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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ

PROGRAMA UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL


CURSO ADMINISTRAÇÃO – MODALIDADE DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

GUIA DIDÁTICO

FILOSOFIA E ÉTICA

DOCENTE RESPONSÁVEL
JOÃO MARCELO CRUBELLATE

Maringá – PR
2018
Prezadas Alunas, Prezados Alunos.
Filosofia e Ética são duas áreas do conhecimento intimamente relacionadas. De
fato, a Ética é uma das divisões da Filosofia, especificamente aquela que trata da
questão “como devo agir?” ou, ainda, “que devo fazer?”. Se a Filosofia pode ser
definida – de modo ainda um tanto superficial – como o exercício do pensamento
visando à sabedoria, a Ética pode ser entendida como esse exercício quando se toma
como objeto o próprio agir humano.
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O campo do saber que chamamos de Filosofia conta já com uma história
milenar. Segue-se que não seja possível tratar de todas as suas minúcias, correntes,
vertentes e possibilidades, no âmbito de uma disciplina escolar com duração de
algumas semanas. É possível, contudo, apresentar alguns de seus fundamentos,
discutir alguns de seus problemas centrais e dar ao aluno ou aluna um vislumbre de
algumas das respostas que, ao longo de sua história, foram apresentadas àqueles
problemas. Em tempo, é importante que se diga que a história, do ponto de vista da
Filosofia, não deveria ser entendida como sucessão de eventos e sim como emergência
de alternativas coerentes e razoáveis e que coexistem.
O mesmo se diga da Ética. Neste caso, contudo, acentuem-se dois importantes
aspectos: 1) o caráter menos especulativo e mais prático da Ética; e 2) que o debate,
na Ética, incorpora, necessariamente, o julgamento de valor quanto às alternativas ou,
perspectivas, o que não implica o predomínio do subjetivismo, contudo exige que a
objetividade da avaliação se dê em relação a algum critério aceito e que tenha por
finalidade o bem ou o bom (qualquer que seja a definição que se dê a bem ou bom).
Tentando sermos mais específicos, podemos dizer que a Ética diz respeito aos
princípios de valor que orientam a conduta humana.
A Filosofia está para a possibilidade de conhecimento assim como a Ética está
para a liberdade: se o conhecimento não fosse possível, a Filosofia não seria mais do
que uma ficção, no máximo um agradável – mas quase inútil – exercício. Já sem
liberdade toda decisão humana seria mera resposta a forças determinantes e,
consequentemente, qualquer responsabilidade moral pelas escolhas e atos não
poderia recair sobre nós.
Eis então, na possibilidade de conhecimento e na liberdade, dois dos
fundamentos mais relevantes para a nossa disciplina, dentre outros que buscaremos
expor ao longo de nossos estudos. Sempre que possível – e acompanhando a
inclinação já presente no texto que tomamos como referência para nossos estudos, o
livro-texto proposto por Selvino Assmann – faremos referência a questões pertinentes
à gestão e à administração pública. Cabe, entretanto, recordar aos estudantes que
nossa disciplina trata de questões de base, isto é, problemas de ordem profunda e
geral que são importantes não tanto por sua contribuição técnica, senão por sua
capacidade de instigar o ato de pensar. Deste modo, entenda-se que, com frequência,
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as discussões em Filosofia e Ética têm como propósito central aquilo que Battista
Mondin, em seu Manual de Filosofia Sistemática, define como “a realização de si
