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Nilton Milanez

Victor Pereira Sousa


Jamille Santos
(orgs.)

Anais do Colóquio
30 Anos com Foucault

Vitória da Conquista
2014
FICHA CATALOGRÁFICA

C836c Corpo e Heterotopias: Anais do Colóquio 30 Anos com Foucault


[recurso eletrônico] / organização Nilton Milanez, Victor
Pereira Sousa, Jamile Santos..--Vitória da Conquista: Labedisco,
2014.
149p.

E-book
ISBN: 978-85-66665-06-2

1. Filosofia – Congressos. 2. Foucault, Michel – 1926-1984.


3. Heterotopia (Filosofia). 4. Corpo (Filosofia). I. Milanez,
Nilton. II. Sousa, Victor Pereira. III. Santos, Jamile. IV.
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. V.T.

CDD: 194

Elinei Carvalho Santana – CRB-5/1026


Bibliotecária – UESB - Campus de Vitória da Conquista-BA

Correspondências para:
Labedisco/UESB – a/c Nilton Milanez
Estrada do Bem Querer, Km 4, Módulo II
Bairro Universitário – Vitória da Conquista – BA / CEP 45083-900
labedisco.uesb@gmail.com
Copyrigth @ 2014 Labedisco

Labedisco – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo


(http://www2.uesb.br/labedisco)

Organizadores:
Nilton Milanez – nilton.milanez@gmail.com
Victor Pereira Sousa – victor.ps1984@gmail.com
Jamille Santos – jjmillesilva@gmail.com

Revisão e primeiro tratamento:


Renata Celina Brasil Maciel - recelina@gmail.com
Tyrone Chaves Filho – t.y.r.o.n.e.007@hotmail.com

Diagramação, projeto de capa e supervisão de arte:


Victor Pereira Sousa – victor.ps1984@gmail.com

O TEOR DOS TEXTOS PUBLICADOS NESTE


VOLUME, QUANTO AO CONTEÚDO E À FORMA, É
DE INTEIRA E EXCLUSIVA RESPONSABILIDADE DE
SEUS AUTORES.

Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo


Departamento de Estudos Linguísticos e Literários
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

2014
Colóquio 30 Anos com Foucault

Corpo e Heterotopias

UESB, 04 e 05 de dezembro de 2014


Auditório Glauber Rocha – Campus Vitória da Conquista

Uma realização do Labedisco/CNPq/UESB

Apoio
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB
Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação – PPG/UESB
Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários – PROEX/UESB
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq
Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3

Coordenação:

Nilton Milanez
Victor Pereira Sousa
Jamille Santos

Articulações com Grupos de Pesquisa / Diretório CNPq

Grupo de Estudos de Análise do Discurso de Araraquara – GEADA


Laboratório de Estudos do Discurso – LABOR
Grupo de Pesquisas em Espacialidades Artísticas – GPEA
Grupo de Estudos Mediações, Discurso e Sociedades Amazônicas – GEDAI
Círculo de Discussões em Análise do Discurso – CIDADI
Grupo de Estudos Foucaultianos da UEM – GEF
Laboratório de Estudos Discursivos Foucaultianos – LEDIF
SUMÁRIO

Apresentação .................................................................................................................................... 11

Dissertações e Teses em Andamento

A imagem do bom governante nas eleições 2014 ............................................................. 13


Alessandra Souza Silva
Edvania Gomes da Silva

Linguagem e subjetividade em Cazuza .................................................................................. 16


Anísio Batista Pereira
Antônio Fernandes Júnior

Regimes de verdades e redes de memórias no telejornalismo paraense .................. 19


Arcângela Auxiliadora Guedes de Sena
Ivânia dos Santos Neves

Cartografias do discurso: a constituição de um dispositivo de TDAH ........................ 22


Bruno Franceschini
Cleudemar Alves Fernandes

Discurso, corpo e governamentalidade: as marcas identitárias do sujeito


fumante em campanhas antitabagistas nas embalagens de cigarro ........................... 27
Claudemir Sousa
Regina Baracuhy

Egos em evidência: (re)configurações do íntimo na tessitura do discurso


midiático ............................................................................................................................................. 30
Francisco Vieira da Silva
Regina Baracuhy

O fascínio por assassinos em série na ficção: uma ordem discursiva a partir de


Dexter .................................................................................................................................................. 33
Glaucia Mirian Silva Vaz
Luciane de Paula

A noção de arquivo na obra hilstiana: morte, autoria e sexo ......................................... 36


Jaciane Martins Ferreira
Cleudemar Alves Fernandes

José Saramago e a vontade de verdade: um nó discursivo a ser desvendado ........ 39


Karina Luiza de Freitas Assunção
Cleudemar Alves Fernandes
“Nem toda nudez será proibida”: a produção de identidades para o sujeito
mulher no discurso turístico oficial brasileiro ....................................................................... 42
Karoline Machado Freire Pereira
Regina Baracuhy

Lugares fora de lugar: “o chão da utopia” nas narrativas heterotópicas de Rosa


Magalhães ......................................................................................................................................... 45
Leonardo Augusto Bora
Frederico Augusto Liberalli de Góes
Luiz Felipe Ferreira

As sociedades indígenas e o audiovisual: as relações de poder em outros


espaços e identidades ................................................................................................................... 49
Maurício Neves Corrêa
Maria do Rosário Valencise Gregolin

A vigilância eletrônica e a expansão do panoptismo ........................................................ 53


Maykon dos Santos Marinho
Luciana Araújo dos Reis

Narrativas orais indígenas como interação: a arqueologia do saber tembé-


tenetehara ......................................................................................................................................... 56
Nassif Ricci Jordy Filho
Ivânia dos Santos Neves

Mito, cinema e discurso: um olhar arqueológico sob o viés discursivo em “O


senhor dos anéis: a sociedade do anel” ................................................................................. 60
Nicaelle Viturino dos Santos de Jesus
Maria Emília de Rodat de Aguiar Barreto Barros

Entre quadros, indígenas e identidade: a presença indígena nos quadrinhos,


discursos e redes de memória ................................................................................................... 64
Otoniel Lopes de Oliveira Junior
Ivânia dos Santos Neves

O corpo monstruoso do zumbi: discurso e memória da (a)normalidade no


cinema ................................................................................................................................................. 67
Renata Celina Brasil Maciel
Nilton Milanez

Modos de subjetivação e transgressão na dança ............................................................... 70


Samene Batista Pereira Santana
Nilton Milanez
Corpo, poder e resistências: os sujeitos do sexo na pornochanchada brasileira
(1975-1985) ....................................................................................................................................... 73
Tyrone Coutinho Chaves Filho
Nilton Milanez

“Uga Uga” e “Alma Gêmea”: personagens indígenas nas telenovelas brasileiras ... 76
Vívian de Nazareth Santos Carvalho
Ivânia dos Santos Neves

Outros Trabalhos em Andamento

(Des)continuidades sobre o corpo da mulher indígena como espaço de


memória na fotografia .................................................................................................................. 80
Ana Shirley Penaforte Cardoso

Corpo monstruoso: discurso e (des)ordem em filmes de zumbi .................................. 83


Bruno Pacheco
Nilton Milanez

A metamorfose no corpo do cisne negro .............................................................................. 85


Cremilton de Souza Santana
Janaina de Jesus Santos

Violência simbólica organizacional direcionada aos trabalhadores: considerações


exploratórias ..................................................................................................................................... 89
Cristina Miyuki Hashizume

Foucault, domínio do corpo e resistência do sujeito jurídico como objetivação


de construção de si no longa-metragem "A mulher do desejo, de Chistensen
Carlos Hugo ...................................................................................................................................... 92
Daniel Soares Sousa Lemos
Nilton Milanez

Corpo, sujeito e monstro: análise do discurso do terrir no filme "Um lobisomem


na Amazônia" ................................................................................................................................... 96
Diana de Oliveira Brito
Nilton Milanez

Desdobramentos do corpo: o discurso do sonho no filme "Meshes of the


afternoon" .......................................................................................................................................... 100
Flora Paranhos Monteiro Alvarenga
Nilton Milanez

O corpo está em jogo! Modalidades enunciativas do corpo e do sujeito na série


de games "Resident evil" ............................................................................................................. 103
George Lima
Nilton Milanez
The castle of otranto: a espacialidade fantástica em Horace Walpole ........................ 106
Geysa Dayanne Gomes da Costa
Janaina de Jesus Santos

A anarquia é para todos: discurso político em "V de vingança" ................................... 110


Isa Ferreira Lima
Nilton Milanez

Análise do discurso-corpo do horror em "Amor só de mãe" ......................................... 113


Iuri Rocha Pires
Nilton Milanez

Morfologia do corpo e disciplina: o figurino das divas do pop em videoclipes


(1980-2014) ....................................................................................................................................... 116
Leonardo Teófilo da Silva Santos
Nilton Milanez
Victor Pereira Sousa

Análise de práticas discursivas do plano nacional de educação: estratégias de


governamentalidade ...................................................................................................................... 120
Luciane Alves Coutinho
Maria Regina Baracuhy Leite

A impressionante expressividade do corpo: discurso do desdobramento do


corpo em diferentes espaços ..................................................................................................... 124
Maria Andreia Santos
Isac Flores
Nilton Milanez
Jamille Santos

O (des)governo do corpo: necrofilia e snuff em vídeos eróticos .................................. 128


Matheus Vieira Rocha
Nilton Milanez

Sujeito e corpo: o discurso do amor entre mulheres no cinema de horror .............. 131
Mirtes Ingred Tavares Marinho
Nilton Milanez

Foucault, a transexualidade e as metamofoses: políticas do corpo no curta-


metragem “Joelma”, de Edson Bastos ..................................................................................... 135
Ricardo Amaral
Nilton Milanez

Os vários ângulos da festa de aparelhagem: o discurso, poder e a mídia ................ 138


Robert Leandro Silva Freitas
Marcos André Dantas da Cunha
Materialidades do sangue: uma análise discursiva de “Color me blood red”, de
Herschell Gordon Lewis de 1965 ............................................................................................... 141
Ueslei Pereira De Jesus
Nilton Milanez

Materialidades para um corpo suicida: modos de governo do outro em vídeos


de curta duração ............................................................................................................................. 144
Vilmar Prata Correia
Nilton Milanez

Automutilação/cutting: corpo, governo e práticas de confissão em vídeos da


internet ............................................................................................................................................... 147
Vinicius Lemos da Silva Reis
Nilton Milanez
11

Apresentação

As datas nos levam no tempo e marcam nosso corpo no espaço. Neste 2014
reafirmamos nossos laços com o pensamento de Michel Foucault. Pensar com Foucault e
falar a partir de Foucault é ter a oportunidade de compreender que as teorias se
movimentam e os estudiosos circulam. O Colóquio “30 anos com Foucault: Corpo e
Heterotopias” tomou um dos temas do pensador como problemática. Como se constituem
nossos corpos hoje? De que maneira nossos corpos dizem quem somos? Em que espaços
tais corpos se circunscrevem? Mais do que a pluralidade em “corpos” e “espaços”
consideramos a relação corpo-espaço como possibilidades inumeráveis de modos de se ver,
de ser e de viver.
Essas políticas de vida e de espaço se materializaram por meio da discussão entre
Grupos de Pesquisa em Análise do Discurso no Brasil que colocam Michel Foucault no
centro de suas discussões. O Colóquio fez parte de uma rede de eventos no Brasil que se
iniciou na UNESP de Araraquara, passando pela Federal de Uberlândia, Federal de São
Carlos, Federal do Pará e, por fim, na UESB de Vitória da Conquista, na Bahia.
Nosso foco foi discutir, em específico, as heterogeneidades do corpo e do espaço
como também, de maneira mais ampla, acolher trabalhos em andamento nos domínios do
universo dos estudos do discurso da maneira como o compreendemos no Brasil. O
Colóquio “30 anos com Foucault: Corpo e Heterotopias” foi uma ação dos Projetos de
Extensão e de Pesquisa realizados pelo Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo, o
Labedisco/CNPq, desenvolvidos na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
Neste volume encontram-se os textos dos trabalhos que integraram o referido
evento, em formato de resumo expandido, cuja exposição se deu durante as sessões de
apresentação de dissertações e teses em andamento e também apresentação de painel. Vale
ressaltar que o teor dos textos aqui publicados é de inteira responsabilidade de seus autores.

Prof. Dr. Nilton Milanez


Prof. Me. Victor Pereira Sousa
Profa. Ma. Jamille Santos

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


DISSERTAÇÕES E TESES
EM ANDAMENTO

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


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A imagem do bom governante nas eleições 2014

Alessandra Souza Silva (PPGLin/UESB)


Edvania Gomes da Silva (UESB)

Resumo: O presente trabalho é um recorte da pesquisa desenvolvida dentro do Programa


de Pós-Graduação em Linguística da UESB, em nível de Mestrado Acadêmico, cujo
objetivo é analisar as estratégias discursivas utilizadas para a construção da imagem do bom
governante na propaganda eleitoral gratuita dos candidatos à presidência da República do
Brasil nas eleições de 2014. Para este trabalho, analisaremos o primeiro programa eleitoral
dos presidenciáveis do ano de 2014, detendo-nos nas falas que, em alguma medida, citaram
Eduardo Campos nos programas dos três principais partidos que disputam as eleições, e
utilizamos como referencial teórico postulados de Jean-Jacques Courtine (2006) acerca do
discurso político, alguns conceitos operacionais que fazem parte do dispositivo teórico-
analítico da Análise de Discurso Francesa, além de discussões empreendidas por Michel
Foucault sobre poder, saber e vontade de verdade.

Palavras-Chave: Discurso; Imagem discursiva; Política.

Introdução

Com o avanço da tecnologia e da facilidade de acesso a ela, o discurso político


também precisou modernizar-se. As campanhas políticas já não são feitas só em palanques,
com longos discursos, mas, sobretudo, nos diferentes meios de comunicação, como
televisão e redes sociais. De acordo com Courtine (2006), essa mudança, ocorrida a partir
da década de 1970, tornou a coisa pública simples aparência, puro espetáculo, que, para
nós, tem a propaganda eleitoral gratuita como um de seus principais atos.

Materiais e Métodos

Para o presente trabalho, recortamos do primeiro programa eleitoral dos


presidenciáveis de 2014, veiculado na televisão aberta em 19/08/2014, as falas
materializadas nos programas dos principais candidatos à presidência que, em alguma
medida, citaram Eduardo Campos, ex-candidato a presidente da Republica do Brasil, morto
em um acidente sofrido no dia 13/09/2014. Verificamos que, dos onze partidos que


Discente do Programa de Pós-Graduação em Linguística – PPGLin da Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia – UESB, em nível de Mestrado.

Professora Doutora, docente do Programa de Pós-Graduação em Linguística – PPGLin da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB.

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disputam a presidência, cinco citaram o referido político em seus programas, a saber, PSB,
PSDB, PT, PSDC e PV. Destes, analisamos apenas os programas do PSB, PSDB e PT, que
têm os principais candidatos da disputa presidencial. A partir deste recorte, destacamos não
só as materialidades verbais, mas também algumas características imagéticas dos vídeos.
Procuramos verificar o que foi discursivizado no programa de cada candidato sobre
Eduardo e quais os efeitos de sentido que podem ser depreendidos a partir de tais
referências.

Resultados e discussão

A nova forma de apresentação do discurso político, apontada por Courtine, levou os


seus oradores a uma busca da construção de suas imagens enquanto bons governantes,
buscando evidenciar uma constante prática da virtude, que segundo Foucault (1985),
determinaria o controle da vida privada e pública do sujeito político, pois as práticas de si
definem aquele que é ou não capaz de governar o outro. A propaganda eleitoral, um dos
mais importantes lugares de materialização de discursos sobre a imagem dos candidatos a
governantes, em suas diferentes formas de discursivização, apresenta, para a construção de
tais imagens, um efeito de verdade que, posta em circulação, se impõe como realidade, e
tais “produções de verdades não podem ser dissociadas do poder e dos mecanismos de
poder” (FOUCAULT, 2010, p. 229). Nas propagandas eleitorais ora analisadas,
identificamos diferentes estratégias de criação de um efeito de verdade para as imagens dos
candidatos em questão, todas, no entanto, utilizando a imagem do Ex-Candidato Eduardo
Campos como sustentáculo. Na propaganda eleitoral do Partido Socialista Brasileiro - PSB,
tais estratégias discursivas apontam para uma tentativa não só de construção da imagem de
Eduardo Campos como o político ideal para presidir o Brasil, mas também da candidata
Marina Silva como uma continuidade do projeto político de Eduardo, que teria sido
escolhida por ele mesmo. Na propaganda eleitoral do Partido Social Democrata Brasileiro -
PSDB, o discurso materializado não só busca construir a sua própria imagem a partir de
uma aproximação com a imagem pessoal e política de Eduardo Campos como também
apresenta o candidato Aécio Neves como continuidade das ideias de Eduardo. Por fim, o
discurso materializado na propaganda eleitoral do Partido dos Trabalhadores - PT contribui
para a construção da imagem da candidata Dilma Rousseff como alguém que dará
continuidade a uma suposta luta de Eduardo Campos pelo Brasil.

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Conclusão

Foi possível verificar que, nos discursos materializados nos programas eleitorais dos
três partidos analisados, ideologicamente diferentes, houve a tentativa de construção da
imagem Eduardo Campos como “político perfeito” e também de associação desta as
imagens dos seus candidatos como continuidade do projeto desse político, com vistas a
garantir a construção de uma determinada imagem de político ideal, posta em circulação
como um efeito de verdade.

Referências

COURTINE, Jean-Jacques. Metamorfoses do discurso político: as derivas da fala


pública. Trad. Nilton Milanez, Carlos Piovezani Filho. São Carlos: Claraluz, 2006.

FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos IV: Estratégia, poder-saber. Trad. Vera Lúcia
Avelar Ribeiro. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

___________. História da sexualidade III. O cuidado de si. Trad. Maria Thereza da


Costa Albuquerque. Rio de Janeiro. Graal, 1985.

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Linguagem e subjetividade em Cazuza

Anísio Batista Pereira (UFG – Regional Catalão)


Antônio Fernandes Júnior (UFG – Regional Catalão)

Resumo: A emergência do rock brasileiro dos “anos 80” se dá em meados da década de


1980, período que sucede o fim do regime militar no Brasil. Após esse regime, acontece
uma abertura política e, consequentemente, cultural, sobretudo da cultura de massa,
momento em que esse segmento musical ganha destaque. Dessa forma, várias bandas são
formadas, sobretudo por jovens. Este trabalho propõe analisar perfis identitários,
construídos por meio da linguagem, que deem visibilidade a perfis de uma identidade
jovem. Para tanto, escolheu-se a letra de música Ideologia, de Cazuza, pois nela encontramos
elementos que possibilitam apreender perfis identitários do período supracitado. Como
suporte teórico, adotou-se Foucault (2009), Fernandes (2012) e Duarte (2010). Ressalte-se
que este trabalho é parte de um estudo mais amplo, em desenvolvimento, que propõe
pesquisar a construção de uma identidade jovem nas letras de rock dos anos 1980 no Brasil.

Palavras-chave: Linguagem; subjetividade; rock brasileiro da década de 1980; Cazuza.

Introdução

O rock brasileiro dos anos 80 tem sua ascensão após o fim da ditadura no Brasil. Esse
segmento musical foi constituído por bandas formadas por jovens com idades entre 16 e
29 anos. Pela linguagem artística, vários grupos puderam dar visibilidade a questões de
interesse de muitos jovens. Assim, este trabalho pretende discutir aspectos relacionados à
subjetividade jovem, a partir da letra da música Ideologia, de Cazuza.

Material e métodos

O presente estudo obedece ao modelo de pesquisa bibliográfica, sendo, por isso,


analítica descritiva. Quanto ao aporte teórico-metodológico, o trabalho se fundamenta em
Foucault, apoiando-se no conceito de subjetividade, com destaque, também, para a
identidade que é possível perceber a partir da análise do corpus. Para a análise, escolheu-se a
letra de música Ideologia, do roqueiro Cazuza, por tratar diretamente da questão da
subjetividade e a um perfil de juventude, correspondendo aos objetivos deste estudo.


Mestrando em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão.

Doutor em Estudos Literários pela UNESP – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e
professor adjunto da Universidade Federal de Goiás.

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Feita a leitura do recorte teórico e escolha da letra de música, dentro do rock


brasileiro da década de 1980, foi realizada a análise, considerando alguns pontos ligados ao
conceito de subjetividade, possibilitando apontar para um perfil de identidade jovem,
materializado na referida letra musical.

Resultados e discussão

Fernandes (2012, p.74), em uma leitura de Foucault, conceitua subjetividade como o


“processo constitutivo dos sujeitos, pela produção da subjetividade que possibilita [..] a
objetivação dos sujeitos”. Foucault (1995) relaciona a subjetividade com o discurso,
tomando o enunciado como aporte para a materialização de posições-sujeito, no qual o
sujeito se inscreve. Dessa forma, o sujeito, a partir de sua relação com o exterior,
“constrói” o seu interior. E, nessas relações, o sujeito recorre a saberes, considerados, aqui,
como construções subjetivas.
Relacionando essas posições-sujeito com a identidade, Duarte (2010, p. 94/95)
defende que “(...) pensando nos efeitos de sentido produzidos pelos vários cruzamentos de
discursos e pelas várias posições-sujeito assumidas pelo enunciador, podemos perceber a
inscrição da identidade e da subjetividade”.
Vejamos um trecho de Ideologia, integrante do terceiro álbum solo de Cazuza:

O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n' roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
(Mudar o mundo)
Agora assiste a tudo em cima do muro
(CAZUZA, FREJAT, 1988)

As marcas linguísticas “meu”, “vou”, ‘sou” revelam posicionamentos do sujeito no


discurso, abordando questões sociais marcadas historicamente, nos anos 1980, como
drogas, rock’n’roll e a ameaça de futuro anunciada pela aids, que se percebe nos versos “o
meu prazer/ Agora é risco de vida”. Nota-se que a marca temporal “agora”, delimita o
espaço e tempo do sujeito. Soma-se a ameaça da aids, a negação da identidade (“não ter
que saber quem é”) e a descrença política, delimitada pelo enunciado “em cima do muro”,
que indica tanto a ausência de posição política quanto a desilusão com o futuro (“mudar o
mundo”). Percebe-se, no discurso, traços de uma subjetividade que desacredita no futuro

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(mudança) e no presente (assiste a tudo em cima do muro), além da perda da utopia e do


espírito revolucionário dos anos 1960. E esse panorama aponta para um perfil de
identidade jovem que se construiu, historicamente, nos discursos da década de 1980 no
Brasil.

Conclusões

O estudo teve o propósito de indicar pontos de analise da letra de música Ideologia,


de Cazuza, integrante do rock brasileiro da década de 1980, a fim de perceber, por meio da
linguagem, a formação da subjetividade no discurso. Pela análise, sob as considerações
foucaultianas, é possível perceber que há materializada na referida letra, subjetividades
(posições-sujeito), formadas a partir de trocas sociais (político-ideológicas e culturais),
possibilitando a percepção de uma identidade jovem.

Referências

CAZUZA; FREJAT, Roberto. Ideologia. Intérprete: CAZUZA. In: CAZUZA. Ideologia.


Universal Music, p1988. 1 CD. Faixa 1.

DUARTE, Sirlene. Subjetividade e identidade na literatura de autoajuda. Goiânia:


Cegraf UFG, 2010.

FERNANDES, Cleudemar Alves. Discurso e sujeito em Michel Foucault. São Paulo:


Intermeios, 2012.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

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Regimes de verdades e redes de memórias no


telejornalismo paraense

Arcângela Auxiliadora Guedes de Sena (UFPA/GEDAI)


Ivânia dos Santos Neves (UFPA/GEDAI)

Resumo: Esta pesquisa se propõe a pensar a presença indígena no telejornalismo paraense,


a partir da compreensão das formações discursivas, fundamentadas pelas formulações de
Michel Foucault (2014), tomando como análise o processo de produção da notícia. Quais
os regimes de verdade e as redes de memórias que posicionam as identidades indígenas, no
telejornal local? Discursos que tem na descrição ideal do indígena, no Brasil, redes de
memórias estabelecidas, a partir de possibilidades de condições históricas, em vários
enunciados sobre os “índios” e que tentaremos compreender a partir da proposta
arquegenealógica de Foucault (2014).

Palavras-chave: Televisão; telejornalismo; identidade; índio; memória.

Introdução

A temática indígena disputa espaço na pauta de um telejornal com outros assuntos de


interesse da sociedade e, portanto, afetam diretamente, os critérios de noticiabilidade dos
produtores do telejornalismo. O artigo faz parte dos estudos, desenvolvidos pelo GEDAI,
Grupo de Estudos, Mediações, Discursos e Sociedades Amazônicas, coordenado pela
Professora Doutora Ivânia Neves que, há quatro anos, vem se dedicando a pesquisas sobre
identidades indígenas no Brasil. O estudo ainda está em sua fase inicial, mas já esboçamos,
neste, as primeiras reflexões sobre redes de memórias, saber-poder e condições de
possibilidades históricas na comunicação televisiva na Amazônia.

Material e métodos

A Pesquisa tem por objetivo discutir a mídia televisão e a identidade da população


indígena que vive no Pará, a partir da compreensão das formações discursivas,
fundamentadas pelas formulações de Michel Foucault, e tomando como análise o processo
de produção da notícia nos telejornais exibidos no Estado, onde a partir de um estudo
arquegenealógico (FOUCAULT, 2014), nos permitirá uma análise das regularidades e


Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Amazônia (PPGCOM-UFPA).

Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM-UFPA).

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dispersões exibidas em diferentes condições de possibilidades históricas, no telejornalismo


paraense. A partir da análise das práticas discursivas, tomares também como estudo as
produções de identidade que se formam a partir dos sentidos que circulam nos discursos
do telejornal, com base em Douglas Kellner (2001) e seu entendimento sobre a identidade
contemporânea.

