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A (in)constitucionalidade do novo CPC no

trato da requisição de pequeno valor

Angelo Demetrius de Albuquerque Carrascosa


Procurador do Estado do Pará.

Jose Aloysio Cavalcante Campos


Procurador do Estado do Pará.

Resumo: O CPC/2015, em que pesem os grandes e inegaveis avanços, mormente à Advocacia Pública,
traz dispositivos que adentraram em seara que o extindo CPC não abordava, qual seja, na chamada
requisições de pequeno valor (RPV), acabando por ferir sistemáticas procedimentais previstas em leis
estaduais que, autorizadas pela EC nº 37 e pelo art. 87 da ADCT, tratavam do assunto, emergindo conflito
constitucional a ser decido pelo STF.
Palavras-chave: Novo Código de Processo Civil. Requisições de pequeno valor. Erário.

Sumário: 1 Introdução – 2 Tutela executiva de obrigação de pagar quantia certa pela Fazenda Pública.
Aspectos gerais – 3 Meios de satisfação da obrigação de pagar contra o erário – 4 Edição de leis estaduais.
Edição da Lei nº 6.624/2004 pelo Estado do Pará regulamentando expressamente a RPV – 5 Da (in)
constitucionalidade do item i do §3º e §4º do artigo 535 da Lei Federal nº 13.105/2015 (Código de
Processo Civil) – 6 Conclusão – Referências

1 Introdução
A aprovação do novo Código de Processo Civil (NCPC) deve ser comemorada
pela sociedade brasileira, em especial pela comunidade jurídica, como um marco
histórico, pois representa o amadurecimento do Estado Democrático de Direito.
Isso pôde ser observado desde sua fase embrionária até seu nascedouro,
já que a comissão de juristas que iniciou os debates tinha origem eclética (juízes,
advogados públicos e privados, doutrinadores, etc.) percorrendo os diversos Estados
da Federação em audiências públicas, debates e seminários, os quais oportunizaram
a oitiva de todos os seguimentos da sociedade, além de receber, inclusive,
contribuições pelas redes sociais.
Restou consagrado em diversos pontos não só o mais amplo respeito aos
princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório, mas, também, a clara
intenção de solucionar de forma mais ágil e eficaz os conflitos, seja por incentivo a
meios autocompositivos de solução (mediação e arbitragem), seja prestigiando a
tutela de direitos coletivos.

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O NCPC traz consigo a forte carga principiológica de valorização da razoável


duração do processo, desburocratização de procedimentos (consagrando a não tão
nova doutrina da “instrumentalidade das formas”) e priorização da efetiva solução da
lide, conferindo primazia às decisões de mérito.
Outrossim, o NCPC trouxe significativas conquistas às advocacias pública e
privada, coroando reivindicações históricas dos advogados, tais como, apenas
por exemplo, o direito às férias, a contagem de prazos em dias úteis, a natureza
alimentar dos honorários (com a proibição de sua compensação), o estabelecimento
de critérios objetivos para a fixação dos honorários contra a Fazenda Pública, a
obrigatoriedade dos honorários recursais, o direito aos honorários pela Advocacia
Pública e a intimação pessoal dos advogados públicos com carga dos autos.
Não obstante esses reconhecidos e inegáveis avanços, em situações pontuais,
o novo CPC, em que pese à boa intenção de seus elaboradores (com muitos
colaboradores), acabou por interferir – ao ver desta tese – em matéria que não lhe
competia, resultando em prejuízo aos Estados e Municípios que, amparados no
regramento constitucional, exerceram produção legiferante que adequou o instituto
da requisição de pequeno valor (RPV) às suas realidades orçamentárias, financeiras
e administrativas.
O objetivo desta tese é demonstrar, portanto, que os dispositivos previstos
no NCPC que se arvoraram a tratar de matéria reservada constitucionalmente como
de competência legislativa dos Estados e Municípios incorrem (em caso de conflito
com lei estadual ou municipal existente) em flagrante inconstitucionalidade, podendo,
quando muito, ser utilizados em caso de omissão do legislador local, mas jamais
suplantá-lo em caso de expressa previsão.
A presente matéria, além de instigante e representar controvérsia vivida no
cotidiano profissional dos procuradores subscritores, despertou interesse por
terem eles – um na condição de procurador-geral do Estado, e outro na condição de
procurador designado para o feito – participado da confecção e debates do projeto
de lei que regulamentou a requisição de pequeno valor (RPV) no Estado do Pará (Lei
Estadual nº 6.624/2004).
Desta feita, sem pretensão de exaurir o tema, pois vasto e complexo, pretende-
se lançar uma reflexão sobre referido conflito, qual seja, novo CPC em matéria de
RPV versus leis locais existentes, com especial enfoque na Lei Estadual do Pará nº
6.624/2004, defendendo a prevalência desta sobre aquela com base no ordenamento
jurídico constitucional e no princípio federativo.

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2  Tutela executiva de obrigação de pagar quantia certa pela


Fazenda Pública. Aspectos gerais
Antes de adentrar ao mérito da tese, faz-se necessário, em breves linhas,
contextualizar o tema, começando por algumas considerações superficiais sobre a
tutela executiva (em especial a de obrigação de pagar) e como ela é oposta ao erário.
A tutela executiva busca a satisfação de uma obrigação ou a realização de um
direito já acertado, definido em títulos judiciais ou extrajudiciais; nas palavras do
jurista Luiz Rodrigues Wambier, a tutela executiva consiste “na atuação de um direito
a uma prestação, ou seja, na atuação de uma conduta prática do devedor”.
Alexandre Freitas Câmara conceitua a execução como “[...] a atividade
jurisdicional que tem por fim a satisfação concreta de um direito de crédito, através
da invasão do patrimônio do executado [...]”.1
Numa visão mais ampla, afastando-se de uma concepção meramente
patrimonialista, vez que a tutela executiva também pode almejar uma obrigação de
fazer ou a inibição de práticas contrárias ao direito, Luiz Guilherme Marinoni2 define:

[...] a execução, no Estado constitucional, não pode ser reduzida a um ato


de transferência de riquezas de um patrimônio a outro, devendo ser vista
como a forma ou ato que, praticado sob a luz da jurisdição, é imprescin-
dível para a realização concreta da tutela jurisdicional do direito, e assim
para a própria tutela prometida pela Constituição e pelo direito material.

Em que pese alguma variação nos termos utilizados, percebe-se que o conceito
de execução é exposto pela doutrina quase sem divergência, pois todos concordam
com a finalidade satisfativa (que busca o resultado prático almejado) da execução,
sendo ela uma atividade jurisdicional praticada em face do devedor/executado.
Por outro lado, de maneira geral, a tutela executiva, além de obedecer aos
princípios gerais de processo (ampla defesa, contraditório, etc.), possui – com alguma
variação na doutrina – princípios próprios, quais sejam:
a) Princípio da patrimonialidade: segundo o qual a execução será sempre de
direito real, incidindo exclusivamente sobre o patrimônio do executado.
b) Princípio da efetividade da execução ou do resultado: sob o qual deve ser
assegurado ao credor precisamente aquilo que ele tem de direito, nada mais,
nada menos. E quando isto não for possível, dever ser garantido ao credor
a possibilidade de conversão do direito em perdas e danos, quando couber.

1
CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil. v. II. 19. ed. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris,
2011, p. 148.
2
MARINONI, Luis Guilherme; ARENHART, Sergio Cruz. Curso de Processo Civil. v. III. São Paulo: RT, 2007, p. 70.

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c) Princípio da menor onerosidade ao devedor: por este prisma, o processo


executivo deve-se desenvolver de forma a atender aos direitos do credor,
atentando para as condições do devedor, devendo-lhe garantir a menor
onerosidade e prejudicialidade possível (por aplicação do princípio da
proporcionalidade).
d) Princípio da disponibilidade da execução: por meio deste, é garantido ao
credor o direito de se resvalar ou não de crédito do qual é titular, podendo
ele desistir de toda a execução ou de algumas medidas, mesmo após a
oposição de embargos ou impugnação, independentemente da aquiescência
do devedor.
Quando se fala de execução contra a Fazenda Pública, impõem-se algumas
modificações e adaptações dos ensinamentos gerais de tutela executiva, pois os
bens públicos são inalienáveis, sendo, por consequência, impenhoráveis, o que, via
de regra, não ocorre no procedimento comum, no qual se penhoram e se expropriam
bens do devedor, com vistas à satisfação do crédito.
O novel art. 534 do CPC deve ser interpretado em consonância com as regras
especiais conferidas à Fazenda Pública, que ostentam posição diferenciada das
regras aplicáveis às pessoas físicas e jurídicas de direito privado.
Essa diferenciação de tratamento está longe de representar ofensa ao princípio
da igualdade ou constituir privilégios3 graciosos do legislador ao erário.
Trata-se tão somente de tratar os desiguais de maneira desigual, como, aliás,
de muito já apregoado pelos ensinamentos aristotélicos, isto é, a igualdade material
consiste justamente no “tratamento igual para os iguais e desigual para os desiguais,
na medida de suas diferenças”.
Hans Kelsen, em sua famosa obra Teoria Pura do Direito, ao discorrer sobre
igualdade, ensina que “seria absurdo impor os mesmos deveres e conferir os
mesmos direitos a todos os indivíduos sem fazer quaisquer distinções, por exemplo,
entre crianças e adultos, sãos de espíritos e doentes mentais, homens e mulheres”.4
Nas lições de Bandeira de Mello,5 o princípio da isonomia impõe que sejam
tratadas igualmente as pessoas e situações iguais e desigualmente as desiguais,
não havendo como diferenciar pessoas e situações quando entre elas não houver
diferenças que justifiquem, já que a diferenciação no tratamento legal decorre
justamente da diferença existente.