mesmo”. Isso não é coisa de pouca importância; antes, é tarefa urgente e que somente
pode ser realizada por nós mesmos, na inquietude de nossa interioridade!
Essa inquietude – essa agitação de si como princípio de movimento da
interioridade – é uma das questões apontadas já na Apresentação de nosso livro-texto.
Lá as alunas e os alunos encontrarão um instigante Convite Para Pensar que o autor
nos oferece e cuja leitura é já contada como a primeira atividade deste curso. Como
toda leitura que se preza, ela deve ser acompanhada por certo diálogo imaginário com
o autor, diálogo no qual acolhemos as questões ali propostas, as respondemos
tentativamente e, ao mesmo tempo, fazemos ao autor nossas próprias questões.
Duas dessas questões – dentre muitas outras possíveis – saltam aos nossos
olhos quando aceitamos o Convite de Assmann. A primeira delas se refere – como
acima já mencionei – à importância da inquietude, em relação à predominância da
felicidade (seguindo a afirmação do Professor Umberto Eco, citada no livro-texto); a
segunda se refere à natureza do exercício de pensar como atividade pessoal (segundo
também um filósofo alemão, pensar é uma atividade solitária!). Para mim, essas duas
questões propostas pelo autor de nosso livro-texto são de especial importância. E para
você? Há outras questões que lhe incomodam ao ler aquele Convite?
Em continuidade, o livro-texto tratará, em sua primeira unidade (como indica o
próprio autor), de breves considerações a respeito da história da filosofia. Ali veremos
alguns dos traços ou, atributos, que caracterizam a Filosofia em relação a outros
saberes, bem como iremos nos deparar com a tradição filosófica que pode ser
identificada como a origem formal da disciplina, tanto da Filosofia quanto da Ética,
qual seja, aquela que vincula Sócrates, Platão e Aristóteles.
Mas o primeiro módulo do livro-texto é bastante rico em sua apresentação das
tradições filosóficas, mesmo sendo extremamente condensado (por ´tradição´ não
entenda o aluno e a aluna que estamos fazendo referência a amontoados de
conhecimento empoeirado; pelo contrário: em filosofia, uma tradição é melhor
compreendida como sendo uma vertente – se quiserem outro termo, um paradigma –
razoavelmente coerente e relevante de explicações que, por sua importância, ainda
serve como referência e base para que se pensem problemas contemporâneos).
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Com relação àquela unidade, importa alertar que tão importante quanto saber
o que os vários filósofos pensaram, ao longo da história da filosofia, é saber como
pensaram. Talvez até mais importante, porquanto – como veremos lá – o filósofo não
é aquele, ou aquela, que encontrou a verdade, senão aquele e aquela que busca a
verdade, que a procura, sendo esta procura a sua marca característica (ou não é a Filo-
sofia o amor, a amizade, da sabedoria?). Naquela unidade encontraremos, ainda, uma
breve, contudo importante, discussão do sentido da política, primeiramente em Platão
e, em decorrência, em outros pensadores. Tal foco exemplificará – como veremos
oportunamente – o quanto a Filosofia, que parece deter-se em questões tão genéricas
que seriam desprovidas de utilidade imediata – pode ser, e de fato é, de primeira
importância para nossa vida cotidiana e para nossa sociedade contemporânea.
Na segunda unidade o autor de nosso livro-texto nos levará à discussão da
Ética. Aquela discussão se inicia com a proposta de distinção entre ética e moral. Ali,
toda a discussão é norteada pelos sentidos de bem/bom, mal/mau. De certo que não
se pretende dizer cabalmente o que é o bem ou o mal, e menos ainda prescrever
