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Universidades Lusíada

Menezes, António Abílio Faria Queiroz e


O regresso à Europa : Europeização de Portugal
e a distribuição geográfica do seu comércio
externo "1945 a 1985"
http://hdl.handle.net/11067/1254

Metadados
Data de Publicação 2013-04-23
Resumo No início do Século XV, espartilhado pelas fronteiras políticas e
geográficas, que o separavam da Europa e desejoso de continuar o
movimento de expansão iniciado com a reconquista e a obtenção e o
assegurar da independência, Portugal procurou na exploração marítima e
nas terras de ultramar, o escape para a frustração sentida, especialmente
pelas elites nobres e religiosas. De caminho empreendeu uma empresa
comercial, religiosa e de supremacia mundial que durou mais de cem
anos. Tal escolha afast...
Palavras Chave Comércio Externo, Economia Portuguesa, Economia Europeia, Relações
Económicas Internacionais, Desenvolvimento, Economia Política
Internacional, Sistemas Complexos
Tipo doctoralThesis
Revisão de Pares Não
Coleções [ULP-FD] Teses

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UNIVERSIDADE LUSÍADA DO PORTO

O REGRESSO À EUROPA: A Europeização de Portugal e a


Distribuição Geográfica do Seu Comércio Externo (1945-1985)

António Abílio de Faria Queiroz e Menezes

Tese para obtenção do Grau de Doutor em Relações Internacionais

Porto -2012

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UNIVERSIDADE LUSÍADA DO PORTO

O REGRESSO À EUROPA: A Europeização de Portugal e a


Distribuição Geográfica do Seu Comércio Externo (1945-1985)

António Abílio de Faria Queiroz e Menezes

Tese para obtenção do Grau de Doutor em Relações Internacionais

Orientadores: Professor Doutor Fernando de Sousa - Universidade


Lusíada/Universidade do Porto

Professora Doutora Maria Isabel Soares – Faculdade de


Economia do Porto

Porto -2012
Ex-Líbris

iii
There are some men
Who should have mountains
To bear their names to time

Grave-markers are not high enough


Or green […]

[This is]a naming of this mountain


on which I walk,
fragrant, dark, and softly white
under the pale of mist,
I name this mountain after him
Leonard Cohen, Prémio Príncipe das Astúrias de Literatura 2011, There are some men (excerto
adaptado, poema não musicado)

Em memória de um desses homens, o meu Pai

Para os meus companheiros de caminho, Salete e Zé Miguel


NOTA INTRODUTÓRIA E AGRADECIMENTOS

NOTA INTRODUTÓRIA

O objectivo do trabalho de investigação que a seguir apresento era,


obviamente, o de escrever uma tese de doutoramento. Para isso, estabeleci um
tema, coloquei as questões que definiam esse tema, escolhi metodologias,
procurei fontes e parti na busca de respostas às questões. Creio que o
resultado é, talvez, um pouco menos, mas, também, um pouco mais, do que a
tese que era a minha meta.

Primeiro, a minha curiosidade científica levou-me, talvez, longe de mais na


discussão de questões metodológicas e de filosofia da ciência. Em seguida, o
interesse que cultivo, desde muito novo, pela historiografia, conduziu-me a
alongar a discussão sobre as razões do afastamento de Portugal relativamente
à Europa, ainda que a julgue pertinente e tenha interpretado os factos sob
luzes um pouco diferentes das habituais, como a consideração de que a
expansão oceânica e o colonialismo constituíram um "caminho de
dependência".

Depois, o gosto de descobrir coisas novas levou-me a dar muita atenção à


Economia Política Internacional. O que talvez nem tenha sido tão mau,
porque se trata de uma disciplina recente e com poucos praticantes em
Portugal. Além, disso deu-me a oportunidade de voltar a discordar da maioria
dos meus colegas economistas ao reforçar – depois de o ter feito na minha
tese de mestrado – os meus comentários negativos em relação ao paradigma
da economia neoclássica da racionalidade dos agentes, da maximização da
utilidade, subsumido na chamada metáfora do sistema mecanicista.

v
Efectivamente – ainda que tenha sido treinado nessa tradição, a use como
instrumento de ensino, dada a sua capacidade de abstrair do complexo com a
famosa cláusula "caeteris paribus", completando-a com exemplos da vida real
ou com metáforas – sempre me pareceu estranho que se pudesse considerar
um qualquer agente como totalmente racional, ou o contexto da sua actividade
como funcionando eficientemente, quando tudo o que observo à minha volta
são comportamentos de racionalidade limitada, quando não mesmo
irracionais, e não consigo encontrar eficiência no funcionamento dos
contextos – leia-se mercados.

Para mim a economia é um sistema aberto, socializado, com os actores


socioeconomicamente inseridos, que não pode ser reduzido a meia dúzia de
modelos matemáticos, mas, tem de aproveitar, na análise que dela é feita, das
achegas de outras disciplinas, numa visão muito mais próxima da
"oikonomia" de Aristóteles e das ideias dos autores da economia política
clássica.

Do mesmo modo, não me parece que exista uma oposição entre a esfera
política e a esfera económica, muitas vezes referida como a dicotomia
estados-mercados, mas, antes, a sua interpenetração num sentido sociológico
de ambos serem contextos em que se desenrola a actividade humana.

Da minha investigação e da minha experiência, retiro um ponto de vista que


me parece mais pragmático, de que a vida em sociedade não é limitada pela
assunção da racionalidade e da maximização dos resultados dos interesses
individuais ou da sociedade, exige dos praticantes da política e dos praticantes
da economia uma maior proximidade e cooperação.

Assim o impõe a compreensão dos fenómenos emergentes da acção colectiva


que são estudados por outra das minhas paixões, a Teoria dos Sistemas
Complexos Adaptativos. Também esta me levou a calcorrear caminhos
laterais, mas acredito que no seu desenvolvimento teórico encontraremos
ferramentas para a melhor compreensão de uma realidade que é,
efectivamente, não-linear.

Acabei por fazer da minha tese, também uma forma de chamar a atenção a
favor do estudo da Economia Política Internacional e da Teoria dos Sistemas
Complexos e uma reflexão pessoal – apoiada em alguns autores – sobre a
prática da teoria económica, sobre as suas relações com a política, sobre a
epistemologia e a metodologia das ciências sociais e sobre uma forma de
liberalismo que tem preocupações sociais e de redistribuição, para além da
defesa da individualidade e da iniciativa privada, que o caracterizaram desde a
sua génese.

Se as digressões por caminhos laterais ao tema da minha tese me fez parecer


disperso e sem enfoque, aqui me penitencio. Se a curiosidade matou um gato,
espero que aqui ela não me seja traiçoeira e com ela salve o gato.

Uma palavra acerca das citações e bibliografia. O formato usado foi o APA
Sixth Edition. Nas citações a utilização de "p." ou "pp." em vez de ":" na
indicação das páginas, deve-se a uma questão de programação interna em
Visual Basic, que não domino, das folhas de estilos do programa Microsoft
Word.

Antes que me critiquem, quero, ainda, dizer que é minha convicção que o uso
da pontuação é, na maior parte das vezes, menos uma questão gramatical e
mais uma questão de estilo. Joyce e Saramago – com quem não me quero
comparar – praticamente não usavam pontuação e as frases de Proust – com
me quero comparar ainda menos, até porque, com o meu parente muito
afastado (segundo a memória familiar) Eça de Queiroz, é um dos meus dois
autores preferidos – enchem enormes parágrafos. Não se espantem, pois, se a
minha pontuação, foge, aqui e ali, às regras gramaticais.

vii
Por outro lado, como tenho uma posição de princípio contrária à aplicação do
acordo ortográfico – e este, aliás, não é de uso obrigatório a não ser na
Administração Pública e nas relações da Sociedade Civil com esta – mantive
a grafia anterior das palavras abrangidas nesse acordo. A língua é uma
convenção social viva e dinâmica, seja na forma de falar seja na forma de
escrever, mas, a sua evolução, e a entrada de diferentes ou novas palavras ou
grafias no léxico, é prerrogativa do falante ou do escrevente – com a natural
mediação formal dos lexicólogos - e não de autoridades à revelia destes e
daqueles por razões que, salvo melhor opinião, não colhem. A língua que
praticamos no dia-a-dia acaba por ser um fenómeno emergente das
interacções no seio de um sistema complexo.

Finalmente, é meu hábito, conforme vou escrevendo o corpo de um texto,


reflectir para comigo mesmo sobre o que fica escrito. É, também, meu hábito,
partilhar com o leitor muitas dessas reflexões, algumas simples curiosidades,
o que faço sempre em nota de pé de página. O número de notas vai exceder o
número de páginas por essa razão, mas, não fui ao ponto de escrever nenhuma
nota que se estendesse por páginas e páginas, por vezes por mais páginas que
o próprio texto principal, como já vi em algumas obras. O que as notas
servem é complementar o que digo no texto, ou, e, dar uma ideia do processo
mental que me levou por determinados caminhos, Fique o leitor sossegado,
que antes de escrever esta tese li o interessantíssimo livro, cuja leitura
aconselho, de Anthony Grafton, "The Footnote: A Curious History" (1997.
Londres, Faber and Faber, ou, Cambrige. MA, Harvard University Press) e
tomei em devida atenção as razões porque é curiosa.

Durante os vários anos que escrevi crónicas de actualidade para alguns


jornais, revelou-se em mim alguma tendência para a ironia (a que um
jornalista amigo gostava de chamar os "recados" do Menezes). Não que seja
coisa má, é o sal e o sabor das crónicas, sem ela seriam mais pobres, Mas,
neste texto espera-se um trabalho científico e a ironia, ainda que justificada,
não deve, quanto a mim, estar presente. Tive o cuidado de me conter e de
rever o texto para a evitar (ainda que me lembre de uma conferência do
saudoso Alfredo de Sousa, em que estive presente, e em que ele a certa altura
disse "todos os governos têm tendência para se babar, mas, o actual ainda a
tem mais") qualquer exagero, mas, se algum ficou é agora a altura de pedir
desculpa.

AGRADECIMENTOS

É norma em trabalhos académicos, e não só, agradecer a quem nos ajudou a


realizá-los. Alguns levam esses agradecimentos tão longe que só lhes falta
referir a senhora que lhes limpa o local de trabalho. Além disso, e, por vezes,
com alguma hipocrisia, é costume assumir-se a responsabilidade pelos erros e
omissões do trabalho, quando é certo que se quem nos ajudou cometeu erros,
esses passaram para o nosso texto final. Mas, pronto, fica bem e é uma forma
de dizermos que somos uns distraídos, ou que não temos o conhecimento ou
espírito crítico para os detectar, e por isso somos, efectivamente responsáveis.

O trabalho de investigação que conduz a um texto como aquele que se segue e


que, espero, leiam com agrado e sem adormecer, é, usualmente, solitário.
Passamos meses e meses – alguns deles na letargo desculpado pelo bloqueio
de autor ou pela "acidental" perda do fio de raciocínio – sós com a caneta,
inúmeros cadernos de notas, o computador e uma montanha de livros e artigos
que lemos mais ou menos com interesse –e muitas outras vezes com enfado -
e gostaríamos de fazer crer que, se estão na bibliografia, é porque os lemos de
uma capa à outra. Apesar de Umberto Eco, quando perguntado se leu todas as
várias dezenas de milhares de livros da sua biblioteca, quase perder as
estribeiras respondendo que, dos livros de texto e estudo, só se lê o que
interessa ao nosso trabalho de investigação, que não são novelas de que

ix
queremos, impacientemente, saber o desfecho. O desfecho, neste caso, é
construído por nós.

Cheguei a pensar, por um breve momento, em ser escapar-me à tradição,


quebrar a norma, e encaixar todos os agradecimentos na dedicatória e
agradecer apenas, e em conjunto, aos autores das obras que li pelas ideias e
pensamentos que me transmitiram. Eles são as verdadeiras musas em que me
inspirei.

Mas, há que ter bom senso e ser grato a quem o merece. Nenhuma obra
humana se acaba se não, como diz Stephen Hawkings, estivermos bem
assentes no ombro de gigantes. Além disso, todos nós temos dúvidas e muitas
vezes nos enganamos. Se nos mantivermos isolados, convencidos de que
temos a capacidade, o bom senso e o conhecimento, para levar a obra até ao
fim sozinhos, o mais certo é falharmos redondamente e cair, sonoramente, de
posterior no chão.

Estou, até, convencido de era nisto que pensavam os eruditos reguladores que
consideraram que um candidato a um grau académico mais elevado deve ter,
pelo menos, um orientador. Estes acabam por ser, connosco, co-responsáveis
pelo trabalho de investigação e não podemos, nem devemos, deixar de
lembrar e reconhecer a ajuda, muitas vezes os empurrões e as palmatoadas
verbais que nos administraram, quando deram connosco a preguiçar ou a
afastarmo-nos do caminho que tínhamos traçado. São os guias e os limites da
nossa vontade que, por vezes, é imodesta. Entendi, pois, que não teria
qualquer cabimento a minha peregrina ideia de desprezar a tradição.

Tenho, assim, que agradecer ao Prof. Fernando de Sousa e à Prof.ª Isabel


Soares, a honra que me deram ao aceitarem ser os meus orientadores. O
auxílio e as sugestões que me transmitiram, foram o que tornou possível estar
agora o leitor com este texto entre as mãos, sejam os sabedores membros do
júri, a quem agradeço terem aceitado o convite para avaliar e criticar o
resultado do meu trabalho de investigação, sejam outros que se interessarem
por ele.

Tenho pelos meus dois orientadores um enorme respeito e um


reconhecimento sem limites, e sei que os posso contar entre os meus
verdadeiros amigos. Já sabia isso da Prof.ª Isabel Soares a que me ligam
muitos anos de trabalho conjunto e momentos de lazer e convívio
inesquecíveis, e que me deu sobejas provas da sua inquebrantável e
verdadeira e leal amizade. O estreitar do contacto com o Prof. Fernando de
Sousa, com quem já tinha trabalhado como representante dos editores de
alguns dos seus livros, provou-me a sua amizade e o seu interesse no meu
progresso como investigador e professor.

Não cometeram erros ou omissões que eu detectasse, e se o fizeram, o que


não creio, não tenho dúvidas em assumir a sua responsabilidade.

Procurando ser fiel ao meu intuito inicial de não fazer muitos agradecimentos
só quero lembrar o apoio e o encorajamento dos colegas Dr. Paulo Amorim e
Prof. Paula Rodrigues, cuja constante insistência em que concluísse este meu
trabalho de investigação tornaram culpados pela sua finalização.

Tenho que agradecer, igualmente, à Fundação Minerva, a cujo Conselho


Geral pertenço por ser seu fundador na qualidade de cooperante da sua
antecessora Cooperativa de Ensino Universidade Lusíada, pela ajuda
financeira que me concedeu.

Finalmente, estou imensamente reconhecido à minha mulher Salete, a pessoa


que mais sofreu, ao longo dos últimos dois anos, com o processo que agora
acaba, que me deu coragem e ânimo, e que foi a estaca e o arrimo a que me
amarrei.

xi
A minha Mãe, que me deu a vida, e que, após a prematura morte de meu Pai e
com as enormes dificuldades por que passamos e dela resultantes, tudo fez, o
possível e o impossível, para que eu completasse, como ele e os seus
antecessores na família durante os últimos quatro séculos – de acordo com os
diplomas que tenho arquivados, uma educação de nível superior, exigindo-
me, apenas, que estudasse, que o conseguisse e fosse um estudante a tempo
inteiro. É a última, mas, a primeira, a que agradeço. Sem ela não chegaria
aqui. Não continuaria a ser estudante durante o resto da minha vida e o
primeiro do vasto grupo de licenciados desta linha familiar a, pelo menos,
tentar obter este grau.

Pensei eu, de fugida e, talvez, num momento de irreverência, em não fazer


agradecimentos. Quão volúvel é a mente humana! O que é verdade é que
aquilo que fazemos, nunca o conseguimos fazer sozinhos.

Lousada, 11 de Setembro de 2012


RESUMO

No início do Século XV, espartilhado pelas fronteiras políticas e geográficas, que o


separavam da Europa e desejoso de continuar o movimento de expansão iniciado com a
reconquista e a obtenção e o assegurar da independência, Portugal procurou na exploração
marítima e nas terras de ultramar, o escape para a frustração sentida, especialmente pelas
elites nobres e religiosas. De caminho empreendeu uma empresa comercial, religiosa e de
supremacia mundial que durou mais de cem anos. Tal escolha afastou-o de uma
participação mais activa, com algumas excepções, nos “negócios” do continente a que
geograficamente pertencia. Este afastamento conduziu, mesmo depois de perder a
supremacia mundial, a um “caminho de dependência” que o manteve ligado aos territórios
que entretanto tinha adquirido, “voltando” apenas esporadicamente à Europa quando as
crises desta o ameaçavam ou o seu prestígio estava em perigo. No Século XX,
especialmente depois da II Guerra Mundial, tudo mudou. As transformações globais que o
período de pós guerra trouxe aos panoramas politico e económico mundiais, foram de tal
maneira profundas que, mesmo limitado por um regime nacionalista, Portugal teve de
ceder e regressar a uma partilha mais íntima com os destinos da Europa. Este trabalho de
investigação pretende, partindo da descrição das razões e factos do afastamento, analisar o
regresso de Portugal à Europa ligando-o às alterações estruturais da geografia do seu
comércio externo a partir de 1945, que serão usadas como prova desse regresso. O Autor
aproveita o tema do trabalho para introduzir na discussão destas questões duas formas
recentes de analisar as relações económicas internacionais, por um lado, e o estudo da
realidade complexa e não linear que vivemos, por outro. Para isso faz uma análise, e
procura aplicá-las, da Economia Politica Internacional e da Teoria dos Sistemas
Complexos Adaptativos.

xiii
ABSTRACT

In the start of the XV century, confined to the space delimited by political and
geographical borders that made difficult the development of deeper relations with the rest
of Europe, Portugal, with reasons rooted in the Reconquista and its own struggle to assure
its independence, maintained a profound desire of continuing its geographical expansion.
The only course open to it was the sea, and so the frustration felt by its gentry and its
religious elites, was resolved by choosing that direction of expansion. In the process,
Portugal fully engaged in a commercial, religious and world supremacy endeavor that
lasted more than one hundred years. However, that choice kept Portugal even further apart
from the issues related to the continent to which it geographically belonged. This parting
with Europe led, even after losing its world dominance, to a dependency path that kept
Portugal even more engaged in its relations with the lands it had meanwhile acquired,
"returning" to Europe only when its prestige was in danger or when the European crisis
were a threat. In the XX century, mainly after World War 2, all changed. The global
changes that the post war period brought to the world political and economic scenarios
were so profound that, even bounded by a corporatist, and nationalist regime, Portugal had
to give up its isolationist stance and to come back to a more engaged involvement in
Europe destiny. This work aims to, starting with the reasons and facts pertaining to
Portugal parting with Europe, analyze the return to Europe, with special attention to the
structural changes that occurred in the geographical map of its foreign trade since 1945,
which is to be the corroboration of that return. The author further uses the main subject
matter of its work to introduce in the reasoning about these questions, two fairly recent
approaches, on one hand, the analysis of international economic relations, and, on the other
hand, the study of complex and non-linear realities. With this aim I describe, and try to use
in the analysis, the International Political Economy and the Theory of Adaptive Complex
Systems.
DESCRITORES

Comércio Externo; Economia Portuguesa; Economia Europeia; Relações Económicas


Internacionais; Desenvolvimento; Economia Política Internacional; Sistemas Complexos.

JEL F10, F15; F59

Foreign Trade; Portuguese Economy; European Economy; International Economic


Relations; Development; International Political Economy; Complex Systems.

JEL F10, F15; F59

xv
O REGRESSO À EUROPA

ABREVIATURAS
AIP – Associação Industrial Portuense
BdP – Banco de Portugal
BIS – Banco Internacional de Liquidações (ou Compensação)
BM - Banco Mundial
CECA – Comunidade Europeia do Carvão e do Aço
CEE ou CE – Comunidade Económica Europeia
EEP – Espaço Económico Português
EFTA – Associação Europeia de Comércio Livre
EMU – União Monetária e Económica Europeia
EPI – Economia Politica Internacional
EPU – União Europeia de Pagamentos
EUA – Estados Unidos da América
FMI - Fundo Monetário Internacional
GATT – Acordo Geral de Comércio e Tarifas
IO – "International Organization" (revista)
NBER – National Bureau of Economic Research (Estados Unidos)
OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico
OECE – Organização Europeia para a Cooperação Económica
OMC – Organização Mundial do Comércio
ONU – Organização das Nações Unidas
PALOP – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa
PPP – Paridade dos Poderes de Compra
RI – Relações Internacionais
SCA - Sistema (s) Complexos Adaptativos
SPD – Partido Social Democrata Alemão
TSCA – Teoria dos Sistemas Complexos Adaptativos
UE – União Europeia
UK . Reino Unido, Grã – Bretanha

xvi
Abreviaturas

US . Estados Unidos da América


VOC – Companhia Holandesa das Índias Orientais
WTO – Organização Mundial do Comércio
ZCL – Zona de Comércio Livre

xvii
Abreviaturas

ÍNDICE
NOTA INTRODUTÓRIA E AGRADECIMENTOS......................................................................................... V

Nota Introdutória ................................................................................................................................ v


Agradecimentos ................................................................................................................................. ix

RESUMO ............................................................................................................................................ XIII

ABSTRACT .......................................................................................................................................... XIV

DESCRITORES ...................................................................................................................................... XV

ABREVIATURAS .................................................................................................................................. XVI

ÍNDICE DE FIGURAS ............................................................................................................................ XXI

ÍNDICE DE QUADROS ....................................................................................................................... XXIII

1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................................... 3

O Que é a Europa? .............................................................................................................................. 3


1.1 AS RAZÕES E OS FACTOS .......................................................................................................................... 5
1.1.1 As Razões ................................................................................................................................... 7
1.1.2. Os Factos ................................................................................................................................. 13
1.2 OS MÉTODOS E AS FONTES ..................................................................................................................... 18
1.2.1 Os Métodos .............................................................................................................................. 19
1.2.2 As Fontes .................................................................................................................................. 25
1.3 UMA VISTA DE CONJUNTO...................................................................................................................... 26

2. PORTUGAL FORA DA EUROPA..................................................................................................... 30

2.1 CAUSAS GEOGRÁFICAS E LINGUÍSTICAS...................................................................................................... 30


2.2 CAUSAS HISTÓRICAS, POLITICAS E ECONÓMICAS. ........................................................................................ 35
2.2.1 O Rectângulo Espartilhado e a Expansão para o Mar.............................................................. 36
2.2.2 Comércio, Riqueza, Consolidação e Declínio, ........................................................................... 49
2.2.3 Açúcar, Ouro, Afirmação Continental, Ostentação e Transformações .................................... 59
2.2.4 A Conferência de Berlim, a Corrida pela Posse de África e o Ultimato .................................... 74

xviii
Abreviaturas

2.2.5 O Estado Novo e as Colónias .................................................................................................... 97


2.2.6 O Império e o Tema desta Tese: Algumas Reflexões .............................................................. 101

3. RELAÇÕES INTERNACIONAIS E ECONOMIA ............................................................................... 105

A Importância da Economia nas Relações Internacionais............................................................... 107


Escolas de Pensamento em EPI – Primeira Análise ......................................................................... 109
3.1 ECONOMIA POLÍTICA INTERNACIONAL ..................................................................................................... 110
O que é a EPI? ................................................................................................................................. 110
De Novo as Escolas de Pensamento em EPI .................................................................................... 111
Uma classificação não ideológica das Escolas de EPI ..................................................................... 117
3.2 TEORIA DOS SISTEMAS COMPLEXOS E EPI ................................................................................................ 127
O que é um Sistema Complexo Adaptativo ..................................................................................... 127
Sistemas Complexos e Economia .................................................................................................... 129
Sistemas Complexos e Política ........................................................................................................ 140
Sistemas Complexos e EPI ............................................................................................................... 142
3.3 COMÉRCIO INTERNACIONAL .................................................................................................................. 147
Vantagem absoluta e Vantagem Comparativa .............................................................................. 149
O Modelo de Heckser-Ohlin ............................................................................................................ 151
Falhas no Modelo: O Paradoxo de Leontief .................................................................................... 152
A Nova Teoria do Comércio Internacional ...................................................................................... 152
Os benefícios do Comércio Internacional ........................................................................................ 153
Excepções à Regra: As Novas Indústrias ......................................................................................... 159

4. A EUROPA E PORTUGAL APÓS 1945 ............................................................................................... 163

O Mundo após 1945 ........................................................................................................................ 163


4.1 NA EUROPA ....................................................................................................................................... 168
A Recuperação pós Guerra .............................................................................................................. 168
O Plano Marshall............................................................................................................................. 171
A importância de Bretton Woods.................................................................................................... 171
O Plano Marshall e a OECE ............................................................................................................ 172
O Início da Integração Económica................................................................................................... 179
Os Planos Beyen e Spaak e o nascimento das CEE .......................................................................... 182
A Reacção britânica: A EFTA ........................................................................................................... 185
A “Época de Ouro” do Crescimento................................................................................................. 187
Problemas laborais e Inflação, o fim de Bretton Woods ................................................................. 193
A Queda do Crescimento da Produtividade: O fim da “época de Ouro” ......................................... 197
4.2 EM PORTUGAL ................................................................................................................................... 202

xix
Abreviaturas

O Corporativismo e as suas Instituições .......................................................................................... 202


Durante a II Guerra ......................................................................................................................... 205
Logo após a II Guerra ...................................................................................................................... 211
A Época de Ouro e Portugal – primeiras reflexões. ......................................................................... 214
Portugal e as Instituições supranacionais e de Integração ............................................................. 219
Primeiras transformações estruturais ............................................................................................. 225
Os Planos de Fomento..................................................................................................................... 227
O Inicio da Integração na Europa.................................................................................................... 235
A Emigração dos amos de 1960 e o seu impacto ............................................................................ 241
As reivindicações salariais na Europa e Portugal ............................................................................ 248
Liberalização, Tecnologia, IDE e Convergência ............................................................................... 249
As consequências económicas do choque petrolífero de 1973, do desacelerar da produtividade a
nível mundial e do 25 de Abril ......................................................................................................... 253
Os Acordos com o FMI .................................................................................................................... 268
4.3 COMÉRCIO MUNDIAL E A NOVA FASE DE GLOBALIZAÇÃO............................................................................ 273
A Evolução do Comércio Externo .................................................................................................... 273
Uma Reflexão sobre a Globalização ............................................................................................... 275

5. O COMÉRCIO EXTERNO PORTUGUÊS POR ÁREAS GEOGRÁFICAS (1945-1985) ................................ 279

5.1 DO FIM DA II GUERRA À ADESÃO À EFTA (1945-1960)............................................................................ 281


5.2 DA EFTA AO 25 DE ABRIL (1960-1974) ................................................................................................ 289
5.3 DO 25 DE ABRIL À ADESÃO À CEE ......................................................................................................... 298
5.4 UMA ANÁLISE BREVE DE CONJUNTO E ALGUMAS CONCLUSÕES ................................................................... 309

6. CONCLUSÕES E SUGESTÕES DE TRABALHO .................................................................................... 313

Reflexões para Investigação posterior ............................................................................................ 313


Conclusões ...................................................................................................................................... 316

NOTA BIBLIOGRÁFICA ........................................................................................................................ 319

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................................... 319

xx
Índice de Figuras

ÍNDICE DE FIGURAS
FIGURA 2-1 – O RELEVO E OS RIOS DA PENÍNSULA IBÉRICA...................................................................................... 31
FIGURA 2-2– POVOS DE LÍNGUA PROTO-GERMÂNICA NA IDADE DO FERRO. ................................................................ 33
FIGURA 2-3 – O REINO DOS SUEVOS NA SUA EXTENSÃO MÁXIMA. ............................................................................ 34
FIGURA 2-4 – A COSTA DA GUINÉ ...................................................................................................................... 41
FIGURA 2-5 – A PARTE OCIDENTAL DO ESTADO DA ÍNDIA ........................................................................................ 53
FIGURA 2-6 – O DOMÍNIO PORTUGUÊS NO ÍNDICO ............................................................................................... 54
FIGURA 2-7. AS CAPITANIAS HEREDITÁRIAS NO BRASIL........................................................................................... 62
FIGURA 2-8 – DIVISÃO ADMINISTRATIVA DO BRASIL EM 1620. ................................................................................ 66
FIGURA 3-1 POSIÇÃO INICIAL DA FAMOSA SIMULAÇÃO “SUGARSCAPE”, SIMULAÇÃO DO AUTOR USANDO O PROGRAMA
STARLOGO. A AMARELO OS MONTES DE AÇÚCAR, A VERMELHO OS AGENTES PROCURANDO AÇÚCAR, POR EXEMPLO,
FORMIGAS. ......................................................................................................................................... 137

FIGURA 3-2 A SIMULAÇÃO APÓS VÁRIAS DEZENAS DE ITERAÇÕES. O AÇÚCAR FOI PRATICAMENTE TODO CONSUMIDO OU
ARMAZENADO. .................................................................................................................................... 137

FIGURA 4-1- CRESCIMENTO PER CAPITA EM DIVERSAS REGIÕES DO MUNDO, 1820 A 2000 ......................................... 165
FIGURA 4-2- RENDIMENTO PER CAPITA, MÉDIA DO MUNDO,.................................................................................. 166
FIGURA 4-3– CONTRIBUIÇÃO DOS FACTORES PARA O CRESCIMENTO DO PIB, 1949-1959. AUTOR BASEADO NO QUADRO 4-5
........................................................................................................................................................ 188
FIGURA 4-4 EVOLUÇÃO DOS PREÇOS POR TONELADA DO VOLFRÂMIO ...................................................................... 207
FIGURA 4-5– EVOLUÇÃO DAS RAZÕES DE TROCA ................................................................................................. 207
FIGURA 4-6 FBCF ......................................................................................................................................... 207
FIGURA 4-7 EVOLUÇÃO DAS RESERVAS DE OURO E DIVISAS NO BANCO DE PORTUGAL, ................................................ 208
FIGURA 4-8– NÚMERO DE MESES DE IMPORTAÇÕES CORRESPONDENTES ÀS RESERVAS DO BANCO DE PORTUGAL. ............ 208
FIGURA 4-9 EVOLUÇÃO DOS CUSTOS UNITÁRIOS DO TRABALHO .............................................................................. 209
FIGURA 4-10 EVOLUÇÃO DA TAXA DE CÂMBIO EFECTIVA ....................................................................................... 210
FIGURA 4-11 BALANÇA COMERCIAL DE 1938 A 1947, ......................................................................................... 210
FIGURA 4-12– EVOLUÇÃO DA PRODUTIVIDADE TOTAL DOS FACTORES..................................................................... 215
FIGURA 4-13– CONTRIBUIÇÕES DOS FACTORES PARA O CRESCIMENTO DO PIB .......................................................... 216
FIGURA 4-14– TAXA DE INVESTIMENTO ............................................................................................................ 216
FIGURA 4-15 TAXA DE CÂMBIO EFECTIVA ........................................................................................................... 217
FIGURA 4-16 ÍNDICE DAS COTAÇÕES DA BOLSA DE VALORES DE LISBOA ................................................................... 218
FIGURA 4-17 NÚMERO MEDO DE ANOS DE ESCOLARIZAÇÃO DA POPULAÇÃO ............................................................. 219
FIGURA 4-18 ESTRUTURA DO EMPREGO ............................................................................................................ 226
FIGURA 4-19 ESTRUTURA DO PIB .................................................................................................................... 226
FIGURA 4-20 EVOLUÇÃO DO PIB DURANTE A VIGÊNCIA DOS PLANOS ...................................................................... 234
FIGURA 4-21 EVOLUÇÃO DA FBCF DURANTE A VIGÊNCIA DOS PLANOS, ................................................................... 234

xxi
Índice de Figuras

FIGURA 4-22 TAXA DE INVESTIMENTO EM % DO PIB DURANTE A VIGÊNCIA DOS PLANOS ............................................ 235
FIGURA 4-23 GRAU DE ABERTURA DA ECONOMIA PORTUGUESA ............................................................................. 236
FIGURA 4-24 PREÇO DAS EXPORTAÇÕES SOBRE PREÇO DA IMPORTAÇÕES, ................................................................ 237
FIGURA 4-25 EVOLUÇÃO DO ÍNDICE DE QUOTAS DE MERCADO ............................................................................... 238
FIGURA 4-26 EXPORTAÇÕES E PROCURA EXTERNA .............................................................................................. 238
FIGURA 4-27 EXPORTAÇÕES E COMPETITIVIDADE. ............................................................................................... 239
FIGURA 4-28 TAXA DE CÂMBIO ESCUDO/DÓLAR. ................................................................................................. 239
FIGURA 4-29 EMIGRAÇÃO POR ANOS ................................................................................................................ 242
FIGURA 4-30 REMESSAS DE EMIGRANTES .......................................................................................................... 243
FIGURA 4-31REMESSAS DOS EMIGRANTES ......................................................................................................... 243
FIGURA 4-32 REMESSAS DOS EMIGRANTES......................................................................................................... 243
FIGURA 4-33 QUANTIDADE DE CAPITAL POR TRABALHADOR .................................................................................. 244
FIGURA 4-34– COEFICIENTE CAPITAL-TRABALHO, K/L .......................................................................................... 245
FIGURA 4-35 TAXA DE DESEMPREGO E TAXA NATURAL DE DESEMPREGO .................................................................. 246
FIGURA 4-36 TAXA DE INFLAÇÃO ..................................................................................................................... 246
FIGURA 4-37 TAXA DE LUCRO ......................................................................................................................... 247
FIGURA 4-38 EVOLUÇÃO DOS SALÁRIOS ............................................................................................................ 247
FIGURA 4-39 TAXAS DE CRESCIMENTO ANUAL DO PIB PORTUGUÊS ......................................................................... 251
FIGURA 4-40 EVOLUÇÃO DO PIB, .................................................................................................................... 252
FIGURA 4-41 EVOLUÇÃO DO PIB PER CAPITA PORTUGUÊS ..................................................................................... 252
FIGURA 4-42 EVOLUÇÃO DO PIB PER CAPITA...................................................................................................... 253
FIGURA 4-43 EVOLUÇÃO DO PIB PER CAPITA PORTUGUÊS, .................................................................................... 256
FIGURA 4-44 NÚMERO DE ANOS DE ESCOLARIDADE ............................................................................................. 257
FIGURA 4-45 TAXAS DE CRESCIMENTO ANUAL DO PIB, ......................................................................................... 257
FIGURA 4-46 EVOLUÇÃO DO PIB ..................................................................................................................... 258
FIGURA 4-47 TAXAS DE CRESCIMENTO DOS SALÁRIOS NOMINAIS E REAIS. ................................................................. 259
FIGURA 4-48 TAXAS DE RENTABILIDADE BRUTA, .................................................................................................. 260
FIGURA 4-49 TAXA ANUAL DE DESEMPREGO E TAXA NATURAL................................................................................ 260
FIGURA 4-50 ÍNDICES DOS CUSTOS UNITÁRIOS DO TRABALHO EM TERMOS REAIS. ...................................................... 260
FIGURA 4-51 PREÇOS DO PETRÓLEO EM DÓLARES POR BARRIL. .............................................................................. 261
FIGURA 4-52 TAXAS DE INFLAÇÃO .................................................................................................................... 261
FIGURA 4-53 POSIÇÃO LÍQUIDA FACE AO EXTERIOR .............................................................................................. 262
FIGURA 4-54 DÉFICES DO ORÇAMENTO E DA BALANÇA DE TRANSACÇÕES CORRENTES,............................................... 263
FIGURA 4-55 PESO DA DESPESA DO SECTOR PÚBLICO........................................................................................... 264

xxii
Índice de Quadros

FIGURA 4-56 REMESSAS DE EMIGRANTES .......................................................................................................... 265


FIGURA 4-57 RECEITAS DO TURISMO ................................................................................................................ 266
FIGURA 4-58 RESERVAS DE DIVISAS .................................................................................................................. 266
FIGURA 4-59 RESERVAS DE OURO .................................................................................................................... 267
FIGURA 4-60 RESERVAS DE DIVISAS .................................................................................................................. 267
FIGURA 4-61 DÉFICE DO SECTOR PÚBLICO .......................................................................................................... 271
FIGURA 4-62 RAZÕES DE TROCA ...................................................................................................................... 271
FIGURA 4-63 EVOLUÇÃO DAS EXPORTAÇÕES MUNDIAIS, ....................................................................................... 274
FIGURA 4-64 COMÉRCIO EXTERNO DA EUROPA, ................................................................................................. 274
FIGURA 4-65 COMÉRCIO EXTERNO DE PORTUGAL ............................................................................................... 275
FIGURA 5-1 EVOLUÇÃO DAS PARTES RELATIVAS DE CADA ÁREA GEOGRÁFICA NO COMÉRCIO TOTAL DE PORTUGAL ............. 284
FIGURA 5-2 COMÉRCIO DE PORTUGAL COM DIVERSOS PAÍSES DA EUROPA ............................................................... 285
FIGURA 5-3 PIB PER CAPITA PORTUGUÊS ........................................................................................................... 286
FIGURA 5-4 EVOLUÇÃO DAS PARTES RELATIVAS DE CADA ÁREA GEOGRÁFICA NO COMÉRCIO TOTAL DE PORTUGAL ............. 293
FIGURA 5-5 COMÉRCIO DE PORTUGAL COM DIVERSOS PAÍSES DA EUROPA ............................................................... 294
FIGURA 5-6 COMÉRCIO COM A CEE E A EFTA .................................................................................................... 295
FIGURA 5-7 EVOLUÇÃO DO PIB PER CAPITA PORTUGUÊS ....................................................................................... 296
FIGURA 5-8 DÉFICE COMERCIAL ....................................................................................................................... 299
FIGURA 5-9 DEFLACIONADORES DAS EXPORTAÇÕES E IMPORTAÇÕES, ...................................................................... 300
FIGURA 5-10 EVOLUÇÃO DAS PARTES RELATIVAS DE CADA ÁREA GEOGRÁFICA NO COMÉRCIO TOTAL DE PORTUGAL ........... 303
FIGURA 5-11 COMÉRCIO DE PORTUGAL COM DIVERSOS PAÍSES DA EUROPA ............................................................. 304
FIGURA 5-12 COMÉRCIO COM A CEE, A EFTA E A OPEP ..................................................................................... 305
FIGURA 5-13 EVOLUÇÃO DO PIB PER CAPITA PORTUGUÊS, .................................................................................... 306

ÍNDICE DE QUADROS
QUADRO 3-1 NOTAS DE BRIAN ARTHUR SOBRE A NOVA ECONOMIA ....................................................................... 139
QUADRO 4-1– PIB PER CAPTA EM DÓLARES G-K ................................................................................................ 166
QUADRO 4-2 – TAXAS DE CRESCIMENTO COMPOSTAS DO PIB PERCAPITA,................................................................ 167
QUADRO 4-3 – PRODUÇÃO INDUSTRIAL,........................................................................................................... 173
QUADRO 4-4– MONTANTES DA AJUDA POR PAÍSES .............................................................................................. 175
QUADRO 4-5 – CONTRIBUIÇÕES PARA O CRESCIMENTO DO PIB, 1949-1959 .......................................................... 188
QUADRO 4-6 – COMÉRCIO INTRA-EUROPEU EM PERCENTAGEM DO COMÉRCIO DE CADA ZONA .................................... 189
QUADRO 4-7 – PRODUÇÃO TOTAL NA ECONOMIA, EMPREGO E PRODUTIVIDADE DO TRABALHO .................................... 190
QUADRO 4-8 – CONTRIBUIÇÕES PARA A PRODUTIVIDADE DO TRABALHO 1960-70 ................................................... 192
QUADRO 4-9 - CONTRIBUIÇÕES PARA A PRODUTIVIDADE DO TRABALHO 1970-80, ................................................... 198
QUADRO 43-10 – VALORES DAS EXPORTAÇÕES DE ALGUNS PRODUTOS DURANTE A II GUERRA .................................... 206

xxiii
>

QUADRO 4-11 RÁCIOS DO COMÉRCIO EXTERNO ................................................................................................. 221


QUADRO 4-12 – PIB PER CAPITA DOS PAÍSES DA OECE EM 1955 ......................................................................... 222
QUADRO 5-1– COMÉRCIO TOTAL DE PORTUGAL, PARTE I, .................................................................................... 282
QUADRO 5-2 - – COMÉRCIO TOTAL DE PORTUGAL, PARTE II ................................................................................. 283
QUADRO 5-3 – COMÉRCIO TOTAL COM EFTA, CEE E EUA ................................................................................... 283
QUADRO 5-4 – ELASTICIDADES DO COMÉRCIO TOTAL. .......................................................................................... 284
QUADRO 5-5 PIB PER CAPITA PORTUGUÊS PPP .................................................................................................. 287
QUADRO 5-6 GRAU DE ABERTURA DA ECONOMIA PORTUGUESA ............................................................................ 288
QUADRO 5-7 GRAU DE COBERTURA .................................................................................................................. 289
QUADRO 5-8 COMÉRCIO TOTAL DE PORTUGAL POR REGIÕES GEOGRÁFICAS, 1960-1974 PARTE I ................................ 290
QUADRO 5-9 COMÉRCIO TOTAL DE PORTUGAL POR REGIÕES GEOGRÁFICAS, 1960-1974 PARTE II ............................... 290
QUADRO 5-10 COMÉRCIO TOTAL COM A CEE, A EFTA E OS EUA .......................................................................... 291
QUADRO 5-11 ELASTICIDADES DO COMÉRCIO TOTAL............................................................................................ 292
QUADRO 5-12 PIB PER CAPITA PORTUGUÊS EM PPP ........................................................................................... 296
QUADRO 5-13 GRAU DE ABERTURA .................................................................................................................. 297
QUADRO 5-14 TAXA DE COBERTURA DAS IMPORTAÇÕES ...................................................................................... 298
QUADRO 5-15 COMÉRCIO TOTAL DE PORTUGAL POR REGIÕES GEOGRÁFICAS, 1974-1985 PARTE I .............................. 300
QUADRO 5-16 COMÉRCIO TOTAL DE PORTUGAL POR REGIÕES GEOGRÁFICAS, 1974-1985 PARTE II ............................. 301
QUADRO 5-17 COMÉRCIO DE PORTUGAL COM CEE, EFTA, EUA E OPEP............................................................... 302
QUADRO 5-18ELASTICIDADES DO COMÉRCIO TOTAL. ........................................................................................... 303
QUADRO 5-19 PIB PER CAPITA PORTUGUÊS EM PPP ........................................................................................... 307
QUADRO 5-20 TAXA DE COBERTURA ................................................................................................................. 308
QUADRO 5-21 TAXA DE ABERTURA DA ECONOMIA PORTUGUESA. ........................................................................... 308
QUADRO 5-22– EVOLUÇÃO DO COMÉRCIO EXTERNO PORTUGUÊS POR ZONAS GEOGRÁFICAS 1945-1985, EM % DO
COMÉRCIO TOTAL ................................................................................................................................. 309

QUADRO 5-23 – PARTE DA EUROPA NO COMERCIO TOTAL DE PORTUGAL ................................................................ 310


QUADRO 5-24 - PARTE DAS COLÓNIAS NO COMERCIO TOTAL DE PORTUGAL............................................................. 310
QUADRO 5-25 – PIB PER CAPITA EM PPP ......................................................................................................... 311
QUADRO 5-26 – TAXA DE ABERTURA AO EXTERIOR DA ECONOMIA PORTUGUESA ....................................................... 311

xxiv
O REGRESSO À EUROPA

We each exist for a short time, and in that time explore


but a small part of the whole universe. But humans are a
curious species. We wonder, we seek answers. Living in
this vast world that is by turns kind and cruel, and gazing
at the immense heavens above, people have always asked
a multitude of questions.

Stephen Hawkins e Leonard Mlodinow, The Grand


Design

1
Introdução

2
Introdução

1. INTRODUÇÃO

A ideia para a presente tese surgiu após, durante quatro anos, ter leccionado a disciplina
de Economia Portuguesa e Europeia aos cursos de Direito, Economia e Gestão de
Empresa na Universidade Lusíada do Porto. Antes tinha leccionado as cadeiras de
Macroeconomia ao Curso de Gestão durante doze anos e de Economia Internacional ao
Curso de Economia durante três anos. Esta ideia de tema acabou por ser reforçada
durante os anos mais recentes em que leccionei a unidade curricular de Economia
Mundial e Comércio Externo ao Curso de Relações Internacionais.

O QUE É A EUROPA?

Intitular este trabalho de investigação "O Regresso à Europa" trouxe-me algumas


inquietações. Porque a definição de "Europa" é, quanto a mim, ambígua.

É a Europa uma mera convenção geográfica, um continente com nome enraizado na


mitologia grega1, em que as partes que o compõem, em termos de nações ou estados,
são obrigados, pela sua vizinhança, a coabitar? A coabitação traz com ela a
inevitabilidade da manutenção de relações, da oposição de interesses, do desejo de
hegemonia.

Ou é a Europa mais do que isso? É ela uma identidade, com proximidades culturais,
com interesses económicos partilhados, com uma posição comum2 perante o resto do
mundo, com crenças políticas semelhantes, ou, pelo menos, com algum grau de
afinidade?

Porque se é a primeira, Portugal nunca deixou a Europa. Se é a segunda, Portugal


nunca, até ao século XX, parece ter-se sentido parte dela, e faz sentido falar em
regresso.

1
Ainda por cima tomando o nome de uma princesa daquilo a que hoje se chama Ásia.
2
Ou, pelo menos, um conjunto de unidades territoriais com posições próximas.

3
Introdução

A Open University da Holanda, em conjunto com outras instituições3, lançou, em 1993,


um curso em Humanidades e Ciências Sociais sobre precisamente esta questão: "What
is Europe?"4.

Ao ler os quatro livros em que o curso foi publicado fiquei mais descansado, as
inquietações não são só minhas. O debate dele resultante faz-me crer que a Europa
como identidade, ou ideia, tem estado em construção pelo menos desde o fim do
primeiro milénio5, mas que a obra ainda não está acabada.

Esta questão de pertença não se põe apenas em relação a Portugal. Em termos de


mentalidades e atitudes, vários outros países consideraram e continuam a considerar que
estão na Europa, mas, que também representam algo mais. Isto é, ou foi, verdade
relativamente à Grã-Bretanha, e também, como afirma Eduardo Lourenço(Lourenço,
2005, pp. 19, 101), à Espanha, a Portugal e à Grécia(Padgen, 2002, p. 205). Como
Lourenço escreve, houve sempre a Europa-Europa e a Europa menor(Lourenço & Faria,
2010 [1991], p. 70). O que tem feito arrastar no tempo a construção de uma identidade
europeia.

Esta minha inquietação não é excessiva. "O Regresso à Europa" é uma metáfora que
subsume a segunda parte do título e que, tenho que confessar, foi imaginado, também,
como uma frase com vista ao mercado dos consumidores do conhecimento, chamativa,
diferenciadora. Destinada a "vender" este trabalho.

Porque a essência das questões que me proponho tratar é a da passagem de um modelo


de desenvolvimento centrado na expansão ultramarina, nas relações privilegiadas com o
"Império" e nos seus frutos, de carácter económico, político ou cultural, para um
modelo aberto ao comércio externo e às relações mais profundas com os países da
Europa e com o resto do Mundo. No fundo, ao acelerar do desenvolvimento económico
e social substanciado numa outra metáfora, a da europeização.

3
Entre elas a EADTU – European Association of Distance Learning Universities.
4
Que no pensamento colectivo dos seus habitantes mais intelectuais foi primeiro espaço de liberdade, na
antiga Grécia, depois, a Cristandade, e, mais recentemente, depois do Iluminismo, o berço da civilização.
5
Muito provavelmente desde o sonho centralizador e aglutinador do antepassado de todos nós (pelo
menos de cerca de um milhar de milhões de nós), Carlos Magno.

4
Introdução

Concluí que faz sentido falar em regresso à Europa. Em vez de chamar a este trabalho
de investigação simplesmente "O Desenvolvimento de Portugal na segunda metade do
século XX e a sua relação com a Europa", ou uma outra variação sobre o tema, entendi
que, a partir de cerca de 1950, Portugal começou, também, a contribuir para aquela
construção da ideia de Europa, e que isso constituiu um retorno. Um regresso não ao
espaço geográfico, mas à identidade que ainda se está a construir. E para a qual Portugal
deixou de contribuir quando decidiu expandir-se pela via marítima.

1.1 As Razões e os Factos

A investigação que foi necessário fazer para leccionar essas unidades curriculares exigiu
a leitura de diversas obras. Essa leitura, principalmente de (Mateus, 2006), (Krugman &
Obstfeld, 2006), (Eichengreen, 2006) e (Cokhill, 1999) 6chamou a atenção para o facto
de que as transformações económicas de um País têm, sempre, relação com os regimes e
as escolhas políticas dos seus governantes. Além disso, que estas escolhas políticas,
principalmente após a 2ª Guerra Mundial deixaram de ser possíveis de realizar em
isolamento. A partir dos meados dos anos de 1940 os países tiveram que se encaixar
numa nova ordem que assenta na interdependência e na cooperação supostamente
desenvolvida no seio de instituições de carácter extra nacional e mesmo supranacionais.

Efectivamente, como afirma (Duroselle, 2009, p. 3):

“Lorsqu’une guerre prend fin, l’immense soulagement des


peuples s’accompagne d’une étrange illusion. On croit que va se
produire un «retour à la normale».[…]. Ansi le processus
traditionnel – traité de paix, reprise des rapports entre ennemis
6
Também é devida uma referência às reflexões que me trouxe a leitura de (Polanyi K. , 2002) que alguns
consideram precursor da economia institucional e da transformação mental que desembocou na aplicação
da Teoria dos Sistemas Complexos à Economia. E a obra de outro Polanyi, Michael, sobre o
conhecimento tácito e o significado. Se toda a leitura, mesmo a ficção, é sempre útil quando a fazemos de
forma crítica, a destes autores foi-o de sobremaneira.

5
Introdução

de naguère – apparaît comme inévitable.[…]. Or, rien ne se


produira selon ces normes. Pas de traité de paix […], la guerre
froide, la dislocation des empires, la misère, puis la formidable
expansion économique des pays industrialisés. Et, en face, la
pauvreté croissante de ce que l’on appellera un jour le Tiers
Monde […].

O que procurarei conseguir é uma síntese do processo de europeização de Portugal,


ocorrido durante a segunda metade do Século XX7, especialmente dos contextos pós II
Guerra conducentes à chamada primeira fase da integração com a adesão à EFTA, a
interrupção ocorrida na convergência para a Europa na sequência da crise petrolífera de
1973 e da Revolução do 25 de Abril, e a retoma da mesma após as intervenções do FMI
entre 1977 e 1984 que conduziu à criação de condições para a adesão em 1985 à CEE8.

Daí o período 1945-1985. Que se pode dividir em dois subperíodos (Lopes, 2004),
1945-1974, o período do grande crescimento da economia e do início da liberalização
comercial, e 1975-1985, o período dos grandes desequilíbrios, dos efeitos do choque
petrolífero de 1973, da incerteza politica pós 25 de Abril, da intervenção do FMI e,
finalmente, da aceitação da adesão à CEE. Estes dois períodos ainda poderão ser
subdivididos, especialmente o primeiro, para fins da análise do comércio externo (ver
abaixo “Uma Vista de Conjunto”).

A necessária síntese histórica, política e económica será acompanhada pela análise


baseada nas teorias do comércio internacional, da economia política internacional, da
teoria dos sistemas complexos adaptativos e na análise estatística ou formal dos fluxos
do comércio externo português e a evolução do grau de abertura da economia
portuguesa entre 1945 e 1985 procurando responder às questões:

“É a evolução do comércio externo português e das suas relações


económicas internacionais reflexo do processo de europeização9?” ou “É

7
Partindo de uma análise das razões do afastamento e do seu prolongamento por uns extensos e
conturbados 500 anos.
8
Ainda que não se possa negar que esta adesão teve, principalmente, motivações políticas.
9
No sentido de aproximação política, comercial e económica à Europa, mas, também, de modernização,
desenvolvimento e alteração estrutural da economia portuguesa.

6
Introdução

possível ligar as razões da europeização da economia portuguesa à


evolução do seu comércio externo e às razões últimas desta? e

Reflecte a alteração da estrutura geográfica do comércio externo português


um efectivo “Regresso à Europa”?”

Mais umas palavras sobre o título deste trabalho. A integração económica de Portugal
na Europa marcou o fim da empresa a que se abalançou a partir do Século XV. Tratou-
se de um regresso quase definitivo ao Velho Continente e o fim definitivo do Império.
Apropriado seria chamar a este texto “O Regresso das Caravelas”10. Contudo já existe
um livro11 com esse título. E durante os anos de 1970 existiu uma organização de apoio
aos “retornados” com o mesmo nome. Daí "O Regresso à Europa".

1.1.1 AS RAZÕES

A Economia Política Internacional

Da investigação referida acima e da leitura de outras obras para que ela me alertou ficou
claro que existe uma clara relação entre mercados e nações 12(Strange, 1994), mas
também, (Gilpin, 2001) (Gilpin, 1987) (Strange, 2002) e que o poder era, agora,
exercido num contexto que tornava impossível a governação em isolamento e a opção
pela autarcia e exigia novas formas de relacionamento internacional cada vez mais
assentes na integração económica regional.

Desde que Susan Strange publicou, em 1970, na revista International Affairs (46, Abril,
pgs 304-315) o seu artigo “International Economics and International Relations: A
Case of Mutual Neglect”(Strange, 2002, pp. 187-196) que surgiu na área das Relações
Internacionais uma nova subdisciplina agora chamada de Economia Política
Internacional que procura, precisamente, estabelecer a ponte entre a disciplina
económica de Economia Internacional e as Relações Internacionais reconhecendo que
existem pontos de contacto entre as duas que não podem ser ignorados. Como afirmava
(Strange, 2002, p. 187):
10
Porque foram o mais visível instrumento do afastamento.
11
Sobre o tema da descolonização e do regresso de 700.000 portugueses nos finais dos anos de 1970.
12
Ou, como alguns autores preferem, entre riqueza e poder.

7
Introdução

“The purpose of this article is to put forward a proposition


which, if accepted as correct, seems to me to be of rather major
importance to the academic study of international relations. It
concerns the unequal pace of change in the international
political system and in the international economic system, and
the effects of this unequal rate of change in the international
society, and on the relations of states with one another. […].

There are some questions which are vital to the coherence and
relevance of our view of the world to which we […] shall soon
badly need the answers […]”

E mais adiante (Strange, 2002, p. 188):

“[…] what I have in mind is more specific than the increase in


economic interdependence and interaction. It is that the pace of
development in the international economic system has
accelerated, is still accelerating and will probably continue to
accelerate. And that, in consequence, it is out-distancing and
out-growing the rather more static and rigid international
political system”

Este artigo pioneiro foi a origem da disciplina que (Kébabdjian, 1999, p. 8) define
como:

“[…] une discipline récente qui cherche à analyser la sphère des


relations économiques internationales, centrée sur les
phénomènes de richesse (production et circulation de la
«richesse des nations»), en prenant en compte les articulations
avec la sphère du politique, centrée sur les phénomènes du
pouvoir"

8
Introdução

Tradicionalmente, a disciplina é abordada considerando três teorias. Liberalismo,


Nacionalismo13 e Marxismo (Gilpin, 1987, pp. 25-64), ou Liberalismo, Realismo e
Marxismo (Kébabdjian, 1999, pp. 19-48). Ainda que esse não seja o objectivo da
presente tese, dado o carácter de enquadramento que a Economia Política Internacional
nele tem, seguirei, na revisão da literatura a fazer adiante (Capítulo 3) as visões de
Matthew Watson em (Ravenhill, 2008, pp. 27-66) que considera estas tradições teóricas
obsoletas e de (Cohen, 2008, pp. 1-94) que prefere, como Watson, distinguir entre as
Escolas Americana e Britânica da EPI com base em duas diferentes aproximações à
disciplina.

Sistemas Complexos Adaptativos

Acresce que, recentemente, começou a desenvolver-se uma nova aproximação14 à


interpretação dos fenómenos económicos e políticos através da utilização de
ferramentas e raciocínios até há pouco reservados à Biologia e à Física. Trata-se da
Teoria dos Sistemas Complexos Adaptativos15 que procura explicar o que se passa na
fronteira entre o equilíbrio e o caos e os fenómenos emergentes, aqueles que resultam da
interacção inconsciente ou espontânea ente agentes e que acabam por se tornar na
norma16.

Como afirma (Rihani, 2002, p. xv):

“I argue […] that nations behave as nonlinear Complex


Adaptative Systems. Their human development is an endless,
exploratory and uncertain trek through the rugged global
landscape, with no shortcuts or promises. In effect, I am asking
[…] to discard an inbuilt structure of beliefs and assumptions,
based on Newtonian positivist certainties, in favour of another

13
Ou Mercantilismo, ou segundo outros, Realismo.
14
Especialmente graças aos esforços do Santa Fe Institute
15
E mais recentemente da sua evolução designada por Sistemas Complexos Adaptativos Reflexivos.
16
Por exemplo, os acontecimentos de Londres em Agosto de 2011 são um exemplo de emergência (no
sentido óbvio de manifestação, imanência): as atitudes de duas ou mais pessoas transformaram-se num
fenómeno colectivo e num efeito de transmissão que atingiu outras cidades inglesas. Na linguagem dos
sistemas complexos (adaptativos reflexivos) foram uma manifestação de "swarm intelligence", um
comportamento colectivo num grupo descentralizado, auto-organizado, de "agentes" que interagiram
localmente uns com os outros e com a sua envolvente.

9
Introdução

little known setup founded in nonlinearity which sets strict


limits on our ability to predict the future in detail”

Estudar este período da vida portuguesa é, também, estudar a transição de Portugal de


uma situação de país subdesenvolvido para o grupo dos países desenvolvidos(Lains,
2003). Segundo(Rihani, 2002, p. 3 e segs.), citando (Kuhn, 1996, pp. 33-45) quanto ao
progresso da ciência, também nos processos de desenvolvimento se deu uma mudança
de paradigma no sentido da complexidade e da não linearidade.

Por sua vez (Jervis, 1997, p. 3) escreve:

“Although we all know that social life and politics constitute


systems of complex interactions, the basic ideas of systems do
not come readily to mind and are often ignored”

E mais adiante (Jervis, 1997, pp. 6-7):

“Complexities can appear even in what would seem to be simple


and deterministic situations. Henri Poincaré showed that the
motion of as few as three bodies (such as the sun, the moon, and
the earth), although governed by strict scientific laws, defies
exact solution: While eclipses of the moon can be predict
thousands of years in advance, they cannot be predicted millions
of years ahead, which is a very short period by astronomical
standards”

E ainda (Jervis, 1997, p. 9):

“[…] it is difficult to know what will happen in a system, but at


minimum we can say that a change at one point will have wide
ranging effects. Thus when the European settlers in North
America made friends or enemies of a native tribe or gave it
modern tools and weapons, they affected relations between that

10
Introdução

tribe and its neighbors, setting in motion a ripple effect that


affected the behavior of others hundreds of miles away”17

Jervis (1997) procura aplicar a Teoria dos Sistemas Complexos Adaptativos às teorias
da política internacional e procurarei, também, inserir os meus raciocínios neste quadro
interpretativo o que, julgo, ainda não foi feito, pelo menos em Portugal. Até porque, em
Ciências Sociais e Humanas a investigação é quase sempre feita neste espaço a que me
habituei a chamar o «limiar do caos».

A discussão deste paradigma e das suas relações com a EPI será abordada no Capítulo 3
seguindo (Rihani, 2002, pp. 18-45) com incidência, também, na questão das teorias ou
ideologias da EPI referida atrás, pois (Rihani, 2002, p. 20):

"IPE ideologies are traditionally classified into mercantilist,


liberal, and Marxist schools of thought (Gilpin, 1987)18.
According to that convention, each doctrinal approach is
primarily a view of the relative supremacy of economic versus
political factors internationally [ver também (Strange, 1994)]19,
and state versus social forces domestically. Schools also differ
in their assumptions about the main driving forces behind
change, and the vision of what that change would bring over
time. Delineation between schools is not one of absolute values
but depends on the weights to be given to each factor. This
would explain in part the hazard of labeling a nation as being,
say, liberal or mercantilist. To muddy the waters further, I will
contend later that a nation could easily be both at the same time"

Proponho-me, pois, em paralelo com a procura das respostas acima, enquadrá-las na


questão de uma ontologia da EPI e na questão da mudança de paradigma de uma visão

17
A teoria do caos de Edward Lorenz (Deterministic Nonperiodic Flow, 1963, Journal of the
Atmospheric Sciences) que se insere nesta questão da complexidade. Aliás, despertou os cientistas para o
facto de que a maior parte dos fenómenos que ocorrem no nosso mundo são não lineares e que esse
mundo é um sistema complexo.
18
A citação foi corrigida por mim de modo a corresponder à edição usada por mim.
19
Acrescento meu.

11
Introdução

linear dos problemas tratados para uma visão complexa de não linearidade. Tal implica,
entre outras, duas coisas: o reconhecimento de que as teorias são evolutivas e
dependentes dos contextos(Crane George T, 1997, p. 3) e de que a metáfora neoclássica
da economia como sistema aberto é susceptível de ser posta em causa (Menezes A. Q.,
1993).

O Afastamento de Portugal em Relação à Europa

Desde o fim da Idade Média que Portugal, por razões que procurarei aprofundar adiante,
se afastou da Europa. Primeiro, foi a empresa dos Descobrimentos, a gestão de um
império multicontinental, a procura da ultrapassagem das restrições impostas por uma
dimensão territorial diminuta e pelos obstáculos, geográficos e políticos, ao
relacionamento com o continente em que está geograficamente inserido. Depois, foi a
opção por um regime de características nacionalistas e de quase autarcia económica
sustentada pela aposta num relacionamento comercial forte e quase exclusivo com as
suas possessões coloniais.

Se, no primeiro caso, a afirmação do poder, da hegemonia e a obtenção de benefícios


financeiros exigiu a manutenção de laços comerciais com a Europa20, no segundo, a
desconfiança, a miopia política e a procura da manutenção do poder das elites conduziu
a um isolamento quase total relativamente ao Velho Continente.

O Portugal político e económico de hoje resulta de um conjunto de circunstâncias21,


escolhas e decisões que começaram a ganhar forma após o fim da Segunda Guerra. Este
fenómeno não foi esquecido pelos investigadores, historiadores, politólogos e
economistas, que, acerca dele se debruçaram e publicaram as suas conclusões.
Considero, entretanto, que a aproximação pelo lado da Economia Política Internacional

20
Na realidade Portugal nunca abandonou totalmente a Europa. Os frutos da expansão marítima
necessitavam de um mercado e os ganhos obtidos com a exploração e venda dos produtos provenientes
dos “novos mundos” tinham que ser gastos em algum lado. Como a expansão marítima acabou por quase
destruir a produção manufactureira e agrícola a importação de bens passou a ser a única forma de
satisfazer a necessidades, especialmente em bens de luxo pelas classes que mais aproveitaram com o
comércio marítimo, e apesar de tudo, por razões que tentarei explicitar mais adiante, a Europa era, ainda,
o fornecedor mais próximo e mais lógico. Continuou, também, a participar de forma mais ou menos
activa na política europeia.
21
Predominantemente externas e de carácter mundial.

12
Introdução

e do método da Relações Internacionais, assim como usando a Teoria dos Sistemas


Complexos, ainda não foi feita. Aproveitando a obra desses autores e utilizando uma
aproximação e um quadro mental diferentes irei procurar contribuir para o
aprofundamento da compreensão deste período decisivo da vida de Portugal e das suas
relações com a Europa.

1.1.2. OS FACTOS

A Economia Portuguesa após 1945

Entre 1945 e 1985 a economia portuguesa experimentou alterações profundas tanto em


termos de modernização e crescimento como em termos de estrutura. Nesse período, e
se se usar a relação entre o seu PIB per capita e a média do PIB per capita dos países
que viriam a constituir a União Europeia a 15, aproximou-se claramente da Europa.

Usando números não tratados acerca do seu comércio externo a parte deste realizada
com a Europa cresceu de forma substancial e a postura mercantilista que caracterizava a
sua política comercial foi substituída por uma posição claramente liberalista que
conduziu a uma maior abertura ao exterior e à redução quase total do proteccionismo
comercial.

No período Portugal foi um dos países do mundo que mais cresceu e, também, um dos
que viu os indicadores de desenvolvimento progredir mais.

Vários historiadores económicos se debruçaram sobre este período. Muitos deles


preocuparam-se mais com os atrasos da economia portuguesa relativamente a outros
países o que como afirma (Lains, 2003, pp. 17-30) vai na tradição da historiografia
económica portuguesa, nomeadamente Antero de Quental e Oliveira Martins. Apenas
mais recentemente, afirma (Lains, 2003, pp. 17-30), autores como Pereira de Moura,
Xavier Pintado, Abel Mateus e Luciano Amaral se debruçaram mais concretamente
sobre o crescimento português.

Pois, como escreve (Lains, 2003, pp. 19-20) Portugal caracterizou-se neste período:

13
Introdução

“[...] as grandes transformações sofridas pela economia


portuguesa desde 1945, nomeadamente a rápida
industrialização, acompanhada pelo crescimento do
investimento nacional, em bens de capital e infra-estruturas,
pelo aumento das exportações industriais e pelo crescimento dos
principaís serviços do Estado e dos mercados financeiros”

São estas profundas transformações, vistas especialmente do ponto de vista do comércio


externo, que procurarei analisar. E essas alterações foram efectivamente significativas
como alguns números, apresentados sem preocupações de análise, mas tão-somente de
ilustração e de apresentação dos factos a analisar, demonstram.

No final da Segunda Guerra Portugal tinha um PIB per capita de 38% da média da
União Europeia a 15 e em 1985 essa percentagem era de 54%, tendo chegado a 61% em
1973. Em 1950 o seu PIB per capita era de 103 euros enquanto em 1985 era de 499
euros a preços constantes de 1977 (ou de 1.868 e 7.633 euros respectivamente a preços
correntes) representando um crescimento anual um pouco acima dos 4%. Em 1945 a
agricultura e pescas representava cerca de 27% do PIB e 51% do emprego e em 1985
10% do PIB e 22% do emprego.

Segundo (Maddison, 2001) grande referência em termos de estatísticas da economia


mundial o PIB per capita medido em dólares G-K22 constantes de 1990, passou, em
Portugal de 2.069 em 1950 para 8.212 em 1985 o que confirma a taxa de crescimento de
cerca de 4% anuais referidos acima. Usando os mesmos números de Maddison os países
da Europa Ocidental terão crescido a taxas de 3,3% anuais no mesmo período e os
“rebentos europeus” como ele designa23 terão crescido a uma taxa anual de cerca de
2,2% em termos per capita G-K. Ou seja, no período Portugal cresceu acima da média
dos países da Europa Ocidental e dos “rebentos europeus” o que lhe permitiu convergir
para os níveis desses países como se viu acima, apesar de se manter claramente abaixo
da média desses países.

22
Geary-Khamis ou "international dollar" baseado na comparação de cada moeda com o poder de compra
do dólar.
23
Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos e Canadá.

14
Introdução

Os Progressos de Portugal e a EPI

São estes progressos que procurarei correlacionar com a evolução do comércio externo
português no contexto da EPI, da Teoria dos Sistemas Complexos Adaptativos e das
Teorias do Comércio Internacional.

Em 1945, as exportações para as colónias representavam 27% das exportações totais e


as exportações para a actual UE 24%. Em 1985 esses valores eram, respectivamente, de
4%24 e 58%. As importações eram, respectivamente de 14% e 39% do total no primeiro
daqueles anos e de 1,2 e 39% no segundo.

Em 1945 o grau de abertura da economia portuguesa era de 8,5% e em 1985 de 29,7%.


A sua taxa de protecção efectiva (método Balassa25) era de 30 em 1959 e de 22,9 em
1982 tendo atingido os 50 em 1970 (média simples das taxas de protecção dos diversos
sectores produtivos) (Porto, 1982).

Transformações nas Instituições Internacionais

A seguir à Segunda Guerra produziram-se substanciais transformações nos campos


político, social e económico, não só a nível dos estados nacionais26 como a nível das
relações entre eles, emergindo novas instituições plurinacionais, maior grau de
cooperação internacional e uma nova ordem política caracterizada pelo aparecimento de
dois grandes blocos caracterizados por regimes diferentes e opostos.

Mary Fulbrook (Fulbrook, 2001, pp. 3-5) afirma a este respeito:

“The cold war, decolonization, and European integration


together radically altered the nature of Europe in the latter half
of the twentieth century.[...]

First, the cold war, which divided Europe – and much of the
world – into wholly opposed ideological, political, and

24
PALOP.
25
Para uma apresentação teórica do cálculo ver (Porto, 2009, pp. 128-144)
26
Especialmente nos países beligerantes. Nos países que se mantiveram neutrais, por razões a aprofundar
mais à frente, as transformações internas, e o movimento de descolonização, deram-se mais tarde,
nomeadamente em termos políticos e sociais, mas, num maior ou menor grau estes países também se
inseriram mas transformações a nível multinacional.

15
Introdução

economic systems, dramatically affected the character and


development of [European] states [...]

Secondly, in the decades following the Second World War, the


former imperial powers in Europe withdrew from major roles on
the world stage, with all the consequences of decolonization
both at home and abroad. [...]

Thirdly and intimately related to those developments27, a


process of European integration began in a handful of core states
within Western Europe [...]

There were also a number of highly significant general trends


across our period. On a worldwide stage, supranational and
international organizations were developed to seek solutions to
military, political, and environmental problems”

Barry Eichengreen em (Fulbrook, 2001, pp. 96-97) referindo-se ao maior


desenvolvimento das economias europeias no pós guerra segue o pensamento de
Fulbrook ao afirmar:

“The second half of the twentieth century was a period of


unparalleled growth in Europe which transformed the lives of its
people almost beyond recognition.[...]

Two conditions stimulated growth continent-wide in the second


half of the twentieth century. One was the backlog of
unexploited technological and organizational knowledge at the
beginning of the period. The decades between the First and the
Second World Wars were a period of economic instability and
crisis, but they were also decades of significant technological
progress. [...] The Second World War was a hot house for
technological advance, the military having to innovate to

27
As consequências da divisão em dois blocos e da descolonização e incremento da emigração em países
como o Reino Unido e a França.

16
Introdução

survive; it produced advances in jet engines, radar and


computing [...]. After 1945 these developments could be put to
peacetime use.

The other factor shaping economic growth continent-wide was


the great power conflict. [...]. The cold war had a decisive
impact n the choice: it moved Western Europe toward market
capitalism and Eastern Europe toward state socialism. The
principal features of the international economic environment -
the Marshall Plan, the Bretton Woods international monetary
system, and the General Agreement on Tariffs and Trade – were
all shaped by the US-Soviet conflict”

No último parágrafo do texto acima citado de Mary Fulbrook e no final da citação de


Eichengreen atrás é feita referência ao facto de o pós guerra se ter caracterizado pela
criação de um número apreciável de instituições supra nacionais ou internacionais. Estas
instituições, em que podemos incluir a Comunidade Económica Europeia e a EFTA –
European Free Trade Association, foram instrumentais em todo o processo de
desenvolvimento da Europa Ocidental e de aprofundamento da cooperação
internacional. Os efeitos dessa criação não deixaram de influenciar a politica e a
economia portuguesas no período em estudo, e, e determinados casos, foram
determinantes para a evolução de Portugal e da sua economia.

Será útil ler o que escreveu Andresen Leitão (Leitão, 2007, p. 21) a este propósito, até
porque contribui para a compreensão da minha leitura dos acontecimentos económicos,
políticos e sociais em Portugal e da sua relação com o evoluir do comércio externo
português:

“Portugal foi membro fundador da OECE28 em 1948 e da EFTA


em 1960, negociou um acordo comercial com a CEE em 1972 e
tentou obter o estatuto de membro associado desta organização
em 1962 e 1970. Apesar da dupla desvantagem da ditadura e do
colonialismo, Portugal conseguiu seguir uma política europeia

28
Depois OCDE e uma disposição do Plano Marshall.

17
Introdução

relativamente bem-sucedida até à queda do regime em 1974. Até


à data, a investigação realizada tem sublinhado que a política
europeia de Portugal, no pós guerra, a partir do Plano Marshall,
foi dominada pelo medo do isolamento [...]. O medo do
isolamento foi decerto um dos argumentos diplomáticos – e
também económicos – que Portugal usou [...].

No entanto, o factor decisivo que determinou o desejo de


desempenhar um papel activo na integração europeia foi a
necessidade de garantir o desenvolvimento económico e, assim,
a estabilidade social e a sobrevivência da ditadura do Estado
Novo”

Concluindo

Ou seja, durante os quarenta anos que decorreram entre o final da Segunda Guerra e a
adesão de Portugal à CEE, a economia portuguesa cresceu, o comércio externo
aumentou, a política económica mudou de rumo, Portugal inseriu-se nos principaís
movimentos europeus e mundiais de cooperação e integração. Até 1974, e apesar do
abandono da política de isolamento e autarcia de antes da guerra, manteve políticas
autoritárias e de intervenção na esfera económica, de nacionalismo político e de
manutenção do colonialismo, mas aproximou-se política e economicamente da Europa.

Este ciclo interrompeu-se em 1974, não apenas por razões internas, e só foi retomado
após a resolução dos desequilíbrios económicos resultantes das consequências
económicas do 25 de Abril e do reflexo interno do choque petrolífero de 1973 e
subsequente desaceleração do crescimento a nível mundial.

São estes os factos que enquadram o meu trabalho de investigação e que o conduzirão
durante o restante desta tese.

1.2 Os Métodos e as Fontes


O enquadramento do meu trabalho foi descrito acima. De forma limitada porque todos
os pontos focados, e os que sendo pertinentes foram omissos por razões de economia de

18
Introdução

espaço e de tempo, serão desenvolvidos em capítulos subsequentes. Interessa, agora,


tecer algumas considerações sobre a metodologia do trabalho de investigação a
desenvolver e fazer algumas reflexões sobre quais as fontes a serem utilizadas e quais os
possíveis problemas que a sua obtenção ou tratamento levantaram.

1.2.1 OS MÉTODOS

Esta minha tese é realizada na área das ciências sociais e humanas em que os métodos
de investigação e explicação, certamente, não podem ser os mesmos das ciências exatas.
Por exemplo, a realização de experiências é difícil, se não impossível, porque muitos
fenómenos sociais não se podem reproduzir em laboratório ou têm problemas
inultrapassáveis de mensuração. Poderá ser substituída, talvez, pela "experiência"
mental, a formulação de uma ideia e o seu teste contra outra ideia (Vários, 1996, pp.
449-477). Cada ciência pode ter a sua forma de experimentação.

Multidisciplinaridade do Tema

Além disso, o tema que me proponho tratar encontra-se num subconjunto do


conhecimento em que se cruzam a História, as Relações Internacionais (mais
precisamente a subdisciplina da Economia Política Internacional29), a Política e a Teoria
Económica (além do Direito em algumas questões mais específicas). Este facto ainda
torna mais complexa a questão da metodologia a utilizar, além de pôr, como já se viu,
questões ontológicas relevantes.

Esta intersecção de áreas do conhecimento aumenta a complexidade do tema, no sentido


visto atrás dos Sistemas Complexos. A coisa mais complexa é a que funciona de modo
aleatório, ou seja, a que não obedece a leis exactas e definidas, e as Ciências Sociais
tratam predominantemente o complexo. Estudam comportamentos muitas vezes
erráticos porque não são previsíveis(Carvalho, 2009, p. 3), e quando algo, como um
sistema, é imprevisível existe entropia, e perde-se informação. Se não existe suficiente

29
Que alguns autores começam, dada a crescente importância do económico nas relações entre países, a
considerar como a futura disciplina com as actuais Relações Internacionais como sub disciplina.

19
Introdução

informação não existe sincronização e surge marginalidade, ou não-linearidade. Tal


exige que se desagregue cada parte do seu contexto.

Como disse acima, o tratamento de questões complexas encontra-se no "limiar do caos",


entre a ordem30 e o caos. Se as partes forem demasiado ordenadas cristalizam-se, caso
contrário, desaparecem no caos. Tal pode impedir o uso de métodos racionais (como o
da escolha racional). É a investigação, a ciência que dela resulta que tem a
responsabilidade de impor racionalidade, a capacidade de pensar, de formular questões
e hipótese e de lhes responder e as testar.

Os métodos da Teoria dos Sistemas Complexos assentam, principalmente, na procura


desta racionalidade, na simulação computacional que o autor não domina nem
conseguiria dominar no tempo que lhe é concedido. Vou, assim, recorrer a métodos
comprovados no estudo das áreas das ciências em causa, desde a hermenêutica à
modelação económica e à estatística, passando por métodos menos formais e mais
descritivos (e qualitativos) nos capítulos dedicados à revisão das teorias e a métodos do
estudo de casos, estes no que diz respeito ao estudo do comércio externo português
entre 1945 e 1985. Nunca, entretanto, deixará de se ter em conta o princípio da
falsificação (Popper, 2007) e as suas consequências em termos de metodologias da
investigação a usar, com as reservas que o próximo subcapítulo descreve.

Evidentemente ainda se põe a questão da causalidade. Que é que são causas e o que é
que são efeitos? A resposta à questão central deste trabalho vai ter que distinguir, por
exemplo e ser for possível, se a fundação da EFTA é uma causa do regresso ou um
efeito de um conjunto de factos que já estavam a contribuir para a inserção de Portugal
na identidade Europa.

Quanto a esta questão da causalidade, em economia as relações causa-efeito são muitas


vezes ambíguas. Um exemplo ilustra melhor esta afirmação: todos os economistas
aceitam que mais investimento, ou uma maior acumulação de capital físico, conduz a
um aumento do rendimento, esta é, aliás, uma das fontes do crescimento económico.
Mas, também sabem que maior rendimento conduz a maiores montantes de

30
Em Teoria dos Sistemas Complexos o "possibilities landscape" ou espaço das possibilidades.

20
Introdução

investimento. Ou seja, estamos perante duas relações causa-efeito de sentidos contrários


e a questão que se põe, e ainda não foi respondida, é qual dela sé a dominante. O que
isto significa é que no meu estudo, adiante, das relações entre o comércio externo e o
desenvolvimento portugueses me limitarei – a não ser que haja causalidade não ambígua
– a destacar correlações, que uma determinada variável está relacionada com outra, sem
emitir opinião sobre a relação causa-efeito a não ser que existam no enquadramento
institucional fortes razões que me permitam fazê-lo.

Uma pequena Reflexão sobre Filosofia da Ciência e a Questão da Validação

Convirá, entretanto, referir que os princípios de Popper, enunciados em resposta à


insuficiência das ideias sobre o método científico propostas pelo empirismo lógico31,
não foram julgados suficientes para a validação do conhecimento científico por alguns
autores subsequentes. Segundo Popper, uma teoria ou hipótese não pode ser provada
como correcta em todos os seus aspectos - como defendiam os positivistas, ou nunca ser
demonstrada como logicamente completa. Mas, pode ser falsificada e se o for tem de ser
substituída32.

Popper revolucionou a filosofia da ciência. Mas recusou o método indutivo como forma
de provar ou infirmar uma teoria. As experiências eram suficientes para o fazer e como
pode sempre acabar por ser feita uma experiência que nega a hipótese formulada, o
conhecimento é sempre probabilístico. Segundo alguns filósofos posteriores33 Popper

31
Ou positivismo, da Escola de Viena e perfilhado por vários filósofos de Oxford.
32
Um exemplo da vida real é o de que até à descoberta da Austrália só se conheciam cisnes brancos,
então, segundo o empirismo lógico, todos os cisnes são brancos. Mas, na Austrália existem cisnes negros,
a inferência de que todos os cisnes são brancos foi falsificada.
33
Como John Pratt em artigo na revista Science (Pratt, 1964) onde escreve a p. 350:
"Or, as the philosopher Karl Popper says today, there is no such thing as
proof in science-because some later alternative explanation may be as good
or better-so that science advances only by disproofs. There is no point in
making hypotheses that are not falsifiable, because such hypotheses do not
say anything; "it must be possible for an empirical scientific system to be
refuted by experience" .
The difficulty is that disproof is a hard doctrine. If you have a hypothesis and
I have another hypothesis, evidently one of them must be eliminated. The
scientist seems to have no choice but to be either soft-headed or disputatious.
Perhaps this is why so many tend to resist the strong analytical approach-
and why some great scientists are so disputatious."
Mas, Pratt, tal como Popper, não conseguiu tomar em consideração todos os factores que tornam a prática
da investigação produtiva, além de que a inferência forte – assente no pressuposto de que existe um

21
Introdução

caiu num equívoco tal como os positivistas porque não teve em conta os contextos em
que os investigadores trabalham.

