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DESIGUALDADE E POBREZA NO BRASIL

o
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão
Ricardo Henriques
MINISTRO
Organizador
Martus Tavares
SECRETÁRIO EXECUTIVO
Guilherme Dias

Desigualdade .Z'-;'~'"

e p. ooreza no
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
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Fundação pública vinculada PRESIDENTE "' (. '{.J Jc . - \
ao Ministério do Planejamento, Roberto Borges Martins
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Bras il
Orçamento e Gestão, o IPEA
fornece suporte técnico e
DIRETOR DE ESTUDOS MACROECONÔMICOS
Alexandre Rands Barros
"Oh 40".
<:y,q c
"J
.J
Eustáquio José Reis
institucional às ações governa- Ana Maria H. C. Oliveira /.e "",-,,' _ "'o~
mentais e disponibiliza, para DIRETOR DE ESTUDOS REGIONAIS E URBANOS
Carlos Azzoni , , _
Carlos Henrique Corseuil
a sociedade, elementos Gustavo Maia Gomes
Claudio C. Beato F.
necessários ao conhecimento DIRETOR DE ADMINISTRAÇÃO E FINANÇAS Cristiana Lopes
e à solução dos problemas Edmond Preteceille
Hubimaier Cantuária Santiago
econômicos e sociais do país. Eduardo Luiz G. Rios-Neto
DIRETOR DE ESTUDOS SETORIAIS Elisa P. Reis
Inúmeras políticas e programas Francisco H. G. Ferreira
Luís Fernando Tironi
de desenvolvimento brasileiro IIka Afonso Reis
são formulados a partir de DIRETOR DE COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO Joachim von Amsberg
estudos e pesquisas realizados Murilo Lôbo José Paulo Zeetano Chahad
Julie A. Litchfield
pelas equipes de especialistas Kimberly Nead
DIRETOR DE ESTUDOS SOCIAIS
do IPEA. Lauro Ramos
Ricardo Paes de Barros
Lena Lavinas
Licia Valladares
COORDENADOR DA ÁREA DE APOIO TÉCNICO Marcelo Neri
Parainformações sobre aquisição Antonio Semeraro Rito Cardoso Marcos de Barros Lisboa
das publicações do IPEA: Maria Carolina da S. Leme
Maria Helena G. de Castro
DIVISÃOEDITORIAL
DIVISÃOEDITORIAL Maria Lucia Vieira
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Rio de Janeiro: Av. Presidente Mônica Viegas Andrade
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ILUSTRAÇÃO
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70076-900 - Brasília, DF REVISÃO Reynaldo Fernandes
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André Pinheiro* Ricardo Paesde Barros
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Luiz Carlos Palhares* Rosane Mendonça
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
Samir Cury
Sandra Correia de Andrade
Roberto das Chagas Campos (chefe) Simone Wajnman
Carlos Henrique Santos Vianna* Sonia Rocha
ISBN 85-86170-17-8 Carlos José de Almeida Pereira* Tatiane Menezes

li- Un;way . Cooperativa de Profissionais Liberais

A produção editorial deste volume contou com o


apoio financeiro do Banco Interamericano
Desenvolvimento.
de
BID. por intermédio do Programa
(peA Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada
Rede de Pesquisa e Desenvolvimento de Políticas
Desigualdade e pobreza no Brasil
~ Públicas. Rede-IPEA, operacionalizado pelo
Projeto BRAI97/013 de Cooperação Técnica com o
BID PNUD.

1\11\11 \\\111111111\\11111\ \1\\ \11\

30698 IPEA - BSB


Desigualdade e Pobreza no Brasil
@ Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA .. íNDICE

INSTlTU1 :1 ECONÔMiCA

.0 _?1ILG-3.-ff------------------------------.--
DA TA ... -f8.....i .__.03.-J .1)/ . - INTRODUÇÃO
Desnaturalizar a desigualdade e erradicar a pobreza:
por um novo acordo social no Brasil Ricardo Henriques 1

PARTE I
Desigualdade e Pobreza no Brasil: retratos da realidade
contemporânea e estratégias de mensuração

Capítulo I
A estabilidade inaceitável: desigualdade e pobreza no Brasil
Ricardo Paes de Barros. Ricardo Henriques e Rosane Mendonça 21
. Desigual~ade e Po~reza no Brasil / organizado por Capítulo 2
Desigualdade, pobreza e bem-estar social no Brasil - 1981/95
Ricardo Hennques .- RIo de Janeiro: IPEA, 2000. Francisco H. G. Ferreira e Julie A. Litchfield 49
740 p.: il.
Capítulo 3
ISBN 85-86170-17-8 Mensuração da desigualdade e da pobreza no Brasil
Rodolfo Hoffmann 81
1..Desigua~~ade so.cial. 2. Pobreza. 3. Desenvolvimento econômico Capítulo 4
e soc~al. 4. Pohtlca s.oclal. 5. Brasil. I. Henriques, Ricardo, org. Estimação de linhas de indigência e de pobreza: opções
Il.Instltuto de Pesquisa Econômica Aplicada metodológicas no Brasil Sonia Rocha 109

CDD 362.5. PARTE 11


Desigualdade e Pobreza no Brasil: origens e determinantes

Capítulo 5
Os determinantes da desigualdde de renda no Brasil: luta de
classes ou heterogeneidade educacional'? Francisco H. G. Ferreira 131
Capítulo 6
Os art~Y.0sapresentados neste volume são de inteira Determinantes da desigualdade de rendimentos no Brasil nos
respo~sab"/~ade de seus autores. As opiniões neles emitidas anos 90: discriminação, segmentação e heterogeneidade dos
nao expnmem, necessariamente, o ponto de vista do trabalhadores Lauro Ramos e Maria Lucia Vieira 159
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.
Capítulo 7 PARTE IV
Mercado de trabalho e pobreza no Brasil Ricardo Paes de Barros Políticas de combate à desigualdade e à pobreza no Brasil: marcos
Carlos Henrique Corseuil e Phillippe G. Leite .' 177 de avaliação e desenho de políticas públicas
Capítulo 8
A evoluçã~ da distribuição de salários no Brasil: fatos estilizados Capítulo 18
para a~ decadas de 80 e 90 Naércio Menezes-Filho, Reynaldo Fernandes e Políticas estruturais de combate à pobreza no Brasil Marcelo Neri 503
Paulo PICchetti 231
Capítulo 9 Capítulo 19
Combinando compensatório e redistributivo: o desafio das
Ten~ência~ de co.orte nos diferenciais de rendimentos por sexo
políticas sociais no Brasil Lena Lavinas ; 527
Mana Carolina da Silva Leme e Simone Wajnman 251
Capítulo 10 Capítulo 20
O seguro-desemprego no contexto do sistema público de
~bertura comercial e liberalização do fluxo de capitais no Brasil:
emprego e o seu papel no combate à pobreza no caso brasileiro
Impactos ~obre a pobreza e a desigualdade Ricardo Paes de Barros,
José Paulo Zeetano Chahad 561
Carlos Hennque Corseuil e Samir Cury 271
Capítulo II Capítulo 21
Políticas voltadas para a pobreza: o caso da formação profissional
~eografia e convergência da renda entre os estados brasileiros
Eduardo Luiz G. Rios-Neto e Ana Maria H. C. Oliveira 589
Carlos Azzoni, Naércio Menezes-Filho, Tatiane Menezes e Raul Silveira Neto 299
Capítulo 22
A eficiência do Plano Nacional de Qualificação Profissional como
PARTE 111
instrumento de combate à pobreza no Brasil: os casos de
Desigualdade e pobreza no Brasil: recortes setoriais e Pernambuco e Mato Grosso Alexandre Rands Barros,
percepções dos atores Sandra Correia de Andrade e Roberto Accioly Perrelli 615
Capítulo 12 Capítulo 23
De~esperança de vida: homicídio em Minas Gerais, Rio de Janeiro Impactos da distribuição da terra sobre a eficiência agrícola e a
e Sao Paulo no período 1981/97 Mônica Viegas Andrade e pobreza no Nordeste Ricardo Paes de Barros, Rosane Mendonça,
Marcos de Barros Lisboa 347 Priscila Pereira Deliberalli e Cristiana Lopes 639
Capítulo 13 Capítulo 24
Desigualdade, desenvolvimento socioeconõmico e crime A focalização do gasto social sobre a pobreza no Brasil
Claudio C. Beato F., I1ka Afonso Reis 385 Joachim von Amsberg, Peter Lanjouw e Kimberly Nead 685
Capítulo 14 Capítulo 25
Pelo fim das décadas perdidas: educação e desenvolvimento Focalização dos gastos públicos sociais e erradicação da pobreza
sustentado no Brasil Ricardo Paes de Barros, Ricardo Henriques e no Brasil Ricardo Paes de Barros e Miguel Nathan Foguel. 719
Rosane Mendonça 405
Capítulo 15
As ~esigualdades regionais no sistema educacional brasileiro
Mana Helena Guimarães de Castro 425
Capítulo 16
A desigualdade entre os pobres - favela, favelas
_ ~dmond Preteceille e Licia Valladares 459
Capítulo 17
Percepções da elite sobre pobreza e desigualdade Elisa P. Reis 487
... Desnaturalizar a
desigualdade e erradicar
a pobreza: por um novo
acordo social no Brasil

Ricardo Henriques*

"O problema político da humanidade é


combinar três questões: eficiência
econômica, justiça social e liberdade
individual."
(J. M. Keynes, 1926)

ozes e olhares atentos estiveram, no último ano do milênio,

V mergulhados na tentativa de entender por que somos campeões


mundiais em desigualdade. Título vergonhoso, produto de uma
herança de injustiça social que vem excluindo parte significativa da
população brasileira do acesso a condições mínimas de dignidade e
cidadania. Nesse contexto, a provocativa frase de Nelson Rodrigues
toma contornos trágicos: "subdesenvolvimento não se improvisa, é
obra de séculos". Sabemos da evidente limitação do conceito de
subdesenvolvimento, mas trata-se, hoje, de pensar os parâmetros de
uma sociedade mais justa, que crie as bases para um desenvolvimento
sustentado em termos sociais, econômicos, políticos, éticos e
culturais.
A discussão cotidiana nos bares, na academia, nos lares, no
Congresso, no Senado, nas empresas, na mídia e na sociedade civil
como um todo tem sido, em grande medida, pautada pela
compreensão da injustiça social e da pobreza que afligem o Brasil. A
perplexidade com a pobreza e o desconforto com a desigualdade
mobilizaram a arena pública para o complexo debate acerca dos
horizontes e das políticas de combate à desigualdade e à pobreza em
nosso país. Sem dúvida, um avanço histórico para uma sociedade
habituada, nas últimas décadas, a pensar, com incessante angústia,
* Da Diretoria de Estudos Sociais do IPEA e do Departamento de Economia da UFF.
2 3
1; sobre o curto prazo da desordem inflacionária e dos descaminhos das entanto, trata-se de um artifício, de uma máquina, de um produto de :c;
J5 finanças. O debate se torna denso, solicita engajamento e aparenta cultura que resulta de um acordo social excludent~, que .nao, , J5
ê querer enfrentar nossos problemas de longo prazo. reconhece a cidadania para todos, onde a cidadama dos mclmdos e ê
t Desigualdade e Pobreza no Brasil pretende participar desse debate. O
~ livro reúne 25 artigos, de cerca de 40 pesquisadores, com distintas
distinta da dos excluídos e, em decorrência, também são distintos os
direitos, as oportunidades e os horizontes.
.~
~~
~ abordagens sobre o tema. Concebido a partir de um enfoque O Brasil, ao completar 500 anos, talvez esteja descobri~do. seu ~
f multidisciplinar, procura ser um instrumento para o diálogo rigoroso principal desafio. A pobreza é o mais agudo problema eco~omico ?O ;:
e criativo sobre o diagnóstico socioeconômico de nosso precário país. A desigualdade é o maior problem.a :st~utural do paiS. ErradICar ~
acordo social e sobre as proposições de políticas públicas para a a pobreza e combater a desigualdade, bmomlO complexo que sustenta ~
redução da desigualdade e erradicação da pobreza. Um livro de o projeto de uma nova sociedade. 1
~
recorte plural, com forte conteúdo analítico e alimentado pelq O velho modelo culinário, tipicamente brasileiro, do "crescer o ~
necessidade, que se impõe ao nosso bom senso, de apontar soluções, bolo para depois distribuir", ou ainda em sua versão nO:lVellecuisine do ~
súgerindo territórios para a formulação das políticas públicas. "crescer, crescer e crescer" como via única de combate a pobreza, ~
Em agosto de 1999 o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada parece apresentar um pensamento que sucu.m?e à inércia, não 1
(IPEA) realizou, no Rio de Janeiro, o seminário que deu origem ao resistindo à complexidade da realidade brasileira. Combater a, ~
livro. A organização do seminário contou, ainda, com o apoio do desigualdade se impõe por óbvias razões de ordem moral mas, alem ~
Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Desigualdade (NIED) e do disso, esse combate representa o caminho estratégico para a ~
Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS). Foram três erradicação definitiva da pobreza em nosso país. ~
longos dias de um debate intenso com um público superior a 200 A tradição da política econômica brasileira, no entanto, reforça de
pessoas, que contou com a participação direta de aproximadamente forma recorrente a via única do crescimento econômico, sem gerar
80 pesquisadores e especialistas representando mais de 50 resultados satisfatórios no que diz respeito à redução da pobreza.
instituições, distribuídos na apresentação de uma mesa-redonda, Nossa desigualdade extrema, por sua vez, tem se mantido inerte,
quatro conferências e 25 artigos.
resistindo às mudanças estruturais e conjunturais das últimas
O seminário representou um marco inaugural no debate sobre décadas. Desigualdade que atravessou impassível o regime militar,
pobreza e desigualdade no país. Realizou um passo significativo para governos democraticamente eleitos e incontáv:i.s laborató:io~ de
a constituição de uma rede de pesquisadores dedicados ao tema. política econômica, além de diversas crises polltlcas, economICas e
Cumpriu seu papel acadêmico de lançar as pontes para a criação de internacionais.
redes de discussão e pesquisa, aglutinando pessoas e instituições de É evidente que o crescimento econômico deve ser perseguido de
distintas origens e formulações, e abrindo as portas do debate. Vários forma incessante mas, ao contrário do que comungam alguns
pesquisadores, infelizmente, não puderam participar, mas o caráter de cânones da economia, creio que não deve ser perseguido como um
pluralidade e competência que orientou a organização do evento foi fim em si mesmo. Como nos sugere o Prêmio Nobel de economia
preservado. O livro mantém idêntico espírito mas pretende dar um Amartya Sen, o desenvolvimento deve referir-se à melhoria da
passo adiante, rompendo as barreiras da academia e colocando-se qualidade de vida que levamos e às liberdades que desfrutamos. Desse
como mais um instrumento para o vigoroso e apaixonado debate modo redistribuir a renda e a riqueza no Brasil emerge como
sobre pobreza e desigualdade na sociedade como um todo. elem:nto central para erradicar a pobreza e criar as bases sólidas para
A vergonhosa des~gualdade brasileira não decorre de nenhuma o desenvolvimento sustentado e solidário.
fatalidade histórica, apesar da perturbadora naturalidade com que a O desenho das políticas de redistribuição de renda e de combate à
sociedade a encara. A desigualdade tornada uma experiência natural pobreza, no entanto, não é nada trivial. Desigualdade e pobreza,
não se apresenta aos olhos de nossa sociedade como um artifício. No
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'õ; apesar de serem confundidas em diversos momentos na discussão acordo social, capaz de erradicar a pobreza e desnaturalizar a 'õ;
Ji cotidiana, são dimensões radicalmente distintas de nossa realidade e desigualdade. gE
~ solicitam, po!tanto, soluções diferenciadas. Soluções complexas e
O livro está organizado em quatro partes. A primeira parte, com ~
-! múltiplas. Este livro apresenta diversos ângulos de enfrentamento do
quatro capítulos, procura apresentar os limites genéricos do problema, ~
" problema, mas as propostas de desenho dos componentes da política
I social ainda são insuficientes. Alguns acordos, no entanto, podem ser
.~ destacados.
definindo retratos recentes da estrutura da desigualdade e da pobreza
no Brasil. A segunda, com sete capítulos, pretende rastrear as
~
~
g principais origens e determinantes econômicos ~ socia_is do no,s~o ~
A economia brasileira não parece exibir um problema de carência objeto de estudo. A terceira apresenta algumas mcu.rsoes ~ematIcas, , ~
de ~ecursos. O B,rasil não é um país pobre, mas um país injusto com procurando analisar implicações e percepções aSSOCIadas a p~breza e a li
muItos pobres. E possível enfrentar a pobreza, mas é necessário fazer desigualdade. Seis artigos de recortes setoriais tratando de cnme, ~
com que os recursos cheguem aos pobres. Assim, a questão da
focalização dos gastos sociais sobre a população pobre deve assumir
educação, favelas e percepções dos atores soci.ais. A 3uarta e úl,ti.ma
parte reúne oito artigos discutindo diversas dlmensoes das ~ohtIcas
t~
em papel central em nossa formulação. de combate à pobreza e à desigualdade, procurando construu marcos ~
Por outro lado, para focalizar, não basta a formulação brilhante e relevantes para a avaliação e desenho das políticas públicas ~
bem intencionada de mentes iluminadas. É necessário avaliar de brasileiras. Procurarei, de forma breve, apresentar cada um dos 25 t
forma permanente os programas sociais existentes no país e no artigos do livro. ~'"
exterior para entender os avanços e os limites associados ao desenho Ricardo Paes de Barros, Ricardo Henriques e Rosane Mendonça ~
desses programas e, dessa forma, redesenhar continuamente os assinam o capítulo inicial do livro, oferecendo uma radiografia que ~
programas para que atendam aos critérios de justiça e desfrutem de procura desvendar os componentes da constância ~e. um ~adr~o, de 2:í
eficiência e eficácia na sua implementação. desigualdade intocado nas últimas décadas. A establltdad: ~naceltavel:
Além disso, do ponto de vista estrutural e reconhecendo a desigualdade e pobreza no Brasil procura ser um relato empmco e
desigualdade como principal fator de explicação do excessivo nível de descritivo que demonstre que o Brasil não é um país pobre, mas ao
pobreza do país, devemos conceber programas de natureza contrário um país injusto com muitos pobres, onde a desigualdade é o
compensatória com elevada focalização para enfrentar o horizonte de principal determinante dos elevados níveis de pobreza com qu~ .
curto prazo e programas redistributivos estruturais, direcionados convivemos. As simulações de políticas distributivas e os exerclClOS
sobretudo para uma intensa redistribuição de ativos na sociedade. contrafactuais procuram apresentar parâmetros para discutir a
Redistribuição de terra, redistribuição de renda e de riqueza, acesso a eficácia e a viabilidade das políticas sociais. O artigo procura ainda
crédito e educação universal de qualidade - pilares de uma política demonstrar que, apesar da importância do crescimento econômico, a
estrutural de erradicação da pobreza a partir da redução da possibilidade de erradicar a pobreza no Brasil passa necessariame~te
desigualdade. pela definição de uma estratégia que confira prioridade absoluta a
. É evidente que do ponto de vista do tamanho de nosso desafio e redução da desigualdade social.
ae nossa angústia ainda sabemos muito pouco. Resta-nos atuar com O segundo capítulo, Desigualdade, pobreza e bem-esta~' social.no B~asil
modéstia, persistência, criatividade, rigor e muita dedicação nos _ 1981/95, de autoria de Francisco H. G. Ferreira e Juhe A. LItchfIeld,
diagnósticos, nas formulações de política e no debate com a sociedade analisa a evolução da desigualdade, pobreza e bem-estar social
como um todo. Desigualdade e Pobreza 110 Brasil apresenta-se, portanto, durante os anos 80 e a primeira metade da década de 90 a partir de
como mais um pequeno elemento nessa estrada, ainda longa, mas uma pesquisa cross-section repetida de dados familiares. O artigo
cujos horizontes de igualdade de oportunidades, de condições e de recorre a uma diversidade de técnicas de mensuração de desigualdade
resultados parecem definir-se com alguma nitidez, sugerindo que, e pobreza gerando comparações robustas da evolução do bem-estar,
talvez, a sociedade brasileira esteja tecendo as redes de um novo desigualdade e pobreza no país. A principal conclusão, resultante de
6
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'õ; sofisticado: rigor~so exercício analítico, é que a desigualdade piorou desigualdade de renda no Brasil: luta de c~assesou h~terogeneidade .., 'õ;
~ de forma nao a~bIgua, embora não monotonicamente, durante os educacional?, de Francisco H. G. FerreIra. O capItulo procura IdentIfIcar ~
~ anos 80, mas caIU um pouco durante a primeira metade dos anos 90 os principais determinantes da desigualdade de renda no ~rasiI. ~
-i. A pobreza t~mbém aumentou durante a década de 90, apesar de . Propõe um arcabouço genérico para categorizar os determmantes da ~
~ algum creSCImento nas rendas médias reportadas, mas caiu por volta distribuição de renda, baseado em cinco grupos de fatores: ]
{i de 1995.
~ caraterísticas natas dos indivíduos; suas características adquiridas; o ~
g
f . Rodolfo Hoffmann apresenta, no terceiro capítulo, Mensuração da papel do mercado de trabalho; o papel dos mercados de capital; e o
deslg~aldade e da.pobreza no Brasil, ilustrando o uso de diferentes papel da formação de domicílios. O autor recupera brevemente as
medIdas de desIgualdade e pobreza, e mostra a curva dos quantis (a principais correntes de análise do tema no Brasil e, à luz de seu
Parad~ de Pe~) da distribuição da renda no Brasil com dados da arcabouço, organiza o debate, de forma estilizada, entre "educação" e
P~sqUlsa NaCIOnalpor Amostra de Domicílios (PNAD) de 1997. "luta de classes". A partir da evidência empírica apresentada na
DIscute-se a questão da determinação da linha de pobreza e literatura sugere que o debate é geralmente formulado de modo
calcula.m-se med.idas de pobreza para várias regiões do país em 1997. espúrio, e que seria possível formular uma nova abordagem
A m~dIda de desIgualdade exponencial proposta por Wolfson é indagando sobre a natureza da luta de classes que se dá pela
an.a!Isada em detalhe e o ajustamento de equações de rendimento é formação e distribuição de oportunidades na educação. Um modelo
utIlIzado para discutir os principais fatores associados ao rendimento formal resumido sugere que no Brasil a grande desigualdade
das pessoas ocupadas. educacional gera desigualdade de renda que, por sua vez, acarreta
O q~ar.to capítulo encerra a primeira parte do livro. Sonia Rocha, desigualdade de poder político, reforçando e reiterando a
na c.ontmUldade de seus trabalhos anteriores, propõe uma discussão desigualdade de oportunidades e resultados educacionais. Esse
de ngoroso re~orte metodológico em Estimação de linhas de indigência e equilíbrio é estável, mas desigual e ineficiente.
de pobrez~: ~pçoes metodológicas no Brasil. Apresenta as principais opções O sexto capítulo, Determinantes da desigualdade de rendimentos no
met?dologlCas para a determinação de linhas de pobreza no Brasil a . Brasil nos anos 90: discriminação, segmentação e heterogeneidade dos
partIr do consu~o observado, tendo por base as pesquisas de trabalhadores, de Lauro Ramos e Maria Lucia Vieira, procura identificar
orçamento famIlIar do IBGE. A autora procura ilustrar, a partir de os principais determinantes da assimetria da estrutura de
dados concretos, como escolhas diversas podem influir no valor final rendimentos no mercado de trabalho brasileiro, sinalizando para
?O ~arâmetro obtido e, em conseqüência, nas estimativas sobre eixos centrais de definição de políticas públicas destinadas a reduzir
mCIdência de indigência e pobreza no Brasil. As etapas analisadas se as disparidades socioeconômicas no país. O principal resultado do
ref~rem ao procedimento consagrado na literatura quando se dispõe estudo confirma que a heterogeneidade educacional e os diferenciais
de mformações sobre a estrutura das despesas das famílias, o que de remuneração associados à escolaridade são os principais
resulta e~ dar primazia ao consumo observado como base para o responsáveis tanto para explicar a desigualdade de rendimentos
estabeleCImento dos parâmetros. A principal conclusão do artigo quanto a sua elevação na década de 90. Embora em escala menor,
s~g~~, com absoluta pertinência, uma inspiração pragmática, elementos de discriminação e segmentação também se revelaram
defmmd~ que ~ escolha da metodologia mais adequada para a importantes na explicação da desigualdade de rendimentos.
constr~çao de lmhas de pobreza e de indigência é determinada, O sétimo capítulo, Mercado de trabalho e pobreza no Brasil, de Ricardo
e~senCIalmente, pela disponibilidade de dados estatísticos. Além Paes de Barros, Carlos Henrique Corseuil e Phillippe G. Leite,
dISSO,uma série de relevantes opções e implicações metodológicas é continua a investigação sobre o funcionamento do mercado de
destacada no texto.
trabalho brasileiro. Identifica o fraco desempenho do mercado de
. A segunda parte do livro - Desigualdade e pobreza no Brasil: trabalho tanto em termos de subutilização quanto de
ongens e determinantes - começa com o capítulo Os determinantes da sub-remuneração do fator trabalho, como uma dimensão central da
8
9
~ determinação do nível de pobreza registrado no país. Por intermédio a duas coortes separadas por 10 anos - a dos nascidos em 1952 e a
~ de uma metodologia baseada em micros simulações estima o impacto dos nascidos em 1962. O principal resultado mostra, para as duas
~ de cada imperfeição do mercado de trabalho, especificamente, do coortes, que os diferenciais salariais explicam-se pela componente
i desemprego, da segmentação e da discriminação, sobre a pobreza. Os atribuída à discriminação, que ocorre, de forma preponderan~e, f~ra
{; resultados mostram que o efeito da eliminação de todas as da região Sudeste, nos setores não-agrícolas e entre os que nao sao
~ imperfeições do mercado de trabalho sobre a pobreza não seria muito empregados e nem trabalham por conta própria ..O art~g? constata,
.~ significa tivo.
~ ainda, que a grande redução no diferenci~l s~l~nal. v_enfIcadoentre
, ,O oitavo capít~lo, A evolução da distribuição de salários no Brasil: Jatos essas duas coortes se deve, basicamente, a dImmmçao da
estzlzzados para as decadas de 80 e 90, de Naércio Menezes-Filho, discriminação contra a mulher.
Reynaldo Fernandes e Paulo Picchetti, analisa a evolução da O Capítulo 10, Abertura comercial e liberalização do fluxo de capitais no
desigualdade salarial no Brasil aplicando uma abordagem de Brasil: impactos sobre a pobreza e a desigualdade, de Ricardo Paes de
regressão quantílica aos dados de cross-sections repetidas das PNADs. Barros, Carlos Henrique Corseuil e Samir Cury, apresenta um modelo
.Investiga o papel desempenhado pelas alterações nos retornos de equilíbrio geral computável que procura sim~l~r impa.ct~s de
econômicos à educação e à experiência no período examinado, com a políticas econômicas sobre o bem-estar das famIl~as ,brasileIras..E.m
evolução da desigualdade intragrupos. Os principais resultados particular, o modelo gera indicadores macroeconomlCOS ~ setonaIs,
alcançados sugerem que: a) a dispersão de salários da força de com ênfase nas dimensões de rendimento, pobreza e deSIgualdade.
trabalho masculina permaneceu basicamente constante no período, Realiza-se um conjunto de simulações sobre o processo brasileiro de
mas apresentou substancial crescimento dentro dos grupos separados liberalização do balanço de pagamentos, com ênfase no comércio
por faixa etária e nível educacional; b) os retornos à experiência exterior. O ano de referência do modelo é 1995 e são simuladas as
aumentaram significativamente ao longo do período examinado, características do setor externo de 1985 na estrutura econômica
sendo que esse aumento foi concentrado no grupo de indivíduos brasileira de 1995. O significado desse "experimento" é realizar uma
analfabetos e com educação primária; c) os retornos à educação simulação contrafactual que permita a análise compara~iva de vários
universitária subiram ao longo do período enquanto os retornos à indicadores econômicos agregados e desagregados e estIme os
educação básica e intermediária caíram; d) os retornos à experiência impactos da abertura econômica sobre indicadores de bem-estar.
crescem com a educação; e e) os retornos à educação variam com o Especificamente no que se refere à pobreza, os impactos da abertura
ciclo econômico.
apresentam-se pouco significativos.
O capítulo nono, de Maria Carolina da Silva Leme e Simone A segunda parte do livro termina com o capítulo Geografi~ e , .
Wajnman, entitula-se Tendências de coorte nos diferenciais de rendimentos convergência da renda entre os estados brasileiros, de Carlos AzZO~I,NaercIO
por sexo. O capítulo discute os determinantes do estreitamento do Menezes-Filho, Tatiane Menezes e Raul Silveira Neto. O artIgo
hiato salarial entre homens e mulheres verificado no Brasil no fornece evidências sobre a desigualdade de renda entre os estados
período mais recente. A partir da constatação, por meio de evidências brasileiros no período 1981/96. A utilização de microdados para
, ~para outros países, de que a redução das diferenças por sexo é examinar as questões de convergência apresenta-se como uma
particularmente relevante para as gerações mais jovens e de que a inovação metodológica, com a análise de cross-sections repetidas
tendência de menor hiato quando da entrada dos indivíduos no permitindo construir coortes geográficas com base em datas d~ A •

mercado de trabalho tende a ser mantida à medida que esses nascimento e calcular médias por coortes, anos e estado de resIdenCla
envelhecem, o artigo adota uma estratégia metodológica que para variáveis como renda, educação, participação da força de
privil~gia a dimensão de coorte. Assim, uma vez descrita a redução trabalho e condições de vida. Os resultados mostram que, de m~do
dos dIfe.renciais salariais por sexo no Brasil, apresentam-se equações geral, os investimentos em infra-estrutura pública e em e.duc~çao
de rendImentos para homens e mulheres que utilizam dados relativos parecem contribuir para a redução das desigualdades regIOnaiSno
10
11
~ Brasil. Entretanto, mesmo depois de considerar os efeitos positivos explicar as taxas de criminalidade em
g esperados dos investimentos públicos, há indícios de que a algumas ~ip~teses qu~ b~:~~~aldade ou à carência de serviços
~ desigualdade da renda se retroalimenta, uma vez que os estados mais relação a mdIcadores e gutilizam-se ainda, índices de
t1:: ricos e os estados com mercados de trabalho mais dinâmicos tendem básicos provido~ pelo estado. d s ara todos os municípios do Estado '!
•. a possuir níveis de renda mais altos e a crescer mais rapidamente.
{i criminalidade ~olent~ ~oleta ~osPestimadores empíricos de Bayes e . 1
{l Além disso, segundo o estudo, a importância das variáveis geográficas
g de Minas GeraIS, corngIdos pe . o~micos de modo a sugenr ~
'd indicadores SOClOecon, ~
'~ mostra que uma parcela relevante da intervenção governamental correlaclOna os c~m l' - o das taxas de criminalidade. ê
~ deveria ser direcionada, entre outros, para o desenvolvimento das
hipóteses alternatIvas de exp Icaça _ a
I fi' d décadas perdidas' educaçao e i:i
instituições e melhoria 'da eficiência da ação governamental. O Capítulo 14, Pe o 1m as 'I d Ricardo 'Paes de Barros, Ricardo 1;
A terceira parte do livro - Desigualdade e pobreza no Brasil: desenvolvimento sustentado no Brasl, e a analisar para a realidade ~
. R ne Mendonça, procur, "-
recortes setoriais e percepções dos atores - começa com o artigo Rennques e osa t bil'dade do desenvolvimento ~
Desesperança de vida: homicídio em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo brasileira, a relação entre a s~ten a :ão educacional. O estudo do E
• no período 1981/97. Mônica Viegas Andrade e Marcos de Barros Lisboa socioeconômico e o proce~sod et~:~:~o permite identificar a i
estudam o comportamento das taxas de homicídio na população funcionamento do merca ~ e da for a de trabalho como o ~
masculina e sua relação com variáveis econômicas nos Estados de heterogeneidade.da esc~an~a~e eral d~ desigualdade salarial ~
Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo entre 1981 e 1997. A principal determ,mante o mve ã~ internacional sugere que essa ~
abordagem dos autores se diferencia do tratamento usual da observada no PaIs. A comparaç d de forma g
d ' I aparenta respon er, ~
literatura pela construção de taxas de homicídio específicas para cada heterogeneidade e ucaClona . Idade do país em relação ao ~
idade entre 15 e 40 anos, com as variáveis econômicas apresentando significativa, pelo excesso de ?esIgua t inda que o Brasil apresenta ~
coeficientes significativamente diferentes de zero para a população mundo industrializado. O artIgo ~os ra, a d ' década em
d educaçao de cerca e uma
entre 15 e 19 anos. Como seria esperado, aumentos do salário real e um atraso, em termos a _ d' olvimento similar ao nosso.
quedas da desigualdade tendem a reduzir as taxas de homicídio. relação a países com padrao de esdenv strar em termos empíricos e
. t es procuram emon ,
Surpreende, no entanto, a constatação de que a queda do desemprego Diante dISSO,os a~ or d f . _ para a realidade brasileira, um
parece aumentar essas taxas. Além disso, o artigo identifica a teóricos, a necessIdade de, e I~lf :~' ansão da escolaridade como um
existência de inércia nas taxas de homicídio, ou seja, gerações com processo acelera~~ e conrta~u~es:nv~vimento socieconômico
elemento estrateglCo pa
maior taxa de homicídio quando jovens tendem a apresentar maiores
e üitativo e sustentável do país. ,
taxas de homicídio durante todo o restante do seu ciclo de vida.
q No Capítulo 15, As desigualdades regionais no sis~ema educacIOnal
Assim, parece definir-se um efeito estrutural perverso na medida em
'. G' arães de Castro analIsa o
que, quando as variáveis econômicas induzem a elevação da taxa de brasileiro, Mana Relena. ~lffi. 'ndicadores educacionais na década de
homicídio entre os jovens em determinado ano, essa taxa tende a comportamento dos pnnClpaIS~elhoria gradual dos indicadores
permanecer elevada para toda a geração durante seu ciclo de vida, 90 e mostra que o process~o~e 't os diferenciados nos estados e
independentemente do comportamento posterior da economia. educacionais apresentou en ase e bn m uma clara tendência de
.- b '1' Ainda que se o serve d
O Capítulo 13, Desigualdade, desenvolvimento socioeconômico e crime, reglOes raSI eIros. . f damental os indicadores e
l' - do acesso ao ensmo un ,
de Claudio C. Beato F. e Ilka Afonso Reis, discute a aplicação de uma univ~rsa Iza~ao redu ão substancial dos desníveis
teoria das oportunidades na análise das taxas de criminalidade em qualIdade nao mostram uma . ç stata ainda que algumas
' . t staduais O artIgo con , ,
um dado contexto de desenvolvimento socioeconômico. O objetivo do regionaIs e m ere. m progresso relativo mais
capítulo é utilizar modelos de análise que vão além do exame unidades d~ Fe?era~ão. apresentar~~e~idas pelos governos estaduais e
exclusivo das características sociais dos criminosos para a explicação intenso deVIdo as pn~ndades esta Ih rar sua posição dentro da
municipais, que termmaram por me o , t"cas
do crescimento e distribuição das taxas de crimes. Assim, discutem-se região e em relação a outros estados com caractens I
12 13
'i:; socioe~o.nômicas similares. O artigo sugere que as políticas e capítulo explora as percepções tanto cognitivas quanto normativas da
~ es~ra~egIas~d~tadas pelo MEC, no período recente, têm como elite sobre tais questões. Por fim, é apresentada uma breve
~ pn~CIp~1obJetIvo promover a eqüidade e combater as desigualdades comparação entre as elites brasileiras e aquelas de Bangladesh e da
t regIOnaIs,.no entanto, para atingir essa meta a ação exclusiva, mesmo África do Sul.
{; que equalIzadora, do governo federal parece insuficiente. Como A quarta e última parte do livro - polític_asde.co:nbate à
~ proposta, a autora mostra que, além das iniciativas de desigualdade e à pobreza no Brasil: marcos de avalIaçao.e desen~o de
E respo?sabilida.de de estados e municípios, as instituições de ensino políticas públicas - contém oito capítulos. ~arcelo Nen, n~ artIgo
supenor devenam assumir uma posição mais propositiva em especial Políticas estruturais de combate à pobreza no BraSIl, procura analIsar a
no q~e se refere a políticas adequadas de formação iniciaÍ e relação entre pobreza e acesso a diversos tipos de capital no Brasil,
contmuada, que possibilitem a melhoria do nível de qualificação indicando possibilidades de implementação de políticas de reforço de
docente. capital dos pobres. A estratégia empírica seguida foi analis~r três
,? Capítulo 16: ~e.Edmond Preteceille e Licia Valladares, desloca a diferentes tipos de impactos que o aumento na pos.se de atIV?Sp~los
ana~Ise para o terntono das favelas anunciando a complexidade d pobres pode exercer sobre o nível de bem-esta~ SOCIal.E~ pnmeuo
realIdad . f' essa lugar, o artigo avalia a estrutura de posse de dIferen~es tIpOS?e
e e a msu ICIenCIadas categorias redutoras de alguns
A •

e?foques espaciais. As favelas devem ser entendidas como um plural capitais por meio da distribuição de renda. Em segUIda, o artIg?
dIv,e~so,como .sugere A desigualdade entre os pobres - favela, favelas. A descreve o impacto de geração de renda que a posse de determmados
analIse. da desIgualdade social a partir do recorte tradicional de renda ativos pode ter sobre os pobres. Discute-se como a acumulação de
entre ncos e pobres não deve desconsiderar, entretanto, a diferentes tipos de capital impacta sobre os índices de pobreza. Em
?ete~ogeneidade entre os pobres que caracteriza a desigualdade no terceiro lugar, estuda o efeito que o aumento da posse de ativos dos
mteno: ~a pob~eza. Desse modo, fatores como renda e educação são pobres tem sobre a habilidade desses indivíduos em lidar com
e:senCIaIS na dIferenciação s?cial, ~orém os autores ressaltam que choques adversos de renda.
nao se deve mer:os.pre:ar a dImensao espacial da desigualdade. A Lena Lavinas, no Capítulo 19, Combinando compensatório e
cautel~ met~dologlCa e essencial na comparação entre favela e redistributivo: o desafio das políticas sociais no Brasil, analisa, em detalhes,
exclusao socIal, tendo ,em vi~ta que não se observa uma distinção tão dois programas compensatórios de segurança alimentar praticados no
forte no q~e se refere .a qualIdade do equipamento urbano, à condição Brasil discutindo seu desenho e seus resultados. O estudo
da .ocupaçao e ao perfIl socioeconômico. Assim, como constata o conce~tra-se em um programa federal, o Prodea, e em outro
ar~Ig.o,apesar de a maioria dos indicadores em favela estar abaixo da programa estadual de grande capilaridade, o Cesta do Povo. O
me~Ia ne~.sesaspectos, as situações de pobreza urbana extrema são argumento subjacente é de que os desenhos atuais são i~eficazes :
maIS frequentes fora das favelas. ineficientes e de que uma transferência direta de renda a populaça o
Eli:a P. R:is encerra essa parte do livro com o Capítulo 17, mais carente teria maior impacto redistributivo, engendrando
Percepçoes da :lzte sob~e ~obreza e desigualdade. O artigo analisa a visão de também maiores níveis de eficiência econômica .
. r setores da elIte brasIleIra sobre a pobreza e a desigualdade. Com base O capítulo 20, de José Paulo Zeetano Chahad, intitula-se O
no arg,u~ento de que as percepções daqueles que comandam recursos seguro-desemprego no contexto do sistema público de emprego e o seu papel no
est:a.tegIcos .a~etam diretamente a formulação e implementação de combate à pobreza no caso brasileiro. Como referência histórica dev~mos
polItIcas SOCIaIS, e amparada por alguns estudos pioneiros realizados lembrar que o seguro-desemprego foi implantado em 1986, o Sme em
na Europ~. : n~s Estados Unidos, a autora se propõe a investigar como 1975 e a formação profissional na década de 40. De acordo com o
as consequenCIas da pobreza e da desigualdade são vistas fora do autor, o funcionamento isolado desses programas tem sido fonte de
mundo ~os pobres. A partir de dados de survey, entrevistas em ineficiência e ineficácia nos resultados obtidos, além de conduzir a
profundIdade e artigos assinados publicados na grande imprensa, o inúmeras distorções, efeitos negativos e incentivos adversos ao
14
15
~ funcionamento do mercado de trabalho. O artigo argumenta que _. mternaCIonals
. e nos resu lt a dos de avaliaçoes .. de programas 'õ;
GeraIS ~
JS parte significativa desses problemas poderia ser minimizada, ou
~ mesmo eliminada, caso aqueles programas fossem articulados, com a similares. I d Qualificação .::
~
t. criação de um sólido sistema público de emprego. Esse sistema
.A • •

' 1 22 A eficzencza do Plano NaClOna e .g'"