3
Privilégio é instituído visando à proteção de interesses pessoais, enquanto a prerrogativa decorre do interesse
público (GRINOVER, Ada Pellegrini. Os princípios Constitucionais e o Código de Processo Civil. São Paulo: José
Bushatsky, 1975, p. 31).
4
KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. 6. ed. 4. tir. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 158.
5
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Conteúdo jurídico do princípio da igualdade. 3. ed. 17. tiragem. São
Paulo: Malheiros Editores, 2009, p. 35.

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Segundo Pedro Lenza:6

Deve-se, contudo, buscar não somente esta aparente igualdade formal


(consagrada no liberalismo clássico), mas, Principalmente, a igualdade
material, na medida em que a lei deverá tratar igualmente os iguais e
desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades.

No mesmo sentido, Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino:7

O princípio constitucional da igualdade não veda que a lei estabeleça


tratamento diferenciado entre pessoas que guardem distinções de grupo
social, de sexo, de profissão, de condição econômica ou de idade, entre
outras; o que não se admite é que o parâmetro diferenciador seja arbitrá-
rio, desprovido de razoabilidade, ou deixe de atender a alguma relevante
razão de interesse público. Em suma, o princípio da igualdade não veda
o tratamento discriminatório entre indivíduos, quando há razoabilidade
para a discriminação.

Dito isto, não se pode analisar o princípio da isonomia sob a ótica meramente
formal, pois restritiva. Deve-se buscar a igualdade material, o que torna injusto impor
o mesmo ônus ou conferir os mesmos direitos sem fazer qualquer ponderação entre
sujeitos ou situações diferentes.
Entretanto, para que uma diferenciação não viole o princípio da igualdade ou da
isonomia, é indispensável que exista uma justificativa objetiva e racional, isto é, uma
conexão lógica entre o fator escolhido e o tratamento jurídico diferenciado.
No caso da Fazenda Pública (União, Estados, DF e Municípios, além das
autarquias e fundações públicas de direito público), mister reconhecer que possui
uma estrutura administrativa complexa, cujas informações e comunicações entre
departamentos e unidades administrativas são naturalmente lentas e burocráticas.
Isso é mais evidente para tomadas de decisão e no pagamento de compromissos
financeiros (ainda que de baixo valor). Esse quadro de complexidade afetaria decisiva
e negativamente a posição na atuação judicial dos entes públicos se estes não
tivessem as prerrogativas contempladas na legislação pátria.
Desse modo, faz-se necessário sopesar os princípios da isonomia e da
supremacia do interesse público sobre o interesse privado para compreender a
necessidade de existência do arcabouço de prerrogativas processuais conferidas à
Fazenda como forma de possibilitar sua atuação igualitária nas demandas judiciais.

6
LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 11. ed. São Paulo. Método, 2007, p. 701.
7
PAULO, Vicente; ALEXANDRINO, Marcelo. Direito Constitucional Descomplicado. 10. ed. São Paulo: Método,
2013, p. 122.

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Assim, para que Fazenda Pública possa atuar de forma eficiente em prol de
toda a coletividade, ela é dotada de condições especiais de atuação, as chamadas
“prerrogativas processuais”, sempre conferidas expressamente pelo legislador
como necessárias para a defesa do erário, podendo-se citar como exemplo dessas
prerrogativas processuais, todas abarcadas pelo novo CPC, o reexame necessário
(art. 496), a não aplicação da multa prevista no §1º do art. 523 (art. 534, §2º) e o
prazo em dobro e intimação pessoal (art. 183).
Outrossim, visando à satisfação do crédito do autor, mas seguindo os comandos
legais que impõem prerrogativas processuais à Fazenda Pública, após a fase de
conhecimento e diante da provocação do autor visando ao cumprimento de sentença
para receber quantia certa, aaquela é intimada para, havendo motivo, impugnar a
pretensão executiva, e não diretamente para pagar.
Prova disso que o art. 534, §2º, do NCPC é expresso ao afirmar que “a multa
prevista no §1º do art. 5238 não se aplica à Fazenda Pública”, isso porque o art. 100
da Constituição Federal determina que os pagamentos devidos pelo erário, em virtude
de sentença judiciária, far-se-ão exclusivamente por meio de precatórios ou requisição
de pequeno valor, os quais possuem sistemática própria e prazo de pagamento muito
superior aos 15 dias fixados pelo NCPC para pagamento.
Reforço dessa tese é o registro que, mesmo antes dessa expressa previsão
no NCPC, a doutrina e a jurisprudência já haviam sedimentado o entendimento pela
inaplicabilidade da multa pelo atraso no pagamento (artigo 475-J do CPC/73) à
Fazenda Pública:

STJ – RECURSO ESPECIAL 1.201.255 RJ 2010/0129823-1


Data de publicação: 04.10.2010
Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO. SERVIDOR PÚBLICO. EXECUÇÃO
CONTRA A FAZENDA PÚBLICA. MULTA PREVISTA NO ARTIGO 475-J CPC.
NÃO INCIDÊNCIA. OBSERVÂNCIA AO RITO DO ARTIGO 730 DO CPC. Não
se aplica a multa prevista no artigo 475-J do CPC nas execuções propos-
tas contra a Fazenda Pública, uma vez que se sujeitam ao procedimento
próprio regulado nos artigos 730 e 731 do CPC, ficando o pagamento
condicionado à prévia expedição de precatório ou Requisição de Pequeno
Valor, nos termos do artigo 100 da CF. RPV. RENÚNCIA. ATUALIZAÇÃO
DE VALORES. OBSERVÂNCIA AO LIMITE DE 40 (QUARENTA) SALÁRIOS-MÍ-
NIMOS. Havendo renúncia para fins de recebimento do crédito de forma
privilegiada, através da competente Requisição de Pequeno Valor, não

8
Art. 523. No caso de condenação em quantia certa, ou já fixada em liquidação, e no caso de decisão sobre
parcela incontroversa, o cumprimento definitivo da sentença far-se-á a requerimento do exequente, sendo o
executado intimado para pagar o débito, no prazo de 15 (quinze) dias, acrescido de custas, se houver.
(...)
§1º Não ocorrendo pagamento voluntário no prazo do caput, o débito será acrescido de multa de dez por cento
e, também, de honorários de advogado de dez por cento.

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pode o valor atualizado superar o limite constitucional de 40 (quarenta)


salários-mínimos. AGRAVO DE INSTRUMENTO PROVIDO. (Agravo de Ins-
trumento nº 70051834968, Vigésima Quinta Câmara Cível, Tribunal de
Justiça do RS, Relator: Laís Ethel Corrêa Pias, Julgado em 14.05.2013).

Note-se, assim, que a fase de cumprimento de sentença para pagamento de


quantia certa acaba por servir de etapa de liquidação da obrigação, pois o pagamento
só ocorrerá depois de terminada a fase de cumprimento de sentença, através de uma
das duas formas possíveis de pagamento, abaixo mais bem explicadas.

3  Meios de satisfação da obrigação de pagar contra o erário


Durante muitos anos, a única forma de pagamento de condenações por quantia
certa contra o Estado era por meio do competente e necessário precatório requisitório
(art. 100 da CF/88), sendo, inclusive, motivo de ordens de sequestro a preterição na
ordem cronológica de sua apresentação.
Contudo, motivados por várias crises financeiras experimentadas pelo país nas
últimas décadas, muitos Estados e Municípios passaram a atrasar e/ou a não realizar
o pagamento de precatórios, passando-se, não raro, vários anos sem nenhum aporte
financeiro para este fim, pois, geralmente, um precatório de valor muito elevado
impedia que outros de valor significativamente menor fossem pagos, sob pena da
malsinada alegação de “quebra da ordem”.
Visando dar uma solução, ainda que parcial a essa realidade, o processamento
dos pagamentos dos débitos do erário decorrentes de condenações judiciais passou
por significativa mudança a partir da edição da Emenda Constitucional nº 20/1998,
que acrescentou o §3º ao art. 100, com a seguinte redação:

§3º - O disposto no “caput” deste artigo, relativamente à expedição de


precatórios, não se aplica aos pagamentos de obrigações definidas em
lei como de pequeno valor que a Fazenda Federal, Estadual ou Municipal
deva fazer em virtude de sentença judicial transitada em julgado.