Um investigador britânico de origem húngara, químico de formação 34, Michael Polanyi


começou a reflectir sobre a natureza da ciência nos anos de 1950. Usando a sua vasta
experiência de cientista identificou as insuficiências do empirismo lógico, mas, recusou,
igualmente as reformulações do racionalismo crítico de Popper considerando que elas
exigiam uma correspondência rigorosa, mas inatingível, entre as generalizações
científicas e o mundo real35.

Segundo ele os cientistas formulam, muitas vezes, as suas teorias com base em
pressentimentos e visões. Acreditava que o cientista é guiado pela visão de uma
realidade escondida e que essa visão é dinâmica. Este carácter dinâmico é determinado
pela intuição e pela imaginação36. Para Polanyi a intuição aparece da nossa capacidade
em percepcionar a coerência existente entre as coisas. A imaginação procura eliminar os
hiatos entre o que é conhecido e o que é entendido como sendo a realidade subjacente.

Esta sua formulação levou-o à consideração da importância fundamental do


conhecimento tácito ou subjectivo, adquirido pela experiência que vamos adquirindo
acerca do mundo durante a vida. É o suporte inconsciente da maior parte dos nossos
processos de pensamento e acções e é intransmissível37. Os cientistas ao aplicarem o seu

número finito de observações ou experiências -não é eficaz para todos os problemas, muitos deles
necessitam de outros métodos, ainda que em simultâneo com ela.
34
Impedido pelas suas origens de colaborar durante a Segunda Guerra Mundial com outros cientistas
britânicos devido à sua nacionalidade e ao facto de ter ensinado na Alemanha durante vários anos, com o
tempo livre dedicou-se à filosofia da ciência. Após a Guerra passou a ensinar Ciências Sociais.
35
Lakatos (Lakatos, Worrall, & Currie, 1978, p. 159 a 167) num subcapítulo a que chama "A plea to
Popper for a whiff of 'inductivism'" afirma "Popper has not fully exploited the possibilities opened up by
his Tarskian turn".
36
O exemplo usado por Michael Polanyi para suportar esta ideia foi Copérnico, cuja visão era vaga e sem
suporte na evidência. No entanto, a sua visão era a correcta. Lakatos em (Lakatos, Worrall, & Currie,
1978, p. 176 a 178) num subcapítulo curiosamente intitulado "Polanyiite and Feyerabendian accounts of
the Copernican revolution" e recorrendo também a Kuhn parece concordar com Michael Polanyi.
37
Qualquer gestor de recursos humanos se dá conta disto. Um trabalhador competente e produtivo com
largos anos de experiência adquire conhecimentos acerca do saber fazer que são tácitos. O problema para
o gestor é o de quando ele se reformar, quem irá desempenhar o seu trabalho da mesma forma, porque o
reformado não consegue transmitir o seu conhecimento tácito a quem o vai substituir. A minha vida
profissional de mais de 30 anos é, sem falsas modéstias, um exemplo: a instituição para que trabalhei até
Dezembro de 2010, antes de me dedicar exclusivamente ao ensino e à investigação, não tem, agora, quem

22
Introdução

conhecimento tácito usam os mesmos processos mentais. Geralmente, cientistas ou


especialistas que têm entre mão tarefas complexas ou a resolução de um problema
complexo intuem a forma por que devem desenvolver o seu trabalho porque estão a
trabalhar com base no conhecimento tácito, ou implícito, adquirido.

Michael Polanyi põe ênfase nas relações, ou interacções, do indivíduo com o mundo
físico e a natureza corporalizada dos nossos programas conceptuais, o que acaba por
corresponder a uma espécie de empirismo lógico que Popper ignorou. Por outro lado,
Polanyi ao dar a importância que dá ao conhecimento tácito ou implícito acaba por abrir
caminho para os sistemas computorizados de inteligência artificial, porque a sua
construção só pode ser feita co base no conhecimento pessoal do programador, e este é
tácito. Como se verá mais abaixo, a TSCA baseia a sua investigação em simulações que
tem por base os chamados modelos baseados em agentes, que não são outra coisa que
programas de inteligência artificial.

Construindo o seu pensamento sobre as ideias de Michael Polanyi , Theodore Brown


(Brown T. L., 2003, pp. 11-12) procura fazer diversas afirmações sobre a natureza e a
filosofia da ciência que acabam por coincidir com alguns dos meus próprios
pensamentos.

A natureza é compreendida pelos cientistas em termos de conceitos metafóricos


baseados em compreensões corporizadas de como a natureza funciona. Estas
compreensões resultam de interacções simples e amplamente percebidas com o mundo
físico. São tácitas e normalmente comuns a todos os seres humanos. Os cientistas
também obtêm a sua compreensão sobre os sistemas complexos da natureza com base
em estruturas conceptuais básicas adquiridas através de “gestalt 38” experimentais,
formas de organizar a experiência numa forma estruturada. Essas “totalidades
organizadas” são o que dão acesso à investigação sobre a natureza da intuição.

Os modelos e teorias que os cientistas usam para explicar as suas observações são
construções metafóricas. Para se compreender como funciona a ciência e para explicar o
seu sucesso, não temos necessidade da proposição tem um acesso imediato ao mundo

escreva como eu escrevo ou com a mesma postura numa reunião que eu tinha, além de outras
competências de carácter tácito. Sobre estas questões ver (Mokyr, 2002) entre outros.
38
No sentido de totalidades organizadas que são maiores que a soma das suas partes.

23
Introdução

“tal qual é”. Não temos razões para acreditar que existem verdades objectivas,
independentes da mente, á espera de serem descobertas. Pelo contrário, afirmações
acerca do mundo que encaramos como verdadeiras são o produto do raciocínio humano.

Ou seja, não recuso a teoria da falsificação de Popper, o que seria quase absurdo tendo
em conta que não sou um filósofo, apenas a considero difícil de aplicar. Acredito que ao
cientista é útil o empirismo ou indução em dose que baste, que acompanhe o raciocínio
dedutivo na nossa busca das verdades acerca do nosso mundo, que é uma realidade
complexa e não-linear.

Os Métodos em EPI

Vários autores fazem em (Reus-Smith & Snidal, 2010, pp. 425-538) um levantamento
desenvolvido dos métodos de investigação em Relações Internacionais. De um ponto de
vista mais prático, igualmente o fazem diversos outros autores em (Sprinz & Wolinsky-
Nahmias, 2004).

Seguindo a taxonomia dos métodos referidos por estes autores e os conselhos de (Bell,
2009), (Eco, 2009) e (Carvalho, 2009) vou utilizar nesta tese uma combinação de
métodos (cross-methods) de acordo com as especificidades dos subtemas tratados em
cada capítulo. (Sprinz & Wolinsky-Nahmias, 2004) Distinguem três metodologias
principaís: estudo de casos, métodos quantitativos e métodos formais. Mas, referem
(Sprinz & Wolinsky-Nahmias, 2004, pp. 5-7), igualmente, a análise descritiva. Por sua
vez em (Reus-Smith & Snidal, 2010) referido acima lista diversas aproximações ao
método em Relações Internacionais como a escolha racional/métodos formais, a
sociológica-evolucionista, as aproximações psicológicas (como o realismo ou o
construtivismo), o método quantitativo e o estudo de casos.

Perante este conjunto de métodos, e a quase oposição entre eles em termos dos seus
defensores, não me ficam dúvidas de que terei que utilizar um método misto.

Assim, no que respeita à origem do problema, porque é que Portugal se afastou da


Europa, utilizarei métodos comuns aos utilizados em Historia, descritivos e

24
Introdução

hermenêuticos, quanto à revisão da literatura o método será descritivo, enquanto no que


respeita à leitura dos factos ocorridos entre 1945 e 1985 a aproximação será a da
historiografia económica. A última parte do meu trabalho de investigação será tratada
quase como um estudo de caso recorrendo a métodos quantitativos, métodos formais e
análise descritiva.

1.2.2 AS FONTES

Fontes Primárias

Tendo o tema que escolhi como objecto a evolução da distribuição geográfica do


comércio externo português e a sua relação com a europeização, as fontes primárias do
meu trabalho de investigação são, claramente, as estatísticas e documentos relacionados
directamente com este objecto.

Assim, serão essas fontes as Estatísticas do Comércio Externo português, os Relatórios


e estatísticas do Banco de Portugal, do FMI, do Banco Mundial, do GATT, da
Organização Mundial de Comércio e da OCDE. Igualmente o serão a legislação e outros
documentos normativos pertinentes, como o Estatuto do Trabalho Nacional, as Leis do
Condicionamento Industrial, a Lei 3 de 1972 sobre os incentivos ao investimento, os
Planos de Fomento e os seus relatórios de execução, a Lei da Reconstituição Nacional,
os acordos de 1977 e 1983 com o FMI. Como o serão, também, o Tratado de Estocolmo
e os documentos produzidos pela EFTA quanto aos efeitos no comércio da criação desta
zona de comércio livre, os documentos pertinentes do Plano Marshall e da OECE e
OCDE, os estatutos do FMI e do Banco Mundial, o acordo de associação à CEE e a
própria carta das Nações Unidas.

Estas fontes terão incidência principalmente no dito estudo de caso, mas, também, no
estudo a realizar sobre Portugal e a Europa no pós-guerra.

A principal dificuldade encontrada na utilização destas fontes tem, precisamente, a ver


com as estatísticas do comércio externo. Existem estatísticas portuguesas sob forma
electrónica, especialmente as Séries Longas da Economia Portuguesa(BdP, Séries
longas para a economia portuguesa - pós II Guerra Mundial, 1997), as bases de dados da
OMC, da OCDE e do Banco Mundial, a recolha feita por (Mateus, Anexo estatístico a

25
Introdução

Economia Portuguesa, 2006), mas, nenhuma delas contém informação completa sobre o
comércio externo português por zonas geográficas de origem e destino dos fluxos do
comércio.

Tal obrigou-me a consultar as Estatísticas do Comércio Externo do INE, analisando,


tratando e retirando para suporte electrónico a informação necessária. Como é um
trabalho de investigação realizado pela primeira vez o resultado estará disponível em
formato electrónico logo que possível.

Fontes Secundárias

As restantes fontes são, obviamente, secundárias e são constituídas por livros, artigos
científicos e monografias relacionadas com a História de Portugal e da Europa, as
Teorias das Relações Internacionais, a Economia Política Internacional, os Sistemas
Complexos Adaptativos, as Teorias do Comércio Internacional e da Economia do
Desenvolvimento e são a base da revisão crítica de literatura que é destacada no
subcapítulo seguinte. Algumas destas fontes secundárias são, também, a base para a
realização da análise estatística, da apresentação de modelos formais, necessários a tirar
conclusões que permitiram responder à questão central desta tese citada no início desta
Introdução.

1.3 Uma Vista de Conjunto

Após a Introdução que termina com este subcapítulo, e em que procurei dar a conhecer,
principalmente, as razões para a escolha do tema da tese e dos factos em que elas
assentam e a questão a que tentarei responder na sua conclusão39, bem como as
metodologias que pretendo usar, o texto seguirá, em linhas gerais, o plano que seguir é
descrito.

39
Apesar de não ter conseguido limitar-me a fazer apenas isso e ter, por um lado questionando-me a mim
próprio acerca do que é a Europa e se o método científico proposto por Popper é o adequado
principalmente quando se trata da transmissão de conhecimento tácito.

26
Introdução

No Capitulo 2 - Portugal Fora da Europa, será feito um resumo, primeiro, das causas
geográficas, orológicas, linguísticas e políticas que terão contribuído como obstáculos à
expansão de Portugal para o resto da Península Ibérica40 e, daí, para uma maior
intervenção política e comercial na Europa.

Depois, seguindo um esquema cronológico41 serão expostas as razões históricas e as


opções políticas que contribuíram para a potencialização das causas acima referidas
desde o início da expansão marítima, pelo seu declínio, pelo ressurgimento com a
descoberta de recursos minerais preciosos no Brasil, a necessidade imposta pela
Conferência de Berlim de expandir territorialmente as possessões africanas, até às
opções autárcicas, nacionalistas, corporativistas e neo-mercantilistas do Estado Novo.

A escolha pela expansão ultramarina foi, e tal será referido, um "caminho de


dependência" tanto em termos de ciências sociais, de relações internacionais como de
economia, e conduziu a, pelo menos três episódios, de "dutch decease" e ao predomínio
do consumo conspícuo, que contribuíram para o significativo atraso de Portugal até à
última metade so século XX, o que será sublinhado.

No Capítulo 3 – Relações Internacionais e Economia, aborda-se a crescente importância


das dimensões económicas no desenvolver das relações entre nações. Esta abordagem
conduz à necessidade de fazer a revisão da literatura em termos de Economia Política
Internacional optando-se, como acima referido, pela distinção entre as escolas
americana e inglesa desta disciplina, ou mais precisamente, como será discutido, entre
as escolas da “International Organization” e da Economia Politica.

O facto de a racionalidade ser, na verdade, limitada, e o mundo que estudamos ser


constituído por fenómenos complexos e não lineares, levam-me, também, a introduzir
neste texto a Teoria dos Sistemas Complexos, com especial atenção às suas aplicações
em Economia, em Relações Internacionais e na confluência das duas, a Economia
Política Internacional.

40
Especialmente, no sentido do Sul da atual Espanha ainda, à data da conquista do Algarve, ocupada
pelos árabes no seu Reino de Granada.
41
Parcialmente cronológico e a partir do século quinze no sentido de que haverá questões que não têm
fronteiras temporais claras e se repetirão nos diversos subcapítulos.

27
Introdução

Ainda neste capítulo são revistas criticamente as razões e as vantagens da existência de


comércio internacional e analisada a literatura sobre as diversas teorias que
historicamente têm moldado o pensamento sobre essas razões e vantagens desde o
Mercantilismo até às novas teorias da Concorrência Monopolística e da Geografia
Económica.

No Capítulo 4 – A Europa e Portugal após a II Guerra Mundial, é feita uma apreciação


crítica das consequências e desenvolvimentos decorrentes do final da Segunda Guerra
Mundial e da recuperação económica europeia com ênfase na criação das instituições
multinacionais, no predomínio do liberalismo socialmente inserido, no aprofundamento
da integração economia, no período de acelerado crescimento ocorrido nos anos de
1970, no final dos acordos de Bretton Woods e nas consequências do choque petrolífero
de 1973. Será, igualmente, analisado, no que for pertinente ao tema, uma análise do
caso português e às suas especificidades, com referência aos Planos de Fomento, à
entrada na EFTA, ao crescimento dos anos de 1970, às consequências do 25 de Abril e
aos desequilíbrios dos finais dos anos de 1970 e início dos anos de 1980 com os acordos
com o FMI e o regresso à quase normalidade após esses acordos.

Será feita, ainda, uma análise do Comércio Mundial entre 1945 e 1985, e realizada uma
análise estatística e descritiva dos fluxos de comércio mundial no período.

No Capítulo 5 - O Comércio Externo Português de 45 a 85, é feita a análise estatística,


formal e económica da evolução do comércio externo português procurando estabelecer
além de estatísticas descritivas, correlações entre os mais usados indicadores de
Comércio Externo e os relativos ao Crescimento e Desenvolvimento da Economia
Portuguesa. Sem perder uma vista abrangente do período, este será dividido em três
fases: antes da entrada na EFTA, os anos de 1960 após essa entrada e até 1974, após
1974. Procura-se, ainda, começar a responder à questão central da tese usando as
conclusões do Capítulo anterior e as teorias da Economia Política Internacional.

Como é habitual em trabalhos deste género no Capítulo 6 - Conclusões e Sugestões de


Trabalho, é apresentada a conclusão da tese com a resposta à sua questão central com
uma súmula crítica das mesmas e, a partir delas, sugestões para investigação futura.

28
Introdução

Será, igualmente reforçada a defesa que Economia e Relações Internacionais são, hoje
em dia, disciplinas complementares e tiradas algumas ilações relativamente ao “corpus”
curricular desta última.

29
Portugal Fora da Europa.

2. PORTUGAL FORA DA EUROPA.

"O último Continente descoberto pelos Portugueses


foi a Europa" Anónimo

Procura-se, aqui, realizar uma breve42 análise das principaís razões que levaram
Portugal a acentuar, a partir do século XIV, a sua condição de país periférico na Europa
e que, derivadas desta circunstância, o levaram a optar pela expansão marítima e pelo
Império. Trata-se de caracterizar os contextos em que Portugal, durante cerca de 500
anos, sem nunca abandonar definitivamente a sua condição de país europeu, centrou as
suas relações políticas, culturais e principalmente comerciais noutros Continentes.

A dimensão deste capítulo vai ser, porventura, um pouco longa. A ponto de me poderem
perguntar se afinal estou a construir uma tese sobre a História do Império Português.
Mas, considero que a expansão ultramarina portuguesa, a sua longevidade, criaram nas
elites políticas e na população portuguesa um estado de espírito contrário à inserção
mais nítida de Portugal na Europa. Alguns factos e acontecimentos, mesmo podendo ser
julgados insignificantes43, contribuíram de forma decisiva para essa consciência
colectiva e para uma forma de pensar que Pessoa parece captar bem ao escrever " Eu
não evoluo, eu viajo".

2.1 Causas Geográficas e Linguísticas

42
Por desígnio inicial pretendia-a breve. Mas, a abundância de factos com incisiva incidência no
afastamento de Portugal relativamente à Europa, tornaram-na longa, porventura, mais longa do que
justifica o objectivo do trabalho. Procuro, mais, adiante, justificar esta dilatada, relativamente ao que
pretendia, digressão pela história da expansão portuguesa, esperando a indulgência de quem vai ler e
avaliar este trabalho.
43
Lembrando Lorenz, o bater de asas de uma borboleta nas Filipinas pode provocar um tufão nas
Caraíbas. Ou seja, pode-se perguntar se alguns acontecimentos, mesmo que parecendo fora do contexto
ou exagero de pormenor, a não terem ocorrido não poderiam ter conduzido Portugal por um outro
caminho.

30
Portugal Fora da Europa.

Se se fizer uma análise da posição geográfica, das características orográficas e das


raízes culturais e linguísticas de Portugal, pode-se começar a encontrar razões para a
opção de expansão ultramarina tomada no século XV.

Causas Físicas

Uma simples observação do mapa da Europa leva a concluir que, dado o estado da
tecnologia de transportes na altura, Portugal estava na Europa, mas não pertencia à
Europa(Opello, 1991, p. 156). A sua posição no extremo sudoeste fazia-o mais próximo
de África que da Europa Ocidental e Central se se exceptuar as outras nações da
Península Ibérica.

Uma análise do relevo44 demonstra que ele é concordante com a costa portuguesa
tornando difícil a realização de transacções comerciais com significado com o resto da
Europa por via terrestre. Especialmente as serras junto à actual fronteira com Espanha,
que a separam da Meseta Ibérica e dos caminhos comerciais possíveis daí para a Europa
eram um obstáculo de grande monta(Stanislawski, 1959, p. 212) afirma:

"[…] are the immediate old cultural differences between the


humid periphery of the peninsula and the meseta. These are
basically associated with the physical differences of the areas
involved. Thus all of the north and northwest is set apart from
the reminder of the peninsula."
Figura 2-1 – O Relevo e os rios da Península Ibérica

na página seguinte

44
Efectuada nos documentos apresentados pela Fundação Luso-Espanhola Rei Afonso Henriques para a
obtenção do seu reconhecimento pelos governos espanhol e português. Não possuindo estes documento
nem sabendo da sua localização estou a reproduzir estes argumentos de memória. Apesar desses
documentos não estarem disponíveis, foi possível encontrar fontes que vão no mesmo
sentido(Stanislawski, 1959).

31
Portugal Fora da Europa.

No entanto (Opello, 1991, p. 4) não concorda com o papel desempenhado pelas


condições físicas, apesar de concordar com Stanilaswsky a respeito de outras razões
para a individualidade de Portugal. Na página referida, Opello escreve:

"Its 35,516 square miles are not a geographically identifiable


portion of the Iberian Peninsula, and the frontier with Spain does
not, except here and there, follow any distinct geographical
feature such as river valley or mountain chain"

Sou levado, entretanto, a concordar com Stanilaswsky cujo estudo, pelas suas
características e objecto, é muito mais aprofundado que o de Opello nestes aspectos e
cujo objecto é diferente e até porque em (Opello, 1985, p. 17) este autor formula opinião
diferente relativamente à área do Condado Portucalense. Ainda, Stanilaswsky destaca
claramente o papel dos rios.

Os rios passíveis de serem navegados com a tecnologia então existente45 fluem de norte
para sul (ou de oeste para este no caso do Ebro que não passa em território português).
O Minho, o Douro e o Tejo, possíveis saídas para a Europa não eram, na época,
susceptíveis da regularização das margens e dos caudais necessária à sua navegação
para o interior da Península.

45
Argumento também referido nos documentos citados da Fundação Rei Afonso Henriques.

32
Portugal Fora da Europa.

Cultura e Língua

Por outro lado, alguns autores com posições muito contestadas(KREMER, 1996), mas
que parecem plausíveis, dão razões linguísticas para este isolamento (partilhadas com a
Galiza que, com obstáculos do relevo menos importantes, mas discordantes com a costa
atlântica, não tinha razões orográficas para o isolamento). A ocupação romana da
península foi um factor determinante de integração dos povos ibéricos. Além de uma
unidade de instrumentos administrativos, o latim passou a ser língua franca e acabou
por fazer desaparecer as línguas autóctones.

Com a queda do Império Romano, a Península Ibérica foi sucessivamente ocupada por
diversos povos germânicos. Apesar de oriundos da mesma zona geográfica do sul da
Suécia, da Dinamarca e do norte da Alemanha (Brittanica, 2009b), esses povos tinham
características culturais46, e provavelmente anatómicas, especialmente ao nível do
palato, distintas. Todos eles adoptaram o aparelho administrativo romano e a língua
latina. Mas, relativamente a esta última a pronúncia variava de povo para povo.
Figura 2-2– Povos de língua proto-germânica na Idade do Ferro.

46
Enquanto os Godos se tinham estabelecido na zona oriental da Alemanha, os Suevos tinham ocupado
zonas ocidentais próximas da actual Suábia (Schwaben no extremo sudoeste da Baviera). Autores
recentes não consideram que a Suábia alemã tenha, ainda, algum ponto de contacto genético com os
Suevos, além do nome, apesar de outros autores, especialmente Baigent, muito dado ao esotérico e à
especulação como o caso do Santo Graal e Maria Madalena, afirmarem o contrário ao ponto de
escreverem que o Conde Klaus Von Stauffenberg (que tentou assassinar Hitler) e era da Suábia, retirou a
sua determinação do facto de pertencer à nobreza da Suábia e a uma rede de ligações anti-nazis ali criada,
herdeiras da tradições suevas.

33
Portugal Fora da Europa.

Ora, a zona entre a Baía da Biscaia e o Mondego47 esteve ocupada durante mais de 170
anos pelos Suevos. Esse período de tempo foi suficiente, segundo alguns autores, para,
até a absorção do Reino Suevo pelos Visigodos, lançar as bases de uma língua diferente
que começou a distinguir-se do latim e do castelhano entre os séculos IX e X48(Aqui
Fala-se Português, 2006). Com uma língua diferente – o galaico-portucalense e mais
tarde o português – das restantes línguas da Península começou a tomar forma uma
cultura também distinta que reforça os obstáculos do relevo e hidrográficos.

Figura 2-3 – O Reino dos Suevos na sua extensão máxima.

Efectivamente, a análise fonética do latim vulgar primeiro, e do galaico-portucalense,


depois, mostram uma diferenciação clara na forma de pronunciar os vocábulos do
primeiro relativamente ao resto da península (Opello, 1985, p. 17). Para não alongar
esta apreciação, basta recordar o desaparecimento da consoante f no início das palavras
no castelhano e a sua manutenção no português(Riiho, 1994, p. Ponto 1.2). Alguma

47
E durante algum tempo o Tejo.
48
Se se considerar que uma linguagem integra diversas características, entre outras um léxico próprio,
uma sintaxe, uma semântica e uma fonética, a contribuição dos suevos fez-se neste último elemento, a sua
contribuição para o léxico foi praticamente insignificante, como se pode verificar pelo reduzido número
de palavras de raiz germânica existentes no vocabulário do português, sendo muitas delas relativas à
toponímia (Guimarães e Bouro, entre outras) ou à onomástica (Afonso ou Rodrigo, por exemplo). No
entanto, o número de vocábulos de origem germânica é muito maior no noroeste da Península do que em
qualquer outra região da mesma.

34
Portugal Fora da Europa.

coisa levou a esta e outras diferenças fonéticas e morfológicas, e a presença dos suevos
parece ser a melhor explicação.

2.2 Causas Históricas, Politicas e Económicas.

Antes de, conforme o referido acima, passar a analisar as razões mais próximas da
escolha pelo Ultramar, parece-me útil referir alguns factos mais distantes que
contribuíram para a individualidade, independência e isolamento de Portugal e que não
decorrem das causas expostas no subcapítulo anterior.

A Individualidade de Portugal

Segundo (Stanislawski, 1959, pp. 212-213) a fronteira internacional actual de Portugal,


na maior parte da sua extensão, atravessa zonas de desinteresse, impostas pelas
condições físicas, tendo Afonso I das Astúrias criado uma zona dita de terras "desertas"
para servir de tampão entre os reinos cristãos e os domínios mouros, o que contribui
para o isolamento da região onde nasceu Portugal. Além disso, no período antes e
durante o governo de Afonso Henriques, os reinos da meseta passaram por um época de
conflitos acentuando o pouco interesse desses reinos pelas terras chamadas
portucalenses.

Tal explicará que o governo do condado tenha sido entregue a Vimara Peres em 868,
tendo continuado nas mãos dos seus descendentes, entre eles Mumadona Dias e seu
marido Hermenegildo Guterres, sem grande interferência dos reis suseranos e com
amplos poderes (Sousa B. V., 2010, pp. 18-19) (Opello, 1985, p. 17) até 107149.

A invasão muçulmana da Península, como ponte da invasão da Europa, parada por


Carlos Martel em Poitiers, empurrou a classe dirigente visigoda sobrevivente para as
montanhas da Astúrias donde, tendo já antes adoptado a religião cristã de rito romano,
lançaram uma cruzada de reconquista que trouxe à Península muitos cavaleiros nobres
de diversos Estados europeus. Entre eles estava o irmão do Duque da Borgonha e neto
de Roberto o Piedoso, rei de França, Henrique. Casado, como reconhecimento, com

49
O último conde, Nuno Mendes, chegou mesmo a revoltar-se contra o Rei Garcia de Leão, sendo
derrotado por este em Pedroso, Braga, neste último ano e afastado do governo do condado(Sousa B. V.,
2010, p. 19). No entanto, o desinteresse por Portugal manteve-se e o seu governo passou a ser assegurado
pelo estrato intermédio da nobreza, os infanções(Mattoso J. , 1995, p. 105), génese da classe dos "barões"
e próceres que, mais tarde, apoiariam Henrique de Borgonha e seu filho Afonso Henriques.

35
Portugal Fora da Europa.

uma filha natural do rei de Leão, foi-lhe entregue o governo do território entre Minho e
Mondego, conhecido como Condado Portucalense. Aí, aliado aos próceres locais,
50
começou a procurar lançar as bases de um Estado independente (Stanislawski, 1959,
pp. 165-168) (Opello, 1991, pp. 37-39)(Opello, 1985, p. 17), sem nunca descurar o
dever de vassalagem ao sogro pelo menos até 1109. Essa ambição acabou por ser
alcançada pelo seu filho, Afonso Henriques51. A identidade de Portugal como Nação
passou a ter, também, razões políticas e hegemónicas e a afastá-la ainda mais do resto
da Península.

Efectivamente, com este passo, as rivalidades entre as Nações ibéricas aumentaram e


isolaram ainda mais Portugal da Europa.

2.2.1 O RECTÂNGULO ESPARTILHADO E A EXPANSÃO PARA O MAR

Portugal optou muito cedo pela busca da supremacia da expansão marítima como forma
de afirmação nacional e de obtenção de riqueza. Esta opção teve várias consequências.

Primeiro, afastou Portugal da Europa. Depois, o afluxo de riquezas provenientes do


além-mar levou ao abandono da produção, tanto manufactureira como agrícola –
Portugal passou a ser um país de comerciantes. Ainda, afastou o País, com algumas
excepções, da participação na vida política da Europa. Durante o século XX, o Estado
Novo, com a sua opção pela quase autarcia52 e pela defesa do Império, ainda isolou
mais Portugal da Europa.

As caravelas partiram e não se quis que regressassem.

Marrocos e África Ocidental

Após três séculos de reconquista e de lutas com os Estados vizinhos de Leão e Castela,
Portugal viu atingido o seu limite natural a sul no mar do Algarve e, após a Batalha de

50
Que fizesse jus aos seus pergaminhos como membro de uma das mais importantes famílias europeias,
descendente do mesmo Carlos Martel.
51
Note-se a onomástica germânica, Afonso e Henrique.
52
Com razões economicamente defensáveis no início dados os graves desequilíbrios externos dos anos de
1920.

36
Portugal Fora da Europa.

Aljubarrota, assegurou em definitivo a sua independência face a Castela iniciando um


período de moderação das tensões políticas com os seus vizinhos ibéricos.

No entanto, neste final de idade média53, por um lado, assistiu-se a uma explosão do
“romance”54 corporizado nas várias versões da gesta arturiana ou na Canção de
Rolando, que mantinha vivos os ideais da cavalaria e, por outro lado, a classe nobre
partidária do vitorioso D. João I necessitava de acções militares em que mostrasse o seu
valor e justificasse os favores do rei. A isto haverá que juntar a ambição de acumular
riquezas que sustentassem o fausto da corte e dos seus clientes.

Além das Repúblicas Italianas55, a Europa era abastecida de bens do Médio Oriente
pelas caravanas que, atravessando o Norte de África, traziam até Marrocos as sedas e as
especiarias e, vindas da zona da Guiné, traziam ouro em pó.

Porque não dar escape às aspirações militares e, ao mesmo tempo, obter uma fonte de
abastecimento das riquezas tão procuradas e desejadas, através da conquista de um dos
pontos de destino dessas caravanas em Marrocos? O historiador, e teórico financeiro,
William Bernstein56 escreve (Bernstein, 2009, p. 157):

"Portugal found itself in unaccustomed and uncomfortable state


of peace, and so in 1415 the royal couple sent three of their
progeny to seize the Moorish port city of Ceuta, just across the
Strait of Gibraltar. Philippa herself planned this assault as a
preliminary to loosening the Muslim´s hold on the Indian Ocean
– a beachhead to anchor the western end of a Portuguese
caravan route heading eastward across the Sahara to the Indies.
That Ceuta was also at the receiving end of caravans bearing
slaves and gold from the African hinterland was considered a

53
Há Autores que consideram a conquista de Ceuta como um dos factos marcantes que indica o fim deste
período da História.
54
O movimento romântico iniciado no século XVIII e que atingiu o seu auge no século XIX não deixa,
em parte, de ser um renovar das características do romance medieval.
55
Especialmente Veneza e Génova. O declínio de Génova acabou por beneficiar Portugal, muitos
marinheiros, cartógrafos e outros especialistas genoveses passaram a Portugal.
56
Que por acaso tem formação como biólogo e médico neurologista, profissão que exerce a par da sua
investigação na área do investimento financeiro.

37
Portugal Fora da Europa.

bonus. Better yet, capturing it struck a blow against the hated


Moor."

Além disso, a igreja procurava novos campos de evangelização, agora que a reconquista
do território português estava completa e o que restava da ocupação árabe era um
problema de Castela que esta estava apostada em o resolver sozinha57.

Como escreveu Mattoso após o tratado de Segóvia de 1411 que pôs fim às disputas com
Castela, D. João I ficava senhor incontestado de um Portugal devolvido às suas
fronteiras de 1297 e pôde, assim, voltar o pensamento para a expansão do território que
só poderia ser feita para o ultramar(Mattoso J. e., 1993, p. 499). São inúmeras as
referências bibliográficas em que se sustenta a ideia de que a ambição expansionista58
de Portugal, dados os condicionalismos geográficos referidos e o tampão formado pelos
restantes reinos ibéricos, especialmente Castela, apenas podia ser satisfeita no Ultramar.

57
Fazer de outro modo significaria, provavelmente, o aparecimento de pretensões territoriais sobre os
territórios reconquistados. Escreveu João de Barros:
“E passados os primeiros anos de infância dele, que foi todo o tempo que
esteve no berço em que nasceu, limitado na costa do oceano (porque o mais
do sertão da terra ficou na coroa de Castela e a ele não coube mais em sorte
nesta Europa), todo o trabalho daqueles príncipes que então o governavam
foi limpar a casa desta infiel gente dos Árabes que lha tinham ocupada desde
o tempo da perdição da Espanha, até totalmente, a poder de ferro os
lançarem além-mar, com que se intitularam reis de Portugal e do Algarve.
E assim estava limpa deles no tempo del rei D. João I, que desejando ele
derramar o seu sangue na guerra dos infiéis, por haver a bênção dos seus
avós, esteve determinado de fazer guerra aos mouros do reino de Granada·.
E por alguns inconvenientes de Castela e por maior glória sua, passou além-
mar em as partes de África, onde tomou aquela metrópole Ceuta, cidade tão
cruel competidora de Hespanha como Cartago foi de Itália Da qual cidade
logo se intitulou por senhor, como quem tomava posse daquela parte de
África e deixava a porta aberta a seus filhos e netos para irem mais avante.
O que eles muito bem cumpriram (...) ” (BARROS, 1998, p. 9 e 10 vol I)

Além disso interferir isoladamente na reconquista do reino de Granada, acabava por ser uma violação do
Tratado de Alcanizes que definiu em definitivo em 1297 – depois dele só se deram ajustamentos de
pormenor - as fronteiras de Portugal. Ainda que, mais tarde, a Espanha, não tenha tido idênticos
escrúpulos e tenha feito tábua rasa desse tratado em relação a Olivença (expressamente nele referida).
58
Alimentada, também, pela ambição pessoal do Infante D. Henrique, ambição de guerra assente na
exacerbada noção da valia do derramar o sangue em acções de guerra dada pela leitura dos romances de
cavalaria, ambição religiosa alicerçada no seu carácter extremamente piedoso ainda que seja conhecido
que não estava isento dos pecados da carne a ponto do irmão D. Duarte o repreender, ambição de riqueza
que possivelmente o levaram a usar a pirataria e a introduzir a prática do comércio negreiro.

38
Portugal Fora da Europa.

O primeiro passo desta expansão foi, como se viu, para África, para Marrocos, com a
conquista de Ceuta em 1415. As razões aduzidas mais acima não são totalmente
rigorosas, mas que existiu uma confluência de razões – económicas, religiosas,
políticas, sociais e históricas – há a certeza (Mattoso J. e., 1993, p. 499). A expansão
marítima portuguesa foi sempre envolta em misterioso segredo e como se pode ler em
Luís de Albuquerque(Albuquerque, 1985, p. 1 a 18) as razões dadas pelos autores e
cronistas coevos não são coincidentes e são, muitas vezes confusas59.

Parece não haver, entretanto, dúvidas de que o infante D. Henrique - provavelmente


dadas as suas fortes ambições referidas – teve um papel primordial, em conjunto com a
mãe, em convencer o pai a realizar esta expedição a Ceuta. E se acreditarmos em
Bernstein foi coisa planeada com premeditação, com vista ao futuro domínio do
comércio das especiarias.

Parece que a conquista de Ceuta foi um quase desastre do ponto de vista económico e
estratégico, passou a ser um sugadouro de gentes e dinheiro, mas constitui-se como um
baluarte de prestígio para o regime e credencial portuguesa em Roma (Mattoso J. e.,
1993, p. 499).

A partir daí, o Atlântico60 foi sendo percorrido pelas caravelas portuguesas, para oeste e
para sul. A Madeira61 em 1419-1421, os Açores em 1427-1432 e a costa de África até
ao cabo Bojador em 1422-1433. Estes destinos que seriam depois épicos eram,

59
Não se pode esquecer, entretanto e como dito de passagem acima, que a conquista árabe do Norte de
África e de boa parte da sua costa Oriental, tinham esvaziado de parte da sua importância as históricas
Rotas da Seda e das Especiarias, desviando comércio para as caravanas que tinham como destino
Marrocos. Por outro lado, as cidades marroquinas eram o destino das caravanas que, saídas da zona de
Timbuktu, traziam o ouro em pó da zona da Guiné.
60
Segundo Albuquerque(Albuquerque, Os Descobrimentos Portugueses, 1985, p. op. e pg. citadas), já
antes Portugal se tinha aventurado no Oceano. Parece, mesmo, que a existência da Madeira seria
conhecida muito antes da descoberta oficial.
61
A Madeira terá sido a primeira descoberta a trazer benesses económicas a Portugal. O monopólio do
açúcar estava, até então, nas mãos das Repúblicas Italianas, principalmente a partir das suas plantações
em Chipre. O infante D. Henrique terá adquirido na Sardenha pés de cana do açúcar que mandou plantar
na Madeira, quebrando aquele monopólio e atraindo investidores e mercadores desde judeus da Flandres a
Ingleses e Escoceses. Numa nota que não é de todo científica, apesar da pessoa em causa ser conhecida
pelo rigor da sua investigação, a autora de ficção histórica escocesa Dorothy Dunnett na sua série de seis
novelas “The House of Nicolò” refere-se extensamente a este facto. Aliás, provavelmente na linha de
Michael Polanyi e do seu conhecimento tácito ou pessoal, é minha experiência que novelas de ficção
histórica convenientemente investigadas são uma das melhores formas de aprender história. Além de
Dunnett, que noutro seu livro "King Hereafter" destrói completamente o sombrio mito de Macbeth
construído por Shakespeare, recordo a série de novelas históricas de Colleen McCullough, em que traça a
história de Roma desde Caio Mário a Octávio com o maior pormenor.

39
Portugal Fora da Europa.

entretanto, percorridos por aventureiros favorecidos da sorte, induzidos por um homem


inexplicado e misterioso, o infante D. Henrique, segundo Mattoso “Navegador62” de
terra firme(Mattoso J. e., 1993, p. 499). 63

Apesar da controvérsia64 que rodeia a figura do infante D. Henrique devida, em boa


parte, ao seu protegido Gomes Eanes de Zurara que encheu de encómios o seu protector
na sua obra “Crónica da Descoberta e Conquista da Guiné” não se pode negar sua
importância no início e continuação da expansão marítima de Portugal(Fernandez-
Armesto, 2006, pp. 129-138) e da construção do Império.

Segundo (MacGillivray, 2006, p. 7) a resposta está no que ele designa de “desígnios


globais”65. É esta intenção global que (MacGillivray, 2006, p. 19) atribui a Portugal e
Castela durante os séculos XV e XVI, período que ele considera a primeira contracção
do globo na década de 1490 a 1500: “em que o globo ficou finalmente conhecido,
graças à inovação técnica, à ambição comercial e à intenção estratégica”. Aqui este
Autor distingue os propósitos globais das nações ibéricas dizendo que Portugal foi o
inovador e Espanha a superpotência. Neste sentido, pode-se aceitar a designação de
Portugal como pioneiro da globalização66 dada por (Nascimento Rodrigues, 2007) no
título da sua obra.

62
O cognome Navegador apenas lhe foi dado no século XIX por autores ingleses e aproveitado em
Portugal para exaltação dos feitos pátrios. Até aí o infante era praticamente um desconhecido fora de
Portugal. A obra que lhe deu notoriedade internacional foi publicada em Londres, em 1868, por Richard
Major com o título “The Life of Prince Henry the Navigator” e foi um surpreendente “bestseller”(Page,
2002, p. 92)
63
Navegador de terra firme ou não, o Infante D. Henrique foi, apesar de tudo, um inovador. Teve a visão,
e a riqueza da Ordem de Cristo, para reunir em Portugal os homens que tornaram possível a expansão
marítima: construtores de navios, cartógrafos, astrónomos e outros especialistas, Foram eles que
“inventaram” a caravela, que desenharam os mapas e os “portulanos” (antigas carta náuticas costeiras
europeias, datadas do século XIII ou posterior), que desenharam e construíram os instrumentos de
navegação.
64
Alguns afirmam que, antes de, em 1420, assumir o governo da Ordem de Cristo sobreviveu com os
frutos da pirataria e do comércio.
65
Global intent. “Reservar o termo globalização para intervenientes e acontecimentos que deliberada e
conscientemente abrangeram o globo ajuda a dar à palavra verdadeiro significado”
66
Segundo o ponto de vista do Autor desta tese, pelos argumentos anteriores, esta acção pioneira deve ser
entendida, não como iniciadora do processo de globalização, mas como primeira pedra das bases das
diversas fases de globalização posteriores, nomeadamente da mais recente.

40
Portugal Fora da Europa.

A discussão dos desígnios globais de Portugal leva a que se regresse à análise da acção
do infante D. Henrique para, depois, procurar destacar o papel do segundo,
cronologicamente, e talvez mais importante impulsionador das descobertas, D. João II·.

Apesar de ter sido responsável apenas por um terço das viagens de exploração atlântica
realizadas durante a sua vida(Page, 2002, p. 93) (1394 – 1460)67 o infante D. Henrique
teve um papel determinante na expansão e na história moderna. No entanto, (Fernandez-
Armesto, 2006, p. 130) retrata-o como um “nouvel arrivé” o terceiro filho empobrecido
de um rei empobrecido com aspirações reais e desejos de riqueza68.

Ainda, o mesmo Autor (Fernandez-Armesto, 2006, p. 132) citando Diogo de Góis69


refere que a exploração da costa africana teve por motivação a procura de riquezas,
nomeadamente do ouro da Guiné, que não podia ser apropriado por terra.

Sejam quais tenham sido as motivações do infante o que é verdade que o levaram a
realizar uma série de actos que conduziram a início daquilo a que MacGillivray chama a
primeira contracção do mundo, acabando por ter a essa “intenção global” que o mesmo
autor refere.

Ao que parece (Fernandez-Armesto, 2006, p. 134) após a conquista de Ceuta, o


interesse do infante virou-se para as Canárias até cerca de 1454, com o objectivo de usar
estas ilhas para dominar a rota do ouro da Guiné. Falhada esta conquista, foram
incrementadas as explorações ao longo da costa africana com o mesmo objectivo.
Apesar da visão menos elogiosa deste prestigiado historiador, a navegação ao longo da
costa de África, e, principalmente, as expedições em mar aberto como a de Diogo de
Silves em 1227 aos Açores ou suas proximidades(Fernandez-Armesto, 2006, p. 134)
exigiam conhecimentos e instrumentos de navegação que antes não estavam
disponíveis.
Figura 2-4 – A Costa da Guiné

67
Ou seja, dois terços das viagens foram da expressa responsabilidade do rei, especialmente D. Afonso V.
68
Desejos de riqueza inviamente realizados com a pirataria e o monopólio do sabão e, depois, com a
administração da Ordem de Cristo. Fernandez-Armesto citando Zurara (Fernandez-Armesto, 2006, p.
131), afirma ainda que o infante se julgava destinado a grandes feitos por acreditar totalmente no seu
horóscopo com Marte e Saturno como influências dominantes.
69
Monumenta Henricina, ii, 235-237, edição das comemorações do V Centenário da Morte do Infante D-
Henrique, Coimbra

41
Portugal Fora da Europa.

Se Sagres tem pouco a ver com uma possível “escola”70, houve um qualquer local onde
se situava a casa do infante, governador do Algarve desde 1420, a sua corte ducal onde
foram reunidos, pelo infante ou contratados pelo próprio rei, especialistas nas diversas
“ciências71” necessárias à navegação e à exploração72.

O que parece evidente é que não seria possível realizar as intenções do infante73, e dos
seus sucessores na empresa marítima, sem que tenha havido, a partir de algum momento
após a conquista de Ceuta, avanços significativos naquelas “ciências”.

A inovação mais famosa saída deste “think-tank” - que incluiria marinheiros bascos,
catalões e maiorquinos, cartógrafos e astrónomos genoveses e judeus e outros
especialistas – foi a caravela. A conquista de Ceuta tinha sido feita com galés, movidas
à força de braços usando o vento apenas quando este era favorável, a caravela
possivelmente inspirada nos dhows do Mar Arábico e da costa Africana do

70
A “escola” de Sagres parece ter sido mais uma criação de Richard Major no livro referido “The Life of
Prince Henry the Navigator”;existia ali um pequeno forte destruído por Francis Drake nos finais do
século XVI, mas o infante morava perto de Lagos e o local onde foram realizadas as inovações,
especialmente a caravela, parece ter sido Castro Marim(Page, 2002, pp. 98-99). Sagres acaba por ser
agora uma metáfora, uma designação que abrange um movimento de investigação e desenvolvimento
provavelmente espalhado por várias localidades do Algarve.
71
No sentido, obviamente, de “conhecimentos”.
72
(Fernandez-Armesto, 2006) ignora e até ridiculariza a hipótese de Sagres quando afirma a páginas 130
da obra citada:
“O seu castelo em Sagres normalmente confundido como uma espécie de
salão de sábios, seria mais próximo (…) do Thornton Manor de William
Lever, fundador da Unilever”.
E apesar da ironia exagerada e relacionada com o monopólio do sabão, terá razão, pelo menos, em termos
de local.
73
E da Ordem de Cristo

42
Portugal Fora da Europa.

Mediterrâneo74, barcos de vela triangular, juntaram a esta a possibilidade de instalar


uma ou duas velas quadradas75, possibilitando a navegação com ventos contrários76,
reduzindo a tonelagem para cerca de cinquenta toneladas e a tripulação de oitenta para
cerca de vinte homens com uma velocidade próxima dos dez nós(Page, 2002, p.
99)(Nascimento Rodrigues, 2007, p. 106 e 107)77.

A segunda grande inovação foi o aperfeiçoamento do quadrante e do astrolábio que


possibilitavam a leitura da altura dos astros em qualquer momento do ano (por conterem
a informação astrológica necessária) possibilitando a determinação da latitude78. Tanto
o quadrante como o astrolábio já existiam, mas eram utilizados principalmente em terra
e não permitiam determinações com a mesma exactidão que os introduzidos pelos
portugueses(Nascimento Rodrigues, 2007, p. 105)(Page, 2002, p. 100). Foram, também,
aperfeiçoadas a balestilha e a esfera armilar.

A construção e utilização destes aparelhos exigiam conhecimentos matemáticos


avançados para a época, muito provavelmente apropriados aos árabes pelos diversos
“espiões” que o infante e a Ordem de Cristo79 enviavam regularmente às costas do
Mediterrâneo.

A terceira área em que se manifestou o espírito inovador da empresa marítima foi a da


cartografia. Neste aspecto o infante e a Ordem de Cristo, e o próprio rei D. Afonso V·,
recorreram principalmente a especialistas italianos, nomeadamente genoveses.

74
Hipótese posta em dúvida por Fernandez-Armesto (Fernandez-Armesto, 2006, p. 143). Segundo ele, e
parece ser provável, a vela latina já há muito era usada em Portugal, nomeadamente pelos pescadores do
Algarve.
75
No caso da caravela dita redonda ou de armada, com cerca do quádruplo da tonelagem da
original(Nascimento Rodrigues, 2007, p. 107).
76
A chamada navegação á bolina, termo introduzido pelos portugueses.
77
A caravela foi evoluindo ao longo do século XV e cerca de 80 anos depois do seu aparecimento foi
substituída definitivamente pelas naus e galeões, também de desenvolvimento português, a par da
introdução da artilharia naval. No entanto, a caravela é o símbolo por excelência da expansão marítima
portuguesa e por isso foi escolhida, numa primeira fase, para fazer parte do título desta tese.
78
Uma das grandes vantagens dos portugueses relativamente às restantes possíveis potências marítimas
da Europa. Determinar a longitude, e assim conseguir obter a posição exacta em qualquer ponto do globo,
apenas foi possível depois do século XVIII com a invenção do moderno cronómetro.
79
Munida agora de bulas papaís que lhe dava o monopólio da navegação na costa africana e da respectiva
evangelização (obviamente um pretexto para obter as dita bulas). As bulas foram Romanus Pontifex de 8
de Janeiro de 1455 e a Inter Cetera de 13 de Março de 1456. O papa pela bula Romanus Pontifex,
concede os territórios africanos, conquistados ou descobertos, aos portugueses e proíbe que alguém entre
neles sem a autorização portuguesa. Todavia, o rei português teria que garantir o governo espiritual das
novas terras.(Vários, Missionação - Localização Geográfica, 2009e)

43
Portugal Fora da Europa.

Terá sido, aliás, D. Afonso V quem encomendou ao veneziano Fra Mauro em 1459 o
primeiro planisfério para o seu tio infante D. Henrique. Note-se o facto significativo
deste mapa representar já o Cabo da Boa Esperança 27 anos antes da viagem de
Bartolomeu Dias.

Os cartógrafos contratados pelo infante dedicaram-se, especialmente, à produção de


portulanos, mapas essencialmente costeiros que permitiam a navegação junto à costa.
Os portulanos eram autênticos segredos de estado, avidamente guardados pelos seus
utilizadores portugueses e cobiçados pelos marinheiros de outros países que os
consideravam o principal tesouro quando procuravam capturar caravelas portuguesas.

Outro cartógrafo ao serviço de Portugal e que poderá ter acompanhado Diogo Cão nas
suas expedições foi Martin Behaim·, um alemão de Nuremberga, que esteve ao serviço
de D. João II e que foi o construtor do primeiro globo terrestre80 em 1492, onde não
figurava ainda a América.

Este papel de Portugal como decisivo no aumento do conhecimento necessário à


navegação é, também, referido por Angus Maddison (Maddison, 2007, p. 82 e 83) que
além dos instrumentos já supracitados salienta o fabrico do primeiro astrolábio em
metal por Abraão Zacuto e o papel decisivo do “Regimento do Astrolábio e do
Quadrante” nas navegações.

Para lá da Boa Esperança

Se o infante D. Henrique, apesar de todo o mistério que o rodeia e falhas que lhe são
apontadas, foi o iniciador da expansão marítima, o sistematizador81 foi D. João II·, que
passou a ser responsável pela empresa das descobertas a partir de 1472 ainda em vida
do pai. Antes essa função foi exercida pelo infante D. Fernando, 2º Duque de Viseu e
Grão-Mestre da Ordem de Cristo, irmão de D. Afonso V e herdeiro do infante D,

80
Martin Behaim residia no Faial, Açores, e construiu o globo durante uma visita à sua cidade natal.
81
No sentido de um dos vários significados de sistema:
Um grupo de elementos que interagem regularmente ou formam um grupo
interdependente que constituem um todo unificado (Merriam-Webster:
system 1).
Noutra vertente científica, a noção de sistema será abordada mais adiante relativamente à Teoria dos
Sistemas Complexos, à emergência de comportamentos colectivos, às aproximações holísticas, e às novas
teorias económicas do crescimento e do comércio externo.

44
Portugal Fora da Europa.

Henrique. O infante D. Fernando82, pouco predisposto as esta actividade, ao que parece,


deixou o irmão vender a concessão das descobertas a um comerciante de Lisboa, Fernão
Gomes, por um estipêndio anual inferior ao lucro de uma viagem(Page, 2002, p. 106).

Uma das primeiras medidas do ainda príncipe D. João foi, precisamente a de resgatar
essa concessão. A administração da Ordem de Cristo continuou na Casa de Viseu e
Beja83, mas, mesmo sob D. João II, continuou a ser o instrumento jurídico responsável
pelas explorações, verosimilmente para manter o direito ao princípio do mare clausum
da navegação no Atlântico concedido pelas bulas papaís acima referidas e depois
reforçado pelos tratados de Alcáçovas (1479), Tordesilhas (1494) e mais tarde o de
Saragoça84.(MacGillivray, 2006)(Nascimento Rodrigues, 2007)(Page, 2002)85.

No entanto, os tratados deram origem a uma revolução no pensamento em relações


internacionais que lançou as bases dos sistemas hegemónicos, primeiro das potências
europeias e, mais recentemente, dos Estados Unidos, servindo de pretexto para
defenderem o seu direito de regularem o Mundo(Newitt, 2009, p. 81)

A acção de D. João II foi claramente planeada, premeditada e executada com rigorosa


exactidão. Resultou na criação de um sistema que assegurou o domínio da navegação e
do comércio mundial por parte de Portugal durante cerca de 100 anos. Para o fazer teve
que, declaradamente, ter uma determinação e a intenção global de que fala MacGillivray
na obra já citada. Tudo foi montado com precisão maquiavélica86, ao ínfimo pormenor,
desde a obtenção dos conhecimentos científicos necessários, com a criação da “Junta
dos Cosmógrafos”87 e da sua aplicação prática88, à obtenção de informações sobre os

82
O infante D. Fernando foi o pai do futuro rei D. Manuel II e do irmão, D. Diogo, apunhalado por D.
João II por suspeita de conspiração. Era, igualmente o pai da mulher de D. João II, a rainha D. Leonor.
83
Em D. Diogo e depois da sua execução por D. João II, no Duque de Beja, seu irmão, e futuro rei D.
Manuel II.
84
Relativo à posse da navegação e comércio no extremo-oriente.
85
Estes tratados deram força à doutrina do Mare Clausum, inovação em termos do conceito de soberania,
uma vez passou a ser aceite que os mares e oceanos eram territórios onde se podia exercer o poder com
exclusão de outros. É evidente que, com excepção dos signatários destes tratados e do papado, não foram
aceites pelos restantes países europeus com ambições de expansão, tendo, inclusivamente, os Holandeses
introduzido, em resposta, a doutrina do Mare Liberum
86
Num sentido diferente do que é dado à palavra hoje em dia. Se se ler com atenção “O Príncipe” de
Nicolau Maquiavel(Maquiavel, s.d.), constata-se que esse tratado de política não é uma receita para a
decepção venal nem para o governo cruel e mantido a todo o custo que deu origem à palavra acima. É um
tratado de política que aconselha o governante a antecipar e planear a sua acção dentro de limites morais e
éticos. Sessenta anos antes de Maquiavel o ter escrito já D. João II o praticava.
87
A verdadeira “Escola de Sagres”.

45
Portugal Fora da Europa.

locais para que era planeada cada acção, até ao secretismo da empresa. E de uma nova
política interna. Acerca do papel de D. João II ver(Adão da Fonseca, 2007)(Page, 2002,
pp. 107-124).

Para além das qualidades de governante de D. João II, e devido a elas, a sustentação de
todo o sistema acabou por assentar na criação de uma nova classe de conselheiros e de
burocratas, apoiada no mérito, na competência, e no conhecimento, e não no tradicional
sangue da aristocracia de ascendência visigoda ou borgonhesa. Um modelo de governo
completamente inovador para a época e que, bem ou mal dependendo do chefe do
aparelho, acompanhou Portugal até aos dias de hoje. Com D. João II estamos perante
um rei com poucos paralelos na História do Mundo89.

Se o infante D. Henrique deu ordem de partida às caravelas, D. João II assegurou que


elas cumprissem a sua missão e, com isso, acabou por, sem intenção premeditada,
ajudar que o seu regresso demorasse cinco séculos. No processo acabou com a
centralidade do Mediterrâneo, reduziu o peso do monopólio das Repúblicas Italianas, e
tornou Portugal o mais rico país da Europa.

Onde foi D. João II obter o dinheiro necessário para esta enorme empreitada? Ao ouro
da Guiné90 negociado com as tribos de África e explorado nas areias aluviais de Acra,
conhecida em Portugal como S. Jorge da Mina. Com o ouro foram financiadas as
viagens de Bartolomeu Dias e, depois da morte de D. João II, de Vasco da Gama que
abriram o acesso às especiarias que garantiram o enriquecimento de Portugal(Page,
2002, pp. 113, 114).

Por outro lado, (Nascimento Rodrigues, 2007, p. 65) afirmam que:

"[…] no regresso da sua segunda viagem, Vasco da Gama, com


13 navios, voltava com 170091 toneladas de especiarias – tanto

88
O que hoje se chama Investigação e Desenvolvimento.
89
Que justifica inteiramente a afirmação atribuída a sua prima Isabel a Católica aquando da sua morte,
dita com algum alívio mas com admiração: “Morreu o Homem!”
90
Mais precisamente da região do actual Gana, em Elmira.
91
Ver, também, (Maddison, 2001, p. 63) que afirma que as margens obtidas por este comércio por parte
dos portugueses eram muito maiores que as obtidas por Veneza.

46
Portugal Fora da Europa.

quanto toda a importação anual que Veneza fazia naquela


época!”.

Mais, afirmam que o principal eixo comercial das especiarias deixou de passar em
Veneza, para mudar para Lisboa-Antuérpia. Estas afirmações são claramente
dificilmente reconciliáveis com as de Findlay. Como se pode apreciar a seguir, usando
outros autores.

Esta referência à viagem de Vasco da Gama é relatada por outros autores que
confirmam que ele voltou com 30.000 quintais92 e que a partir daí as importações de
especiarias seriam de um volume anual aproximado. Maddison menciona (Maddison,
2007, p. 112) que entre 1500 e 1599 teriam partido para a Ásia cerca de 770 barcos, dos
quais 705 portugueses, e que (Maddison, 2001, p. 64) teriam regressado a Lisboa 413
navios, o que torna verosímil as cerca de 1.700 toneladas anuais de especiarias chegadas
à Casa da Índia. Segundo (Maddison, 2001, p. 63) as importações portuguesas de
especiarias teriam sido de 1.475 toneladas métricas na primeira metade do Século XVI e
de 1.160 na segunda metade e representado (Maddison, 2001, p. 84) mais de 90% das
importações totais de Portugal vindas da Ásia. Em (Maddison, 2001, p. 56) pode-se,
também, ler que a importação de especiarias por Veneza teria caído das 1.500 toneladas
anuais em 1400 para cerca de 500 toneladas na primeira década do Século XVI. Parece,
segundo o mesmo autor, que Veneza terá recuperado depois uma boa parte do seu
quinhão na importação de especiarias, mas que o seu monopólio se tinha evaporado.
Fazendo uns cálculos rápidos: na primeira metade do Século XVI, Portugal seria “dono”
de perto de 70% do comércio de especiarias para a Europa93. Ainda, segundo (Findlay,
2007, p. 202) a importação de cravinho por Portugal atingiu as 573 toneladas durante o
Século XVI.94

A outra grande importação de Portugal, e a principal fonte de financiamento da


expansão, foi o ouro da Guiné95. Também aqui as diversas fontes consultadas não são

92
O quintal medieval equivalia a 4 arrobas de 14,6 quilos aproximadamente, o que resulta nas 1.700
toneladas referidas.
93
Destas importações 80% seriam pimenta e cerca de 18% outras especiarias, segundo (Maddison, 2001,
p. 84).
94
O que parece negar a sua informação anterior acerca da manutenção monopólio veneziano. O cravinho
era a segunda especiaria mais procurada na Europa a seguir à pimenta e tinha margens de lucro maiores.
95
Ou do Gana ou da Mina, se se preferir.

47
Portugal Fora da Europa.

totalmente coincidentes. Opta-se por seguir Angus Maddison, possivelmente o mais


credível dos autores consultados, dada a sua reputação e o seu pioneirismo no estudo da
economia mundial.

Angus Maddison (Maddison, 2007, p. 218)(Maddison, 2001, p. 59) calcula que entre
1471 e 1500 os portugueses tenham exportado da Mina cerca de 17 toneladas de ouro.
Comparada com a quantidade de ouro vinda do Brasil 96 no Século XVIII, esta
quantidade parece ínfima. No entanto, o preço do ouro na origem era irrisório, um quilo
de sal comprava um quilo de ouro, o que significava lucros fabulosos em Lisboa. Por
outro lado, a intromissão dos portugueses no comércio do ouro africano não acabou
com a rota do ouro por terra até Marrocos que continuou a ser a principal fonte de
abastecimento do metal e terá, provavelmente, sido uma das causas da continuação da
política marroquina de conquista de praças-fortes no Norte de África prosseguida,
essencialmente, por D. Afonso V. Segundo (Page, 2002, p. 114) a quantidade de ouro
trazida para Portugal seria de cerca de 400 quilos anuais (cá estão as 17 toneladas).

Outro resultado do programa de expansão marítima portuguesa foi a do aumento do


tráfico de escravos. Uma das motivações imediatas do desenvolvimento dos contactos
com África foi o desenvolvimento da produção da cana do açúcar nas ilhas atlânticas
(Maddison, 2007, p. 218). Portugal tinha uma população aproximada de um milhão de
pessoas (Maddison, 2007, pp. 376, Quadro A.1) o que tornava impossível a utilização
de mão-de-obra nacional nessas explorações. Portugal estabeleceu um entreposto em
Arguim, na costa da Mauritânia, em 1445 e povoou Cabo Verde em 1460. Estas duas
bases, além de servirem para o comércio do ouro, foram utilizadas para o comércio de
escravos que, além de serem transportados para as ilhas97 para trabalharem na cana do
açúcar eram, também, objecto de compra e depois venda no mercado Africano98 através
das rotas transarianas (Maddison, 2007, p. 218) que foram sempre, apesar da utilização
de escravos por Portugal nas suas explorações agrícolas, o principal caminho do tráfico

96
A referir mais à frente.
97
E mais tarde para o Brasil.
98
Já existente há muitos anos, dominado pelos árabes e cujos fluxos tinham como destino a África
Oriental e o Próximo Oriente.

48
Portugal Fora da Europa.

de escravos. Mas, ao alimentar esta rota Portugal acabou por ter, principalmente durante
a gestão do infante D. Henrique, lucros não despiciendos.

A prática portuguesa de estabelecer entrepostos comerciais na costa sem procurar a


ocupação de territórios no interior, nomeadamente de África, teve um outro efeito: os da
criação de redes comerciais pelas populações autóctones no interior, promovendo
interacções sociais e económicas que antes não existiam (Maddison, 2007, p. 219).

No seu conjunto, as acções de Portugal durante os Séculos XV e XVI, contribuíram, de


forma decisiva para a grande contracção do mundo de que fala (MacGillivray, 2006), e
correspondendo mesmo à definição de globalização proposta por Nye e Keohane (Nye
J. e., 2004). E neste último sentido foi efectivamente pioneiro da globalização.

Mas, não o fez sem custos, principalmente ao nível do desenvolvimento da sua


economia produtiva. Julga-se, no entanto, que antes de falar nesses custos, ainda se
deverá falar de outras circunstâncias que retardaram o regresso das caravelas.

2.2.2 COMÉRCIO, RIQUEZA, CONSOLIDAÇÃO E DECLÍNIO,

Antes da instituição da monarquia dual ibérica em 1580, as possessões e o comércio


português estendiam-se por todo o mundo desde África até Timor, passando pela
América. Com raras excepções, como o Brasil e as ilhas atlânticas, neste período
Portugal favoreceu o estabelecimento de entrepostos comerciais na costa, sem se
aventurar pelo interior(Maddison, 2007, p. 226). Foram abertos, também, entrepostos na
Flandres e em Southampton para colocar as especiarias no mercado europeu.99

Os objectivos eram fundamentalmente de domínio do comércio e da navegação e não de


expansão territorial. As ilhas foram usadas para a introdução do cultivo de diversas
espécies como a cana do açúcar, e no Brasil100 a expansão territorial para o interior foi

99
Como se vê, apesar de se voltar para o mar, Portugal manteve ligações à Europa, mas como se fosse um
país fora dela na linha da citação de (Opello, 1991)
100
Onde foi, também, introduzida a cana do açúcar.

49
Portugal Fora da Europa.

mais da iniciativa de particulares, colonos e eclesiásticos, ou dos respectivos capitães-


mor 101do que da Coroa ou da Ordem de Cristo.

O Estado da Índia

O grande plano de D. João II, de domínio do comércio oriental, nunca foi totalmente
conseguido, fundamentalmente devido à reacção do Império Otomano que manteve
abertas as vias comerciais tradicionais até ao Mediterrâneo, ao conseguirem negar a
Portugal, derrotando-o em Aden em 1513102(Findlay, 2007, p. 151), o domínio do Mar
Vermelho. No entanto, isso não impediu que os sucessores de D. João II governassem
um país enriquecido, o que provavelmente não trouxe os resultados pretendidos pelo
Príncipe Perfeito, porque, apesar de D. Manuel II manter alguma da determinação do
seu primo e cunhado, os seus sucessores inverteram a sua política interna, dando
novamente privilégios à nobreza de sangue, e levando à dissolução de costumes, ao
gosto pelo luxo e ao abandono do desenvolvimento das actividades de produção.
Acresce que com os casamentos ibéricos de D. Manuel II e as filhas dos reis católicos é
imposta a conversão forçada dos judeus e com D. João III por intervenção directa da
rainha D. Isabel é instituída a Inquisição. Nunca mais pode Portugal aproveitar do
engenho e dos conhecimentos científicos dos Judeus que, na realidade, como Abraão
Zacuto eram o esteio da “Junta dos Cosmógrafos”.

Atente-se ao que escreve Garcia de Resende103 no Prólogo e depois nas estâncias 196 a
237 da sua obra(Resende, 1917 [1554])104:

“mas a natureza é tal


que poucos querem ouvir
nem aprender, nem saber
coisas certa, nem verdades” (Prólogo)
”Vimos os bons descaídos

101
Por exemplo, no século XVIII ainda muito Brasil era desconhecido são, também, mais conhecidas as
explorações de diversos eclesiásticos como Manuel de Anchieta, e dos bandeirantes.
102
Ou melhor, negando a vitória a Afonso de Albuquerque, que ao que parece tinha a sua própria ideia
acerca do domínio do Indico e muitas vezes realizou expedições e conquistas não sancionadas pelo rei.
103
Garcia de Resende foi o moço de escrivaninha de D. João II e o seu cronista.
104
Apenas se mudou a grafia do original para grafia actual deixando as palavras escritas por Resende sem
as substituir por equivalentes actuais. A responsabilidade desta escolha é totalmente do Autor desta tese.

50
Portugal Fora da Europa.

e os maus muito levantados


os sem virtudes cabidos/por meios falsificados

o saber desestimado
a falsidade crescida” (Estância 196)
“Vimos honrar lisonjeiros
e folgar com murmurar
e caber mexeriqueiros
os mentirosos medrar
desmedrar os verdadeiros:
vimos também vilania
preceder a fidalguia” (Estância 198)
”Vimos ricos adquirir
riquezas mal ajuntadas” (Estância 201
“Cousa é de confusão
ver os maos permanecer
e os bons com opressão” (Estância 207)
“Um só mau oficial
que há em uma cidade
destrói a comunidade” (Estância 213)
”Vimos muitos ociosos
sem querer nada fazer
deixar o tempo perder
e dos bons, e virtuosos
não lhes minguar que dizer” (Estância 220).

E mais no mesmo tom de desencanto, Garcia de Resende estava claramente preocupado


com os males que vieram à nossa sociedade por via das riquezas da expansão. De igual
modo, André de Resende, monge de Évora e pai da arqueologia em Portugal105 teria
dito, no regresso de uma das suas viagens pela Europa:

105
Ainda que não se tenha exibido a falsificar achados, segundo parece.

51
Portugal Fora da Europa.

”Que desencanto ver os campos abandonados e as culturas


perdidas”.106

No entanto é consensual que, pelo menos até à instituição, em 1580, da monarquia dual
Portugal era o reino mais abastado da Europa (Opello, 1991, p. 43) como resultado da
riqueza gerada pelas descobertas e o monopólio real do comércio de especiarias e outros
bens de luxo vindos da Ásia.
107
Por outro lado, o que é conhecido por "Estado da Índia" que abrange todas as
possessões e entrepostos desde a costa leste de África até ao delta do Rio Amarelo, Java
e Japão, é reconhecido como exemplo de sucedido domínio da navegação e comércio de
um oceano. A política de instalação de entrepostos e de miscigenação como forma de
economizar meios humanos muito escassos é outra das razões apontadas para o sucesso
do Império.

O Estado da Índia foi, também, uma inovação em termos de dominação. Não era um
território. Era todo o Oceano Índico e o Mar da China com o poder assente em
entrepostos e fortalezas estrategicamente colocados em pontos das suas costas, mas,
essencialmente, nas naus tecnologicamente avançadas e dotadas de um poder de fogo
nunca antes embarcado. Há quem chame ao Índico, em razão disto, o sexto continente.

106
Citado de memória por não se ter conseguido encontrar a fonte.
107
Assente nas acções e conquistas de Afonso de Albuquerque a que Opello chama o mais brilhante dos
estrategas militares na história da expansão europeia (Opello, 1991, p. 43). O termo parece ter sido
introduzido por João de Barros nas suas "Décadas da Ásia"

52
Portugal Fora da Europa.
Figura 2-5 – A parte ocidental do Estado da Índia

Vários autores tentaram avaliar as consequências em termos económicos e de desvio de


comércio da expansão portuguesa108. Os valores estimados, quando o são, são
extremamente díspares. Por exemplo, (Findlay, 2007, p. 140) afirma que em 1400 a
parte de Veneza no comércio da pimenta era de 60% e de menos de 50% nas outras
especiarias. Em 1500 apenas diz que a parte de Veneza baixou dos 60%, mas não diz
quanto, enquanto a sua parte noutras especiarias (especialmente cravinho) teria subido
acima de 60%109. No entanto, também afirma que as importações europeias de pimenta
cresceram pouco nesses 100 anos e que as de outras especiarias teriam quase duplicado.
Mas a crer nestes números como pode (Page, 2002, pp. 150-152) comentar na opulência
de Lisboa, nas obras dos Jerónimos e de Belém, no fausto das roupas e citar esta
curiosidade:

” The Casa da Índia's counting house now occupied the ground


floor of the royal palace. The royal chronicler110 recorded that he
often saw foreign merchants come with bags of gold in order to
buy spices, only to be told by the clerks that they had already
taken in more coins than they would be able to count that day,
and to please come back tomorrow"(Page, 2002, p. 152)

108
Até 1600. O ouro do Brasil será tratado um pouco mais à frente.
109
Outros autores debruçaram-se sobre os volumes e o valor do comércio do Império Português como
Vitorino Magalhães Godinho e Carla Rahn Phillips, referenciados na Bibliografia.
110
Muito provavelmente Damião de Góis.

53
Portugal Fora da Europa.

Supremacia Marítima

O que parece certo é que Portugal foi, durante a maior parte do século XVI, o centro da
economia mundial (Kindleberger, 1996, p. 70), mesmo, quando, nos últimos 20 anos do
século, o seu comércio esteve dominado pela Espanha no contexto da monarquia dual.
O mesmo diz (Mauro, 1993, p. 283)quando escreve que, num contexto Europeu,
Portugal era, século dezasseis, o centro da economia mundial.
Figura 2-6 – O Domínio Português no Índico

Aliás, Kindleberger na obra citada afirma que, por razões que ainda não são
consensuais, demorou a países como a Holanda ou a Inglaterra, mesmo depois da
forçada união com Espanha, mais de 60 anos a quebrar o monopólio de Portugal e,
mesmo assim, nunca conseguiram destruir o domínio de Portugal sobre o Brasil.

Apesar de toda a riqueza resultante do comércio ultramarino, Portugal foi apenas um


ponto de passagem de toda ela. O que cá ficou foram igrejas, mosteiros, palácios, festas,
jardins e fausto. O dinheiro seguiu o caminho da Europa Central e do Norte que fornecia
os bens necessários para alimentar o faustoso estilo de vida da corte e dos seus
protegidos.

Se voltarmos a André de Resende e à sua frase citada acima, ela evidencia um


fenómeno a que só foi dado nome no século XX e que ocorreu em Portugal pelo menos
mais duas vezes em séculos subsequentes111.

111
A ele me referirei novamente no momento próprio.

54
Portugal Fora da Europa.

Esse fenómeno é conhecido pelo nome de "dutch decease" (Kindleberger, 1996, p. 79)
(Mateus, 2006). O que se passou é que o capital, ou a riqueza, foi utilizado na produção
de bens não transaccionáveis quase exclusivamente, não financiando a produção de bens
transaccionáveis – manufacturas, agricultura – que foi quase abandonada, obrigando à
importação deste tipo de bens. O reverso da medalha da supremacia no comércio
mundial foi o não desenvolvimento de actividades produtivas que produzissem
exportações ou bens que substituíssem importações. Em termos produtivos Portugal
estagnou112.

E isto conduziu a um aumento dos preços, Nuno Valério (Valério, 1997) num pequeno
estudo em que utilizou um indicador composto dos preços de alguns bens em Portugal
no século XVI, mostra claramente que durante este século os preços dos bens
alimentares subiram significativamente em Portugal.

A política de monopólio real do comércio e navegação 113 não favoreceu a criação e


consolidação de uma classe média burguesa e comerciante com dimensão(Opello, 1991,
p. 43), que nos países rivais, especialmente Holanda e Inglaterra, acabou por ser a base
da expansão e domínio marítimo. Acresce, como já referido, a expulsão ou conversão
compulsória dos judeus, aliada á perseguição que a Inquisição lhes fez a partir do
reinado de D. João III, que acabou por liquidar, primeiro, a elite científica responsável
pelo desenvolvimento das inovações, e, depois, o embrião da classe comerciante e
produtora essencial à sustentação do desenvolvimento e da política de domínio
marítimo e comercial ultramarino.

Por outro lado, a base do domínio português era a classe militar, principalmente, a
pequena nobreza, que a Espanha, com a monarquia dual, começou a utilizar para os seus
próprios objectivos, reduzindo substancialmente os já escassos recursos humanos
existentes.

Além disso, a base da supremacia portuguesa foi a inovação e a tecnologia. Aliás


(MacGillivray, 2006, p. 19) é claro quando afirma:

112
O que parece dar razão a alguns que dizem que Portugal é um país de comerciantes, e segundo
Kindleberger maus comerciantes(Kindleberger, 1996, p. 71).
113
Que no Estado da Índia acabou, após o domínio férreo exercido por Afonso de Albuquerque, por
deixar de existir com a permissividade de actuação de agentes privados.

55
Portugal Fora da Europa.

"In this decade [1490-1500], the shape and size of the globe
finally became known, thanks to technical innovation,
commercial ambition and strategic intent. The superpower Spain
and the innovator Portugal spearheaded the process"

Portugal esteve adiante dos outros países europeus em tecnologias da navegação,


cartografia, construção de embarcações e artilharia embarcada114 várias dezenas de
anos. Apesar de todo o secretismo e das pesadas sanções impostas a quem revelasse os
segredos uma vantagem destas não se pode manter indefinidamente se não for
continuada a aposta na investigação e na aplicação das inovações.

E como afirma Paul Romer em (Romer, 1986) e noutros revolucionários artigos


posteriores, as ideias, as inovações, as tecnologias, são bens não-rivais e não
excludíveis115. Quer dizer, podem ser utilizadas simultaneamente por diversos agentes e
nenhum deles pode ser excluído do seu uso. Era, portanto, uma questão de tempo, dadas
as condições referidas116, que outras potências com ambições ultramarinas
conseguissem apropriar-se das vantagens portuguesas e, dada a existência de classes
comerciantes, manufactureiras e científicas mais desenvolvidas, as ultrapassassem.

A Ameaça Holandesa

O que é surpreendente é que tivessem demorado tanto tempo. (Kindleberger, 1996, p.


70) refere que esta resistência, apesar de ter menos embarcações e marinheiros mais
fracos, pode ter sido devida, segundo alguns, ao sucesso do tipo de colonização usado
pelos Portugueses, com os seus cidadãos a estabelecerem-se nas possessões
ultramarinas para toda a vida, miscigenando-se e casando com as populações nativas,
enquanto os Holandeses regressavam ao Países-Baixos após seis anos de estadia. Outro
ponto de vista expresso por Kindleberger (Ibid.)117 atribui a sobrevivência de Portugal

114
Os barcos eram autênticas fortalezas móveis.
115
Penitencio-me do anglicismo. Não existe adjectivo equivalente em Português.
116
Ausência da manutenção de uma classe científica (talvez com excepção da medicina no
aproveitamento de plantas medicinais), expulsão e perseguição dos judeus, ausência de uma classe
manufactureira e comerciante, entre outras.
117
Citando autores a que não tive acesso na obra original.

56
Portugal Fora da Europa.

como poder colonial à coragem, `à determinação e à teimosia, a este respeito ver


também (Boxer, 1973, p. 149).

(Mauro, 1993, p. 283), diz, a este respeito, que Portugal resistiu com sucesso aos
reveses do século dezassete graças ao açúcar do Brasil e, mais, tarde graças à descoberta
do ouro em Minas. Tratarei desta questão no próximo subcapítulo.

O que é verdade é que a principal ameaça e o instrumento do declínio do domínio de


Portugal no Índico foram, principalmente os Holandeses (Boxer, 1973, p. 108)(Disney,
2009, pp. 168-169, II vol.). Boxer (Ibid.) vai ao ponto de afirmar que o conflito entre
Portugueses e Holandeses (e depois com os seus seguidores como os Ingleses, mas,
também, com os nativos das terras que dominavam) foi na realidade a Primeira Guerra
Mundial118 porque teve como palco o espaço global119, desenrolando-se em quatro
continentes, durante cerca de 70 anos(Monteiro, 2010, p. 285).

Um dos motivos mais citados para o desencadear destes confrontos tem sido o da união
das Coroas Portuguesa e Espanhola num monarca Habsburgo(Boxer, 1973, p. 109). Esta
razão não deixa de ter credibilidade, tanto mais que os Holandeses tinham travado uma
guerra com os Habsburgos durante oitenta anos para obter a sua autonomia(Boxer,
1973, p. 108)(Monteiro, 2010, p. 284). Mas, não foi provavelmente o único
fundamento.

(Kindleberger, 1996, p. 71) reforça esta razão afirmando que a Península Ibérica não era
um lugar propício à cooperação, os soldados detestavam os marinheiros, os nobres a
populaça e os Portugueses em geral os Espanhóis. Mas, refere, igualmente, a baixa dos
preços ocorrida no açúcar e no tabaco após o início do seu cultivo nas ilhas do Caribe.

Não se podendo esquecer as profundas diferenças religiosas. Enquanto Portugal se


mantinha católico, os Holandeses eram protestantes, Calvinistas, para quem os
chamados papistas eram um maior inimigo que o Islão.

Além disso, a rebelião de povos vassalos na Malásia e na Indonésia, a expulsão do


Japão e as continuadas disputas com os potentados hindus, acabaram por contribui para

118
Sem o colossal número de mortos que a guerra de 1914-1918 teve.
119
O termo "espaço global" é meu e acaba por chamar a atenção para o fenómeno dito da globalização, ou
mundialização, e do papel de Portugal no desencadear, ou acelerar do mesmo. Em apêndice a um próximo
capítulo procurarei dar o meu ponto de vista acerca desta questão.

57
Portugal Fora da Europa.

o declínio, tanto mais que os recursos humanos eram escassos para a extensão do espaço
controlado e o poder, assentava, em boa parte na cooperação de mercenários indígenas.

A realidade é que os Holandeses (e outros depois deles) detectaram uma oportunidade e


aproveitaram-na(Monteiro, 2010, pp. 285, 307). O conflito só acabou depois do
regresso à independência por volta de 1668. Mas, nessa altura Portugal já tinha perdido
o controlo sobre os mares e comércio da Ásia e o Estado da Índia tinha encolhido. Em
1605 (Boxer, 1973, p. 112 e seg.) tinha perdido para os Holandeses o controlo das Ilhas
das Especiarias (Molucas) e depois de a VOC120 se ter estabelecido em Jacarta perderam
Massacar (já em 1666). Foram conquistando fortalezas e entrepostos portugueses, uns
após outros, primeiro Singapura, depois o Ceilão, Cochim e outros estabelecimentos na
Costa do Malabar. Só Macau e as Ilhas de Sunda (Timor entre elas) escaparam.

Entretanto, em 1622, os Persas, com a ajuda dos Ingleses, retomaram Ormuz(Monteiro,


2010, p. 284). Portugal manteve, a grande custo, o controlo das costas de Moçambique.
Resistiu na costa Oeste de África (Angola)(Monteiro, 2010, p. 319) e no Brasil,
principalmente devido à resistência dos colonos portugueses, especialmente no Brasil
(Monteiro, 2010, pp. 320, 321), algumas vezes aliados com as populações autóctones
(como é o caso dos Ameríndios no Brasil121) ou aventureiros negros122(Boxer, 1973, p.
116)(Monteiro, 2010, pp. 317-319).