Resultados e discussão

O discurso em FOUCAULT (2014, p.25) é tomado como uma prática social,


historicamente determinada, que constitui os sujeitos e os objetos. A mídia, enquanto
prática discursiva, produto de linguagem e processo histórico, deve ser analisada, levando-
se em consideração a circulação dos enunciados, as posições de sujeito, as materialidades
que dão corpo aos sentidos e as articulações dos enunciados com a história e a memória.
Em cada época são criados diferentes dispositivos que contribuem para a constituição das
diferentes identidades. Kellner (2001) afirma que na sociedade contemporânea a questão da
identidade é cada vez mais mediada pela mídia, que produz “posições de sujeitos”
(KELLNER, 2001), “que valorizam certas formas de comportamento e modo de ser,
enquanto desvalorizam e denigrem outros tipos” (KELLNER, 2001, p. 307). Os
enunciados de um telejornal trazem à tona as diferentes vozes que se constituem
historicamente num corpo institucional e isso é vivenciado em todas as formas de
materialidades que circulam na redação e passam desde a produção, momento em que se
formula o que poderá servir como notícia, até a apresentação do material no ar. Cinco
emissoras detém a maior audiência no telejornalismo paraense: TV Liberal (afiliada à Rede
Globo), TV Record, SBT, RBA (ligada ao grupo Band) e TV Cultura (Emissora ligada à
Rede Educativa). Nos telejornais paraenses dessas emissoras a figura indígena ainda está
povoada de discursos que nos remetem ao século XVI, cheias de desdobramentos morais e
filosóficos. Essas sociedades, já nesta época, eram retratadas como figuras alegóricas,
constituídas por cocas, arcos e flechas, pinturas corporais e nem um traço de subjetividade.
“Hoje, pensar em uma análise das produções de sentido pela mídia não se limita mais a
compreendê-la como uma “ação representacional” (NEVES, p.05, 2013). Fazer a história
descontínua dos acontecimentos que envolvem as sociedades indígenas e sua relação com
as sociedades ocidentais, é compreender como a mídia constrói as diferentes identidades
desses povos, e também compreender como “cultura midiatizadas” (NEVES, 2013), se
constroem a partir dessas dispersões históricas.

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Conclusões

É importante trabalharmos um pouco das condições históricas que deixaram essas


redes de memórias no processo de produção da notícia e que também ajuda nos
dispositivos de controle do que se pode saber e do que deve ser silenciado nessas
produções. A televisão no Pará chega 11 anos depois da primeira transmissão feita no resto
do País, em 2 de setembro de 1961, com a TV Marajoara, canal 2. No início eram 3 horas
de programação, a partir do início da noite. Havia dois telejornais, além de novela e
programação musical, tudo feito ao vivo. Mas, tempos depois, a produção local dá espaço à
produção da cabeça de rede TV Tupi, com seus enlatados nacionais e internacionais. Se
reafirmam ou se refutam através desses discursos o saber e o poder; são estabelecidos os
direitos de fala, legitimamente e institucionalmente reconhecidos. O viés econômico,
ainda continua sendo o principal fio condutor das pautas que tornam-se acontecimento no
dia a dia das redações dos telejornais paraenses e o assunto ligado as sociedades indígenas
também são alvo dessa avaliação. A herança do discurso colonial está presente na seleção
da pauta, no enquadramento, no texto, na seleção de imagens e no lugar que a reportagem
irá ou não ocupar no espelho do telejornal. A memória coletiva que ver a Amazônia como
lugar a ser ocupado, integrado, está presente, mesmo que numa leitura subliminar do
sujeito produtor do noticiário. É o que Pollack chama de “enquadramento da memória”,
que trabalha a reinterpretação do passado para o bem do presente e do futuro. “Manter a
coesão interna e defender as fronteiras daqui que um grupo tem em comum, em que se
inclui o território (...), eis as duas funções essenciais da memória comum. Isso significa
fornecer um quadro de referências e de pontos de referências” (POLLACK, 1989, p.09).

Referências

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do Saber. Forense Universitária. 8ª edição. 2014

KELLNER, Douglas. A Cultura da mídia. Bauru: EDUSC, 2001.

POLLACK, Michael. Memória, esquecimento e silêncio. In: Estudos históricos. Rio


de Janeiro, v. 02, n.03, 1989.p.03-15.

NEVES, Ivânia. A invenção do índio e as narrativas orais Tupi -- Campinas, SP : [s.n.],


2009.

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Cartografias do discurso: a constituição de um


dispositivo de TDAH

Bruno Franceschini (UFU/LEDIF)


Cleudemar Alves Fernandes (UFU/LEDIF)

Resumo: Este trabalho objetiva discutir a constituição de um dispositivo de TDAH


(Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) tendo em vista a observação e
descrição dos elementos que compõem esse dispositivo, bem como apresentar uma
proposta de cartografia do dispositivo em questão. O que se apresenta, neste momento, é
uma das reflexões mobilizadas no projeto de tese “Operacionalização do conceito de
dispositivo na construção discursiva do TDAH”, pesquisa que tem por objetivo analisar
como, por meio do conceito de dispositivo, é constituído o discurso médico naquilo que
diz respeito ao diagnóstico do TDAH. Assim, considerando que uma prática discursiva é
constituída com base em regulamentos sócio-históricos que possibilitam o exercício da
função enunciativa, como teorizado nos estudos de Michel Foucault, o foco deste estudo é
observar e descrever a constituição e o funcionamento do saber médico e a relação deste
com o campo da educação naquilo que diz respeito à objetivação e subjetivação do aluno
hiperativo.

Palavras-chave: Discurso; Dispositivo; Prática discursiva; Subjetivação; TDAH.

Introdução

Este projeto de tese destina-se a analisar a maneira como se dá a construção


discursiva da identidade do aluno hiperativo por meio da análise de artigos científicos
publicados em periódicos de divulgação científica que tratam, em diferentes eixos da
ciência, da conceituação, do diagnóstico e das formas de tratamento do TDAH e do sujeito
aluno hiperativo. Para tanto, trabalhamos com a noção de trajeto temático
(GUILHAUMOU & MALDIDIER, 1997), noção esta que nos possibilitará apreender o
tema nesses diferentes campos e nos permitirá descrever as regularidades discursivas
presentes nos enunciados a serem analisados, os quais serão divididos em quatro eixos de
discussão teórica-analítica. Assim, de modo a compreendermos como esse sujeito da
educação é produzido na/pela linguagem, procuramos desenvolver este estudo tendo como
conceito principal a noção de dispositivo, conceito complexo e carente de aprofundamento


Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de
Uberlândia (PPGEL – UFU)

Doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo. Professor Associado da Universidade Federal de
Uberlândia e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de
Uberlândia.

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teórico-analítico, com vistas a explicitar sua proficuidade aos estudos em Análise de


Discurso e à obra de Michel Foucault.

Material e métodos

Este projeto de tese tem como questão central a construção discursiva da identidade
do sujeito hiperativo tendo em vista a discussão teórica-analítica e o desenvolvimento dos
estudos do discurso a respeito do conceito de dispositivo trabalhado por Foucault. De
modo a discutir essa problemática, tomamos como objeto de análise 20 artigos científicos
publicados em periódicos classificados no Sistema WebQualis nos extratos A1 e A2 a partir
do ano 2000, artigos esses que tratam diretamente, em diferentes perspectivas, do
Transtorno do Déficit de Atenção e de Hiperatividade (TDAH), além de documentos
específicos da área da saúde, tais como os DSMs (Dicionários de Saúde Mental) e o CID-
10 (Classificação Internacional de Doenças). A escolha em trabalhar com textos científicos
é justificada pelo status de verdade conferido a essas materialidades, uma vez que à ciência
é um lugar social construído historicamente ao qual atribui-se, também, um lugar de
verdade, a ela cabe o diagnóstico da doença, bem como a prescrição do tratamento, e o
discurso veiculado nesse campo é aceito, com frequência, como verdadeiro e incontestável.
Uma vez que é possível a nós a descrição e a interpretação dos discursos provenientes das
diversas instâncias científicas que estudam o TDAH, pretendemos investigar os discursos e
os dispositivos que perpassam as instituições e os sujeitos de onde obteremos esses
discursos. Pensamos nesse objeto como o mais apropriado para o levantamento dos
aspectos discursivos que constituem a identidade do aluno hiperativo em seus diferentes
funcionamentos discursivos e institucionais. Os artigos a serem analisados são oriundos de
campos científicos da área da saúde, a saber: neurologia, psiquiatria, pediatria e
farmacologia, e suas articulações, bem como estudos do campo da educação. Os saberes
produzidos por essas áreas específicas estão compreendidos no processo de identificação,
do diagnóstico e do tratamento do TDAH e do sujeito aluno hiperativo e serão
investigados no desenvolvimento da tese como o que promove construções identitárias ao
sujeito hiperativo. Isto posto, o trabalho será desenvolvido em quatro eixos: a)
apresentação de como O TDAH é considerado na literatura médica e pedagógica; b)
Reflexão/exposição das noções de discurso e prática discursiva; c) Discussão sobre os
dispositivos de saber e de poder e a ordem do olhar; d) Reflexões sobre os dispositivos e as

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práticas de objetivação e de subjetivação. Em todos os eixos, os apontamentos teóricos


serão balizados com o estudo da construção identitária do aluno hiperativo.
Dessa forma, em cada um desses troncos, desenvolveremos nossas reflexões de
modo a compreender o funcionamento de um dispositivo de saber-poder que faz circular,
que reatualiza, legitima, silencia, dentre outros movimentos do discurso, os saberes
presentes nesses enunciados. Para tanto, procederemos com o recorte de séries
enunciativas que expõem o objeto (TDAH e o aluno hiperativo) e apresentam as pesquisas
recentes com vistas a delinearmos um dispositivo mais abrangente do qual emanam os
discursos que servirão como parâmetro para os demais, bem como os discursos de
experimentos e estudos que balizam o que se entende por TDAH na atualidade, as formas
de diagnóstico e de tratamento.

Resultados e discussão

Neste momento, a análise dos DSMs recairá na observação e descrição dos índices
do volume III com vistas a compreendermos as práticas de normatização e de
normalização, uma vez que, no âmbito da normatização, há a delimitação de práticas
científicas, a definição de critérios, de condições e daquilo que é concebido como padrão,
sendo o índice o seguinte:
DSM – III1

No volume III, o que seria o TDAH não está mais compreendido na seção que
envolve questões orgânicas, mas em desordens da infância e da adolescência. Um dado
discursivo que merece atenção diz respeito aos verbos “evident” e “diagnosed” -
evidenciado e diagnosticado, respectivamente. Há uma diferença semântica em algo que é
evidente e em outro que é diagnosticado e sobre esse fato levantamos o questionamento de
que isso possa ser uma marca do desenvolvimento do saber psiquiátrico e uma
aproximação à neurologia. A psiquiatrização da infância é uma das formas iniciais de se
normatizar os comportamentos e um dos modos pelos quais esse processo tem início é no
seio familiar por meio da ordem do olhar, ou seja, a criança está sempre exposta a um
regime de visibilidade daqueles que dela cuidam, ao mesmo tempo em que o discurso da

1Disponível em:
http://www.germantownschools.org/faculty/kkorek/Handouts/Abnormal_Psychology/dsm-iii.pdf.

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psiquiatria também faz parte desse movimento, uma espécie de moto-contínuo em que
ocorre a formação de um saber sobre a criança tendo em vista seu comportamento.
Observamos que a ordem do olhar é um dos principais componentes do dispositivo
porque é por meio das linhas de visibilidade que os sujeitos discursivos em diversas
instâncias podem enunciar seus discursos, uma vez que dada a posição de onde esse sujeito
fala, há, como sabemos, as implicações das relações de saber-poder. Até mesmo porque os
sujeitos que falam estão compreendidos nesse regime de visibilidade. Como expõe Deleuze
(1988, p. 66), “a condição à qual a visibilidade se refere não é, entretanto, a maneira de ver
de um sujeito: o próprio sujeito que vê é um lugar na visibilidade”.

Conclusões

Na discussão aqui proposta, observamos como a ordem do olhar é produtora de


saberes sobre esse sujeito da educação e como esse mesmo olhar médico joga com as
relações de saber-poder e produz discursos com efeito de verdade sobre o que é o TDAH
e quem é o sujeito hiperativo segundo seus aspectos comportamentais. De modo a
didatizar a construção desses saberes, apresentamos, então, uma proposta de cartografia do
dispositivo de TDAH. A primeira imagem é um panorama do que acreditamos ser esse
dispositivo, enquanto a segunda, a cartografia dos componentes dessas redes discursivas.

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Essa cartografia ainda apresenta-se enquanto um estudo preliminar do que seria e


como funcionaria esse dispositivo de TDAH, uma vez que o estudo sobre a construção
discursiva da identidade do sujeito hiperativo ainda está em desenvolvimento, mas
procuramos, de qualquer forma, apresentar uma proposta de discussão e de leitura sobre
esse objeto.

Referências

DELEUZE, Gilles. Um novo arquivista (Arqueologia do Saber). In: Foucault. São Paulo:
Martins, 1988.

GUILHAUMOU, Jacques e MALDIDIER, Denise. Efeitos do arquivo: a análise do


discurso no lado da história. In: Eni P. Orlandi. (Org.) [et. al.] Gestos de leitura:
da história no discurso. Trad. Bethania S. C. Mariani [et. al.] 2.Ed. Campinas: Editora da
Unicamp, 1997.

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Discurso, corpo e governamentalidade: as marcas identitárias do


sujeito fumante em campanhas antitabagistas nas
embalagens de cigarro

Claudemir Sousa (UFPB/CIDADI)


Regina Baracuhy (UFPB/CIDADI)

Resumo: Neste trabalho, objetivamos analisar como se exercem as relações de saber-poder


sobre o corpo do sujeito fumante (entendido como unidade discursiva) e a constituição de
suas identidades em campanhas de prevenção ao tabagismo, a partir de enunciados que
circulam na materialidade sincrética das embalagens de cigarro. Ancoramo-nos na Análise
do Discurso, a partir dos diálogos de Michel Pêcheux com Michel Foucault, as
contribuições de Jean-Jacques Courtine para o estudo de uma Semiologia Histórica da
imagem e alguns teóricos dos Estudos Culturais para tratar da constituição da identidade
dos sujeitos fumantes. Utilizamos o método arqueogenealógico de Foucault para as nossas
análises pelo fato de que esse aporte nos permite escavar da história as condições que
permitiram a emergência do discurso de combate ao tabagismo, a interdição das
propagandas de cigarro e as transformações nas posições identitárias do sujeito fumante em
nossa sociedade.

Palavras-chave: Análise do Discurso. Campanhas de Prevenção. Corpo. Relações saber-


poder.

Introdução

Neste estudo, pretende-se analisar as relações de saber-poder que incidem sobre o


corpo do sujeito fumante (entendido como unidade discursiva) e a constituição de suas
identidades em campanhas de prevenção ao tabagismo. Para tanto, se faz necessário pensar
questões como a governamentalidade, a biopolítica e os biopoderes que incidem sobre o
corpo desse sujeito.

Material e métodos

Este trabalho se caracteriza metodologicamente por uma abordagem qualitativa do


corpus, pois tem como marca a interpretação. Para sua realização, selecionaremos um corpus
de 30 enunciados presentes em embalagens de cigarro, os quais serão distribuídos em três
séries enunciativas, de acordo com as escolhas temáticas (referências à sexualidade,

Graduado em Letras Português/Inglês, pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA); Mestrando no
Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal da Paraíba (PROLING/UFPB).

Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP. Professora do PROLING/UFPB.
Coordenadora do Grupo de Pesquisa CIDADI – Círculo de Discussões em Análise do Discurso.

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consequências sobre o fumante, consequências sobre outrem) e as correlacionaremos a


outra série enunciativa, composta de propagandas de cigarro, o que nos possibilitará
verificar as movências que o discurso sobre o tabagismo sofreu na nossa sociedade e as
diferentes posições que o sujeito fumante passou a ocupar em decorrência disso. Para a
análise do corpus, utilizaremos o aporte teórico da AD, realizando uma abordagem
arquegenealógica do discurso, para verificar as condições de emergência do discurso de
combate ao tabagismo.

Resultados e discussão

O discurso sobre o consumo de tabaco sofreu mutações ao longo do tempo. Na


década de 1950 houve um momento de estímulo ao tabagismo através de propagandas
veiculadas na TV e outras mídias, nas quais apareciam pessoas jovens, na maioria homens,
que praticavam esportes, tinham carros, poder e independência financeira. A indústria
cinematográfica hollywoodiana teve um papel fundamental nesta divulgação. Já nas décadas
de 1960/70, com os movimentos de contracultura, o consumo do cigarro aumentou e
passou a ser relacionado a liberdade e autoafirmação. Nos anos 1980, o foco na divulgação
e estímulo ao consumo de cigarro era o garoto-propaganda da Marlboro, que na
propaganda fumava um cigarro denotando prazer e satisfação. Segundo Renovato at al
(2009), no final desta década começam a circular resultados de pesquisas relacionando o
tabaco a várias doenças, como os cânceres, e a tabagismo começa a ser reconhecido como
doença, tendo sua inclusão no Código Internacional de Doenças (CID), entre os
transtornos mentais devido ao uso de substâncias psicoativas. Conforme Renovato at al
(2009), a Portaria nº 490, de 1988, obrigou as indústrias de cigarros a incluir a advertência
“O Ministério da Saúde adverte: Fumar é prejudicial à saúde”, nas embalagens e
publicidades dos produtos contendo tabaco. Em 1999 foram introduzidos novos alertas.
Ainda segundo os autores, a Resolução nº 104, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA), tornou obrigatória a veiculação de imagens no verso das embalagens do cigarro
em 31 de maio de 2001. O segundo grupo de imagens foi inserida por determinação da
Resolução nº 335, da ANVISA, de 21 de novembro de 2003. Em maio do mesmo ano o
Brasil adotou, na 56ª Assembleia Mundial da Saúde, um tratado internacional de saúde
pública, chamado “Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco” com o propósito de
banir a publicidade do cigarro. Segundo Mota at al (2013), novas imagens foram lançadas
causando impacto ainda maior junto aos fumantes.

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Conclusões

Em conformidade com as noções de governamentalidade e bipolítica de Foucault


(1999; 2013), segundo as quais o governo visa manter a vida da população saudável,
evitando gasto com tratamentos de saúde, podemos afirmar que a emergência do corpo do
sujeito fumante como estratégia de combate ao tabagismo, a partir da inserção de imagens
sanitárias em embalagens de cigarro, deve-se à divulgação de pesquisas sobre os prejuízos
do tabaco à saúde. O tabaco se torna um risco à saúde de toda a população.

Referências

FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal,


1999.

______. Governamentalidade. In: MACHADO, Roberto (org.). Microfísica do Poder.


São Paulo: Graal, 2013.

MOTA, José Roberto; at al. Impacto do apelo ao medo nas embalagens do cigarro: a
percepção de fumantes em relação às mensagens de advertência antitabagismo. Campo
Largo – PR: Revista Eletrônica de Ciência Administrativa (RECADM), 2013. P. 246-
259.

RENOVATO, Rogério Dias; at al. Significados e sentidos de saúde socializados por


artefatos culturais: leituras das imagens de advertência nos maços de cigarro. Campinas –
SP: Ciência & Saúde Coletiva, 2009. p. 1599 – 1608.

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Egos em evidência: (re)configurações do íntimo na


tessitura do discurso midiático

Francisco Vieira da Silva (UFPB/CIDADI)


Regina Baracuhy (UFPB/CIDADI)

Resumo: Nossa pesquisa de doutorado, ainda em andamento, intenta problematizar a


noção de intimidade, a partir da análise de discursos que circulam na mídia, os quais
paulatinamente põem em xeque as linhas divisoras historicamente determinadas no que
tange à chamada vida íntima. Assim, vemos despontar nos dias de hoje uma intensa
profusão de discursos sobre si nos mais variados veículos midiáticos. Esses discursos,
normalmente, (re)constroem fatos, imagens e declarações outrora restritos à esfera do
privado. Para tanto, tomamos como corpus trinta notícias publicadas no site Ego, nos anos
de 2013 e 2014. Amparamo-nos na Análise do Discurso, a partir das reflexões de Michel
Pêcheux e das teorizações de Michel Foucault. A partir desta pesquisa, objetivamos pensar
o que estamos nos tornando frente à hiperexposição midiática atualmente em voga, tendo
como norte o olhar sobre a constituição da celebridade, no contínuo desvelar da
intimidade, na tessitura do discurso da mídia digital.

Palavras-chave: Análise do Discurso; Mídia; Celebridade; Intimidade.

Introdução

Investigar o processo de exposição da intimidade na mídia redunda em rastrearmos,


nas fissuras do terreno da história, os modos através dos quais a intimidade é dada a ver.
Desde a consolidação do sentimento de intimidade atrelado a uma moral burguesa (KHEL,
2004) até as configurações do íntimo no exibicionismo atualmente em voga, importa-nos
evidenciar como o sujeito contemporâneo, mais particularmente o sujeito celebridade,
constitui-se no âmbito desse contínuo desvelar de discursos sobre a vida íntima.

Material e métodos

Tomamos como corpus principal para essa tese – trinta notícias publicadas no site Ego
- que abordam aspectos relativos à vida privada de sujeitos os quais, por algum motivo,
iluminaram-se com os holofotes da mídia. Faremos um trajeto que parte da notícia para
chegarmos noutros canais midiáticos, como as redes sociais e aplicativos virtuais,


Mestre em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Doutorando em
Linguística pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP. Professora do PROLING/UFPB.
Coordenadora do Grupo de Pesquisa CIDADI – Círculo de Discussões em Análise do Discurso.

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responsáveis pela produção de sentidos que espetacularizam a intimidade do sujeito-


celebridade. As notícias entrelaçam essa rede discursiva cujo propósito tem sido evidenciar
esse sujeito, a partir da incessante exposição de sua privacidade, mais precisamente na
transformação dessa intimidade num show, numa tentativa de mitificar a vida cotidiana. Na
leitura do corpus, estabelecemos um trajeto temático frente à diversidade de notícias do site
Ego, qual seja: família, amor e sexualidade. Esse trajeto procura convergir para determinadas
palavras-chave do universo da intimidade que historicamente atrelam-se ao âmbito do
privado.

Resultados e discussão

Dada a fase inicial em que o trabalho se encontra, ainda não é possível tecer uma
discussão que contemple os resultados da pesquisa. Todavia, vale salientar que neste
trabalho amparamo-nos na tese foucaultiana, cujas bases provêm de Kant, segundo a qual,
para perscrutarmos quem somos nós hoje, é preciso deduzir genealogicamente o que fez ser o
que somos (FOUCAULT, 2008); isso implica reconhecer o que paulatinamente deixamos
de ser. Por isso, a discussão em torno do atual a partir de Foucault não envolve
necessariamente o que somos, mas o que estamos nos tornando, levando em consideração
ainda o que somos em devir, isto é, a história que nos constitui (DELEUZE, 1990). Nossa
pesquisa volta-se, portanto, para o exame das discursividades midiáticas por onde os
sujeitos constroem-se, tendo em vista a cultura do exibicionismo e do espetáculo
atualmente em voga. Em outras palavras, indagamos: O que estamos nos tornando hoje
frente à exposição midiática que nos interpela? Por extensão, questionamos: Como o
sujeito celebridade constitui-se mediante as atuais (re)configurações da intimidade no cerne
de uma cultura da visibilidade? Para tanto, buscamos depreender as diferentes feições
assumidas pela intimidade, tendo a mídia como uma instância a partir da qual esse
construto tem apresentado outras possibilidades de existência.

Conclusões

Para finalizar, gostaríamos de destacar as contribuições desta pesquisa, quais sejam:


numa perspectiva macro, objetivamos subsidiar os estudos desenvolvidos sob a perspectiva
da Análise do Discurso, a partir do entrocamento com as teorizações foucaultianas; num

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viés mais específico, oportunizaremos (re)pensar o quem somos nós hoje, tendo como pano de
fundo os discursos sobre a intimidade na mídia na/da cultura da visibilidade.

Referências

DELEUZE, G. O que é um dispositivo? In: ______. Michel Foucault, filósofo. Trad.


Wanderson F. Nascimento. Barcelona: Gredisa, 1990.

FOUCAULT, M. O que são as luzes? In: ______. Arqueologia das ciências e história
dos sistemas de pensamento. Trad. Elisa Monteiro. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2008 (Coleção Ditos e Escritos, v.II).

KEHL, M. R. O espetáculo como meio de subjetivação. In: BUCCI, E.; ______.


Videologias: ensaios sobre televisão. São Paulo: Boitempo, 2004.

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O fascínio por assassinos em série na ficção: uma ordem


discursiva a partir de Dexter

Glaucia Vaz (Unesp/FCLAr – GED)


Luciane de Paula (Unesp/FCLAr – GED)

Resumo: Objetivamos, de modo geral, analisar, em termos de discurso, a constituição do


fascínio por assassinos em série na ficção a partir do seriado estadunidense Dexter (2006-
2013). Nos questionamos sobre um estereótipo do assassino em série cunhado em uma
dada configuração histórica, mais especificamente, em discurso médico que tem sido
propagado por meio (também) da exibição de séries e filmes. Há uma maneira bastante
específica para se falar desse sujeito: geralmente um psicopata cujos impulsos de matar
decorrem ou de um trauma de infância (vitimização) ou de necessidades biológicas
(desumanização). Partimos da Análise do discurso de linha francesa, especialmente da
noção de enunciado foucaultiana (e aqui tomamos imagens e formulações verbais como
enunciados) e das discussões sobre imagens/fotografia de Barthes.

Palavras-chave: Assassinos em série; Sujeito; Discurso; Seriado; Imagem.

Introdução

Durante o mestrado, analisamos, a partir do recorte de corpus de duas obras de


Patrícia Melo, O matador (2002) e Mundo Perdido (2006), a constituição do sujeito criminoso
no discurso literário e o processo de (des)criminalização dos sujeitos. Seguindo ainda a
linha temática de pensar a produção discursiva acerca de assassinos em série na ficção,
expandiremos as análises para materialidades não apenas do literário, mas também para as
esferas televisiva e publicitária.

