqui procu- outro modelo de produção e distribuição de
ra-se não apenas traduzir, mas, sobretudo riqueza. Os recursos são limitados e finitos.
ampliar, integrando o conceito em uma es- É preciso saber bem como e quando usá-los
cala ecológica em interseção com todas as e como fazer para repô-los. É imperativo
outras ecologias. que o pensamento econômico considere a
Um primeiro movimento está na per- sustentabilidade, o consumo consciente, o
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uso austero da energia, a reutilização dos cultural. E a comunicação massiva hege-


materiais descartáveis, a redução do lixo, mônica exerce um papel preponderante
o uso e a reutilização da água como funda- nesse contexto na medida em que pasteu-
mentos das suas práticas. riza os conteúdos simbólicos. A Ecologia
O modelo econômico que ignora a pro- da Comunicação denuncia a síndrome con-
posta da sustentabilidade é gerador de bol- sumista protegendo a diversidade cultural
sões e misérias no mundo, engendrando contra a colonização do mercado global.
uma lógica de desigualdade acirradamente A Ecologia da Comunicação emerge em
desumana. Por isso, a Ecologia da Comu- todas as minorias, excluídos. Insurge nas
nicação é intrínseca à ecologia social. Como identidades de gênero LGTB, nos afro-
já foi dito, sendo a comunicação uma expe- -brasileiros, nos refugiados, nos palestinos,
riência excepcional para a constituição dos nos povos originários da América Latina,
vínculos humanos, a ecologia da comuni- nos ciclistas de Guadalajara, nos campone-
cação volta-se, sobretudo, no sentido de ses sem terra, na mulher trabalhadora que
restaurar a perda dos laços e dos vínculos, habita as periferias das grandes cidades,
valorizando o pertencimento, a comunica- nos grafiteiros e em todos aqueles que pro-
ção presencial e o encontro humano. movem uma estruturação vinculativa e um
A globalização criou uma nova religião: modo de organizar a sociedade simbolica-
a religião do consumo. Esse padrão tende a mente. Organizam-se num modelo ecoló-
homogeneizar, enfraquecendo a variedade gico, social e comunicacional horizontal.

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