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Aristoteles: ética da imanéncia A justiga € a base da sociedade; sua, ‘aplicagdo assegura a ordem na comu- ‘nidade social, por ser 0 meio de deter- minar o que justo (Aristételes). A Kitica e a Politica.de Aristételes formam o primeiro grande tratado sobre o comportamento das pessoas ¢ da $0- ciedade. Na Etica, Aristételes escreveu algumas das mais be- las paginas da histéria do pensamento; por exemplo, no tilti- mo livro da Etica concluiu que “o intelecto exerce uma ativi- dade quase divina, é nossa melhor parte € nos aproxima dos deuses” GN*, 10,7). Mas esta nobilissima afirmacao nao € {mais importante que esta outra: “og homem € um animal ca- paz de pensar e de fazer politica” (EN, 1,6); isto &, o homem 6 im Ser no qual convivem as realidades biolégica, sensitiva, intelectiva e divina. ‘A tarefa primordial da ciéncia ética consiste em colocar uma certa harmonia, hierarquia e comando nesta complexi- dade; tarefa muito dificil que s6 pode ser cUmprida aproxi- mativamente, pois desde o inicio Aristételes adverte que as ciéncias da ética e da politica analisam as condutas huma- nas mutdveis por aproximagao e néo por definicéo como na metafisica que € a ciéncia das coisas imutaveis (EN, 1,5). Nesta introdugdo, quero destacar quatro eixos.em torno dos quais giram as duas obras de Aristételes. Primeiro, a # A abreviatura EN refere-se & obra Btica a Nieémaco, de Aristételes. +e 1 | 4 ; + 2, Aristételes: ica da imanéncia * ética é natural: emerge da estrutura biolégica do ser hunia- no tomado em sua individualidade e sociabilidade. Nao é 86 oindividuo que é produto da natureza, mas também a socie- dade. Dai resulta que a melhor definicaio do homem é esta: “um animal racional e, 20 mesmo tempo, um animal politi- co” (EN, 1,7). Plato afirma claramente que a sociedade € um grande animal. segundo eixo flui do primeiro: a ética ¢ finalista. To- das as escolhas e decisées humanas visam alcancar um fim, produzir um bem e chegar a uma meta. fi 0 que dizo primei- ro pardgrafo da ética: “Toda a arte e toda a investigacdo as- sim como toda acéo e todo propésito visam a algum bem; por isso foi dito acertadamente que o bem é aquilo que to- das as coisas visam’” (EN, 1,)). © tereeiro eixo é 0 coragéo da obra: a ética é racional. Como dissemos acima, a tarefa da ética esté em harmonizar 0s impulsos biolégicos, instintivos e sensitivos sob a orienta- co da razao, “nossa melhor parte” (EN, 10,7). Nossos impul- sos biolégicos espontaneos ganham qualidade ética quando subordinados ao comando da razdo, como veremos adiante. quarto cixo afirma a heteronomia da ética. A ética vem de fora, vern da natureza; o homem nao escolhe nem decide ser ético; ele nasce ético porque, sendo animal inteli- gente, todos os seus atos so, de algum modo, deliberados, escolhidos e decididos racionalmente. Somos 0 tinico ani- mal que, por natureza, decide seus atos tanto para o bem quanto para o mal. Mas, sendo biologicamente ético, ndo quer dizer que faca aces éticas automaticamente; as ages, sero éticas quando decididas pela liberdade: “Nem por na- tureza nem contrariamente a natureza a virtude moral é en- gendrada em nés, mas a natureza nos da a capacidade de re- cebéla e esta capacidade se aperfeigoa com 0 habito” (EN, IL,1). Entdo somos apenas potencialmente éticos por consti- tuigdo natural, biolégica. Estes quatro eixos atravessaram os séculos sem contes- tagiio. Em torno deles giraram quase todos os tratados de coe a ‘| -Idade graga: onascimento da étos * ética com apenas algumas variantes. Sé tia idade moderna foram criticados com argumentos convincentes; por xem" plo, Kant ignorou a ética heterOnoma e naturalista, biolo- gista e propés brilhantemente a ética autonoma, dscidida pela razio. T. Hobbes, J. Locke e J.J. Rousseau colocaramn as bases da politica nao mais na natureza humana, mas no Gontrato social: sao os homens que, pela liberdade, decidem viver em sociedade e ndo nossa natureza biolégica. 