Materiais e métodos

O corpus será recortado a partir das oito temporadas do seriado Dexter (2006-2013) e
de seu material publicitário. Num primeiro momento (capítulo da tese), traçaremos o
histórico do corpus (produção cinematográfica, produção literária e o que a psiquiatria diz
sobre matadores em série). Apresentaremos a fortuna crítica que versa sobre matadores em
série na ficção para apontar o lugar do corpus nesse panorama geral. Num segundo capítulo,
explanaremos sobre a indústria do entretenimento e os gêneros na produção/recepção de
efeitos de sentido: romance, série televisiva e publicidade. Trata-se, de forma geral, de

Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Linguística e Língua Portuguesa da Unesp/FCLAr.

Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.

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enunciados verbais, não-verbais e verbo-visuais. Mas gostaríamos de destacar toda uma


definição sobre gêneros distintos. Ainda que vistos por um mesmo eixo temático,
consideramos importante traçar os efeitos de sentido que tal variedade pode produzir. No
terceiro capítulo, iniciaremos uma análise temática, visando a compreender e elucidar o
processo de construção identitária do sujeito assassino. Daí a necessidade de nos apoiar em
conceitos como identidade, conforme os Estudos Culturais. Além disso, objetivamos
demarcar os lugares de onde se constrói tal identidade, ou seja, procuraremos verificar se
um desses lugares não possa ser o da medicina, por exemplo. No quarto capítulo, também
temático, elucidaremos como o carisma, o cotidiano e a noção de justiceiro vêm funcionar
na produção do fascínio. Demonstraremos como determinados elementos, tomando-os
como enunciados, são ativados por uma memória discursiva que atualiza e produz efeitos
de sentido acerca do matador.

Resultados e discussão

Ressaltamos que nossa unidade de análise é o enunciado, de modo que, ao


escolhermos determinadas obras, não afirmamos que seja este nosso corpus e, sim, o
conjunto de enunciados a partir dos quais identificamos posições-sujeito. Trata-se de
pensar os enunciados num todo que seria a obra, mas também de compreender sua
singularidade. Em outras palavras, referimo-nos à possibilidade de tomar tanto formulações
verbais quanto enquadramentos de cena no seriado ou a fotogenia de folders para a
divulgação como enunciado, por exemplo. Assim, tendo como objetivo geral compreender
o lugar do fascínio pelo assassino em série na ficção dentro de uma ordem discursiva,
visamos, especificamente, a: a) elucidar o funcionamento da produção/recepção de
sentidos em gêneros distintos (série televisiva e publicidade); b) analisar a constituição
identitária do matador em série na ficção; c) explicitar os lugares histórico-sociais que
possibilitam a construção do fascínio pelo matador em série; d) explicitar os dispositivos
institucionais que estão em jogo quando se trata do matador em série (como o familiar, o
religioso e o médico). Além disso, consideramos a necessidade de conceitos que nos
permitam compreender esses objetos semiológicos, o que nos leva a pensar na
operacionalização de conceitos barthesianos como o processo de conotação na produção
de sentidos em termos de imagens, em que elementos como trucagem, pose, objetos e
fotogenia, por exemplo, bem como a noção de studium (grosso modo, a maneira como nos
investimos de um lugar cultural na relação com as imagens) oferecem mais uma base para

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tomar as imagens como enunciados, portanto, como constitutivas do funcionamento


discursivo.

Conclusões

Mais do que ir ao encontro de conclusões, propomos repensar as análises realizadas e


refletir sobre a possibilidade que nossa proposta permite ao ser tomada a partir de outras
materialidades e seu lugar num arquivo, ou seja, em um funcionamento discursivo mais
amplo. Um estudo, em termos de discurso, poderia contribuir para compreender a
produção e a recepção de sentidos acerca do assassino em série, nesse caso, na ficção.
Consideramos que um olhar para o sujeito discursivo permite expandir reflexões a partir e
juntamente com as pesquisas que advém de outras áreas do conhecimento.

Referências

BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

______. O óbvio e o obtuso. Lisboa: Edições 70, 2009.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 7 ed.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. 238 p.

MELO, Patrícia. O matador. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

______. Mundo Perdido. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

PÊCHEUX, Michel. Leitura e memória: projeto de pesquisa. In:______. Análise do


discurso: Michel Pêcheux. Textos selecionados por Eni Orlandi. Campinas: Pontes
Editores, 2011. p. 141-151.

VEYNE, Paul. Foucault: seu pensamento, sua pessoa. Rio de Janeiro: Civilização
brasileira, 2011.

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


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A noção de arquivo na obra hilstiana: morte, autoria e sexo

Jaciane Martins Ferreira (UFU/LEDIF)


Cleudemar Alves Fernandes (UFU/LEDIF)

Resumo: Estar sendo/ter sido, Hilst (2006) traz a história de um homem de 65 anos que
resolve romper com os protocolos sociais por estar perto da morte. Esse livro faz a
retomada de outros personagens de livros da autora Hilda Hilst, constituindo um arquivo
dentro dessa obra, tal arquivo traz enunciados que nos remetem aos temas morte, sexo e
autoria. Para essa apresentação, traremos uma análise que contempla o livro Cartas de um
sedutor, Hilst (2002)para pensarmos como o discurso sobre a morte aparece imbricado com
o discurso sobre sexo e autoria. A nossa proposta não é, então, fixar o que entendemos de
regular no âmbito de obra hilstiana como uma forma de dizer que aqueles discursos dizem
respeito à autora, é entender os sentidos que perpassam pela temática morte e a relação
com sujeitos.

Palavras-chave: sujeito; discurso; morte; autoria; sexo.

Introdução

Em nossa pesquisa de doutorado, trabalhamos com alguns livros da escritora Hilda


Hilst, temos como principal objetivo pensar o sujeito que emerge desse material
selecionado e como essa emersão se dá a partir de uma dada escritura de si, de uma
exterioridade criada a partir da temática morte. Trabalhamos, então, com o livro Estar
sendo/Ter sido, como livro central de nossa pesquisa, livro que traz a história de Vittorio,
senhor de 65 anos, que rompe com os protocolos sociais para viver o fim de sua vida.
Nossa análise contempla o livro Cartas de um sedutor, pensaremos como o discurso sobre a
morte aparece imbricado com o discurso sobre sexo e autoria.

Material e métodos

O presente trabalho será desenvolvido com base no referencial teórico da Análise do


Discurso, atendo-nos, porém, principalmente ao arcabouço teórico da Análise do Discurso
desenvolvida no Brasil a partir do diálogo com Michel Foucault, tendo como aporte
metodológico a teoria sobre enunciado e arquivo (FOUCAULT, 2008). O arquivo é, pois,


Doutoranda em estudos linguísticos pelo Programa de pós-graduação em Estudos Linguísticos, na
Universidade Federal de Uberlândia - UFU; bolsista CAPES

Doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo. Professor Associado da Universidade Federal de
Uberlândia e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de
Uberlândia.

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o que vai definir o aparecimento de uma variedade de enunciados como acontecimentos


discursivos em uma dada regularidade. Dessa forma, têm-se, em primeira instância, três
conceitos que não se dissociam, a saber: o discurso, o enunciado e o arquivo, os quais
servirão de suporte inicial para apreensão do sujeito discursivo contido na seleção de livros
da obra hilstiana. Partiremos sempre de enunciados do livro Estar sendo / ter sido, para
depois partirmos para os outros livros.

Resultados e discussão

Vittorio dialoga com o personagem Karl do livro Cartas de um sedutor (HILST, 2002).
Nesse livro, assim como em Estar sendo/ter sido, há a ocorrência de uma prosa descontínua,
tendo como narrador/personagem Stamatius, um escritor mendigo. Dentro da narrativa de
Stamatius, surge o cotidiano de Karl, um homem rico, amoral e culto. A maior parte do
livro é composta por cartas entre Karl e sua irmã Cordélia, a qual vive distante e culpada
por ter tido relações incestuosas com o irmão e o pai. Ao final, descobrimos que Stamatius
e Karl são um só. O que nos interessa é investigar a maneira como esses personagens se
interrelacionam, como aparece a função autor, o discurso sobre o sexo e a temática da
morte. Vittorio de assemelha muito tanto com Stamatius quanto com Karl. Ele discursa
contra o que os editores fazem, assim como Stamatius, ao mesmo tempo em que se entrega
ao escrever o que é pedido por eles, como Karl. Stamatius tem maior visibilidade no livro
por ser um personagem narrador. Assim como Vittorio, Stamatius também faz um retorno
a si para pensar sobre a pessoa que foi e sua condição de vida nesse momento. Ele medita
sobre si, lê-se como alguém que viveu sem tirar muitos proveitos. No momento em que diz
ter “consciência de estar aqui na Terra, e não ter sido santo nem suficientemente crápula.
De inventar, para me salvar. Enganar a morte inventando que esse não sou eu, que ela
pegou o endereço errado” (HILST, 2002, p. 141-142), esse personagem também se vê
como um ser que está morrendo e nada mais pode fazer para ser diferente. Vittorio
também fala de seu passado e olha para si como um ser que está morrendo, isso é uma
forma de meditação, nos termos de Foucault (2006). Vale ressaltar que as atitudes e falas de
Vittorio, em muitos momentos, não condizem com o comportamento diante da morte da
sociedade pós-moderna, isso cria um mal-estar nos outros personagens, pois em nossa
sociedade a morte é escondida, nas palavras de Ariès (2012, p. 89), “a morte tornou-se um
tabu”, sobrepondo-se ao sexo.

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Conclusão

De acordo com Foucault (2009), depois que a autoria se transformou em algo


jurídico, ficou realmente difícil fazer a separação entre autor e obra, uma vez que esse
nome exerce a função de fazer os discursos circularem. Contudo, a escrita possibilita o
desaparecimento desse autor, para isso, é preciso que observemos as lacunas deixadas pelo
desaparecimento do nome desse autor, como também seguirmos “atentamente a repartição
das lacunas e das falhas e espreitar os locais, as funções livres que essa desaparição faz
aparecer.” (FOUCAULT, 2009, p. 271). Em nossa perspectiva, essa lacuna tem a ver com a
criação de sujeitos que tomam vida própria no âmbito do espaço literário. O nome Hilst,
tomado como um autor externo, deixaria espaço para os sujeitos-autores internos dentro
de sua obra. Esse nome próprio desapareceria na medida em que esses sujeitos outros
tomam vida, ficando apenas sua função de delimitação discursiva.

Referências

ARIÈS, Philippe. História da morte no ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária,


2008.

______. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

______. O que é um autor? In: MOTTA, Manuel Barros (org). Michel Foucault –
estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. (Ditos e Escritos III). Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2009. (p. 264-298)

Hilst, Hilda. Cartas de um sedutor. São Paulo: Globo, 2002.

______. Estar sendo/ter sido. São Paulo: Globo, 2006.

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José Saramago e a vontade de verdade:


um nó discursivo a ser desvendado

Karina Luiza de Freitas Assunção (UFU/LEDIF)


Cleudemar Alves Fernandes (UFU/LEDIF)

Resumo: A presente pesquisa será fundamentada na Análise do Discurso de linha francesa


e nos estudos de Foucault sobre a verdade. Nossa proposta buscará compreender o
funcionamento discursivo da verdade nas obras A caverna (2000), O homem duplicado
(2008), Memorial do convento (2008a) e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1997) de
José Saramago. Atentaremos para os discursos que apontam para a verdade do senso
comum, da história e da religião e como elas são desconstruídas e outras assumem seu
lugar.

Palavras-chave: discurso; verdade; vontade de verdade; sujeito.

Introdução

A partir da leitura de alguns romances de José Saramago, no caso, os romances A


caverna (2000), O homem duplicado (2008), Memorial do convento (2008a) e O
Evangelho segundo Jesus Cristo (1997) e dos textos de Foucault nossa atenção se
voltou para questões referentes à constituição discursiva da “verdade”. Notamos que a
construção de uma dada “verdade” está interligada às condições históricas que permeiam
sua produção e, consequentemente, também a vontade de verdade e os jogos de verdade.

Material e Métodos

O objetivo geral da presente pesquisa foi problematizar como se articula a


constituição da verdade nos romances A caverna (2000), O homem duplicado (2008),
Memorial do convento (2008a) e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1997), com a
finalidade de compreender o funcionamento da vontade de verdade e dos jogos de verdade
presentes nessas obras. A partir desse objetivo foram eleitos os seguintes objetivos
específicos: discutir como se constitui a literatura na contemporaneidade e sua relação com
a história; apontar como a história, “a vontade de verdade” e as “políticas de verdade”, a


Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de
Uberlândia.

Doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo. Professor Associado da Universidade Federal de
Uberlândia e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de
Uberlândia.

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partir do viés foucaultiano, colaboram para a compreensão da constituição dos discursos;


problematizar a relação entre a análise do discurso francesa e o conceito de “verdade”; e
analisar a constituição da verdade nos romances saramaguiano atentando para os
enunciados que apontam para a temática religiosa, histórica e do senso comum que
emergem nesses discursos e os seus efeitos de sentidos. Para o desenvolvimento da
proposta de trabalho partimos da hipótese de que a historicidade, que permeou a produção
dos romances A caverna (2000), O homem duplicado (2008), Memorial do convento
(2008a) e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1997), estaria fundamentada por
determinadas regularidades discursivas que possibilitaria a “reelaboração” da vontade de
verdade e, consequentemente, dos jogos de verdade presentes nas obras mencionadas. A
partir dessa hipótese defendemos a seguinte tese: essas obras são constituídas por efeitos de
sentidos que apontam para o fato de que, ao mesmo tempo em que elas questionam
algumas verdades “legalmente” instituídas, no caso a “verdade” do discurso religioso,
científico (história) e do senso comum, elas demonstram, através da vontade de verdade
que emerge nessas obras e de seus sentidos, a construção discursiva de outras, ou seja,
simultaneamente essas obras questionam, desconstroem e reconstroem algumas verdades
cristalizadas pela sociedade.

Resultados e discussão

A partir das questões elencadas por Foucault, no decorrer de suas pesquisas,


podemos aferir que “a vontade de verdade” envolve muitos aspectos, uma vez que não é
uma construção simples, mas sim algo complexo que merece ser estudado com mais
atenção. Foucault (2006) na mesma obra menciona que a “vontade de verdade” nem
sempre foi a mesma, pois ao longo dos tempos ela sofreu algumas modificações em sua
constituição. Em alguns momentos estava relacionada com o ato ritualizado, em outros,
sua produção estava associada com a classificação dos seres e em um terceiro momento
temos essa “vontade de verdade” pautada na autorização que alguns sujeitos teriam de
produzi-la, como exemplo mencionamos o saber psiquiátrico. A verdade é uma construção
discursiva que obedece a determinadas regras históricas. As discussões sobre a parresía, a
medicina e a sexualidade apresentadas por Foucault são exemplos da problemática que
envolve a verdade, ou seja, em como ela está relacionada com a história e também em
como o discurso para ser considerado “verdadeiro” obedece a determinadas regras de
elaboração. Observamos também que o discurso, veículo de circulação das “verdades”,

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sofre constantes mudanças em sua constituição, por conseguinte, a verdade não pode ser
considerada estática e imutável, ou seja, ela é sempre movente e cambiante. Sendo assim, a
compreensão apresentada por Foucault do seu funcionamento é muito importante para a
AD francesa, pois ajuda a vislumbrar a não fixidez dos discursos, consequentemente,
atentar para as regras de emergência que perpassam a constituição dos discursos e como
uma dada verdade assume socialmente um papel de relatividade para os sujeitos, uma vez
que podemos questioná-la e identificar as suas regras de formação.

Conclusões

A partir das considerações apresentadas podemos concluir que Saramago


(des)reconstrói verdades cristalizadas socialmente, ou seja, a partir do momento que ele
questiona-as ele assume nos romances analisados “outros” lugares de verdades.

Referências

FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

______. Do governo dos vivos. Rio de Janeiro: Achiamé, 2010.

SARAMAGO, J. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras,
1997.

______. A caverna. São Paulo: Editora Schwarcz, 2000.

______. O homem duplicado. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

______. Memorial do convento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008a.

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“Nem toda nudez será proibida”: a produção de identidades


para o sujeito mulher no discurso turístico oficial brasileiro

Karoline Machado (UFPB/CIDADI)


Regina Baracuhy (UFPB/CIDADI)

Resumo: Este trabalho objetiva analisar as construções identitárias para o sujeito mulher
no discurso turístico oficial brasileiro. Tem como aporte teórico a Análise do Discurso,
situando-se na interface dos trabalhos de Michel Pêcheux com Michel Foucault, Jean-
Jacques Courtine e os Estudos Culturais. Utiliza o método arqueogenealógico de Foucault
para a análise de um corpus composto por trinta propagandas turísticas oficiais brasileiras.
As análises evidenciaram que, nas décadas de 1970 e 1980, havia uma superexposição da
nudez do corpo da mulher no discurso da propaganda turística institucional, mas, na última
década, a imagem da mulher seminua foi interditada nesse discurso. No entanto, a pesquisa
apontou que essa interdição não ocorreu no discurso relativo ao Carnaval brasileiro,
simbolizado pela nudez da mulata, porque ele faz parte de um discurso fundador da
identidade brasileira, forjado pelo movimento incessante de enunciados e imagens que são
“comentados” (na acepção foucaultiana do termo) infinitamente em nossa sociedade.

Palavras-chave: Análise do Discurso, Propaganda Turística, Corpo, Identidade.

Introdução

Nesse resumo esboçaremos o andamento da nossa dissertação de Mestrado,


apresentando, em pinceladas, algumas informações sobre uma trajetória de estudo sobre o
corpo da mulher no discurso turístico produzido pela EMBRATUR, sob a ótica da Análise
do Discurso e dos Estudos Culturais. Esse trabalho partiu da seguinte questão: “Por que há
a interdição da nudez do corpo da mulher no gênero propaganda turística e o mesmo não
ocorre em relação ao Carnaval, já que ambos são discursos turísticos?”.

Material e métodos

Nossa pesquisa é de cunho bibliográfico, documental e, principalmente, analítico


(descritivo/interpretativo), porque, tendo como referencial teórico a AD, cabe-nos
reconhecer que a produção de efeitos de sentido só é possível através do movimento
analítico que reconhece a estrutura (linguística) e o acontecimento (histórico-social) como

Graduada em Turismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); Especialista em Língua Portuguesa
pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Linguística da
Universidade Federal da Paraíba (PROLING/UFPB).

Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP; Professora do PROLING/UFPB;
Coordenadora do Grupo de Pesquisa CIDADI – Círculo de Discussões em Análise do Discurso.

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inseparáveis. Dessa forma, utilizamos o método arqueogenealógico de Foucault para a


análise de um corpus composto por trinta propagandas turísticas oficiais brasileiras. Justifica-
se a opção metodológica pelo fato de que precisávamos de um método capaz de nos
proporcionar esse aporte, que auxiliasse escavar da história as condições de possibilidade
que permitiram a emergência dos discursos analisados; que permitisse conhecer como
surgiram, se formaram e se destacaram as políticas aplicadas ao corpo, enquanto objeto
discursivo; a partir da análise da irrupção dos acontecimentos, das regras das formações
discursivas e das rupturas nas redes de memória.

Resultados e discussão

A identidade é uma construção discursiva, que adquire sentido por meio de sistemas
simbólicos (WOODWARD, 2000). Então, nesse clima de recente Copa do Mundo no
Brasil, muito se discutiu acerca desses vários símbolos que compõem a identidade do país.
Seriam eles o futebol, o Carnaval, o samba e a bunda da brasileira? A EMBRATUR foi
criada em 1966, dando início a promoção turística oficial do país e a preocupação de se
construir uma identidade brasileira no exterior. Desde o início, houve um elemento que se
sobressaía no discurso das primeiras propagandas turísticas oficiais: o corpo seminu da
mulher brasileira. Isso se deve ao fato da EMBRATUR querer lançar ‘O Carnaval do Brasil’
no exterior (ALFONSO, 2006), como também ao uso de estereótipos para divulgar o
produto Brasil (SÁ, 2002). Afirmamos, então, que, por conta da exaustiva reprodução da
imagem estereotipada da mulher brasileira nas propagandas turísticas oficiais do país, a
EMBRATUR teve papel fundamental na produção, consolidação e cristalização desse
símbolo identitário brasileiro. Esse efeito identitário é possível porque as imagens e a
memória, por meio de movimentos de intericonicidade, fazem deslizar o dado e instauram
o novo (GREGOLIN, 2008). No entanto, a regularização discursiva é suscetível de ruir
sob o peso do acontecimento novo (GREGOLIN, 2001) e, na contramão da acentuada
exposição do corpo da mulher na mídia, hoje, utilizando-se do discurso do politicamente
correto, órgãos oficiais trabalham no reposicionamento da imagem do Brasil, tendo em
vista que esse discurso culminou com o agravamento do turismo sexual. Então, como
forma de coibir esse tipo de crime, o corpo seminu foi interditado no discurso turístico
brasileiro e estabeleceu-se, assim, uma nova ordem discursiva. Porém, a pesquisa apontou
que o corpo seminu não foi interditado no discurso relativo ao Carnaval, simbolizado pela

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nudez da mulata, porque ele faz parte de um discurso fundador, ou seja, de uma identidade
brasileira já cristalizada.

Conclusão

Analisamos, em nosso trabalho, o corpo discursivizado nas propagandas turísticas


oficiais brasileiras, as relações com os possíveis efeitos de sentido que emergiram a partir
das diferentes construções do discurso sobre o corpo e a interdição da nudez do corpo da
mulher. Assim, estudar o corpo, enquanto superfície de inscrição dos acontecimentos
(FOUCAULT, 2012a), nos proporcionou conhecer os processos envolvidos na construção,
cristalização e interdição de símbolos identitários do Brasil.

Referências

ALFONSO, Louise Prado. EMBRATUR: Formação de imagens da nação brasileira. 2006.


139f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 8


ed. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 2012a.

GREGOLIN, Maria do Rosário. J.-J. Courtine e as metamorfoses da análise do discurso:


novos objetos, novos olhares. In: SARGENTINI, Vanice; GREGOLIN, Maria do Rosário
(orgs.). Análise do Discurso: heranças, métodos e objetos. São Carlos: Editora Claraluz,
2008.

GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise. Sentido, sujeito e memória: com o que sonha
nossa vã autoria? In: GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise; BARONAS, Roberto
Leiser, (orgs.). Análise do discurso: as materialidades do sentido. São Carlos, SP: Claraluz,
2001. p. 60-78.

SÁ, Rosana Bignami Viana de. A imagem do Brasil no turismo: construção, desafios e
vantagem competitiva. São Paulo: Aleph, 2002.

WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In:


SILVA, Tomaz Tadeu da (org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e
diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. p. 07-72.

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Lugares fora de lugar: o “chão da utopia” nas narrativas


heterotópicas de Rosa Magalhães

Leonardo Augusto Bora (UFRJ)


Frederico Augusto Liberalli de Góes (UFRJ)
Luiz Felipe Ferreira (UERJ)

Resumo: O trabalho parte das reflexões desenhadas por Michel Foucault na conferência
“Outros Espaços” para a leitura de narrativas de enredo da carnavalesca Rosa Magalhães,
seguindo a linha de análise discursiva (poética) proposta por Alberto Pucheu ao analisar o
poema “Carnaval Carioca”, de Mário de Andrade. Problematizam-se as ideias de espaço e
lugar, mapa, utopia e heterotopia, especialmente no que tange à narrativa de 2004 (fio
condutor da pesquisa), intitulada “Breazail”. Trata-se de um enredo sobre as possíveis
origens do nome “Brasil”, a alegória ilha da Utopia, de More, e os corpos utópicos dos
vinte e quatro marinheiros da esquadra de Vespúcio “abandonados” em terras brasileiras.
O objetivo da pesquisa é “mapear” o imaginário da artista, articulando os princípios
foucaultianos com os estudos carnavalescos, a geografia cultural e a teoria literária. A
narrativa de 2004, nesse sentido, é uma bússola possível – síntese de um universo
discursivo, espaço de experimentação.

Palavras-chave: utopia; heterotopia; mapa; Rosa Magalhães.

Introdução

Esta pesquisa (adaptação de projeto homônimo, apresentado como requisito para o


ingresso no curso de Doutorado em Teoria Literária do Programa de Pós-Graduação em
Ciência da Literatura da UFRJ) se debruça sobre as narrativas de enredo da carnavalesca
Rosa Magalhães, artista carioca de sólida formação acadêmica cujas criações apresentam
diálogos interartes, experimentações e marcas ensaísticas. O texto-base para a
fundamentação teórica é “Outros Espaços”, de Michel Foucault.


Licenciado em Letras Português-Inglês (Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR), Bacharel em
Direito (Universidade Federal do Paraná – UFPR), Mestre em Teoria Literária (Universidade Federal do Rio
de Janeiro – UFRJ, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura) e Doutorando em Teoria Literária
(Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura).

Doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é professor associado
i da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria
Literária.

Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor adjunto da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro, editor da revista Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, coordenador do
Centro de Referência do Carnaval e líder do grupo de pesquisa Laboratório da Arte Carnavalesca.

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Material e métodos

O corpus a ser analisado é formado pelo conjunto de narrativas de enredo elaboradas


por Rosa Magalhães ao longo de mais de 30 anos dedicados às escolas de samba cariocas.
São textos escritos, a exemplo dos libretos, anualmente apresentados aos compositores e ao
júri. A narrativa de 2004 é a centelha reflexiva, o núcleo da pesquisa: intitulada “Breazail” e
desenvolvida para a Imperatriz Leopoldinense, recria a viagem de Américo Vespúcio ao
Brasil, nos primórdios da colonização portuguesa, em diálogo com Thomas More. O cotejo
dos textos referenciados, portanto, é o primeiro passo metodológico. Enquanto
fundamentação, aparecem as reflexões de Michel Foucault sobre os corpos utópicos e,
especialmente, as heterotopias. A proposta teórica do trabalho também é pensar a Passarela
do Samba enquanto lugar heterotópico e heterocrônico, ao modo do que propõe Alberto
Pucheu ao analisar “Carnaval Carioca”, de Mário de Andrade. Mapear as rotas discursivas
de Rosa Magalhães é um caminho a ser seguido.