No Capltu o.' d bate à pobreza no Brasil: os casos de '"
~" deveria orientar-se por padrões de mercado e ser objeto de avaliação Profissional como Instrumento e co~ Rands Barros Sandra Correia de 1
~~ permanente quanto ao seu desempenho. O seguro-desemprego, por Pernambuco e Mato Gross~, ~;::r~ll~~rocuram disc~tir a capacidade do ~
.::;>
ti sua vez, deveria adequar o pagamento do benefício ao perfil do Andrade e Roberto ACCIOY re o no Brasil e, dessa forma, ê
p
<:) segurado, privilegiando os desempregados de maior risco, bem como Planfor de elevar a renda e o em . g .mpactos potenciais do Planfor à
. b a O artigo ana lsa l os I d ~
criando estímulos à busca efetiva por trabalho. De acordo com a reduzlf a po rez . . seu a el na geração de emprego e ren a ~
proposta do autor, a consolidação desse sistema público de emprego
necessitaria de uma mudança de postura dos agentes envolvidos, de
sobre a pobreza ~or ~e~o dr:ble~a~ do plano para atingir suas metas.
e apresenta os pnnCIpaIS p . t da eficiência do Planfor e
t
~
forma a torná-lo, perante a sociedade, uma "razão de estado", além Os autores discutem os deter~mna~ ~sempíricas acerca dos efeitos E
da preservação do FAT como fonte de recursos para seu apresentam resultados de estlmaçoe da dos profissionais treinados ~
• financiamento. desse plano sobre o emprego e a ren b co e Mato Grosso) em 1998. A ~
Os Capítulos 21 e 22 avaliam as políticas de qualificação pelos PEQs de dois estados ~erna~ ~ está fundada em um t
profissional. No Capítulo 21, Políticas voltadas para a pobreza: o caso da eficiência do Planfor, segun o o ar.lg d'e estado responsáveis pela sua ;:
.líb. . tAvel com as secretanas ~
formação profissional, Eduardo Luiz G. Rios-Neto e Ana Maria H. C. eqUl I no ms a , _ ecebendo incentivos corretos ~
Oliveira recorrem, sobretudo, à análise comparativa entre as execução e as.entidades exec~~~:ra~~~~ :nálise, os autores !
experiências internacionais e brasileira para discutir a relação entre para seu funCIonam~nto. ~:incentivos aos agentes individ~lais .que
pobreza e políticas de trabalho, em particular o papel da qualificação apresentam um conJun~do d f ma a conceder maior efiCIênCIaao
deveriam ser desenvolvIas e ar
profissional. O artigo procura analisar detalhadamente as políticas de
bem-estar (passivas) americanas e sua ligação com políticas ativas de Planfor fi.A .
O ~apítulo 23, Impactos da distribuição da terra sobre a e zczencza
trabalho, principalmente a qualificação profissional. O quadro
d de Ricardo Paes de Barros, Rosane
analítico do capítulo divide-se entre a ênfase na questão da pobreza, agrícola e a pob~ez~ no Nor:. estDe,l.b Ui e Cristiana Lopes, discute a
d PnsCIla PereIra e I era
em que as políticas respondem a falhas do mercado e a provisão social Men onça, . .b. - de terras para o aumento na
é redistributiva, e a ênfase na questão da exclusão e da inclusão potencialidade d.eu~a.r:dlstn Uláaono Nordeste. O estudo demonstra
social, em que as políticas de bem-estar social representam um
princípio organizador da sociedade, destacando a relação entre os ~~~i:~~i~i: t~~~t;~~~~ii~~ t1:ar~:sf~er~al.sS
aPq~;~~aJ~
;~;:::l~:~
.- d N rdeste entre as aml la
grupos sociais que caracterizam a dualidade exclusão-inclusão. Três mesorreglao o 0_ .mentos da respectiva
aspectos são destacados pelos autores no tratamento das políticas de (proprietárias ou nao) nos estabe!eCdl ho médio dos
.- I . uma reduçao o taman
trabalho no contexto das políticas de combate à pobreza: a) as mesorreglao evana a ._ ara algo entre 50% e 25% da
. t em cada mesorreglao p
diferenças entre políticas de trabalho ativas e passivas (políticas de estabeleCImen os b tancial do lucro por hectare que
~ bem-estar versus políticas de seguridade social); b) a discussão da a
média em 1985 e um aume?to;: q~e na situação observada em
A

noção de programas com participação compulsória versus voluntária; e seria de duas a t~es vezes maIOr r hectare resultante da
c) a comparação das políticas de treinamento no Brasil e no exterior, 1985. Esse creSCImento no l~cr~ po. nificativo que apesar da redução
com ênfase nas características d~ concepção, execução e desempenho, redistribuição das ter~a~ s~na ~~~SSI~lucro por est~belecimento
assim como nas experiências recentes de avaliação. A base empírica no tamanho dos ~sta e eCIme s a~ mesorregiões, exceto nas áreas de
para a discussão está fundada nos resultados preliminares da cresceria em pratlCament: toda d Zona da Mata e do Litoral Sul
avaliação do Programa Estadual de Qualificação (PEQ) de Minas alta lucratividade, como e o caso aI tividade por estabelecimento
baiano. Os cálculos mostram que a ucra
16
17
'(;; obtida após a distribuição eqüitativa das terras tende a gerar um lucro
investiga-se o grau de focalização dos programas ~ompe~s~tórios
~ por estabelecimento e, portanto, uma renda familiar na área rural, em
~ todas as mesorregiões analisadas, de cerca de um salário mínimo. baseados em transferências monetárias e dos servIços pubhcos
~ . 's , I'ncluindo o de merenda escolar.
i Esse lucro adicionado ao valor do trabalho dos membros da família e ducaClOnm . Os resultados ddessa
análise mostram que uma parcela significativa dos recursos esses
{; seria certamente suficiente para garantir a todas elas na área rural da
~g região Nordeste uma renda per capita superior a 1/2 salário mínimo rogramas e serviços está mal foc~l.iza~a nos pobres, revelan_do,
Portanto, a existência de um sigmfIcatIvo espaço para reduçao da
.6' por mês. A redistribuição de terras, portanto, apresenta-se como um
Q instrumento eficaz de combate à pobreza na região Nordeste. ~obreza sem que seja necessário aumentar o volume dos gastos
.. T'endo em vista que os recursos liberados para os programas
Os Capítulos 24 e 25 do livro procuram investigar distintas SOCIaIS. f' t a
sociais brasileiros aparentam ser mais do que su IClen es par . d
dimensões da focalização dos gastos sociais brasileiros. Joachim von erradicar a pobreza desde que bem focalizados, abre-se uma a~en a
Amsberg, Peter Lanjouw e Kimberly Nead, no Capítulo 24, A de pesquisa que deve responder por que esses programas contmuam
focalização do gasto social sobre a pobreza no Brasil, apresentam, de forma mal focalizados e como é possível desenhar programas ,
• consolidada, a incidência do gasto e a cobertura por quintil de compensatórios focalizados sobre a população pobre ~o paIS.
consumo para um vasto conjunto de programas de gasto social no
Antes de encerrar esta introdução ao livro, gostana de agradecer,
Brasil. A análise procura enfatizar a efetividade relativa de diferentes
programas na transferência de recursos para a população pobre. de forma sincera e contundente, a colaboração dos diversos
painelistas, debatedores, coordenadores de mesa e au~ores que 1
Considerando hipóteses específicas sobre razões de custo-benefício de
diferentes programas, o capítulo propõe um ranking indicativo da participaram do seminário. A participação de todos fOIfun~a~enta
efetividade da transferência dos programas sociais. As principais para garantir densidade ao debate que, finalmente, conduzIU a
conclusões do artigo são que uma parcela relativamente pequena ublicação do presente livro. Cito-os (perdoem-me os que p~~e~tura
p ) em ordem alfabética e sem identificação de suas fIhaçoes
(13%) do gasto social (incluindo pensões) atinge a população pobre e esquecer T C h Ana
que muitos programas são menos efetivos do que um programa institucionais. Muito obrigado, Ama~ry de Souza, Ame. la o n,
L b to André Urani, Aser Cortines, Atila Roque, Beatnz Azeredo,
uniforme hipotético de transferência de recursos para todos os
brasileiros (pobres ou não-pobres). Os autores apresentam, ainda, c~r~s Nberto Ramos, Carlos Hasenbalg, Célia Lessa, Eduardo ,.
.
Sup 1lCy, Edward Amadeo , Gustavo Gonzaga,, , .Herton ElleryJ ArauJo,
sugestões para uma possível realocação do gasto no interior e entre as
diversas áreas dos programas de modo a reformular parcialmente João Sabóia, José Guilherme Reis, Jose MarClOCamargo, uarez.
esses programas, assegurando melhor focalização do gasto social. Rubens Brandão Lopes, Lilibeth Cardoso Roballo, Marcelo .MedeIr~s,.
Marco Antônio Diniz Brandão, Maria Cecília Minayo, Mana Hermlma
No último capítulo, Ricardo Paes de Barros, em mais uma Tavares de Almeida, Maria Luiza de Aguiar Marq~es, Marta Mayer,
parceria presente neste livro, assina com Miguel Nathan Foguel Miguel Darcy de Oliveira, Milton Seligman, NasSIm G. Mehedf~, Peter
Focalização dos gastos públicos sociais e erradicação da pobreza no Brasil O
F , Roberto Martins, Ruth Cardoso, Simon Schwar~~ma~, Sheila
capítulo identifica a má focalização dos gastos sociais sobre a pobreza N~berg, Vilmar Faria, Walfrido Mares Guia, Wasmaha BlVar,Yvonne
. ~como a principal razão pela qual esses gastos não são capazes de
Maggie.
erradicar ou ao menos reduzir a pobreza de forma acentuada no país.
Os autores investigam qual seria o impacto de uma melhor Agradeço a Nelson Cruz e sua excelente ~quipe que,.con:
focalização dos gastos sociais sobre a pobreza no Brasil. São infatigável dedicação e solidariedade, garantIra~ a .p~bhcaça~ do
livro; confesso que, por vezes, nos bastidores edItonals, pareCla uma
discutidas a extensão da pobreza e o volume de recursos necessários
para erradicá-la. Os .resultados mostram que o custo de erradicar a missão impossível. . .
pobreza é estimado em apenas 4% da renda nacional ou cerca de 25% Agradeço, com especial carinho, a Renata O.r~fino e ~ Mmam
dos recursos públicos já dedicados à área social. Diante disso Neres, cuja colaboração atenta e dedicada permItIU dar V1dae alma
tanto ao seminário como ao livro.
18
~ Agradeço enfim, agora de público, às dezenas de autores que nos Desigualdade e pobreza
~ permitem debruçar, com certa angústia e desconforto, mas, acredito, no Brasil: retratos da"
II
~ com muita esperança, sobre as centenas de páginas e incontáveis realidade contemporanea
e estratégias de
t~ idéias que povoam este livro.
mensuração
~ Boa leitura. Ao debate!
:l!
g
.~
iC
C)
Capítulo I
A estabilidade inaceitável: .
desigualdade e pobreza no Bras~1
Ricardo Paes de Barros / Ricardo Hennques /
Rosane Mendonça
Capítulo 2
Desigualdade, pobreza e bem-estar
social no Brasil- 1981/95
Francisco H. G. Ferreira / Julie A. Litchfield
Capítulo 3
Mensuração da desigualdade e da
pobreza no Brasil Rodolfo Hoffmann
Capítulo 4
Estimação de linhas de indigê~ci?
e de pobreza: opções metodologlcas
no Brasil Sonia Rocha
A estabilidade inaceitável:
desigualdade e pobreza
no Brasil*

Ricardo Paes de Barros**


Ricardo Henriques***
Rosane Mendonça***

1 - Introdução
o Brasil, nas últimas décadas, confirma, infelizmente, uma tendência de
enorme desigualdade na distribuição de renda e elevados níveis de pobreza. Um
país desigual, exposto ao desafio histórico de enfrentar uma herança de injusti-
ça social que excluiu parte significativa de sua população do acesso a condições
mínimas de dignidade e cidadania. Este trabalho procura descrever a situação
atual e a evolução da magnitude e da natureza da pobreza e da desigualdade no
Brasil, estabelecendo as inter-relações causais dessas dimensões.
Trata-se de um relato empírico e descritivo, que retrata a realidade da po-
breza e da desigualdade. Nossa hipótese central, presente em estudos anterio-
res,1 é que, em primeiro lugar, o Brasil não é um país pobre, mas um país com
muitos pobres. Em segundo lugar, os elevados níveis de pobreza que afligem a
sociedade encontram seu principal determinante na estrutura da desigualdade
brasileira, uma perversa desigualdade na distribuição da renda e das oportuni-
dades de inclusão econômica e social.
Procuramos, ainda, demonstrar a viabilidade econômica do combate à po-
breza e justificar a importância, no atual contexto econômico e institucional
brasileiro, de estabelecer estratégias que não descartem a via do crescimento
econômico, mas que enfatizem, sobretudo, o papel de políticas redistributivas
que enfrentem a desigualdade.

* os autores agradecem a colaboração de toda a equipe do lPEA. Este artigo é uma versão atualiza-
da de Barros, Henriques e Mendonça (2000a).
** Da Diretoria de Estudos Sociais do IPEA.
*** Da Diretoria de Estudos Sociais do IPEA e do Departamento de economia da UFF.
1 Ver, entre outros, Barros, Henriques e Mendonça (1999) e Barros e Mendonça (1995a e b e
1996).
22 23
't:; O trabalho está organizado em três a A' . rior ao nível mínimo necessário para que possam satisfazer suas necessidades
~ a pobreza no país, descrevendo sua evo~ r~~s~a p:~elfa parte v~sa mensurar ~
mais básicas.5 A magnitude da pobreza está diretamente relacionada ao núme- E
~ gunda parte procura estabelecer um di ç, . S ultlI~~S duas decadas. A se- '"
~ determinantes da pobreza doc adgnostlCo genenco sobre os principais ro de pessoas vivendo em famílias com renda per capita abaixo da linha de pobre- ~
~ ' umentan o em que m d'd za e à distância da renda per capita de cada família pobre em relação à linha de ~
~ observado no país se deve à insufici A . e I a o grau de pobreza
~ ção dos recursos existentes. Nessa ~~~~aagrel~ada de recursos ou à má distribui- pobreza.6 "!
] cional e uma análise da evolução des e~/ea Iza_mos uma comparação interna- Os resultados revelam que, em 1999, cerca de 14% da população brasileira ~
I Em seguida, procuramos em partic~~s I~1ensoes ao longo do período recente. vivem em famílias com renda inferior à linha de indigência e 34% em famílias ]
,~

de renda entre as família; brasileiras ~r;er es~reve,\ ~ estrutura da distribuição com renda inferior à linha de pobreza. Desse modo, como vemos na Tabela 1, {J
tende retratar em que proporça-o . d celra e u tlma parte do trabalho pre- cerca de 22 milhões de brasileiros podem ser classificados como indigentes e 53 .",
~
, as mo estas reduções na
no penodo analisado resultam do crescim A .
b b
po reza o servadas milhões como pobres.? '1
de renda. Em conclusão e de acord entdo.economlCO ou da redistribuição Ao longo das últimas duas décadas, como observamos na tabela, a intensi- "
' o com o Iagnóstico propo t
texto, d estacamos a necessidade de as olíti
P
,.
I
s o ao ongo do da de da pobreza manteve um comportamento de relativa estabilidade, com J
concederem prioridade à reduça-o d d . cladspublIcas de combate à pobreza apenas duas pequenas contrações, concentradas nos momentos de implemen- ~~
• a eSlgua ade.
tação dos Planos Cruzado e Real. Esse comportamento estável, com a percenta- -.:
gem de pobres oscilando entre 40% e 45% da população, apresenta flutuações
2 - Pobreza no Brasil: afinal, qual o seu tamanho? associadas, sobretudo, à instável dinâmica macroeconômica do período. O grau
A ~volução, ao longo das duas últimas década . . A de pobreza atingiu seus valores máximos durante a recessão do início dos anos
no BrasIl pode ser reconstruída a partI'r da 'I' d s, da pobreza e da mdlgencia 80, quando a percentagem de pobres em 1983 e 1984 ultrapassou a barreira dos
. d " . ana Ise as PNADs do IBGE E
qUlsas omIClhares anuais2 permit' e . ssas pes- 50%. As maiores quedas resultaram, como dissemos, dos impactos dos Planos
sociais que retratam, entre outros a : c~n:tr~Ir uma diversidade de indicadores
Cruzado e Real, fazendo a percentagem de pobres cair abaixo dos 30% e 35%,
drões de vida e da apropriação de ;end:oduÇ~o / ~~trutura da dist:ibuição dos pa-
A b' os m IVI uos e das famílIas brasileiras 3 respectivamen te.
po reza, eVIdentemente não pode s d r 'd . Considerando todo o período, constatamos que a percentagem de pobres
sal, contudo, podemos afirmar' que b er e;m a de forma única e univer-
declinou, aproximadamente, de 40% em 1977 para 34% em 1999. Esse valor
em que os indivíduos não conseguen~ ~~:t:~au~ ere-s~ a s~t~ações d~ carência identificado ao final da série histórica analisada, apesar de ainda ser extrema-
zen te com as referências socialmente est b I 'd padrao mmlmo de vIda condi- mente alto, aparenta representar um novo patamar do nível de pobreza nacio-
Desse modo, a abordagem conceitual da e ~CI as em cada contexto histórico.
nal. A intensidade da queda na magnitude da pobreza ocorrida entre 1993 e
mos, inicialmente, construir uma m d'd a. po r:za absoluta requer que possa-
vida dos indivíduos em uma socied:d~ 1
mva~Ia~t~ .no tempo das condições de
1995 foi menor do que em 1986. No entanto, a queda de 1986 não gerou resulta-
dos sustentados, com o valor da pobreza retornando no ano seguinte ao pata-
essa medida. Em última instância um' rn~ça~ e ~nha de pobreza equivale a
mar vigente antes do Plano Cruzado. Entre 1995 e 1999 a percentagem de po-
metro que permite, a uma sociedade e a I~.a e po .reza pretende ser o parã-
bres permaneceu estável em torno do patamar de 34%, indicando a manuten-
aqueles indivíduos que se encontre sbPe~IfIcda,consIderar como pobres todos
m a alXO o seu valor. ção do impacto posterior ao Plano Real.
Neste trabalho consideramos a pobreza na s d' - . Em decorrência do processo de crescimento populacional, apesar da pe-
dentemente simplificadora) de' f"A . d ua Imensao partIcular (evi-
msu lClenCla e renda i t ' h' b quena queda observada no grau de pobreza, o número de pobres aumentou cer-
na medida em que existem famT . d ' s o e, a po reza apenas
, . I las vlven o com renda familiar4 per capita infe- ca de 13 milhões, passando do total de 41 milhões em 1977 para 53 milhões em
1999. A combinação entre as flutuações macroeconômicas e o crescimento po-
2 Observe-se que nã o eXistem. PNADs para os anos censitários ( 1980
3 A relevância das pesquisas dom'c'l' e 1991) e para o ano de 1994
. d ' I I lares para a análise d b . 5 A linha de indigência, endogenamente construída, refere-se somente à estrutura de custos de
sOCle ade e atestada por Ravallion (1992 P 8)' "H h I; po reza e dos padrões de vida de uma
uma cesta alimentar, regionalmente definida, que contemple as necessidades de consumo calórico
source of data for making poverty com ~ri~io~ .. ouse o surveys are the single most important
mínimo de um indivíduo. A linha de pobreza é calculada como múltiplo da linha de indigência, con-
~ell us directly about the distribution of~ving st:~~nd~e~. they are the only data source which can
siderando os gastos com alimentação como uma parte dos gastos totais mínimos, referentes, entre
o not attain consumption leve!." ar s ma society, such as how many households
outros, a vestuário, habitação e transportes.
4 . ~~ verdade, a unidade de análise neste trabalh . d " . - 6 Nas tabelas e gráficos correspondentes, os valores que dimensionam a pobreza são denomina-
nUClho como unidade de análise é o q '. o e ~ omlClho e nao a família. A utilização do do-
lizado na PNAD. ue mais se aproxima do conceito de unidade orçamentária uti- dos, respectivamente, proporção de pobres (indigentes) e hiato médio da renda.
7 Observe-se que toda população indigente está incluída no conjunto da população pobre.
24 25
-,--" Tabela 1
1; igualmente distribuídos de forma heterogênea e encontram-se mais próximo
~
l'! de seu valor de referência, com sua renda média mantendo-se cerca de 60% abai- l'!
'" Evolução temporal da indigência e da pobreza no Brasila
<:> '"~
" xo da linha de indigência.
~ ~
..,~ INDIGÊNCIA Portanto, a magnitude da pobreza, mensurada tanto em termos do volume "
a. POBREZA
e da percentagem da população como do hiato de renda, apresenta, na segunda
~
;;
~"
ANO
NÚMERO DE
~
PERCENTUAL
DE INDIGENTES
HIATO MÉDIO
DA RENDA INDIGENTES PERCENTUAL HIATO MÉDIO NÚMERO metade da década de 90, uma tendência de manutenção de um novo patamar ~
g (EM MILHÕES) DE POBRES DA RENDA DE POBRES
.~ (EM MILHÕES) inferior ao observado desde o final dos anos 70.1sso indica, sem dúvida alguma, ]
i(l
Cl
1977 17,0 6,1 17,4 39,6 17,2 40,7
uma melhora aparentemente estável no padrão da pobreza, mas esse valor con- f
1978 21,8 10,2 tinua moralmente inaceitável para a entrada do Brasil no próximo século. ~
23,2 42,6 21,0 45,2
1979 23,9 11,6 26,0 38,8 16,9 42,0
.1~
1981 18,8
3 - Determinantes imediatos da pobreza: escassez de ~
7,2 22,1 43,2 19,5 50,7 recursos e desigualdade na distribuição dos recursos ]
1982 19,4 7,4 23,4 43,2 19,8 52,0 A pobreza, como ressaltamos anteriormente, está sendo analisada neste tra- ~
-'l
.1983 25,0 9,8 30,7 51,1 24,S balho exclusivamente por meio da dimensão de insuficiência de renda. Nesse
62,8
1984 23,6 8,8 29,8 50,S
sentido, a pobreza responde a dois determinantes imediatos: a escassez agregada
23,S 63,6
1985 19,3
de recursos e a má distribuição dos recursos existentes. Esta parte do trabalho in-
7,1 25,1 43,6 19,7 56,9 vestiga essas relações causais, procurando avaliar os pesos relativos da escassez
1986 9,8 3,4 13,1 28,2 11,3 37,6 agregada de recursos e da sua distribuição na determinação da pobreza no Brasil.
1987 18,5 7,2 25,1 40,9 18,7 55,4
1988 22,1 9,1
3.1- Escassez de recursos
30,6 45,3 21,8 62,6
1989 20,7 8,5
A importância da escassez de recursos na determinação da pobreza brasilei-
29,3 42,9 20,6 60,7 ra é avaliada, a seguir, a partir de três critérios: uma comparação do Brasil com o
1990 21,4 8,8 30,8 43,8 21,1 63,2 resto do mundo, uma análise da estrutura da renda média do país e, finalmente,
1992 19,3 8,6 27,1 um exame do padrão de consumo médio da família brasileira. Ao analisar, de
40,8 19,7 57,3
1993 19,5 8,5
forma exaustiva e a partir de diversos critérios, esse aspecto da determinação da
27,8 41,7 19,8 59,4 pobreza, pretendemos demonstrar que a pobreza no Brasil não deve ser associa-
1995 14,6 6,0 21,6 33,9 15,3 50,2 da prioritariamente à escassez, absoluta ou relativa, de recursos. Assim, pode-
1996 15,0 6,6 22,4 mos confirmar a primeira parte de nosso diagnóstico - o Brasil, apesar de dis-
33,S 15,6 50 •.1
1997 14,8 6,3 22,5
por de um enorme contingente de sua população abaixo da linha de pobreza,
33,9 15,4 51,5
1998
não pode ser considerado um país pobre, e a origem dessa pobreza, não residin-
14,1 6,0 21,7 32,8 14,7 50,3 do na escassez de recursos, deve ser investigada em outra esfera.
1999 14,5 6,1 22,6 34,1 15,4 53,1 Em primeiro lugar, contrastamos a renda per capita e o grau de pobreza no
Fonte: PNAD de 1977 a 1999.
a As linhas de indigência e pobreza utilizadas foram as da região metropolitana de Sã P I
Brasil com os demais países no mundo. Essa comparação nos permite verificar
o auo.
.r
se o grau de pobreza no Brasil é mais elevado do que em países com renda per capita
similar. Podemos decompor o grau de pobreza em duas dimensões: a) a baixa
r~~~donal fez q~e o núr:ne~ode pobres chegasse a quase 64 milhões na crise de
renda per capita brasileira; e b) o elevado grau de desigualdade na distribuição
ler _ea menos. e 38 mIlhoes em 1986. O final dos anos 80 apresenta uma ace-
Re aiao
no c;ntmge~t~ da população pobre e, no período recente, após o Plano
dos recursos existentes no Brasil. A primeira dimensão, dada pelo grau de po-
breza médio dos países com nível de renda per capita similar à brasileira, está as-
a ,cerca .e 10 mIlhoes de brasileiros deixaram de ser pobres.
Os atUaiS53 milhões d b sociada ao baixo valor da renda per capita em relação aos países mais ricos no
neamente distribuídos aba:~~:~i~~od;~~~~:z:ua vez, en~ontr~~-se heteroge- mundo. A segunda dimensão resulta da diferença entre o grau de pobreza brasi-
cerca de 55% abaixo do valor da r h d b e sua ren a media encontra-se leiro e o dos demais países com renda similar à brasileira.
digentes, que correspondem a ~: asu~~~n;~~~~0;a2~;~?aÕç~od~~~::,0~~:;~
&

26 27
~ Em segundo lugar, comparamos a renda percapita brasileira com a linha de
1;
::
<Xl pobreza nacional. Na medida em que a renda média brasileira é significativa- r:;
<Xl
g mente superior à linha de pobreza, podemos associar a intensidade da pobreza à '"'"
Distribuição acumulada da .população mundial e dos países
~ concentração de renda. Nesta seção definimos um exercício redistributivo que segundo o PIB real per cap,ta ..,~
! contempla tanto o cenário ideal (de execução impossível e não necessariamente •.
a.
{; desejável) de distribuição perfeitamente eqüitativa da renda como o cenário de {;
~ % 100 ~
~ redução do grau de pobreza a partir da repartição progressiva dos recursos dis- '"
.~ poníveis. O principal objetivo desse exercício é demonstrar que uma divisão
90 "
.:;;>
~ tl
80 ""
mais eqüitativa dos recursos pode ter um impacto relevante sobre a pobreza em ]
um país que dispõe de uma renda per capita bastante superior à sua linha de po- 70
~
breza. 60 '"
.:;
{;
Em terceiro lugar, descrevemos brevemente o padrão de consumo das fa- 50 ~
mílias brasileiras com renda per capita em torno da média nacional. Tendo em
..,
""
40 ::!
tl
• vista que o padrão de consumo dessas famílias é satisfatório, obtemos uma de- 30 '<:
monstração adicional de que a pobreza no Brasil é sobretudo um problema rela-
20
cionado à distribuição dos recursos e não à sua escassez.
10
3.1.1 - O Brasil e o mundo: uma comparação da estrutura da pobreza 32
O
10 12 14 16 18 20 22 24 26 28 30
o 4 6
Analisar a estrutura da distribuição de renda mundial permite contextuali- PIS real per capita

zar a posição relativa do Brasil no cenário internacional. Observamos que cerca de Fonte: Construido com base no Relatório do Desenvolvimento Humano 1999 (PNUD).
Nota: O PIB real per capita do Brasil é igual a US$ 6.500 PK.
64% dos países do mundo têm rendapercapita inferior à brasileira. Por outro lado,
na medida em que alguns países com enorme população encontram-se abaixo
do Brasil nessa estrutura da distribuição de renda, vemos que cerca de 77% da associada de modo alternativo, ao fato de os países do mundo, em seu conju~-
população mundial vivem em países com renda per capita inferior à do Brasil. to perma~ecerem relativamente pobres, significando que estar entre o; m~s
Assim, essa distribuição da renda mundial, construída a partir do Relatório de ri~os não impede a existência de uma severa escassez doer:cu~s~s, ou ao ato e
Desenvolvimento Humano de 1999 e apresentada no Gráfico 1, vem nos revelar o Brasil apresentar um elevado grau de desigualdade na dIstnbmçao ~os recurs~s.
que, apesar de o Brasil ser um país com muitos pobres, sua população não está Para procurar esclarecer essa questão, definindo qual a capaCidade explIca-
entre as mais pobres do mundo. A comparação internacional quanto a renda per tiva entre as duas alternativas propostas, comparamos o gra~ de.po~rez~~~
capita coloca o Brasil entre o terço mais rico dos países do mundo e, portanto, Brasil com o observado nos demais países com renda per caplta SIm a:., o
não nos permite considerá-lo um país pobre. com ara ão revela, com extrema clareza, que o grau de pobre~a r:o ~ras~l e Sl~-
Uma vez que se trata de uma análise comparativa, sabemos que a razoável nific~tiv;mente superior à média dos países com renda per caplta sIml1a~a bra.sI-
posição relativa do Brasil pode ser atribuída à natureza concentradora da distri- leira sugerindo a relevância da má distribuição dos recursos para explIcar a ~-
buição de renda mundial. Assim, comparado aos países industrializados, o Bra- tensidade da pobreza nacional. O Gráfico 2 nos mostra que enquanto n~ Bras a
sil não é um país ric08 mas, comparado a outros países em desenvolvimento, es- o ula ão pobre representa cerca de 30% da população total, nos paIse~ com
. ~ taria, a princípio, entre os que apresentam melhores condições de enfrentar a ~e:da pÇercapita similar à brasileira esse valor corresponde a meno~ de 1O ~o ~e
pobreza de sua população. fato considerando a renda e o grau de pobreza reportados pelos PaIS~Sno e .a-
tóri~ de Desenvolvimento Humano, podemos definir uma norma m~ernaClo-
Mantendo a perspectiva de comparação internacional e explicitando as de- nal9 que imputaria um valor previsto de somente 8% de pobres par~ paIses com
terminações econômicas da pobreza, vemos que, para explicar a posição relativa a renda per capita equivalente à brasileira. Assim, caso o grau de deSIgualdade de
do Brasil, necessitamos enfrentar a alternativa entre a escassez e a distribuição
de recursos no contexto mundial. Nesses termos, a pobreza no Brasil pode estar
• G T 2 f' btida regredindo-se o In(PO/( 1- PO)) con-
9 A norma int~rnacion~l. constrUlda no ra ~~a ;ra~:zir a estrutura observada (portanto, não se
8 A renda do trabalho no Brasil é cerca de 1/3 da renda do trabalho nos países industrializados. tra o PIE percapzla dos palses ..~ssa normadProc b dos países apresentando-nos a percentagem
trata de uma estrutura prescflllva) de ren a e po reza. • d '1
Para uma análise dos determinantes desse diferencial de renda. ver Barros e Camargo (1993). de população pobre potencialmente associada a cada mvel de ren a per capz a.
28
Gráfico 2 29
:c;
::; Tabela 2 .;;;
'" ::;
:ERelação entre nível de pobreza e renda per capita para Evolução da renda em múltiplos das linhas de indigência e de '""::::
~ um conjunto selecionado de países pobreza no Brasil
t l'I
~
.% % de pobres (PO) '"a
"
POBREZA
~ INDIGENClA
~"
.~
]

iG
I::l
.c
Guinê-Bissau (/ 991) 100

90 ANO PIB PER CAPITA


EM MÚLTIPLOS
RENDA FAMILIAR
PER ÇAPITA
VOLUME DE
RECUR~OS
NECESSARIOS
PIB PEIj CAPITA
EM MULTlPLOS
RENDA FAMILIAR
PER ÇAPITA
VOLUME DE
RECUR~OS
NECESSARIOS
:Si
g
.~
--------------------------------80
Uganda DA ur'jHA DE
EM MULTIPLOS
DA L1N.HA DE
PARA ERRADICAR DA LINHA DE
EM MULTIPLOS
DA LINHA DE
PARA ERRADICAR
A POBREZA
~'"
(/989/90) Ruanda (/983/85) 7O INDIGENClA' A INDIGENCIA POBREZA'
POBREZA
INDIGENClA (EM R$ BILHÕES)b (EM R$ BILHÕES)b ~
.",
2,3 24,2 .~
1977 6,6 4,7 4,3 3,3
60 .:::
(/992) • Guatemala (/989)
• India
3,9 7,4 3,4 1,9 30,S ~
.;g
• Honduras (/992) 50 1978 6,8
• ZimbJbue (7990/91) Chile (7992) ]
Mauritânia (1988) Finlândia 40 1979 7,1 3,6 8,6 3,5 1,8 25,1 -'!iG
1l
981/82) • Venezuela (/991) -.:
Guiné (7991). • República • 30 2,0 31,3
Dominicana(1989) Mêxico (/992) 1981 7,1 3,9 5,8 3,6
- Costa do Marfim (7988)•
Tunlsia (7990) Bulgária 20 2,0 32,6
4,0 6,1 3,5
Paquistão (7991)•
80livia (1990/91).
fP~~OI91)

(/992) • 10
1982 7,0
I t Sri Larka (79901 •• • I
• 1983 6,7 3,4 8,3 3,3 1,7 41,1
O 500 1.000 1.500 2.00~ 10
5.000 5.500 6.000 6.500 7.000
Marrocos (7990/91) 1984 6,9 3,4 7,6 3,4 1,7 40,S
Fonte: Construido com base no relatório do desenvolvimento humano de 1999 (PNUD).
1985 7,3 4,1 6,4 3,6 2,1 35,2

renda no Brasil correspondesse à desigualdade mundial média associada a cada 1986 7,7 6,0 3,1 3,8 3,0 20,6
nível de renda per capita, apenas 8% da população brasileira deveriam ser po- 1987 7,8 4,5 6,7 3,9 2,2 34,7
bres. Esse valor seria, de modo consistente com a norma internacionaL aquele
1988 7,6 4,2 8,6 3,8 2,1 41,2
que poderíamos associar estritamente à escassez agregada de recursos no país.
Todo o restante da distância do Brasil em relação a essa norma - o valor nada 1989 7,7 4,8 8,2 3,9 2,4 39,8
desprezível de cerca de 22 pontos percentuais - deve-se, portanto, ao elevado
1990 7,3 4,3 8,7 3,6 2,2 41,S
grau de desigualdade na distribuição dos recursos nacionais.
1992 7,1 4,1 8,3 3,5 2,0 37,8
3.1.2 - Pobreza relativa e riqueza relativa: é possível enfrentar a pobreza no
Brasil? 1993 7,3 4,3 8,3 3,7 2,1 38,6

Definir o horizonte de enfrentamento da pobreza requer que explicitemos 1995 7,8 5,3 6,1 3,9 2,7 30,9
uma questão: pode a sociedade brasileira, com a dotação de recursos que possui, 1996 7,9 5,4 6,7 4,0 2,7 31,9
erradicar a pobreza? Essa questão crucial traz à tona o possível problema de en-
. frentarmos empiricamente uma realidade em que impera a pobreza para uma 1997 8,1 5,4 6,6 4,1 2,7 32,0
~parte significativa da população, mas, além disso, os recursos disponíveis são 1998 8,7 5,5 6,3 4,3 2,8 30,8
insuficientes para retirar essa parcela da população das condições de vida iden-
1999 8,5 5,2 6,5 4,2 2,6 32,7
tificadas como precárias. Assim, nossa questão diz respeito à condição da rique-
za relativa do Brasil diante da possibilidade de erradicar sua pobreza endogena- Fonte' PNADs de vários anos. .. d 5" P lo
a As linhas de indigência e de pobreza utilizadas foram as da região metropolitana e ao au .
mente definida. b Valores deflacionados para setembro de 1999.

Podemos construir'estimativas da evolução do PIBpercapita e da renda familiar


per capita como múltiplos da linha de indigência e de pobreza, respectivamente.
Essas estimativas, presentes na Tabela 2, revelam que a renda familiar percapita e
"'"--"-
30 31
o PIB per capita representam, hoje, valores cinco a oito vezes superiores à linha Gráfico 3
~
t'!
<Q
de indigência e três a quatro vezes à linha de pobreza. Assim, confirmamos a hi-
l1 pótese de inexistência de escassez de recursos, na medida em que uma distribui- Percentagem de pobres no Brasil com a renda !"édi~
~ ção eqüitativa dos recursos nacionais disponíveis seria muito mais do que sufi-
! ciente para eliminar toda a pobreza.
mantida constante e a desigualdade de renda Igual a
verificada em cada um dos países
~ A distribuição perfeitamente eqüitativa dos recursos, produzindo uma so-
~ ciedade de indivíduos idênticos no que se refere à renda, não necessariamente é
.!!> Honduras
2l justa, nem desejada. No entanto, podemos fazer um exercício de construção de Costa Rica
um estado da natureza hipotético em que estimemos o volume de recursos ne-
Venezuela
cessários para erradicar a indigência e a pobreza. O exercício supõe que o poder
Uruguai ~ Brasil
público disporia da capacidade de identificar todos os indivíduos da população
Peru
pobre e poderia transferir, com focalização perfeita e calibragem precisa entre
as famílias, os recursos estritamente necessários para que todos esses indivíduos Paraguai
• pobres obtivessem a renda equivalente ao valor da linha de pobreza. México
Equador
Assim, como reportado na Tabela 2, seria necessário transferir anualmente
cerca de R$ 6 bilhões (2% da renda das famílias) para retirar da indigência o li- EI Salvador
mite extremo da população pobre ou, ainda, R$ 33 bilhões (7% da renda das fa- Bolívia
I
mílias) para atingir uma meta social mais ambiciosa, retirando da pobreza toda Argentina , I I
população excluída. 20 25 30 35 40 45
o 10 1S
% de pobres (POl
Esse exercício, como dissemos hipotético e ideal, não sucumbe à ingenui- Fonte: B/D.
dade supondo que a efetiva implementação de um programa de combate à po-
breza possa desconsiderar, entre outros, os custos de administração e os diver- Brasil seria reduzida em 20 pontos percentuais. A partir desse exercício, pode~
sos problemas de focalização do programa. No entanto, acreditamos que esse mos sugerir que quase 2/3 da pobreza no Brasil podem estar.associados ao dife-
exercício é de grande importância, pois coloca em perspectiva o volume de re- rencial no grau de desigualdade da distribuição de.renda ~xlstente entre o Bra-
cursos potencialmente necessário para um programa desse tipo. Tal exercício sil e o Uruguai. Esse exercício estático e comparativo, maiS uma. v~z, pretend.e
permite, em princípio, avaliar a factibilidade de uma política pública de comba- tornar evidente o peso da estrutura da distribuição de renda bras~lelfa na exph-
te à pobreza. Assim, respeitando os parâmetros de nosso exercício, sabemos cação da existência de um enorme contingente de pobres no paiS.
que, por um lado, a renda familiar per capita brasileira é mais do que suficiente
para erradicar a pobreza no Brasil e, por outro, transferências equivalentes a 2% 3.1.3 - O padrão de consumo da família brasileira
da renda das famílias poderiam ser a base para acabar com a indigência que afli- Esta subseção apresenta uma breve descrição do padrão de co.nsun~o.e da~
ge 14% da população. Para erradicar toda a pobreza, esse valor de base, sobre o condições habitacionais das famílias brasileiras com renda per caplta pro.xlmo a
qual, como alertamos, seria necessário adicionar os custos de administração e média nacional. 10 A intenção aqui é propor mais um ângulo de ~ntendl~ento
de focalização, corresponde a 8% da renda das famílias.
da situação de escassez de recursos na sociedade, gerando ~I? s!nal ~dlC~o?al
Além de identificar o valor e a viabilidade dos recursos que devem ser mo- sobre a possibilidade de mobilização de recursos para a erradlCaçao da mdlgen-
. "bilizados para erradicar a pobreza, podemos simular a intensidade com que re- cia e da pobreza no país .
duções no grau de desigualdade podem afetar o grau de pobreza. Uma simula- A Tabela 3 apresenta estimativas do padrão de consumo e das condições
ção relevante, proposta no Gráfico 3, implica manter constante a renda média habitacionais das famílias brasileiras que auferem, mensalmente, a renda do-
brasileira e reduzir o grau de concentração de renda de modo a eliminar o hiato miciliar per capita média no valor de cerca de R$ 480. É m:portant~ destacar que
de desigualdade existente entre a realidade brasileira e vários países latino- essas estimativas baseiam-se na Pesquisa sobre Padroes de Vida (PPV) de
americanos. Assim, to.rp.ando como marco de referência o Uruguai - país com o 1996/97, realizada apenas nas regiões Nordeste e Sudeste.
menor grau de desigualdade entre os países latino-americanos, com coeficiente
de Gini próximo a 0,40 - e reduzindo o grau de desigualdade brasileiro de 10 Esse grupo comporta 20% do total das famílias bras~leira~ e é represen~ado pelos.I?% com renda
modo a ficar idêntico ao uruguaio, teríamos que a percentagem de pobres no imediatamente abaixo da média e os 10% com renda Imediatamente aCIma da media.
[2

33
32 Os resultados apresentados revelam que, de acordo com as informações
Tabela3 :a
~ disponíveis na PPV, a renda domiciliar pcr capita média corresponde a cerca de "lE
~
~ Padrão de consumo da família e condições habitacionais do seis vezes o valor da linha de indigência e de três vezes o valor da linha de pobre- i1
~ domicílio brasileiro za. Constatamos ainda, ao desagregarmos a estrutura dos gastos pcr capita, que ~
-<>
~
os gastos com alimentação representam cerca de 47% dos gastos totais e corres- ~
2.
"
{j VARIÁVEL
GASTO
PERCAPITA
EM MÚLTIPLOS
DA W'IHA DE
EM MÚLTIPLOS
DA LINHA DE PERCENTAGEM
pondem a quase quatro vezes a linha de indigência e duas vezes a linha de po- {j
{l
{l (R$) INDIGENClAa POBREZAb
breza. No que se refere às condições habitacionais, vemos que a grande maioria ~
g
~ Padrão de consumo dos domicílios localizados nas regiões Nordeste e Sudeste tem acesso a condi- t
ções básicas de abastecimento de água e coleta de lixo. O indicador de esgota- ~
Alimentação 272,5 3,7 1,8 46,6
mento sanitário não é tão positivo, com apenas 85% dos domicílios dispondo de :~
Vestuário 62,3 0,8 0,4 10,6 esgoto sanitário via rede coletora de esgoto. .~
Transporte 80,6 1,1 0,5 13,8 ~
-<>
3.2 - Desigualdade de renda s:c
Higiene 41,4 0,5 0,3 7,1
A desigualdade, em particular a desigualdade de renda, é tão parte da his- "
Assistência à saúde 22,7 0,3 0,1 3,9 tória brasileira que adquire fórum de coisa natural. Além disso, como discuti-
mos anteriormente, nosso extremo grau de desigualdade distributiva represen-
Educação 7,2 0,1 0,0 1,2
ta o principal determinante da pobreza. Nesta subseção discutimos dois aspec-
Recreação e cultura 24,0 0,3 0,2 4,1 tos referentes ao grau de desigualdade de renda no Brasil que confirmam a for-
Fumo 17,5 0,2 0,1 3,0 ça de nossos argumentos.
Em primeiro lugar, comparamos o grau de desigualdade de renda no Brasil
Serviços pessoais 11,7 0,2 0,1 2,0
com o observado em outros países. Nosso objetivo é comprovar que o grau de
Despesas diversas 45,5 0,6 0,3 7,8 desigualdade na sociedade brasileira é dos mais elevados em todo o mundo e
justificar, portanto, o fato algo inusitado de um país com renda pcrcapita relati-
Condições de habitação
vamente elevada manter, nos últimos 20 anos, cerca de 40% da sua população
Abastecimento de água no domicílio em abaixo da linha de pobreza. Em segundo lugar, investigamos a evolução do grau
rede geral 98,5
de desigualdade de renda ao longo das últimas décadas mostrando que, apesar
Esgoto sanitário no domicílio via rede das diversas transformações e flutuações macroeconômicas ocorridas no perío-
coletora de esgoto 84,8
do, a desigualdade exibiu uma estabilidade surpreendente.
Lixo do domicílio é coletado 96,3 A análise da desigualdade foi desenvolvida, principalmente, a partir da in-
Há calçada na frente do domicílio 87,1 terpretação de quatro medidas tradicionais: a) o coeficiente de Gini; b) o índice
de Theil; c) a razão entre a renda média dos 10%mais ricos e a renda média dos
Rua onde se localiza o domicílio é 40% mais pobres; e d) a razão entre a renda média dos 20% mais ricos e a renda
asfaltada 71,2
média dos 20% mais pobres. O coeficiente de Gini e o índice de Theil correspon-
Renda domiciliar per capita média CR$483,92) dem a dois indicadores consagrados, e de uso difundido na literatura, que reve-
Em múltiplos da linha de indigênciaa 6,3 lam o grau da desigualdade de renda de uma realidade específica. I I As duas úl-
timas medidas correspondem a distintas razões entre segmentos extremos da
Em múltiplos da linha de pobrezab 3,2 distribuição de renda traduzindo, em termos econômicos, uma noção de
Fonte: PPV de 1996 e 1997. (in )justiça social. Preservando esse olhar econômico sobre o perfil distributivo,
~ Baseada na linha de indigência da região metropolitana de São Paulo IRS 76.36).
Baseada na 'inha de pobreza da região metropolitana de São Paulo IRS 152.73). podemos supor, em princípio, que quanto maior for o valor da renda média dos
mais ricos em relação à dos mais pobres, menos justa deve ser considerada a so-
ciedade.

lI Para uma análise conceitual. consultar o excelente livro de Rodolfo Hoffmann ( 1998).
34 35
;-- . 3.2.1 - O Brasil e o mundo: uma comparação da estrutura da desigualdade Gráfico 4
~
Jl A comparação internacional entre os coeficientes de Gini, presente no Grá-
~ fico 4, revela que apenas a África do Sul e Malavi têm um grau de desigualdade Grau de desigualdade de renda: coeficiente de Gini
~
~ maior que o do Brasil. O coeficiente de Gini do Brasil, com valor próximo de
â" 0,60, representa, no conjunto de 92 países com informações disponíveis, um pa- República Eslováquia
Eslováquia
~ Tchecoslováquia
;;g drão alcançado apenas pelos quatro países com maior grau de desigualdade: Ucrânia