Charles Boxer (Boxer, 1973, p. 112) escreve que:

"[…] it can be said that the final result was, on balance, a victory
for the Dutch in Asia, a draw in West Africa, and a victory for
the Portuguese in Brazil"

(Monteiro, 2010, p. 320) concorda, na generalidade, com este balanço de Boxer, ainda
que sublinhe que, na África Ocidental, a perda da Mina e da Costa do Ouro foi mais do
que contrabalançada com a reconquista de Angola e de São Tomé123 pelo que, nesta
região, não terá havido propriamente um empate.

120
Sigla porque é conhecida a Companhia das Índias orientais holandesa.
121
O Camarão.
122
Henrique Dias, descendente de escravos.
123
Foi, precisamente, em S. Tomé que o ataque dos Holandeses teve início.

58
Portugal Fora da Europa.

Mas, o que é verdade, é que a supremacia económica tinha acabado, a primeira fase do
Império terminado. Até ao "milagre" do ouro de Minas Gerais.

2.2.3 AÇÚCAR, OURO, AFIRMAÇÃO CONTINENTAL, OSTENTAÇÃO E


TRANSFORMAÇÕES

O Brasil como Segunda Oportunidade

Coincidente com a fase de pico e declínio do domínio da Ásia teve início a exploração e
controlo do Brasil. Em termos de comércio e aproveitamento dos recursos das terras
brasileiras pode-se considerar três períodos: madeira, açúcar, açúcar e ouro. Ao mesmo
tempo que alguns destes períodos foram explorados o tabaco, o milho, a mandioca, o
gado Até meio da segunda metade do século XVII, o controlo do Brasil foi disputado
com Franceses e Holandeses dentro do conflito que os opôs a Portugal pela supremacia
marítima e do domínio global do comércio.

O conflito entre Portugueses e Holandeses e os seus reflexos sobre o controlo do Brasil,


deve, ainda, ser colocado no contexto da Guerra da Restauração. Depois da revolta de
1640 e da ascensão ao trono de D, João IV, Portugal encontrou-se envolvido em duas
contendas até 1688-89.

Por um lado, a já referida Guerra Mundial com os Holandeses. Por outro, a guerra com
Espanha pela manutenção da independência recentemente readquirida. Pequena nação,
com população escassa comparada com a de Espanha, reduzida a nobreza militar pela
sua massiva deserção para o lado de Filipe IV, Portugal teve que refazer a Corte,
encontrar novos chefes militares e desenvolver uma diplomacia a nível europeu que
assegurasse os apoios ao reconhecimento da sua recuperada soberania124.

Entre os conselheiros de D. João IV, jogando com a oposição inflamada entre os


Habsburgos de Espanha e as Províncias Unidas, havia quem quisesse abandonar a
guerra com os Holandeses, perdendo as possessões que havia a perder, em troca de uma

124
Nestes movimentos diplomáticos se inseriu o casamento da filha de D. João IV, Catarina, com o
monarca inglês Carlos II, que custou a Portugal não só a praça e cidade de Tânger, em Marrocos, como
uma das possessões indianas mais importantes que tinha escapado à contenda com os holandeses,
Bombaim.

59
Portugal Fora da Europa.

paz que solidificasse os apoios europeus à luta com Espanha. Esta solução não foi a
adoptada, mas, chegou a ser ajustada uma trégua com os Holandeses.

Este período, além de ser o da consolidação do controlo sobre as principaís possessões


da África Ocidental (Angola, principalmente) foi, especialmente, o da afirmação
continental no Brasil, com a retoma do controlo real sobre os espaços até então
administrados pelos capitães-donatários concessionados pela Coroa e pelas explorações
para o interior de colonos e missionários.

Foi, também, a época em que a riqueza da mineração do ouro e dos diamantes voltou a
colocar Portugal como um dos países mais ricos da Europa (até certo ponto, porque se
deu uma recaída da"dutch decease"125) e palco de uma ostentação e fausto sem paralelo.

A Colonização e Exploração do Brasil - Primeiros Passos e a Exploração do Pau-


Brasil

Até 1530, depois das viagens de Álvares Cabral e Gonçalo Coelho, a Coroa portuguesa,
demasiado ocupada com as suas possessões e comércio em África e na Ásia, não
mostrou grande interesse na nova descoberta do Brasil(Disney, 2009, pp. 206, 2. vol.),
mas, o interesse dos mercados europeus pelo pau-brasil já tinha sido detectado o que
levou alguns comerciantes privados a começarem a explorar essa oportunidade.

Em 1502, D. Manuel começou a conceder direitos de monopólio por três anos em que
era exigida a construção de uma feitoria fortificada e a exploração de 300 léguas de
costa por ano126.

O interesse no pau-brasil era principalmente devido a dele pode ser extraída uma tintura
de cor púrpura para fins têxteis superior às alternativas vindas da Ásia. Até meados do
século XVI constituiu a principal exportação para a Europa representando entre 90 e
95% dos rendimentos obtidos com o comércio do Brasil. Mas, a rica floresta brasileira

125
Questão a desenvolver um pouco mais adiante.
126
A primeira concessão foi dada a Fernão de Noronha e sua família. Este foi o início da fase de
exploração do Brasil conhecida por "fase das feitorias". Simultaneamente foram criadas as capitanias da
Baía e de Pernambuco, das quais pouco se conhece, até porque tiveram curta vida.

60
Portugal Fora da Europa.

também foi explorada para outras madeiras destinadas à construção de navios e de


mobiliário, que começavam a escassear em Portugal127.

Entretanto, degredados, desertores e outros portugueses começaram a escolher o Brasil


como lugar de refúgio e a constituir família com os Ameríndios da costa. Os mais
citados são Diogo Álvares Correia128 e João Ramalho129. Degredados ou não, foram
importantes para a colonização do Brasil, porque a exploração do pau-brasil e outros
bens exigia a cooperação dos nativos e eles passaram a servir de intermediários nos
contactos com estes.

Uma das preocupações da Coroa portuguesa era a de afastar nações rivais não sujeitas
aos termos do Tratado de Tordesilhas da exploração e comércio do Brasil. Franceses,
especialmente, tentavam acordos com os nativos para a instalação de entrepostos e a
exploração do pau-brasil. Assim, cerca de 1516, D. Manuel enviou uma expedição de
duas embarcações comandada por Cristóvão Jacques130 que mandou desmantelar a
primeira feitoria referida acima e situada próxima do actual Rio de Janeiro em Cabo
Frio e transferi-la para local mais próximo de Lisboa e com acesso a pau-brasil de
melhor qualidade a norte de Pernambuco.

Cerca de 1520 foram feitas as primeiras plantações de cana do açúcar no Rio de Janeiro,
em Pernambuco e noutros locais, com plantas trazidas da Madeira131. Com o crescente
comércio do pau-brasil e do açúcar a Coroa portuguesa começou, finalmente a
interessar-se pelo Brasil. Martim Afonso de Sousa132 (Serrão, 2002 [1965 a 1971], pp.
77-79,Vol. VI) foi despachado com uma considerável armada para levar a cabo
explorações, expulsar os franceses e fundar povoações na costa como início da

127
Algumas madeiras foram designadas de "madeiras de lei" e aos colonos a que foram concedidas
sesmarias127 chegou a ser interdito o derrube de árvores para obtenção de terras de cultivo. As madeiras
de lei e o pau-brasil eram monopólio real e o seu corte e venda estava sujeito a um imposto de 20%.
Sobre a exploração das madeiras ver(Disney, 2009, pp. 233-234).
128
Conhecido como Caramuru e usado pelo Estado Novo para a doutrinação dos jovens, através do
embelezamento das suas façanhas em edições de banda desenhada. Não era um degradado, mas um
fidalgo da casa real em busca de fortuna. Na História existe outro Caramuru dado como descobridor da
Baía.
129
Que acabou por ser o avô da toda a população que fundou São Paulo.
130
Algarvio de ascendência basca e fidalgo da casa real, antepassado do famoso general da Guerra da
Restauração, Pedro Jacques de Magalhães.
131
A plantação da cana do açúcar na Madeira tinha, recorde-se, sido o primeiro golpe no domínio
comercial das Repúblicas Italianas.
132
12º Governador da Índia e chefe da influente casa dos Sousas do Prado, descendentes de Afonso III.

61
Portugal Fora da Europa.

instalação de uma Colónia da Coroa. Acabou por fundar a vila de São Vicente, próxima
da actual Santos com a assistência, nos contactos com os nativos, de João Ramalho.

Mas, D. Manuel acabou por chegar à conclusão133 de que aquela expedição e os seus
resultados não eram suficientes para afirmar o controlo português do Brasil. Só que os
recursos da Coroa portuguesa já estavam sobre utilizados na África e no Estado da
Índia. Usando o mesmo método que o seu tio trisavô Infante D. Henrique usou na
Madeira. Acabou por estabelecer no Brasil a figura das capitanias ou donatarias,
dividindo a costa brasileira em quinze partes.

Cada uma foi concessionada a um capitão-donatário com poderes jurisdicionais e fiscais


contra a obrigação de realizarem a colonização e ocupação da sua respectiva donataria,
com direitos e deveres estabelecidos num regimento da donataria. A primeira, com sede
na vila de São Vicente, foi precisamente concedida a Martim Afonso de Sousa.
Figura 2-7. As Capitanias Hereditárias no Brasil.

Mas, a solução das capitanias não foi bem-sucedida. A maioria dos donatários – com a
notável excepção da do Pernambuco entregue a Duarte Coelho – era absentista, os
conflitos entre colonos e donatários multiplicavam-se, e mesmo, dentro de cada
capitania existiram desaguisados entre presumíveis donatários, como na de S. Vicente,
entre as famílias dos condes de Monsanto e dos condes do Vimieiro, sucessores de
Martim de Sousa (que tinha abandonado a capitania).

133
Ao que diz Disney, relutantemente.

62
Portugal Fora da Europa.

Apesar de terem lançado as bases do controlo português no Brasil tornou-se evidente


que este só seria sustentável com um maior empenhamento da Coroa (Disney, 2009, pp.
212, II vol.). Os Franceses continuavam a constituir uma ameaça, as relações com os
povos Ameríndios deteriorou-se, e a solução encontrada não resolvia o problema da
necessidade estender recursos humanos escassos por três zonas de expansão.

O Açúcar

Além disso, era patente que o Brasil possuía condições ideais para o cultivo da cana-de-
açúcar e, portanto, com grande potencial de constituir uma importante fonte de
rendimentos provenientes da venda do açúcar na Europa. A descoberta, por Espanha, de
jazidas de prata no Peru levou, também, a pensar que algures no Brasil poderiam existir,
igualmente, jazidas do metal precioso.

O açúcar (Disney, 2009, p. 235) ultrapassou rapidamente as madeiras como principal


fonte de rendimento do Brasil português. Em 1630 o Brasil era já o maior exportador
mundial de açúcar. Além das plantações de cana-de-açúcar vários colonos e nobres
portugueses instalaram os meios necessários á extracção do açúcar, os engenhos.
Devido à tecnologia e ao saber fazer necessários ao processo de transformação o
investimento inicial nos engenhos era avultado, o que restringiu a sua propriedade aos
cristãos-novos imigrados, a empreendedores Italianos e Flamengos, às Misericórdias
além de a algumas casas nobres portuguesas absentistas (os Duques de Aveiro, os
Condes de Linhares, a família Sá) e de ordens religiosas como os Jesuítas e os
Beneditinos134.

Além dos engenhos, ou moinhos, a indústria era mão-de-obra intensiva necessitando de


200 a 600 escravos por engenho, além de apreciável número de cabeças de gado bovino
para mover os engenhos. Estes escravos e todo o aparelho administrativo do engenho
tinham de ser alimentados e tinha que existir criação de gado. Isto levou ao
aparecimento das roças para a produção de alimentos. Acabou por conduzir, também, ao

134
A organização da indústria do açúcar seguiu os princípios já aplicados em S. Tomé, onde o principal
saber fazer se tinha desenvolvido, com a vantagem da extensão do território permitir produções muito
mais elevadas e intensivas(Disney, 2009, p. 236). Cerca de um terço das explorações era de dimensões
modesta, mas, a organização assentava nas plantações de cana, as fazendas, que vendiam a sua produção
aos engenhos, detidos pelos referidos "senhores de engenho" que na prática dominavam a indústria.
Alguns deles eram simultaneamente produtores e transformadores.

63
Portugal Fora da Europa.

incremento da exploração de gado (Disney, 2009, p. 243) inicialmente para esse fim,
mas, depois, igualmente para carne e extracção de couros. O principal iniciador deste
tipo de exploração foi Garcia d' Ávila em 1549 que utilizou a sesmaria de que era
concessionário.

A exploração do açúcar tinha lucros de entre 10 e 15% (Disney, 2009, p. 237) e a maior
parte era apropriada pelos mercadores e intermediários. A Coroa recebia um dízimo,
propriedade da Ordem de Cristo135, que representava 5% das receitas orçamentais da
Coroa, em média. No fundo, a exploração do açúcar, era, assim, um monopólio da
Coroa. Este modelo de monopólio tem sido muito discutido em décadas recentes, com
uma corrente mercantilista-imperialista que o critica, e uma corrente mais recente que
defende que o monopólio do açúcar promoveu o desenvolvimento do Brasil (ver Disney
(Ibid.))

Em 1570 foi proibida a escravização dos Ameríndios e tal fez surgir outra fonte de
rendimentos. Tratou-se do comércio de escravos de África para o Brasil em escala
apreciável(Disney, 2009, p. 237).

Entretanto, a expansão marítima na Ásia tinha atingido o seu pico136 e era indispensável
aproveitar o máximo de fontes alternativas em termos de comércio. Estas circunstâncias
levaram a uma "quebra estrutural"(Disney, 2009, pp. 212, II vol.) na política do Império
Português com o desvio das atenções da Ásia para o Atlântico Sul.

Entretanto em 1548 a Coroa decidiu nomear o primeiro governador-geral para o Brasil.


O escolhido foi Tomé de Sousa(Serrão, 2002 [1965 a 1971], pp. 80-82, Vol. VI), primo
direito de Martim de Sousa137.

A sua primeira tarefa foi a de estabelecer uma capital para o território. A sua escolha
recaiu na zona da Baía de Todos ao Santos, na antiga donataria da Baía138, com

135
Que dado o Rei ser o seu Grão-Mestre se confundia com a Coroa.
136
Cerca do meio do século XVI.
137
Segundo o autor do artigo em (Serrão, 2002 [1965 a 1971]) sobre este Tomé de Sousa, o Regimento de
17 de Dezembro de 1648 que regulamentou o cargo de Capitão-mor do Brasil é por muitos considerado a
primeira Constituição Brasileira tal a minúcia da descrição da organização colonial pretendida para o
Brasil.
138
O donatário Francisco Coutinho tinha sido morto pelos nativos e a capitania revertido para a Coroa.

64
Portugal Fora da Europa.

localização central na costa brasileira controlada por Portugal, fundando aí a cidade de


São Salvador, centro administrativo e judicial do espaço controlado por Portugal.

A Tomé de Sousa foram concedidas responsabilidades e autoridade pela defesa, pelas


relações com os nativos, e a obtenção e administração do trabalho em toda a América
Portuguesa. O objectivo fundamental da Coroa era expulsar os Franceses e retomar total
controlo sobre todas as capitanias antes criadas, das quais as melhores sucedidas
continuaram a cargo dos respectivos donatários. A matéria-prima humana disponível a
Tomé de Sousa não era a ideal, mais de metade dos colonos eram degredados.

Mas, apesar disso, São Salvador foi fundada com todas as instituições e construções
necessárias ao desempenho do seu papel. Tinha tribunal, Câmara (sobre o papel das
Câmaras no Império português ver (Boxer, 1973, pp. 275-288)), alfândega, prisão e um
hospital. Além disso, foi criada em Bispado e nela foi construída uma pequena catedral
e criada uma Santa Casa da Misericórdia139 e os Jesuítas abriram um colégio e uma
missão.

O 3º Governador-geral, Mem de Sá, conseguiu a pacificação, através de acções de


subjugação, dos nativos, principalmente dos Tupi, e expulsou os Franceses da Ganhara,
em 1567, com tropas comandada pelo sobrinho, Estácio de Sá, que ali funda a cidade do
Rio de Janeiro. A acção de Mem de Sá no Brasil tem sido comparada à de Afonso de
Albuquerque no Índico por ter assegurado o domínio de Portugal no Brasil.

Depois da sua acção, o Brasil começou a ser o grande destino de imigrantes vindos de
Portugal, incluindo cristãos-novos140. Com já se referiu antes o Brasil era dominado
pelos plantadores transformadores de cana-de-açúcar a que Disney (Disney, 2009, p.
214) chama "plantocracy", por comerciantes e alguns representantes da autoridade

139
Ainda não me tinha referido o papel de desempenhado pelas Santas Casa da Misericórdia no Império
Português(Boxer, 1973, pp. 275,288-97). Criadas com os mesmos princípios e objectivos das existentes
em Portugal, elas desempenharam um papel importante em todo o Império. Foram instituições argamassa
que asseguraram que as instituições e a cultura de Portugal continental se estabelecessem em todo o
Império, garantindo uma uniformidade institucional em todo ele e sendo factor de unidade e continuidade
em todas as possessões, em conjunto com as Câmaras(Boxer, 1973, p. 275).
140
No Brasil não havia Inquisição, ao contrário do que acontecia no Estado da Índia.

65
Portugal Fora da Europa.

central e clérigos141. Em Pernambuco, a capitania mais bem sucedida, os descendentes


de Duarte Coelho eram a autoridade principal.

A partir da segunda metade do século XVI alguns pioneiros e aventureiros começaram a


penetrar no interior, em zonas mais remotas, longo da faixa costeira já ocupada. No
interior sul para lá de S. Vicente e para norte do Cabo S. Roque em direcção ao
Amazonas. Em qualquer destas direcções o acesso era difícil devido aos obstáculos
físicos, mas, apesar disso, o interior começou a passar a integrar as possessões
portuguesas. Os principaís esforços foram feitos a partir de S. Paulo e do colégio jesuíta
estabelecido ali perto. Foi o início da importância estratégica desta cidade como base
principal das incursões pelo sertão, e a sua actual importância e dimensão não serão
estranhas a esse facto.

A partir de 1580 começaram as explorações para o norte a partir de Pernambuco e em


1612 era estabelecida a cidade de S. Luís do Maranhão pelos Franceses. Esta acção dos
Franceses fez despertar o interesse da Coroa pelo Nordeste brasileiro e em 1615 o
Maranhão era conquistado pelos Portugueses e cinco anos depois era criado o Estado do
Maranhão (Ceará, Maranhão e Pará) administrativamente independente do restante
Brasil, mas só já no século XVII é que começou a existir interesse da Coroa nessa
região e começaram a ser criadas as instituições judiciais, religiosas e de governo.
Figura 2-8 – Divisão administrativa do Brasil em 1620.

141
O poder eclesiástico, graças ao Direito de Padroado, passará ser um dos principaís esteios da Coroa no
Brasil. Ver quanto a esta questão "D. Frei Manuel da Cruz O. Cist. (1690 – 1764), 4º Bispo do
Maranhão, 1º Bispo de Mariana […]" em preparação pelo autor como Investigador do CEPESE, a
publicar.

66
Portugal Fora da Europa.

O Tabaco e a Criação de Gado

O tabaco era uma planta nativa do Brasil, ao contrário do açúcar. Começou a ser
cultivado mais extensivamente em 1600 no Maranhão(Disney, 2009, p. 265).

Tinha, em termos de cultivo claras vantagens sobre o açúcar. Era mais fácil de produzir,
não estava sujeito às mesmas doenças, exigia uma tecnologia muito mais simples, não
exigia as mesmas extensões de terra que aquele, com produtividades por área mais
elevadas e o investimento inicial era muito menor. Além disso, as exigências em termos
de mão-de-obra eram muito inferiores, não necessitando da manutenção de tantos
escravos como as plantações de açúcar.

Estas características do cultivo do tabaco atraíram ao Brasil plantadores menos


abastados que se estabeleceram especialmente na zona da Baía que se tornou
responsável por 90% da produção (Disney, 2009, p. Ibid.).

Mas, os rendimentos, em termos pecuniários, era claramente mais baixos que o da


exploração do açúcar. Esta situação alterou-se a partir de 1690. Até então o uso do
tabaco na Europa era quase exclusivamente para fins medicinais, a procura era limitada
e os preços baixos (Disney, 2009, p. Ibid.). A nicotina a que eram atribuídas as
propriedades medicinais tem, como é sabido, carácter aditivo provocando habituação142
e além disso o uso do tabaco para fumar passou a ser socialmente elegante.

Tal fez aumentar o consumo e a procura de tabaco na Europa e os seus preços subir.
Passou a ser altamente rentável cultivar tabaco, as plantações multiplicaram-se e o
Brasil tornou-se o principal produtor mundial na época(Disney, 2009, p. Ibid.).

A Coroa, atenta a tudo que lhe pudesse trazer proventos, despertou para esta realidade e
procurou maximizar os seus lucros transformando em 1674 o tabaco em monopólio real
(Disney, 2009, p. 266). Nesse ano os rendimentos da coroa provenientes do tabaco
foram de 66.000 cruzados, em 1698 eram de 1,6 milhões de cruzados e em 1710 eram
superiores (o dobro) aos do quinto do ouro (Disney, 2009, p. Ibid.).

Outra das características do cultivo do tabaco era a de depender da criação de gado, o


seu estrume para o adubar das terras e as suas peles para a embalagem.

142
Alguns investigadores afirmam que a habituação é mais devida à inalação do fumo que aos efeitos da
nicotina, mas esta é uma outra questão.

67
Portugal Fora da Europa.

Este facto conduziu à expansão da actividade de criação de gado143. Durante o século


XVIII as peles representavam cerca de 5 a 6% das exportações do Brasil para a
Europa(Disney, 2009, p. 266).

O Ouro e as Pedras Preciosas

Até ao início do século XVIII a economia colonial no Brasil assentava nas três
actividades referidas – açúcar, tabaco e gado que eram, com excepção do gado,
"estancos" 144 e eram exportados para Lisboa e daí para a Europa.

Entretanto, entre 1693 e 1696 foram encontrados abundantes depósitos aluviais de ouro
em diversos locais do interior sudoeste145, centrados no maior depósito, o do Ribeirão
de Nossa Senhora do Carmo146 no território hoje conhecido pelo nome de Minas Gerais.
Esta região encontrava-se entre 150 e 300 quilómetros a norte do Rio de Janeiro
(Disney, 2009, p. 267).

Durante a primeira metade desse século foram descobertos mais aluviões de ouro nas
regiões de Goiás, Mato Grosso, S. Paulo e Baía, mas os mais abundantes eram os de
Minas.

A descoberta de aluviões e sua exploração cresceu de forma estável até 1720, tendo
acelerado no período desde esse ano até 1750 e começado a declinar após este ano. Não
é conhecida com absoluta certeza a quantidade minerada147, mas calcula-se que tenham

143
Mas, o gado era principalmente para consumo interno do Brasil. Ele era ali utilizado pelo couro para
vestuário, embalagens e outras aplicações, para força motriz nos engenhos de açúcar e, obviamente, pelo
leite e pela carne para alimentação humana. Como o consumo era maioritariamente interno a actividade
da criação de gado tinha uma vantagem clara sobre as restantes produções do Brasil. Não estava sujeito às
flutuações de preços no comércio internacional e isso levou à sua expansão especialmente no interior
sertanejo(Disney, 2009, p. Ibid)
144
Monopólios reais ou legais.
145
Muitos autores brasileiros atribuem aos bandeirantes estas descobertas.
146
Onde, mais tarde, D. João V fundou a cidade e o bispado de Mariana, sendo este o sexto criado no
Brasil e que teve por primeiro prelado um tio sexto-avô do autor (ver "D. Frei Manuel da Cruz O. Cist.
(1690 – 1764), 4º Bispo do Maranhão, 1º Bispo de Mariana […]")
147
Uma das razões é a da existência de contrabando ou de não declaração das quantidades mineradas. Os
próprios capitães das naus da carreira da Índia ao aportarem no Rio de Janeiro ou em Salvador a caminho

68
Portugal Fora da Europa.

chegado a Lisboa entre 18 e 20 toneladas de ouro por ano na fase de crescimento


acelerado entre 1720 e 1750148. As tecnologias utilizadas no garimpo eram pré-
industriais(Disney, 2009, p. Ibid.), com utilização de mão-de-obra escrava.

Este crescimento rápido do garimpo trouxe grandes problemas de controlo e regulação


da actividade por parte da Coroa e de cobrança de impostos. Em 1707 foi publicado um
código ou regimento mineiro, mas as autoridades não dispunham de meios para o
obrigar a cumprir149. Calcula Disney (Disney, 2009, p. 268) que a base de tributação do
quinto do ouro era apenas um terço da produção.

Em 1710 a Coroa criou a nova Capitania de S. Paulo e das Minas de Ouro que, em
1720, era dividida em duas – a de S. Paulo e a de Minas Gerais – com o objectivo de
facilitar a aplicação do código(Disney, 2009, p. 268).

Por esta altura, 1729, eram descobertas em Minas Gerais, no Arraial do Tejuco, não
muito longe dos aluviões de ouro, jazidas de diamantes. Estas eram de tal dimensão que
o Brasil se tornou em pouco tempo no primeiro produtor mundial de diamantes(Disney,
2009, p. 268).

A descoberta destas jazidas, como muitas outras acções do período colonial português
(ver (Godinho, 1981)), teve repercussões importantes na economia mundial. A
quantidade de diamantes oferecidos nos mercados aumentou de tal maneira que o seu
preço baixou consideravelmente(Disney, 2009, p. 268).

Em relação aos diamantes a Coroa portuguesa foi muito mais cautelosa que em relação
ao ouro. Proibiu, devido, também, àquela queda de preços, a extracção de diamantes por
6 anos. A região diamantífera, no norte de Minas Gerais, na Serra do Frio 150 foi
demarcada e fechada. Voltou as ser aberta à mineração em 1740 e esta criada em

de Lisboa, trocavam mercadorias que traziam por produtos brasileiros, não só ouro, comércio que não
registavam.
148
Quer dizer, num só ano mais ouro que o vindo da Mina em vinte anos.
149
Na investigação para a elaboração da biografia do meu tio-avô referida duas notas atrás, encontrei no
copiador das suas cartas e em documentos existentes no Arquivo Histórico Ultramarino relatórios por ele
enviados ao Conselho Ultramarino sobre este tema, e muitas vezes usou o púlpito e as devassas para
exortar e obrigar ao cumprimento das obrigações fiscais sobre o ouro.
150
Onde hoje podemos encontrar, muito apropriadamente, a cidade de Diamantina que foi baptizada com
esse nome na altura.

69
Portugal Fora da Europa.

monopólio real e foi colocada sob a administração de um intendente 151 com plenos
poderes (não foi permitida a criação de Câmaras nem criados tribunais) nomeado pela
Coroa, através do Conselho Ultramarino152, apoiado por tropas regulares (duas
companhias de Dragões), ficando conhecida pelo nome de Distrito Diamantino onde
ninguém podia entrar sem autorização escrita do intendente(Disney, 2009, p. 258).

Em 1771, no governo do Marquês de Pombal, foi criada a Real Extracção, dependente


de uma Junta da Administração Geral dos Diamantes que respondia directamente de
Lisboa.

Uma das consequências da descoberta de ouro e diamantes em Minas Gerais foi o


substancial aumento da imigração para aquela região. Calcula-se que em 1739 a
população de Minas Gerais se situasse entre 200.000 e 250.000 habitantes tornando-a a
capitania mais populosa do Brasil e levando à criação da Diocese de Mariana, referida
em nota acima, em 1748(Disney, 2009, p. 269).

Outra consequência importante foi o aumento da importação de escravos para outras


zonas do Brasil fazendo subir os custos das plantações. Por outro lado o explosivo
aumento da população trouxe novas oportunidades comerciais fazendo aumentar as
importações. Em termos de receitas o açúcar continuou a ter a maior parte com 50%,
agora seguido do ouro com 48%(Disney, 2009, p. 269).

Para o Brasil a descoberta dos aluviões de ouro permitiu a sua integração nos fluxos de
comércio mundial já que aquele aumento das importações foi directo sem passagem por
Lisboa.

Para Portugal foi aquilo a que eu, informalmente, costumo chamar a segunda desgraça
que impediu um equilibrado desenvolvimento do País metrópole.

Com efeito (Disney, 2009, p. 269) escreve:

151
O primeiro parece ter sido o Engenheiro militar Rafael Pires Pardinho, desembargador, ouvidor, um
dos responsáveis pela delimitação da área (Ver Revista do Arquivo Histórico Mineiro, n.º14, 1909, a
páginas 625-787, Memorias do Districto Diamantino da Comarca do Serro Frio).
152
Criado em 1643 por D. João IV para a administração das questões coloniais, sendo primeiro presidente
D. Jorge de Mascarenhas, marquês de Montalvão. Extinto em definitivo em 1868.

70
Portugal Fora da Europa.

"[…]it was Brazilian gold which was a lubricant for Portuguese


Atlantic commerce, financed the administration of Portugal's
south Atlantic Empire, and permitted Dom João V to rule as an
absolute monarch. It also saved Portugal from a more
aggravated balance of payments in Europe. But the price
exacted on the mother country for this fortuitous windfall of the
gold strikes in Brazil was high. Nations other than Portugal were
the prime beneficiaries of the flood of Brazilian gold. It has been
said that from between one-half and three-quarters of all gold
entering the Tagus, went to England. Much was squandered on
projects of immediate personal gratification rather than on long
term investment in the nation's future, the stimulus for
embryonic manufacturing enterprises was weakened […], the
transition from a barter to a monetary economy was slowed,
dependency on Great Britain increased, and the State was
permitted the luxury of postpone the introduction of much
needed reforms."

O Rei e a Corte permitiram-se gastos sumptuários, desde o Convento de Mafra e os


palácios, às roupas, às festas e às extravagantes embaixadas a Roma que trouxeram o
título de Majestade Fidelíssima153. Portugal reinava na música com constantes concertos
por executantes estrangeiros e a subsidiação de compositores nacionais154.

Portugal esmerou-se naquilo a que Thorstein Veblen155 chamou depois consumo


conspícuo (Veblen, 2009 [1899], pp. 49-69), a realização de consumo com puros fins de
ostentação e de demonstração da pertença a uma elevada classe social. O povo?
Continuava pobre e os campos por cultivar como dizia séculos antes André de Resende.

Estamos aqui perante o segundo caso de "dutch decease" a ocorrer em Portugal. Mais
uma vez se perdeu a oportunidade de modernizar, e de, no caso, acompanhar a

153
Para não ficar atrás da Majestade Católica (título conhecido como privilège du blanc em relação às
Rainhas) dos espanhóis, da Cristianíssima Majestade dos franceses e da Majestade Apostólica dos
húngaros.
154
Desde D. João IV (que aliás era um razoável compositor) que os Reis Bragança se procuravam
distinguir como mecenas da música.
155
Um dos expoentes da Economia Institucional de que muitos teóricos da EPI se reclamam seguidores.

71
Portugal Fora da Europa.

Revolução Industrial e desenvolver a economia portuguesa. Com efeito, mesmo a


burguesia mercantil que poderia ter aproveitado os benefícios da intermediação se
deixou atrair pelo consumo conspícuo.

Não foi esta a última vez. A causa da doença, nunca curada, provocou novo surto agudo
quase dois séculos depois como veremos.

Dilatar as Fronteiras de Ocupação

Relativamente cedo no período de colonização o território sob administração portuguesa


começou a expandir-se para o interior para além dos limites do Tratado de Tordesilhas,
especialmente no planalto sul a partir de S. Paulo(Disney, 2009, pp. 244, 254 e seg.),
mas, também, embora por razões diferentes, no Nordeste (Disney, 2009, p. 259).

Em S. Paulo a principal razão foi a escassez de mão-de-obra, e as entradas para o


interior fizeram-se em busca de Ameríndios para trabalhar nas fazendas(Disney, 2009,
p. 254). Localmente as "entradas" eram conhecidas pelo popularizado nome de
bandeiras sendo o primeiro termo o utilizado genericamente para as expedições de
exploração do interior ou sertão(Disney, 2009, p. 255).

S. Paulo tinha uma posição privilegiada para a realização das bandeiras, pois não tinha
obstáculos orográficos até ao Rio de S. Francisco, podendo-se daí alcançar o Rio
Tocantins e depois o Amazonas.

A bandeira era, normalmente, constituída por um pequeno grupo de portugueses e de


"mamelucos"156 com um vasto grupo de seguidores e escravos. O objectivo era o de,
como foi dito, de capturar ameríndios para trabalhar as fazendas, ou procurar metais
preciosos. Não era o que lhe é, normalmente, atribuído de explorar o sertão e estender
os domínios dos colonos.

As bandeiras gozaram, principalmente na historiografia brasileira do século XIX, de


grande prestígio e da atribuição de fins gloriosos de exploração. Parece não ser esse o

156
Mestiços de Ameríndio e branco, que normalmente tinham um estatuto social mais elevado do que os
mestiços com sangue de raça negra.

72
Portugal Fora da Europa.

caso(Disney, 2009, p. 255). Os objectivos eram os mais prosaicos referidos acima.


Acresce que a maior parte das bandeiras nem sequer eram organizadas por mateiros ou
exploradores "profissionais" e experientes – os designados bandeirantes, mas, na maior
parte dos casos, por jovens colonos recém-chegados em busca da mão-de-obra que
escasseava em S. Paulo157. Não existiu um movimento organizado de bandeiras, a sua
multiplicação é mais um exemplo de um comportamento emergente como descrito pela
teoria dos sistemas complexos.

A provisão da necessidade de a captura ser em resultado de guerra "justa" foi levantada


em 1611, o que levou à multiplicação das bandeiras e ao auge da escravatura paulista
entre 1610 e 1640.

Mas, o subproduto de exploração e dilatação de fronteiras acabou por ser útil ao Brasil
Colonial. Uma das bandeiras mais famosas foi a conduzida por José Raposo Tavares
(Disney, 2009, p. 258) que em três anos percorreu 12.000 quilómetros até ao sopé dos
Andes, regressando pelas margens dos Rios Madeira e Amazonas até à cidade de
Belém. Jaime Cortesão – citado por Disney (Ibid.) considerou-a a maior exploração
alguma vez realizada no continente americano158.

Em termos geopolíticos, esta bandeira, e outras semelhantes, acabaram por dar


profundidade geográfica às possessões portuguesas na América do Sul, obter a
percepção da extensão para Oeste do continente sul-americano e acabar por contribuir
para a definição das futuras fronteiras do Brasil com os países que tinham sido
possessões espanholas.

No Nordeste o objectivo das entradas para o interior, especialmente em Pernambuco, foi


completamente diferente. Elas foram realizadas pelos criadores de gado em busca de
pastagens, criando, no entanto e como em S. Paulo, conflitos com os Ameríndios159-

157
As bandeiras, dado o seu objectivo de escravizar os Ameríndios, tiveram sempre a o oposição dos
Jesuítas que os pretendiam confinar aos seus aldeamentos, anexos às missões com fins de conversão. Os
regimentos coloniais proibiam a escravatura dos Ameríndios após 1570, a não ser no caso der em
resultado de guerra "justa", termo de difícil definição que os colonos aproveitavam a qualquer pretexto.
Esta proibição foi reforçada em 1609 dando apenas aos Jesuítas o poder de capturar Ameríndios para os
seus aldeamentos.
158
Ainda mais extensa que a de Lewis e Clark ma América do Norte.
159
Uma das situações que os colonos, contra a opinião dos Jesuítas, consideravam ser motivo de guerra
"justa".

73
Portugal Fora da Europa.

Estas explorações tiveram início em meados do século XVI e foram interrompidas pela
ocupação holandesa. Desenvolviam-se, especialmente, ao longo do Rio S. Francisco e
os confrontos com os Ameríndios que os colonos consideravam guerra "justa" quase
levaram à exterminação destes. Mas, o resultado foi o do controlo português sobre uma
maior extensão de território.

No Maranhão e no Pará, mais a norte, a densidade da floresta 160 levou a uma diferente
forma de exploração conduzida pelos Jesuítas e pelos Franciscanos com objectivos de
conversão dos Ameríndios(Disney, 2009, p. 261). Os Jesuítas reclamaram ter
conseguido a conversão de cerca de 200.000 nativos161. No século XVII esta acção dos
Jesuítas levou à irritação dos colonos e à sua expulsão por estes do Maranhão e Pará que
só acabou quando a Coroa acabou por apoiar a Companhia de Jesus em 1686(Disney,
2009, p. 261) após décadas em que ignorou a acção dos colonos.

De qualquer modo, em 1755 a administração dos Ameríndios foi retirada aos Jesuítas162
e entregue às autoridades civis. A inépcia e a corrupção destas foram extremamente
prejudiciais aos Ameríndios e acabou por ser revogada em 1798(Disney, 2009, p. 262).

2.2.4 A CONFERÊNCIA DE BERLIM, A CORRIDA PELA POSSE DE ÁFRICA E O


ULTIMATO

Após a independência do Brasil e a redução do Estado da Índia aos enclaves no sub-


continente indiano, a Macau e a Timor, Portugal teve de repensar a sua política
ultramarina. O que lhe restava para além disso eram as ilhas atlânticas e as possessões
nas costas ocidental – Guiné, Mina e Angola – e oriental – Moçambique – de África.
Com excepção de Cabo Verde e S. Tomé(Lucas, 1993, pp. 292-293) (Marques A. d.,
1998, p. 194), o domínio português era exercido apenas nos entrepostos costeiros, ainda
que muitos colonos se tenham aventurado em explorações pelo interior.

160
E portanto a inexistência de pastagens.
161
Em meados do século XVIII por essas paragens e nessa missão andava, por exemplo, o famoso padre
Malagrida, depois vítima da inimizade do Marquês de Pombal. Ver "D. Frei Manuel da Cruz O. Cist.
(1690 – 1764), 4º Bispo do Maranhão, 1º Bispo de Mariana […]", (Newitt, 2009, p. 147)
162
Como seria de esperar do Marquês de Pombal.

74
Portugal Fora da Europa.

O Terceiro Império

Com a ascensão do liberalismo e a implementação da monarquia constitucional a


política colonial mudou. Havia, em certos sectores da sociedade portuguesa, a ideia, que
ia sendo promovida, de que África podia ser o "Novo Brasil"(Newitt, 2009, p. 187), o
"Terceiro Império" (Lucas, 1993, p. 285) (Newitt, 2009, p. 186), depois da queda da
Índia (o Primeiro) e da independência do Brasil (o Segundo) referidas acima.

Durante algum tempo após a outorga da Constituição de 1822 foram múltiplas as


hesitações de Portugal quanto ao destino das suas possessões ultramarinas (Martinez,
2010, pp. 602-604). Houve mesmo quem defendesse a venda das colónias e não se
acreditava na ideia do Terceiro Império. Não se julgava útil a exploração das terras
africanas e ainda após as políticas implantadas por Sá da Bandeira (abaixo), já no fim do
século XIX é sintomática a intervenção do deputado Ferreira de Almeida163 na Câmara
de Deputados em 1891 citada por (Martinez, 2010, pp. 602, nota) em que afirmou a
respeito de Moçambique:

" [a venda é] medida de utilidade para o nosso decoro, e de


altíssima conveniência para as nossas condições económicas e
financeiras"164.

Não estava sozinho ao que parece porque, segundo Soares Martinez na mesma nota o
diário parlamentar afirmava que o orador foi muito cumprimentado. Voltaremos a esta
questão adiante a respeito das posições estrangeiras acerca de Portugal em África.

Uma ideia da nova política ultramarina foi primeiro apresentada por Fernandes Tomás
em 1921, que, enquanto deputado, em discurso às Cortes Constituintes propôs algumas
medidas no âmbito dos direitos alfandegários e das ajudas à navegação (Lucas, 1993, p.
294). Mas foi o impulso do Visconde de Sá da Bandeira, quando membro do governo
do Conde de Lumiares em 1836 (Lucas, 1993, p. 299), e o seu plano de fomento
ultramarino quando Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e do Ultramar no
governo do Duque de Loulé em 1856 (Lucas, 1993, pp. 294-295) que alterou a política

163
Maçónico de influência e antigo Governador de Moçamedes, que viria a ser Ministro da Marinha.
164
No conjunto de todas as colónias neste período as receitas eram inferiores aos gastos. A questão era
verdadeiramente política e de orgulho nacional.

75
Portugal Fora da Europa.

portuguesa em África no sentido de estender o domínio até então apenas costeiro pela
exploração do interior, tanto na costa ocidental como na costa oriental.

Mas, os planos de Sá da Bandeira, de forte influência inglesa, eram distintos dos da


burguesia mercantil do Porto (Lucas, 1993, p. 295) e acabaram por chocar com a
alteração da política inglesa já perto do fim do século XIX (Newitt, 2009, p. 192),
(Page, 2002, p. 221), (Lucas, 1993, p. 305 e segs.), limitando as ambições de domínio
africano de Portugal.

Além disso, outros países europeus, França, Alemanha, Bélgica, começaram a virar-se
para África(Lucas, 1993, p. 305 e segs.) (Martinez, 2010, pp. 607-611).

Cabo Verde e a Baía da Lagoa

Nesta altura Portugal dominava, em África, dois pontos nevrálgicos e de importância


geoestratégica, o porto de Mindelo em Cabo Verde e a Baía da Lagoa 165 em
Moçambique (Newitt, 2009, pp. 175-183).

Uma das grandes revoluções do século XIX deu-se nas comunicações, comboios,
barcos, colocação de cabos submarinos. Mindelo, na Ilha de S, Vicente, acabou por
desempenar um papel fulcral neste importante factor de desenvolvimento económico.
As ilhas de Cabo Verde tiveram, desde muito cedo, um papel destacado na navegação
atlântica, como ponto de escala, de encontro, de reabastecimento de água, especialmente
o porto da Praia, na Ilha de Santiago.

Mas, Porto Grande (depois Mindelo) na Ilha de S. Vicente, oferecia melhores condições
de ancoragem pela sua dimensão, profundidade e melhor resguardo, apesar de não
possuir água. Primeiro, ingleses e americanos quiseram colocar aí depósitos de carvão.
Depois, o Correio Inglês escolheu-o como escala precisamente para armazenagem e
abastecimento de carvão para os seus navios de correio no caminho do Cabo e da Índia.

O Mindelo expandiu-se de tal modo mais do que qualquer outro porto atlântico, graças à
sua posição geográfica ideal, que no se auge em 1894 por lá passaram 2.464 barcos,

165
Depois Baía de Lourenço Marques, hoje Baía de Maputo. Em inglês Delagoa Bay.

76
Portugal Fora da Europa.

657.634 toneladas carvão. Apesar de declinar continuou com grande actividade até à
Primeira Guerra Mundial. Quando os cabos telegráficos submarinos começaram a ser
colocados nos anos de 1860, Mindelo passou a ser um local de trânsito, apoio e
derivação(Newitt, 2009, pp. 176-177) (Marques A. d., 1998, p. 203).

Mas, Mindelo sobreviveu à concorrência – Canárias e Dacar - porque era mais uma
emanação da aliança luso-britânica(Newitt, 2009, p. 177). Isto tornou-a cidade
dependente dos ingleses, mas o que é verdade é que, numa ilha sem população nativa,
Mindelo e S. Vicente povoaram-se e passaram a ser mais uma âncora de Portugal fora
da Europa166.

A supremacia marítima portuguesa assentou principalmente no domínio de portos


estrategicamente localizados. No Oceano Indico os portos que asseguraram essa
hegemonia durante os séculos XVI e XVII foram, especialmente, Malaca, Ormuz e
portos na costa do que hoje é Moçambique(Newitt, 2009, p. 178). Como se viu, durante
o século XIX o porto do Mindelo era visto como ponto-chave da navegação no
Atlântico contribuindo para o afastamento do Portugal metrópole relativamente à
Europa.

De forma quase inesperada, Portugal viu-se dono de outro porto de importância


estratégica, outra âncora longe da Europa e que o lançou, contra vontade, no teatro da
oposição entre várias potências europeias na corrida pelo domínio de África. Refiro-me
à Baía da Lagoa, referida antes, essencial ao controlo do sul de África e à manutenção
da nova supremacia no Oceano Índico, a Britânica(Newitt, 2009, p. 178).

Na minha opinião, ainda que se possa julgar, com alguma razão, que esta minha
digressão pela história da expansão portuguesa já vai longa, Portugal tinha duas opções.
Abandonar África ou teimosamente agarrar-se ao que lhe restava do Império e esperar
por um novo Brasil.

166
No século XX o sonho de Cabo Verde continuou, tendo o governo português tentado tornar o
Aeroporto Internacional da Ilha do Sal (hoje Aeroporto Amílcar Cabral), construído em 1939, num ponto
de escala nos voos transatlânticos, sendo para lá deslocado – mas, nunca instalado, equipamento de ajuda
de aterragem com baixa visibilidade, comprado primeiramente para o Aeroporto do Porto. Mas, neste
caso Dacar foi preferida.

77
Portugal Fora da Europa.

Escolheu a segunda e isso manteve-o fora da Europa167. Como tal não considero
despiciente alongar esta minha digressão, por menos importantes que os factos possam
parecer relativamente aos objectivos deste meu trabalho de investigação, porque o que
nela procuro é expor e alicerçar são as razões do longo afastamento de Portugal
relativamente à Europa168 e da criação, ou emergência, de um estado mental quase
colectivo e nostálgico de sentido de posse do Ultramar que se manteve até Abril de
1974169.

A Baía da Lagoa170 era a entrada para um vasto "hinterland" e os Ingleses cedo se


aperceberam da sua importância estratégica171. Em 1839 chegou à região Louis
Trichardt, chefe dos exploradores Bóer que procurava um porto não controlado pelos
Ingleses, mas a existência da mosca tsé-tsé nas regiões baixas junto à baía adiou o
interesse dos colonos de origem holandesa por vinte anos(Newitt, 2009, p. 180).

Mas, os Ingleses atribulam-lhe importância estratégica como entrada para as zonas altas
de pastagem da África do Sul, que se fosse explorada por outros ameaçaria os interesses
britânicos na zona. A descoberta de diamantes no rio Orange em 1866 e de filões
viáveis de ouro em 1868 nessas terras altas, tornou urgente e possível a abertura de
acessos à Baía da Lagoa. Em 1869 Portugal assinou um tratado de fixação de fronteiras
com a Republica Bóer da África do Sul que também estabelecia as condições do
comércio entre as duas regiões(Newitt, 2009, p. 180).

Com a abertura das minas de Kimberley em 1871 deu-se um surto de investimento na


África do sul e foram planeados caminhos-de-ferro(Marques A. d., 1998, p. 204) para
ligar as minas ao mar, ao mesmo tempo, os salários mais elevados nas minas

167
Os casos do Mindelo e a Baía de Lourenço Marques são paradigmáticos do apego de Portugal ao que
lhe restava do seu Império e de um sentimento nacional de posse que contribuíram para o continuado
afastamento de Portugal relativamente à Europa. Foram, por outro lado, parte do pano de fundo para a
corrida das potências europeias para África. Entendi, assim, deter-me durante algumas páginas sobre eles.
168
Considero que não posso intitular este trabalho de "O Regresso à Europa" sem ser o mais completo
possível, dentro de limites razoáveis, acerca das razões que dela o afastaram.
169
E que não tenho a certeza de que já tenha desaparecido.
170
Com águas calmas e profundas, foz de cinco rios ainda que não navegáveis, a coberto das monções já
era ponto de comércio português desde meados do século XVI, onde Portugal comprava principalmente
marfim.
171
Explorações do Comodoro Owen do Almirantado Britânico cerca de 1820 e assinou, em 1824, um
tratado de protecção com chefes nativos locais (Newitt, 2009, p. 180).

78
Portugal Fora da Europa.

começaram a atrair colonos de regiões até ao norte do Zambeze. A forma mais fácil
desses migrantes do norte chegarem às minas era através da Baía da Lagoa(Newitt,
2009, p. Ibid.).

Entretanto, com o crescimento da actividade mineira o governo britânico começou a


preocupar-se com o que parecia ser uma aliança entre os portugueses e os boers e
decidiu reavivar o tratado de 1824172 para reclamar a soberania sobre a Baía. Dada a
forte oposição portuguesa foi acordado aceitar a arbitragem da França, que reconheceu
que a soberania sobre as margens da mesma pertencia a Portugal (Newitt, 2009 p. Ibid.)
(Lucas, 1993, p. 308) (Marques A. d., 1998, p. 219).

Esta decisão arbitral alterou a trajectória política da África austral. A República Bóer
começou a construir uma via-férrea na direcção da Baía. A concretização da temida173
aliança luso-bóer, eventualidade que permitiria que estes prosseguissem políticas
contrárias aos interesses britânicos, parecia próxima da realidade (Newitt, 2009 p. Ibid.).

Para os ingleses não era aceitável que o único porto viável na costa sudeste de África
não estivesse sob seu controlo. Isso tornou-se na principal preocupação na luta pelo
domínio da região que se desenhava. A Grã-Bretanha tentou alcançar o ascendente na
região, primeiro procurando controlar a via-férrea, causa da Guerra do Transval entre
1877 e 1881, na chamada primeira guerra anglo-bóer, em que não conseguiu prevalecer.

Começou, então, em 1878, negociações com Portugal para o Tratado de Lourenço


Marques, procurando obter condições para a construção da sua própria via-férrea174.
Mas, 1881 Portugal ainda não tinha ratificado o Tratado e os ingleses foram forçados a
reconhecer a independência da República Bóer e a manter as suas preocupações acerca
da linha de caminho-de-ferro.

Mas, agora as preocupações inglesas eram acrescidas e mais sérias. A política de


expansão africana do Chanceler alemão Otto von Bismarck começou a ser mais
enérgica a partir de 1884 e tanto os Bóeres como os Portugueses começaram a antever a
possibilidade de terem um novo e poderoso aliado. Em 1886 novas descobertas de ouro

172
Ver nota acima.
173
Pela Grã-Bretanha.
174
O resultado imediato foi o de Portugal impedir que a Baía de Lourenço Marques servisse de ponto de
entrada de armas para o Zulus durante a guerra que opôs estes aos ingleses a partir de 1879.

79
Portugal Fora da Europa.

no Rand175 tornou o porto da Baía de Lourenço Marques ainda mais importante e


disponibilizou fundos para a construção da via-férrea.

A Baía era agora ponto de passagem de maquinaria industrial, de bens de todos os


géneros e de armas, assim como de milhares de emigrantes de tribos africanas do Norte.
A via-férrea ficou pronta em 1894 constituindo um importante revés para as ambições
britânicas.

O perigo da possibilidade da criação de um eixo Bóer-Alemão, os conflitos ingleses


com Portugal acerca, especialmente do controlo do rio Shire no actual Malawi, caíram
fundo na opinião pública britânica, com a imprensa a exigir que a Grã-Bretanha se
apossasse pela força da Baía de Lourenço Marques se os portugueses a não quisessem
vender. Portugal sempre recusou a venda.

O não controlo da baía era uma obsessão para o governo britânico, preocupado que a
República Bóer da África do Sul disputasse a sua supremacia na África austral e,
mesmo, ameaçasse o seu controlo sobre a colónia do Cabo. Tal levou os ingleses ao
desencadear de uma segunda guerra do Transval na tentativa de o anexar.

O fracasso desta tentativa levou a acordos Britânico-Alemães176, especialmente de um


tratado celebrado em 1898, em que se previam zonas de influência sobre Moçambique
caso Portugal entrasse em bancarrota. A parte sul pertenceria à Grã-Bretanha e, no caso
de Portugal pedir empréstimos, seja à Inglaterra, seja à Alemanha uma das condições
seria a cedência da Baía. Passou a existir o convencimento britânico de que a cedência
da Baía à Grã-Bretanha era uma questão de tempo.

Mas, Portugal estava a lucrar de forma substancial com a posse da Baía e, mesmo que
os seus ministros ou deputados, o quisessem, essa cedência era uma impossibilidade
política. Mas, sem o apoio dos Alemães, Portugal não tinha outro remédio senão aceitar
a supremacia da Grã-Bretanha na África austral. Era assim que este estado de coisas era
visto em Londres.

175
Abreviatura da designação africânder para Montanha das Aguas Brancas e localização da Cidade de
Joanesburgo.
176
A lógica era a de que, afastados os alemães, o poderio naval inglês, seria suficiente para controlar a
África austral.

80
Portugal Fora da Europa.

O governo de Londres estava, ainda, preocupado, que o poder económico Alemão


tivesse sucesso onde a ameaça das armas não tinha tido. E decidiu resolver o problema
Bóer de uma vez por todas iniciando uma nova guerra em 1899. Portugal cedeu às
pressões britânicas e fechou Lourenço Marques aos Bóeres e deixou os britânicos usá-lo
para abastecer os seus exércitos de armas.

Mas, deixou que os refugiados Bóer o utilizassem na sua fuga para a Holanda177. O
cumprimento por Portugal das exigências britânicas acabou por se revelar vantajoso e
levou à celebração de um acordo de modus vivendi, em 1901, em que era garantido a
Portugal 50% do tráfego vindo do Rand em troca do direito de recrutar mão-de-obra em
Moçambique. Parece que tudo tinha terminado bem178.

Com Lourenço Marques os Portugueses continuaram a desempenhar um papel chave na


política da África austral e obrigaram os britânicos e os sul-africanos a tratar Portugal
como igual em algumas matérias. Mais uma vez o regresso foi adiado.

A Corrida para África - Preliminares

A posse do Mindelo e de Lourenço Marques despertou a tenção das potências europeias


para a posição de Portugal em África. Mas, além disso, a partir do último quartel do
século XIX, Portugal, do domínio de portos e entrepostos costeiros, tinha-se tornado um
dos quatro detentores de territórios mais extensos em África.

A de descoberta do quinino tinha facilitado a exploração do interior e são conhecidas as


expedições de Silva Porto, Serpa Pinto, Brito Capelo, Roberto Ivens, entre outros, que
estenderam o domínio de Portugal sobre esse interior.

O primeiro a compreender as potencialidades económicas e de exploração das riquezas


de África não foi um europeu. Foi o vice-rei do Cairo, no Império Otomano, Memet Ali.
Entre 1840 e 1870 conquistou o Sudão, subiu o Nilo até ao actual Uganda e explorou o
Mar Vermelho até à Somália. O pretexto da expansão egípcia foi o tráfico de escravos e
de marfim e deu lugar a um vasto império que se desmoronou em 1876 devido à

177
Entre os refugiados contava-se o Presidente Kruger que, secretamente, embarcou num navio de guerra
holandês, depois de estar escondido em Lourenço Marques durante um mês.
178
Mas, em 1910, após a criação da União Sul-africana esta propôs à Grã-Bretanha a captura de Lourenço
Marques e, depois, da Primeira Guerra Mundial voltou a tentar, sem sucesso, que Portugal cede-se o
controlo da via-férrea como contrapartida de um empréstimo sul-africano.

81
Portugal Fora da Europa.

bancarrota, tendo os credores europeus obrigado o Egipto a retirar-se do seu império.


Talvez o primeiro exemplo de uma descolonização apressada e mal feita.

De Volta ao Terceiro Império

Em meados do século XIX os portugueses realizaram diversas tentativas não sucedidas


de transformar as suas actividades comerciais costeiras em África em domínio do
"hinterland" dos seus entrepostos. Apesar da independência do Brasil179, reconhecida
em 1825, não ter causado a receada quebra de comércio – continuando Portugal, através
do investimento, do comércio e da emigração – a ser o principal parceiro do novo
país180. E durante mais cerca de meio século continuou a ser a principal fonte de receita
para Portugal (Newitt, 2009, p. 176).

Com as alterações profundas, introduzidas pelos liberais, na ordem jurídica portuguesa,


foi posto fim à escravatura visível181 que era extremamente lucrativa, começou a tentar-
se o estabelecimento de colonos e a expansão do comércio e investimento nos domínios
africanos. Na África ocidental verificaram-se progressos com a dinamização da
exploração do café e do cacau em S. Tomé, mas, a penetração para o interior de Angola
foi menos sucedida, estabelecendo-se com sucesso, nesta fase, apenas a colónia de
Moçâmedes (1840) (Newitt, 2009, p. 177)-

Em 1870 todas as tentativas de pacificação dos povos nativos e de estabelecimento no


interior tinham falhado, especialmente na bacia do Zambeze, o que continuou a
favorecer a manutenção do tráfico interno de escravos.

179
Merriman (Merriman, 2010, p. 822) reafirma:
"After Brazil, many times the size of Portugal, proclaimed its independence
in 1822, Portugal was left with only toeholds in Africa, India and East Asia"
180
O que se receava é que, com a independência, o Brasil reduzisse muito mais as suas ligações à antiga
potência colonial.
181
Porque a escravatura disfarçada continuou a existir apesar de ilegalizada. Escreve Merriman
(Merriman, 2010, p. 847):
"Portuguese colonists imposed conditions of virtual slavery in their African
colonies in the nineteenth century. They kidnapped people from their colony
of Angola, shipped them to the coastal island of São Tomé, and forced them
to work on the cacao plantations for a "contract" period of five years, which
few workers survived. In Angola, villagers who could not pay their taxes
were required to work for the government for 100 days a year".

82
Portugal Fora da Europa.

Como se disse acima, África era olhada como o novo Brasil e como a única solução
para Portugal se libertar da dependência estrangeira. As explorações pelo interior
multiplicaram-se e em 1875 era criada a Sociedade de Geografia de Lisboa com o duplo
objectivo de angariar apoio público e de organizar expedições que tornassem o domínio
e a exploração económica do interior de África uma realidade (Newitt, 2009, p. cit.).

Não existia, na altura182, qualquer indicação de que a Grã-Bretanha, ou qualquer outra


potência europeia, tivessem a intenção de contrariar as aspirações portuguesas. Aliás,
logo após a anexação do Transval (1877) a Grã-Bretanha iniciou negociações com
Portugal apenas com o objectivo de assegurar que os sistemas hidrológicos que
desembocavam em território sob administração portuguesa continuassem abertos a esse
país. O Ministro dos Estrangeiros português da altura, Andrade Corvo, considerava esta
cooperação útil a Portugal pois poderia resultar em mais comércio e no aumento do
investimento. Andrade Corvo tinha uma visão diferente do que seria um império liberal
da que era predominante nas restantes potências coloniais, considerando que a expansão
para o interior deveria ser feita por meios pacíficos e não militares183, de forma
civilizada pondo fim a todas as formas de opressão dos nativos (Newitt, 2009, pp. 187-
188) que tinham marcado a acção portuguesa até então.

O tratado demonstra que a Grã-Bretanha estava disposta a aceitar que Portugal


prosseguisse os seus objectivos, desde que os territórios por ela adquiridos se
mantivessem abertos aos britânicos. Mas, em Portugal o tratado foi atacado pelos
republicanos que o consideravam como escandalosa subserviência e pelo próprio antigo
governador de Moçambique, Visconde da Arriaga, que tem uma posição curiosa.
Segundo ele a abertura do Mindelo tinha-o transformado numa cidade europeia e que o
tratado teria as mesmas consequências, em maior grau, para Lourenço Marques184
(Newitt, 2009, p. 188) dado que, ao contrário de S. Vicente, estava rodeado de terras
férteis e vastas.

182
Apesar das acusações por parte de missionário protestantes britânicos de que os portugueses
continuavam a praticar a escravatura.
183
Será útil contrastar esta posição com a de Leopoldo II da Bélgica e da sua "Companhia" relativamente
ao Congo.
184
Na minha opinião esta posição demonstra que Portugal quer continuar sozinho, fora da Europa.

83
Portugal Fora da Europa.

Entretanto, a expansão da economia mundial tinha começado a desacelerar. Para


Portugal desenhava-se a ameaça de uma recessão, e o comércio com o Brasil diminuiu
de 15% do comércio externo português para 10%. A economia portuguesa dependia
cada vez mais da exportação dos seus têxteis e vinhos para África, da reexportação de
bens coloniais para a Europa e das remessas dos emigrantes(Newitt, 2009, p. 189).

Todas estas fontes de receita estavam ameaçadas pela inversão do crescimento


económico mundial. A África deixou de ser a vaga, e quase romântica, esperança de um
novo Brasil, para se tornar numa absoluta necessidade como mercado essencial para a
sobrevivência de Portugal. Os tratados com a Grã-Bretanha passaram a ser parte
fundamental do garantir desses mercados (Newitt, 2009, p. 189).

Toda esta questão passou a ser central na política interna portuguesa, na oposição cada
vez maior entre monárquicos e republicanos185. Tão importante como fonte de receitas
para Portugal, o Império passou a ser ainda de maior importância para os políticos
portugueses (Newitt, 2009, p. 189).

A Conferência de Berlim – Partida para a Corrida

Portugal e a Grã-Bretanha nunca chegaram a acordo sobre o estatuto de Lourenço


Marque. Mas, ainda com a intervenção de Andrade Corvo186, foi assinado o Tratado do
Congo em 1884. Este tratado reconhecia a soberania de Portugal sobre as duas margens
do baixo Zaire, em troca de uma limitação das pretensões portuguesas na África oriental
e na bacia do Chire, a liberdade de navegação e comércio no Zaire e no Zambeze e uma
redução das tarifas aduaneiras(Newitt, 2009, p. 189).

No fundo, era o reconhecimento de Portugal como uma das principaís potências


coloniais em África. Mas, teve a oposição dos missionários e comerciantes britânicos e
em Portugal do Partido Progressista, na oposição, e dos republicanos que usaram termos
como rapina e roubo187 para designar as disposições do tratado (Newitt, 2009, p. 190).

185
É bem conhecida a utilização feita, em 1880, do centenário de Camões, e em 1888, do centenário da
viagem de Vasco da Gama.
186
A sua última em assuntos coloniais.
187
O Século de 12-2-84, citado por (Alexandre, Dias, Marques, & Serrão, 1998, p. 112)

84
Portugal Fora da Europa.

É nesta altura que resolve entrar em cena Bismarck. Segundo Merriman (Merriman,
2010, pp. 828-829) o Chanceler de Ferro sempre se tinha oposto a aventuras
colonialistas, com o argumento de que eram uma distracção188 do que era efectivamente
importante, o jogo da diplomacia na Europa em busca de uma posição hegemónica em
que estava envolvido. Sempre recusou as solicitações de missionários, comerciantes,
aventureiros e de várias instituições privadas189.

Mas, agora, em resposta ao Tratado do Congo e procurando explorar os antagonismos


entre a França e a Grã-Bretanha190 convidou191 as potências coloniais europeias192 a
Conferência de Berlim. A conferência teve início em Novembro de 1844 e prolongou-se
até Fevereiro de 1885. Portugal, que não tinha tido praticamente nenhuma relevância na
diplomacia europeia, não podia ser ignorado porque era, na realidade, o único país da
Europa com presença efectiva em África. Foi convidado, mas, a maior parte dos relatos
acerca da conferência parecem fazer crer que o seu papel foi insignificante, sendo nela
um mero peão de xadrez, com as suas reivindicações ignoradas e a sua influência
negligenciável (Newitt, 2009, p. 190).

Com o optimismo que normalmente nos caracteriza, a nós portugueses, o Marquês do


Lavradio193 afirma (em "Portugal em África depois de 1850" citado por Newitt na
página referida) que o reconhecimento da Associação Internacional 194, a pressão

188
E de que eram aventuras dispendiosas. Esta atitude de Bismarck é confirmada por (Martinez, 2010, p.
609)
189
Um aventureiro alemão, Karl Peters, criou a Companhia da África Oriental e agressivamente celebrou
acordos, estabeleceu entrepostos e ocupou território. Esta agressividade acabou por servir os desígnios de
Bismarck, porque enraiveceu os britânicos, coisa que ele tinha até então sempre evitado, e começou a
olhar para África como forma de escoar os produtos alemães. Além disso, compreendeu que o
estabelecimento de colónias nesse continente reforçaria os apoios políticos de que necessitava na própria
Alemanha. Em 1844 mandatou o seu cônsul na Cidade do Cabo para que declarasse que todas as
propriedades de um cidadão alemão a norte do rio Orange seriam consideradas protectorados alemães.
Assim, os Camarões, o Tanganica e a Namíbia passaram a gozar desse estatuto (Merriman, 2010, p. 829).
190
Segundo (Martinez, 2010, p. 610) em nota remetendo para (Renouvin, 1955, p. 40 e segs.)
especialmente para hostilizar a Inglaterra, Portugal parece que não lhe merecia grande atenção, apenas o
reconhecimento a Portugal da posse de territórios que a Alemanha considerava na esfera de influência
francesa e belga. Também se inseria nesta política a intenção de empurrar a França para África desviando
as atenções desta da Alsácia-Lorena.
191
Com a anuência da França.
192
E os Estados Unidos que, por via de Stanley tinham despertado, em termos de opinião pública, para as
questões africanas (Martinez, 2010, pp. 608, nota12)
193
Que não esteve presente. A delegação portuguesa era constituída por António de Serpa Pimentel,
Luciano Cordeiro, marquês de Penafiel (embaixador em Berlim), Carlos Roma du Bocage, conde de São
Mamede, e conde de Penafiel (Martinez, 2010, p. 612).
194
Iniciativa de Leopoldo II (Martinez, 2010, p. 612),

85
Portugal Fora da Europa.

exercida sobre Portugal para esse reconhecimento e a resistência de Portugal às


pretensões do Rei dos Belgas irritou Bismarck e perturbou a conferência, mas salvou a
maior parte dos territórios que a Associação queria retirar a Portugal (Newitt, 2009, p.
190). Como de costume mesmo perdendo, no nosso íntimo ganhamos sempre qualquer
coisa. E mesmo ignorados, tivemos uma presença clara e interventiva.

A conferência demarcou áreas de influência na bacia do Zaire que excluíram a Grã-


Bretanha e restringiram de forma séria as pretensões portuguesas. Da margem direita do
Zaire só foi reconhecido a Portugal o direito ao seu estuário. Nesta questão o grande
beneficiado foi Leopoldo II com a criação do "Estado Livre" do Congo cujo governo lhe
foi entregue195 (Newitt, 2009, p. 190) (Martinez, 2010, p. 812).

Mas, a principal decisão tomada na conferência foi a do estabelecimento do princípio de


"ocupação efectiva"196, baseada numa autoridade suficiente para fazer respeitar os
direitos adquiridos (Martinez, 2010, p. 813). Esta decisão abria a porta ao risco da perda
por Portugal de regiões já adquiridas pela descoberta, pela posse pacífica ou pela cessão
de direitos por parte dos nativos. Bastava que outra potência considerasse que a
ocupação não tinha sido continuada ou suficiente (Martinez, 2010, p. 812).

Segundo Newitt (Newitt, 2009, p. 191) Portugal tinha vantagens porque possuía
entrepostos comerciais, e mesmo povoamentos, no interior de Angola e de
Moçambique. Mas, considera que a consagração deste princípio teve consequências
imprevisíveis, Se o objectivo pretendido era o de limitar a rivalidade internacional
através de um critério universalmente aceite, o resultado foi o de uma autêntica
debandada em busca da ocupação de territórios em África.

Segundo Martinez (Martinez, 2010, p. 614) a conferência foi uma vitória para a
Alemanha que pôs na dependência do seu apoio a França e a Bélgica quanto às suas
pretensões africanas e a Portugal ficou reservado um papel secundário, de simples

195
A "Association Internacionalle pour l'Exploration et la Civilization de l'Afrique Centrale" do rei
Leopoldo queria aos direitos sobre toda essa margem, incluindo Cabinda (Martinez, 2010, p. 812). O
marquês do Lavradio, apesar da grande vitória que parece querer demonstrar, tinha razão quanto a esta
pequena vitória. Assim como, a posição de Portugal quanto à sobreposição dos interesses de uma
Associação ao dos Estados acabou por levar à criação do tal Estado Livre do Congo. Uma vitória pírrica.
196
E o da liberdade de comércio e de trânsito (Martinez, 2010, p. 613).

86
Portugal Fora da Europa.

satélite da Grã-Bretanha. A Conferência de Berlim foi uma derrota, pelo menos parcial,
para os interesses portugueses e veio a influenciar a postura posterior da Grã-
Bretanha197 para com os interesses africanos de Portugal.

O Famoso Mapa Cor-de-Rosa

Ainda segundo Martinez (Martinez, 2010, p. 614) apesar de tudo, a Conferência de


Berlim teve alguns resultados salutares para Portugal. Refere, nomeadamente, que já
antes havia intenções em Portugal de explorar as potencialidades africanas dando como
exemplo o já referido decreto de Sá da Bandeira de 1836. Mas, afirma que foi preciso
que outros se interessassem por África para despertar definitivamente a atenção em
Portugal para essas potencialidades.

Ainda que a penetração portuguesa pelo interior africano fosse acanhada e que o
aproveitamento das possessões costeiras fosse frágil, ninguém conhecia melhor a África
do que os portugueses. Apesar da troça de que era alvo de nacionais de outros países
acerca da pobreza e da anarquia dos portugueses, Portugal dominava os estuários dos
principaís rios, a nossa presença vinha de há muito tempo e ainda que os nossos
povoamentos fossem dispersos detínhamos uma facilidade de comunicar com os povos
nativos que nenhum outro povo tinha, isso dava a Portugal um prestígio local difícil de
igualar. O que era preciso era vontade e melhor organização(Martinez, 2010, p. 615). Se
isso fosse alcançado não eram os condicionalismos externos que iam impedir Portugal
de construir o pretendido Terceiro Império, porque se dispunha dos meios necessários.

A partir das posições detidas nas duas costas era necessário, à luz da Conferência de
Berlim, percorrer um vasto "hinterland" cuja posse só caberia a Portugal se existisse
ocupação efectiva. Eram, entretanto, terras pelas quais nenhuma outra potência tinha,
ainda, demonstrado interesse e bastava cumprir, ainda que com alguns custos e
sacrifícios, o art.º 54º do Acto Geral da Conferência, ou seja, demonstrar autoridade
suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos (Martinez, 2010, p. 615).

O que interessava era juntar os territórios já detidos em Angola aos detidos em


Moçambique. Era esta a ideia expressa no Mapa Cor-de-Rosa constante das convenções
celebradas com a França e com a Alemanha em 1886. O plano expresso no Mapa

197
Que precisava da Alemanha para fazer valer as suas pretensões sobre o Egipto.

87
Portugal Fora da Europa.

necessitava de apoios internacionais, daí a celebração dessas convenções. Não


interessava a Portugal quebrar as relações com a Grã-Bretanha, mas considerou que
estas não deveriam ser exclusivas. Até porque havendo diversas potências a disputar a
hegemonia, a Portugal importava manter relações com todas, na procura da defesa dos
seus interesses (Martinez, 2010, p. 617).

Não havia razões para qualquer potência disputar as pretensões portuguesas. Os


territórios em causa já haviam sido percorridos por portugueses, antes de o serem por
exploradores de qualquer outro país(Martinez, 2010, p. 618).

Mas, uma areia, antes um calhau, encravou o mecanismo idealizado por Portugal. Um
especulador mineiro inglês, Cecil Rhodes, instalado na Cidade do Cabo, que deu
ouvidos a estimativas de que, dada a riqueza das minas do Transval, haveria a norte
desta outros ricos filões auríferos. A zona em causa situava-se no actual Zimbabué, a
norte do rio Limpopo, constante das áreas reclamadas pelos portugueses no
Mapa(Newitt, 2009, p. 192).

Cecil Rhodes tinha criado a poderosa Companhia Britânica da África do Sul 198 com
poderes soberanos, concedidos pelo governo britânico sobre diversas regiões, como a
Bechuanalândia, sobre as quais Portugal se julgava com direitos históricos e
reivindicava uma primeira tentativa de ocupação efectiva. Cecil Rhodes ordenou a
ocupação militar destas regiões à revelia do Mapa. Além disso, convenceu o governo de
Londres a começar conversações com os chefes indígenas da região entre Angola e
Moçambique. Praticamente sozinho Rhodes começava a destruir os planos portugueses
(Martinez, 2010, pp. 618, nota). É hoje sabido que Rhodes alimentava o sonho do seu
próprio Mapa: ligar o Cabo ao Egipto.

Rhodes começou a enviar expedições militares para essas regiões, ao mesmo tempo que
Portugal mandava contingentes militares ao longo do Zambeze e do Chire. Pela
primeira vez desde o Tratado de Windsor, Portugal e a Grã-Bretanha acharam-se às
portas de uma guerra em campos opostos (Newitt, 2009, pp. 192-193). Não me parece
existir dúvidas da argúcia da visão de Cecil Rhodes, os meios usados, à revelia de

198
Conhecida como a "Chartered".

88
Portugal Fora da Europa.

convenções e ajustes internacionais, com premeditação, e ignorando direitos adquiridos,


é que foram, no mínimo, censuráveis.

O "Ultimatum199" ou a Pérfida "Albion"

Da parte de Portugal sucediam-se as expedições destinadas a assegurar a ocupação


efectiva das regiões do Mapa Cor-de-Rosa. Na opinião de (Martinez, 2010, p. 619)
raramente em Portugal se encontrou uma relação tão imediata entre um plano e o início
da sua implantação200.

Estas iniciativas portuguesas começaram, por incitamento de Rhodes, a alarmar


Londres. O primeiro-ministro britânico. Lord Salisbury201 decidiu acabar de uma vez
por todas com o plano português do Mapa. Em 1887 acusou Serpa Pinto de ter
hostilizado uma tribo que estaria sob protecção britânica e, ao mesmo tempo, insinuou
que se os militares portugueses não respeitassem os estabelecimentos ingleses do Niassa
e do Chire e que não admitiria que Portugal ocupasse qualquer território sobre protecção
britânica(Martinez, 2010, p. cit.).

Salisbury, através da sua diplomacia, reclamou repetidamente das expedições,


exagerando as circunstâncias202. Portugal, com o hábito nacional de procrastinação, nem
sempre foi pronto a responder. Segundo (Martinez, 2010, p. 680), porque,
provavelmente também necessitava, para o fazer, de informações directas do teatro das

199
O Ultimato marcou de forma definitiva o futuro de Portugal. Como escrevo a seguir, reforçou, na
mente colectiva portuguesa, a ideia da "sacralidade" dos territórios ultramarinos como parte integrante do
todo nacional. Depois, acabou por reforçar a posição no panorama político dos opositores da monarquia
constitucional. Muito foi escrito sobre o ultimato mas atrevo-me a aconselhar a leitura de (Teixeira,
1990).
200
Entre 1887 e 1890 o vale do Zambeze foi ocupado por Paiva Couceiro, o Niassa explorado por
António Maria Cardoso, o Bié ocupado por Artur de Paiva. O Barotze (na actual Zâmbia) ficou a cargo de
Paiva Couceiro. Ao mesmo tempo, inúmeros chefes nativos submetam-se a Portugal. Serpa Pinto foi
encarregado de estudar o alto Chire (rio situado em Moçambique e na Zâmbia que liga o Zambeze ao lago
Niassa) com vista à construção de um caminho-de-ferro que ligasse o Niassa ao mar. Quando a coluna de
Serpa Pinto se encontrasse com a de Paiva Couceiro, o Mapa Cor-de-Rosa começaria a tomar forma
(Martinez, 2010, p. 620).
201
Que sempre tinha sido desfavorável ao plano português.
202
Segundo (Martinez, 2010, p. 620), parece que tinha sido Serpa Pinto a ser atacado pelos nativos
instigados pelos britânicos. A cupidez é desculpa para tudo.

89
Portugal Fora da Europa.

expedições, que demoravam sempre a chegar e de apoios internacionais decorrentes dos


acordos com a França e a Alemanha203.

Portugal acabou por responder, em tom conciliatório e digno, segundo (Martinez, 2010,
p. 681), dando garantias de que os militares portugueses não atacariam estabelecimentos
britânicos, e reafirmando que a pretensão portuguesa era a de realizar a ocupação
efectiva dos territórios que lhe cabiam por tratados internacionais.

Entretanto o governo britânico celebrou acordos com chefes nativos e deu-lhes armas,
com vista a barrar o caminho aos portugueses. Os confrontos tornaram-se iminentes.
Em Janeiro de 1890, o ministro inglês em Lisboa, apresentou ao governo português um
ultimato. Nele se exigia que Portugal transmitisse instruções ao governador de
Moçambique para que as tropas portuguesas, especialmente as que estavam no Chire e
nos territórios das tribos com acordos coma Grã-Bretanha se retirassem imediatamente.
Se tal não fosse feito nesse mesmo dia o ministro inglês e toda a sua legação
abandonariam Lisboa(Martinez, 2010, p. 681).

Não havia tempo para contactar apoios externos, nem para convocar as Cortes, nem
negociar com Londres. Ou se aceitavam as exigências britânicas ou estava aberto o
caminho para o confronto militar204. D. Carlos, no trono desde Outubro do ano anterior,
reuniu imediatamente o Conselho de Estado. Neste ficou decidido que, apesar das
regiões em causa serem da esfera de influência portuguesa, e do Acto Geral de Berlim
prever a arbitragem para casos destes, não deveria haver ruptura com a Grã-Bretanha e
foram aceites as exigências do ultimato (Martinez, 2010, pp. 681-682).

Esta resposta deu carta verde para Rhodes avançar no sentido da actual Rodésia e
ocupar as regiões produtoras de cobre a norte do Zambeze (Newitt, 2009, p. 193).

A leitura da página citada de Newitt leva à conclusão de que, além de estar dentro do
direito, Portugal era capaz de avançar muito mais rapidamente pelo interior africano,

203
Enquanto missionários ingleses e tropas da "Chartered" não se encontraram com as expedições
portuguesas, toda a exploração foi pacífica, mas, depois, com diz Newitt, na página citada acima, os
confrontos sucederam-se.
204
Segundo Martinez, em nota à página citada, em S.Vicente já estava um vaso de guerra inglês e a
esquadra ancorada em Gibraltar partira para o Sul. Dizia-se que estava em Zanzibar uma esquadra pronta
a ocupar a Ilha de Moçambique

90
Portugal Fora da Europa.

além de deter estabelecimentos na região e de comerciar intensivamente com as tribos


nativas. Nenhuma outra potência europeia tinha uma presença na região que se
aproximasse, nem de perto nem de longe, da detida por Portugal. Mas, afirma ainda
Newitt, ainda assim, cedendo ao ultimato, Portugal conseguiu assegurar uma presença
em África superior à da Alemanha. Diz mais, que a zona de influência de Portugal na
África subsaariana acabou por ir muito para além das fronteiras das suas colónias no
pós-ultimato.

Os avanços de Portugal pelo interior eram tão rápidos e decisivos que tinham que ser
parados, e Rhodes conseguiu-o desta forma. O Ultimato teve consequências políticas
importantes em Portugal que não podem ser ignoradas205,206.

Quanto a Portugal, o sonho do "novo Brasil" esboroou-se, mas, ficou com uma Angola
repleta de oportunidades, e o estratégica e agriculturalmente favorecido Moçambique,
que não soube aproveitar enquanto colónias, nem descolonizar atempadamente,
protegendo assim os seus interesses.

205
E foi pretexto para Eça de Queirós escrever algumas das suas páginas mais lúcidas, corrosivas e de
leitura deleitosa. Mas, este não é o local para nos determos nestas questões. Não resisto, contudo, porque
tem incidência no que escrevi acima, a citar um artigo de Eça de Queirós na "Revista de Portugal" escrito
sob o pseudónimo de João Gomes:
"[…] O povo duro que britanizou a Índia pode talvez justificadamente
conceber, e tentar mesmo, esta aventura portentosa [ligar Alexandria ao
Cabo]. Mas, na sua execução, ele tinha necessariamente que encontrar
obstáculos – desses que eram outrora considerados pelas solenes regras do
Direito Internacional, como insuperáveis.
Portugal oferecia à Inglaterra um desses obstáculos. […] Se nós fossemos
fortes, ou se ainda reinasse o Direito Internacional, esse impedimento seria
como uma montanha que não se transpõe. Mas a ciência do Direito
Internacional acabou como a Astrologia ou a Escolástica; nós somos, por
nossa máxima culpa, deploravelmente fracos […].
E deixemos a Inglaterra, que, quieta na sua ilha, digere sombriamente, como
nação de rapina, a presa que rapinou."
Texto publicado no número 2 da "Revista de Portugal", Fevereiro de 1890 pp. 259-276. Recolhido em
"Textos de Imprensa volume VI", Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1995, pp. 79-70 e 82 para o
excerto.
206
Também (Clarence-Smith, 1985, p. 83) refere as consequências do ultimato, nomeadamente em termos
da política colonial futura, e será, também, relevante citá-lo, até porque o apego de Portugal aos restos do
seu Império, e o atrasar do regresso, parece ter saído reforçado desta humilhação nacional:
"It is difficult to exaggerate the intense humiliation felt by all classes in
Portugal at the British ultimatum. There can be no doubt that it provoked an
outburst of popular feeling which was by no means a simple reflection of
economic interests. The ultimatum placed colonialism firmly at the centre of
nationalist discourse for nearly a century, and engendered the idea that every
portion of national territory was sacred."
Uma manifestação de "swarm intelligence" que perdurou.