Resultados e discussão

Pensar o carnaval carioca em suas diferentes dimensões é um desafio sobre o qual


têm se debruçado inúmeros pesquisadores de áreas complementares (antropologia urbana,
teoria literária, geografia cultural, artes plásticas, música, etc.). Este trabalho, ainda em fase
embrionária, segue tal entendimento transdisciplinar e propõe um olhar menos
categorizador e mais poético sobre a obra de Rosa Magalhães. A conferência “Outros
Espaços”, de Michel Foucault, interessa aos estudos dos trabalhos da autora porque, em
primeiro lugar, a metáfora da viagem (de navio, em especial, sendo que o “barco” é o
símbolo teorizado por Foucault ao final do referido texto) é uma recorrência notável e
estrutura a narrativa de 2004, mote para a pesquisa. Além disso, ao apresentar os princípios
que definem as heterotopias, Foucault necessariamente revê as teorizações sobre a ideia
(genérica) de “utopia” – justamente o final da narrativa de Rosa Magalhães, que compara o
Brasil à ilha de Thomas More, revendo criticamente a nossa origem colonizada e olhando
para os corpos dos marinheiros abandonados na “utopia selvagem”. A materialização
utópica também ocorre na imagem da árvore pau-brasil, outro ponto a ser investigado – as
metáforas naturais e um imaginário que permeia o universo artístico brasileiro desde as
crônicas quinhentistas, culminando no Romantismo. Expandida a reflexão, também é
importante observar as dimensões heterotópicas e heterocrônicas do lugar especialmente

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construído para a apresentação do enredo: a Passarela do Samba, palco aberto em linha


reta. Um olhar detalhado e provocativo sobre os discursos apregoados pela carnavalesca
dificilmente trará respostas prontas à teoria literária, mas seguramente levantará novas
discussões – o resultado desejado.

Conclusões

O estudo de uma narrativa como “Breazail” permite que se pense o carnaval carioca
e, por extensão, o Brasil enquanto “lugares fora de lugar” - expressão inspirada nas
provocações de Roberto Schwarz, aqui costurada às noções de utopia e heterotopia. Olhar
para um texto carnavalesco que explicitamente dialoga com Thomas More a partir do olhar
desestabilizador de Foucault é um convite às mais conflitantes interpretações identitárias e
a possibilidade de se mapear um universo autoral complexo.

Referências

BUENO, Eduardo. Pau-Brasil. São Paulo: Axis Mundi Editora, 2002.

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Carnaval carioca: dos bastidores ao


desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ / MinC / Funarte, 1994.

CAVALCANTI, M. L. V. C.; GONÇALVES, Renata (orgs.). Carnaval em múltiplos


planos. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2009.

CUNHA, Eneida Leal. Pau-Brasil, bárbaro e nosso. In: CUNHA, E. L. Estampas do


Imaginário. Literatura, história e identidade cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2006.

CUNHA, Maria Clementina Pereira (Org.). Carnavais e Outras F(r)estas. Campinas:


Editora Unicamp, 2005.

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34,
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FERREIRA, Felipe. Escritos carnavalescos. Coleção Circuitos da Cultura Popular – Vol.


07. Rio de Janeiro: Aeroplano editora, 2012.

____. Inventando Carnavais. O surgimento do carnaval carioca no século XIX e outras


questões carnavalescas. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.

____. O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

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Altos da Glória, 1999.

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


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____. Rosa Magalhães: Pós-Modernidade Barroca. In: Imperatriz Leopoldinense –


Revista de carnaval 2009. Rio de Janeiro: Gráfica Formato3, p. 34.

FOUCAULT, Michel. O Corpo Utópico, as Heterotopias. São Paulo: N-1 Edições,


2014.

____. Outros Espaços. In: MOTTA, Manoel Barros da. (org). Estética: literatura e
pintura, música e cinema. Coleção Ditos & Escritos III. Rio de Janeiro/São Paulo:
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HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras,
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____. Visão do Paraíso. São Paulo: Brasiliense, 1996.

KRELLING, Gustavo; OSINSKI, Dulce Regina Baggio. “Rosa de Ouro nunca foi de
brincadeira”: a presença da arte erudita no carnaval de Rosa Magalhães. In: Textos
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MAGALHÃES, Rosa. Breazail. Sinopse de enredo disponível no sítio


http://www.galeriadosamba.com.br/carnavais/imperatriz-leopoldinense/2004/6/.

____. Fazendo Carnaval. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.

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PUCHEU, Alberto; GUERREIRO, Eduardo (org.) O carnaval carioca de Mário de


Andrade. Rio de Janeiro: Beco do Azougue Editorial, 2011.

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Brasiliense, 1999.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São Paulo:


Companhia das Letras, 1995.

ROCHA, João Cezar de Castro; RUFFINELLI, Jorge (org). Antropofagia hoje? Oswald
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VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008.


http://www.geocities.ws/fusaoracial/FusaoRacial_A_Cicero.htm.

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


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As sociedades indígenas e o audiovisual:


as relações de poder em outros espaços e identidades

Maurício Neves Corrêa (UNESP/GEADA)


Maria do Rosário Valencise Gregolin (UNESP/GEADA)

Resumo: O projeto pretende realizar uma pesquisa arquegenealógica sobre os diferentes


processos discursivos que inventaram e inventam as identidades de povos indígenas Tupi
da Amazônia em produções audiovisuais contemporâneas.

Palavras-chave: Sociedades Indígenas; Discurso; Identidade e mídia.

Introdução

Existe uma produção de discursos sobre os indígenas brasileiros que chega pelos
meios de comunicação massiva e pelas redes sociais. Estas produções contribuem para as
formulações que a sociedade brasileira faz sobre as identidades indígenas. Por tantas
particularidades, as produções audiovisuais das/e sobre as sociedades indígenas apresentam
um universo bastante amplo de pesquisa. Ainda sabemos muito pouco sobre as
construções discursivas que aparecem nestas produções e nem mesmo podemos afirmar
que os suportes por onde são transmitidas já representam um ponto pacífico nas reflexões
acadêmicas.

Material e métodos

Segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas


(IBGE), publicados em agosto de 2012, existem hoje no Brasil, 305 etnias e 274 línguas
indígenas. Os números desta pesquisa divergem com boa parte dos trabalhos acadêmicos
que davam conta 238 povos indígenas e suas 180 línguas nativas. Segundo o IBGE, a maior
parte destes povos vive na Amazônia. A intenção é reunir produções audiovisuais,
presentes em postagens na internet, no YouTube e nos sites G1 e R7, que (re)transmitem
as reportagens veiculadas nas TVs Globo e Record. Outras fontes com o Museu da
Imagem e do Som e os arquivos de TVs de cidades como Belém, Manaus, Rio Branco e


Estudante de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa da
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho- Unesp.

Livre-docente em Análise do Discurso. Doutora em Linguística e docente do departamento de Linguística
da Universidade Estadual Paulista – Unesp, de Araraquara.

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Macapá, capitais amazônicas e polos da produção de vídeos sobre sociedades indígenas. O


trabalho de pesquisa pretende fazer um histórico da presença indígena na Produção
audiovisual Brasileira. Na internet, além de sites institucionais relacionados às sociedades
indígenas, serão de suma importância as postagens de pesquisadores e de usuários que
assumem uma identidade indígenas nas diferentes redes sociais.

Resultados e discussão

O objetivo do trabalho é realizar uma pesquisa arquegenealógica sobre os diferentes


processos discursivos que inventaram e inventam as identidades de povos indígenas Tupi
da Amazônia em produções audiovisuais contemporâneas. Pretende-se analisar com que
regimes de verdade estes discursos se constituíram. Por que determinados enunciados
ganharam destaque na mídia e outros foram interditados, excluídos? Que relações de saber
e poder agenciaram e agenciam o movimento destas agitações históricas? Seria a Terra
Indígena um espaço heterotópico ou utópico? A partir desta perspectiva teórica, a proposta
é colocar em luta os saberes produzidos pelas diversas produções audiovisuais sobre os
povos indígenas, observando o lugar histórico de onde eles falam. Quais os interesses e as
oposições de atores tão distintos como a TV Globo, as ONGs, os antropólogos, os
documentaristas e os próprios índios produtores? De que forma os saberes destas culturas
são tratados no “cientificismo” proposto pelas produções não ficcionais como reportagens
e documentários? Para Gregolin (2008:12), a função do arquegenealogista é “interpretar ou
fazer a história do presente”. Este procedimento consistiria em mostrar que “as
transformações históricas foram as responsáveis pela nossa atual constituição como
sujeitos objetiváveis por ciências, normalizáveis por disciplinas”. Os principais
pressupostos teóricos deste projeto pautam-se na Análise do Discurso (AD) de linha
francesa, especialmente aos estudos voltados para as discussões relacionadas a identidades e
ao funcionamento da mídia. Neste sentido, toma-se como referência a obra de Michel
Foucault e suas formulações sobre as construções históricas dos sentidos e as contribuições
de J.J. Courtine. Na relação mais estrita entre discurso e mídia, as leituras de Rosário
Gregolin, que retomam as formulações da AD francesa e ampliam as reflexões sobre o
funcionamento da mídia no Brasil.

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Conclusões

A partir do projeto será possível chegar ao funcionamento discursivo destas


produções audiovisuais e compreender as lutas, estratégias e táticas, nestas mediações
atravessadas de relações de poder, recorrências e dispersões, que é o audiovisual. Ao final, a
tese poderá mostrar como os povos indígenas aparecem nestas materialidades, produzidas
em diversos formatos e por diversas instituições com interesses peculiares. É procurar
entender quem são os indígenas e como são seus espaços em nossa sociedade hoje. Somos
todos indígenas? Quem está autorizado a “usar” esta identidade e quais seus
funcionamentos?

Referências

COURTINE, J.-J. Quelques problèmes théoriques et méthodologiques em analyse Du


discours à propôs Du discours communiste adresse aux chrétiens, Langages, no. 62. Paris:
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Discurso: herança, métodos, objetos. Analise do Discurso: herança, métodos, objetos. São
Carlos: Claraluz, 2009

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária,


2005.

_____. A Microfísica do Poder. São Paulo: Graal, 2007

_____. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2000

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2001

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_______. Identidade: objeto ainda não identificado?. Estudos da Língua(gem)


(Impresso), v. 04, p. 23-36, 2008.

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V.; GREGOLIN, M.R.. (Org.). Analise do Discuso: herança,, métodos, objetos. Analise do
Discuso: herança,, métodos, objetos. 01ed.São Carlos, SP: Claraluz. 2009.

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


52

MARTÍN-BARBERO, Jésus. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e


hegemonia. 2ª. Edição. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003.

_______.Ofício de Cartógrafo: travessias latino-americanas da comunicação na cultura.


São Paulo: Edições Loyola, 2004

MELATTI, Júlio Cezar. Índios do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 2007

NEVES, Ivânia. Tese de doutorado: A invenção do índio e as narrativas orais Tupi /


Ivânia dosSantos Neves. – Unicamp. Campinas, SP : [s.n.], 2009.

POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de


Janeiro, vol.2, nº 3, 1989.

SARGENTINI, Vanice ;GREGOLIN, M. R. F. V. . Análise do Discurso: herança,


métodos e objetos. 01. ed. São Carlos: Claraluz, 2009. v. 01.

SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da Imagem Eurocêntrica. São Paulo: Cosac
Naify, 2006.

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A vigilância eletrônica e a expansão do panoptismo

Maykon dos santos Marinho (PPGMLS/UESB)


Luciana Araújo dos Reis (UESB)

Resumo: Este estudo tem como objetivo empreender uma reflexão teórica sobre a
vigilância eletrônica no contexto da sociedade atual. Realizou-se uma revisão bibliográfica,
procurando-se levantar as principais relações entre os dispositivos de vigilância eletrônica e
a forma de poder presente na visão foucaultiana. O panoptismo é um dos traços
característicos da atual sociedade capitalista, através da qual os indivíduos são vigiados,
punidos e normatizados. A sociedade contemporânea é baseada em uma vigilância
semelhante ao que acontecia com o sistema panóptico, definido por Foucault. Assim, o
principio do panóptico continua plenamente ativo, mas agora se exerce nas novas formas
de controle implementadas pela vigilância eletrônica e pelas novas tecnologias, trazendo
consigo novas práticas e relações de poder.

Palavras-chave: Panóptico; Foucault; Controle; vigilância.

Introdução

Atualmente, vivemos em uma sociedade de vigilância, em que a cada momento


podemos observar ou notar que estamos sendo controlados ou vigiados. E muitas vezes
essa vigilância é tão mascarada ou tão natural que às vezes nem notamos a sua presença.
Dessa maneira, a vigilância eletrônica exerce um poder disciplinar similar ao do panóptico
apontado por Foucault (2012). Assim este estudo tem como objetivo empreender uma
reflexão teórica sobre a vigilância eletrônica no contexto da sociedade atual.

Material e métodos

Realizou-se uma revisão bibliográfica, procurando-se levantar as principais relações


entre os dispositivos de vigilância eletrônica e a forma de poder presente na visão
foucaultiana. Assim recorreu-se a Foucault (2012), Botello (2010), Castro e Pedro (2010)
que discorrem a respeito da formação de uma sociedade de controle e dos sistemas de
vigilância eletrônica na sociedade contemporânea.


Graduado em Enfermagem pela UFBA. Mestrando do PPGMLS/UESB. Bolsista pela CAPES.

Pós-Doutora em Saúde Pública pelo Instituto de saúde Coletiva da UFBA. Doutora em Ciências da Saúde
(UFRN). Professora Adjunta da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Professora Titular e
Gerente de Cursos FAINOR.

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Resultados e discussão

Atualmente é possível observar um arsenal tecnológico de controle que inclui


câmeras de vigilância para vigiar ruas, escolas, aeroportos, ônibus, igreja, lojas, agências
bancárias, locais de trabalho, supermercados. A utilização dos sistemas de
videomonitoramento como ferramentas de segurança estão frequentemente atreladas a
uma estratégia específica de “proteção das fronteiras”, buscando delimitar, a partir da
localização das câmeras, uma zona segura, reorganizando o espaço social de uma maneira
específica que gera um determinado exercício de poder capaz de manter afastada desses
espaços ameaças e riscos específicos, como tráfico de drogas, pichações, roubos e furtos.
Assim, como observa Foucault, a nossa sociedade não é mais a sociedade dos espetáculos,
mas a da vigilância. A sociedade contemporânea é baseada em uma vigilância semelhante
ao que acontecia com o sistema panóptico, definido por Foucault (2012). O indivíduo na
contemporaneidade pode ser panopticamente controlado, seja pelas tecnologias da
comunicação e da informação, seja pela interiorização de normas e valores contidos nos
discursos do poder. Dessa forma, o princípio do panóptico continua plenamente ativo, mas
agora se exerce nas novas formas de controle implementadas pelas novas tecnologias,
trazendo consigo novas práticas e relações de poder.

Conclusão

Diante do exposto, podemos afirmar, então, que assim como no panóptico de


Benthan, para além da redução dos riscos de crimes e da violência urbana, a vigilância
eletrônica é uma poderosa ferramenta de controle social e através da captação e exame de
suas imagens, permite a organização de informações sobre certos indivíduos e grupos
sociais que pode ser usada precisamente com o objetivo de supervisioná-los e controlá-los.

Referências

BOTELLO, N. A. Orquestração da vigilância eletrônica: uma experiência de CFTV no


México. In: BRUNO, F.; KANASHIRO, M.; FIRMINO, R. Vigilância e visibilidade:
espaço, tecnologia e identificação. Editora Sulina, 2010, p. 17-35.

CASTRO, R. B.; PEDRO, R. M. L. R. Redes de vigilância: experiência de segurança e da


visibilidade articuladas às câmeras de monitoramento urbano. In: BRUNO, F.;
KANASHIRO, M.; FIRMINO, R. Vigilância e visibilidade: espaço, tecnologia e
identificação. Editora Sulina, 2010, p. 36-60.

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FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2012.

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Narrativas orais indígenas como interação: a arqueologia do


saber tembé-tenetehara

Nassif Ricci Jordy Filho (UFPA/GEDAI)


Ivânia dos Santos Neves (UFPA/GEDAI)

Resumo: Este trabalho pretende apresentar as narrativas orais Tembé-Tenetehara como


um dos principais estratos da cultura deste povo e também como tática desta sociedade
frente às belicosas estratégias oficiais de controle e silenciamento impostas pela sociedade
não-indígena. A análise das narrativas orais propostas aqui vê e trata estas histórias como
materialidades fortuitas e emergenciais que modificam as relações de poder entre os
indivíduos desta sociedade, evidenciando, além de uma ação comunicativa, uma memória
subterrânea e um sujeito no presente de uma trama histórica, considerando assim,
principalmente, a constituição dos saberes Tembé-Tenetehara.

Palavras-Chave: Narrativas Orais; Tembé-tenetehara; Interação; Arqueologia.

Introdução

Os Tembé-Tenetehara, povo indígena de língua e tradição Tupi, vivem atualmente na


Amazônia oriental, mais precisamente no leste do estado do Pará. Uma das mais singulares
características culturais deste povo são suas histórias, narradas oralmente por quem sabe
contar, ou seja, por quem detém o saber. Estas narrativas orais contam, além da
singularidade identitária, a cosmologia dos Tembé-Tenetehara. Estas histórias estão
presentes na memória coletiva das sociedades indígenas e embalam a tradição desses povos
ao longo de gerações.

Material e métodos

Esta pesquisa visa compreender como as narrativas orais Tembé-Tenetehara, além de


funcionarem como tática contra uma memória nacional, ‘circulam’, através de uma
memória coletiva, provocando certas ações dentro da comunidade deste povo.
Há duas narrativas orais tratadas aqui: uma se baseia a partir do ponto de vista da
temporalidade ocidental, judaico-cristã. A história recente deste povo (subterrânea) emerge
de acordo com sua possibilidade histórica. Outra se situa num tempo Tenetehara, onde os


Mestrando do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia-(PPGCOM/UFPA). Email:
nassif.jordy@gmail.com.

Professora do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia – (PPGCOM/UFPA).
Email: ivanian@uol.com.br.

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‘homens de verdade’ (significado da palavra tupi ‘Tenetehara’) ainda eram animais ou


possuíam seus poderes. Daí todo o conhecimento é passado de geração em geração. Estas
duas narrativas (histórico-política e histórico-cosmológica) não se contrapõem, pelo
contrário, trabalham em conjunto, formando uma rede de discursos, de poderes, de
estratégias e de práticas.
A fundamentação teórica deste trabalho se baseia nos princípios da análise do
discurso e de noções foucaultianas, como as de acontecimento e descontinuidade. Ou seja,
a nova história, aquela cujo método de análise tenta escapar de qualquer antropologismo.
Mas, por sua natureza interdisciplinar (e campestre), transita pelos estudos de antropologia,
de epistemologia, de interação, de psicologia e de história cultural de teóricos como
Gregory Bateson, Erwin Goffman e Vera França.

Resultados e discussão

O objetivo geral deste trabalho é mostrar que a tática usada pelos Tembé Tenetehara,
antes de ser fuga de um silenciamento imposto através de uma memória nacional (Polack,
1989), é exatamente a ruptura - tarefa crítica -, a formação de sua descontinuidade regular -
tarefa genealógica - e o ponto de sua possibilidade histórica (Foucault, 2005).
A materialidade emaranhada dos (enunciados) discursos nos quais se desenham os
descontínuos, porém regulares, acontecimentos Tembé-Tenetehara (as duas formas de
narrativa) permite “circunscrever o lugar, as margens de sua contingência e as condições de
sua aparição.” (Foucault, 1996, p.53). A cristalização da memória subterrânea, de
microacontecimentos, em ‘documentos’ como este trabalho, que faz parte de uma
produção de saber institucionalizado (Universidade), mostra um ponto de possibilidade
histórica, uma cesura, que rompe e irrompe hoje na história do presente deste antigo povo.

Conclusões

Estes processos interacionais, que estão sempre em ação e com os processos de


construção de identidade, se movimentam, também, pelas brechas, dando oportunidade de
uma apropriação ativa, criando pontos de fuga para os indígenas, fazendo com que se
redesenhem modelos de diálogo entre seu próprio povo e entre eles e a sociedade
evolvente. Não há cultura pura, assim como não há identidade imóvel. Hall nos diz:

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A identidade torna-se uma “celebração móvel”, formada e transformada


continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou
interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (...) à medida que os
sistemas de significação se multiplicam, somos confrontados por uma
multiplicidade desconcertante e cambiantes de identidades possíveis).
(HALL, 1999, p.13)

Um dos principais eixos deste trabalho será mostrar como os próprios Tembé-
Tenetehara compreendem as transformações e as movimentações de suas práticas culturais,
através das narrativas e, consequentemente, de suas práticas comunicacionais. Com estes
objetivos, a pesquisa assume um olhar menos distanciado. E, percorrendo os caminhos
indicados por Martín-Barbero (2004), procuro um lugar construído a partir da experiência
entre eles.

Um mapa não para fuga mas para o reconhecimento da situação desde as


mediações e os sujeitos, para mudar o lugar a partir do qual se formulam
as perguntas, para assumir as margens não como tema mas com enzima.
Porque os tempos não estão para síntese, e são muitas as zonas da
realidade cotidiana que estão ainda por explorar, zonas em cuja
exploração não podemos avançar, se não apalpando, ou só com um
mapa noturno. (MARTÌN-BARBERO, 2004: 18)

Com base nas noções de Michel Foucault, nas formulações de mediação e cartografia
de Martin-Barbero (2004) e nos estudos de interação propostos por Goffman e Bateson,
este trabalho vai procurar saber como se constitui a história do presente entre os
Tenetehara e como se dá a ação e a prática comunicacional através das narrativas orais
desse povo. Esta proposta de trabalho acadêmico, que já começa a inscrever na história as
memórias subterrâneas (essa ‘história dos vencidos’) deste povo Tupi também se
fundamentará no modelo praxiológico, pois pretende “observar o próprio lugar da
comunicação, não mais como um processo recortado ou restrito, mas enquanto lugar de
conhecimento.” (FRANÇA, 2003, p.15).

Referências

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Paris: Seuil, Points Essais n0 136, 1981.

__________, Uma teoria sobre brincadeira e fantasia. In: RIBEIRO, B., GARCEZ, P.
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CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. O Trabalho do Antropólogo. São Paulo/Brasília,


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_____, Sobre o pensamento antropológico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, Brasília:


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CERTEAU, Michel de. A Invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes,


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FOUCAULT, Michel. A arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária,


2005.

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FRANÇA, V. L. Quére: dos modelos da comunicação. In: Revista FRONTEIRAS.


Estudos Midiáticos.Vol. V, nº 2. São Leopoldo: Unisinos, 2003

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Alex et al. (org.), Comunicação e interações. Porto Alegre, Sulina, 2008.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Tradução de Maria Célia


Santos Raposo. Petrópolis: Vozes, 1975.

HALBWACHS, M. A Memória Coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Ofício de Cartógrafo: travessias latino-americanas da


comunicação na cultura. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

MELATTI, Júlio Cezar. Índios do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 2007

NEVES, Ivânia. A Invenção do Índio e as Narrativas Orais Tupi. Tese de Doutorado.


Campinas: Unicamp, 2008

CORRÊA, Ivânia et al. O Céu dos Índios Tembé. Belém: Imprensa Oficial do Estado,
1999. 1ªed.

WAGLEY, Charles; GALVÃO, Eduardo. Os índios Tenetehara (uma cultura em


transição). Rio de Janeiro: MEC, 1961.

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Mito, cinema e discurso: um olhar arqueológico sob o viés


discursivo em “O senhor dos anéis: a sociedade do anel”

Nicaelle Viturino dos Santos de Jesus (UFS)


Maria Emília de Rodat de Aguiar Barreto Barros (UFS/LED)

Resumo: Este trabalho consiste em reflexões iniciais sobre nosso objeto de dissertação de
mestrado. Constitui uma análise discursiva embasada, principalmente, na perspectiva
foucaultiana; adotamos um ponto de vista arqueológico acerca da construção do sentido.
Os corpora selecionados contemplam o filme e o romance O senhor dos anéis: a sociedade do anel;
são materialidades distintas, permeadas de histórias fantásticas e mitos que nos remetem a
discursos em circulação. Objetivamos, portanto, analisar os efeitos de sentido perpassados
a partir da inserção, da reiteração dos mitos dispostos nos corpora em estudo.
Consideramos, assim, a transposição do romance para um gênero audiovisual, sob o viés da
mídia, uma instituição cujo objetivo está pautado numa concorrência mercadológica,
divulgando discursos relacionados a esse mercado (CHARAUDEAU, 2007). Além disso,
buscamos observar o deslocamento da função autor nas diferentes materialidades
linguísticas, os efeitos ocasionados por tal deslize.

Palavras-chave: mito; discurso; mídia/cinema; função autor.

Introdução

Neste trabalho fazemos reflexões iniciais sobre o objeto de análise da nossa


dissertação de mestrado, qual seja: O Senhor dos anéis: a sociedade do anel em duas versões: o
livro de Tolkien (traduzido para português) e o filme. Dispomo-nos a realizar uma análise
discursiva embasada na perspectiva foucaultiana, sob o viés arqueológico da constituição
do sentido. Nosso objetivo é analisar os efeitos de sentido ocasionados pela reiteração dos
mitos, bem como o deslocamento da função autor em relação às diferentes materialidades.
Abaixo expomos algumas considerações acerca do gesto interpretativo adotado.

Materiais e métodos

Consoante Foucault (1997b), o gesto arqueológico é uma investigação acerca das


similitudes da constituição de determinados sentidos, isto é, busca-se o fio condutor que
perpassa discursividades diferenciadas. Assim, nos debruçamos sobre os seguintes objetos:

 *
Mestranda na área de Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Sergipe, pesquisadora da área de
Análise do Discurso.