.~ Guatemala, Brasil, África do Sul e Malavi. Na realidade, 40 dos 92 países dis- F1~ft~~~
Bél9i~
letonla
g põem de um coeficiente de Gini no intervalo entre 0,30 e 0,40, sendo que a maio- Canadá
Hun9ria
Eslovenia
ria dos países sul-americanos apresenta valores mais elevados, no intervalo República Checa

0,45 a 0,60. Ban~:~~~


Romênia
Holanda
O Gráfico 5 apresenta a razão entre a renda média dos 10% mais ricos e a Sri Lanka
Laos
União Soviética
dos 40% mais pobres para cerca de 50 países. Devemos lembrar que quanto me- Taiwan
Paquistâp
nor for a razão entre essas rendas médias, mais equânime será a estrutura dis- IndonésIa
lugosláyia
1;91to
tributiva, com os mais ricos retendo uma renda média de valor relativamente [ndia
Itália
próximo à dos mais pobres. Essa medida da estrutura de concentração da renda Reino Unido
Suécia
Cazaquistão
revela, para a grande maioria dos países, uma razão com valor inferior a 10, sen- Polônia
Dinamarca
do que somente em 6 países essa razão é superior a 20. De fato, podemos identi- Noru~a
Utuânla
Gana
ficar um certo padrão na distribuição internacional, com alguns países, como os Bulgária
Moldava
Japão
Estados Unidos, gravitando em torno do valor 5, outros, como a Argentina, em Coréia do Sul
Portugal
torno de 10 e, finalmente alguns, como a Colômbia, em torno do valor 15.O Brasil, Vietname
Níger
Estônia
por sua vez, é o país com o maior grau de desigualdade entre os que dispomos de Maurício

informações, com a renda média dos 10% mais ricos representando 28 vezes a N2,1~:
Mauritânia
Jamaica
renda média dos 40% mais pobres. Um valor que coloca o Brasil como um país Estados Unidos
Costa do Marfim
distante de qualquer padrão reconhecível, no cenário internacional, como ra- Tanzânia
Ojibouti
Burkina Faso
zoável em termos de justiça distributiva. Gâmbia
Cingapura
Marrocos
O Gráfico 6 apresenta a razão entre a renda média dos 20% mais ricos e a Armênia
Nova Zelândia
dos 20% mais pobres para cerca de 45 países, confirmando o diagnóstico do in- Guiana
Tunlsia
Guiné
dicador anterior. Na grande maioria dos países essa razão é inferior a 10 e em Jordânia
Uganda

apenas cinco países essa razão é superior a 20. O Brasil, novamente, é o país com Austráha
Bolívia
Equador
o maior grau de desigualdade, segundo as informações presentes no Relatório Madartt~~
Pe",
de Desenvolvimento Humano de 1999. Como se pode constatar, o Brasil é o úni- Fili~jnaS

co dos países analisados em que a razão entre a renda média dos 20% mais ricos HO~a~a~~
Costa Rica
Malásia
da população e a dos 20% mais pobres supera o dilatado valor de 30. República Dominicana
México

Os valores contundentes reportados nesta subseção não deixam dúvidas ~~~~á2~~


Colômbia
quanto à posição singular do Brasil, com o seu grau de desigualdade figurando Tailândia
Zâmbia
Venezuela
entre os mais elevados do mundo. Dessa constatação podemos derivar, com Honduras
Mali

grande segurança, que o extraordinário grau de desigualdade de renda brasilei- Senegal


Quênia
C.Afr. Rep.
ro encontra-se no núcleo da explicação do porque o grau de pobreza no Brasil é Guiné-Bissau
Panamá

significativamente mais elevado do que em outros países com renda per capita Chile
Zimbábue
Guatemala
similar. .
Brasil
Malavi
Africa do Sul
35 40 45 50 55 60 65
15 20 25 30
Coeficiente de Gini .
5

37
36
Gráfico 5 Gráfico 6

Grau de desigualdade da renda: razão entre a renda dos Grau de desigualdade da renda: razão entre a renda
ricos (10+) e a dos pobres (40-) dos ricos (20+) e a dos pobres (20-)

Holanda
Bélgica
Eslováquia
Belarus
República Checa
Ucrânia
e.
Hungria
Letônia
Japâo Romênia
Alemanha
Suíça
H~~~~::
Ruanda
Finlândia Bangladesh
Laos
Noruega Japão
Iugoslávia Nepal
Sri lanka
Irlanda Espanha
Israel Holanda
Suécia
Espanha Bélgica
Reino Unido eJJl~g[~~
Dinamarca Paquistão
Indonésia
Paquistão lndia
Estados Unidos Lituânia
Gana
Suécia Cazaquistão
Canadá Vietname
Alemanha
França NIger
Barbados Noruega
Moldava
Itália Finlândia
Coréia do Sul Itália
Turquemenistão
Bangladesh Costa do Marfim
Tanzânia
Nova Zelândia Israel
Uganda Argélia
Marrocos
EI Salvador Estônia
Hong Kong Canadá
Uga,!da
Austrália China
Egito Dinamarca
Filipinas
[ndia França
Sri Lanka Tunlsla
Jamaica
Portugal Jordânia
Tailândia Madaa~fl~~
Indonésia Suiça
Hong Kong
Trinidad e Tobago Nova Zelândia
Argentina Estados Unidos
Tailândia
Reino Unido
Filipinas Cingapura
Austrália
Bahamas Equador
Fiji Peru
Malásia
Costa Rica Nigéria
Venezuela Costa Rica
Mauritânia
Turquia Zâmbia
Nepal Nicarágua

Malásia México
Colômbia Federa~ágn~~~~
Maurício Colômbia
Zimbábue
México Venezuela
Zâmbia Guiné
Senegal
Costa do Marfim Chile
Quênia , Quênia
Africa do Sul
Botsuana Panamá
Peru lesoto
Guiné-Bissau
Panamá Guatemala
Brasil Brasil,
O 5 10 15 20 25 30 35
o 5 10 15 20 25 30 Razão entre a renda média dos 20% mais ricos e a dos 20% mais pobres
Razão entre a renda média dos 10% mais ricos e a dos 40% mais pobres
Fonte: Construido com base no relatório do desenvolvimento humano de 1999 IPNUD).
Fonte: Barros e Mendonça (1995b).
38 39
1;
3.2.2 - Evolução da desigualdade: a decepção de uma regularidade Tabela4
:c;
~ A análise da evolução da desigualdade de renda no Brasil, ao longo das ::;
Evolução temporal dos indicadores de desigualdade de renda "l
<>
:::~ duas últimas décadas, é desenvolvida a partir das mesmas medidas de desigual- ":::
~
a dade descritas anteriormente. Todos os indicadores selecionados, conforme ob-
COEFICIENTE íNDICE DE
RAZÃO ENTRE A RENDA MÉDIA RAZÃO ENTRE A RENDA MÉDIA
DOS 10% MAIS RICOS E A
..,~
<>
DOS 20% MAIS RICOS E A
" servamos nas Tabelas 4 e 5, revelam um elevado grau de desigualdade, sem ANO DE GINI THEIL DOS 20% MAIS POBRES DOS 40% MAIS POBRES "'-
"
{i
~ qualquer tendência ao declínio. O grau de desigualdade observado em 1999 é
1977 0,62 0,91 27,5 26,8 ~
]
.~ bastante similar ao do inÍCio da série, no final da década de 70. 51
~ .~

Cl Ao longo do período o grau de desigualdade é surpreendentemente estável, 1978 0,60 0,74 31,3 25,0 .".:c
exceto por uma importante flutuação ascendente ao final da década de 80. 0,74 32,9 25,2 ~
.",
1979 0,60 .~
Entre 1986 e 1989 o grau de desigualdade apresenta crescimento acelerado,
1981 0,59 0,69 24,0 21,8 '"
.:;
atingindo níveis extremos no auge da instabilidade macroeconômica de 1989: o {i
coeficiente de Gini chega a 0,64 e o coeficiente de Theil a cerca de 0,91; os 10% 1982 0,59 0,71 25,6 23,0 ~
~
mais ricos recebem uma renda média cerca de 30 vezes superior à dos 40% mais s
0,60 0,73 25,7 23,5 :c
1983
pobres e a razão entre a renda média dos 20% mais ricos e a dos 20% mais pobres "
alcança o múltiplo de 35. 1984 0,59 0,71 23,6 22,4

Analisando a década de 90 vemos, na Tabela 4, que o maior declínio no 1985 0,60 0,76 25,5 23,6
grau de desigualdade, apesar de pouco relevante, encontra-se na entrada da dé-
1986 0,59 0,72 24,0 22,1
cada, entre os anos de 1989 e 1992. Em particular, no que se refere ao Plano
Real, não dispomos de evidência ~lguma de que tenha produzido qualquer im- 1987 0,60 0,75 27,6 24,4
pacto significativo sobre a redução no grau de desigualdade, apesar de a pobre- 30,9 27,2
1988 0,62 0,78
za ter sofrido uma redução importante, conforme descrito anteriormente. De
fato, o grau de desigualdade nos anos posteriores ao Plano Real é estável e simi- 1989 0,64 0,89 34,3 30,4
lar ao valor observado em 1993, mas sempre superior ao valor de 1992. Em vir- 1990 0,62 0,78 31,2 26,9
tude desse crescimento no grau de desigualdade entre os anos de 1992 e 1993 e
1992 0,58 0,70 26,7 21,8
da manutenção desse novo patamar, constatamos que o grau de desigualdade
em 1999 é dos mais elevados nas últimas décadas, sendo apenas inferior aos va- 1993 0,60 0,77 28,8 24,5
lores observados no final dos anos 70 ( 1977/78) e 80 ( 1988/90).
1995 0,60 0,73 28,0 24,1
A análise atenta do período 1977/99 revela, de forma contundente, que
muito mais importante do que as pequenas flutuações observadas na desigual- 1996 0,60 0,73 29,8 24,6
dade é a inacreditável estabilidade da intensa desigualdade de renda que acom- 1997 0,60 0,74 29,2 24,5
panha a sociedade brasileira ao longo de todos esses anos.
1998 0,60 0,74 28,6 24,2
A perversa estrutura de distribuição de renda no Brasil pode ser traduzida
em números nada frios e plenos de significado. O clássico coeficiente de Gini, 1999 0,60 0,72 27,2 23,3
. ~ por exemplo, a despeito de pequenos soluços, mantém-se impassível no incô- Fonte: PNADs de vários anos. .
Notas: Os índices de Gíni e Theíl medem o grau de desigualdade na dístribuíçao de renda.
modo patamar de 0,60. As duas décadas analisadas desvelam um cenário de A distribuição utilizada foi a de domicílios segundo a renda domiciliar per caplta.
concentração da renda em que os indivíduos que correspondem à parcela dos
20% mais ricos da população se apropriam de uma renda média entre 24 e 35 ve- Reconhecendo, novamente, a relevância conceitual da relação entre as
zes superior aos 20% mais pobres; os 10% mais ricos, por sua vez, dispõem de rendas auferidas pelos segmentos extremos de uma sociedade enquanto um
uma renda que oscila entre 22 e 31 vezes acima do valor da renda obtida pelos
parâmetro econômico de justiça social, não podemos deixar de ficar pert.urba-
40% mais pobres da população brasileira. A magnitude despropositada desses dos e atônitos com os valores reportados. Como último destaque, descnto na
valores fica ainda mais evidente se nos recordarmos dos valores descritos na se- Tabela 5, vemos que os indivíduos que se encontram entre os 10%m~is ricos da
ção anterior, que correspondem a inúmeros países da comunidade internacional. população se apropriam de cerca de 50% do total da renda das famílIas. No ou-
41
40
Tabela 5 priam de 50% do total da renda das famílias e, ~omo.por e~pelhamento,_ os 50~ ';;;
~ mais pobres possuem cerca de 10%da renda. Alem diSSO,1 Yo da populaça o, o 1 Yo £
~
Evolução temporal da desigualdade de renda mais rico, detém uma parcela da renda superior à apropriada por metade de
t
iE
CQ
iE
~
~ toda a população brasileira.
-<:> PERCENTAGEM DA RENDA APROPRIADA PELAS PESSOAS
2. ANO Enfim, do ponto de vista do exercício empírico e descritivo deste trabalho, "
" 20% MAIS 40% MAIS SO%MAIS 20% MAIS 10% MAIS 1% MAIS RICO cremos que palavras não são mais necessárias. Talvez uma última ilustração vi- ~
~
~
POBRES POBRES POBRES RICOS RICOS
~ sua!, gráfica e contundente, que nas linhas do Gráfico 7 desenha a injusta reali- .~
.~ 1977 2,4 7,7 11,7 66,6 51,6 18,5
.g dade com os valores da inaceitável estabilidade da desigualdade de renda no ~
1978 2,1 7,6 12,0 64,1 47,7 13,6 Brasil. ~
.",
"i3
1979 1,9 7,5 11,9 64,2 47,6 13,4 ~
.:::
Gráfico 7
1981 2,6 8,6 13,0 63,1 46,7 12,7

1982 2,5 8,2 12,6 63,7 47,3 13,1 Proporção da renda apropriada pelos 10% mais ricos,
50% seguintes e 40% mais pobres
1983 2,5 8,1 12,4 64,4 47,7 13,5
% 100
1984 2,7 8,5 12,8 63,8 47,6 13,2 1% mais rico
90
1985 2,5 8,2 12,4 64,4 48,2 14,2
80
1986 2,6 8,5 12,9 63,4 47,2 13,8 70
1987 2,3 7,9 12,1 64,3 48,0 14,1 60
1988

1989
2,1

2,0
7,3

6,8
11,3

10,5
66,0

67,8
49,7

51,7
14,4

16,4
- ~ 50
40

1990 2,1 7,3 11,3 65,6 49,1 14,2 30

20
1992 2,3 8,4 13,1 62,1 45,8 13,2
10
1993 2,2 7,9 12,3 64,5 48,6 15,0

1995 2,3 8,0 12,3 64,2 47,9 13,9


10% mais ricos 50% seguintes 40% mais pobres
1996 2,1 7,7 12,1 64,1 47,6 13,5
Fonte: PNAD.

1997 2,2 7,8 12,1 64,2 47,7 13,8

1998 2,2 7,9 12,2 64,2 47,9 13,9 4 - Crescimento e eqüidade: desafios do desenvolvimento
1999 2,3 12,6 63,8
social
8,1 47,4 13,3
Fonte: PNADs de vários anos.
A estratégia. de redução da pobreza solicita o crescimento da renda per i:apita
Nota: A distribuição utilizada foi a de domicí'~os segundo a renda domiciliar per (apita. ou a distribuição mais igualitária da renda. Uma combinação de políticas que
estimulem o crescimento econômico e diminuam a desigualdade, em princípio,
tro extremo, os 50% mais pobres da população detêm, ao longo de todo período aparenta conceder maior eficácia e velocidade ao processo de combate à pobre-
analisado, pouco mais de 10%da renda. Vemos ainda que o grupo dos 20% mais za. Partindo dessa reflexão, a última parte do trabalho estrutura-se em dois blocos.
pobres se apropria, em conjunto, somente de cerca de 2% do total da renda. Por Inicialmente, procura identificar, a partir da simulação de impactos da re-
fim, o seleto grupo composto pelo 1% mais rico da sociedade concentra uma dução no grau de desigualdade ou da aceleração no crescimento econômico,
parcela da renda superior à apropriada por todos os 50% mais pobres. Resumin- quais as possibilidades de integração entre essas alternativas, tornando eviden-
do, vivemos em uma perversa simetria social em que os 10%mais ricos se apro- te a importância do rede senha de estratégias de enfrentamento da pobreza. Em
42 43
seguida, pretende avaliar como, na experiência concreta das últimas décadas, o Em primeiro lugar, o gráfico confirma a sensibilidade da pobreza ao com-
~ portamento da desigualdade de renda. Mesmo considerando os valores relati-
1;
£
~ Brasil tem combinado esses dois caminhos alternativos para o combate à pobre-
g za. De forma consistente com nosso diagnóstico sobre as causas da pobreza no vamente elevados da desigualdade nos países da América Latina, vemos, por g
j país, pretendemos ressaltar o potencial inexplorado de políticas geradoras de exemplo, que a implementação de políticas que alterassem a desigualdade no ~
~ eqüidade no combate à pobreza brasileira.12 Brasil para o perfil da desigualdade no México, sob a condição de inexistência "'~
"

j Para pensarmos o horizonte potencial da combinação entre políticas de de crescimento econômico, implicaria uma redução na proporção de pobres de ~
~ crescinlento econômico e políticas de redução da desigualdade podemos esti- cerca de 34% para 25%.14 A definição de uma meta social mais ambiciosa, que ~
.'g" mar como o grau de pobreza responderia, alternativamente, ao crescimento e a reconhecesse o perfil da desigualdade da Costa Ricacomo o padrão a ser atingido, :f
variações no grau de desigualdade da renda. O Gráfico 8 apresenta os impactos implicaria o esforço equivalente a reduzir o coeficiente de Gini de 0,60 para 0,46 1i
.",
potenciais sobre a proporção de pobres simulando, por um lado, políticas que e produziria uma queda de 12,5 pontos percentuais na pobreza brasileira. '2
sustentem taxas médias decenais estáveis de crescimento econômico e, por ou- Em segundo lugar, o gráfico nos permite perceber que os níveis de pobreza ~'"
tro, políticas que viabilizem a convergência do grau de desigualdade brasileiro são mais sensíveis a alterações no grau de desigualdade do que a alterações no ~
para os valores de alguns países latino-americanos selecionados. 13 Desse gráfico crescimento econômico. Tendo como referência as variações na magnitude da ~
i)
podemos extrair duas conclusões básicas. pobreza assinaladas no parágrafo anterior, vemos que o esforço de uma década '"
de crescimento econômico à taxa de 2,75% a.a., com nenhuma alteração da es-
trutura distributiva da renda percapita, produziria o mesmo impacto sobre a re-
Gráfico 8
dução da pobreza que a eliminação do excesso de desigualdade entre o Brasil e o
México. Para obtermos um impacto sobre a pobreza equivalente ao gerado pela
Impacto sobre a pobreza:'crescimento econômico versus redução da desigualdade entre o Brasil e a Costa Rica seria necessário uma ele-
redução no grau de desigualdade vação na rendapercapita de cerca de 50%, o que solicitaria um processo contínuo
de crescimento da renda per capita à taxa anual de 4% durante 10 anos consecu-
Proporção de pobres %
40 tivos.
35
O crescimento econômico, evidentemente, representa uma via importan-
Honduras te, apesar de lenta, para combater a pobreza. Um crescimento de 3%a.a. na ren-
30 da per capita, por exemplo, tende a reduzir a pobreza em um valor aproximado
Costa Rica ~rgentina
25 de um ponto percentual a cada dois anos. Ou ainda, um crescimento contínuo e

-.! Bolívía
/ Peru
20
sustentado de 3% a.a. na renda percapita levaria, no Brasil, mais de 25 anos para
reduzir a proporção de pobres abaixo de 15%. Assim, embora conduza a uma re-
Equador
I dução da pobreza, a via do crescimento econômico necessita durar um longo pe-
--l
15
Venezuela ríodo de tempo para produzir uma transformação relevante na magnitude da
10
pobreza.
5 Encarar a realidade atual da sociedade brasileira nos permite considerar,
, I portanto, que a pobreza reage com maior sensibilidade aos esforços de aumento
O
'O
4 6
da eqüidade do que aos de aumento do crescimento. A alternativa, aparente-
Crescimento econômico %
mente difundida entre vários especialistas, do modelo culinário do "crescer o
Fontes: PNAD e 81D. bolo para depois distribuir" ou, então, a sua versão mais refinada do "crescer,
crescer e crescer" enquanto via única de combate à pobreza, parece sucumbir à
inércia do pensamento e deve, no mínimo, ser relativizada. Talvez a sociedade
brasileira possa ousar, com responsabilidade, definindo a busca de maior eqüi-
12 Neste artigo não discutiremos os possíveis contornos de políticas redistributivas (estruturais, de dade social como elemento central de uma estratégia de combate à pobreza.
preços ou compensatórias) para o combate à pobreza. Sobre esse tema, ver Barros, Henriques e
Mendonça (1999).
13 A curva construída nesse gráfico parte do valor correspondente aos atuais 34% da população po- 14 Observe-se que os coeficientes de Gini do Brasil e do México correspondem a 0,60 e 0,55, respec-
bre no Brasil e ordena os países latino-americanos a partir de suas respectivas curvas de Lorenz. tivamente.
p

44 45
-" .-._-~-- ~ Nesta última parte do trabalho necessitamos, por fim, investigar a expe- a diferença observada entre o nível de pobreza efetivo de cada ano e o do nosso ~
JS riência brasileira recente de redução na magnitude da pobreza. Ao longo das ano de referência, o ano de 1997. Em segundo, simula um exercício contrafac- JS
g duas últimas décadas, essa experiência de redução da pobreza encontra-se as- LUalque dimensiona, em termos potenciais, a contribuição da redução na desi- g
j sociada, sobretudo, aos efeitos do crescimento econômico, relegando a um pla- gualdade para explicar a referida diferença entre os níveis de pobreza observa- @
~ no secundário as alternativas de combate à desigualdade. Podemos demonstrar dos em 1997 e em cada um dos anos da série.' !
~ a dominância desse processo analisando o comportamento da renda familiar Assim, a estimativa da contribuição da redução na desigualdade para a ~
~
~ brasileira entre 1977 e 1997 e estimando os fatores determinantes das reduções queda no grau de pobreza, entre um ano específico e o ano de 1997, decorre de .~
.~ nos níveis de pobreza ao longo do período. uma simulação contrafactual que procura identificar qual teria sido a queda na ~
~
Como vimos anteriormente, as reduções no grau de pobreza observadas pobreza caso somente a desigualdade variasse e a renda familiar per capita fosse ~
nesse período são de dimensão modesta mas, mesmo diante dessa pequena mantida constante. A contribuição do crescimento econômico, por sua vez, é obti- .~
magnitude, podemos decompor as causalidades atribuíveis ao crescimento e à da por resíduo. Desse modo, a seqüência do exercício contrafactual é fu~da~nental, ~
eqüidade. Nosso ponto de referência será o ano de 1997 na medida em que, nas na medida em que a estimativa da contribuição do cresdcind1~fntoeconOllllCO patra ~
duas décadas analisadas, esse ano encontra-se entre os de maior renda familiar a redução da pobreza é obtida a partir da mensuração a I erença entre o to a l ~
percapita e os de menor grau de desigualdade. Como decorrência dessa posição da queda na pobreza efetivamente observado e a parcela atribuída, por simula- "
particular ao longo do período, evidenciamos que o grau de pobreza em 1997 era ção, ao impacto da redução na desigualdade.
o menor entre os demais anos das últimas duas décadas, com exceção de 1986. O Gráfico 9 apresenta, de forma consolidada, o conjunto dessas simulações
Para verificarmos em que medida a queda na pobreza, ocorrida ao longo realizadas ano a ano. Seguindo a metodologia descrita, isolamos, para cada ano
dos últimos 20 anos, deriva de reduções no grau de desigualdade ou do cresci- da série ilustrado no gráfico, o quanto da diferença entre os níveis de pobreza
mento econômico, apresentamos, no Gráfico 9, a decomposição da queda na observados em cada ano e o ano de referência de 1997 resulta de reduções na de-
pobreza em relação ao ano de 1997. Essa decomposição, construída para cada sigualdade ou do crescimento da economia.'5 Essa evidência empírica demons-
ano individualmente, é realizada em duas etapas. Em primeiro lugar, identifica tra, ex-post, uma regularidade surpreendente nos mecanismos de redução da
pobreza, na medida em que as quedas observadas na magnitude da pobr.eza em
Gráfico 9 todos os anos posteriores a 1977 resultam, primordialmente, do creSCImento
econômico. O papel da redistribuição de renda é bastante limitado durante todo
o período, com exceção do final da década de 80, em particular no ajuste poste-
Contribuição do crescimento e de reduções na desigualdade rior a 1989, quando vigorava o maior grau de desigualdade das duas décadas.
para queda na pobreza
Se nos concentrarmos, em particular, no período recente, vemos que o
crescimento econômico responde por 84% da queda na pobreza observada entre
--------------------0----,,----,-----,------ 20
Contribuição de reduções na 1993 e 1995, ou seja, o impacto sobre a pobreza decorrente do Plano Real, apesar
desigualdade para queda na
pobreza do inegável êxito do programa de estabilização monetária, não é tributário de
15 mecanismos redutores da desigualdade de renda entre as famílias brasileiras.
Devemos concluir, com algum incômodo, que apesar da evidente impor-
10 tância da redistribuição de renda para o combate à pobreza no Brasil, os únicos
mecanismos utilizados para reduzir a pobreza, além de extremamente limita-
5 dos quanto ao seu impacto, resultam, de modo sistemático, do crescimento eco-
nômico. Acreditamos que essa estratégia, no limite uma "não-estratégia", res-
o ponde, em grande medida, pela ineficácia no combate à pobreza ao longo das
últimas décadas no país.
-------------------------------5

I I I ! I I ! I I I I I I I I I I
1~1~'~'~ 'm'~'~'~'_'~'m'~'~lm'm'ml~'~O 15 O valor negativo observado no ano de 1986 decorre do rato de esse ser o único ano com menor
Fonte: PNAD. grau de pobreza do que o ano eleito como referência.
46 47
5 - Conclusão pobreza. É óbvio que reconhecemos a importância crucial de estimular políticas 't;
~ de crescimento para alimentar a dinâmica econômica e social do país. No en- ~
l2
~ Este trabalho procurou, por um lado, desenvolver uma descrição empírica tanto, para erradicar a pobreza no Brasil é necessário definir uma estratégia que g
~ exaustiva da estrutura da pobreza e da desigualdade no Brasil e, por outro, su-
confira prioridade à redução da desigualdade. ~
l;~ gerir os marcos referenciais para a construção de estratégias consistentes de t
{; combate à desigualdade e à pobreza. Em vários momentos apresentamos exer- "
:!ii:l cícios de natureza eminentemente estática para perseguir, de forma minuciosa, Bibliografia ~
g
.~ variados ângulos que pudessem contribuir no esclarecimento de nosso diag- BARROS,R. P. de, CAMARGO,J. M. Em busca dos det~rminantes ?O
.nível de '6'
2; nóstico. Esperamos ter alertado, ao longo de todo trabalho, para as limitações,
além das vantagens, desses exercícios.
bem-estar social na América Latina. Pesquisa e Planejamento Economlco, v. 23,
n.3, 1993. 1
~

O diagnóstico básico referente à estrutura da pobreza entende que o BrasiL -----. O combate à pobreza no Brasil: dilemas entre políticas de ~
no limiar do século XXI, não é um país pobre, mas um país extremamente injusto crescimento e políticas de redução da desigualdade. In: HENRIQUES, R. ~
e desiguaL com muitos pobres. A desigualdade encontra-se na origem da po- (org.). Anais do Seminário Desigualdade e Pobreza no Brasil. Rio de Janeiro, ago. ~
breza e combatê-la torna-se um imperativo. Imperativo de um projeto de socie- 1999. ~
'<:
dade que deve enfrentar o desafio de combinar democracia com eficiência eco-
BARROS,R. P. de., HENRIQUES,R., MENDONÇA, R. Desigualdade e pobreza no
nômica e justiça social. Desafio clássico da era moderna, mas que toma contor- Brasil: retrato de uma estabilidade inaceitável. Revista Brasileira de Ciências
nos de urgência no Brasil contemporâneo. Sociais, n. 42, fev. 2000a.
Na elaboração deste trabalho evidentemente reconhecemos, mas não dis-
-----. Education and equitable economic development. Economia, v. I,
cutimos, os condicionantes políticos e institucionais básicos para o estabeleci-
n. 1, jan. 2000b.
mento de um novo pacto social que contemple a prioridade de uma estratégia
de redução da desigualdade. O trabalho também não se propõe a discutir o de- BARROS, R. P. de., MENDONÇA, R. A evolução do bem-estar, pobreza e
senho e os limites de uma política redistributiva que integre programas estrutu- desigualdade no Brasil ao longo das três últimas décadas - 1960/90.
rais, redefinindo o controle e a distribuição dos capitais físico, humano e da ter- Pesquisa e Planejamento Econômico, v. 25, n. 1, 1995a.
ra, com programas compensatórios de redistribuição de renda.16 -----. A evolução do bem-estar e da desigualdade no Brasil desde 1960.
Esperamos ter demonstrado não só que o Brasil não é um país pobre, mas Revista Brasileira de Economia, v. 49, n. 2, 1995b.
que apresenta farta disponibilidade de recursos para combater a pobreza.
-----. Os determinantes da desigualdade no Brasil. A Economia Brasileira
Assim, a sociedade brasileira não enfrenta problemas de escassez, absoluta ou
em Perspectiva - 1996. Rio de Janeiro, IPEA, v. 2, p. 421-474, 1996.
relativa, de recursos para erradicar o seu atual nível de pobreza. Além disso, pro-
curamos construir, exaustivamente, diversos prismas de entendimento da de- HOFFMANN, R. Distribuição de renda: medidas de desigualdade e pobreza. São Paulo:
sigualdade econômica brasileira, colocando-a no eixo da causalidade que expli- Edusp, 1998.
ca o elevado grau de pobreza.
RAVALLION,M. Poverty comparisions: a guide to concepts and methods. Living
Desigualdade que surpreende tanto por sua intensidade como, sobretudo, Standard Measurement Study. 1992 (Working Paper, 88).
por sua estabilidade. Desigualdade extrema que se mantém inerte, resistindo às
mudanças estruturais e conjunturais das últimas décadas. Desigualdade que
atravessou impassível o regime militar, governos democraticamente eleitos e
incontáveis laboratórios de política econômica, além de diversas crises políti-
cas, econômicas e internacionais.
É imperativo reduzir a desigualdade tanto por questões morais como por
motivações relativas à implementação de políticas eficazes para erradicar a po-
breza. A tradição brasileira, contudo, tem reforçado a via única do crescimento
econômico, sem gerar, como vimos, resultados satisfatórios sobre a redução da

16 Nessa linha de reflexão, ver outros dois estudos: Barros, Henriques e Mendonça ( 1999 e 2000b).
.-._---~
Desigualdade, pobreza e
bem-estar social no
Brasil - 1981/95*

Francisco H. G. Ferreira**
Julie A. Litchfield***

1 - Introdução
Este artigo apresenta uma análise detalhada da distribuição de renda e po-
breza no Brasil entre 1981 e 1995. O objetivo é mostrar tão claramente quanto
possível um panorama das rendas por família, níveis e mudanças da desigual-
dade e pobreza, e fazer algumas comparações gerais de bem-estar, usando de-
senvolvimentos recentes nos conceitos e técnicas de análise distributiva. Além
disso, uma análise de sensibilidade é conduzida a fim de medir o efeito sobre es-
timativas de desigualdade e pobreza de várias escalas de equivalência.
A desigualdade no Brasil está entre as maiores do mundo. O Banco Mundial
consistentemente lista-a como a primeira ou a segunda (dependendo da medi-
da empregada) e isto, combinado com a importância geográfica e econômica do
país, a torna um caso de estudo importante para qualquer interessado em análi-
se distributiva [ver World Bank (1980, 1990 e 1996)]. Não surpreendentemen-
te, existe uma vasta literatura sobre pobreza e desigualdade no Brasil: veja por
exemplo Amadeo et alii (1994), Barros, Mendonça e Rocha (1993), Barros,
Mendonça e Duarte (1995), Fishlow (1972), Fields (1978), Fox (1990), Fox e
Morley (1991), Hoffman (1989), Jatobá (1995), Sedlacek e Barros (1989), Thomas
(1987) e Tolosa (1991). Nosso objetivo neste artigo é complementar esses estu-
dos, providenciando um panorama compreensivo da distribuição de renda,

Somos gratos a Leverhulme Trust, the Economics and Social Research Council e Sticerd, LSE,
no Reino Unido, e ao CNPq. em Brasilia. pelo apoio financeiro. Agradecemos também a Frank Co-
well. David Piachaud e Stephen Howes. na LSE; Sergei Soares. no Delta. Paris; e ao grupo de pesqui-
sadores do IPEA, no Rio de Janeiro. pelo apoio e conselhos. Este texto foi traduzido do inglês por
Antônio Marcos H. Ambrózio.
** Professor de Economia da PUClRio.
*** Diretora da Poverty Research Unit da Universidade de Sussex. Inglaterra.
50 51
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desigualdade, pobreza e bem-estar social para os anos de 1981 a 1995, com ên- na análise a fim de permitir algum grau de comparabilidade com outros estu- !S
~
~ fase nas mudanças nesse período. dos.2 As fórmulas são: ~
"l
~ O artigo está organizado da seguinte forma: a Seção 2 analisa as mudanças
~ n n
~ na distribuição da renda familiar bruta per capita e apresenta resultados sobre
t" renda, medidas de desigualdade e renda média e fração de renda por décimo da Gini=+ L L IYi-Yjl
{j d 2n Y i=l j=1
~ istribuição. A Seção 3 estende a análise de medidas resumidas usando instru- .~
.~ mentos-padrão, como Parada de Pen, Curva de Lorenz e Curva de Lorenz Gene- •...
-':a!
~ ralizada, a fim de observar a distribuição como um todo. A Seção 4 contém re-
sultados sobre a evolução da pobreza, com três índices para cada ano no perío-
EG(a) = 2
1
(a -a)
[~
ni=1
i (Y~ Y
)CJ. -1] ]
"~
do, assim como comparações de pobreza usando dominância mista. A Seção 5 ~
testa a robustez das conclusões a mudanças na escolha da escala de equivalên- t
cia. A Seção 6 conclui o trabalho. O Apêndice contém dados referentes ao arca- onde n é o número de indivíduos na amostra, Yi é a renda familiar bruta per capita ~
bouço macroeconômico. para o indivíduo i, iE (I, 2, ... ,n), ey=(l/n) LYi' éamédia aritmética da renda. O ~
A base de dados utilizada é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios parâmetro a na classe de EG representa o peso dado a distâncias entre rendas 'g
(PNAD) do período 1981/95, produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e em partes diferentes da distribuição. Um valor de a = O dá mais peso a distâncias
Estatística (IBGE). Os dados para cada ano foram coletados de uma amostra entre rendas na cauda inferior da distribuição, enquanto um valor de a = 2 dá
nacional representativa de famílias, com o tamanho variando de 286 mil a 517 proporcionalmente mais peso a distânc~as na cauda superi~r. As.medida~ de.EG
mil indivíduos. O questionário abrange assuntos relacionados tanto às famílias com parâmetros O e I se tornam, aplicando a regra de I Ropital, os mdlCes
quanto aos indivíduos que as compõem. A informação se refere à localização geo- Theil(L) e Theil(T):
gráfica das famílias; características da residência; tamanho; relações entre os
n _
indivíduos; suas atividades; renda do trabalho; transferências e outras fontes
como renda da terra e capital; ocupação e outras características do trabalho; EG(O)=~ L 10gL
ni=l Yi
idade; sexo; educação; etnia e alfabetização. A definição da renda na análise
central é renda familiar bruta mensal per capita; a população se refere a todos os
n
indivíduos. Os montantes monetários são todos medidos em reais de 1995, com
a taxa de câmbio de US$ 0.953. O INPC (Brasil) é usado para converter renda
EG(l)= ~ L Y~ log Y~
ni=1 Y Y
nominal em renda real.

Com a = 2 a medida de EG se torna metade do quadrado do coeficiente de


2 • Renda e desigualdade
variação.
Esta seção inclui medidas resumidas da distribuição de renda e resultados Existem duas principais características da distribuição, como mostra a Ta-
sobre desigualdade. Rendas média e mediana são apresentadas para cada ano bela 1.A primeira é a diferença entre a renda média e a renda mediana. Em cada
comparável da série junto com quatro medidas resumidas de desigualdade: o ano, a renda mediana é aproximadamente apenas metade da renda média, o
coeficiente de Gini e três membros da classe de medidas de entropia generaliza- que revela que a distribuição estava extremamente viesada para a direita, com
da (EG). A classe de medidas de EG foi escolhida porque seus membros satisfa- 50% da população recebendo renda menor que metade da média aritmética.
zem todos os axiomas desejáveis das medidas de desigualdade.' Apesar de o coe- A segunda característica importante da Tabela I é o crescimento da ~esi-
ficiente de Gini só satisfazer esses axiomas sob certas condições, este é incluído gualdade ao longo do período, como é demonstrado pelas quatro medidas.
Entre 1981 e 1995, o coeficiente de Gini aumentou cerca de 3%, EG (O) por volta
de 7%, EG (I) perto de 9% e o coeficiente de variação (CV) pouco mais de 10%.

1 Esses axiomas são: anonimato, princípio da transferência, invariãncia de escala, invariãncia por 2 o coeficiente de Gini não é decomponível. a não ser que os subgrupos da população não se sobre-
replicação da população e decomponibilidade [Cowell ( 1995) l. ponham no vetor de rendas.
52 53
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Entretanto, este aumento na desigualdade não foi monótono durante o perío-
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<n IJ'\ o o V\
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o o o do. Nos anos 80, o coeficiente de Gini aumentou mais de 5%, EG (O) e EG (1) C<i
cerca de 15%e CVaproximadamente 23%, enquanto durante os anos 90 a desi- 2;
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~ IJ'\ \.O \.O r-- gualdade declinou, com todas as medidas caindo: o coeficiente de Gini por volta
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CXl IJ'\ I"': C"! i::
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~" M \.O
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~ mente maiores no CVdurante os anos 80 sugerem que o aumento da desigual-
:'": M co \.O \.O dade foi determinado por um aumento relativamente grande das rendas na cau- .~
.~ r-- N \.O M ...
iG N N M IJ'\ \.O \.O C"!
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iG
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avelmente similares entre as quatro medidas, mas o ligeiro declínio no CVpode
\.O IJ'\ IJ'\ <n ser devido a ganhos de renda proporcionalmente menores no topo da distribuição.
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o co N \.O r-- r-- o ~
'"~ <n N o o o N As estatísticas resumidas também lançam alguma luz na relação entre o ci- "'a"
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clo macroeconômico e a distribuição de renda. Todas as quatro medidas au- ~.
co co \.O
mentaram substancialmente durante a recessão de 1981/83, caíram com a volta ~
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o pico em 1989, antes de declinar até 1995. O ano de 1986 foi atípico, quando Cl

<n IJ'\ o <n ambos os índices de Theil e de Gini caíram, indicando queda da desigualdade
o IJ'\ \.O
00
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\.O \.O r-- r-- CXl
com respeito à base e ao meio da distribuição. O pronunciado aumento no CV
~ -<i co o o o
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sugere maior dispersão entre as maiores rendas. Essas mudanças vão contra a
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~ ~ tendência geral e são certamente devidas aos efeitos redistributivos de uma in-
•... \.O <n
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o IJ'\ \.O r-- CXl flação menor causada pelo Plano Cruzado de 1986. Esse plano reduziu substan-
~ -<i co o o o
IJ'\ r-- cialmente a inflação, com um impacto positivo sobre aqueles menos aptos a
In \.O '<t '<t proteger suas rendas contra a indexação imperfeita. Além de uma inflação re-
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também refletir o efeito acumulado de três anos de crescimento. A queda em to-
das as quatro medidas de desigualdade em 1990, ainda que para níveis muito
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!! segundo e terceiro trimestres. Da mesma forma, a queda entre 1993 e 1995 pode
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~ também refletir os benefícios distributivos de uma inflação mais baixa depois
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do tempo. Isto fica ainda mais claro quando se examina a renda média por déci-
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mo da distribuição (ver Tabela 2).3 Primeiro considere as mudanças sobre o pe-
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N ~ IJ'\ \.O \.O \.O '"~ ríodo inteiro, 1981/95. A renda média total teve uma alta de mais de 2 I% entre
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E .'<1
."~ mento do padrão de vida. As rendas médias de todas as partes da distribuição de
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,!!! li> renda cresceram ao longo do período, mas os ganhos recebidos por cada décimo
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"tJ ~ da distribuição aumentaram com o nível de renda: o primeiro décimo ganhou
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1.9 1.9 > ~ por décimos foram usados para reportar médias e proporções de renda. enquan-
l- ce ~ \3 UJ UJ U o
<: to todos os gráficos e os resultados de dominância foram gerados usando-se percentis.
55
54
.... __ ..•...J"': Assim, todos os grupos se beneficiaram do crescimento, mas não igual-
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mente - os ganhos relativamente maiores para os ricos são refletidos em au- ~
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mento da desigualdade ao longo do período como um todo. No subperíodo ~
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~ ~ ~ N 1981/85, os 60% mais pobres viram uma queda na renda média, com os ganhos
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para os ricos aumentando com a renda. Entre 1985 e 1990, os 40% mais pobres ~
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ram a níveis acima dos de 1981. Aqui o aumento beneficiou a todos, e dessa vez ~
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gistraram uma queda de renda real entre 1981 e 1983, com os 10%mais pobres e
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<i: os 10%mais ricos perdendo aproximadamente 13%,enquanto grupos de renda
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~ ,... o t"'! "'! C! co LJ'l r-- lYl t"'! média perderam cerca de 16%de renda real.4 Os ganhos obtidos por todos os dé-
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drasticamente) foram praticamente corroídos por volta de 1987. Pelo final dos
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anos 80, a renda média dos 40% mais pobres caiu abaixo do nível de 1981, e ape-
nas quando a inflação começou a declinar novamente, depois do Plano Real, em .
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1994, é que as rendas reais se recuperaram para níveis similares àqueles do co-
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Maior intuição pode ser obtida
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'~ das pelos diferentes décimos da distribuição, em que se abstrai de mudanças
•••111 o ~ LJ'l LJ'l "'! o LJ'l ~ ~ co nos níveis absolutos de renda para se focalizar exclusivamente a desigualdade.
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~ A Tabela 3 mostra a fração da renda total obtida por cada décimo. Entre 1981 e
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~ C! ~ ~ ~ "'! cn cn co "'! t"'! com os grupos de menor renda perdendo proporcionalmente mais que os gru-
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~ pos mais ricos. Entre 1985e 1990 os 70% mais pobres continuaram a perder par-
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ticipação na renda total. pelo fim dos anos 80, as frações de todos, menos as dos
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~ ~ mais pobres. Entre 1990 e 1995 houve alguma melhora para a maioria da popu-
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,!!! lação, na forma de redistribuição progressiva: a fração de renda de todos, com


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exceção da dos 30% mais ricos, aumentou. Entretanto, essa melhora não foi su-
E ficiente para contrabalançar as perdas dos anos 80 e então, por volta de 1995,
lU 90% da população estavam piores em termos relativos do que em 1981.
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que indivíduos nos extremos da distribuição são menos dependentes da renda do trabalho.
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guma melhora em 1990, mas ainda ficou muito pior que no começo da década. ~
o N lO o m rt'l lO '<;I" o rt'l Em 1990, todos, menos os 20% mais ricos, estavam pior~s que em 1981, em ter- "
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Agora se torna possível verificar as importâncias relativas do crescimento e ~


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da redistribuição ao longo do período. Os ganhos para os décimos 5 a 8 entre ~~
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média total, essas redistribuições incrementadoras de desigualdade fizeram
com que os 40% mais pobres perdessem até mesmo em termos absolutos. Isso
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está de acordo com as conclusões de Datt e Ravallion ( 1992), que usam um mé-
I lO o o lO ~ rt'l o todo paramétrica para decompor mudanças na pobreza em um componente de
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'i: co lO LI'I LI'I "With Brazil's worsening distribution (fram the point of view of the
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Lt'i
"'. o' lO- '"
poor), far higher grawth rates than those of the 19805would have been
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needed to achieve the same impact on poverty as 1ndia attained"
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rt'l 00 ~ 00 rt'l N m N (p.294).
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Dessa forma, percebemos que os anos 80 foram caracterizados pela piora
E da desigualdade e perdas de renda real para muitas das pessoas mais pobres da
'~ m ~ m
sociedade. O termo "década perdida" para resumir a falta de avanço do
00 o o o
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bem-estar na América Latina é especialmente relevante para o Brasil. Os anos
O 90 (ao menos a primeira metade) viram algum progresso, com declínios da de-
Q.
LI'I rt'l rt'l m '<;I" sigualdade depois do Plano Real e ganhos na renda real em toda a distribuição
..;
'<;I" 00 '<;I" rt'l
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m ~ lO LI'I LI'I m 00 lO N
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N rt'l Lt'i LI'I- de renda. A Tabela 4 resume muito brevemente as conclusões da análise de de-
'<;I"
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a- sigualdade e bem-estar.
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59
da população acumulada, abstraindo assim dos níveis de ren~a. ~omi,~~ncia ~~ !B
unda ordem normalizada pela média envolve a comparaçao e me las reI~ ~
s~g rciais re resentadas pelas coordenadas da Curva de Lorenz. Se mu u-
u~as paos as fra ~es de renda pela média total então incorporaremos a~lbos ~s ~
ph~~~: de vidaÇmédios e as frações de renda. Associando .esse vetor a fraçao ~
pa lada da população gera-se a Curva de Lorenz Generalizada. Uma compa- :::
:~~~~~e tais curvas para duas distribuições gera, não havendodcru~a~le~to, a -~
dominância generalizada de Lorenz, também conhecida como ommanoa es- ~
tocástica de segunda ordem.6 , • ..]