Posteriormente, outra mudança ocorreu com a EC nº 30/2000, que alterou


a redação do art. 100 da CF e acrescentou o art. 78 ao ato das disposições
constitucionais transitórias (ADCT).
Com essas mudanças, além de prever a atualização do débito até a data de
efetivo pagamento (art. 100, §1º), separou-se a forma de pagamento dos débitos
judiciais em duas espécies – precatórios (PRC) e requisições de pequeno valor (RPV) –
dependendo estas, porém, de lei específica que estabelecesse sua definição e
procedimentos.
Eis a nova redação com acréscimos feita pela EC nº 30/2000 ao art. 100 da
CF/88:

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Art. 100 À exceção dos créditos de natureza alimentícia, os pagamentos


devidos pela Fazenda Federal, Estadual ou Municipal, em virtude de sen-
tença judiciária, far-se-ão exclusivamente na ordem cronológica de apre-
sentação dos precatórios e à conta dos créditos respectivos, proibida a
designação de casos ou de pessoas nas dotações orçamentárias e nos
créditos adicionais abertos para este fim.
§1º É obrigatória a inclusão, no orçamento das entidades de Direito Pú-
blico, de verba necessária ao pagamento de seus débitos oriundos de
sentenças transitadas em julgado, constantes de precatórios judiciários,
apresentados até 1º de julho, fazendo-se o pagamento até o final do exer-
cício seguinte, quando terão seus valores atualizados monetariamente.
§2º As dotações orçamentárias e os créditos abertos serão consignados
diretamente ao Poder Judiciário, cabendo ao Presidente do Tribunal que
proferir a decisão exeqüenda determinar o pagamento segundo as pos-
sibilidades do depósito, e autorizar, a requerimento do credor, e exclu-
sivamente para o caso de preterimento de seu direito de precedência, o
seqüestro da quantia necessária à satisfação do débito.
§3º O disposto no caput deste artigo, relativamente à expedição de pre-
catórios, não se aplica aos pagamentos de obrigações definidas em lei
como de pequeno valor que a Fazenda Federal, Estadual, Distrital ou Mu-
nicipal deva fazer em virtude de sentença judicial transitada em julgado.
§4º A lei poderá fixar valores distintos para o fim previsto no §3º deste
artigo, segundo as diferentes capacidades das entidades de direito pú-
blico. (Destacamos)

Contudo, mesmo após a edição das citadas emendas, a exceção à regra de


precatórios dependia da edição de lei ordinária para ter eficácia, como reiteradamente
decidiu o STF:

Precatório. Obrigação de pequeno valor. A EC 20/1998, ao acrescentar


§3º ao artigo 100 da Constituição Federal previu a possibilidade de pa-
gamento de dívidas judiciais da Fazenda Pública, independentemente de
precatório, mas remeteu à legislação ordinária a definição do que seria
considerado como obrigação de pequeno valor. (Grifos nossos). (Trecho
da Emenda do RE nº 293.231/RS, Rel. Min Maurício Corrêa. publicado
no DJU de 01.06.1991, citada no despacho exarado pelo Min. Gilmar
Mendes nos autos do AI 399.842/SC, DJU de 14.11.2002).
Vê-se, desse modo, que a invocação, resultante da cláusula fundada no
art.100, §3º da Carta Política, para efetivar-se, passou a depender da
necessária edição de lei ordinária que definisse o significado do termo
constitucional “pequeno valor”, para, em função do que viesse a dispor
esse diploma legislativo, viabilizar-se a dispensa, sempre excepcional
da expedição de precatórios.” Impunha-se, portanto, para efeito de in-
tegral aplicabilidade dessa norma constitucional, a intervenção - carac-
terizadora do legislador comum, em ordem a possibilitar, a incidência
de cláusula excepcional que desde a promulgação da EC n.º 20/98,
passou a autorizar - uma vez editada a lei reclamada pelo art. 100, §3º,

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da Carta Política - o pagamento de obrigações de pequeno valor devidas


pela Fazenda Pública em virtude de sentença judicial transitada em jul-
gado, independente de expedição de precatórios (grifamos). (Trecho do
despacho RE n.º 369.081-7/PR. Rel. Min. Celso de Mello, publicado no
DJU de 01/10/2003)

Em razão disso, a União disciplinou o limite da RPV para débitos por ela devidos
em demandas judiciais, por meio do art. 17, §1º, da Lei nº 10.259/2001,9 igualando
ao valor previsto com o teto para a competência dos Juizados Especiais Federais:10

Art. 17. Tratando-se de obrigação de pagar quantia certa, após o trânsito


em julgado da decisão, o pagamento será efetuado no prazo de sessenta
dias, contados da entrega da requisição, por ordem do Juiz, à autoridade
citada para a causa, na agência mais próxima da Caixa Econômica Fede-
ral ou do Banco do Brasil, independentemente de precatório.
§1º Para os efeitos do §3º do art. 100 da Constituição Federal, as obri-
gações ali definidas como de pequeno valor, a serem pagas independen-
temente de precatório, terão como limite o mesmo valor estabelecido
nesta Lei para a competência do Juizado Especial Federal Cível (art. 3º,
caput).
§2º Desatendida a requisição judicial, o Juiz determinará o seqüestro do
numerário suficiente ao cumprimento da decisão.
§3º São vedados o fracionamento, repartição ou quebra do valor da exe-
cução, de modo que o pagamento se faça, em parte, na forma estabele-
cida no §1º deste artigo, e, em parte, mediante expedição do precatório,
e a expedição de precatório complementar ou suplementar do valor pago.
§4º Se o valor da execução ultrapassar o estabelecido no §1º, o paga-
mento far-se-á, sempre, por meio do precatório, sendo facultado à parte
exeqüente a renúncia ao crédito do valor excedente, para que possa
optar pelo pagamento do saldo sem o precatório, da forma lá prevista.

Perceba-se que a União efetivamente legislou considerando sua capacidade


econômico-financeiro-orçamentária, bem como sua organização burocrático-administrativa,
ou seja, considerando o volume de valores necessários a fazer frente àquela despesa,
fixou seus limites, de modo que pudesse pagar o valor de até 60 salários mínimos em 60
dias, decisão esta que influencia diretamente no seu fluxo de caixa.
Essa decisão não pôde ser estendida aos demais entes federados, seja por
não possuírem estes a mesma capacidade econômica da União, seja por faltar
competência constitucional para a União legislar sobre o tema, restando, assim,
aguardar a emissão de atos normativos locais, os quais trariam, segundo suas

9
Também o fez na edição da Lei nº 10.099/2000, que introduziu nova redação ao art. 128 da Lei nº 8.213/91
para as causas contra a Previdência Social.
10
Art. 3º Compete ao Juizado Especial Federal Cível processar, conciliar e julgar causas de competência da
Justiça Federal até o valor de sessenta salários mínimos, bem como executar as suas sentenças.

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diferentes realidades, valores e prazos condizentes com as peculiaridades de


cada um.
Contudo, quanto a Estados, Distrito Federal e Municípios, foi inexpressiva a
legislação produzida para conferir eficácia ao instrumento da requisição de pequeno
valor, razão pela qual, algum tempo depois, mais precisamente em 2002, a EC
nº 37/2002, além de introduzir no texto constitucional vedação de expedição de
precatório complementar ou suplementar, bem como de fracionamento do valor da
execução, de modo a evitar que parte do pagamento se faça por meio de precatório
e parte por meio de RPV (art. 100, §4º), acrescentou os arts. 86 e 87 ao ADCT, nos
seguintes termos:

Art. 86 Serão pagos conforme disposto no art. 100 da Constituição Fe-


deral, não se lhes aplicando a regra de parcelamento estabelecida no
caput do art. 78 deste Ato das Disposições Constitucionais Transitórias,
os débitos da Fazenda Federal, Estadual, Distrital ou Municipal oriundos
de sentenças transitadas em julgado, que preencham, cumulativamente,
as seguintes condições:
I – ter sido objeto de emissão de precatórios judiciários;
II – ter sido definidos como de pequeno valor pela lei de que trata o §3º
do art. 100 da Constituição Federal ou pelo art. 87 deste Ato das Dispo-
sições Constitucionais Transitórias;
III – estar, total ou parcialmente, pendentes de pagamento na data da
publicação desta Emenda Constitucional.
Art. 87. Para efeito do que dispõe o §3º do art. 100 da Constituição Fe-
deral e o art. 78 deste Ato das Disposições Constitucionais Transitórias
serão considerados de pequeno valor, até que se dê a publicação oficial
das respectivas leis definidoras pelos entes da Federação, observado
o disposto no §4º do art. 100 da Constituição Federal, os débitos ou
obrigações consignados em precatório judiciário, que tenham valor igual
ou inferior a:
I – quarenta salários-mínimos, perante a Fazenda dos Estados e do Dis-
trito Federal;
II – trinta salários-mínimos, perante a Fazenda dos Municípios.
Parágrafo único. Se o valor da execução ultrapassar o estabelecido neste
artigo, o pagamento far-se-á, sempre, por meio de precatório, sendo fa-
cultada à parte exeqüente a renúncia ao crédito do valor excedente, para
que possa optar pelo pagamento do saldo sem o precatório, da forma
prevista no §3º do art. 100. (Destacamos)

A EC nº 37/2002 teve a clara intenção de dar efeito prático e imediato à previsão


de RPV feita nas EC nº 20/1998 e 30/2000, mas que não havia “saído do papel”
pela inércia legislativa de Estados e Municípios, além da justificável dúvida acerca
da competência de quem poderia, à época, editar referida norma regulamentadora.
Diante das previsões constitucionais das EC nº 20, 30 e 37, pode-se definir
requisição de pequeno valor (RPV) como sendo um procedimento administrativo

224 R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017
A (in)constitucionalidade do novo CPC no trato da requisição de pequeno valor

destinado a requisitar o pagamento de quantia certa a que foi condenada a Fazenda


Pública, por meio de decisão transitada em julgado, a qual não se submete à
sistemática de pagamento por precatório, por ser seu montante igual ou inferior
à previsão constante do art. 87 da ADCT, até que se dê a publicação oficial das
respectivas leis definidoras pelos entes da Federação.
A ressalva de validade dos valores provisórios constantes nos atos de
disposições constitucionais transitórias é importante para a devida compreensão da
presente tese, pois comprova que o constituinte – visando dar eficácia imediata à
previsão de pagamento de débitos considerados de pequena monta, previstos desde
a EC nº 20/1998 – trouxe valores a serem usados apenas no caso e enquanto
durassem as omissões legislativas locais sobre o tema, passando, por óbvio, a
prevalecer o comando da legislação local sobre a previsão constitucional provisória
quando da sua edição.