Professora doutora (adjunto 4) de Língua Portuguesa e disciplinas afins, na Universidade Federal de Sergipe
(UFS). Pesquisadora da área da Análise do Discurso.

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cinema, romance, mito - à luz da AD de linha francesa. De sorte, destacamos a necessidade


de compreender duas condições acerca do mito: ele é uma narrativa; e não deve ser
entendido em oposição ao discurso verdadeiro (RAMNOUX, 1997). Por fim,
evidenciamos, conforme Charaudeau (2007), que do discurso das mídias surge o produto
midiático/texto, onde o discurso se materializa. Podemos dizer, então, que, quando se analisa
um texto midiático, buscam-se os possíveis sentidos que podem ser produzidos por ele/ a
partir dele.

Resultados e discussão

A narrativa se faz mediante um perfil explorador assumido pelos componentes da


demanda do anel. Eles buscam, além da destruição do anel, a vivência em lugar
harmonioso, sem perigos. Isso nos remete ao mito do paraíso perdido, apresentado a partir da
gênese dos seres sob a ilustração de uma cosmogonia do mundo. A busca pelo paraíso
perpassa toda a história, desde a luta do bem versus o mal, até a destruição do anel e o
reestabelecimento de sentimentos considerados nobres pela sociedade (companheirismo,
obediência). Destarte, atentamos para a reprodução, pela mídia/cinema de tais sentimentos,
reiterando a necessidade de uma sociedade menos dispersa, de maneira a elevar os
preceitos do discurso religioso.
Consoante Foucault (2009), a função autor é uma das especificações possíveis da
função sujeito. Assim, ela pode ser observada na pintura, na música, etc. Destacamos,
então, a posição transdiscursiva em que os autores “fundam” uma possibilidade infinita de
discursos. Sob este viés, vale considerar a presença dos mitos, que podem ser entendidos
como partícipes de uma relação transdiscursiva, na medida em que, se perpetuam
discretamente na sociedade, dando margem para utilizações diversas, por vezes contrárias
ao seu caráter inicial.
Observamos o apagamento da função-autor nessa dinâmica, de maneira a configurar
a opacidade da linguagem cinematográfica, utilizada em favor de interesses ideológicos
capitalistas.
Consideramos, também, a reatualização - reinserção de um discurso em um domínio
de generalização, aplicação ou de transformação novo para ele. Sendo assim, entendemos
que o cinema, bem como a mídia, utiliza-se dos mitos sob a perspectiva de sua
reatualização, considerando, no entanto, o esquecimento constitutivo destes por parte dos
sujeitos.

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Conclusões

A partir das ponderações feitas nesta análise, consideramos, tanto no romance como
no filme, a presença de diversos mitos: o mito da travessia ou o percurso do herói, o
maniqueísmo, o religioso, o herói cavaleiro e o paraíso perdido. Estes nos remetem a
sentidos marcados ideologicamente que convergem para a reiteração da culpabilidade do
homem da destruição do mundo, mas alerta-o para a necessidade de reorganizá-lo.
Observamos, com isso, a manutenção da docilidade, da obediência e da disciplinarização.

Referências

BARROS, Maria Emília de Rodat de Aguiar Barreto. As marcas da polifonia na


produção escrita de estudantes universitários. Tese (doutorado em Letras). Programa
de Pós-Graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal da Bahia, 2007.

BARTHES, Roland. Mitologias. Tradução de Rita Buongermino, Pedro de Souza e Rejane


Janowitzer. 3ª ed. Rio de Janeiro: DEFEL, 2007.

BERNARDET, Jean-Claude. O que é cinema. São Paulo: Nova Cultural/ Brasiliense,


1985. (Coleção Primeiros Passos).

BÍBLIA SAGRADA. Tradução da CNBB. Brasília: Edições CNBB. São Paulo: Editora
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CHAUÍ, Marilena. Janela da alma, espelho do mundo. In: O Olhar. São Paulo: Companhia
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CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. Tradução de Angela S. M. Corrêa. São


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Rio de Janeiro: Darkside Books, 2013.

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


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Janeiro: Paz e Terra, 1977.

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Entre quadros, indígenas e identidade: a presença indígena nos


quadrinhos, discursos e redes de memória

Otoniel Lopes de Oliveira Junior (UFPA/GEDAI)


Ivânia dos Santos Neves (UFPA/GEDAI)

Resumo: A questão da representação do índio nos quadrinhos, tanto no Brasil quanto no


mundo, tende a ignorar a singularidade de sujeitos e culturas que dispõe as mais de
trezentas etnias e mais de duzentas e setenta línguas e dialetos encontrados nos povos
indígenas brasileiros, nas representações percebidas nos quadrinhos editados em território
nacional e criados tanto no Brasil, quanto nos países europeus. Tais representações, por
mais pesquisadas que tenham sido, tendem a uniformizar a pluralidade que se dispõe em
um arquétipo que ignora as singularidades e reafirma uma visão genérica dos povos
indígenas, reafirmando os discursos presentes nas sociedades do sistema colonial. Neste
estudo, tomaremos como corpus de análise as materialidades construídas pelas crianças e
jovens da aldeia dos Tembé-Tenetehara e a partir da percepção de suas condições de
produção histórica, vamos contrapô-las com as produções de identidade e realidade
indígena presentes em alguns dos quadrinhos de massa disponíveis.

Palavras-Chave: Quadrinhos; Episteme; Memória; Narrativas orais; Arte sequencial.

Introdução

A arte-sequencial, ou sua manifestação em meios de comunicação de massa chamada


de quadrinhos, dispõe de uma estrutura de produção prática e autoral que abriga um
processo de mediação que materializa redes de memória e representação de identidades.
Neste estudo, tomaremos como corpus de análise as materialidades construídas pelas
crianças e jovens Tembé-Teneteharra e a partir da percepção de suas condições de
produção histórica contrapô-las com alguns dos quadrinhos de massa disponíveis.

Material e métodos

A metodologia de pesquisa, segundo a base proposta por Vergueiros e Santos (2010),


se dará no aspecto da produção com o foco no produtor e nas condições de possibilidade
histórica que lhes garante a construção de seus enunciados, quando analisados diretamente
por meio de incursões experimentais do pesquisador a campo. O método está centrado na


Mestrando do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia-(PPGCOM/UFPA). Email:
otoniel@iluminuras.ppg.br.

Professora do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia – (PPGCOM/UFPA).
Email: ivanian@uol.com.br.

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análise do processo produtivo das materialidades em linguagem de Arte Sequencial e segue


o método arqueológico proposto por Michel Foucault (2008).

Resultados e discussão

Os Quadrinhos são uma linguagem de expressão tão antiga quanto comum na


história humana (McCloud, 2006). Após os avanços tecnológicos que propiciaram o
surgimento dos meios de comunicação de massa, os Quadrinhos também se tornaram um
produto de massa usado para discutir e representar as sociedades na indústria cultural
(CYRNE, 2005). As representações passaram inevitavelmente pelas dos indígenas, onde
autores como o europeu Hugo Pratt em Corto Maltese (2007) e, no Brasil, a equipe do
Maurício de Sousa com o Papa-Capim da turma da Mônica, criaram personagens baseados
em pesquisa e inferência sobre a identidade indígena, por vezes reafirmando estereótipos.
Em julho de 2014, realizamos a oficina de História em Quadrinhos e Representação
de Identidade na Aldeia Sede da sociedade indígena Tembé-Tenetehara, localizada às
margens do Rio Guamá, próxima aos municípios paraenses Santa Luzia e Capitão Poço.
Durante as atividades, a partir de uma série de estratégias de interação que envolveram
tanto a declamação de narrativas orais tradicionais pelos próprios indígenas quanto
orientações sobre os caminhos e possibilidades de produção da arte sequencial, num
estímulo para a construção de narrativas gráficas em quadrinhos, onde eles mesmos
pudessem traduzir suas realidades e identidades. De acordo com Foucault (2000), a
episteme é uma teoria de entendimento da relação entre as representações e o que é
representado, é uma relação histórica, transforma-se de acordo com as condições de
possibilidades históricas. Foram produzidas 3 histórias em quadrinhos pelo grupo de 17
pessoas que participou da oficina, além de ilustrações avulsas. A primeira história foi uma
autobiografia do dia, a segunda história consistia em traduzir em quadrinhos uma história
contada pela pessoa mais velha que conhecessem e a terceira história foi para que eles
representassem em quadrinhos, após ouvirem de um dos líderes, a narrativa oral que conta
a origem que os Tembé-Tenetehara têm para a lua.

Conclusões

As conclusões, ainda preliminares, fazem parte da pesquisa de mestrado em


andamento. A relação entre a representação dos indígenas, construída por autores de

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quadrinhos profissionais, pelo que se pode perceber nos meios de comunicação de massa,
em contrapartida ao que se pôde acompanhar da criação dos enunciados produzidos pelos
Tembé-Tenetehara durante as oficinas de quadrinhos nas aldeias, apresenta um material
rico para o estudo da intericonicidade da qual os indígenas, assim como sujeitos e tema de
estudos, também podem ser autores.

Referências

CIRNE, Moacy. Quadrinhos Sedução e Paixão. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.

FOUCAULT, Michael. As Palavra e as Coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

___________. A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

McCLOUD, Scott. Desvendando os Quadrinhos. Makron Books, 2006.

PRATT, Hugo. Corto Maltese. São Paulo: Pixel, 2007.

VERGUEIRO, W. C. S. ; SANTOS, Para uma metodologia da pesquisa em história em


quadrinhos. In: BRAGA, José Luiz; LOPES, Maria Immacolata V. de; MARTINO, Luiz
Claudio (Orgs.). Pesquisa empírica em comunicação. São Paulo: Paulus/Compós, 2010.

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O corpo monstruoso do zumbi: discurso e memória


da (a)normalidade no cinema

Renata Celina Brasil Maciel (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: É notável o crescimento do fascínio pelos filmes de zumbi, de maneira que esse
corpo monstruoso muito pode dizer sobre quem somos nós hoje. Para realizar essa análise,
recorreremos aos estudos do discurso e do corpo no intuito de pensar o zumbi como
figura monstruosa produzida discursivamente na imagem em movimento. Assim,
poderemos articular as maneiras como os recursos utilizados pelo dispositivo
cinematográfico fazem ver e dizer o sujeito que então olhamos e pensar o lugar que esse
sujeito ocupa e quais instituições falam nesse lugar.

Palavras-chave: corpo; zumbi; discurso; cinema.

Introdução

Entendemos que o zumbi tem figurado no cinema com cada vez mais recorrência,
ocupando a atenção de grandes audiências. Essas obras cinematográficas onde os processos
discursivos referentes ao corpo monstruoso do zumbi começaram a circular no que é
conhecido como cinema de horror e a possibilitar, também, a circulação de suas imagens
no corpo social e no corpo individual dos sujeitos contemporâneos.

Materiais e método

Recorreremos aos estudos do discurso e do corpo propostos por Michel Foucault


para pensar o zumbi como figura monstruosa constituída no interior da história. Neste
sentido, o percurso que este trabalho sugere passa por entender e analisar, a partir do
cinema, como o zumbi é produzido discursivamente na imagem em movimento e como
essa anormalidade apresentada dá a ver as relações de saber/poder que a constituem. Além
das propostas foucaultianas em torno do discurso, do corpo e do sujeito, interessa-nos
também os estudos sobre cinema onde, acreditamos, poderemos articular as maneiras


Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade da UESB. Pesquisadora
do LABEDISCO/CNPq/UESB – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. Bolsista UESB –
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

Doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp.
Professor do Departamento e Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da
Bahia – UESB e Coordenador do Labedisco – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo.

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como as técnicas utilizadas pelo dispositivo cinematográfico fazem ver e dizer sobre o
sujeito que então olhamos. Pensamos que o batimento entre os filmes que compõem o
corpus do trabalho pode evidenciar, a partir dos modos como foram produzidos, o contexto
social e histórico em que apareceram e a circulação que alcançaram, de que sujeito estamos
tratando discursivamente, tomando-o em uma materialidade.

Resultados e discussão

Tomamos o entendimento de monstro teorizado por Michel Foucault em Os


Anormais (1974-1975) para pensar a monstruosidade do zumbi nos filmes de horror
enquanto uma contradição da lei. O monstro em questão “constitui, em sua existência
mesma e em sua forma, não apenas uma violação das leis da sociedade, mas uma violação
das leis da natureza. Ele é, num registro duplo, infração às leis em sua existência mesma”
(FOUCAULT, 2010, p.47).
O entendimento da anomalia enquanto uma combinação do impossível com o
proibido, nos leva a pensar que o zumbi, na sua monstruosidade, demonstra a sua
capacidade de produzir inquietação e para que possamos (re)elaborar a identificação do
monstro zumbi, o seu corpo é materializado de maneira que podemos compreender aquilo
que ele tem de mais particular. Concordando com Milanez (2011), o monstro e seu corpo
servem como um modelo de transgressão para um retorno ao controle com as amarras da
normalização.
Tomando-o em uma materialidade – o cinema – equivalente a um arquivo operador
de memória, percebemos a emergência de encadeamentos históricos relativos aos modos
como entendemos, por exemplo, como se constroem parâmetros normativos da beleza, da
saúde, do trabalho e da própria vida a partir dessa figura cadavérica que transgride tudo
isso.
Por isso, é compreensível a existência dessa veneração ao zumbi, pois, enquanto
monstro, ele pode aquilo que nós não podemos.

Conclusão

Os sistemas de representação do corpo monstruoso do zumbi no cinema se


cristalizaram na memória coletiva, de maneira que a história desse monstro se deu/dá não
apenas pelos dispositivos materiais que o registram e pelos sinais que o representam, mas

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também das emoções que são sentidas à vista dessa anormalidade. Ao agrupar os extratos
fílmicos das produções de horror referentes ao zumbi, podemos problematizar o modo
como agimos e pensamos tanto em relação ao sujeito na projeção fílmica quanto em
relação a nós mesmos.

Referências

FOUCAULT, Michel. Os Anormais. Curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo:


Martins Fontes, 2010.

MILANEZ, Nilton. Discurso e imagem em movimento: o corpo horrorífico do


vampiro no trailer. São Carlos: Claraluz, 2011.

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Modos de subjetivação e transgressão na dança

Samene Batista Pereira Santana (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: Nosso trabalho diz respeito às questões de análise do discurso da imagem, do


som e do corpo, bem como, à investigação, na materialidade audiovisual, de como se
delineia a história do corpo do bailarino (só e em grupo), enquanto sujeito. Usaremos como
corpus, neste trabalho, alguns dos dezesseis espetáculos em dvd do grupo “O Corpo” de
dança contemporânea. Assim, procuramos compreender, a partir da análise da
materialidade audiovisual, como o(s) corpo(s) do(s) bailarino(s) subjetivam-se e também
transgridem em meio aos domínios disciplinares do saber sobre a dança. Consideramos
relevante questionar, do ponto de vista do discurso, quais as disciplinas que mantém os
traços biológicos-fisiológicos do bailarino contemporâneo nos moldes clássicos, e quais
disciplinas o grupo O Corpo, rompe, transgride e recria por meio de novos repertórios,
movimentos e estruturas. Utilizamos em nosso percurso teórico, algumas noções de Michel
Foucault, e de alguns teóricos do domínio da materialidade audiovisual e cinema.

Palavras-chave: discurso; corpo; dança.

Introdução

Nos propomos, neste trabalho, a investigação dos processos de subjetivação do


corpo (do bailarino e do conjunto de bailarinos) nas obras do grupo de dança
contemporânea O Corpo e das práticas de transgressão dos procedimentos e estratégias que
compõem os espetáculos do grupo, considerando para tal objetivo, a memória, a história e
o discurso. Neste sentido, analisaremos, discursivamente, o corpo que dança e os enredos
das criações - no dispositivo audiovisual que contém os registros dos espetáculos do grupo
O Corpo.

Material e métodos

Tomamos como suporte para análise, alguns dos dezesseis espetáculos do grupo O
Corpo, em dvd – compostos do anos 1975 a 2014 – que representam sua obra completa. A
escolha desse corpus é resultado da verificação de problemas e discussões concernentes ao


Mestranda na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - Memória, linguagem e sociedade - pesquisa em
discurso religioso e discurso jurídico orientada pela Profa. Edvania Gomes da Silva. Possui graduação em
Direito pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (2012). Integrante do Grupo de Pesquisa em
Análise de Discurso – UESB e Labedisco - UESB

Doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp.
Professor do Departamento e Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da
Bahia – UESB e Coordenador do Labedisco – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo.

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corpo do bailarino em diversos grupos de dança no mundo, especialmente a partir do inicio


do séc. XX, com a ascensão da dança contemporânea. A partir da identificação desses
problemas, algumas perguntas e hipóteses fomentaram essa pesquisa e elegemos como
objeto, o grupo O Corpo, Cia de dança contemporânea que foi fundada em 1975, na cidade
de Belo Horizonte, onde permanece sediada e é reconhecida mundialmente como uma das
principais e melhores companhias de dança contemporânea existente. O recorte feito em
um só grupo de dança, leva em conta a amplitude do seu reconhecimento artístico no
mundo e quase quatro décadas de história.

Resultados e discussões

As análises e discussões sobre o corpus dessa pesquisa, nos leva a fazer alguns
questionamentos: que processos e práticas constituem o corpo do bailarino e o tornam
reconhecível? Quais os rompimentos técnicos e estéticos, em relação ao balé clássico, que a
dança contemporânea fez emergir na trajetória do grupo O Corpo? Que interseções e
repetições entre as unidades discursivas presentes no nosso corpus (corpo, movimento,
música, roteiro) formam um campo de memória do saber sobre a dança? Como referência
teórica para responder as perguntas e discutir sobre os “processos de subjetivação” do
corpo que dança e dos procedimentos de “transgressão” das estratégias e composição das
obras do grupo O Corpo, recorremos, em especial, ao pensamento de Michel Foucault. A
partir destes apontamentos teóricos, constatamos o corpo (que dança) na materialidade
audiovisual, como discurso subjetivado e transgredido e entendemos sua constituição
perpassada por memórias (campo de memória) e repetições que instauram a composição
dos bailarinos e de toda a obra do grupo O Corpo.

Conclusões

A partir das analises do corpus, constatamos que há um saber sobre a dança e modos
de subjetivação que não rompem as profusões de medidas do corpo (COURTINE, 2008) difusas
numa memória em que as materialidades se repetem, produzindo uma identidade (FOUCAULT,
1969, p. 110) e padronizam nosso olhar, enquanto interlocutores. Esse mesmo saber,
permite outras profusões culturais que transgridem (FOUCAULT, 1963, p.33) e não se
cansam de sempre romper limites.

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Referências

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Eloisa Araújo Ribeiro; rev. téc. Rolf de Luna Fonseca. Campinas: Papirus, 2003.

AUMONT, Jacques et al. A estética do filme. Trad. Marina Appenzeller. Rev. Téc. Nuno
César P. de Abreu. Campinas: Papirus Editora, 1995a.

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pública. Org., seleção Nilton Milanez e Carlos Félix Piovezani. São Carlos: Claraluz, 2006.

____. O corpo anormal. In: CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO,


Georges. História do corpo. As mutações do olhar (o século XX). Petrópolis: Rio de
Janeiro: Vozes, 2008, p. 253-340.

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Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 1999[1987].

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____. Os Anormais. Curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo: Martins Fontes,
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____. A prisão em toda parte. In: ___________. Ditos e escritos VI: Estratégias de
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____. A arqueologia do saber. 7ª edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010,


[1969].

____. Prefácio à transgressão. In: M. FOUCAULT, Ditos e Escritos III. Estética:


Literatura e Pintura, Música e Cinema. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2009.

GAMA-KHALIL, Marisa. A transgressão na literatura fantástica: o limite limitado. In:


MILANEZ, Nilton, SANTOS, Jamille (org) Modalidades de transgressão. Revista O
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JULLIER, LAURENT; MARIE, Michel. Lendo as imagens do cinema. São Paulo:


Senac, 2009.

MILANEZ, Nilton. O corpo é um arquipélago: memória, intericonicidade e identidade. In:


NAVARRO, Pedro (org.) Estudos do texto e do Discurso. Mapeando Conceitos e
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____. A possessão da subjetividade. In: SANTOS, João Bosco Cabral dos (org.). Sujeito e
subjetividades: discursividades contemporâneas. Uberlândia: EDUFU, 2009.

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Corpo, poder e resistências: os sujeitos do sexo na


pornochanchada brasileira (1975-1985)

Tyrone Chaves Filho (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: A hipótese central que norteia esta dissertação é a de que a sexualidade funciona
como uma válvula de escape a partir da qual discursos sobre o corpo e materializações de
poder vêm à tona, guiando o imaginário social em suas práticas e a constituição do sujeito.
Nesse sentido, nosso intuito central é mostrar, a partir de dez materialidades fílmicas
brasileiras de 1975 a 1985, como o corpo funciona como suporte a partir do qual é possível
desvendar sentidos na história, considerando-o como uma superfície por meio da qual
discursos emergem e, igualmente, elencando-o como um objeto de análise para o
deciframento de toda uma atuação de jogos de poderes capazes de esclarecer a unidade do
sujeito e a sua relação com as alteridades. Assim, a discussão dessa dissertação recai sobre a
necessidade de se pensar a condição do sujeito, mais particularmente a do sujeito do sexo,
uma vez que a nossa sociedade cristalizou um regime de existência para as práticas sexuais.

Palavras-chave: Corpo; Discurso; Sexualidade; Sujeito; Pornochanchada.

Introdução

A pornochanchada, período cinematográfico que compreende os anos de 1960 até


1980, é constituída por materialidades fílmicas nas quais a sexualidade é bastante explorada
e isso reforça certo regime de visibilidade para o corpo nesse momento histórico. Dessa
forma, nosso objetivo é mostrar como, a partir de materialidades fílmicas brasileiras dos
anos 1970 e 1980, constitui-se um discurso próprio entre sexo e corpo, que reconfigura
lugares sociais e institucionais.

Material e métodos

Nossa análise tem como materiais dez produções fílmicas brasileiras, de meados dos
anos 1970 a meados dos anos 1980, a saber: Pecado na sacristia, de Miguel H. Borges, de
1975; Amadas e violentadas, de Jean Garrett, de 1976; Escola penal de meninas violentadas, de
Antônio Meliande, de 1977; O estripador de mulheres, de Juan Bajon, de 1978; O matador sexual,


Mestrando em Linguística pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Estadual do
Sudoeste da Bahia - UESB. Integrante do Labedisco – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo.

Doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp.
Professor do Departamento e Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da
Bahia – UESB e Coordenador do Labedisco – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo.

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de Tony Vieira, de 1979; A Prisão, de Osvaldo de Oliveira, de 1980; Liliam, a suja, de


Antônio Meliande, de 1981; Curral de mulheres, de Osvaldo de Oliveira, de 1982; Os
violentadores de meninas virgens, de Francisco Cavalcanti, de 1983 e Hospital da corrupção e dos
prazeres, de Rajá de Aragão, de 1985. Em termos metodológicos, recortaremos os planos,
agruparemos os mesmos em sequências e discutiremos a materialidade repetível dos
enunciados, consoante Foucault (2008), para mostrar como as práticas sexuais e o corpo
são discursivizados, nos valendo, também, dos postulados de Jacques Aumont (2011) no
que concerne às técnicas e às ferramentas cinematográficas.

Resultados e discussão

As materialidades fílmicas da pornochanchada só puderam vir à luz a partir de


condições de existência que possibilitaram sua circulação, isso significa, no interior de um
regime ditatorial (anos de 1960 até 1980), apelar para recursos metafóricos, indiretos,
estabelecer alianças e concessões. Com isso, essa associação entre Ditadura Militar no
Brasil e pornochanchada rendeu um tipo de mecanismo que a priori parecia transgressor,
mas no final das contas, se revelou um instrumento de normatização e normalização das
condutas, instrumento esse que, de modo bastante sutil e estratégico, possuía como
finalidade a divulgação de uma moral do corpo e da sexualidade que estava a serviço de
instituições regulamentadoras. É nesse ponto que a sexualidade funciona, da forma como
entende Michel Foucault (1988) como uma maneira de produzir um saber mediante um
poder: a repressão pura e simples não produz conhecimento, saber, mas o poder
escondendo uma própria parte de si, revela-se como um eficaz aparelho para atingir seus
objetivos – conduzir corpos, produzir subjetividades, inserir o sujeito na norma. Nesse
sentido, as pornochanchadas brasileiras circulavam nas telas do cinema e colocavam em
pauta as transformações no círculo social e, sobretudo, questões acerca dos
comportamentos sexuais, de modo que a sexualidade passa a ser objeto de reflexões, se
constituindo como um importante recurso a partir do qual são feitas leituras a respeito da
constituição do sujeito e das relações de poder mobilizadas nas convivências sociais. Do
mesmo modo, o corpo como superfície de subjetividades se viu obrigado a se submeter ao
torniquete da norma e essa norma estava a serviço de uma moral, isto é, no interior de
produções que vieram à luz sob um regime ditatorial que enrijecia as relações ao mesmo
tempo em que pregava ideários moralizantes, as pornochanchadas sobreviveram em função
de uma mentalidade que procurava retirar delas o lado pedagógico e edificante.

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Conclusões

As materialidades fílmicas que compõem a assinatura da pornochanchada, tendo em


vista aquelas que fazem parte do nosso corpus, constituem, por meio dos discursos presentes
em seus enredos e encadeamentos de planos, um tipo de material que está bastante
marcado por regras moralistas e por moralidades que, subjacente, de forma estratégica,
visam algum tipo de orientação e/ou pedagogia para o corpo. Isso significa, assim, que a
pornochanchada funciona como um mecanismo de poder que produz saberes.

Referências

AUMONT, Jacques. A estética do filme. Trad. de Marina Appenzezeller. São Paulo:


Papirus, 2011.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1 – a vontade de saber. Trad. de Maria


Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhou Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

_________________. Arqueologia do Saber. Trad. de Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de


Janeiro: Forense Universitária, 2008.