. -o ara a Parada de Pen é estabelecer centesllllOS da dlstn- "


Uma aproxlmaça p A T d d desse instrumento ~
buição para cada ano na amostra (ver Gráfico 1). uU I a e .::.
para comparações de bem-estar social é a de que, se a parada para o anoA nU~1Ca {f
3 - Distribuição de renda e bem-estar social está abaixo e em pelo menos um ponto está acima da parada para_oano:, entao o ~
Fazer comparações de bem-estar é algo mais complexo do que comparar bem-estar social é maior em A do que em B para qualquer funçao de em-est~r -~
ganhos absolutos e relativos: dependendo dos argumentos da função de social ue seja individualista, aditivamente separável e crescente em renda. Veja
bem-estar social, a comparação de duas distribuições pode levar ao aumento ou sapos~ik (1981 e 1983) e Cowell ( 1995) para detalhes e prova des:e teorema.
queda do bem-estar. Por exemplo, uma função de bem-estar definida exclusi- A característica marcante do Gráfico 1 é de que entre 70% e 80 Yo da po~ul;-
vamente sobre níveis de renda real absolutos concluiria por uma melhora, caso ção em cada ano receberam uma renda menor que a média total, e a ren a o
a renda de todos aumentasse. Entretanto, funções de bem-estar podem levar
em conta tanto a renda real como a fração de renda apropriada pelos décimos da
distribuição. O objetivo do restante desta seção é incorporar as tendências de
renda e desigualdade em um arcabouço mais amplo da análise de bem-estar social.
Até aqui a análise tem sido conduzida em um nível bastante agregado, com Paradas de Pen: Brasil - 1981/95
estatísticas resumidas e médias e frações de renda por décimo da distribuição. Renda 1.400
Agora uma análise em um grau mais desagregado será aplicada tendo como
base instrumentos de ordenação e testes de dominânCia. Três tipos de técnica
1.200
de ordenação serão utilizados: Parada de Pen, Curva de Lorenz e Curva de Lorenz
Generalizada. Os gráficos serão construídos usando coordenadas em nível de
1.000
centésimos. Os testes estatísticos de dominância estocástica serão aplicados aos
vetores completos de renda, de forma a obter evidência mais conclusiva sobre as
800
mudanças da desigualdade e do bem-estar ao longo do tempo.
Essas três técnicas de ordenação englobam três diferentes abordagens de
1995
~.• 600
bem-estar: níveis de renda, frações de renda e uma combinação de ambos. A Pa-
rada de Pen delineia quantis da distribuição: ordenar duas distribuições requer 400
- ~ntão comparação de percentis de renda. Tal comparação define a dominância
de primeira ordem.5 A Curva de Lorenz associa fração de renda acumulada à fração 200

5 A Parada de Pen (Jan Pen) original foi conceitualizada a partir da comparação das rendas de to- O
dos os indivíduos em uma população. O exemplo dado por Pen foi o de alinhar indivíduos em ordem 70 80 90 100
o 10 20 30 40 50 60
crescente de renda e reescalar suas alturas para representar seus níveis de renda. Se esses indivíduos % da população acumulada
ficassem parados diante de um observador, este iria tipicamente ver um grande número de anões
(pessoas pobres), eventualmente seguidos de pessoas de altura (renda) média e finalmente segui-
das por um pequeno número de gigantes (pessoas muito ricas). Na prática, comparar rendas em . mas de dominância são definidos em termos da distribuição e da
cada nível se mostra muito trabalhoso; logo, algum grau de agregação é geralmente empregado e se 6 Estntamente falando, os teore. . (1989) mostram que estas são duais à Para-
comparam centésimos. função de déficit. Entretanto, Atkmson.e BourgUlgFnon,. (1996) para maior discussão.
da de Pen e à Curva de Lorenz GeneralIzada. Ver errClra
60 61
--------'
'1;; centésimo superior esteve entre 140 e 200 vezes as rendas dos centésimos mais Finalmente, a Curva de Lorenz Generalizada associa a fração acumulada
'"
~ pobres. De acordoocom a Parada de Pen, o bem-estar em 1990 é maior do que o de renda multiplicada pela média da distribuição à fração acumulada da popu- "'-
~
~ de 1981 para os 57 Yono topo da distribuição, mas menor para os 43% mais pobres. lação, ordenada de forma crescente em relação à renda (ver Gráfico 3). A domi-
1: Isso reflete novamente o fato de que o crescimento nos anos 80 - mesmo tão alto nância de Lorenz generalizada é diagramaticamente análoga à dominância de '1;;
~ quanto os dados sugerem - não beneficiou as famílias mais pobres no Brasil. Lorenz e mostra que o bem-estar é maior na distribuição dominante para qual- ~
~ Entre 1981 e 1995 todos, menos os 2% mais pobres da população, melhoraram. quer função de bem-estar social que seja individualista, aditivamente separá- ~
l d d A Curva de Lorenz associa a fração acumulada de renda à fração acumula- vel, crescente em renda e estritamente côncava (Shorrocks (1983) l. Uma con-
seqüência da dominância de Lorenz generalizada é que, se a renda média no
.~
s
2$ a a população, ordena~a de forma crescente em relação à renda. As relações
para,1981: 1990 e 1995 sao mostradas no Gráfico 2. A dominância de Lorenz- anoA é maior do que aquela no ano B então o anoA não pode ser dominado; mas ]
q~e e eqUl~alente à don;inância de segunda ordem normalizada pela média _ é daí não segue que irá necessariamente dominar B. Em termos da dominância "
dlagramatlCamente analoga à Parada de Pen e mostra que a desigualdad' _ de Lorenz generalizada, assim como da dominância para a Parada de Pen, a ca- ]
nor d. t .b . - d e e me racterística mais marcante é que 1986 domina-G todos os outros anos na amos- iS.
. na lS n. Ul~~o ominante para qualquer medida de desigualdade que sa-
tIsfaça ao PnnopIO de Transferências de Pigou -Dalton (Atkinson (1970)]. As tra. Uma vez que a renda média em 1986 foi maior do que em qualquer outro ~
Curvas de Lorenz mostram que 50% da população recebem apenas cerca de 15% ano do período, claramente não poderia ser dominado por eles. Mas, de fato, a ~
.~

do total da renda, e que a desigualdade aumentou entre 1981 e 1990, como visto média era tão alta que 1986 não só domina-G 1987,1988,1989 e 1990 (anos nos 2;
pelo deslocamento para fora da curva, caindo ligeiramente durante os anos 90. quais a renda média foi menor e a desigualdade maior), mas também domina
As Curvas, de Lorenz confirmam o panorama de crescente desigualdade ao lon- 1981 e 1984, quando a desigualdade era menor de forma não-ambígua, e 1983 e
go do pen?do, com dominância da curva para 1981 sobre todas as curvas de 1985, cujas Curvas de Lorenz cruzaram.
1985 em ~lante, con: e~ceção de 1992. Os anos intermediários de 1983, 1984 e Uma vez que há 12 anos com dados, cada uma das três comparações descri-
1985. d~~lmam a maIOna dos anos subseqüentes. A desigualdade então foi, sem tas anteriormente é possível para 66 combinações aos pares. Para cada uma de-
amblgUl~ades, menor nos primeiros momentos da década do que na maior par- las, três resultados são possíveis: A pode dominar B, B pode dominar A ou as
te do penodo subseqüente. curvas podem cruzar ou coincidir. A Tabela 5 resume todas as 198 comparações

Gráfico 2 Gráfico 3

Curvas de Lorenz: Brasil. 1981/95 Curvas de Lorenz generalizadas: Brasil. 1981/95


Renda acumulada % Renda
200
100

90

80
150
70

60
100
50

40

30
50
20

10
O
o 10 20 30 40 50 60 70
O 10 20 30 .40 50 60 70 80 90 100
80 90 100
% da população acumulada % da população acumulada
62 63
-'-:-~ de dominância possíveis. Seja i o número da linha,j o número da coluna. A célu-
a.. '"Qõ.
'"'":: U'I
cn
~ ...• ...• ...• (j la (i, j) tem um L (G, P) se o ano i Lorenz (Lorenz Generalizada, Parada de Pen) õõ
"l ...•' :=::
g domina o anoj. Por exemplo, se i = 1984 ej = 1983, podemos ver que a distribui-
i':~ a.. a.. a.. a.. a.. ção de 1984 domina a de 1983, ou seja, a desigualdade foi, sem ambigüidade, ~
M

'"
~
\:)
...•' ...• ...• (j \:)' (j (j \:) ...• \:)' ::
""lS.
...•' ...•' menor em 1984 do que em 1983. Uma célula (i, j) pode não conter nenhuma CQ
c
"
{j dessas três letras por dois motivos: célula U, i) pode estar cheia, ou as curvas re- ::::

~ levantes para i ej podem cruzar ou coincidir. .~


g N
a.. a.. a..
.~ '"
~ \:) \:) (j \:)' (j ~
:c
c:.
As distribuições são inicialmente comparadas em nível de agregação de I?
centésimos, e as entradas na Tabela 5 se referem então à dominância amostrai ]
a.. a..
o
""...• ""...• ""...• \:) nesse nível. Esse procedimento é claramente estatístico - no sentido de que é "
'"~ "...• \:)'
...•' -J
\:)'
...•' uma comparação baseada em médias amostrais - e a inferência de dominân-
~
~
""-c
cia populacional a partir desses resultados deveria então estar sujeita a testes "'-
a.. ~
'"~ \:)' estatísticos. Um desses testes, baseado em um teste simples de diferenças de :?J
""...• ""...• ""...• ""...• ""...• \:)
co
""...• ....' g
""...• médias aritméticas, é dado por Howes, (1993a). Usando o método de limites en- .~
:c
c:.
dógenos de Howes, a Tabela 5 mostra os resultados de dominância por centési-
a.. a.. a..
co
""...• ""...• ""...• (j \:) a.. ...• mos que foram considerados estatisticamente significativos ao nível de 5%,
"...•
co (j (j
~ "...• \:)'
...•'
"...• -J para um intervalo de 99% (*) ou 100% (**) da distribuição, baseado na checa-
gem da amostra desagregada completa. Uma apreciação sobre a tabela revela
•... a.. a.. que a maior parte dos resultados de dominância obtidos a partir da comparação
...•
""...•
11'1
""...•
co
\:)'
~
•..
c:n
....•
co
....' (j
em um nível de agregação de centésimos é considerada estatisticamente signi-
ficativa quando baseada em uma comparação ao nível totalmente desagregado
•..
c:n
'"
co ...• ...• da amostra, permitindo interpretar os resultados como se referindo à população
~ brasileira, em um teste de dominância muito mais rigoroso que qualquer outro
••I'll previamente aplicado a dados brasileiros .
••GI
CII U'I
...• ...• a.. a.. As duas características mais marcantes da tabela são, primeiro, que exis-
I
co
~ ""...• \:)' \:)'
E tem muitos casos de dominância de Lorenz (L), mas relativamente poucos re-
GI sultados de dominância de Lorenz generalizada (G) ou de Parada de Pen (P), e
.c ..,.
GI co a.. a.. a.. segundo, que a primeira está fortemente concentrada acima da diagonal. A in-
GI ~ (j (j (j
terpretação da última observação é que houve uma tendência marcante de au-
"C
I'll mento de desigualdade na década. Por exemplo, 1988, 1989, 1990 e 1993 são to-
:3! a.. a.. a.. dos Lorenz dominados por cada ano entre 1981 e 1986. A in terpretação da pri-
...•
M
I'll co
::2 ~ \:)' \:)' \:)'
meira observação é de que resultados claros de dominância de bem-estar são
~
'iij muito mais difíceis de encontrar, uma vez que o crescimento da renda reporta-
GI
"C Cõ a.. da na década foi contrabalançado pelo aumento da desigualdade, impedindo o
GI ~ (j
bem-estar social de aumentar de modo não-ambíguo para as anteriormente
"C
I'll mencionadas largas classes de funções de bem-estar social. Com exceção de
'uc 1986, quando a renda média é muito maior do que a tendência, 1995 é o único
<I'll ano que domina em termos de bem-estar a maioria dos anos anteriores. Entre-
C
tanto, 1995 não domina 1981 em nenhum sentido. Embora a média total e as
E por décimos fossem maiores em 1995 do que em 1981, as Paradas de Pen se cru-
O
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zam nos 2% inferiores da distribuição e a desigualdade era, sem ambigüidade,
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maior em 1995 do que em 1981.
64 65
:-::: Em resumo, a desigualdade aumentou de modo não-ambíguo durante os as diferenças substanciais entre as regiões do país - e dentro dessas regiões, de '"
E anos 80, fazendo com que o bem-estar (em termos de rendas absolutas e relati- áreas metropolitanas para áreas urbanas e destas para áreas rurais - em ambos ~
'"g vas) entre os 40% mais pobres da população caísse, apesar do crescimento na os padrões de consumo e preços, uma cesta de alimentos foi calculada especifi- ~
~ média de renda (reportada) da população total. A base da distribuição experi- camente para cada área.7 Os custos de alimentação para cada área respeitam en- 'i;
! mentou uma melhora temporária em 1986. Durante os anos 90 a desigualdade tão não somente diferenças de preços, mas também diferenças nas preferências e ~
~ declinou ligeiramente, com o crescimento e a redistribuição beneficiando 70% disponibilidade local do alimento. Em lugar de usar o inverso de um coeficiente g
~ da população. Entretanto, apesar do crescimento nas rendas em todos os níveis de Engel para obter a linha de pobreza (o qual era instável, dadas substanciais 'g
g entre 1981 e 1995, a desigualdade foi sem ambigüidade maior em 1995 do que mudanças de preços relativos entre itens alimentares e não-alimentares durante ~
em 1981. a década), Rocha estimou o gasto não-alimentar entre os pobres diretamente ]
para cada área metropolitana separada.8 A soma dos gastos não-alimentares ~
4 - Pobreza entre os pobres e o custo da cesta de alimentos dá o conjunto das linhas de po- 1;
breza regionais. Os valores para as linhas de pobreza específicas, em reais de ~
Seguindo Sen (1981), a discussão sobre pobreza é estruturada de acordo 1995, para as regiões relevantes da PNAD estão apresentados na Tabela 6 [con- ~
com os dois aspectos que compõem a análise de pobreza: o problema de identifi- vertida da tabela XIII, em Rocha ( 1993) l. ~
.!!l
cação e o de agregação. Três medidas foram escolhidas para resumir a pobreza em cada ano e suas ,g
O debate em torno da mensuração da pobreza inclui visões de que a pobre- mudanças ao longo da década. Esses índices podem ser expressos como mem-
za deveria ser vista em termos relativos, e visões alternativas, segundo as quais bros da classe paramétrica FGT(a). As três medidas levam em conta três carac-
pobreza é um conceito inerentemente distinto do de desigualdade. Por exem- terísticas básicas da pobreza: incidência, intensidade e desigualdade entre os
plo, no Reino Unido e em alguns outros países europeus, famílias pobres são ge- pobres. A proporção de pobres, com a = O, o déficit de pobreza normalizado,
ralmente definidas como aquelas em que a renda equivalente é menor do que
com a = 1, e a medida FGT2, com a = 2.
40% (ou alguma outra percentagem) da renda média [HBAI (1997), Mercader
( 1996), Miller e Roby (1970) l. Por outro lado, famílias pobres nos Estados Uni-
dos são identificadas usando o custo da cesta de bens e serviços básicos e um coe-
ficiente de Engel. A característica diferenciadora está relacionada ao axioma do
P(a) =~
n.
L. [I _li-]U
Z
I:Yl~Z
foco da análise de pobreza: para uma dada linha de pobreza, medidas de pobreza
satisfazendo este axioma não mudam se não há alterações nas rendas dos po-
bres, independentemente do que ocorre com a renda dos não-pobres. Segue ondey;é a renda domiciliar percapita e zé a linha de pobreza para a área relevante.
imediatamente que a escolha da linha de pobreza, que separa os pobres dos Estimativas da pobreza usando cada medida são apresentadas na Tabela 7.
não-pobres, é crucial e, uma vez determinada, tanto o nível como a natureza da O panorama da pobreza reflete o comportamento das rendas médias dos déci-
pobreza só podem ser entendidos com relação a ela. A primeira escolha metodo- mos na cauda inferior da distribuição, reportados na Tabela 2. Ao longo do pe-
lógica é, portanto, se devemos adotar um conceito absoluto ou relativo de po- ríodo como um todo, a proporção das pessoas na pobreza caiu, os pobres fica-
breza. A maior parte dos estudos no Brasil até aqui tem adotado uma aborda- ram, em média, menos pobres e a desigualdade entre estes também caiu. Entre-
gem absolutista da pobreza, usando o custo de uma cesta de bens ou o valor do tanto, dados os resultados da seção anterior - particularmente a queda absolu-
salário mínimo [Barros, Mendonça e Rocha (1993), Fishlow (1972), Fox ta nas rendas médias dos quatro décimos inferiores da distribuição - não sur-
(1990), Fox e Morley (1991), Tolosa ( 1991) l. Este artigo segue esta tradição, de preende que a pobreza tenha aumentado ao longo dos anos 80. Entre 1981 e
acordo com Sen (1983), que argumenta por um irreducible absolutist core in the
idea ofpoverty (p. 159), e adota uma linha de pobreza baseada em uma estimativa 7 Na verdade, isso foi feito para as nove áreas metropolitanas (Belém, Fortaleza, Recife, Salvador,
Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre), assim como para Brasília e Goiã-
da renda necessária para suprir as necessidades básicas, em vez de uma fração nia, usando uma pesquisa de gastos para 1987 [Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) l. Para as
da renda média ou mediana. Outras áreas urbanas e rurais, fatores de conversão foram emprestados de um trabalho de Fava
(1984), que se baseava nos dados mais recentes disponíveis para essas áreas - o Estudo Nacional da
A análise de pobreza usa um conjunto de linhas de pobreza específicas por Despesa Familiar (Endef), de 1975. Os custos resultantes foram atualizados para preços de 1990
região calculadas por Rocha ( 1993), para uso com os dados da PNAD de 1990. usando o índice de preços lNPC.
Rocha começa computando o custo mínimo de uma cesta de alimentos neces- 8 Os pobres entre os quais foram computados gastos não-alimentares são aqueles que, de acordo
sários para atingir os requerimentos calóricos recomendados pela FAO. Dadas Cominformação registrada na POF, eram incapazes de suprir os requerimentos calóricos mínimos
como especificados pela FAO.
66 67
Tabela6
~ Tabela7
<'
ê Linhas de pobreza per capita (EM REAISDESETEMBRODE 1995) Brasil: pobreza - 1981/995
~~~~------------
~ REGiÕES DA PNAD '::

t ;::=:-;-_-:==:-:7~-:::--:--:---: ":'::'VA~L~OR~
1981 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1992 1993 1995
~
""
~ Região I Metrópole do Rio de Janeiro 100,73 Propor- ~
'il ~
g Urbano 62,45
ção de
pobres 0.445 0.553 0.5200.457 0.296 0.417 0.4390.403 0.450 0.461 0.471 0.377 ~
.~ '"-
~
c::, '"
Rural 45,33 ~
Déficit
de po-
]
Região 11 Metrópole de São Paulo 107,33 breza 0.187 0.235 0.232 0.195 0.109 0.178 0.194 0.177 0.199 0.208 0.213 0.156 ""'

~
Urbano 67,62 FGT(2) 0.1040.1350.1320.1090.0560.0990.1120.1010.1140.123 0.126 0.086 t
Rural 42,93 ~,.
Região 111 Metrópole de Curitiba 86,27 1990,observamos um crescimento na pobreza de acordo com todas as medidas. .~
O aumento na proporção de pobres mostra que uma fração ligeiramente maior 25
Metrópole de Porto Alegre 59,89
da população estava pobre por volta do fim da década. Além disso, o fato de que
Urbano 54,81 o déficit de pobreza aumentou proporcionalmente mais que a proporção de po-
Rural bres (6% contra 1%) é evidência de que os pobres ficaram, em média, mais dis-
36,54
tantes da linha de pobreza. Finalmente, o aumento de 10% no FGT(2) sugere
Região IV Metrópole de Belo Horizonte 82,78 que as rendas entre os mais pobres passaram a ser distribuídas mais desigual-
Urbano 55,46
mente. Durante o começo dos anos 90 a pobreza (conforme indicado pelas três
medidas) continuou a aumentar, atingindo o auge em 1993, mas caindo entre
Rural 32,28 1993 e 1995 para um nível inferior ao de 1981.
Região V Metrópole de Fortaleza 62,94 A pobreza aparenta ter se comportado de forma mais anticíclica do que a
Metrópole de Recife desigualdade, com bruscos aumentos durante recessões e um substancial declí-
83,79
nio com a volta do crescimento. Todas as três medidas indicam um forte au-
Metrópole de Salvador 96,19 mento na pobreza de 1981 a 1983, devido à recessão. Além disso, todas as medi-
Urbano 56,68 das tiveram 1983 como seu ano de pico durante todo o período. Todas as medi-
das declinaram mono tonicamente até 1986, embora até 1985 cada uma delas
Rural 34,01 estivesse acima do nível de 1981. A redução realmente brusca da pobreza veio
Região VI Brasília 102,98 em 1986, como era de se esperar, dados os resultados prévios de dominância
Região VII Metrópole de Belém para aquele ano. Todas as três medidas alcançaram seu mínimo em 1986 e en-
58,36
tão tiveram uma alta até 1990, exceto por um declínio temporário em 1989. Ao
Urbano 51,94 todo, os bruscos aumentos da pobreza nos primeiros anos recessivos, reforçados
Rurala por aqueles no período inflacionário pós-1986, mais do que compensaram os
38,22
ganhos obtidos em 1984/86.
Região VIII Goiânia 97,86
Entretanto, enquanto a desigualdade aumentou persistentemente e de
Urbano 74,37 modo não-ambíguo durante os anos 80, como revelado pelos resultados de do-
Rurala minância de Lorenz da Tabela 5, o panorama é menos claro em relação à pobre-
a . 38,22 za. Isto é evidenciado na Tabela 8, análoga à Tabela 5, mas onde D na célula (i,j)
A Imha de pobreza rural nas regiões VII e VIII é a média não-ponderada de todas as outras linhas de pobreza rurais.
mostra que o ano iexibe dominância mista de pobreza sobre o anojo Esse conceito
foi desenvolvido por Howes (1993b) como uma extensão da aplicação de domi-
nância de segunda ordem à análise de pobreza feita por Atkinson (1987).
68 69
Dominância mista consiste essencialmente em primeiro definir limites inferio-
't;; ( 1987)- pioneiro na análise de dominância de pobreza - é menos exigente,
JSres e superiores, z- e Z+, da linha de pobreza z, e então checar se há dominância Illasapresenta um problema: a classe de funções que esta cobre é muito menor, ~
~de segunda ordem de zero à linha de pobreza inferior, e se há dominância de pri- e requer que a função de bem-estar ou opulência satisfaça ao axioma ~a transfe-
~ meira ordem entre as linhas de pobreza inferior e superior. rência por meio da distribuição. Isso exclui a mais comum das medidas de po- 't;;
1.
•.. Ao derivar as comparações de dominância apresentadas a seguir, z- foi es- breza, ou melhor, seu negativo, a função de opulência correspondente: a pro- JS
~
~ colhido como a menor linha de pobreza de Rocha, mostrada na Tabela 6 porção de pobres. .~
1 (R$ 32,28), e z+ como a maior (R$ 107,33), considerando que estes pareciam ser Howes (1993b) demonstra que a dominância mista cobre uma classe de ~
~ limites naturais para um estudo de pobreza em nível nacional. Enquanto, ao de- funções intermediárias, requerendo que elas sejam crescentes na renda, que sa- ~
rivar as medidas escalares apresentadas na Tabela 7, vetores de renda familiar tisfaçam o axioma do foco e da transferência, exceto em situações em que sur- ]
per capita regionais foram comparados com suas linhas de pobreza específicas, jam cruzamentos da linha de pobreza. Dominância mista de pobreza implica ~
na análise de dominância a distribuição nacional é vista como um todo, com o então que todas as medidas de pobreza nesta classe ordenem pobreza em duas -i
conjunto de linhas de pobreza pertinentes variando de z- para z+. O intervalo distribuições do mesmo modo. Dominância mista de pobreza do ano i (por ~
entre as duas é grande, logo dominância mista de pobreza nessa análise envolve exemplo, 1981) sobre o ano} (por exemplo, 1983) significa que pobreza é maior 1
um requerimento rigoroso de dominância de primeira ordem sobre um largo in- em}do que em i para todas as medidas nessa classe, e para todas as linhas de po- .~
tervalo da distribuição. breza em (z-, z+). Esta classe inclui todas as medidas de pobreza da família para- <::l

Dominância de primeira ordem cobre uma vasta classe de funções de opu- métrica de Foster-Greer-Thorbecke, incluindo a proporção de pobres.
lência,9 requerendo apenas que elas sejam crescentes em renda e respeitem o Na prática, se um~ distribuição exibe dominância de Parada de Pen, segue
axioma do foco. Dominância de segunda ordem, usada no artigo de Atkinson dominância mista de pobreza. Onde a dominância-P não pode ser estabelecida,
a dominância mista de pobreza ainda é possível se o cruzamento das curvas re-
Tabela 8 levantes ocorrer em um nível de renda maior que z+.
A Tabela 8 confirma a confiabilidade dos resultados inferidos a partir das
Brasil: dominância mista de pobreza - 1981/95
medidas escalares. A sua primeira característica marcante é a dominância de
1981 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1992 1993 1995
1986 sobre todos os outros anos da amostra, revelando que a pobreza foi de
modo não-ambíguo menor nesse ano, para qualquer escolha da linha de pobre-
1981 o o o za entre R$ 32,28 e R$107,33 de renda bruta mensal per capita. Isso é consistente
1983 com os valores muito menores de todas as três medidas reportadas para aquele
ano, assim como com os resultados de dominância da Tabela 5. De fato, uma vez
1984
que 1986 exibiu tanto dominância-G como dominância-P sobre qualquer outro
1985 o o ano, o resultado acima tinha de seguir. O panorama geral claramente confirma
o o o o que o rápido crescimento nos anos imediatamente anteriores a (e incluindo)
1986 o o o o o o o 1986,combinado com a dramática redução da inflação, teve um efeito substan-
1987 o o o o cial na redução da pobreza. O último ano do período, 1995, também domina
1988 muitos outros, mas não 1981- mesmo que todas as estimativas de pobreza se-
jam menores em 1995 do que em 1981, o resultado não vale para todas as linhas
1989 o o o de pobreza entre R$ 32,28 e R$ 107,33.
1990 Uma outra forma de analisar a Tabela 8 é observar os anos mais freqüente-
1992 mente dominados, isto é, aqueles com mais entradas em suas colunas, em que a
pobreza foi, com mais freqüência, sem ambigüidade maior do que em outros
1993
instantes. Os piores momentos foram o final do período ( 1992/93) e a recessão
1995 o o o o o o o o o de 1983, com um efeito defasado durando até 1984. Apesar dos requerimentos
rigorosos inerentes nas comparações de dominância mista, 1986 domina todos
os outros anos.
9 Funções de opulência, na terminologia de Howes, são negativos das medidas de pobreza.
70 71
-.--~-..'-
..•.
Existem diferentes abordagens para estimar Mi, como discutido por ~
A conclusão natural é que a pobreza se comportou anticiclicamente, como
~ Coulter, Cowell e Jenkins (1992b). Uma classe paramétrica simples de esca~as ~
~ se poderia esperar: aumentou na recessão de 1983, caiu seguindo a recuperação
g do crescimento no meio da década de 80 e alcançou um mínimo pronunciado de equivalência [devida a Buhmann et alii. ( 1988)] pode, pela escolha ap.ropna-
~ em 1986. A seguir, aumentou novamente, sendo 1988, 1990, 1992 e 1993 os da do parâmetro 8, servir como proxy para amaior parte das escalas maiS com- ~
! anos mais freqüentemente dominados no período. Enquanto todas as três me- plexas. A escala de Buhmann et alii é dada pOI:Mi =S?,
onde s;é o tamanho da fa- g
{I didas na Tabela 7 sugerem que a pobreza era maior em 1990 do que em 1981, o
~
~ fato de não haver dominância deste último sobre o primeiro sugere, como ante-
mília i. Esta seção segue Coulter, Cowell e Jenkins (1992a e b) ao usar esta esca- 1
la para discutir a sensibilidade das medidas de desigualda~e ~ pobre~a, apre- ~
.~ riormente mencionado, que o aumento da pobreza ao longo da década foi mais
Q sentadas anteriormente, a mudanças na escala de equivalenCla. A.ssIm cfom.o .~
ambíguo do que o aumento da desigualdade. Similarmente, a falta de domi-
l' s não estamos sugerindo que tamanho da família seja o único atnbuto ami- -;:;
nância de pobreza de 1995 sobre 1981 provê um panorama menos conclusivo do
~:r 'conceitualmente importante para ajudar a determinar a di:erença ~as ne- ~
que o aumento não-ambíguo da desigualdade.
cessidades. Simplesmente nos aproveitamos do fato de que vanar o parametro t
8 permite que um pesquisador investigue o comport.amento das medidas esca- i
5 - Sensibilidade das conclusões distributivas à escolha da lares de desigualdade e pobreza sob hipóteses bem diferentes acerca das econo- .~
escala de equivalência mias de escala nas famílias. ~
A análise até aqui tem sido baseada em rendas familiares per capita, com Seguindo Coulter, Cowell e Jenkins (1992a), os res.ultados empíricos a se-
cada indivíduo sendo receptor da renda, como tem sido prática comum nos tra- guir tomam a forma de valores para um número de medidas escalares de pobre-
balhos sobre distribuição de renda no Brasil. No entanto, se o objetivo é a com- za e desigualdade para cinco diferentes valores de 8 (= 0.00.; 0.25; 0.50; 0.75;
paração de níveis interpessoais de bem-estar, esta abordagem claramente re- 1.00). São apresentados resultados para três m~di~as de deslg~aldade perte~-
presenta uma hipótese forte sobre as economias de escala na família, ou seja, centes à classe de EG: o índice L de Theil G(O), o mdice T de TheI! G( I), e o coefi-
supõe-se que estas não existam. Isso está em desacordo com a melhor experiên- ciente de variação. As medidas de pobreza consistem da proporção de pobres,
cia em análise distributiva para muitos outros países, e uma literatura substan- do déficit de pobreza normalizado e do Foster-Greer- Thorbecke (ex = 2). Inves-
cial tem levado em conta diferenças nas necessidades e características entre as tigamos a variação dessas medidas de pobreza com 8 para umaynha de pobreza
famílias, quando comparados os níveis de bem-estar dos indivíduos dentro de- relativa igual a 84% da renda média,1O em contraste com a Seçao 4, ~a qual ~s~-
las. Isso é mais comumente feito por meio da adoção de uma escala de equiva- mos um conjunto de linhas de pobreza absolutas. Essa m.udanç~ ~ necessana
lência [ver Coul ter, Cowell e J enkins ( 1992b) para um estudo de metodologias porque se mantivéssemos uma linha de pobreza absoluta fixa defInIda em u~.a
diferentes].
base per capita, reduzindo 8 para levar em conta economias de escala nas f~mih-
Estes autores analisam que "bem-estar pessoal" - ou renda equivalente as iria necessariamente reduzir as estimativas de pobreza, enquanto vanando
- Ypode ser visto conceitualmente como uma função Yi = j(Xi,Pi' ai)' ondeXse ambas a linha de pobreza com que se defronta cada família e o vetor de rendas
refere à renda familiar monetária, p é o vetor de preços relevante e a é um vetor com 8, levaria a nenhuma mudança na pobreza. A variação das medidas de de-
de características da família. As famílias são indexadas por i = I, ... , H. Escalas
sigualdade e pobreza com 8 é apresentada nos Gráficos 4 e 5.
de equivalência, usualmente denotadas Mi, transformam rendas monetárias X
Esses gráficos revelam que, para o Brasil assim como para o Rei~o ~~ido,
em rendas equivalentes Y, como: Yi = X/Mi, para cada i = I, ..., H, onde Mi é dado
como segue: medidas escalares de desigualdade e pobreza são razoavelmente sensIv~ls a e~-
colha da escala de equivalência. Quatro pontos merecem ate~ção espeCial. Pn-
meiro, o Gráfico 4 mostra que a tendência do aumento da deSIgualdade durante
C(u,p,a;)
M.-
I
-- os anos 80, enfatizada ao longo deste artigo, é robusta à escolha da es~ala de
C(u,p,ar) equivalência e, ainda, que esta robustez não depende da escolha da medIda :s-
calar em particular. Para as três medidas investigadas, a desigualdade era maIOr
A equação anterior é a razão de duas "funções custo", onde u é algum nível
comum de bem-estar ou utilidade; os preços com que diferentes tipos de famíli- 10 Ao optar pela linha de pobreza relativa. a escolha da proporção da renda.méd~a é geral~ente ar-
bitrária. Neste caso. dada a preferência pelo núcleo absolutista da po~reza dlSCUlI~~anteno~mente,
as se confrontam são aSSumidos ser os mesmos, e as características das famílias
um valor (84%) foi escolhido para gerar precisamente a renda,r~ceblda ~e!.ocen~eslm? eq.Ulvalente
variam. O subescrito r é uma referência para o tipo da família. à proporção de pobres de 1981, isto é. a "linha ~e po~reza media do pais•. A dlscrepanCla para os
dois valores de P( O) para 1981 é devido a aproxlmaçoes na escolha do mvel de renda.
72 73
-.-----:.- .. Gráfico 4 Gráfico 5
~
o:>
~ Desigualdade e escalas de equivalência: Brasil - 1981/95 Pobreza e escalas de equivalência: Brasil - 1981/95
::l
~
t" G(O)
---'--'-------------------------------- 0,75 Proporção de pobres
0,45
{I
{l
~
.~
0,70
tl
Cl
0,44
0,65

--------- .
.••••• 0,60
0,43
------------- ___ --------
.
•••••••••••• 1981
0,55
~~~.~ .
'----------'---------'----------'----------'1 o 50 • -- ---------~-------~-------~------~I 0,42
o 0,25 0,50 0,75 1 ' o 0,25 0,50 0,75 1
Teta Teta

G(l) Déficit de pobreza normalizado


0,80 0,22

--------------------------------- 0,75
_____________ ~
~ 0,21
0,70

0,65 0,20
.......................
.--------
1985

......................................;~81
0,60
1995
.- ---_.- .----.-:. ... 1985 •••••••••••• - ••

0,19
...................... -:'.~.~ ~:-::: .-:.-:.":."!.~... """ 'i981
.................................... 0,55

'----------'-------_--'- --'- ---1' 0,50 1


'018
o 0,25 0,50 0,75 1 o 0,25 0,50 0,75 1 '
Teta Teta

Foster-Greer-Thorbecke (2)
--------------------------------- 2,2 0,14

-------------------------------~-2

- ---~ =
990

=-----:1,8
••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••
~ ...••.•.••••..
1981
.•... 1,6

1,4
1990 .--

-----
•..
0,12

1995 19~~,,:~l'''''''''''
0,11
---------------------------------1,2 ..••....•. -:a. -:-. ~ ~ ~ .••.• -:.-: ::.-:. -:-. -:-. ~:-::::':.-:.-: .~.-:.~. ~:-:.:: .•. i 98;....

'----------'---------'------ __ --'- ---ll 1 L


1010
O 0,25 0,50 0,75 1 O 0,25 0,50 0,75 1 '
Teta Teta
74 75
. I r 8 = 1 ordena 1981 e 1985 de maneira '"
~ em 1990 do que em 1985 e em 1985 do que em 1981, para todos os valores de 8.
das tendências da pobreza. E;l pa~t~c: p::a a proporção de pobres e para o déficit ~
~ Nesse aspecto, parece que a escolha de renda percapita (8 = 1) como unidade de
oposta à dos outros quatro va ores que 8 = 1 é equivalente à
g análise, neste e em muitos outros trabalhos no Brasil, não afeta as conclusões a r do Isso é preocupante, uma vez
2 d a desigualdade ao longo do tempo. de pobreza n~rma lza. . Ih de escala de equivalência mais comum em ~
ô: respeito das tendências
t renda per caplta, ou seja, a esco a g
""
{;
Segundo, a análise mostra que para o Brasil nos anos 80, todas as três me- balhos no Brasil. - . d
~ didas de desigualdade aumentaram
1
monotonicamente com 8 sugerindo que, se
alguém está preocupado com níveis, em vez da tendência da desigualdade, a es-
tra .
Quarto, esses resu.ltados so~re~
1992
obreza confirmam as conclusoes geraIS e
ue se refere aos efeitos amplamente dis- i
~

