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PANORAMA DO COOPERATIVISMO BRASILEIRO:


HISTÓRIA, CENÁRIOS E TENDÊNCIAS

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Inessa Salomao
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ)
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REGIÃO CONE SUL (parteuniRcoop
norte) • Vol. 1, # 2, 2003 • 75

PANORAMA DO COOPERATIVISMO
BRASILEIRO: HISTÓRIA,
CENÁRIOS E TENDÊNCIAS
Emanuel Sampaio Silva (UFRPE), Inessa L. Salomão (UFRJ),
Jimmy Peixe McIntyre (UFRPE), João Guerreiro (UFRJ),
Maria Luiza Lins e Silva Pires (UFRPE), Paulo Peixoto
Albuquerque (UNISINOS), Sandra S.S Bergonsi (UFPR),
Sidney da Conceição Vaz (UFPR)

RESUMO • Resultado de um trabalho conjunto desenvolvido por pesqui-


sadores de quatro instituições de ensino superior do Brasil: – Universida-
de Federal Rural de Pernambuco – UFRPE (coordenadora da pesquisa),
Universidade Federal do Paraná – UFPR, Universidade do Rio de Janeiro –
UFRJ e Universidade Vale dos Sinos – UNISINOS, este trabalho tem como
objetivo proporcionar uma visão geral do movimento cooperativo brasi-
leiro, a partir de três dimensões: a primeira consiste na contextualização
do movimento, tomando como referência os principais fatos históricos
responsáveis pela sua evolução. Em seguida, descreve-se o quadro atual do
cooperativismo nacional, a partir de uma análise quantitativa e qualitativa.
Por fim, com base nos dados, identifica-se algumas das perspectivas e ten-
dências do cooperativismo no Brasil. Em decorrência da grande extensão
territorial do Brasil e das especificidades regionais, optou-se por estruturar
a pesquisa a partir da divisão geopolítica: Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e
Centro-Oeste. Para isso, foram pesquisados acervos bibliográficos, docu-
mentos públicos e privados e consultas a Internet. A pesquisa contou ain-
da com um conjunto de dados secundários, coletados em organizações
representativas do setor. Esses dados foram sistematizados, tendo como
referência a discussão teórica sobre o assunto. Tendo em vista a incipiente
e fragmentada fonte de dados sobre o cooperativismo brasileiro, a impor-
tância maior deste trabalho reside no esforço de sistematização desses da-
dos, por uma equipe de pesquisadores que tem no cooperativismo a sua
fonte principal de investigação teórica. Na verdade, para a Rede Cooperati-
va núcleo Brasil, construir este cenário sobre o cooperativismo representou
mais do que um mero exercício baseado em critérios econômicos, ou em
categorias sociológicas, mas a possibilidade de revisão de conceitos e idéi-
as, vislumbrando uma nova compreensão do cooperativismo a partir dos
seus limites e de suas possibilidades concretas. Por isso, discutir o “Pano-
rama do Cooperativismo Brasileiro” passou a ser tarefa necessária para
propor uma nova pedagogia política que busque alternativas de supera-
ção do desequilíbrio sociopolítico nas diferentes regiões do País, mesmo
porque no repensar o sistema cooperativista se objetiva o efetivo respeito
ao pluralismo, a tolerância e ao diálogo. Valores-chaves da proposta
associativa e cooperativista. Ademais, estima-se que os resultados aqui

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discutidos possam trazer subsídios ao movimento cooperativo e às ins-


tâncias políticas, revitalizando as práticas sociais e, dentro dos seus limi-
tes, contribuindo o êxito do movimento cooperativo brasileiro.

RÉSUMÉ • C’est le résultat d’un travail conjoint développé par des cher-
cheurs de quatre institutions de l’enseignement supérieur au Brésil: –
l’Université Fédérale Rurale de Pernambuco – UFRPE (coordonnatrice de
la recherche), l’Université Fédérale du Paraná – UFPR, l’Université de Rio
de Janeiro – UFRJ et l’Université Vale dos Sinos – UNISINOS, ce travail a
comme objectif de donner une vision générale du mouvement coopératif
brésilien à partir de trois dimensions: la première consiste à la mise en
place du mouvement, en prenant comme référence les principaux faits
historiques responsables de son évolution. Puis, le cadre actuel du coopé-
ratisme national est décrit à partir d’un analyse quantitatif et qualitatif.
Enfin, en s’appuyant sur les données, certaines perspectives et tendances
du coopératisme au Brésil sont identifiées. Dû à la grande extension du
territoire brésilien et des spécificités régionales, il a été choisi de structu-
rer la recherche à partir de la division géopolitique : Nord, Nord-est, Sud
Sud-est et Centre Ouest. Pour cela, des patrimoines bibliographiques, des
documents publiques et privés ainsi que des consultations sur Internet
ont été utilisés. La recherche s’est appuyée aussi sur un ensemble de
données secondaires, rassemblées en organisations représentatives des
secteurs. Ces données ont été systématisées, en ayant comme référence la
discussion théorique sur le sujet. Tout en tenant compte que la source des
données sur le coopératisme brésilien est naissante et fragmentée, la plus
grande importance de ce travail réside sur l’effort de systématisation de
ces données, par une équipe de chercheurs qui ont pris leurs sources prin-
cipales de recherche théorique dans le coopératisme. En réalité, pour le
Réseau Coopératif Noyau Brésil, construire ce scénario, sur le coopéra-
tisme, a représenté plus qu’un simple exercice basé sur des critères écono-
miques ou sur des catégories sociologiques, mais a donné la possibilité de
réviser des concepts et des idées, en laissant entrevoir une nouvelle com-
préhension du coopératisme à partir de ses limites et de ses possibilités
concrètes. C’est pour cela, que discuter du «Panorama du Coopératisme
Brésilien» est devenu une tâche nécessaire pour proposer une nouvelle
pédagogie politique qui recherche des alternatives de dépassement du
déséquilibre sociopolitique dans les différentes régions du pays, de la
même façon, parce qu’en reconsidérant le système coopératiste, le respect
effectif au pluriel est objectivé ainsi que la tolérance et le dialogue (des
valeurs clés de la proposition associative et coopératiste). De plus, il est
estimé que les résultats qui sont discutés peuvent apporter des bénéfices
au mouvement coopératif et aux instances politiques, en revitalisant les
pratiques sociales et, à l’intérieur de ses limites, contribuer au succès du
mouvement coopératif brésilien.

ABSTRACTS • The result of a joint project developed by researchers from


four institutions of higher education in Brazil – the Federal Rural Univer-
sity of Pernambuco – UFRPE (research project coordinator), the Federal
University of Paraná – UFPR, Rio de Janeiro University – UFRJ and Vale dos
Sinos University – UNISINOS – this project consists in providing an over-
view of the Brazilian cooperative movement from three perspectives: the
first consists in situating the movement within the historical context that

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explains its evolution. Then, the present framework of national coopera-


tivism is described on the basis of a qualitative and quantitative analysis.
Finally, building upon the gathered data, some of the perspectives and
trends on cooperativism in Brazil are identified.
As a result of Brazil’s great territorial extension and of its regional
singularities, the research was structured according to the following geo-
political divisions: the North, the Northeast, the South, the Southeast and
the Center-west regions. This involved researching bibliographical sources,
public and private documents, and Internet inquiries. Moreover, this inves-
tigation relied on a set of secondary data, collected within organizations
representative of the cooperativistic sector. These data were systematized,
keeping the theoretical discussion as a reference on the matter. Considering
the incipient and fragmented source of data about Brazilian cooperativism,
the value of this project resides in the effort of systematizing the data, with
a team of researchers that consider cooperativism their principal subject
of theoretical research. To be sure, the construction of this framework on
cooperativism by the Rede Cooperativa núcleo Brasil [Brazil-based coopera-
tive network], was more than a simple exercise based on economic criteria
or sociological categories, as it presented the possibility to revise the con-
cepts and ideas that provided for a new understanding of cooperativism, on
the basis of its actual limits and possibilities. For this reason, discussing
the “Panorama of Brazilian Cooperativism” has become necessary in order
to propose a new political pedagogy that seeks alternatives to overcome
the sociopolitical disequilibrium in the different regions of the Country.
Rethinking the cooperativistic system implies giving respect to pluralism,
tolerance and dialogue, and to the key values of the associative and
cooperativistic proposal. In addition, it is believed that the results here
discussed could generate subsidies for the cooperative movement and for
the political instances, which would revitalize the social practices, and
within its limits, contribute to the success of the Brazilian cooperative
movement.