1-Contexto metafisico da ética {Na constelagio das obras de Aristételes, a ética faz parte do elenco das ciéncias priticas que, para ele, sdo hierarquica” ‘nao podem mudar; aquelas tratam das condutas e das metas ‘que catia homem € a sociedade desejam alcancar ¢ que ssn: pre podem mudar; 6a filosofia das coisas bumanas”, nabela expresso de Aristétcles. A ética comporta dois momentos convergentes: a ética da formacao do homem virtuoso ¢ d¢ ¢a- cater e a politica que trata do cidadio, da origem da sociedade edo seu governo. Portanto, a ética encontra na politica sua plena realiza- cdo: ela forma o individuo para que se torne born cidadao. Diz Aristétel certo que o bem desejavel mesmo quan- do diz respeito s6 a uma pessoa, porém é mais belo ¢ mais Gioimo quando se refere a um povo e as cidades” (EN, 1,2). Portanto, 2 politica 6 a ciéncia arquiteténica que define “que ciéncias s4o necessérias na polis e quais cada um deva aprender e até que ponto” (EN, 1,2). ‘Mas “a filosofia das coisas humanas”, como saber préti- co, subordina-se a0 saber tedrico, ametafisica. Isto €, a ética © apolitica encontram sua raiz profunda na constituigée op tolégica do homem. Os gregos entenderam o ser humano como produto da physis, como todos os outros seres naturais. Nele aparece & ae i | q i + 2, Astteles:éica da imanéncia * suprema manifestacdo da physis como logos e ethos (Lima ‘Vaz, 1988: 11). Portanto, para Arist6teles, o homem é um animal que pensa e descreve a ordem dos seres naturais € entende a estrutura ontolégica de cada um (logos); eleé também um animal ético-polftico (ethos), que s6 se realize na convivéncia social (Pol., 1,1). Explicitemos 0 profundo contetido destas afirmagses. Segundo Aristételes, o homem surge da physis gracas & atuacdo de principios e de causas; aqueles séo: matéria ¢ forma, ato e poténcia, esséncia e existéncia e substancia e acidentes; ¢ estas sdo quatro: material, formal, eficiente efi- ‘Met., J,3 e VILL, 4; Geragdo dos animais, 1,1). ‘Séo prin ‘ou postulados dialéticos, pares opostos entre sie so a origem de todas as realidades sublunares. Portanto, também o homem é um composto de matéria e forma. A matéria 6 o principio “negativo”, 0 caos ¢ a desor- dem, segundo Platéo, e principio de indeterminacdo e de in- definigso, segundo Aristételes. Enfim, a matéria ¢ 0 pélone- gativo das realidades, um “quase nada”, segundo Agostinho. ‘Exatamente o contrério acontece na forma que é 0 prin- cépio positive da ordem, da determinagao e da especifica- 40; isto 6, a forma coloca limites na matéria indefinida (ou sem nenhuma delimitacdo) e faz com que ela assuma Timi- tes ou uma maneira especifica de existir. Assim, do éncontro destes dois principios origindrios surgem todos os seres €s- pecificamente diferentes: minerais, vida vegetal, animal e humana. Ohomem, por exemplo, se compoe exatamente da mes- ma matéria de todos os outros seres, mas, nele, a matéria toma a forma racional, como no animal toma a forma sensi- vel. A racionalidade nos dé a especificidade de seres bumna- :téo Platao sentia-se & vontade para afirmar a origem. © obscura e material da vida humana; somos “filhos do aos” (matéria) e da ordem (forma racional): um ser de confli- tos do espirito contra a matéria. 2 | \ | + L-Idade grega: 0 nascimento da éica* O mesmo movimento dialético acontece no par ato € Po- tencia. Ato 60 fato de existir ea poténcia, a possibilidade de vir a existir. Isto significa que somos seres potenciais que, ‘an determinado momento, comegamos a existir. Aristote- Jes ¢ Tomds de Aquino definiram a poténcia como: “a exis- téncia potencial enquanto potencial” (actus entis in poten” tia quatenus in potentia); isto quer dizer que a poténcia no “um nada” mas é existéncia potencial, ou seja, uma exis: tencia em condic6es de vir a existir de feto (em ato). -Por ‘exemplo, uma jovemn que ainda néo é mae esta em condi- (Goes bioldgicas de vir a sé-lo. Isto ajuda a entender também © complexo problema da definicao das células-tronco em: Griondrias e congeladas, Que séo? Algo humano? Vida hue mana? Certamente, mas s4o uma vida humana potencial ¢ virgo A existéncia com a condicéo que sejam “plantadas” trum titero humane, exatamente como a semente de alface r plantada na horta. Segundo dialéticos vém a existéncia pela Quanto 20 homem, a natureza Ihe deu as primeiras tres causas através da geracio biolégica: os pais sao nossa causa fficiente e nos geram com forma racional a qual dé qualidade Guistada ao longo da vida pelo exercicio da liberdade, ou seia, 2 causa final 6, no homem, sua