qualquer definição definitiva; aponta-se, contudo, para aqueles termos como o cerne
da questão ética como um dos problemas fundantes da Filosofia ocidental, sendo ela
ainda, como se nota facilmente, uma das questões mais importantes para a nossa
sociedade contemporânea. Importante será devotar atenção à conclusão à qual chega
nosso autor, no final da discussão da moral (primeira parte da unidade 2): o ser
humano é um ser moral! Aqui encontramos a afirmação do caráter universal da
moralidade.
Em seguida, passamos à discussão das fontes da moral, questão de capital
relevância para a ética. A virtude, o divino, o prazer, nós mesmos. Várias são as
propostas de referências primeiras – ou, fundamentos – para a moral. Tais referências,
a seu tempo, estabelecem também neste caso tradições éticas que marcam períodos
da história da filosofia. Notem a definição proposta pelo autor: Ética é a
fundamentação (diríamos também justificação) racional das regras morais. Não se
trata, portanto, da validade de qualquer regra ou conjunto de regras morais. Essa é a
base distintiva do que chamamos aqui de Ética e cuja sistematização primeira também
surge com a tradição Socrático-Platônico-Aristotélica.
Caminha-se, então, para uma discussão de primeira importância para o
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contexto da administração pública, qual seja, aquela baseada em Max Weber. Com o
sociólogo alemão aprenderemos um importante aspecto da vocação política: a
necessária capacidade de conciliar convicções e responsabilidade. A crise ética surge,
então, discutida a partir de diferentes entendimentos quanto à possibilidade – ou não
– de justificação racional de princípios morais universais, com reflexo em problemas
como o do assédio, o do direito dos animais, dentre outros campos possíveis.
Em continuidade, veremos a discussão da relação entre Ética e Política,
articulada pelo conceito de poder e, mais especificamente, adentraremos ao campo da
administração no contexto brasileiro, para o que certos aspectos da antropologia
muito nos serão úteis. A partir deles poderemos concluir, com o Professor Assmann,
que a questão ética no caso específico brasileiro (para sermos específicos) não pode
ser reduzida a um problema de administração pública e de mudança política: ela atinge
a sociedade mais ampla, alcançando a moralidade comum das pessoas em geral.
Finalmente, na conclusão, retornaremos a certas questões que já haviam
inspirado o autor de nosso livro-texto em sua introdução. Ali encontraremos um
exemplo de como a Filosofia é, de fato, área do conhecimento mais preocupada com a
elaboração e reelaboração de perguntas do que com o encontro de respostas
definitivas. Por mais angustiante e até (como insiste o Professor Assmann) improdutivo
que isso possa parecer – ou mesmo ser – não se deveria desprezar o enorme valor
dessa atitude para pôr em movimento o pensamento e, com ele, a própria história e
mesmo o ser humano, que é sempre um devir, um projeto a se realizar.
A leitura do texto proposto – acompanhada pelos extratos de textos
complementares que serão indicados abaixo – é imprescindível para que toda a sua
riqueza esteja ao alcance das alunas e dos alunos e para que se possa começar a
vislumbrar a beleza e o valor da reflexão filosófica. Resta o conselho de Sócrates a
Alcibíades: não pode pretender governar os outros aquele (ou aquela) que não
governa, antes, a si mesmo e a si mesma.
Abaixo, seguem indicações biográficas a respeito do professor desta disciplina,
que desde já deseja a todas e todos um ótimo semestre letivo.
Bom estudo!