4  Edição de leis estaduais. Edição da Lei nº 6.624/2004 pelo


Estado do Pará regulamentando expressamente a RPV
Após a edição da EC nº 37/2002, o Estado do Pará, visando regulamentar o
texto constitucional, editou sua lei estadual:

Lei Estadual n.º 6.624/04 de 13.01.2004 (DOE-PA: 15.01.2004)


Define o valor das obrigações de pequeno valor previstas no art. 100,
Parágrafo 3º, da Constituição Federal, e dá outras providências.
A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO PARÁ estatui e eu sanciono
a seguinte Lei:
Art. 1º São considerados de pequeno valor, para os fins do disposto no
Parágrafo 3º do Art. 100 da Constituição Federal, as obrigações que a Fa-
zenda Pública do Estado do Pará deva quitar em decorrência de decisão
judicial transitada em julgado, cujo valor seja igual ou inferior a quarenta
salários mínimos, observado sempre, em todo caso, o valor global do
processo.
§1º É vedada a adoção de critério individual relativo ao valor previsto no
“caput” deste artigo para fins de aplicação das normas constantes desta
Lei, nas hipóteses de litisconsórcios em ações individuais ou demanda
coletiva.
§2º Considera-se valor da obrigação, para os fins do disposto no “ca-
put” deste artigo, o total apurado em conta de liquidação, submetido ao
contraditório e homologado ou aprovado pelo Juízo, por decisão judicial
transitada em julgado.
Art. 2º A quitação dos débitos judiciais de pequeno valor observará a
ordem cronológica de recebimento das respectivas requisições de paga-
mento pela Procuradoria-Geral do Estado ou pela entidade da Administra-
ção Indireta, se for o caso.

R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017 225
Angelo Demetrius de Albuquerque Carrascosa, Jose Aloysio Cavalcante Campos

§1º O pagamento a que se refere o “caput” deste artigo será efetuado


no prazo máximo de cento e vinte dias, contado do recebimento da requi-
sição expedida pelo Juízo da execução, desde que estejam asseguradas
dotações orçamentárias suficientes à sua cobertura.
§2º As entidades da Administração Indireta deverão encaminhar à Pro-
curadoria-Geral do Estado as requisições de pagamento, para fins de
aferição dos valores cobrados, no prazo de cinco dias, contado do rece-
bimento das mesmas.
Art. 3º É vedado fracionamento, repartição ou quebra do valor global da
execução, de modo que o pagamento se faça em parte na forma estabe-
lecida no art. 1º desta Lei e em parte por meio de precatório.
§1º Pode o credor renunciar expressamente ao crédito, na parte que ex-
cede o valor estabelecido no art. 1º desta Lei, de modo que a execução
se processe mediante procedimentos próprios dos débitos de pequeno
valor, observado, em todo caso, o limite global previsto no art. 1º desta
Lei.
§2º Em caso de litisconsórcio em ação individual ou demanda coletiva,
na hipótese do parágrafo anterior, o valor global não poderá ultrapassar
o limite fixado no art. 1º desta Lei.
Art. 4º A Administração Pública Estadual Direta e as entidades da Admi-
nistração Indireta deverão realizar a previsão orçamentária anual para a
liquidação dos débitos referidos nesta Lei.
Parágrafo único - Verificada a insuficiência dos valores previstos no or-
çamento para a liquidação dos débitos de pequeno valor, poderão ser
requisitados créditos suplementares, sendo vedada a sua utilização para
qualquer outro fim.
Art. 5º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 6º Revogam-se as disposições em contrário.
PALÁCIO DO GOVERNO, 13 de janeiro de 2004.

Mais que regulamentar o valor limite para expedição da requisição de pequeno


valor, a lei estadual fez previsão expressa do prazo necessário para seu adimplemento,
adaptando o comando constitucional à sua realidade local, de modo que, no prazo
fixado (120 dias), possa a máquina pública adotar todas as medidas administrativas
necessárias ao fiel cumprimento da requisição judicial.
Registre-se o grande esforço feito pelo Estado do Pará para fixar o valor da RPV
no teto estabelecido pela Constituição Federal, igualando-se a Estados com poder
econômico muito superior ao seu. Justamente em razão da fixação do valor (elevado),
fixou prazo elástico (120 dias) necessário ao seu adimplemento, seja por questões
burocrático-administrativas, seja por contar com esse prazo para suprir (não raras)
insuficiências de caixa, realidade local esta que foi, como abaixo mais bem explicado,
totalmente ignorada pelo novo CPC ao fixar prazo único para todos os entes federais,
como se todos tivessem a mesma realidade financeiro-orçamentária.

226 R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017
A (in)constitucionalidade do novo CPC no trato da requisição de pequeno valor

O Estado do Pará não apresentou de forma aleatória o prazo de 120 dias no


projeto de lei que resultou na Lei nº 6.624/2004. Assim o fez porque sua organização
orçamentário-financeira está baseada em projeções e apurações quadrimestrais.
Fazendo uma análise nas Leis de Diretrizes Orçamentárias editadas pelo
Estado desde 1991,11 percebe-se que, desde a edição da Lei Complementar Federal
nº 101, de 04.05.2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal), o Estado vem editando
leis12 que impõem às entidades e poderes estaduais que organizem suas propostas
orçamentárias anuais (previsão de arrecadação, previsão de repasses financeiros,
relatórios, etc.), levando em consideração vários aspectos de periodicidade
quadrimestral.
Assim, o prazo aprovado pela Lei nº 6.624/2004 representa o reflexo da
organização orçamentário-financeiro-administrativa do Estado do Pará, sendo uma
interferência indevida e inaceitável a alteração deste prazo por legislação federal que
não leva em consideração as características econômicas deste ente federado.
Apenas para exemplificar, destacam-se alguns dispositivos da LDO13 ora em
vigor no Estado do Pará, os quais vêm sendo repetido ao longo dos anos, sempre
com a mesma ideia de organização quadrimestral:

DAS DIRETRIZES GERAIS PARA ELABORAÇÃO E EXECUÇÃO DOS


ORÇAMENTOS DO ESTADO E SUAS ALTERAÇÕES
Seção I - Das Diretrizes Gerais
Art. 15. Na elaboração do Projeto da Lei Orçamentária de 2016, sua
aprovação e na execução da mesma, deverá ser observado o princípio da
publicidade, evidenciada a transparência da gestão fiscal e assegurada
a participação da sociedade, em audiências públicas amplamente divul-
gadas e incentivadas nas regiões de integração do Estado do Pará, nos

11
Disponível em: <http://www.seplan.pa.gov.br/lei-de-diretrizes-orçamentárias-ldo-0#>.
12
Lei nº 6.371, de 12.07.2001 – Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias para o exercício financeiro de 2002.
Lei nº 6.469, de 31.07.2002 – Dispõe sobre as Diretrizes Orçamentárias para o exercício financeiro de
2003. Lei nº 6.568 de 06.08.2003 (DOE Edição nº 30.003 de 07.08.2003) – Dispõe sobre as diretrizes
orçamentárias para o exercício financeiro de 2004. Lei nº 6.666 de 26.07.2004 – Dispõe sobre as diretrizes
orçamentárias para exercício financeiro de 2005. Lei nº 6.771 de 21.07.2005 (DOE nº 30.485 de 22.07.2005) –
Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias para o exercício financeiro de 2006. Lei nº 6.892 de 13.07.2006
(DOE nº 30.729 de 21.07.2006) – Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias para o exercício financeiro de
2007. Lei 7.010 de 23.07.2007 (DOE nº 30.971 de 24.07.2007) – Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias
para o exercício financeiro de 2008. Lei nº 7.193 de 5.08.2008 – Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias
para o exercício financeiro de 2009. Lei nº 7.291 de 27.07.2009 (DOE nº 31.554 de 27.11.2009) – Dispõe
sobre as diretrizes orçamentárias para o exercício financeiro de 2010. Lei nº 7.453 de 30.07.2010 (DOE nº
31.723 de 04.08.2010) – Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias para o exercício financeiro de 2011. Lei
nº 7.544 de 21.07.2011 (DOE nº 31.962, DE 22.07.2011) – Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias para o
exercício financeiro de 2012. Lei nº 7.650 de 25.07.2012 – Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias para o
exercício financeiro de 2013. Lei nº 7.722 de 15.07.2013 – Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias para o
exercício financeiro de 2014. Lei nº 8.031 de 23.07.2014 – Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias para o
exercício financeiro de 2015. Lei nº 8.232 de 15.07.2015 (DOE nº 32.932, de 21.07.2015) – Dispõe sobre
as diretrizes orçamentárias para o exercício financeiro de 2016.
13
Lei nº 8.232, de 15.07.2015 (DOE nº 32.932, de 21.07.2015) – Dispõe sobre as diretrizes orçamentárias
para o exercício financeiro de 2016 e dá outras providências.