91
Portugal Fora da Europa.

As Colónias durante os anos finais da Monarquia e na Primeira República

A importância estratégica de Moçambique assentava no facto de Lourenço Marques ser


o porto mais próximo do Transval e, portanto, o caminho de escoamento mais
económico para os minerais que o acordo anglo-português de 1891207 tinha colocado na
posse da Grã-Bretanha. Era a alternativa mais económica ao sonho dispendioso e
logisticamente quase impossível de Cecil Rhodes em construir uma linha férrea entre o
Cabo e o Cairo e, também, à depois projectada ligação entre o Transval e o Cabo
(Newitt, 2009, p. 194).

Os portugueses dominavam a parte final do melhor acesso ao mar, e principalmente, ao


Oceano Indico. Este facto permitiu a Portugal a celebração de contractos
financeiramente muito, favoráveis, primeiro com o Rand e, depois, com a União Sul-
Africana. Esta foi a principal fonte da tão necessária moeda estrangeira (Newitt, 2009,
p. cit.).

Rhodes208, ainda antes, e depois, do ultimato que engendrara, chegou a enviar


expedições militares para obter o controlo de um corredor entre as Rodésias e o mar.
Deram-se confrontos com os portugueses em Manica e apenas a intervenção decidida de
Lord Salisbury209 conseguiu refrear a sanha dominadora de Cecil Rhodes. Este teve que
se contentar em acordar com os portugueses com a construção de um caminho-de-ferro
entre as "suas" possessões e a cidade da Beira, completado em 1898(Newitt, 2009, p.
195).

A administração do território entre o Zambeze e o rio Sabie, a norte de Lourenço


Marques210 foi entregue à Companhia de Moçambique, uma companhia majestática
fundada em 1891211. Aos poucos o seu controlo foi passando para as mãos de um

207
Celebrado depois do ultimato.
208
Consciente de que Moçambique era a saída natural e mais económica para ligar as Rodésias ao Oceano
Índico.
209
Provavelmente considerando que as suas acções anteriores tinham suficientemente ríspidas e não
querendo impedir um acordo de longo prazo com os portugueses.
210
Fronteira natural das províncias actuais de Gaza e Inhambane, a sul, e os do Manica e Sofala a norte.
Durante a guerra civil, e como curiosidade apenas, demarcava as zonas de influência da Frelimo, a sul, e
da Renamo, a norte do rio. Também conhecido como rio Sabi ou Save.
211
Com sede na Beira e financiamentos Sul-africanos, britânicos e alemães. Actualmente pertence ao
Grupo Entreposto a que deu nascimento em Moçambique e é puramente agroindustrial.

92
Portugal Fora da Europa.

financeiro belga212, estabelecido no Cabo com o apoio de capitais sul-africanos, Libert


Oury213. A postura de Oury à frente da Companhia foi de total colaboração com as
autoridades portuguesas., e sob a sua direcção começou a ser construída uma via-férrea
entre a Beira e a Niassalândia e uma ponte sobre o Zambeze(Newitt, 2009, p. 195).

Para as possessões portuguesas esta foi a era do caminho-de-ferro, que constituía a


principal fonte de receita vinda das colónias. No caso de Moçambique isto deveu-se,
como já se observou, à sua posição estratégica. Mas, a idade do caminho-de-ferro
também alcançou a contracosta, em Angola.

O cobre do Catanga dependia, em termos de escoamento, do longo caminho até ao


Cabo, tendo como única alternativa a utilização extremamente difícil do sistema
hidrográfico e do desconjuntado caminho-de-ferro do Estado Livre do Congo do Rei
Leopoldo. Em 1902 Portugal celebrou um contrato para a construção de uma linha
férrea do Catanga até ao porto do Lobito. Este contrato foi celebrado em segredo com os
exploradores de cobre, porque Portugal receava a interferência da Grã-Bretanha.
Conhecida como Caminho de Ferro de Benguela esta linha férrea, foi uma
demonstração do desejo de independência de Portugal relativamente a Inglaterra, que
considerava a sua oposição na África austral(Newitt, 2009, p. cit.).

Até à descoberta muito mais tarde das jazidas de petróleo, de diamantes e de ferro (este
também era escoado pelo Lobito), além de explorações agrícolas, esta linha foi a
principal fonte de receitas em Angola214.

Newitt (Newitt, 2009, pp. 195-196) considera que a persistência de Portugal em manter
a sua presença em África foi uma faca de dois gumes215. Por um lado, os proventos
vindos dos territórios africanos, dos emigrantes na região do Rand, salvaram Portugal

212
Nacionalizado inglês.
213
Não encontrei referência a este Oury nas mais utilizadas obras portuguesas, nomeadamente em
(Marques & Serrão, 2001) ou (Serrão, 2002 [1965 a 1971]), mas é referido em (Clarence-Smith, 1985, pp.
131-132) que o diz ser a força por detrás da Companhia a partir de 1910.
214
Segundo (Clarence-Smith, 1985, p. 82) Angola pertencia ao grupo de territórios claramente lucrativos,
o que não afirma em relação a Moçambique (p. 98) dizendo que os caminho-de-ferro eram dispendiosos,
especulativos e pouco lucrativos. No entanto, em minha opinião, como foram financiados por outros,
reforçaram a vantagem geoestratégica de Lourenço Marques e da Beira, justificando, pois, o apego de
Portugal ao território por outras razões além das referidas por aquele autor na citação da nota acima.
215
"mixed blessings".

93
Portugal Fora da Europa.

da crise financeira de 1892. Além disso, estabeleceu Portugal aos olhos da Europa como
potência colonial e afastou a receada perda de independência por união com a Espanha

Por outro, o ultimato exacerbou a já conturbada vida política interna, tanto no campo
monárquico, com o acentuar do rotativismo, como através da afirmação cada vez maior
do campo republicano. Nem o jovem D. Carlos, um rei que pouco conhecemos216, mas,
que, além do gosto pela caça, pela pintura e pela oceanografia, foi um político e um
diplomata arguto, apenas impedido de fazer vencer as suas ideias pelas desconfianças
das diversas facções monárquicas e pela subida e o quase ódio dos republicanos.

Até ao fim da Primeira República217 a situação acima descrita não se alterou


substancialmente e as operações de pacificação iniciadas antes do ultimatum
continuaram.

No Estado da Índia, reluzido, como já se viu, a Goa, Damão, Diu, ao enclave de Nagar-
Aveli e à ilha de Angediva, o problema era o da inexistência de uma soberania efectiva
e pela dependência económica relativamente à vizinha colónia inglesa (Marques &
Serrão, 2001, pp. 588-589). Existiam clivagens étnicas e religiosas importantes, entre
colonos portugueses e hindus, e entre estes. Os colonos e seus descendentes eram
geralmente preferidos no desempenho de cargos, apesar de a partir de meados do século
XIX esta situação se ter alterado com a ascensão dos canarins(Marques & Serrão, 2001,
p. 592 a 595). epidemia

Em 1895 a questão do poder, ou colonos ou brâmanes, desencadeou importantes ondas


de tensão218, alimentadas pela imprensa local219 com o aparecimento de clara oposição à
soberania portuguesa. A tensão transformou-se em revolta aberta, com a deserção de
soldados maratas armados que se juntaram aos partidários da família Ranes220 em
Satari, um concelho de Goa. A sedição conhecida pelo nome de Revolta dos

216
Ver a magnífica biografia D, Carlos, de Rui Ramos, para melhor compreender este Rei e o que ele
poderia ter feito e o que tentou fazer para acabar com o rotativismo endémico que tornava Portugal
dificilmente governável e coutada de caciques eleitorais.
217
Que Newitt liga directamente àquilo a que chama o fim do Império(Newitt, 2009, pp. 197 e segs,).
218
Ligadas, em especial, a essas diferenças de tratamento e à política de distribuição de terras.
219
Especialmente o "Brado Indiano".
220
Com longa história de oposição à soberania portuguesa a que Oliveira Marques liga o visconde de
Bardez, um brâmane.

94
Portugal Fora da Europa.

Maratas(Serrão, 2002 [1965 a 1971], pp. 170-171, Vol, 4), e os revoltosos ocuparam
diversos concelhos e prenderam diversos funcionários221.

Em termos económicos a grandeza trazida pelas especiarias tinha terminado.

A economia do Estado da Índia, era, nessas condições do fim do comércio das


especiarias, especialmente baseada na agricultura e nas salinas e em alguma indústria
para consumo local. No primeiro caso, a agricultura, que era a principal actividade da
Índia portuguesa, as principaís explorações eram as madeiras e o arroz. Era nestas que
assentavam as exportações do Estado principalmente para as possessões inglesas. As
salinas eram, igualmente, exploradas para exportação, mas, a sua administração caiu em
mãos inglesas e foram sendo sucessivamente desmanteladas(Marques & Serrão, 2001,
p. 622 a 625).

A incipiente indústria, especialmente de tecidos e de transformação de produtos


agrícolas, produzia para consumo interno e para exportação para a Índia inglesa, mas,
mesmo a pouca indústria era dominada pelos ingleses. A principal fonte de receita do
Estado da Índia, era, no entanto, a destilação de aguardentes (Marques & Serrão, 2001,
pp. 629-630).

Em termos financeiros, a Metrópole era responsável pelos eventuais dos défices e os


excedentes, se os houvesse, eram canalizados para as restantes Colónias. A partir do
inicio do século XX a situação foi quase sempre deficitária, com as despesas militares a
serem as principaís responsáveis por ela(Marques & Serrão, 2001, p. 639 a 641).

A conclusão que tiro, e outros tiraram, é que a manutenção do Estado da Índia, com
tensões sociais e étnicas importantes, e com uma situação económica e financeira

221
O Governador decretou a lei marcial, e em Novembro chegou ao território uma força militar
comandada pelo irmão do rei, Infante D. Afonso, Condestável de Portugal, sendo substituído o
Governador e concedido um indulto aos revoltosos.
O novo Governador tomou, no entanto medidas demasiado drásticas prendendo e exilando funcionários
hindus, alguns fiéis à administração e sem nenhuma ligação á revolta, reforçando a presença de colonos
na administração e aumentando os seus vencimentos. O próprio D. Afonso, em vista deste
comportamento, assumiu o governo como vice-rei e decretou uma amnistia(Marques & Serrão, 2001, p.
605 a 611). A revolta não terminou aqui e continuou até 1897 com uma nova amnistia. Durante o inicio
do século XX sucederam-se mais revoltas, a maior parte das vezes instigadas pela família Ranes. E
mesmo depois do chefe desta família ser degredado para Timor os conflitos continuaram até
1919(Marques & Serrão, 2001, p. cit. e 612 a 622).

95
Portugal Fora da Europa.

desfavorável a Portugal222, era puramente política, de manutenção de presença e de


preservação do orgulho nacional.

Dos diversos territórios que Portugal administrava no período do ultimato até ao fim da
Primeira República não se falou, ainda, da Guiné e de S. Tomé e Príncipe. Sempre na
perspectiva de fundamentar o afastamento de Portugal relativamente à Europa,
procurarei apenas destacar factos com incidência nele neste período.

As fronteiras da Guiné portuguesa foram estabelecidas por tratados com a França desde
ainda antes de 1890 e até 1929, na maior parte dos casos com prejuízo de Portugal
(Marques & Serrão, 2001, pp. 147-148), O território que coube a Portugal, apesar de
dimensões reduzidas, era ocupado por diversas etnias diferentes aguerridas223, em
constantes lutas entre si, mas, que comungavam da mesma aversão ao poder
administrativo português e aos tributos por este impostos,

Muito do final do século XIX e do início do século XX foi passado em operações ou de


pacificação ou, mesmo, de defesa do território contra ataques dessas etnias. Durante a
maior parte do período a Guiné esteve sob governo militar por essa razão. As
confrontações repetiram-se frequentemente entre 1893 e 1916 (Marques & Serrão,
2001, p. 152 a 167).

Pode perguntar-se se valia a pena defender tão teimosamente o que restava da mais
antiga base do comércio negreiro e do ouro da Mina (em conjunto com o Forte de S,
João Baptista de Ajudá, mais a sul)?

A Guiné é rica em florestas, e produtos agrícolas, nomeadamente, o amendoim, o coco,


a borracha e o óleo de palma que garantiram uma balança comercial excedentária ao
longo do período (Marques & Serrão, 2001, p. 174 a 189) garantindo uma ocupação
lucrativa. Com este comércio os impostos garantiam umas finanças relativamente

222
(Clarence-Smith, 1985, p. 82) diz que a Índia pertencia ao grupo de possessões que eram
"monumentos a glórias passadas" e que se bastavam a si próprios. Em termos financeiros parece não ter
sido este último o caso. Se examinarmos os quadros em (Marques & Serrão, 2001, pp. 637-638) a balança
comercial do Estado da Índia era claramente deficitária nos anos de 1901 a 1930.
223
Repare-se nos acontecimentos de há alguns anos com Fulas, Mandingos e, mesmo, Bijagós, além de
outros, em guerra civil procurando deter o poder em Bissau.

96
Portugal Fora da Europa.

equilibradas e, portanto, sem custos para Lisboa que se fizeram sentir apenas já depois
da revolta de 1926.

Economicamente mais importante era S. Tomé e Príncipe. Primeiro, era terra propensa
ao cultivo do cacau e do café224 (trazidos do Brasil) e com o fim da escravatura, a mão-
de-obra não escasseava com a vinda de libertos de Angola. S. Tomé chegou, com
exagero, a ser chamado de o modelo do colonialismo português (Marques & Serrão,
2001, p. 203 a 223). Em 1919 liderava a exportação de cacau a nível mundial. Uma
"jóia" a manter como remanescente do Império.

Foi, entretanto, durante os primeiros dez anos da Primeira República que se conseguiu a
ocupação efectiva da totalidade dos territórios de Angola, Moçambique, Guiné e Timor
(Clarence-Smith, 1985, p. 139). Segundo o mesmo autor (pg. citada e seguintes) a
República queria quebrar completamente com a política ultramarina do regime
monárquico. No entanto, acabou por ter de a seguir e, até, ir mais longe. Durante os 16
anos de 1910 a 1926, o governo praticou políticas de exploração claramente abusiva dos
territórios, impondo o plantio de algumas espécies225, discriminando as populações e,
também, estabelecendo áreas reservadas para os nativos e regimes de trabalhos
forçados.

2.2.5 O ESTADO NOVO E AS COLÓNIAS

A Primeira República, como é conhecido de todos os estudiosos do período, foi, em


termos políticos, mais uma versão do rotativismo da monarquia constitucional do que o
regime que os seus defensores pretendiam ver implantado, um período em que os
radicalismos e a proliferação da manifestação visível de ideologias anárquicas e do
revanchismo desgovernado226, transformaram numa realidade bem mais prejudicial a
Portugal que aquilo que quis substituir.

224
Mesmo depois da independência empresas portuguesas continuaram a manter roças e a usar S. Tomé
como um dos principaís abastecedores para as indústrias do café e do chocolate.
225
Algodão em Angola e café em Timor, por exemplo.
226
Ainda que em menor escala que no período das guerras entre liberais e absolutistas.

97
Portugal Fora da Europa.

As crises políticas, financeiras, a dependência do exterior, o descalabro orçamental


continuaram. No meio de clima de insegurança o resultado foi desastroso, ainda que os
ideais fossem louváveis. A crise financeira e de contas externas do principio dos anos de
1920 teve proporções nunca antes experimentadas. A par de outras razões, incluindo a
política colonial, conduziu à revolta de 1926, à instauração de uma ditadura militar,
primeiro, e de um regime nacionalista corporativo, depois.

Com raras excepções as colónias, e a forma por que foram administradas, contribuíram
largamente para as sucessivas crises das finanças públicas e o agravamento do défice
externo. Na sua quase totalidade as colónias recebiam mais do erário público do que
dele recebiam. Por outro lado, as receitas provindas da reexportação de produtos das
colónias caíram fortemente com a imposição por parte dos países clientes,
especialmente França, de fortes direitos na importação.

Como já foi dito a política de Lisboa de discriminação dos nativos e de diferenciação


entre "civilizados" e não civilizados, foi prática do regime. As críticas feitas por
visitantes estrangeiros227 após visitas às colónias, chegaram a provocar a discussão de,
entre diversas potências europeias, se deveria ser permitido a Portugal continuar como
poder colonial. As críticas e os debates que provocaram, terão sido uma das razões
próximas do golpe de 28 de Maio de 1926.

A política colonial saída do golpe de 1926 voltou a assentar num mercantilismo estrito,
já ensaiado por Pombal e que marcou a prática da monarquia. Salazar é, normalmente,
considerado o responsável por esta diferente política. Mas, as suas bases foram
estabelecidas pelos governos militares ainda antes de este assumir o poder no novo
regime (Clarence-Smith, 1985, p. 146).

Na esteira da depressão de 1930 e da subida ao poder de Salazar, este retomou essas


bases. Mas, foi durante a Segunda Guerra Mundial que as colónias assumiram para
Portugal a sua maior importância em todo o período do Terceiro Império(Clarence-
Smith, 1985, p. cit.). Nesta altura os laços económicos entre a "Metrópole" e as colónias
foram significativamente estreitados.

227
O mais conhecido, e que teve maiores repercussões foi o designado relatório Ross.

98
Portugal Fora da Europa.

O principal problema do novo poder era o de resolver a crise financeira das colónias,
que tinha acompanhado228 a de Portugal durante a Primeira República. Foi concedido
um empréstimo de emergência canalizado para todas as colónias com excepção de
Angola. Esta era a que apresentava os principaís problemas e foi mantida a concessão
de uma subvenção anual criada ainda na Primeira República, em 1925(Clarence-Smith,
1985, p. cit.).

As bases da nova política colonial foram implantadas pelo Ministro das Colónias da
ditadura militar, João Belo229. Postas em prática num contexto complexo a nível
internacional, com os preços internacionais dos produtos coloniais a baixarem, com
Angola afogada em dívidas e Moçambique dominado pelas empresas estrangeiras,
representaram um corte quase radical com as práticas da Primeira República(Rosas,
Serrão, & Marques, 1992, p. 336)

Esta, de acordo com os ideais republicanos, tinha promovido a descentralização da


administração ultramarina, nomeando, para Angola e Moçambique, Altos-comissários
com poderes amplos230.

João Belo tomou o caminho contrário(Rosas, Serrão, & Marques, 1992, p. 337).
Apertou o controlo do governo da Metrópole sobre os assuntos coloniais, reduzindo
essas amplas autonomias. Centralizou em Lisboa todas as decisões relativas a todos os
territórios do Império. Uma das suas preocupações principaís foi a do saneamento
financeiro das economias das colónias, a nacionalização dos seus interesses económicos
e a oposição à preponderância das conveniências estrangeiras, especialmente em
Moçambique 231.

A sua política colonial foi vertida nas Leis Orgânicas da Administração Colonial de
1926 - 1927.

228
E agravado.
229
Ele próprio militar de carreira e antigo administrador colonial.
230
O mais controverso destes, Norton de Matos, usou esses poderes em Angola procurando combater a
escravatura encapotada e promover a construção de infra estruturas.
231
Rui Ferreira da Silva em (Rosas, Serrão, & Marques, 1992, p. 359) cita o seu desabafo feito em carta
ao General Hertzog, Primeiro-ministro da África do Sul: "Maldito seja o dia em que o meu país deu
ouvidos ao Transval e foi levado a construir o caminho de ferro para a Suazilândia […]".

99
Portugal Fora da Europa.

O saneamento financeiro foi procurado através da já referida obtenção de empréstimos e


pelo controlo apertado da quantidade de moeda em circulação. Em Moçambique
promoveu a produção independente do açúcar, limitando, assim, a emigração de mão-
de-obra para a África do Sul (Rosas, Serrão, & Marques, 1992, p. 358).

Em 1930, Salazar quando assume, durante algum tempo o Ministério do Ultramar,


publica o Acto Colonial que resume os princípios das Leis Orgânicas acrescentando-lhe
alguns elementos. É uma reafirmação da ideia de que Portugal tem uma função histórica
de colonizar – "de possuir, civilizar e colonizar domínios ultramarinos" – com a ideia
base, vinda já de diplomas do tempo da Monarquia, como referido, de que Portugal não
aliena qualquer parcela do seu território ultramarino seja qual for o caso.

O Acto Colonial, que acaba por substituir parte da Constituição de 1911 e é depois
incorporado como parte integrante da Constituição de 1933, estabelece os princípios da
organização do "Império Colonial" em termos políticos, administrativos e económicos.
Destacam-se, nesses princípios, a restrição de concessões a estrangeiros – sempre que
dadas sujeitas a nacionalização – e o fim da autonomia financeira das colónias, É uma
nova fase do colonialismo português, nacionalista e centralizadora. A máquina da
propaganda do regime se encarrega de transformar numa quase "mística" a
predisposição popular para considerar as colónias como território pátrio e sagrado,
como já referido.

A revisão constitucional afirma o carácter unitário dos territórios sob administração


portuguesa, considerando Portugal uma nação pluricontinental. Entretanto pressões
externas começaram a dar à política colonial, a partir dos anos de 1950, um carácter
integracionista e uma viragem, sem precedentes, das atenções para África. O termo
colónias é substituído por províncias ultramarinas. A política face às populações
autóctones virou-se para uma tentativa de assimilação no sentido de uma maior
igualdade entre todos os "portugueses". Em 1961 a descriminação entre portugueses
brancos ou de cor, pelo menos em termos legais.

Entretanto, a entrada na EFTA, que os negociadores portugueses conseguiram previsse


um regime de excepção para o Ultramar, e no GATT, no qual não era possível tal

100
Portugal Fora da Europa.

solução, levaram à criação de uma quase ficção. Pelas mãos, ao que parece. Do Ministro
Correia de Oliveira, é criado o EEP – Espaço Económico Português, uma espécie de
zona de comércio livre ou de integração económica de todos os territórios sob
administração portuguesa. O objectivo, além de precaver a entrada no GATT, era criar,
especialmente em Angola e Moçambique, economias fortes. Tal levou ao investimento
de elevados montantes nesses territórios,

Além disso, e após, o desencadear dos conflitos com os movimentos nacionalistas em


1961, a política de assimilação e de melhoria das condições dos indígenas foi acelerada.
Diversos grupos económicos portugueses passaram a investir fortemente nos dois
territórios. Desta política, que em termos financeiros assumia carácter de empréstimo da
"metrópole", surgiu um dos problemas mais difíceis de resolver da descolonização: o
pagamento das dívidas das novas nações a Portugal232.

2.2.6 O IMPÉRIO E O TEMA DESTA TESE: ALGUMAS REFLEXÕES

Seguir a história da expansão portuguesa nesta perspectiva de ser razão para o


afastamento de Portugal233 relativamente à Europa, foi como seguir um fio de Ariana.
São numerosas as fontes secundárias onde pude buscar informação, ou seja, o labirinto é
vasto. O fio que não podia perder era o que me conduziria à demonstração e às razões
daquele afastamento, mas, além de vasto, alguns dos corredores eram quase como ecos
do canto das sereias: os factos descritos, ainda que pudessem ser secundários para o
meu objectivo, eram sedutores para um interessado pela História. Muitas vezes larguei o
fio e para eles me desviei, para reencontrar o caminho e o fio condutor mais adiante.

Não me arrependo. Se me afastei transitoriamente do objectivo, ganhei em


conhecimento, fiquei a compreender melhor o contexto, e pude imaginar, em forma de

232
A meio dos anos de 1990 ainda cheguei a fazer parte de um grupo de trabalho do Ministério das
Finanças com o objectivo de encontrar soluções para esta situação.
233
Ou mais precisamente, como procurei precisar atrás, do afastamento de Portugal relativamente a um
empenhamento activo na construção de uma identidade Europa.

101
Portugal Fora da Europa.

experiência mental234, o que poderia ter acontecido de relevo para o tema se não
tivessem ocorrido os factos que me desviaram.

Julgo que deixei claro que a expansão marítima e os acontecimentos que a povoaram
foram a principal razão para que Portugal estivesse e não estivesse simultaneamente na
Europa. Para que, até aos finais do século XX o Império fosse para Portugal mais
importante que a Europa e que houve razões económicas e de políticas para que assim
fosse.

As elites governantes de Portugal eram, na sua maioria, descendentes das belicosas


tribos germânicas que partilharam o império romano, ou de francos vindos à Ibéria para
a reconquista. Com os berberes derrotados muito cedo, espartilhado pelo grande vizinho
espanhol, com a necessidade constante de defender o seu território, quando as coisas
acalmaram a seguir a Aljubarrota a classe dirigente guerreira ficou sem o que fazer.

Avançar para Este e conquistar mais terras aos mouros não era opção, o gigante vizinho
não permitiria tais veleidades. Entretanto Portugal tinha construído uma identidade
própria, distinta da dos outros povos peninsulares, com língua e cultura diferentes e
vincadas. As elites militares ainda tiveram a ajuda235, no final do século XIV, de uma
rainha estrangeira inteligente e ciente dos anseios dessas elites e da necessidade de os
filhos se afirmarem nelas. Acabou por ser instrumental para a libertação das tensões
belicosas acumuladas. Com a sua intervenção pessoal contribuiu decisivamente para o
desencadear da aventura que despoletou tudo: a conquista de Ceuta.

À necessidade da conquista e à intervenção de Filipa de Lancastre, juntaram-se os


desejos e a ambição das classes comerciais, judeus na sua maioria, em acabar com o
monopólio do comércio do Levante por parte das Repúblicas Italianas, especialmente

234
Se Mem de Sá e o seu filho, Estácio de Sá não tivessem sido destacados para o Brasil seria ele hoje a
mesma coisa? Se os descendentes de João Ramalho, povoadores de S. Paulo, ficassem acomodados nas
suas terras, teria o Brasil a dimensão de hoje, ou teria o ouro sido descoberto? Se os Coelhos fossem
menos bons gestores no Pernambuco o que teria acontecido? Se Afonso de Albuquerque não fosse
desobediente, a doutrina da soberania marítima teria sido desenvolvida e teria existido Estado da Índia?
Se Cecil Rhodes tivesse menos ambições, o Mapa Cor-de-Rosa teria sido realizado e a República
implantada? Sem o ultimatum o império português perduraria por quase mais um século?
235
Parece que quase decisiva segundo Oliveira Martins em “Os Filhos de D.João I”

102
Portugal Fora da Europa.

Veneza. E, é claro, o ímpeto evangelizador dos dirigentes religiosos e de uma classe


governante fervorosamente católica.

Como afirmam alguns historiadores económicos portugueses (Costa, Lains, & Miranda,
2011, p. 64 a 72) as motivações para o alargar de fronteiras no sentido do mar não são
claras. Situam-se todas no campo das hipóteses. E, acrescento eu, as contribuições dos
diversos autores em que se baseia o que delas conhecemos, desde Zurara até Richard
Major, concorreu para que a bruma do mito as envolvesse.

No entanto, creio podermos assentar em três ordens de motivações: político-militares,


comerciais e religiosas. No âmbito deste capítulo, deste trabalho de investigação no seu
conjunto aliás, as motivações apenas são importantes porque existiram. Quais foram, e o
peso de cada uma delas, é importante apenas na medida em que expliquem o continuado
afastamento de Portugal relativamente à construção de uma identidade europeia durante
mais de quinhentos anos e pela influência que tiveram para o retardar do
desenvolvimento económico português durante esse dilatado período.

Mais importantes são os factos, descritos atrás, que foram justificando a teimosia de
manter o Império. O ouro da Mina, o acesso directo à fonte do comércio das especiarias,
o açúcar, o café do Brasil e de S. Tomé, o ouro e os diamantes, foram factos que para
ela contribuíram, e para o suceder de ataques agudos da "dutch desease" que atrasaram
o desenvolvimento das actividades produtivas 236.

A sucessão dos factos acabou por criar, na mente colectiva dos portugueses, a percepção
de que o que fora ganho, e mantido, era território português, sagrado e inalienável. O
que foi aproveitado politicamente durante o Estado Novo e por ele reforçado com
enérgicas campanhas de propaganda237.

236
A que se deve acrescentar a continuada dependência em termos de bens agrícolas e manufacturados
que, dada a propensão para o consumo conspícuo, provocaram a sucessão de crises da balança de
pagamentos e orçamentais.
237
Este carácter de nação pluricontinental, com os territórios ultramarinos a serem parte integrante dela,
solo sagrado e inalienável por direito histórico, constava, aliás, das disposições das Constituições de
1822, 1911 e 1933. O sentimento colectivo de que falam diversos autores, nomeadamente Clarence-
Smith, tinha, assim, expressão política no texto jurídico fundamental de Portugal. Bernardino Machado,
primeiro-ministro dos Negócios Estrangeiros da República, afirmou que "o novo governo considerava as
possessões ultramarinas património tão sagrado como o território da mãe-pátria" (Marques A. d., 1998, p.
527).

103
Portugal Fora da Europa.

E a decisão da tomada de Ceuta, a par de outras, acabou por colocar o futuro de


Portugal naquilo que se designa por “um caminho de dependência”. Segundo esta
teoria, em inglês “path dependence”, um conjunto de decisões tomado inicialmente
limita e modela a tomada de decisões posteriores, mesmo que o contexto e
circunstâncias em que o primeiro teve lugar já não sejam relevantes. Este “caminho de
dependência” apenas será possível de interromper com uma drástica alteração
institucional, que em Portugal acabou por ser o 25 de Abril e as alterações institucionais
dele resultantes.

A corrida para África nos finais de oitocentos e o ultimatum238 fizeram, visivelmente,


prolongar o colonialismo português para além do que teria sido a sua vida útil, medida
pelos padrões europeus239. Parece que existiu o fado de, se fomos a primeira, sermos,
também, a última potência colonial. Um destino que resultou de muitas contribuições,
mas que existiu.

O que, para mim, me parece importante e que me levou a alongar esta parte da execução
do meu projecto, é que existem nexos de causalidade entre muitos dos factos da
realidade da expansão do império e a teimosia em o manter, por um lado, e o relativo
atraso com que Portugal se desenvolveu económica e socialmente.

Este desenvolvimento, a que chamei europeização, porque coincidiu com as últimas


décadas do império, e com uma participação mais intensa de Portugal na construção de
uma ideia ou identidade chamada Europa foi, a todos os títulos, notável. E a alteração
dos mercados do comércio externo foi, como procurarei provar, uma das faces deste
desenvolvimento.

A troca dos mercados coloniais pelo mercado europeu é uma das expressões mais
visíveis, creio, da modernização de Portugal. Não se pode dissociar de um contexto
histórico, no caso, da criação e manutenção de um império ultramarino, os factos que o
alteraram.

238
O ultimato reforçou o “caminho de dependência” em que Portugal estava, quando poderia ter sido o
pretexto para a revolução institucional necessária para o interromper.
239
Ou pela pratica de outras potências coloniais.

104
3. RELAÇÕES INTERNACIONAIS E ECONOMIA

Montesquieu escreveu (Montesqieu, 1979 [1748], pp. 10, 2. vol):

"L’effet naturel du commerce est de porter à la paix. Deux


nations qui négocient ensemble se rendent réciproquement
dépendantes : si l’une a intérêt d’acheter, l’autre à intérêt de
vendre; et toutes les unions sont fondées sur les besoins
mutuels."

Estas palavras de Montesquieu tem sido usadas por diversos economistas políticos para
defender que o comércio externo tem vantagens de ordem moral ou intelectual, como
eram designadas por John Stuart-Mill:

"But (3) the economical advantages of commerce are surpassed


in importance by those of its effects which are intellectual and
moral. It is hardly possible to overrate the value, in the present
lowstate of human improvement, of placing human beings in
contact with persons dissimilar to themselves, and with modes
of thought and action unlike those with which they are familiar.
Commerce is now, what war once was, the principal source of
this contact. Such communication has always been, and is
peculiarly in the present age, one of the primary sources of
progress. Finally, (4) commerce first taught nations to see with
goodwill the wealth and prosperity of one another." Principles Of
Polítical Economy, Livro III, Capítulo XIII, §5240.

Mas, aquele parágrafo de Montesquieu pode muito bem ser considerado, na minha
opinião, como uma das primeiras referências feita às estreitas ligações existentes entre
os fenómenos económicos e os fenómenos políticos.

240
Versão do Projecto Gutenberg.

105
Relações Internacionais e Economia

Por outro lado, o texto de Stuart Mill, também acentua os laços que existem entre a
esfera do económico e a esfera do político.

Aliás, tanto os filósofos morais do Iluminismo como os construtores da Economia


Política, preocuparam-se não só com os fenómenos que mais tarde, especialmente após
a revolução neoclássica marginalista iniciada, especialmente, com Jevons e Walras,
conduziram à Ciência ou Teoria Económica, mas, com os fenómenos de maior alcance e
menos ligados à racionalidade dos agentes e mais à cooperação que eram características
da Economia Política.

A este propósito será útil ler (Palan, 2005 [2000], pp. 5-10) acerca da diferença entre
Teoria Económica e Economia Política. Usando o texto de uma conferência de Paul
Krugman em que este afirma que a Teoria Económica241 trata do que os "indivíduos"
fazem, não das classes nem das "correlações de forças"; que considera os indivíduos
como defensores dos seus próprios interesses; que os indivíduos são inteligentes, ou
seja, que as oportunidades óbvias de obtenção de ganhos não são por eles ignoradas;
está preocupada com a interacção desses "indivíduos".

Palan (Palan, 2005 [2000], p. 9) conclui que se a Teoria Económica trata dos indivíduos
e não, como diz Krugman, de classes ou de "correlações de forças" então:

"[…] by default Krugman offers a good definition of what


polítical economy is about. […] we may say that polítical
economy as opposed to standard economics is about social
classes, states and "correlations of forces", not about the
individual. Polítical economy, then, centres precisely on those
topics and issues that standard economics ignores"

E, na realidade, o presente trabalho de investigação, não ignorando os relevantes


instrumentos e mecanismos tratados pela Teoria Económica em partes substantivas do
seu desenvolvimento, procura abordar o tema que se propõe tratar tendo,
particularmente, em conta o significado e a importância para o tema em análise das
correlações de forças, dos estados e das suas relações com os mercados, da política por

241
Economics

106
Relações Internacionais e Economia ”

detrás dos fenómenos económicos, dos determinantes das decisões políticas com
relevância económica.

A Encyclopedia Britannica (Encyclopedia Britannica Online, 2011) define economia


política como
"Polítical economy, branch of social science that studies the
relationships between individuals and society and between
markets and the state, using a diverse set of tools and methods
drawn largely from economics, polítical science, and
242
sociology."

A IMPORTÂNCIA DA ECONOMIA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Economides e Wilson (Economides & Wilson, 2001) procuram salientar que existe uma
dimensão económica importante nas Relações Internacionais. Em (Economides &
Wilson, 2001, p. 3) interrogam-se:

"Some of the most important issues on the current international


agenda, though not exclusively concerned with economics,
revolve around or hinge upon economic questions: how best can
the West assist the growth of democracy and facilitate the
transition from a centrally planned to a market economy in

242
E continua: […] Polítical economy thus can be understood as the study of how a country—the public’s
household—is managed or governed, taking into account both polítical and economic factors. […]The
distinction between economics and polítical economy can be illustrated by their differing treatments of
issues related to international trade. The economic analysis of tariff policies, for example, focuses on the
impact of tariffs on the efficient use of scarce resources under a variety of different market environments;
[…] Different analytic frameworks examine the direct effects of tariffs as well as the effects on economic
choices in related markets. Such a methodology is generally mathematical and is based on the
assumption that an actor’s economic behavior is rational and is aimed at maximizing benefits for himself.
Although ostensibly a value-free exercise, such economic analysis often implicitly assumes that policies
that maximize the benefits accruing to economic actors are also preferable from a social point of view.
In contrast to the pure economic analysis of tariff policies, polítical economic analysis examines the
social, polítical, and economic pressures and interests that affect tariff policies and how these pressures
influence the polítical process, taking into account a range of social priorities, international negotiating
environments, development strategies, and philosophical perspectives. In particular, polítical economic
analysis might take into account how tariffs can be used as a strategy to influence the pattern of national
economic growth (neo-mercantilism) or biases in the global system of international trade that may favor
developed countries over developing ones (neo-Marxist analysis). Although polítical economy lacks a
rigorous scientific method and an objective analytic framework, its broad perspective affords a deeper
understanding of the many aspects of tariff policy that are not purely economic in nature."

107
Relações Internacionais e Economia

Eastern Europe and the former Soviet Union? Do economic


sanctions work? What are the merits and demerits of further
integration within the European Union and the creation of a
single European currency? […]"

E mais adiante:

"It should also be remembered that the questions that most


exercise the minds of governments are those concerned with
economic growth, development, price inflation, unemployment
and other economic considerations"

Acrescentarei a estas considerações que as principaís preocupações dos governos


europeus têm hoje a ver com a resolução de importantes desequilíbrios económicos
como os défices orçamentais, a excessiva divida externa e os défices das balanças de
transacções correntes, a chamada "crise da zona euro".

Mas, como referem também Economides e Wilson (Economides & Wilson, 2001, p. 4)
questões importantes de política que aparentemente não relevam do económico acabam
por ter importância económica: por exemplo, a ajuda humanitária ou as missões de paz
da ONU. Se mais não for porque precisam de ser financiadas.

No artigo já referido de Susan Strange (Strange, 2002, pp. 187-196) esta, além de referir
a existência de um afastamento entre a teoria económica internacional, por um lado, e as
Relações Internacionais e a EPI ortodoxa, por outro, refere um conjunto de mudanças na
economia internacional que afectaram as relações internacionais. Essas mudanças são
mais razões para que a dimensão económica seja um determinante decisivo da forma
como se desenvolvem as relações internacionais243.

São três as mudanças referidas por Strange. Em primeiro lugar, os efeitos directos nos
Estados, dado o seu envolvimento conjunto na rede económica internacional em
expansão. Referindo outros autores refere que esses efeitos são de três tipos sendo um
deles os efeitos "perturbações", resultado dos efeitos de alterações ocorridas
243
Em conjunto com outra sua obra (Strange, 1994) este artigo lança as bases de uma nova visão sobre a
nascente disciplina de EPI que abordarei no subcapítulo seguinte.

108
Relações Internacionais e Economia ”

externamente sobre uma parte importante da economia interna do estado no emprego,


nos preços, nas taxas de juro ou sobre as reservas de divisas, nomeadamente.

A segunda mudança é designada por Strange como os efeitos "obstáculo", em que a


sensibilidade mútua entre economias nacionais leva ao desfasamento ou à diminuição
na eficácia das políticas económicas nacionais. O exemplo que usa é o de uma política
monetária ou de crédito restritiva destinada a contrair a procura interna leva (se não for
contrariada) à entrada de capitais estrangeiros que tenderão a obstar o alcançar dos
objectivos desejados,

Por fim, Strange refere as políticas competitivas (usualmente designadas de "beg-thy-


neighbour") que implantadas com o objectivo de defender os interesses económicos
nacionais acabam por prejudicar as economias de outros países, levando a possíveis
conflitos.

O pensamento de Susan Strange expresso nas duas obras referidas acabou por alterar o
panorama da EPI, cavando um fosso entre os seus teóricos americanos, ou ortodoxos e
seus seguidores, e os teóricos ingleses, como já referi e irei desenvolver no subcapítulo
seguinte.

A incapacidade da Teoria Económica para se ocupar das relações económicas entre


indivíduos e sociedade e entre estados e mercados e a inabilidade da disciplina de
Relações Internacionais em tomar em devida consideração os fenómenos económicos,
faz, assim, ressurgir a Economia Política dos clássicos como Adam Smith, agora com
uma nova encarnação: votada ao estudo da importância dos fenómenos económicos na
esfera das relações internacionais.

ESCOLAS DE PENSAMENTO EM EPI – PRIMEIRA ANÁLISE

Esta questão do regresso às aproximações típicas da Economia Política não é


consensual entre os autores e investigadores de EPI. Como referi acima desde Gilpin
(Gilpin, 1987) que o estudo da EPI tem sido considerado como partindo de três pontos
de origem ideológicos: o liberal, o mercantilista ou nacionalista e o marxista.

Mais recentemente, diversos autores preferem dividir as aproximações ao estudo desta


subdisciplina entre a escola americana e a escola inglesa, aproximações fundadas em

109
Relações Internacionais e Economia

diferentes escolhas metodológicas (Cohen, 2008) (Ravenhill, 2008) (Watson, 2005). No


entanto, esta distinção não tem uma fronteira definida (Ravenhill, 2008) tendo as
aproximações de cada escola elementos que se encontram na outra.

Em (Ravenhill, 2008) e (Watson, 2005) propõe-se uma diferente distinção: entre a


escola "International Organizations", largamente baseada nos trabalhos dos principaís
autores que publicam nesta conhecida revista, especialmente Keohane, e que aborda a
EPI do ponto de vista da escola americana com elementos metodológicos da escola
inglesa; e a escola da Economia Política, baseada na escola inglesa, principalmente nos
trabalhos de Susan Strange, com elementos da escola americana.

Matthew Watson no seu artigo em(Ravenhill, 2008) e no seu livro (Watson, 2005) usa
uma distinção ligeiramente diferente: a escola das Relações Internacionais por oposição
à escola da Economia Política.

É esta discussão e diferença entre aproximações244 que o próximo capítulo procurará


descrever, especialmente no que releva para a dimensão económica das relações
internacionais de Portugal entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a adesão à CEE.

3.1 Economia Política Internacional

O QUE É A EPI?

Recorrendo de novo à Encyclopedia Britannica Invalid source specified. esta define


Economia Política Internacional da seguinte forma:

"International polítical economy studies problems that arise


from or are affected by the interaction of international politics,
international economics, and different social systems (e.g.,
capitalism and socialism) and societal groups (e.g., farmers at
the local level, different ethnic groups in a country, immigrants
in a region such as the European Union, and the poor who exist
transnationally in all countries). It explores a set of related

244
Que já foi referida na Introdução a este trabalho.

110
Relações Internacionais e Economia ”

questions […] that arise from issues such as international trade,


international finance, relations between wealthier and poorer
countries, the role of multinational corporations, and the
problems of hegemony (the dominance, either physical or
cultural, of one country over part or all of the world), along with
the consequences of economic globalization"

Esta definição da Encyclopedia Britannica ‘e, parece-me, um bom resumo do que trata a
Economia Política Internacional e coincide com a ideia expressa por (Palan, 2005
[2000]) acima. No entanto, não faz transparecer todas as contradições de ordem
ontológica e metodológica, já referidas. Não refere a natureza tricotómica da literatura e
das aproximações de ensino da subdisciplina que domina o seu estudo, com uma divisão
ideológica entre aproximações liberalista, realista e marxista (ver (Economides &
Wilson, 2001)(Gilpin, 1987). entre outros) nem o facto de a EPI não se preocupar,
apenas, com a importância do económico nas relações internacionais, mas, igualmente,
com a intrusão deste sobre as escolhas políticas internas das nações quando estas
influenciam as suas relações com outras.

É esta última faceta da EPI que me parece ser mais relevante para a análise da evolução
de Portugal no período considerado neste trabalho de investigação.

DE NOVO AS ESCOLAS DE PENSAMENTO EM EPI

Entretanto, creio que as questões ontológicas atrás referidas não podem ser excluídas
deste trabalho de investigação, porque a escolha de uma ou outra posição influência os
métodos de análise e o seu escopo. Se podemos afirmar que até bem dentro dos anos de
1960, as políticas internas portuguesas tinham aspectos predominantemente neo-
mercantilistas, não significa que a aproximação a utilizar em termos de EPI deva ser a
que é tradicionalmente designada de nacionalista, realista ou mercantilista. Fazê-lo,
pelas razões que vou procurar enunciar, poderá ser limitativo em termos das conclusões
obtidas.

111
Relações Internacionais e Economia

Considero, ainda, que devo esclarecer uma questão que pode levar os meus colegas
economistas a menosprezar este meu trabalho de investigação por se afastar da
ortodoxia económica. Como afirmei noutro trabalho, a corrente dominante das teoria e
investigação económicas assenta, essencialmente, na tradição neoclássica marginalista
iniciada por Jevons e Menger245. Jevons foi bem claro no seu propósito de fazer
aproximar a teoria económica às ciências exactas em termos de método tornando-a
susceptível de assentar na utilização da matemática246. Ao fazê-lo assumiu uma posição
claramente crematística247 e limitou o campo de acção da teoria económica a uma visão
mecanicista da realidade.

Porque para o fazer teve que afastar do campo de estudo os aspectos mais complexos da
realidade económica assumindo, especialmente, a posição de que o agente económico
maximiza a sua utilidade, o que pressupõe, entre outras coisas, a assunção de que ele é
total e ilimitadamente racional. Tendo sido treinado nesta tradição, não nego a utilidade
didáctica da aproximação neoclássica, mas considero que a compreensão dos
fenómenos económicos exige a consideração do agente como tendo racionalidade
limitada o que o afasta da posição de maximizador da utilidade.

Considero, assim, que a reaproximação às posições designadas de clássicas248 de Adam


Smith, Ricardo e outros economistas anteriores a Jevons, a consideração das achegas da
nova economia institucional, da economia comportamental, da economia evolucionista
e da Teoria dos Sistemas Complexos Adaptativos são mais adequadas para conduzir a

245
Além de Walras.
246
"My theory of Economics […] is purely mathematical in character", Theory of Polítical Economy,
1871, afastando do seu enfoque tudo que não fosse redutível a esse seu propósito
247
A arte de ficar rico, segundo Tales de Mileto. Aristóteles, na sua obra Política, Capítulo VII, sugeriu
que era importante não confundir produção com um processo único de criação de riqueza. Sendo verdade
que não se pode criar riqueza sem produção, esta é um meio para atingir dois fins distintos. Por um lado, a
produção pode ser usada para criar riqueza que apenas serve para melhorar a posição de liquidez de curto
prazo dos proprietários dos factores de produção, ou seja, esta criação de riqueza tem um objectivo
principal de melhorar uma posição social. Por outro lado, a produção pode ser usada para criar riqueza
que serve para satisfazer as necessidades da sociedade, ou seja, para cumprir critérios de justiça
redistributiva, O primeiro fim deu origem, no grego clássico, ao campo da crematísitica. O segundo deu
origem à "oikonomia" (palavra devida a Xenofonte da sua obra "Oikonomikos"). A crematística refere-se,
assim, à criação de riqueza na busca do prestígio e da maximização individual da utilidade. A base da
escola marginalista. (ver (Watson, 2005, p. 28))
248
A designação de economia clássica é devida a Karl Marx.

112
Relações Internacionais e Economia ”

uma melhor compreensão dos fenómenos económicos e da sua interacção com a esfera
política249.

É por essa razão que os autores da escola da Economia Política da EPI se opõem aos
que Watson (Ravenhill, 2008) (Watson, 2005) classifica como da escola de
"International Organizations" que consideram demasiado próximos e dependentes da
teoria económica neoclássica.

Do ponto de vista ontológico, e recusando, por razões que irei analisar de forma
sumária, a classificação tradicional das correntes da EPI, é entre estas duas escolas que
terei que escolher a minha aproximação teórica ao tema. Sem me querer alongar
demasiado, tentarei criticar a tricotomia tradicional e expor os pontos de vista destas
duas últimas escolas, para, depois, tomar uma posição sobre qual utilizarei na minha
análise às relações entre o comércio externo e o desenvolvimento português no período
considerado.

O livro mais usado no ensino e divulgação da EPI ainda é, segundo Watson (Ravenhill,
2008, p. 30) ainda "The Polítical Economy of International Relations" de Robert Gilpin
(Gilpin, 1987), um texto com mais vinte anos em que Gilpin introduz a dicotomia
ideológica de liberalismo, realismo e marxismo como forma de apresentar a disciplina.

Gilpin afirma que prefere o termo ideologia ao de teoria porque cada uma delas envolve
um sistema completo de crenças acerca da natureza do ser humano e da sociedade. E vai
mais longe ao escrever (Gilpin, 1987, p. 26):

"is thus akin to what Thomas Kuhn has called a paradigm


(Kuhn, 1996)"

Segundo Kuhn o processo que permite que o conhecimento científico passe de uma
geração para outra e o seu progresso se dê é através do treino formativo que os cientistas
recebem e sugere que esse treino consiste em familiarizar os cientistas com
determinados hábitos de pensamento que são conformes com a estrutura de explicação
existente; de certo modo trata-se de desenvolver intuições adquiridas.

249
Tenho para mim que isto é tanto mais correcto quando estão em causa situações de conflito ou de
cooperação (Schmid, 2004)

113
Relações Internacionais e Economia

A forma de desenvolver essas intuições consiste em expor os jovens cientistas a


"exemplos"250. Ao resolver os enigmas contidos nos exemplos de determinada maneira
os princípios do ponto de vista científico prevalecente acerca da realidade acabam por
ficar embebidos nas mentes dos jovens cientistas (Kuhn, 1996, pp. 252-257).

Parece ser esta a ideia de Gilpin ao escrever a afirmação acima. Ao resolver um


exemplo de IPE segundo uma determinada ideologia das por eles propostas. O
investigador, ou o estudante, acaba por embeber o conhecimento e fazer avançar a
disciplina.

Só que (Watson em (Ravenhill, 2008, p. 31) afirma que analisar os exemplos segundo
as ideologias de Gilpin (e da maioria dos autores de EPI) é uma coisa muito diferente
dos exemplos científicos de Kuhn. No caso deste o poder cognitivo dos exemplos é a
sua capacidade de unificação do estado mental cientifico em torno de princípios de
explicação homogêneos e internamente consistentes. No caso das ideologias de EPI esse
efeito não é visível, porque as ideologias são apresentadas como concorrentes e não
conduzem a essa unidade. Cada uma delas assenta formas diferentes de analisar os
exemplos.

Para o liberalismo, os exemplos relacionam-se com acontecimentos da vida real em que


as organizações das economias de mercado conduziram a resultados mais eficientes.
Para o realismo, os exemplos relacionam-se com casos da vida real em que se pode
discernir a influência do poder político nos negócios económicos entre Estados. Para o
marxismo, os exemplos têm a ver com casos da vida real em que as relações

250
"exemplars" no original inglês da obra de Kuhn, cuja tradução mais correcta me parece ser "exemplos
modelo" ou "modelos exemplificativos" e talvez mesmo, em certos casos, "metáforas". Na tradução
portuguesa, Kuhn, no entanto, é dado como tendo escrito:
"[…] o quarto elemento da matriz disciplinar […]. Para esse elemento, o
termo "paradigma" é inteiramente apropriado […]. Visto que o termo
[paradigma] ganhou vida própria, usarei aqui antes o termo "exemplo".
(Kuhn, 1996, p. 251)
e acaba por dizer acerca desta aprendizagem:
"Tomando de empréstimo a útil frase de [Michael] Polanyi. Aquilo que
resulta deste processo é um "conhecimento tácito" que se aprende ao fazer-se
ciência e não pelas regras que explicam como esta se faz" (Kuhn, 1996, pp.
256-257)
A minha digressão pela filosofia da ciência e pelas questões postas pelo princípio da
falsificação, feita na Introdução, encontra aqui a sua utilidade. É pertinente para as questões
ontológicas que afectam a EPI.

114
Relações Internacionais e Economia ”

económicas de produção, distribuição e troca se relacionam com profundas estruturas da


sociedade baseadas na exploração de umas classes sociais por outras.

Mas, o resultado final dos exemplos das ideologias de Gilpin é similar ao resultado dos
exemplos de Kuhn: inculcar hábitos mentais que se tornam em atalhos cognitivos para a
compreensão dos acontecimentos que se procuram explicar. No entanto, em Gilpin sem
a unificação de pontos de vista considerada por Kuhn, antes pelo contrário, limita o
intento da explicação.

Segundo Watson (Ravenhill, 2008, p. 32) este é o problema do ponto de vista de Gilpin
(e da aproximação prevalecente ao estudo e investigação em EPI). Ao estudante ou ao
investigador é dado um menu de ideologias entre as quais escolher, em vez de lhe ser
dado campo livre para construir, a partir dos distintos pontos de vista, uma explicação
que não tenha a prematuridade do menu.

Além de isso, e como fiz notar na Introdução, existem patentes desacordos


relativamente aos rótulos a dar a cada ideologia, Segundo Watson, com excepção do
liberalismo, nas restantes enquadram-se diferentes aproximações sem que se reconheça
que elas têm diferentes origens. Sob o rótulo realismo estão consideradas ainda
aproximações como o nacionalismo, o estatismo ou o mercantilismo. Sob a etiqueta
marxismo juntam-se o estruturalismo de Lenine251, o marxismo radical e o marxismo
crítico, além do marxismo de "Elementos fundamentais para a crítica da economia
política" completado por Marx em 1858 e publicado postumamente em 1941.

Assim, a designação realismo é enganadora porque implica uma homogeneidade que


não tem, reunindo uma diversidade de posições distintas, que muitas vezes origens
histórica e doutrinais contrastantes. Segundo Watson (Ravenhill, 2008, p. 36) o realismo
devia ser, na realidade, subdividido nas quatro posições referidas acima252. Além disso,
e apesar das diferenças históricas e doutrinais, as quatro posições partilham a ideia da
procura de uma estratégia estatal óptima destinada a melhorar a acumulação capitalista
no sentido de acrescer ao prestígio e ao poder da nação nos palcos mundiais.

251
"Que Fazer", 1902 e "Imperialismo, fase superior do Capitalismo", 1916.
252
Para complicar as coisas há autores que não usam a palavra realismo para designar esta ideologia mas,
antes, as designações mercantilismo ou nacionalismo.

115
Relações Internacionais e Economia

Ora, este é apenas um dos aspectos com que a EPI se deve preocupar, porque com ele
coexistem normalmente outros. Não será errado dizer que o Portugal do Estado Novo
era nacionalista e, até, neo mercantilista mas, e principalmente no seu crepúsculo, e até
antes, não se pode negar que existiam elementos claramente liberalistas
simultaneamente.

Relativamente ao rótulo de marxismo a crítica de Watson é a mesma feita quanto ao


realismo. Mais uma vez, considera que sob este rótulo são incluídas diversas
aproximações com raízes históricas e doutrinais diferentes. Além do marxismo do
Manifesto do Partido Comunista, dos Elementos fundamentais… e do Capital de Marx,
sob este guarda-chuva abriga-se o estruturalismo iniciado por Lenine na sua busca de
internacionalizar os princípios base de Marx na tentativa de descobrir como a relação
entre burguesia e proletariado se desenvolve na ordem mundial capitalista.

Além do estruturalismo a designação também cobre o marxismo radical, mais moderno,


que acaba por constituir um grupo de posições distintas que têm em comum a tentativa
de perceber como é os desapossados o são por culpa da lógica do capitalismo e levar a
mudanças na ordem económica dominante. Já o marxismo crítico, que tem raízes na
teoria crítica da Escola de Frankfurt que postula a essencial natureza política de todas as
explicações científicas na esfera social, tem em Robert Cox253 o seu mais citado
inspirador moderno pela sua aposta na perspectiva histórica das relações entre produção
e classes sociais. A premissa principal deste sabor do marxismo é a de que as relações
sociais da produção capitalista são contingentes à natureza do mundo moderno e não um
fenómeno natural do essencial da vida económica.

Mais uma vez, estes quatro sabores do marxismo partilham de uma ideia comum, no seu
enfoque nas relações sociais e na questão de saber como é que as estratégias dos
Estados destinadas a reforçar a acumulação capitalística exigem alguma subordinação à
sociedade.

Watson afirma que o liberalismo não tem estas questões mas, partindo sempre de Adam
Smith e David Ricardo, distingue entre duas tradições posteriores distintas, o

253
(Cox, 1987). Cox é considerado, com Susan Strange, o fundador do que atrás se designou por escola
britânica da EPI. É tido como o iniciador da aproximação neo-Gramcsiana ao estudo das Relações
Internacionais.

116
Relações Internacionais e Economia ”

liberalismo ontológico e o liberalismo deontológico. O primeiro procura compreender


as características reais de um sistema liberal ideal em que os indivíduos gozam de
autonomia quanto às decisões de utilização dos seus recursos. O segundo releva as
preocupações de carácter social de modo a prevenir que a socialização das normas de
mercado conduzam a um desagregar da sociedade (representante moderno: Amartya
Sen). Esta última tradição liberal não se afastará muito do chamado liberalismo
socialmente inserido que se verá ser uma das grandes características da ordem
económica ocidental pós 1945.

UMA CLASSIFICAÇÃO NÃO IDEOLÓGICA DAS ESCOLAS DE EPI

A crítica à etiqueta ideológica de liberalismo é pois diferente das relativas ao realismo e


ao marxismo. Assenta sobretudo no facto dos chamados país do liberalismo, ou pelo
menos aqueles que os modernos liberais consideram como tal, Adam Smith e David
Ricardo, não o serem efectivamente254 porque nunca o defenderam abertamente, talvez
antes pelo contrário255.

Estas críticas deixam o investigador de EPI como um caçador sem cão. Então, se não é
correcto pensar e investigar com base na tricotomia ideológica, base da maior parte das
obras sobre o assunto, o que nos resta? Watson em (Ravenhill, 2008) propôs uma
diferente forma de encarar as teorias da EPI e em (Watson, 2005), além de criticar
severamente a tradição neoclássica256, propõe um novo esqueleto teórico257 para a
investigação em EPI.

254
Smith e Ricardo nunca defenderam de forma inequívoca o liberalismo económico. O primeiro
preocupou-se com o impacto moralmente degradante ("Theory of Moral Sentiments", 1759) sobre o
carácter dos indivíduos da sua inserção na economia de mercado (a questão da socialização referida
acima). O segundo, por estar preocupado que a acção dos "caciques" do capitalismo pudesse levar a
sociedade a funcionar como uma meritocracia.
255
Piero Saffra escreveu que Ricardo foi um proto-marxista e Paul Samuelson que Marx foi um pequeno
Ricardo.
256
Que, depois de Friedman, Tatcher e Pinochet, os intelectuais mais à esquerda insistem em chamar de
neoliberalismo, o que sempre me confundiu porque sempre equacionei o liberalismo moderno com
liberdade e humanismo, mas já entendi, que o neoliberalismo representa o regresso ao primado do
mercado, supostamente defendido por Smith e Ricardo, do que, como se verá a seguir, Watson discorda,
pois considera que os economistas clássicos eram mais próximos do que poderia ser chamado um
liberalismo socialmente inserido.
257
framework

117
Relações Internacionais e Economia

Além do trabalho realizado por Watson existem outras tentativas de ultrapassar as


limitações da tricotomia ideológica. Assim, Denemark e O'Brien(Ravenhill, 2008, pp.
49-50)258 propuseram uma distinção entre EPI tradicional e EPI inclusiva. A primeira
teria as mesmas raízes históricas das Relações Internacionais e seria, portanto, um
subconjunto desta disciplina.

Watson (Ravenhill, 2008, p. ib.) lembra que a disciplina de Relações Internacionais é


uma criação do século XX e que dar as mesmas origens históricas à EPI é ignorar toda
tradição da política económica que vem da última metade do século XVIII. O que não
acontece na realidade, porque as teorias contemporâneas de EPI reclamam essa tradição.
Logo, as raízes históricas não são as mesmas.

No caso da EPI inclusiva, Denemark e O'Brien distinguem-na, segundo Watson


(Ravenhill, 2008, p. ib.), da tradicional afirmando que as Relações Internacionais e a
EPI têm tarefas distintas. A questão de idênticas raízes históricas não se põe e o campo
fica aberto para a indisputada inclusão da tradição da política económica. Esta
aproximação recolhe em Robert Cox a tentativa de este separar a EPI de teorias que
apenas dão relevo ao Estado e, assim, dá grande importância ao papel das forças sociais
na modelação tanto do contexto como da condução das questões da economia mundial.
O que é o que abre o caminho para a sua cumplicidade com a economia política clássica
que, como já referi em nota de pé de página, tinha preocupações relativamente ao papel
das forças sociais.

Estas duas aproximações são consideradas por Watson como heurísticas, e afirma,
entretanto (Ravenhill, 2008, p. 50) que nenhuma delas é neutra, porque implicam que
existem boas e más aproximações à IPE, Além disso, refere que muitos elementos da
estrutura tricotómica reaparecem nestas aproximações, nomeadamente os diferentes
pesos dados à importância do Estado e a outros elementos de análise.

258
"Contesting the Canon: International Polítical Economy at UK and US Universities", Review of
International Polítical Economy, Vol. 4, No. 1 (Spring, 1997), pp. 214-238.

118
Relações Internacionais e Economia ”

Uma outra divisão nas aproximações ao estudo da EPI é a referida em (Cohen, 2008)259
e apresentada por Watson (Ravenhill, 2008, pp. 50-53) como uma distinção analítica
nas distinções nas formas de abordar esse estudo.

Cohen, que dá como subtítulo ao seu livro "An Intellectual History" começa por referir
os autores que considera mais terem contribuído para o desenvolvimento da EPI –
Robert Cox, Robert Gilpin, Peter Katzenstein, Robert Keohane. Charles Kindleberger,
Stephen Krasner e Susan Strange (Cohen, 2008, p. 8), para depois distinguir a evolução
da disciplina em duas correntes: a americana e a britânica. Segundo ele, a primeira parte
dos trabalhos de Keohane (com Joseph Nye) e Gilpin (Cohen, 2008, p. 12); a segunda
terá início com Susan Strange e o seu já por diversas vezes citado artigo (Cohen, 2008,
p. 13) a que alguns autores juntam depois o canadiano Robert Cox.

A escola americana foi iniciada por cientistas políticos e historiadores mas


epistemologicamente segue crescentemente os métodos de investigação da teoria
económica dita "mainstream", tornando-se, segundo Cohen, numa espécie de "creeping
economism"(Cohen, 2008, pp. 12-13).

A escola britânica assenta na forte aceitação das ligações a outras disciplinas para além
da economia e da ciência política e pelo seu interesse por questões de ordem normativa
(Cohen, 2008, p. 13) (a escola americana, a par da teoria económica neoclássica, será
predominantemente positiva e empírica).

Mas, as fronteiras entre as duas correntes são, em alguns pontos e ainda que haja formas
de pensar e encarar a investigação dominantes em cada uma delas, fluidas contendo
cada uma delas elementos da outra. Além disso, e como será evidente, um investigador
de uma universidade americana não é automaticamente partidário da corrente
americana, nem um europeu ou britânico da corrente britânica. Dois autores referidos a
seguir a partir da análise de Watson encontraram, para as duas correntes, uma

259
Foi esta obra de Cohen, a par de (Economides & Wilson, 2001), que despertou o meu interesse pela
EPI e pela sua capacidade de constituir uma alternativa à análise dos fenómenos económicos diferente da
síntese neoclássica em que fui treinado, e de que, a partir do aparecimento dos Novos Keynesianos e a sua
preocupação com a interdisciplinaridade, comecei a criticar pela sua aposta numa visão mecanicista da
realidade, pela extrema simplificação que é a maximização da utilidade, pelo seu pendente para os
métodos de escolha racional e consequente matematização que considero excessiva. Acabaram por ser, a
par do já citado na Introdução, o ponto de partida para este texto.

119
Relações Internacionais e Economia

designação um pouco diferente, que põe mais em relevo os autores e as revistas


dominantes em cada uma delas.

Watson (Ravenhill, 2008, p. 51) baseia a sua análise destas correntes que denomina de
"divisão atlântica" não em Cohen mas em outros autores (Murphy & Nelson, 2001). A
análise de Murphy e Nelson, autores deste artigo, é muito próxima da de Cohen,
preferindo, no entanto, chamar à escola americana escola da "International
Organization" (IO), a, provavelmente, mais influente revista científica de Relações
Internacionais publicada nos Estados Unidos, e que, desde 1971, tem sido controlada
por Keohane e Nye, sendo o primeiro, como se viu, um dos primeiros promotores da
EPI nos Estados Unidos e chefe de fila da corrente americana.

Watson refere, sem as nomear, que a escola britânica, que remonta a 1971 quando
Susan Strange260 fundou o IPEG - International Polítical Economy Group, também as
suas revistas: especialmente a Review of International Polítical Economy e a New
Polítical Economy. O que tem um significado singular: quem tiver os seus artigos
recusados pela "International Organization" tem uma boa probabilidade de os publicar
numa das revistas britânicas, ou seja, esta "divisão atlântica" acaba por ser, além de uma
oposição epistemológica e metodológica, uma oposição entre revistas científicas. É a
política editorial dessas revistas que dá significado à distinção denominativa.

Continuando a acompanhar Watson, a oposição entre as duas correntes é,


principalmente, metodológica. A corrente da IO tende a fazer a ligação entre os
resultados económicos aos interesses o que implica a utilização dos instrumentos
mecanicistas da escolha racional. Os agentes económicos são assumidos, á boa maneira
da economia neoclássica, como procurando satisfazer os seus melhores interesses o que
significa a maximização da utilidade das suas acções. Se considera isto como
verdadeiro, também o verdadeiro considera para os Estados e as suas políticas
económicas. Os Estados são considerados como tendo interesses perfeitamente

260
Segundo alguns a verdadeira fundadora da EPI "almost single-handedly". Como curiosidade, a única
dos considerados fundadores da EPI que nunca obteve o grau de Doutor, apesar de ter sido Full Professor
na London School of Economics onde foi Montague Burton Professor of International Relations e
Professor of International Polítical Economy no European University Institute em Florença (Strange foi
treinada como economista, área em que obteve o seu B.A e foi, durante mais de vinte anos jornalista do
The Economist e do The Observer, antes de se dedicar à vida académica)

120
Relações Internacionais e Economia ”

identificáveis e como tendo as mesmas capacidades cognitivas de um agente


maximizador da utilidade.

Deste modo, as decisões de política são entendidas como a resposta racional ao interesse
nacional identificado, largamente, como a vontade do povo. Como tanto os agentes
como os Estados são considerados racionais, e neste sentido indistinguíveis, todos eles
procuram resultados de uma actividade económica como sendo os de um jogo de soma
nula: quem ganha, ganha à custa de outros. Ou seja, os resultados das políticas vêm da
balança de interesses prevalecente na sociedade (a nível nacional e a nível
internacional).

Na corrente britânica, o enfoque não assenta tanto nas políticas e recusam que todas as
questões podem ser reduzidas a um problema de escolha racional. Procuram, antes,
explicar como é que as escolhas dos agentes são influenciadas pelas estruturas sociais
do enquadramento económico261. Ou seja, o comportamento económico dos indivíduos
não é entendido como uma resposta racional às circunstâncias externas mas reflecte as
aspirações sociais que surgem como consequência da existência de entidades
socialmente constituídas. A criação destas entidades responde à dinâmica complexa da
aculturação às normas económicas em que estão inseridas262.

Neste ponto de vista, a observação de resultados do comportamento económico


assumido como maximizador da utilidade, não pode explicar nem os interesses
individuais nem os interesses nacionais. Antes, os interesses precedem o
comportamento e não estão relacionados a um processo de cálculo racional mas sim o
lugar ocupado pelo indivíduo na vida social da comunidade. Um aspecto importante
desta corrente, e que preocupou especialmente Strange (Strange, 1994), é a questão de
como é que tanto os interesses como as identidades reflectem a estrutura da distribuição
no seio da sociedade, tanto a nível nacional como a nível internacional.

Segundo Watson (Ravenhill, 2008, pp. 52-53) esta forma de encarar a investigação em
EPI tem duas lacunas. A primeira é de que padece de sobre homogeneização. De facto,
o que é apresentado em cada uma das escolas não é uma posição única, é uma

261
Claramente na tradição da economia política clássica de Smith e Ricardo e não na da economia
neoclássica iniciada com Jevons.
262
De algum modo, a emergência da Teoria dos Sistemas Complexos.

121
Relações Internacionais e Economia

miscelânea de um largo número de posições distintas (o mesmo problema da tricotomia


liberalismo/realismo/marxismo). O que leva a que dentro de cada corrente,
aparentemente homogénea, possam existir posições diferentes e antagónicas.

A outra lacuna desta abordagem tem a ver com a raiz histórica de ambas as correntes.
Murphy e Nelson fazem uma apreciação em termos da prática contemporânea da EPI,
não dando a sua análise qualquer pista quanto aos antecedentes de cada quanto à sua
filiação em tradições da política económica. É uma análise de correntes e dos seus
métodos como praticados no presente. A divisão não é atlântica mas de prática
metodológica actual: entre a modelização da escolha racional e uma reflexão mais
filosófica sobre agência (no sentido de actividade económica ou do comportamento e
interesses dos agentes económicos) humana.

Ora, afirma Watson, mesmo que a preocupação de cada uma das correntes seja
apreciada do ponto de vista da sua prática presente, elas não apareceram de um vácuo,
têm antecedentes históricos. Não podem ser correctamente compreendidas sem se
conhecer de que tradição histórica procede.

No seu livro (Watson, 2005, p. cap. 1) Watson tenta resolver esta confusão
epistemológica, ontológica e metodológica que atormenta a ainda nascente disciplina de
EPI dividindo o campo entre tradições históricas ou pontos de partida disciplinares. A
distinção que faz é a de considerar, em traços gerais, que existe um grupo de
investigadores que considera a EPI como uma simples subdisciplina das Relações
Internacionais e que se identifica, larga medida, com a corrente IO com alguns
elementos da escola britânica.

A esta aproximação, que designa de escola das Relações Internacionais, atribui as


características mais distintivas da corrente IO como a aceitação incondicional dos
modelos de escolha racional e a posição crematística do agente maximizador da
utilidade. Mantém a ideia de que as transacções económicas são um jogo de soma nula,
mas, vai buscar elementos de análise à corrente britânica, especialmente no que se
refere à procura das fontes do poder, tanto do poder na acepção habitual da palavra
como "soft power", sentido mais como a capacidade de influenciar, proposto por Joseph
Nye (Nye J. e., 2004).

122
Relações Internacionais e Economia ”

Esta procura das origens do poder que assenta na análise das negociações económicas
internacionais, reconhece que nesse palco de negociação estará presente mais do que a
pura defesa do interesse nacional. Nele se defrontam, também, ideologias o que exige
que se compreenda como é que do jogo entre actores Estado e não-Estado se chegou a
um determinado clima ideológico dominante.

Do outro lado, Watson distingue, aliás propõe263, uma corrente que designa da
Economia Política baseando-a em elementos da escola britânica como a procura de
ligações entre as formas estabelecidas de pensamento económico e as práticas diárias da
vida económica. Aqui o objectivo é o de especificar quais os mecanismos (políticos,
culturais, cognitivos) através dos quais os indivíduos são socializados criando padrões
de vida que reflectem directamente os traços comportamentais implícitos inseridos na
teoria económica.

A teoria económica é, assim, apresentada como uma intervenção ideológica no mundo e


não como uma descrição politicamente neutral das relações no seio desse mundo. Um
conjunto de agentes realiza as premissas da teoria económica através das suas intenções
e dissemina-as dentro da sociedade através das suas acções diárias. Estas acções, ou
práticas, são, igualmente, desafiadas por movimentos contra culturais que procuram
contestar a sua influência sobre a vida do dia-a-dia: a economia é um palco de
contendas sociais.

Da escola IO, Watson considera que a esta corrente recebe a ideia de que as transacções
económicas são um jogo de soma nula entre actores racionais. As interacções realizam-
se, no entanto, a diversos níveis (entre a empresa e os seus accionistas, entre os
trabalhadores e a gestão, entre os consumidores e a cultura do consumo, entre os ideais
de desenvolvimento e o FMI, etc.). Estas interacções são conflitos competitivos em que
as partes tentam impor os seus interesses umas às outras e só terminam quando os
interesses desaparecem. Os agentes são maximizadores da utilidade e não têm em
consideração os seus interesses de longo prazo.

263
Uma boa parte da sua obra (Watson, 2005, pp. 68-197) é dedicada a construir esta corrente a partir das
ideias de Adam Smith, Thorstein Veblen e Karl Polanyi e a dar exemplos da sua aplicação (Watson,
2005, pp. 198-240).

123
Relações Internacionais e Economia

No fundo o que Watson propõe é um cruzamento da separação analítica entre IO e


escola britânica com a separação disciplinar entre RI e EP. O que resulta em quatro
formas distintas de abordar a investigação em EPI, com a possibilidade de existirem
aproximações a essa investigação nas fronteiras entre elas (ver (Ravenhill, 2008, pp. 54-
55)).

Contudo em (Watson, 2005) este autor não esconde a sua parcialidade por uma
aproximação à investigação baseada na EP clássica e seus sucessores (ver nota no pé da
página anterior). Nela opta pela recusa da crematísitica da teoria neoclássica e faz
assentar os seus argumentos na "oikonomia" de Aristóteles.

Segundo Watson (Watson, 2005, p. 29), reconhecer a diferença entre crematística e


oikonomia leva a especificar uma relação entre a economia (baseada em termos
monetários) e as instituições sociais em que está inserida. A economia, vista nesses
termos, manifesta-se na dinâmica dos preços e na derivação da procura e oferta nos
mercados como agregação das actividades dos indivíduos: esta é a teoria económica
moderna para ele.

Será talvez possível construir modelos de comportamento nesta economia apenas


baseados no princípio da maximização da utilidade. Mas, tal apenas terá sucesso se esta
economia for vista como uma entidade autónoma, independente e abstraída das
instituições sociais em que está inserida. Basta admitir a existência dessas instituições
para deitar por terra esses modelos se se quer compreender a natureza das relações
económicas.

O que traz uma nova distinção: de um lado a economia, do outro as relações


económicas. Se se reduz a importância destas últimas, como o faz a EPI quando se
preocupa especialmente com os negócios do Estado, está a seguir-se a aproximação
neoclássica da teoria económica. Desta forma, todo o domínio da actividade económica
pode ser agregado numa entidade fechada e auto contida, a economia, que pode ser
estudada como uma totalidade.

Ao admitir-se a existência de instituições da sociedade que constituem o enquadramento


da actividade económica é necessário focar-se, igualmente, nas relações económicas. Na
EPI defendida por Watson este enfoque enfatiza o facto de que "a economia" apenas

124
Relações Internacionais e Economia ”

existe na medida em que representa a combinação complexa e cumulativa de inúmeras


ocasiões de interacção humana. Ou seja, ela é, ao mesmo tempo o palco da acção
humana, o contexto para essa acção humana e o resultado dessa acção. De outro modo,
"a economia" é um produto das relações económicas.

Esta formulação responde às dúvidas que sempre tive desde que conclui que a economia
neoclássica, ao abstrair o contexto social e constituir-se como um sistema fechado
baseado na racionalidade completa dos agentes e no seu objectivo de maximização da
utilidade, não correspondia à realidade das sociedades. É, não o nego e já o disse atrás,
um útil instrumento de treino, dando, através de uma fresta, uma versão simplificada
dessa realidade que permite a compreensão de alguns princípios e conceitos essenciais,
mas, não a percepção integral das interacções económicas e dos seus resultados.

Foram estas dúvidas, resultantes da investigação dos comportamentos de um dos actores


económicos, a empresa, na formulação das suas estratégias para a elaboração da minha
tese de mestrado, que me foram transformando num economista pragmático, mais
próximo da preocupação com os comportamentos e com a evolução da economia e das
relações que nela têm lugar, e a afastar-me da ortodoxia prevalecente na minha
profissão. Ao que parece, comecei a transformar-me num economista político.

Segundo Watson (Watson, 2005, p. 30) qualquer explicação da actividade económica


exige que, em primeiro lugar, se compreenda o processo pelo qual as intenções, desejos
e interesses humanos264 são delineadas de forma a permitir a formação de relações
económicas. Os métodos da economia neoclássica não permitem a realização dessa
tarefa, pois neles as "paixões" são reduzidas ao simples instinto da maximização da
utilidade. Tal é possível recorrendo à economia política clássica que compreendeu o
significado verdadeiramente humano da forma pela qual as relações económicas se
criam. Dito de outro modo, acrescento, os agentes não são máquinas.

Sem negar a possível justaposição da aproximação baseada na utilidade da escola


neoclássica, Watson afirma (Watson, 2005, p. 31) que uma EPI baseada nas teorias do
valor da economia política clássica só teria a ganhar. Abre, por exemplo, a faculdade do
estudo das relações económicas contemplar a possibilidade de que a actividade

264
As "paixões" humanas dos economistas clássicos.

125
Relações Internacionais e Economia

económica reflecte as instituições dominantes na sociedade. Tal permite explicações


contextualizadas das razões pelas quais os indivíduos se dedicam a determinadas formas
de actividade económica em determinados momentos do tempo.

O problema das teorias de valor é o de encontrar uma medida para este, e essa foi a
principal dificuldade enfrentada pelos economistas clássicos, Watson afirma que este
problema é secundário em EPI, porque é importante é demonstrar que se cria valor e
que esse valor é criado no processo de produção e que é um processo social265. Para os
economistas clássicos o valor é uma relação entre pessoas, que é determinado quando
elas realizam uma actividade económica. O que acaba por querer dizer que a economia
política é o estudo de experiências humanas.

Assim, a análise que farei no Capítulo 6 da relação entre o Comércio Externo português
e o processo de desenvolvimento, ou europeização, assentará neste ponto de vista de
Watson e na consideração dos contextos e instituições em que se desenvolveram.

Antes de reflectir sobre o que é que a Teoria dos Sistemas Complexos Adaptativos traz
à EPI e que possa ser útil ao meu trabalho de investigação, convirá elencar as principaís
preocupações da EPI, algumas das quais já referi, porque entre elas está, como seria de
esperar, o Comércio Internacional do qual uma descrição das principaís teorias
finalizará este capítulo.

Os autores que colaboram em (Ravenhill, 2008) dão-nos uma ideia clara de quais são
essas preocupações. Baste percorrer o respectivo índice: colaboração e coordenação na
economia global, comércio internacional, finanças internacionais, globalização e suas
consequências.

Nos capítulos em que se justifique aprofundarei algumas dessas questões.

265
Repare-se que actualmente em teoria da gestão das empresas a criação de valor de modo a que parte
possa ser apropriado pelo cliente, consumidor, é uma das questões mais insistentemente referidas quando
se fala em competitividade, gestão da qualidade ou formulação de estratégias. As "receitas" para a
organização do processo de produção insistem na necessidade dele ser desenhado com vista a esta criação
de valor, sem especificação da medida. Até porque ela é claramente subjectiva assentando no que o
cliente percebe como valor.

126
Relações Internacionais e Economia

3.2 Teoria dos Sistemas Complexos e EPI

O QUE É UM SISTEMA COMPLEXO ADAPTATIVO

Um Sistema Complexo Adaptativo pode ser descrito da seguinte forma(Rihani, 2010):

 They have large numbers of internal elements that are


lightly but not sparsely connected. The elements interact
locally according to simple rules to provide the energy
needed to maintain stable global patterns, as opposed to
rigid order or chaos.
 They have active internal elements that furnish sufficient
local variety to enable the system to survive as it adapts
to unforeseen circumstances. There are vast numbers of
microstates inside the systems arising from numerous
local interactions. There is, therefore, a high probability
that at any time some of the microstates at least will find
the prevailing conditions conducive to survival.
 Variations in prevailing conditions result in many minor
adaptations to the overall pattern of the system and a
few large mutations, but it is not possible to predict the
outcome in advance.
 Predictability in Complex Adaptive Systems is limited to
global patterns rather than the chaotic local details.
Fundamentally, specific causes could not be linked to
particular effects.

Neste "site" Rihani afirma:

"Outdated consensus

[…].

In modern times, religion lost ground to the lure of science. The


change did not happen overnight. Comte (1798-1857), the
French philosopher, identified three stages for human thought: a
Theological era, a Metaphysical era, and a Scientific era, each
occupying many centuries. At every stage dissatisfaction with
the current paradigm led to adoption of a new, improved,
consensus.

Strictly speaking, the scientific era concerned itself mainly with


linear science up to a few decades ago. The linear paradigm on
which work within the natural sciences was founded was

127
Relações Internacionais e Economia

gradually, and to a degree inevitably, imported into most other


fields. The 'Experts', as in the case of politicians, social
scientists and economists, embraced the certainty and
predictability promised by the Newtonian linear paradigm. All
situations, they presumed, could be controlled to everyone's
satisfaction. Again, the experts seemed to know what they were
doing and people were happy to leave them to it.

Emerging consensus?

On the whole, the scientific, linear method yielded indifferent


results when applied in the socio-economic arena. Certainly the
outcomes were not as impressive as those achieved within the
natural sciences, and as actual events diverged so much and so
often from predictions and promises the search for a new
consensus gained momentum. Evidence is now emerging from
several quarters that recent discoveries associated with complex
systems might offer useful insights into the shape of things to
come.