JOÃO MARCELO CRUBELLATE, Professor Associado no Departamento de


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Administração e no Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) da
Universidade Estadual de Maringá. Doutor em Administração pela EAESP/Fundação
Getúlio Vargas (SP). Mestre em Administração pela UFPR e Mestre em Filosofia pela
PUCPR, com Especialização em Ética, também pela PUCPR. Minhas atuais pesquisas
têm como temática: na Administração, o problema da predominância da lógica
medicalizada e tecnocrática de maternidade no Brasil, sob a perspectiva da teoria
institucional; na Filosofia: a relação entre verdade, subjetividade e amor nos escritos
de S. Kierkegaard.
PROGRAMA DA DISCIPLINA

INFORMAÇÕES BÁSICAS
Disciplina: Filosofia e Ética
CH: 60 horas

EMENTA
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Estudo da história e evolução do pensamento filosófico e científico, a moral e a ética e
sua integração no contexto da Administração Pública

OBJETIVOS
a. Apresentar o pensamento e os fundamentos filosóficos, bem como a lógica e a
objetividade de valores;
b. Estudar a ética na sociedade e nas organizações, assim como o lucro e a
responsabilidade social sob o prisma ético.

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
1. FILOSOFIA
1.1 O que é filosofia?
1.2 Características gerais da História da Filosofia
1.3 Sócrates e Platão: um confronto entre dois modos de entender a filosofia

2. ÉTICA
2.1 Sobre a ética, a partir da crise ética
2.2 A ética e a política
2.3 O problema ético, a “ética profissional” e a responsabilidade social na
Administração Pública Brasileira.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ASSMANN, Selvino José. Filosofia e Ética. Florianópolis: Departamento de Ciências da


BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
CANDIOTTO, C. (Org.). Ética – abordagens e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2010.
COMTE-SPONVILLE, A. Apresentação da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
MARCHIONNI, A. Ética – a arte do bom. Petrópolis: Vozes, 2008.
MONDIN, B. Manuale di filosofia sistematica (v.6) – Etica i Politica. Bologna: Edizioni
Studio Domenicano, 2000.
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PENHA, J. Períodos filosóficos. São Paulo: Ática, 1991.
REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia – volume I (Filosofia pagã antiga). 3. ed.
São Paulo: Paulus, 2007.

METODOLOGIA DE TRABALHO

Duas são as atividades principais desta disciplina: a leitura do livro-texto, desde sua
introdução até à sua conclusão e o acompanhamento das aulas gravadas. Como a
temática é bastante ampla e ricamente documentada, é possível e recomendável que
os alunos e as alunas busquem, nos textos complementares indicados e em outros
textos disponíveis, informações e reflexões complementares, visando a ampliar e
consolidar as discussões da disciplina.
Para ajudar nesse exercício, iremos indicar alguns textos curtos e que, do nosso ponto
de vista, podem auxiliar aquelas e aqueles interessados nesse aprofundamento. A sua
leitura não é obrigatória, porém é recomendada.

PROCESSO DE AVALIAÇÃO
Avaliação Periódica: 1ª 2ª 3ª
Peso: 5 4 1

1ª AVALIAÇÃO PERIÓDICA:
Prova escrita (presencial) – valor de 0 a 10,0.

2ª AVALIAÇÃO PERIÓDICA:
Trabalho escrito – valor de 0 a 10,0 – composto pela resposta à seguinte questão: “É possível,
à luz do que estudamos na disciplina, ser ético na Administração Pública? Justifique a
resposta”. O trabalho consiste em texto de, no máximo, 1 página, em espaçamento 1,5,
oferecendo resposta à questão, com adequada justificativa, a ser entregue também na data
máxima de 21/05/2018 via a plataforma Moodle.

3ª AVALIAÇÃO PERIÓDICA:
Corresponde a nota atribuída à participação no ambiente virtual de aprendizagem - valor de 0
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a 10,0.

AVALIAÇÃO FINAL: prova escrita (presencial) - valor de 0 a 10,0.

CRONOGRAMA DAS ATIVIDADES


DATA/PERÍODO ATIVIDADE

De 09/04/2018 a 21/05/2018 Período de realização da disciplina


Até 23/04/2018 Leitura da introdução e primeira unidade do livro-texto.
Aulas gravadas correspondentes ao conteúdo de
Filosofia.

Até 14/05/2018 Leitura da segunda unidade do livro-texto (Ética).


Aulas gravadas correspondentes ao conteúdo de Ética.

14/05/2018 Webconferência (gravada)


21/05/2018 1ª oportunidade Avaliação Presencial
21/05/2018 Prazo final para entrega do trabalho (2ª. Avaliação)
Questões para reflexão e discussão na plataforma com base na primeira Unidade
(Filosofia) (não é obrigatório oferecer respostas a essas questões. Outras questões e
dúvidas poderão ser, obviamente, discutidas):
1. Para Umberto Eco, é melhor ser inquieto do que tentar ser sempre feliz. Para o
autor de nosso livro-texto, ser inquieto é atrever-se a pensar.
Consequentemente, ser feliz pode ser descrito, naquele caso, como a atitude
de evitar pensar. Em que sentido isso pode ser verdadeiro?
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2. Quais são as condições para um ´bom pensar´ (ou seja, o que é necessário para
que possamos pensar corretamente? Será que basta desejar? Basta gastar
tempo em meditação ou em conversas para que o nosso pensar não seja mero
exercício de ficção?).
3. Sócrates – considerado por Platão mais sábio que o próprio Platão – seria,
talvez hoje considerado um trabalhador intelectual improdutivo. Considerando
essa afirmação, o que é considerado, hoje, produtividade? Quais as suas
possíveis implicações positivas e negativas?