RESUMEN • Resultado de un trabajo conjunto desarrollado por investi-


gadores de cuatro instituciones de enseñanza superior del Brasil: –
Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE (coordinadora de la
investigación), Universidade Federal do Paraná – UFPR, Universidade do
Rio de Janeiro – UFRJ y Universidade Vale dos Sinos – UNISINOS, este
trabajo tiene como objetivo proporcionar una visión general del movi-
miento cooperativo brasileño, a partir de tres dimensiones: la primera con-
siste en la contextualización del movimiento, tomando como referencia
los principales hechos históricos responsables de su evolución. Ensegui-
da, se describe el cuadro actual del cooperativismo nacional, a partir de
una análisis cuantitativo y cualitativo. Finalmente, con base en los datos,
se identifican algunas de las perspectivas y tendencias del cooperativismo
en el Brasil. Como consecuencia de la gran extensión territorial del Brasil y
de las especificidades regionales se optó por estructurar la investigación a
partir de la división geopolítica: Norte, Noreste, Sur, Sureste y Centro-
Oeste. Para eso, fueron investigados acervos bibliográficos, documentos
públicos y privados y consultas en Internet. La investigación contó tam-
bién con un conjunto de datos secundarios, colectados en organizaciones
representativas del sector. Esos datos fueron sistematizados, teniendo
como referencia la discusión teórica sobre el asunto. Tomando en cuenta

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la incipiente y fragmentada fuente de datos sobre el cooperativismo brasi-


leño, la importancia mayor de este trabajo reside en el esfuerzo de siste-
matización de esos datos, por un equipo de investigadores que tienen en
el cooperativismo su fuente principal de investigación teórica. En verdad,
para la Red Cooperativa núcleo Brasil, construir este escenario sobre el
cooperativismo representó más que un mero ejercicio basado en criterios
económicos, o en categorías sociológicas, mas aun la posibilidad de revi-
sión de conceptos e ideas, vislumbrando una nueva comprensión del coo-
perativismo a partir de sus limites y de sus posibilidades concretas. Por
eso, discutir el “Panorama del Cooperativismo Brasileño” pasó a ser tarea
necesaria para proponer una nueva pedagogía política que busque alter-
nativas de superación del desequilibrio sociopolítico en las diferentes re-
giones del País, incluso porque el repensar el sistema cooperativista se
objetiva el efectivo respeto al pluralismo, la tolerancia y al diálogo. Valores
clave de la propuesta asociativa y cooperativista. Además, se estima que
los resultados aquí discutidos puedan traer subsidios al movimiento co-
operativo y a las instancias políticas, revitalizando las prácticas sociales y,
dentro de sus limites, contribuyendo al éxito del movimiento cooperativo
brasileño.

1. EVOLUÇÃO E IDENTIDADE JURÍDICA


DO COOPERATIVISMO BRASILEIRO

As primeiras experiências do cooperativismo brasileiro remontam ao final do


século XIX, com a criação da Associação Cooperativa dos Empregados, em
1891, na cidade de Limeira-SP, e da Cooperativa de Consumo de Camaragibe
– Estado de Pernambuco, em 1894. A partir de 1902, surgem as primeiras
experiências das caixas rurais do modelo Raiffeisen, no Rio Grande do Sul e,
em 1907, são criadas as primeiras cooperativas agropecuárias no Estado de
Minas Gerais (OCB, 1996).
A literatura acusa um florescimento da prática cooperativa brasileira a
partir de 1932, motivada por dois pontos: a) o estímulo do Poder Público ao
cooperativismo identificando-o como um instrumento de reestruturação das
atividades agrícolas; b) promulgação da lei básica do cooperativismo brasi-
leiro, de 1932, passando a definir melhor as especificidades daquele movi-
mento diante de outras formas de associação (Pinho,1996).
No Brasil, as cooperativas agrícolas, ao longo da primeira metade do sé-
culo XX, não apenas se mostraram como as mais importantes em termos de
volume de negócio como também foram as principais responsáveis pela di-
fusão do ideário cooperativista no país. Ademais, a literatura acusa que o
referido ideário cooperativista ou conjunto teórico doutrinário do movimen-
to foi utilizado como instrumento ideológico do Estado, a serviço de um Esta-
do conservador e autoritário1.
Atualmente, o cooperativismo brasileiro é amparado pela Lei n. 5.764, de
16 de dezembro de 1971, que exige um número mínimo de 20 sócios para a
sua constituição e é representado, formalmente, pela Organização das Coo-
perativas Brasileiras (OCB) em nível nacional e da Organização Estadual de
Cooperativas (OCE), em nível de cada Unidade da Federação.

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A Lei n. 5.764/71 está estruturada em 117 artigos contidos nos seus


dezoito capítulos. O Artigo 4 do Capítulo II da referida Lei define as coopera-
tivas como “sociedades de pessoas, com forma e natureza jurídica próprias,
de natureza civil, não sujeitas à falência, constituídas para prestar serviços
aos associados (…)”. E o Artigo 79 do CapÍtulo XII define os atos cooperativos
como sendo “os praticados entre as cooperativas e seus associados, entre es-
tes e aqueles e pelas cooperativas entre si quando associados, para a conse-
cução dos objetivos sociais”.
Tanto a lei específica sobre o cooperativismo de 1971 quanto a criação da
OCB em 1969 ainda que tenham permitido uma maior definição das especifi-
cidades das cooperativas no Brasil, representaram forte ingerência do Estado
no funcionamento destas organizações. Há de se salientar, nesse sentido, que
o panorama político-institucional do momento era de ditadura militar.
Um outro aspecto legal a ser destacado foi a criação da Lei no 9.867, de 10
de novembro de 1999, que criou e normatizou as cooperativas especiais, as
quais são destinadas a auxiliar pessoas em “situação de desvantagem” a se
inserirem no mercado 2.
Porém, desde a aprovação da Constituição de 1988, a prática cooperativa
se desvincula do Estado e vários projetos de lei passam a tramitar pelo Con-
gresso Nacional com o propósito de alterar a Lei 5.764/713. Pretende-se, com
isso, ampliar as margens de ação diante de um mercado globalizado e dimi-
nuir “brechas legais”, de forma a inibir práticas fraudulentas das chamadas
“cooperativas de fachada” (Pires, 1999).
Na verdade, discute-se, hoje, na literatura que a legislação cooperativa
vem sendo modificada no mundo inteiro como forma de atender às novas
expectativas econômico-produtivas, de modo a permitir maior flexibilidade
do movimento frente às novas conjunturas de mercado (Zevi & Campos, 1995;
Pires, 1999; Pires&Cavalcanti, 2000). No caso brasileiro, o esforço de revita-
lização das práticas cooperativas se inscreve dentro de um movimento mais
amplo de modernização das atividades e de ampliação da democracia, e ganha
ressonância com as discussões sobre economia solidária / terceiro setor. Estas,
aliás, vêm sendo a tônica dos discursos da academia e dos órgãos de repre-
sentação do cooperativismo. Tal perspectiva se distancia daquela observada
nos anos 80 quando a literatura foi pródiga em denunciar o movimento
cooperativista do país dentro das diretrizes de uma “modernização conserva-
dora” em que o Estado atuava de forma autoritária e centralizada4. Esse mo-
delo de modernização foi acusado pela literatura de favorecer médios e
grandes agricultores voltados à cultura de exportação, em detrimento de uma
agricultura de subsistência desenvolvida pela agricultura de base familiar
(Schneider,1981). O modelo adotado no Brasil, à semelhança de outras expe-
riências na América Latina, utilizou o cooperativismo como instrumento de
controle social e político. Como bem observa Rios (1987), diferentemente da
Europa onde o cooperativismo surge como uma forma de organização prole-
tária, no Brasil, ao contrário, representa a promoção das elites políticas e agrá-
rias. Eis a razão pela qual, como observa com muita propriedade Develtere

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(1998:11), muitas dessas experiências representaram “grandes esperanças e


lamentáveis fracassos”.
Ainda que tenha havido, predominante, um caráter conservador na
implementação do cooperativismo brasileiro, pode-se dizer, ainda assim que,
devido a grande extensão territorial e uma política que acentuou as desigual-
dades regionais, não se pode falar de um único cooperativismo no país. Assim
sendo, como assinala Schneider (1981; 19), a distribuição desigual da presen-
ça e do peso econômico do cooperativismo expressa a “dinâmica do modelo
de acumulação de capital vigente no país, cuja característica fundamental é o
desenvolvimento desigual da sociedade brasileira” ou ainda, como exemplifica
Rios (1987):
“Existe um cooperativismo de elites e um cooperativismo dos pés-no-chão; um
cooperativismo legalizado, letrado e financiado e um cooperativismo ‘informa’l,
‘sem lei e sem documento’, não financiado e mesmo reprimido. O cooperativismo
não está pois ‘imune’ à divisão da sociedade em classes”.

A diferença regional do cooperativismo brasileiro foi motivada, dentre


outros fatores, pela forte influência de imigrantes – alemães, italianos e japo-
neses – instalados nas regiões Sul e Sudeste, muitos dos quais já traziam algu-
mas experiências no campo do associativismo, servindo de base para a
estruturação do cooperativismo em bases competitivas.
Finalmente, mesmo que as práticas cooperativas brasileiras ainda ex-
pressem algumas discrepâncias – resultado de um modelo implementado de
cima para baixo, desvinculado das necessidades de amplos segmentos soci-
ais – observa-se que o cooperativismo, enquanto idéia força, está ganhando
amplitude através de uma perspectiva positiva – sinalizando seu caráter de
inclusão social – e não mais negativa pelo seu caráter excludente (que foi a
ótica do passado). Cinco fatores, especialmente – de ordem interna e externa
ao país – parecem contribuir para essa mudança de enfoque:
a) a revitalização dos conceitos e da prática cooperativa a partir de um balan-
ço em relação às práticas do passado;
b) o crescimento do desemprego estrutural, estimulando a proliferação de or-
ganizações de economia solidária;
c) o caráter competitivo da globalização que impõe práticas cooperativas com
boa performance empresarial;
d) a flexibilização das relações de trabalho, estimulando práticas autogeridas; e
e) a ampliação das discussões em torno dos conceitos de desenvolvimento
local e de idéia de economia social e terceiro setor.

Assim, a literatura brasileira atual desliga-se de uma tendência de de-


núncia do insucesso de um modelo de implementação do cooperativismo e
revela as preocupações em torno dos desafios impostos pela globalização,
destacando a necessidade de adoção de modernização das práticas, da
adoção de novos estilos de governança e de uma maior participação dos
associados na dinâmica da cooperativa para permitir uma inserção mais
efetiva das cooperativas nos mercados globais.