realizagao como ser ético que busca seu crescimento moral, intelectual, social e politico: pela liberdade o homem pode construir a finalidade de sua existéncia ou pode destrut-la. ¥ daqui que nasce a ética como orientacdo da liberdade para que ela construa e conquiste a finalidade (causa final) He sua existencia que € a felicidade numa sociedade justa, segundo os gregos; na sociedade politica e na comunidade de fé, para os cristaos. Fste conjunto de prineipios e de caus ‘sas Tevela que o homem é um ser dialético, aberto e em cone - ae | | i * 2, Aristoteles ica daimanéncia * tinua autoconquista. Ele esta sempre em ato (existe) e sem- pre em poténcia (de explicitar novas possibilidades). IL- © bem do homem: a ética finalista Movendo-se neste contexto metafisico. Aristételes procu- ra, antes de qualquer outro passo, determinar da melhor maneira possivel a finalidade prépria do ser humano. Por isso, a primeira caracteristica da ética aristotélica é ade ser finalista. Em todas as suas agdes o homem visa alguna: finalidade, alcangar um bem. Isto faz toda a pessoa consciente de sie de seu agir; sé um desequilibrado, como 0 brio, pode faze ages ser visar algum resultado, diz Aristételes (EN, VII,4). "Ha, porém, urna hierarquia de bens: alguns nésos procure: })¢* ‘mos em vista de obter outros bens; estes so, portanto, bens re- Jativos a outros maiores como, por exemplo, trabalhar para ga- nhar um bom salario para ‘comprar uma casa e viver tranqitila- mente, Ora, diz Arist6teles, numa hierarquia de bens e fins or- denados uns aos outros é preciso que haja um bem final que sintetize todos e que: serd o fim tiltimo e supremo. Este bem 6a fulicidader “Sea, para as ages que praticamos, algumainali- dade que desejamos por simesma, sendo tudo o mais desejado por causa dela, ese escolhemos tudo por causa de algo mais (se fosse assim, o processo prosseguiria até o infinito, de tal forma que nosso desejo seria vazio e vio), evidentemente tal finalida- de deve ser 0 bem e o melhor dos bens” (EN, L1) . ‘Mas se todos concordam que a meta, o bem ea finalidade prépria do homem € a felicidade, quando se trata de dizer em que consiste as discordancias séo muitas ¢ irreconciliaveis. Aristételes discute 0 conceito de felicidade a partir do que a cultura de seu tempo entendia por esta expresso. Paraaple- be, a felicidade consiste nos prazeres e no gozo sensual. Mas ‘0s que defendem tais convicges, diz Aristételes, “levam uma existéncia de escravos e de animais” (EN, 1,5). ome + | Idade graga: 0 nascimento da ica * Outras pessoas colocam a felicidade ou o supremo bem nahonra, na gléria eno aplauso que vém sobretudo da ativi- dade politica, Mas Aristoteles pondera que a honra nao é um em interior A pessoa mas exterior; sto os outros que resol- vem aplaudir-me. Uma pessoa assim “de fato parece depen- der mais de quem confere a honra do que de quem ¢ honrado; nnés, pelo contrétio, consideramos que o bem é algo individu almente inalienavel” (EN, 15). 4 também os que colocam a felicidade no actimuls de riquezas, Aristoteles rebate: “Ei evidente que axiqueza nao é ‘bem que buscamos; de fato, ela s6 existe em vista do lucro @ 6 um meio para outra coisa” (EN, 1,5). Tais pessoas come~ tem o erro de converter um meio (riqueza) em fim (felicida- de); riqueza ndo gera felicidade. ‘A quarta posicéo, a de Aristételes, encontra-se numa pé- gina profunda onde entrelagam-se a vida biol6gica, psicol6- gia, ética e metafisica, ao mesmo tempo. Em sintese, Arist6teles diz que a felicidade esta numa atividade, uma funcéo da alma. Cada parte do homem cum- ‘pre uma funcio propria e exclusiva: assim, a funcao do olho 6 olhar, a funcdo do ouvido € ouvir e a fungao do pé é andar. ‘Mas a pergunta é: se cada parte exerce uma fungao propria, do haveria uma fungéo do homem como um todo? Qual se~ tia esta fungéo exclusiva? Responde Aristételes: nao sera simplesmente o viver, pois também os vegetais vivern, se nutrem, crescem; nem sera sentir prazer € dor, pois estes sentimentos existem também nos animais; mas 0 pensar, que nao existe nem nos vegetais nem nos animais, ¢ exclie sividade do homem. Portanto, a atividade racional, o exerci: cio da mente 6a finalidade especifica do homem enisto esta sua realizacdo final, a sua felicidade. Portanto a finalidade do homem é uma atividade racional, uma funcéo da alma. Citemos esta importante passagem da Etica: “Qual seria a funcéo propria do homem? Até as plantas participam da vida; mas nés estamos procurande algo peculiar ao homem. - ae | | | ; i 4 ‘= 2 Avstételes: ica da imanéncia * Excluamos, portanto, as atividades vitais da nutricdo e cres- cimento. Em seguida a estas haveria a atividade vital da sensaco, mas também desta parecem participar até o cava~ Joe 0 boi e todos os animais. Resta entao aatividade vital do ‘elemento racional do homem. 