Questões para reflexão e discussão na plataforma (2ª. Unidade – Ética) (de igual modo,
não se trata aqui de questões obrigatórias, mas apenas um exercício de estímulo ao
debate e aprofundamento do conteúdo):
1. Nenhum ser humano pode ser usado como meio. Essa ´máxima´ ensinada por
Kant tem sentido fundamental para os nossos dias. Como podemos entenda-la?
2. “Temos que assumir o peso de decidir o que vai valer e o que não vai valer em
nossa inevitável convivência humana. É bem mais fácil e cômodo atribuir a
culpa pelos males aos outros”. Esse é um dos aspectos importantes da
autonomia. Mas autonomia significaria fazer o que se quer, o que ´dá na
telha´? Sim ou não? O que você pensa disso?
3. Considere essa afirmação de Raymundo Faoro, que finaliza o trecho que
citamos nos textos complementares à disciplina (vide abaixo): “o cidadão só
percebe, no poder público, o bacamarte, no dia da eleição, o voraz cobrador de
impostos na vida diária”. Você considera que essa crítica ainda é válida
atualmente? Por quê?
TEXTOS COMPLEMENTARES:

À Introdução:

(COMTE-SPONVILLE, A. Apresentação da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 13-14):

“A biologia nunca dirá a um biólogo como se deve viver, nem se se deve, nem mesmo
se se deve fazer biologia. As ciências humanas nunca dirão o que a humanidade vale, nem o
que elas mesmas valem. Por isso é necessário filosofar: porque é necessário refletir sobre o
que sabemos, sobre o que vivemos, sobre o que queremos, e porque nenhum saber basta para
empreender essa reflexão nem nos dispensa dela. A arte? A religião? A política? São grandes
coisas, mas também devem ser interrogadas. Ora, a partir do momento em que as 11
interrogamos, ou nos interrogamos sobre elas um pouco profundamente, saímos delas, pelo
menos em parte: já damos um passo para dentro da filosofia. Nenhum filósofo contestará que
esta, por sua vez, tenha de ser interrogada. Mas interrogar a filosofia não é sári dela, é entrar
nela. (...)
Filosofar é viver com a razão, que é universal. (...)
Viver com a razão, dizia eu. Isso indica uma direção, que é a da filosofia, mas não
poderia esgotar seu conteúdo. A filosofia é questionamento radical, busca da verdade global
ou última (e não, como nas ciências, desta ou daquela verdade particular), criação e utilização
de conceitos (mesmo que isso também se faça em outras disciplinas), reflexividade (volta do
espírito ou da razão para si mesmo: pensamento do pensamento), meditação sobre sua
própria história e sobre a história da humanidade, busca da maior coerência possível, da maior
racionalidade possível (é a arte da razão, por assim dizer, mas que desembocaria numa arte de
viver), construção, às vezes , de sistemas, elaboração, sempre, de teses, de argumentos, de
teorias... Mas também é, e talvez antes de mais nada, crítica das ilusões, dos preconceitos, das
ideologias. Toda filosofia é um combate. Sua arma? A razão. Seus aliados? As ciências. Seu
objeto? O todo, com o homem dentro. Ou o homem, mas no todo. Sua finalidade? A
sabedoria: a felicidade, mas na verdade.”