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Todos esses fatores tendem a oxigenar as discussões sobre o coopera-


tivismo, apontando os seus limites na atualidade enquanto projeto e prática
de mudança social (Pires, 1999).

2. ESPECIFICIDADES REGIONAIS DO MOVIMENTO COOPERATIVO

O Brasil se caracteriza por uma vasta extensão territorial, estando subdivido


em cinco regiões que apresentam perfis diferenciados no que diz respeito ao
processo histórico de organização e estruturação do cooperativismo.

2.1 Região Norte

A região Norte do Brasil ocupa cerca de 45% do território nacional. Com den-
sa floresta tropical, a ocupação territorial e a atividade econômica dessa re-
gião foram condicionadas ao extrativismo vegetal e mineral ao longo da bacia
do rio Amazonas.
Neste contexto, no início do século XX, o movimento cooperativo vai se
expandir através das cooperativas extrativistas, sobretudo voltadas para a
exploração da borracha. No entanto, apesar dessas cooperativas explorarem
um produto de boa aceitação no mercado internacional elas vão se deparar
com uma série de dificuldades para um desenvolvimento eficaz como: as
grandes distâncias, a dificuldade de deslocamento, a insuficiência dos meios
de transporte e a escassez de mercados consumidores provocada pelo pouco
povoamento da região e pela falta de uma política governamental para o setor.
Somente a partir da década de 70, com a política governamental de
integração e povoamento da Amazônia, instala-se uma infra-estrutura na
região Norte capaz de favorecer o desenvolvimento econômico. Este fato pro-
vocou a diversificação das atividades produtivas, possibilitando, concomi-
tantemente, o surgimento de novas cooperativas agrícolas, de mineração e
de trabalho.
Neste mesmo período, destaca-se ainda a política de apoio das organiza-
ções não governamentais como apoio a organização dos povos indígenas do
norte brasileiro em bases cooperativas. Surge, neste período, a cooperativa de
borracha dos índios seringueiros Kaxinauá (população indígena mais nume-
rosa do Estado), fundada em 1983, constituindo-se na primeira iniciativa des-
te gênero. Em 1989, os índios Ashaninka se organizaram em cooperativa com
vistas a comercialização – no mercado nacional e internacional – de mudas
de plantas, óleo de murmuru e copaíba, artesanato e instrumentos musicais.
Não obstante, a ausência de uma política global de desenvolvimento
regional, bem como dificuldade das pequenas cooperativas acessarem recur-
sos financeiros, equipamentos e a infraestrutura que lhes permitam melho-
rar a sua capacidade de produção são algumas das razões que justificam a
estagnação de algumas dessas experiências e dificultam a aparição de práti-
cas dinâmicas e competitivas.

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2.2 Região Nordeste

A região nordestina caracteriza-se por ser uma região de contrastes, marcado


por forte heterogeneidade e complexidade não somente em termos de clima,
vegetação, tipografia, cultura, mas, especialmente, em termos econômicos.
Essa região convive, simultaneamente, com situações de extrema pobreza –
típicas de países subdesenvolvidos – e com níveis de produção e consumo
semelhantes aos dos países de capitalismo avançado (Garcia, 1984; Araújo,
1997).
A história do cooperativismo nordestino, nesse contexto, evidencia os
mesmos contrastes, reproduzindo um modelo concentrador e excludente que
teve numa estrutura agrária voltada para o latifúndio e para o setor agro-
exportador a sua base de sustentação.
Esse contexto estimulou, por outro lado, a criação de muitas cooperati-
vas como fonte de poder e influência de uma classe dominante, mantendo
em seus quadros dirigentes um grupo de poder local, em detrimento dos
interesses da ampla maioria dos cooperados que, em função de um nível
sócioeconômico desfavorecido, se reservavam a acatar as determinações do
grupo mais forte economicamente. Assim sendo, constata-se que, no caso
das cooperativas do Nordeste, a autoridade e o poder foram exercidos histo-
ricamente pelos dirigentes e não pelos seus associados nas assembléias.
Nesse sentido, grande parte das cooperativas rurais no Nordeste esteve
organizada a partir de uma estrutura de classes, na qual os postos de coman-
do sempre estiveram preenchidos pelos grandes proprietários e pelas lide-
ranças políticas locais e regionais, atendendo a benefícios de pessoas e de
grupos específicos. Eis a razão pela qual, o cooperativismo nordestino foi
identificado como instrumento de controle do que de mudança social, tendo
servido, muitas vezes, como instrumento de transferência de recursos finan-
ceiros para os produtores (Rios, 1987; Mc Intyre, 1997).
Tais questões trouxeram repercussão direta para o campo da gestão das
cooperativas agrícolas. A carência de planejamento a curto e médio prazo,
associado a uma fraca capacidade de investimento de capital, utilização de
mão-de-obra sem qualificação e controle financeiro-contábil condicionaram
um baixo nível de competitividade e conseqüentemente de capitalização das
cooperativas, notadamente nas de pequeno porte (Vienney, 1980; Schneider,
1981; Mc Intyre, 1997; Silva, 2000).
Todavia, estudos recentes minimizam o peso do contexto sócio-político-
institucional na dinâmica de algumas experiências, sinalizando a capacidade
de capitalização e de concorrência das empresas cooperativas em contextos
de pouca tradição das práticas cooperativas (Pires, 1999). Isso é particular-
mente possível a partir da adoção de um estilo de governança e de vários
arranjos empresariais possíveis como: introdução de novas tecnologias,
ampliação de oferta do produto no mercado e adequação às exigências dita-
das por clientes internacionais, via aprimoramento nos processos de quali-
dade e sanidade dos produtos. Ainda segundo Pires (1999), o tipo de gestão
do empreendimento e nível de tecnologia adotado, o nível de participação

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dos associados, bem como seus compromissos em relação à empresa parecem


ser os fatores mais decisivos no sucesso do empreendimento. Assim, os seus
estudos revelam que o cooperativismo agrícola tem servido como instrumen-
to importante de integração produtiva às cadeias de alimentos numa econo-
mia globalizada 5. Ainda para a autora, tal fato evidencia que o dinamismo de
uma dada cooperativa, independentemente de onde ela se localize, vai ser
definida a partir da capacidade de organização da produção e do jogo de
relações expressos entre as imposições produtivas globais e a capacidade de
respostas em nível local. O que, como ressalta, não implica em desprezar o
peso do aparato institucional, da legislação cooperativa e da cultura organiza-
cional sobre a repercussão do cooperativismo.
Constata-se, hoje, no Nordeste, um esforço de revitalização das práticas
cooperativas, através dos diversos fóruns realizados em vários estados, na
sua grande maioria promovidos pelas entidades representativas do coopera-
tivismo e pelas universidades, sobretudo no que diz respeito à formação do
seu quadro social e à capacitação dos seus dirigentes.
Assim, cada vez mais, as cooperativas, independentemente de onde es-
tejam localizadas, terão que se capacitar e reformular suas práticas democrá-
ticas no processo de auto-gestão, passando pela apropriação de ferramentas
adequadas de gestão organizacional que lhes permitam ocupar um espaço
de destaque no mercado local, regional e nacional.

2.3 Região Centro-Oeste

A região Centro-Oeste, após um período de ocupação que se baseou na ex-


ploração do ouro, apresentou um grande período de estagnação, tendo por
atividade econômica principal a agricultura extensiva.
Após a criação de Brasília e a transferência da Capital Federal na década
de 50, teve início uma nova fase de desenvolvimento regional, sobretudo na
década de 80 com o surgimento do Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro
para o Desenvolvimento do Cerrado – PRODECER. Este programa impulsio-
na, na região Centro-Oeste, o surgimento de uma série de iniciativas coope-
rativas, tanto na área rural como na área urbana.
Neste mesmo período, cresce a demanda por habitações na nova capital
federal e, apoiada por uma política governamental específica, começa a surgir
um grande número de cooperativas habitacionais. O crescimento sócio-
econômico também estimula o surgimento das cooperativas educacionais e
agrícolas. Estas últimas resultantes de políticas públicas voltadas para a ocu-
pação do cerrado da região Centro-Oeste.
Ainda nesta região, a formação de cooperativas agrícolas é também, em
parte, atribuída a estratégia pela qual pequenos e médios agricultores da re-
gião Sul e Sudeste utilizaram para o aumento da produção de commodities
como soja e milho, através do aumento da área cultivada. Ressalta-se também
a importância do Programa e Desenvolvimento Agro-ambiental do Estado de
Mato Grosso – PRODEAGRO – no estímulo à organização em cooperativas
dos pequenos produtores da região.

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Vale ressaltar, nesse sentido, que alguns estados do Centro-Oeste, dentre


os quais o de Mato Grosso, estabeleceu políticas específicas para o coope-
rativismo. Todavia, foi no Distrito Federal onde mais se legislou em prol do
estabelecimento de normas legais de apoio ao cooperativismo, suscitando
políticas públicas voltadas ao estímulo da criação de cooperativas.
Por fim, a discussão em relação ao papel do cooperativismo como agente
promotor do desenvolvimento regional tem resvalado na questão da ainda
incipiente coesão e interação entre as cooperativas, dificultando uma partici-
pação mais expressiva nas economias locais.