A shift to a new consensus that views social, polítical, and


economic phenomena as complex adaptive systems would entail
more than just a change in style. Top-down and command-and-
control, reductionist, management methods; ideally suited to
linear systems as typified by the assembly lines common in
industrial production, are inappropriate in nonlinear situations.
Different, integrative or holistic, management tools are needed
in these cases.

A number of scholars have already made the transition to a new


consensus based on nonlinear conceptions, including for
example Georgescu-Roegen, Arthur, and Ormerod in
economics, Byrne in the social sciences, Jervis in politics and
Stacey in business organization. […]. Needless to say the shift
in viewpoint evolved after lengthy consideration […]."

Rihani parte da tricotomia ideológica da EPI (Rihani, 2002, pp. 20-39) para usar a usar
como instrumento de análise baseado na Teoria dos Sistemas Complexos Adaptativos.
Mas, não é o ponto de partida que me interessa, mas, sim, o ponto de chegada do
raciocínio de Rihani, porque é esse que faz confluir a EPI e essa Teoria, o que, na minha
opinião, não é dependente do ponto de partida, antes dos passos intermédios.

A EPI ocupa-se das ligações entre as esferas política e económica. Antes de examinar a
forma pela qual Rihani (e outros) aplicam a Teoria dos Sistemas Complexos

128
Relações Internacionais e Economia

Adaptativos (TSCA) às questões tratadas pela EPI, tentarei clarificar porque é que a
política e as nações, por um lado, e a economia, por outro são Sistemas Complexos
Adaptativos (SCA) ou realidades não-lineares.

SISTEMAS COMPLEXOS E ECONOMIA

Normalmente, as pessoas, as organizações, os países – os agentes – enfrentam no seu


dia a dia dois tipos de situações. Uma delas, a que se pode chamar “mecanicista”, ou de
“sistema fechado” – não muito diferente da visão neoclássica da economia – pode ser
tipificada por uma fábrica ou por uma cadeia de supermercados. Desde a produção à
compra pelo cliente a maior parte das coisas que realmente interessa é conhecida, os
processos estão harmonizados e a informação está padronizada. É a actividade humana
no seu aspecto mais estruturado, como dizia “fechado”, em que a preocupação se põe
relativamente a estruturas internas, a procedimentos e pessoas como executores de
processos e que está estruturada de modo a obter-se o desempenho “máximo”. Este tipo
de situações pode ser medida e avaliada recorrendo a métricas definidas em condições
predeterminadas.

Mas, existe outro tipo de situação que se pode ter de enfrentar diariamente. Por
exemplo, uma saída à noite com os amigos, iniciativas comunitárias como um festival
de música ou uma festa na aldeia, praticar canoagem num rio com rápidos, fazer uma
caminhada pela floresta ou lidar com mudanças súbitas como crises económicas ou o
aparecimento de novos nichos de mercado. Nestes casos, a maior parte das situações
que pode ocorrer não é conhecida antecipadamente e as actividades a realizar tem mais
a ver com o aproveitamento de oportunidades imprevistas e singulares. É estar, à
partida, pronto para se adaptar, para estar aberto a novas situações e para enfrentar o
evoluir destas, de modo a influenciá-las e alterá-las num dado momento único. É a
actividade humana que se comporta como um fluxo ou uma experiência em mutação,
moldada pelas circunstâncias e pelos acontecimentos, em vez de ser predeterminada por
processos.

129
Relações Internacionais e Economia

O primeiro tipo de situações é linear, o segundo é não-linear e complexo. As soluções


que servem as primeiras não são aplicáveis às segundas. No entanto o ser humano tende
a procurar resolver os dois tipos da mesma forma, da forma “mecanicista” do
supermercado. Como já referi acima, desde há alguns anos que cientistas de diversas
áreas têm procurado entender estas situações complexas e encontrar soluções a elas
adaptadas. É o campo de acção da TSAC que irei procurar, nas páginas seguintes,
descrever com referência a diversas áreas do conhecimento.

Começarei pela Economia recorrendo a (Arthur, Durlauf, & Lane, Introduction, 1997) e
a (Samuelson, 2006). Em 1987 reuniu-se no Santa Fe Institute, Novo México, um grupo
de vinte cientistas dos mais variados campos do conhecimento, desde a física e a
biologia, passando pela ciência dos computadores, até à economia, para debater a
aplicação da TSCA, na altura ainda não tinha ganho este nome, e o tema foi, mais
precisamente, "a economia como um sistema complexo e evolutivo". Deste encontro
foram publicados "proceedings" e é na introdução e num artigo do terceiro do seu
segundo volume que vou procurar basear a minha descrição.

Como já disse a economia neoclássica é dominante na investigação em Teoria


Económica. Podemos no seu seio discernir duas aproximações: a do "equilíbrio" e a dos
"sistemas dinâmicos". A primeira consiste em derivar, a partir das escolhas racionais de
indivíduos maximizadores da utilidade, "estados da economia" ao nível agregado que
satisfaçam a consistência do nível agregado (equilíbrio do mercado) e examinar as
propriedades destes estados ao nível agregado.

Na segunda, o estado da economia é representado por um conjunto de variáveis e um


sistema de equações às diferenças266 ou de equações diferenciais, que descrevem como
é que essas variáveis se alteram ao longo do tempo267. O problema desta aproximação é

266
Em que uma variável depende dos valores da mesma variável verificados em períodos anteriores.
267
Esta aproximação teve o seu pior momento quando os chamados "modelos dinâmicos agregados"
usados, por exemplo, pelos Bancos Centrais, não conseguiram prever (ver (Samuelson, 2006, p. 244)
acerca das dificuldades destes modelos em fazer previsões) a crise do "sub-prime" de 2008 e as suas
consequências. Uma das razões foi a não inclusão da esfera financeira nos modelos que se baseiam
especialmente na chamada economia real, mas, também e principalmente, as deficiências da aproximação
neoclássica em termos de previsão. Mas, ainda, os actuais modelos de previsão assentam no chamado
“axioma ergódico” (ver (Davidson, 2010)), que afirma que utilizando a informação sobre o
comportamento passado dos mercados e dos agentes, é possível fazer previsões correctas para o futuro; o
que a crise nos ensinou é que a economia não é uma ciência exacta, como a astronomia, e o axioma

130
Relações Internacionais e Economia

o da dificuldade em examinar as trajectórias resultantes, representadas no espaço dos


estados da economia.

A aproximação do equilíbrio não descreve o mecanismo através do qual o estado da


economia se altera ao longo do tempo nem como uma situação de equilíbrio é
alcançada268. A aproximação dos sistemas dinâmicos não consegue distinguir entre o
nível dos agentes e o nível dos agregados, antes o evita fazer considerando a figura
curiosa do "agente representativo", Nenhuma das aproximações considera a
possibilidade da emergência269 de diferentes tipos de variáveis no estado da economia, e
muito menos novas entidades, padrões ou estruturas. Estão claramente presas ao
paradigma crematístico da economia neoclássica.

A aproximação da complexidade tem seis propriedades que acabam por tornar quase
inútil a matemática (Arthur, Durlauf, & Lane, Introduction, 1997, pp. 3-4) (ver também
(Holland, 1988)) tão querida de Jevons:

Interacção dispersa: o que acontece na economia é o resultado da interacção de muitos


agentes dispersos, possivelmente ou verosimilmente heterodoxos, e que actuam em
paralelo. A acção de um qualquer agente depende das acções antecipadas de um número
limitado de outros agentes e do estado agregado que estes criam conjuntamente.

Inexistência de um controlo global: Nenhuma entidade global controla essas


interacções. O controlo é feito através de mecanismos de concorrência e de coordenação
entre agentes, As acções económicas são mediadas pelas instituições legais, pelos
papéis desempenhados pelos agentes, e por associações que se vão dissolvendo e

ergódico não pode ser usado num sistema complexo. Afinal os agregados reúnem o comportamento de
milhões de agentes e basta alguns comportarem-se fora dos pressupostos do modelo para a previsão
falhar, Um colega meu, americano, dizia com piada: "Sabem porque é que existem economistas? Para os
meteorologistas não se sentirem sós". É evidente que nem todos os economistas se dedicam à previsão,
alguns, como eu, são analistas de factos passados para com eles aprender e não para fazer previsões.
Sobre esta questão de como os economistas lidam com a incerteza e a ergodicidade é interessante ler
(North, 2005, pp. 13-22).
268
Os Novos Keynesianos, especialmente, John B. Taylor no capítulo "Price Adjustment" em (Hall &
Taylor, 1997), pressupondo que os preços são rígidos no curto prazo, propões um processo de
ajustamento ao longo do tempo usando uma Curva de Philips ajustada pelas expectativas racionais, que
tenta resolver este problema e parece, à primeira vista, razoável em abstracto, O problema continua a ser a
racionalidade não limitada prescrita para os agentes.
269
No sentido que é dado ao conceito pela TSCA.

131
Relações Internacionais e Economia

criando. Não existe, também, um concorrente dominante, ou seja, um único agente que
consiga aproveitar-se de todas as oportunidades existentes na economia.

Organização hierárquica transversal: A economia tem múltiplos níveis de organização e


de interacção. As unidades em cada nível – comportamentos, acções, estratégias,
produtos – são "tijolos" para a construção de unidades no nível imediatamente mais
elevado. A organização do conjunto vai para além da hierarquia, com muitas espécies
de interacções entre níveis, como associações e canais de comunicação.

Adaptação contínua: Os comportamentos, as acções, as estratégias e os produtos, são


continuamente revistos conforme os agentes tomados individualmente adquirem
experiência, ou seja, o sistema está constantemente em adaptação.

Versatilidade perpétua: Novos nichos estão constantemente a ser criados por novos
mercados, novas tecnologias, novos comportamentos, novas instituições. O próprio acto
de aproveitar um nicho pode dar lugar a novos nichos. O resultado é inovação constante
e perpétua.

Dinâmicas em desequilíbrio: Dado que estão sempre a ser criados nos nichos, noas
potencialidades, novas possibilidades, novas instituições, a economia funciona longe de
qualquer equilíbrio óptimo ou global. São sempre possíveis melhorias e estas ocorrem
com frequência.

Os sistemas que gozam destas propriedades foram chamados por John Holland
(Holland, The Global Economy as an Adaptative Process, 1988) de redes não lineares
adaptativas270 nome que antecedeu o de SCA. Existem muitos destes sistemas na
natureza, sistema nervoso, sistemas de imunologia, colónias de formigas, líquenes,
outras ecologias e, claro, economias.

Uma característica essencial dos SCAs é que não agem simplesmente em termos de
estímulos e respostas., eles antecipam. No caso das economias, os agentes formulam
expectativas, modelos – normalmente mentais – da economia e agem com base nas

270
John Holland è um cientista de computadores da Universidade do Michigan, e um dos principaís
divulgadores da TSCA. O seu livro Emergence (Holland, 2000) é provavelmente o mais vendido sobre
esta Teoria e ele é o responsável pela criação das primeiras simulações computacionais de SCAs.
Especialmente o "Sugarscape" em que utilizando regras muito simples simula o comportamento de
formigas em busca de açúcar e armazenando-o, utilizando, especialmente, álgebra booleana.

132
Relações Internacionais e Economia

previsões criadas por esses modelos271. Esses modelos não precisam de ser explícitos,
nem coerentes, nem mutuamente consistentes272.

Dadas estas propriedades, os modelos matemáticos normalmente utilizados pelos


economistas com base na teoria neoclássica não podem dar uma compreensão total
destes sistemas. O que quer dizer que é preciso um tipo diferente de matemática, são
precisos processos estocásticos ao nível da população e modelos computacionais
diferentes. Tanto a matemática necessária como os modelos computacionais, estão ainda
no início do seu desenvolvimento; a maior parte dos instrumentos utilizados ainda são
simulações recorrendo, como disse em nota, normalmente a álgebra booliana273.

Mas, o que já foi feito acentua o carácter de descoberta de uma estrutura e dos processos
através dos quais essa estrutura emerge transversalmente nos diversos tipos de
organização. Esta concepção da economia como sendo um SCA tem profundas
implicações em termos de fundamentos da teoria económica e em termos de como os
problemas teóricos são formulados e resolvidos. Nada que a teoria neoclássica possa
fazer.

Os autores que tenho vindo a acompanhar (Arthur, Durlauf, & Lane, Introduction,
1997) sugerem interpretações dessas implicações. De forma breve:

Bases cognitivas: Na teoria económica neoclássica só existe uma única base cognitiva:
os agentes são maximizadores racionais. Na aproximação proposta em Santa Fe o ponto
de vista é pluralista. Com base na teoria cognitiva mais recente não é considerado existir
um modo dominante de processamento cognitivo. Existem agentes que têm que
estruturar os problemas que enfrentam de forma cognitiva – têm de "perceber" os seus
problemas – e têm de os resolver com recursos cognitivos limitados. Para "perceber",
para aprender, para se adaptar, os agentes usam uma variedade de processos cognitivos
distribuídos.
271
Um exemplo simples. Eu tenho verificado que no final do mês de Julho, até por experiência pessoal,
os sapatos baixam de preço. Então, em vez de comprar sapatos novos em Maio espero até finais de Junho
para os comprar, isto se eu for temporalmente consistente, que é calão de economia para dizer paciente.
272
Quer dizer, eu posso basear a minha expectativa de que os sapatos baixam de preço no fim de Julho,
apenas com base numa única observação. O que não significa que eles baixem sempre de preço nessa
altura, O meu modelo de antecipação não é coerente nem consistente, e não é, claramente explícito – está
apenas na minha cabeça - mas, eu actuo de acordo com ele.
273
Ou está ou não está, ou é preto ou é branco, ou é 1 ou é zero. Ironicamente, foi Jevons um dos
principaís contribuidores para o seu desenvolvimento.

133
Relações Internacionais e Economia

As categorias que os agentes utilizam para converter a informação acerca do mundo que
os rodeia emergem da experiencia, e estas categorias, ou ajudas cognitivas, não
precisam de se encaixar umas nas outras de forma coerente para que consigam dar
origem a acções eficazes. Os agentes habitam um mundo que têm de interpretar
cognitivamente, um mundo que é complicado pela presença e acções de outros agentes e
que está sempre em mudança. Ou seja, geralmente os agentes não maximizam no
sentido corrente, neoclássico, porque o próprio conceito de uma escolha óptima não
pode, por vezes, ser definido. Quer dizer, a racionalidade dedutiva da teoria neoclássica
desempenha, quando muito, um papel marginal na condução de uma acção eficaz neste
mundo complexo. O conhecimento comum que os agentes têm uns dos outros não pode
aparecer como por mágica, os agentes têm de o adquirir através de processos cognitivos
concretos, especificados, que agem sobre a experiência obtida a partir de interacções
concretas.

Bases estruturais: na análise de equilíbrio geral os agentes não interagem uns com os
outros directamente, fazem-no através de mercados impessoais. Em contraste, na teoria
dos jogos274 todos os jogadores interagem uns com os outros, com resultados
estabelecidos numa matriz de ganhos/perdas. As estruturas de interacção são simples e,
mesmo, por vezes, extremas: ou é um com todos ou todos com todos; além disso, a
estrutura interna dos próprios agentes é assumida como dada275.

De uma perspectiva de complexidade as coisas não são assim. As estruturas baseadas


em redes passam a ter relevância, qualquer acção económica implica interacções entre
os agentes, assim a funcionalidade económica é, ao mesmo tempo, limitada e conduzida
por redes definidas por padrões recorrentes de interacção entre os agentes. Estas
estruturas em rede são caracterizadas por terem relativamente pouca ligações. Além
disso, a acção económica é estruturada por funções ou papéis sociais emergentes e por
procedimentos socialmente baseados (as instituições).

274
Um método muito utilizado em RI e em EPI.
275
Afinal a teoria dos jogos é um método de escolha racional.

134
Relações Internacionais e Economia

Ainda, as entidades económicas276 têm uma estrutura recursiva, elas próprias são
constituídas por outras entidades. A estrutura de "níveis" de entidades resultante e os
processos de acção a eles associados não é hierárquica, pois a entidades que a compõem
podem pertencer a mais do que um nível de ordem mais elevada e entidades
pertencentes a múltiplos níveis de organização podem interagir. Assim uma causalidade
recíproca tem lugar entre diferentes níveis de organização. Os processos de acção a um
dado nível de organização podem ser, por vezes, considerados autónomos, mas, estão,
de qualquer forma, restringidos pelos padrões de acção e pelas estruturas de entidades
em outros níveis.

E podem dar lugar a novos padrões e a novas entidades tanto em níveis acima como em
níveis abaixo do seu próprio nível. Da perspectiva do debate realizado em Santa Fe, o
princípio fundamental de organização é a ideia de as unidades a um determinado nível
se combinam para produzir unidades ao nível imediatamente mais elevado.

O que é um problema e o que é uma solução: pôr problemas exclusivamente como


sendo exercícios de optimização por múltiplos agentes não faz sentido deste ponto de
vista da complexidade da economia. Este ponto de vista põe o acento tónico nos
processos e não apenas nos resultados. Ele também põe a questão como é que novas
"coisas" aparecem no mundo. Coisas cognitivas, como sejam, por exemplo, modelos
internos; coisas físicas como novas tecnologias; coisas sociais como novos tipos de
unidades económicas.

Fica claro que se sugerirmos um mundo de constante inovação, então os resultados não
podem corresponder ao estado estável de equilíbrio, seja ele Walrasiano, de Nash, ou da
teoria dos modelos dinâmicos. As únicas descrições que contam num mundo como esse
têm a ver com fenómenos transitórios, com o processo e com estruturas emergentes. O
que se poderá saber então acerca de uma economia de um ponto de vista dos processos e
da emergência e como se poderá sabê-lo? O estudo dos processos e da emergência na
economia deu lugar a um crescente campo de investigação na produção do que é

276
Entidades são, por exemplo, empresas, hospitais, etc. consideradas como independentes dos seus
proprietários que também são entidades. Níveis têm a ver com a especificidade da organização de
conjuntos de entidades. No entanto, o que são unidades, entidades e níveis variam com o contexto dos
problemas a solucionar.

135
Relações Internacionais e Economia

geralmente chamados modelos baseados em agentes277 (para um tratamento mais


profundo destes modelos e para alguns exemplos ver (Colella, 2001), (Gilbert, 2008),
(Resncik, 1997)). E o que é uma solução num modelo baseado em agentes ainda não é
certo.

277
Agent-based models.

136
Relações Internacionais e Economia

Figura 3-1 Posição inicial da famosa simulação “Sugarscape”, simulação do autor usando o programa
StarLogo. A amarelo os montes de açúcar, a vermelho os agentes procurando açúcar, por exemplo, formigas.

Figura 3-2 A simulação após várias dezenas de iterações. O açúcar foi praticamente todo consumido ou
armazenado278.

278
This project explores an artificial society known as Sugarscape. This society was conceived of by
Joshua Epstein and Robert Axtell (http://www.brook.edu/SUGARSCAPE). In this society, agents (red
[cinzento]) wander around on a landscape consisting of two connected mounds of sugar (yellow[branco]).
As the agents move around on the landscape they metabolize some of their existing sugar. The agents are
constantly looking for new sugar, and when they find it they add it to their resources. If the agents ever
eat all of their sugar, then they will die. If they get enough sugar, then they can reproduce. Each agent has
a random value for its metabolism, initial quantity of sugar, and vision level (that controls how far around
it can look for more sugar). The sugar itself can grow back at different rates. For a more thorough
description of Sugarscape, check out the Sugarscape web site (http://www.brook.edu/SUGARSCAPE
(Fonte: StarLogo. MIT)

137
Relações Internacionais e Economia

Pode-se caracteriza-los como modelos que procuram as estruturas que emergem dos
processos de interacção, em que as unidades que interagem antecipam o futuro através
de processos cognitivos que eles próprios abrangem interaccções em estruturas de níveis
múltiplos.

Creio que se ficou com uma ideia do que os fundadores da TSCA em economia
procuravam. Uma solução para as limitações da teoria neoclássica em estudar um
mundo complexo, feito de múltiplos agentes, entidades, processos e interacções, muitas
delas de carácter social, que a simplificação do agente racional maximizador da
utilidade não consegue. De outro modo, tratar a economia como ela é na realidade,
socialmente inserida, e não como uma abstracção simplificadora que não consegue obter
resultados nem resolver problemas. De algum modo, este ponto de vista coincide, pelo
menos parcialmente, com o de Watson acerca do método em EPI exposto acima.

Para se ficar com uma ideia mais clara do que Brian Arthur procurava, será interessante
ir a (Colander (ed), 2000, pp. 6-7) buscar um excerto do diário/livro de apontamentos de
Arthur referente a 5 de Novembro de 1979:

138
Relações Internacionais e Economia

Quadro 3-1 Notas de Brian Arthur sobre a Nova Economia

Este apontamento constitui, provavelmente, a primeira reflexão de Brian Arthur sobre a


economia como um sistema complexo. A leitura do quadro sugere, entretanto, que nem

139
Relações Internacionais e Economia

só a economia será um sistema complexo. Algumas das entradas têm aplicação noutras
áreas, nomeadamente na política279.

SISTEMAS COMPLEXOS E POLÍTICA

Assim, antes de regressar à análise de Rihani relativamente ao que considera serem os


contornos da EPI, será útil ver como a TSCA vê os fenómenos políticos. Para isso irei
recorrer ao que é o principal investigador nesta área (ver acima citação da página da
Internet de Rihani), Robert Jervis (Jervis, 1997).

A análise de Jervis aproxima-se muito da realizada por Arthur e seus co-autores


relativamente à complexidade em economia. Mas, Jervis usa inúmeros exemplos da
vida real para ilustrar o facto de que os fenómenos políticos são complexos. Veja-se o
seguinte exemplo:

"The interwar period also reveals the way changes in bilateral


relations both ramify through the system and are conditioned by
it. Great Britain realizing that the strength of its potential
enemies outran its resources, was unable to act on the sensible
impulse to conciliate Japan because doing so would have
alienated the United States. But, in the end, American hostility
to Japan turned out to serve Britain well: Without the attack on
Pearl Harbor, Britain might have lost the Second World War.
Indeed. Japan attacked the American naval base as well as
Malaya and the Dutch East Indies in the questionable belief that
the U.S. and the U.K. were so closely linked that the former
would respond with force to an attack on the latter's empire.
Furthermore, the U.S. was spared a terrible dilemma when
Hitler, Japan's ally, responded by declaring war on the U.S.
despite the fact that he had previously taken great care not to

279
Além disso podem discernir-se algumas influências de Karl Polanyi, e de Joseph Schumpeter, pelo
menos, e uma coincidência de pontos de vista com a chamada corrente dos fundamentos
microeconómicos da macroeconomia. Um dos elementos distintivos dos Novos Keynesianos, além de
com a Economia Comportamental, para não falar da Economia Institucional. Estas duas últimas têm tido
grande influência sobre a evolução da EPI.

140
Relações Internacionais e Economia

match the American provocations in the Atlantic. These


processes do more than reflect established interests: Alliances
often derive their influence less from norms or the value that
states place on their reputations for living up to their
commitments than from the way interconnections expand and
alter states concerns" (Jervis, 1997, p. 10)

Usando este e outros exemplos Jervis demonstra que o sistema politico é um SCA e
enumera e discute as suas características,

Começa por dizer que "o todo não é maior que a soma das partes", mas, sim, que "o
todo é diferente, e não maior, que a soma das partes" é uma das características de um
sistema. O reducionismo, ou seja, tentar compreender o sistema examinando apenas as
unidades e as relações entre elas, não é adequado. Dá o exemplo de outras ciências que
chegaram a esta conclusão, como a sociologia que assenta na ideia de que as sociedades
não podem ser reduzidas à soma dos indivíduos que as compõem; muitos sociólogos
estabelecem uma analogia entre sociedade e um organismo vivo, sem com isso implicar
uma unidade orgânica280.

Esta diferença entre as partes e o sistema a que pertencem é aquilo que já referi como
sendo as "propriedades emergentes". O sistema é conduzido pelo comportamento dos
actores individuais Mas, a previsibilidade local conduz um elevado nível de
complexidade e de não previsibilidade dado que os resultados se alcançam de forma
interactiva. Passar das intenções e comportamentos dos actores, ou agentes, para os
resultados é extremamente difícil, como o é passar para o enquadramento que os actores
enfrentam em períodos posteriores no tempo, em parte porque o comportamento é
influenciado pelas próprias estimativas dos actores acerca das consequências de cursos
de acção alternativos.

280
Como já disse a teoria económica neoclássica vê a economia através de uma metáfora mecanicista.
Depois disso, avançou-se para a utilização de uma metáfora orgânica. Mas, qualquer destas metáforas
implica a economia como sendo um sistema fechado, ou seja desinserido do seu contexto, Metáforas mais
recentes que procuram ultrapassar esta visão, especialmente em teoria da empresa, consideram a
economia como um sistema aberto e, mais recentemente, como um sistema de sistemas, que é uma
metáfora de complexidade. (Ver a Introdução em (Menezes A. Q., 1993)).

141
Relações Internacionais e Economia

Além de falar da emergência Jervis dá grande relevo à interconexão, que considera


extremamente importante para caracterizar o espaço dos fenómenos políticos,
especialmente a nível internacional, como um sistema complexo; os destinos da
unidades e das suas relações com outras são fortemente influenciadas pelas interacções
que se dão em outros locais e em períodos anteriores no tempo.

Parece-me que esta pequena resenha das ideias de Jervis é suficiente para afirmar que
este vê a política como os economistas em Santa Fe viram a economia, como um
sistema complexo. Com as devidas e necessárias variantes, as características e conceitos
da economia como sistema complexo são aplicáveis, de acordo com Jervis, à esfera da
política. Ao longo da sua obra encontramos conceitos como retroacção positiva, a
influência da estrutura, antecipação, e outras, que encontramos na resenha que fiz mais
acima. Com a excepção da retroacção positiva281 que não referi, mas é uma das
características distintivas de um SCA.

Quanto ao sistema político e complexidade ver também (Snyder & Jervis, 1995),
especialmente o Capítulo 2, "Systems and Interactions Effects" pp. 25-46, escrito por
Robert Jervis.

SISTEMAS COMPLEXOS E EPI

Se a EPI é uma disciplina que estuda as relações entre as esferas política e económica,
tanto a nível internacional como a nível nacional, e ambas constituem sistemas
complexos, torna-se manifesto que a EPI deve tratar essas relações como um sistema
complexo e usar os métodos e ferramentas da TSCA.

Regressando a Rihani, eu disse que ele partia da tricotomia ideológica da EPI


tradicional – realismo, liberalismo e marxismo – e disse, também, que o que interessava
para o meu trabalho era o ponto de chegada do raciocínio deste autor.

Como Watson, escreve que as três ideologias não são unitárias. Têm diversos paladares
e que um país – e dá o exemplo dos Estados Unidos e da maior parte dos países
desenvolvidos do Ocidente – reclamando-se de uma ideologia, no caso o liberalismo,
pode conjuga-lo com elementos, por exemplo do socialismo. A propósito cita o facto de

281
Positve feedback.

142
Relações Internacionais e Economia

o liberalismo puro não aceitar – como ineficiente, o Estado-Providência, de defender a


todo o custo o comércio livre, de defender, na sua forma mais pura, o "laissez-faire", de
recusar os subsídios. Nenhum país que se reclama hoje do liberalismo segue hoje estes
caminhos. Parece que apenas – pelo menos à data em que escrevia e em que o
"Washington Consensus282" ainda fazia lei – o FMI, o Banco Mundial e a OMC são
verdadeiramente do liberalismo, pelo menos nas receitas que propõem, ou propunham,
para os países em vias de desenvolvimento.

Rihani considera, a propósito da tricotomia, fazer a distinção entre ideologia e teoria.


Ideologia é "um conjunto de ideias completo e mutuamente consistente através do qual
um grupo social faz sentido do mundo". Teoria é "um esforço deliberado para […]
separar regras das circunstâncias acidentais ou especiais", que deve ter dois atributos,
coerência e generalidade.

Segundo ele num ponto qualquer da evolução das ideologias da EPI foi feita a tentativa
de fortalecer este debate ideológico com teorias "científicas". Isso levou a EPI por
caminhos errados. As teorias assim estabelecidas não conseguiram prever e explicar
acontecimentos pertencentes a uma grande categoria de situações e não convergiram e
acabaram por experimentar sucessivas e radicais transformações.

Os teóricos desta tentativa esqueceram-se de por uma questão essencial: é possível


formular uma teoria que crie modelos para fenómenos político-económicos
caracterizados por enorme diversidade e para acontecimentos constantemente em
mutação sem aparentemente nenhuma razão ou sentido? Esta é a questão central, os
teóricos da EPI, trabalhavam numa época cientifica que acreditava implicitamente na
ordem, na previsibilidade, em relações estáveis de causa e efeito. Portanto, foram em
busca daquilo que agora sabemos serem teorias científicas lineares.

Mas, as nações e as suas economias políticas não são tão simples como o movimento
newtoniano dos sólidos em resposta à gravidade. Tudo aponta para que sejam
fenómenos não lineares, como já referi acima. O que segundo Rihani deixou os teóricos
de todas as ideologias de EPI como os cães: a correr atrás das suas caudas.

282
A propósito do Washington Consensus ver o interessante artigo de Nancy Birdsall e Francis
Fukuyama, "The Post-Washington Consensus", na edição de Março/Abril de 2011 da Revista Foreign
Affairs, pp. 45-53

143
Relações Internacionais e Economia

Por partes. Quanto ao liberalismo, os mercados não correspondem ao ideal liberal


clássico. Quanto ao marxismo, os capitalistas e os trabalhadores não entraram em
confronto aberto e o salto para o verdadeiro comunismo nunca aconteceu. Quanto aos
mercantilistas/realistas, num mundo altamente interligado tiveram que rever as suas
ideias acerca do proteccionismo e da autonomia dos Estados. Tal levou à
interpenetração das diversas ideologias da tricotomia da EPI.

Mais adiante (Rihani, 2002, pp. 63-107), e partindo do conceito de paradigma de Kuhn
(Kuhn, 1996) Rihani faz uma crítica do paradigma linear e acentua, como Kuhn, que se
os cientistas encontram problemas que não podem ser resolvidos com o paradigma
dominante após um período de alguma indecisão um novo paradigma tem de ser
adoptado.

Rihani faz remontar o paradigma linear a Descartes e Newton, que prestou bons
serviços à ciência, pelo menos até ao inicio da época espacial, e que assenta em quatro
regras essenciais: ordem, reducionismo, previsibilidade e determinismo. Com o
paradigma linear podíamos estar certos de tudo. As empresas podiam fazer
investimentos a longo prazo sem medo, o mercado foi elevado à condição de semideus e
por aí adiante283. A humanidade podia abalançar-se nos mais arriscados projectos, gozar
a vida, porque nada estava deixado ao acaso, regia-se por regras conhecidas e tidas
como certas com alguém sabedor ao volante.

O paradigma linear começou a ser posto em causa bem cedo, com Poincaré. Depois
vieram Einstein, Bohr, Schrodinger e Heisenberg284 e o paradigma começou a sofrer

283
Os Planos de Fomento que abordarei mais à frente, e qualquer forma de planeamento rígido, assentam
neste paradigma. Como assenta a teoria económica neoclássica. Já expressei, noutro local, infelizmente
escrito como "ghost-writer", que um dos princípios do fim da teoria neoclássica foi quase contemporâneo
do seu aparecimento. Refiro-me à segunda lei da termodinâmica, ou da entropia. Lord Kelvin e
companheiros lá tinham as suas razões, E não é, com certeza por acaso, que o zero absoluto, que a terceira
lei da termodinâmica nos diz ser impossível de atingir, é medido na escala de temperatura que leva o seu
nome. Nada nos diz, e a teoria dos sistemas complexos com os seus princípios de imprevisibilidade, de
interconexões e de resultantes fenómenos emergentes, abre caminho, que o zero absoluto não possa ser
atingido, ou então que se chegue tão próximo dele que se torne possível a existência de supercondutores
que eliminem praticamente toda a fricção, o que seria uma boa notícia para aos consumidores de
electricidade, para o caminho-de-ferro e para a velocidade e capacidade dos computadores. È evidente
que não se trata de arranjar maneira de obter o zero absoluto no ambiente – morreríamos todos de frio –
mas, de tirar conclusões que permitam fazer retro engenharia para que os supercondutores funcionem à
temperatura ambiente. Afinal, parece que o bosão conhecido como a "partícula de Deus" foi isolado!
284
Confesso que no ensino secundário a História e a Física eram as minhas matérias preferidas, pelo
menos a acreditar nas notas, o outro meu grande interesse, a Filosofia, surgiu já na licenciatura depois de

144
Relações Internacionais e Economia

erosão porque levaram o conhecimento acomodado para além dos limites Newtonianos.
As suas descobertas não provaram que Newton estava errado. O que fizeram foi referir
situações em que os métodos lineares davam resultados e outras em que não o faziam.
No fundo o que fizeram (Heisenberg é um dos grandes exemplos, com a sua ideia da
incerteza da localização dos electrões em torno do núcleo do átomo) que alguns
fenómenos, agora chamados não lineares ou complexos, eram probabilísticos por
natureza. São fenómenos que infirmam as quatro regras do paradigma linear. As causas
e efeitos não estão relacionados. O todo não é a simples soma das partes, propriedades
emergentes podem aparecer não se sabe de donde, analisar os diversos componentes do
sistema não nos diz muito acerca do seu comportamento como um todo, e os processos
com ele relacionados não conduzem o sistema para resultados certos e inevitáveis.

O reconhecimento de que existe incerteza285 e não linearidade foi lento, mas acabou por
agregar cientistas de diversas áreas, como a já referida reunião do Santa Fe Institute e a
criação de observatórios da complexidade, por exemplo no MIT e na London School of
Economics and Polítical Science atestam.

Os SCA são considerados como podendo alcançar estados estáveis ainda que existem
em condições que estão longe do equilíbrio. Os sistemas complexos têm de dissipar
energia, trocando-a com outros sistemas de modo a conseguir atingir e manter padrões
auto organizados de estabilidade global. Só assim não caem na inevitabilidade descrita
na segunda lei da termodinâmica e no caos286. No entanto, para manter um padrão
global de estabilidade é necessário que exista caos a nível localizado: a complexidade
emerge de um misto de caos e ordem287.

O movimento no sentido da nova teoria da não linearidade começou nas ciências


naturais e da vida, como a biologia, a física, a química, a genética e foi-se estendendo e

doses maciças de marxismo que quis contrapor, Ainda vou lendo e mantendo-me a par do que se vai
passando na área da Física – porque a primeira e a última contínuo a praticá-las, nenhum economista as
pode dispensar – e a experiência (mental) do gato de Schrodinger e o princípio da incerteza de Heisenberg
me fascinam. Especialmente este segundo pelas implicações que tem na investigação: o observador acaba
por influenciar o fenómeno observado.
285
Heisenberg, foi aliás, com esse seu princípio da incerteza, um dos cientistas mais influentes no sentido
da aceitação da não linearidade de muitos fenómenos da vida real.
286
Aqui está a razão por que eu, um economista, comecei a considerar, há alguns anos, esta segunda lei
como o sinal dos erros da economia neoclássica.
287
O que eu costumo chamar o "limiar do caos" e a "anteporta" da verificação da segunda lei da
termodinâmica.

145
Relações Internacionais e Economia

os seus métodos começaram a ter aceitação geral como instrumento válido de análise. A
TSCA aparecia. Como se viu em 1987 um grupo de cientistas de várias áreas reuniram-
se em Santa Fe para estudar a sua aplicabilidade à economia.

Na mesma altura apareceu o "bestseller" de James Gleick (Gleick, 1988) que nele fez
uma descrição das consequências da "complexidade organizada" usando exemplos do
funcionamento dos mercados, nomeadamente do mercado bolsista, de que concluiu que
a ideia geralmente aceite de que os seus movimentos eram aleatórios no curto prazo mas
determinísticos no longo prazo não era válida288. A TSCA chegava à ciências sociais.
Juntamente com Mandelbrot289,Gleick, além d outros, descobriu que, em vários casos, a
mudança é aleatória, e que implicam descontinuidades, com mudanças rápidas e não
mudanças graduais. O debate sobre a complexidade nas ciências sociais e chegou à
economia, nomeadamente com Brian Arthur, nos escritos já referidos e em (Arthur,
1994)290 percebeu que a aproximação tradicional de uso da ciência numa formulação
linear, ou seja, de conduzir a sociedade de forma racional, não era uma solução, porque,
ao contrário do que se pensava, existiam na economia fenómenos com efeitos de
retroacção positiva, e portanto, rendimentos crescentes à escala que descreviam melhor
a economia que o principio neoclássico dos rendimentos decrescentes (ver atrás e nota
no pé da página anterior).

David Byrne (Byrne, 1998, p. 39) argumentou, na sequência de outros autores, que as
sociedades e as instituições podem ser encaradas como se fossem entidades dissipativas
e considerou a possibilidade de uma forte ligação entre o realismo e a Complexidade. O
que considerou como sendo prejudicial para o positivismo e para o pós-modernismo. O
primeiro por aceitar que o total controlo sobre a natureza é possível e o segundo por
defender a inação social. A complexidade, considerou, toma uma posição a meio

288
A teoria da paridade dos poderes de compra estabelece idêntico princípio para o mercado de câmbios,
Mas, parece que o longo prazo é mesmo muito longo.
289
O matemático dos fractais. Para uma aplicação da Teoria do Caos de Lorenz e dos fractais de
Mandelbrot à economia, ver (Ormerod, 1999).
290
A questão dos rendimentos crescentes à escala, tratados neste livro e uma das bases do trabalho de
Paul Romer (Romer, 1986), (ver também (Beinhocker, 2006, p. 42) para uma apreciação inserida na
evolução da teoria económica do trabalho de Romer) na sua proposta de uma teoria do crescimento
endógeno, tem sido campo fértil de discussões entre economistas. A consideração dos rendimentos
crescentes foi menosprezada pelos economistas ortodoxos, porque os rendimentos decrescentes são um
dos pilares da teoria neoclássica, existe um efeito de retroacção negativa que mantém a economia no ou
próxima do equilíbrio.

146
Relações Internacionais e Economia

caminho, aceitando que os indivíduos podem tomar medidas para melhorar as suas
condições, mas, ao mesmo tempo aceita que essas acções têm limites Byrne (Byrne,
1998) resuma ideia dizendo que o linear é tese, o pós-modernismo a antítese e a
complexidade a síntese.

Creio ser suficiente esta apreciação do trabalho de Rihani, especialmente devotado a


uma das principaís preocupações da EPI, o desenvolvimento, para demonstrar que o
cruzamento da complexidade em economia de Brian Arthur, da complexidade em
política de Robert Jervis, encontra paralelo através de Rihani na EPI.

Esta tese é sobre desenvolvimento e comércio externo e o regresso às ideias de Rihani


ainda poderá ser útil. No entanto, e apesar de ser um tema recorrente, e eu não
pretender, como é óbvio, transformar nenhuma parte de texto em manual, convirá
recordar alguns aspectos mais salientes das teorias do comércio internacional e o
interesse que este tem para a EPI.

3.3 Comércio Internacional

Duas questões fundamentais se põem quando se trata do comércio internacional.


Primeiro, o que leva a que os países troquem entre si bens e serviços? Segundo, que
benefícios retiram eles dessas trocas? Para responder à primeira questão usarei textos
em que eu próprio sintetizei estas questões (Menezes A. Q., 2004) que foi buscar
elementos a (Krugman & Obstfeld, 2006, p. edições anteriores) e (Menezes A. Q.,
2011) que neste aspecto seguiu a versão Kindle digital de (Irwin, 2009) para servir de
elemento de estudo dos meus alunos. Quanto à segunda voltarei a (Mill, 2000 [1848]).

Este capítulo procura fazer uma revisão das diversas teorias explicativas da razão de
existência de comércio internacional e dos benefícios do comércio livre, tendo, sempre
em atenção, o caso específico português numa perspectiva de economia política. Sem
deixar de recorrer aos principaís autores desta área desde Adam Smith a Paul Krugman,
uma vez que leccionei durante vários anos uma unidade curricular de Economia

147
Relações Internacionais e Economia

Internacional serão as notas distribuídas aos alunos nessa cadeira (Menezes A. Q., 2004)
que formarão o esqueleto do capítulo.

Diversas ideias estão subjacentes aos benefícios do comércio. Quando um comprador e


um vendedor realizam de forma voluntária uma transacção, ambos recebem qualquer
coisa que desejam e podem ambos ganhar com a transacção. Os países escandinavos
poderão, por exemplo, comprar laranjas através do comércio internacional, laranjas que
teriam muita dificuldade em cultivar nos seus países. O produtor de laranjas recebe um
rendimento que pode usar para comprar outras coisas que deseje.

Como poderá um país que é o produtor mais (ou menos) eficiente de tudo beneficiar
com o comércio?

Sendo a quantidade de recursos finita, os países podem usar esses recursos aquilo em
que são mais produtivos (quando comparados com a produção de outros bens) e
comercializar esses produtos recebendo em troca os bens e serviços que desejam
consumir. Os países podem especializar-se na produção e consumir muitos outros bens
e serviços através do comércio.

O comércio é dito beneficiar um país se ele se tornar mais eficiente quando exporta bens
que usam recursos que são abundantes e importa bens que usam recursos escassos.
Quando os países se especializam também se podem tornar mais eficientes devido a
uma maior escala de produção. Os países também podem beneficiar se comercializarem
recursos presentes em troca de recursos futuros (emprestar e pedir emprestado).

É dito que o comércio beneficia os países como um todo de diversos modos, mas que o
comércio pode prejudicar diversos grupos dentro de um mesmo país. O comércio
internacional pode prejudicar os proprietários dos recursos que são usados
intensivamente em sector que são concorrentes de bens importados. O comércio pode
ter, assim, efeitos sobre a distribuição do rendimento dentro de um país.

Os desacordos relativamente à realização de comércio internacional deverão, então,


ocorrer entre grupos dentro de um mesmo país e não entre países.

Um modelo recente – o modelo da gravidade – afirma que a dimensão da economia está


directamente relacionada com o montante de importações e exportações

148
Relações Internacionais e Economia

Mas outras coisas além da dimensão influenciam o comércio:

A distância entre mercados influência os custos de transporte e portanto os custos das


importações e exportações. A distância também pode influenciar os contactos pessoais e
as comunicações os quais também podem influenciar o comércio.

Afinidades culturais: se dois países têm relações culturais é provável que também
tenham fortes laços económicos.

A geografia: a existência de portos de mar e a ausência de barreiras montanhosas


facilitam o transporte e tornam o comércio também mais fácil.

Empresas multinacionais: estas empresas estão instaladas em muitos países diferentes e


importam e exportam muitos bens entre as suas diversas subsidiárias.

Fronteiras: atravessar fronteiras exige formalidades que consomem tempo e muitas


vezes também custos monetário como tarifas. Estes custos implícitos e explícitos fazem
reduzir o comércio internacional.

VANTAGEM ABSOLUTA E VANTAGEM COMPARATIVA

O primeiro a responder a esta questão foi Adam Smith, nos finais do séc. XVIII na sua
obra “A Riqueza das Nações” (Smith, 1999 [1776]), ao argumentar que um mundo mais
aberto ao comércio internacional conduziria a uma distribuição mais eficiente dos
recursos através de uma concorrência acrescida, a qual, por sua vez, levaria a um
aumento no rendimento

Do ponto de vista de Adam Smith, os mercados de exportação permitiriam às fábricas


produzir maiores quantidades de qualquer bem e, assim, aumentar a sua especialização,
do que se produzissem apenas para o mercado interno

A especialização permite que cada empresa “aprenda” mais sobre como fornecer os seus
produtos de forma eficiente e permite produzir em maiores quantidades, o que reduz os
custos de “setup” na mudança de um produto para outro- A especialização do trabalho
trazia vantagens e no comércio internacional a ideia de Adam Smith é conhecida por
teoria da vantagem absoluta.

149
Relações Internacionais e Economia

As ideias de Smith foram posteriormente aprofundadas na ideia de vantagem


comparativa (por David Ricardo nos finais do século XVIII (Ricardo, 1996 [1817])):
um país obtém mais benefícios da exportação de bens e serviços que usam os seus
factores mais abundantes de forma mais intensiva, e importando os produtos que
exigem o uso dos seus factores de produção mais escassos

Isto permite produzir a preços relativos mais baixos, esta ideia ainda explica uma grande
parte dos fluxos comerciais internacionais nos dias de hoje

David Ricardo chamou a esta especialização de países diferentes em produtos diferentes


divisão internacional do trabalho e previu esta evolução na especialização, ou seja, a
divisão internacional do trabalho é dinâmica

Por exemplo, no seu livro “Princípios da Economia Política e da Tributação” usou a


Inglaterra e Portugal como exemplo, sugerindo que a Inglaterra se especializasse em
têxteis e Portugal na produção de vinho

Como sabemos, Portugal acabou por se especializar, nos anos de 1960 e 1970, em
têxteis, enquanto a Inglaterra alterou a sua especialização para produtos com mais
tecnologia e para serviços financeiros

Como já vimos, durante mais de 200 anos os economistas têm sublinhado os benefícios
da existência de comércio livre entre os países e os custos de o restringir

Adam Smith argumentou:

“Todo o comércio que é realizado entre quaisquer dois países


tem de necessariamente ser vantajoso para ambos” e “assim,
todas as taxas, alfândegas e outras restrições [à importação]
devem ser eliminadas, e o comércio livre e a liberdade das
trocas deve ser consentida por todas as nações”

No entanto, a defesa do comércio livre não assenta em velhos livros e velhas teorias, as
ideias de Adam Smith e outros economistas clássicos foram aperfeiçoadas, revistas e
melhoradas ao longo dos anos para que ainda se mantenham relevantes nos dias de hoje.

150
Relações Internacionais e Economia

O MODELO DE HECKSER-OHLIN

Por exemplo, Eli Heckser, da Universidade de Upsalla, publicou, em 1919, na revista


sueca "Ekonomisk Tidskrift" o artigo "O Efeito do Comércio Externo na Distribuição do
Rendimento". Nesse artigo propôs aquilo que ficou conhecido por especialização por
factores ou dotação em factores. Segundo ele a vantagem comparativa resultava da
interacção entre a abundância relativa dos factores de produção e a recnologia de
produção – que influencia a intensidade relativa da utilização dos factores na produção.

O seu aluno Bertil Ohlin, Prémio Nobel em 1977, publicou em 1933 o artigo "Comércio
Internacional e Inter-regional"291. A conjugação dos trabalhos do professor e do seu
aluno ficou conhecido por Modelo de Heckser-Ohlin que explica a origem do comércio
internacional reside essencialmente nas diferenças existentes em dotações de factores
entre os diversos países: um país tem vantagem comparativa quando usa mais
intensivamente o factor que possui em maior abundância.

Partindo do modelo de Heckser-Ohlin, Wolfgang Stolper e Paul Samuelson, derivaram


em 1941, um modelo ou efeito – conhecido como de Stolper-Samuelson – que afirma
que nas condições propostas por aqueles autores que se o preço de um bem aumenta,
sendo constantes as ofertas de factores, então o rendimento nominal e o rendimento real
do factor usado intensivamente na produção desse bem aumenta enquanto o rendimento
nominal e o rendimento real do outro factor diminui e vice-versa. Ou seja, o preço
relativo de um factor em que um país é mais abundante aumenta, e reduz-se no país com
menor abundância do mesmo factor, em resultado da abertura ao comércio. Isto leva a
uma progressiva diminuição das diferenças em dotação de factores.

É em todo este trabalho que a teoria dominante do comércio externo ainda assenta e é
com base nele que se propõe o comércio livre. No entanto estas análises foram feitas
recorrendo a simplificações substanciais, que não referirei, características da teoria neo
clássica e pressupondo rendimentos decrescentes à escala.

291
Reproduzido em Harvard Economic Studies. 39, 1967

151
Relações Internacionais e Economia

FALHAS NO MODELO: O PARADOXO DE LEONTIEF

Entretanto, Wassily Leontief, testando em 1954 – com recurso a quadros de entradas-


saídas da economia americana292 - o modelo de Heckser-Ohlin descobriu que as
exportações dos EUA eram menos capital intensivas que as suas importações ainda que
os EUA fossem o país do mundo mais abundante em capital. Ou seja, ao contrário da
previsão do modelo. Estes resultados de Leontief foram minimizados com o argumento
da alta produtividade dos trabalhadores americanos. Assim, o comércio internacional
resultaria da descrição do modelo qualificada pelas características específicas de cada
país.

O que parecia se um fenómeno americano e devido ao descrito acima, parece que não o
era. Um estudo realizado por Bowen, Leamer, and Sveikauskas (Bowen, Leamer, &
Sveikauskas, 1987)293 testou o modelo de Heckscher-Ohlin utilizando dados para um
grande número de países. Este estudo confirmou o paradoxo de Leontief a um nível
mais vasto, não confinado aos Estados Unidos.

A NOVA TEORIA DO COMÉRCIO INTERNACIONAL

Em 1979 Paul Krugman veio por toda a teoria neoclássica do comércio internacional em
causa. Num artigo (Krugman P. R., 1979) e depois num livro (Krugman & Helpman,
1985) retirou a todos os modelos anteriores várias das simplificações – concorrência
perfeita, imobilidade de factores entre países, rendimentos decrescentes – criando aquilo
que se chama hoje a Nova Teoria do Comércio Internacional294.

292
O trabalho sobre os quadros entradas-saídas valeram-lhe o Prémio Nobel em 1973.
293
Antes de publicação era o NBER Working Paper #1918:
"The results obtained in this framework do not support the H—O— V
hypothesis of an exact relationship between factor contents and national
factor supplies. Our estimates suggest the parameter linking factor contents
and national factor supplies departs significantly from the value implied by
the H—O--V theorem. We conclude there is clear evidence that the departure
of the estimated coefficient from its theoretical value is importantly related to
1) differences across countries in the matrix of factor inputs and, by
implication, the violation of the assumption of factor price equalization and
2) errors of measurement in both trade and national factor supplies." NBER
p. 22
294
Há quem lhe chame Política Comercial Estratégica, titulo de um livro editado por si em 1986.

152
Relações Internacionais e Economia

Em síntese, o que Krugman afirma é que o comércio internacional, ao contrário do que


se acreditava até aí, se realiza especialmente entre países desenvolvidos, com dotações
de factores semelhantes, que ao comércio intra-indústria – ou seja, dentro do mesmo
sector, por exemplo do sector automóvel para o sector automóvel, ou da indústria
química para a indústria química – é muito significativa no comércio mundial, o que os
modelos neoclássicos não explicam nem sequer contemplam, que a teoria tradicional
não tem em conta as empresas multinacionais e o comércio dentro dessas empresas que
representava, nos anos de 1980, mais de 33% do comércio mundial. Além disso tomou
em consideração as economias de escala e considerou estas como motivo para
fenómenos de deslocalização.

Esta questão do comércio intra-indústria é importante porque:


 O comércio inter-indústria reflecte a vantagem comparativa enquanto o
comércio intra-indústria não.
 O padrão do próprio comércio intra-indústria é imprevisível enquanto o do
comércio inter-indústria é determinado pelas diferenças existentes entre países.
 A importância relativa dos comércios intra-indústria e inter-indústria depende de
quão semelhantes são os países.

Entre tanto, mais recentemente, ganhou importância um modelo – muito parecido com o
Modelo Newtoniano da gravidade – e precisamente chamado modelo da gravidade que
afirma que o comércio depende de dois factores: a dimensão das economias e a sua
proximidade ou afastamento. Este modelo foi primeiramente proposto por Tinbergen
em 1962, mas retomado mais recentemente.

OS BENEFÍCIOS DO COMÉRCIO INTERNACIONAL

Mas, um facto importante, é que durante as duas últimas décadas foram recolhidas e
analisadas vastas quantidades de informação estatística que evidenciam e ajudam à
compreensão das vantagens do comércio livre. A defesa tradicional do comércio livres,
já o vimos, assenta nos ganhos, ou benefícios, provenientes da especialização e das

153
Relações Internacionais e Economia

trocas comerciais internacionais. Para perceber melhor esta ideia, vamos considerar,
primeiro, o nível do indivíduo e não o das nações. A maior parte das pessoas não produz
para si própria nem uma fracção ínfima dos bens que consome. O que faz é obter
rendimento especializando-se em determinadas actividades e, depois, usar esse
rendimento para comprar diversos bens e serviços produzidos por outros

No essencial, cada um de nós “exporta” os bens e serviços que produz com o seu
trabalho de investigação e “importa” os bens e serviços que deseja consumir e que são
produzidos por outros

Esta divisão do trabalho permite-nos aumentar o nosso consumo para além do que seria
possível se tentássemos ser auto-suficientes e produzir tudo nós mesmos. A
especialização permite-nos gozar de um nível de vida muito mais elevado do que se não
existisse e dá-nos acesso a uma maior variedade de bens e serviços. O comércio entre
países é a extensão internacional desta divisão do trabalho

Como os indivíduos, os países beneficiam de forma significativa desta divisão


internacional do trabalho e gozam de rendimentos mais elevados do que gozariam se
não realizassem comércio, Da mesma forma que não faz sentido limitar a livre troca de
bens dentro das fronteiras de um país sem uma justificação aceitável e incontroversa,
não existe nenhuma razão óbvia para que o comércio entre países seja limitado na
ausência de razões muito fortes para o fazer

Adam Smith baseou os seus argumentos na ideia de liberdade económica, dando


liberdade às pessoas para agir de acordo com os seus melhores interesses pessoais, que
os mercados, através dos preços, se encarregariam de coordenar, e deixando ao Estado
tão-somente a tarefa de regular, ou estabelecer regras, o comércio. O comércio livre é
uma componente essencial desta liberdade económica: se não existir comércio livre não
pode existir essa liberdade

Num sistema de liberdade natural (como lhe chamava Smith) o comércio é


essencialmente livre de restrições à concorrência, mas, não necessariamente livre da
regulação do Estado, e deveria ser livremente permitido entre países

Como já vimos, Adam Smith também defendia que o comércio internacional livre fazia
aumentar a concorrência dentro de cada país, e, assim, limitava o poder das empresas

154
Relações Internacionais e Economia

consideradas individualmente, impedindo-as de explorar os consumidores com preços


elevados e bens de fraca qualidade. Segundo Adam Smith, a riqueza de uma nação
depende desta divisão do trabalho, do grau de especialização dos indivíduos nas suas
actividades. E a produtividade, a capacidade de produzir mais com os mesmos recursos,
é a base da melhoria da qualidade de vida

Contudo, como também afirmou, a divisão do trabalho é limitada pela dimensão do


mercado. O comércio livre permite aos países alargar a dimensão efectiva dos seus
mercados facilitando que a divisão do trabalho proporcione todos os benefícios que
possibilita

A corrente liberalista afirma que o comércio internacional só tem benefícios. Tenho de


concordar com algumas qualificações que referirei adiante. Para descrever esses
benefícios vou recorrer novamente a John Stuart Mill, não à edição referida na
bibliografia (Mill, 2000 [1848]) a que falta o capítulo pertinente, mas à versão
disponibilizada pelo Projecto Gutenberg.

A ideia de que todos os países podem beneficiar do comércio internacional vem de


Smith e Ricardo, mas investigações mais recentes têm reforçado, com muitos mais
detalhes, essa ideia. Em 1848, J. Stuart Mill (Princípios de Economia Política) destacou
os três principaís benefícios decorrentes da existência de comércio mundial. Primeiro,
aquilo que Stuart Mill chamou “as vantagens económicas directas do comércio
externo":

"If two countries which traded together attempted, as far as was


physically possible, to produce for themselves what they now
import from one another, the labor and capital of the two
countries would not be so productive, the two together would
not obtain from their industry so great a quantity of
commodities, as when each employs itself in producing, both for
itself and for the other, the things in which its labor is relatively
most efficient. The addition thus made to the produce of the two
combined constitutes the advantage of the trade. It is possible
that one of the two countries may be altogether inferior to the
other in productive capacities, and that its labor and capital
could be employed to greatest advantage by being removed
bodily to the other. The labor and capital which have been sunk
in rendering Holland habitable would have produced a much
greater return if transported to America or Ireland. The produce

155
Relações Internacionais e Economia

of the whole world would be greater, or the labor less, than it is,
if everything were produced where there is the greatest absolute
facility for its production. But nations do not, at least in modern
times, emigrate en masse; and, while the labor and capital of a
country remain in the country, they are most beneficially
employed in producing, for foreign markets as well as for its
own, the things in which it lies under the least disadvantage, if
there be none in which it possesses an advantage.
In brief, then, international trade is but an extension of the
principle of division of labor; and the gains to increased
productiveness, arising from the latter, are exactly the same as
those from the former." Principles of Polítical Economy, Livro III,
Capítulo XIII, §3

As “vantagens económicas directas” do comércio são os ganhos normais que resultam


da especialização como foi descrito por Smith e Ricardo. Ao exportar em troca de
importações, um país realiza um comércio mutuamente vantajoso que lhe permite usar
os seus recursos produtivos limitados de forma mais eficiente e, assim, atingir um
rendimento nacional real mais elevado do que o que obteria se não realizasse comércio
externo. E este rendimento real mais elevado resulta numa capacidade para adquirir
mais bens e serviços do que seria possível sem comércio.

Os economistas pensam que estes ganhos ditos estáticos derivados da especialização são
significativos, mas difíceis de medir, porque muitos países foram sempre, em maior ou
menor grau, abertos ao comércio. Não é habitual verem-se países a passar de uma
situação em que não existe comércio externo para uma em que ele existe (ou vice versa)
e, portanto, esses ganhos não podem ser calculados. Mas, a História dá-nos alguns
exemplos de situações semelhantes a essa que nos permitem ter uma ideia dos ganhos
estáticos provenientes da realização de comércio externo.

O exemplo clássico é o do Japão após a sua abertura à economia mundial em 1859. Os


ganhos decorrentes deste acontecimento podem ser estimados comparando os preços
dos bens no Japão antes e depois da abertura dos seus portos a navios comerciais
estrangeiros nesse ano. Por exemplo, os preços da seda e do chá eram muito mais
elevados nos mercados mundiais do que no Japão antes da abertura e o preço do
algodão era mais elevado no Japão do que nos mercados mundiais. Com a abertura do

156
Relações Internacionais e Economia

Japão ao comércio os preços destes bens começaram a convergir no sentido dos preços
mundiais.

Em resultado, o Japão começou a exportar seda e chá em troca da importação de


vestuário e outros bens. De acordo com alguns cálculos isto fez aumentar o rendimento
nacional do Japão em 4% em resultado desta reafectação estática de recursos em
resposta às oportunidades abertas pelo comércio externo.

Falei do primeiro benefício referido por Stuat Mill, “as vantagens económicas directas”,
examinaremos agora o segundo as “vantagens indirectas”. O comércio livre não
beneficia uma economia apenas através da reafectação de recursos para actividades
mais eficientes, mas, igualmente, por tornar esses recursos mais produtivos nas
actividades em que estão a ser utilizados:

Such, then, is the direct economical advantage of foreign trade.


But there are, besides, indirect effects, which must be counted
[389] as benefits of a high order. (1) One is, the tendency of
every extension of the market to improve the processes of
production. A country which produces for a larger market than
its own can introduce a more extended division of labor, can
make greater use of machinery, and is more likely to make
inventions and improvements in the processes of production.
Whatever causes a greater quantity of anything to be produced
in the same place tends to the general increase of the productive
powers of the world. There is (2) another consideration,
principally applicable to an early stage of industrial
advancement. The opening of a foreign trade, by making them
acquainted with new objects, or tempting them by the easier
acquisition of things which they had not previously thought
attainable, sometimes works a sort of industrial revolution in a
country whose resources were previously undeveloped for want
of energy and ambition in the people; inducing those who were
satisfied with scanty comforts and little work to work harder for
the gratification of their new tastes, and even to save, and
accumulate capital, for the still more complete satisfaction of
those tastes at a future time. Principles of Polítical Economy, Livro
III, Capítulo XIII, §5

157
Relações Internacionais e Economia

Ou seja, o comércio externo promove o crescimento da produtividade. E quanto mais


elevado for o nível de produtividade de uma economia, mais elevado é o seu padrão de
vida. São pelo menos duas as formas pelas quais o comércio livre contribui para o
crescimento da produtividade. Serve de canal para a transferência de tecnologia
estrangeira que melhora a produtividade; e faz aumentar a concorrência o que leva as
empresas a tornarem-se mais eficientes e a melhorar a sua produtividade (por vezes
levando ao desaparecimento das que não o conseguem fazer o que conduz a que as
sobreviventes se expandam.

O terceiro benefício, moral e intelectual, proposto por Stuart Mill foi referido no início
deste Capítulo a propósito da citação de Montesquieu.

Ainda a propósito dos benefícios do comércio livre será interessante citar o seguinte
texto (tradução minha):

“A História faz troça do argumento de que o comércio não


beneficia os pobres. A participação no comércio mundial
figurou de modo proeminente em muitos dos melhor sucedidos
casos de redução da pobreza – e comparado com a ajuda
[internacional] tem mais potencial para beneficiar os pobres...o
crescimento das exportações pode ser um meio eficiente de
reduzir a pobreza. A produção para a exportação pode
concentrar a riqueza directamente nas mãos dos mais pobres,
criando novas oportunidades para o emprego e o
investimento...Quando o potencial do comércio é enquadrado
por políticas eficazes de crescimento equitativo pode
proporcionar um poderoso “empurrão” no sentido do
desenvolvimento humano"

Trata-se de um texto insuspeito, da Oxfam, uma das organizações não-governamentais


mais críticas do caminho actual do comércio livre (ver www.oxfam.org).

158
Relações Internacionais e Economia

EXCEPÇÕES À REGRA: AS NOVAS INDÚSTRIAS

Referi que tinha algumas qualificações a fazer à defesa rígida do comércio livre. A
minha principal, e talvez única qualificação, relaciona-se com um debate relativo às
práticas de política comercial que se fez sentir em Portugal durante os anos de 1960 até
ao III Plano de Fomento, da responsabilidade de Rogério Martins, e depois após o 25 de
Abril. Este debate, sobre a política de substituição de importações, foi recorrente em
todo o mundo nessas alturas especialmente na América Latina e nos países em ias de
desenvolvimento.

A substituição de importações por razões de implantação de novas indústrias é, talvez, a


única circunstância em que o proteccionismo é defensável. Seja qual for o ponto de
vista utilizado, a teoria neoclássica ou a "nova economia", é consensual que o
proteccionismo tem graves repercussões sobre os países, especialmente sobre os
consumidores, e, em algumas das suas formas, também sobre os produtores, enquanto
as receitas para o Estado, em percentagem, são diminutas. Em balanço, o prolongar
desta política tem efeitos negativos sobre o bem-estar.

A substituição de importações tem o potencial de ser uma estratégia eficaz para


determinados sectores económicos, mas, apenas durante um período muito limitado de
tempo. Quase todos os países a tentaram, alguns alcançaram sucesso com ela. Mas, mais
frequentemente, não conseguem ser realizadas as condições necessárias ao sucesso da
estratégia. Pode ter sido usada para proteger muitos sectores durante demasiado tempo,
por exemplo

Muitas vezes é feita uma escolha errada dos sectores a proteger, como aconteceu com a
indústria petroquímica na Colômbia, a indústria automóvel na Malásia ou a indústria
têxtil no Quénia. Todas eram indústrias votadas ao fracasso, porque nunca conseguiram
concorrer nos mercados internacionais e exigiam, para sobreviver, um apoio continuado
e indefinido no tempo à custa do resto da comunidade.

Ou, então, a estratégia falha porque os governos hesitam em retirar os apoios a


empresários com boas ligações políticas

159
Relações Internacionais e Economia

Na fase inicial da aplicação desta estratégia os países experimentam uma fase de


crescimento rápido que, uma vez esgotadas as oportunidades existentes no mercado
interno, começa a estagnar. A maior parte dos países em desenvolvimento têm
indústrias deste tipo e têm populações relativamente pequenas. Em resultado, existe
relativamente pouca concorrência e as empresas não conseguem tirar vantagens de
economias de escala e muitas vezes produzem abaixo do patamar de eficiência.

Os países que escolhem esta estratégia estão a cortar os laços comerciais com o resto do
mundo e isso reduz a sua exposição a novas tecnologias e a novas ideias. Além disso, e
surpreendentemente para uma estratégia que procura reduzir a dependência de
importações, os países que a escolheram no passado acabaram por ter grandes défices
externos com o consequente aumento do endividamento externo. É que nem todas as
importações podem ser substituídas, especialmente as de bens de capital necessários ao
funcionamento das novas indústrias.

Por detrás deste regime está um conjunto de incentivos (subsídios, etc.) que acabam por
recompensar a pressão política, a corrupção e o suborno, e não encorajam a
concorrência e a competitividade. Esta estratégia acaba por fazer “adormecer” o espírito
de iniciativa, o instinto de concorrência e a capacidade para correr riscos dos
empresários que não baixam custos, não melhoram a qualidade e não aumentam a
produtividade.

As empresas mais bem-sucedidas com esta estratégia são normalmente as que subornam
os funcionários administrativos ou políticos do Estado, ou seja, os que têm capacidade
para as manobras políticas ou fortes ligações aos responsáveis pelo poder político ou o
suficiente para os poder influenciar financeiramente. Não é, pois, uma boa solução para
promover o desenvolvimento num prazo alargado, só, e esta é a minha qualificação
quanto a ocasiões em que o comércio livre pode ser prejudicial ao desenvolvimento, por
prazos muito curtos.

Xavier Pintado (Pintado, 2002 [1964], pp. 243-244) afirma que, de entre todos os
argumentos usados para defender o proteccionismo, o mais válido e forte é o das
indústrias novas, mas que o sucesso de políticas de defesa destas indústrias depende, em

160
Relações Internacionais e Economia

grande medida, das economias externas resultantes da existência de uma rede bem
desenvolvida de fornecedores de produtos intermédios.

No próximo Capítulo e a encerrá-lo apresentarei a evolução do comércio a nível


mundial e de Portugal e os principaís fluxos entre regiões.

161
Relações Internacionais e Economia

162
4. A Europa e Portugal após 1945

4. A EUROPA E PORTUGAL APÓS 1945

Antes de continuar para uma descrição dos principaís acontecimentos políticos e


económicos ocorridos na Europa e em Portugal entre 1945 e 1985, considero
indispensável enquadrá-los na evolução do Mundo no mesmo período, Para isso, e além
de outros autores, irei recorrer a John Ravenhill, no capítulo de que é autor em
(Ravenhill, 2008, pp. 13-17).

O MUNDO APÓS 1945

Segundo Ravenhill, seguindo (Ruggie, 1982) que se inspirou em (Polanyi K. , 2002)295,


os dois princípios que caracterizaram o mundo após 1945 foram o liberalismo
inserido296 e o multilateralismo.

Por liberalismo inserido entende-se o compromisso que os governos assumiram depois


de 1945 entre salvaguardar os seus objectivos económicos internos – especialmente o
empenho em manter o pleno emprego – e em abrir as suas economias de forma a
reconstituir o comércio e investimento internacionais. Ou seja, inserir a abertura
económica nos seus objectivos económicos e políticos nacionais através do
estabelecimento de regras para o comércio e finanças internacionais que permitissem

295
"Karl Polanyi’s magisterial work, The Great Transformation, was first published in 1944. In
it, he developed a distinction between “embedded” and “disembedded” economic orders:
“normally, the economic order is merely a function of the social, in which it is contained. Under
neither tribal, nor feudal, nor mercantile conditions was there, as we have shown, a separate
economic system in society." (Ruggie, 1982, p. 385)
296
Embedded liberalism. "which I show to differ from both its classical ancestor and its ignominious
predecessor even as it has systematically combined central features of both",(Ruggie, 1982, p. 383). " The
liberalism that was restored after World War II differed in kind from that which had been known
previously. My term for it is “embedded liberalism. ” (Ruggie, 1982, p. 392). Não confundir com aquilo a
que eu chamo liberalismo socialmente inserido, uma forma de liberalismo que bebe na tradição liberal,
mas, que a ela junta preocupações de ordem social, que limitam o individualismo, o comércio livre e a
livre iniciativa, quando estão em causa fenómenos de exclusão social, de redução do bem-estar global, e
outras ameaças ao lado social da realidade; poderá ser chamado liberalismo social ou liberalismo
reformista; no fundo uma forma de social-democracia com limites claros à intervenção do Estado.

163
4. A Europa e Portugal após 1945

aos governos fazer um "opt-out", em bases temporárias, relativamente aos seus


compromissos internacionais se estes ameaçassem de forma determinante os seus
objectivos económicos internos.

A aceitação do princípio do liberalismo inserido foi a validação por parte dos governos
de que a cooperação económica internacional, necessária para a recuperação, exigia que
tivessem a faculdade de manter uma concertação económica a nível interno. E de que
essa cooperação internacional resultava de um acordo político internacional297
((Eichengreen, 1995) destaca como determinante na recuperação pós guerra o papel das
instituições internacionais, no fundo resultantes deste entendimento). Segundo
Ravenhill (Ravenhill, 2008, p. 13) aqui reside a principal explicação para que nunca
tenha sido possível fazer a liberalização do comércio de bens agrícolas: os custos
internos para os governos eram considerados demasiado elevados (e parece que ainda
são) e passíveis de prejudicar a liberalização do comércio de outros produtos.

Não há dúvidas de que esta análise é da área da EPI. Seja-me permitido verificar se a
TSCA tem aqui alguma aplicação. Já foi estabelecido acima que as relações políticas e
económicas internacionais são um sistema complexo. No caso, constituído (Carta de
Havana) por 58 agentes que claramente cumprem as seis condições enunciadas por
Arthur (acima), das interacções entre eles resultou um comportamento emergente, a
aceitação do liberalismo inserido. De forma simples e sem pretensões de rigor, parece-
me que a TSCA se aplica aqui.

Ravenhill (Ravenhill, 2008, p. 14) acompanha Eichengreen, citado acima, ao dizer que
outra alteração essencial nas relações económicas internacionais ocorrida nesta ocasião,
consistiu na institucionalização de organismos de cooperação económica internacional.
Acrescenta que em nenhum outro período de estabilidade mundial foram criadas
instituições com o significado e a importância destas.

297
A Carta de Havana de 1948 (Newton, 2004, p. 28) foi a formalização deste acordo. Foi, também, a
primeira tentativa de criar uma organização internacional de comércio, que nunca foi ratificada pelos
estados presentes (Foreman-Peck, 1995, pp. 241-242).

164
4. A Europa e Portugal após 1945

Cita novamente Ruggie298 para reafirmar que o compromisso com multilateralismo é a


outra característica que define a época pós 1945. Depois de dizer que este significa a
coordenação de relações com base num conjunto de princípios generalizados de
conduta, dá como exemplo o princípio da nação mais favorecida, que exige que todos os
parceiros comerciais sejam tratados da mesma forma independentemente das suas
características específicas.

Segundo ele estes princípios levaram a crescimentos económicos sem precedentes.


Usando Maddison (Maddison, 2001) tenta provar isso mesmo. Reproduzem-se a seguir,
para o período em análise, os dados de Maddison.
Figura 4-1- Crescimento per capita em diversas regiões do mundo, 1820 a 2000

dados de Maddison em PPP

298
Multilateralism: The Anatomy of an Institution, International Organization, 46 (1992), 3 (Summer), p.
571. Não consta da bibliografia por não ter conseguido obter acesso ao texto completo.

165
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-2- Rendimento per capita, média do mundo,

5.000
4.500
4.000
3.500
3.000
2.500
2.000
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962
1964
1966
1968
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984
dados de Maddison em dólares G-K

Quadro 4-0-1– PIB per capta em dólares G-K

(Maddison, 2001), corrigido pela base de dados da Universidade de Groningen.

166
4. A Europa e Portugal após 1945

Segundo Maddison o rendimento mundial no ano 1000 era sensivelmente o mesmo


igual ao de um milénio antes, ou seja, durante o primeiro milénio da era cristã não
existiu praticamente crescimento económico. Os 820 anos seguintes foram pouco
melhores com um crescimento do rendimento mundial de cerca de 0,05% ao ano, ou
seja, no total deste período cresceu apenas 50%. Maddison estima que nos últimos 180
anos o crescimento mundial rondou os 12% ao ano. Como se pode verificar o
crescimento foi particularmente mais acelerado a partir de 1950.

Quadro 0-2 – Taxas de crescimento compostas do PIB percapita,

(Maddison, 2001) e (Fulbrook, 2001, pp. 100, Quadro 4-2)

167
4. A Europa e Portugal após 1945

4.1 Na Europa

A RECUPERAÇÃO PÓS GUERRA

A iniciar este subcapítulo sobre a Europa299 pós 1945 e a sua quase miraculosa
recuperação após a espantosa destruição do aparelho produtivo, ou a sua conversão para
a economia de guerra, de grande parte dos países que constituem o seu território, não
resisto a citar Barry Eichengreen:

"Ultimately, it was decisions taken at the domestic level, not just


by governments but by trade unions, employers associations,
households, and firms, that lay at the root of the quarter of
century of exceptionally rapid economic growth by Western
Europe's successful post-war recovery. The decisions of
households to save, of firms to invest, and of workers to
moderate their wage demands fueled the rapid growth of
productivity and capacity in the 1950s and 1960s."
(Eichengreen, 1995, p. 31)

Ou seja, foi a interacção de milhões de agentes localizados que proporcionou a


recuperação da Europa após a guerra. Se revir o que aprendi e apresentei acima
relativamente aos SCA, esta recuperação é muito próxima de um fenómeno emergente.
Não quero explorar este caminho, apesar de me parecer extremamente interessante e
sintomático. Vou restringir-me aos factos e à interpretação que deles fazem alguns
autores, em especial Barry Eichengreen.

A primeira razão que Eichengreen (Eichengreen, 2008, p. 2) dá para a rápida


recuperação da Europa depois da maciça destruição causada pela guerra é um efeito de
"catch-up growth". Segundo ele ainda que os anos de 1920s e 1930s tenham sido anos
de instabilidade e crise, foram, também, anos de rápida mudança tecnológica300, que

299
Fiel às minhas dúvidas expostas na Introdução, a Europa que aqui se considera é o território.
300
Refere, a título de exemplo, o teflon, o nylon e a lucite e melhorias na gestão de pessoal e no processo
de fabrico em série.

168
4. A Europa e Portugal após 1945

pode ser explorada a seguir à guerra301. A Europa pode usar as patentes e os métodos
americanos desenvolvidos nessa altura e reduzir a lacuna302 em termos tecnológicos.
Este efeito é normalmente conhecido por “convergência”, no caso no sentido da
aproximação aos níveis de rendimento per capita e de produtividade dos Estados
Unidos. Vou usá-lo novamente, e com o mesmo sentido, para designar a aproximação,
ou afastamento, de Portugal relativamente aos restantes países da Europa, mais adiante.

Apesar da disponibilidade das tecnologias, o “catch-up” não era tarefa fácil. O seu
sucesso exigia a coincidência no tempo de diversas condições, e o “milagre” é que uma
Europa devastada pela guerra o conseguiu. Era necessária a formação de capital, a
realocação do trabalho, o eficiente uso dos factores de produção. Ou seja, mobilizar
poupanças, manter salários consistentes com o pleno emprego, e margens de lucro
aceitáveis. Exigia a criação e a entrada em funcionamento simultâneo de indústrias
complementares indispensáveis à viabilidade das restantes. Segundo Eichengreen as
coisas correram bem porque a Europa possuía o conjunto de instituições necessárias,
sindicatos solidários, associações empresariais coesas, governos apostados no
crescimento que trabalharam em conjunto para conseguir aquelas condições.

Atrever-me-ia a dizer que as instituições, os agentes e as suas interacções conseguiram


resolver um problema pontual e localizado no tempo de um sistema complexo com a
emergência dessas condições.

Eichengreen faz notar que para o sucesso conseguido eram essenciais a segurança dos
direitos de propriedade e a existência de um mecanismo de preços credível. Mas, que
dependia mais do que do livre funcionamento das regras de mercado, exigia um
conjunto de normas e convenções, mesmo informais, que coordenassem a acção dos
parceiros sociais e resolvesse o conjunto de problemas que mercados descentralizados
não são capazes de resolver. Eichengreen chamou-lhe “capitalismo coordenado”, eu,
provavelmente chamar-lhe-ia “liberalismo auto organizado”.

301
Apesar de desenvolvida nos Estados Unidos, não foram aí imediatamente aproveitadas devido á
Grande Depressão e consequente retroacção do investimento, primeiro, e a guerra não proporcionou a sua
utilização na Europa.
302
Nunca gostei muito da palavra “hiato”, normalmente, nas, aulas uso a palavra inglesa “gap”.

169
4. A Europa e Portugal após 1945

Eichengreen afirma que as instituições económicas e sociais herdadas do período de


antes da guerra303 se foram essenciais no processo de “catch-up”, foram, depois dos
anos de 1960 o principal obstáculo e parte da explicação para o desempenho menos
satisfatório dos últimos vinte e cinco anos do século. As oportunidades de convergência
referidas esgotaram-se e a Europa teve de encontrar novas formas de sustentar o seu
crescimento, abandonando a aposta na acumulação de capital ena aquisição de
tecnologias pré existente e virar-se para um crescimento assente na eficiência e na
inovação feita dentro de portas.

Na passagem de uma forma de crescimento extensiva para uma forma intensiva, como
as classifica o autor que tenho vindo a acompanhar entraram em jogo o multilateralismo
e o projecto de integração acalentado pelo menos, desde o século XIV 304. Eichengreen
escrevendo em (Fulbrook, 2001, p. 97) afirma que a segunda resposta da Europa foi a
integração. Uma integração que, apesar de relacionada com o fenómeno da
globalização, foi diferente na Europa porque significou integração regional e o processo
foi conduzido mais pela política que pela tecnologia e acabou por reflectir a passagem
de um crescimento extensivo para um crescimento intensivo em fases mais próximas do
momento actual.

Esta análise da Europa entre 1945 e 1985 tem como objectivo servir de pano de fundo
ao que vou procurar dizer sobre o mesmo período em Portugal. Apesar do nacionalismo
e da autarcia vindas de antes da guerra, este movimento de integração teve reflexos
profundos em Portugal. Especialmente, a criação de instituições e projectos
multinacionais de cooperação, que não estando directamente ligados ao processo de
integração, moldaram toda a evolução da Europa, desenvolvendo o espírito de
cooperação europeia que a ajudou a ultrapassar as consequências da guerra e a
experimentar a fase de alto crescimento conhecida por “época de ouro”.

303
Donald Sassoon também em (Fulbrook, 2001, p. 19) afirma igualmente:
“The polítical institutions that prevailed in Western Europe shortly after the
end of the war had thus been tried before it.”
304
Em 1306 Pierre Dubois, jurista e diplomata dos reis de França e de Inglaterra, propôs a criação de uma
assembleia de príncipes europeus para assegurar uma paz duradoura. William Penn,, em 1693, propôs a
criação de um parlamento europeu. Jeremy Bentham a de uma assembleia europeia, Jean-Jacques
Rousseau a de uma federação europeia. Saint-Simon sugeriu um único monarca para a Europa e um único
parlamento (todos referidos em (Eichengreen, 2008, p. 41)). E o avô de cerca de mil milhões de nós,
Carlos Magno, não pretenderia alcançar algo de similar?

170
4. A Europa e Portugal após 1945

O PLANO MARSHALL

O processo começou ainda antes do fim da guerra, com a conferência de Bretton


Woods, continuou com o Plano Marshall e a criação da OECE e da EPU, avançou para
a constituição da CECA, primeiro, e da CEE, depois, do movimento dos “deserdados”
da CEE, a EFTA, criando-se, pelo caminho outras instituições formais, como a ONU e
as suas diversas agências, ou informais305, como o GATT. Tudo isto marcou o percurso
da Europa e influenciou os acontecimentos em Portugal. Vou tentar dizer como.

Antes, e voltando à questão de “O que é afinal a Europa?”, gostaria de transcrever as


observações de Mary Fullbrook em (Fulbrook, 2001, pp. 12-13):

“While Europeans might in many respects share similar features


and attributes [...], notions of shared values and ideals, common
enemies, and a common future are strikingly absent. There are
no shared dreams, however illusory [...]. Nor – despite common
military engagements [...] – shared views on the use of military
force. Without any emergent “dual identities306” [...] or any
sense of common values and common cause outside the highly
mobile circles of certain economic, professional, and polítical
groups, Europeans by and large remain without an overreaching
sense of common identity”

Portugal regressou a uma ficção, mas, enquanto ela existir, pode sempre colaborar na
sua manutenção e julgar-se parte de uma identidade em construção.