À Unidade 1:

(REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia – volume I (Filosofia pagã antiga). 3. ed. São Paulo:
Paulus, 2007, p. 217):

“Todas as ações humanas tendem a um fim, isto é, à realização de um bem específico;


mas cada fim particular e cada bem específico estão em relação com um fim último e com um
bem supremo, que é a felicidade. O que é a felicidade? Para a maior parte dos homens é o
prazer, ou a riqueza; para alguns é, ao invés, a honra e o sucesso. Mas estes presumidos ´bens´
têm todos um defeito, isto é, põem o homem em dependência daquilo de que dependem (os
bens materiais, o público etc.), e, portanto, a felicidade ligada a tais coisas é totalmente
precária e aleatória. O homem, enquanto ser racional, tem como fim a realização desta sua
natureza específica, e exatamente na realização desta sua natureza de ser racional consiste
sua felicidade.
No homem têm notável importância, além da razão, os apetites e os instintos ligados à
alma sensitiva. Tais apetites e instintos se opõem em si à razão, mas podem ser regulados e
dominados pela própria razão. A submissão da alma sensitiva à razão ocorre por meio das
virtudes éticas, as quais não são mais que os modos pelos quais a razão instaura sua soberania
sobre os instintos. De fato, as virtudes éticas se traduzem em busca da ´justa medida´ entre o
´excesso´ e a ´carência´ nos impulsos e nas paixões. Esta busca e aquisição da justa medida por
meio da repetição se traduz em um habitus e, portanto, constitui a personalidade moral do
indivíduo. Aristóteles teoriza deste modo a máxima dos gregos: “Nada em demasia”.

(GAARDER, J. O mundo de Sofia – romance da história da filosofia. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 216-218).

“- Você não disse que ´renascimento´ significa ´nascer de novo´? 12


- Disse. E o que viria a nascer de novo eram a arte e a cultura da Antiguidade. Por isso falamos
também do humanismo do Renascimento: depois da longa Idade Média, que via todos os
apectos da vida a partir de um prisma divino, o homem volta a ocupar o centro de tudo. A
égide deste movimento era a seguinte: “De volta às fontes!”, e a principal fonte era o
humanismo da Antiguidade. ´Desenterrar’ esculturas antigas e manuscritos da Antiguidade
tornou-se quase um esporte popular. Aprender grego também virou moda, o que levou a um
reestudo da cultura grega. O estudo do humanismo grego também tinha um objetivo
pedagógico: o estudo de temas humanistas levava a uma ´formação clássica´, capaz de elevar
o homem a um nível superior de existência. Costumava-se dizer que ´os cavalos nascem, ao
passo que os homens se formam´.
- Quer dizer que precisamos ser educados para nos tornarmos seres humanos?
- Sim, era assim que eles pensavam naquela época. Mas antes de examinarmos mais de perto
as ideias do humanismo e do Renascimento, vamos falar um pouco sobre o pano de fundo
cultural e político do Renascimento.
Alberto levantou-se e começou a andar pela sala. Depois parou e apontou para um
instrumento muito antigo que estava na estante.
- Você sabe o que é isto? – perguntou.
- Parece uma antiga bússola.
- Correto.
Depois apontou para uma antiga arma de fogo, que estava pendurada na parede sobre o sofá.
- E isto?
- Uma espingarda antiga.
- Muito bem. E isto?
Alberto tirou um grosso livro da estante.
- Um livro antigo.
- Para ser mais exato, um incunábulo.
- Um incunábulo?
- Na verdade, a palavra ´incunábulo´ significa ´berço´ e é o nome que se dá aos livros que
foram impressos nos primórdios da arte da impressão, ou seja, antes de 1500.
- E este livro é realmente tão antigo assim?
- É sim. E justamente estes três inventos que temos aqui diante de nós – a bússola, a pólvora e
a impressão de livros – foram os pressupostos mais importantes para a nova era, que
chamamos de Renascimento.
(...)
- O mais importante produto do Renascimento foi uma nova visão do homem. Os humanistas
do Renascimento desenvolveram uma crença totalmente nova no homem e em seu valor, o
que se opunha frontalmente à Idade Média, período em que se enfatizava apenas a natureza
pecadora do homem. O homem passa a ser visto agora como algo infinitamente grandioso e
valioso. Uma figura central do Renascimento foi Marsílio Ficino. É dele a célebre frase:
´Conhece-te a ti mesmo, ó linhagem divina vestida com trajes de mortal!´. Um outro, Giovanni
Pico della Mirandolla, escreveu um discurso laudatório intitulado Sobre a dignidade do
homem. Uma coisa dessa seria inimaginável na Idade Média. Durante toda a Idade Média, o
ponto de partida sempre fora Deus. Os humanistas do Renascimento, ao contrário, têm como
ponto de partida o próprio homem”.