0 exercicio ativo do elemento racional 6 a funcéo prépria do homem, é uma atividade da alma por via da razéo” (EN, 1,7). No exerefcio do intelecto o homem realiza suas pos: lidades mais elevadas, “exerce a funcdo de meditar exch va aele que é de pensar filosoficamente os supremos princi pios das coisas” (EN, X17). Sobre a felicidade, no exercicio do intelecto, Aristételes escreveu talvez as mais belas paginas da hist6ria do pensa- mento: “A atividade conforme a sabedoria filoséfica € reco- nhecidamente a mais agradavel das atividades conformes & virtude. Esta atividade é a melhor, j4 que ndo somente 0 in- telecto 6 nossa melhor parte, mas também os objetos com os quais 0 intelecto se relaciona sao os melhores. Segue-se que esta atividade seré a felicidade completa para o homem. 0. homem vive como se algo de divino existisse presente nele; ‘entdo, se o intelecto é divine em comparacdo com a vida pu- ramente humana, devemos esforgar-nos ao méximo para vi- ver de acordo com o que h4 de melhor em nés, pois embora esta nossa parte melhor seja pequena em tamanho, em po- der e importancia, ela ultrapassa todo o resto. Para 0 ho- mem, a vida conforme ao intelecto é melhor e mais agrada- ‘vel, j que o intelecto, mais que qualquer outra parte do ho- mem, é 0 préprio homem. Esta vida, portanto, é também a mais feliz” (EN, X,0). Til -A felicidade ser sé exercicio intelectual? ‘Damos aqui uma parada para introduzir um debate hist6- rico. Ser que a felicidade humana consiste s6 na contempla- c4o intelectual de verdades metafisicas e seres imutaveis? Entao quem poder ser feliz? S6 0 filésofo? Nao seria isto ag Peace eee eee + [Idade grega: onascimento da ética * tudo uma alienacdo, uma fuga do real para refugiar-se nas nuvens? Historicamente, importantes comentaristas da Etica a Nicémaco se detiveram s6 nos livros I e X. Sobretudo na Idade Média, tentou-se aproximar Aristételes com os textos biblicos que tratam da felicidade eterna. Aristételes eviden- temente néo fala disto mas sustenta que o exercicio da ra- 280 “éalgo de divino” tao sublime que nos aproxima dos deu- ses @ exorta a cultivar esta dimensdo maior que, de certo modo, nos torna imortais (EN, X,1). ‘Segundo tedlogos cristéos, Aristételes ndo podia dizer mais do que isto; o que j4 ¢ extraordinariamente elevado, pois nao tinha as luzes da fé. Ele teve, dizem, o mérito de preparar o caminho para tratar da felicidade eterna em ter mos teolégicos. A felicidade, que ver da contemplacao das verdades supremas da filosofia, para os tedlogos € apenas um prentincio da felicidade eterna prometida por Deus nos textos sagrados. Numa palavra, a teologia elevou ao debate trans-histérico a felicidade histérica e filoséfica dos gregos. Sucede que uma andlise mais completa da Etica desco- bre outras condigdes necessdrias para que o homem seja fe- liz, A felicidade nao € mera contemplacio das esséncias me- tafisicas das coisas, mas ela esta condicionada ¢ depende de outras componentes. Citemos apenas um texto da Etica, no qual Aristételes fala claramente destes outros ingredientes necessirios para ser feliz: “Evidentemente a felicidade tam=| ‘pém requer bens exteriores, pois é impossivel praticar bela: aces sem os instrumentos préprios. Em muitas agdes 1 mos amigos, riquezas e poder politico como instrumentos hé certas coisas cuja falta empana a felicidade; ¢ por isso ; ) quealgumas pessoas identificam a felicidade com a boa sor) * te, embora cutras a identifiquem com a virtude” (EN, 1.8). Portanto, para ser feliz no basta a contemplagéo interior, mas 6 necessério “também o berr-estar exterior’.