2.4 Região Sudeste

A região Sudeste caracteriza-se por sua importância social, política e econô-


mica desde o início do século XX. No passado, foi a região onde esteve situada
a capital da república e a base econômica do país voltada para a produção do
café e do leite. Produção esta centrada basicamente em cima de grandes e
médias propriedades rurais, permitindo a esta classe produtiva o controle do
poder político (Panzutti, 1997).
O modelo de produção e exportação de commodities na região proporcio-
nou a capitalização dos produtores rurais, bem como o surgimento de novas
atividades urbanas, constituindo-se a base para o processo de industrializa-
ção nacional.
É neste contexto que se consolidam as experiências do cooperativismo
no Sudeste, agrupando, de um lado, uma classe de produtora rural detentora
do poder econômico e político e, de outro, grupos de trabalhadores urbanos
reunidos sob as cooperativas de consumo.
Considerada um dos berços do cooperativismo brasileiro, as primeiras
cooperativas da região sudeste remontam ao final do século XIX 6. Entretanto,
o cooperativismo, nessa região, vai começar a se fortalecer em termos
socioeconômicos a partir da década de 1920. Um importante ato constitutivo
do cooperativismo ocorreu com a fundação do Banco Agrícola de Pirassu-
nunga influenciando o cooperativismo de crédito em São Paulo que, desde
esta época, já começa a se apresentar como o mais importante Estado do
Sudeste sobre o tema cooperativista.
A fundação da Cooperativa Agrícola de Cotia (1927) deu um novo impul-
so ao cooperativismo agrícola. Mais tarde, esta cooperativa que só comercia-
lizava batatas, a partir da incorporação da Cooperativa de Hortaliças de Cotia
(1934), a região torna-se o mais importante cinturão verde de São Paulo.
Nos anos 30, surgiu uma série de incentivos governamentais fiscais às
cooperativas, como isenção de impostos que recaíam sobre atividades mer-
cantis, isenção do imposto de renda e do imposto federal do selo para capital
social, livros de escrituração e documentos. Em 1933, foi criado o Departa-
mento de Assistência ao Cooperativismo do Estado de São Paulo, primeiro
instituto oficial fundado na América Latina. Em 1938, através de um convê-
nio entre o governo paulista e o federal, esse departamento ficou incumbido
das funções de Delegado da Diretoria de Organização de Defesa de Produção,

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do Ministério da Agricultura, para execução das leis sobre o cooperativismo


em São Paulo.
Em termos nacionais, o Estado de São Paulo também influenciou o siste-
ma cooperativo com o estabelecimento de incentivo à formação de coopera-
tivas na Constituição Estadual de 1937.
Esse interesse do poder público pelo cooperativismo atrela-se às mu-
danças que estavam ocorrendo no país, com a expansão da indústria nacio-
nal, além da preocupação do Estado com o abastecimento do mercado
interno, em virtude das dificuldades advindas da II Guerra Mundial. A partir
daí, perseguindo a política de organização da produção e do consumo, surgi-
ram várias cooperativas, em diversas áreas da região, incluindo as cooperati-
vas agrícolas mistas e o modelo das cooperativas agroindustriais, todas com
o mesmo objetivo de abastecimento do mercado interno.
O governo federal, em fins dos anos 50, empenhou-se em organizar coo-
perativas de produtores de café nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro,
expandindo o cooperativismo deste setor para exportação. Entretanto, este
apoio acaba influenciando mais o cooperativismo agrícola no Estado de São
Paulo do que no Rio de Janeiro. Isto vem explicar o salto de quatro cooperati-
vas de produtores de café na década de 1950 para 27 na década de 1960.
A partir dos anos 70, o Estado passa a utilizar o cooperativismo como
instrumento de modernização da agricultura, ou seja, para a expansão do
capitalismo no campo impactando principalmente o cooperativismo agríco-
la de São Paulo e de Minas Gerais. Os próprios órgãos de incentivo e apoio
estruturaram esse novo perfil, mais moderno e empresarial. Preocupado em
alicerçar as cooperativas agrícolas, segundo os moldes mais empresariais, o
governo investiu em cursos de treinamento e preparação do corpo técnico e
executivo das cooperativas, aglutinando os mecanismos do setor capitalista
sem, todavia, perder a especificidade de uma sociedade cooperativa.
Observou-se, nesta década um processo de incorporação de fusão, sen-
do que o processo de concentração predominou na agropecuária paulista.
Além das fusões e incorporações, inicia-se uma tendência às cooperativas se
associarem a outras singulares, num processo de integração, com o objetivo
de complementarem os serviços prestados aos seus associados.
Consideradas por vários economistas como as décadas perdidas, 1980 e
a década 1990, em termos de cooperativismo, podem ser apresentadas como
as do fenômeno de expansão das cooperativas de trabalho. Segundo Singer &
Souza (2000), a reestruturação produtiva e a crise industrial dos anos 80 trou-
xeram os primeiros grandes exemplos de cooperativas formadas por ex-
funcionários que assumiam a massa falida das empresas onde trabalhavam,
representam o principal fenômeno associado ao cooperativismo de trabalho.
Assim, o crescimento expressivo das cooperativas de trabalho, o surgimento
das cooperativas associadas a empresas falimaliares e as cooperativas em
assentamentos de trabalhadores sem-terra são os principais expoentes do
movimento cooperativista na Região Sudeste nas duas últimas décadas do
século XX.

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Cabe sublinhar nesta visão panorâmica do cooperativismo na Região


Sudeste do Brasil, um movimento que se inicia em meados da década de
1990 no Rio de Janeiro e alcança o país em menos de seis anos.
Em 1995, teve início o programa de extensão universitária da Incubadora
Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP), originário da Coordenação
dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (COPPE/ UFRJ). O objetivo desta iniciativa era utilizar os recur-
sos humanos e conhecimento da universidade na formação, qualificação e as-
sessoria de trabalhadores para a construção de atividades autogestionárias
cooperativas visando sua inclusão no mercado de trabalho (Guerreiro &
Inessa, 1999; Guimarães, 1999).
O conceito que consubstancia este projeto parte do princípio de que a
universidade, quando responsável pela proposição e execução de um projeto
de intervenção econômica e geração de trabalho e renda, como as Incubado-
ras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs), acaba desenvolvendo de
forma plena seus preceitos de extensão universitária (UNITRABALHO &
ICCO, 2002).
Historicamente, então, o programa está intimamente relacionado a uma
busca de resposta aos efeitos socioeconômicos gerados pelo movimento de
financeirização da economia e pela reestruturação produtiva, somados à
privatização das empresas públicas brasileiras. Ou seja, conforme apresenta-
do anteriormente no ponto relativo ao cooperativismo do ramo do trabalho,
também as ITCPs visavam dar uma resposta aos trabalhadores desemprega-
dos e aos que nunca conseguiram ser incluídos deste mercado de trabalho –
os informais.
Pelo exposto anteriormente, observa-se algumas tendências para o
cooperativismo no início do Século XXI. Um dos principais pontos levanta-
dos pelos entrevistados foi a falta de uma maior qualidade dos profissionais
que atuam no gerenciamento das cooperativas. Outro ponto salientado foi a
dificuldade das cooperativas em se capitalizarem e obterem créditos para
consolidar e ampliar suas atividades.
Se, por um lado, o cooperativismo agropecuário no Sudeste apresenta-se
cada vez mais profissionalizado, mecanizado e competitivo ao nível global,
por outro, o ramo de atividade que mais cresce – cooperativas de trabalho –
concentra um enorme contingente de cooperados com baixa qualificação
profissional e educacional.
Os principais desafios colocados são: criação de uma sistema de crédito
às cooperativas que consiga beneficiar tanto às cooperativas ligadas ao
agronegócios, como às cooperativas de trabalho de baixa tecnologia e valor
agregado; ampliação das assessorias às cooperativas em todo o Sudeste; cria-
ção de um marco legal do cooperativismo ao nível dos principais municípios
da Região com poder de influenciar outros municípios na concessão de
benefícios na constituição de cooperativas formadas por população oriunda
de áreas de exclusão social; ampliação do impacto das ações das universida-
des do Sudeste relacionadas não apenas às cooperativas populares, mas, tam-
bém, na condução da formação de quadros qualificados para a gestão de

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complexos cooperativos e; reforçar o papel da universidade na discussão am-


pla dos princípios do cooperativismo visando uma maior democracia interna
nas decisões do grupo e uma maior mobilidade nos órgãos diretivos com
ampliação da participação feminina nestes órgãos e conselhos.