Coui ter, Cowell e Jenkms ( .l 1-q . na análise de pobreza para linhas de ~


~ colha de renda per capita implica a de uma cota superior para valores da desi-
tintos de variar as e~c~la~ ~e ~qu~~: e:bc::za relativas. Para linhas de pobreza fi- ~
gualdade. Nesse sentido, a escolha da renda per capita, desconsiderando toda pobreza absolutas Vls-a-VlS m as p R ha ( 1993) em termos de renda -
economia de escala dentro das famílias, parece exagerar o nível da desigualda- "d d do absoluto como em oc , ,. ê
de. Uma vez que a maioria dos pesquisadores iria provavelmente concordar com
xas, defml as e mo l' nta economias de escala na faJ11lha (ou t
't ma mudança para evar em co .;,i
o fato de que o custo marginal de uma pessoa a mais na família declina, embora pacapl a, u. riamente reduzir qualquer medida de pobreza ~
seja, reduzmdo 8) d,eve necessa d se )ermite que a linha de pobreza mude 'l
moderadamente, dentro de um intervalo normal, a análise futura dos níveis de
substancialmente. E apenas quan ~or d~ rendas equivalentes que a curva em .~
desigualdade no Brasil deve levar em conta a questão das escalas de equivalência.
em resposta a ~ma mudaQça no veres anteriormente mencionados como neste
Em adição, é notável que a monotonicidade com a qual os índices variam forma de U, obtJ~a tanto p~los auto o Gráfico 5 ilustra, quando se mede pobreza
com 8 não esteja de acordo com a curva estilizada em forma de U encontrada artigo, pode Sur~lr. Adel~la.ls, como 84% da renda mediana do vetor de rendas
por Coulter, Cowell e Jenkins (1992a) para o Reino Unido, e por Rodrigues relativa a uma lmha defJOlda c~mo I U para o comportamento de todas as
(1993) para Portugal. Coulter, Cowell e Jenkins (1992a) propõem que a curva relevante, obtém-se curvas em ormato (e ara a )ro )orção de
em forma de U observada a partir de seu conjunto de dados é provavelmente o medidas de pobreza com respeito a mudanças em 8, exceto pc c I I
resultado das forças relativas variáveis de dois efeitos: concentração, que deve- pobres para 1981 e 1990. d .
ria fazer com que o índice I caísse com 8 quando a correlação entre renda familiar • > 'bT d de das medidas de pobreza e eSI-
Em conclusão, examl~an?o a senSI d~~ :scalas de equivalência, chega-se a
e tamanho fosse positiva, e reordenação, que faria I aumentar com 8. O panora- gualdade usadas neste art~go a escolha A tendências da desigualdade, que
ma brasileiro sugere que o efeito reordenação deve ter superado o efeito concen- uma série de resultados mteressantes. s didas escalares para renda per capita
tração ao longo do período inteiro, tendo como razão plausível a correlação en- eram bem marcantes tant~ e~ t~rmos de me sã~ robustas à escolha da escala de
tre tamanho da família e renda no Brasil," que deve ser muito menor que na quanto em termos da dommanCla de Lorenz, _ é de que o uso de renda
Europa, dada a concentração de famílias muito numerosas entre as mais pobres. equivalência. Um resultado a ser visto com precauâ~~ S de pobreza se seus va-
O terceiro ponto se relaciona com o Gráfico 5, e com o fato de que as ten- per capita pode levar a reordenações el~ algumas me I a t apesar de os dados
. I lente dIferentes No entan o, c
dências da pobreza são menos claras do que aquelas para desigualdade, como lores não forem su b stanCla n :. d m forma de U da pobreza
discutido na Seção 4. Isso é particularmente verdade entre 1981 e 1985, mas em brasileiros estarem de acordo com a ClIrv~ eS,tlhza a e huma das três me-
1990 parece haver mais pobreza. De fato, a pobreza é maior em 1990 do que em . d m 8 este nao e o caso para nen c
relativa qua~do relaCIOna a co, estão reliminar foi de que isso se
1981 para as três medidas, para todos os valores de 8, o que fortalece a conclusão didas de deSIgualdade estudadas. Uma sug Pd tamanho da família no
da Seção 4 de que a pobreza piorou ao longo da década, apesar de ter se compor- . I - muito menor entre ren a e
devena a uma corre açao . . t estudos disponíveis
tado de modo mais anticíclico do que a desigualdade. A pobreza também é maior . do que para outros palse
Brasl1 ' s para os quaIS eXls em .
em 1990 do que em 1985 para todas as medidas e para todos os valores de 8, ex-
- ceto para a proporção de pobres com 8 = 0,12 Embora os resultados sejam relati- 6 - Conclusões
vamente claros para 1990, a escolha da escala de equivalência, que não afetou o - d"b' ão de renda no Brasil durante os
quadro das tendências de desigualdade, parece ter importância para o estudo Este artigo analisou a evoluçao da lstn UlÇ. d d dos da PNAD As
b da em um conjunto e a .
anos 80 e começo dos anos 90.' asea, . Id d ' breza e ao bem-estar.
principais conclusões se relaCIonam a deslgua a e, a po _ .
11 O coeficiente de correlação entre tamanho e renda da família na nossa amostra foi 0.033 em - b' mbora nao- monotoOl-
1981, 0.004 em 1985 e 0.007 em 1990. A desigualdade aumentou d: modo nao-am I~UOÉ e tendência ficou evi-
camente no Brasil durante o penado como um to o. ssa . "s a'
12 Dado o padrão de todas as medidas de pobreza com respeito a e revelado pelo Gráfico 5, o valor , .
do índice de contagem para e = o em 1990 parece um pouco suspeito. Os cálculos foram checados e dente a partir da evolução das medidas esca Iares, sej'am elas maIS .. senSlvel
parecem estar corretos. . ao melO
base (caso dos índices de Thell), . ( caso do coeficiente de Gml) ou ao topo
76 77
da distribuição (caso do coeficiente de variação). Isso foi confirmado pelo exa- . . d' do pelos dados da pesquisa familiar é exagerado - \S.
~
<Xl me das frações de renda dos décimos da distribuição, quando se observou que o Se o cr~sClmento Ind;~ade estagnação revelado pelos dados das Contas Na- ~
g décimo mais rico ganhou renda à custa do resto da população. Além disso, cada como sugendo pelo qua I d d bem-estar são limites superiores: um me-
. então esses resu ta os e d _
~ Curva de Lorem de 1981 até 1987 domina todas as curvas de Lorenz de 1988 até cionals -, , d' longo do período levaria a uma re uçao no '0;
a 1990, e aquelas de 1981 até 1984 dominam a maioria dos outros anos até 1995. Isto
nor crescimento da renda me la ao .
f
efeito avorav
' el ao bem-estar do creSClmen .
to Os resultados sobre pobreza seriam ~
dA' a descrita anteriormente
.
subestlman
d '"
o ::
~ é, qualquer medida de desigualdade que satisfaça o axioma do anonimato e o
~ princípio de transferências de Pigou-Dalton indicaria um aumento da desigual-
similarmente afetados, com a ten benCl d te a década Mesmo sem uma re- 1
possivelmente os aumentos da p? reza .ura~ itas nos da'dos da PNAD, a déca- ~
.~ dade no Brasil do começo para o fim do período. Ademais, essa tendência foi . das taxas de cresCImento lmp IC b ~
~ considerada robusta à escolha da escala de equivalência usada, e foi revertida de visão negatlva ..' '1 om aumentos tanto na po reza ~
da de 80 foi ruim para a eqUldade no B~~Sl : cdos anos 90 pós-Plano Real indi- "
certa maneira no meio dos anos 90: embora a desigualdade continuasse a au- quanto na desigualdade, embora a expenenCla ~
mentar entre 1990 e 1993, houve um declínio entre 1993 e 1995. Apesar disso, a que alguma esperança para o futuro. ]
. desigualdade em 1995 era, sem ambigüidade, maior do que em 1981: todas as
medidas escalares eram maiores e a Curva de Lorenz para 1981 domina aquela
para 1995.
-'~i
Apêndice ;:
.~
A pobreza também aumentou nos anos 80, embora seu comportamento te-
g
nha sido caracterizado por maiores flutuações, que pareceram guiadas pelo ní-
vel de atividade em um maior grau que no caso da desigualdade. Todas as três Arcabouço macroeconômico - 1981/96
medidas de pobreza aumentaram substancialmente com a recessão no início
PIB PER (APITA (1990 US$) INFLAÇÃO ANUAL (%)
dos anos 80, e caíram com o crescimento subseqüente. O ano de 1986 exibiu do-
minância mista de pobreza sobre todos os outros anos no período. A pobreza au- 106
mentou novamente com o retorno da inflação e desaceleração do crescimento a
partir de 1986, alcançando picos em 1988, 1990 e 1993. Embora 1981 não domi-
ne 1990 de acordo com o critério utilizado, 1988, 1990, 1992 e 1993 foram os
anos mais freqüentemente dominados por outros anos no período. Rendas mé-
dias eram menores em 1990 do que em 1981 para os quatro décimos inferiores
da distribuição; e 1990 tinha mais pobreza do que 1981 ou 1985, de acordo com
todas as medidas e para todos os valores testados do parâmetro de escala de
equivalência 8, com apenas uma exceção. O crescimento da renda média em
1995 é refletido na redução da pobreza, que resultou nos menores níveis de po-
breza desde 1986 (inclusive os de 1981), embora isto não seja mantido na análi-
se de dominância de pobreza. . .
Embora o foco tenha sido nas comparações de desigualdade e pobreza, algo
da análise pode servir de subsídio para interpretações em termos de bem-estar
social geral. Pode-se dizer que a maioria das funções de bem-estar social orde-
naria o bem-estar social no Brasil como menor em 1983 e 1984 do que em 1981,
de forma não-ambígua. O mesmo poderia ser dito de qualquer outro ano em re-
lação a 1986. Embora o bem-estar em 1995 fosse consistentemente maior do
que em muitos outros anos do período, comparações de bem-estar entre o co-
meço e o final do período em estudo são ambíguas, e se devem ao fato de que o
crescimento da renda média total reportada entre 1981 e 1995 foi compensado
por uma desigualdade maior. Entre 1990 e 1995 as frações de alguns grupos se
recuperaram, mas não para seus níveis de 1981; logo, por volta de 1995 todos,
menos os muito ricos, estavam piores em termos relativos, enquanto todos, me-
nos os mais pobres, estavam melhores em termos absolutos.
78 79
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WORLDBANK.World Development Report. New York: Oxford University Press for Este trabalho aborda vários aspectos da mensuração da desigualdade e da
the World Bank, 1980, 1990 and 1996 (annual). pobreza no Brasil. Não há um objetivo único. Ao mesmo tempo em que são lem-
bradas as diferentes medidas de desigualdade e de pobreza, ilustra-se sua apli-
cação mostrando as principais características da distribuição da renda no Bra-
sil, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por-Amostra de Domicílios
(PNAD) de 1997. A Seção 6 tem caráter mais metodológico, concluindo-se que
não há razão para introduzir nova medida de desigualdade. Na Seção 7 discute-se a
questão da determinação da linha de pobreza, mas não se faz tentativa de apre-
sentar uma nova "solução" para o problema. Medidas de pobreza para várias re-
giões do país em 1997 são calculadas adotando uma linha de pobreza de R$ 60
de rendimento familiar per capita. Na Seção 8, concluindo o trabalho, o ajusta-
mento de equações de rendimento é utilizado para discutir os principais fatores
assodados ao rendimento das pessoas ocupadas. '

2 • Qual distribuição?
A mensuração da desigualdade da distribuição da renda exige que se defi-
na a unidade que será considerada e qual a renda. Em outras palavras, é neces-
sário especificar qual é a variável e qual é a população analisada. Entre outras,
podemos analisar as seguintes distribuições:
a) o rendimento de todas as fontes de pessoas economicamente ativas
(PEA);

• Esta pesquisa contou com apoio do CNPq e da Fapesp. O autor agradece a Angela Kageyama.
José Graziano da Silva. Angela Jorge Corrêa e Helga Hoffmann pelos comentários e críticas a uma
versão preliminar do trabalho.
•• Do Instituto de Economia da Unicamp.
82 83
Então, se o rendimento médio da PEA com rendimento positivo, com base ----"-'.1
<:.....
-'-----'t:; b) o rendimento de famílias residentes em domicílios particulares; e
~
~ c) o rendimento per capita de pessoas de famílias residentes em domicílios noSdados da PNAD de 1997, é R$ 545, a média verdadeira certamente é maior, ~
podendo ser 50% ou 80% maior. Mesmo havendo um grau tão grande de erro, ""g
~ particulares.
~
f Se o pesquisador está interessado no mercado de trabalho, é apropriado
não há dúvida de que vale a pena analisar os dados do IBGE. A tendência de
subdeclarar os rendimentos, especialmente quando eles são elevados, é um
]
~
{; analisar a distribuição da renda entre pessoas economicamente ativas. Por ou-
problema nos dados estatísticos de qualquer país. Comparativamente, o Brasil ~
~ tro lado, se o objetivo principal da análise é o nível de vida (ou bem-estar) das
] ~ tem, graças ao IBGE, dados de boa qualidade sobre a distribuição da renda. ~
.~ pessoas, e mais apropriado considerar todas as pessoas classificadas conforme
~ seu rendimento familiar per capita, já que os membros de uma família em geral A Tabela 1 mostra várias características da distribuição do rendimento de .~i;]

compartilham a renda total da família. Um aperfeiçoamento metodológico adi- todas as fontes para a PEA com rendimento, distinguindo homens e mulheres. "'"
~
cional seria considerar a renda por adulto-equivalente, levando em considera- Essas constituem 37,4% dos quase 61 milhões de pessoas economicamente ati- '11
ção as necessidades das pessoas de diferentes idades e as economias de escala vas com rendimento. ~
no consumo familiar. Verifica-se, nessa tabela, que o primeiro quartil (ou 25º percentil) da distri- I
buição do rendimento das pessoas economicamente ativas com rendimento é
R$ 133. Isso significa que 25% dessa população ganham R$ 133 ou menos, e
3 - A distribuição de renda na PEA
75% ganham pelo menos R$ 133. O 95º percentil é R$ 2 mil, significando que
Para exemplificar, vamos considerar os dados da PNADde 1997. São consi- cadauma das pessoas que estão entre os 5%mais ricos ganha pelo menos R$2 mil.
deradas pessoas economicamente ativas as ocupadas e as que tomaram alguma Por influência do inglês, o termo decil tem sido erroneamente utilizado
providência efetiva de procura de trabalho na semana de referência da PNAD para designar os décimos da população. Isso empobrece a língua, pois uma
(21 a 27 de setembro de 1997). Após a expansão da amostra, há 75.213.283 pes-
mesma palavra passa, desnecessariamente, a ter dois significados. Fala-se, por
soas economicamente ativas. Para analisar a distribuição da renda, ficaremos
exemplo, em "renda média do decil mais rico", quando o correto seria "renda
restritos aos 74.309.763 com declaração do rendimento de todas as fontes.
média do décimo mais rico". O 9º decil é, por definição, o limite inferior para os
Nada menos que 18%dessa população tinham rendimento igual a zero. Aí estão
rendimentos das pessoas pertencentes ao décimo mais rico.
incluídos os membros não-remunerados das famílias dos pequenos agriculto-
res, cujo trabalho contribui para gerar o rendimento que nos dados das PNADs é Observa-se, na Tabela 1, que os 10% mais ricos têm 47,2% da renda total.
atribuído ao chefe da família. Mas cabe lembrar que o conceito de pessoa ocupa- Isso significa que sua renda média é 4,72 vezes maior do que a média geral, ou,
da nas PNADs a partir de 1992 é bastante abrangente, incluindo pessoas mais precisamente, R$ 2.574. Devido à grande desigualdade entre os rendimen-
não-remuneradas que tivessem certos tipos de atividade pelo menos uma hora tos dos que participam do décimo mais rico, seu rendimento médio (R$ 2.574) é
por semana. Nas PNADs anteriores a 1992 esse limite era de 15horas por semana. muito maior do que o 9º decil (R$ 1.200). Analogamente, como os 5% mais ricos
Se considerarmos apenas a PEA com rendimento positivo, temos ficam com 33,6% da renda total, sua renda média é 6,72 (pois 33,6/5 = 6,72) ve-
60.910.443 pessoas, com um rendimento médio de R$ 545. zes maior do que a média geral, ou R$ 3.663, que é muito maior do que o 95º per-
É importante. ter em mente as limitações dos dados sobre rendimento nas
centil (R$ 2 mil).
PNADs. O questionário procura captar tanto os rendimentos em dinheiro como Para descrever a distribuição de renda na Inglaterra, Pen (1971) imaginou
os pagamentos em espécie, mas não considera o valor da produção para auto- uma parada de pessoas ordenadas conforme valores crescentes da renda e ad-
consumo, que pode ser um componente importante da renda real de pequenos mitiu que, num passe de mágica, as pessoas ficassem com altura proporcional à
agricultores. Uma causa mais importante de subestimação das rendas é a sub- Sua renda, de maneira que a altura média correspondesse à pessoa com renda
declaração das rendas elevadas, que é certamente a principal limitação dos da- média. Imagine uma parada dessas com uma grande amostra de pessoas repre-
dos. Dividindo o rendimento total obtido na PNAD de 1995 em cada unidade da sentando a distribuição da renda na PEA brasileira. Vamos admitir que todo o
Federação (excluindo as unidades da antiga região Norte) pelo PIB estadual, desfile, do mais pobre ao mais rico, iria durar 100 minu tos. Considerando os da-
verifica-se que a relação está próxima de 1para os estados mais pobres, mas fica dos apresentados na Tabela 1, ao final de 10 minutos de parada estaria passan-
abaixo de 0,6 nos estados mais ricos. Assim, os dados das PNADs subestimam do uma pessoa com altura incrivelmente baixa (95/545 = 0,17 da média); ao fi-
as diferenças regionais e, em geral, subestimam tanto as medidas de posição nal de 25 minutos ainda estariam passando pessoas com altura inferior a 1/4 da
como a desigualdade da distribuição da renda. A subdeclaração das rendas rela- média (133/545 = 0,24); no meio do desfile, isto é, após 50 minutos, estariam
tivamente elevadas deve afetar mais a média do que a mediana. passando anões com altura igual à metade da média (273/545 = 0,50). Só quando
84 85
------ ..---,,-... ..----- Tabela 1
~ já tivessem passado três quartos do desfile é que veríamos pessoas com altura
~ ~
<Xl média, pois o 32 quartil é semelhante à renda média. Nos últimos 10 minutos ~
<:> Principais características da distribuição do rendimento de <Xl

~'" veríamos passar gigantes cada vez mais altos. A pessoa correspondente ao 92 ~
~ todas as fontes de pessoas economicamente ativas no
"'~" decil teria altura igual a 2,2 vezes a média. No início do último minuto teríamos ~
Brasil - 1997
uma pessoa com altura maior do que oito vezes a altura média. De acordo com 2.
~" {l
os dados da PNAD de 1997, a parada terminaria com uma pessoa cuja altura se-
~ ESTATíSTICA TOTAL HOMENS MULHERES ~"
'" ria quase 200 vezes a média. Devido à forte assimetria positiva da distribuição {l
"
.~
iC Pessoas (mil) 60.910 38.156 22.754
Q da renda, há muito mais pessoas com renda abaixo da média do que acima. ],
Rendimento médio (R$) 545 626 410 Quem assiste à passagem da parada de Pen vê, durante a maior parte do tempo, ~
{l
10º percentil 95 100
a passagem de anões. Por isso, Pen afirmou que essa é uma parada de anões e de '11
70
apenas alguns gigantes. ~
20º percentil
25º percentil
120
133
135
160
120
120
Tecnicamente, a "Parada de Pen" corresponde à curva dos quantis, que i
mostra como o valor da separa triz cresce com a proporção acumulada da popu-
30º percentil 160 198 120 lação.l Veja, no Gráfico 1, a curva dos quantis para a PEA com rendimento no
40º percentil Brasil em 1997. Note que os patamares indicam que as pessoas tendem a decla-
212 240 170
rar números redondos. Há um patamar bastante extenso com ordenada igual
50º percentil 273 300 220 ao salário mínimo (R$ 120).
60º percentil 350 400 270 Verifica-se, na Tabela 1, que todos os percentis da distribuição da renda
70º percentil 480 520 350 para a PEA masculina são maiores do que os percentis correspondentes da dis-
7Sº percentil 550 600 400 Gráfico 1
80º percentil 680 800 500
90º percentil 1.200 1.400 900 Brasil: curva dos quantis para o rendimento mensal das
95º percentil 2.000 2.040 1.500
pessoas economicamente ativas com rendimento - 1997
99º percentil . 4.500 5.000 3.082 Rendimento(R$)
2.000
Renda recebida pelos 1.800
40% mais pobres 9,0 9,1 9,8 1.600
50% mais pobres 13,4 13,5 14,5 1.400
20% mais ricos 63,3 63,3 61,7 1.200
10% mais ricos 47,2 47,3 45,2 1.000
5% mais ricos 33,6 33,7 31,6 800
1% mais rico 13,5 13,5 12,0 600
Relação médias 10+/40- 21,0 20,8 18,4
---.-Mé~;-.---_.._--------_._-------_. 400
Índice de Gini 0,584 0,584 0,564 200
T de Theil 0,703 0,703 0,634 O
o 0,1 0.2 0.3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1
L de Theil 0,630 0,627 0,581 Proporção acumulada da população
Fonte: PNAD de 1997.

I A curva dos quantis é a inversa da função de distribuição p = F(x).


86 87
---
....
-..
-..
-----'õ; tribuição da renda para a PEA feminina. Isso mostra que a curva dos quantis substancialmente superiores aos delas próprias. Cabe ressaltar que quando nos
~ para a PEA masculina está acima da curva dos quantis para a PEA feminina. O referimos aos 5% mais ricos da PEA com rendimento no Brasil, trata-se de mais ~
'"l
~ Gráfico 2 mostra que há uma superposição das duas curvas em pontos cuja or- de 3 milhões de pessoas, e não de algumas dezenas de pessoas riquíssimas que g
~ denada é igual ao salário mínimo, mas a curva dos quantis para as mulheres recebem a atenção da mídia. ~
! nunca fica acima da curva dos quantis para os homens. Dizemos, então, que a A Tabela 1 mostra, também, várias medidas de desigualdade. t
{J
~ distribuição da renda para a PEA masculina domina, em primeira ordem, a dis-
~"
] tribuição da renda para a PEA feminina. {J
.'0> 4 - A distribuição do rendimento familiar per capita ]
,g Pessoas relativamente ricas para a distribuição da renda no Brasil costu- .'0>

mam se considerar "pobres". Quando muito, admitem pertencer à "classe mé- O rendimento familiar per capita é obtido dividindo o rendimento de cada ~
{J
dia". A Tabela I mostra que o 3º quartil da distribuição da renda na PEA com família pelo respectivo número de pessoas, incluindo a pessoa de referência da ta
rendimento é igual a R$ 550. Pessoas com rendimento maior do que R$ 550 es- família, o cônjuge, os filhos, os outros parentes e agregados, mas excluindo os l::::
tão entre os 25% mais ricos da PEA do país. Pessoas com rendimento acima de pensionistas, os empregados domésticos e os parentes de empregados domésticos. Ê
~
R$ 1.200 estão entre os 10%mais ricos e pessoas com rendimento acima de R$ 2 A Tabela 2 mostra as principais características da distribuição do rendi-
• mil estão entre os 5%mais ricos. É verdade que esses percentis estão subestima- mento familiar per capita no Brasil, considerando as pessoas de famílias com de-
dos. Mesmo fazendo correções generosas para os valores do 9º decil e do 95º claração de rendimento familiar e residentes em domicílios particulares. A tabela
percentiL podemos afirmar que, em 1997, apenas 10%da PEA com rendimento apresenta resultados separados para a população urbana e para a rural.
recebiam mais de R$ 2 mil mensalmente, apropriando-se de quase metade de O rendimento médio percapita é R$ 243,7 e a mediana tem valor idêntico ao
toda a renda, e apenas 5% recebiam mais de R$ 3.500, recebendo mais de 1/3 da salário mínimo da época (R$ 120). Note-se que o 3º quartil é pouco superior à
renda total. Mas pessoas com rendimentos dessa ordem de grandeza, quando média da distribuição, mostrando como a "Parada de Pen" seria, durante a maior
discutem a cobrança de impostos e afirmam que a taxação dos "ricos" deveria parte do tempo, uma parada de anões.
aumentar, consideram que "ricos" são, obviamente, pessoas com rendimentos De acordo com os dados, pessoas com rendimento acima de R$ 857 estão
entre os 5% mais ricos, que ficam com 34,1% da renda total declarada. Conside-
Gráfico 2 rando uma "margem de segurança" para o erro de medida, é certo que pessoas
com renda acima de R$ 1.500 estavam entre os 5% mais ricos da população bra-
sileira em 1997.
Brasil: curvas dos quantis para homens e para mulheres da
PEAcom rendimento - 1997 Vários indicadores mostram a grande desigualdade da distribuição. Os
10%mais ricos ficam com quase 48% da renda tQtal. A participação do 1% mais
Rendimento (R$) rico na renda total (13,8%) supera a participação da metade mais pobre da po-
2.000
pulação ( 11,8%). Pode-se verificar que a renda média do 1%mais rico é quase 59
1.800 vezes maior do que a renda média dos 50% mais pobres. A renda média dos 10%
1.600 mais ricos é 25,7 vezes maior do que a renda média dos 40% mais pobres. O índi-
1.400
ce de Gini supera 0,6.
A Tabela 2 mostra que a distribuição da renda na área urbana domina, em
1.200
primeira ordem, a distribuição na área rural. O rendimento médio per capita na
1.000 área urbana é quase três vezes maior do que na área rural.
Média para homens
800 Observa-se que a desigualdade na área rural é um pouco menor do que na
-._---------------------------------- área urbana. Mas a desigualdade para toda a população é maior do que a desi-
Média para mulheres gualdade dentro da área urbana ou dentro da área rural. Pode- se verificar que o T
400
de Theil para toda a população (0,749) é composto por uma parcela referente à
200 desigualdade entre as áreas rural e urbana (0,057, correspondendo a 7,7% do to-
O tal) e uma parcela referente à desigualdade dentro das áreas urbana e rural
o 0,1 0,2 0,3 0.4 0,5 0,6 O.] 0,8 0,9 1
(0,692, que é uma média ponderada dos T de Theil para cada área, usando a ren-
Proporção acumulada da população
da total de cada área como fator de ponderação).
___ .J'.:-_,_-..~. 88
_
Tabela 2 A desigualdade entre regiões é um componente importante da desigualda-
~
E de da distribuição da renda no Brasil. Observa-se, na Tabela 3, que o rendimen-
~ Principais características da distribuição do rendimento 10 percapita médio no Estado de São Paulo é 2,9 vezes maior do que no Nordeste.
~ familiar per capita no Brasil, conforme a situação do A relação entre os rendimentos medianos dessas duas regiões é ainda maior:
t domicílio - 1997 213/60 = 3,5. Note-se que apenas o Nordeste e o Norte (excluindo a área rural
"
{; da antiga região Norte) têm rendimentos médios e medianos menores do que
'"
:!ô!
g ESTATíSTICA
SITUAÇÃO DO DOMiCíLIO
TOTAL
os valores referentes a todo o Brasil.
.~
:c URBANA RURAL A comparação entre os percentis da distribuição nas regiões Sul e Centro-
Q

Pessoas (mil) 152.270 121.258 31.012 Oeste mostra um caso claro de ausência de dominância em primeira ordem. As
Rendimento médio (R$) duas curvas de quantis se cruzam. Até o 9º decil os percentis no Sul são maiores
243,7 281,4 96,4
do que os valores correspondentes no Centro-Oeste. Mas o 95º e o 99º percentis
10 percentil
2
25,0 35,7 13,7 são maiores no Centro-Oeste do que no Sul. A maior dispersão dos quantis no
20 percentil
2
45,5 60,0 23,3 caso do Centro-Oeste mostra que há mais desigualdade na distribuição do ren-
25 percentil
2
56,7 71,4 28,0
dimento familiar percapita nessa região, em comparação com o Sul, o que é con-
firmado pelos resultados apresentados na Tabela 4.2
30 percentil
2
65,0 83,3 32,0
ATabela 4 mostra várias medidas de desigualdade para as seis regiões con-
40 percentil
2
90,0 113,3 41,7 sideradas. Cabe ressaltar que comparações com a região Norte são limitadas
50 percentil
2
120,0 145,0 55,0 pelo fato de a PNADnão abranger a área rural da antiga região Norte. O Nordeste
602 percentil
se destaca como a região com maior desigualdade. O Sul e o Estado de São Paulo
158,3 190,0 70,0
apresentam as medidas de desigualdade menos elevadas.
702 percentil 215,0 252,5 91,5
Tabela 3
752 percentil 255,0 300,0 107,4
802 percentil 311,2 366,7 120,0 Número de pessoas, média e percentis da distribuição
902 percentil 533,3 612,5 194,0 do rendimento familiar per capita em seis regiões do
952 percentil 857,0 980,0 290,0 Brasil - 1997
992 percentil 2.000,0 2.200,0 733,3 REND(MENTO PERCENTIL
REGIÃO NÚMERO DE
MEDIO
PESSOAS (MIL) (R$) 50º 752 902 9S' 99'
Renda recebida pelos 10' 25"

40% mais pobres Nortea 7.493 180,5 24 45 90 181 383 613 1.500
7,4 8,3 9,3
50% mais pobres 11,8 12,8 14,3 Nordeste 44.095 128,1 15 30 60 120 255 450 1.250

20% mais ricos 64,4 62,6 59,8 MG + ES + RJ 32.723 262,2 36 68 132 267 552 897 2.181
10% mais ricos 47,8 46,0 44,2 SP 33.894 366,4 61 117 213 400 785 1.200 2.500
5% mais ricos 34,1 32,5 32,2 Sul 150 295 583 875 2.000
23.437 268,5 40 76
1% mais rico 13,8 12,9 14,7 Centro-Oeste 10.629 264,7 37 67 125 258 562 975 2.250
Relação médias 10+/40 - 25,7 22,2 19,0
Total 152.270 243,7 25 57 120 255 533 857 2.000
índice de Gini 0,607 0,587 0,563 Fonte: PNAD de 1997.
a Exclusive área rural de RO. AC, AM. RR. PA e AP.
T de Theil 0,749 0,692 0,687
Fonte: PNAD de 1997.
2 Uma comparação entre distribuições da renda em unidades da Federação e regiões do Brasil,
considerando a dominãncia de primeira ordem (e também a dominância de segunda ordem), pode
ser encontrada em IPEA/PNUD (1996, Capo2).
90 91
~-::"'-.'-':., Tabela 4
'(;; d com o rendimento familiar percapita. Note-se que cerca de 9,4% das ~~s- ';:;
~ acor °conomicamente ativas sem rendimento próprio pertencem a faml I~S ~
'"g Medidas de desigualdade da distribuição do rendimento so~sr:ndimento familiar percapita supera 2,5 salários mínimos e 4% com 7nd~- g
~ familiar per capita em seis regiões do Brasil - 1997 cUJo "0 ositivo mas que não supera 1salário mínimo pertencem a aml- ~
"'2-"
"
{j PERCENTAGEM DA RENDA RECEBIDA PELOS
REI,AÇÃO
:~~~~~~~~~i~ento familiar percapita supera 2,5 salários mÍnimos.l~sO ~os~ra
~: problemas defocalização de programas de combate à.pobreza basea os Ire a- ~_~
1
REGIÃO
~" 40% MAIS SO% MAIS 10% MAIS S%MAIS MEDIAS íNDICE DE
GINI
TDE
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~
.~
POBRES POBRES RICOS RICOS 10+/40- mente no rendimento da pessoa economicamente ativa. S!
i(l
~ Nortea 8,2 12,6 47,9 34,6 23,4 0,600 0,763
.~
i(l
'"
~
Nordeste 7,5 11,6 52,1 39,0 27,7 0,628 0,854
'r!
MG + ES + RJ 8,6 13,1 47,3 34,1 21,9 0,590 0,727 ~
c
SP 10,3 15,5 42,1 29,1 16,4
~
0,540 0,574
.Sul 9,5 14,4 43,6 30,5 18,4 0,559 0,620
Centro-Oeste 8,4 12,7 49,1 35,5 23,3 0,603 0,774
Total 7,4 11,8 47,8 34,1 25,7 0,607 0,749 ESTRATOS DE RENDlrvlENTO F~MllIAR PER CAPITA
ESTRATOS DE (EM SALARIOS MINI MOS)
Fonte: PNAD de 7997. RENDIMENTO. DA TOTAL
a Exclusive área rural de RO. AC, AM. RR, PA e AP. PESSOA (SALARIO MAIS DE MAIS DE MAIS DE MAIS DE MAIS DE MAIS DE MAIS DE
MíNIMO) ZERO ZERO A 0,5 0.5 A 1 1 A 1.5 1,5A2,5 2,5A5 5Al0 10

5.383 2.866 1.307 1.241 853 270 100 13.084


Zero 1.064
o valor do T de Theil para todo o Brasil
(0,749) pode ser decomposto em
duas parcelas. Uma relativa à desigualdade dentro das regiões, que é igual à mé- 8,1 41,1 21,9 10,0 9,5 6,5 2,1 0,8 100,0
dia ponderada dos T de Theil para cada região, usando a renda total de cada re- 1.526 963 436 100 28 14.084
Maisde zero a 1 O 6.524 4.507
gião como fator de ponderação. Pode-se verificar que essa parcela é igual a
46,3 32,0 10,8 6,8 3,1 0,7 0,2 100,0
0,682. A outra parcela (0,067) corresponde à desigualdade entre as seis regiões. O
Note-se que a desigualdade entre regiões, embora importante, representa ape- Mais de 1 a 2 O 2.979 4.389 2.696 2.081 791 162 41 13.140
nas 9% da desigualdade total, quando medida pelo T de TheiL A desigualdade 1,2 0,3 100,0
O 22,7 33,4 20,5 15,8 6,0
existente dentro de qualquer uma das seis regiões é muito maior do que a desi-
gualdade entre regiões. O 510 2.717 2.157 2.634 1.394 250 52 9.714
Mais de 2 a 3
5,3 28,0 22,2 27,1 14,3 2,6 0,5 100,0
O
5 - A classificação da PEA conforme o rendimento familiar Mais de 3 a 5 O 50 1.330 2.118 3.193 2.540 545 132 9.906
per capita
0,5 13,4 21,4 32,2 25,6 5,5 1,3 100,0
O
A Tabela 5 mostra a classificação das pessoas economicamente ativas cru- 1.382 289 7.344
Mais de 5 a 10 O 0,3 58 557 2.020 3.038
zando duas estratificações: conforme o rendimento de todas as fontes de cada
. ~pessoa e conforme seu rendimento familiar percapita. Há, obviamente, uma as- O 0,8 7,6 27,5 41,4 18,8 3,9 100,0
O
sociação positiva forte entre as duas variáveis, com freqüências mais elevadas O O 2 138 1.262 1.359 694 3.455
Mais de 10 a 20 O
ao redor da diagonal da tabela. Entretanto, a correlação é substancialmente me-
O O O 4,0 36,5 39,3 20,1 100,0
nor do que I: com base na tabela obtém-se r = 0,70. O
O O O 79 671 1.294 2.04~
Como pessoas "ricas" pelo seu rendimento pessoal não podem ser "po- Mais de 20 O O
bres" em termos de repdimento familiar, na parte inferior-esquerda da tabela O O O O O 3,9 32,8 63,3 100,0
há várias celas com freqüência igual a zero. Por outro lado, é substancial o nú-
Total 1.064 15.446 15.867 10.363 12.270 10.394 4.738 2.63072.772
mero de pessoas economicamente ativas que seriam consideradas pobres com
base no rendimento pessoal, mas que na realidade são relativamente ricas de 1,5 21,2 21,8 14,2 16,9 14,3 6,5 3,6 100,0
93
-:- ~.:--;,-.:...----- 92
'3; 6 - Mais uma medida de desigualdade? Pode-se verificar que:
l:':
o:)
Nas seções anteriores fizemos uso de várias medidas de desigualdade. Sabe-se
'"" l-exp
T e o L) obedecem à
que o índice de Gini e as medidas de desigualdade de Theil (o
~ . I1E
condição de Pigou -Dalton. Medidas de interpretação mais simples (como a propor- \jI=IIm -
1 =
" ção da renda apropriada pelos 10% mais ricos ou a relação entre as renda~ médias 8~O e "
~
~ dos 10% mais ricos e dos 40% mais pobres) são muito usadas, apesar de não obede- {í
~ ~
.~ cerem à condição de Pigou-Dalton.3 ~
.~
~ Tendo em vista a associação entre pobreza e desigualdade, muitos pesqui- Note-se que a sensibilidade de E a transferências regressivas depende do ~
sadores manifestam preferência por medidas especialmente sensíveis à forma
~
nível de rendaxh. O valor de \jI é zero para Xh = O e passa por um máximo quando ,~
da cauda esquerda da distribuição da renda, como o L de Theil. Entretanto, me- Xh = !l. A partir desse ponto a sensibilidade decresce continuamente com o cres- ~
didas mais sensíveis ao que ocorre com as rendas mais baixas geralmente não
cimento de Xh' ~
são definidas (tendem a infinito) quando há rendas nulas. Como solução para
Expressões para a sensibilidade de outras medidas de desigualdade a
esse dilema, Wolfson (1997, p. 410) propõe o uso de uma medida exponencial,
transferências regressivas podem ser encontradas em Hoffmann (1998c, Capo 7).
em combinação com o Índice de Gini e o coeficiente de variação.4 Se Xi é a renda
da i-ésima pessoa em uma população de n pessoas e renda média /1, a medida ex- O Gráfico 3 mostra as curvas de sensibilidade relativa para o índice de Gini,
ponencial é: o TdeTheil, oL de Theil, o coeficiente de variação das rendas (C), a variância dos
logaritmos das rendas (Vz) e a medida E, considerando o intervalo de zero a

E=~
n
i [-!..{)
i=1
exp
/1
R$ 1.200. A ordenada de cada curva não é diretamente o valor da sensibilidade,
mas um Índice proporcional à sensibilidade e cujo valor médio no intervalo ana-
lisado é igual a 100. Isso torna mais clara a visualização da sensibilidade relati-
va dessas medidas de desigualdade a transferências regressivas. Como a sensi-
Pode-se verificar que o valor mínimo de E, quando todos têm a mesma ren- bilidade do Índice de Gini depende da densidade de probabilidade, admitimos
da, é exp (-1) = 0,36788 e o valor máximo, quando toda a renda é apropriada que a renda per capita tem distribuição 10g-normaI, de maneira que os logarit-
por uma única pessoa, é: mos das rendas têm distribuição normal com média 4,79 e variância 1,46. Para
essa distribuição log-normal a mediana é 120, a média é 250 e o Índice de Gini é
0,607, que são características muito semelhantes às observadas para a distribui-
E max = 1-- 1(1-e -11 )
n ção do rendimento familiar per capita no Brasil em 1997 (ver Tabela 1).
Note-se, no Gráfico 3, que a sensibilidade do Índice de Gini é máxima
Vamos admitir que seja feita uma transferência regressiva de um montante quando a renda é a mediana (R$ 120), pois é no ponto correspondente à media-
e de uma pessoa com rendaxh para uma pessoa com renda (1+P)Xh' com p > O. na que a densidade de probabilidade do logaritmo da renda a tinge seu máximo,
Seja !ill a variação na medida E decorrente dessa transferência regressiva. A para uma distribuição 10g-normaI.
sensibilidade de E a transferências regressivas é definida como: Contrariando o que sugere Wolfson (1997), a medida E não é mais sensível
que o Índice de Gini para rendas baixas.
. I1E A Tabela 6 mostra o valor da medida exponencial E para a distribuição das
\jI=IIm-
8~O e pessoas de acordo com o rendimento familiar per capita no Brasil e nas seis re-
giões já consideradas nas Tabelas 3 e 4. VerifiCa:se que a ordenação das seis re-
giões no que se refere à desigualdade é a niesma, adotando como medida de de-
sigualdade o Índice de Gini, o T de Theil ou a medida E.
3 . Essa condição e~ta~elece que.o valor de uma medida de desigualdade deve aumentar quando for Tendo em vista, ainda, que a medida E não pode ser decomposta em parce-
feIt~ u.ma transferencla regressIva de renda (transferir renda de uma pessoa para outra que já é las referentes à desigualdade dentro e entre regiões, parece que ela não vai de-
maIs fica).
sempenhar um papel melhor do que o Índice de Gini como uma medida que
4 Cabe ressaltar que o objetivo principal desse trabalho de Wolfson não é apresentar a medida ex-
ponencial de desigualdade, mas obter uma medida da polarização da distribuição de renda. pode ser calculada quando há rendas nulas.
94 95
Gráfico 3
Tabela 6
~ ~
E E
'" Medida de desigualdade exponencial (E) para a '"'"
~ Curvas de sensibilidade relativa a transferências regressivas "
~ com dada razão entre as rendas para o índice de Gini (G), o T distribuição do rendimento familiar per capita em seis 1'i

t de Theil (T), o L de Theil (L), o coeficiente de variação (C), a regiões do Brasil - 1997 "
"'"
'"
~ variância dos logaritmos (1Iz) e a medida exponencial (E) ~"'-
~ E ~"
~ Sensibilidade relativa REGIÃO
~
.~
0,5579 ~
~ • 240
220
Nortea .~
:c
"'"
J-- •• G 0,5761
200 Nordeste ~
180 '"
'8,
MG + ES + RJ 0,5527 ~
160
140 0,5242 ~
SP ::'i
T 120
100 Sul 0,5344
80 0,5615
Centro-Oeste
60
•••. 40 0,5613
------------- •• _ 20
Total
Fonte: PNAD de 1997.
o a Exclusive área rural de RO, AC, AM, RR. PA e AP.
-20
100 200 300 400 500 600 700 800 900 1.000 1.100 1.200
número de pobres, o valor máximo da insuficiência de renda total é hz, que ocor-
Rendimento per capita (R$ de setembro de 1997)
re quando todos os pobres tiverem renda nula. A razão de insuficiência de renda é:

7 - Pobreza 1=£
hz
A idéia de pobreza está associada a condições de vida inadequadas decor-
rentes de baixos rendimentos. Como o que é "adequado" depende do grau de ri-
Se admitirmos que o número de pobres pode crescer até incluir toda a po-
queza do país analisado, há, certamente, um elemento relativo no conceito de
pulação, o valor máximo da insuficiência de renda é nz. Definimos o índice de in-
pobreza. Mas se a definição de "ser pobre" depende da comparação da situação
suficiência de renda como:
de "pobres" e "ricos", o conceito de pobreza se confunde com o conceito de desi-
gualdade econômica. É mais interessante, então, usar um conceito de pobreza S
CPl =-
absoluta, no qual o grau de pobreza não seja diretamente dependente do nível nz
de renda dos ricos.
É fácil verificar que:
Para medir a pobreza com base em dados sobre a distribuição da renda é
necessário fixar uma linha de pobreza (z). Serão consideradas pobres as pessoas
CPl =HI
cujo rendimento não superar essa linha. Seja h o número de pobres em uma po-
pulação com n pessoas. A proporção de pobres na população, dada por H = h/n, é A rigor, a razão de insuficiência de renda não é uma medida de pobreza,
uma medida de pobreza simples e bastante utilizada. Medidas mais sofisticadas permitindo avaliar apenas a intensidade da pobreza dos que são pobres, Já o Índi-
procuram levar em consideração a in tensidade da pobreza, considerando a insu- ce de insuficiência de renda é uma medida apropriada de pobreza.
ficiência de renda de cada pobre, que é a diferença entre a linha de pobreza e o ren-
Foster, Greer e Thorbecke ( 1984) propuseram uma família de medidas de
dimento do pobre.5 Seja S a insuficiência de renda de todos os pobres. Fixado o
pobreza definida por:
1 h
5 A expressão "'insuficiência de renda"' parece ser mais apropriada do que "'hiato de renda"'. De
acordo com o dicionário Aurélio. só no sentido figurado é que a palavra hiato significa intervalo ou
cp(a)=-----;- L (z-xdx, com a~O
lacuna. nz i=l
96 97
-~~
.- --:_.~
.•..
onde x, é a renda do i-ésimo pobre. Note-se que:: - x. é a ill5uficiência de renda Embora na área rural os alimentos sejam mais baratos, o acesso a vários servi-
i
'" desse pobre. Essa medida é igual il proporção de pobres quando a = O.e é igual a ços (particularmente educação e saúde) é mais difícil do que nas áreas urbanas ~
:: <Jl, quando a = I. Denomina-se índice de Foster. Greer e Thorbecke o valor obti- [ver Hoffmann ( 1998a)]. ~
G do com a
""- = 2: Comparando a variação dos índices de custo de vida regionais obtidos por ~
~ Azzoni, Carmo e Menezes ( 1998) e Kilsztajn (1998) com a variação das linhas â
'" {i
I h de pobreza utilizadas por Rocha (1995), verifica-se que as diferenças in- "
~
<Jl2=--2 I (Z-Xi)2 ter-regionais dessas linhas de pobreza são muito maiores. Isso mostra que a va- {i
nz i=l riação nessas linhas de pobreza se deve mais a diferenças inter-regionais na 1
composição da cesta de alimentos considerada essencial do que a diferenças ~
{i
Pode-se provar que: nos preços. Na comparação entre duas regiões, seria apropriado considerar li- 'a
nhas de pobreza diferentes, se a diferença no custo da cesta de alimentos consi- E
derada necessária for devida unicamente a hábitos alimentares mais "esparta- j
nos" em uma das regiões?
É importante assinalar que a mensuração da pobreza também pode ser fei-
onde C. é o coeficiente de variação das rendas dos pobres.
ta mediante suas manifestações ou conseqüências, como as condições inade-
O índice de Sen (proposto em artigo publicado em 1976) pode ser obtido de quadas de habitação, a mortalidade infantil, a desnutrição etc.7
uma fórmula semelhante:
Dentre as distribuições discutidas nas seções anteriores, a mais adequada
para a análise da pobreza é, certamente, a distribuição do rendimento familiar
P=H[I +{l-I)G*] per capita.
Vamos adotar uma linha de pobreza de R$ 60 percapita, o que corresponde à
onde G. é o índice de Ginida distribuição da renda entre os pobres.
metade do salário mínimo vigente no mês de referência da PNAD de 1997. Veri-
Note-se que tanto o índice de Sen (P) como o índice de Foster, Greer eThor- fica-se, então, que do total de 152,27 milhões de pessoas com declaração de ren-
becke são funções da proporção de pobres (H), da razão de insuficiência de ren- dimento familiar per capita, 43,25 milhões são pobres. A proporção de pobres é
da (I) e de uma medida da desigualdade da distribuição da renda entre os po- H = 0,284 ou 28,4%. A insuficiência de renda é igual a R$ 1,174 bilhão por mês,
bres (G. ou C.). correspondendo a 3,16% da renda total declarada (R$ 37,1 bilhões). A razão de
Antes de calcular qualquer das medidas de pobreza mencionadas, é neces- insuficiência de renda (1) é 0,452, mostrando que a renda média dos pobres está
sário estabelecer o valor da linha de pobreza. Trata-se de questão difícil e polê- 45,2% abaixo da linha de pobreza. O índice de insuficiência de renda (<Jll ) é igual
mica, abordada em vários trabalhos de Sonia Rocha.6 Para que seja válida a a 0,1285; o índice de pobreza de Sen (P) é 0,1787; e o índice de Foster, Greer e
comparação entre medidas de pobreza calculadas em duas situações distintas é Thorbecke (<Jl2) é 0,0852. Note-se que esses índices sintéticos (P, <J>1e <Jl2) têm va-
essencial que haja correspondência no valor real das linhas de pobreza para as lores numéricos baixos mesmo quando há muita pobreza. Isso acontece porque
duas situações. Um erro comum, no Brasil, é comparar as medidas de pobreza esses índices só atingem seu valor máximo (igual ai) na situação extrema em
calculadas em diferentes períodos usando o salário mínimo corrente como linha que toda a população tem rendimento igual a zero.
de pobreza em cada período. Pode acontecer que os resultados reflitam essencial- As Tabelas 7 e 8 apresentam informações para uma análise da pobreza em
mente alterações no valor real do salário mínimo, e não mudanças no grau de seis regiões do Brasil com base nos dados da PNAD de 1997.8 Cabe lembrar que o
pobreza absoluta da população. levantamento de dados não inclui a área rural da antiga região Norte. É impor-
Há, sempre, um certo grau de arbitrariedade na determinação da linha de tante ter em mente, também, que o uso de uma mesma linha de pobreza para
todas as regiões pode ser considerado uma limitação da metodologia utilizada.
/
pobreza. Uma maneira de contornar esse problema é calcular as medidas para
vários valores da linha de pobreza.
A determinaç~o da linha de pobreza com base, essencialmente, no custo 7 Medidas antropométricas são usadas para detectar a desnutrição, especialmente no caso de crian-
dos alimentos leva a subestimar a pobreza rural em comparação com a urbana. ças. e podem, então. ser usadas para obter medidas de pobreza da população [ver Monteiro ( 1992,
1995a e 1995b) e Hoffmann (1995b e 1998a) l.