À Unidade 2:

(MONDIN, B. Manuale di filosofia sistematica – v. 6. Bologna: Edizioni Studio Domenicano,


2000, p. 29-30):
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“A ciência ética com Kant retorna à razão: ela é obra da razão prática, a qual, em Kant,
tem maior poder do que tinha em Platão, Aristóteles, Tomás de Aquina, Descartes e Spinoza. A
ela Kant assinala o poder de recuperar aquela verdade que a razão especulativa – a razão pura
– não mais estava em condição de alcançar com segurança.
(...)
Segundo Kant o critério supremo da moral não pode consistir em conteúdo mas em
forma. Não pode consistir no prazer, na utilidade, no interesse, no bem, porque em tais casos
não conseguiria nunca ter valor absoluto, mas apenas hipotético. O critério moral deve por
isso ser repousar na forma, a qual corresponde ao imperativo categórico: obedeça à lei por
amor à própria lei. Kant, porém, consciente de que a norma do imperativo categórico é
demasiadamente abstrata e indeterminada para constituir um guia válido e eficaz da vida
moral, forneceu três fórmulas que permitem a quem age estabelecer se a sua ação é ou não
conforme ao imperativo categórico. As três fórmulas são: 1) ´Aja de modo que a máxima de
tua ação possa sempre valer ao mesmo tempo como princípio universal de conduta”; 2) ´Aja
de modo a tratar a humanidade, seja em si mesmo como em outras pessoas, sempre como fim
e jamais como meio; 3) ´Aja de modo que a tua vontade possa considerar si mesma como
instituinte de uma legislação universal´”.

(COMTE-SPONVILLE, A. Apresentação da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 73-74):

“Liberdade de ação, espontaneidade do querer, livre-arbítrio, liberdade do espírito ou


da razão... Entre esses quatro sentidos, cada um poderá escolher aquele ou aqueles (um não
exclui o outro) que lhe parece(em) mais importante(s) ou mais patente(s). Será livre essa
escolha? Não dá para responder em absoluto, porque nenhum saber é suficiente para dar a
resposta, porque qualquer resposta supõe uma escolha e dela depende. A liberdade é um
mistério, pelo menos como problema: nunca poderemos prová-la nem mesmo compreende-la
inteiramente. Esse mistério nos constitui; é por isso que cada um também é um mistério para
si. Se escolhi ser o que sou, só posso sê-lo numa outra vida, como queria Platão, num outro
mundo, como diria Kant, ou, em todo caso, num nível que não é, como diria Sartre, o da
deliberação voluntária, que resulta dessa escolha. Mas dessa outra vida, desse outro mundo
ou desse outro nível, não posso ter, por definição, nenhum conhecimento; é por isso que
sempre posso crer que sou livre (no sentido do livre-arbítrio), sem nunca poder prová-lo.
(...)
Ninguém nasce livre, torna-se livre. Pelo menos é o que penso, e que, por isso, a
liberdade nunca é absoluta, nem infinita, nem definitiva: que somos mais ou menos livres e
que se trata, é claro, de o sermos o mais possível.
Mesmo que Sartre tivesse razão, isso não bastaria para me deixar sem razão a respeito
desse último ponto. O fato de já sermos livres, ou não, não poderia nos dispensar de nos
tornar o que somos, como diria Nietzsche. Mesmo que cada um fosse ´uma escolha absoluta
de si´, como quer Sartre, isso não nos dispensaria de agir, nem de querer, nem de conhecer.
A liberdade não é apenas um mistério; também é um objetivo e um ideal. O fato de o
mistério não poder ser completamente esclarecido não impede que o ideal nos ilumine. O fato
de o objetivo não poder ser totalmente alcançado não impede nem de tendermos a ele, nem
de nos aproximarmos dele.
Trata-se de aprender a se desprender. Essa liberdade, como vemos em Spinoza, nada
mais é que o outro nome da sabedoria”.