2.5 Região Sul

O cooperativismo na região Sul deve ser entendido como um processo


descontínuo, fundado na pluralidade de práticas sociais datadas e localiza-
das historicamente (alemães, italianos e experiências cooperativas derivadas
dos nossos grupos étnicos) que ao propor a autonomia do “nós”, qualificou
um tipo de relação social – a cooperação entre pessoas –, porque o sentido
destas práticas sociais tinha por base a reciprocidade, a confiança, o respeito
ao outro.
Convém salientar que a repertorização e a volta no tempo é muito mais
que um movimento, mas um artifício metodológico de resignificação do pre-
sente. Os fundamentos de uma sociedade solidária baseada no trabalho cole-
tivo onde o bem-estar individual e da comunidade está acima do interesse
econômico da produção não é resultado do acaso.
No Brasil e em especial na região Sul, este tipo de ação associativa qualifi-
cada tem seus fundamentos nas práticas da comunidade indígena (mutirão),
na ação dos jesuítas e no seu projeto civilizatório (1610) e principalmente na
ação do médico francês e Jean Maurice Faivre que, em 1847, no Paraná, fundou
a colônia Tereza Cristina, organizada em bases cooperativas “fourerianas”.
Na região Sul, este processo associativo do cooperativismo traduz-se em
um movimento de duas vertentes : a primeira, resultado de uma ação coleti-
va mais plural e, a segunda de origem estatal e vinculada a uma política de
governo que pode ser visualizado em três momentos, descritos a seguir.
O primeiro momento ocorreu no início do século XX e constituiu-se nas
bases do cooperativismo.
Não se pode dissociar a emergência do movimento cooperativo, que ini-
cia no Rio Grande do Sul em 1902 com Theodor Amstadt7, das pressões da
economia internacional aliada aos processos de organização dos Estados-
nação na América. Instaura-se uma forma de atuar do Estado em que a ques-
tão social das áreas rurais e de colonização passa a ser elemento tangencial e
secundário nas propostas e projetos de desenvolvimento.
Este cenário concorre para que, no interior do Brasil e, em especial, na
Região Sul, se desenhe uma configuração social fragmentada e imensamente
diversificada, seja pela emergência de grupos demandantes de múltiplos in-
teresses e de múltiplas identidades, seja pela diferenciação que se apresenta
nas novas formas de organização do processo produtivo (pequena proprie-
dade), no agir político e no comportamento da sociedade civil isolada e não
participativa, porque estrangeira e/ou minoritária (Oliveira, 2001).
Evidentemente, que nestas primeiras três décadas do cooperativismo do
século XX os imigrantes tiveram um papel de destaque porque tiveram a
capacidade de desenvolver suas próprias soluções para questões de fundo;

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tal fato marca o cooperativismo de forma singular porque o associativismo se


evidencia como alternativa concreta para evitar a dissociação crescente da
vida cotidiana (universo instrumental da economia) dos valores e sentidos
que pautavam o comportamento das pessoas (universo simbólico das cultu-
ras) e o vazio social e político das áreas/regiões de colonização (Schneider,
1998).
Neste período, o cooperativismo traduz ações estratégicas individuais e
coletivas cuja meta não é criar uma outra ordem social, mas acelerar as mu-
danças, o movimento, a circulação de capitais, bens, serviços, informações,
atuando como substituto do Estado na promoção do desenvolvimento nas
áreas rurais (Duarte, 1986).
O quadro de dissociação crescente dos grupos interioranos de seus valo-
res e o vazio social indica que as dificuldades de constituição de sujeitos soci-
ais foi a primeira realidade enfrentada na região sul, principalmente porque,
no início do século XX, no interior das áreas rurais, a questão do sujeito social
(coletivo) só era entendida a partir do modelo institucional e representativo
(que tinha nas associações políticas seu modelo mais significativo) e, por isso
mesmo, as demandas eram elaboradas e delineadas institucionalmente de
forma compartimentada a partir da divisão de temáticas que valorizavam as
lutas na ótica da cidade (Singer, 2000).
Os anos de emergência do cooperativismo se caracterizaram, na região
sul, principalmente pela existência de articulações plurais nas quais os indi-
víduos buscam no coletivo construir estratégias de sobrevivência de um mun-
do estranho e em transformação.
Percebe-se que, na afirmação dos princípios cooperativos, o “sujeito
coletivo” construído pelos imigrantes adquiriu um sentido social mais amplo,
na medida em que transforma uma estratégia de sobrevivência em um movi-
mento social. Esse esforço de se tornar ator não deve ser confundido com um
conjunto de experiências orientado por um princípio superior, e sim no
desejo que todo indivíduo e/ou grupo social tem de resistir ao seu próprio
desmembramento num universo em movimento, sem ordem ou equilíbrio.
Cada movimento de “resistência” organizado pelo cooperativismo daque-
la época deve ser entendido como um movimento de mudança, na medida
em que na cooperativa o grupo de associados tinha que inventar e diferenci-
ar-se daquilo que já existia (carências e demandas não atendidas) para cons-
truir um outro futuro: o desenvolvimento daquilo que antes se encontrava
envolvido numa coexistência indiferenciada e de precariedade.
O segundo momento pode ser delineado como os anos da tutela e do
controle, estando situados entre as décadas de 40 e 70. Neste período, essa
nova configuração do comportamento social se consolida na região Sul, fin-
cando raízes na ação social e no próprio processo social.
Do surgimento de cooperativas de eletrificação rural e telefonia (1941),
das primeiras federações de cooperativas (1952) e do desdobramento acen-
tuado das cooperativas de produção (madeira, tritícolas, 1956), percebe-se a
complexidade do movimento na emergência de empreendimentos tão diver-
sificados quanto complementares (OCB, 1997).

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Por outro lado, a nova configuração da economia marcada pelo cenário


internacional de pós-guerra concorre para uma política governamental de
incentivo das cooperativas de produção que desenha a partir do setor produ-
tivo rural (mais significativo economicamente) um cooperativismo crescen-
te, mas cada vez mais dependente das políticas do Estado.
Face às políticas do Governo Federal concedendo isenções tributárias e
facilidades de crédito, há um crescimento significativo de um movimento
cooperativismo passivo que reage apenas aos estímulos de um modelo eco-
nômico determinado pelo Estado. É neste período que surgem as cooperati-
vas habitacionais (1963) e ocorre o declínio das cooperativas de crédito rural,
motivado pela lei de Reforma Bancária de 1964, causando o desaparecimento
de quase todas as cooperativas. Neste período, o cooperativismo deixa de ser
um espaço plural e democrático para transformar-se num instrumento das
políticas governamentais e de apoio ao modelo econômico agro-exportador
(Benecker, s/d).
Por fim, o terceiro momento pode ser denominado de reafirmação de
um espaço plural, tendo sido iniciado na década de 80.
A nova configuração da economia, marcada pelas transformações tecno-
lógicas da informática e da microeletrônica, concorre para que o contexto
social deste período se caracterize por uma crescente e cada vez maior
interdependência nas relações mundiais. Interdependência que – associada
à valorização excessiva do liberalismo – configura, não só em nosso país, uma
profunda crise social representada por índices crescentes de desemprego,
miséria, desigualdades e exclusão social.
Nesse sentido, os anos 80/90 concorreram para um esforço de releitura
do movimento cooperativista na região Sul, principalmente porque a realida-
de do associativismo nesta região se apresenta como uma combinação de
movimento social e do sujeito aparentemente contraditórios e excludentes,
mas que, na verdade, traduzem um processo social que articula atores dife-
renciados e introduz a noção mutação no agir cooperativo.
Não é a crise, mas as novas formas de organização econômica e da pro-
dução que estão dissolvendo os contornos da sociedade industrial. A muta-
bilidade das ações sociais se expressa e é sinalizada pela horizontabilidade
das relações sociais, na formação de redes, favorecendo ao modo diferencia-
do de pensar a economia a partir da cooperação.
Se, até recentemente, o cooperativismo, enquanto sistema, proporciona-
va uma forma de organização da produção e social no qual o conceito de
cooperação designava um estágio da modernidade e desenvolvimento nas
áreas rurais – cuja meta não era criar uma outra ordem social, mas acelerar as
mudanças, o movimento, a circulação de capitais, bens, serviços, informa-
ções – hoje ele aparece como uma alternativa de pensar o econômico a partir
de uma pluralidade. Pluralidade necessária nas sociedades contemporâneas
cujas bases se vêem confrontadas com os limites do modelo proposto pela
sociedade industrial.
Modelo este que não tem capacidade ou condições internas para mo-
dificar suas políticas ou refletir sobre os efeitos perversos que modelaram o

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futuro e que evidencia uma crise institucional profunda da própria sociedade


industrial.
Nesse sentido, o cooperativismo, como sistema, pode dar um salto quali-
tativo, porque a emergência de novas cooperativas (educacionais, saúde, tra-
balho, turismo e lazer, infra-estrutura, especial) de caráter essencialmente
urbanos, muito mais que uma estratégia de sobrevivência em uma sociedade
de risco, apontam para a ruptura de uma política de continuidade e no pensar
o econômico sob outras perspectivas.
O crescimento do cooperativismo na região sul dificilmente pode ser pas-
sível de compreensão sem a idéia de descoberta, de avanço das formas
organizativas nas áreas urbanas que se dão de forma dispersa e longe dos
processos de controle ou monitoramento promovidos pelas Organizações
Cooperativas dos Estados – OCES é por isso que as causas do fenômeno
associativo e cooperativo na Região Sul já não parecem encontrar-se no pas-
sado, mas no futuro. Os dados que seguem, mesmo sinópticos, buscam dese-
nhar como o cenário cooperativo se apresenta na região Sul.
Ante ao exposto pode-se tecer algumas conclusões a respeito do coopera-
tivismo na região, a saber:
a) Afirma-se como um modo do agir coletivo segundo o qual os princípios da
ação social se formam na experiência concreta concorrendo historicamen-
te por um lado para a formação de diferentes setores produtivos (é expressi-
vo os indicadores de crescimento no segmento trabalho e crédito) e de outro
para a consolidação de uma estratégia de defesa de grupos sociais margina-
lizados pelas políticas macro-econômicos (a emergência de cooperativas de
produção, infra-estrutura traduzem este movimento);
b) Resulta de um conjunto de ações realizadas por pessoas mobilizadas a par-
tir de um projeto, que busca superar dificuldades em função de um interes-
se comum e que, na maior parte das vezes, mesmo revelando-se sem fins
lucrativos, consegue ser gerador de trabalho e renda (é expressivo como os
valores do capital social conseguem alavancar o crescimento dos empreen-
dimentos cooperativos);

O sistema cooperativista na região sul assim como no país, mesmo atu-


ando sob os limites das políticas de Estado governamentais, se evidencia
como um espaço sócioeconômico capaz de qualificar a cooperação pelo ato
imediato de reunir pessoas e/ou forças de cada um para produzir uma força
maior.
O volume de capital social dos empreendimentos cooperativos aponta
para o aproveitamento das potencialidades atuais das comunidades de modo
a não comprometer o desenvolvimento da região. Muito mais do que PIB
cooperativo (valor de faturamento) os dados apontam para um capital social
existente na Região que pode ser compreendido, como define Puttnan (1996),
como uma amálgama de elementos como confiança, coesão social, civismo,
lutas e projetos conjuntos que facilitam a cooperarão para o benefício mútuo
em uma sociedade.
Nesse sentido, o cooperativismo, como sistema, vai além da celebração
de um contrato mútuo que estabelece obrigações visando objetivos comuns.