A IMPORTÂNCIA DE BRETTON WOODS

Não é, normalmente, dada uma importância às consequências do sistema monetário – e


das duas instituições aí surgidas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco
Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (rebaptizado Banco Mundial
(BM) – ciado em Bretton Woods em 1944 na recuperação da Europa após 1945. Quanto

305
No sentido de não ter órgãos dirigentes ou organização própria, porque juridicamente era formal.
306
Por exemplo, um Europeu-Português ou um Polaco-Europeu.

171
4. A Europa e Portugal após 1945

aos sistema monetário a importância é-lhe reconhecida, até à sua falência nos anos de
1970, como coadjuvante da liberalização do comércio através do sistema de taxas de
câmbio fixas administrado pelo FMI.

No entanto, o sistema apesar de nunca ter recolhido dos países, pelo menos até 1958
(Eichengreen, 1995, pp. 31-32), uma aceitação geral – muitos só tornaram as suas
moedas convertíveis e fixas nos termos do acordo bem dentro dos anos de 1950 –
desempenhou um papel de dissuasão das pressões inflacionárias, Eichengreen em
(Fulbrook, 2001, p. 125).

Além disso, até à implantação do Plano Marshall, o Banco Mundial foi o único a
realizar empréstimos aos países devastados pela guerra (Eichengreen, 1995, pp. 26-27).
Voltarei a referir Bretton Woods e as suas instituições mais adiante.

O PLANO MARSHALL E A OECE

Muitas vezes o Plano Marshall é reduzido á simples dimensão de um plano de ajuda


americano à reconstrução da Europa307. Foi muito mais do que isso. Primeiro, não foi
desinteressado308. Os Aliados não queriam reconstruir o caminho de ferro Alémão. A
União Soviética tinha um plano para desmantelar a indústria Alémão e transportar os
equipamentos para o seu território. Existiu um plano do Secretario do Tesouro
americano309 para fazer o mesmo, que foi arquivado no final de 1944. Os Franceses
queriam a ocupação permanente da Alemanha e transformar o Ruhr em zona sob
controlo internacional e transferir a capacidade siderúrgica do Sare para França. Em
1945 o Estado-Maior conjunto das forças americanas proibiu a administração militar
dos territórios ocupados de ajudar a reabilitação económica da Alemanha (factos

307
E no caso de Portugal, país não beligerante, o da concessão de uns míseros 80 milhões de dólares para
o equilíbrio da balança de pagamentos. Mais pormenores adiante.
308

“The truth of the matter is that Europe's requirements for the next three or
four years of foreign food and other essential products - principally from
America - are so much greater than her present ability to pay that she must
have substantial additional help or face economic, social, and polítical
deterioration of a very grave character”. Excerto do discurso de George
Marshall em Harvard em Junho de 1947 (Fonte: OCDE)

309
Plano Morgenthau.

172
4. A Europa e Portugal após 1945

referidos em (Eichengreen, 2008, pp. 57-58). Mas, a Alemanha era o principal


fornecedor de bens de capital necessários à recuperação do resto da Europa.

Entretanto, em 1947, a produção industrial na maior parte dos países atingidos pela
guerra e tomando 1938 como base = 100 era(Eichengreen, 2008, pp. 57, table 3.1):

Quadro 4-0-3 – Produção industrial,

1938=100, fonte citada.

Os países da Europa encontravam-se, nesta altura, perante aquilo que os americanos


chamam “catch-22”310. Para importar bens de capital e intermédios, tinham que
exportar, mas para exportar tinham de produzir e para isso precisavam de bens de
capital e de matérias-primas(Eichengreen, 2008, p. 65). Por outro lado, graças à
economia de guerra e às inovações tecnológicas, os americanos tinham criado uma
substancial capacidade tecnológica e criado novos produtos para os quais precisavam de
mercado. Ajudar as economias europeias criava-lhes esse mercado.

Mas, o Plano Marshall acabou por resolver três obstáculos à recuperação europeia.
Primeiro, o facto do principal fornecedor de bens de capital, a Alemanha, ter o seu
aparelho produtivo praticamente destruído. A alternativa era comprar aos EUA, mas,
para isso, eram precisos dólares de que os governos europeus não dispunham, até

310
Praticamente intraduzível. Título de uma novela de Joseph Heller, passada numa base aérea americana
algures numa ilha do Mediterrâneo: se um piloto completasse um determinado número de missões
poderia pedir o regresso a casa por motivos de esgotamento psíquico, mas, nos termos da regra 22, se
pedisse para regressar a casa era sinal de estava de boa saúde e podia continuar a pilotar. O mais próximo
que encontro é “preso por ter cão, preso por não ter”.

173
4. A Europa e Portugal após 1945

porque não existiam financiadores que os emprestassem (Eichengreen em (Fulbrook,


2001, p. 103).

O segundo obstáculo a um crescimento sustentado estava relacionado com os próprios


controlos de preços entretanto impostos. Enquanto os preços estivessem fixados em
montante inferior aos níveis de mercado, os produtores não tinham incentivo em colocá-
los nos mercados (Eichengreen, ib.). Os agricultores armazenavam, os operários em
lugar de trabalhar cultivavam as suas hortas. Os défices orçamentais financiados com
emissão de moeda ainda agravavam a situação. A solução seria levantar os controlos
sobre os preços, mas com os défices e a emissão de moeda para os financiar, tal
significava inflação. O que só seria possível de controlar com aumentos de impostos e
redução das despesas orçamentais.

O terceiro obstáculo que se punha na altura era o da incerteza política (Einchengreen, ib.
p. 104). Os partidos comunistas tinham posições importantes nos governos da Itália e da
França no pós guerra; o partido comunista da Dinamarca tinha obtido bons resultados
nas eleições; no Reino Unidos os trabalhistas radicais tinham levado o governo a iniciar
um grande programa de nacionalizações; o maior partido Alémão, o SPD, defendia a
socialização da indústria e os ocupantes aliados continuavam a falar do
desmantelamento do aparelho produtivo e na dissolução das grandes empresas. Ou seja,
não era claro que em qualquer destes países o direito à propriedade privada se
mantivesse.

A incerteza faz com que o adiar de decisões aumente de valor. Os possíveis empresários
adiaram as suas decisões até saberem mais sobre os direitos de propriedade; os
investidores financeiros adiaram a compra de títulos, temendo que os impostos
engolissem os possíveis ganhos; os bancos hesitavam em conceder empréstimos, não
sabendo se a inflação iria provocar a erosão do valor dos empréstimos.

O Plano Marshall veio ajudar a ultrapassar estes três obstáculos e, ainda, criar as
condições para a cooperação e a integração dentro da Europa (Eichengreen, ib., p. 105).
Os quase 13 mil milhões de dólares de ajuda foram concedidos durante um período de
quatro anos de 1948 a 1951.

174
4. A Europa e Portugal após 1945

Os países receptores da ajuda (ver Quadro abaixo) tiveram que se comprometer com os
EUA em diversos aspectos. Assinaram acordos bilaterais em que concordavam em
abandonar o controlo dos preços, em estabilizar as suas taxas de câmbio e em equilibrar
as finanças públicas, o que era equivalente a implantar os pressupostos de uma
economia de mercado. A ajuda ficava dependente do cumprimento destes acordos.

Quadro 4-0-4– Montantes da ajuda por países

((Kindleberger, 2009)

Estas condições resolviam o problema da incerteza política, até porque os EUA


demonstraram claramente que não estariam dispostos a ajudar países com governos de
esquerda radical. Os políticos europeus de centro e de direita poderiam, assim, apontar o
dedo à extrema-esquerda pelo não recebimento da ajuda. Ou seja, o Plano Marshall
reforçou a posição dos partidos mais ao centro do espectro politico e acabou, também,
por acentuar a clivagem entre partidos socialistas e partidos comunistas. Neste sentido,
acabou por ser mais uma peça no conflito entre o Ocidente e o Leste que se vinha a
desenhar.

175
4. A Europa e Portugal após 1945

As consequências foram quase imediatas, com o fim dos controlos sobre os preços, os
produtos começaram a aparecer nas lojas antes vazias; com bens para adquirir os
trabalhadores reduziram o absentismo, e os produtos necessários à produção, minérios,
matérias-primas, produtos agrícolas começaram a chegar às fábricas que expandiram a
sua produção; os défices orçamentais foram reduzidos e a emissão de moeda diminuiu
drasticamente, os desequilíbrios externo foram reduzidos311.

Eichengreen, em todas as suas obras citadas, por exemplo (Eichengreen, 2008, p. 69),
afirma que o efeito decisivo do Plano Marshall foi o de encorajar a integração europeia.
A gestão da ajuda tinha que ser feita em concertação, através de uma estratégia
colectiva de utilização dos fundos. Por outro lado, proporcionava um meio de
reconciliação, especialmente entre a França e a Alemanha312, e o fim das tentativas de
desmantelamento do aparelho produtivo desta última. Criava, igualmente, as condições
necessárias para as reformas indispensáveis na Alemanha, nomeadamente a monetária,
que permitissem que esta desempenhasse o seu papel de “alma” da economia europeia.

A ênfase do Plano Marshall numa qualquer forma de integração europeia radicava na


necessidade de promover o comércio intraeuropeu. Antes de 1950 a quantidade de
restrições ao comércio era asfixiante: os países queriam comprar principalmente à área
do dólar, o resultado era o de açambarcar dólares, criado barreiras ao comércio entre
eles. As negociações comerciais eram bilaterais, com cada país a elaborar a sua lista de
produtos para os quais emitiam licenças de importação num sistema de quotas. Para
desenvolver o comércio no interior da Europa eram necessários acordos multilaterais e
uma forma de fazer os pagamentos, também multilateral. Nenhum país queria avançar
com receio de que os outros o não fizessem, uma espécie de Dilema do Prisioneiro.

Enquanto o Plano Marshall permitisse resolver os desequilíbrios comerciais entre os


países o bilateralismo não constituía um problema muito grave. Mas, o Plano ia acabar
em 1950. E depois? Foi assim que as negociações comerciais foram aceleradas a partir

311
Segundo Eichengreen (Eichengreen, 2008, p. 65) o défice externo dos países da Europa era, no
conjunto do período de 1948 a 1950, de 11,5 mil milhões de dólares. Durante o mesmo período a ajuda do
Plano Marshall foi de dez mil milhões.
312
Segundo parece, e tentarei substanciar esta ideia mais adiante, estaria no pensamento de Jean Monnet a
utilização das comunidades para trazer a Alemanha para o seio dos restantes países e diminuir, ou
eliminar, as tentações expansionistas que esta já tinha posto em prática várias vezes no passado.

176
4. A Europa e Portugal após 1945

de 1948 e surgiu outra pedra angular da recuperação da Europa e da construção da


integração: a EPU – União Europeia de Pagamentos.

Na sequência das provisões do Plano Marshall e do discurso proferido em Harvard por


George Marshall em que apresentou o Plano e apelou a que os países europeus
cooperassem na gestão da ajuda, que levou à realização da chamada Conferencia dos
Dezasseis313, foi criada em Abril de 1948 a OECE – Organização para a Cooperação
Económica Europeia (OECD, 2012). No cumprimento do apelo de George Marshall, os
objectivos gerais desta organização eram o de elaborar um programa conjunto de
recuperação e de gerir a distribuição da ajuda.

Foi criada como uma organização permanente, com sede em Paris, e procurando
promover os seguintes princípios:
 Promover a cooperação entre os países participantes e os seus programas nacionais
de produção para a reconstrução:
 Desenvolver o comércio intraeuropeu através da redução de tarifas e de outras
barreiras;
 Estudar a exequibilidade da criação de uma união aduaneira ou de uma zona de
comércio livre;
 Estudar a multilateralização dos pagamentos;
 Alcançar as condições que levassem a uma melhor utilização do trabalho.

Na prática a OECE, em que as decisões eram tomadas por unanimidade, não conseguiu
alcançar nenhum dos princípios para que fora formada, e que respondiam aos problemas
e desejos referidos acima. Durante a entrega da primeira fatia da ajuda enfrentou-se com
a incapacidade dos seus membros em chegar a consenso quanto à harmonização dos
seus programas de longo prazo. No que se refere à gestão da ajuda a OECE apenas a
conseguiu graças ao recurso à arbitragem de um “conselho de Sábios”.

A partir dos finais de 1949, os EUA começaram a insistir no objectivo da integração,


quando até aí, apesar de esse ser um dos seus objectivos, a ajuda tinha sido usada
fundamentalmente na resolução dos défices externos. Os EUA instaram para que fosse
elaborado um programa intraeuropeu de acção para iniciar, também, a concessão de

313
Conference for European Economic Co-operation.

177
4. A Europa e Portugal após 1945

créditos. Além disso, as autoridades americanas consideravam que a OECE não estava a
fazer o suficiente no sentido da liberalização do comércio. Tal situação levou à criação,
sob a égide da OECE da EPU em Setembro de 1950.

No entanto, a experiência da OECE não foi de todo em vão. Acabou por dar origem em
1961 a uma organização de mais largo espectro em termos de estudo e procura de
solução de problemas, agora aberta a países não europeus, a OCDE, cuja acção em prol
da cooperação e do estudo dos problemas económicos é bem conhecida.

A EPU foi criada com três objectivos ou mandatos:


 Remover os obstáculos à inconvertibilidade das moedas europeias;
 Remover as barreiras quantitativas ao comércio;
 Suprimir as práticas bilaterais nos acordos de comércio.

Estes objectivos levaram, a que no seu seio, fosse criado um fundo de compensação
para a realização de pagamentos intraeuropeus. Os países continuaram a conduzir os
seus negócios nas suas moedas, utilizando os acordos bilaterais preexistentes. Todos os
meses cada parceiro comunicava ao braço financeiro da EPU (o BIS – Banco
Internacional de Liquidações314) o montante da sua balança externa líquida. Cada país
ficava, assim, com créditos, ou débitos, não sobre os seus parceiros, mas, sobre este
fundo da EPU. Quer dizer, passou a ser indiferente com que outros países um país
comerciava. Só lhes interessava o montante de débitos, ou créditos, que tinha
acumulado.

As diferenças entre débitos e créditos podiam ser financiadas por créditos, mas, com o
aumento do volume de trocas, passaram a ter que ser reguladas em ouro ou dólares de
acordo com uma quota proporcional ao seu comércio. O efeito foi o desejado, o
comércio foi multilateralizado, e não só, o volume de comércio intraeuropeu foi
estimulado, crescendo substancialmente durante a vigência da EPU. Os países que
esgotassem as suas quotas não tinham que adoptar medidas de deflação e recorriam aos
créditos da EPU. Devedores e credores tinham os seus montantes ajustados dentro da
EPU. Este sistema, considerado inferior à convertibilidade plena, conduziu, no entanto,
ao cumprimento dos acordos Bretton Woods em 1948, quando todas as moedas

314
Que ja existia desde 1930.

178
4. A Europa e Portugal após 1945

europeias – que entretanto já tinham adoptado um sistema de câmbios fixos


relativamente ao dólar – se tornaram plenamente convertíveis em dólares. Nessa altura
a EPU deixou de ser necessária e extinguiu-se.

Entretanto, tinha sido dado o primeiro passo no sentido da criação de condições para
uma integração económica. Note-se que a EPU não era dirigida por representantes dos
governos, mas por indivíduos “desempenhando uma função colectiva” apesar de
nomeados pelos governos. O paralelo com as instituições da União Europeia,
especialmente a Comissão, é patente. (Sobre estes últimos parágrafos ver Eichengreen
em (Eichengreen, 1995, pp. 21-22) e (Fulbrook, 2001, pp. 108-109)).

O INÍCIO DA INTEGRAÇÃO ECONÓMICA

Provavelmente, o acontecimento mais marcante deste período de raízes quase


exclusivamente europeias foi o desencadear do movimento de integração. Ainda,
falarei da chamada “época de ouro” de crescimento intensivo, a crise petrolífera de
1973, os desequilíbrios internos e externos da década de setenta, o desacelerar do
crescimento e da produtividade, mas, estes são factos de que se teria de falar estivesse a
escrever sobre a Europa ou sobre a América do Norte.

Claramente característico, provavelmente fenómeno emergente, da evolução da


sociedade e economia europeias na segunda metade do século vinte são as diversas
formas de integração, especialmente económica, que foram tentadas após 1945 e que
acabam por constituir o acontecimento definidor dessa evolução. Provavelmente o
Plano Marshall pôs a Europa no caminho certo, provavelmente, existia uma tradição de
busca de identidade própria que serviu o processo, provavelmente, o desejo de
interromper o ciclo de conflitos intraeuropeus que se estendia de há séculos
contribuiu315, provavelmente, as instituições nacionais prestavam-se a uma nova forma
de coordenação. Mas, a busca do mito, como lhe chama Mary Fullbrook, da identidade
própria que uma sucedida integração poderia servir, é claramente europeia.

315

“The desire to integrate Western Europe after the Second World War was
primarily motivated by the need to prevent another war in Europe” Klaus
Larres em (Fulbrook, 2001, p. 227)

179
4. A Europa e Portugal após 1945

A primeira organização Europeia comum foi a CECA – Comunidade Europeia do


Carvão do Aço, anunciada por Robert Schuman316, ministro dos negócios estrangeiros
francês, em Maio de 1950. Este mercado comum do carvão e do aço englobava a
França, a Alemanha, a Itália e os três países do Benelux. Se foi Schuman que a
anunciou, o homem por detrás da ideia foi Jean Monnet que a propôs a Schuman,
funcionário público e diplomata, o homem que nunca foi eleito para nenhum cargo,
mas, esteve sempre nos bastidores da política europeia neste período. Em 1946 já tinha
proposto a de Gaulle o chamado Plano Monnet317, que pretendia dar à França o
controlo sobre as regiões Alémãs produtoras de aço, o Ruhr e o Sare.

Derek Urwin (Urwin, 1994, p. 46) cita dele a propósito da CECA:

“The pooling of coal and steel production will immediately


provide for the establishment of common bases for economic
development as the first step in the federation of Europe”

A reflexão de Monnet é clara: por um lado estabelece quem é o verdadeiro “pai” da


integração, por outro, que o que estava no seu pensamento não era a simples integração
económica, mas, sim, algo de mais profundo e perene, uma federação europeia 318, a
transformação do mito referido por Fulbrook em realidade.

De acordo com o anúncio de Schuman a CECA teria de ser uma organização


supranacional, governada por uma alta autoridade cujos membros teriam que ser
independentes, tanto dos governos dos seus respectivos países, como das indústrias do

316
Um alsaciano que tinha combatido pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial.
317
Plan de Modernisation et d'Équipement. (Judt, 2010, p. 70) faz acerca de Monnet e deste plano o
seguinte comentário.
"The Monnet Plan was unique. It was the work of an unusual man"

Monnet, cujo pai era comerciante de "cognac", foi Secretário-geral da Liga das Nações e, durante a
Guerra, negociador em nome do Reino Unido e das forças da França Livre de de Gaulle junto dos EUA,,
o que leva Judt a acrescentar em nota das mesma página a principal razão de o considerar "unusual":
"His devotion to economic planning and his later contribution to the
Schuman Plan for European economic cooperation thus drew upon a
familiarity with large-scale organization and inter-state collaboration yhat
was strikingly unusual for a Frenchman of his class and time"
318
Tenho que confessar que nunca tendo sido um federalista, de ter uma quase congênita aversão (quiçá
resquícios da doutrinação a que fui exposto desde 1960 a 1973) a perdas da soberania nacional para além
das necessárias ao bem comum, a ideia da “dupla identidade” referida por Mary Fullbrook, isto é, de nos
pensarmos simultaneamente como nacionais de um país e europeus em igual medida, seria um passo de
gigante para a resolução dos problemas comuns que se põem, no momento em que escrevo, à Europa.

180
4. A Europa e Portugal após 1945

carvão e do aço319. Os países do Benelux insistiram no estabelecimento de um tribunal


de apelação, uma assembleia parlamentar com reduzidíssimos poderes e um conselho
de ministros para controlar as decisões da alta autoridade.

Uma das ideias por detrás da criação da CECA era a expectativa da França de que em
breve se daria uma enorme expansão da produção Alémã de carvão e aço que poria em
causa a retoma da indústria francesa das duas matérias-primas. Ou seja, a CECA foi
criada por razões de concorrência industrial, mas, e talvez mais importante (Klaus
Larres em (Fulbrook, 2001, p. 228)) também para controlar qualquer capacidade Alémã
de fazer a guerra, já que estas industriais eram indispensáveis a um rearmamento
Alémão. Já referir esta ideia como causa do movimento de integração europeu e ela é
recorrente, implícita ou explicitamente, na maior parte dos autores que se debruçaram
sobre as motivações da integração.

A CECA trazia outras vantagens. Obrigava à coordenação de preços, da produtividade,


dos investimentos e das relações industriais e permitia decidir sobre uma tarifa externa
comum à Comunidade e sobre as políticas de cartelização e de concorrência. Estas
questões não reuniam consenso e foi a intervenção dos Estados Unidos que permitiu
que o Plano Schuman fosse assinado em Abril de 1951 com Jean Monnet como
primeiro presidente. Vista de agora, com a vantagem do afastamento temporal, a CECA
foi o que permitiu o arranque do processo de integração europeia e a normalização das
relações franco-Alémãs.

O Reino Unido ficou de fora por razões que já lhe são habituais: as suas indústrias do
carvão e do aço eram mais avançadas, existia a forte ligação à Commonwealth, insistia
na sempre presente preservação da soberania e, no fundo, não acreditava no sucesso do
Plano Schuman. Além de manter a velha desconfiança quanto às motivações da França
em quase tudo que esta fazia e ao processo que esta seguiu na criação da Comunidade.
No entanto, o Reino Unido tornou-se membro associado da CECA em Dezembro de
1954.

319
É claro aqui o paralelismo com o órgão executivo da EPU, como já referido.

181
4. A Europa e Portugal após 1945

OS PLANOS BEYEN E SPAAK E O NASCIMENTO DAS CEE

A CECA, considerada por (Judt, 2010, p. 156) como uma revolução diplomática, nunca
foi especialmente eficaz, até porque a alta autoridade nunca exerceu o tipo de poder que
tinha sido imaginado por Monnet. O que acabou por conseguir fazer foi criar um
espaço psicológico em que a Europa pode avançar com maior autoestima. Alguns anos
mais tarde (Judt, 2010, p. 158), em 1958, o Chanceler Adenauer comentou com o
primeiro-ministro britânico Harold MacMillan que a CECA não era na realidade uma
organização económica320, que, apesar das intenções de Monnet, não era um projecto
para a integração europeia, mas, tão simplesmente, o menor denominador comum do
interesse mútuo europeu ao tempo da sua assinatura. Mais uma vez foi referido o seu
carácter político, conseguir algo que se sobrepusesse à hostilidade Franco-Alémã. É
evidente que estas afirmações não retiram a Monnet o valor e a importância da sua
ideia, como desenvolvimentos posteriores provaram.

Outros dois planos tendentes à integração europeia começaram, entretanto, a tomar


forma. Em finais de 1954, o Ministro dos Negócios Estrangeiros holandês Johan
Beyen321 apresentou uma proposta para a criação de uma união aduaneira, com uma
substancial diminuição das tarifas exteriores comuns; o seu objectivo coincidia com um
do plano Marshall, reduzir o bilateralismo na Europa.

Quase simultaneamente, o seu colega belga, Paul-Henri Spaak322 apostava noutro


caminho para a integração europeia, a energia atómica. Já nessa altura se temia o
esgotamento dos combustíveis fósseis e a energia atómica era vista como uma solução.
A França queria desenvolver armas atómicas como forma de ganhar algum ascendente
internacional e via com bons olhos esta proposta.

Ambas foram presentes ao conselho de ministros da CECA em 1955. Os ministros


membros não conseguiram chegar a consenso e nomearam um grupo de trabalho
dirigido por Spaak. Em Abril de 1956 o chamado Relatório Spaak foi divulgado.
Propunha que se seguissem ambos os caminhos: um tratado europeu da energia
320
O que sossegou os britânicos por não terem aderido.
321
Anteriormente banqueiro com a Companhia da Índias Orientais e Presidente do BIS, e depois
diplomata.
322
Por várias vezes primeiro-ministro da Bélgica e o segundo Secretário-geral da NATO (provavelmente
o cargo pelo que é mais conhecido internacionalmente).

182
4. A Europa e Portugal após 1945

atómica, a Euratom, e a união aduaneira. Segundo cita Klaus Larres (Fulbrook, 2001, p.
230) o relatório explicitava que “estava animado por uma visão de crescimento e de
integração através da concorrência”.

No resultado do relatório, a Alemanha teve papel preponderante pois foi ela que insistiu
que as duas propostas fossem tratadas conjuntamente. O receio da Alemanha radicava,
uma vez mais na desconfiança franco-Alémã: assentava no facto de temer que se, por
exemplo, a Euratom fosse assinado primeiro, a França perdesse interesse em apoiar a
união aduaneira.

Em finais da primeira metade de 1956 as negociações entre os seis membros da CECA


recomeçaram323 com vista à concretização conjunta das duas propostas conforme a
conclusão do relatório. Tornou-se desde muito cedo claro que não era a Euratom que
interessava aos países participantes, mas, sim, o tratado do mercado comum, nome
adoptado para designar a união aduaneira proposta por Spaak. Efectivamente, a energia
atómica tinha um papel muito limitado na Europa.

As principaís questões debatidas, aquelas que obtiveram acordo mais dificilmente,


foram a harmonização da providência social, incluindo os seus custos e as condições de
trabalho, especialmente pelas reticências da França que as consideravam como possível
fonte de desvantagem. A outra questão foi a da forma de tomada de decisão e a sua
estrutura, institucional, especialmente no que dizia respeito aos territórios ultramarinos
franceses e belgas. Foi a Alemanha que assumiu os custos da resolução destas questões,
e aqui começou a recorrente queixa dos Alemães de que estão sempre a suportar os
custos dos restantes países membros e que, ao tempo em que escrevo, continua a ser
uma das principaís dificuldades na resolução da crise da dívida soberana que atinge
vários países da União Europeia.

Como é sabido o tratado que instituiu as novas comunidades, incluindo nelas a CECA,
foi assinado em Roma em 1957 pelos seis membros desta última. É conhecida a
estrutura de governança das Comunidades Europeias (Euratom, CECA, Mercado
Comum) com um parlamento, um conselho de ministros e uma comissão com poderes

323
O Reino Unido tinha demonstrado algum interesse no inicio, mas cedo abandonou os projectos,
preferia uma zona de comércio livre incluindo todos os membros da OECE e continuava a manter
sentimentos de anti-federalismo e de receio de perda de soberania.

183
4. A Europa e Portugal após 1945

executivos com sede em Bruxelas, a Comissão Europeia. Não é, obviamente do


desígnio deste trabalho de investigação detalhar esta estrutura, até porque, de uma
forma ou de outra, ela é do conhecimento generalizado e repeti-la não acrescenta saber.

Também são conhecidos os primeiros e principaís passos da implantação das provisões


do Tratado de Roma. O interesse aqui é o de enquadrar a evolução política, económica
e institucional da Europa, e salientar o que possa servir de pano de fundo à descrição e
análise que se seguirá mais à frente quanto à evolução de Portugal no período. Este
texto não pretende, nem deve, substituir um manual ou uma descrição histórica não
pertinente aos seus objectivos. É, no entanto, de referir a decisão do Tribunal Europeu
no sentido de que as directivas da CEE se sobrepunham às leis nacionais pela
importância que teve na evolução da Comunidades e no desenvolvimento de algum
supra nacionalismo na Europa.

Convém referir, entretanto, como o faz Eichengreen (Eichengreen, 2008, p. 176) que as
negociações puseram a nu algumas realidades que marcaram, e ainda marcam, todo o
desenrolar do processo de integração europeia. Revelaram duas visões opostas acerca
do significado do Tratado de Roma. Uma que encarava as Comunidades como uma
simples zona de comércio livre em esteróides, outra que a entedia como um passo no
sentido da integração política.

Revelaram oposições entre os defensores de um regionalismo aberto assumido, em que


qualquer país com um mínimo de condições poderia participar, e os defensores de um
clube exclusivo com ambições mais elevadas. Revelaram a existência de desacordos
entre países que estavam em melhor posição para beneficiar da eliminação de barreiras
aduaneiras e da concorrência acrescida e países com condições mais frágeis para o
fazer.

Apesar da existência destas falhas “tectónicas” na construção das Comunidades


Europeias, as vantagens que um país poderia retirar da efectivação de um mercado
comum europeu eram fortemente atractivas. O mercado interno europeu estava, como
veremos mais adiante, a crescer mais rapidamente do que cresciam os mercados
ultramarinos dos países com colónias, nomeadamente o Reino Unido, mas, igualmente

184
4. A Europa e Portugal após 1945

Portugal, e a constatação deste facto constituía um poderoso argumento para dizer que
o futuro desses países estava na Europa.

Como se viu, o Reino Unido, por uma razão ou por outra, sempre encontrou forma de
não participar na construção dos projectos de Monnet, Shuman, Bayen e Spaak. No
entanto, em 1957, propôs a criação de uma zona de comércio livre, um mês antes da
assinatura do Tratado de Roma, com a eliminação de todas as tarifas sobre produtos
industriais (os produtos alimentares não seriam liberalizados para protecção do Império
britânico) (Klaus Larres em (Fulbrook, 2001, p. 231). A proposta britânica foi, já
depois da assinatura do Tratado das CE, mas, antes da sua entrada em execução,
recusada pela França que a disse inaceitável, e o próprio governo de Londres suspendeu
as negociações que já se tinham iniciado.

A REACÇÃO BRITÂNICA: A EFTA

Ciente das vantagens de uma zona de comércio livre324 pela razão que referi acima dos
diferentes crescimentos dos mercados europeu e ultramarino, o Reino Unido procurou
outros parceiros para o seu projecto. Começou as suas negociações pelos países
escandinavos, que tinham tentado criar um mercado comum nórdico, mas, tinham
falhado, e com esses e alguns outros países chegou a acordo em meados de 1959. Em
Maio de 1960 era criada, com a assinatura do Tratado de Estocolmo, a EFTA – Zona
Europeia de Comércio Livre, com o Reino Unido, a Áustria, a Dinamarca, a Noruega, a
Suécia, Portugal e a Suíça como signatários325. Ao grupo dos seis “opunha-se”, agora, o
grupo dos sete. Para Portugal a adesão à EFTA foi um dos grandes marcos, talvez o
mais importante no período326, do seu caminho de "Regresso à Europa", irei tratar esta
questão na segunda parte deste capítulo.

324
Mas, construída segunda as suas próprias pretensões.
325
Mais tarde aderiram as Islândia, a Finlândia e o Liechtenstein (que tem uma união aduaneira e
monetária com a Suíça), e, como é sabido, saíram para a CE, o próprio Reino Unido, a Dinamarca, e
Portugal e depois a Áustria, e a Suécia e a Finlândia.
326
E , também, uma questão que exacerbou ânimos, dividiu as elites portuguesas e acabou por ser uma
vitória, como se verá, para o grupo dos chamados "desenvolvimentistas".

185
4. A Europa e Portugal após 1945

Mas, os objectivos da EFTA eram bem menos ambiciosos que os das CE. Tratava-se de
uma simples zona de comércio livre, com uma pauta aduaneira interior comum, mas,
podendo os países membros estabelecer pautas externas próprias. Por outro lado, os
sete constituíam um grupo muito menos homogéneo, em termos de desenvolvimento,
com diferenças mais acentuadas entre os seus membros neste aspecto, que entre os
membros das CE. Tal obrigou à provisão de tratamentos diferenciados em termos, por
exemplo, das mercadorias abrangidas pela pauta interior comum e a concessão de
ajudas aos países menos desenvolvidos327.

Entretanto a EFTA sofria de uma “doença” congénita: com excepção de Portugal, todos
os seus membros tinham como principaís parceiros comerciais os países das CE
(Eichengreen, 2008, p. 177). O comércio dos membros da EFTA, incluindo o Reino
Unido, com a CE cresceu sempre mais rapidamente que o comércio realizado entre os
seus membros. Ou seja, a EFTA nunca se apresentou como “rival” das CE, o que
acabava por a esvaziar de propósito.

Entretanto o Império Britânico, e a própria Commonwealth, ou começavam a


desaparecer – com a sucessiva independência de muitas colonias britânicas, ou a perder
importância em termos comerciais. A EFTA tinha cada vez menos importância para o
Reino Unido – que com ela não tinha conseguido assumir um papel de líder de bloco
integracionista, capaz de fazer frente às CE e em 1961, começou a repensar a sua
estratégia (Philip Ruttley em (Padgen, 2002, p. 239) constando que, apesar de continuar
a manter laços comerciais fortes com várias das suas ex-colónias – como a Índia, o
futuro para as suas exportações não se encontrava nessas terras longínquas, mas, na
zona de comércio livre sólida e de grande dimensão que emergia328 ali mesmo à sua
porta, a correspondente às CE.

Depois de todas as recusas em fazer parte deste projecto pelas razões que já referi, o
Reino Unido rendeu-se à evidência e pediu a sua adesão às CE em 1961 e, novamente

327
Portugal era, claramente, o menos desenvolvidos sete, o que foi expressamente reconhecido no
Tratado de Estocolmo, e beneficiou de ajudas financeiras ao desenvolvimento através do Fundo EFTA,
tendo sido criada, mais tarde,, em Portugal, uma instituição com o fim de gerir a aplicação dessas ajudas,
o Fundo de Fomento, mais tarde Banco de Fomento.
328
O uso do termo não foi propositado, mas, em reflexão, as CE eram um sistema complexo, com
interacções internas que cada vez mais faziam emergir fenómenos, a diversos níveis, que lhe davam
consistência, importância e aprofundavam a sua auto-organização, que a tornavam apetecível.

186
4. A Europa e Portugal após 1945

em 1967, para a ver recusada por de Gaulle, que via a sua entrada como uma ameaça à
sua visão de qual deveria ser o papel da Europa329 no Mundo – um vértice de um
triângulo dominado pela França, em que os outros dois eram os EUA e o Reino Unido,
triângulo esse que seria a força dominante no mundo330. Apenas após a queda de de
Gaulle, após os acontecimentos de Maio de 1968, ficou o caminho aberto para o
alargamento das CE.

A “ÉPOCA DE OURO” DO CRESCIMENTO

No início deste capítulo fiz a distinção, proposta por Eichengreen, ente crescimento
extensivo e crescimento intensivo. Seguindo o fio de raciocínio e de exposição
predominantemente cronológico que tenho vindo a usar, é, agora, o momento de falar
do aprofundar do crescimento extensivo no período que ficou conhecido, em todo o
mundo ocidental, por “Época de Ouro”.

Como se viu após o período de recuperação a seguir à guerra o crescimento económico


dos países europeus acelerou (ver Quadros 4-1 e 4-2 acima). A análise mais atenta do
Quadro 4-1 permite verificar que o ritmo de crescimento teve andamentos diferentes
nos anos de 1950 e nos anos de 1960. Nesta última década o crescimento foi realizado a
um ritmo superior ao da década anterior. O quadro 4-7 apresenta informação quanto ao
desempenho de alguns países europeus entre 1949 e 1959.

329
Como é evidente não existe outro termo para designar este espaço ou peças deste espaço. Apesar de
ter, penso, conseguido estabelecer que a Europa é um território e não uma identidade, pelo menos uma
identidade acabada, completa, distinta, não num futuro próximo (e nem, talvez mesmo, longínquo), não
há outra maneira de se lhe referir. O que quer dizer que “O Regresso à Europa” é uma alteração da
focagem económica e comercial de Portugal diferente da que tinha sido nos anteriores 500 anos, mas,
deixarei esta questão para as conclusões.
330
Eichengreen (Eichengreen, 2008, p. 177) cita de Gaulle como tendo dito a um dos seus ministros: "A
Europa é a oportunidade da França para voltar a ser o que deixou de ser em Waterloo: a primeira no
mundo”.

187
4. A Europa e Portugal após 1945

Quadro 4-0-5 – Contribuições para o crescimento do PIB, 1949-1959

Adaptado de Eichengreen ((Fulbrook, 2001, pp. 114, Quadro 4-4)

A informação contida no Quadro 4-5 pode, com vantagem, ser lida graficamente, dando
uma imagem mais legível da mesma. Veja-se a Figura seguinte.
Figura 4-3– Contribuição dos factores para o crescimento do PIB, 1949-1959. Autor baseado no Quadro 4-5

8,0

7,0

6,0

5,0

4,0

3,0

2,0

1,0

0,0
Alemanha Itália Países França Noruega Suécia Bélgica Reino
Ocidental Baixos Unido

Trabalho Capital Tecnol.

No Quadro e na Figura, mais visivelmente nesta, é patente o processo de “catch-up” que


já referi. Em qualquer dos países considerados a principal contribuição para o

188
4. A Europa e Portugal após 1945

crescimento vem da tecnologia ou progresso tecnológico331. Ela é mais clara na


Alemanha, na Itália e em França, mas, é largamente a principal contribuição em todos.
A contribuição da acumulação de capita, ou do investimento líquido, é muito menos
importante, excepto na Alemanha (e Noruega) em que contribuiu para o crescimento de
forma saliente.

Este período é, normalmente, considerado o dealbar da “Época de Ouro”. Uma das suas
principaís características, o rápido crescimento da produtividade, é explicado,
essencialmente, pela deslocação do trabalho da agricultura para a indústria e serviços
(Eichengreen em (Fulbrook, 2001, p. 114)). Na Alemanha o emprego agrícola diminui
9%, na Itália 8%, na Noruega 7%.

O ponto mais alto da “Época de Ouro” e do crescimento extensivo ocorreu durante os


anos de 1960. Não foi estranho a este facto o aumento do comércio intraeuropeu, a
criação das CE e da EFTA que constituíram estímulos substanciais para o aprofundar do
crescimento.
Quadro 4-0-6 – Comércio intra-europeu em percentagem do comércio de cada zona

. Adaptado de Eichengreen em (Fulbrook, 2001, pp. 119, Quadro 4-5)

Durante os anos de 1960 deu-se, claramente, um aprofundamento do processo de


crescimento económico. Efectivamente, como se pode constatar pela leitura do quadro
seguinte, as taxas de crescimento do PIB a custo de factores foram superiores, notando-
se, ainda, um decréscimo no crescimento do emprego.

331
Como é sabido, e uma vez que estes números foram obtidos a partir da utilização de uma função de
produção Cobb-Douglas e as contribuições correspondem à fórmula de crescimento de Solow, dentro da
categoria progresso tecnológico – calculada por diferença, e não por observação directa (é por isso
mesmo, chamada o “resíduo de Solow”) – estão incluídas todas as contribuições que não vêm do trabalho
ou do capital, como a educação, o papel das instituições, entre outros, mas, no caso é evidente o processo
de “catch-up”, que apesar de não isolável, o bom senso nos diz estar presente em parte apreciável.

189
4. A Europa e Portugal após 1945

Quadro 4-0-7 – Produção total na economia, emprego e produtividade do trabalho

(taxas de crescimento anuais compostas em %). Adaptado de Eichengreen em (Fulbrook, 2001, pp. 120,
Quadro 4.6).

A conjugação destas duas circunstâncias resultou num aumento da produtividade por


pessoa empregada.

Como referi antes os anos de 1960 representaram, para a generalidade dos países da
Europa, um aprofundamento do crescimento extensivo. É visível que na maioria dos
países a produção cresceu mais do que nos anos de 1950 e marginalmente mais do que
nos Estados Unidos. Mais significativamente a produtividade do trabalho cresceu
substancialmente. Segundo Eichengren, como se viu, a integração, o aumento do
comércio intraeuropeu e o aproveitamento das tecnologias anteriormente
“desaproveitadas” forma os principaís responsáveis. Mas, durante este período, a

190
4. A Europa e Portugal após 1945

Europa foi, igualmente, um receptor líquido de capitais, provenientes de investimento


estrangeiro vindo, essencialmente dos Estados Unidos.

Este investimento estrangeiro foi o portador, como normalmente é, de novas tecnologias


em áreas como a química, a industria de computadores ou o equipamento de transporte.
O investimento estrangeiro só não acelerou ainda mais o crescimento na Europa porque
se começaram a fazer sentir os efeitos da depreciação de investimento anterior e
proporção do investimento na indústria decaiu conforme a aumento da riqueza levou os
consumidores a aumentar o investimento residencial e a aquisição de bens duradouros, e
o investimento líquido resultante não se traduziu nesse maior crescimento. Outro facto
relacionado com a transferência de tecnologia é a necessidade de mais mão-de-obra
qualificada, donde a Europa, em alguns casos empreendeu reformas na educação formal
e noutros acelerou as acções de formação profissional.

Tudo isto contribuiu para o aumento da produtividade do trabalho. Houve um aumento


da intensidade332 do capital, e, também, um aumento da intensidade do capital humano,
com o aumento da produtividade total dos factores e da produtividade do trabalho.

Ao longo dos anos de 1960 o modelo de crescimento extensivo foi alimentado pela
emigração vinda dos países da Europa Mediterrânica e do Magrebe. Veja-se, por
exemplo, no Quadro 4-10, que o crescimento do emprego em Portugal foi de 0%,
devido a duas razões principaís: a emigração para a Europa Central e a manutenção de
um exército de mais de 100.000 homens nas guerras coloniais333.

332
“deepening”
333
Mais adiante analisarei este fenómeno, que permitiu em Portugal uma situação próxima do pleno
emprego.

191
4. A Europa e Portugal após 1945

Quadro 4-0-8 – Contribuições para a produtividade do trabalho 1960-70

, em %por ano. Adaptado de Crafts & Toniolo em (Broadberry & O'Rourke, 2010, p. 306. Quadro 12.7)334

Dos quadros acima outro facto se destaca. A aceleração do crescimento nos países da
Europa do Sul foi superior à verificada no resto do continente. Uma das principaís
razões para isso foi a de que a Grécia, Espanha e Portugal eram países relativamente
muito fechados ao comércio externo. Foi, precisamente, neste período que se
começaram a abrir a esse comércio335. Primeiro sob a égide da OCDE, em 1960 as
tarifas sobre mercadorias de países membros foi reduzida a metade, nesse mesmo ano
Portugal é membro fundador da EFTA, a Grécia e a Espanha negoceiam acordos de
associação com as CEE, e esta última realiza um Plano de Estabilização em 1959.
Eichengreen considera Portugal um caso ilustrativo (Eichengreen, 2008, p. 204), dadas

334
Na fórmula que permite calcular as contribuições constantes deste quadro a Produtividade Total dos
Factores é calculada por diferença – como o “resíduo de Solow” na fórmula de crescimento” referida
algumas notas acima – e não por observação directa. Tal quer dizer que não inclui apenas a produtividade,
as, também, todos os factores que contribuem para a produtividade do trabalho e que não sejam os
aumentos das intensidades do capital e do capital humano, como, por exemplo, a eficiência da utilização
dos factores ou as economias de escala.
335
No fundo o objetivo deste texto é ligar essa abertura de Portugal ao seu desenvolvimento, ou
europeização, o que procurarei fazer na segunda parte deste Capítulo e no Capítulo seguinte com uma
análise das alterações geográficas e do aumento do grau de abertura.

192
4. A Europa e Portugal após 1945

as taxas de crescimento atingidas e o facto de ter “partido” de uma posição mais


atrasada o que lhe deu maior margem de manobra para realizar o “catch-up”
tecnológico. A segunda parte do presente capítulo analisará o caso de Portugal em mais
pormenor.

Esta abertura retirou estes países da “prisão” da agricultura e permitiu o crescimento


rápido de indústrias mão-de-obra intensivas. O trabalho deslocou-se da agricultura para
a indústria e os bens de capital necessários ao funcionamento destas começaram a ser
importados336.

Os anos de 1960, especialmente até 1966, foram o cume da “Época de Ouro” e do


crescimento extensivo. Mas, a partir desse último ano o rápido crescimento escondia
alguns sinais preocupantes. Que começavam a ameaçar esse rápido crescimento. A
recuperação do pós guerra e o acelerado crescimento das décadas de 1950 e de 1960
assentaram fortemente numa espécie de consenso social entre organizações empresariais
e sindicais traduzido na moderação salarial.

PROBLEMAS LABORAIS E INFLAÇÃO, O FIM DE BRETTON WOODS

Por detrás do rápido crescimento estava agora uma crescente militância sindical e a
tendência do estímulo à procura, proveniente de rendimentos mais elevados, se traduzir
em pressões inflacionistas. Esta pressão trouxe, por sua vez, problemas de equilíbrio da
balança de pagamentos, porque a inflação tornava as exportações menos competitivas.
O consenso social tinha resultado na moderação social, mas, não, como é natural, na
possibilidade de se reduzirem os salários nominais. Assim, a única forma de contrariar
os desequilíbrios externos que começavam a aparecer era o recurso à desvalorização da
moeda.

No entanto, o acordo de Bretton Woods desencorajava esta solução. Previa


desvalorizações relativamente ao dólar, moeda ancora do sistema, no caso da existência

336
Como se verá esta deslocação não foi pacífica em Portugal. No final dos anos de 1940 e de inicio dos
anos de 1950, confrontaram-se duas correntes distintas em termos de política económica: os
“desenvolvimentistas” e os “defensores da agricultura”.

193
4. A Europa e Portugal após 1945

de “desequilíbrios fundamentais337”. Mas, os governos tinham de obter a aprovação do


“gestor” do sistema, o FMI. Com receio de que a informação das suas intenções
passasse para os mercados – que começavam a funcionar quase normalmente – fora de
tempo, os governos raramente recorriam a esta cláusula do acordo. Uma solução era
realizar sucessivas pequenas desvalorizações, permitidas pelo acordo dentro da banda
nele estabelecida, mas, tal iria minar a credibilidade dos governos em manter a paridade
com o dólar com a consequente perturbação dos fluxos de capitais.

Ou seja, com os mercados de câmbios e de capitais a funcionar quase normalmente,


conduzir desvalorizações, mesmo que correctamente estruturadas. A mobilidade
internacional de capitais tinha aumentado, e o mais pequeno sinal de desvalorização
poderia provocar338 enormes e desestabilizadores fluxos de capitais. Dito de outra
maneira, uma desvalorização, mesmo que apenas esperada, é vista pelos mercados como
o “anúncio” de que os rendimentos de capitais, a taxa de juro, se vão desviar, para
baixo, relativamente aos rendimentos que poderão ser obtidos num país que não
desvalorize, e isso provoca uma maciça saída de capitais. Por essa razão, os países
apenas recorriam à desvalorização como último recurso. No período apenas o Reino
Unido o fez em 1967 e a França em 1969, provocando desvalorizações compensatórias
noutros países. As regras de Bretton Woods, a crescente mobilidade internacional de
capitais, levaram os países a recorrer à desvalorização apenas em caso de extrema crise,
e esta própria já reduzia o grau de confiança na evolução da economia.

Este foi o princípio do fim do ordeiro sistema de Bretton Woods. Ainda que o abandono
da paridade do dólar contra o ouro – esteio do sistema – tenha tido lugar mais tarde,
durante a administração Nixon, devido à elevada dívida pública americana resultante da
guerra do Vietname339, aos altos preços do ouro no mercado340, e a outras tensões, é

337
Que nunca foram claramente definidos.
338
Como prediz a teoria da paridade das taxas de juro.
339
Parece que o Tesouro americano emitiu tanta dívida que, a certa altura, era maior o montante de
dólares (em títulos) nas mãos de não-residentes que nas mãos de americanos.
340
O acordo de Bretton Woods previa que a Reserva Federal americana trocasse sempre ouro por dólares
pelo montante de 35 dólares a onça. Com o aumento dos preços do ouro era um óptimo negócio comprar
ouro à Reserva Federal e vende-lo no mercado.

194
4. A Europa e Portugal após 1945

justificado dizer-se que os desequilíbrios das balanças de pagamentos na Europa


contribuíram para essas tensões341.

A crescente militância sindical conduziu às primeiras greves do pós guerra com especial
destaque para os acontecimentos de 1968 em França. O “contrato social” que tinha
permitido a recuperação e a posterior fase de crescimento estava findo.

Entretanto, as tecnologias acumuladas e não aplicadas que já referi tinham-se esgotado.


Já não era possível o consenso social que tinha dominado as relações laborais. Os
fundamentos do crescimento extensivo tinham-se exaurido. Era preciso procurar novas
soluções para o crescimento e essas passavam pela procura de novos produtos e de
novos processos. Era necessário apostar, agora, na investigação e desenvolvimento. Os
Estados Unidos já tinham começado a responder a esse desafio e, na Europa, o Reino
Unido era, em 1963, o único país que se aproximava.

Durante os anos da década de 1960 muitos dos países europeus tomaram consciência de
ter de realizar esta mudança. Os de menor dimensão começaram a apostar na
investigação e desenvolvimento ligada à sua base industrial existente, enquanto os de
maior dimensão, com governos com maiores disponibilidades para apoiar estas
actividades, começaram a investigar em indústrias mais modernas e baseadas na ciência.

Era isto que era necessário para passar para o chamado crescimento intensivo. Mas, o
crescimento intensivo exigia investimento, um investimento de tipo diferente do
realizado antes. E as pressões inflacionistas e laborais começaram a ameaçar a
manutenção das condições que tinham, até então, permitido o investimento – moderação
salarial, existência de lucros suficientes para reinvestir. Sem a moderação salarial as
condições para manter os níveis de investimento preexistentes desapareciam.

Após o pacto social do pós guerra e quase vinte anos de relações laborais pacíficas,
houve que se atrevesse a dizer que “a greve tendia a desaparecer”. Como se viu a
erupção de uma nova militância sindical surgiu em França em 1968-69. Os protestos,
como é sabido, começaram com o desencanto dos estudantes relativamente ao sistema
de ensino universitário. Mas, das reivindicações estudantis, passou-se, quase
341
O acordo de Bretton Woods só foi declarado “oficialmente” morto em 1977, quando, em resultado da
crise petrolífera de 1973 e consequentes pressões inflacionistas, os países signatários deixaram de ter
meios (leia-se reservas de divisas) para manter a paridade com o dólar.

195
4. A Europa e Portugal após 1945

imediatamente, às reivindicações sindicais. A resposta do governo francês foi aumentar


o salário mínimo em 35%; por contágio, os restantes salários aumentaram em cerca de
10%.

Os acontecimentos de França acabaram por se espalhar pelo resto da Europa. Entre


1966 e 1969 o salário nominal aumentou 11% na Itália e na Dinamarca, 13% nos Países
Baixos, e 15% na Irlanda. Os salários reais tiveram aumentos de apenas cerca de metade
desses valores (o restante reflectiu-se no aumento de preços dos produtos de consumo);
a produtividade do trabalho não acompanhou os aumentos salariais. Tal resultou num
aumento substancial nos custos unitários do trabalho.

Eichengreen (Eichengreen, 2008, pp. 217-223) aponta diversos factores que estiveram
na base destes acontecimentos. Primeiro, a parte da agricultura no emprego já tinha
baixado dos 15%, deixando de haver uma oferta elástica de trabalhadores rurais para
trabalhar na indústria. Por outro lado, durante a década de 1950, período de alto
desemprego, cerca de um terço do aumento da força de trabalho teve como origem os
trabalhadores desempregados; na segunda metade dos anos de 1960 esta forma de
alimentar a força de trabalho estava esgotada e os níveis de desemprego tornaram-se
muito baixos. A força de trabalho continuou a aumentar, principalmente na Europa
Central, à custa da emigração dos países do Mediterrâneo do Próximo Oriente e das
Caraíbas, já referida, mas, o continuado aumento desta emigração começou a criar
“anticorpos” nos países de acolhimento e a causar fortes reacções políticas que levaram
esses países a aplicar leis de imigração mais severas. Tudo isto resultou na diminuição
para metade do crescimento do emprego não-rural no período de 1960-65 a 1965-70 e a
uma nova redução para metade entre 1965-70 e 1970-75.

Enquanto nos anos de 1950 existia mais desemprego que oportunidades de emprego, a
relação inverteu-se durante os anos de 1960. Já em 1960 o número de desempregados
retinha baixado para cerca de metade do número de oportunidades de emprego ou
procura de trabalho, e a partir daí essa relação continuou sempre a descer. O que isto
significa é que o desemprego – efectivo ou potencial – deixou de ser uma força
moderadora das reivindicações salariais da forma como o tinha sido até aí. A
disponibilidade para sacrificar os salários em nome da reconstrução do pós guerra deu

196
4. A Europa e Portugal após 1945

lugar a exigências de recompensa do trabalho imediatas e a cedência a essas exigências


não podia ser adiada indefinidamente.

Curioso é verificar que a pressão para obter aumentos de salários e dos padrões de
consumo foi mais forte nos países em que tinha sido maior e mais fácil a moderação
salarial anteriormente. O caso mais citado é o dos Países Baixos, onde os trabalhadores
tinham sido os primeiros a aceitar salários baixos em nome da recuperação da economia
e de uma estratégia de crescimento orientada para as exportações, eram precisamente
aqueles que agora se encontravam na frente das reivindicações.

A QUEDA DO CRESCIMENTO DA PRODUTIVIDADE: O FIM DA “ÉPOCA DE


OURO”

O Quadro seguinte, idêntico ao Quadro 4 -8 dá uma ideia da composição da


produtividade do trabalho e das diversas contribuições para ela no período de 1970 a
1990.

É suficiente comparar a última coluna dos dois Quadros para se constatar que houve um
abrandamento significativo no crescimento da produtividade do trabalho. Este
abrandamento em conjunto com os aumentos salariais levaram, como já referi, a um
aumento não negligenciável dos custos unitários do trabalho e, consequentemente, da
competitividade externa dos países. Como se viu a única via para manter a
competitividade era a desvalorização das moedas o que nos traz de regresso ao Sistema
de Bretton Woods.

Note-se, ainda, que o aumento da intensidade do capital diminuiu e que a contribuição


da Produtividade Total dos Factores – especialmente nas suas componentes de
eficiência da utilização dos factores e das economias de escala.

197
4. A Europa e Portugal após 1945

Quadro 4--9 - Contribuições para a produtividade do trabalho 1970-80,

em %por ano. Adaptado de Crafts & Toniolo em (Broadberry & O'Rourke, 2010, p. 306. Quadro 12.7)

Outro factor que Eichengreen (op. e pp. cit.) considera que contribuiu para o
crescimento durante a “Época de Ouro” foi precisamente o Sistema de Bretton Woods.
Com o seu enfraquecimento, que já referi, A arquitectura do sistema tinha como
principal característica o compromisso dos países participantes em manter a paridade
das suas moedas relativamente ao dólar dentro de uma banda de variação estreita.
Enquanto os países cumprissem este compromisso não existia a possibilidade de
cederem a pressões inflacionistas, manter a paridade significava manter a inflação em
níveis baixos próximos dos dos restantes países. Porque qualquer pressão inflacionista
tende a fazer subir os preços das exportações e a reduzir o preço das importações , logo
fazendo subir a taxa de câmbio. Se esta tem que ser mantida fixa não existem
expectativas de inflação.

O que significa que o Sistema de Bretton Woods acabava por minimizar o impacto da
inflação sobre os salários. Com o seu colapso, e um colapso que se foi arrastando ao
longo do tempo, os sindicatos começaram a ter a expectativa de a inflação aumentasse e

198
4. A Europa e Portugal após 1945

continuasse. O resultado natural foi a incorporação da inflação esperada na fixação dos


salários em negociações de contratação colectiva342.

Eichengreen (ib.) conclui que todos os elementos que contribuíram para a moderação
salarial enfraqueceram na segunda metade da década de 1960 e acabaram por ruir
durante a década de 1970. Simultaneamente, e como já se viu, o crescimento da
produtividade desacelerou. No início dos anos de 1970 a parte dos lucros no rendimento
nacional dos países europeus era um quinto do que tinha sido quinze anos antes.

Os governos tentaram, por diversas formas, contrariar a tendência de inflação nos


salários, mas, não foram bem-sucedidos. Em sistemas de negociação tripartidos –
sindicatos, patrões e governo – era impossível implantar com a rapidez necessária
mecanismos de moderação social. Por outro lado, o estabelecimento de controlos sobre
os preços apenas era eficaz na contenção da inflação por prazos curtos. Existia sempre
este ou aquele sector que procurava ser isento desses controlos com o argumento de que
estavam a experimentar subidas de custos anormais. As tentativas para trazer os
sindicatos para o lado da moderação não foram bem-sucedidas. Havia trabalhadores não
sindicalizados aos quais essa moderação, mesmo que fosse conseguida, não se estendia.
Por outro lado, muitas negociações salariais eram realizadas ao nível das empresas, e
não dos sindicatos, e não respeitavam quaisquer limites que pudessem ter sido
negociados. O medo de ficarem isolados levou os dirigentes de muitos sindicatos à
realização de greves quase “selvagens”.

Tudo isto contribuiu para o fim da “Época de Ouro” ao mesmo tempo que no horizonte
outras nuvens negras se alinhavam. A primeira ameaça veio do reaparecimento dos
desequilíbrios externos. Durante a primeira metade da década de 1960 a Europa
Ocidental no seu conjunto teve sempre um excedente na balança de transacções
correntes. Isto significava, entre outras coisas, que a poupança estava a crescer e que,
portanto, não existiam restrições ao investimento, como a necessidade de financiamento

342
Apesar de ter, no início da minha carreira, apoiado diversas associações patronais nas suas
negociações colectivas “inventando” métodos de cálculo da inflação esperada que resultassem sempre em
valores inferiores aos previstos pelos sindicatos, foi sempre minha opinião pessoal que, quando a
negociação de salários incorpora a chamada reposição do poder de compra, a inflação a ter em conta é a
inflação passada e não a esperada. Outra vez o problema do axioma ergódico, com perdão do
estrangeirismo, mas, nem com o acordo ortográfico a palavra entrou no léxico do português, a inflação
esperada não é observável, pelo que tem que ser extrapolada do presente e do passado.

199
4. A Europa e Portugal após 1945

estrangeiro. Depois, em alguns países europeus as pressões salariais e o aumento da


procura por consumo levaram à deterioração das contas externas e o “fantasma” dos
desequilíbrios da balança de pagamentos reapareceu343.

O primeiro país onde os problemas de pagamentos externos apareceram foi a Itália, logo
no início da década de 1960. Depois, em França, já próximo fo final da década. No
Reino Unido os problemas de desequilíbrio externo foram quase crónicos, com a crise
da balança de pagamentos a estender-se por todos os anos de 1960. Como já referi atrás,
estes países tiveram de recorrer à desvalorização, excepto na Itália que, ao evitar a
desvalorização, passou por uma recessão.

Não tendo grande reflexo no caso português, a que esta descrição serve de pano de
fundo, não analisarei detalhadamente estes problemas. Apenas referirei que o caso do
Reino Unido, com a libra esterlina a ser, na prática, a segunda âncora do Sistema de
Bretton Woods, os seus problemas acresceram à incerteza quanto ao futuro deste
sistema e deram à Europa mais uma razão para encarar a reorganização da relações
financeiras a um nível regional. No caso da França o problema acabou por pressionar a
Alemanha no sentido da valorização marco, o que esta não fez.

No entanto, estes problemas, em conjunto com a crescente mobilidade de capitais a


nível internacional e a posição posterior, já referida, dos Estados Unidos em abandonar
a paridade dólar-ouro, acabaram por precipitar no início dos anos de 1970, com a ajuda
da crise petrolífera de 1973, o fim do Sistema de Bretton Woods. Muitos países
europeus passaram, ainda que com alguma relutância, a deixar flutuar livremente as
suas moedas. Esta relutância em deixar cair Bretton Woods provinha do receio de a
volatilidade resultante das taxas de câmbio tivesse consequências negativas ao nível do
comércio intraeuropeu e do desenvolvimento da Política Agrícola Comum (CAP).

Tal conduziu ao desenvolvimento da estratégia da chamada “Serpente Monetária”.


Antes da falência do sistema ainda foram tentadas soluções que resultaram no Acordo
do Smithsonian que teve curta duração, e que, principalmente, consistiu em passar a
banda de flutuação de Bretton Woods de 2% (1% para cada lado da paridade com o

343
Não querendo adiantar-me, sempre direi que em Portugal, como se verá, a falta de segurança nos
direitos de propriedade e, entre outras, a consequente diminuição dos montantes das remessas dos
emigrantes contribuíram para os desequilíbrios externos.

200
4. A Europa e Portugal após 1945

dólar) para um valor mais elevado de 4,5% (2,25 % para cada lado). Isto significava que
se uma moeda europeia desvalorizasse relativamente ao dólar no montante máximo
permitido, poderia variar relativamente a outra moeda europeia no dobro. As bandas
bilaterais entre moedas europeias passaram a ser de 9%344. Ora, para os países europeus
tal não era aceitável. Por um lado, toda a operação de “montagem” da CAP ficaria em
perigo, por outro reforçava a posição do dólar como moeda de reserva porque este só
poderia variar relativamente às moedas europeias em metade.

O que os dirigentes europeus fizeram foi acordar que as variações bilaterais entre
moedas europeias nunca poderiam ultrapassar os limites do Acordo do Smithsonian.
Eichengreen (Eichengreen, 2008, p. 247) recorda com algum humor:

“The metaphor was that of a European snake slithering through


the Smithsonian tunnel. When the Smithsonian Agreement
collapsed in 1973 and the dollar began floating, mention of the
tunnel was dropped and pundits referred, only half in jest, to the
snake floating in the lake”

A serpente foi estabelecida em 1972 com os seis, mais a Dinamarca, o Reino Unido e a
Irlanda (prestes a entrar para a CE). Os países foram permitidos manter controlos de
capitais meramente financeiros, mas, não dos resultantes de variações da balança de
transacções correntes (em linha com as regras da OCDE e do FMI). O problema é que a
serpente rapidamente começou a manifestar as mesmas fraquezas que o Sistema de
Bretton Woods. A conclusão tirada foi a de que qualquer solução teria que ter fortes
bases institucionais, ser criada dentro da CE e assente num reforçar do processo de
integração, o que conduziu depois à criação, em 1979, do Sistema Monetário Europeu
(EMS) e do seu Mecanismo de Taxas de Câmbio (MTC ou ERM)).

O processo de integração começou a solidificar-se e as suas instituições a ganhar peso,


Em Janeiro de 1973 aderiam os três países referidos acima, Reino Unido, Irlanda e
Dinamarca e em Janeiro de 1981 a Grécia. Entretanto Portugal e Espanha celebraram
acordos de associação e pediram a adesão formal que se deu em Janeiro de 1986. É no

344
Enquanto uma se desvalorizava 4,5% a outra poderia valorizar-se no mesmo montante.

201
4. A Europa e Portugal após 1945

contexto que acabo de tentar resumir que evolui Portugal durante os anos de 1945 a
1985. É a essa evolução que vou dedicar as páginas seguintes.

4.2 Em Portugal

Escrever sobre a evolução económica, social e política de Portugal neste período exige
que se regresse ainda um pouco mais atrás no tempo relativamente a 1945. Mais
precisamente a 1931-1932, quando Salazar começou a lançar as bases do seu regime
corporativista, ou Estado Novo. Porque as instituições que foram sendo criadas pelo
regime ao longo dos anos de 1930 condicionaram toda essa evolução até 1974. E o
derrubamento das mesmas quebrou o “caminho de dependência” iniciado no século XV
e influenciou todos os acontecimentos até, pelo menos, 1983.

O CORPORATIVISMO E AS SUAS INSTITUIÇÕES

O regime corporativista345 e as suas instituições isolaram Portugal de muitos dos


acontecimentos que acabei de referir relativamente à Europa, provocaram, por um lado,
o atraso do início do processo de desenvolvimento, mas, por outro lado, deram a este
desenvolvimento contornos diferentes que o fizeram estender-se até 1973. Nesse ano
Portugal, apesar de tudo o que aconteceu na Europa e no Mundo, teve a mais elevada
taxa de crescimento do PIB, não só do período, mas, igualmente, de toda a Europa.
Como se verá foi esse ano o único em que um país da Europa conseguiu crescer a uma
taxa de dois dígitos.

Salazar assume a posição de primeiro-ministro em Fevereiro de 1932. Mas, já antes, em


1931, tinha sido tomada uma medida legislativa que marcou profundamente346 a
evolução da economia portuguesa, a primeira lei do condicionamento industrial. Mas,
antes de falar do condicionamento industrial, irei resumir, em traços gerais, a política

345
Alguns autores afirmam que lhe faltam alguns elementos para poder ser considerado verdadeiramente
corporativista.
346
No sentido de ter iniciado uma práctica, porque esta lei foi revista pouco depois, em 1937, num sentido
menos restritivo.

202
4. A Europa e Portugal após 1945

corporativista e as suas instituições. Apesar de se inspirar extensamente no fascismo da


Itália de Mussolini, os diversos estudiosos do Estado Novo ainda não acordaram se o
regime foi verdadeiramente fascista. Por outro lado, no momento em que surgiu regimes
do estilo nacionalista e autoritário eram mais a regra do que a excepção na Europa: a
Alemanha de Hitler, a Roménia, a Itália, a União Soviética, a Hungria, a Grécia, a
Lituânia, a Jugoslávia, e, pelo menos em alguns aspectos, a Polónia (ver (Leitão, 2007,
p. 26)347. Cada um tinha o seu “sabor” e o bolchevismo da União Soviética dizia-se
oposto aos outros, mas, os elementos caracterizadores estavam presente: nacionalismo,
autarcia, dirigismo, autoritarismo, entre outros.

Referir-me-ei ao regime português como corporativismo ou Estado Novo, sem me


imiscuir na discussão de se era fascista348 ou não349.

Se for buscar a reflexão de Susan Strange sobre o que é um regime (Strange, 1994, pp.
1-6), concluo que todo o regime é uma combinação de quatro valores: segurança,
riqueza, justiça e liberdade de escolha. Quando a riqueza e a segurança (principalmente
esta) são os valores dominantes, o regime é autoritário. É este o caso de todos os
exemplos acima.

A génese do regime corporativista beneficiou de circunstâncias (ver (Rosas, Serrão, &


Marques, 1992)) que impediram a Ditadura Militar que em 28 de Maio de 1926
derrubou a I República, desorganizada, mas, democrática, de seguir outro curso. Rosas
aponta a morte do General Sinel de Cordes, a ascensão de Cerejeira como Cardeal-
patriarca de Lisboa e a nomeação do General Domingos de Oliveira como primeiro-
ministro, como circunstâncias decisivas para o caminho que, sob a direcção de Salazar,
foi trilhado.

Ainda no ministério de Domingos de Oliveira foram publicados o Acto Colonial (Julho


de 1930) que referi no Capítulo 1 e a lei do condicionamento industrial atrás
mencionada. Os outros textos base do novo regime foram a Constituição de 1933

347
Segundo este autor o regime mais parecido com o português teria sido o de Dolfuss, na Áustria entre
1932 e 1934.
348
Até porque tudo depende da definição de fascismo, e não quero ir por aí.
349
Andersen Leitão (Leitão, 2007, p. 26) também considera, baseando-se em diversos autores, que as
diferenças do regime corporativista para um regime fascista eram mais do que as semelhanças.

203
4. A Europa e Portugal após 1945

(publicada em Maio de 1932, plebiscitada em Março de 1933350 e que absorveu o Acto


Colonial) e o Estatuto do Trabalho Nacional (1938). Outra legislação foi produzida,
mas, considero que estas são as verdadeiras bases do regime corporativista. Será,
entretanto, de referir a importância do partido único – União Nacional – e dos seus
Estatutos na construção do regime e de outras instituições de enquadramento da
população, em parte copiadas dos regimes de Mussolini e de Hitler.

Segundo Rosas (op. cit. p.27) eram três os grandes objectivos destas instituições:

“- Fundar uma nova ordem jurídico-política baseada na


autoridade do Estado e na supremacia do poder executivo;
- Definir um novo quadro nas relações da metrópole colonizadora
com o império colonial;
- Institucionalizar uma nova organização económica e novas
relações de trabalho, tuteladas pelo poder executivo, donde
imanava a autoridade e a definição dos “superiores interesses
nacionais” para os quais capital e trabalho deveriam concorrer
de modo não antagónico.”

Ou seja, as bases do regime económico corporativista eram: economia nacionalista –


autarcia económica, abolição das liberdades dos trabalhadores, auto-suficiência
alimentar, condicionamento industrial para racionalizar o investimento, e a cartelização
de alguns sectores por intervenção do Estado eliminando a concorrência. Uma economia
intervencionada e dirigida pelo Estado que decidia quais eram os interesses nacionais.
Foi sobre esta construção corporativista, ligeiramente liberalizada nos anos de 1960, que
se desenrolou toda a vida económica até 1974 e se pautaram as relações de Portugal
com os outros países. No entanto, esta construção não conseguiu escapar incólume ao
liberalismo inserido e ao multilateralismo do pós-1945.

Como afirma David Corkill (Corkill, 1999, p. 9).

350
O pensamento, paternalista, de Salazar acerca do regime que estava a construir ficou bem patente
quando disse:
“Embora o povo não esteja, na sua grande maioria, apto para votar em
perfeita consciência o texto completo da Constituição, o seu voto tem
um significado político que não é lícito desprezar: é um voto de
confiança nos dirigentes”

204
4. A Europa e Portugal após 1945

“For a small, open economy like Portugal’s external factors are


important. Try as it might, the Salazar regime could not insulate
itself from the effects and consequences that flowed from the
Spanish Civil War, the Second World War, the Marshall Plan,
the Golden Age of Growth (1950s-1970s), and the
decolonazation process that marked the end of empire.”

Portugal é, na minha opinião, um bom exemplo da insuficiência da tricotomia


ideológica da EPI defendida por Watson como referido atrás. Houve períodos mais ou
menos longos nos anos de 1960, princípios os anos de 1970, em que Portugal foi,
simultaneamente, mercantilista e liberal em termos de relações económicas com países
terceiros.

DURANTE A II GUERRA

Terei oportunidade, ao longo das páginas que seguem, de referir como é que as
instituições corporativistas afectaram a evolução de Portugal. Vou começar a minha
análise descritiva dois anos antes do fim da guerra. A razão é simples. Sendo país
neutral, Portugal não sofreu a destruição da guerra, apenas experimentou efeitos
secundários como a escassez de bens de consumo e de alimentos, a chamada crise dos
abastecimentos. Mas, ao mesmo tempo, beneficiou, pelo menos até 1944 com as
necessidades dos países beligerantes. Portugal abasteceu tanto o Eixo como os Aliados
com matérias-primas e bens de consumo essenciais ao esforço militar. Estão neste caso
o mais que conhecido caso do volfrâmio que teve como principaís clientes a Alemanha
e o Reino Unido, as conservas de peixe para as rações de combate, e os tecidos para a
confecção de fardamentos.

Estas exportações permitiram Portugal acumular apreciáveis quantidades de reservas no


Banco de Portugal, especialmente ouro, e chegar ao fim da guerra como credor do
Reino Unido em várias dezenas de milhões de libras. Por outro lado, estes
fornecimentos aos países beligerantes causaram um surto de investimento, uma
melhoria apreciável das razões de troca e uma apreciação do escudo. É por aí que vou
começar. A aproximação que utilizarei ao longo deste subcapítulo assentará
substancialmente no recurso a quadros e gráficos. Quando outra fonte não for citada, as

205
4. A Europa e Portugal após 1945

informações utilizadas terão sido retiradas do CD-ROM referenciado na bibliografia


como(Mateus, Anexo estatístico a Economia Portuguesa, 2006) Anexo Estatístico.

Esta situação de Portugal correspondeu a um choque positivo de origem externa e


constitui o quarto caso que eu identifico como sendo de “dutch desease” desde o século
XV. O PIB cresceu, entre 1939 e 1950 a uma média anual de 2,6%, mas, entre 1939 e
1945 cresceu apenas a uma média anual de 1%, como seria de esperar, dada a guerra,
enquanto após 1946, especialmente depois de 1948, a Europa já estava em recuperação.
O peso do emprego na agricultura baixou 4% tendo como contrapartida aumento de
igual dimensão na indústria. O grau de abertura da economia (comércio total a dividir
pelo PIB) passou, entretanto, cerca de 12% em 1939 para cerca 17% em 1950.

Mas, como já referi, o facto saliente, durante a guerra, foi o aumento das exportação de
alguns produtos para os países(Nunes & Valério) beligerantes. Essas exportações
resumidas, em valor, no quadro seguinte, representaram cerca de 57% das exportações
portuguesas.
Quadro 40-10 – Valores das exportações de alguns produtos durante a II Guerra

, Milhares de escudos

O substancial crescimento das exportações de volfrâmio até 1942 ficou a dever-se, não
especialmente às quantidades exportadas, mas, aos preços do mesmo nos mercados
internacionais. A partir de 1943 as conservas de peixe passaram a liderar as
exportações, mas, com menor valor acrescentado já que Portugal tinha que importar a
folha de flandres para o fabrico das latas.

Estas exportações tiveram diversas consequências. Primeiro, os termos de troca – o


preço das exportações a dividir pelo preço das importações – subiram apreciavelmente.
Depois, deu-se um razoável crescimento do investimento.

206
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-4 Evolução dos preços por tonelada do volfrâmio

Preço Volfrâmio
4000

3000

2000

1000

0
1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944
(1939=100)

. Em números índices.

Figura 4-5– Evolução das razões de troca

1,600
1,400
1,200
1,000
0,800
0,600
0,400
0,200
0,000
1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945
Figura 4-6 FBCF

0,16
0,15
0,14
0,13
0,12
0,11
0,10
0,09
0,08
1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945

em % do PIB

207
4. A Europa e Portugal após 1945

Mas, o facto mais saliente deste período de guerra para Portugal foi o de que o
crescimento das exportações e a substancial melhoria das razões de troca levaram a um
substancial aumento das reservas de ouro e divisas no Banco de Portugal.

Figura 4-7 Evolução das reservas de ouro e divisas no Banco de Portugal,

20.000

15.000

10.000

5.000

0
1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945

Ouro avaliado a preços de mercado

Não estão incluídas nestas reservas as dívidas do Reino Unido que atingiam os 80
milhões de libras no final da guerra. Parte desta dívida serviu para pagar importações e
o restante foi pão, a taxas de juros baixas e em ouro, até 1955. A Figura 4-7 ainda tem
outra leitura. Imaginando que Portugal deixava de produzir e tinha que importar tudo
quantos meses poderia viver com estas reservas? O Quadro 4-8 dá a resposta. Enquanto
em 1938 as reservas davam para Portugal “viver” cerca de 7 meses, em 1947 dariam
para cerca de 12 meses, com um pico de 42 meses em 1945.
Figura 4-8– Número de meses de importações correspondentes às reservas do Banco de Portugal.

50,0

40,0

30,0

20,0

10,0

0,0
1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945 1946 1947

208
4. A Europa e Portugal após 1945

Mas, como referi este foi o quarto caso de “dutch desease” que identifico em Portugal
desde o século XV351. Houve um preço a pagar por isso. Como já referi, dá-se este
nome a uma situação em que a descoberta e exploração de um recurso mineral ou
natural, leva ao descurar do investimento noutros sectores. Nos três casos anteriores, a
“doença” também deu lugar a episódios de consumo conspícuo.

No presente caso, o preço a pagar traduziu-se, principalmente, em duas coisas: numa


subida substancial dos custos unitários do trabalho e numa forte apreciação da taxa de
câmbio efectiva. Os custos do trabalho aumentaram entre 1938 e 1945 cerca de 50% e o
índice de salário rural cerca de 41% entre 1938 e 1946. A consequência evidente foi a
de um aumento apreciável dos custos de produção.

Figura 4-9 Evolução dos custos unitários do trabalho

160,0

150,0

140,0

130,0

120,0

110,0

100,0
1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945

Em termos reais

A taxa de câmbio efectiva apreciou-se em cerca de 46% entre 1940 e 1949. Mas, deu-se
o acaso de entre 1938 e 1940 se ter dado uma depreciação real de cerca de 27%.

351
Os outros, recordo, corresponderam ao ouro da Mina e ao tráfico de escravos, às especiarias da Índia e
ao ouro e pedras preciosas do Brasil.

209
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-10 Evolução da taxa de câmbio efectiva

105,0
100,0
95,0
90,0
85,0
80,0
75,0
70,0
65,0
60,0
1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945 1946 1947 1948 1949

Esta apreciação do escudo conduziu, no pós-guerra, a graves problemas na balança


comercial352.

Figura 4-11 Balança comercial de 1938 a 1947,

10,00
5,00
0,00
-5,00 1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945 1946 1947

-10,00
-15,00
-20,00
-25,00
-30,00

Milhões de euros

A resposta das autoridades portuguesas a este desequilíbrio foi a de utilizar a política


orçamental para induzir ligeiros excedentes das contas públicas entre 1939 e 1946.
Tentaram, igualmente, absorver liquidez através da emissão de dívida pública interna
consolidada. Esta atingiu cerca de 18% do PIB em 1939, para passar a quase 27% em
1942. No entanto, em 1948 tinha baixado para 20% do PIB. Esta redução da dívida não

352
Estes problemas foram a razão por que, não sendo Portugal, um dos países atingidos pela devastação
da guerra, foi um dos países, com o menor montante de ajuda, a beneficiar do Plano Marshall.

210
4. A Europa e Portugal após 1945

facilitou o ajustamento da economia portuguesa ao desequilíbrio e em 1946 os salário


reais cresceram 19% (durante este período sucederam-se, em Portugal, movimentos de
reivindicação laboral, a primeira grande crise do regime (Rosas F. , 1994, pp. 353-369).
O ajustamento ao choque externo foi, então feito, através do aumento do défice externo,
da redução das reservas de ouro e divisas, mantendo alguma estabilidade na taxa de
câmbio de modo a contrariar pressões inflacionistas.

LOGO APÓS A II GUERRA

É depois do final da guerra que se acentuam clivagens, em termos de condução da


política económica, dentro do regime que vão influenciar a evolução da economia
portuguesa nas décadas seguintes. Tratou-se do debate, que já referi, entre
“desenvolvimentistas”, defensores da rápida electrificação do país, promovida pelo
Estado, e da industrialização, e os “ruralistas”, apostados na manutenção de uma
economia agrária e de pequenas e médias empresas. (Mateus, 2006, p. 73)(Rosas F. ,
1994, pp. 433-434).

A preocupação com a dinamização das obras públicas vinha já da Lei da Reconstituição


Económica de 1935 (ver Ana Bela Nunes e Brandão de Brito em (Rosas, Serrão, &
Marques, 1992, p. 307)(Nunes & Valério))353 uma lei plano a realizar a quinze anos,
pouco coerente e sem preocupações de enquadramento,. sendo mais uma medida de
política conjuntural anti depressão. A maior parte dos 6,5 milhões de contos deste plano
foi, aliás, utilizada, na Defesa Nacional. Franco Nogueira(Franco Nogueira, 2000, p.
378), insuspeito, por se ter mantido parcialmente afecto ao regime depois da sua
queda354, afirma acerca desta Lei:

“Este plano, incipiente e limitado, destinava-se por um lado a


ocorrer às necessidades prementes de Defesa Nacional; e por

353
Existe um documento de Ana Bela Nunes e Nuno Valério no repositório da Universidade Técnica de
Lisboa que não consegui referenciar.
354
Apesar da crítica ser, mais provavelmente, dirigida à I República. Mas, como escreve Marcelo Rebelo
de Sousa no Prefácio:
“E, por entre a densidade das teses sustentadas, avultam dois heróis: o povo-
nação – o herói legitimante, realidade cultural e histórica que serve de pano
de fundo – e o líder – o herói, legitimado, que move a História. Um herói que
tem nome – Salazar – e merece uma monumental biografia”

211
4. A Europa e Portugal após 1945

outro lado, a arrancar o país dos vários zeros355 em que havia


caído (zero naval, zero rodoviário, zero financeiro, zero
pedagógico, etc.)”

Ferreira Dias, engenheiro, ministro da Economia entre 1958 e 1962, considerado o


principal representante da primeira corrente, publicou em 1945 o livro “Linha de Rumo:
notas de Economia Portuguesa” em que expunha o seu pensamento. Nele caracteriza ao
grande atraso relativo de Portugal no seio da Europa, mostra-se fortemente contra a
teoria de que Portugal apenas tem vantagens comparativas na agricultura 356 e defende a
necessidade de uma industrialização mais rápida para prosseguir o desenvolvimento. A
industrialização deveria ser baseada, primeiro, na electrificação acelerada e numa
protecção pautal comedida (15 a 20%)357. Defendeu, igualmente, o fim da protecção aos
sectores obsoletos (na altura com um proteccionismo a 100%) e o rápido
desenvolvimento de alguns sectores industriais – química, siderurgia, papel – e dos
sectores que tinham crescido durante a guerra, as conservas de peixe e produtos
vegetais. No entanto, esta proposta de Ferreira Dias apontava para uma industrialização
virada para o mercado interno e colonial. No fundo era uma política de substituição de
importações, difícil de resultar com mercados tão limitados na sua dimensão.