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“Uga Uga” e “Alma Gêmea”: personagens indígenas


nas telenovelas brasileiras

Vívian de Nazareth Santos Carvalho (UFPA/GEDAI)


Ivânia dos Santos Neves (UFPA/GEDAI)

Resumo: Esta pesquisa visa compreender como as telenovelas atualizam o discurso


bastante instituído na sociedade brasileira de que o sujeito indígena está “parado no
tempo”, vive em uma floresta distante e não tem contato com nenhuma prática que faça
parte do cotidiano de um ambiente urbano. Tomamos como suporte para a análise cenas
das telenovelas “Uga Uga” (2000) e “Alma Gêmea” (2005), ambas exibidas pela TV Globo,
e tentamos compreender, tendo como referência a proposta arqueológica de Michel
Foucault (2008), os discursos que circulam nestas cenas sobre as sociedades indígenas.

Palavras-chave: Telenovela; Uga Uga; Alma Gêmea; Sociedades indígenas.

Introdução

A telenovela é o principal produto da televisão aberta brasileira (ORTIZ; BORELLI


e RAMOS, 1991). Líderes de audiência, as ficções televisivas seriadas são importantes para
que os telespectadores tenham acesso às culturas de diferentes povos. Ao trazer em suas
tramas personagens indígenas, estas produções atualizam e põem em circulação diferentes
discursos sobre essas sociedades, suas identidades e culturas.

Material e métodos

Esta pesquisa visa compreender como as telenovelas atualizam o discurso bastante


instituído em nossa sociedade de que o sujeito indígena está “parado no tempo”, vive em
uma floresta distante e, mesmo na época contemporânea, não tem contato com nenhuma
prática que faça parte do cotidiano de um ambiente urbano. Tomamos como suporte para
a análise cenas das telenovelas “Uga Uga” (2000) e “Alma Gêmea” (2005), ambas exibidas
pela TV Globo, que trouxeram como protagonistas os personagens indígenas “Tatuapu”
(Cláudio Heinrich) e “Serena” (Priscila Fantin). Tomamos o estudo destas cenas em uma
perspectiva foucaultiana, o que significa que atribuímos uma densidade histórica aos


Mestranda do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia-(PPGCOM/UFPA). Email:
viviansantoscarvalho@gmail.com.

Professora do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia – (PPGCOM/UFPA).
Email: ivanian@uol.com.br.

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diferentes discursos que circulam nestas tramas sobre as sociedades indígenas. Por isso,
para compreendermos as cenas presentes nestas telenovelas é preciso que tenhamos em
vista as condições em que essas produções aparecem, “prestando atenção às condições
históricas que puderam legitimar aquela fala, naquele lugar” (MILANEZ, 2006, p.26).

Resultados e discussão

Dispositivos sociais, como escolas, instituições jurídicas e veículos midiáticos


constantemente atualizam os discursos sobre o que é ser um sujeito indígena brasileiro.
Entre os discursos presentes na rede de memória ocidental sobre os povos indígenas, a
imagem de sociedades “paradas no tempo”, vivendo em uma floresta distante e isoladas de
qualquer contato com outras pessoas, outras práticas culturais e outros objetos que fazem
parte do cotidiano das cidades é bastante recorrente. De acordo com Neves (2009), desde a
chegada das primeiras embarcações ao Brasil, em 1500, os europeus inventaram
discursivamente um índio genérico e selvagem. “Os índios que resultaram desta invenção
ocidental pertencem todos a uma única sociedade ‘ideal’ e são absolutamente
estereotipados: preguiçosos, sem roupas, antropófagos, de pele amarela” (NEVES, 2009,
p.33-34). Esta invenção do indígena é fortemente institucionalizada e bastante duradoura,
“e ainda hoje alimentada pela mídia, pela educação e pela falta de políticas públicas
efetivas” (NEVES, 2009, p. 34). Discursos de que o sujeito indígena é selvagem, primitivo
e alheio às práticas cotidianas de um ambiente urbano, são constantemente atualizados por
diferentes materialidades, como os livros didáticos, as pinturas, os filmes e os produtos
televisivos, entre eles, as telenovelas. Entendemos que por meio das telenovelas ocorre a
materialização dos discursos historicamente construídos sobre as sociedades indígenas
brasileiras. Por isso, para compreendermos estas cenas é preciso que tenhamos em vista as
condições históricas que puderam legitimar esses discursos, pois “não se pode falar de
qualquer coisa em qualquer época” (FOUCAULT, 2008, p.50).

Conclusões

A telenovela faz parte da matriz cultural brasileira (MALCHER, 2009) e, como


produto atravessado pela história, ela não pode falar de qualquer coisa em qualquer lugar.
As cenas em que os personagens indígenas aparecem isolados, em meio a florestas e
animais selvagens, sem conhecer objetos ou práticas que fazem parte do “mundo

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moderno” se filiam a uma rede de memória presente na sociedade ocidental sobre o que é
ser um sujeito indígena brasileiro.

Referências

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 7ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense


Universitária, 2008.

MALCHER, Maria Ataide. Teledramaturgia: agente estratégico na construção da TV


aberta brasileira. São Paulo: INTERCOM, 2009.

MILANEZ, Nilton. As aventuras do corpo: dos modos de subjetivação às memórias


de si em revista impressa. Tese de doutorado em Análise do Discurso. Araquara, SP:
UNESP, 2006.

NEVES, Ivânia dos Santos. A invenção do índio e as narrativas orais Tupi. Tese
(doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem.
Campinas, SP: [s.n.], 2009.

ORTIZ, Renato; BORELLI, Silvia Helena Simões; RAMOS, José Mário Ortiz.
Telenovela: história e produção. 2ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.

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OUTROS TRABALHOS
EM ANDAMENTO

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(Des)continuidades sobre o corpo da mulher indígena como


espaço de memória na fotografia

Ana Shirley Penaforte Cardoso (FAINTIPI/ FAPAN/ FAPEN/GEDAI)

Resumo: O foco principal deste trabalho é pensar o corpo como inscrições de verdades
sobre o que é ser uma mulher indígena em determinadas condições de possibilidades
históricas.

Palavras-Chave: Memória; Corpo; Fotografia.

Introdução

A análise partirá de uma fotografia disponibilizada na imprensa em 1989, produzida


durante o primeiro encontro de povos Indígenas do Xingu, em Altamira-PA. O objetivo do
evento era a discussão sobre a implantação da Hidrelétrica de Belo Monte, que envolveria
centenas de pessoas, em sua maioria, indígenas. O estudo terá como base o conceito de
Intericonicidade desenvolvido por J. J. Courtine (2011) e as noções de corpo sob a
perspectiva da teoria do discurso, a partir de Michel Foucault (2012; 2010).

Materiais e Métodos

Essa abordagem tenta entender como se dão as relações de poder que envolvem os
corpos indígenas na contemporaneidade a partir das possibilidades de produções históricas.
A espessura imagética, em destaque no primeiro plano da fotografia em questão, deixa ver
o corpo de uma mulher indígena, Tuíra Caiapó, apontando um facão para José Antônio
Muniz Lopes, então presidente da Eletronorte. Os sentidos disponibilizados através desta
imagem ganham eco por meio de um fio ligado a uma rede de memórias que esquadrinham
o corpo indígena forjado diante dos discursos que circulam em diferentes lugares e
diferentes temporalidades. A movimentação histórica em torno deste discurso permite
pensar nos desdobramentos causados por esse acontecimento, visibilizado na fotografia à
época e que hoje se atualiza, a partir de novos olhares. Analisar alguns dos aspectos dos


Mestre em Comunicação Linguagens e cultura pela Universidade da Amazônia em 2013.

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sentidos inscritos no corpo da indígena, como verdades sobre o que é ser uma mulher
indígena em dado momento da história, é o objetivo desta reflexão.

Resultados e discussão

Ideias ligadas à selvageria e à sensualidade são recorrentes nos enunciados sobre


indígenas no Brasil desde a primeira imagem produzida sobre essa temática: uma
xilogravura, que retrata de forma tendenciosa e pertinente diante da ordem estabelecida à
época, sobre a antropofagia praticada entre indígenas. Sobre a produção das primeiras
imagens, afirma Neves (2009, p.76): “Imagens, geralmente, produzidas a partir de relatos de
viajantes... Não há referências a uma obra específica, mas ela segue os padrões visuais
europeus do início do século XVI”. Nas diferentes materialidades sobre a construção
imagética do corpo da mulher indígena no ocidente, destacam-se a figura da personagem de
José de Alencar no livro “Iracema”, a morena nua, banhada pelos raios de sol à beira mar e
a pintura modernista de José de Medeiros, que dá forma visual à Iracema, cujo discurso
sobre a indígena é atravessado, também, pela ideia de sensualidade. Embora o corpo de
Tuíra esteja em condições de diferentes possibilidades históricas em relação aos exemplos
citados, é a nudez que marca esse lugar da memória, que aparece atravessado por outros
discursos. Para Courtine (2011, p.160), há uma relação entre imagens através da memória:
“relação entre imagens externas, mas também entre imagens internas,... lembrança,...
rememoração,... impressões visuais armazenadas pelo indivíduo”. Compreendendo as
(des)continuidades dos discursos em diferentes tempos na história, como nos ensina
Foucault (2012), chega-se às materialidades desses enunciados em outros espaços marcados
no corpo da mulher e postos em circulação no ocidente, evidenciados pela exposição dos
seios desnudos, ora atrelada à noção de maternidade e ao discurso religioso, ou à
fertilidade, noção cultivada em algumas sociedades indígenas: os seios flácidos marcam o
elevado prestígio daquela mulher. Esse fio discursivo encontra-se também numa das mais
antigas representações sobre mulheres, a estatueta da Vênus de Willendorf, associada à
fartura, marcada através das curvas avantajadas do seu corpo.

Conclusão

Os corpos representados passam a produzir efeitos de sentido e podem encontrar


formas de reinvenção de suas tradições. É, portanto, o corpo que funciona como principal

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materialidade da identidade indígena. “O corpo está no centro das relações que envolvem o
sujeito, o discurso e as instituições” (MILANEZ, 2006, p.13). O corpo está organizado de
acordo com as diferentes maneiras de leituras no mundo contemporâneo. “O corpo é a
forma, o espaço e o texto nos quais o sujeito se simboliza se representa e é representado”.
(HASHIGUTI, 2008, p.71).

Referências

ALENCAR, J. Iracema. São Paulo: Ática, 1991.

COURTINE, J.J. Discurso e imagens: para uma arqueologia do imaginário. In:


PIOVEZANI, C et alli (org.). Discurso, semiologia e história. São Carlos, São Paulo:
Claraluz, 2011, p 145 - 162.

FOUCAULT, M.. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France,


pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo: Edições Loyola, 2010.

__________. Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

HASHIGUTI, Simone. Corpo de Memória. Tese de Doutorado. Campinas: Unicamp,


2008

MILANEZ, Nilton. As aventuras do corpo: os modos de subjetivação às memórias de si


em revista impressa. Tese de Doutorado. Araraquara: UNESP/- FLC - AR, 2006.

NEVES, Ivânia. A invenção do índio e as narrativas orais Tupi. Tese de Doutorado -


Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem. Campinas, SP:
2009

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Corpo monstruoso: discurso e (des)ordem em filmes de zumbi

Bruno Pacheco (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: O proposto trabalho encontra-se em desenvolvimento no quadro de estudos do


Labedisco – Laboratório do Discurso e do Corpo, vinculado ao Projeto de Pesquisa
“Materialidades do Corpo e do Horror”. Este projeto tem como objetivo descrever e
analisar o corpo transgressor em sequências do filme Norueguês Dead Snow, que tem por
diretor Tommy Wirkola no ano de 2009, que traz zumbis em forma de soldados nazistas
adormecidos que, acordam depois que um grupo de jovens encontra seu tesouro. Para essa
investigação, utilizamos, como subsídio teórico, conceitos debatidos pelo filósofo Michel
Foucault em seus livros Arqueologia do Saber e os Anormais. Utilizamos como análise de
materialidade fílmica, teóricos do cinema como Chion, no que se refere ao som. E
Aumont, Marie e Laurent, no campo fílmico das imagens em movimento.

Palavras-Chave: Corpo; (Des)ordem; Monstruosidade; Zumbi.

Introdução

A evolução nos filmes de zumbi tem se mostrado nos cinemas com muita clareza. A
forma como os zumbis são mostrado hoje, traz uma (des)ordem do corpo que, segundo
MILANEZ (2014) é “[...] cabaleante, [...] olhar esbugalhado e vazio, [...] braços ao longo do
corpo, [...]” O corpo que era considerado monstruoso por trazer em si um discurso de
desordem passa a ter uma nova forma de se pensar e ver que há uma ordem na desordem.
O que nos leva a escolher a este tema para um estudo é a forma de como o zumbi tem
ocupado grande espaço cinematográfico na sociedade com um discurso de (des)sordem.

Materiais e métodos

Os materiais que são utilizados para esta pesquisa são séries e filmes de zumbis. A
análise para este trabalho foi realizada em cima do filme norueguês Dead Snow, que nos
apresenta um zumbi nazista militar. Foi utilizado, também, fragmentos de vídeos retirados
do Youtube e da série de televisão The Walking Dead para mostrar a desordem do corpo.
Para a investigação deste trabalho,utiliza-se como base teórica, conceitos do Michel


Discente do curso de Letras Vernáculas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

Doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp.
Professor do Departamento e Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da
Bahia – UESB e Coordenador do Labedisco – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo.

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Foucault que estão em seus livros: Arqueologia do Saber e Os Anormais. Utilizamos como
análise de materialidade fílmica, teóricos do cinema como Chion, no que refere-se ao som.
Por fim, Aumont, Marie e Laurent, no campo fílmico das imagens em movimento.

Resultado e discussão

De acordo com Milanez e Prates (2013), para Foucault, a noção de monstro está
enraizada na questão jurídica, ou seja, o zumbi torna-se um mostro por transgredir as leis
civis, da natureza, canônica e religiosa.

Conclusão

De acordo com Foucault (2010), o corpo do zumbi torna-se um monstro não só pela
sua maldade. A desordem do seu comportamento nos traz um discurso monstruoso que
transgride todas as leis, podendo assim fazer uma análise de como esse corpo monstruoso
se apresenta na sociedade.

Referência:

AUMONT, Jacques. Do campo à cena. In:_______. A imagem. Trad. de Estela dos


Santos Abreu e Cláudio Cesar Santoro. Campinas: Papirus, 1993. p. 234-240.

CHION, Michel. Audio-vision: sound on screen. New York: Columbia University, 1994.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do Saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de
Janeiro: forense universitária, 2008.

FOUCAULT, Michel. Aula de 22 de Janeiro de 1975. In:_______. Os anormais: curso


do Collège de France (1974-1975). Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes,
2001. p. 47-68.

MILANEZ, Nilton. O corpo-objeto e outros corpos: materialidades audiovisuais de


zumbis. In:____. A formação dos objetos. Editora Pontes. Campinas, 2014, p. 03

MILANEZ, Nilton. Corpo cheiroso, corpo gostoso: unidades corporais do sujeito no


discurso. In:_______. Acta Scientiarum. LanguageandCulture. Maringá, 2006,p. 215-
222

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A metamorfose no corpo do cisne negro

Cremilton de Souza Santana (UNEB/AUDiscurso)


Janaina de Jesus Santos (UNEB/AUDiscurso) 

Resumo: Este trabalho toma os referenciais teóricos da Análise do Discurso de origem


francesa e seus estudos no Brasil e do cinema para analisar os discursos visualizados nas
cenas do filme Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2010, de Darren Aronofsky) e para
compreender os planos que constituem e produzem sujeito na cena em que a bailarina
Nina (Natalie Portman) se metamorfoseia em cisne negro, produzindo sujeitos marcados
no corpo. Nesse aspecto, analisou-se o corpo, sujeito e discurso. Apoiou-se nas estratégias
cinematográficas de Aumont (2006) para identificar e descrever os planos e as camadas
mais profundas das imagens que exibem a metamorfose do sujeito Nina em cisne negro
diante das imagens em movimentos. A pesquisa foi respaldada na perspectiva foucaultiana
para perceber em nosso corpus como o corpo é submetido à transformação. Pelo que foi
abordado, conclui-se que o poder da mutação do corpo de Nina era próprio da
constituição do sujeito em evidência.

Palavras-Chave: Cisne Negro; Corpo; Discurso; Metamorfose; Sujeito.

Introdução

Para esta pesquisa, buscou-se analisar a transformação do corpo de Nina (Natalie


Portman) em cisne negro, que evidencia um sujeito capaz de causar uma desordem natural,
vindo à tona os discursos da moral religiosa judaico-cristã do bem e do mal. Tendo em
vista que, para a representação da cobiçada peça supracitada, Nina teria de ser capaz de
construir um sujeito multifacetado para o papel do cisne branco com as características
virginal e pura. Para compor o cisne negro, se exigiria sedução.

Material e método

Foram tomados conceitos da Análise do Discurso e contribuições de Foucault para


identificar as camadas mais profundas que constituem e marcam o lugar dos sujeitos na
história em um determinado espaço de tempo e não em outro. Investigou-se os planos e os


Graduando do Curso de Letras com habilitação em Língua Inglesa e suas Literaturas; bolsista ICV;
participante do AUDiscurso/CNPq – Laboratório de Estudos de Audiovisual e Discurso Universidade do
Estado da Bahia (UNEB/ DCH VI) Email: niltoncte@hotmail.com

Professora Assistente da Universidade do Estado da Bahia, campus VI. Coordenadora do
AUDiscurso/CNPq - Laboratório de Estudos do Audiovisual e do Discurso/UNEB, no qual desenvolve o
Projeto de Pesquisa “ Sujeito, corpo e discurso no cinema: desdobramentos interdisciplinares extensão:
Discurso e ensino: abordagem interdisciplinar dos saberes” Email: janainasan@gmail.com.

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lugares para os sujeitos, por meio das estratégias de travelling, panorâmica e close, para
evidenciar como a ordem do discurso possibilita as transformações do corpo na
materialidade fílmica.
Buscou-se apoio em Aumont (2006) para entender as técnicas cinematográficas e para
analisar os planos e as imagens em movimento que constituem os sujeitos em metamorfose
em um espaço de tempo historicamente constituído. No filme, Nina é evidenciada nos
discursos do bem e do mal, evocando a moral religiosa judaico-cristã. Ela precisaria
compor dois personagens para atuar na cobiçada peça O Lago dos Cisnes. O cisne branco e o
cisne negro – o cisne branco era puro e virginal, enquanto que o cisne negro exigia
sedução, sexualidade e o lado oculto de Nina.

Resultados e discussões

Nos fotogramas selecionados, há imagens da personagem principal do filme Cisne


Negro, Nina Sayers (Natalie Portman), que é a bailarina da companhia de balé da cidade de
Nova York. Os fotogramas mostram o processo de mutação do corpo de Nina nas
materialidades discursivas em que a bailarina é mostrada, em primeiro plano, para
evidenciar as transformações, passo a passo, dela em cisne negro.
As imagens a seguir são da cena de apresentação da peça na companhia de dança e
Nina está no palco para o papel do cisne negro. Neste momento, a câmera começa a fazer
um close nos olhos dela para evidenciar o princípio da mutação de Nina em cisne. Em
seguida, mostra os membros superiores dela para evidenciar os sinais de transgressão no
corpo. A cena exibe a transmutação do cisne negro que emerge para assumir
definitivamente o poder sobre o cisne branco.

Figura 1 – Apresentação de Nina na peça Figura 2 – Apresentação de Nina na peça


“O Lago dos Cisnes” “O Lago dos Cisnes”

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Figura 3 – Apresentação de Nina na peça


“O Lago dos Cisnes”

Na figura 1, Nina é produzida pela estratégia cinematográfica denominada close, já que


foca diante dos olhos vermelhos de Nina para exibir os olhos vermelhos cor de sangue,
mostrando as evidências iniciais no processo de mutação de Nina em cisne, visto que o
cisne negro havia tomado posse do corpo dela e isso iria fazer toda a diferença na
apresentação e na vida de Nina. Na sequência da filmagem, na figura 2, Nina é focada pela
estratégia denominada detalhe, tendo em vista que os membros superiores dela ficam em
evidência para a exposição das primeiras exibições das penas do cisne negro aparecendo.
Quanto à figura 3, a bailarina é visualizada no palco com a estratégia cinematográfica
panorâmica, fazendo uma visão geral do palco e mostrando o sujeito Nina de maneira
transgressora, com asas dando a sensação de movimento e pensamento rápido,
representando o sujeito pós-moderno que está em constante transformação, uma vez que o
indivíduo humano transgride a lei natural, se transformando em um animal – o cisne negro
– em um jogo de iluminação com a predominância da cor preta, refletindo, no palco, a
representação da perfeição tão buscada por Nina, isto é, os planos e as estratégias
cinematográficas produziram um sujeito cisne.

Conclusão

Assim sendo, o poder da mutação do corpo de Nina estava associado diretamente à


subjetividade dela, já que essa transformação aconteceu de acordo com os discursos que
permeiam sua exterioridade. Nina buscava a perfeição como bailarina e, para isso, ela tinha
que representar dois papéis com personalidades opostas e isso influenciou na constituição
desse sujeito, uma vez que os discursos constituem os corpos e as instituições os sujeitos.
Nesse sentido, os discursos constituíram o corpo de Nina similar a um cisne, enquanto a
companhia de dança a constituiu como rainha cisne, como bailarina.

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Referências

AUMONT, J.; MARIE, M. Dicionário Teórico e Crítico de Cinema. Eloisa Araújo


Ribeiro. São Paulo: 2. ed. Papirus, 2006

CISNE NEGRO. Direção:Darren Aronofsky. Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz e


John J. McLaughlin.USA,2010.DVD.1h43min.colorido.

FOUCAULT, M. A Arqueologia do Saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de


Janeiro: Forense Universitária, 2007a.

FOUCAULT, M. A governamentalidade. In: Michael Foucault, Microfísica do poder


(pp. 277-293). Rio de Janeiro: Graal. (1978).

______. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo:
Edições Loyola, 2007b.

______. Os anormais. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2001a.

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Violência simbólica organizacional direcionada aos


trabalhadores: considerações exploratórias

Cristina Miyuki Hashizume (UEPB)

Resumo: O presente trabalho enfocará a ética praticada pelas corporações através do


estudo do assédio moral. Partindo do histórico das práticas de controle e biopoder,
traremos a discussão sobre o assédio moral, expressão em alta, que preferimos chamar de
violência simbólica. O uso desse novo termo, porém, não rompe com a lógica já existente
entre vítimas e algozes, nem problematiza questões para além de uma função pragmática e
alienada de mundo, instaurando o fenômeno da judicialização da vida social.

Palavras-Chave: assédio moral; violência simbólica; subjetividade capitalística; ética.

Introdução

No presente iremos focar a ética existente nas corporações através do estudo do


“assédio moral”. Partindo do histórico das práticas de controle e biopoder, traremos a
discussão sobre o tema, que em nosso trabalho preferimos chamar de violência simbólica. O
termo assédio, foco de inúmeras publicações especializadas de juristas, psicólogos não
rompe com a lógica de separação de vítimas e algozes, nem problematiza questões para
além de uma função pragmática/alienada de mundo.

Materiais e método

Trata-se de um estudo bibliográfico, que atravessa análises de pesquisa realizada em


2009 sobre violência simbólica, que estudou esse fenômeno em escolas de quatro
municípios da região oeste da Região Metropolitana de São Paulo. Nossas discussões aqui
se somam a reflexões provocadas em grupos de estudos sobre a ética pós moderna
realizados desde 2013. Esse grupo de estudos é direcionado a alunos de Psicologia da
UEPB interessados em debates sobre o trabalho.


Doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Desde 2002, atua
como professora universitária em cursos da área de Saúde e Educação.

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Resultados e discussão

A ética pós moderna desmonta padrões e normas antes estáveis no mundo moderno.
Práticas nas empresas se tornaram ilegíveis, flexíveis, deixando o trabalhador à deriva. Uma
farta bibliografia (OLIVEIRA, 2014; SCANFONE, 2004; HIRIGOYEN, 2002; LIMA,
2004) sobre o tema limita-se a discutir formas para se punir e responsabilizar tal prática nas
organizações. Esses autores não rompem com a lógica do consumidor -vitimizado que
necessita processar a empresa-algoz (através da compra de serviços jurídicos) já que esta é
culpada. Tal visão é resultado do processo que autores (AUGUSTO, 2012; MARAFON,
2014; AGUINSKY & ALENCASTRO, 2006; BARROSO, s.d.) denominam judicialização
da vida: a lógica do tribunal extensiva a diversos espaços e tempos da existência e a sutileza
com que novos controles são implementados nas atividades mais cotidianas. Ao invés de se
problematizar novas formas de relações laborais entre trabalhadores e empresas, forçando
uma responsabilidade efetiva da corporação para com seus funcionários, lidando com
violações de direitos que acontecem, parece ter havido uma mimetização da função do juiz
e do policial nos sindicatos e nas empresas, com as chamadas novas técnicas de resolução
de conflitos, em que cada qual se vê convidado a ocupar o lugar de juiz e abrir processos
jurídicos a seu favor. Essa prática é condizente com a privatização de espaços públicos de
exercício político, ao mesmo tempo em que apazígua conflitos que deveriam ser discutidos
na coletividade, privatizando uma discussão que vai muito além do mero abuso de poder
do chefe. Propomos utilizar “violência simbólica” para essa obsessão por controle
produtivo pelas empresas, já que a prática é disseminada ao instaurar uma nova ética
corporativa que invade a vida privada do trabalhador através da cobrança incessante por
produtividade e tem levado trabalhadores a buscar seus “direitos políticos” através de
processos jurídicos, que em nada transformam a organização do trabalho.