14
(FAORO, R. Os donos do poder – v. 1. São Paulo: Globo; Publifolha, 2000, p. 437-438):

“O predomínio do soberano, legitimado no Poder Moderador, a centralização


articulada, na corte, pela vitaliciedade, o voto manipulado não criam, como entidades feitas de
vento, o sistema político. Este assenta sobre a tradição, teimosa na sua permanência de quatro
séculos, triturando, nos dentes da engrenagem, velhas ideias importadas, teorias assimiladas
de atropelo e tendências modernizadoras, avidamente imitadas da França e Inglaterra. Mas a
tradição não se alimenta apenas da inércia, senão de fatores ativos, em movimento e
renovação, mas incapazes de alterar os dados do enigma histórico. Sobre as classes que se
armam e se digladiam, debaixo do jogo político, vela uma camada político-social, o conhecido
e tenaz estamento, burocrático nas suas expansões e nos seus longos dedos. Nação, povo,
agricultura e comércio obedecem a uma tutela, senhora e detentora da soberania. Uma voz,
inflamada de protesto, dirá a seus contemporâneos, há um século: ´... os erros administrativos
e econômicos que afligem o Império não são exclusivamente filhos de tal ou tal indivíduo que
há subido ao poder, de tal ou tal partido que há governado: não, constituem um sistema
seguido, compacto, invariável. Eles procedem todos de um princípio político afetado de
raquitismo, de uma ideia geradora e fundamental: a onipotência do Estado, e no Estado a
máquina central, e nesta máquina certas e determinadas rodas que imprimem movimento ao
grande todo´. Há, para traduzir igual ideia, forma mais dura: ´Depois de ter sido, durante quase
dois séculos, carne viva para a varejeira lusitana, o Brasil acabou incluindo na sua vida o
próprio Estado que, de lá, emigrara, na plenitude da ignomínia lusitana´. O imperador não será
a ´única realidade, realidade cercada de sombras e fantasmas, mas ele representa a
comunidade de poder, por ele meramente presidida, turvando-lhe o olhar e murando-lhe os
ouvidos. A camada dirigente, aristocrática na sua função e nas suas origens históricas, fecha-se
na perpetuidade hereditária, ao eleger os filhos e genros, com o mínimo de concessões ao
sangue novo. Prenuncia, no esclerosamento, a morte precoce, farpeada de críticas e protestos,
para, mais tarde, perder a vitalidade, sentada nas cadeiras supremas da política. Enquanto não
soa a hora da agonia, ela governa, comanda, barganha, transige.
O Estado, armado desde Avis e Bragança, cultiva exigências maiores e superiores aos
recursos da nação. Pobre de meios, forçou-lhe a criação, com empréstimos e a ativação da
economia, suscitando a agricultura, tal como outrora suscitara as navegações, por via de seu
leal braço, o comércio, entrincheirado nas classes lucrativas. Esse impulso, vibrado de cima
para baixo, urgido num contexto internacional, passivamente absorvido, sustenta o
estamento, nutre-o e o valoriza. A antiga antinomia metrópole-colônia dá lugar a outra,
Estado-nação, com energias divorciadas, excêntricas no miolo e ajustadas apenas na
superfície. Entre as duas entidades em confronto, o cidadão só percebe, no poder público, o
bacamarte, no dia da eleição, o voraz cobrador de impostos na vida diária”.