8 Uma análise da evolução do valor de várias medidas de pobreza no Brasil pode ser encontrada
6 Ver bibliografia. em Hoffmann (1992, 1995a e 1998).
98 99
""'-.:.""---- Tabela 7
~ Se,por exemplo, o CUSlO de vida no Estado de São Paulo for maior do que no Sul,
::: o uso de uma mesma linha de pobreza leva a subestimar o grau de pobreza desse ~
'"il Númer~ de pobres e insuficiência de renda em seis regiões '"
estado em comparação com o da região SuJ.9 g
'I
~ do ~rasll, conforme o valor do rendimento familiar per
." ATabela 7 mostra que a região Nordeste, com 29% da população analisada, ~
a caplta e adotando uma linha de pobreza de R$ 60 - tem mais da metade do total de pessoas pobres e quase 57% da insuficiência de t
~" setembro de 1997 {j

~ renda, A região Nordeste também se destaca na Tabela 8, com medidas de po- "
~ breza cujo valor está próximo do dobro do observado para o país como um todo. ~
.~
:c POPULAÇÃO POBRES RENDA TOTAL
Q
REGIÃO
INSUFICIÊNCIA
RENDA
DE As medidas de pobreza também são relativamente altas na região Norte, apesar .~
Nº (10') % Nº (10') % R$ 10' % R$ 10' %
da exclusão da maior parte da sua área rural. O Estado de São Paulo e a região ~ {j

Nortea 7.493 4,9 2.711 6,3 1.352 3,6 71 6,0


Sul apresentam as medidas de pobreza mais baixas. 'a
Note-se, na Tabela 8, que o Estado de São Paulo tem grau de pobreza subs- ~
Nordeste 44.095 29,0 23.013 53,2 5.651 15,2 665 56,7 tancialmente mais baixo que o Centro-Oeste. No entanto, devido à dimensão da ~
MG + ES + RJ 32.723 21,S 7.305 16,9 8.580 23,1 177 15,1
sua população, a participação do Estado de São Paulo no total de pessoas pobres
ou na insuficiência de renda nacional é bem maior do que para o Centro-Oeste,
SP 33.894 22,3 3.351 7,7 12.418 33,S 97 8,3 como mostra a Tabela 7.
Sul 23.437 15,4 4.470 10,3 6.292 17,0 Na última coluna da Tabela 8 é dada a relação percentual entre a insufi-
106 9,0
Centro-Oeste 10.629 7,0 2.401 5,6 2.814
ciência de renda e a renda total declarada. Embora essa relação chegue a 11,78%
7,6 57 4,9
no Nordeste, para o Brasil como um todo ela é de 3,16%. Isso significa que bas-
Total 152.270 100,0 43.250 100,0 37.107 100,0 1.174 100,0 taria redistribuir pouco mais de 3% da renda total para eliminar a pobreza como
Fonte: PNAD de 1997.
a Exclusive área rural de RO. AC. AM, RR, PA e AP.
foi definida, isto é, fazer com que todos os brasileiros tivessem um rendimento
percapita de pelo menos R$ 60 por mês. Desprezando os custos de transferência,
Tabela 8 isso poderia ser obtido, por exemplo, tirando 6,6% da renda dos 10%mais ricos e
distribuindo esse valor entre os pobres. Na realidade, a parcela da renda dos 10%
Medidas de P?breza em seis regiões do Brasil, conforme o mais ricos que teria de ser transferida deve ser menor do que 6,6%, pois a renda
~alor do rendimento familiar per capita e adotando uma está subdeclarada. Desse ponto de vista contábil, a tarefa de eliminar a pobreza
linha de pobreza de R$ 60 - setembro de 1997 parece fácil.

_ íNDIÇE DE íNDICE DE FOSTER


REGIÃO PROPORÇAO INSUFICIENCIA DE íNDICE DE GREER
RE~ÇÃO
• INSUFIClENCIA
ENTRE
DE RENDA
8 - Equações de rendimento
DE POBRES (H) RENDA SEN (P) E THORBECKE E RENDA TOTAL
(lj>, =HI) lj>, (%) A análise de regressão, que é a técnica estatística clássica da econometria,
Nortea 0,362 0,157 0,2192 0,1012 5,22 pode ser usada para quantificar a influência de diversos fatores (escolaridade,
local de residência, idade etc) sobre o rendimento das pessoas. São utilizados
Nordeste 0,522 0,251 0,3380 0,1646 11,78 os dados individuais da PNAD de 1997 para pessoas ocupadas com informação
MG + ES + RJ 0,223 0,090 0,1301 0,0585 2,07 de valor positivo para o rendimento de todos os trabalhos, excluindo as pessoas
'SP
sem informação de idade, escolaridade, posição na ocupação ou cor, e as pesso-
0,099 0,048 0,0689 0,0375 0,78 as sem rendimento na ocupação principal. São excluídas também as pessoas
Sul 0,191 0,075 0,1090 0,0485 cujo tempo semanal de trabalho em todas as ocupações não foi informado ou foi
1,69
Centro-Oeste 0,226
menor do que 15 horas, e as pessoas cujo ramo de atividade foi classificado
0,090 0,1308 0,0593 2,03
como "outras atividades, atividades maldefinidas ou não-declarado". Depois
Total 0,284 0,128 0,1787 0,0852 3,16 de considerar essas restrições, restam, na amostra da PNAD de 1997, 123.940
Fonte: PNAD de 1997. pessoas, correspondendo a uma população de 55.851.979 pessoas ocupadas.
a Exclusive área rural de RO, AC, AM, RR. PA e AP.

9. Rocha (1995 e 1998b) compara a pobreza em regiões do Brasil usando linhas de pobreza diferen-
Ciadas.
100 101
-- -----'c; A variável dependente (Y)é o logaritmo neperiano do rendimento de todos A partir do coeficiente estimado de uma variável explanatória binária po- 1;
~ os trabalhos da pessoa ocupada. Cabe lembrar que na PNAD de 1997 o rendi- demos obter a diferença percentual entre o rendimento esperado na categoria ~
~ mento de todos os trabalhos representa 92,4% do rendimento de todas as fontes tomada como base e o rendimento da categoria para a qual aquela variável bi- ~
~ das pessoas economicamente ativas. O rendimento do trabalho principal cor- nária assume valor 1. Se, por exemplo, o coeficiente para a binária de "situa- ~
~~ responde a 96,0% do rendimento de todos os trabalhos. ção urbana" for b, então o rendimento esperado das pessoas com domicílio ur- 1
~ O ajustamento das equações é feito por mínimos quadrados ponderados, bano supera o rendimento esperado das pessoas com domicílio rural em ~
.~ usando o peso ou o fator de expansão associado a cada pessoa da amostra como 100[exp(b) - 1]%, já considerados os efeitos das demais variáveis explanatórias ~
~ fator de ponderação. O modelo das equações estimadas é: incluídas na equação de regressão. ~
.~
A Tabela 9 mostra as equações estimadas para todas as pessoas ocupadas com ~
ii
Yj=a+ L~iXij+Uj as informações necessárias e também equações separadas para os três setores da 'a
i
economia. Devido ao grande número de observações nas amostras utilizadas, qua- ~
onde a e ~i são parâmetros e uj são erros aleatórios (obedecendo às pressuposi- se todos os coeficientes são estatisticamente diferentes de zero ao nível de signifi- ~
ções usuais). São consideradas as seguintes variáveis explanatórias: cância de 1%. A sigla ns assinala os poucos casos em que o teste t para a hipótese
de nulidade do parâmetro não é significativo ao nível de 5%.
a) uma variável binária para sexo, que assume valor 1 para mulheres;
A Tabela 10 mostra a contribuição marginal de cada fator para a soma de
b) a idade da pessoa, medida em dezenas de anos, e também o quadrado
quadrados de regressão. Devido à colinearidade entre os fatores, a soma das
dessa variável, tendo em vista que Ynão varia linearmente com a idade. A idade
suas contribuições marginais é muito menor do que 100%. A escolaridade se
é medida em dezenas de anos apenas para evitar que os coeficientes sejam mui-
destaca como o fator mais impor"tante, exceto na agricultura, onde a maior con-
to pequenos. Se os parâmetros para idade e idade ao quadrado forem indicados
tribuição corresponde à "posição na ocupação".
por ~l e ~2' respectivamente, deve-se ter ~I >0 e ~2 <o e então o valor esperado
É necessário reconhecer que os coeficientes mostrados na Tabela 9 apresen-
de Y (e do rendimento) será máximo quando a idade da pessoa for igual a tam alguma tendenciosidade devido à exclusão de variáveis explanatórias rele-
-~I 1(2~2); .
vantes. Se uma variável omitida (como, por exemplo, valor do capital) tem efeito
c) escolaridade, variando de 1 (no caso de pessoa sem instrução ou com positivo sobre o rendimento e está positivamente correlacionada com variáveis
menos deum anode estudo) a 16 (no caso de pessoa com 15 anos ou mais de es- incluídas no modelo (como escolaridade e idade), então os coeficientes dessas
tudo); variáveis são superestimados.
d) três variáveis binárias para distinguir quatro posições na ocupação: empre- Observa-se que o coeficiente de determinação das regressões ajustadas não
gado (tomado como base), empregado doméstico, conta-própria e empregador; chega a 60%. Isso é típico de equações de rendimento, pois os rendimentos das
e) quatro variáveis binárias para distinguir cor: branca (tomada como pessoas dependem de elementos aleatórios e de características pessoais (como
base), indígena, preta, amarela e parda; ambição, tino comercial, capacidade empresarial etc.) cuja mensuração é muito
j) três variáveis binárias para distinguir quatro faixas de tempo semanal de difícil.
trabalho: 15 a 39 horas (tomada como base), 40 a 44 horas, 45 a 48 horas e 49 O coeficiente para sexo feminino na equação geral na Tabela 9 mostra que,
horas ou mais; depois de considerados os efeitos das demais variáveis explanatórias incluídas
g) cinco variáveis binárias para distinguir seis regiões: Nordeste (tomado na equação de regressão, o rendimento esperado das mulheres é 33,9% mais bai-
como base), Norte, Sudeste excluindo o Estado de São Paulo (Minas Gerais, xo que o dos homens. É interessante notar que a diferença é menor quando não
- Espírito Santo e Rio de Janeiro), Estado de São Paulo, Sul e Centro-Oeste; se desconta o efeito das demais variáveis: a média geométrica dos rendimentos
h) uma variável binária que assume valor 1quando o domicílio é urbano, e das mulheres é 28,6% menor do que a média geométrica dos rendimentos dos
valor zero quando é rural; homens ocupados. Isso se explica, basicamente, pelo fato de as mulheres ocu-
padas terem, em média, 1,6 ano a mais de escolaridade do que os homens.
i) duas variáveis binárias para distinguir os setores de atividade (agricultu-
ra, indústria e serviços). O setor agrícola é tomado como base; e Pode-se verificar que a idade associada ao máximo rendimento esperado é
50,4 anos para a equação geral, 50,8 anos na agricultura, 49,5 anos na indústria
j) em uma equação são incluídas variáveis binárias para captar o efeito de
interações entre situação de domicílio (urbano) e setor de atividade (indústria e 50,0 anos no setor de serviços.
ou serviços).
102 103
- _~ ". - -.....-1'.
Tabela 9 (col/til/lIl1ção) :a
~ COEFICIENTES E
E
'"il Equações de rendimento estimadas para pessoas VARIÁVEL INDÚSTRIA SERViÇOS
'":::
<:>
TOTAL AGRICULTURA
1\
" ocupadas no Brasil, considerando o rendimento de todos
'~ :::
Setor: Indústria 0,3639 "'i?"
"'i?" os trabalhos, conforme setor de ocupação - 1997
"
~
{; Serviços 0,2978 "
{;
~ COEFICIENTES
'"
::;;
g VARIÁVEL
Urbano x indústria O,0070ns g
.~ TOTAL AGRICULTURA INDÚSTRIA SERViÇOS
\:J .~
~ Urbano x serviços 0,0669 .:g
Constante 2,3637 3,2611 2,5319 2,4823 ~
Sexo feminino -:-0,4136 -0,3762 -0,4171 -0,4209 RI 0,582 0,434 0,532 0,578 la.
~
123.940 17.398 28.346 78.196
Idade /10 0,7977 0,4150 0,8933 0,8683 n ~
:<
Nota: A sigla ns assinala os coeficientes que não são estatisticamente diferentes de zero ao nível de significância de 5%.
(Idade / 10)2 -0,0792 -0,0408 -0,0903 -0,0868

Escolaridade 0,1044 0,0733 0,0989 0,1090

Posição na ocupação: Tabela 10

Empregada doméstica -0,2239 -0,1849


Contribuição marginal de cada fator para a soma
Conta própria -0,0100 -0,0374 -0,0325 0,0423 de quadrados de regressão das equações ajustadas -
Empregador 0,7563 1,1212 0,6326 0,7334 Brasil, 1997
Cor: Indígena -0,0151ns -0,1010ns 0,0211ns -O,0407ns SETOR
FATOR TOTAL
AGRICULTURA INDÚSTRIA SERViÇOS
Preta -0,1166 -0,1534 -0,1254 -0,1116
Sexo 4,5 3,1 5,6 5,6
Amarela 0,2167 0,5072 0,0389ns 0,2100
Idade 12,4 5,1 21,3 14,5
Parda -0,1195 -0,1739 -0,1129 -0,1086
Escolaridade 21,8 7,4 28,5 26,6
Tempo semanal de trabalho:
Posição na ocupação 4,4 14,0 3,9 4,2
40 a 44 Horas 0,3382 0,3127 0,4182 0,3361
Cor 0,5 1,6 0,6 0,4
45 a 48 Horas 0,3413 0,3867 0,4109 0,3301
Tempo semanal de trabalho 3,7 6,9 3,2 4,3
2:49 Horas 0,4903 0,5596 0,5349 0,4785
Região 5,7 8,5 9,3 5,6
Região: Norte 0,2490 0,3721 0,1806 0,2468
Situação do domicílio 0,3 0,4 0,3 0,3
MG + ES + RJ 0,2701 0,3144 0,2509 0,2589
Setor 1,5
SP 0,5873 0,6151 0,6086 0,5698
Setor x situação do domicílio O
Sul 0,3352 0,3496 0,3268 0,3401

Centro-Oeste 0,3550 0,5078 0,2426 0,3453

Domicílio urbano 0,1044 0,0916 0,1199 0,1667 O coeficiente para escolaridade na equação geral mostra que o rendimento
esperado cresce 11% para cada ano adicional de escolaridade. O coeficiente é se-
melhante na indústria e no setor de serviços, mas é substancialmente mais bai-
(COl/til/lIl1)
xo na agricultura. À primeira vista isso mostra que a educação tem um efeito
104 105
menor no rendimento das pessoas ocupadas no setor agrícola. Uma explicação agricultura, é maior para os residentes na área ~rbana (0,:978 + 0,0669 = :--(;;-----4
~ 0,3647 ou acréscimo de 44,0%) do que para os reSidentes na area rural (0,2978 ~
~ alternativa é que o coeficiente de educação está mais superestimado nos setores
~ urbanos porque aí a variável "posição na ocupação" não reflete a propriedade de ou acréscimo de 34,7%). ê
~ capital, como ocorre na agricultura, onde o empregador é, tipicamente, o pro- De acordo com os dados da PNAD de 1997, a média geométrica dos rendi- i~
! prietário de um sítio ou de uma fazenda. Excluindo as variáveis referentes à mentos para as pessoas de cor preta era 42% mais baixa que a média para as pes- ~
~ "posição na ocupação" da equação ajustada com dados das pessoas ocupadas na soas brancas. Depois de descontados os efeitos das demais variáveis incluídas ~
~~ agricultura, o coeficiente de escolaridade sobe para 0,0981. na equação geral da Tabela 9, o rendimento esperado para uma pessoa preta é 1
"6'
"~

,g Não há dúvida de que a escolaridade é um determinante importante do 11 % menor do que para uma pessoa branca. Observa-se, nessa tabela, que o efeito
.",
rendimento das pessoas. A educação é um dos caminhos clássicos de ascensão para pessoas pardas é semelhante. ~
social. Independentemente das divergências sobre o papel que a educação pos- O rendim"ento esperado para pessoas de cor amarela é substancialmente '~
sa ter para reduzir a desigualdade da distribuição da renda no Brasil, há consen- maior do que para as pessoas brancas. Esse diferencial a favor das pessoas de cor ~
so de que é preciso promover a educação básica no país, condição necessária amarela se mostra maior na agricultura, onde atinge 66%. Se a explicação dos ~
.para o exercício pleno da cidadania e para que as pessoas possam participar ade- coeficientes associados à cor se restringir à discriminação, teríamos de admitir
quadamente de uma economia moderna. que há, no Brasil, uma discriminação a favor de pessoas de cor amarela. A expli-
Se associarmos o nível 100 à média geométrica do rendimento de todos os cação do fenômeno envolve variáveis dificilmente mensuráveis, co~no caracte-
trabalhos das pessoas ocupadas no Nordeste, o número-índice para as demais rísticas culturais do grupo, qualidade da escolaridade, ambição etc. E importan-
regiões é 160 no Norte, 182 em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, te considerar, também, a propensão e capacidade dos imigrantes japoneses e
292 no Estado de São Paulo, 205 no Sul e 186 no Centro-Oeste. Como seria de se seus descendentes de se organizarem em cooperativas de produção e/ou comer-
esperar, as diferenças são muito menores, depois de descontados os efeitos das cialização.
demais variáveis. Mantido o nível 100 para o Nordeste, os números-índices pas-
sam a ser 128 no Norte, 131 em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro,
180 em São Paulo, 140 no Sul e 143 no Centro-Oeste. Bibliografia
O coeficiente para empregador mostra que este ganha bem mais do que o AZZONI,C. R., CARMO,H. E., MENEZES,T. Construção de índices de custo de vida
empregado. A diferença é de 113% no total e atinge 207% na agricultura. regionais: aspectos metodológicos e aplicação ao caso brasileiro. Anais do XX
Encontro Brasileiro de Econometria. Vitória: SBE, p. 155-171, dez. 1998.
Seria de se esperar que na agricultura os conta-própria (representados pela
agricultura familiar) tivessem rendimentos maiores do que os empregados. O BARROS,R. P., MENDONÇA,R. Pobreza, estruturafamiliare trabalho. Rio de Janeiro:
coeficiente negativo para conta-própria pode ser devido à provável subestima- IPEA, fev. 1995a (Texto para Discussão, 366).
ção do rendimento real da agricultura familiar. O questionário da PNAD não in-
--- __ . A evolução do bem-estar, pobreza e desigual.dade no B~asil ao
clui o valor da produção para autoconsumo e mesmo a produção comercial da longo das últimas três décadas - 1960/90. Pesquisa e Planejamento
agricultura familiar deve estar subestimada. Econômico, Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, p. 115-164, abro 1995b.
Os coeficientes estimados mostram que para as pessoas ocupadas na
----_. Os determinantes da desigualdade no Brasil. Rio de Janeiro: IPEA, jul.
agricultura o domicílio urbano está associado a um rendimento esperado 11 %
1995c (Texto para Discussão, 377) .
. ~ mais alto do que o domicílio rural. A atividade na indústria e nos serviços leva
a rendimentos esperados substancialmente maiores do que na agricultura. A FISHLOW,A. Brazilian size distribution of income.American Economic, v. 62, n. 2,
interação estatisticamente significativa entre domicílio urbano e atividade p. 391-402, May 1972.
nos serviços mostra que o acréscimo no logaritmo do rendimento a favor dos
FOSTER, J., GREER, J., THORBECKE, E. A class of decomposable poverty
que têm domicílio urbano é maior para os ocupados nos serviços (0,1044 + measures. Econometrica, v. 52, n. 3, p. 761-766, 1984.
0,0669 = 0,1713 ou acréscimo de 18,7%) do que para os ocupados na agricul-
tura (0,1044 ou acréstimo de 11,0%). Interpretando a mesma interação de ou- HOFFMANN,R. Vinte anos de desigualdade e pobreza na agricultura brasileira.
tro ângulo, podemos dizer que a diferença no logaritmo do rendimento a favor Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, v. 30, n. 2, p. 96-113, abr./jun.
1992.
de pessoas ocupadas nos serviços, em comparação com pessoas ocupadas na
106
--.::'~.~
-----. Desigualdade e pobreza no Brasil no período 1979/90. Revista
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IPEA, fev. 1995 (Texto para Discussão, 368).
.- .. - --.--.
Estimação de linhas de
indigência e de pobreza:
opções metodológicas no
Brasil*

Sonia Rocha**

1 - Introdução
Uma vez reconhecida a importância da renda como principal determinante
do nível de bem-estar da população, o parâmetro denominado linha de pobreza
(LP) passa a desempenhar papel central na determinação da incidência de po-
breza no que ela depende da capacidade de consumo no âmbito privado. O parâ-
metro serve ainda como crivo de referência para a caracterização dos pobres em
relação a outros aspectos da qualidade de vida não diretamente dependentes da
renda, mas que têm papel fundamental na determinação do nível de bem-estar,
como as condições de acesso a serviços públicos básicos.
Embora tenha sido relativamente comum a utilização de múltiplos de salá-
rio mínimo como linha de pobreza no Brasil,' existe consenso de que, havendo
disponibilidade de informações sobre a estrutura de consumo das famílias, esta
é a fonte mais adequada para o estabelecimento de linhas de pobreza. A opção
pelo consumo observado implica, ainda, deixar de lado a determinação da linha
de pobreza utilizando procedimentos de otimização da cesta alimentar a partir
de informações sobre o conteúdo nutricional e o preço dos alimentos. É ampla-
mente reconhecido que escolhas realizadas pelas famílias em relação ao consu-
mo alimentar, dada sua restrição de renda, diferenciam-se marcadamente da
cesta obtida a partir da minimização de custo. Isso ocorre mesmo quando se in-
troduzem restrições no modelo de modo a garantir a variedade dos itens ali-
mentares que compõem a cesta, assim como manter as quantidades por item
dentro de limites aceitáveis de palatabilidade. O que se observa ao comparar os

* A autora agradece a Márcio Duarte Lopes e a Sabine Bárbara Pabst. responsáveis. respectiva-
mente. pela programação SAS e pela assistência à pesquisa.
** Da Diretoria de Estudos Sociais do IPEA.
I Sobre o uso de linhas de pobreza como múltiplos do salário mínimo. ver Rocha (1996).
In
no
resultados do Estudo Nacional da Despesa Familiar (Endef) do IBGE, realizado O objetivo deste texto é apresentar as principais opções metodológicas para
'i;; ~
~ em 1974/?5, e da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, de a determinação de linhas de pobreza no Brasil a partir do consumo observado, E

tendo por base as pesquisas de orçamento familiar do IBGE. Trata-se de ilus- g


'"
g 1987/88, e .que, com a urbanização e a melhoria dos meios de comunicação, as
~ escolhas alImentares das famílias têm se tornado cada vez menos ótimas quando trar, a partir de dados concretos, como escolhas diversas podem influir no valor .ª
! se consideram estritamente o aporte nutricional e o preço dos alimentos (Rocha final do parâmetro obtido, e , em conseqüência, nas estimativas sobre incidên- ~
~ (1995). Isso significa que outras variáveis são relevantes para o consumidor ao da de indigência e de pobreza no Brasil. 1
~ fazer a escolha de sua cesta alimentar, como a praticidade do produto ou seu O texto a seguir refere-se às diferentes etapas de construção da linha de po- ,~ ê;:
.~ apelo como bem de qualidade superior. Resulta que o custo da cesta alimentar breza. A Seção 2 enfoca a determinação das necessidades calóricas, ponto de i:i
para as populações de mais baixa renda tem, ao longo do tempo, seu valor au- partida de todo o procedimento. Na Seção 3 trata-se do estabelecimento da ces- 1;
mentado bem acima do índice de preço da alimentação devido à mudança da ta alimentar. Formas de valoração da cesta não-alimentar são tratadas na Seção ~
estrutura da cesta em favor de produtos de preço mais elevado e/ou relativa- 4. A Seção 5 refere-se à estimação dos valores para áreas não-metropolitanas, .g
mente pouco eficientes no atendimento das necessidades nutricionais. enquanto a Seção 6 trata da atualização dos valores de referência. Finalmente, .1;;
Seção 7 sintetiza as principais conclusões, enfatizando a importância dos desvios .:::
~
Essa mudança nas preferências deve ser captada na medida em que reflete
um componente de pobreza relativa essencial para a mensuração da pobreza no valor dos parâmetros estimados com base em diferentes escolhas metodoló- ~
. ~
em uma sociedade marcada por importantes desigualdades de renda. Assim, glCas. ;2:

faz sentido estabelecer a linha de pobreza a partir de estruturas de consumo ob- ,g


servadas, cujo valor estaria associado ao mínimo necessário para que um indiví- 2 - As necessidades nutricionais como ponto de partida JJj
duo funcione adequadamente na referida sociedade.
A utilização das necessidades nutricionais para o estabelecimento da cesta
~ma vez feita ess~ opção pela primazia do consumo observado, as etapas a
alimentar básica vem sendo mantida e aperfeiçoada ao longo do tempo por ser o
segUir para o estabeleCllnento de LPs são simples e bem conhecidas. A primeira
fundamento conceitual mais sólido quando se trata da estimação de linhas de
etapa consiste em determinar, para a população em questão, quais são suas ne-
pobreza. Os parâmetros periodicamente divulgados pela FAO relativos às ne-
cessidades nutricionais. A etapa seguinte objetiva derivar, a partir das informa-
cessidades dos diferentes nutrientes dadas as características dos indivíduos
ções de pesquisa de orçamentos familiares, a cesta alimentar de menor custo
tanto físicas (idade, sexo, peso/altura), como de atividade (conforme desempe-
que atenda às necessidades nutricionais estimadas. O valor correspondente a
nhe atividade leve, moderada ou pesada), são utilizados como base para o esta-
essa cesta é a chamada linha de indigência (LI), parâmetro de valor associado
belecimento das necessidades nutricionais médias da população que se deseja
ao.consumo alimentar mínimo necessário. Como não se dispõe de normas que per-
estudar em relação à incidência de pobreza. Entende-se por indigentes aqueles
nutam estabelecer qual o consumo mínimo adequado de itens não-alimentares, o
que se situam abaixo da linha de indigência, cuja renda é insuficiente para ad-
valor associado a eles é obtido de forma simplificada, correspondendo geral-
quirir a cesta alimentar que permite atender às suas necessidades nutricionais.2
mente à despesa não-alimentar observada quando o consumo alimentar ade-
Utiliza-se no Brasil somente o parâmetro de necessidades calóricas, em vez
quado é atingido.
de toda a gama de necessidades nutricionais (proteínas, vitaminas, minerais).
, . Essa metodologia simples encobre uma ampla gama de possibilidades em-
Isto se justifica pelo fato de que estudos baseados no Endef e na POF de 1987/88
pmcas a cada etapa quando se trata de efetivamente estimar os valores das LIs e
mostram que as calorias se constituem no elemento restritivo, sendo, portanto,
LPs. São as opções diversas adotadas a cada etapa, assim como os procedimen-
suficiente escolher uma dieta observada que garanta os requisitos calóricos
tos de atualização dos valores estabelecidos inicialmente a preços do período de
para que as necessidades dos outros nutrientes sejam satisfeitas.
r~ferência, que resultam em parâmetros distintos para uma mesma área a par-
É interessante observar que os parâmetros estabelecidos pela FAO em ter-
tlr da mesma base de dados. Naturalmente, a adoção de linhas diferentes para
mos de necessidades calóricas vêm declinando ao longo do tempo, isto é, para
uma mesma unidade geográfica conduz a resultados diversos em termos dos
quaisquer que sejam as características dos indivíduos, suas necessidades calóri-
indicadores de incidência de indigência e de pobreza do ponto de vista da renda,
cas determinadas hoje são inferiores àquelas definidas a partir dos parâmetros
assim como do perfil das subpopulações formadas por indivíduos indigentes e
pobres delimitadas a partir desses parâmetros. É evidente que os resultados ob-
tidos pelos indicadores de indigência e de pobreza devem ser entendidos e ana- 2 Deve-se lembrar que a definição de pobreza como insuficiência de renda nada revela sobre as
lisado~ .tendo em mente os parâmetros de renda, e mais do que isso, as premis- CO?d~çõesde nutrição da população, já que, em momento algum, utilizam-se parâmetros antropo-
sas utilIzadas na sua construção. metncos, indispensáveis para fornecer evidências nesse sentido.
112 113
anteriores [FAO (1973) e FAO/OMS (1985). Isso resulta, necessariamente, em as necessidades calóricas poderão ter, portanto, impactos significativos sobre as ~
:c;
Jl redução nas estimativas elaboradas com base nas recomendações atuais, que medidas finais de incidência de indigência e de pobreza. Jl
~ datam de 1985, em relação às anteriores, divulgadas em 1973.3 Os desvios entre ~
ê as estimativas de necessidades calóricas elaboradas por diversos autores com
3 - A determinação da cesta alimentar .ª
.:5'
t
~"
~
base nas recomendações de 1985 são pequenos, mesmo quando utilizam infor-
mação estatística de fontes e anos diversos em relação à composição da popula-
ção por idade e sexo da população, já que esses parâmetros demográficos se al-
Uma vez determinadas as necessidades calóricas médias de uma área - re-
giãometropolitana de São Paulo, por exemplo- trata-se de obter a cesta alimen-
1
,~
'6' teram lentamente e sua interpretação é inequÍvoca.4 No entanto, diferenças ~arobservada de menor custo que permita o atendimento dessas necessidades. ~
Q

sensíveis entre estimativas podem decorrer de formas distintas de classificar as ~


Para isso é preciso, em primeiro lugar, derivar o aporte calórico per capita da 1;
atividades ocupacionais dos indivíduos como leves, moderadas ou pesadas, as- cesta alimentar observada em cada família residente na área. Isso é feito com ~
sim como de estabelecer o seu uso do tempo e a correspondente necessidade ca- base na composição dos alimentos, obtendo-se como resultado a estimativa do .~
lórica em 24 horas. As diferenças entre necessidades calóricas - que chegam a consumo calórico percapita diário naquelas famílias.5 Uma vez ordenadas as fa- .~
9% em Brasília quando se consideram as estimativas de Ellwanger (1992) e de míliasem função crescente do seu consumo calórico per capita, busca-se identi- ]'
Feres (1996) (Tabela 1) - implicam, provavelmente, diferenciais ainda maio- ficaro intervalo de despesa alimentar mais baixo para o qual a necessidade ca- ~
res dos valores das cestas alimentares observadas capazes de atender a essas ne- lóricaé atendida. -~~
cessidades, dado que, conforme aumenta a despesa alimentar das famílias, au- OGráfico 1ilustra o procedimento com base nos resultados obtidos por dé- ~
menta também o custo calórico unitário. As opções relativas à forma de estimar cimosda distribuição de despesas correntes para a metrópole do Rio de Janeiro. '~
Tabela 1 Nocaso, poderia ser adotada a cesta alimentar do quarto décimo, ajustando-se ~
proporcionalmente as quantidades de alimentos para corresponder exatamen-
Estimativas de necessidades calóricas recomendadasa te a 2.123 kcalldia, se fosse utilizada a necessidade calórica estimada por
(EM KCALJPER CAPITA/DIA) Ellwangerpara aquela metrópole. Um procedimento mais elegante consiste em
REGiÕES METROPOLITANAS
trabalhar com 91 décimos móveis, de modo a obter uma cesta observada com
CEPAL (1991) ELLWANGER (1992) FERES (1996) LUSTOSA (1999)
aporte calórico mais próximo das necessidades recomendadas, requerendo,
Belém 2.142,8 2.055 2.191 2.160 portanto, um ajuste menor.6 É importante notar, no entanto, que a adoção de
Fortaleza 2.126,0 2.047 2.200 2.098 uma ou outra alternativa tem impacto marginal sobre a estrutura da cesta ali-
mentar e sobre o valor da linha de indigência obtida.
Recife 2.126,0 2.071 2.200 2.126
Tendo por base as informações de despesa, tanto do Endef como da POF de
Salvador 2.126,0 2.043 2.200 2.127 1987/88,a adoção das cestas alimentares observadas, que correspondem à in-
Belo Horizonte 2.198,5 2.144 2.288 2.233
'estão recomendada de calorias, leva a delimitar como indigente uma percen-
tagem muito elevada da população, especialmente no Nordeste (Tabela 2). Para
Rio de Janeiro 2.213,7 2.123 2.288 2.233 evitar este resultado, que implicaria usar parâmetros de renda elevados, por-
São Paulo 2.152,4 2.135 2.288 2.233 tanto de pouca utilidade para delimitar uma população prioritária para fins de
políticas sociais, autores têm recorrido a procedimentos diversos visando à re-
Curitiba 2.217,6 2.120 2.313 2.282
dução do valor da cesta alimentar, sem que isso signifique abandonar o princí-
Porto Alegre 2.217,6 2.128 2.313 2.284 pioessencial de utilização do consumo alimentar observado.
Brasília 2.154,8 2.073 2.259 2.198 Fava (1984) tomou como base, arbitrariamente, a cesta alimentar relativa
aTadas as estimativas se baseiam nas recomendações da FAO/OMS (7985).
ao segundo décimo da distribuição das despesas correntes do EndeC as quais,

3 Para as estimativas de necessid~des calóricas baseadas em parâmetros anteriores [FAO ( 1973) I 5 A"Tabela de Composição de Alimentos" (IBGElEndef. 1977), fornece os coeficientes relevantes
elaboradas por Thomíls (1983) e Martins e Hidalgo (1983), ver Rocha, 1997 (Anexol). para obter tanto o percentual aproveitável da quantidade adquirida de cada alimento como seu
4 As estimativas da Cepal e de Feres se referem a médias regionais, resultando em necessidades aporte nutricional para cada 100 gramas de parte comestível.
calóricas idênticas para, por um lado. as três metrópoles nordestinas e por outro, para as duas me- ~ Esse procedimento com base nos décimosis móveis foi proposto por Ricardo Paes de Barros no
trópoles da região Sul. enquanto Ellwanger e Lustosa geram parâmetros específicos compatíveis ambi[oda comissão mista IBGE. IPEA e Cepal que estuda a metodologia a adotar para o estabeleci-
com o nível de detalhamento da informação de consumo da POF. mento de linhas de pobreza a partir da POF de 1995/96.
114
--~--.:_-.~'_. Gráfico 1 115
1; emlOdas as 23 áreas, estavam aquém do atendimento das necessidades calóri-
<;
<:Q ~
as. Essas cestas foram então ajustadas na sua composição de modo a atingir as <;
<:Q
~ In~~stão cal~ric~ média observada e recomendada por recomendações calóricas. Thomas (1983) utilizando também dados do Endef, g
~ decl~o da distribuição de despesa corrente - metrópole
! do RIO de Janeiro
além de recorrer a um procedimento semelhante ao de Fava, mas baseado na
cesta do 20º percentil, propõe ainda uma alternativa: adotar como ponto de par-
.\:j
.8'
~
{i
-i!l kcal tida a cesta de equilíbrio, isto é, aquela de menor custo que garante o atendi- ~
]
5.000 mento da recomendação calórica, da qual seleciona os principais produtos res- ,~
.'2;" ponsáveis pelo seu aporte calórico até atingir 75% do total das necessidades re- l}
_ Recomendada 4.500
Observada
4.000 comendadas. As quantidades dos alimentos selecionàdos são então aumenta- ~
"'"
---3.500
das proporcionalmente de modo a atingir 100% das necessidades calóricas reco- :s.
{i
mendadas, o que se dá a um custo inferior ao da cesta original. Ellwanger "
3.000
Média (2. 723 kcaO ( 1991),7 com base na POF 1987/88, utiliza como ponto de partida as cestas de :~
/= - 2.500 alimentos que atendem às recomendações calóricas mínimas, isto é, aquelas ~
.:::
- 2.000 necessárias tão-somente à manutenção do funcionamento do metabolismo es- {i

- 1.500 sencial e que se situam em torno de 1.750 kcal/dia. As quantidades de alimentos ]


~
- 1.000
constantes dessa cesta, que tem um custo calórico unitário mais baixo, são en- {i

tão ajustadas proporcionalmente de modo a obter a cesta do padrão calórico re- .~


- 500
con1endado. .ê
O Jj
6 10 Total Os procedimentos descritos se afastam da solução mais direta: a adoção da
Décimos
Fonte: IBGE/POF de 7987/88. cesta observada que garante a ingestão calórica recomendada. O que se busca é
a determinação de parâmetros de valor operacionais para fins de monitoramen-
to da indigência e da pobreza. Todos são arbitrários na medida em que, introdu-
Tabela 2
zindo algum grau de normatização, se afastam do consumo observado.
Co~sumo calórico recomendado e décimos da distribuição mais ATabela 3 ilustra, com dados da POF de 1987/88 a adoção de três diferentes
baixa em que é atingido: regiões metropolitanas -1974/75 e procedimentos para estabelecer o valor da cesta alimentar nas metrópoles do
1987/88 Recife e de São Paulo. As necessidades calóricas recomendadas - 2.071
ELLWANGER (1991)
kcalldia no Recife e 2.135 kcalldia em São Paulo - são atingidas em qualquer
REGiÕES METROPOLITANAS
kcaVdia DÉCIMO
das três opções examinadas, mas as soluções se diferenciam pelo grau de nor-
Belém
malização adotado na sua derivação a partir de cestas observadas, o que afeta
2.055 42 Suacomposiçã08 e seu custo. O menor custo corresponde a uma cesta limitada
Fortaleza 52
2.047 aos alimentos de maior aporte calórico, a qual, é interessante observar, apresen-
Recife ta custo inferior até mesmo ao da cesta observada, que permite apenas atender
2.071 62
Salvador 52
às necessidades calóricas mínimas. A cesta de custo intermediário resulta do
2.043
ajustamento das quantidades dos alimentos da cesta que originalmente permi-
Belo Horizonte 2.144 22 lia atingir apenas as necessidades mÍnimas.9 O valor mais alto corresponde à
Rio de Janeiro 2.123 42 ~estaobservada que atinge sem qualquer ajuste as necessidades recomendadas.
São Paulo 2.135 32 E importante destacar que opções metodologicamente diversas conduzem a
Curitiba desviosentre os valores da cesta, que podem chegar a 50%, como ocorre no caso
2.120 22
de São Paulo.
Porto Alegre
2.128 42
Goiânia
2.091 42
Brasília 7 Rocha ( 1993) utiliza cestas de Ellwanger.
2.073 32 8 A composição das cestas relativas à metrópole de São Paulo é apresentada n~ Anexo I.
Fonte: EI/wanger (1991).
9 É este o procedimento utilizado por Rocha (t993) a partir de dados da POF.
- -. :-._---
116
Tabela 3
- " t 1 normas para definir o consumo adequado de itens de vestuário,
117
';.;
'<:;
1: nao extS en d' -.
Ila I)1'tação transporte, saúde, educação, etc., nem tampouco um proce Imento Jii!
~ Comparação dos valores das cestas alimentares obtidas para <, , • •t

~ três procedimentos distintos de derivação Recife e São Paulo I, 'to para estimação da despesa mlnIma com esses I ens.
tire . I 1"1l
â (PREÇOS DE OUTUBRO DE 1987) Como resultado, ao definir a linha de pobreza, a ênfase c~ncel:ua e ana Itl- :2'
~" ca recaI. na def'tnl'ça-o das necessidades nutricionais e na estImaçao , das ,cestas
Id ~_
~'" VALORES (Cz$) COMPARAÇÃO RELATIVA I . 1 'ntares Embora as demais despesas representem, em palses do nIve e "
i! ame . 'd d b" - h b' ,~
.~ RECIFE SÃO PAULO RECIFE sÃO PAULO
de envolvimento do Brasil, mais da metade das necessl a es aSlcas, sao a 1- ê:=
~ Necessidades mínimasa llIalmente tratadas de forma agregada e simplificada. ~
848,40 838,01 102 106
A literatura sobre pobreza consagrou a adoção do coeficiente de Engel, isto â
Necessidades recomendadasb
é, a relação entre despesas alimentares e despesa total, como ~m elemen~~ cen- ~
Mínimo ajustado - 90% do aporte calórico 833,43 793,85 100 100 trai na determinação da linha de pobreza, apesar da sua eVlde.nte fraglh~a.de :~
conceitual e empírica. O procedimento, que ainda é o mai: habItuai na ~ratI~a ]'
Mínimo ajustado via cesta completa 1.007,55 1.042,15 121 131 iI1lcrnacionaI. consiste em assumir como adequado para fms de deter.mmaçao ~
Observado 1.111,28 1.188,98 133 da linha de pobreza o valor da despesa não-alimentar observa~o no mt.ervalo ]
150
Fontes: Rocha (1993) e EI/wanger (1992). mais baixo da distribuição, no qual a despesa alimentar atende as neceSSIdades ~
a Recife, 1.750 kcalldia e 5ão Paulo, 1.786 kcalldia.
b Recife, 2.071 kcalldia e São Paulo. 2.135 kcalldia. nutricionais (ver Tabela 2). ,~

Uma vez derivada a cesta alimentar, 10 isto é, o conjunto de alimentos e res-


Desde o Endef as evidências empíricas são no sentido de que as dedspedsas j
alimentares no Brasil representam um percentual relativamente baixo a es-
pectivas quantidades que permite atender às necessidades calóricas recomen- pesa total. mesmo para os mais pobres. Essa "especifi~ida?e ~rasileira" -espe-
dadas médias em cada área, trata-se de adotar os preços relevantes. No caso do cialistas que trabalham com dados de diferentes palses mSlstem que, para os
Endef. a solução natural foi utilizar os seus próprios preços, já que o inquérito ti- pobres, essa relação se situa em torno de 0,5 - foi confirmada r:a~ POFs de
nha investigado despesa e quantidade. Ademais, não existia na época um siste- 1987/88 e 1995/96. A Tabela 4 apresenta os coeficientes de Engel medlO na base
ma de índice de preços de abrangência nacional e com características técnicas, da distribuição de despesas no Endef e na POF de 1987/88.
cuja utilização fosse vantajosa em relação aos preços do Endef. A POF de Certamente a resistência que se verifica no Brasil em adotar os dado: ob-
1987/88, no entanto, só investigou despesa, de modo que a solução mais ade- servados de despesa não-alimentar está associada ao fato de ~ss,:s conduzl:e~
9uada no caso foi recorrer às informações de preços do Sistema Nacional de a linhas de pobreza muito elevadas, operacionalmente pouco utels para de.h~l-
Indices de Preços ao Consumidor (SNIPC) do IBGE. A recente POF de 1995/96 tação da população pobre, monitoramento da evolução da pobreza?u avahaçao
investiga novamente as quantidades associadas a cada despesa alimentar. o de impactos de políticas sociais focalizadas nos pobres. Nesse s.entIdo, a~ ,:sta-
que talvez permita um tratamento mais direto dos preços. belecer linhas de pobreza, diferentes autores buscam alternatIvas permltmdo
A questão de atualização do valor da cesta alimentar, expressa inicialmen- hegar a valores mais baixos que os observados nas pesquisas de orçamento.
te para o período de referência, suscita considerações específicas que serão fei- As soluções variam das mais simples e diretas às mais engenhosas. A Ce-
tas na Seção 6. paI. desde a década de 70, adota o multiplicador de 2 aplicado ao valor da cesta
alimentar para o estabelecimento de linhas de pobreza para o Brasil-~ que na-
4 - A estimação do consumo não-alimentar turalmente significa um coeficiente de Engel de 0,5 -, tanto para a~ lmhas de
indigência estimadas a partir do Endef ou da POF de 1987/88 (Altamlr (1979) e
Contrariamente ao que ocorre em relação ao consumo alimentar, para o Cepal ( 1999) l. Rocha ( 1993) adota o coeficiente de Engel observado, mas cor-
qual se dispõe de parâmetros exógenos relativos aos níveis de consumo mínimo, respondente à classe de despesa alimentar que permite atender apenas às ne-
ce sidades calóricas mínimas, e não às necessidades calóricas recomendad.as, o
que resulta em um coeficiente de Engel implícito superior ao observado. Fmal-
10 À guisa de exemplo, a cesta alimentar que permite atingir as necessidades nutricionais na me-
trópole de São Paulo, segundo a POF de 1987/88, é composta de 125 produtos alimentares e a que mente, Ferreira, Lanjouw e Neri ( 1998) adotam o coeficiente de Eng:l. que se
atende às necessidades mínimas, 108 produtos, Para reduzir o número de produtos, o que facilita o verifica para o intervalo da distribuição em que a despesa total das famlhas cor-
tratamento empírico, é comum eliminarem-se aqueles pouco relevantes. cujo consumo médio é in-
ferior a Ig/dia.
118 119
-.'.-.':.- ----
Tabela 4 _____ •••• _J. ••