¢ “sem este a felicidade se esvai”. + 2. Arstételas: ica daimanéncia. * IV - Condigées da vida feliz Em termos abrangentes, podemos afirmar que propée pelo menos seis condicées para ser feliz: das virtudes, um circulo de amigos, boa satide, suficiéncia de bens materiais, viver numa sociedade justa e a medita, Ao filoséfica. Acrescentamos um breve comentario a cada uma destas condicées. Sem dtivida, a prética das virtudes é 0 tema principal da Btica; a ele Aristételes dedica oito livros (II-DX) onde analisa as virtudes mais em vista em seu tempo. As virtudes mol-,/, dam o cardter e orientam os costumes da pessoa. Pelo exer- cicio da virtude, como veremos, o homem eleva seus senti- mentos e educa seus instintos e se torna senhor de suas pr6- prias energias. O tema da amizade, que permanece até hoje um dos me- Thores tratados sobre 0 assunto, ocupa dois livros (VIIT e A IX); “Nao pode ser feliz quem néo tern amigos e vive total- }) 4 sf mente cozinho, sem filhos”; Aristételes acrescenta: “os que“ querem bem seus amigos por eles mesmos, so os auténti- cos amigos” (EN, VII,3). Ademais, o sdbio precisa também de bens materiais mas 86 0s indispensdveis para viver, pois 0 excesso de bens ex: 91” ternos corrompe a mente, diz Aristoteles. “A vida dedicada a ganhar dinheiro é uma vida apenas proveitosa com vistas a. algo mais” (EN, 1,5). f Mais ainda, a sociedade justa € condicdo absolutamente 5, ¢¢' bh necesséria para que o homem seja feliz: a razéo € que sendo ele, por natureza, um ser social e politico précisa viver com os outros. . sus > Em varios lugares da Btica, Aristételes elogia a satide —. i como condigéo da felicidade e’cita uma linda inscrigd6 em ¢ 4 # - ‘Delfos. “Mais bela é ajustica, e melhor 6a Saéde, mais agra-7 davel é possuir o que se ama” (EN, 1,8) a5 * L-Idade grega:o nascimento da étca* Finalmente, a meditacio filoséfica completa o quadro de exigéncias da vida feliz. E 0 supremo nivel da felicidade, a Gontemplacéo das verdades imutéveis. A este poucos che- gam; apenas alguns filésofos. Mas, todos os outros serao in- felizes? De modo nenhum, pois quem realiza as demais con- diges também é feliz. O cidadao ético e justo € feliz mesmo que nao seja fil6sofo, pois a felicidade é um bem humano, uma aspiragio de todos e nao de uns poucos pensadores. Apesar disto, muitos tedlogos tomaram a proposta aris- totélica de felicidade sob 0 Angulo da contemplac4o filosé- fica e fizeram do estagirita apenas tum arauto pagao da feli- cidade eterna ensinada pela teologia crista. Aristételes, se~ gundo estes intérpretes, no podia tirar esta conclusao, que s6 é possivel A luz da fé. Esteve no caminho certo, mas no limite da filosofia. Cabe ao tedlogo, iluminado pela £é, conferir & contemplacao filoséfica da suprema verdade teé- rica a dimensao de contemplagao de Deus como Ele 6. Hoje sabemos que os teélogos medievais se equivoca- ram na interpretacdo de Aristételes. A felicidade humana é muito mais que contemplacéo; 6 um conjunto de condigées de vida. ‘V-0 homem virtuoso: ética racional Avirtude nao é apenas um conceito; 6, sobretudo; uma realidade estruturante da psique humana. Porém, ao longo do tempo, a palavra desgastou-se. Hoje, muitos veem na vir- tude um exercicio de submissao, de pritica de devogdes e de abstengao de prazeres. Bem outro é 0 significado original de virtude, criado pe- los gregos e adotado pelas tradicées filoséficas como os es- tdicos e muitos pensadores cristaos. Por exemplo, para San- to Agostinho, todas as virtudes nada mais séo que a pratica efetiva do amor aos homens e as criaturas como oriundas da suprema fonte de amor. Entéo, virtude para ele é 0 esforgo ra + 2, Afst6teles: ica da manéncia + * de reconduzir todas as coisas & sua origem. Evidentemente esta posigao é um reflexo do neoplatonismo. Em termos filoséficos, virtude se diz, em grego, areté, e, emlatim, virtus, donde vem nossa palavra virtude. Ora, vir- tus quer dizer energia, vigor, vitalidade, potencialidade. O hhomem é um ser dotado de muitas potencialidades que ele pode ou no explicitar ao longo da vida. Para Aristételes, as virtudes so todas energias e fun- bes da alma que éle classifica nas trés modalidades de vida: vegetativa, sensitiva e intelectiva, Na vida instintiva temos, por exemplo, o desejo, o apetite de fome e de sexo; na sensitiva hd os sentimentos de dor e prazer, os cinco senti- dos como ver e ouvir; na intelectiva temos 