R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017 227
Angelo Demetrius de Albuquerque Carrascosa, Jose Aloysio Cavalcante Campos

termos do art. 48 da Lei Complementar Federal no 101, de 4 de maio de


2000 e da Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011.
§1º Os titulares dos Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo, do
Ministério Público, da Defensoria Pública, e dos demais órgãos constitu-
cionais independentes, no que couber a cada um, farão divulgar:
I - por meio da internet:
a) estimativa da receita:
1. orçamentária anual;
2. corrente líquida anual e por quadrimestre;
3. do Tesouro Estadual prevista para os respectivos quadrimestres.
(...)
c) o relatório da gestão fiscal, ao final de cada quadrimestre, na forma e
conteúdo definidos nos arts. 54 e 55 da Lei Complementar nº 101, de 4
de maio de 2000 e as Portarias da STN.
(...)
§4º O Poder Executivo demonstrará e avaliará o cumprimento das me-
tas fiscais, de cada quadrimestre, em audiência pública na Assembléia
Legislativa do Estado, nos termos do art. 9º, §4º, da Lei de Responsa-
bilidade Fiscal.
(...)
Art. 21. A Administração Pública Estadual poderá destinar recursos
para, direta ou indiretamente, cobrir necessidades de pessoas físicas
ou déficits de pessoas jurídicas sem fins econômicos e de interesse so-
cial, declaradas de utilidade pública, por meio de contribuições, auxílios,
subvenções sociais e, material, bens ou serviços de distribuição gratuita.
(...)
§3º O Poder Executivo encaminhará quadrimestralmente à Assembleia
Legislativa, a relação das pessoas jurídicas, sem fins econômicos e de
interesse social, beneficiadas com recursos públicos de que trata o ca-
put deste artigo, com seus respectivos valores, por ocasião do encami-
nhamento do Relatório de Gestão Fiscal.
(...)
Art. 40. Os Poderes, o Ministério Público, a Defensoria Pública e os de-
mais órgãos constitucionais independentes deverão elaborar e publicar,
por ato próprio, até trinta dias após a publicação da Lei Orçamentária de
2016, a programação orçamentária e o cronograma de execução mensal
de desembolso dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social, para o
primeiro quadrimestre, nos termos do art. 8º da Lei Complementar no
101, de 4 de maio de 2000.
I - meta quadrimestral da receita do Estado, com especificação em metas
bimestrais de arrecadação, desdobradas pela origem dos recursos;
(...)
§3º A programação orçamentária e o cronograma de execução mensal de
desembolso dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social dos demais
quadrimestres serão publicados trinta dias após o encerramento do qua-
drimestre anterior;

228 R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017
A (in)constitucionalidade do novo CPC no trato da requisição de pequeno valor

Art. 51. As empresas estaduais integrantes do Orçamento de Investi-


mentos deverão registrar mensalmente no GP Pará as metas físicas e
informações qualitativas referentes aos programas e ações sob sua res-
ponsabilidade, por servidores designados por ato legal dos gestores dos
órgãos.
Parágrafo único. As informações sobre a execução financeira dos progra-
mas e ações de responsabilidade das empresas que trata o caput deste ar-
tigo deverão ser encaminhadas à SEPLAN, ao final de cada quadrimestre, e
ao final do exercício relatório contendo os principais resultados alcançados,
na forma e conteúdo a ser definido pela SEPLAN. (Destacamos)

Não por outro motivo, a proposta orçamentária (inclusive para pagamentos de


RPV) é apresentada em quadros de despesas quadrimestrais (120 dias), razão pela
qual admitir RPV para pagamento em 60 dias causa inegável transtorno orçamentário,
com sucessivos pedidos de suplementação orçamentária no meio do quadrimestre.
Reflexo imediato e negativo da abreviação do prazo para o Estado do Pará pagar
seus débitos de pequeno valor (de 120 dias para 60) tem sido sentido desde a
edição do NCPC, com esgotamento do orçamento planejado para o ano de 2016
numa velocidade muito maior do que foi projetado.
Apenas para ilustrar14 o impacto orçamentário e financeiro decorrente dessa
(inconstitucional) mudança, verifica-se que, dos R$10 milhões previstos para o
orçamento anual de 2016, já foram usados R$6.426.725,77 até o dia 14 de julho
de 2016, sendo que ainda existe pendente de pagamento na PGE/PA até a mesma
data, requisições de pequeno valor (RPV) que totalizam R$4.148.555,22, contra um
saldo orçamentário de apenas R$3.573.274,23.
Constata-se, portanto, que a indevida abreviação do prazo de pagamento
das requisições de pequeno valor resultou, até o momento, no total consumo do
orçamento anual previsto para esta despesa, salientando que o ano de 2016 ainda
se encontra na metade.

5  Da (in)constitucionalidade do item i do §3º e §4º do artigo 535


da Lei Federal nº 13.105/2015 (Código de Processo Civil)
Após a edição de várias leis estaduais e municipais, sobreveio a Lei nº
13.105/2015, a qual instituiu o novo Código de Processo Civil, inovando ao tratar
do tema RPV, mas, ao ver desta tese, de forma potencialmente (se houver lei local)
inconstitucional.

14
Dados fornecidos pelo Departamento Financeiro da Procuradoria-Geral do Estado do Pará

R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017 229
Angelo Demetrius de Albuquerque Carrascosa, Jose Aloysio Cavalcante Campos

5.1  Inconstitucionalidade do item i do §3º do art. 535 do CPC.


Autonomia dos Estados e Municípios para legislar sobre
as requisições de pequeno valor (RPV)
O art. 535, §3º, inc. II, do CPC/2015 estabeleceu o prazo de 2 (dois) meses
para os entes da Federação pagarem suas obrigações de pequeno valor:

Art. 535. A Fazenda Pública será intimada na pessoa de seu represen-


tante judicial, por carga, remessa ou meio eletrônico, para, querendo,
no prazo de 30 (trinta) dias e nos próprios autos, impugnar a execução,
podendo arguir:
(...)
§3º Não impugnada a execução ou rejeitadas as arguições da executada:
(...)
II - por ordem do juiz, dirigida à autoridade na pessoa de quem o ente pú-
blico foi citado para o processo, o pagamento de obrigação de pequeno
valor será realizado no prazo de 2 (dois) meses contado da entrega da
requisição, mediante depósito na agência de banco oficial mais próxima
da residência do exequente. (Destacamos)

O artigo §1º do art. 910 do CPC prevê que “não opostos embargos ou transitada em
julgado a decisão que os rejeitar, expedir-se-á precatório ou requisição de pequeno valor
em favor do exequente, observando-se o disposto no art. 100 da Constituição Federal”.
Como antes já dito, a criação da requisição, ou obrigação, de pequeno valor
(RPV) resultou das Emendas Constitucionais nº 20/1998 e 30/2000, sendo
regulamentada provisoriamente pela EC nº 37/2002 (art. 86 e 87 da ADCT).
Salienta-se, mais uma vez, que, no art. 87 do ADCT, está previsto que os valores
nela descritos só teriam validade “até que se dê a publicação oficial das respectivas
leis definidoras pelos entes da Federação”
Com efeito, autorizado pela Constituição Federal, quando do novo CPC, o Estado
do Pará já havia editado a Lei Estadual nº 6624/2004 regulando o pagamento de
requisições de pequeno valor.
Outrossim, interessante observar o que ocorreu no julgamento da ADI nº 2.868/
PI, onde foi julgada a constitucionalidade de lei do Estado do Piauí que fixou o valor
da obrigação de pequeno valor em 05 (cinco) salários mínimos.
Nela, o relator, Ministro Carlos Britto, entendeu que a legislação piauiense
violava a Constituição observando que:

A Emenda Constitucional nº 37/02, ao embutir o art. 87 no ADCT, definiu


os débitos e obrigações de pequeno valor para os Estados, Distrito Fede-
ral e Municípios. E o fez na esteira dos patamares instituídos pela União
quando da edição das Leis nºs 10.099 e 10.259/01, até que os entes

230 R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017
A (in)constitucionalidade do novo CPC no trato da requisição de pequeno valor

integrantes da Federação providenciassem a edição das respectivas leis


definidoras. Pontuou ainda que a CF atribuiu ao legislador ordinário de-
finir débitos de pequeno valor e que a Lei 10.259/01 “instituiu uma
limitação material para o legislador infraconstitucional” e que portanto
“os entes da Federação somente poderão definir débitos e obrigações
de pequeno valor se em patamar igual, ou superior, ao quantum de logo
previsto no art. 87 do ADCT”. (Destacamos)

Entretanto, o Ministro Joaquim Barbosa divergiu, entendendo que “a norma do


art. 87 tem caráter nitidamente transitório e abre margem a que as unidades da
Federação disponham livremente sobre essa matéria”, e votou pela improcedência
da ADI.
Nessa mesma linha, seguiram votos pela improcedência da ADI, destacando-se:
• “O legislador constituinte quis deixar claro ao Estado a possibilidade de fazer
uma avaliação das suas forças financeiras” (Min. Gilmar Mendes).
• “O legislador estadual tem, pois, toda a liberdade para, segundo os próprios
critérios constitucionais, compatibilizar o valor que estabeleça com as
disponibilidades orçamentárias da respectiva entidade da Federação” (Min.
Cezar Peluso).
• “Que o estabelecimento de valores foi relegado à definição política da própria
unidade, podendo haver, inclusive, no Estado, variação, considerada a
pessoa jurídica de direito público devedora”, e ainda; “diante da realidade e
das finanças do próprio Estado, não tenho como entender que essa quantia
não é razoável” (Min. Marco Aurélio). (Destacamos)
Eis a ementa da ADI nº 2.868 que assegurou a autonomia estadual na questão
ora discutida:

Precatórios. Obrigações de pequeno valor. CF, art. 100, §3º. ADCT, art.
87. Possibilidade de fixação, pelos Estados membros, de valor referen-
cial inferior ao do art. 87 do ADCT, com a redação dada pela EC 37/2002
(ADI 2.868, Rel. p/ o ac. Min. Joaquim Barbosa, julgamento em 2-6-
2004, Plenário, DJ de 12-11-2004.) (Grifado)

Posteriormente, a EC nº 62/2009, além de manter a redação do §3º, fez


alteração no §4º, estabelecendo um referencial mínimo, mas sem deixar de reafirmar
a liberdade de fixação dos valores pelos entes federados:

Art. 100 (...)