Este seu livro é a continuação do debate iniciado em 1944 no II Congresso da União


Nacional. As suas ideias acabariam por fazer vencimento, e, ainda antes da publicação,
em 1944, ano em que a electrificação358 é vertida em lei visando, especialmente, o
abastecimento de Lisboa e Porto, e de vários polos industriais, através de
empreendimentos hidroeléctricos (a barragem de Miranda do Douro é um exemplo) por
concessão a privados com posição maioritária do Estado (Mateus, 2006, p. 74) (Rosas
F. , 1994, p. 453).

Em 1945 é publicada a Lei da Reorganização Industrial359, já depois de Dias Ferreira ter


deixado o cargo de subsecretário de Estado da Indústria que ocupava, fortemente

355
Sublinhado meu.
356
“Portugal sem siderurgia é uma horta” escreve, vide Mário Murteira,
http://www.mariomurteira.com/licao%20de%20jubila1.html.
357
Em minha opinião, argumento baseado na teoria da proteção de novas indústrias.
358
Lei 2002, 1944.
359
Lei 2005, 1945

212
4. A Europa e Portugal após 1945

intervencionista e que previa a concentração e modernização das indústrias existentes,


seja por acordo dos proprietários, seja por recurso à intervenção Estado.

Entretanto, o Estado resolveu intervir na área dos transportes, necessária à


intensificação das relações com as colónias, determinando a renovação da marinha
mercante, a reorganização e concentração dos transportes rodoviários, a entrega dos
transportes ferroviários a uma concessionária única controlada pelo Estado e o
lançamento de linhas aéreas internas e com as colonias.

Como já referi (Figura 4-6) assistiu-se, nesta altura, a uma intensificação do


investimento que teve o seu pico em 1950, em 1948 representava cerca de 22% do PIB,
enquanto em 1938 era de cerca de 10% do PIB. A dívida externa reduziu-se de 58
milhões de libras no início dos anos de 1930 para cerca de 9 milhões de libras em 1940
e um rácio relativamente às exportações inferior a 20% depois do final da guerra.
Segundo Abel Mateus (Mateus, 2006, p. 74) estavam criadas as condições para o
moderno desenvolvimento português, em sincronia com a Época de Ouro da Europa,
que já referi.

Cabe aqui uma referência ao Plano Marshall360. Portugal foi fundador da OECE, mas
não recorreu a qualquer ajuda no início. Apenas depois da já referida crise da balança de
pagamentos e perda de reservas do Banco de Portugal entre 1946 e 1948 e temendo um
atraso no Plano de Fomento – aliás, exigência da participação na OECE, que requeria a
aplicação aos países membros de mecanismos de planeamento económico – Portugal
recebeu a partir de 1950 cerca de 70 milhões de dólares. Apenas 16,8 milhões foram
usados na importação de equipamento industrial, por ainda não estar em execução
qualquer plano, sendo restante utilizado para pagar abastecimentos, cereais e petróleo
especialmente.

Mas, mesmo que não tivesse recorrido a qualquer ajuda, a simples participação na
OECE constituía uma quebra, ainda tímida, com a anterior política intransigente de

360
Cujo papel na evolução económica de Portugal é por muitos minimizado. Não é o Plano em si que é
importante para Portugal. Como vimos a ajuda foi exígua. O que é importo e procuro realçar no texto é o
facto de ele ter levado Portugal a participar numa instituição internacional de cooperação económica e o
que isso representa de desvio relativamente aos princípios do regime corporativo.

213
4. A Europa e Portugal após 1945

autarcia e o primeiro passo no sentido da aproximação à multilateralização e à


cooperação internacional.

A ÉPOCA DE OURO E PORTUGAL – PRIMEIRAS REFLEXÕES.

Como já referi os anos de 1950 a 1973 ficaram conhecidos, a nível mundial – pelo
menos nas economias ditas de mercado – como a “Época de Ouro” do crescimento. As
razões são explicadas acima e em (Eichengreen, 2008), mas, será, talvez, útil recordar
alguns números que caracterizam esse período. O PIB per capita português cresceu
5,7% ao ano nesses anos. A produtividade total dos factores cresceu, em Portugal, a
uma média anual de 1,5% entre 1955 e 1974.

O PIB per capita mundial cresceu, em média anual, 2,9% (três vezes a média de 1913 a
1950). O PIB aumentou, ao ano, em 4,9% e as exportações mundiais – o comércio
mundial – 7%. Foi na Europa e na Ásia que estes crescimentos foram mais elevados.

Já vimos que a criação de regras de conduta, o aparecimento de instituições de


cooperação adaptativas361 (OECE, OCDE, FMI, Banco Mundial), a guerra fria que criou
uma maior proximidade entre as economias ocidentais, a ajuda dos Estados Unidos à
reconstrução europeia, e, de certo modo, o seu papel hegemónico, talvez imodesto, mas
responsável, que encorajou projectos de cooperação e de liberalização do comércio, o
próprio movimento de integração europeia. Além disso, as políticas económicas
nacionais foram no sentido de estimular a procura interna e o pleno emprego, e uma
inflação historicamente baixa. Finalmente, o “catch-up” tecnológico referido por
Eichengreen, assente em altas taxas de poupança e de investimento na Europa.

Como se inseriu Portugal nesta evolução? Em 1950 Portugal era o país mais atrasado da
Europa (Lains, 2003, p. 35 e segs.), se tivermos em conta que os indicadores inferiores
apresentados pela Grécia362 – que, aliás, rapidamente ultrapassou Portugal – resultavam
do facto de ter sido fortemente atingida pela destruição da guerra. Em cerca de 40 anos,

361
Exactamante no sentido da TSCA, de agentes que se vão adaptando às alterações do sistema e à
evolução das interacções no seu seio.
362
Aliás, a Grécia cresceu este período muito mais rapidamente que Portugal e cedo o ultrapassou em
níveis de desenvolvimento.

214
4. A Europa e Portugal após 1945

desde 1910, Portugal tinha-se aproximado da média europeia de PIB per capita apenas
5%. Esta posição de “partida” de Portugal vai de encontro a uma constatação de
Eichengreen, que já referi, de que a vantagem de Portugal, uma vez postas em prática as
políticas e reformas necessárias, era ter um maior espaço de manobra para realizar o seu
desenvolvimento, porque partia detrás363.

Figura 4-12– Evolução da Produtividade Total dos Factores

190,0
180,0
170,0
160,0
150,0
140,0
130,0
120,0
110,0
100,0
1968
1938
1940
1942
1944
1946
1948
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962
1964
1966

1970
1972

, Em números índice, 1910=100 1974

Se se examinar atentamente a evolução dos factores que influenciam o crescimento, este


período mostra um dos factos mais marcantes do desenvolvimento português ao longo
de todo o século XX.

A produtividade total dos factores (Figura 4-12) que tinha estagnado no período de 1930
a 1950, começa a crescer acentuadamente, acelerando de forma sensível em 1960.
Desse ano a 1965 a produtividade cresceu cerca de 3,3% ao ano e de 1,9% anuais de
1965 a 1970.

363
Será útil esclarecer aqui que crescimento económico e desenvolvimento não são a mesma coisa. Se
retomarmos a distinção de Aristóteles acerca das relações entre produção e riqueza, o crescimento é
puramente crematístico, tem a ver com o crescimento da riqueza e não com a utilização que lhe é dada.
Porque desenvolvimento é muito mais do que isso, é , por exemplo, ter níveis de educação mais elevados,
ou ter uma esperança de vida mais longa. Ou seja tem mais a ver com a “oikonomia”, com a forma como
a riqueza gerada pela produção é utilizada para melhorar a qualidade de vida. É evidente que sem
crescimento não se criam recursos para que haja desenvolvimento, mas, isso não é suficiente. Para uma
exposição esclarecedora sobre as diferenças existentes entre os dois conceitos ver (Perkins Dwight H.,
2006).

215
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-13– Contribuições dos factores para o crescimento do PIB

8,00
6,00
4,00
2,00
0,00
1935- 1940- 1945- 1950- 1955- 1960- 1965- 1970-
-2,00
40 45 50 55 60 65 70 75
-4,00

Trabalho Capital Humano Capital físico resíduo de Solow

, Médias quinquenais.

A partir de 1950 a contribuição do capital mantém-se em cerca de 3% durante todo o


período até 1974364. Nota-se, ainda, que o resíduo de Solow – produtividade, progresso
tecnológico, etc. – tem um forte contributo em 1960-1965 e contributos com significado
nos dois quinquénios seguintes, como já se tinha visto na figura anterior. A taxa de
investimento (FBCF/PIB) sobe de 16% em 1950 para cerca de 35% em 1973 e 1974.

Figura 4-14– Taxa de Investimento

40%
35%
30%
25%
20%
15%
10%
5%
0%
1958

1968
1940
1942
1944
1946
1948
1950
1952
1954
1956

1960
1962
1964
1966

1970
1972
1974

Segundo (Mateus, 2006, p. 85) os sectores mais enérgicos no período foram as


indústrias químicas, e as metalomecânicas, além da produção de máquinas, material
eléctrico e de transporte. Como já se viu a taxa de câmbio teve um comportamento

364
Saliente-se que a altura das barras na Figura 4-13 é igual ao crescimento médio do PIB em cada
quinquénio.

216
4. A Europa e Portugal após 1945

favorável à competitividade externa das empresas portuguesas365. A Figura que


apresentei atrás (4-10) abrangia apenas o período até 1949, pelo que será útil apresentar
aqui uma figura para este período mais abrangente.

Em 1950 a taxa de cambo sofre uma depreciação efectiva de cerca de 20% em termos
reais, e mantém-se em níveis competitivos até 1965. A partir desse ano o agravamento
da balança de pagamentos leva as autoridades monetárias a deixar começar a apreciar o
escudo que, 1973, já tinha apreciado cerca de 18% (Figura 4-15).

Outro indicador caracterizador do período é o índice de cotações na Bolsa de Valores de


Lisboa (figura 4-16). Após a guerra a Bolsa começou a recuperar impulsionada,
também, pelo crescimento económico dos anos de 1950, mas, quebrou acentuadamente
em 1961-1962. O crescimento dos anos de 1960 e a existência de liquidez conduziu a
movimentos especulativos que criaram uma “bolha” que os acontecimentos de 1974
fizeram rebentar366.

Figura 4-15 Taxa de câmbio efectiva

80,0
70,0
60,0
50,0
40,0
30,0
20,0
1944

1964
1940
1942

1946
1948
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962

1966
1968
1970
1972
1974

365
Aqui adopto a ideia – bem conhecida - de Paul Krugman de que os países não são empresas e que,
portanto, não são os países que são, ou deixam de ser, competitivos, mas, sim, as suas empresas.
366
Em 1973 tinha acabado de entrar para a Faculdade de Economia do Porto, e recordo o entusiasmo com
que investidores e aspirantes a investidores, como eu, aguardavam, a meio da tarde parece-me, a
distribuição pelos Bancos das folhitas com as cotações do fecho do dia. Será que os cimentos x passaram
a barreira dos 200 contos? Andava no ar um perfume de especulação, mas, também, de interesse e de
entusiasmo, a realização do sonho parecia próxima.

217
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-16 Índice das cotações da Bolsa de Valores de Lisboa

1200

1000

800

600

400

200

0
1943
1939
1941

1945
1947
1949
1951
1953
1955
1957
1959
1961
1963
1965
1967
1969
1971
1973
Outra área em que se produziram avanços em Portugal neste período foi na educação.
Ainda que se tivesse mantido com atrasos relativos significativos relativamente ao resto
da Europa a verdade é que entre 1950 e 1974 o número de anos de escolarização no
escalão etário relevante (dos 20 aos 65 anos) passou de 1,3 para 2,6 anos, ou seja
duplicou. Taxa de escolarização no ensino básico (no escalão etário relevante para a
escolaridade obrigatória, ainda abaixo da exigida na maioria dos países europeus)
passou de 20% em 1960 para cerca de 52% em 1974, e a participação no ensino
superior subiu, no mesmo período e para o escalão etário relevante, de 5,5% para
13,5%. Esta informação é importante, mesmo deixando de lado questões de qualidade e
de curricula, porque um dos factores de crescimento é o capital humano – as
qualificações, competências e experiência dos trabalhadores – mais anos de
escolaridade e maiores taxas de participação significam ou maiores qualificações ou
maior predisposição para as obter. Por outro lado, a escolarização também é um
indicador de desenvolvimento367.

Um marco importante da educação em Portugal foi a introdução, nos anos de 1940, do


ensino técnico profissionalizante. As empresas passaram a poder recrutar directamente
das escolas profissionais qualificados essenciais ao desenvolvimento em diversas áreas

367
E desculpem-me que seja realista e crítico, não são as estatísticas que interessam; elas são capazes de
melhorar a posição de um país em termos de nível de desenvolvimento, mas, se foram obtidas sem se
transmitir aos trabalhadores os conhecimentos e capacidades necessários para melhorar o capital humano,
pouco interessam. O que aconteceu na Época de Ouro foi uma efectiva acumulação de capital humano,
em relação aos dias de hoje não estou tão certo. Mas, isso é tema para tese em Ciências da Educação ou
em Economia da Educação e não para aqui.

218
4. A Europa e Portugal após 1945

– mecânicos, torneiros, serralheiros, contabilistas – sem ter que suportar os custos de


treino vocacional368, apenas os de indução na empresa. No inicio dos anos de 1970 a
reforma Veiga Simão, bem-intencionada porque tencionava substituir este tipo de
ensino pelo ensino politécnico, o que nunca aconteceu, acabou com o ensino
profissionalizante. Muitos proprietários e gestores de empresa ainda se queixam que
esta reforma fez aumentar os custos que têm de suportar com o treino dos seus
trabalhadores369.

O número de anos de escolaridade da população, mas, em 1974, ainda é, apenas, de


cerca de 2,5 anos, um número muito baixo em termos de comparação internacional.
Figura 4-17 Número medo de anos de escolarização da população

2,5

2,3

2,1

1,9

1,7

1,5
58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74

PORTUGAL E AS INSTITUIÇÕES SUPRANACIONAIS E DE INTEGRAÇÃO

Como já se viu, é neste período que as instituições internacionais de cooperação


começam a entrar em “velocidade de cruzeiro” e que a integração europeia se inicia e
começa a aprofundar. Recordando a frase de Corkill reproduzida acima, não era
possível a Portugal ignorar e manter-se afastado desta evolução. A contragosto, porque
significa abdicar de parte do dirigismo que caracterizava o regime e começar a “prestar

368
Algumas destas escolas tornaram-se autênticas “fábricas” de profissionais e, sem menosprezo por
outras, gostaria de destacar a Escola Industrial Infante D. Henrique, no Porto, que chegou a ser
condecorada, já nos anos de 1980, com a Medalha de Mérito Industrial.
369
Não tenho nenhuma citação para confirmar este sentimento dos dirigentes de empresa. Apenas 31 anos
de trabalho numa Associação empresarial.

219
4. A Europa e Portugal após 1945

contas” da evolução da economia e sociedade portuguesas às instituições. Como


afirmou Ferreira Dias (Capucho, 1997) ao assinar o Tratado de Estocolmo “é o menor
dos males”.

Segundo Andersen Leitão (Leitão, 2007, p. 44) Portugal compreendeu que não se
poderia manter afastado da Conferência sobre Cooperação Económica Europeia de
1947, em Paris, onde foi criada a OECE. Mas, desde o início manteve posições
ambíguas e, até, hostis, em relação à instituição, salientando desde logo que não
precisava de ajuda e até estava disposto a ser um país dador. Como já se viu o
desequilíbrio da balança comercial impediu esta veleidade sobranceira e levou Portugal
a pedir ajuda em 1948. Como já referi, em nota de pé de página, muitos minimizam o
significado desta ajuda. Mas, se ela não tivesse existido, a balança comercial não se
reequilibraria em 1951 e a industrialização de Portugal ficava comprometida.

No entanto, mais importante do que a ajuda recebida, foi, como já referi, a participação
na OECE e na EPU (de que Portugal foi fundador) porque fez aumentar as obrigações
económicas internacionais de Portugal e a necessidade de “prestar contas”. A guerra da
Coreia fez aumentar a procura por bens portugueses novamente, e Portugal tornou-se
um país credor no seio da EPU. De uma posição hostil acabamos por ver o Conselho de
Ministros para o Comércio Externo considerar que a liberalização económica
preconizada pela OECE fazia regressar a Europa à situação económica natural de antes
da Grande Depressão e por ver Salazar, em 1958, afirmar que “Portugal era o primeiro
país a liberalizar o seu comércio depois da guerra” e que a política da OECE “constitui
o que de mais construtivo se tem feito na Europa” (Leitão, ib.).

Será interessante ilustrar estas afirmações com alguns números, ainda que vá voltar a
esta questão do comércio externo no Capítulo 6.

220
4. A Europa e Portugal após 1945

Quadro 4-11 Rácios do Comércio Externo

, Adaptado de (Leitão, ib.)

No fundo, a entrada na OECE e na EPU é o início do “ Regresso à Europa”, pois como


diz (Leitão, ib.):

“O programa de liberalização comercial da OECE e o sistema


multilateral de pagamentos da UEP [EPU] significavam que
Portugal estava, pela primeira vez, a participar activamente na
economia a nível europeu e a dar o primeiro passo em direcção a
um crescimento impulsionado pelas exportações.”

Como já referi, a OECE veio a revelar-se relevante para a formulação da política


económica portuguesa. A partir de 1949 os países membros tiveram que começar a
apresentar à OECE, ou seja a “prestar contas”, relatórios anuais sobre o estado das suas
economias, relatórios que tinham que seguir regras e orientações emanadas da
organização. Esta obrigatoriedade acabou por influenciar a preparação e execução dos
Planos de Fomento que referirei mais adiante. Por outro lado, Portugal começou a
participar em reuniões e debates que o fizeram tomar real consciência do seu atraso
económico. Como exemplo, veja-se o Quadro 4-12.

Segundo Andersen Leitão (Leitão, 2007, p. 48) os anos de viragem para uma economia
convergente virada para o exterior terão sido os de 1960s, ainda que o acelerar do
crescimento se tenha iniciado nos anos de 1950s como se viu. Andersen Leitão refere
que foi nessa década que Portugal (entre 1960 e 1962) aderiu ao Banco Mundial, ao
FMI, ao GATT e foi fundador da EFTA. É precisamente destas instituições e do seu
papel na evolução de Portugal (não esquecendo as CE) que me irei ocupar em seguida.

221
4. A Europa e Portugal após 1945

Quadro 4-12 – PIB per capita dos países da OECE em 1955

, Relatório de Correia de Oliveira e AIPortuense de 1957, citado em (Leitão, 2007, pp. 47-48)

Curiosamente, ou não, para um dos poucos países autoritários e coloniais da Europa


Ocidental que restava, Portugal foi surpreendentemente bem-sucedido nas negociações
económicas desenvolvidas no seio da Europa. Como se viu o Reino Unido, talvez numa
das avaliações mais mal sucedidas de toda a sua diplomacia ao longo do século XX,
nunca viu, com bons olhos a criação da CECA e o posterior sucesso dos Planos Bayen e
Spaak que levaram à criação, pelo Tratado de Roma, das CEE. Quando o Relatório
Spaak ainda estava em discussão o Reino Unido, com o pretexto de que os países da
Europa que não faziam parte dos seis, ficariam prejudicados, propôs a criação de uma
Zona de Comércio Livre (ZCL).

À parte as motivações referidas acima, ainda não se percebeu muito bem, ou, pelo
menos, ainda não foi cabalmente explicado pelos historiadores britânicos, que razões
fizeram o Reino Unido perder a oportunidade de continuar a ser a potencia dominante,
que foi até vários anos depois da guerra e no seio da OECE, na Europa Ocidental ao não
ter assumido outras posições quanto à criação da CECA e das CE. No entanto e do que
se sabe (ver (Leitão, 2007, p. 65 e segs.)), as motivações britânicas são confusas e

222
4. A Europa e Portugal após 1945

assentam numa premissa fundamental, o Reino Unido queria evitar a assinatura do


Tratado de Roma e trazer o movimento de integração europeia para o seio da OECE,
que pela via da diplomacia, ela acabava por influenciar. Mas, o que realmente aqui
interessa é analisar as motivações portuguesas, os resultados das suas negociações e o
impacto sobre o desenvolvimento português.

As negociações relativas à ZCL desenrolaram-se, sob a égide britânica, de 1956 a 1958.


Já nessa altura, segundo Andersen Leitão (Leitão, 2007, p. 49) os dirigentes do regime
português e, especialmente Salazar, tinham percebido que a manutenção de uma política
de isolamento não aproveitava a Portugal, o que significava, no contexto da evolução
europeia, ter de renunciar a uma política comercial própria. Empenharam-se em
aproveitar as vantagens da OECE e a adaptar a política de comércio externo às regras e
sugestões desta.

Como se viu, Portugal era o país mais atrasado da Europa. Isso significava uma posição
fraca nas negociações e a necessidade de obter concessões e tratamento diferenciado em
termos de liberalização do comércio e possíveis apoios ao desenvolvimento, sem, ao
mesmo tempo, mostrar todo o “jogo”. Neste aspecto as negociações foram conduzidas
com alguma maestria por Correia de Oliveira que foi apoiado por técnicos das duas
AIP370 apoiado na vontade de Salazar em “não perder este comboio”. Conseguiram, por
exemplo, que a situação de excepção de Portugal fosse analisada por técnicos da OECE,
em vez de membros de grupos de trabalho das negociações.

Prestes a concluírem-se as negociações sobre a ZCL abortaram. Como vimos, o Reino


Unido insistiu e propôs a criação da EFTA. Na sua adesão, e na sequência da linha
seguida nas negociações anteriores, Portugal obteve um regime específico com prazos
mais dilatados para o desmantelamento das barreiras aduaneiras internas, a exclusão dos

370
Associação Industrial Portuense (de que fui muito mais tarde Secretário-geral) e Associação Industrial
Portuguesa. Face ao Estatuto do Trabalho Nacional de 1938, estas associações (e as associações
comerciais das duas maiores cidades e a de Ponta Delgada) gozavam de independência. Não tinham sido
integradas no sistema corporativo e, apesar, de colaborarem intimamente com o governo, elegiam os seus
próprios órgãos, mantinham os seus Estatutos que vinham do século XIX e não estavam sujeitas à
constante interferência e ao dirigismo dos órgãos do regime corporativo. Qualquer delas tinha Gabinetes
de Estudos qualificados e intervenientes, não se retraindo de criticar o regime quando isso era necessário.

223
4. A Europa e Portugal após 1945

produtos agrícolas deste desmantelamento e a criação de um fundo de apoio ao seu


desenvolvimento371 (Anexo G do Acordo de Estocolmo).

Quase simultaneamente no tempo Portugal adere ao FMI e ao Banco Mundial e, dois


anos depois, 1962, ao GATT. Apesar da oposição, na altura ténue, da chamada “linha
dura” do regime – como Franco Nogueira e Pinto Barbosa – Correia de Oliveira e o
“desenvolvimentista” Ferreira Dias372 acabaram por contribuir decisivamente para o
princípio do fim do isolacionismo, convencendo Salazar e o Conselho de Ministros para
o Comércio Externo das suas teses. Como se verá com mais pormenor no Capítulo
seguinte, a adesão à EFTA significou um aumento das exportações portuguesas de cerca
de 19% ao ano até 1972.

Entre 1961 e 1963, Portugal foi ainda u pouco mais longe. Tentou, no âmbito da EFTA
e preocupado com tendências bilateralistas do Reino Unido, um acordo de associação
com as CEE. Provavelmente devido às especificidades do regime português –
autoritarismo e colonialismo -, e apesar de Correia de Oliveira se ter demonstrado,
novamente, um negociador nato, a resposta da Comissão Europeia foi apenas o aviso de
recepção do pedido. A associação à CEE acabou por ter lugar em 1972, e as
consequências desta em termos de Comércio Externo serão analisadas no Capítulo 6.

Entretanto, com a entrada no FMI e no Banco Mundial, Portugal começou a participar


nos fluxos financeiros internacionais, especialmente através do pedido de empréstimos.
O primeiro deles teve lugar junto Banco Mundial em 1963. Até 1990, quando entra para
o grupo dos países desenvolvidos na nomenclatura do banco Mundial, recebe 1,3 mil
milhões de dólares de empréstimos divididos por 35 operações, destinados à
electrificação, aos adubos, metalomecânica, têxtil, obras públicas, habitação e ensino.
Ao mesmo tempo passa, de acordo com o estatuto deste, a ser alvo exames periódicos
do FMI à sua situação económica.

371
O Fundo EFTA para o Desenvolvimento de Portugal para cuja gestão, em termos de aplicação em
Portugal, foi criado o Fundo de Fomento, mais tarde Banco de Fomento e Exterior, hoje integrado no BPI.
Curiosamente, Portugal continuou a ser apoiado por este Fundo mesmo depois da adesão às CEE, como
responsável financeiro da primeira fase da Exponor, tive ocasião de negociar apoios EFTA a esta obra da
AIPortuense em 1986, em simultâneo com apoios da CEE..
372
Que como se viu, publicamente, não considerou a adesão à EFTA como a solução ideal. Aliás lendo
(Rosas F. , 1994, p. 465) Ferreira Dias é claramente caracterizado como defensor extremo da política de
substituição de importações e ter em pouca consideração a questão dos mercadosm externos.

224
4. A Europa e Portugal após 1945

Desde 1902 que Portugal não participava activamente nos mercados financeiros
internacionais. Em 1962 pede o primeiro empréstimo a um sindicato de Bancos
americanos no montante de 12 milhões de dólares. Em 1964 tem lugar a primeira
colocação pública de obrigações, no montante de 20 milhões de dólares tomada firme
por um consórcio liderado pelo Banco Barings373. A partir daí a política do governo
passou a ser a da concessão de avales do Estado, como aconteceu no caso do
financiamento do projecto de Cahora-Bassa.

A dívida externa a dividir pelas exportações passou de 13% em 1961 para 37% em
1966, descendo para 21% em 1973 (devido a diminuição do receio relativamente a uma
possível crise da balança de pagamentos). Em termos de PIB, a dívida interna passou a
ser de 17% daquele em 1961, para em 1973 ser de quase 12%.

PRIMEIRAS TRANSFORMAÇÕES ESTRUTURAIS

Em consequência de todos estes acontecimentos a estrutura da economia portuguesa


experimentou alterações significativas A possível relação entre o comércio externo, o
seu crescimento e a alteração da sua estrutura geográfica serão objecto de análise no
Capítulo que segue, Para já interessa, tão-somente, constatar que se deram essas
alterações e avaliar da sua dimensão.

Na figura seguinte (4-18) está representada a evolução da estrutura do emprego desde o


fim da guerra até 1974. É possível constatar a apreciável diminuição do peso da
agricultura nessa estrutura. Em 1945, a agricultura assegurava cerca de 50% do emprego
em Portugal. Em 1974 o peso da agricultura no emprego tinha passado para pouco mais
de 30%.

Em contrapartida, o emprego na indústria subiu cerca de 7% no período e nos serviços


cerca de 9%. A mudança estrutural que se tinha verificado na Europa, repetia-se em
Portugal, mercê das alterações de política económica de que já falei.

373
Que durante a crise financeira do inicio dos anos 20 já tinha ajudado Portugal fora dos mercados e
tinha sido uma espécie de banco credor privilegiado do nosso país.

225
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-18 Estrutura do Emprego

100%
80%

60%
40%
20%
0%
1947

1953

1959
1945

1949
1951

1955
1957

1961
1963
1965
1967
1969
1971
1973
Agr. Ind. Com. Adm. Pub. Out. Serv.

Idêntico comportamento pode ser observado em termos de produção, na Figura 4-19


pode-se analisar a evolução do PIB a custo de factores no mesmo período.
Figura 4-19 Estrutura do PIB

100%
90%
80%
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
1951
1945

1947

1949

1953

1955

1957

1959

1961

1963

1965

1967

1969

1971

1973

Agr. Ind. Const. Elect.Ag.G. Serv. Adm. Pub.

Novamente constata-se que a agricultura de 30% em 1945 passou a representar algo


mais do que 12% em 1974. De igual modo, e acompanhando a evolução do emprego,
esta queda da parte da agricultura teve como contrapartida a subida do peso da indústria
e dos serviços, e mais notoriamente, ainda que cm proporções muito inferiores, mas,
quase para um peso que é quase o dobro do de 1945, na construção.

226
4. A Europa e Portugal após 1945

OS PLANOS DE FOMENTO

Todos os textos oficiais relativos aos Planos de Fomento podem ser consultados no
Arquivo Histórico do Departamento de Prospectiva, Planeamento e Relações
Internacionais do Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território em
http://www.dpp.pt/pt/base-de-dados/Arquivo-historico/Paginas/default.aspx. Para cada
um deles a Associação Industrial Portuense preparou apreciações detalhadas que estão
referenciadas na Bibliografia.

A preparação de documentos de planeamento económico foi uma das obrigações que os


países europeus tinham que cumprir para beneficiar das ajudas do Plano
Marshall(Costa, Lains, & Miranda, 2011, p. 383). O primeiro plano português foi
elaborado por José de Araújo Correia, deputado e administrador da CGD, ainda sem o
pormenor de planos posteriores, apesar de ser um dos “desenvolvimentistas” e
considerado como uma espécie de “pai” do planeamento económico consequente em
Portugal. De 1947 a 1951 foram, segundo os termos do Plano Marshall, elaborados
planos anuais em Lisboa e com a participação constante da OECE (Rosas F. , 1994, p.
455). Esta experiência, a par do pensamento de Araújo Dias, acabou por dotar Portugal
da experiência necessária à elaboração de planos de desenvolvimento mais detalhados.

O primeiro plano de desenvolvimento apareceria em 1953 com o nome de I Plano de


Fomento e, como todos os que se lhe seguiram, tinha carácter quinquenal e era
articulado anualmente com o Orçamento de Estado. Foi especialmente um programa
ordenado de investimentos públicos sem balizas (antes "preocupações" (Rosas, Serrão,
& Marques, 1992, p. 323) muito precisas de desenvolvimento económico e social
(Rosas F. , 1994, p. ib.).

Em termos concretos os objectivos eram: o fomento da agricultura; o aumento da


produção de energia hidráulica; a conclusão da implantação das indústrias de base já a
decorrer; o desenvolvimento das vias de comunicação e dos meios de transporte e o
incentivo ao desenvolvimento da refinação de petróleo, da produção de adubos e da
marinha mercante. Integrou, ainda, algumas parcelas em execução da Lei da
Reorganização Industrial (Rosas F. , 1994, p. 256).

227
4. A Europa e Portugal após 1945

Os gastos totais representaram 2% do PIB (cerca de 110 milhões de euros a preços de


1977 no total dos cinco ano, ou 7,6 milhões de contos (correntes) no total para o
Continente, alargados para 9,7 milhões em 1955 e para 11,5 milhões em 1957 (Rosas,
Serrão, & Marques, 1992, p. 323)), com 35% para a construção de barragens e
respectiva rede, 32% para os transportes e comunicações, 17% para a hidráulica
agrícola, silvicultura e pesca, 2% para o ensino e investigação (uns “enormes” 0,04% do
PIB!) e 12% para as indústrias de base. De qualquer modo, calcula-se que fez subir o
investimento para uma média anual de 23,6% contra 20,9% no período 1947-1953.

Segundo (Rosas, Serrão, & Marques, 1992, p. 323) a forma da sua apresentação em
termos de esforço de industrialização necessário para a melhoria de vida, e o modo
como é financiado continuam a revelar uma preocupação com a manutenção da
autarcia. Nota-se uma escolha evidente em não recorrer a financiamentos externos, a
não ser que seja estritamente necessário, e os investimentos propostos revelam a aposta
na auto-suficiência e na substituição de importações.

O financiamento deste Plano de Fomento foi predominantemente público (Lains, 2003,


pp. 175, Quadro 6-1), o que não aconteceu com os seguintes planos, com 51% a
provirem do SPA, 10% de financiamento estrangeiro374 e 39% de empresas públicas e
privadas.

Aquela política de substituição de importações esteve claramente presente em toda a


política económica dos anos de 1950s e 1960s. Tanto o II Congresso dos Economistas
(1957) como o II Congresso da Indústria Portuguesa (também 1957) defenderam um
nacionalismo industrialista, sem ignorar a existência de dependência externa e o
movimento de integração europeia em curso. O II Plano de Fomento que vigorou de
1959 a 1964, foi, nitidamente (Rosas, Serrão, & Marques, 1992, p. 328) inspirado nos
debates e conclusões destes Congressos. Esse nacionalismo industrialista supunha a
subordinação da agricultura à indústria e reiterava a necessidade do condicionamento
industrial. Os autores citados afirmam, igualmente, que neste Plano é visível o
“voluntarismo” do Ministro da Economia, Ferreira Dias.

374
Não necessariamente empréstimos, mas, provavelmente investimento directo.

228
4. A Europa e Portugal após 1945

O Plano teve uma dotação de 21 milhões de contos correntes para o Continente 375 e de 5
milhões de contos para as Colonias. Ao contrário do I Plano continha metas
quantificadas: crescimento anual de 4,2% do PNB a custo de factores (contra 3,3% no
quinquénio anterior), um coeficiente capital/produto de 4,5 (contra os 5 anteriores), um
crescimento anual do PNB per capita a custo de factores de 3,5% (contra os 2,6%
verificados no período 1950-1957).

A prioridade continua a ser a da dinamização do investimento, mas, assente, agora, mais


na iniciativa privada. Recorrendo novamente a Lains (Lains, op. e p. cit.) o
financiamento do Plano foi, agora, feito recorrendo ao SPA para 23%, ao financiamento
externo para outros 23% e às empresas públicas e privadas para os restantes 54%. O
esforço de investimento em infra-estruturas corresponde, neste Plano, a 4% do PIB o
dobro do peso do anterior.

Dos fundos consignados ao Plano, 21,4% foram aplicados na electrificação, 30,8% nos
transportes e comunicações, 27,5% na indústria, 17,3% na agricultura e 3% na educação
e saúde. Em termos de percentagem a atenção dada à indústria foi mais do que o dobro
do Plano anterior (em montantes no I Plano foram aplicados 1,4 milhões de contos e
neste Plano, 5,8 milhões de contos). O objectivo industrialização era claro, mas, nos
termos referidos acima. Os instrumentos mais utilizados neste aspecto foram a
facilitação do acesso ao mercado de capitais, a prioridade na obtenção de crédito, o
condicionamento industrial que assegurava a orientação do investimento e um mercado
interno garantido, a assistência técnica gratuita e os incentivos fiscais. Estava evidente a
opção por um modelo de substituição de importações376, consistente com a prática de
política económica própria do Estado Novo.

No texto377 da proposta deste Plano é, pela primeira vez, clara a preocupação com a
integração europeia e o previsível fim do proteccionismo. Escreve-se claramente que:

375
Por Continente, entenda-se Continente e Ilhas, a Metrópole.
376
Sobre o debate entre o modelo de substituição de importações e o modelo de dinamização das
exportações ver (Perkins Dwight H., 2006).
377
Fonte: as publicações constantes de http://www.dpp.pt/pt/base-de-dados/Arquivo-
historico/Paginas/default.aspx referido mais acima

229
4. A Europa e Portugal após 1945

“A indústria portuguesa tem [n]um prazo que em caso algum


poderá exceder dezoito anos, [de] existir e prosperar sem a
protecção pautal de que até aqui tem gozado”.

Comparando as datas de vigência deste Plano com as de adesão de Portugal a


organismos internacionais não se pode deixar de constatar que coincidem, mas, não
foram coincidência, quanto a mim.

É na vigência deste Plano que Portugal perde os seus enclaves na Índia e que os
movimentos de libertação iniciam a sua acção em África. Estes factos vão condicionar a
preparação do Plano seguinte, até porque o esforço de guerra se faz sentir no Orçamento
de Estado. Opta-se, perante estes novos condicionalismos, por preparar um Plano com
duração mais curta a que foi dado o nome de Plano Intercalar. Simultaneamente
algumas correntes dentro do regime tinham começado a encarar as relações com as
colónias, ou de um ponto de vista de um espaço económico integrado, ou do ponto de
vista do quase federalismo, que acabou por ser, mais, tarde, uma das soluções
considerada por Marcelo Caetano para a questão colonial.

Este Plano Intercalar teve a vigência de três anos, 1965 a 1967. Era nesta altura Ministro
da Economia Correia de Oliveira, e na discussão do Plano estiveram presentes questões
como o fracasso da integração económica com as colonias, uma primeira avaliação da
adesão à EFTA e a prioridade das relações económicas com a Europa. Segundo Rosas
(Rosas, Serrão, & Marques, 1992, p. 330) nele se começa a revelar o esgotamento do
modelo económico vinha sendo seguido.

A designação de intercalar acaba por significar também transitório. Efectivamente, era


uma época de dúvidas e de mudança, com incerteza acrescida, nomeadamente nas
questões referidas nos anteriores parágrafos. (Rosas, Serrão, & Marques, 1992, p. ib.)
citam directamente o texto do plano:

“Quem no presente apreciar [...] a evolução da economia


nacional, terá que reconhecer que existem certos
condicionalismos cujas repercussões [...] se não podem avaliar
com razoável segurança. Bastará lembrar a incerteza derivada
dos encargos financeiros da defesa do País [...]; bastará ter

230
4. A Europa e Portugal após 1945

presente a complexidade do processo de unificação dos


mercados nacionais, como será, ainda, de considerar a
indefinição em que a Europa se encontra quanto à sua própria
integração económica”

Apesar de tudo a metodologia utilizada foi inovadora, relativamente aos dois Planos
anteriores, incluindo projecções assentes em toda a informação disponível e a
elaboração para a Metrópole de um plano global, que revela, pela primeira vez, a
preocupação com o planeamento regional. Além disso, inclui expressamente, medidas
não obrigatórias de política económica, mas, indicativas, para o sector privado a que dá,
explicitamente, o papel decisivo no desenvolvimento do país. Para um Plano intercalar
as inovações que inclui são mais próprias de um Plano “normal”.

Estabelece metas claras: aceleração do ritmo de crescimento do produto nacional


restringido pelas contingências das necessidades da Defesa Nacional; manutenção da
estabilidade financeira e monetária tanto a nível interno como externo; equilíbrio do
mercado de trabalho; a repartição mais equilibrada do rendimento nacional (uma
novidade absoluta) e a preocupação com pressões inflacionistas.

E estabelece pela primeira vez critérios de avaliação para prioridade dos investimentos:
mais directa e imediata reprodutividade; maior capacidade para aumentar as exportações
e substituir importações; maior contributo para a melhoria das infra-estruturas que
contribuam para o aumento da produtividade.

Em termos de financiamento dos 30 milhões de contos previstos para o Plano, e de


acordo, novamente com Lains (Quadro cit.) este só refere que 30% foram assegurados
pelo SPA, não dispondo de dados para o financiamento externo e para o das empresas.
Mas, tendo em consideração o propósito revelado de dar maiores responsabilidades ao
sector privado, é crível que o deste último tenha, em percentagem, sido superior ao do II
Plano.

Em termos de aplicações a indústria aparece à cabeça com 43,1%, seguida dos


transportes e comunicações com 18%, da energia com 17%, da agricultura com 8,2%,
da habitação e urbanismo com 5,4%, do turismo (pela primeira vez contemplado) com
4,2%, e da educação com 3,5%. O Plano Intercalar representava 9,6% do PIB em média

231
4. A Europa e Portugal após 1945

em cada um dos anos, mais do dobro do peso do II Plano. A taxa de investimento ter-se-
á aproximado dos 27% em média.

No final da vigência deste Plano começa a assistir-se a uma viragem quase completa da
política económica portuguesa. Em 1968 Salazar é substituído por Marcelo Caetano.
Ainda que a preparação do III Plano de Fomento (1967-1973) tenha decorrido durante a
constância do Plano Intercalar a sua preparação seguiu princípios completamente
diferentes e, até, opostos, aos dos seus antecessores. O Plano antecipa algumas das
expectativas que a subida ao poder de Marcelo Caetano viria trazer, transformação do
regime corporativo, solução política para a guerra colonial, abertura ao exterior da
economia: uma “nova” política económica.

A quebra com princípios fundamentais dos anteriores planos é notória. Critica-se no seu
texto a política de substituição de importações, o proteccionismo pautal, o
condicionamento industrial e o progresso lento da agricultura que são considerados os
responsáveis pela evolução desfavorável do comércio externo.

Mas, a critica principal que vale a pena transcrever refere-se à política industrial e á
última “encarnação” do condicionamento industrial378:

“No momento em que a indústria portuguesa tem de conseguir o


alargamento substancial dos seus mercados através da
exportação, sujeitando-se, em contrapartida, à progressiva
concorrência estrangeira, carece de justificação, na maior parte
dos casos, a aplicação de um instrumento preventivo concebido
e posto em prática para proteger o início de um processo de
industrialização voltado para o mercado interno”

Além disso afirma que a Lei da Reorganização Industrial nunca produziu os efeitos
desejados, confirma-se a consolidação da abertura ao exterior no caso da indústria
metalúrgica de base, entre outras críticas às políticas anteriores.

Até parece que o Engª. Rogério Martins379, secretário de Estado da Indústria a partir de
1969 num governo de Marcelo Caetano, tinha sido um dos autores do Plano. Ele foi, na

378
Decreto-Lei 46666, de 1965

232
4. A Europa e Portugal após 1945

verdade, o impulsionador da viragem da política económica portuguesa para o chamado


“período tecnocrata”. Numa intervenção pública em 1970 Rogério Martins comunica
claramente as suas ideias acerca da nova política industrial destacando seis aspectos
essenciais:
- a substituição do condicionamento industrial (elemento de irracionalidade e de
ineficiência económicas) pelo funcionamento normal do mercado na esmagadora
maioria das situações;
- o apoio a formas de concentração técnica e financeira através da cooperação
empresarial;
- uma política agressiva de exportação comercial;
- uma política de investimentos estrangeiros (nomeadamente, quando portadores
de tecnologias avançadas e novas actividades do tipo capital intensivo);
- uma actuação antimonopolista e de defesa da concorrência;
- o financiamento do investimento e da produção através de um conjunto de
incentivos e apoios à organização interna das empresas.

Ficavam lançadas as bases de uma política económica totalmente contraria à que vinha
sendo desenvolvendo desde os anos de 1930s, claramente mais realista e virada para o
exterior. O que não significa que o período de 1950 a 1970 não tenha sido a “época de
ouro” da economia portuguesas e aquela em que se estabeleceram as bases do
desenvolvimento e em que os Planos de Fomento desempenharam um papel não
desprezável . Mas, sem os constrangimentos do modelo corporativo e autárcico não teria
sido essa época ainda mais “dourada” e não seria a economia portuguesa hoje mais
robusta? Uma reflexão a que volitarei nas conclusões e em que a EPI poderá ajudar a
analisar.

Quanto ao III Plano de Fomento ele foi dotado de 122 milhões e contos, com 29,7% de
financiamento público, 13,1% de financiamento externo e 57,1% de financiamento
provindo das empresas. Do lado das aplicações, 25,2% foram para a indústria, 23,8%
para transportes e comunicações, 14,6% para a energia, 13,5% para a agricultura, 9,7%
para o turismo, 6,6% para a habitação e urbanismo e 6,5% para a educação. A dotação

379
Um dos governantes do antes 25 de Abril que após este continuou com o seu prestígio inabalado e foi
merecedor de elogios.

233
4. A Europa e Portugal após 1945

do Plano equivaleu a 10,1% do PIB e calcula-se que tenha feito aumentar a taxa de
investimento de 27% para 36% em média anual.
Figura 4-20 Evolução do PIB durante a vigência dos Planos

4.000

3.500

3.000

2.500

2.000

1.500

1.000
1954

1960

1966
1953

1955
1956
1957
1958
1959

1961
1962
1963
1964
1965

1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973
Milhões de euros de 1977

Figura 4-21 Evolução da FBCF durante a vigência dos Planos,

1.400

1.200

1.000

800

600

400

200
1958

1971
1953
1954
1955
1956
1957

1959
1960
1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970

1972
1973

Milhões de euros de 1977

234
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-22 Taxa de investimento em % do PIB durante a vigência dos Planos

40,0%

35,0%

30,0%

25,0%

20,0%

15,0%
1953

1960

1967
1954
1955
1956
1957
1958
1959

1961
1962
1963
1964
1965
1966

1968
1969
1970
1971
1972
1973
O INICIO DA INTEGRAÇÃO NA EUROPA

Como se referiu foi durante o período de aplicação do II Plano de Fomento que teve
verdadeiramente início aquilo que eu designo de “Regresso à Europa”. Portugal adere a
diversas instituições supranacionais e, principalmente, participa na criação da EFTA.
Antes da participação da chamada geração “tecnocrata” na definição da política
económica no final dos anos de 1960s, esta foi o principal marco de uma viragem na
condução dessa política. Principalmente, foi o começo de uma alteração de atitudes que
até aí tinham privilegiado um desenvolvimento virado para o mercado interno e para as
colonias.

A tomada de consciência de que era inevitável interagir com outros países da Europa no
seio dos mercados europeus fez emergir as causas que conduziram a essa mudança. Os
agentes reagem, é verdade, aos estímulos da política, aos incentivos que num ou noutro
sentido lhe são dados. Mas, ao interagirem uns com os outros e com agentes
estrangeiros, mesmo que de forma limitada pela política, começam a ser cada vez mais
sensíveis aos estímulos e às oportunidades dos mercados. Inevitavelmente, como
escreveu Corkill , citado acima, a propósito da impossibilidade de Portugal se manter
isolado, começam a alterar os seus comportamentos de forma auto-organizada que mais

235
4. A Europa e Portugal após 1945

cedo, ou mais tarde, se transforma na nova norma, que emerge dos seus
comportamentos e interacções.

Ainda que vá voltar aqui no Capítulo 6 há questões que podem ser apontadas e
respondidas, pelo menos parcialmente, desde já. Terá a entrada na EFTA começado a
pôr em causa a política dominante de substituição de importações em favor da política,
abertamente defendida mais tarde por Rogério Martins, de promoção das exportações?
De que forma se fez sentir o impacto da entrada na EFTA no proteccionismo, medido
pelas taxas de protecção, na abertura da economia portuguesa ao exterior e no modelo
de industrialização? Estas são questões específicas que a EPI deve colocar.

O primeiro facto a destacar é que o grau de abertura380 da economia portuguesa subiu de


cerca de 18% em 1959 para 25% em 1973.
Figura 4-23 Grau de abertura da economia portuguesa

26,0%
24,0%
22,0%
20,0%
18,0%
16,0%
14,0%
12,0%
10,0%
1950 1952 1954 1956 1958 1960 1962 1964 1966 1968 1970 1972

Entre 1957 e 1973, a competitividade das empresas portuguesas manteve-se estável,


efectivamente foi esse o comportamento do rácio entre o preço das exportações e o
preço das importações com os principaís parceiros comerciais.

380
Medido pelo peso médio da soma das exportações com as importações no PIB; ((Exportações +
Importações)/2)/PIB

236
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-24 Preço das exportações sobre preço da importações,

110
105
100
95
90
85
80
75
70
1957
1958
1959
1960
1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973
1970=100

As taxas de protecção efectiva381 apresentaram uma estrutura que é, normalmente,


associada a sistemas de protecção aduaneira orientados para a substituição de
importações. Assim, em 1964, existe uma concentração nas taxas superiores a 37% para
os bens de consumo, com protecção inferior para os bens intermédios. As indústrias de
bens de capital encontram-se nos níveis mais baixos entre os 3 e os 18%.

Como se verá no Capítulo 5, em 1959 os países que depois formaram a EFTA eram o
destino de 18% das exportações, as CEE de 23% e os EUA de 12%. As colónias eram o
destino de 25% das exportações. Apenas nesse capítulo poderei mostrar números de
talhados, mas, o impacto deste primeiro passo de integração europeia é evidente em
diversos indicadores.

Por exemplo, as quotas de mercado das exportações, medidas em números índices,


cresceram cerca de 26% entre 1959 e 1965. Em relação à EFTA esse ganho foi de 56%
entre 1959 e 1970. No entanto, como as quotas não cresceram apenas em relação à
EFTA, é de acreditar que outros factores estiveram em acção na expansão das
exportações. Segundo (Mateus, 2006, p. 100) esses factores terão sido o progresso
tecnológico e as economias de escala que o aumento das exportações para a EFTA
proporcionou. Será de recordar aqui o crescimento endógeno de Paul Romer e as novas
teorias do comércio internacional de Paul Krugman, que predizem precisamente isto.
381
Dedicarei mais adiante algum espaço para explicar como se calcula esta taxa. Ver (Porto, 1982).

237
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-25 Evolução do índice de quotas de mercado

120

110

100

90 .

80

70

60
1959

1960

1961

1962

1963

1964

1965

1966

1967

1968

1969

1970

1971

1972

1973
Como se pode constatar das duas figuras seguintes, as exportações aumentaram
substancialmente após a entrada ma EFTA. Da mesma forma aumentou a procura por
produtos portugueses.
Figura 4-26 Exportações e Procura Externa

160
140
120
100
80
60
40
20
0
1957 1959 1961 1963 1965 1967 1969 1971 1973
Ano
Exportações de bens e serviços Procura externa

O índice de competitividade, como já referido a propósito da relação entre os preços das


exportações e o preço das importações, manteve-se razoavelmente estável. Aliás, o
índice de competitividade apresentado na figura seguinte é exactamente o mesmo da
Figura 4-25 e foi calculado dividindo o preço das exportações pelo preço das

238
4. A Europa e Portugal após 1945

importações e multiplicando o resultado pelo quociente entre o preço das exportações e


o índice de preços implícito no PIB. Este raciocínio pressupõe uma taxa de câmbio
estável, o que aconteceu neste período como se pode constar da Figura 4-28. A procura
externa na Figura 4-38 acima é o montante de exportações menos as exportações para as
colonias.
Figura 4-27 Exportações e Competitividade.

140
120
100
80
60
40
20
0
1957 1959 1961 1963 1965 1967 1969 1971 1973
Índice de competitividade Exportações

Figura 4-28 taxa de câmbio escudo/dólar.

100,6

100,5

100,4

100,3

100,2

100,1

100
1969

1971
1957
1958
1959
1960
1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968

1970

1972
1973

A adesão à EFTA implicava a eliminação das barreiras alfandegárias entre os seus


membros, mas, os países membros podiam continuar a manter os seus direitos
aduaneiros relativamente a países terceiros. De qualquer modo, em relação a Portugal,
aquela condição implicava alguma liberalização no comércio externo. O prazo fixado

239
4. A Europa e Portugal após 1945

para total eliminação das barreiras no interior da EFTA foi de dez anos, que
posteriormente foi reduzido para seis.

No entanto, Portugal, ao êxito das negociações que referi acima, teve um regime de
excepção e o prazo concedido foi de vinte anos. Apesar disso, o ritmo a que foi feito o
desmantelamento das barreiras foi rápido. Em 1967, os direitos aduaneiros sobre 35%
das importações não agrícolas provenientes da EFTA já tinham sido eliminados. Em
1970, os direitos sobre os restantes produtos já tinham passado para metade. Este
desmantelamento teve efeitos em termos de receitas alfandegárias que baixaram de 12%
das importações em 1959 para 7,39% em 1967.

Tal significa que a protecção aduaneira baixou. Mas, cálculos feitos por (Macedo,
Corado, & Porto, 1988) apontam para que a taxa de protecção se tenha mantido entre os
25% em 1964 e os 28% em 1970. Só depois de 1970 se verificou um abrandamento
mais forte dessa protecção. Esses autores construíram um índice de liberalização do
comércio que calcularam ser de 10 em 1959, 13 em 1964, regredindo para 11% em
1969; apenas entre 1970 e 1973 atinge um valor de 17 (Macedo, Corado, & Porto, 1988,
pp. 51, Table 9).

O estudo do impacto da entrada de Portugal na EFTA sobre a economia portuguesa


pode ser feito em termos de equilíbrio parcial ou de equilíbrio global382. Nunca foi feita
uma análise de equilíbrio global relativamente a esse impacto. Mateus (Mateus, 2006, p.
101) cita um estudo de Fernandes e Álvares (1972) (Pedro Álvares e Carlos Roma
Fernandes, “Portugal e o Mercado Comum”, 2 volumes, Moraes Editores, não

382
Ambos os conceitos são provenientes da economia neoclássica, e pressupõem a existência de um
equilíbrio único. A ideia de equilíbrio global deve-se a Leon Walras, que considerou que quando todos os
mercados de uma economia estão em equilíbrio se está perante uma situação de equilíbrio global. Walras
foi, até, um pouco mais longe, com a sua “lei de Walras” que afirma que numa economia com n
mercados, para existir equilíbrio global, bastam estar em equilibro n-1 mercados. Esta “lei” é
extremamente útil no ensino, e não só, da macroeconomia, porque considerando mercados agregados
basta que os mercados de bens e serviços e o mercado monetário estejam em equilíbrio para existir
equilíbrio global, afastando, convenientemente, os restantes mercado financeiros, considerados em termos
agregados como um só, da análise. Não nego que é útil em termos de ensino, porque permite transmitir
conceitos complicados de uma forma mas simples. A ideia de equilíbrio parcial é devida a George Sitgler,
da Chicago School of Economics, que considera apenas parte do mercado, considerando tudo mais
constante, por exemplo, considerando apenas o preço de um produto e considerando os preços dos
restantes produtos fixos, a famosa cláusula ceteris paribus. Em TSAC nunca existe, num espaço de
possibilidades (“possibilities landscape”) um único equilíbrio, mas, uma multiplicidade de equilíbrios
simultâneos, uma das consequências da aceitação da existência de rendimentos crescentes. Para fins do
raciocínio aqui feito vou aceitar que existe um único equilíbrio parcial.

240
4. A Europa e Portugal após 1945

disponível383) que depois omite na bibliografia, em que usam a análise sobre as


exportações com base nos desvios relativamente a uma tendência.

Estes autores referem que as exportações para os países da EFTA, como se verá no
Capítulo 5, cresceram a uma taxa de 17% entre 1959 e 1960, enquanto nos dez anos
anteriores tinham crescido apenas 4% ao ano. As exportações abrangidas pelo Anexo G
do tratado de Estocolmo cresceram cerca 8 vezes, mas, as destinadas ao estrangeiro
apena 3 vezes. Estimam que o efeito EFTA sobre as exportações tenha sido de 60% nas
dirigidas a este espaço e observadas em 1970 (20% do total das exportações).

Entretanto o fim da EFTA original aproximava-se. O Reino Unido já sem o obstáculo


de Gaulle conseguiu a adesão às CEE em conjunto com a Dinamarca e a Irlanda a partir
de 1973. Cerca de 25% das exportações portuguesas tinham como destino estes países.
Portugal, e outros países do sul da Europa, pediu e conseguiu, ou foi obrigado, celebrar
um acordo de associação em 1972 em que se previa a redução recíproca dos direitos
aduaneiros com a CEE em cinco anos sucessivos a 20% ao ano, a manutenção com o
Reino Unido e Dinamarca do regime da EFTA e um regime especial para alguns
produtos. Para Portugal a redução de direitos foi prolongada até 1980.

A EMIGRAÇÃO DOS AMOS DE 1960 E O SEU IMPACTO

Como se viu a emigração dos países da área mediterrânica para a Europa Central,
especialmente França e Alemanha, teve um papel importante na recuperação europeia
do pós guerra e no crescimento da Europa durante a “Época de Ouro”. Portugal foi um
dos países que mais trabalhadores “forneceu” à Europa, e esta emigração, a par da
manutenção de um exercito de cerca de 100.000 homens nas guerras coloniais, teve
consequências importantes em Portugal. Enquanto a manutenção do exercito
pressionava o Orçamento de Estado, a emigração ajudava a equilibrar a balança de
pagamentos. Ambos contribuíram para a existência em Portugal de uma situação
próxima do pleno emprego.

383
um exemplar na British Library.

241
4. A Europa e Portugal após 1945

Em 1957, emigraram 34 mil pessoas, enquanto no pico da emigração, 1970, emigraram


180.000 (estes números incluem emigrantes legais e estimativas relativas aos
emigrantes ilegais).

Estes números representaram 0,5% da população activa em 1957 e 3,6% em 1970. Em


1973, de acordo com (Mateus, 2006, pp. 102-103), residiam 553 mil portugueses em
França, 68 mil na Alemanha, 81 mil nos EUA e 57 mil no Canadá. Ou seja, o fluxo
migratório foi relevante em termos de impacto na balança de pagamentos, financiando a
balança comercial.

Figura 4-29 Emigração por anos

200.000
180.000
160.000
140.000
120.000
100.000
80.000
60.000
40.000
20.000
0
1972
1957
1958
1959
1960
1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971

1973

Em 1960 o total das remessas de emigrantes atingia os 2,5 mil milhões de francos, e
1973 cerca de 12 mil milhões de francos (um pouco mais do que mil milhões de
dólares). Entre 10960 e 1963 estas remessas cobriram cerca de 54% da balança
comercial (em parte devido aos efeitos nas importações da guerra comercial), a partir de
1966 cobriam totalmente o défice, e em 1970 a 1973 representavam 1147% do défice.
Em termos de peso no PIB, em 1960 apresentavam 3% e em 1972 cerca de 8%.

242
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-30 Remessas de emigrantes

30.000
25.000
20.000
15.000
10.000
5.000
0

1961
1957
1958
1959
1960

1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973
Em milhões de francos

Figura 4-31 Remessas dos emigrantes

0,0
1958
1959
1960
1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973
-2,0
-4,0
-6,0
-8,0
-10,0
-12,0
-14,0
-16,0
-18,0
-20,0

Em % do défice da balança comercial

Figura 4-32 Remessas dos emigrantes

9,0
8,0
7,0
6,0
5,0
4,0
3,0
2,0
1,0
0,0
1957
1958
1959
1960
1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973

243
4. A Europa e Portugal após 1945

Em % do PIB

Esta emigração teve fortes efeitos tanto sobre a população activa como sobre o
desemprego. Calcula-se que, entre 1957 e 1973, a emigração tenha provocado uma
diminuição na população activa de cerca de 25% que, a partir de 1961, também sentiu
os efeitos da guerra colonial e da mobilização de largos contingentes militares.

Esta redução da população activa teve impacto sobre a taxa de desemprego, o emprego
agrícola (a maior parte dos emigrantes provinha das populações rurais) e sobre a taxa de
salário que subiu. A redução no emprego agrícola (BdP, 1997) foi de cerca de 528 mil
trabalhadores entre 1957 e 1973; como existia subemprego agrícola a emigração acabou
por “regularizar” parcialmente a situação. Pelo contrário, nos serviços foram criados
328 mil empregos e na indústria 267 mil. Como o emprego total se manteve
praticamente constante deu-se um aumento da intensidade capitalística. Calcula-se que a
quantidade de capital por trabalhador tenha aumentado de 130 contos em 1957 para 330
contos em 1973.
Figura 4-33 Quantidade de capital por trabalhador

500
450
400
350
300
250
200
150
100
50
0
1970
1958
1959
1960
1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969

1971
1972
1973
1974

, Dados de (Mateus, Anexo estatístico a Economia Portuguesa, 2006). Cálculos do autor.

244
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-34– Coeficiente capital-trabalho, K/L

2,0
1,8
1,6
1,4
1,2
1,0
0,8
0,6
0,4
0,2
0,0 1963
1957
1958
1959
1960
1961
1962

1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973
1974
Os salários cresceram, em termos reais, 163% entre 1957 e 1972, com o PIB per capita
a crescer, no esmo período, 157% em valores constantes. A comparação destes dois
crescimentos reflecte uma situação de escassez de trabalho.

Podemos chegar à mesma conclusão comparando a taxa de desemprego e a taxa de


desemprego natural. Como se vê na Figura 4-33 a taxa de desemprego este sempre
próxima, com excepção 4 aos, da taxa natural de desemprego, denotando uma situação
de pleno emprego, de pressões sobre os salários e de escassez de trabalho. Note-se que a
taxa de desemprego aqui representada é a taxa de desemprego em sentido lato, se fosse
a em sentido estrito, segundo as regras do Eurostat, seria ligeiramente inferior.

245
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-35 Taxa de desemprego e taxa natural de desemprego

6,0%
5,0%
4,0%
3,0%
2,0%
1,0%
0,0%
1959
1960
1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973
1974
Taxa de desemprego Taxa natural

Esta escassez de trabalho conduziu a um aumento da taxa média de inflação para cerca
de 4,6% entre 1963 e 1972. Os salários nominais, aumentaram, em média de 5,2% em
1955-59 para 7,4% em 1960-1965 e 13,1% em 1966-1973. Segundo(Mateus, 2006, pp.
103-104) a subida dos salários reais, associada a uma elevada taxa de lucro, é explicada
por a economia portuguesa ter, na altura, equilíbrios macroeconómicos estáveis, pela
realização da liberalização do comércio e por uma forte intensidade na entrada de
tecnologia do exterior.
Figura 4-36 Taxa de Inflação

12,0

10,0

8,0

6,0

4,0

2,0

0,0
1958

1965

1972
1959
1960
1961
1962
1963
1964

1966
1967
1968
1969
1970
1971

1973

-2,0

È visível, na Figura 4-36, a forte subida da inflação a partir de 1966, em 1973 já se nota
o efeito do choque petrolífero. De qualquer modo, a inflação, neste período, nunca foi
muito preocupante, tendo em atenção os níveis de crescimento, a situação de pleno
emprego e as pressões salariais. Aliás, como se vê na Figura 4-49, a taxa de lucro foi

246
4. A Europa e Portugal após 1945

sempre elevada, e uma das mais elevadas da Europa, até 1974. Mais á frente citarei
Eichengreen acerca de porque é que esta situação não foi mais grave tendo em conta as
pressões laborais e inflacionistas a que se assistiu na Europa a partir de meados dos anos
de 1960s.

Figura 4-37 Taxa de Lucro

0,60

0,50

0,40

0,30

0,20

0,10

0,00
1962

1967
1958
1959
1960
1961

1963
1964
1965
1966

1968
1969
1970
1971
1972
1973
1974
Figura 4-38 Evolução dos salários

180000
160000
140000
120000
100000
80000
60000
40000
20000
0
1958

1960
1959

1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973
1974

Em milhares de contos

Tendo em conta que a população activa se manteve estável, como vimos, este
crescimento dos salários totais no rendimento nacional, significa uma igual evolução da
taxa de salário, ou salário médio por trabalhador. Donde se pode concluir que os custos
unitários do trabalho também subiram, mas, pelas razões acima apontadas por Mateus, a
taxa de lucro bruta pouco sofreu como se vê na Figura 4-37.

247
4. A Europa e Portugal após 1945

AS REIVINDICAÇÕES SALARIAIS NA EUROPA E PORTUGAL

Como se viu acima o consenso social que permitiu a recuperação da Europa após a
guerra esboroou-se a partir de meados dos anos de 1960s e, especialmente, após os
acontecimentos em França em 1968. No entanto, em Portugal, além das pressões
resultantes da situação do mercado do trabalho e das pressões inflacionistas do
crescimento nada disso se passou. Eichengreen (Eichengreen, 2008, p. 205) a meio de
um comentário acerca da integração da periferia da Europa acaba por dar uma parte da
explicação:

“The longtime authoritarian prime-minister, António Salazar,


had incorporated unions and employers confederations into the
state structure in the 1930s, and these arrangements persisted in
the postwar years. Limits on political and economic freedom left
these organizations little autonomy prior the 1974 revolution,
giving the state the power to set wages at levels consistent with
its policy objectives. One product of this state corporatism was
wage moderation”

Ou seja, o regime corporativista, em resposta à pressão inflacionária provocada pela


emigração teve de ceder em termos de aumento dos salários e da consequente inflação
sob o risco de criar desequilíbrios macroeconómicos, mas, limitou as cedências usando
as pedras da fundação do regime: o Estatuto do Trabalho Nacional e a Lei do
Condicionamento Industrial, isolando o País dos efeitos do fim do consenso social no
resto da Europa.

248
4. A Europa e Portugal após 1945

LIBERALIZAÇÃO, TECNOLOGIA, IDE E CONVERGÊNCIA

A liberalização do comércio externo e a abertura aos fluxos comerciais internacionais


têm uma vantagem amplamente reconhecida para os pequenos Países em vias de
desenvolvimento. É uma das vantagens que John Stuart Mill refere como “indirectas”.
As importações, especialmente de bens de capital, são portadoras de tecnologia que
ainda não existia no País.

A entrada de novas tecnologias foi um dos efeitos da liberalização do comércio por


parte de Portugal. Mas, esta liberalização não foi o único meio pelo qual Portugal
adquiriu tecnologia neste período. Foi identificada, durante este período, a celebração de
326 contratos de importação de tecnologia. Estes contratos consistiram em
“transferência de conhecimentos técnicos”, patentes, marcas, formação de pessoal,
estudos de viabilidade, serviços de controlo e manutenção de equipamento, a referida
aquisição de bens de capital com manutenção e formação, além de outras formas. Esta
transferência de tecnologia esteve fortemente associada, a partir de 1965, ao
investimento directo estrangeiro – IDE. As tecnologias eram provenientes
especialmente de França, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, Bélgica, Suíça e
Itália e beneficiaram principalmente as indústrias metalomecânicas, a química e
farmacêutica, componentes e material eléctrico e o têxtil e vestuário.

O IDE começa a ter relevância para o desenvolvimento de Portugal a partir do inicio


dos anos de 1960. Antes não existiu praticamente; durante os anos de 1950, e tendo em
conta a política nacionalista e o próprio condicionamento industrial, o montante de
investimento estrangeiro atingiu a diminuta cifra de 600 mil dólares.

A partir de 1965, depois da publicação de um Código do Investimento Estrangeiro, e


com a liberalização do licenciamento industrial, à abertura ao exterior, à adesão à
EFTA, à liberalização parcial dos movimentos de capitais e à concessão de incentivos
fiscais a todos os investidores, nacionais e estrangeiros, o IDE disparou.

249
4. A Europa e Portugal após 1945

Entre 1966 e 1968 a média anual de IDE foi de 26,1 milhões de dólares, para em 1972 a
1974 atingir os 98,4 milhões de dólares. Não foi bem dos oito para os oitenta, porque é
sabido que os valores dos anos de 1990 são muito superiores. O Código do Investimento
Estrangeiro acima referido foi decisivo para a evolução do IDE a partir de 1965 (Lopes,
2004, pp. 167-168). Antes o IDE estava severamente limitado pela Lei do
Condicionamento Industrial (a de 1937 e as suas versões seguintes) que fazia depender
da autorização prévia do governo a propriedade de nacionais para estrangeiros no caso
das empresas sujeitas a esse condicionamento e pela “lei da nacionalização de capitais
(1943) que reservava a empresas com pelo menos 60% de participação nacional a
exploração de serviços públicos, as actividades em regime de exclusivo, e “outras
actividades que interessem fundamentalmente à defesa do Estado e à economia da
nação” (uma porta aberta para a discricionariedade).

Com o novo Código o IDE era aberto a um determinado número de sectores (previstos
em diploma complementar), garantia o tratamento não discriminatório, a indemnização
em caso de expropriação, o repatriamento dos lucros e do produto da liquidação do
investimento e a possibilidade de serem apoiados por incentivos fiscais. Posteriormente
(a partir de 1969), ainda se celebraram diversos acordos de dupla tributação com alguns
dos países de origem do IDE.

Apesar de em montantes mais reduzidos que os da grande vaga de IDE dos anos de
1990, o efeito sobre a produção, o emprego e, principalmente, as exportações teve um
significado visível. Juergen Donges na 2ª Conferência Internacional sobre a Economia
Portuguesa em 1976 e citado por (Mateus, 2006, p. 105) calculou que as empresas com
capital estrangeiro em Portugal representavam cerca de 16,6% da produção e 12,3% do
emprego em 1975. O IDE terá contribuído 3,6% para o investimento bruto (FBCF) e
4,5% para o emprego industrial, anualmente entre 1965 e 1974. Mas, o impacto mais
significativo foi sobre as exportações, calculando-se que neste último período tenha
contribuído para estas em 42,5% em média.

Como já referi Portugal era, no fim da guerra e exceptuando a Grécia, o país mais
atrasado da Europa, especialmente em termos de PIB per capita. Entre 1950 e 1974,
,como se viu, Portugal industrializou-se, teve que se abrir ao exterior, acabou por

250
4. A Europa e Portugal após 1945

abandonar parcialmente o seu isolamento aderindo a instituição supranacionais e sendo


membro fundador da EFTA. Acabou por acompanhar o rápido ritmo de crescimento que
caracterizou este período como “Época de Ouro” na maior parte do mundo ocidental.
Ao fazê-lo teve que abandonar o estrito cumprimento das instituições do regime
iniciado nos anos de 1930, aligeirando algumas das suas normas. A par de vários países
da Europa do Sul, que estavam, como ele, mais atrasados, acabou por experimentar
taxas de crescimento superiores às dos seus parceiros mais a Norte.

Figura 4-39 taxas de crescimento anual do PIB português

12,0
10,0
8,0
6,0
4,0
2,0
0,0
-2,0 1950 1952 1954 1956 1958 1960 1962 1964 1966 1968 1970 1972
-4,0
Preços de 1977.

Como referi Eichengreen afirma que, partindo de posições mais atrasadas, Portugal e os
outros Países da orla mediterrânica, tinha um maior espaço de manobra para realizar o
“catch-up” tecnológico e acelerar o crescimento extensivo. Pedro Lains ((Lains, 2003)
afirma que a historiografia económica portuguesa, com algumas excepções como
Xavier Pintado e Diogo Lucena, só refere os atrasos e esquece o longo caminho que
Portugal percorreu, tornando-se num dos países que, dentro do atraso, mais progrediu.
No mesmo sentido se manifeste (Mateus, 2006, p. 105) ao dizer “talvez devido á
oposição ao regime por parte de uma parcela significativa dos economistas, não se
reconheceu esse avanço e eram frequentes as criticas ao subdesenvolvimento do país”.

251
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-40 Evolução do PIB,

3.000
2.500
2.000
1.500
1.000
500
0
1950 1952 1954 1956 1958 1960 1962 1964 1966 1968 1970 1972 1974
Milhões de euros, preços de 1977

O avanço a que Mateus se refere, e tomando como referência os 15 países que mais
tarde foram designados de Europa dos quinze (CEE-15 ou UE-15), é de que o PIB per
capita português, medido em paridade de poderes de compra – PPP, se aproximou desse
grupo 25%, de 36% da média europeia em 1950, para 61% dessa média em 1973. A
Figura 4-53 é elucidativa.
Figura 4-41 Evolução do PIB per capita português

65
60
55
50
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
1967
1945
1947
1949
1951
1953
1955
1957
1959
1961
1963
1965

1969
1971
1973

Em percentagem da média da CEE-15, em PPP.

252
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-42 Evolução do PIB per capita

500

400

300

200

100

0
1950 1952 1954 1956 1958 1960 1962 1964 1966 1968 1970 1972 1974

,Em euros, preços de 1977

Como já referido a principal razão desta aproximação à Europa ficou a dever-se ao


grande aumento da produtividade total dos factores, ou “resíduo de Solow, ou progresso
tecnológico, mas, não é de ignorar a contribuição da acumulação de capital físico e, em
menor grau, do próprio capital humano. Os factores que conduziram a este aumento da
convergência foram sendo referidos ao longo texto e resumidos dois parágrafos acima.

AS CONSEQUÊNCIAS ECONÓMICAS DO CHOQUE PETROLÍFERO DE 1973,


DO DESACELERAR DA PRODUTIVIDADE A NÍVEL MUNDIAL E DO 25 DE
ABRIL

Segundo Silva Lopes (Lopes, 2004, pp. 22-23) apesar dos progressos que acabei de
sintetizar quando o Estado Novo caiu, em Abril de 1974, ainda existiam problemas
graves na economia e na sociedade portuguesas. O apertado dirigismo do Estado era a
origem de visíveis ineficiências e de obstáculos ao crescimento, existia uma forte
concentração do poder económico num número pequeno de grupos privados,
enfrentavam-se graves problemas ao nível da educação, da protecção social, da exclusão
das classes menos favorecidas.

A propósito do poder dos grupos privados Barry Eichengreen escreve (Eichengreen,


2008, pp. 206-207):

253
4. A Europa e Portugal após 1945

“[...] that a handfull of large conglomerates still dominated the


industrial landscape, reflecting the legacy of state corporatism
and the planner’s preoccupation with scale. Those same
conglomerates owned the banks that dominated the financial
sector, guaranteeing their favorable access to finance384. They
faced only limited import competition by a Law of Control of
Industry385 that prohibited the creation of new factories or even
the expansion of existing enterprises without government
approval. [...].

Yet the existence of these conglomerates posed few obvious


problems in the 1960s; to the contrary.[...] They were able to
undertake substantial investments in machinery, transportation
equipment, and other manufactures, none of which would have
been profitable in the absence of the others. They thus addressed
coordination problems whose solution would have otherwise
eluded decentralized markets.”

Segundo Silva Lopes (ib,) a coincidência da repentina deterioração do ritmo de


desenvolvimento económico com a mudança do regime politico pode levar a pensar que
esta causou aquele, mas, segundo ele, a razão da deterioração foram condicionalismos
de ordem externa. Não discordo totalmente, mas, houve efectivamente uma
coincidência, entre esses factores de ordem externa e as consequências em termos de
alteração extrema das instituições, a indefinição de quais seriam as novas a ser
implantadas e algum sentimento de insegurança para possíveis investidores. O que se

384
O sistema financeiro português era, nesta altura, um dos mais atrasados e regulados do mundo. Apenas
a Caixa Geral de Depósito, e em certos casos o Montepio Geral, por ser uma associação de socorros
mútuos, podiam fazer empréstimos a longo prazo. Os bancos comerciais estavam limitados a empréstimos
por seis meses, quase sempre papel comercial, indexados ao volume dos seus depósitos. É, no entanto,
evidente que ser proprietário de um banco permitia ultrapassagens à regulação apertada que existia.
385
Ainda que a Lei do Condicionamento Industrial não tivesse sido totalmente repelida, já não produzia,
na altura a que se refere Silva Lopes, os mesmos efeitos. O grupo “tecnocrata” do governo de Marcelo
Caetano já tinha publicado a Lei 1/72, bases da defesa da concorrência, e a Lei 2/73, do Fomento
Industrial, que aliviavam a regulação anterior, não esquecendo o Código do Investimento Estrangeiro, já
referido e anterior. É evidente que Eichengreen escreve relativamente ao período de criação dos grupos e
não ao período referido por Silva Lopes.

254
4. A Europa e Portugal após 1945

passou deve muito a causas externas, mas, foi, também, influenciado por algumas
causas internas decorrentes do 25 de Abril.

Até aqui tenho procurado seguir (Mateus, 2006) em termos de linha de raciocínio e vou
continuar a fazê-lo porque me parece que a sua visão é equilibrada. Mateus refere como
consequências do 25 de Abril as perturbações sociais e políticas, a alteração radical dos
direitos de propriedade e a demora na implantação definitiva de um novo regime
constitucional. Acrescenta-lhe os efeitos de dois choques petrolíferos. O 25 de Abril não
provocou, sustento enfaticamente, por si só, os problemas – até porque as vantagens que
trouxe, a diversos níveis, são enormes, nomeadamente em termos de liberdades
individuais e colectivas, policialmente oprimidas até então – mas, contribuiu para o
exacerbar de alguns, nomeadamente ao nível da economia portuguesa.

Em consequência do 25 de Abril, e das conquistas democráticas resultantes, Portugal


sofreu uma transformação profunda. Uma das primeiras que quero referir é o fim do
“caminho de dependência” criado com as opções ultramarinas do século XV e reforçado
ao longo dos tempos por outras decisões “presas” a essas ou por não decisões. As
consequências do golpe militar em termos institucionais, criaram a única forma de
quebrar a dependência, uma transformação profunda das instituições. Se os resultados
do fim do “caminho de dependência” foram os mais avisados, não cabe aqui dizer.

Depois, começa-se a pensar de forma diferente na educação e os indicadores de


escolarização começam a subir. Por outro lado, a conjugação dos factores externos com
diversas indefinições internas fizeram regredir a aproximação de Portugal, em PIB per
capita em PPP, aos seus parceiros europeus (o ponto de referencia continua ser a médias
dos quinze países que formavam a CEE após o alargamento de 1995) afastando-se cerca
de 6%.

A convergência386 para a média europeia é, talvez, o principal indicador da evolução da


economia portuguesa, Aliás, como é sabido, os Fundos de Coesão são baseados neste
indicador.

386
Será, talvez, apropriado reflectir um pouco sobre este conceito de convergência. O objetivo é referir
que, á parte o nome, não tem praticamente nada a ver com o conceito de convergência do modelo
neoclássico de crescimento de Solow. Segundo as condições deste modelo os países teriam a tendência
para convergir ao longo do tempo no sentido de um mesmo nível de PIB per capita. Esta predicção do

255
4. A Europa e Portugal após 1945

Mantendo presente o significado deste indicador, convirá referir as condições externas


que coincidiram com o 25 de Abril e que Silva Lopes considera a principal causa do
desacelerar do crescimento e dos desequilíbrios macroeconómicos ocorridos em
Portugal até 1983.

Com raízes vindas dos anos de 1960, no início dos anos de 1970, o mundo teve que
enfrentar um conjunto de acontecimentos, alguns já referidos, que alteraram
completamente as condições em que estavam a realizar-se os processos de crescimento
e desenvolvimento da “Época de Ouro”. Consequência, entre outras coisas, da guerra do
Vietname a inflação disparou nos Estados Unidos e os preços das matérias-primas
aumentaram substancialmente.

Figura 4-43 Evolução do PIB per capita português,

62
60
58
56
54
52
50
48
46
1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

Em PPP, como % da média da CEE-15.

Tal conduziu a fortes pressões inflacionistas em muitos países; o Sistema de Bretton


Woods, como referi, desmoronou-se; em 1973 a OPEC- Organização dos Países
Exportadores de Petróleo, usando a guerra do Yom Kippur como pretexto próximo,
aumentaram os preços do petróleo em cerca de 300%. Em 1974-1975 ocorreu, a nível
mundial, uma acentuada redução do crescimento que marcou o fim da “Época de Ouro”.

Segundo Maddison (Maddison, 1995) a desaceleração do crescimento foi devida a um


menor progresso técnico, que, por exemplo e como referi, foi o principal factor do
crescimento português até então. Mas, o que é verdade é que, apesar da desaceleração

modelo de Solow nunca se verificou, antes pelo contrário, estudos empíricos têm demonstrado que os
países têm vindo a divergir.

256
4. A Europa e Portugal após 1945

ser um fenómeno mundial com as economias a funcionarem abaixo da capacidade


produtiva instalada, as situações variaram de país para país. No final do período, 1982,
estala o problema da divida nos países subdesenvolvidos, especialmente na América do
Sul e em África, onde, aliada a problemas de gestão política, além de estagnação
provoca queda nos níveis de rendimento.

Na Europa o início dos anos de 1980 coincide com a ocorrência do fenómeno que foi
designado por “euro esclerose”, uma situação de baixo crescimento e de alto
desemprego. Um dos aspectos positivos deste período em Portugal foi o do aumento da
taxa de escolarização, que, apesar de continuar muito abaixo das médias europeias, nos
aproximou da Europa. O número de anos de escolaridade passou de cerca de 2,6 em
1973 para cerca de 4,2 em 1985. Posteriormente atingiu os cerca de 9,11 anos em 1992.

Figura 4-44 Número de anos de escolaridade

4,5
4,0
3,5
3,0
2,5
2,0
1971

1984
1970

1972
1973
1974
1975
1976
1977
1978
1979
1980
1981
1982
1983

1985

A taxa de crescimento do PIB, apesar de existir uma recuperação em 1977 a 1979,


desacelerou visivelmente, apresentando recessões em 1975 e 1984.