0 intelecto eo de- sejo superior (vontade). As primeiras duas formas de vida ‘so bioldgicas e irracionais, como nos animais; a grande di- ferenca esta na terceira, 0 intelecto, que € exclusivo do ho- mem, principio de sua especificagio e identidade. A ética em sentido global consiste exatamente em disci- plinar, harmonizar e hierarquizar todas essas energias fun- g6es. Homem virtuoso e ético é aquele que consegue orde- nar esta sua riguissima variedade de energias e fungoes. Os impulsos vitais do instinto ¢ da sensibilidade (alma vogetativa e sensitiva) no sao nem éticos e nem a-tticos; s40 apenas potencialidades biolégicas; tomiam-se éticos quan- do exercidos sob o comando do intelecto (alma intelectiva). Por exemplo, fazer sexo e saciar a fome de modo ético signi- fica realizar estes atos sob a moderacdo da razdo que nao os reprime mas orienta de modo digno do ser racional. Entaoa sexualidade humana é biol6gica e étiea enquanto a do ani- mal s6 biolégica. Aristételes tem 0 cuidado de dizer que o intelecto nao exerce sobre os nossos impulsos biol6gicos um comando despético, repressor ¢ aniquilador; nossas paixées e impul- sos ndo sio destruidos pelo intelecto, mas por ele orienta- dos. Em outras palavras, 0 intelecto exerce sobre o instinto sate Vv + |-Idade groga: 0 nascimento da tica * ea sensibilidade “um governo politico”, uma “administra- ¢4o inteligente”. Portanto, as virtudes éticas nada mais 840 do que a educagao do instinto, da sensibilidade e das pai- xes sob a luz do intelecto. Convém destacar que, para Aristételes, nao existe um cor- te, um abismo que separa a vida vegetativa, sensitiva e inte- lectiva, como entendia Platdo. Esta tese é central na ética aris- totélica como o sera na ética de Tomas de Aquino na Idade ‘Média. & uma sé ¢ mesma vida, com miltiplos impulsos € Ges que véo desde 0 instinto da fome at i templativa das supremas verdades. Em outros termos, embo- fano homem existam trés vidas — instintiva, sensitiva e inte- Jectiva-, uma é tinica é sua forma, a racionalidade que ordena e comanda o todo. Ento fica claro que a ética consiste em har- monizar toda essa riqueza vital pelo governo do intelecto. “Aristételes chama virtudes morais aquelas que se refe- rem ao instinto e a sensibilidade e intelectuais aquelas que dependem do intelecto. As virtudes morais séo muitas e Aristételes analisa as mais conhecidas e discutidas no mun- do grego; as fungées ou virtudes intelectuais séo duas: a sa- edoria (sofia) ¢ a prudéncia ou discernimento (fronesis). ‘Vamos ampliar 0 que acabamos de dizer, comegando pelas virtudes morais, Como séo numerosos nossos impulsos, sentimentos, aches epaixes, numerosas sero as virtudes morais sob a modera- ‘cho da razdo que estimula a criagdo de hébitos e costumes repetindo as mesmas ac6es. Por exemplo, € pela orientacéo do intelecto que o homem, repetindo atos corajosos, se tor- na corajoso; repetindo atos justos, torna-se justo, fazendo atos temperantes seremos moderados nos apetites de fome e sexo. Nés somos apenas potencialmente corajosos.¢ jus- tos; pelo exercicio repetido, nos tornamos, de fato, corajo- sos, justos e temperantes, diz Aristételes. Por isso, o homem nao nasce ético a ndo ser potencial- mente; pela repeticao de agSes e autocontrole racional o ho- 4B “2, Arstéeles: ética da imandncia.* mem se tora virtuoso. Leiamos uma passagem de Aristéte- Jes: “Sendo assim, a presente investigacéo ética nao visa a0 conhecimento teérico; néo investigamos apenas para co- nhecer o que € a virtude moral e sim para nos tornarmos ois se nao fosse assim nossa investigagao seria inti- Na ética aristotélica a sabedoria e a prudéncia, nossas virbades intelectivas, formam a diferenca especifica do ser humano, tornando-o uma espécie distinta de todas as ou- tras. Entdo, no homem, aphysis deu um fantéstico salto qua~ itativo quando produziu o intelecto que € teérico (sabedo- Tia) e, a0 mesmo tempo, prético (prudéncia); através destas duas energias 0 homem busca as raz6es profundas da exis- téncia e administra a vida quotidiana. Pela sabedoria (sofia) o homem eleva-se acima das reali- dades mutaveis contingentes e passageiras e considera’as realidades imutaveis, como as esséncias das coisas, a verda- de, o bem e o justo. Disto se ocupa a metafisica de