~ responde ao valor da linha de indigência, Ao proceder assim, estão definindo


::
g dcoeficiente de Engel verificado na base da distribuiça- d li 111 limite inferior crítico para o valor das despesas não-alimentares (Gráfico 2), ~'ti
~ espesa total o e Na verdade, tanto a crescente urbanização como o efeito demonstração do ~
~
1.
{;
-::::==~~-----------
REGiÕES METROPOLITANAS
_ consumo das camadas mais abastadas da população influenciam a estrutura de ,g>
consumo dos mais pobres numa sociedade marcada por elevada desigualdade :g

~
1! ~jér;~------------ ~~::""~~~~
de renda. Isso tem provocado a elevação do valor das outras despesas a níveis ~
.~ Belém incompatíveis com sua utilização no estabelecimento da linha de pobreza. Nes- ,~
\}
<::l ~~-- ~~~
as circunstâncias, as alternativas são as de utilizar a linha de indigência como ~
Fortaleza
parâmetro básico, em vez da linha de pobreza, ou aceitar a adoção de uma com- .t
Recife ponente crescentemente arbitrária no estabelecimento do valor associado ao ~
Salvador consumo não-alimentar. "g
"
.;;:;
~
.~
5 • A estimação de linhas de indigência e de pobreza para ~
as regiões não-metropolitanas ~
.:::
~
Conceitualmente não há razão para que a estimação de LI e LP relativas às ~
áreas rurais e urbanas não-metropolitanas seja elaborada segundo uma meto- '~
dologia diversa daquela adotada nas regiões metropolitanas. Assim, autores .S
~
que utilizaram o Endef como base para derivar as estruturas de consumo usa-
Rocha (1993). ram os mesmos procedimentos para todas as áreas, e elaboraram tantos parâ-
metros específicos quanto permitia o desenho amostraI daquela pesquisa [Thomas
Gráfico 2 ( 1983) e Fava ( 1984) J,
No entanto, procedimentos específicos têm que ser adotados para a gera-
ção de LIs e LPs para essas áreas quando se utilizam as POFs como fonte de in-
Procedimento de derivação do coeficiente de Engel
formação sobre a estrutura de consumo das famílias, já que esse levantamento,
Despesa total/despesa alimentar tanto em 1987/88 como em 1995/96, ficou restrito às nove regiões metropolita-
nas, Goiânia e Brasília,
Na falta de qualquer indicador de preço ou de custo de vida com abrangên-
cia nacional que pudesse orientar quanto aos diferenciais de custo de vida dos
pobres entre metrópoles e demais áreas urbanas e rurais do país, Rocha (1993)
Optou por adotar os diferenciais observados por Fava (1983) com base no Endef
(Tabela 5).
A utilização desses coeficientes, ainda hoje, para derivar Lls e LPs relativas
às áreas não-metropolitanas de cada região, pressupõe que as mudanças em
termos da estrutura de consumo e de preços ao consumidor ocorridas entre
1974n5 e 1987/88 em cada região teriam sido neutras quanto ao seu efeito so-
bre o custo de vida dos pobres nos diferentes estratos de residência, Esse é um
f c
pressuposto forte, que vai de encontro a algumas evidências derivadas na POF,
ac = despesa alimentar que p 't cf'
bc = despesa total correspon;;~:e eàa~eesnpeer
aS/~ecessidades calóricas recomendadas;
em particular a da tendência à uniformização das estruturas de consumo das
df = d " sa a Imentar ae;
I espe~ ~otallguala despesa alimentar m/nima ae famílias entre regiões e entre classes de despesas.
eddf = coefiCiente de En I d '
Lf =
ac .df/ef. ge a ser a otado para obter a 'linha de pobreza (Lf); e Se essa redução de diferenciais de consumo vem ocorrendo de forma gene-
ralizada, a utilização dos coeficientes de custo derivados do Endef para estimar
120 121
..• ..,'-----
-.;
Tabela5 POF, mas reduziu os diferenciais verificados no Endef à metade para estabele-
cer os valores para áreas urbanas e rurais. Tudo leva a crer que algum procedi- ]
menta desse tipo será adotado pela Comissão de Pobreza no estabelecimento de
novas linhas de pobreza para o Brasil a partir da POF de 1995/96.
Organismos internacionais tendem a ver com estranheza os diferenciais de
custo de vida entre estratos de residência como os derivados do EndeC e a utilizar
i.
'"
desvios bem mais estreitos quando não dispõem de evidências empíricas específi- .~
cas a esse respeito. A Cepa!, por exemplo, utiliza diferenciais de 5% para áreas urba- :o;-

Nordeste
nas e 25% para as rurais em relação aos valores metropolitanos [Cepal ( 1996) I. li~
A ausência de informações de despesas e de preços para unidades espaciais -::
Urbano
outras que as regiões metropolitanas, Goiânia e Brasília é, sem dúvida, a lamna .~
estatística mais grave na construção de LIs e LPs adequadas para o Brasil. Isso ~.
significa que os 2/3 da população brasileira residentes em áreas rurais e urbanas .::
~
Minas Gerais/Espírito Santo
não-metropolitanas são levados em conta de forma precária nos estudos sobre ~
Urbano pobreza. Nesse sentido, é urgente a melhoria da abrangência de pesquisas nacio- :2
nais de orçamentos familiares, que permitiria, dentre outras, captar as especifi- ~'~
cidades intra-regionais de custo de vida para os pobres que resultam da homo- ;g
.::
Rio de Janeiro geneização crescente de estruturas de consumo e de preços ao consumidor. !G
Urbano

Rural 6 - Atualização dos valores de linhas de indigência e de


pobreza
São Paulo
Devido a seu custo e complexidade, as POFs se realizam em intervalos plu-
Urbano rianuais - idealmente a cada cinco anos.ll Em conseqüência, é necessário pro-
Rural ceder à atualização dos valores expressos originalmente a preços da data de re-
ferência da POF de modo a obter indicadores de indigência e de pobreza com
Sul
base nas pesquisas domiciliares que se realizam anualmente, ou nas censitárias,
Urbano que se realizam em anos diferentes dos da POF.
Rural No que concerne à LI, a atualização consiste em manter inalterada a com-
posição da cesta alimentar, isto é, as quantidades por alimento como estabeleci-
Centro-Oeste
do inicialmente, introduzindo novos preços. Mesmo quando se dispõe de um
Urbanob istema de preços ao consumidor que permite acompanhar uma ampla gama de
produtos, como o sistema brasileiro, a atualização acaba sendo complexa devi-
Rural' 0,4373 0,6551 do, por exemplo, a mudanças na forma de comercialização dos produtos. Uma
Fonte: Fava (1984).
a Em relação ao valor associado à metrópole ou à média dó.-
solução simplificadora é proceder à atualização de preços dos produtos alimen-
b Os valores relativos referem-se ao do Distrito Federal. as metr poles da reg/ao - metrópole(s) igualas) aI).
tares mais importantes e utilizar o índice de preço assim derivado para corrigir o
c Estrato
áreas rural da região não inve5 t.'gd do pe Io En d e.f O coefiCiente
rurais. .. foi calculado a partir da média dos coeficientes das demais
valor correspondente aos demais produtos da cesta alimentar (Tabela 6). Orde-
nando os produtos em função decrescente do seu aporte calórico, cerca de 25
LIs e LPs ~rbanas e rurais muitos anos depois implica subestimação do valor deles correspondem a aproximadamente 75% da despesa alimentar e 35 a cerca
desses parametros. de 90% [Rocha (1993) l. Ao corrigir agregada mente o valor dos demais produ-

Acredita~d~ n~ processo de convergência de valores relativos aos diversoS


estratos de resl.denCla de uma mesma região, Maletta (1998) utilizou como base
as LIs e LPs estimadas por Rocha (1993) para as áreas metropolitanas a partir da 11 No Brasil, como se viu. elas vêm sendo realizadas, aproximadamente, a cada 10 anos.
122 123
"-.-.~.-J'-,,--. __
Tabela6 das por tipo de despesa, um procedimento mais adequado consiste em acompa-
1;
E nhar a evolução dos preços não-alinlentares por categoria do INPC (habitação, Ê
g
00

~ro~e~i~entos
alternativos de valoração das linhas de vestuário ete.), que corresponde aos agrupamentos das despesas na POF no g
@ mdlgencla para a região metropolitana de São Paulo em
1 setembro de 1990
ano-base [Rocha (1997) ].ª ~
{;
~
""

"'"
Cr$ (SEr J1990)0 7 - Conclusão
1
,~
"
.~
g 2.523,42 Do que foi discutido nas seções anteriores decorre uma conclusão básica: a ~
escolha da metodologia mais adequada para a construção de linhas de pobreza ~
Via índice de preços (INPC-alimentação, São Paulo)
aValor do salário minimo em setembro de 1990: Cr$ 6.056,31.
2.888,54
e de indigência é determinada, essencialmente, pela disponibilidade de dados !
estatísticos. As etapas analisadas se referenl ao procedinlento consagrado na li- ~
tos, evi~al:1-se_ muitas vezes dificuldades associadas a mudanças na forma de teratura quando se dispõe de informações sobre a estrutura das despesas das fa- :~
comerClahzaçao de produtos,I2 mílias, o que resulta em dar primazia ao consumo observado como base para o ~ .;::,

estabelecimento dos parâmetros. Pode-se concluir ainda que: ""


Natura~m=nte, ~ pr~cedimento mais simples no caso brasileiro consiste em
adotar a vana,~ao do mdlce de preços de alimentação restrito do IBGE, calculado a) Dadas as reconhecidas diferenças espaciais que se verificam no Brasil, o I
p,ara cada reglao, de forma a a~~alizar o valor da LI daquela mesma região. Refe- estabelecimento dos parâmetros - LIs e LPs - deve privilegiar o maior nível de ""
r~ndo-~e.ao con,sumo das famJ!JaS com despesa mensal familiar de até oito salá- detalhamento possível a partir das estatísticas disponíveis. Isso implica reco- 'i
nos nummos, e uma proxy aceitável da evolução do custo da alimentação dos nhecer que resultados nacionais são a consolidação de resultados regionais de .;::, ~
pobres. precisão distinta. Assim, os parâmetros obtidos para as regiões metropolitanas,
Goiânia e Brasília, para as quais se dispõem de resultados recentes das POFs,
A solução ideal consiste em construir, no âmbito do sistema de índices de
são qualitativamente diversos daqueles relativos às demais áreas urbanas e ru-
preços?o IBGE, U~1índice. as~o~iado à cesta alimentar adotada para fins do es-
rais do país, para as quais o estabelecimento de LIs e LPs repousa em hipóteses
tabelecllnento da ~mha de mdlgencia. Desse modo, a divulgação mensal dos re-
sobre a evolução provável do custo de vida dos pobres nessas áreas a partir de
~ul~a~os .da pesqUIsa de preços passaria a incluir a variação do valor da linha de
meados dos anos 70. Desse modo, a falta de dados de orçamentos familiares
mdlgenCla em cada uma das áreas da pesquisa.
atualizados e de abrangência nacional é a principal lacuna estatística para a
Quant~ ~ atualização da despesa não-alimentar, o procedimento mais lar- construção de linhas de indigência e pobreza e, naturalmente, para a obtenção
game~~e utlhzad~ na prática internacional para estabelecimento da LP consiste
de indicadores seguros a partir da sua utilização.
em utlhzar o coefl~ient= de Engel (ou outro parâmetro desempenhando o mes-
b) No que concerne à construção das LIs, existem parâmetros nutricionais
mo pap~l) em conjunçao com o valor atualizado da LI. O pressuposto é que o
que orientam na determinação da cesta alimentar adequada a partir do consu-
custo ahmentar e não-alimentar dos pobres estaria evoluindo à mesn1a t axa.
mo observado. No entanto, cabe destacar que, a partir de uma mesma popula-
Não.existe, no entanto, base teórica que permita supor que o coeficiente de ção, é possível arbitrar necessidades nutricionais médias bastante distintas - o
Engel
. .seja uma constante no médio prazo ,premissa
como adotado como . na exemplo do texto mostra desvio de até 9% entre diferentes estimativas -, que
n:alO.na d~s estudos sobre pobreza. Ao contrário, no Brasil, por exemplo, as evi- naturalmente resultam em diferenciais do valor da linha de indigência.
den~las sao de que as despesas alimentares representam uma forte tendência
c) A adoção da cesta alimentar observada que permite atender às necessi-
, decl~nante na des~e~a gl~bal, apesar de o consumo alimentar vir evoluindo no
s~ntldo ?~
su~stJtUlr ahmentos básicos e de menor custo, por alimentos
dades calóricas recomendadas ou a introdução de alguma normatização no es-
tabelecimento da cesta alimentar pode resultar em desvios que atingem 50% do
nao-tradlclonals e de preço mais elevado. 13
valor da LI resultante (exemplo de São Paulo na Tabela 3).
No Bra~il: não exi:ten~ ~estrições do ponto de vista da disponibilidade de
d) A ausência de parâmetros que orientem o que seja o nível mínimo acei-
dados estatlstlCOS que Justifique o uso do coeficiente de Engel na atualização
tável de consumo não-alimentar faz com que o valor dessas despesas seja defi-
dos valores das LIs. Dado que as POFs permitem dispor de informações detalha-
nido freqüentemente de forma arbitrária. O objetivo é obter uma linha de po-
breza que se situe dentro de um intervalo de valor considerado adequado pelo
12 Mudanças de qualidade, de especificação secundária do produto e de emb'la gem, porexemp Io. analista, tendo em vista sua utilização empírica. Diferenciais de valor do coefi-
_ u

13 Para uma comparaçao da estrutura de consumo no Endef e na POF, ver Rocha ( (995). ciente de Engel adotado para a metrópole de São Paulo podem atingir 50%.
124 125
Tabela 7 -metros como esquematizado no exemplo, No entanto, é rd~-
mos para os para f - d s muitas IJOssibilidades de escolha melOdolo- .~
- Simulação das opções extremas para o estabelecimento de LI e destacar que em unçao a b d ~
vante
, da etapa os '_ parame t ros estimados refletem o consumo o serva.. _,o e o _"
- lP: metrópole de São Paulo - 1987
~ -gICaa
I ca to de valor
, do ana I'lsta em p rOIJOrçO-esvarl'a'\'eis, Como consequenCla,
_ ,. .::;
:?
i ju gamen _ lt dos obtidos de sua aplicação sao Ul1lCOS, ~
arametros como os resu a . 'd _ '
tanto os P
FORMA DE FORMA DE
> _
OPÇÓES NECESSIDADES ESTABELECIMENTO VALOR DA LI DETERMINAÇÃO , . . tiol1 e de evolução temporal da mo cnCla e ~
EXTREMAS CALÓRICAS DA CESTA (CZS OUT/87) DA DESPESA
VALOR DA LP
(CZS OUT/87)
do-se para analIse em C1oss-sec .. d _ > ~

ALIMENTAR NÃO-ALIMENTAR prestan _ d o referência as premissas utiliza as no es- ,~


caracterizaçao da pobreza, ten o com ~
Que
minimizam
os valores
2135 -.

t
Ajuste de 90%
para 100% do -.
aporte calórico
793,85

t
-. Engel de
0,50
(arbitrário)
-'1.587,70
tabclecimento dos parâmetros,
.
,_'
I d obtidos a partir do conjunto de para metros dI 1.
Nesse ,sentido, r<:.sut~~ ~~m aráveis. Resultados "mais adequados"
_ 2

para ~

Desvio Desvio
t versos obvIament,e _naoi~' d' -~cia e de pobreza no Brasil são aqueles que de- .~
d,escrevderas c~n1deltÇr~:S
nvam os paran
o~~il~O;~: forma mais" sensa ta", tendo em vista tan to os :~.
]
Desvio
8,3% 49,8% 126,9%

Que Engelde
maximizam 2313 -. -. 1188,98 -. 0,33 -. 3602,97
os valores (observado)

Fonte: POF de 1987/88.


Nota: Salário mínimo equivalia a Cz$ 2.640.
GÊNEROS ALIMENTíCIOS

A Tabela 7 tem como objetivo ilustrar até que ponto opções metodológicas
diversas têm o potencial de afetar os valores das LIs e das LPs, o que determina 159 131
os resultados que se venham obter sobre incidência e sobre o perfil da indigên-
88 65
cia e da pobreza no Brasil. Os dados se referem à metrópole de São Paulo, de A~çu~'
c~a~r~re~f~in~a~d~0~ ~ ~~---;-;;~--3"3-
modo que não sofreram as inevitáveis restrições quanto à disponibilidade de 35 33
Óleo de soja
informações que têm de ser enfrentadas para a estimação de parâmetros relati- 74 76
Pão
vos às áreas urbanas e rurais não-metropolitanas. Para estilizar a questão da
53 38
qual se tratou neste texto, derivaram-se valores para a LI e a LP escolhendo, a Feijão
cada passo, as opções metodológicas extremas dentre as apresentadas, isto é, 186 205
Leite de vaca
aquelas que contribuem para obter os valores mais altos e mais baixos para a LI 14 13
Macarrão
e a LP, Os efeitos acumulados de opções extremas quanto à necessidade calórica
28 25
média e à forma de estabelecer a cesta alimentar, que permitem atender a essas Carne bovina de segunda
necessidades recomendadas, resultam em LIs cujo valor superior é 50% mais 14 14
Farinha de trigo
elevado que o mais baixo. Ao incorporar diferenças quanto à relação entre des- 41 45
Galinha ou frango
pesas alimentares e não-alimentares no ano-base, a LP mais elevada chega a ter 19
Carne suína 13
. yalor 127% superior ao da alternativa mais baixa, Esse diferencial de valor para
6 5
a linha de pobreza implicaria obter, com base na PNAD de 1987, proporção de Margarina vegetal
pobres para a metrópole de São Paulo de, respectivamente, 11% e 42% (ver o
Farinha de mandioca 9 9
conjunto de indicadores relevantes no Anexo 2). Vale ressaltar que esses dife- 19
Ovo 23
renciais são atingidos sem levar em conta as opções metodológicas para a atua-
lização dos valores dos parâmetros, estimados, inicialmente, a preços do Biscoito 8
ano-base da pesquisa de orçamento. 9 11 20
Carne bovina de primeira
É evidente que, na prática, dificilmente serão feitas opções metodológicas -
Fontes: IBGElPOF. dados básicos. Requerimentos
, .
caloncos
(d
es Im~
s por Ria Ef/wanger (18GE/OPE),
o, 900;' do aporte calórico da cesta completa.
a Ajustamento das quantidades apenas dos 15 produtos responsavels por o
que impliquem, de forma consistente, a obtenção de valores máximos e míni-
b Cesta obselVada no terceiro décimo da distribuição de despesa.
126 127
;0.._..-._ .•.._-,..,----
Anexo 2 LUSTOSA, T., LANDEN,M. Cálculo das necessidades .eni?!9éticasda população brasileira 'õ;
l visando a construção da linha de pobreza. Conllssao de Estudos sobre. Pobreza E
lPENIBGE. Versão preliminar, Rio deJaneiro: IBGE/DPE/DEPIS, Jlmho de g
g Simulação de indicadores de pobreza com base em valores 1999.ª
t
~ extremos da linha de pobreza: metrópole de São Paulo - 1987

"- NÚMERO DE
N\ALETIA,H. Rural poverty in Brazil. Roma: FAO, 1998. 1
~
VALOR OA LP «(z$)" PROPORÇÃO GAP RATIO GAP INDEX GAP ~OBRES +
POBRES QUADRÃTICOb NAO-POBRES MARTINS,I. S., HIDALGO,C. P. Recomendações de energia e nutrientes para a população ,~
1.424,97 0,1112 1.594.691 0,3963
brasileira. Inan, Ministério da Saúde, 1984. ~
0,0441 0,0275 14.344.138
3.330,84 0,4218 _____ . Linhas de pobreza para as regiões metropolitanas na primeira ~~
a Valores a preços de setembro
6.050.352
de 1987. mês de referência
0,4115
da PNAD.
0,1736 0,0978 14.344.138
metade da década de 80. Anais da ANPEC, Belo Honzonte, v. 4, 1988. i
b índice proposto por Foster, Greer e Thorbecke.
"-
ROCHA, S. Poverty lines for Brazil - new estimates froltl recent empirical evidences. :~
Background paper para o World Bank, 1993. ~
.",
dados disponíveis como as hipóteses adotadas para contornar as lacunas de in-
----- A estrutura de consumo das famílias metropolitanas em São Paulo {:
formação. Comparações internacionais são necessariamente precárias, já que
são afetadas não só por opções metodológicas diversas na construção das linhas
e Recif~: evidências e implicações. Pesquisa e Planejamento Econômico, v. 25, j
n. 2, p. 297-322, ago. de 1995. {:
de indigência e de pobreza em cada país como também por diferenças nacionais ,~
quanto a detalhamento e especificação das bases de dados estatísticos. ----o Poverty under inflation. In: OYEN,E. Poverty-aglobal review. Oslo: ~
Scandinavian University Press, 1996. ~

Bibliografia ----o Do consumo observado à linha de pobreza. Pesquisa e Planejamento


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FERES,J. Una estimación de las necesidades de energia eproteinas de la población. Cepa!.
1996.
Desigualdade e pobreza
no Brasil: origens e
determinantes

Capítulo 5
Os determinantes da desigualdade de
renda no Brasil: luta de classes ou
heterogeneidade educacional?
Francisco H. G. Ferreira
Capítulo 6
Determinantes da desigualdade de
rendimentos no Brasil nos anos 90:
discriminação, segmentação e
heterogeneidade dos trabalhadores
Lauro Ramos / Maria Lucia Vieira
Capítulo 7
Mercado de trabalho e pobreza
no Brasil Ricardo Paes de Barros /
Carlos Henrique Corseuil / Phillippe G. Leite
Capítulo 8
A evolução da distribuição de salários
no Brasil: fatos estilizados para as
décadas de 80 e 90
Naércio Menezes-Filho /
Reynaldo Fernandes / Paulo Picchelli
Capítulo 9
Tendências de coorte nos diferenciais
de rendimentos por sexo
Maria Carolina da Silva Leme /
Simone Wajnman
Capítulo la
Abertura comercial e liberalização do
fluxo de capitais no Brasil: impactos
sobre a pobreza e a desigualdade
Ricardo Paes de Barros /
Carlos Henrique Corseuil / Samir Cury
Capítulo II
Geografia e convergência da renda
entre os estados brasileiros
Carlos Azzoni / Naércio Menezes-Filho /
Tatiane Menezes / Raul Silveira Neto
'- . ...-
.,.-
Os determinantes da
desigualdade de renda
no Brasil: luta de classes
ou heterogeneidade
educacional?*

Francisco H. G. Ferreira**

1 - Introdução
Com um coeficiente de Gini para a distribuição da renda total familiar per
capita cuja média, durante as duas últimas décadas, ficou em 0,59, o Brasil con-
tinua ocupando posição de destaque internacional como uma das sociedades
mais desiguais do planeta. Durante o mesmo período, a média latino-americana
ficou entre 0,49 e 0,50 e a africana entre 0,43 e 0,47. Todavia, em regiões mais
igualitárias, como o clube dos países ricos (a OCDE), o mesmo índice médio não
ultrapassou 0,34. Essas comparações, baseadas nos dados de Deininger e Squire
(1996), estão ilustradas no Gráfico 1. Ainda que outras medidas de desigualda-
de comumente aplicadas à distribuição de renda brasileira, como os dois índices
de Theil ou outros membros da classe de índices de entropia generalizada, não
c tejam disponíveis para muitos países, dificultando suas comparações inter-
nacionais, a posição de destaque do Brasil é robusta ao uso de índices alternati-
vo . como mostra a dominância da curva de Lorenz do país sobre as da grande
maioria dos países para os quais ela pode ser obtida [ver Barros, Mendonça e
Duarte ( 1995, Gráfico 3)].
Ademais, a evolução temporal da desigualdade brasileira também não é
~nimadora. Após crescer de forma pronunciada durante as décadas de 60 e 70, o
IOdicede Gini permaneceu estável durante a maior parte dos anos 80-com pe-
quenas reduções em 1984 e 1986- mas voltou a piorar com a hiperinflação que
e 'eguiu ao fracasso do Plano Cruzado, atingindo o pico global da série (0,62)

Br E'lte tra,balho foi preparado para apreselllação no Seminário sobre Desigualdade e Pobreza no
m: lei realizado no Rio de Janeiro. de 12 a 14 de agoslO de 1999. Agradeço as valiosas sugestões de
, ar ,o Paes de Barros, bem como a assistência de Júlia Campos e Fernanda Feitosa, Erros e omis-
- -ao de minha exclusiva responsabilidade,
Do Depanamento de Economia da PUC/Rio,
132 133
..,:--",~----- Gráfico 1
~ Grafico 2
<!
'"i:! O Brasil no contexto internacional: desigualdade nos
A evolução da desigualdade e da pobreza no Brasil desde os
~ anos 80 e 90 anos 60: um amálgama de séries temporais
"'~
"
""
{;
0.59U.588_ 0,6
~ _ Anos 90
0,64 -------------------------- 0,60
] Anos 80

.'g" 0,62 .. 0,55

0,387 0,3809-.!J,4045 0,3803-


0,4346
, ,.... •••••• Coeficiente de Gini
,,-
0,50
0,60

0,58 0,45 ~
..::
~
<!
,,
0,56 0,40
'"i:!
0,54 0,35
1~
Europa
Oriental
OCOE + Ásia
Meridional
Extremo
Oriente
Oriente
Médio
África
Subsaariana
América Latina
e Caribe
Brasil
° 0,52 0,30 {;
~:;
Notas: Os coeficientes de Gini (excetoo brasileiro) vêm de Deininger e Squire (1996). .:!>
As médias regionais são simples. incluem distribuições de renda e consumo, e a composição varia entre as décadas.
O Gini brasileiro dos anos 80 é a média simples de Ferreira e Litchfield (t 999), que excluem os anos de 1980 e 1982.
Notas. Os coeficientes de Gini (eixo esquerdo) são das seguintes fontes: 1960 /Fishlow (1972. Censo)[; 1970 /Langoni ~"
."
Para a década de 90, incluem-se os anos de 1990, 1992, 1994, 1995 e 1996, sendo o último procedente de Ferreira,
lanjouwe Neri (t 999) e os anteriores de Ferreira e Litchfield (t 999).
'973, Censo)[; 1976 /Bonelii e Sedlacek (1989)}; 1979182 /Hoffman (1989)}; e 1983-1995 /Ferreira e litchfield (1999)]. ~
::;
s md'ces de pobreza (eixo direito) são dessa última fonte.
.:;

em 1989, I A partir desse alto nível. a década de 90 foi caracterizada por uma
S
{i
distributivas. A dominância temporária da visão de que o trade-ojJ entre igualdade iS
queda na desigualdade, com uma redução idiossincrática em 1992, e uma mais
e eficiência (ou, em termos dinâmicos, crescimento) seria global baseava-se
permanente após a estabilização da economia com o Plano Real de 1994. Não
numa interpretação direta das teorias de taxação ótima que previam que o im-
obstante, o coeficiente de Gini para 1996 foi de 0,58: um nível semelhante ao do
posto sobre a renda proveniente do trabalho (capital) reduziria o incentivo dos
começo da década anterior e ainda muito elevado em termos internacionais
agentes para despender esforços no trabalho (a poupar), d.ada a redução no g",
(ver Gráfico 2).
nho marginal dessas atividades. Daí a recomendação, de forma alguma restrita
Mas, poder-se-ia perguntar, e daí? Por muito tempo não houve escassez de ao Brasil mas que aqui ganhou notoriedad.e com a exortação do então ministro
economistas que defendessem a tese de que a desigualdade de renda não é um Delfim Netto, de que se crescesse o bolo antes de dividi-lo. De acordo com essa
mal por si só, O grande mal. a maioria concorda, é a pobrez!l. E o melhor modo lógica, ser campeão de desigualdade não seria necessariamente ruim, desde que
de reduzi-la é por meio de altas taxas de crescimento econômico que, corria a i o levasse a altas taxas de crescimento agregado e, conseqüentemente, à redu-
versão por muito tempo dominante, poderiam sofrer em virtude de políticas re- ção da pobreza absoluta,2
Ainda que o debate acadêmico sobre a natureza da relação entre desigualda-
. ~I Uma comparação rigorosa entre medidas de desigualdade de t960 até os dias de hoje é impossí- de e crescimento esteja longe de ser resolvido, a opinião majoritária da profissão
vel. uma vez que os índices disponíveis para 1960 e 1970 derivam de subamostras aleatórias de cen- di lanciou-se, durante a última década, daquela que acreditava num trade-ojJ global
sos demográficos, enquanto que a partir de 1976 a maioria das medidas baseia-se na série de
PNADs. Além disso, uma comparação da magnitude do aumento durante os anos 60 e 70 depende
crucíalmente da escolha do índice de Gini original ou daquele modificado por Fishlow ( 1972), sen- 2 Considerando o vetor ordenado v como sendo a distribuição da variável renda domiciliar per capila,
do que o segundo tenta corrigír os dados para incluir rendas não-monetárias e aluguel imputado. pela Unidade indivíduo, recordem~s brevemente as distinções entre o bem-eslarsocial, dado por uma
Ferreira e Barros (1999) resumem algumas das interpretações da história recente da desigualdade fun.ção W de y, crescente na renda de pelo menos algum perceptor, e insensível a qualquer atributo
no país. Ainda que seja impossível conseguir unanimidade com relação aos detalhes, o que se sabe tndlvldual que não fora a renda: W(y), Wi(y) ~ O, '<!y, Wi(y) > O, :Jy; a desigualdade, que é insensível à
com confiança é que a desigualdade aumentou entre 1960 e 1976, e voltou a aumentar no final da escala da medida (e, portanto, à média da dístribuição) e que satisfaz o Axioma de Pigou-Dalton:
década de 80. As pequenas reduções durante o período de estabilidade macroeconômica pós-1994, /Lv), 1(.1') '= I(Ày). À~O e I(YI' ""Yi + I, ... ,y;-I, ... ) < iCvl, ""Yi' ""YI'''' )'Yi + I < Yj- I, I >0; e a pobreza,
ainda que bem-vindas, só conseguiram compensar os aumentos de t987/89, retornando a série aoS que obedece ao axioma de foco nas rendas abaixo da linha de pobreza, e que não diminui com o hia-
níveis do começo da década de 80. °
to da renda: P(z - y), P(.) > 0, P'(.) ~ quando z > y; e P(.) '= O quando z."y.
..,:--,,-. 134 135
~ entre desigualdade e eficiência. De fato, tanto os argumentos teóricos como a e .. 2 - O estado do debate ~
li dência empí~ica mais rec~nte passaram, em grande parte, a sugerir uma relaç~~
g causal ne~~tlva entr~ deslg~a!dade e crescimento econômico. O principal argu-
Num país cujo desenvolvimento econômico colonial baseou-se nos pilares
gêmeos de uma enorme concentração inicial da propriedade fundiária e da im- ::
j
~ mento teonco por tras da hlpotese de que a desigualdade reduz o crescimento'
! a consideração de que, com mercados imperfeitos de capital e sob assimetria~
i)ortação maciça de mão-de-obra escrava, não foram precisos censos, pesquisas 1
amostrais ou um grande número de índices matemáticos sofisticados para que E
~ de informação, a desigualdade e a pobreza implicariam a existência de um gru-
~ po de agentes sem acesso ao crédito e, portanto, sem possibilidade de desenvol-
a existência da desigualdade fosse notada e comentada. Fica fora do âmbito f
g v~r projetos cujo valor privado (e social) é positivo. A inexistência ou imperfei-
deste trabalho, porém, sequer ensaiar uma discussão da literatura sociológica -;
sobre diferenças, contrastes e desigualdades no país. Ao nos restringirmos so- ~
çao do mercado de crédito, violando os pressupostos dos teoremas de bem-estar
baseado~ no equilíbrio geral à Arrow-Debreu, transformava a desigualdade de mente a estudos econômicos da desigualdade, baseados em análises empíricas ~
oportum~ad~ em causa de ineficiência econômica. A série de modelos apresen- de bases de dados representativas da população nacional (ou de algum segmen- ~
10 bem definido dela), forçosamente ficamos também restritos ao período já ..;:;
tando vanaçoes deste argumento estilizado inclui Galor e Zeira (1993), BaneIjeee :a
Newman (1993), Aghion e Bolton (1997) e Piketty (1997). descrito, que começa com o censo populacional de 1960. E 'Cl

• O segundo argumento teórico que sugere a inexistência do trade-off global Desde então, começando com os trabalhos pioneiros de Fishlow (1972) e ~
~
entre igualdade e crescimento foi o reconhecimento generalizado (por meio da Langoni (1973), surgiu uma sólida literatura empírica, dedicada a analisar os e
chamada nova economia política) de que políticas econômicas não são formu- dados cada vez mais recentes e confiáveis, que eram produzidos pelo IBGE. Essa ~
ladas por um "ditador benevolente". Ao c.ontrário, elas são o resultado de um literatura inclui - mas não se restringe a - os trabalhos de Bonelli e Sedlacek ~
complexo processo político de tomada de decisões, que pode perder eficiência à (1989), Hoffman ( 1989), Ramos (1993), Barros e Mendonça (1996) e Ferreira e .~
Litchfield (1996 e 1999). Alguns desses trabalhos visavam somente estabelecer ~
medida que a sociedade se toma cada vez mais desigual [ver Persson e Tabellini ~
os f atos, descrevendo com o maior rigor possível as tendências da evolução da 51
( 1994) e Alesina e Rodrik (1994) l. A existência de conflitos sociais, seja dentro
distribuição de renda do país. Outros, a começar pelos dois trabalhos pioneiros, .~
do parlamento que deve decidir sobre como responder a uma crise externa, seja
ambicionavam também explicar tal evolução, identificando os fenômenos ou E
em forma de um aumento da violência contra pessoas e propriedade, pode ter
estruturas econômicas que causariam os níveis e as mudanças na desigualdade ~
custos econômicos elevados e reduzir a eficiência da alocação global de recursos
brasileira. iS
dentro de uma economia [ver Bénabou ( 1996) e Rodrik ( 1997) l. Essas conside-
rações, brevemente mencionadas, são parte de uma literatura crescente e de Em termos genéricos, as causas de uma distribuição desigual de renda de-
grande importância, que é discutida em maior detalhe em Bertolla (porvindouro). vem pertencer a pelo menos cinco grupos, conceitualmente distintos de fatores.
AirIda que o debate teórico e a apresentação de evidências e contra-evidências em- O primeiro é a existência de diferenças entre indivíduos no que diz respeito às
suas características natas, como raça, gênero, inteligência e/ou riqueza ini~ial.
píricas continuem em andamento, já existe quase um consenso entre os econo-
Algumas dessas caraterísticas - como a riqueza inicial- são observáveis, pelo
mistas, brasileiros e estrangeiros, de que o efeito líquido do alto nível da desi-
menos a princípio. O segundo é a existência de diferenças entre indivíduos no
gualdade brasileira para o desenvolvimento do país é negativo.
que diz respeito a características individuais adquiridas, como nível educacio-
Deve-se ressaltar que a desigualdade não é uma mera curiosidade acadê- nal, experiência profissional etc.
mic~,.?en: um indicado.r puramente "social", sem maiores conseqüências par~
O terceiro grupo diz respeito aos mecanismos pelos quais o mercado de tra-
a efIClenClada economia, seu crescimento e a taxa de redução da pobreza. E
balho, principal canal de transformação das características individuais em ren-
. ~bem verdade que, para qualquer função de bem-estar côncava em renda, a desi-
da, age sobre os dois grupos citados de características, transformando-as em di-
gualdade de renda é um mal em si mesma, independentemente de seus efeitos
ferenças no rendimento do trabalho. Esse grupo, por sua vez, se divide em três
sobre a eficiência da economia. Mas o ponto central do argumento é que, mes-
canais também conceitualmente distintos: por discriminação, entende-se a dife-
mo que se desejasse adotar no Brasil uma função de bem-estar social linear, na
rença de remuneração entre dois postos de trabalho idênticos, ocupados por
qual se desse valor somente ao PIB total, ignorando-se toda e qualquer caracte-
trabalhadores com produtividades idênticas, com base em alguma característi-
rística de sua distribuição, ainda assim é muito provável que nossa alta taxa de
caobservável do trabalhador, cujo efeito sobre a produtividade daquela combi-
desigualdade fosse motivo de preocupação, dados os seus efeitos negativos so-
nação de posto e trabalhador seja nula. Entre as características observáveis que
bre a eficiência estática e dinâmica da economia como um todo. Assim sendo,
podem gerar tal discriminação, sobressaem-se a raça e o gênero do trabalhador.
adquire grande importância a questão de que trata este capítulo: Quais as cau-
sas centrais, os principais determinantes da desigualdade de renda no Brasil?
136 137
Por segmentação, entende-se a diferença de remuneração entre dois postos G:;rr~af!:ic~0~3 _
'"~ de trabalho distintos, ocupados por trabalhadores idênticos, com base em ca-
to
g racterísticas do posto de trabalho, apesar de as produtividades daquelas combi- Esquema da geração de uma distribuição de renda
~ nações de posto e trabalhador serem idênticas. Assim, por exemplo, diz-se ha-
"'"
~ ver segmentação regional quando dois postos, outrossim iguais, ocupados por
~ trabalhadores iguais, geram remunerações distintas em diferentes regiões geo-
~ gráficas do país e, analogamente, para segmentação setorial, ou entre segmen- J (w, x. E)
.~
2l tos formais e informais do mercado de trabalho.
Projeção, o terceiro canal de transmissão
do mercado de trabalho, seria a ge-
'" Mercados e instituições de educação

ração de retorno às características observadas do trabalhador, dado o posto de ~


trabalho. Assim, o perfil salarial da educação projeta anos de escolaridade (de H (Ed. X, E)

qualidade média) no espaço renda. O perfil salarial da experiência projeta anos


de experiência profissional (de qualidade média) no espaço renda. A projeção
"'-- Mercado de trabalho (alocação e remuneração)

• completa é, naturalmente, multidimensional, relacionando renda a todas as ca-


~
racterísticas observáveis do trabalhador, de forma a gerar seu salário real. Cada G(x), onde x = x {(m (H, P)J
um dos perfis unidimensionais deve então ser entendido como um mapa da de-
rivada parcial da característica em questão. '" Formação do domicílio

O quarto grupo de fatores refere-se ao segundo grande grupo de mercados


de fatores de produção, os mercados de capital. Na medida em que estes merca-
~
F(y), onde y = y [C(x)J
dos sejam imperfeitos, apresentando, por exemplo, segmentação no acesso ao ~
ou no preço do crédito, ou de apólices de seguros, e dado que seguros e crédito .~

podem determinar a inserção do indivíduo em diferentes ocupações produti- ~


vas, ocorre que as imperfeições desses me~cados também afetam a geração de observáveis; w é a riqueza inicial. Dotado de seus valores ~spe.cíf~c~s de X, w ~ E, i5
renda e, portanto, sua distribuição. cada indivíduo passa então a interagir com os mercados e lI1stlt ulçoes educa~I~-
nais. A natureza dessa interação é em parte determinada l~or ~ua.s ~aractenstl-
O quinto grupo de fatores é basicamente demográfico, incluindo decisões
cas natas, e em parte pela natureza dIaque es n 1ercados e lI1st!tUlçoes. Resulta
, .
de formação de domicílio (matching), de fertilidade, de coabitação ou separação desse funcional uma nova distribuição multivariada, agora de caractens~lcas
domiciliar. A importância desses fatores para a determinação da renda familiar
natas e adquiridas. Para simplificar, aqui a d~l?otamos H (Ed, X, E). sugenndo
per capita é conceitualmente óbvia: considerem-se, por exemplo, duas socieda-
que a educação é a única característica adqumda.J
des com distribuições de renda por perceptor idênticas, sendo porém que, na
.
Uma vez completa essa pnmelra . fase d.e sua s vidas (que Barros e Mendon-
primeira, casais tendem a formar-se entre pessoas ricas e pobres, enquanto que,
na segunda, o homem mais rico tende a "casar-se" com a mulher mais rica, e assim ça chamam de "preparação para a corrida"), as pessoas passam por um novo
por diante (assortative matching). As.distribuições de renda familiar per capita se- funcional. desta feita representan d.o a mterme d'la ção <
do mercado __de trabalho.
rão claramente distintas, com a segunda sociedade apresentando, caeteris paribus, tamo em sua função de alocação (matching) como na de remuner~ça.o. A !unçao
de remuneração baseia-se . - fatores eis
nos tres j' ctlt'ldos antes' " discnmll1açao,
. seg-
.
um maior nível de desigualdade. Empiricamente, a importância dos fatores de-
. - To d os e I.es. malJeiam
memação e, principalmente, proJeçao. _ ., caractenstlcas .da dls-
~ mográficos para a distribuição de renda brasileira é amplamente confirmada
[ver, por exemplo, Lam e Duryea (1995), e Ferreira e Barros (1999)). tribuição H para a distribuição G(x), uma distribUlçao ul1lvanada de renci!mento
do trabalho por perceptor. _ _
O Gráfico 3 tenta estilizar, de forma meramente esquemática, a interação
desses cinco grupos de fatores no processo de geração de uma distribuição de Finalmente os indivíduos não vivem sós. De forma geral. eles tem a opçao
renda. Assim como a discussão anterior, os conceitos por trás do gráfico devem de formar "clubes, de consumo", chamados domicílios, que POSSI 'b'!'I ltam o,.des -
frute de varias
' . I
eCOnOIl1laSde esca a em consum o (além de outros benefiCios.
muito ao arcabouço conceitual de Barros e Mendonça ( 1996). Considere J uma
distribuição multivariada das características natas dos indivíduos (o primeiro
grupo de fatores); X denota o vetor das características observáveis, e E as não- -3 Ed poderia. alternativamente. ser .mterpreta( J o C0l110 un 1.vetor de ....
características adquiridas. in-
cluindo experiência em várias atividades. nível de autoconfiança. habllos ete.
138 139
------
•..
":-.-.~'~
cuja importância mesmo os economistas reconhecem ... ). Esse processo de for- . - de que a piora da desigualdade durante os anos 60 tinha causas ~
1:;
~ssa visa? mo g01 e de estado de 1964, e que essas causas opera- .~
mação de domicílio, que envolve a escolha de parceiros, a decisão do número de
E'
'Xl
~ filhos e decisões sobre coabitação (por exemplo, com avós, ou a decisão da filha polílicas rel~cldonadas co do p~der de barganha dos trabalhadores (vis-à-vis os
por melO a repressao
o