(...)
§3º O disposto no caput deste artigo relativamente à expedição de pre-
catórios não se aplica aos pagamentos de obrigações definidas em leis
como de pequeno valor que as Fazendas referidas devam fazer em virtu-
de de sentença judicial transitada em julgado.

R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017 231
Angelo Demetrius de Albuquerque Carrascosa, Jose Aloysio Cavalcante Campos

§4º Para os fins do disposto no §3º, poderão ser fixados, por leis pró-
prias, valores distintos às entidades de direito público, segundo as dife-
rentes capacidades econômicas, sendo o mínimo igual ao valor do maior
benefício do regime geral de previdência social. (Destacamos)

Nessa linha, considerando, principalmente, os motivos determinantes do que


restou definido na ADI nº 2.868, tem-se que o art. 100, nos §§3º e 4, e o art. 87
do ADCT da Constituição da República foram frontalmente violados pelo art. 535, I,
§3º, do CPC, neste ponto ora observado e considerando que o dispositivo processual
atacado fixou prazo de dois meses para pagamento de obrigações de pequeno valor
em franco confronto com o estabelecido nos dispositivos constitucionais acima, os
quais deixam clara a prerrogativa de cada ente federado determinar, de acordo com
sua realidade orçamentária e financeira, o valor a ser pago, sem necessidade de
expedição de precatório, para pagamento das obrigações de pequeno valor.
Isso motivou o Estado do Pará a ingressar com a Ação Direta de Inconstitucionalidade
nº 5.534, a qual, atualmente,15 se encontra sob a relatoria do Ministro Dias Toffoli e
aguarda decisão sobre o pedido de tutela antecipada feito na inicial.
A permanência em vigor do dispositivo atacado, que estipula prazo de dois
meses para pagamento das obrigações da espécie aqui tratada, gera graves danos à
execução orçamentária dos entes Federados, os quais instituíram lei específica para
pagamento das RPVs, com prazos fixados de acordo com suas realidades econômicas,
orçamentárias e financeiras, violentando frontal e visceralmente a autonomia dos
entes federados para legislar a respeito, na forma constitucionalmente vigente.
Nem se alegue que a Constituição Federal teria permitido tão somente a fixação
de valores pelos Estados, e não de prazos e procedimentos, pois a fixação de valores
para adimplir obrigações está diretamente ligada ao prazo que se tem para cumpri-las.
Pagar um milhão em 60 dias é diferente de pagar o mesmo valor no dobro de prazo!
Ademais, a definição de prazo de pagamento é regra procedimental, amparada,
portanto, pelo art. 24, XI, CF/88:

Art. 24- Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar con-
correntemente sobre:
(...)
XI – procedimentos em matéria processual;

O prazo para pagamento da RPV é matéria procedimental que visa dar plena
eficácia à previsão Estadual do seu valor e da forma de seu pagamento.

15
Consulta feita ao site do STF (www.stf.jus.br) em 07.07.2016.

232 R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017
A (in)constitucionalidade do novo CPC no trato da requisição de pequeno valor

Outrossim, o mesmo art. 24, em seu inciso II, prevê a competência do Estado
para legislar sobre seu orçamento, sendo a imposição de valores ou prazos, os
quais têm inegável impacto no orçamento e no fluxo de caixa do Estado, uma clara
interferência (indevida) na competência constitucional do Estado em dizer sua
capacidade orçamentário-financeira, ou seja, o Estado do Pará afirmou que não tem
capacidade financeira de adimplir com RPV em prazo máximo inferior a 120 dias,
sendo inconstitucional a União impor isso por legislação própria.
Não é demais lembrar que o artigo 25 da CF/88 expressamente prevê:

Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis


que adotarem, observados os princípios desta Constituição.
§1º São reservadas aos Estados as competências que não lhes sejam
vedadas por esta Constituição.

No caso do tema RPV, a Constituição não só não veda aos Estados e Municípios
tratarem dessa matéria, como ainda expressamente outorgou a eles – por meio do
art. 87 da ADCT – competência para tanto, sendo, assim, inconstitucional que a
União, por lei própria, altere o que o Estado ou Município fixaram por meio de lei local.
No caso do Estado do Pará, o art. 2º, §1º, da Lei Estadual nº 6.624/2004
fixou o prazo para pagamento das obrigações de pequeno valor em, no máximo,
120 dias a partir do recebimento da requisição, possibilidade legal que deriva da
ordem constitucional vigente como já acentuado, enquanto o novo CPC fixa prazo
de apenas 60 dias, ou seja, o Estado fixou prazo de acordo com sua realidade
administrativa, econômica e orçamentária, tendo a União fixado a metade do prazo
para um procedimento já consolidado há mais de 10 anos!
Importa reconhecer e registrar que o orçamento público, via princípio do
orçamento, obriga a Administração a planejar a execução de suas políticas públicas
com o estabelecimento de metas e programas, com o objetivo de melhor executar
os serviços públicos visando ao bem da coletividade local em estrita observância de
suas forças e dos limites dos orçamentos previamente fixados.
No modelo federativo atual, onde a União detém grande concentração das
receitas tributárias, além de reiniciar novo movimento de recentralização da riqueza
nacional, muitas políticas publicas foram definidas como competências dos Estados-
Membros e municípios, principalmente no que toca à saúde, educação, desporto,
lazer, segurança, previdência social, assistência social etc.16
O atendimento dessas demandas e carências deverá ser suportado pelas
receitas tributárias definidas na Constituição, obedecido ao modelo de repartição e
vinculação.

16
Vide, exemplificativamente, a resistência dos estados nas ACOs nº 2.847 e 2.854 perante o STF.

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Angelo Demetrius de Albuquerque Carrascosa, Jose Aloysio Cavalcante Campos

A vinculação de receitas públicas importa na obrigatoriedade de investimentos


mínimos nas áreas sociais (seguridade social e educação – arts. 198, §3º, e 212 da
CF/88, respectivamente) com estabelecimento de prioridades nos gastos públicos.
Ao administrador público, sobram obrigações e é minimizada a ação discricionária
considerando a obrigatoriedade constitucional de investimentos nas áreas sensíveis
definidas na ordem social, ao contrário da União, que detém, por exemplo, a
possibilidade de uso flexível do orçamento através da Desvinculação de Receitas da
União (DRU).17
Nesse quadro, além das receitas vinculadas de uso obrigatório na saúde e
educação, como acima exposto, hão de ser considerados: segurança pública;
pagamento de pessoal e custeio gerais da administração; pagamento de dívidas
fundadas com União e precatórios, implicando em pequena sobra percentual do
orçamento para investimentos e execução de outras políticas públicas locais definidas
pelas mesmas necessidades regionais, sendo necessário, por isso mesmo, atribuir
à autonomia dos estados seu pleno e maior emprego, tal como já observado pelo
próprio STF:

(...) a autonomia das entidades federadas é o sinal federativo constitu-


cionalmente fixado. Sem autonomia não há federação. E a autonomia
é espaço próprio de competências sob favoráveis condições jurídicas,
políticas e financeiras garantidas para o desempenho dos serviços públi-
cos atribuídos a cada qual das entidades. (ADI nº 4.917 – Min. Cármen
Lúcia, destacamos).

Por isso, é necessário reconhecer que a competência para fixar o valor das
obrigações de pequeno valor e, por consequência, o prazo de pagamento é medida
delegada aos Estados e Municípios, eis que derivam de modelo constitucional a
permitir a melhor execução possível dos orçamentos públicos estaduais e municipais,
consideradas as respectivas características locais, principalmente de carências
econômicas e financeiras.
Nessa linha, compete privativamente à União (art. 22, I, da CF/88) estabelecer
regras processuais centrais da relação jurídica, suas formas e efeitos, cabendo
aos Estados competência residual para estabelecer normas procedimentais
suplementares como se extrai do art. 24, XI e §3º da CF/88, situando-se a definição
do prazo de pagamento das RPVs nesta última.
Enquadra-se ao caso perfeitamente a situação do Estado do Pará, pois fixou
por meio do art. 2º, §1º, da Lei nº 6.624/2004 o prazo compatível com “suas

17
É um mecanismo que permite ao Governo Federal usar livremente 20% de todos os tributos federais vinculados
por lei a fundos ou despesas. A principal fonte de recursos da DRU são as contribuições sociais, que
respondem a cerca de 90% do montante desvinculado (portal Senado Federal: <www.senado.gov.br>).