Aristéte- Jes. Seu mestre Plato criou um mundo especial para discu- tir os seres imutaveis: 0 mundo das idéias eternas. Aprudéncia discerne, escolhe, ponderae decide as ages a fazer e os melhores meios praticos para administrar os comporiamentos quotidianos. Numa palavra, pela prudén- cia o intelecto governa a sensibilidade ¢ 0 instinto e suas tendéncias. ‘Na verdade, poucos homens chegam a sabedoria, 4 me- tafisica; mas, para ser feliz no é preciso nem saber filosofia e muito menos as teorias metafisicas; é essencial a pratica da virtude como vimos acima (EN, 11,2). Mais que as teorias, o exerefcio da prudéncia ¢ indispen- sével a todos os homens que desejam levar uma vida digna, segundo a virtude. E a sabedoria pratica ou prudéncia que nos leva a decidir 0 que seja o bem eo que seja 0 mal, o que séja justo ou Injusto em todos os nossos comportamentos: “4 pradéncia é uma disposicao pratica, acompanhada da ra- +4 + | -Idade groga: 0 nascimento da ica * 240 especulativa (sabedoria) em torno do que é bem e mal para o homem” (EN, VI,5). Porém, a sabedoria e a prudéncia operam juntas, exata- mente porque so fungées da mesma e tinica alma intelecti- va (forma). Ambas operam nas decisées éticas do dia-a-dia: a sabedoria mostrando o bem humano geral ¢ a prudéncia descendo as situacées praticas, as circunstancias particula- res, muitas vezes, sumamente dificeis. Assim, 0 intelecto, como prudéncia, indica os melhores caminhos para contornar problemas individualizados 4 luz da sabedoria que aponta 0 ‘tem geral (EN, V,D- ‘Enfim, para Aristételes, nés somos esse grandioso con junto de energias, desde o instinto de sexo e fome, passando ‘pelo sentimento de dor e prazer e culminando no intelecto {eérico e pratico: a inteligéncia do bem humano e do agi quotidiano. ‘YI-A teoria do meio-termo: ética da decisao pradencial $ admiravel a fina andlise de Aristételes das energias funcées humana, miiltiplas e muito diferentes, € definin- doa ética como o agir sob 0 comando do intelecto. Porém, o proprio Aristételes que nos diz que a “ciéncia da éti " apenas aproximativa e nunca definitiva. Por isso, o estagirita explora longamente um outro ca- ‘minho de se entender a ética; ocaminho da ética prudencial que consiste no. ‘meio-termo entre 0 excesso € & deficiéncia. A via prudencial nada mais é do que a busea do equilibrio da vida pessoal e social. Porém, o meio-termo nao é igual para todos mas seré proporcional a cada pessoa ¢ em. cada circunstancia. # por isso que os princfpios gerais da ética (por exem- plo, a busca do bem) nem sempre abrangem todos os ho- Jmens em suas circunsténcia singulares. O equilibrio de soe + 2. Aristbteles: ica daimanéncia * vida ou meio-termo virtuoso no 6 matemético como a mé- dia aritmética. Arist6teles exemplifica com a alimentacao: uma pessoa pode satisfazer-se com trezentos gramas de ali- mento e uma outra, com cem; o meio-termo, a média, néo é duzentos gramas. Isto poderia ser muito pouco para um e excessivo para 0 outro. Entio, o que é 0 meio-termo do comportamento humano? Qual é 0 meio-termo virtuoso? Aristételes responde que 0 “meio-termo est numa proporcionalidade conveniente a ca- da um de nés”. Nés ndo somos todos corajosos ou temperan- tes do mesmo modo; cada um de nés tem seu jeito de sélo. Por conseguinte, é dificil estabelecer meio-termo vir- ‘tuoso, pois as ages humanas sao flutuantes e mutéveis, se- gundo as mais variadas circunstancias. Por isso precisamos contentar-nos por definir a virtude como um equilibrio de vida a ser sempre restabelecido (EN, II,6), visto que a cién- cia da ética nao tem a exatidao da metafisica (EN, 1,8). Em sintese, a ética prudencial € uma maneira de ser moral adequada a cada um nas suas circunstancias e faz com que a pessoa de bem viva segundo o bem moral ea dig- nidade humana (EN, IL,1; 6). Para Aristételes, o meio-termo ético é, finalmente, deci- dido pela experiéncia de vida e pelo juizo prudente de um homem sensato (/ronimos); cabe ao homem prudente des- cobrir 0 excesso ou a deficiéncia nos seus comportamentos e definir 0s meios mais adequados para alcancar 0 seu bem possivel (EN, IT,2; 4). Por isso, diz Aristételes, a prudéncia orienta toda a prati- ca ética e nao é propria dos jovens aos quais ainda falta expe- riéncia; ela convém