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A essência desta sociedade civil ao estar fundada na repartição do ganho, na


união de esforços e no estabelecimento de um outro tipo de agir coletivo
possibilita a implementação de um outro tipo de ação social, porque recusa a
lógica economicista que reduz o fazer humano a busca racional do interesse
próprio. Assim, a prática cooperativa ao não se deixa seduzir pela ânsia do
lucro, abre possibilidades de pensar a cooperação como um espaço social
plural e não instrumental.
Finalmente, para facilitar a compreensão da dinâmica do movimento
cooperativo brasileiro faz-se necessário observar o número de organizações
existentes, o volume de negócios, sua distribuição nas regiões do país, o perfil
do quadro social e os ramos de maior representatividade, dentre outras variá-
veis. Essas questões serão analisadas detalhadamente nos próximos capítulos.

3. AS COOPERATIVAS EXISTENTES NO BRASIL

A partir da década de 90, o cooperativismo brasileiro vem apresentando um


crescimento efetivo no número de organizações, tendo essa tendência ainda
mais acentuada, a partir da metade dessa mesma década.
Assim, em 1990, podemos constatar a existência de 4.666 cooperativas
registradas no Departamento Nacional de Registro Comercial (DNCR), sal-
tando para 20.579 cooperativas em 2001. Isso equivale a um crescimento de
331% no número de cooperativas no Brasil em uma década.
Esta mesma tendência de crescimento também pode ser verificada quan-
do analisamos os números de cooperativas filiadas a maior entidade repre-
sentativa do cooperativismo brasileiro – a Organização das Cooperativas
Brasileiras (OCB). No ano de 1990, a OCB possuía 3.440 cooperativas afilia-
das, número que saltou para 7.026 cooperativas em 2001, apresentando um
crescimento de 104% ao longo da década de 90 (Gráfico 1).

GRÁFICO 1

Evolução do número de cooperativas no registradas no DNCR


e no sistema OCB entre 1990 e 2001

25000

20579
OCB
20000 18309
Juntas Comerciais 16377
14108
15000
11897

9559
10000
7768
6905
6281
5108 5550
4666
7026
5000 6082
5652
4851 5102
3928 4316
3440 3529 3548 3608 3701

0
1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001

Fonte: OCB, 2002 e DNCR, 2002

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92 • uniRcoop • Vol. 1, # 2, 2003

A constatação de registros diferentes divulgados pelas entidades, indi-


cando um número bem mais expressivo no DNCR, justifica-se pelo fato da
exigência governamental de condicionar o funcionamento das cooperativas
ao registro neste órgão oficial. O mesmo não acontece em relação a OCB,
onde a filiação torna-se optativa.
Podemos constatar um intenso fenômeno de criação e constituição de
cooperativas no Brasil a partir de 1996, onde se contabilizou uma média de
2.193 novas cooperativas por ano, superior à média de crescimento entre 1990
e 1995, que era da ordem de 615 novas organizações por ano. Este fato é atribu-
ído ao cenário econômico brasileiro que se instalou no Brasil a partir de 1994
com o processo de estabilização monetária (Plano Real). Contribui também
para isso, o processo massivo de terceirização das atividades públicas e priva-
das por meio das cooperativas, favorecido por um dispositivo legal – Lei no.
8.949/ 94 que altera o artigo 442 da Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT.
Por outro lado, a taxa de encerramento formal de atividades das cooperati-
vas apresentou também uma alta taxa de crescimento em termos percentuais.
Todavia, em termos absolutos, verifica-se que este número ainda é bastante
inferior ao número de novas cooperativas que surgem no Brasil. No período
de 1990 e 1995, uma média de 18 cooperativas encerrava oficialmente suas
atividades por ano, enquanto que, a partir de 1996, esta média subiu para
58 cooperativas fechadas durante todo ano.

3.1 Distribuição geográfica

O Brasil está dividido, como já observamos, em cinco grandes regiões geográ-


ficas, caracterizadas por diferentes níveis de concentração demográfica e de-
senvolvimento sócioeconômico; o que sugere uma análise da distribuição
das cooperativas brasileiras segundo a divisão geopolítica regional.
Assim, tomando por base os anos de 2000 e 2001, constata-se que a dis-
tribuição das cooperativas nas regiões do Brasil apresenta uma relação estrei-
ta com o tamanho da população e com as atividades econômicas avaliadas
através do PIB. Uma exceção pode ser verificada na região Nordeste, onde
apesar de ter um PIB inferior a região Sul, apresenta um maior número de
cooperativas.
A maior concentração de cooperativas encontra-se na região Sudeste do
país – 42,6% dos 176 milhões de habitantes – coincidindo, portanto, com o
maior contingente populacional do país, e onde foram gerados 57,9% do PIB
nacional (aproximadamente 500 milhões de dólares). Nessa região, de acordo
com os registros no DNCR, observou-se, no ano de 2001, 41,5% das coopera-
tivas do Brasil, enquanto os registros da OCB indicavam que nesta região
estavam situadas 45% do total das cooperativas brasileiras (Gráfico 2).
Segundo dados do DNCR, na região Sudeste, entre 1990 e 1995 eram
constituídas, em média, 234 cooperativas por ano. A partir de 1996 esta média
foi de 1.014 novas cooperativas constituídas por ano. Isto representou um
aumento de 433% na média entre os dois períodos considerados. Ainda
considerando esses mesmos períodos, observou-se que o número de coope-

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uniRcoop • Vol. 1, # 2, 2003 • 93

rativas fechadas deu-se em proporções semelhantes àquelas constituídas


(DNCR, 2003).
A segunda região que apresentou uma maior concentração de cooperati-
vas foi a região Nordeste, onde estavam situados 28,1% do total de habitantes
do país e na qual foram gerados 13,1% do PIB (Gráfico 2). No ano de 2001,
conforme registros no DNCR, esta região concentrava 23% do total de coope-
rativas brasileiras, enquanto os registros da OCB indicavam 21,8% do total de
cooperativas (Gráfico 2).
A média de surgimento de novas cooperativa na região Nordeste passou
de 143 cooperativas constituídas por ano entre 1990 e 1995 para 433 novas
cooperativas por ano a partir de 1996. Já o número de cooperativas que en-
cerraram suas atividades neste período, apresentou, em termos percentuais,
um crescimento similar àquelas constituídas (DNCR, 2003).
A região Sul foi a terceira de maior concentração de cooperativas. Nesta
região estava concentrada 14,8% da população brasileira e gerava 17,5% do
PIB brasileiro. Em 2001, na região Sul, segundo dados do DNCR, estavam
situadas 16,8% do total das cooperativas do Brasil, enquanto os dados da
OCB apontavam que nesta região estavam estabelecidas 18,3% cooperativas
brasileiras (Gráfico 2).
De modo análogo à tendência apresentada por outras regiões, no período
de 1990 a 1995, foram constituídas em média 86 novas cooperativas por ano,
enquanto que entre 1996 e 2001, foram constituídas em média 366 novas coo-
perativas por ano. O encerramento de cooperativas também cresceu entre os
dois períodos analisados, em termos percentuais e absolutos (DNCR, 2003).
As regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil concentravam, respectivamen-
te, os menores números de cooperativas no país, sendo também as áreas de
menor contingente populacional e menor participação no PIB.
A região Centro-Oeste possuía 6,9% do contingente populacional brasi-
leiro e uma participação 6,9% na geração do PIB. A OCB computava 7,5% do
total de cooperativas e 10,3% no número de cooperativas brasileiras (Gráfico
2). Nessa região, entre 1990 e 1995, houve uma média de 88 novas cooperati-
vas por ano, saltando para uma média de 179 novas cooperativas entre 1996 e
2001 (DNCR, 2003).
Por fim, na região Norte, estavam situadas 8,2% das cooperativas brasilei-
ras, segundo os dados do DNCR, no ano 2001, e 8,4% de acordo com os dados
da OCB. Esta região concentrava 7,6% da população do país, sendo gerados
na sua área de abrangência 4,6% do PIB nacional (Gráfico 2). A média de fun-
dação de novas cooperativas na região Norte do Brasil passou de 63 coopera-
tivas por ano, no período entre 1990 e 1995, para 167 por ano, no período
entre 1996 e 2001 (DNCR, 2003).
Finalmente, estes dados são ilustrativos para evidenciar o dinamismo,
potencial e tendência de crescimento dos empreendimentos cooperativos no
Brasil. Todavia, a tendência de crescimento do cooperativismo em áreas de
intenso dinamismo econômico constitui um indicativo importante no condi-
cionamento da dinâmica cooperativa, acenando para futuros estudos sobre o
movimento cooperativo brasileiro.