Conclusão

O novo conceito acompanha o processo de judicialização do direito social, que


intenta tornar mais justa as relações sociais, seguindo, porém, um princípio equivocado:
coloca no indivíduo privadamente o poder de julgar a tudo e a todos, através de processos
jurídicos, a justiça de forma privatista.

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Referências

AGUINSKY, B.G; ALENCASTRO,E.H. Judicialização da questão social: rebatimentos


nos social. Katálysis. v. 9 n. 1 jan./jun. 19-26 . 9 n. 1. Florianópolis- SC , 2006.

AUGUSTO, A. Juridicialização da vida: democracia e participação. anarquia e o que resta.


Psicologia & Sociedade; 24(n.spe.): 31-38, 2012.

BARROSO, L.F. Judicialização, ativismo judicial e legitimidade democrática.


Mimeo. S.l., s.d.

HIRIGOYEN, Marie-France. Mal estar no trabalho - redefinindo o assédio moral. Rio


de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002, 350 p.

LIMA, Raymundo de. O assédio moral, a microviolênica do cotidiano – notas sobre o


protofascismo invisível. Disponível em: <http://www.uem.br/~urutagua/02ray.htm>.
Acesso em: 29 out. 2004

MARAFON, G. Judicialização da infância. Revista entreideias, Salvador, v. 3, n. 1, p.


79-93, jan./jun. 2014

OLIVEIRA, Euler Sinoir de. Assédio moral: sujeitos, danos à saúde e legislação.
Disponível
em: <http://www.forense.com.br/Atualida/ Artigos_DT/assedio.htm>. Acesso em: 29
out. 2004

SCANFONE, Leila; TEODÓSIO, Armindo dos Santos de Sousa. Assédio moral nas
organizações: a dinâmica do abuso de poder. Disponível em:
<http://www.ead.fea.usp.br/Semead/7semead/paginas/artigos%20recebidos/RH/RH09
_Ass%E9dio_Moral_nas_Organiza%E7%F5es.PDF>. Acesso em: 29 out. 2004.

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Foucault, domínio do corpo e resistência do sujeito jurídico


como objetivação de construção de si no longa-metragem "A
mulher do desejo, de Chistensen Carlos Hugo

Daniel Soares Sousa Lemos (UESB/IC/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: Este trabalho apresenta uma análise audiovisual da materialidade fílmica que trata
do domínio no corpo do sujeito na posição coersiva da biopolítica (Foucault), enquanto
discurso fundamentalista ao posicionar o corpo transfigurado [metamorfoseado] (Bruce
Clark) do sujeito como sendo um corpo monstruoso pelo suposto espaço heterotópico que
esse sujeito é posicionado ("biopoder"), e cuidadosa análise "anátomo-poder" para
posicionarmos o sujeito dentro de um discurso de corpo incomponível pelo lugar de
fragmentação como sendo lugar de loucura e/ou monstruosidade.

Palavras-Chave: Biopoder, anátomo-poder; corpo metamorfoseado; materialidade fílmica;


monstruosidade.

Introdução

Nos espaços outros que o sujeito é posicionado de acordo com o olhar da câmera e
da constituição materializada desses espaços, do suporte teórico (FOUCAULT, 2013),
percebemos a saída desse “real” (corpo normativo) para o espaço heterotópico, filmado a
partir de ângulos e posições como sendo o lugar da obscuridade, da monstruosidade pelo
estado de disputa que esse corpo ocupa, logo, o sujeito assume, ao despir-se de todos os
campos discursivos postos ao sujeito como sendo de poder, de ordeme de posição aos
lugares institucionais, uma resistência que gera disputa e gera conflito no sujeito entre o seu
corpo e todos os espaços (poder molecular e poder molar) que esse transeunte circula,
constituindo esse sujeito como sendo um doente, um louco. Esse sujeito que disputa com
o poder não está, segundo Foucault, sendo transgressor. O sujeito que está imerso em
relações de poder precisa da liberdade de si para existir uma relação de poder porque,
segundo Foucault, a resistência está intrínseca no indivíduo para participarmos como
mudança e o corpo é, nesses espaços, o estandarte de resistência pelas diversas militâncias


Graduando pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia- Vitoria da Conquista/BA. Integrante do
Labedisco/UESB- Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo- Materialidades do Corpo e do Horror.
Iniciação científica- IC/ FAPESB. E-mail: daniel.labedisco@gmail.com

Pós- doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle- Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós- graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia. É líder do Labedisco/ CNPq- Laboratório de Estudos do Discurso e do
Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail: nilton.milanez@gmail.com

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que há sobre e no corpo, pois o corpo é a matéria que constitui o poder, o indivíduo é a
ponte direta dos saberes: [...] Em suma, o que se descobriu não foi o enunciado atômico -
com seu efeito de sentido, sua origem, seus limites e sua individualidade -, mas, sim, o
campo de exercício da função enunciativa (FOUCAULT, 2013).

Materiais e método

Os posicionamentos epistemológicos e discursivos de dois pensadores, Foucault e


Milanez, me levaram ao questionamento sobre a análise do corpus “A mulher do desejo”; o
discurso, os lugares que o sujeito se posicionou sob Estados de poder; domínio do corpo
como norma e, quando posicionado em lugar de ruptura com tal domínio, é
imageticamente caracterizado como louco, bicho e animalesco.
A materialidade fílmica e a linguagem cinematográfica compuseram a análise teórica e
metodológica para que pudéssemos analisar o domínio do corpo do sujeito dentro do
campo discursivo (FOUCAULT, 2013), aparecendo o corpo dominado a partir dos
mecanismos de distância, dos ângulos e análise do campo discursivo que constituem o
corpo do sujeito monstruoso, planos de sequência e cenas da decomposição
cinematográfica. O close, fechado no rosto animalesco do sujeito, o insere na metamorfose
animalesca (lobisomem), apontando o discurso do domínio do corpo pelos lugares
institucionais que o sujeito está posicionado, para quem ele fala e de onde ele fala; conceito
de enunciado (MILANEZ, no prelo). O lugar que esse corpo como sendo posicionado ao
discurso fundamentalista da religião e jurídico compõe os encadeamentos que intercalam
campos discursivos tópicos, heterogêneos e normativos, onde o corte dentro da cena nos
mostra a radical posição do sujeito quando vai de encontro ao domínio, usando o seu
corpo como disputa de igualdade, onde mais uma transfiguração se dá ao sujeito: Forma de
bicho, porque o bicho assusta (COURTINE, 2013).

Resultados e discussão

O close, nos objetos que formaram o campos discursivo e todo o espaço cenográfico,
posicionou o sujeito num estado de guerra por causa de seu corpo que fora mudando,
transfigurando, assumindo individualidade jurídica, discursiva, onde no livro “ A
Arqueologia do Saber” de Michel Foucault, pude analisar o corpus “ A Mulher do Desejo”
a partir de “A Formação dos objetos, “ As Formações Discursivas”; “ A Formação das

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Modalidades Enunciativas”; “A Função Enunciativa”; “ A Descrição dos Enunciados”, que


serviram de dispositivo para que eu pudesse analisar o discurso do sujeito, os espaços que o
que corpo do sujeito ocupou e as retomadas do campos discursivo, para que eu
compusesse a análise sobre o domínio e a disputa desse corpo para manter-se como
imagem singular nos lugares institucionais do qual o poder e saber constituíram o sujeito de
meu corpus, ora como “normal”, ora como louco, animalesco; um corpo socialmente
repressivo.

Conclusão

A análise do filme “A Mulher do Desejo” e a materialidade fílmica, compondo a


análise teórica e os estudos sobre domínio, corpo, discurso, e metamorfose, inquietaram-
me para pensar em Monstruosidade como ordem. Os diversos espaços, lugares e dizeres
(campos discursivo), constituíram o corpo do sujeito analisado como sendo um corpo
preso ao discurso de um lugar chamado fundamentalismo religioso, tornando o sujeito
sempre um corpo filmado, controlado e punido. Seja a punição quando o sujeito se
aproxima do discurso jurídico marginal, seja quando o corpo do sujeito se espalha e não
constitui posições normativas para que possa falar, ouvir, e estar em qualquer lugar, falando
qualquer coisa para qualquer sujeito. Existe uma ordem, uma lei e quando não estamos
dentro de uma ordem discursiva, assumimos um poder contra instituições sociais, onde o
corpo do indivíduo não pode representar lugares de saber, pois o processo de saber nos faz
estar livres quando estamos em harmonia com todos esses lugares que o nosso corpo
transita, seja em casa, com os amigos, com o namorado ou em lugares governamentais.

Referências

AUMONT, Jacques. A imagem. Trad. de Estela dos Santos Abreu e Cláudio C. Santoro.
Campinas, SP: Papirus, 1993.

COURTINE, Jean-Jacques. Decifrar o corpo: pensar com Foucault. Trad. de Francisco


Móras. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

DREYFUS, Hubert L. Michel Foucault: uma trajetória filosófica; (para além do


estruturalismo e da hermenêutica . Trad. de Vera Porto Carrero. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1995.

FOUCAULT, Michel. Ética, sexualidade, política. Trad. de Elisa Monteiro e Inês


Dourado Barbosa. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. (Ditos e Escritos V)

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FOUCAULT, Michel. Estética, literatura e pintura, música e cinema/Michel Foucault,


organização de textos, Manoel Barros da Motta, tradução, Inês Antran Dourado Barbosa-
2ed- Rio de Janeiro. Forense Universitária. 2009. Ditos e escritos III)

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do Saber. Trad. de Luiz Felipe Baeta Neves. 8ª ed.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.

MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. Trad. Paulo Neves. São Paulo:


Brasiliense, 2003.

POE, Edgar Allan. Contos de Terror, de mistério e de morte. Trad. de Oscar Mendes.
Rio de Janiero: J. Aguiar, 1975.

REVEL, Judith. Subjetivação. In: _____. Foucault: conceitos essenciais. Trad. de Maria
do Rosário Gregolin, Nilton Milanez, Carlos Piovessani. São Carlos: Claraluz, 2005. p. 82-
83.

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Corpo, sujeito e monstro: análise do discurso do terrir no filme


“Um Lobisomem na Amazônia”

Diana de Oliveira Brito (UNEB/AUDiscurso-UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: Filiando-nos aos pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso


francesa e seus estudos no Brasil, este trabalho propôs compreender e investigar os
discursos materializados no filme Um Lobisomem na Amazônia, de 2005, do diretor Ivan
Cardoso e a constituição do Terrir no cinema brasileiro. Da mesma maneira, em relação ao
discurso fílmico, Quem fala? (FOUCAULT, 2008, p.16). Desse modo, o corpus aponta para
condições de possibilidade das produções discursivas no quadro do Terrir, o que os insere
em funções enunciativas bastante específicas no tocante ao que é permitido e, ao mesmo
tempo, proibido em uma rede de acontecimentos discursivos. Dessa forma, na densidade
das práticas discursivas, como ressalta Foucault (2007), discutimos e analisamos extratos da
materialidade fílmica de Um Lobisomem na Amazônia (2005), observando e apontando como
se constroem discursivamente formas de saber e poder que se sobrepõem à noção de
monstruosidade dos corpos, definindo assim, a posição e o vínculo do sujeito com o
discurso, no âmbito do Terrir.

Palavras-Chave: Corpo; Sujeito; Monstro; Terrir.

Introdução

Este trabalho será visualizado por meio dos discursos presentes na materialidade
fílmica Um Lobisomem na Amazônia (2005), do diretor brasileiro Ivan Cardoso, a partir de
discursos sobre o corpo e materializações de poder presentes no filme, de modo que escapa
por uma lacuna persuadindo e impondo os sujeitos em suas práticas sociais e como as
constituem em discursos. Nesse sentido, o intuito central desse trabalho é mostrar a
constituição do corpo e seu funcionamento em sua singularidade como suporte a partir do
qual é possível desvendar sentidos na história, considerando-o como uma superfície a partir
da emergência dos discursos.


Pós-graduanda em Práticas Docentes Interdisciplinares pela Universidade do Estado da Bahia- campus-VI;
participante do AUDiscurso/CNPq– Laboratório de Estudos de Audiovisual e Discurso da Universidade do
Estado da Bahia - UNEB/DCH VI. Participante do GRUDIOCORPO/CNPq - Grupo de Estudos sobre o
Discurso e o Corpo e do Labedisco/UESB - Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo, Coordenado
pelo Prof. Dr. Nilton Milanez. E-mail: nilton.milanez@gmail.com: E-mail: dianabrito78@hotmail.com

Pós- doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle- Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós- graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia. É líder do Labedisco/ CNPq- Laboratório de Estudos do Discurso e do
Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail: nilton.milanez@gmail.com

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No entanto, elevando o filme como um objeto de análise, é possível o esclarecimento


de toda uma atuação de poderes capazes de esclarecer a desordem do corpo monstruoso
por habitar em seu corpo um animal para revelar a sua própria monstruosidade, por meio
das relações do discurso terrir.

Materiais e método

A investigação será visualizada por meio da constituição dos sujeitos inseridos no


corpus, manifestados por meio do uso da linguagem, produzidos e, ao mesmo tempo,
produtores de sentido para uma produção discursiva e um jogo de análise em suas
atividades sociais. Ratificando a metodologia foucaultiana (2013) de cortar, extrair, deslocar
e reconstruir, tomaremos recortes do filme considerado como uma unidade de sentidos
para analisar como se constitui o corpo monstruoso. Os recortes foram selecionados de
acordo com o princípio de descontinuidade dos discursos. Assim, investigaremos as
condições de produção, olhando para as possibilidades de explicitar como cada enunciado
tem uma regra de aparição e não outra em seu lugar. Seguindo o método arqueológico
proposto por Foucault (2007a), tomaremos a metamorfose dos personagens como uma
“roupagem” para um discurso científico como produção horrífica constituída pela
materialidade fílmica. Assim, em termos metodológicos, recortaremos os planos,
agruparemos os mesmos em sequências e discutiremos a materialidade repetível dos
enunciados, consoante com Foucault (2013), para mostrar como os sujeitos são sujeitados,
isto é, destacando campos discursivos que, em focos dispersos, apontam posicionamentos
do sujeito e materialidades determinadas para os corpos.

Resultados e discussões

A investigação da constituição do sujeito no corpus será visualizada pelos elementos


presentes que estabelecem uma análise discursiva e por meio da metamorfose dos
personagens, rompendo com a ordem do discurso (FOUCAULT, 2007). Foucault (1987, p.
61) entende o sujeito como um ser descentralizado, construído historicamente pelo saber e
pelo poder e que se encontra disperso nos “diversos status, nos diversos lugares, nas
diversas posições que o sujeito pode ocupar ou receber quando exerce um discurso, na
descontinuidade dos planos de onde fala” (FOUCAULT, 1987, p. 61). Para Bergson (1984,
p. 6), o riso constitui, “rimos dos desvios que nos apresenta como simples fatos”. Ou seja,

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como o mesmo filósofo ratifica em outro trecho: “(...) é incontestável que certas
deformidades têm em certos casos o poder de provocar o riso.” Por este viés, certos
estados, como a feiura e o anormal, podem virar motivos de riso. Deste modo, o risível
aparece como ações que produzem um efeito de sentido que resulta de uma crítica a um
perfil de alguém que não atingiu um ideal pré-estabelecido socialmente. Sendo assim, o riso
seria como uma crítica de modos, costumes e doutrinas. A exterioridade identifica as
“condições de possibilidades do discurso, a produção dos acontecimentos e sua
singularidade que se manifesta em seu pensamento” (FOUCAULT, 2011). Nesse sentido, o
cinema de Ivan Cardoso “faz emergir aquilo que foge à ordem dada como natural das
coisas, transgredindo as leis e a normalização de uma dada produção histórica”
(MILANEZ, 2011). Guiados pelo questionamento “quem somos nós?” (FOUCAULT,
2008), “em meio a relações perpassadas pelos discursos”, somos instigados a tomarmos a
materialidade dos elementos dos quais dependem para produzir. Pois, ao mesmo tempo em
que é produzido, produz corpos inseridos nas práticas sócias e históricas. Sendo assim,
ilustramos que nas condições de produção a palavra metamorfose, ao ser utilizada por
“determinado sujeito, integra um discurso e não outro tendo em vista a posição, o lugar
sócio histórico daqueles que enunciam” (FERNANDES, 2008).

Conclusão

A elaboração dessa análise objetivou proporcionar uma melhor compreensão acerca


da constituição do sujeito transgressor, enquanto produção discursiva. Sendo assim, estes
discursos são materializados no corpo e suas condições de possibilidades pela busca de
uma fórmula que fosse capaz de trazer à tona a natureza incumbida do ser humano. As
condições de possibilidade dos discursos mostram as relações de saberes e poderes e o
lugar dos corpos monstruosos na sociedade. Desse modo, o corpo no discurso fílmico de
Um Lobisomem na Amazônia é fonte de discussão do horror e do riso. Como nos é mostrado,
ao mesmo tempo, em estado de monstruosidade e de forma sombria, gestos, modos, falas e
caretas, aparece o cômico. Assim, quando o cientista está em cena, o filme em vez de
causar medo, provoca o riso.

Referências

BERGSON, Henri. O riso. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.

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FERNANDES, C. A. Análise do discurso: reflexões introdutórias. 2ed. São Carlos:


Claraluz, 2008.

FOUCAULT, M. Arqueologia do saber. Tradução de L.F. BNeves. 3ed. Rio de Janeiro:


Forense-Universitária, 2007.

____. A ordem do discurso. Tradução de L. F. A. Sampaio. 21 ed. São Paulo: Loyola.


2011.

____. O que são as luzes? In: MOTTA, M. B. da. (Org.). Michel Foucault: Arqueologia
das ciências e históriados sistemas de pensamento. Ditos e Escritos II. 2 ed. Tradução de
E. Monteiro. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

MILANEZ, N. Discurso e imagem em movimento: o corpo horrífico do vampiro no


trailer. São Carlos: Claraluz, 2008.

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Desdobramentos do corpo: o discurso do sonho no filme


"Meshes of the afternoon"

Flora Paranhos Monteiro Alvarenga (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: Esse trabalho tem como objetivo observar os discursos materializados no filme
“Meshes of the afternoon”, de Maya Deren e Alexander Hammid, a partir dos recursos
cinematográficos utilizados na construção do curta. A noção de discurso será pautada em
alguns estudos de Michel Foucault. Tendo em vista que a presente obra traz em si muitas
possibilidades de discussão, o foco será no discurso da morte, que traz consigo o discurso
do sonho. O recurso a ser mais analisado será a produção de sentido através do movimento
de câmera, juntamente com o som.

Palavras-Chave: discurso; morte; sonho; recursos cinematográficos; heterotopia.

Introdução

“Meshes of the afternoon” é um filme de 1943, dirigido por Maya Deren e Alexander
Hammid. O curta apresenta uma personagem que ao entrar em uma casa vai dormir e, a
partir de uma experiência onírica, tem um encontro consigo mesma. O tema a ser analisado
no filme é a produção da atmosfera de sonho, esse lugar onde o tempo é outro. Esses
espaços do filme produzem uma aproximação com o inconsciente na revelação do discurso
da morte, do sonho.

Material e métodos

A combinação do movimento de câmera e som causam uma sensação onírica de


suspensão do tempo. “As heterotopias estão mais frequentemente ligadas a recortes de
tempo, ou seja, elas dão para o que se poderia chamar, por pura simetria, de heterocronias.
A heterotopia se põe a funcionar plenamente quando os homens se encontram em uma
espécie de absoluta ruptura com o tempo tradicional; vê-se por aí que o cemitério é um
lugar altamente heterotópico, já que o cemitério começa com essa estranha heterotopia que
é, para o indivíduo, a perda da vida e essa quase-eternidade em que ele não cessa de se


Estudante do terceiro período de cinema e audiovisual na UESB.

Pós- doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle- Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós- graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia. É líder do Labedisco/ CNPq- Laboratório de Estudos do Discurso e do
Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail: nilton.milanez@gmail.com

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dissolver e de se apagar”. (FOUCAULT, 2006, p.411). A partir disso percebe-se que esses
elementos nos levam à discussão da morte e sua relação com o sono e o sonhar.

Resultados e discussão

Existem cinco personagens. Três desses personagens possuem o mesmo corpo, o de


uma mulher (no caso, a própria diretora atua no filme). O quarto é uma personagem de
túnica preta que possui um espelho circular no lugar do rosto. O quinto personagem é um
homem. A partir disso, observa-se a noção de heterotopia de Michel Foucault. Então,
pode-se dizer que existe uma personagem que se reparte em quatro “outras mesmas”. A
personagem central começa a ter mais de um corpo e esses novos corpos são revelados
quando ela dorme e começa a ter experiências oníricas. Mas, desde a primeira cena, o
espectador é levado para uma atmosfera de sonho, construída pela movimentação de
câmera, pegando ângulos inusitados e fluidez ao percorrer os espaços. Em alguns
momentos, a câmera paira e, juntamente com a movimentação da personagem que em
alguns momentos faz uma espécie de dança, produz uma sensação de leveza e, ao mesmo
tempo, uma tensão no encontro da personagem com ela mesma, sensações típicas do
estado de sonho. A música do filme é instrumental, variando entre uma música de flauta e
violão e o som de uma batida ritmada. Assim que a personagem dorme, entra um som
vocal em conjunto com um instrumento de corda. Essa variação de sons e o silêncio
recorrente (revelador dos ruídos) são de grande importância na criação do universo onírico
do filme. Os recursos cinematográficos listados levam o espectador a compartilhar do
estado de transe da própria personagem.
Apesar do filme possuir elementos surpreendentes para a época, esses temas foram
possíveis de serem abordados por conta de várias mudanças da sociedade da época dos
anos 30 e começo dos 40. A arte e os estudos de Luis Buñuel, Marcel Duchamp, Salvador
Dalí, André Breton e Sigmund Freud também estavam presentes nesse dado momento
histórico, resgatando os discursos do mundo dos sonhos e do inconsciente materializados
como lugar da morte em “Meshes of the afternoon”.

Conclusão

A partir da união do movimento de câmera, do som e da relação dos corpos,


observa-se o discurso da morte produzido pela heterotopia desses corpos e pelo mundo

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onírico, na qual a junção desses recursos cinematográficos resulta. A heterogeneidade é


percebida como múltiplas formas de vida produzidas pelas presenças de corpos distintos,
mas a atmosfera do sonho e a morte realçam a heterogeneidade dos corpos em um estado
de transe.

Referência

FOUCAULT, Michel. Outros espaços. In: Estética, literatura, pintura, música e


cinema. (Ditos e Escritos). Vol. III . 2.edição. Organizador e introdução de Manoel
Barros da Motta. Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2001.

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O corpo está em jogo! Modalidades enunciativas do corpo e do


sujeito na série de games "Resident evil"

George Lima (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: Poucos trabalhos no campo epistêmico da análise do discurso debruçam-se


sobre o videogame. Isto talvez por ser um dispositivo relativamente novo ou, ainda, por ser
muitas vezes visto como um artefato de massa pertencente à cultura pop, disposto ao
simples e tão só divertimento. No presente trabalho, no entanto, enfrentaremos o
funcionamento do videogame a partir de uma análise discursiva. Para tanto, propomos o
questionamento das condições de existências das imagens dos games, considerando os
tipos de corpos que ali assumem posições sociais e institucionais, como também os sujeitos
que se constroem nesse ambiente, produzindo posicionamentos bastante específicos. Desta
perspectiva, objetivamos investigar quais são os lugares institucionais em que os
posicionamentos dos corpos e de seus sujeitos e seus corpos se constituem nas imagens de
jogo dos games da série Resident Evil (1996, 1998 e 1998).

Palavras-Chave: Modalidades enunciativas; Games; Resident Evil; Análise do Discurso.

Introdução

No presente trabalho, guiaremo-nos pela hipótese de que a posição dos sujeitos e a


formação dos corpos construídas nos games configuram “condições de existência”
(FOUCAULT, 2008, p. 45), tomando como objeto teórico-analítico três jogos da série
Resident Evil (1996, 1998 e 1999). Desse modo, nosso objetivo é identificar, descrever e
analisar os modos de enunciar das formações corporais e dos posicionamentos dos sujeitos
que se constroem por meio das imagens dos jogos da série Resident Evil.

Material e métodos

Durante nossa investigação, para estabelecermos a descrição do funcionamento dos


games, atentaremos às modalidades de existência das performances que compõe a unidade
dos games, considerando esse tipo de unidade como unidade do discurso. Compreendemos
corpo sob uma perspectiva discursiva, i.e., os corpos são formações que obedecem a


Graduado em Letras pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB.

Pós- doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle- Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós- graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia. É líder do Labedisco/ CNPq- Laboratório de Estudos do Discurso e do
Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail: nilton.milanez@gmail.com

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sistemas de seleção, hierarquização e classificação, no quadro de uma ordem do discurso


para o corpo, tomando as problematizações de Foucault (2010). Além disso, o corpo é o
objeto de decifração e está inscrito na história das imagens, como nos explica Courtine
(2013), e também, como elucida Milanez (2009, p. 215), “será preciso [...] estabelecer os
limites que fazem com que ele apareça ali naquele momento, naquele lugar e não em
outro”. Essas problematizações estão alicerçadas sobre três princípios das modalidades
enunciativas: 1) “quem fala?”; 2) os “lugares institucionais”; e 3) as posições do sujeito e as
situações (FOUCAULT, 2008, p. 56-61).

Resultados e discussão

Observando a variação conjuntural produzida pela (co)existência discursiva de


posicionamentos, durante nossa investigação atentaremos aos modos de enunciação em
torno do primeiro game da cronologia oficial da série Resident Evil. As experiências pelo
FPS2 dos games da série Resident Evil são vivenciadas por personagens do jogo que
participam das equipes de patrulha enviadas. Esses personagens são indivíduos que, de
algum modo, acabam se envolvendo na trama dos jogos, os quais lutam contra vários tipos
de monstros (zumbis e outras espécies fantasmagóricas), deparam-se com obstáculos e
precisam cumprir alguns objetivos para prosseguir no jogo. Inicialmente, podemos
perceber que no game Resident Evil são apresentadas duas “opções” de personagem
(Chris Redfield e Jill Valentine) para o jogador, que ocuparão o posicionamento de FPS. É
possível destacar duas posições aí na medida em que se materializam essas duas
formulações de alternativa. Tais lugares apresentam em comum um modo de enunciação,
os quais, embora mantenham suas singularidades enunciativas, possuem algumas
constantes e se correlacionam, i.e., as opções são essencialmente carteiras de identificação
dos personagens policiais que podem ocupar a trama principal do game. Isto pode ser
constado na sinalização do termo “POLÍCIA”, número de identificação, assinatura e a
indicação do local a que prestam serviço grafado no emblema da S.T.A.R.S.