mais aos homens maduros e que passa- ram por muitas situagdes humanas. Mas, qualquer pessoa em dificuldade para tomar uma decisio moral pode recorrer & experiéncia do fronimos, pessoa prudente e experiente. |Até aqui, falamos do extraordinério esforco de Aristéte- les para apontar o meio-termo prudencial e virtuoso. Na ver- sae + I-Idade grega: o nascimento da étca * dade, a eqiiidistincia dos excessos é um principio da sabedo- ria hurnana de todos os tempos, de antes e depois dos gregos. Com efeito, os romanos e estéicos, por exemplo, faziam con- sistir a ética no principio: “nada se faca em excesso” (ne quid nimisy, e acrescentavam que além e aquém deste limite nao pode existir retidéo moral. O meio-termo prudencial é muito importante também em nossos dias; a ética da decis4o prudencial é um excelenté ‘guia, por exemplo, nas discussbes sobre o uso de células-tron- co ou sobre os fetos anencefalicos; so situacées reais dos nossos tempos que as teorias éticas globais (filos6ficas ou religiosas) nunca abordaram diretamente no passado. A via do juizo prudencial toma, nestes casos, decisées da forma mais equilibrada e prudente que se possa elaborar a luz do principio basico e universal da ética (fazer 0 bem) ¢ das cir- cunstancias reais dos individuos (fazer 0 bem em situagdes particulares e dificeis). E a interpretagao (epikeia) do prin- cipio geral da ética segundo as circunstancias. ‘Vil - Justiga: Virtude da cidadania Na verdade, toda a gama de virtudes aristotélicas con- centra-se em trés: a sabedoria, a prudéncia e a justica. Das trés, Aristételes privilegia com grande destaque a justica. Platao e Aristételes consideram a justica como a virtude por exceléncia que cria harmonia e ordem na variedadé do cosmos e também nas miiltiplas fungées que compte o ser hhumano, como viver, sentir dor e prazer e pensar; é a virtude da ordem e da harmonia césmica e humana. Aristételes, porém, no livro da Eitica (V,3), toma ajustica no sentido restrito de justiga politica que estabelece ordem e harmonia nas diferentes partes que compéem a estrutura social. O objetivo desta justiga ordenadora é 0 bem comium a todos os cidadaos. Ef este que define o bom legislador e 0 distingue do mau; define também o bom eo mau regime po- sae st + 2. Arstéeles:ética da imanencia * Uitico: “Todos os regimes que propéern o bem comum sao retos do ponto de vista da justica absoluta; e os que tém em conta somente o bem dos governantes so defeituosos, to- dos eles so desvios dos regimes retos, pois sio despéticos, ea polis é uma comunidade de homens livres” (Pol., IIT,7). Por isso “a justica esta na igualdade, porém ndo para todos, mas para os iguais; e a desigual para todos, mas para os desiguais” Detalhemos agora estes ricos conceit gar a justica é legal e consiste em curnprir dao justo € aquele que se submete & ordem legal. Em segun- do lugar, a justica 6 a virtude que relaciona os cidaddos entre si; 6a virtude da cidadania que garante a igualdade e a liber- dade de todos os cidadaos. Sendo assim, fica definida tam- bém a injustica como desobediéncia as leis e como tratamen- to desigual entre os cidadaos (EN, V.5,6). ‘Em segundo lugar, a justica legal assim definida ordena fazer agées justas em geral de acordo com cada virtude moral: agdes de coragem, de temperanca, de amizade e de veracidade; em sentido negativo, a justica legal cuida que na polis nao se instalem comportamentos viciosos e contrérios & dei: “A lei determina que hajamos como agen homens cora- josos (nao desertemos de nosso posto) ¢ como homens mode- Yados (n4io cometamos adultério € nem ultrajes) ¢ como ho- mens amdveis (ndo agridamos os outros e nem falemos mal deles) e assim por diante em relacdo as outras formas de vir- tude moral, impondoa pratica de certos atos e proibindo ou- tros” (EN,V.3). Por isso, a justica legal ¢ também chamada justiga geral porquanto cla comanda toda a constelacéo das virtudes mo- rais. “Esta forma de justiga é, portanto, uma virtude com- pleta,ndoem sentido absoluto mas nas nossas relagées com os outros. E por isso que muitas vezes a justiga é considera~ da como a virtude mais perfeita e nem a estrela vespertina, nem a estrela matutina sé mais brilhantes que ela. Dai o provérbio: ‘A justica encerra toda a virtude™ (EN, V,3). sae