Figura 4-45 taxas de crescimento anual do PIB,

10,0

5,0

0,0
1973
1974
1975
1976
1977
1978
1979
1980
1981
1982
1983
1984
1985

-5,0

-10,0

Precos de 1977

257
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-46 Evolução do PIB

5.500
5.000
4.500
4.000
3.500
3.000
2.500
2.000
1976
1973

1974

1975

1977

1978

1979

1980

1981

1982

1983

1984

1985
Milhões de euros, preços de 1977

Este comportamento do PIB reflectiu-se, obviamente, no processo de convergência,


como se pode constatar na Figura 4-58. Há, evidentemente, causas comuns à
desaceleração do crescimento em Portugal e na Europa mas Mateus (Mateus, 2006, p.
110) refere algumas causas específicas a Portugal. Primeiro, o atraso na tomada de
medidas para a correcção da balança de pagamentos depois do desequilíbrio ocorrido
em 1974 (Mateus chama-lhe procrastinação, eu não vou tão longe). Depois, o atraso no
ajustamento do desequilíbrio orçamental provocado em 1975 e só resolvido
parcialmente já na década de 1990 e, como se sabe, reagravado mais recentemente.
Finalmente, a grandes modificações surgidas nos direitos de propriedade
(principalmente ao nível da sua segurança jurídica) que acabaram por resultar nas
nacionalizações, em 1975, de parte apreciável da actividade económica nacional, e não
apenas a pertencente aos grandes grupos económico-financeiros387, mas, igualmente a
que foi, na altura, considerada de importância “estratégica” para os interesses nacionais,
como uma grande parte dos transportes rodoviários de passageiros.

Infelizmente, ocorreram ineficiências na gestão de todas essas empresas nacionalizadas,


ou intervencionadas, que apenas começaram a ser corrigidas após 1985 e que
conduziram a enormes perdas no Sector Empresarial do Estado a que passaram a
pertencer. A teoria económica, neoclássica ou não, afirma que a estabilidade é essencial
ao bom desempenho macroeconómico e a estabilidade, a segurança e a clareza dos

387
Curiosamente dos grupos empresariais existentes antes de 1974, o único que não foi nacionalizado foi
aquele que não possuía um banco, o grupo Caria.

258
4. A Europa e Portugal após 1945

direitos de propriedade é parte dessa estabilidade macroeconómica e dos determinantes


do crescimento (por exemplo(Barro, 1995, pp. 1,4,9,19))388.

Os efeitos do primeiro choque petrolífero coincidiram com ano da revolução de Abril.


Esta criou expectativas e aspirações de uma célere melhoria das condições de vida da
população portuguesa. Os salários nominais aumentaram quase imediatamente com as
remunerações totais a subirem 34% logo nesse ano e 34,6% no ano seguinte.
Figura 4-47 Taxas de crescimento dos salários nominais e reais.

40

30

20

10

0
1973
1974
1975
1976
1977
1978
1979
1980
1981
1982
1983
1984
1985
-10

Nominal Real

Nestes dois anos os custos unitários do trabalho cresceram, em termos reais, 28%, com
efeitos evidentes na rentabilidade das empresas e no desemprego que subiu de 1,5%
para 5% no final de 1976. A partir de 1977 passou acima da taxa natural de desemprego.

388
O modelo de Robert Barro é neoclássico, e eu tenho vindo a fazer uma crítica apertada à teoria
econômica neoclássica. Mas, esse não é o ponto aqui. Independente da aproximação teórica, o bom senso
diz-nos que existem elementos essenciais ao bom funcionamento da economia, especialmente num
enquadramento com a existência de relações externas. A existência do estado de direito e a clareza e
aplicação correcta das suas instituições jurídicas é essencial a esse bom funcionamento. Se, como no caso,
os direitos de propriedade não têm segurança, a capacidade para atrair e estimular investimento reduz-se,
e um dos factores que conduz o crescimento é mais fraco. A idéia de Barro é idêntica á idéia de Keynes
de que os contratos são “sagrados”, o seu não cumprimento traz insegurança e prejudica o funcionamento
da economia. O Banco Mundial publica todos os anos um “ranking” de países de acordo com seis
dimensões representativas das condições institucionais do país. O “contract enforcability” e a “rule of
law” são duas dessas dimensões.

259
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-48 taxas de rentabilidade bruta,

30,0
25,0
20,0
15,0
10,0
5,0
0,0

1979
1969
1970
1971
1972
1973
1974
1975
1976
1977
1978

1980
1981
1982
1983
1984
1985
-5,0

Em %.

Figura 4-49 Taxa anual de desemprego e taxa natural

15,0%

10,0%

5,0%

0,0%
1976
1970
1971
1972
1973
1974
1975

1977
1978
1979
1980
1981
1982
1983
1984
1985

Desemprego Taxa natural

Figura 4-50 Índices dos custos unitários do trabalho em termos reais.

150
140
130
120
110
100
90
80

1991=100

260
4. A Europa e Portugal após 1945

Como seria de esperar, com o choque petrolífero e o aumento dos salários, a inflação
aumentou substancialmente, e o défice externo, que já se sentia em finais de 1973,
cresceu começando a absorver as reservas de divisas do Banco de Portugal.

Figura 4-51 Preços do Petróleo em dólares por barril.

40,00
30,00
20,00
10,00
0,00

1980
1970
1971
1972
1973
1974
1975
1976
1977
1978
1979

1981
1982
1983
1984
1985
Nominal defl. pelo IPC USA

Figura 4-52 Taxas de Inflação

35,0
30,0
25,0
20,0
15,0
10,0
5,0
0,0

Em % anual.

261
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-53 Posição líquida face ao exterior

20,0

0,0

1981
1972
1973
1974
1975
1976
1977
1978
1979
1980

1982
1983
1984
1985
-20,0

-40,0

-60,0

-80,0

Em % do PIB

Portugal encontrou-se numa situação provocada por um choque externo e por factores
internos que conduziram a um hiato (“gap”) de recursos, isto é, o funcionamento da
economia portuguesa não gerava os recursos suficientes, desequilibrando a balança de
pagamentos (o hiato é precisamente este desequilíbrio). No caso é difícil destrinçar os
efeitos externos dos efeitos internos, mas, as repostas tendentes a reduzir o hiato são
respostas de política económica (para uma explicação mais completa ver (Mateus, 2006,
pp. 114-116)) que podem ser de quatro tipos: a substituição de importações, o
alargamento dos mercados de exportação através da promoção desta, a redução de
importações através da redução da procura interna389 e o recurso ao endividamento
interno (ou/e à redução das reservas de divisas).

Entre 1974 e 1977, as razões de troca deterioram-se em cerca 18% o que provocou
reduções no PIB, 2,6% em 1974, chegando a 4,7% em 1977. Quase de igual montante
foi a redução nas exportações chegando aos 45 em 1977. Entretanto o escudo apreciou-
se, via preços, em termos reais em 23,5% entre 1973 e 1976. A isto juntou-se o facto de
se terem dado enormes atrasos nas entregas a clientes estrangeiros devido a
perturbações ocorridas nas empresas e à perda dos mercados coloniais que conduziram a
uma retracção nas quotas nos mercados externos avaliada em cerca de 5,5% do PIB em
1977.

Entretanto, a crise petrolífera afectou os nossos parceiros comerciais levando a um


crescimento pequeno da procura externa, 8%, entre 1974 e 1977 a que juntando a perda

389
Que também liberta bens para exportação.

262
4. A Europa e Portugal após 1945

dos mercados coloniais conduziu a uma redução da procura externa estimada em 25%.
Houve, portanto, perda de mercados de exportação e a substituição de importações teve
efeitos muito diminutos. Das quatro respostas de política económica restavam duas: o
abrandamento da actividade económica e o recurso ás reservas de divisas acumuladas.

À deterioração da balança de pagamentos juntou-se um agravamento do défice do


Orçamento (o fenómeno que é conhecido pelo nome de défices gémeos). O aumento do
défice orçamental foi, essencialmente, devido ao aumento dos ordenados dos
funcionários públicos, ao aumento do emprego público e ao pagamento de pensões aos
funcionários entretanto regressados das colonias. As despesas correntes aumentaram,
entre 1973 e 1977, 62% com os subsídios concedidos a aumentarem 4,3 vezes. O
funcionamento do sector privado foi mantido á custa da concessão de crédito pela banca
já controlada pelo Estado, que aumentou 21,4%.

Figura 4-54 Défices do Orçamento e da Balança de Transacções Correntes,

0,050

0,000

-0,050

-0,100

-0,150

BTC Defice SPA

Em % do PIB

263
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-55 Peso da despesa do Sector Público

0,40

0,35

0,30

0,25

0,20

0,15

0,10
1970
1971
1972
1973
1974
1975
1976
1977
1978
1979
1980
1981
1982
1983
1984
1985
Em % do PIB

Em resposta a esta situação preocupante são tomadas algumas medidas desgarradas. Em


1975 é imposta uma sobretaxa sobre as importações de 20% (sobre 29% do total das
importações) e de 30% (sobre produtos de luxo), é aumentada a restritividade do
controlo de importações com a implantação dos boletins de importação e a
obrigatoriedade de efectuar um depósito prévio para a realização de importações.
Foram, igualmente, impostas quotas de importação sobre vários produtos, como as
bananas!! e os automóveis.

Em 1976, uma equipa do MIT (de que faziam parte Miguel Beleza e Paul Krugman)
afirma que a situação se está tornar insustentável e propõe uma política económica
restritiva. Concretamente, recomenda o aumento dos impostos indirectos e restrições
quantitativas às importações. Os impostos indirectos foram, efectivamente, aumentados
em 1977, mas, as despesas públicas correntes (sem juros da dívida pública) continuaram
a crescer 7% acima da taxa de inflação. Além daquelas medidas, a equipa do MIT, e
tendo em conta que a parte do consumo no PIB tinha aumentado de 76% em 1973 para
83% em 1976390, sugeriram, como saída para a crise, a dinamização das exportações e o
investimento produtivo.

Como se pode observar na Figura 4-54, em 1973 a balança de transacções correntes


tinha um excedente de 2,5% do PIB, enquanto em 1977 era deficitária em 8%. Parece

390
Com base em médias mundiais, este peso do consumo no PIB, medido pela óptica da despesa, é dito
ser próximo dos dois terços. Ou seja, o primeiro destes valores não estava longe do “normal”.

264
4. A Europa e Portugal após 1945

que Portugal está predestinado a ver as suas condições económicas influenciadas pela
emigração, refiro-me os emigrantes dos anos de 1960 e às remessas que regularmente
enviavam para Portugal.

Com as perturbações que acabo de referir e com o grave desequilíbrio da balança de


pagamentos, as expectativas de desvalorização aumentaram. As taxas de juro eram
controladas pelo Banco de Portugal que as mantém em níveis baixos relativamente ao
exterior391 o que leva os emigrantes a reduzirem, quase drasticamente, o montante das
suas remessas. Em 1973 (a preços de 1970) as remessas foram de 4,02 mil milhões de
francos franceses, em 1975 foram de 2,6 mil milhões de francos, e só regressaram aos
níveis anteriores em 1979.

Figura 4-56 Remessas de emigrantes

7000
6000
5000
4000
3000
2000
1000
0

Em milhões de francos franceses, preços de 1970.

Do mesmo modo, as receitas do turismo que foram de 671 milhões de dólares em 1973,
caem para 309 milhões em 1976 (ambos os valores a preços de 1975). E como prediz o
modelo que refiro em nota acentuou-se a fuga de capitais.

391
Como já referi, parece existir uma relação (Modelo de Mundell-Fleming) entre a expectativa de
desvalorização de uma moeda, chamada paridade das taxas de juro, se a “nossa” taxa de juro é mas baixa
que a dos outros países, os capitais tendem a fluir para esses países, levando à “venda” da “nossa” moeda
em troca da “compra” das moedas desses outros países, e o resultado é a perda de valor internacional da
“nossa” moeda.

265
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-57 Receitas do Turismo

1200

1000

800

600

400

200

Em milhões de dólares, preços de 1975

As consequências deste estado de coisas sobre as reservas de divisas no Banco de


Portugal foram ruinosas. As divisas disponíveis baixaram de um montante de cerca de
1,7 mil milhões de dólares em 1973 para 177 milhões em 1977.

Figura 4-58 Reservas de divisas

1.800
1.600
1.400
1.200
1.000
800
600
400
200
0

Em milhões de dólares.

Uma parte expressiva das reservas de ouro estava hipotecada como garantia de
financiamentos de curto prazo destinados a compensar o desequilíbrio da balança. Em
finais de 1978 esta parte hipotecado das reservas de ouro era de 48,6% de 688 toneladas
em 1977 e de 30, 3% em 1978. Entre 1977 e 1978 foram vendidas 172 toneladas de
ouro em troca de empréstimos.

266
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-59 Reservas de ouro

1000
800 Hipotecadas

600
400
200
0

Em toneladas

Se se transformar as reservas de divisas em meses de importações que elas podiam


pagar a situação revela ainda mais a gravidade da situação. Em 1973 financiavam 5,4
meses de importações, em 1977 apenas 0,4 meses.

Figura 4-60 Reservas de divisas

6,0
5,0
4,0
3,0
2,0
1,0
0,0
1970
1971
1972
1973
1974
1975
1976
1977
1978
1979
1980
1981
1982
1983
1984
1985

Em meses de importações.

A entrada de Portugal em moratória, como aconteceu depois a diversos países da


América Latina, só foi evitada porque um grupo de países, liderado pelos Estados
Unidos, fez um empréstimo a Portugal no valor de 750 milhões de dólares.

Tinha-se, entretanto, chegado a um ponto de ruptura. Todos nós, e os países também,


estamos limitados por uma restrição orçamental. Enquanto os nossos activos e as
expectativas de rendimentos futuros cobrirem os passivos, isto é, enquanto

267
4. A Europa e Portugal após 1945

apresentamos uma situação líquida positiva, somos capazes de obter financiamentos


(teoricamente). Se chegarmos a uma situação tal que a posição líquida é próxima de
zero ou negativa já ninguém está disposto a fazer-nos empréstimos. Foi a situação que
Portugal chegou em 1977. O empréstimo liderado pelos Estados Unidos, conhecido pelo
nome de “grande empréstimo”, tinha uma condição.

OS ACORDOS COM O FMI

Essa condição era que Portugal tinha que negociar um acordo de “stand-by” com o FMI.

Normalmente o FMI é o credor de “último recurso” dos países em dificuldades. Os seus


empréstimos são normalmente relativamente pequenos, mas implicam que o país
devedor assine um acordo em que se compromete a aplicar diversas medidas de
saneamento das suas finanças – na altura esses acordos seguiam os princípios do
“Washington Consensus” – sendo vigiado pelo FMI periodicamente para verificar-se as
medidas estão a ser tomadas e a produzir resultados. Os empréstimos eram divididos em
fatias e cada uma só era entregue ao beneficiário após cada verificação feita pelo FMI,
daí o nome de “stand-by”392.

Sendo o empréstimo do FMI pequeno e, normalmente, insuficiente para resolver os


problemas, é a aplicação das medidas previstas no acordo e a sua verificação pelo FMI
que são importantes. Servem de garantia para outros financiadores.

Ainda antes da assinatura do acordo com o FMI em Maio de 1978, um grupo de


trabalho constituído por técnicos do MIT e do Banco de Portugal faz um estudo da
economia portuguesa e recomenda a tomada de um conjunto de medidas prévias à
celebração do acordo (essas medidas e os custos em termos de PIB, inflação e
desemprego do acordo com o FMI – este e outro que se tornou necessário
posteriormente – estão resumidas por Silva Lopes (Lopes, 2004, pp. 145-146, Quadro
4.1)).

392
Repare-se que a situação vivida actualmente pela Grécia e por Portugal é exatamente a mesma. Só que
quem concede o empréstimo já não é só o FMI, este é acompanhado pela Comissão Europeia e o BCE – a
famosa “troika” ~ e as exigências já não seguem os princípios gerais do “Washington Consensus”, sendo
específicas a cada caso e menos gravosas para os agentes económicos do país devedor.

268
4. A Europa e Portugal após 1945

O grupo de trabalho propõe, em 1977, a adopção de um sistema de desvalorização


deslizante para a taxa de câmbio para manter a competitividade do escudo, a adopção de
uma política de taxas de juro que cobrisse a desvalorização esperada (segundo a teoria
da paridade das taxas de juro) de modo a eliminar a tendência para a fuga de capitais e
ataques especulativos ao escudo, a adopção de uma política orçamental ainda mais
restritiva com o aumento dos impostos e a redução do investimento público nos sectores
mais dependentes das importações.

As medidas foram tomadas com uma desvalorização inicial do escudo em 4% e a


adopção de uma desvalorização deslizante de 1% ao mês, o anúncio de cotações de
cotações das taxas de câmbio a 1.3 e 6 meses, a subida da taxa de desconto do Banco de
Portugal para 18% (12% em Fevereiro de 1977 e 6,5% desde 1975). Além disso
autorizaram-se os nacionais a fazer depósitos bancários em moeda estrangeira e foram
criados incentivos para a realização por emigrantes de depósitos em moeda estrangeira.
O redesconto de papel comercial pelos bancos é restringido. Em 1976 o défice
orçamental reduz-se para 5,3% do PIB e em 1977 para 4%, devido a um aumento das
receitas em 2%.

Antes da celebração do acordo, em Maio de 1978, a taxa de desconto é novamente


aumentada para 23% e o escudo desvalorizado 7%. A política cambial é orientada para
o equilíbrio externo e para a contenção da inflação.

O programa assinado nesse mês com o FMI prevê como critérios de avaliação: um tecto
para as responsabilidades do sistema bancário relativamente ao exterior que era de 1,35
mil milhões de dólares no final d 1977, de 2,3 mil milhões no final de 1978 e de 2,5 mil
milhões no final de Março de 1979; um tecto no crédito líquido do sistema bancário
(654 milhões de contos no final de 1977) de 795 milhões de contos no final de 1978 e
de 811 milhões no final de Março de 1979; um tecto para o crédito líquido ao sector
público (130 milhões de contos no final de 1977) de 167 milhões no final de 1978 e de
183 milhões no final de Março de 1979. O período de verificação pelo FMI era
trimestral, o que significa a existência de tectos também trimestrais.

Estes critérios significavam um menor crescimento do crédito do sistema bancário,


determinados pela procura de moeda e pelos valores programados para o défice da

269
4. A Europa e Portugal após 1945

balança de pagamentos. O tecto no crédito ao sector público tinha como objectivo que
esse crédito fosse canalizado para o sector empresarial do estado e não para despesas
correntes. Com vista ao processo de ajustamento da economia portuguesa às medidas
foram, ainda, estabelecidas outras medidas relativas à redução do défice orçamental e á
liberalização do comércio externo.

O acordo seguia todos os princípios habituais dos acordos do FMI e tina como fim
último a restrição da procura interna. Com o estabelecimento de limitações ao crédito,
estava a limitar-se o financiamento da procura interna. Analisando o referido Quadro de
Silva Lopes verificamos que a procura interna apenas cresceu 0,6% em 1978 (contra
6,3% no ano anterior), as importações decresceram 1,6% nesse mesmo ano (contra um
aumento de 9,8% em 1977), o consumo privado caiu 2,1% em 1978 (em 1977 tinha
crescido 1,6%).

As medidas preconizadas pelo acordo tiveram efeitos evidentes sobre a balança de


pagamentos. A balança de transacções correntes do défice de 7,9% de 1977 passou para
um défice de 3,9% em 1978, em 1979 estava equilibrada (-0,3%). As reservas do Banco
de Portugal começam a subir, graças aos financiamentos que o cumprimento do acordo
possibilitou. As remessas dos emigrantes começaram novamente a afluir e as receitas do
turismo a subir. A balança comercial recupera graças à desvalorização real de quase
20% entre 1978 e 1979.

No entanto, apenas a parte do programa que correspondia a medidas de política


monetária resultou. O défice do orçamento agravou-se em 1978 para 6,3% (mais 2%
que em 1977) e em 1979 era de 5,8%.

Anteriores experiências de outros países relativamente a acordos com o FMI não tinham
sido muito bem sucedidas em termos de actividade económica. O mesmo não se passou
em Portugal que, ao contrário do que alguns esperavam não passou por uma recessão. O
PIB cresceu a uma média anual de 6% entre 1977 e 1979, a taxa de desemprego subiu,
mas, estabilizou nos 5%, as remunerações, embora baixando em termos nominais em
26%, em termos reais estivessem, em 1979, 28% acima do nível de 1973. Mas, talvez a
mais o melhor resultado tenha sido a subida da produtividade do trabalho que conduziu

270
4. A Europa e Portugal após 1945

a uma redução dos custos unitários do trabalho de 29% até 1979, melhorando a posição
competitiva das empresas portuguesas.

Tinha sido resolvido o problema externo de Portugal sem custos muito significativos em
termos de emprego e a inflação manteve-se contida. No entanto, o desequilíbrio das
contas públicas não foi resolvido.

Além de não estar resolvido, volta a agravar-se e em 1982 atingia 8,5% do PIB. Ao
mesmo tempo a balança de transacções correntes deteriora-se novamente para 11,6% do
PIB em 1983. Porquê? De novo as razões são externas e internas. As razões de troca
voltaram a deteriorar-se, agravando a balança comercial em cerca de 8% do PIB.
Novamente, entre 1978 e 1980 os preços do petróleo subiram 127% em termos reais,
estando em 1983 ainda 50% dos preços de 1978.

Figura 4-61 Défice do sector público

0,0
1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985

-5,0

-10,0

-15,0

Em % do PIB

Figura 4-62 Razões de Troca

1,050
1,000
0,950
0,900
0,850
0,800
0,750
1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985

271
4. A Europa e Portugal após 1945

Em termos de políticas, ultrapassada a barreira do primeiro acordo com o FMI, entrou-


se num certo laxismo. Silva Lopes (Lopes, 2004, p. 142) culpa o governo no poder de
parte da nova crise:

“o governo adiou enquanto pôde as medidas de correcção do


desequilíbrio externo que se impunham: em 1980 foi mesmo ao
ponto de, por razões de campanha eleitoral se lançar na
expansão da procura interna e valorizar o escudo”393.

Abel Mateus (Mateus, 2006, p. 127) afirma que o principal factor que desencadeou a
crise foi o elevado défice orçamental, o problema que não foi resolvido durante o
primeiro acordo com o FMI. Este estimava o défice alargado do sector público (com
empresas públicas) em 1983 em 18,5% do PIB. Perante o repetir da situação Portugal
teve que recorrer a um novo acordo de “stand-by” com o FMI.

Este segundo programa decorre de Outubro de 1983 a Fevereiro de 1985. A Carta de


Intenções que antecede o acordo contempla: aumento das taxas de juro (que já tinham
subido 4% em Março) em 2,5%; a taxa da desvalorização deslizante passa de 0,75 para
1%; o escudo sofre uma desvalorização de 12%; o défice orçamental deve reduzir-se em
cerca de 1,8% do PIB de 1982 para 1983; os subsídios a bens e erviços devem ser
reduzidos; o programa de investimentos das empresas públicas é reduzido em termos
reais.

A Carta de intenções reconhece que a obtenção de financiamentos externos pelas


empresas públicas fora uma das principaís causas do grande endividamento total da
economia e estabelece o principio do controlo estrito ao recurso ao crédito externo por
essas empresas através da imposição de limites ao endividamento, devendo o crédito
externo passar a ser substituído por crédito interno. O défice do sector público é
reduzido de 8,5% para 6,7% entre 1982 e 1983, sendo usados para isso aumentos de
impostos, aumentos nos preços administrados e contenção das despesas.

393
Se foi assim, e não estou convencido de que o laxismo não tenha outras razões, o que Silva Lopes está
a fazer é a dar razão a Milton Friedman e ao seu argumento do “ciclo eleitoral” para defender que o
Estado não deve intervir na economia e de deixar aos mercados a sua auto-regulação (o que só
aconteceria no mundo ideal dos neoclássicos). Aliás, o “ciclo eleitoral” é uma realidade da nossa vida, o
que podemos esperar é que não agrave muitos desequilíbrios.

272
4. A Europa e Portugal após 1945

Entretanto, em consequência da desvalorização e da subida dos preços administrados a


inflação atinge em 1983 o seu valor mais alto, 34%. O programa não estava a ser
totalmente cumprido e isso levou, em Junho de 1984, à elaboração uma nova Carta de
intenções. Os objectivos do programa de ajustamento passam a incluir a redução da
inflação para 23%, a redução do défice do sector público alargado para 14,5% do PIB
em 1984, e do sector administrativo para 7% do PIB, a a concessão de subsídios do
Estado às empresas públicas passa a depender de acordos de reestruturação.

Depois destas novas medidas o programa passou a produzir efeitos. Mais uma vez os
resultados mais visíveis foram os relativos ao desequilíbrio externo. O défice externo
reduziu-se de 12% em 1982, para 1,5% na média do período do programa. A inflação
desacelerou para 23%, a taxa de desemprego subiu para 7%, e os salários reais caíram
7.6%.

O programa foi considerado um sucesso em termos de correcção do desequilíbrio


externo, mas, os custos para a economia não foram desprezáveis. Seria necessário repor
as razões de troca e fazer acelerar o crescimento do PIB de modo a realizar a
convergência.

Apesar de tudo, o reequilíbrio externo e o evitar de crises mais graves abriram caminho
para a adesão à CEE. Além disso os acordos com o FMI reabriram a possibilidade de
recurso aos mercados internacionais de capitais.

4.3 Comércio Mundial e a Nova Fase de Globalização

A EVOLUÇÃO DO COMÉRCIO EXTERNO

O período posterior à II Guerra Mundial, graças a difusão do liberalismo embebido, à


expansão do multilateralismo, ao crescimento económico sem precedentes da “Época de
Ouro” e aos movimentos de integração económica foi uma era de explosão do comércio
a nível mundial e regional. O comércio mundial, medido em termos de exportações a

273
4. A Europa e Portugal após 1945

preços correntes, cresceu, entre 1948 e 1985, quase 34 vezes, ou seja, a uma taxa média
anual de cerca de 10%.
Figura 4-63 Evolução das exportações mundiais,

2500000

2000000

1500000

1000000

500000

1982
1948
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962
1964
1966
1968
1970
1972
1974
1976
1978
1980

1984
Em milhões de dólares a preços correntes. WTO Trade Database394, cálculos do autor

Na Europa as exportações para o resto do mundo cresceram, no mesmo período, 37


vezes, ou seja, a uma taxa média anual de 10,8%, e as importações, uma taxa média
anual de 9,9%.

Figura 4-64 Comércio Externo da Europa,

1200000
1000000
800000
600000
400000
200000
0
1948
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962
1964
1966
1968
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984

Importações Exportações

Em milhões de dólares correntes. WTO Trade Database, cálculos do autor

Em Portugal, no mesmo período, as exportações cresceram 33 vezes, ou a uma taxa


média anual de 10%, enquanto as importações aumentaram 22 vezes, uma taxa média
anual de 9%.

394
Esta base de dados só contém informação a partir de 1948.

274
4. A Europa e Portugal após 1945

Figura 4-65 Comércio Externo de Portugal

12000
10000
8000
6000
4000
2000
0
1948
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962
1964
1966
1968
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984
Exportações Importações

Milhões de dólares correntes. WTO Trade Database, cálculos do autor

Em qualquer das figuras notam-se os efeitos dos choques petrolíferos de 1973 e de


1981.

UMA REFLEXÃO SOBRE A GLOBALIZAÇÃO

Eu falo numa nova fase de globalização após a Segunda Guerra, porque, na minha
opinião, o fenómeno da mundialização é velho como o mundo como procurarei explicar
a seguir.

Eu considero que a globalização é um fenómeno muito anterior aos séculos XV e


XVI395. Conforme o Homem foi ocupando territórios e expandindo-se por eles, sempre
teve necessidades de comunicar e de realizar comércio no espaço geográfico conhecido,
no global que era o seu na altura396. As noções de alargamento do espaço e de
simultaneidade das relações e fenómenos nesse espaço são essenciais marcas da
globalização e parecem-me estar presentes nesta minha visão do fenómeno.

395
As ideias que se expõem a seguir não resultam da pura consulta de fontes, mas da percepção que tem e
da interpretação que o autor faz do Mundo e da História.
396
Estes espaços "globais" podem ter sido vários simultaneamente. As fazes mais recentes da
globalização acabaram por se caracterizar pela junção de todos eles num só espaço, o mundo. Daí que,
para mim, faça mais sentido, para designar o fenómeno, o termo usado pelos franceses, de Mundialização.

275
4. A Europa e Portugal após 1945

Aquilo a que a Humanidade tem assistido é a uma espécie de ciclo irregular em que esse
espaço se expande ou contrai, Expandiu-se com Alexandre o Grande, com Roma ou
com as navegações chinesas até à costa oriental de África397, retraiu-se com a queda do
Império Romano e com a Baixa Idade Média no Ocidente. Voltou a expandir-se com as
descobertas e com as inovações tecnológicas e a abertura do canal do Suez no século
XIX para se retrair novamente logo a seguir398. Para se começar a expandir novamente
após a II Guerra, como os dados sobre o comércio internacional, acima, parecem
confirmar.

Mais adiante, com as evoluções tecnológicas a nível das comunicações a globalização


acelerou. O que parece estar a acontecer agora é que o espaço global no Planeta Terra
atingiu a sua extensão máxima, num movimento muito mais rápido que os anteriores,
em duas décadas, e com contornos e características399 que tornam quase impraticável
um novo retraimento.

Ou seja, as descobertas portuguesas deram origem a um período de acelerar da


globalização que acabou por lançar, a par de outros acontecimentos da altura 400, as
bases do fenómeno a que actualmente se assiste. Portugal foi pioneiro nas formas e nos
modos(Maddison, 2007, p. 218)401, não no desencadear do fenómeno. Esse está nos
genes da Humanidade.

Em apoio a esta opinião será de referir que (Findlay, 2007, p. 108) considera que a
globalização começou com Gengis Khan·: “E quando começou a “globalização”?
Apesar de a resposta depender da definição usada, pode ser feita uma defesa muito forte
da ideia de que ela começou com a unificação da Eurásia central pelas conquistas
Mongóis e as reacções que provocou nas civilizações sedentárias contra quem foram

397
Ainda não se conseguiu, ao que parece, uma explicação para o fim destas explorações, feita em
gigantescos juncos, e consequente retraimento da China para detrás da sua “muralha”.
398
Esta visão da globalização contraria, de certo modo, a apresentada por Josheph Nye e Robert Keohane,
dois dos principaís nomes da Escola Neoliberalista das Relações Internacionais e fundadores da escola
dita americana da Economia Política Internacional. Efectivamente em(Nye J. e., 2004, p. 191 a 200),
introduzem a ideia de globalismo como um estado do mundo envolvendo redes de interdependência com
distâncias multicontinentais e globalização como o aumento do globalismo. Considera-se na presente
ideia de globalização, que o mundo que deve ser tido em conta é o mundo conhecido, seja ou não
pluricontinental, e que a globalização é a expansão desse mundo.
399
E em dimensões, como a social, que não eram tão visíveis antes.
400
Por exemplo, a invenção do tipo móvel por Gutenberg
401
Como exemplo deste pioneirismo.

276
4. A Europa e Portugal após 1945

feitas. Cada civilização tinha previamente conhecimento das outras, mas apenas como
entidades isoladas, não como componentes interactivos de um sistema unificado”.

Ou seja, cada “fase” da globalização como fenómeno, começa quando um qualquer


acto, de conquista, de descoberta, de alcance social, de comércio, de introdução de
tecnologia, reduz o isolamento e aumenta a interacção entre civilizações.

Assim, uma das consequências da opção pela expansão marítima foi um acelerar da
globalização e a abertura de caminhos para que, séculos depois, ela se aprofundasse.

Antes de referir o papel de Portugal no aprofundamento deste fenómeno convirá fixar


uma definição, pelo menos tentativa, de globalização. Voltar-se-á a esta questão, mas
para já acompanha-se Alex MacGillivray (MacGillivray, 2006), até pelas suas
referências às “desígnios globais” da expansão marítima portuguesa402.

Segundo MacGillivray (MacGillivray, 2006, p. 4 a 7) as definições de globalização


podem dividir-se em dois grandes tipos: a estrita definição económica e a definição
social abrangente.

Por exemplo, para o Prémio Nobel da Economia Paul Krugman(Krugman P. , 2004) é


“uma palavra chavão para um comércio mundial em expansão, para as crescentes
ligações entre mercados financeiros em diferentes países e para muitas outras formas
pelas quais o mundo está ficar mais pequeno”403. Para outro Nobel da Economia, Joseph
Stiglitz (Stiglitz J. , 2004) a globalização é “o remover de barreiras ao comércio livre e
uma maior integração das economias nacionais”.

Entretanto, o próprio Stiglitz diz em (Stiglitz J. , 2006, p. 4) que “a globalização inclui


muitas coisas: o fluxo internacional de ideias e conhecimentos, a partilha de culturas,
uma sociedade civil global, e um movimento ambientalista global” além da sua
dimensão económica. Claramente uma definição mais abrangente que a estritamente
económica404.

402
Opta-se por este caminho, porque só fará sentido abordar o tema da Economia Política Internacional
(ou Global, como alguns Autores se lhe começam a referir) se se tiver uma noção da extensão abrangida
pelas palavras Internacional ou Global.
403
A tradução de citações de obras estrangeiras para português é da inteira responsabilidade do Autor.
404
Stiglitz ainda não tinha publicado esta obra quando MacGillivray publicou a sua, o que significa que a
sua percepção sobre o fenómeno se alterou de 2004 para 2006.

277
4. A Europa e Portugal após 1945

Steger (Steger, 2004, p. 13) define globalização de forma ainda mais abrangente: "um
conjunto multidimensional de processos sociais que cria, multiplica, dilata, e intensifica
interdependências e transacções sociais a nível mundial ao mesmo tempo que encoraja
nas pessoas uma crescente percepção acerca de conexões cada vez mais profundas entre
o local e o distante”. Esta definição enquadra-se mais proximamente no segundo tipo
referido por MacGillivray, mas ele próprio (MacGillivray, 2006, p. 5) não a considera
abrangente por deixar de fora aspectos como a religião, a guerra, o desporto, o terror ou
o ambiente.

Segundo ele (MacGillivray, 2006, p. 6 e 7) a definição tem de estabelecer a distinção


entre transacções que são simplesmente transfronteiriços, regionais, internacionais ou de
longa distância das que são efectivamente globais. O trabalho que ele se propõe na obra
citada é precisamente fazer essa distinção, o que conduz a que seja impossível resumir
numa simples frase o que é efectivamente globalização, dado que o emaranhado de
transacções sociais e económicas presentes no mundo actual não se presta a sistematizar
essa distinção.

Neste contexto de complexidade, parece-me que a definição de Stiglitz (Stiglitz J. ,


2006, p. 4) referida, acima, que não sendo abrangente, é curta e capta comparativamente
bem todas as dimensões do fenómeno, é a mais apropriada.

A questão é hoje alvo de amplo debate, dos que vêm benefícios no fenómeno e dos que
o encaram como uma desgraça mais a prejudicar as populações mais pobres. Não
considero ser este o local para o continuar. A referência à globalização justifica-se pelo
facto de ter referido, pelo menos, dois dos momentos em que ela acelerou: as
descobertas portuguesas e a expansão do comércio após 1945.

278
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

5. O COMÉRCIO EXTERNO PORTUGUÊS POR ÁREAS GEOGRÁFICAS (1945-


1985)

Uma primeira palavra para destacar o principal problema que encontrei na investigação
feita para escrever este capítulo, aquele em que pretendo responder, de forma mais
completa405, à questão de se o crescimento e o desenvolvimento de Portugal, no período
em estudo, têm alguma relação com alterações dos fluxos de comércio externo em
termos geográficos. Ou se o “Regresso à Europa” se reflecte nesses fluxos.

Numa época em que diversos autores e organismos públicos passaram a formato digital,
especialmente em Microsoft Excel, a quase totalidade das estatísticas disponíveis sobre
a economia portuguesa, por mais que procurasse e investigasse não encontrei estatísticas
do comércio externo português por regiões geográficas em formato digital em parte
alguma. Penso que elas devem existir algures, porque diversos autores se debruçaram
sobre elas, construindo gráficos ou ventilando essas estatísticas por períodos temporais
em termos agregados.

Não tive outra opção se não consultar quarenta volumes das estatísticas do comércio
externo do INE, retirar deles a informação e tabelá-la em formato Excel, de modo a
poder fazer o seu tratamento estatístico, a construir gráficos e quadros que me
ajudassem a responder àquelas questões. Se em nenhuma parte desta minha tese trouxe
significativo acréscimo ao conhecimento ou valor acrescentado visível, com este
trabalho de investigação acabei por preencher uma lacuna na disponibilidade de
estatísticas sobre a economia portuguesa.

Duas palavras de advertência. As estatísticas que usei do INE são de difícil leitura, com
mudanças de método e de forma de apresentação quase anuais, pelo que as tabelas que
construi e que porei à disposição dos meus colegas em futuro próximo, podem conter

405
Porque ao longo do capítulo anterior, muito do escrevi deixa já antever uma parte da resposta. Existe,
efetivamente, uma relação, de correlação ou de associação, entre a evolução do comércio externo e o
crescimento e desenvolvimento em Portugal no período. Trata-se, agora, de verificar se a alteração da
estrutura geográfica dos parceiros comerciais tem também, a uma associação com esses fenómenos.

279
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

erros, não muito significativos, mas de qualquer forma erros, de transcrição e de


interpretação. Em segundo lugar, é sabido que durante o Estado Novo havia tendência a
manipular as estatísticas de forma a servir os objectivos do regime, poderá, assim, haver
nas minhas tabelas outro tipo de erros, mas, que são inevitáveis e espero não viciem as
minhas conclusões. Afinal todos os que as tiveram que usar correram os mesmos riscos.

A fonte utilizada é os quadros resumo por zonas estatísticas incluída na fonte indicada
na bibliografia (INE I. n., 1939 - 1985), sendo considerados os anos a partir de 1945.
Toda restante informação estatística utilizada teve como fonte os já referidos (BdP,
1997) e (Mateus, Anexo estatístico a Economia Portuguesa, 2006) quando outras não
forem referidas. Foram úteis para escolher caminhos de análise e obter ideias (Lopes,
2004, pp. 150-166) para os anos subsequentes a 1960, e o artigo de Óscar Afonso e
Álvaro Aguiar em (Lains (Org.) & Silva (Org.), 2005, pp. 305-342)406 para o conjunto
de todos os anos. Sempre que se justificar serão directamente citados.

Até 1960 nunca a soma dos valores ventilados por países é igual ao total indicado nos
quadros. Como detectei que a discrepância se encontra na categoria Outros, que incluí
países de diversas regiões, não foi possível atribuir a qualquer zona geográfica o valor
da discrepância, pelo que optei por a incluir, apesar do seu valor ser, em alguns casos,
significativo, numa rubrica Outros n.e.

Em 1969, o INE introduziu nova grande alteração na apresentação dos seus quadro
resumo, passando a descriminar a totalidade dos países parceiros. Esta apresentação, por
continentes, facilitou o meu trabalho de tabulação em Excel, mas, só foi utilizada seis
anos.

Em 1975, o INE alterou uma vez mais a apresentação dos quadros resumo. Até aí vinha
a seguir uma ventilação por países próxima da metodologia abaixo descrita da WTO,
neste ano a divisão do comércio por áreas da América passou a ser feita em dois grandes
grupos, América Latina e Resto, o que me obrigou a reclassificar os países de acordo
com a metodologia da WTO.

406
“A Internacionalização da Economia”, anteriormente divulgado como ”Comércio Externo e
Crescimento da Economia Portuguesa no Século XX”, Working Paper 146, 2004, da Faculdade de
Economia do Porto

280
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

Em 1982, o INE adoptou uma diferente classificação para os países constantes dos seus
quadros resumo. Neste ano passou a usar uma classificação próxima da actual
classificação do FMI, Países Desenvolvidos, Países em vias de Desenvolvimento e,
ainda, Países de Economia Planificada. Esta alteração tornou muito mais trabalhosa a
reclassificação dos países de acordo com a metodologia que mais abaixo refiro ter
adoptado.

A minha metodologia de ventilação geográfica dos dados segue os princípios da


Organização Mundial de Comércio (WTO) com as adaptações consideradas pertinentes
e a disponibilidade de dados nas Estatísticas do Comércio Externo do INE. Assim, os
parceiros comerciais de Portugal foram divididos nas seguintes zonas geográficas:
Europa (incluindo a Federação Russa e a Turquia), América do Norte, América Central
e do Sul (incluindo Caraíbas), África, Ásia (incluindo o Médio Oriente) e Oceânia. No
caso da Europa a partir de 1959 e 1960, são autonomizadas a CEE e a EFTA, e antes
desses anos os principaís parceiros, na América do Norte são sempre autonomizados os
Estados Unidos. Tendo em conta o tema do trabalho, até 1975 são autonomizadas as
antigas colónias e nos anos subsequentes as áreas ditas de expressão portuguesa
(incluindo o Brasil) são somadas numa rubrica (mas não somadas segunda vez ao total).

A principal análise é feita em termos de comércio total (exportações mais importações)


e a preços correntes, autonomizando-se essas duas categorias do comércio externo nos
casos em que o julgue relevante para a análise. De igual modo, serão utilizados preços
constantes quando a variação ou relações reais são objecto de análise.

5.1 Do fim da II Guerra à Adesão à EFTA (1945-1960)

Este período, já caracterizado acima, foi marcado por vários acontecimentos que
contribuíram para a evolução do comércio externo português. Logo nos anos de 1940 o
Plano Marshall e a criação da OECE, de que Portugal foi fundador, que tinham como
um dos objectivos a liberalização do comércio na Europa e a dinamização do
bilateralismo. Durante os anos de 1950, foram preparados e postos em prática os
primeiros Planos de Fomento que, se bem que assentes numa lógica de substituição de

281
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

importações e limitados pelo condicionamento industrial, dinamizaram o investimento


e, em consequência, a importação de bens de capital.

No final deste período foram criadas a CEE e a EFTA, que tiveram, em 1959 e 1960,
algum efeito sobre o comércio externo português. Nos quadros seguintes, apresentam-se
os valores para o comércio total (exportações mais importações) de Portugal no período.

Quadro 5-0-1– Comércio total de Portugal, Parte I,

Em milhares de escudos correntes.

282
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

Quadro 5-2- – Comércio total de Portugal, Parte II

, Em milhares de escudos correntes

Entre 1945 e 1960 o comércio português cresceu, a preços correntes, 3,3 vezes com uma
taxa de crescimento anual de 8,96 %, também em termos correntes. Destacaram-se a
Europa com um crescimento anual de 13,1% tendo comércio com as colonias crescido
7,8% ao ano. No Quadro seguinte são destacados os valores relativos à CEE, EFTA e
Estados Unidos.
Quadro 5-3 – Comércio total com EFTA, CEE e EUA

Milhares de escudos correntes.

283
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

Relativamente à CEE e à EFTA ainda não existem dados a partir dos quais possa tirar
conclusões, mas relativamente aos EUA o comércio cresceu 1,6 vezes com taxa média
anual de 13,21%.

Estes números permitem-me calcular o dinamismo do comércio com cada parceiro. Para
isso vou utilizar uma elasticidade em que divido a taxa média de crescimento anual de
cada região pela taxa média de crescimento do comércio total. O significado do número
calculado é o seguinte: representa o crescimento em % do comércio com uma região
quando o comércio total aumenta 1%. As regiões com valores mais elevados
apresentam maior dinamismo nas trocas comerciais com Portugal.
Quadro 5-4 – Elasticidades do comércio total.

Europa Colónias Am Norte Am Sul Am. Central Africa Asia Oceania EUA
1,47 0,87 0,31 -0,29 0,94 1,00 1,11 1,16 0,89

Como se verifica o comércio com a Europa foi o que cresceu mais rapidamente em
relação ao crescimento total, se excluirmos a Ásia e a Oceânia que em termos de valor
do comércio têm pouco significado

Os valores dos Quadros 5-1 a 5-3 podem ser representados graficamente. Mas, como
esses valores estão expressos em valores correntes, ou seja não corrigidos da inflação, a
representação correcta será em % do comércio total.
Figura 5-1 Evolução das partes relativas de cada área geográfica no comércio total de Portugal

120,00% Outros ne
100,00% Oceania

80,00% Asia
Africa
60,00%
Am. Central
40,00%
Am Sul
20,00% O Am Norte

0,00% Antigas Colónias


1956
1945
1946
1947
1948
1949
1950
1951
1952
1953
1954
1955

1957
1958
1959
1960

Europa

Como se vê três zonas parceiras comerciais dominam o comércio total português neste
período: a Europa, as Antigas Colonias e a América do Norte. Nesta última o

284
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

significado do Canadá e do México é diminuto, pelo que a maior parte corresponde a


comércio com os Estados Unidos.

Se nos Quadros atrás era possível constatar o maior crescimento do comércio com a
Europa, nesta Figura esse crescimento é nítido. A parte da Europa no comércio total de
Portugal cresceu substancialmente, de 32% do total em 1945 para 55,5% em 1960.
Nota-se, ainda, a redução do peso das antigas colonias de 21% para 18% e da América
do Norte de 24% para 15,6%. Desenham-se, nitidamente, os contornos de um início de
um “Regresso à Europa” em termos de Comércio Externo.

Será interessante verificar a distribuição por países desta evolução do comércio com a
Europa, o que é feito na figura seguinte em % do comércio total de Portugal.

O facto a destacar é o aparecimento da Alemanha em 1949 e o crescimento substancial


da sua parte relativa no comércio total de Portugal. A Alemanha passou de 0,19% do
comércio de Portugal em 1945 para 14% em 1960, o que corresponde a um crescimento
de 73 vezes ou de 35,9% em média anual. A este fenómeno não será estranha a sua
condição de grande fornecedor de bens de capital, mas, também, o facto das exportações
portugueses, especialmente vestuário, para a Alemanha terem aumentado.
Figura 5-2 Comércio de Portugal com diversos Países da Europa

Suiça
70,00%
Suécia
60,00% Holanda
50,00% Noruega
Itália
40,00%
Irlanda
30,00% Inglaterra
20,00% França
Espanha
10,00%
Dinamarca
0,00% Bélgica/Lux
1945
1946
1947
1948
1949
1950
1951
1952
1953
1954
1955
1956
1957
1958
1959
1960

Austria
Alemanha

Em % do comércio total.

.O parceiro tradicional de Portugal, o Reino Unido manteve, com algumas oscilações, o


seu peso no comércio português. Começam, entretanto, a ver aumentado o seu peso,
graças à liberalização comercial e aos movimentos de integração, outros parceiros,

285
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

como a França e a Itália. A Áustria só aparece nas estatísticas em 1960, com um peso
quase imperceptível, graças à sua condição de membro da EFTA.

E terá este novo dinamismo do comércio externo de Portugal tido consequências ao


nível de desempenho da economia portuguesa? Para tentar responder vou analisar
principalmente dois indicadores: a taxa de abertura da economia portuguesa e a
evolução da convergência para o grupo de países que tenho vindo a designar de CEE-
15.

O PIB per capita português, medido em dólares constantes de 1997, cresceu neste
período 4% em média anual, passando de 1447 dólares em 1945 para 2502 dólares em
1960. As principaís razões desta evolução foram sintetizadas no Capítulo anterior. Tem,
entretanto o significado, de o nível de vida em Portugal ter crescido apreciavelmente,
arrastado pelas transformações ocorridas na Europa, pelos Planos de Fomento e os seus
níveis de investimento e pelo início da industrialização.

Existirá convergência com os países da CEE-15 se este crescimento do PIB per capita,
depois de ajustado em termos de Paridade de Poderes de Compra, for superior ao
crescimento da média do PIB per capita (também PPP) desses quinze países. Significa,
muto simplesmente, que o poder de compra do PIB per capita português, e portanto o
nível de vida e a geração de recursos, está a crescer mais rapidamente e a aproximar-se
do desses países.
Figura 5-3 PIB per capita português

3000

2500

2000

1500

1000
1952
1945
1946
1947
1948
1949
1950
1951

1953
1954
1955
1956
1957
1958
1959
1960

Em dólares de 1997.

286
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

Quadro 5-5 PIB per capita português PPP

Em % da média da CEE-15

Como se verifica depois de se ter aproximado ligeiramente da média dos CEE-15 em


1948, a partir desse ano e até 1957 Portugal afastou-se da média europeia regressando
aos níveis de 1945. Apenas após 1957 Portugal voltou a crescer mais rapidamente que a
média europeia e a convergir novamente para essa média. Os problemas de balança de
pagamentos experimentados no pós guerra e que levaram Portugal a pedir a ajuda do
Plano Marshall no início dos anos de 1950 poderão ser uma razão para este afastamento,
até porque a crise da balança de pagamentos estava a esgotar reservas do Banco de
Portugal e a diminuir a disponibilidade de recursos necessários ao crescimento.

Não fiz cálculos para transformar o comércio com a Europa em valores reais, mas, eles
estão disponíveis para o total das exportações e para o total das importações. Segundo
Silva Lopes (Lopes, 2004, p. 151), em termos reais as exportações cresceram neste
período 4,9% ao ano e as exportações a 3,5% anuais.

As importações também dependem, seja em termos reais, seja em termos correntes, do


crescimento da procura total (procura interna – consumo mais investimento – mais as
exportações). A forma como as importações respondem a esta procura pode ser
representada por uma elasticidade. Já se dispõe da taxa de crescimento em termos reais
das importações. A taxa de crescimento da procura total foi, em termos reais, de 3,4%.
A elasticidade das importações à procura total foi, assim e em termos reais, de 1,44.
Quer dizer, por cada 1% de aumento da procura total as importações cresceram 1,44%.
Este número será útil para fazer uma comparação com o período seguinte. Também se
podia realizar idênticos cálculos relativamente às exportações, mas em relação às
importações realizadas pelos países parceiros.

Tal exigia que eu dispusesse dos valores das importações dos países parceiros, ou pelo
menos, dos da Europa, o que seria possível, mas, não se compadeceria com o tempo de
que disponho. De qualquer modo, uma das coisas que tenho pretendido avaliar é a

287
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

relação entre o desenvolvimento de Portugal e o seu comércio externo, como o


desenvolvimento se fez através, não só dos aumentos de produtividade, mas,
igualmente, através da industrialização e do aumento do nível de vida dos portugueses,
as importações e a procura interna são, talvez não um indicador completo, mas
ilustrativo da relação.

Se se olhar novamente para os Quadros 5-1 e 5-2 verifica-se que o crescimento das
trocas comerciais aceleraram precisamente a partir de 1956, depois de se terem reduzido
justamente de 1951 até esse ano. Sem recorrer a instrumentos mais sofisticados de
estatística pode-se dizer que existe uma coincidência de períodos, provavelmente devido
a um maior grau de abertura da economia portuguesa.
Quadro 5-6 Grau de abertura da Economia Portuguesa

Efectivamente o grau de abertura da economia portuguesa aumentou a partir de 1945


mas estagnou até 1953, é a partir deste ano que começa a aumentar novamente, o que
coincide com o aumento do grau de convergência. Como já disse atrás é muito difícil
estabelecer relações de causalidade em muitos fenómenos económicos, no caso, será
que é a melhoria do nível de convergência, ou o que está por trás dela, que influencia o
grau de abertura, ou será ao contrario? Não é fácil estabelecer uma relação de
causalidade, mas pode medir-se o grau de associação.

Utilizando o coeficiente de correlação de Pearson, o resultado foi o de uma correlação


(ou associação) de 0,538 significativa para um nível de confiança de 5%. Se existisse
uma associação perfeita o valor seria de 1, o valor encontrado não sendo elevado diz-
nos que existe algum grau de associação entre o grau de abertura e o grau de
convergência.

Outra informação com interesse acerca do período é o de grau de cobertura das


importações pelas exportações.

288
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

Quadro 5-7 Grau de cobertura

Com excepção dos anos de desequilíbrio da balança de pagamentos, o grau de cobertura


foi sempre razoavelmente elevado, começando a diminuir conforme a economia
portuguesa se ia abrindo mais ao exterior. É, assim, característico da pequena economia
quase autárcica que Portugal foi até aos últimos anos do período.

Concluindo, no período de 1945 a 1960, Portugal, mantendo, pelo menos até próximo
de 1960, manteve a postura política de um nacionalismo quase autárcico. Mas, nota-se
que, face aos condicionalismos externos que enfrenta e a alguns movimentos internos
discordantes da política nacionalista, começa a abrir-se ao exterior, especialmente à
Europa com alguma estagnação das suas relações comerciais com o Império. No fundo,
os primeiros sinais do “Regresso à Europa”.

5.2 Da EFTA ao 25 de Abril (1960-1974)

O período que agora procuro analisar foi, claramente, o grande período de crescimento
da economia portuguesas, com um aumento muito rápido do crescimento do comércio
externo tanto em valor como em volume, especialmente devido à expansão sem
precedentes do comércio mundial, já visto acima, e da muito maior participação dos
países da Europa Ocidental no comércio externo. Em Portugal, e em termos reais de
1960 a 1973 as exportações cresceram 11,2% e as importações 11,6%, ambas em média
anual.

As exportações devido à rápida expansão da procura externa (ver Figura acima), ou


seja, pelo aumento das importações por parte dos países da Europa Ocidental,
principalmente. No caso das importações, devido a redução das barreiras alfandegárias
associadas à entrada para a EFTA e o próprio maior acesso aos mercados desta mesma
EFTA, e ao reforço da capacidade das empresas portuguesas para a exportação. A

289
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

criação da CEE começou, igualmente, a fazer sentir os seus efeitos em Portugal – que
celebrou com ela um acordo de associação em 1972 – e a política de substituição de
importações morreu às mãos do III Plano de Fomento e do Engº. Rogério Martins.
Quadro 5-8 Comércio total de Portugal por regiões geográficas, 1960-1974 Parte I

Em valores correntes

Quadro 5-9 Comércio total de Portugal por regiões geográficas, 1960-1974 Parte II

Em valores correntes

290
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

Neste período o comércio total de Portugal aumentou 6,9 vezes, ou seja, a uma taxa
média anual a preços correntes de 14,79%. Mais uma vez o maior crescimento deu-se
nas trocas comerciais com a Europa, 7,7 vezes ou 15,8% anuais. O comércio com as
antigas colonias cresceu 4 vezes, ou 10,5% anuais, com a América do Norte 6,9 vezes,
ou 14,8% anuais. Mas, um facto relevante, que se irá aprofundar no período 1974-1985,
é o crescimento das relações comerciais com a Ásia, 8,4 vezes, ou 16,4% anuais. Uma
das razões é o aparecimento do Japão como parceiro comercial, a outra, verificada em
1973 e 1974, é o aumento, em valor, das importações de petróleo do Médio Oriente407
devido ao choque petrolífero de 1973.

Faz, agora, todo o sentido analisar com mais pormenor as trocas comerciais com a CEE
e a EFTA que se encontram no Quadro seguinte, em conjunto com os números relativos
aos EUA.

Quadro 5-10 Comércio total com a CEE, a EFTA e os EUA

Em valores correntes

407
Que mais tarde se fará sentir, também, com a Nigéria e a Venezuela.

291
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

Em conjunto, a EFTA e a CEE representaram um pouco mais de 89% de todas as trocas


comercias com a Europa Ocidental. O desarmamento aduaneiro resultado da entrada na
EFTA é uma das razões, como o é o acordo de associação com a CEE celebrado em
1972. Note-se a sensível quebra das trocas com a EFTA verificada em 1973 e 1974
resultado da entrada na CEE do principal parceiro comercial de Portugal, o Reino
Unido, e da Dinamarca, ambos anteriormente membros da EFTA. O comércio com a
CEE cresceu 8,6 vezes, ou 16,6% ao ano, e com a EFTA 2,2 vezes, ou 7,5% anuais. O
processo de integração europeia mudou completamente a geografia do comércio externo
português. Os EUA continuaram a ser um parceiro importante de Portugal, tendo as
trocas comerciais entre os dois países aumentado 6,6 vezes, ou a uma taxa anual de
14,5%.

Como disse relativamente ao período anterior é possível calcular uma relação do


crescimento do comércio de cada área com o comércio total. São essas relações, ou
rácios, que se encontram no quadro seguinte.

Quadro 5-11 Elasticidades do comércio total.

À parte a Ásia cuja elasticidade é indicativa da importância que os países do Médio


Oriente exportadores de petróleo, começam a ter, a Europa, e dentro dela a CEE, são as
zonas geográficas com maior dinamismo de comércio. No entanto, e graças a um
aumento das trocas com o Brasil, foi a América do Sul que revelou efectivamente maior
dinamismo. O número relativo às colónias é revelador da contínua perda de importância
das trocas com o antigo Império e, portanto, daquilo a que chamo “O Regresso à
Europa”.

A EFTA, pelas razões já apontadas, a “transferência” do principal parceiro comercial


de Portugal, o Reino Unido, para a CEE, começa a dar sinal de um abaixamento
significativo da sua importância relativa. Convém, no entanto, não esquecer que foi a

292
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

adesão à EFTA que desencadeou todo o processo de alteração do mapa do comércio


externo de Portugal.

Da mesma forma que no período anterior, os valores acima apresentados para a


distribuição do comércio por regiões geográficas é passível de representação gráfica.
Como se estão a analisar valores correntes, a representação gráfica, que melhora a
leitura das estatísticas apresentadas, é feita em termos de pesos no comércio total.

Figura 5-4 Evolução das partes relativas de cada área geográfica no comércio total de Portugal

100,00%
Outros ne
90,00%
80,00% Oceania
70,00% Asia
60,00%
Africa
50,00%
40,00% Am. Central
30,00% Am Sul
20,00%
O Am Norte
10,00%
0,00% Antigas Colónias
1963

1974
1960
1961
1962

1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973

Europa

Como se pode constatar a evolução iniciada no final dos anos de 1950 aparece
reforçada. A Europa é o principal parceiro comercial de Portugal, tendo passado de um
peso de 55% para 62% do comércio total de Portugal. As colónias continuam a ver a sua
importância diminuir passando de 18% para 10,6%. A América do Norte mantém
sensivelmente o seu peso e é visível, nos dois últimos anos do período, a tendência de
aumento de peso da Ásia pelas razões que já referi.

As duas próximas Figuras dizem respeito à Europa. A primeira mostra a evolução por
países. A segunda a evolução da EFTA e da CEE.

293
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

Figura 5-5 Comércio de Portugal com diversos Países da Europa

Out. Europa
70,00%
Suiça
60,00% Suécia
Holanda
50,00%
Noruega
40,00% Itália

30,00% Irlanda
Inglaterra
20,00% França
10,00% Espanha
Dinamarca
0,00%
Bélgica/Lux
Austria
Alemanha

Em % do comércio total.

Depois de explosão verificada no comércio com a Alemanha no período anterior, a cata


parte deste país no comércio português manteve-se estável, entre os 11 e os 12%. O
principal parceiro, Reino Unido, oscilou ao longo do período entre os 12 e os 16% do
total, fixando-se em 1974 em cerca de 13,5%, além disso, foi dos principaís parceiros de
Portugal aquele com este manteve um excedente favorável nas trocas. Praticamente
todos os restantes países mantiveram os seus pesos, sendo de destacar que, com a
generalidade dos países escandinavos Portugal manteve um excedente comercial.

Começa, entretanto, aqui a desenhar-se uma tendência que marcará a distribuição


geográfica do comércio português até aos dias de hoje. Trata-se da crescente
importância da Espanha nas trocas comerciais de Portugal, tendo passado de 0,9% do
total em 1960 para 3,7% em 1974. Há várias razões para um país intensificar a
realização trocas comerciais com outro: o nível de desenvolvimento, a proximidade
geográfica e a proximidade política408. A primeira a diz que um país tem tendência a
realizar comércio com países mais desenvolvidos que ele. A segunda e a terceira são
óbvias. E aplicam-se ao caso Portugal-Espanha.

Porque é que esta evolução não ocorreu mais cedo? Uma das razões foram as políticas
autárcicas dos dois países que começaram a desaparecer neste período, a segunda foi a
tendência proteccionista de substituição de importações dos dois países. Entre 1960 e
1974 estas razões começaram a desaparecer, e a proximidade geográfica e alguma

408
Existe, evidentemente, uma quarta, a propriedade de recursos naturais, como o petróleo.

294
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

complementaridade de produções (perfeitamente visível se examinarmos a


especialização económica dos dois países) fizeram com que as trocas comerciais entre
os dois crescessem em 15 anos, 4 vezes.
Figura 5-6 Comércio com a CEE e a EFTA

100,00%

80,00%
R. Mundo
60,00%
Resto Eur.
40,00%
EFTA
20,00%
CEE
0,00%
1964
1960
1961
1962
1963

1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973
1974
Como já tinha referido o peso da CEE nas trocas comerciais de Portugal acelerou em
1973-1974, pelas razões referidas acima, em 1960 representavam 31,7% do total e em
1974, 45%. Este aumento foi feito à custa, como é vidente, da EFTA, mas, também se
verificou algum desvio de comércio do Resto do Mundo para a CEE. Em 1960 o Resto
do Mundo representava 44,5% do total e em 1974, 38,8%. A CEE passou, neste
período, a ser o principal parceiro comercial de Portugal.

Novamente se poderá por a questão: esta evolução do comércio externo de Portugal


reflectiu-se no nível de desempenho da economia portuguesa? Mais uma vez vou
analisar dois indicadores: a taxa de abertura da economia portuguesa e a evolução da
convergência para o grupo de países denominado CEE-15.

Entre 1960 e 1974 o PIB per capita português, medido em dólares de 1977, cresce
6,11%, passando de 2.502 dólares em 1960 para 5.739 dólares em 1974. Por razões já
referidas no Capítulo anterior. Constituiu ainda uma das mais altas taxas de crescimento
do mundo no período, e só voltou a ser repetida anos mais tarde pelos chamados “Tigres
Asiáticos”. Relativamente ao período anterior já sintetizei o significado desta evolução.

295
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

Figura 5-7 Evolução do PIB per capita português

6000
5500
5000
4500
4000
3500
3000
2500
2000
1961

1970
1960

1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969

1971
1972
1973
1974
Em dólares de 1977.

Seguindo o mesmo caminho que no período anterior o Quadro seguinte mostra a


evolução da convergência do PIB per capita em PPP português relativamente à média d
CEE-15.
Quadro 5-12 PIB per capita português em PPP

Em % da média da CEE-15

A principal conclusão a retirar da leitura do Quadro 5-9 é que Portugal cresceu sempre
acima da média da CEE-12, excepto em 1969 e 1974. Em 1974 em consequência do
choque petrolífero de 1973, em 1969 a queda na convergência foi ligeira não afectando
a evolução verificada no período, mas, nesse ano verificou-se uma ligeira desaceleração
no crescimento do PIB total, uma queda na taxa de investimento, na produtividade da
indústria e uma queda acentuada no crescimento do consumo privado.

Como disse anteriormente, as importações dependem da procura total. A dependência


da taxa de crescimento das importações na procura total pode ser medida por uma
elasticidade – que no período anterior vimos que era de 1,44. No presente período as
importações cresceram, em média anual, 11,9% e a procura total, 7,12%. O que dá uma
elasticidade das importações à procura total de 1,67. Ou seja, neste período as

296
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

importações foram mais sensíveis à evolução da procura total, repare-se que o


crescimento dos salários reais e do PIB per capita, Além do investimento, foram
superiores aos do período anterior o que justifica a necessidade de importar mais.

Voltando aos dois primeiros Quadros deste período todo o período foi de acelerado
crescimento das trocas comerciais. Qual terá sido o efeito sobre o grau de abertura da
economia portuguesa ao exterior? Quadro seguinte contém a resposta.
Quadro 5-13 Grau de abertura

Como seria de esperar, por razões já referidas, o grau de abertura cresceu em todos os
anos passando de 14,9% do PIB em 1960 para 24,7% em 1974, 1,7 vezes.

Existirá alguma relação significativa entre o nível de convergência e este grau de


abertura. Recordo que é quase impossível estabelecer uma ligação de causalidade, mas,
pode-se verificar se existe associação. O coeficiente de correlação de Pierson É neste
período muito próximo de 1, mais precisamente 0,914 para um nível de confiança de
1%. Existe, pois, um alto grau de associação entre o grau de abertura e o nível de
convergência, o que indica que ou a abertura ao comércio está a influenciar essa
convergência (o mais plausível) ou a convergência levou Portugal a abrir-se (uma
causalidade menos verosímil).

E como se terá comportado a taxa de cobertura das importações pelas exportações?

Como seria de esperar, com o grau de abertura a aumentar, com os níveis elevados de
crescimento, a elevada taxa de investimento e o crescimento significativo tanto do
consumo privado como público, as importações tinham que aumentar. Por outro, lado
apesar de as empresas portuguesas estarem mais aptas a exportar, apenas no final dos
anos de 1960 se começou a apostar numa política de dinamização das exportações.
Tudo contribuiu para a diminuição progressiva da taxa de cobertura.

297
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

Quadro 5-14 Taxa de Cobertura das importações

Durante o período de 1960 a 1974, com a entrada na EFTA, e o acelerado crescimento,


Portugal foi abandonando a sua política de isolamento. Isso resultou numa maior
abertura ao comércio internacional que, virado especialmente para a Europa com a
entrada na EFTA, começou paulatinamente a levar à diminuição das relações comerciais
com as colonias, assentando o movimento de “Regresso à Europa”.

5.3 Do 25 de Abril à Adesão à CEE

De todos os períodos analisados este é o mais conturbado. Como se viu, coincidiram no


espaço de pouco mais de um ano, 1973-1974, dois acontecimentos com extensas
repercussões sobre a economia e o comércio externo portugueses. A nível externo, o
choque petrolífero de 1973, com a subidas em mais de 3 vezes do preço do petróleo, e
por efeito dominó, de praticamente todos os bens manufacturados, dando início a um
período de inflação generalizada que só abrandou no final dos anos de 1980. Pode-se,
ainda, acrescentar a queda definitiva do ordeiro Sistema de Bretton Woods e o
consequente advento de um generalizado não sistema monetário internacional, com a
convivência simultânea de diversos regimes de taxas de câmbio.

A nível interno, o prolongar da guerra colonial, de cariz exclusivamente político, o


defraudar das esperanças depositadas na possível transição do regime corporativista
autoritário para um regime de face liberal, conduziram ao golpe de estado de 25 de
Abril de 1974. A recuperação das liberdades fundamentais, tanto individuais como
colectivas, e a satisfação de anseios de melhoria das condições dos trabalhadores,
tiveram, com se viu, consequências a nível económico que, conjugadas com o choque

298
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

externo referido, conduziram a um período de graves desequilíbrios na economia


portuguesa.

Em termos deste trabalho de investigação, realizado fundamentalmente com base em


valores a preços correntes, o choque petrolífero, com a constante procura de
fornecedores com condições de fornecimento mais favoráveis, veio baralhar e fazer
mudar, anualmente, os pesos relativos das diversas áreas geográficas no comércio total
de Portugal. Por outro lado, a alta inflação empolou os valores correntes desse
comércio, exigindo maiores cuidados na sua análise.

Entre 1974 e 1985 as importações portuguesas, em termos reais, cerca de 2,6% anuais
muito abaixo dos dois períodos anteriormente analisados, tendo as exportações um
comportamento ligeiramente mais acelerado crescendo, também em termos reais, cerca
de 7,4% ao ano, de qualquer modo, também abaixo das taxas dos períodos anteriores.

Apesar do crescimento superior das exportações relativamente às importações – é


preciso ter aqui em conta o efeito sobre estas das duas intervenções do FMI a partir de
1978 – a balança comercial teve permanentemente um défice apreciável que se
mantinha elevado em 1985.

Figura 5-8 Défice comercial

0,0 0,000

-500,000
-5,0
-1.000,000
-10,0
-1.500,000
-15,0
-2.000,000

-20,0 -2.500,000

em milhões de euros Em % do PIB

Preços correntes

Para se ter uma ideia mais precisa da evolução dos preços das exportações e das
importações, e do seu efeito na análise a preços correntes que se seguirá, a Figura

299
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

seguinte mostra aos valores dos respectivos deflacionadores, em números índice com o
ano de 1977 como base.

Os preços das exportações cresceram 6,7 vezes entre 1974 e 1985, e os importações 8,9
vezes nos mesmos anos. O que significa que os números que analisarei adiante estão
empolados pelos preços num valor situado entre os dois referidos.

Figura 5-9 Deflacionadores das Exportações e Importações,

6,0
5,0
4,0
3,0
2,0
1,0
0,0
1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985

Exportações Importações

Base 1977=1

Nos Quadros seguintes apresento, como anteriormente, a evolução por áreas geográficas
do comércio total de Portugal em preços correntes.

Quadro 5-15 Comércio total de Portugal por regiões geográficas, 1974-1985 Parte I

, Em valores correntes

300
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

No período de 1974 a 1985, o comércio total de Portugal aumentou 11 vezes, ou seja, a


uma taxa média anual a preços correntes de 24,45%. O maior crescimento deu-se nas
trocas comerciais com a Europa, 13,3 vezes ou 26,5% anuais. O comércio com as
antigas colonias quase que desapareceu após sua independência em 1975, mas, Portugal
continuou a exportar, embora muito menos, para todas elas, especialmente para Angola.
O comércio com a América do Norte aumentou 11,7 vezes, ou 25,1% anuais. Mas, um
facto relevante, como foi dito relativamente ao período anterior, é o crescimento das
relações comerciais com a Ásia, 14,2 vezes, ou 27,3% anuais. A razão principal, como
foi já dito, é o aumento, em valor, das importações de petróleo do Médio Oriente devido
ao choque petrolífero de 1973. A partir de 1980 este efeito começou a fazer-se sentir,
também, na África e na América do Sul, com o aparecimento da Nigéria e da Venezuela
como fornecedores alternativos de petróleo. No entanto, o principal fornecedor
continuou a ser o Médio Oriente, especialmente o Iraque, com, a partir de início dos
anos de 1980, a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos a substituir
progressivamente o Irão, tradicionalmente o segundo fornecedor de Portugal409.
Quadro 5-16 Comércio total de Portugal por regiões geográficas, 1974-1985 Parte II

Em valores correntes.

409
O início da guerra entre o Iraque e o Irão em Setembro de 1980, com o Ocidente a apoiar
predominantemente o Iraque, poderá ser uma razão deste desvio e do aparecimento da Venezuela e da
Nigéria como fornecedores. Até porque nem todo o petróleo tem as mesmas características, e as refinarias
têm os seus processos afinados para determinados tipos de petróleo (além de para diversos tipos de
produtos, por exemplo, as refinarias portuguesas refinam mais gasóleo de que o que Portugal necessita e
trocam-no por gasolina com outros países) e só uma razão muito forte, diplomática ou de segurança do
transporte (o Irão tem fraco acesso aos “pipelines” que ligam à Arábia Saudita ou ao Mar Vermelho), iria
afastar um dos principaís fornecedores.

301
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

Como é evidente, estes crescimentos têm que ser lidos com cuidado e não são
directamente comparáveis com os do período anterior devido à grande subida, como se
viu, da inflação.

Procurarei, agora, fazer a análise comparativa entre a CEE, a EFTA e os EUA. Mas,
tendo em conta o aumento do peso das importações de petróleo, vou, igualmente, incluir
nas minhas observações a OPEP.

O comércio com a CEE aumentou 13,6 vezes, ou 26,8% anuais confirmando a crescente
ligação comercial ao espaço integrado europeu, reforçado aqui pela assinatura do acordo
de pré-adesão em 1980. As trocas comerciais coma EFTA apesar de terem continuado a
crescer, 10,6 vezes ou 24% anuais, viram o seu peso no total reduzido como se verá
mais adiante.

Quadro 5-17 Comércio de Portugal com CEE, EFTA, EUA e OPEP

Milhares de escudos correntes.

O comércio com os Estados Unidos, cresceu 13 vezes, ou 26,2% anuais. Com a OPEP,
com que Portugal mantinha relações comerciais de reduzido peso antes de 1974, as
trocas cresceram 32,8 vezes, ou 37,4% anuais. Destacam-se aqui, na minha opinião,
dois efeitos. Primeiro, um efeito preço em consequência dos choques petrolíferos de
1973 e de 1981, mas, depois, as importações de petróleo se o seu valor for deflacionado

302
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

pelos respectivos preços também crescem em volume. Isso significa que Portugal
começou a usar maiores quantidades de petróleo, o que é consentâneo com o aumento
das exportações em termos reais, pois para produzir mais, com as tecnologias existentes,
era preciso mais petróleo. Por outro lado, apesar das intervenções do FMI que limitaram
o crescimento da procura interna, esta continuou a crescer, assim como o PIB, este
excepto no ano de 1983.

Com a habitual chamada de atenção para os cuidados a ter com a leitura deste indicador,
o Quadro a seguir mostra a elasticidade, ou sensibilidade, das trocas comerciais com
cada região relativamente ao comércio total de Portugal.

Quadro 5-18 Elasticidades do comércio total.

Se se considerar o reduzido peso da Oceânia e a OPEP pelas razões referias, continua a


ser o comércio com a Europa o mais dinâmico. Efectivamente, neste período, voltou a
crescer a uma taxa mais elevada que o comércio total confirmando que o período depois
da II Guerra é, realmente, o do “Regresso à Europa”.
Figura 5-10 Evolução das partes relativas de cada área geográfica no comércio total de Portugal

100,00%
90,00% Outros ne
80,00% Oceania
70,00% Asia
60,00%
Africa
50,00%
40,00% Am. Central
30,00% Am Sul
20,00%
Am Norte
10,00%
0,00% Antigas Colónias
Europa

303
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

Isso mesmo se constata no gráfico acima. A parte da Europa no comércio externo de


Portugal passou de 62% em 1974 para cerca de 65% em 1985. A América do Norte
perdeu peso e a única outra zona geográfica que viu o seu peso aumentar, de 2,2% para
9,4%, foi a África. Note-se que, relativamente a esta região, também se faz sentir o
efeito das importações de hidrocarbonetos, principalmente da Nigéria, da Líbia e da
Argélia.

Figura 5-11 Comércio de Portugal com diversos Países da Europa

80,00% Out. Europa


#REF!
70,00% Finlandia
Grécia
60,00% Suiça
Suécia
50,00% Holanda
40,00% Noruega
Itália
30,00% Irlanda
Inglaterra
20,00% França
Espanha
10,00% Dinamarca
Bélgica/Lux
0,00% Austria
1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 Alemanha

Em % do comércio total.

Dentro da Europa a Alemanha passou a ser principal parceiro de Portugal tendo o seu
peso passado de 11,6% para 12,8%. O Reino Unido viu o seu peso diminuir de 13,7%
para 10,8% deixando de ser esse principal parceiro. De nota que a França aumenta o seu
peso de 7,1% para 10,3%, passando a ser o terceiro parceiro de Portugal dentro da
Europa. O valor das trocas de Portugal com Espanha continuou a aumentar, duplicando
em termos de peso de 3,7% para 6,2%. A este crescimento quase explosivo não será
estranha a assinatura do acordo de pré-adesão à CEE em 1980, em cujo Anexo J se
regulavam as relações comerciais entre Portugal e Espanha e os termos do seu
desarmamento aduaneiro410.

410
No início de 1983, o governo português considerou que a Espanha não estava a cumprir os termos do
Anexo J no que respeita à eliminação dos obstáculos não pautais ao comércio. A concessão de licenças de
importação por parte de Espanha estava quase parada. Portugal entendeu que devia retaliar. Num
despacho do Secretário de Estado do Comércio Externo português que passou quase desapercebido (a não
ser aos interessados) foi suspensa a emissão de Boletins de Importação para produtos espanhóis e criado
um grupo de trabalho ad-hoc, presidido pelo Director-geral do Comércio Externo e de que eu fiz parte,
com a incumbência de analisar, caso a caso, a situação das empresas portuguesas que a aplicação desse
despacho poderia prejudicar em termos de continuidade de laboração. As empresas interessadas faziam

304
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

Outro facto a destacar, e que não é visível no gráfico por estar “escondido” na categoria
“Outra Europa” foi o crescimento significativo do comércio com países da Europa de
Leste que, com excepção da Checoslováquia, antes praticamente não existia, e que
passou de praticamente 0% para 1,9%. Neste grupo de países, o principal parceiro de
Portugal era a União Soviética.

Figura 5-12 Comércio com a CEE, a EFTA e a OPEP

100,00%
90,00%
80,00%
70,00% R. Mundo
60,00%
OPEP
50,00%
40,00% R. Europa
30,00% EFTA
20,00%
CEE
10,00%
0,00%

Em 1985, pelo menos em termos do indicador Comércio Externo, o “Regresso à


Europa” parece consumado. Esta coloca-se definitivamente como o principal parceiro
comercial de Portugal, o comércio com as antigas colonias passa a quase residual –
agora com os PALOP, e o comércio como Resto do Mundo parece ter estabilizado em
termos de peso. O comércio com a CEE aumenta de 45% para 48% do total e as trocas
com a EFTA estabilizam nos 8%. O único facto que se destaca, pelas razões já referidas,
é o do peso da OPEP no comércio total de Portugal que passa de 4,4% em 1974 para
13% em 1985.

chegar os seus casos (de forma desburocratizada, um simples “telex” chegava) aos órgãos competentes
do governo, às Associações Industriais Portuguesa e Portuense e à Confederação da Indústria, e o referido
grupo de trabalho reunia semanalmente para decidir se era emitido o respectivo Boletim de Importação. O
secretismo do processo foi tal que só uma ameaça de uma empresa do Norte em cortar a estrada perto do
Porto o tornou conhecido. Todos os casos que chegaram ao grupo de trabalho de que fiz parte tiveram
parecer favorável para a importação, excepto o quase caricato caso de uma empresa que era subsidiária de
uma espanhola, exportando quase toda a produção para a empresa mãe que não tinha dificuldades em
obter as licenças de importação em Espanha. Uma mini guerra comercial da qual quase ninguém deu
conta.

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5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

Que relações terão existido neste período de “Portugal em Transe”411 entre a evolução
do comércio externo e o nível de desempenho da economia portuguesa? De novo
analisarei a relação entre dois indicadores: a taxa de abertura da economia portuguesa e
a evolução da convergência para o grupo de países denominado CEE-15.

O PIB per capita de Portugal, medido em dólares de 2005, passou de 8.004 dólares por
pessoa para 9.923 dólares, um crescimento a uma taxa anual de 1,83%, muito abaixo do
verificado no período anterior.

Figura 5-13 Evolução do PIB per capita português,

10.500
10.000
9.500
9.000
8.500
8.000
7.500
7.000
6.500
6.000

Em dólares de 2005.

Portugal passou por duas recessões, bem visíveis no gráfico acima. Uma, mais grave,
em 1975, na sequência do choque petrolífero, recuperou apesar das medidas de
ajustamento do FMI, experimentou graves desequilíbrios da balança de pagamentos e
do orçamento de estado, e outra recessão, menos pronunciada, em 1983, também após
um choque petrolífero, mas que as medidas de ajustamento da segunda intervenção do
FMI não susterão (como aliás seria de esperar).

Os programas do FMI foram dirigidos à contenção da procura interna e, efectivamente,


esta desacelerou com a primeira intervenção e quebrou com a segunda.

Se na primeira intervenção do FMI o desacelerar da procura interna não teve efeitos


negativos sobre a evolução do PIB, já na segunda a diminuição dessa procura veio

411
Título do oitavo volume da História de Portugal dirigida por José Mattoso e publicada pelo Circulo de
Leitores. Este volume teve a coordenação de José Medeiros Ferreira.

306
5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (194

reforçar os efeitos do choque petrolífero e causar uma quebra no PIB, e, num país com
baixo crescimento populacional, uma quebra do PIB per capita. O ritmo de
convergência para a média da CEE-15 ressentiu-se.

Quadro 5-19 PIB per capita português em PPP

Em % da média da CEE-15

Com algumas oscilações de ano para ano o que aconteceu é que Portugal divergiu, em
PIB per capita PPP, da média europeia ao longo deste período. Afastou-se até 1979, fim
da primeira intervenção do FMI, recuperou alguma coisa logo a seguir para, depois da
segunda intervenção se afastar novamente. Vai ser preciso esperar pelo final dos anos de
1980 para se assistir a uma mais rápida aproximação à Europa.

Entre 1974 e 1985 a procura total aumentou, em taxa média anual, em 2,8% e as
importações cresceram, no mesmo período e também em taxa média anual, em 2,58%.
Assim a elasticidade das importações à procura total foi, no período, de 0,92, muito
abaixo da verificada no período anterior e um dos efeitos desejados pelo programa do
FMI. O que este número quer dizer é que por cada 1% de crescimento da procura total
as importações cresceram menos, só 0,92%. Perante este número uma das coisas que se
pode esperar é uma melhoria da taxa de cobertura das importações pelas exportações
(outro dos efeitos desejados pelo FMI).

Essas taxas de cobertura são apresentadas no quadro seguinte. Mas, recordo-me que fez
notícia nos jornais que em 1985 pela primeira vez Portugal teve um excedente
comercial com a CEE.

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5. O Comércio Externo Português Por Áreas Geográficas (1945-1985)

Quadro 5-20 Taxa de cobertura

Entretanto, a taxa de abertura com a evolução que o comércio teve deve ter aumentado.
O Quadr