. r "B
ª
~ sobre com que idade deixar o domicílio materno), é representado pelo último vam t do capital) e de mecanismos inflacionários que Imp Icavam per- ~
!funcional, que leva da distribuição univariada de rendimentos por perceptor repres~n~a~ ~sesproporcionais teve forte repercussão no debate. Considere-se, ~
~ G(x) à distribuição univariada de renda familiar per capita F(y). das sa analisO o que diriam oit~ anos mais tarde Edmar Bacha e Lance Taylor: ~
:ll por exemp , ~
.~ Os quatro funcionais estilizados no Gráfico 3 são os seguintes: Ed (w,X, e): "To put the issue bluntly, why should workers - rather Iha~ the mi~dl~ ~
~ ondem éa dimensão de] en é a dimensão deH; m (H,P): RI!+P~RI!+p,
RI1l~RI!, 1 or the rich themselves - have to pay through laggmg nomma 'J
onde p é o número de características do posto de trabalho e m é a função de alo- ~~~see:for the investment of the rich or of the Slate?" (Bacha e Taylor ~
cação (matchingjunction), que aloca combinações de elementos de H a combina- (1980,p.327)]. ~
ções de elementos de P, criando postos ocupados de trabalho (matches), cada Por outro Ia d o, num es tudo de excepcional qualidade
.. acadêmica, ainda
. o
.2!
._

um descrito pelas suas n + p características; x(m): RI! +1' ~R é a função de remu- raço tecnocrático do regime militar, Carlos Langom nao E!
queencomen dado pelo b .. . fl . ,. S 'Xl
neração, que mapeia a remuneração de cada posto ocupado de trabalho, com encontrava grande poder explicativo em conjuntur~s salanals ou 10 aClonana. ~
base em suas n + p características; C(x): R ~ R, por fim, mapeia a renda de cada Buscando entender tanto os elevados níveis da deSigualdade como as caus~s ~e 1
perceptor para a renda familiar per capita de cada indivíduo, por meio das deci- seu crescimento durante os anos 60, ele apontava para o papel da educaçao. ~
sões de formação de domicílio.
"A importância da educação ficou evidente, nã? só para as d i f erenç~s ~~
Ainda que arriscando simplificar excessivamente, creio ser útil estilizar a observadas de renda em cada ano, mas tambem para o, ~umento _e ,""
desi ualdade durante o período. Os coeficientes desta vanavel (.) sa.o {i
fase inicial da literatura sobre a desigualdade no Brasil- e em particular o cha-
os d~ maior magnitude e de mai~r significância entre todas as vanavels ~
mado debate Fishlow-Langoni -, apresentando-o essencialmente como um incluídas na regressão" (Langom (1973, p. 208) I. 1;
debate entre aqueles que encontravam no papel da educação (tanto a sua distri-
A diferença não é só de tom. Enquanto Langoni vê na d.istribuição da ed~; '~
buição quanto a natureza dos retornos a ela) o principal determinante da distri-
cação e na estrutura de seus retornos, a principal causa da deSigualdade no BrlaSI, ~
buição de renda brasileira por um lado e, por outro, aqueles que o encontravam ,
Fishlowe principalmente seus segUI'd ores a procurava m numa espécie de" uta ô
no funcionamento do mercado de trabalho. Mais especificamente, enquanto
de classes:' cuja principal ;rena era o mercado de trabalho. N.es~e mercado, ~~ re-
Langoni e seus seguidores focalizavam prioritariamente o funcional Ed (w, X, e), tornos à educação ou à experiência estariam sendo compnmldos ??r polIucas
e a derivada dX / dEd, Fishlow e, principalmente, seus seguidores consideravam
que enfraqueciam o poder d e b argan h a d o S trabalhadores , e permitia que seus _
da maior importância o papel de políticas públicas repressivas sobre as duas ganhos reais fossem corrOldos , pe I'
alO fl açao
- que, desde meados dos anos 60, nao
funções do mercado de trabalho, que influenciavam a natureza mesma dos pos-
parava de crescer.
tos de trabalho P, no que dizia respeito ao poder de barganha do trabalhador, às
É claro que, em se tratando de dois pesquisadores responsáveis, su~s pos-
suas liberdades de assembléia e organização etc. E consideravam que essas mudan-
turas nunca foram, de fato, tao comp Ietamen te opostas quanto.' gostanam al-
o

.
ças tinham um efeito importante tanto sobrem (H, P) quanto sobrex (m(H, P)). . hl ow, por e x,emplo examma uma
guns seguidores de ambos os la d os. FIS . , classlCa
Para averiguar a importância dessas duas visões, que nunca foram mutua- decomposição estaUca , . do 10'd' Ice T d e Th'lel e conclui
,. ' como
. conclUlnamos pos-
mente exclusivas, mas cujos qefensores, no calor de discussões repletas de im- teriormente todos os que repetimos esse exerClClo, que.
plicações políticas e no bojo de uma ditadura militar, muitas vezes assim as
~ apresentavam, basta lembrar trechos dos textos de Fishlow e Langoni. Em "In the first instance, age, sectoral, regional, and educational di~f~rences
succeed in ex laining something more than half the o~ser:'e . mcome
1972, Fishlow escrevia:
inequality. Ttfese var~ables define the mos! important dlscnmmants of
productivity (... )" (FIshlow (1972, p. 396)1.
"The increased inequality thus measures the failure of the conventional
monetary and fiscal instruments applied during the Castello BrancO E dentre elas eram justamente as diferenças educacionais as que tinham
administration. In a larger sense, however, the result was accurately maior poder explicativo. .
indicatiye of priorities: destruction of the urban proletariat as a political
threar, and reestablishment of an economic order geared to private Não obstante algemados pela polarização ideológica que as ditaduras cos-
capital accumulation" (Fishlow ( 1972, p. 400)]. tumam engendrar, , mUltas. demoraram quase d u.as décadas a reconhecer' os
POntos comuns às análises pioneiras de Fishlow e Langom. Durante esse penodo,
140 141
acumulou-se evidência da importância da distribuição da educação, e da estru- os anos e para qualquer medida.5 A raça do chefe de família também parece dar r:..-. --~-

1 tura dos seus retornos, como determinante principal da desigualdade da renda conta de uns 10% da desigualdade. Mais uma vez, o fator que de longe parece .~
~ familiar per capita brasileira. Decomposições estáticas, como aquela levada a ter maior importância para explicar a desigualdade é o nível de escolaridade do ª
i cabo por Ferreira e Litchfield (1999) e incluída a seguir como Tabela I, reitera- chefe de família. Essa importância parece, ademais, ser robusta com relação à ~
~ vam o resultado básico encontrado por Fishlow. medida de desigualdade utilizada, bem como ao ano estudado ~ não só na dé- ~
~ Assim como Fishlow, Ferreira e Litchfield decompuseram a desigualdade cada de 80, mas já na década de 60 se levam em conta os resultados de Fishlow. t
.~ de renda familiar percapita, entre uma parcela atribuível a diferenças entre gru- A mesma preponderância da educação em decomposições de índices de desi- ":;
.:::

25 pos e a outra devida à heterogeneidade residual dentro de cada grupo. O que gualdade desse tipo foi também encontrada por Bonelli e Ramos ( 1993), que es- '5

muda de linha para linha é a definição dos grupos: faixas etárias dos chefes de tudaram a distribuição de renda do trabalho en tre seus perceptores, no período g
~
família na primeira, escolaridade na segunda, região do domicílio na terceira, e 1977/89. "'=
assim por diante. Cada célula da Tabela I se reporta à proporção da desigualda- Cabe porém observar que as decomposições de Theil sofrem de uma proprie- ~
de total que é responsabilidade da desigualdade entre os grupos definidos na- dade às vezes indesejável: cada UlllJ delas deve ser interpretada (01110 ulna de- :-::
E
quela linha. As colunas são para três anos durante a década de 80, e para três composição total, e não como um resultado parcial. Ou seja, nenhuma das de- . g
medidas diferentes de desigualdade em cada ano.4 composições controla pelo efeito das características em que se baseiam as demais. ~
Ao contrário de Fishlow, que definiu seus grupos entre perceptores de ren- O poder explicativo da decomposição por raça, por exemplo, é o poder daquela E
~
da, Ferreira e Litchfield os definiram entre chefes de família. Isso explica por variável isolada, sem levar em con ta qualquer possível (ou provável) correlação ~
que a idade aparece entre os determinantes no estudo mais antigo, mas parece entre ela e as outras variáveis, C0l110 por exen1plo a educação. Nesse sentido, as ::g
~
irrelevante no mais recente. Exceto por essa diferença, os resultados são quali- "proporções explicadas" RB são análogas às derivadas totais (ou aos coeficientes .:;)
~
tativamente semelhantes, apesar de se referirem a períodos e bases de dados estimados em regressões simples), e não às derivadas parciais (ou aos coeficien- --"
bastante distintos: diferenças entre regiões e entre áreas urbanas e rurais pare- tes estimados em regressões múltiplas). Do ponto de vista de uma análise cau- ~
cem ser responsáveis por uma parcela não-desprezível da desigualdade em todos ai, essa característica é indesejável, já que se pretende estimar o efeito de cada .~
característica, uma vez levadas em conta todas as outras características relevantes. ~
Tabela 1 ~
A fim de superar essa deficiência, Barros e Mendonça ( 1996) construíram a
uma decomposição parcial aproximada, com base em simulações que tentam
Resultados de uma decomposição estática de três medidas de
eliminar o fator em questão para cada indivíduo, mantendo todas as outras ca-
desigualdade
racterísticas (observadas) constantes. Ainda que os autores recomendem ex-
1981 R. 1985 R. 1990 R.
trema cautela na interpretação dos resultados, que meramente indicam ordens
£(0) £(1) £(2) £(0) £(1) £(2) £(0) £(1) £(2)
de magnitude, a técnica utilizada neste exercício representa um avanço no sen-
tido de identificar os principais determinantes da desigualdade, controlando
Idade 0.01 0.01 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 pelos efeitos de outras variáveis. Os resultados de Barros e Mendonça ( 1996) fo-
Educação 0.37 0.42 0.30 0.39 0.42 0.26 0.37 0.40 0.21 ram reproduzidos na Tabela 2.
Região 0.12 0.10 0.04 0.10
O exercício deixa claro, por exemplo, que uma divisão da sociedade entre
0.08 0.03 0.10 0.08 0.03
grupos com níveis distintos de escolaridade continua a responder por entre um
Urbano/rural 0.17 0.13 0.05 0.14 0.11 0.04 0.10 0.11 0.03 terço e metade da desigualdade total, mesmo levando em conta o efeito de essas
. Gênero 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 pessoas terem raças e/ou gêneros diferentes, e trabalharem em setores e regiões
distintas, com níveis de experiência particulares. Essa parcela continua a ser a
Raça 0.13 0.11 0.04 maior atribuível a qualquer característica observável, como nas decomposições
Todos (excluindo raça) 0.51 0.52 0.36 0.51 0.50 0.30 0.50 0.49 0.25 anteriores, confirmando a proeminência da educação como determinante da ren-
da familiar per capita do brasileiro.
Todos (incluindo raça) 0.52 0.51 0.26
Fonte: Ferreira e Litchfield (1999). R. '" I. (P)/1. Cada decomposição é independente e não controlada pelos outros fatores.

4 Toda~ as três s.ão ~lJembros da Cl~sse de Medidas de Entropia Generalizada: E(a). E(O) é o índice 5 Ainda que o poder explicativo dessa decomposição para o E(2) -uma medida mais sensível a
L de TheIl; E( I) e o II1dlce T de TheIl; e E(2) é metade do quadrado do coeficiel1le de variação. rl'ndas muito altas - seja sempre bastante inferior ao das duas outras medidas.
142 143
Tabela 2 ais uma vez, os resultado anteriores eram inflados pelo fato de que, na média, '"
=t:;
;::
o negro tem menos an~s de e scolariddadeddo qubelohbrdancoouduma pes.s.oa ~e ori- ~....
~
~ Uma decomposição parcial estimada da desigualdade de renda oem asiática.6 A projeçao pe ol merca, o e tra a o e anos e expenenCla pro- '3
'" no Brasil (EM %)
í:'! fissional também tem um efeito sobre as diferenças inter-familiares de renda, ~
.. FATOR
1
~
CONTRIBUIÇÃO PARA A DESIGUALDADE TOTAL
mas, a um nível estimado de 5%, esse efeito é substancialmcnte menos impor- ~
tante do que o efeito educacional. ~
~'" Segmentação setorial 5 a 15
:!l
.~
Esse e vários outros trabalhos desenvolvidos por Ricardo Paes de Barros e j
~ Segmentação formal (cc) e informal (se) 7 C olaboradores durante a década de 90 conseguiram remover, ao menos no meio ê;;;;
Segmentação regional acadêmico, a aura de incorreção política que ficara, por algum tempo, associada ~
2a5
ao argumento de que é, de fato, na distribuição da educação e na determinação ~
Discriminação por gênero 5 dos seus retornos econômicos que reside a causa-chave da desigualdade brasi- ~
Discriminação por raça 2 leira, como inicialmente defendia Carlos Langoni. Com a experiência do fim dos ]
anos 80, durante os quais um governo civil e democraticamente eleito conviveu ~
~ojeção da experiência 5 com a maior taxa de desigualdade jamais mensurada no BrasiL diminuiu tam- -i1
Projeção da educação 30 a 50 bém a convicção de que o aumento da desigualdade medida nos anos 60 e 70 era
~
e
Fonte: Barros e Mendonça (1996). resultado principalmente de uma política sindical repressiva da ditadura mili- -$::

tar. O governo militar assim como seus sucessores civis terão, certamente, uma i
Não obstante, também se confirma o fato de que nem toda desigualdade se parcela importante da responsabilidade pela persistência - e aumento - da t
deve a diferenças em escolaridade ou experiência. O mercado de trabalho brasi- desigualdade brasileira. Mas ela parece ter mais a ver com as políticas educacio- -i1
leiro é segmentado, principalmente, por setores produtivos e entre segmentos nais de anlbos os reginles, e eOOl a tolerância que anlbos dispensanl à segnlenta- ~
ção do mercado de trabalho entre formal e informal, industrial e não-industriaL .~
formais e informais. Assim, dois trabalhadores idênticos em suas característi-
cas pessoais, mas um trabalhando num emprego formal e industrial e o outro do que com a repressão do proletariado a que se referia Fishlow na citação feita i
num posto de trabalho informal na agricultura (ou no setor de serviços), terão IFi hlow ( 1972, p. 400) j.7 Ô

remunerações bastante distintas. Neste exemplo, o primeiro trabalhador ga- Isso quer dizer, então, que os determinantes políticos - a "luta de classes",
nhará mais do que o outro, em função tão-somente das características do posto por assim dizer - da desigualdade brasileira não passavam de criações da ima-
de trabalho ocupado. A segmentação regional também responde por sua parce- ginação de variados autores? Que os contrastes entre a pobrcza rural do sertão
la da desigualdade mas, comparada com aquelas que lhe correspondiam nas nordestino e a afluência acintosa do centésimo centésimo da distribuição de
decomposições não-parciais, sua importância é bastante menor. Isso se deve ao rcnda urbana do Brasil se devem puramente a aspectos técnicos da evolução do
fato de que outros atributos, como o nível médio da educação, e a composição estoque e da distribuição de educação no país? Que uma nação que nasceu de
setorial da atividade produtiva variam substancialmente de uma região para enhores e escravos, de casa-grande e senzala, e ainda hoje é a Belíndia de
outra. Assim, ainda que esses resultados confirmem a existência de uma seg- Edmar Bacha, tem sua desigualdade explicada sem qualquer recurso ao uso do
mentação contra o posto de trabalho nordestino (comparado com o do Sudeste, poder político por suas classes dominantes?
por exemplo), sua magnitude fica bem abaixo daquela indicada, por exemplo, Tal conclusão implicaria imaginar que o acesso, a qualidade e os incentivos
na decomposição da Tabela I, uma vez que parte do que aquela decomposição a educação não têm determinantes políticos, o que é claramente contrário à vi-
. ,capturava é um menor nível educacional médio no Nordeste, bem como uma ão de muitos de nossos sociólogos e cientistas políticos. Talvez tenha chegado o
menor proporção da força de trabalho ocupada nos setores de maior remunera-
ção, como por exemplo o industrial formal. Issosugere três hipóteses: ou o negro é inerentemente menos propenso a se educar, por diferen-
Ias.em habilidade nata ou em suas preferências; ou ele também é discriminado num momento an-
Além de segmentado, o mercado de trabalho brasileiro também apresenta en~r ao do mercado de trabalho, como por exemplo no acesso às instituições de educação; ou
evidência de discriminação contra a mulher e o negro (e/ou "pardo", no lingua- am a, ser negro é correlacionado a alguma outra característica - como, por exemplo, riqueza inicial
jar dos questionários oficiais). Não obstante, a parcela da desigualdade de ren- - ~ue diminui sua facilidade de acesso à educação e/ou incentivos para dele usufruir. A próxima
ao desenvolve um modelo formal que exemplifica como esta terceira hipótese pode funcionar.
da atribuível diretamente a essas práticas, por mais perniciosas que sejam, é re-
d Curiosamente, o "proletariado" propriamente dito, por ele entendida basicamente como a força
lativamente pequena, quando comparada àquelas apontadas pelas decomposi- etrabalho do setor industrial formal, parece ser um beneficiário, em vez de uma vítima dessa seg-
meOtação.
ções não-parciais anteriores, principalmente no caso da discriminação racial.
144 145
momento de redirecionar as lentes dos economistas que estudam a desigualda_ ----~ -,
Gráfico 4
:-::::

E de no Brasil do segundo para o primeiro oval do Gráfico 3: do mercado de traba- '.~"


'"g lho para os mercados e instituições educacionais. Anos de estudo do mercado ~
~
..::. de trabalho levam exatamente a essa conclusão: se é a educação que explica
~o
(Estudo/trabalho) (Trabalho) t2 I 11
~
~ tanto da nossa distribuição de renda, o que será que explica nosso processo de ~
Termina a escola Recebe ltS E
~ produção de educação e acumulação de capital humano? O restante deste capí- Recebe b" = w,
Recebe (1-cr)u Consome
EscolhepE {D, p*} ~
~ lula sugere, por internlédio de UJll nlodelo fOrIllal sinlplificado, UI11a hipótese a Reproduz-se ;;;

f Escolhe cr ..:::
Deixa herança i5
respeito do mecanismo básico pelo qual a desigualdade de renda no Brasil per- Vota em t e paga impostos
Morre ~
::::
manece tão elevada. A hipótese é que o país encontra-se num equilíbrio Pareto-
~
inferior de um sistema dinâmico em que três distribuições são determinadas si- {i
Jg
multaneamente: a) a distribuição de educação; b) a distribuição de riqueza; ec)
Estes agentes maximizam uma função de utilidade baseada n~ formulação ~
a distribuição de poder político. O equilíbrio inferior no qual estaríamos é carac-
de heranças motivadas por seu próprio valor psicológico para o paI: "the warm ~
terizado por um círculo vicioso, em que uma grande heterogeneidade educacio-
glow bequest motive" [ver Andreoni (1989)]: ~
rTal gera uma grande desigualdade de riqueza, que se transforma em grandes
diferenças de poder político, que por sua vez geram uma política educacional
( 1) {i
"
~
que perpetua a desigualdade educacional inicial. {i
~
Propõe-se, portanto, um modelo político-econômico da distribuição da ri- ~
onde, como explicitado no Gráfico 4, tanto o consumo (c) quant? a escolha do .~
queza, no qual seu principal determinante é a natureza do sistema educacional. {i
valor da herança (b) ocorrem em 12, no final da vida de cada geraçao. Con~u~o e ~
e a existência de um equilíbrio de baixa eficiência e alta desigualdade é resulta-
herança são de um único bem de consumo, que serve como bem n~n:erano no ~
do de lima luta de classes, como previam alguns dos seguidores de Fishlow, Sa-
modelo. Esse bem é produzido por trabalhadores quaiIfl~ados e .~
cha e Taylor. Mas uma luta de classes que não se dá nos pátios das montadoras
não-qualificados, cujas produtividades e salários diferem. M~S cada umdade do "
de automóveis do ABC paulista, como muitos pensavam, e sim no desenho de
bem a ser produzido é idêntica a todas as outras, armazenavel a custo zero, e C3
!
nosso sistema educacional, nas diferenças entre a prioridade do financiamento
tem taxa de depreciação nula.
da educação pública primária e secundária e a de outros itens do orçamento es-
No primeiro período, os agentes dividem o seu tempo entre som~nte duas
tataL e, por conseguinte, na diferença entre o que se aprende nas melhores es-
atividades: estudo e trabalho não-qualificado. Esse último é caractenzado por
colas particul?res das grandes metrópoles do Sudeste e nas escolas públicas de
uma produtividade determinística u, que é também o valor do salário que ele
suas periferias, ou da caatinga do PiauÍ, ou nas margens dos igarapés amazo-
nenses. paga. No momento lo cada agente escolhe O" (O < O" < 1): a proporção do primeiro
período dedicado ao estudo, que pode ocorrer por meio de uma de d~as t~cnolo-
gias educacionais, mutuamente exclusivas entre si. Essas tecnologIas tem pre-
3 - A "Iuta de classes" no financiamento da educação ços e produtividades distintos, mas produzem o mesmo bem: capital humano S,
pública: um modelo simples com desigualdade um atributo eliminável e não-transferível de cada estudante. O preço para estudar
persistenteS
na função de produção educacional I, que associaremos à escola particular, é!1 =
Imagine-se um contínuo de agentes cujos níveis de riqueza inicial, denota- 1*> O. O preço para estudar na função de produção educaciona~ 2: q~e assoCIare-
. dos por w, têm uma distribuição G(w) sobre O(z). Pense nesses agentes C0l110 mos à escola pública, é P2 = O. A escolha do tipo da escola, que e dlstmta da esco-
domicílios, supostos idênticos ex-anle em todos os sentidos, exceto em sua ri- lha de alocação de tempo ao estudo, é denotada no Gráfico 4 como a escolha de
queza inicial. O tamanho de cada domicílio é normalizado em um, e a oferta de p. Ao fazer essa escolha, todos os agentes estão cientes de que:
trabalho é suposta inelástica. Presuma-se, além disso, que a natureza dos proje-
tos produtivos disponíveis é tal que os domicílios não podem trabalhar juntoS S=qO"I/2 se p=p* e (2a)
em nenhum projeto. As.gerações são sucessivas, não embricadas. Os agentes vi-
vem por dois períodos, de acordo com a seqüência linear dada pelo Gráfico 4.
(2b)

8 Essa seção é baseada em Ferreira (1999).


146 147

l
o parâmetro
de produtividade educacional. q > 0, transforma o insumo
"tempo gasto em estudo", a, no produto "capital humano", S. Suponha-se que
~ q2 _ q2L>41t-2up * (pressuposto I ), onde 1t será definido imediatamente abaixo
v(w) pode variar, desde que satisfaça: v'(w):2:0 e !
z
v(w)dG(w)=l. Dois exemplos 1
-l e L é o gasto público total em educação.
de funções de poder eleitoral que satisfazem
pretações empíricas plausíveis são:
as propriedades acima e têm inter- 1l
1
{; No segundo período, os agentes dedicam todo o seu tempo ao trabalho 5
a) v(w) = I ~ democracia perfeita g>

t
~ qualificado. Suponha-se que a produtividade (e o salário) de cada trabalhador
qualificado é uma função linear do nível de capital humano de que ele dispõe:
1tS.9 Como os agentes pagam impostos sobre a herança que recebem no momen-
w
b) v(w)=-- ~ oligarquia,
~M
ou "dinheiro é poder"
~
~
i;
~
i:l

to lo, a riqueza final disponível para consumo e herança futura no momento I, é ~


{;
dada por: - 3.1 - O equilíbrio estático ~
..:::

Há três variáveis de controle nesse modelo: c (ou b), p e a. No momento lo, ~;:;
y(w, I,p) = (l-I)w -p(w)+[I-a(w) ]u+1tS(I, p) (3) os agentes escolhem p e a. Por meio do processo eleitoral. o eleitor crítico escolhe ~::::
1*, que é então tomado como dado pelos demais agentes. A divisão da riqueza fi- {j
Suponha-se que os mercados de crédito são completamente inexistentes
nal de cada um entre consumo e herança é decidida no momento 12, e é indepen- ~
nessa economia, devido aos problemas insolúveis no cumprimento (enJorcemenl)
dente das demais decisões.11 "
de contratos. ~
Tratemos agora do sistema político. Impostos e transferências lump-sul11
°
Lema 1: Dado o pressuposto 1, p = para qualquer agente com riqueza w < !:;
.~
p*( 1-1*)-1, ep = p* para qualquer agente com riqueza w:2:p*( 1_1*)-1.12 Quer di- -!il
são administrativamente impraticáveis, e a constituição exige que a arrecada-
zer. o diferencial de qualidade (ou produtividade) entre as escolas particulares e {j
~
ção de impostos se dê apenas por intermédio de impostos proporcionais sobre a
riqueza inicial de cada geração. 10 O gasto público financiado por essa arrecada- públicas é tão grande que qualquer agente capaz de pagar o custo de uma edu- .:: ê
ção deve ser exclusivamente direcionado à educação pública, por meio de L. A
cação particular escolhe fazê- lo. Como não há mercados de crédito, somente 6
aqueles indivíduos cuja riqueza inicial líquida é igualou maior do que o preço ~
constituição requer ainda que o orçamento seja equilibrado a cada geração, de
z (fixo e exógeno) da matrícula na escola particular se qualificam. C3
f
forma que L=I* wdG(w). A alíquota única 1* é escolhida pelo eleitor crítico, de Portanto, o Lema I divide cada geração entre aqueles que freqüentarão es-
o colas particulares e aqueles que freqüentarão escolas públicas, com base em
acordo com a equação (4): eus níveis de riqueza inicial. Logo, conhecendo as funções de produção educa-
cionais (2a) e (2b), bem como os parâmetros u e 1t, cada indivíduo escolhe a sua.
1* =Arg max[ (l- I)w c - p(w c )+[I-a(w c) ]u+1tS(I, p)] (4) alocação ótima de tempo no primeiro período.
t
P ara aqueles com w < p * (I - I * )-1, o problema é max {(l-I) w + [l-a] u+
onde o nível de riqueza do eleitor crítico é dado por w, e o eleitor crítico é aquele cr
que satisfaz: + rrqcr1/2Ll/2}, obtido pela substituição de (2b) em (3). A condição de primeira

w,
ordem implica:
f v(w)dG(w)=O,5 (5)
o * _[1t L / q 1 2]2
ao- --- (6)
2u
onde v(w) é a função de poder eleitoral. que se supõe depender (fracamente)
positivamente do nível de riqueza inicial do indivíduo. A forma funcional de
1I Ainda qu e. (I) esteja. escnta
irnp!, . em termos de consumo e herança. a forma funCIonal
. Cobb-Douglas
qual Ica.que a.r~queza final é sempre dividida na mesma proporção entre os dois usos. Assim. toda e
9 o capital humano S é a única forma de capital nessa economia. ndquer deClsao anterior pode ser reinterpretada como se visasse à maximização da riqueza finaL
lO. Este imposto sobre riqueza inicial pode ser interpretado como um imposto sobre heranças a poso I) o POrtanto independente da alocação dessa entre consumo e herança.
tenon. - Para um a prova desse lema. ver Ferreira ( 1999).

f
148 149
•..-,,:_-
~--' ---- continuidade no nível de riqueza inicial que permite ao agente educar-se numa ".
De forma análoga, para aqueles com w ~ p * (1 - t * )-1, o problema é
~ ]
escola particu Iar. .ê
~ max{(l-t)w-p* + [1-cr]U+1tqO.l/2}, que se obtém pela substituição de (2a) em
i1 a- Por fim, vale a pena comparar algumas propriedades das decisões de aloca- ~
iO
1; (3). A condição de primeira ordem implica: ção àe tempo entre os dois grupos de agentes, a partir das equações (6) e (7). -i'j
~ ~
é1cr* é1cr* dA. . d .~
" Para ambos os grupos, -- < Oe -- > O,como era e se esperar. pnmelra e- "
-i'j
~
] (7)
~ ~ r
.~ sigualdade significa que o esforço despendido na acumulação de capital huma-
~ "~
""
~ no diminui com o custo de oportunidade desse último: a remuneração do traba- ~
i:l
lho não-qualificado. A segunda desigualdade mostra que o esforço despendido .g
Uma vez que t* tenha sido determinada (em to), pelo processo político des- (ou tempo gasto) com a acumulação de capital humano aumenta com o seu be- ~
crito acima, e que os agentes tenham escolhido seus valores ótimos de p e cr, é nefício esperado: a taxa de remuneração do trabalho qualificado. -'-"
simples completar a caracterização do equilíbrio estático, descrevendo o nível
t
.da riqueza final que cada agente alcançará, dadas as suas dotações e decisões Talvez de maior interesse seja o fato de que é1cro >0: mais gasto público em ~
é11t {l
anteriores. Substituindo os valores apropriados dep(w) do Lema 1, e de cr (w) de
educação leva a um aumento do tempo (ou esforço) ótimo despendido pelos es- ê
(6) ou (7) na equação (3), a função de riqueza final é dada por:
tudantes do sistema público em adquirir capital humano. Há, portanto, dois ca- ~
nais de impacto de um maior investimento público em educação. O primeiro é o ~"
~
efeito (direto) de produtividade, que aumenta o nível do produto S para um .~
dado esforço do agente, via equação (2b). Esse efeito é positivo mas côncavo, de
~
{l
forma que há retornos decrescentes para o investimento público em educação. 5J
Há também um segundo efeito (indireto), que age por meio da resposta dos .~
se w<p*(l-t*)-l (8a)
agentes à melhora da qualidade (ou produtividade) da escola pública. Esse últi- ~
mo efeito nada mais é do que uma aplicação da regra de Keynes-Ramsey: ao su- o
bir a taxa marginal de transformação (de tempo atual em capital humano futu-
ro). a taxa marginal de substituição intertemporal (entre rendas presente e fu-
Y(W'/"PI=H')W+[l-( ;:)'] u+ ('2q~'-p' tura) no ponto ótimo também deve subir. Como um valor mais alto de t torna o
tempo de estudo numa escola pública mais. produtivo, os agentes respondem
escolhendo gastar mais tempo assim, sacrificando um pouco mais de renda no
se w~p*(l-t*)-l (8b) primeiro período.
Por fim, para níveis de 1: consistentes com o pressuposto 1, ocorre que
Tomando t* (e portanto 't) como dado para cada agente, os dois últimos ter-
a* (p* »cr* (O).Quer dizer, naquelas sociedades em que a diferença entre a quali-
mos da equação (8a) bem como os três últimos termos da equação (8b) consis-
tem exclusivamente de parâmetros exógenos. Seja a soma daqueles termos em dade do sistema de educação particular (q) e a do sistema de educação pública
(8a) denotada por A e a soma daqueles termos em (8b) denotada por B. Essas (q't) é suficientemente elevada com relação ao preço da educação particular (p *),
. ~ equações podem então ser reformuladas mais sucintamente como: observar-se-á que as pessoas mais pobres da sociedade freqüentarão as piores
escalas e dedicarão menos tempo e esforço à educação. Neste modelo, isso advém
se w<p * (l-t * )- 1 (9a) do seu comportamento racional e otimizador, em face de um mercado de crédito
inexistente e de diferenças exógenas de qualidade entre escolas, e apesar de as
* )w+B preferências serem idênticas entre todos os agentes. Um resultado "observacio-
y(w,t *,p)=(l-t se w~p *
(l-t * )- I (9b)
nalmente" equivalente (estudantes menos dedicados estudando em escolas
públicas e sendo mais pobres) poderia ser gerado por um modelo completa-
o Lema 1 implica que A < B e, portanto, que a riqueza final seja monotoni- mente diferente, em que os mercados fossem completos (ou seja, as oportuni-
camente crescente na riqueza inicial (com derivada inferior aI), com uma des- dades não dependessem da riqueza inicial), mas no qual talentos ou preferências
150 151
diferissem, com alguns agentes sendo mai~ preguiçosos ou menos inteligentes Gráfico 5
~
" do que outros. Resulta que, antes de julgar qual modelo melhor descreve a reali-
'";g dade - um no qual os mais pobres estudam menos como uma resposta ótima a
~ oportunidades desiguais, ou outro em que eles são pobres porque são mais pre-
! guiçosos - dever-se-ia testar os dois modelos com respeito às suas outras previ-
{j sões, ou diretamente com respeito à propriedade dos diferentes pressupostos.
~
]
~ 3.2 - O processo de transição e os equilíbrios de longo prazo
A maximização da função de utilidade ( I), com sua herança à Andreoni (1 -a) B
(1989), implica todos os agentes escolherem, no momento i2, níveis de consumo e
(l-a)A
herança dados pore = ay(w, t*,p) e b = (I-a)y(w, t*,p), onde a função de riqueza
final é dada pelas equações (8) ou (9). Uma vez que a herança é o único elo entre
gerações sucessivas no modelo, o processo dinâmico da variável de estado ri- p* (l-r*r' w,
w,
queza (w) é completamente definida pela equação (10):

W(+l =b( = (I-a)[(I-t*)w( +A] se w( <p*(l-t*)-l (IDa)

W(+l =b( =(l-a)[(l-t*)w( +B] se w( ~p*(I-t*)-l (IDb)

A equação ( 10) define um processo Markov unidimensional em w. Para


um dado conjunto de valores dos parâmetros exógenos, esse processo dinâmico
converge para uma única distribuição limite no longo prazo. O Gráfico 5 ilustra (l-a)B

três exemplos distintos de processos de transição (e suas distribuições limite)


para diferentes valores dos parâmetros exógenos.
Os três quadros do Gráfico 5 ilustram graficamente três casos da função de
transição intergeracional dada pela equação (10), cada um para um par de valo-
p* (l-r*r' w,
res dos interceptos A e B, refletindo valores distintos para os parâmetros de pro-
dutividade (u e ]t), e/ou para os parâmetros da função de produção educacional
CC;, q). Dada a ausência de termos escolásticos no modelo, qualquer distribuição
iniciaL definida sobre (O, z) - ou mesmo sobre 9\: -, tenderá a convergir para
os níveis "atratores" de riqueza, aqueles nos quais W'+I = IV,. Isso, por sua vez,
implica a existência de três grandes classes de equilíbrio para o modelo. A pri-
meira, representada pelo quadro (a) do Gráfico 5, acarreta o desaparecimento
da classe educada em escolas particulares. A taxa de retorno da educação, rela- ........ - .
.......... -
tiva ao preço da educação no sistema particular, é insuficiente para manter um
(l-alB
nível de heranças capaz de sustentar a permanência daquela elite. O equilíbrio
de longo prazo é caracterizado pela igualdade completa de riqueza, baseada
(l-alA
num sistema de educação pública universal.
O segundo tipo de equilíbrio de longo prazo também exibe igualdade com-
pleta de riqueza, mas agora com toda a educação sendo provida por escolas par- p* (l-r*)' w,
ticulares. A taxa de retorno da educação é alta o bastante, em relação ao seu pre-
152 153
ço no setor privado, para fazer com que todos os agentes adquiram escolaridade utilizam o sistema público de educação e, portanto, não se beneficiam em nada ]
~
::= suficiente para gerar heranças altas o bastante para que ninguém fique fadado a do gasto público. "~
""
~ começar a vida abaixo do nível crítico de riqueza inicial:p * (l-f * )- 1 . Um valor não-trivial de t * resulta, em geral, da equação: ~
~ ~
i Mas é na terceira classe de equilíbrios, ilustrada no quadro (c), que eu gos-
(4')
~
"";:;
" taria de me concentrar. Essa classe exibe duas "classes sociais" com níveis de ri- t * =Al:'J max[ (l-t)w c - p(w c )+[I-cr(w c) Ju+1tS(t,p)]
~ t [
~ queza desiguais no equilíbrio de longo prazo. Qualquer linhagem cujo nível de ]
]
"~
l:J
riqueza inicial estiver abaixo do valor crítico p * (l-f * )- 1 convergirá para o "atra- ;:;

c:, tor" inferior, Wp• Por outro lado, aquelas linhagens que começarem de níveis de Para w, < P * ( 1 - t * )-1 • l:J
~
riqueza acima do divisor convergirão para o atrator superior, WR. OS"pobres"- Em vez de buscar uma solução para t * como função explícita de {u, 1t, p *, {;
::!
no "atrator" inferior - não têm meios para pagar escolas particulares, mesmo q, q}, essa seção conclui com duas observações ge:~is ..Em primeir~ lugar, sem- ..:;
sabendo que essas os tornariam mais produtivos. A ausência de mercados de preque a solução de (4') for consistente com o eqmhbno de alta desIgualdade do ~
crédito lhes veda tal possibilidade. Todos os "ricos" - que terminarão no "atra- quadro (c) do Gráfico 5, este será Pareto-ineficiente. Isso se ~ev~ao f~to de que a g
tor" superior - escolhem freqüentar escolas privadas. Os níveis de herança de- maximização em (4') leva em consideração os custos margmaIs do Im~osto so- ~
terminados ao longo da distribuição são tais que, uma vez que essa situação te- bre a riqueza inicial, vis-à-vis os benefícios marginais de uma renda ~1~ISal.ta ~o ~
nha sido atingida, ela constitui um equilíbrio estável. A não ser que ele seja per- segundo período, como resultado de uma educação melhor. A maxI.n;lz~çao Ig- ~
turbado exogenamente - digamos, por uma mudança no regime político que nora a possibilidade de um salto discreto com mudança de eqmhbno: ~a~o g
determina o gasto público com educação - o equilíbrio dessa sociedade será M(~'t) seja suficientemente elevado para levar a economia de um eqmhb.no ~
para sempre caracterizado por essa desigualdade educacional e econômica. tipo (c) para um equilíbrio tipo (b), como poderia claramente ocorrer. Esse tipO 1
de mudança de regime seria caracterizado, num primeiro momento, ~or um "
3.3 - Os equilíbrios políticos considerável aumento de impostos e gastos públicos, seguido de um penado deê
A única variável endógena ainda indeterminada, e que afeta a riqueza dos transição com expansão da escolaridade média da população, bem com~ d~ sua i
agentes educados em escolas públicas (por meio do intercepto A no Gráfico 5), é renda. Esse processo acarretaria um abandono progressivo da escola pubhca, e ô
o nível do gasto público com educação 't, ou, equivalentemente, a alíquota do uma migração dos "novos ricos" para as escolas particulares. O proce.sso de
imposto sobre riqueza, f * . O pressuposto 1, que determinou a constelação de va- transição seria acompanhado por uma queda nas desigualdades educaCional e
lores dos parâmetros exógenos para os quais o modelo seria investigado, teve de riqueza e, finalmente, por uma redução na carga tributária, à medida que o
por fim excluir valores altos de f * com relação a p * , de tal forma que y( w, f * , P * ) > istema se aproximasse do equilíbrio (b). No novo equilíbrio de longo prazo, to-
dos começariam a vida com o nível de riqueza anteriormente dispo~ível apenas
y(w, f*, O), V W [ver Ferreira (1999)]. Se essa desigualdade não fosse necessaria- para a elite. Como todos seriam capazes de freqüentar escolas particulares - e
mente válida, de forma que vivêssemos num mundo onde as escolas públicas de fato o fariam - a votação sobre a alíquota fiscal geraria sempre o valor zero.
pudessem superar a qualidade das escolas particulares, seria claramente possível 1 a comparação estática entre os equilíbrios (c) e (b), (b) é claramente Par~t~-
imaginar't em tal nível que A = B, e os agentes fossem indiferentes entre os dois uperior. São as perdas dos "ricos" das gerações durante o processo de transIçao
tipos de escola, a qualquer nível de riqueza. Ou ainda queA > B, excluindo o siste- que impedem uma fácil coordenação para provocar a mudança.
ma de educação particular do modelo a priori - e não em equilíbrio, a posferiori, Mas dadas essas perdas, e a estabilidade do equilíbrio desigual, o que pode-
" Jomo no caso (a).
ria desencadear uma mudança de regime como a que acabamos de descrever?
Nossa preocupação, entretanto, não é com o caso de ditadores benevolen- Minha última observação é que tal mudança de regime educacional e econômi-
tes, que decidem o nível de f arbitrariamente. Como foi mencionado, este mode- co poderia ser iniciada por uma mudança na função de poder político v(w), que
lo visa estudar equilíbrios político-econômicos, nos quais um agente crítico (em estamos tratando como exógena ao modelo. Considere-se, por exemplo, um
termos de poder político) toma uma decisão sobre f, com base somente em seus ca o no qual a economia se encontra no equilíbrio desigual (c), e gera uma curva
próprios interesses particulares. Voltando a restringir nossa atenção somente de Lorenz L(w), como a ilustrada no Gráfico 6.
ao equilíbrio desigual estável do quadro (c) do Gráfico 5, é óbvio que se w, >
p * (1 - f * )-1 , f * = O, já que indivíduos acima do nível crítico de riqueza jamais
154 155
_ individuais, familiares e institucionais -, a desigualdade não tem um só de- Q;

tCfminante.Suas causas, no Brasil como em qualquer outra sociedade, são varia- .~


dase complexas. Não obstante, cabe ao pesquisador tentar entendê-las, e parte ::l
~
dacompreensão vem de isolar aquelas causas cujos efeitos sobre a desigualdade
sãoos principais. Essa tarefa deixa de ser mera curiosidade acadêmica na medi- 1
da em que: a) o Brasil continua a ser um dos países mais desiguais do mundo, e ~
b) essa desigualdade, além de desgostosa em si mesma, parece ter efeitos nega- ~
"'"
tivossobre o desempenho agregado da economia. <;
O debate dos anos 70 e 80 sobre a importância relativa da distribuição da ~
educaçãoe de seus retornos, por um lado, e de políticas salariais repressivas, por .:"
outro, (01110 causas básicas da desigualdade brasileira, parece estar esgotado. A ~
evidência enlpírica sugere fortenlente que a educação continua sendo a variável ~
de maior poder explicativo para a desigualdade brasileira. ~
'"
É claro que o mercado de trabalho desempenha função importante na am- ~
E
plificaçãoda desigualdade educacional, ao transformá-la em desigualdade de .:"
renda,e, além disso, gera novas desigualdades por meio de sua própria segmen- ~
::;
tação e da existência de discriminação empregatícia. Apesar de terem impor- ~
.~

0,5
tância relativamente menor, esses elementos de segmentação e discriminação ~
p(w) constituenl injustiças ineficientes, que deveol ser combatidas COIlI0 parte de ~
~
qualquer política de reforma do mercado de trabalho brasileiro.
.~
Não obstante, este capítulo argumentou que se o nosso objetivo é entender ti
a geração e reprodução da desigualdade de renda no Brasil, o centro de nossas {1
Suponha que, inicialmente, v(w)=~. Nesse caso, o agente crítico está na o
Il(w) atenções deve estar voltado para o processo de formação e distribuição das
Oportunidades educacionais no país. Essa é a conclusão a que leva a própria evi-
p~si~ão.G(wco), on.de o subscrito o é de "oligarquia". Como a preferência por (*
dência acumulada pelos estudos do mercado de trabalho durante as últimas
dmlInm monotomcamente com w, essa situação gera um nível de gasto público
duas décadas, que consistentemente apontaram a desigualdade educacional e o
Lo inferior à~u~le que decorreria de uma função de poder político dada por v(w)
alto retorno a níveis elevados de escolaridade como principais causas de nossa
= 1. Nesse ultimo caso, o agente crítico é mais pobre, com uma riqueza igual a dispersão de renda.
wcd' e posição G(wcd).13 Portanto, (* e L são mais altos. Ainda que a magnitude do
A segunda parte do trabalho apresentou um modelo formal simplificado,
aumento dependa da forma funcional específica da solução para (*, é claro que
baseado em Ferreira ( 1999), que demonstra a possibilidade da existência de um
existe uma constelação de valores dos parâmetros {u, Te, p*, q, q} tal que um au-
tipo de equilíbrio político-econômico em que três desigualdades se reforçam
mento .des~a.natureza.em (* resultará na mudança d