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GRÁFICO 2

Distribuição do número de cooperativas, da população e do PIB nas


cinco regiões geográficas do Brasil no ano 2000/2001

Cooperativas

Juntas
Comerciais

Cooperativas
OCB

População

PIB

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%

Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul

Fonte: OCB, 2002; IBGE, 2002 e 2003

3.2 Perfil do quadro social e administrativo

De acordo com a OCB, em 2001, as cooperativas brasileiras registravam


4.779.174 cooperados nos seus quadros. Contudo, se considerarmos os regis-
tros das Juntas Comerciais este número se eleva para mais de 17 mil coopera-
dos. Assim, podemos concluir que existe um número bem superior de
cooperados no Brasil do que o revelado pela OCB. Entretanto, nesta pesquisa,
convencionou-se tomar os dados da OCB como fonte principal de análise
por congregar o maior conjunto de dados sobre o perfil do cooperativismo
brasileiro.
No que concerne a questões de gênero no quadro social, constatou-se
que menos 10% dos presidentes de todas as cooperativas do Brasil são do
sexo feminino, denotando uma pequena participação feminina na direção
das cooperativas até o ano de 2001. Apenas 696 cooperativas do Brasil são
dirigidas por mulheres, sendo que em sua maioria, ou seja, 50,7% do total,
estão situadas na região Sudeste (OCB, 2002). A região Nordeste, por sua vez,
concentrava 28% do total de dirigentes femininas do Brasil, enquanto que a
região Sudeste possuía 10,5 do total de dirigentes femininas (Gráfico 3).
No que concerne ao número de empregos gerados, as cooperativas fo-
ram responsáveis por um total de 175.412 postos de trabalho no ano de 2001
(OCB, 2002).
Contudo, é na região Sul, e não na Sudeste, que se concentrava o maior
número de postos de trabalho gerados pelas cooperativas no país. As coope-
rativas desta região, em 2001, foram responsáveis pelo emprego de 43% de
toda a mão-de-obra contratada diretamente pelo setor cooperativo brasilei-
ro, ao passo que na região Sudeste as cooperativas geravam 40,9% dos postos
de trabalho (Gráfico 3).

01.Unircoop.Vol.1, no2.Final 94 10/30/03, 4:14 PM


uniRcoop • Vol. 1, # 2, 2003 • 95

GRÁFICO 3

Freqüência de cooperativas, cooperados, presidentes do sexo feminino


e empregados nas regiões do Brasil, no ano de 2001

COOPERATIVAS

COOPERADOS

EMPREGADOS

DIRIGENTES
FEMININAS

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%

CENTRO OESTE NORDESTE NORTE SUDESTE SUL

Fonte: OCB, 2002

3.3 Relações com o Estado

Os maiores ramos do cooperativismo brasileiro até a década de 80 – o agríco-


la e o de crédito – tinham por principal fonte de financiamento externo os
recursos governamentais. A redução dos recursos orçamentários governa-
mentais face à crise que abateu o Estado Brasileiro a partir de então, aliado ao
processo inflacionário crescente, fez com que os recursos financeiros desti-
nados às cooperativas minguassem e o endividamento aumentasse (Silva,
2000)
Concomitantemente a isto, o fechamento do Banco Nacional de Crédito
Cooperativo – BNCC, a redução contínua do preço das commodities agríco-
las, além de graves problemas administrativos desencadearam uma grande
crise financeira nas cooperativas agrícolas, resultando no fechamento de
muitas delas (Panzutti, 2000; Silva, 2000).
Para mitigar os efeitos do processo de endividamento contínuo e cres-
cente, o Governo Federal, no final da década de 90, lançou o Programa de
Revitalização das Cooperativas Agropecuárias Brasileiras – RECOOP, visando
à reestruturação das cooperativas endividadas8. O RECOOP engloba além de
aspectos tradicionais para soerguimento do empreendimento – como os de
ordem técnica e econômico-financeira – uma proposta inovadora que contem-
pla a capitalização continuada da cooperativa, inclusive prevendo a fusão,
desmembramento, incorporação ou associação a empresas não cooperativas,
além da profissionalização da gestão cooperativa, organização e profissiona-
lização dos cooperados.
Ante ao conjunto de exigências demandas pelo Governo Federal para o
enquadramento no RECOOP até o ano 2001, apenas um pequeno número de

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organizações, situado em sua grande maioria na região Sul e Sudeste do país,


foi contemplado por este programa.
O Governo (federal, estaduais e municipais), de maneira geral, tem trata-
do as cooperativas de modo análogo ao das empresas mercantis, sendo as
cooperativas do ramo de trabalho e saúde as mais afetadas, ante a quantida-
de de tributos e o seu impacto sobre o faturamento bruto, acarretando graves
problemas de competitividade para as organizações. Assim, uma das grandes
dificuldades com que se depara as cooperativas brasileiras são os elevados
percentuais de tributos, federais, estaduais e municipais.

3.4 Ramos cooperativos

O cooperativismo brasileiro está estruturado em treze ramos, a saber: agro-


pecuário, consumo, crédito, educação, especiais, habitação, mineral, produ-
ção, infra-estrutura, trabalho, saúde, turismo e lazer, transporte de cargas e
passageiros (OCB, 2002).
Com efeito, a divisão por ramo facilita a visualização de peculiaridades
referentes a grupos específicos de cooperativas, de modo a propiciar um me-
lhor entendimento da formação, estrutura, composição e participação nos
diversos setores econômicos.
A composição por ramo vem sofrendo, ao longo do tempo, significativas
alterações. A partir da década de 40 até a década de 60, por exemplo, alguns
ramos ou setores do cooperativismo destacaram-se ante a sua participação,
em termos percentuais, no total de cooperativas (Gráfico 4).
Nesse período supracitado, o ramo das cooperativas agropecuárias cons-
tituiu-se como principal representante do cooperativismo brasileiro, tendo
em vista que a própria estrutura econômica do país, era eminentemente agrí-
cola. Funcionando como unidades de comercialização de produtos dos asso-
ciados, revendas de insumos e assistência técnica, as cooperativas do setor
agrícola englobavam tanto os produtores rurais do setor agrícola quanto do
setor pecuário 9. Há de se salientar, nesse sentido, que o cooperativismo agrí-
cola continua sendo o mais forte em termos de volume de negócios e empre-
gos gerados.
Juntas, as cooperativas do setor agrícola empregavam, no Brasil, um con-
tingente de 108.273 trabalhadores, o que representava 61,2% do total de pos-
tos de trabalho gerados por todas as cooperativas brasileiras. Contudo,
deve-se atentar para o fato que estes postos de trabalho são gerados princi-
palmente pelas grandes cooperativas localizadas na região Sul e Sudeste do
Brasil.
Com a proliferação de cooperativas singulares e ante a modernização e
industrialização do setor agrícola na década de 70 e 80 surgiram, então, várias
centrais de cooperativas (federações) nos estados brasileiros, as quais tinham
por finalidade ter um maior ganho de escala nas atividades, com a horizontali-
zação e verticalização das atividades de produção, beneficiamento e industria-
lização de produtos agropecuários. As centrais de cooperativas atuavam na
cadeia produtiva do algodão, soja, milho, leite, frango, dentre outros produtos.

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uniRcoop • Vol. 1, # 2, 2003 • 97

Um fato a destacar é que estas centrais (federações) não conseguiram estabe-


lecer um processo de intercooperação capaz de originar uma confederação
regional ou nacional. Registra-se apenas uma única confederação de coope-
rativas no Brasil ligada ao setor lácteo.
É importante sublinhar que, durante a década de 90, verificou-se que o
número de cooperativas agrícolas apresentou bastante estabilidade, tendo
havido um crescimento de apenas 13,3% no número destas organizações ao
longo do período considerado. Há que se considerar, inclusive, que, entre
1993 e 1995, observou-se uma involução no número das cooperativas agríco-
las no Brasil. Somente a partir de 1999 constatou-se um discreto aumento no
número de cooperativas do setor agrícola (Gráfico 5). Tal fato provocou uma
queda na participação deste ramo no cooperativismo nacional. Em 1990,
havia 1400 cooperativas agrícolas, as quais representavam 39,2% das coope-
rativas do Brasil, sendo que em 2001 registrou-se 1.587 cooperativas, as quais
correspondiam a 22,6% do total de cooperativas do Brasil (OCB, 2002).
Por sua vez, o número de associados às cooperativas agrícolas em 2001
era de 822.292 cooperados, os quais representavam 17,2% do total de coope-
rados brasileiros (OCB, 2002). As cooperativas do setor agrícola detiveram,
no ano 2000, uma importante parcela de atuação nas cadeias produtivas, tor-
nando-as responsáveis pela produção de 62% do trigo, 44% da cevada e 28%
da soja do Brasil
Quanto aos principais produtos da pauta de exportação destacam-se,
em ordem decrescente: açúcar, café, soja e carne, o que denota o baixo valor
agregado das exportações das cooperativas do setor. Já o volume de exporta-
ções apresentou um crescimento de 72,3% entre 1990 e 2001, passando de U$
657 mil dólares para U$1.132 no referido período. Não obstante o aumento
do faturamento com exportação houve uma tendência na diminuição do
número de cooperativas exportadores neste período (OCB, 2002). No que diz
respeito à variação do volume de exportações observada ao longo da década
de 90 decorreu de vários fatores internos e externos à organização, envolven-
do aspectos relativos ao tamanho da safra nacional e internacional, política
de preços internacional, políticas de estímulo à exportação e diferença cam-
bial, entre outros aspectos (FGV, 2002; OCB, 2001 e 2002).
Contudo, o processo de modernização e industrialização da agricultura
fez emergir outros setores do cooperativismo nacional, como as cooperativas
de crédito e o de saúde, na década de 70 e 80. Neste ínterim, o setor industrial
e de serviços passam a ser os principais responsáveis pelo PIB brasileiro,
incrementando a participação, em termos percentuais, das cooperativas de
trabalho no setor cooperativo brasileiro.