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A (in)constitucionalidade do novo CPC no trato da requisição de pequeno valor

forças financeiras” (Min. Gilmar Mendes), bem como estabeleceu condições para
“compatibilizar o valor que estabeleça com as disponibilidades orçamentárias” (Min.
Cezar Peluso) fazendo uso de sua liberdade e autonomia para “definição política da
própria unidade” e, sobretudo, “diante da realidade e das finanças do próprio Estado”
(Min. Marco Aurélio).18
Não há de prosperar eventual argumentação de que as Leis Federais nº
10.099/00 e 10.259/01 definiram o prazo de 60 dias para pagamento e, por isso
mesmo, as regras do art. 535, I, §3º, do CPC devem, ou deveriam, com elas se
harmonizar, eis que o C. STF, na ADI nº 2.868, já assentou o entendimento de que a
autonomia dos Estados na fixação dos valores de RPVs é plena, não sendo admitida
nenhuma vinculação com valores e prazos estabelecidos nas referidas leis federais,
como se observa dos motivos determinantes estabelecidos em seu julgado. Verbis:
• “A norma do art. 87 tem caráter nitidamente transitório e abre margem a que
as unidades da Federação disponham livremente sobre essa matéria” (Min.
Joaquim Barbosa, voto vencedor).
• “O legislador constituinte quis deixar claro ao Estado a possibilidade de
fazer uma avaliação das suas forças financeiras” e reconheceu no caso a
autonomia do Estado do Piauí face “a situação financeira peculiar” (Min.
Gilmar Mendes).
• “O legislador estadual tem, pois, toda a liberdade para, segundo os próprios
critérios constitucionais, compatibilizar o valor que estabeleça com as
disponibilidades orçamentárias da respectiva entidade da Federação” (Min.
Cezar Peluso).
• “Que o estabelecimento de valores foi relegado à definição política da própria
unidade, podendo haver, inclusive, no Estado, variação, considerada a
pessoa jurídica de direito público devedora”, e ainda, “diante da realidade e
das finanças do próprio Estado, não tenho como entender que essa quantia
não é razoável” (Min. Marco Aurélio). (Grifos aqui)
Os mesmos fundamentos vinculantes pontuados na ADI nº 2.868 também
afastam eventual invocação da Lei Federal nº 12.153/2009, que dispôs sobre os
Juizados Especiais da Fazenda Pública no âmbito dos Estados, do Distrito Federal, dos
Territórios e dos Municípios, e que estabeleceu, no art. 13, I, o prazo de pagamento
das RPVs em 60 dias. Isso porque esse mesmo diploma legal estabeleceu no §2º
do art. 13 que “as obrigações definidas como de pequeno valor a serem pagas
independentemente de precatório terão como limite o que for estabelecido na lei
do respectivo ente da Federação”, o que implica o seu não uso como referência
legislativa para determinar a vigência integral do dispositivo do CPC ora questionado.

18
Citações do julgamento da ADI nº 2.868.

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Angelo Demetrius de Albuquerque Carrascosa, Jose Aloysio Cavalcante Campos

Isso tudo por um motivo muito simples: não se pode igualar a situação financeiro-
orçamentária dos Estados e dos Municípios do país e, muito menos, destes com a
União.
Em suma, considerando que inexiste na Constituição Federal o prazo de
pagamento das obrigações de pequeno valor pelos Estados e Municípios, exsurge
nítida a possibilidade residual de estes legislarem sobre o tema, mormente porque
isso afeta diretamente suas finanças, podendo comprometer a execução de políticas
públicas em áreas prioritárias.
Importante pontuar que a Procuradoria-Geral da República, em parecer da lavra do
atual Exmo. Procurador Geral, Dr. Rodrigo Janot, na Reclamação nº 16.912, de relatoria
do Min. Toffoli, reportando à ADI 2868, cuja ementa e fundamentos determinantes já
foram ao norte citadas, bem observou que, na referida ADI, restou reconhecido aos
entes públicos que tenham legislado a respeito das obrigações de pequeno valor a
possibilidade de fixar o valor a ser pago bem como o prazo para tal pagamento na
medida em que nada deliberou em contrário. Veja-se o seguinte excerto:

Desse modo, a ADI 2868, tomando como referencial o próprio art. 87 do


ADCT, resguardou a liberdade dos entes da Federação editarem as suas
respectivas leis instituidoras de obrigações de pequeno valor, isso sem
tecer qualquer restrição quanto ao prazo para o pagamento, como pontua
o reclamado. (Destacado)

Nessa linha, observado que o C. STF na ADI nº 2.868 deliberou por reconhecer
a possibilidade de os entes públicos fixarem os valores livremente, de acordo com
as realidades locais (capacidade orçamentária e financeira), imperioso, também
por esse motivo, reconhecer que o prazo de pagamento também pode ser objeto
de leis locais, seguindo o mesmo raciocínio de realidade local, consideradas as
desigualdades regionais.
Por fim, confirmando a jurisprudência do C. STF em reafirmar a autonomia
federativa, importante ressaltar as manifestações uníssonas e convergentes de
diversos ministros no julgamento da ADI nº 4.060 (maio/2015), destacando-se a do
relator, Min. Fux, que assentou:

Acredito seja momento de a Corte rever sua postura prima facie em ca-
sos de litígios constitucionais em matéria de competência legislativa,
passando a prestigiar as iniciativas regionais e locais, a menos que ofen-
dam norma expressa e inequívoca da Constituição. Essa diretriz parece
ser a que melhor se acomoda à noção de federalismo como sistema que
visa a promover o pluralismo nas formas de organização política.
Entre nós, o resgate do princípio federativo passa pela valorização da
chamada “competência residual” dos estados, consagrada no artigo 25,
§1º, da Constituição Federal: “São reservadas aos Estados as competên-
cias que não lhes sejam vedadas por esta Constituição”.

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A (in)constitucionalidade do novo CPC no trato da requisição de pequeno valor

Depois, cumpre explorar ao máximo as “competências concorrentes”


previstas no art. 24 da Constituição vigente, impedindo que a União ocu-
pe todos os espaços legislativos, usurpando a competência dos estados
e do Distrito Federal nesse setor. Afinal, o §1º do art. 24 estabelece,
com todas as letras, que, “no âmbito da legislação concorrente, a com-
petência da União limita-se a estabelecer normas gerais”. E mais: o §3º
consigna que, “inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados
exercerão a competência legislativa plena, para atender às suas pecu-
liaridades”.
No Supremo Tribunal Federal, considerada a sua atual composição, já
há uma visível tendência no sentido do fortalecimento do federalismo,
prestigiando-se a autonomia dos estados e dos municípios, a partir de
inúmeras decisões, especialmente nas áreas da saúde, do meio ambien-
te e do consumidor. (LEWANDOWSKI, Enrique Ricardo. Considerações
sobre o federalismo brasileiro. Revista de Revista de Justiça e Cidadania,
n. 157, Rio de Janeiro: Editora JC, 2013, p. 17).
Não se pode perder de mira que a República Federativa do Brasil tem
como um de seus fundamentos o pluralismo político (CRFB, art. 1º, V).
Propõe-se, assim, que a regra geral deva ser a liberdade para que cada
ente federativo faça as suas escolhas institucionais e normativas, as
quais já se encontram bastante limitadas por outras normas constitucio-
nais materiais que restringem seu espaço de autonomia.
Em consonância com as premissas teóricas firmadas linhas atrás, cum-
pre não inflacionar a compreensão das “normas gerais”, o que afastaria
a autoridade normativa dos entes regionais e locais para tratar do tema.
Assim é que, não havendo necessidade autoevidente de uniformidade
nacional na disciplina da temática, proponho prestigiar a iniciativa local
em matéria de competências legislativas concorrentes. O benefício da
dúvida deve ser pró-autonomia dos Estados e Municípios. (Grifos parciais)

No mesmo sentido, seguiram-se outros votos na mesma ADI nº 4.060:


O SENHOR MINISTRO TEORI ZAVASCKI – Senhora Presidente, eu também
gostaria de louvar o voto do Ministro Luiz Fux. Em primeiro lugar, pela atenção que
está dando à necessidade de nós nos debruçarmos um pouco mais, com mais
atenção sobre a necessidade de aprofundamento do princípio federativo, inclusive em
matéria normativa. Parece-me que essa meditação a respeito é muito importante. Em
segundo lugar, Sua Excelência demonstrou que, realmente, aqui, o Estado de Santa
Catarina nada mais fez do que exercer legitimamente a sua competência concorrente.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES – Na verdade, nós vivemos um


dilema, que Sua Excelência apontou. A partir do modelo federal e, às
vezes, até da exaustão por parte da União, da legislação federal, nós
acabamos por invadir essa competência estadual. Aí, há fenômenos, os
mais variados, que permitem fazer a explicação.
Então, a mim me parece que é importante que o Tribunal tente construir
precedentes, como esses e outros, no sentido de assentar aquela ideia

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Angelo Demetrius de Albuquerque Carrascosa, Jose Aloysio Cavalcante Campos

de que a adoção desse modelo de competência concorrente obriga a


definição de normas gerais. E editar normas gerais não pode permitir a
exaustão da matéria de que se cuida, sob pena de voltarmos - e parece
que a gente acaba por mimetizar - ao modelo da Constituição de 67/69,
da tal competência supletiva, em que a União poderia legislar exaustiva-
mente e só nos vácuos poderia então...
Então, a mim me parece que essa é uma questão importante no debate
federativo. O próprio professor Konrad Hesse, chamando atenção para
o modelo alemão, dizia: legislar sobre normas gerais não pode permitir
que a União use dessa competência de forma exaustiva. E tem de deixar
competência substancial para o estado-membro.
(...)
Então, parece-me, que nós fiquemos atentos a esses e outros casos que
estão realmente no núcleo desta questão federativa. Esse mimetismo,
essa reprodução do sistema federal, ou essa exaustão na legislação
federal que acaba por coarctar a criatividade no âmbito estadual, eventu-
almente no âmbito municipal, parece altamente negativa. (Destacamos)
Desta feita, considerando que a Constituição, ao tratar da matéria RPVs,
delegou aos Estados e Municípios regulamentá-la para que fosse fixado
o valor por cada ente federado em atenção às peculiaridades regionais,
não tratando o texto constitucional sobre o prazo de pagamento, restou
habilitada a competência concorrente dos Estados e Municípios para de-
finir tal prazo.