01.Unircoop.Vol.1, no2.Final 97 10/30/03, 4:14 PM


98 • uniRcoop • Vol. 1, # 2, 2003

GRÁFICO 4

Evolução dos empreendimentos cooperativos no Brasil, por segmento


de atuação e em percentual entre a década de 40 e a década de 90

DEC 90

DEC 80

DEC 70

DEC 60

DEC 50

DEC 40

0% 20% 40% 60% 80% 100%

AGROPECUÑARIO CONSUMO CREDITO EDUCACIONAL


HABITACIONAL SAUDE TRABALHO Demais setores

Fonte: OCB, 2001

A partir da década de 70 o setor de serviços começa a se destacar no


cooperativismo brasileiro e passa a ter uma crescente participação no PIB.
Como neste ramo estão agrupados diversos profissionais, das mais diferentes
áreas de atividade, tornou-se necessário segmentá-los por grupos específicos
de trabalho, a exemplo dos trabalhadores da área de saúde e de transporte,
com vista a possibilitar o desenvolvimento de estratégias e políticas específi-
cas para cada grupo de trabalho (OCB, 2001 e 2002).
Assim, o ramo de cooperativas de trabalho passou a ser estruturado com
base em três grandes grupos: o primeiro grupo foi o dos profissionais que
trabalhavam com artesanato (1,8% do total das cooperativas); o segundo
composto por profissionais das artes, educação e cultura (professores e ins-
trutores técnicos) – 4% do total das cooperativas; e o terceiro composto por
uma diversidade de profissionais dos mais diferentes níveis de escolaridade
desenvolvendo serviços diversos (94,2% do total). Atualmente, estas coopera-
tivas estão agrupadas em Federações e uma Confederação.
Entre 1990 e 2001 o ramo trabalho apresentou um crescimento de 280%,
passando de 629 cooperativas em 1990 para 2391 em 2001. Comparativamen-
te, em 1990, as cooperativas de trabalho representavam 17,7% do total de
cooperativas do Brasil e, em 2001, esta participação já tinha alcançado 34,4%
do total de cooperativas (OCB, 2002).
Um fato que contribui sensivelmente para o crescimento do número de
cooperativas durante a década de 90 está relacionado à elevação da taxa de
desemprego e à aceleração do processo de terceirização que impeliram os
trabalhadores a buscar novas formas de organização.

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uniRcoop • Vol. 1, # 2, 2003 • 99

No final da década de 90, com o avanço das discussões em torno da


economia solidária, terceiro setor e a problemática de inserção dos excluídos
no mercado de trabalho, começam a surgir novos ramos de cooperativas que
começam a ocupar um espaço de destaque tanto no mercado como no movi-
mento cooperativista.

4. TENDÊNCIAS E DESAFIOS DO COOPERATIVISMO BRASILEIRO

O cooperativismo brasileiro, através da literatura nacional e de seus órgãos


de representação, revela a preocupação com a modernização e com a revitali-
zação das práticas cooperativas, seja para atender aos apelos econômicos da
globalização, seja para atender aos apelos éticos da contemporaneidade, es-
pecialmente no que diz respeito à ampliação da democracia. Isso significa
que, particularmente num país como o nosso, o cooperativismo traz em si
duplo apelo: de emancipação econômica e de emancipação política (Pires,
1999).
Os dados da Pesquisa indicam que o “ser cooperativista” traduz não ape-
nas um critério meramente econômico, mas vem junto com um “código”
apreendido continuamente na prática cotidiana e que se reproduz em efeitos
culturais presentes nas formas de ajuda mútua, do associativismo e da busca
de autonomia na promoção do desenvolvimento local.
As informações das diferentes regiões do país remetem à compreensão
do associativismo cooperativismo como alternativa possível para alavancar
processos de geração de renda e trabalho através de alianças e parcerias.
Apesar das dificuldades, hoje, é possível observar que o cooperativismo
brasileiro se inscreve numa nova perspectiva histórica do país que coincide
com as mais recentes conquistas democráticas. A vitória de um ex-torneiro
mecânico nas últimas eleições presidenciais, bem como a inclusão das práti-
cas cooperativas na sua plataforma de governo são alguns dos indicadores da
construção de uma nova página da história do cooperativismo brasileiro.
Neste sentido, é possível afirmar que o futuro do cooperativismo está
condicionado aos encaminhamentos das questões mais amplas pela socie-
dade brasileira. Percebe-se, entretanto, um novo vigor às discussões sobre o
futuro do cooperativismo brasileiro a partir do esforço entre os órgãos de
representação, gestores, membros associados, órgãos públicos e intelectuais
– em procurar redefinir o perfil e reconquistar a credibilidade do coopera-
tivismo junto ao conjunto da sociedade.
O papel da academia, nesse conjunto de esforços, deverá ser inestimá-
vel, representando uma maior aproximação com o movimento cooperativo.
Os “programas de incubadora” constituem um sinal evidente nessa direção.
Tais programas contemplam projetos de apoio e capacitação voltados aos
gestores e demais membros de cooperativas dos mais diversos segmentos com
o objetivo de criar e dinamizar as possibilidades de sucesso das cooperativas.
A presente pesquisa apontou para duas questões que sugerem novas fon-
tes de pesquisa:

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100 • uniRcoop • Vol. 1, # 2, 2003

1. Que o crescimento de determinados segmentos ou ramos do cooperativismo


indica que a exclusão social precisa ser entendida como um processo que
cada vez mais atinge a um número não negligenciável de pesssoas presas a
engrenagem da pobreza em meio a uma crescente abundância. Nesse senti-
do, o cooperativismo se reveste como uma das alternativas para dar conta
das carências.
2. Que a busca de melhores condições de vida para as regiões, apresentadas
no histórico do cooperativismo brasileiro sugere uma nova prática social –
de cidadania emancipada – que implica em reconhecer que nos processos
de inovação política a solidariedade que concorre para neutralizar a exclu-
são social.

Para concluir, é possível admitir que pensar o desenvolvimento do


cooperativismo no Brasil implica em alguns desafios:
O primeiro grande desafio é o de pensar o desenvolvimento sustentável,
visto que nossos modelos de desenvolvimento estão baseados no uso pródigo
de recursos não-renováveis que ameaçam o bem estar das gerações futuras.
O segundo desafio diz respeito ao estabelecimento da globalização da
solidariedade e da “cooperação qualificada”. Essa última, especialmente,
pensada a partir de políticas públicas nacionais que favoreçam a sua imple-
mentação e também, em nível mais amplo, a partir de projetos de coopera-
ção e intercooperação dentro do sistema cooperativo que sempre foram mais
formais do que reais.
Nesse sentido, o projeto de pesquisa “Panorama do Cooperativismo Bra-
sileiro: história, cenários e tendências” sinalizou, antes de mais nada, que a
construção do cooperativismo que se deseja – capaz de ser mais includente e
contribuir para a ampliação dos espaços democráticos – precisa ser gerado a
partir da discussão das situações de pobreza e exclusão social bem como da
compreensão do papel do sistema cooperativo nas diferentes regiões que
compõem o Brasil.

NOTAS

1. Sobre o assunto ver: Fernandez et al (1981); Loureiro (1981); Corandini & Fredericq
(1982), Araújo(1982) apud Pires, (1999).
2. Os deficientes psíquicos e mentais, os dependentes químicos, os egressos de prisões,
os condenados a penas alternativas à detenção e os adolescentes em idade adequa-
da ao trabalho e situação familiar difícil do ponto de vista econômico, social ou
afetivo
3 Art. 5o., inciso XVIII do texto constitucional: A criação de associações e, na forma da
lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada interferência esta-
tal em seu funcionamento”. Apesar disso, o poder público ainda assegura um pro-
grama de apoio às associações, e mais particularmente às cooperativas, através do
Ministério da Agricultura e do Abastecimento (MA).
4 Ver, sobre o assunto, Loureiro (1981) entre outros.
5 A autora fez um estudo comparativo entre cooperativas agrícolas no Nordeste do
Brasil e do Leste (Québec) do Canadá, tomando como referência, no caso nordestino,
a Cooperativa Agrícola Juazeiro da Bahia, situada num importante pólo de fruticul-
tura do país – o Vale do São Francisco.

01.Unircoop.Vol.1, no2.Final 100 10/30/03, 4:14 PM


uniRcoop • Vol. 1, # 2, 2003 • 101

6 Segundo Pinho (1996), duas cooperativas de consumo do Sudeste são consideradas


as precursoras do cooperativismo brasileiro – Associação Cooperativista dos Empre-
gados da Companhia Telefônica (Limeira/SP, 1891) e a Cooperativa Militar de Con-
sumo (Rio de Janeiro/DF, 1894).
7 Theodor Amstadt organiza a primeira caixa rural cooperativa do Brasil e da América
latina (Linha Imperial Nova Petrópolis).
8 O RECOOP foi criado pelo governo em 03 de setembro de 1998, através de parceria
instituída com a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e com o Depar-
tamento Nacional de Cooperativismo (DENACOOP) e reconhecido formalmente
através da Medida Provisória 1.781.
9 No que tange as cooperativas de pesca, observa-se que, embora o Brasil tenha um
extenso litoral e um grande manancial de água doce, o número de cooperativas
deste tipo é bastante reduzido. Este fato é derivado da política pública desenvolvida
para o setor pesqueiro, onde os pescadores foram induzidos, ante a ingerência gover-
namental, a constituírem outras formas de organização coletiva (Callou, 1994).

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