Não é demais (re)afirmar que o prazo de pagamento de uma obrigação interfere


diretamente na capacidade financeira de adimpli-la, pois, quanto maior o prazo, mais
tempo tem o Estado para arrecadar os fundos necessários para honrar com sua
obrigação.
Assim, ao editar suas leis locais, os entes federados fixaram os valores em
consonância com os prazos necessários para cumprir com tal obrigação, sendo
lógico, portanto, que a mudança unilateral desse prazo pela União (através do NCPC)
interfere diretamente e indevidamente na fixação dos valores que os Estados (e/ou
Municípios) fixaram por expressa previsão constitucional.
Manter a aplicação do NCPC, portanto, importará na violação do pacto federativo
e na autonomia dos entes federados esculpidos nos artigos 1º e 18 da CF/88,
deixando comprometida a autonomia federativa, prejudicando o poder de organização
própria dos Estados e Municípios, e as suas autonomias financeiras.
Ante o exposto, após cotejar os dispositivos constitucionais e, principalmente, a
iterativa jurisprudência do C. STF, impõe-se reconhecer a inconstitucionalidade do item
II do art. 535 do Código de Processo Civil ou, na melhor das hipóteses, reconhecer
sua eficácia apenas para as entidades federativas que não tenham exercido sua
competência legislativa sobre a matéria (e enquanto não o façam), devendo o STF
manifestar sua interpretação nos autos da ADI nº 5.534, proposta pelo Estado do
Pará, mas ainda não decidida.

238 R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017
A (in)constitucionalidade do novo CPC no trato da requisição de pequeno valor

5.2 Inconstitucionalidade do §4º do art. 535 do Código de


Processo Civil por permitir o fracionamento do precatório,
contrariando o art. 100, caput e §8º, da CF/88
O §4º do art. 535 do Código de Processo Civil prevê:

Art. 535. A Fazenda Pública será intimada na pessoa de seu represen-


tante judicial, por carga, remessa ou meio eletrônico, para, querendo,
no prazo de 30 (trinta) dias e nos próprios autos, impugnar a execução,
podendo arguir:
§4º Tratando-se de impugnação parcial, a parte não questionada pela
executada será, desde logo, objeto de cumprimento.

Da forma que está redigido o referido dispositivo legal, pode ele ser usado para
embasar pleitos de fracionamento de precatório e/ou RPV, afrontando, ao ver desta
tese, a ordem constitucional anotada no §8º do art. 100 da Constituição Federal, que
veda o fracionamento do precatório, salvo na hipótese do §2º do mesmo dispositivo
(pessoas com mais de 60 anos ou doentes graves):

Art. 100. Os pagamentos devidos pelas Fazendas Públicas Federal, Esta-


duais, Distrital e Municipais, em virtude de sentença judiciária, far-se-ão
exclusivamente na ordem cronológica de apresentação dos precatórios e
à conta dos créditos respectivos, proibida a designação de casos ou de
pessoas nas dotações orçamentárias e nos créditos adicionais abertos
para este fim.
(...)
§2º Os débitos de natureza alimentícia cujos titulares tenham 60 (ses-
senta) anos de idade ou mais na data de expedição do precatório, ou se-
jam portadores de doença grave, definidos na forma da lei, serão pagos
com preferência sobre todos os demais débitos, até o valor equivalente
ao triplo do fixado em lei para os fins do disposto no §3º deste artigo, ad-
mitido o fracionamento para essa finalidade, sendo que o restante será
pago na ordem cronológica de apresentação do precatório.
(...)
§8º É vedada a expedição de precatórios complementares ou suplemen-
tares de valor pago, bem como o fracionamento, repartição ou quebra do
valor da execução para fins de enquadramento de parcela do total ao que
dispõe o §3º deste artigo. (Destacamos)

O fracionamento da execução convolado em precatório complementar ou


suplementar era admitido antes da EC nº 37/2002, passando a ser expressamente
vedado quando da edição da referida emenda, a qual deu a seguinte redação ao §4º
do art. 100 da CF/88:

R. Bras. de Adv. Pública – RBAP | Belo Horizonte, ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017 239
Angelo Demetrius de Albuquerque Carrascosa, Jose Aloysio Cavalcante Campos

Art. 100.
(...)
§4º São vedados a expedição de precatório complementar ou suplemen-
tar de valor pago, bem como fracionamento, repartição ou quebra do va-
lor da execução, a fim de que seu pagamento não se faça, em parte, na
forma estabelecida no §3º deste artigo e, em parte, mediante expedição
de precatório. (Destacamos)

Verifica-se, assim, que mesmo com a mudança de redação, o atual §8º do art.
100 da CF/88 mantém a intenção de evitar o fracionamento, repartição ou quebra,
salvo a hipótese expressamente prevista no seu §2º (débitos de natureza alimentícia
de maiores de 60 anos de idade ou portadores de doença grave).
Assim, somente são admitidas duas formas autônomas e separadas de
pagamento de dívidas da Fazenda: precatório ou (e não “e”) obrigação de pequeno
valor (RPV).
O objetivo da vedação constitucional de fracionamento tem como finalidade
impedir que o mesmo credor fazendário disponha de duas formas de pagamento
decorrentes de uma mesma condenação.
Contudo, a redação do §4º do art. 535 pode dar azo a interpretações que se
choquem com o comando constitucional e com a jurisprudência pacificada do STJ e
STF, pois permite que a parte incontroversa seja “imediatamente cumprida”.
Não é difícil de imaginar uma situação na qual um credor promova o cumprimento
de sentença para pagar quantia certa postulando um crédito de R$100 mil reais,
podendo o Estado, por não concordar com os critérios de correção – por exemplo –
apresentar impugnação afirmando ser devido apenas o valor de R$30 mil.
Nessa situação, aplicando-se a literalidade do dispositivo do novo CPC, esse
credor poderia receber o valor incontroverso por RPV, pois inferior a 40 vezes o valor
do salário mínimo, e, após julgada a impugnação, receberia os R$70 mil restantes por
meio de precatório, situação esta que o comando constitucional expressamente veda.

6 Conclusão
Como demonstrado ao norte, em que pesem os inegáveis avanços que o novo
Código de Processo Civil trouxe a toda a sociedade e à advocacia (publica e privada),
acabou por cometer, no tema “requisição de pequeno valor”, ato falho que pode
(e já está) prejudicando vários entes federados que, autorizados pela Constituição
Federal, trataram do assunto por meio de lei própria, de acordo com suas realidades
financeiras e administrativas.
Assim, amparado no princípio federativo, bem como nos permissivos
constitucionais que atribuíram aos entes federados a competência para tratar do

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A (in)constitucionalidade do novo CPC no trato da requisição de pequeno valor

tema, espera-se que o STF confira interpretação conforme ao inciso II do §3º do art.
535 do NCPC, de forma que este só prevaleça para casos de omissão de lei local.
Da mesma forma, acredita-se que o excelso pretório deva declarar a
inconstitucionalidade ou dar interpretação adequada ao §4º do mesmo artigo, de
modo que ele não permita que um único credor fazendário receba seus créditos por
duas modalidades diversas de pagamento (RPV e precatório requisitório) oriundo de
uma mesma condenação judicial.

Referências
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Lumen Juris, 2011.
GRINOVER, Ada Pellegrini. Os princípios Constitucionais e o Código de Processo Civil. São Paulo:
José Bushatsky, 1975.
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LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 11. ed. São Paulo: Método, 2007.
PAULO, Vicente; ALEXANDRINO, Marcelo. Direito Constitucional Descomplicado. 10. ed. São Paulo:
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MARINONI, Luis Guilherme; ARENHART, Sergio Cruz. Curso de Processo Civil. v. III. São Paulo: RT, 2007.
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Conteúdo jurídico do princípio da igualdade. 3. ed. 17. tiragem.
São Paulo: Malheiros Editores, 2009.

Informação bibliográfica deste texto, conforme a NBR 6023:2002 da Associação


Brasileira de Normas Técnicas (ABNT):

CARRASCOSA, Angelo Demetrius de Albuquerque; CAMPOS, Jose Aloysio


Cavalcante. A (in)constitucionalidade do novo CPC no trato da requisição de
pequeno valor. Revista Brasileira de Advocacia Pública – RBAP, Belo Horizonte,
ano 3, n. 4, p. 215-241, jan./jun. 2017.

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