Conclusões

Longe de querermos materializar um discurso finalizador, acreditamos que esta


reflexão, de algum modo, não acabará aqui. Nesta perspectiva, podemos compreender que

2FPS (First-Person Shooter), conhecido no Brasil como “tiro em primeira pessoa”, trata-se de um estilo de jogo
de ação que coloca o jogador na posição de personagem do jogo utilizador de armas de fogo.

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games constituem - e são constituídos por - lugares institucionais que possibilitam


posicionamentos de sujeitos e de corpos nas imagens do jogo. Desse modo, em nossa
análise podemos perceber que um dos lugares institucionais que compõem a unidade
discursiva do game é um lugar de domínio dos policiamentos e dos corpos.

Referências

COURTINE, Jean-Jacques. Decifrar o corpo: pensando com Foucault. Rio de Janeiro:


Vozes, 2013.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 7ª


ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.

_______. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2


de dezembro de 1970. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. 20ª ed. São Paulo:
Edições Loyola, 2010.

MILANEZ, Nilton. Corpo cheiroso, corpo gostoso: unidades corporais do sujeito no


discurso. In: Acta Scientiarum: language and culture, Maringá, v. 31, n. 2, p. 215-222,
2009.

_______. Discurso e imagem em movimento: o corpo horrorífico do vampiro no


trailer. São Carlos: Claraluz, 2011.

RABIN, Steve. Introdução ao desenvolvimento de games – volume I. São Paulo:


Cengage Learning, 2013.

_______. Introdução ao desenvolvimento de games – volume 2. Tradução de


OpportunityTranslations. São Paulo: Cengage Learning, 2012.

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The castle of otranto: a espacialidade fantástica


em Horace Walpole

Geysa Dayanne Gomes da Costa (UNEB/AUDiscurso)3


Janaina de Jesus Santos (UNEB/AUDiscurso)4

Resumo: O presente trabalho investiga os espaços discursivamente construídos no


romance The Castle of Otranto, de Horace Walpole [1764] considerando sua constituição
histórica e suas marcas do fantástico. O dispositivo teórico-metodológico deste estudo é a
Análise do Discurso de linha francesa e os postulados de Michel Foucault (2008). Para
alcançar o objetivo deste estudo, descrevemos os enunciados que evidenciam a constituição
do espaço fantástico no romance; em seguida, buscamos as regularidades em outros
romances com esta temática a fim de construir uma rede de memória; por fim,
investigamos a dispersão e a unidade dos discursos sobre a espacialidade fantástica.
Tomou-se os referenciais teóricos da Literatura, como Lovecraft (1987) e Gama-Khalil
(2009), que apresentam características tanto do fantástico quanto dos espaços discursivos.
Sob esta ótica, buscamos compreender as relações que são instituídas em Walpole, visando
interpretar a forma como se organizam os espaços que são construídos pelas práticas
discursivas. Percebemos que a espacialidade fantástica produz sentidos, evidencia os
sujeitos, a historicidade e os espaços heterogêneos que são marcados por relações de
posicionamentos contra os mecanismos de poder.

Palavras-Chave: Discurso; Literatura Fantástica; Espaço discursivo; Horace Walpole;


Memória discursiva.

Introdução

Esta investigação se apresenta com o intuito de verificar os espaços fantásticos em


The Castle of Otranto de Horace Walpole, a partir do campo teórico da Análise do Discurso,
compreendendo-os como constituição histórica. Dessa forma, analisaremos os espaços
externos e internos como construções de discursos historicamente situados, levando em
consideração a memória discursiva e os sujeitos discursivos que são evidenciados pelos
elementos fantásticos que emergem nessa obra.

3Graduada em Letras com habilitação em Língua Inglesa e suas Literaturas pela Universidade do Estado da
Bahia; participante do AUDiscurso/CNPq – Laboratório de Estudos de Audiovisual e Discurso Universidade
do Estado da Bahia (UNEB/ DCH VI) Email: geysacosta04@gmail.com.
4 Professora Assistente da Universidade do Estado da Bahia, campus VI. Coordenadora do

AUDiscurso/CNPq - Laboratório de Estudos do Audiovisual e do Discurso/UNEB, no qual desenvolve o


Projeto de Pesquisa “Sujeito, corpo e discurso no cinema: desdobramentos interdisciplinares” e de extensão
“Discurso e ensino: abordagem interdisciplinar dos saberes” Email: janainasan@gmail.com.

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


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Material e Métodos

No intuito de compreender o espaço fantástico e os discursos que mobilizam uma


rede de memória discursiva, a investigação destes processos será visualizada através do
corpus selecionado The Castle of Otranto, considerando as materialidades que deflagram uma
produção de sentidos em torno dos sujeitos e do fantástico.
Por meio da Análise do Discurso, analisaremos os recortes feitos na busca por
compreender os espaços que instauram a atmosfera fantástica, a fim de evidenciar a
memória discursiva evocada na obra, nos apropriando de ferramentas que vislumbram o
enredo em “seu ponto menos trivial” (LOVECRAFT, 1987, p.18). A partir do método
arqueológico proposto por Foucault (2008), julgaremos cada momento de discursos em sua
irrupção de acontecimentos, compreendendo-os como unidades de enunciados que
reaparecem, se transformam, se deslocam e que se dão a ver em uma descontinuidade
temporal. Como delimitação do trabalho proposto, destacamos, em The Castle of Otranto,
cenas que expõem uma ambientação fantástica, espaços que nos levam a compreensão das
regularidades vislumbradas por meio dos discursos que são mobilizados.

Resultados e discussão

A sequência de fatos em The Castle of Otranto envolve o leitor na descrição de uma


arquitetura gótica e deflagra um sujeito transgressor, que pode ser contemplado na figura
do príncipe Manfredo, a partir do momento em que passa a perseguir uma jovem que se
casaria com seu filho. A ambição do príncipe Manfredo é o fio condutor de uma narrativa
que deflagra a espacialidade do castelo, pois a partir de sua perseguição à jovem Isabel,
conseguimos visualizar uma atmosfera fantástica que é desencadeada pela espacialidade da
narrativa.
Acerca desse sujeito, podemos considerar o que Foucault afirma sobre a heterotopia
de desvio, que é “aquela na qual se localizam os indivíduos cujo comportamento desvia em
relação à média ou à norma exigida” (FOUCAULT, 2001, p.416). Manfredo representa esse
desvio da norma, sendo revelado como um sujeito que foge a ordem do discurso e
transgride os padrões morais e sociais desde o momento em que se apropria de um trono
pertencente a outro e, ambiciosamente, deseja um matrimônio prematuro de seu filho, a
fim de evitar o cumprimento de uma antiga profecia relacionada à volta do verdadeiro
possuidor daquelas terras.

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Foucault (1999, p.16) ainda assevera que “nessa sociedade tudo tem que entrar numa
ordem e estar de acordo com vontades de verdade, que devem ser seguidas para não
romper com as regras de disciplinarização”. Este sujeito é designado por intermédio das
relações de poder que se constituem historicamente. Nesse sentido, os mecanismos de
poder constituem o indivíduo e o subjetivam. Contudo, nesse processo, o sujeito, para
constituir-se como sujeito de sua própria existência, “afronta as regras, rebela-se contra os
mecanismos de poder, questiona os modos de sua sujeição” (KHALIL, 2008, p. 99).
Nesta perspectiva, o príncipe é evidenciado como um sujeito transgressor, que resiste
às regras e enfrenta os mecanismos de poder, neste caso, os princípios morais e religiosos.
Assim, o espaço narrado em Walpole é configurado por situações de infelicidade, sua
configuração geográfica é construída por um enredo de transgressão à ordem. Isso se torna
perceptível, pois “a descrição dos espaços geográficos e dos espaços interiores das
personagens delineiam não apenas os cenários sociais, mas, especialmente, os cenários
ideológicos” (KHALIL, 2009, p.63), ou seja, os próprios espaços em que os mesmos estão
inseridos constituem-se e a partir de uma movência de comportamentos sociais.

Conclusões

Em The Castle of Otranto, os espaços externos e internos estão em um constante


imbricamento, pois, ao passo que a ambientação e arquitetura do castelo são apresentadas
de forma fantasmagóricas, com aspectos sobrenaturais que rompem com toda a ordem
familiar, os espaços internos se materializam na resistência dos sujeitos aos valores judaico-
cristãos. Podemos dizer que a espacialidade fantástica em Horace Walpole é construída sob
um desvio heterotópico e que sua arquitetura se opõe às condições sociais e culturais do
século XVIII, rompendo com as tradições, gerando desconforto e incertezas. Dessa forma,
percebemos que a espacialidade fantástica é um forte gerador de produção de sentidos,
evidencia os sujeitos, o social e os espaços heterogêneos, que são marcados por relações de
posicionamentos contra os mecanismos de poder.

Referências

FOUCAULT, M. (1969). Arqueologia do saber. 7 ed. Tradução: Luiz Felipe Baeta Neves.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. 221 p.

___________,M. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. 5. ed.


São Paulo: Loyola, 1999.

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


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___________, M. Outros espaços. In: Ditos e Escritos III : estética, Literatura, pintura,
música e Cinema. Tradução Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2001.

GAMA-KHALIL, Marisa Martins. As práticas de subjetivação nos espaços d’O conto


da ilha desconhecida. In: MILANEZ, Nilton; SANTOS, Janaína J. Análise do discurso:
sujeito, lugares e olhares. Saõa Carlos, Claraluz, 2009, p. 63-74.

_______________, M. M. O espaço do fantástico como leitor das diferenças sociais:


uma leitura de “O homem cuja orelha cresceu”. Belo Horizonte, 2008.

_______________, M. M. Lar amargo lar: moradias insólitas nas narrativas de clarice


lispector e de murilo rubião. 1 ed. Brumal, 2013.

LOVECRAFT, H. P. O horror sobrenatural na literatura. Trad. Guilherme Linke. Rio


de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

WALPOLE, H. O Castelo de Otranto. Tradução de Alberto Alexandre Martins.


Apresentação de Ariovaldo José Vidal. São Paulo: Nova Alexandria, 1996.

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A anarquia é para todos: discurso político em "V de vingança"

Isa Ferreira Lima (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: O filme “V de Vingança” é o objeto principal de estudo deste trabalho. A partir


dele, acessando também a obra em quadrinhos que o originou, constrói-se um breve estudo
sobre a política, a partir de leituras de Foucault, principalmente de suas discussões sobre
poder. O discurso anárquico se desdobra em diversas possibilidades e a máscara é um
objeto em foco, como os recursos técnicos do cinema evidenciam a cada cena. Essa
disposição dos corpos e os enquadramentos de cada cena guiam a análise da construção
desse discurso, montados de maneira a opor poderes na tela.

Palavras-Chave: Discurso; Política; Corpo; V de vingança.

Introdução

O próprio herói do filme ressalta o paradoxo criado ao se perguntar a um mascarado


quem ele é. O “quem” é diluído sob a máscara e o sujeito se torna a “ideia”. A máscara é o
lugar de ocultação do rosto, o codinome é o lugar de ocultação do nome – as possibilidades
de vigilância sobre a figura do homem que ele é são desviadas. Indo de encontro aos
interesses do Estado, mutilando-o, a máscara acaba sendo o corpo de uma “ideia” de
anarquia como possibilidade de política.

Material e métodos

O filme “V de Vingança” é o objeto principal de estudo deste trabalho. A partir dele,


acessando também a obra em quadrinhos que o originou, constrói-se um breve estudo
sobre a política, a partir de leituras de Foucault, principalmente de suas discussões sobre
poder. O discurso anárquico se desdobra em diversas possibilidades e a máscara é um
objeto em foco, como os recursos técnicos do cinema evidenciam a cada cena. Essa


Graduanda em Cinema e Audiovisual, VII semestre, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. E-
mail: isa.lima.isa@gmail.com

Pós- doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle - Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós- graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia. É líder do Labedisco/ CNPq- Laboratório de Estudos do Discurso e do
Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail: nilton.milanez@gmail.com

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disposição dos corpos e os enquadramentos de cada cena guiam a análise da construção


desse discurso, montados de maneira a opor poderes na tela.

Resultados e discussão

Uma cena que ocorre logo ao início do filme: após a colocação da máscara, vemos o
reflexo no espelho, que, então, torna-se o nosso próprio reflexo. Essa apropriação sobre
estratégias de poder e de controle nos leva a um discurso do anarquismo como poder
coletivo, num discurso político de igualdade. Ao final do filme, todos tem o mesmo rosto e,
em multidão, são um corpo contra o Estado. O Estado, pelo contrário, é apenas um rosto
– o rosto do Chanceler Sutler, que é sempre centralizado e gigantesco na imagem. Sob a
vigília constante deste panóptico, o sujeito “torna-se o princípio de sua própria sujeição”
(VIGIAR E PUNIR, 2013, p. 192). Os homens-dedo são extensões da mão dominadora do
Estado, apontando o que é certo e o errado. Os homens-dedo são também os olhos do
Estado, uma vez que cumprem também a função de vigilância.

O rosto do Estado, cinco extensões formam sua mão

Este corpo fragmentado, que é o Estado na trama, é oposto ao corpo homogêneo


que vai surgindo sob a máscara da revolução – um mesmo rosto que se aplica a vários
corpos, a cada vez mais corpos. Há uma expansão do sujeito, que se reconhece enquanto
possibilidade histórica diante de outros personagens do passado. V é uma produção de
outros, ou seja, a condição que possibilita sua existência apenas é possível pela existência
anterior de todas as suas “imagens de referência”. Assim, V carrega consigo todo o
percurso histórico da construção de sua figura, opondo-se a uma historicidade da imagem
ditatorial que o Estado adquire em narrativas distópicas. O que vemos é que este corpo é
de uma organização que o corpo esquartejado do Estado não consegue alcançar. O corpo
anônimo de V trabalha num domínio e num cuidado de si expressos pela precisão de seus
movimentos e pelo ritual cuidadoso de vestir-se. Este governo de si joga com a

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compreensão política de anarquia, criando um outro “paradoxo”: a derrubada do Estado é


que permitiria a organização e a Justiça. Esta última só existiria plenamente longe de
dispositivos de controle – a Justiça que se expande além do âmbito jurídico. Somente
quando todos usam a mesma máscara é que seria permitido a cada um exercer suas
individualidades.

O corpo da revolução, muitas cabeças com o mesmo rosto.

Conclusão

A estratégia que se cria para dar forma ao discurso político no filme é a de inversão:
o Estado, numa prática ditatorial, é um rosto que estende seu poder a um corpo,
designando funções desse corpo a outros. Os interesses do povo, o discurso de igualdade
que permite individualidade, são um corpo que se apresenta por um rosto, o rosto de V.
Diante do espelho, a máscara de V torna-se o reflexo de Evey, depois o de toda a Londres
e, ainda, o do espectador.

Referências

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel


Ramalhete. 41. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

_____. Microfisica do poder; organização, introdução e revisão técnica de Roberto


Machado. 26. ed. São Paulo: Graal, 2013.

MILANEZ, Nilton. Os sintomas do discurso: sujeito, corpo e clínica na mídia. 2007,


in Comunicação, Mídia e Consumo – ESPM, v.4, n. 11.

MOORE, Alan; LOYD, David. V de Vingança. Barueri, SP: Panini Books, 2012.

“V for Vendetta”. Direção: McTEIGUE, James. Warner Bros., EUA, 2006. Elenco: Hugo
Weaving, Natalie Portman. Em DVD.

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Análise do discurso-corpo do horror em "Amor só de mãe"

Iuri Rocha Pires(UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: Este estudo tem como objetivo analisar o discurso-corpo no horror


materializado no filme Amor só de Mãe, de Dennison Ramalho, sob a perspectiva da análise
do discurso e dos estudos empreendidos por Michel Foucault, ou seja, buscamos analisar
os dispositivos de montagem, tais como enquadramento, fotografia e iluminação na
construção da significação da dualidade de bem e mal.

Palavras-Chave: Discurso-corpo; Horror; Materialidade fílmica.

Introdução

Ao analisar o filme de curta metragem nacional Amor Só De Mãe, do diretor


Dennison Ramalho, produção de 2002, levo em consideração o discurso religioso
apresentado no filme materializado pelas repetições de recursos cinematográficos. Filho é
um pescador que mora com a mãe num povoado no litoral brasileiro. Ele vive um romance
com Formosa, que tenta de tudo para que ele deixe a mãe e vá embora com ela, até que um
dia, possuída por uma entidade, pede o coração da mãe como prova de amor e lealdade.

Material e métodos

Partimos dos pontos: Primeiro, apropriamos da fala de Foucault (2003, p. 255) na


qual ele diz:

Eu me dei como objeto uma analise do discurso [...] O que me interessa


no problema do discurso é o fato de que alguém disse alguma coisa em
um dado momento. Isto é o que chamo de acontecimento [...] O fato de
eu considerar o discurso uma série de acontecimentos nos situa
automaticamente na dimensão histórica [...] Se faço isso é com o objetivo
de saber o que somos hoje. Quero concentrar meu estudo no que nos
acontece hoje, no que somos, no que é nossa sociedade.


Graduando em Cinema e Audiovisual pela UESB. E-mail: iurirpires@hotmail.com

Pós- doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle - Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós- graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia. É líder do Labedisco/ CNPq- Laboratório de Estudos do Discurso e do
Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail: nilton.milanez@gmail.com

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e que o discurso é emergente devido a uma cadeia de acontecimentos que possibilitam cada
discurso em um tempo na história. Segundo, a materialização desse discurso no cinema,
por meio da repetição, se dá mediante a estes recursos cinematográficos, tais como
movimentos de câmera, planos, fotografia, som, etc., que põem em prática e dão vida ao
roteiro. Terceiro, produzem diversos sentidos conforme a apropriação e utilização desses
meios.

Resultados e discussão

Decidimos usar dois tipos de recursos para materializar o discurso estudado. A) Os


recursos visuais em Amor Só De Mãe são a fotografia, o plongée/contra plongée e o
plano/contra plano, presentes em três sequencias escolhidas e que produzem sentidos
interligados entre si. A primeira é a cena da possessão de Formosa.

A fotografia produz uma estética barroca de claro e escuro que tem em si como
principal característica o conflito, neste caso, o conflito de bem e mal no lado religioso e o
conceito de moralidade e amoralidade, pois o Exu concede o pedido de Formosa e manda
Filho arrancar o coração da mãe. Nesta mesma cena, o plongée/contra plongée marcam
outro conflito, o de amor/devoção com o medo. Formosa, sempre mostrada de baixo para
cima representa o altar, que Filho venera e teme, trazendo esse mesmo sentido para o
plano/contra plano. A segunda cena,

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é a do assassinato, agora com Filho no lugar do altar, amado e temido pela mãe, novamente
o claro e escuro tem forte presença, relembrando o bem e o mal. Assim como a cena da
floresta, em que ele está levando o coração para Formosa, o chiaroscuro, a dualidade de
bem e mal, assim como o plongée/contra plongée e plano/contra plano. B) Outro recurso
importante, que na maioria das vezes poucos se atentam, é o recurso sonoro para produzir
esse mesmo sentido, pois o som se faz importante quando há uma influencia sobrenatural
na cena.

Na primeira com Formosa, depois com Filho, ambos incorporados e na terceira com o
coração da mãe.

Conclusão

Levando em consideração os pontos discutidos acima, concluo que os recursos


cinematográficos materializam o discurso religioso dentro do filme, discurso este, sendo
algo que alguém disse em um determinado tempo histórico e que foi possível de ser
realizado na época em que o filme foi produzido, produzindo um sentido de bem e de mal,
amor e medo, que se insere dentro das religiões, presente nas três sequencias escolhidas do
filme, por meio das repetições.

Referências

FOUCAULT, Michel. Diálogos sobre o poder. In: Ética, estratégia, poder-saber (Ditos
e Escritos). Tradução de Vera Lúcia Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
2003. (p. 253-266).

AMOR SÓ DE MÃE. Direção: Dennison Ramalho, Produção Executiva: Camila Groch,


Eliane Bandeira, Paulo Sacramento. Elenco: Débora Muniz, Everaldo Pontes, José Salles,
Rynaldo Papoy, Vera Barreto Leite. São Paulo. Ano: 2002. Disponível em: <
http://portacurtas.org.br/filme/?name=amor_so_de_mae > . Acesso: out. 2014.

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Morfologia do corpo e disciplina: o figurino das divas do pop


em videoclipes (1980-2014)

Leonardo Teófilo da Silva Santos (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)
Victor Pereira Sousa (UESB/Labedisco-UNEB)

Resumo: Investigamos neste trabalho, em específico, o corselet como um objeto “peça”


discursiva com base nos estudos de Foucault, os quais discorrem sobre disciplina e
discurso. Além disso, problematizamos o funcionamento do figurino em videoclipes da
cultura denominada pop como um instrumento socio-histórico produzido para governar e
modelar os contornos corporais. Para tanto, analisaremos suas (trans)formações de 1980 a
2014. Diante disto, selecionamos clipes referentes a cada década a fim de verificar a
produção discursiva sobre o corpo e sua materialização em produtos audiovisuais.
Tomaremos a construção de identidade e a auto-espetacularização do corpo como uma
metamorfose que emerge do interior para o exterior do indivíduo, focalizando a roupa
como uma segunda pele. Nessa perspectiva, compreenderemos os códigos que o vestuário
veicula exercendo uma espécie de “poder” cultural, exercendo formas de governo sobre o
comportamento e as atitudes sociais.

Palavras-Chave: Cultura pop; Discurso; Figurino; Corpo; corselet.

Introdução

Durante um período, houve um acúmulo de sistemas de significações que


configuram um campo do discurso para as peças do vestuário, clivadas por conceitos
tomados de empréstimo da história social de nossos comportamentos vestuais. Esse
processo é constitutivo à produção espetacular do corpo no que diz respeito às cantoras de
música pop, que ao mesmo tempo governam e são governadas pelo vestuário em diferentes
tempos da história. A pergunta que conduzirá este artigo é: que traços de tecidos e fábricas
constituem as formas do corpo dessas cantoras? Como o corselet é atualizado e se torna uma
peça de discurso disciplinar sobre formas de governar e se auto-governar o corpo?


Graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). E-mail:
leonardoteofilo@hotmail.com

Pós- doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle - Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós- graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia. É líder do Labedisco/ CNPq- Laboratório de Estudos do Discurso e do
Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail: nilton.milanez@gmail.com

Mestre em Linguística pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB. Professor colaborador
do Programa de Pós-Graduação lato sensu em Práticas Docentes Interdisciplinares da Universidade do Estado
da Bahia – UNEB. E-mail: victor.ps1984@gmail.com

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Material e métodos

Selecionamos, portanto, quatro videoclipes de músicas pop, disponíveis no


YouTube: ANOS 1980: Madonna – Open Your Heart (1986); ANOS 1990: Shania Twain –
Man, I Feel Like A Woman (1999); ANOS 2000: Christina Aguilera – Lady Marmalade (2001);
ANOS 2014: Beyoncé – Partition (2013), referentes a cada década desde os anos 1980 a fim
de analisar as condições históricas que possibilitaram o uso do corselet como uma vestimenta
que antes era utilizada por baixo da roupa e que agora é exposta como uma peça em si.
Além disso, trataremos sobre a espetacularização do corpo e questionaremos esses fatores
por meio de uma análise audiovisual dos videoclipes, repetições de planos e movimentos de
câmera que constroem posicionamentos para o sujeito cantor por meio da modelagem do
figurino, conformando o corpo a uma norma sócio-histórica da vestimenta. Tomaremos,
para tanto, as discussões de Foucault (1970, 1996) sobre disciplina e corpo em “Vigiar e
Punir” e “A ordem do Discurso” como também os estudos de Milanez (2012, 2014).

Resultados e discussão

Nosso objeto de estudo foi analisado em diversos aspectos, incluindo


questionamentos sobre como o corselet aparece, a qual disciplina ele está servindo, qual
corpo ele molda e quais as mudanças da peça de um videoclipe para outro. Em Open Your
Heart, o corselet aparece em seu aspecto mais conhecido, o sexual. Madonna é uma dançarina
em um clube para homens e usa apenas um corselet preto, com detalhes nos seios,
proporcionando uma transformação dessa parte do busto, a fim de parecer maior,
colocando-o em evidência. A visão dos homens que assistem a dança é referente a um
contra-plongée, situando-os abaixo da cantora, recurso que a maximiza na tela. Shania
Twain, em Man! I Feel Like a Woman, exibe o corselet inicialmente como uma peça de baixo.
O corpo que veste o nosso objeto de estudo está entre homens musculosos que fazem
movimentos repetidos, de maneira calculada, disciplinada e esquadrinhada, enquanto a
cantora se despe revelando, neste clipe, a cintura modelada pelo corselet. Em Lady Marmalade,
Christina Aguilera acompanhada de outras cantoras, exibem o corselet em seu sentido
burlesco, implicando uma apresentação teatral visto que o clipe se passa em um palco. O
corselet analisado em composição com a cenografia e maquiagem torna a estética do
videoclipe grotesca e exagerada, o que nos leva a pensar em uma paródia do processo de
vestimenta das mulheres que viviam no século XVI, época em que o corselet surgiu. No

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videoclipe mais recente da nossa pesquisa, nosso objeto discursivo molda o corpo da
Beyoncé. Partition mostra o corselet através do reflexo de um espelho no qual a cantora
aparece fazendo movimentos sensuais, de exposição do corpo. As partes mais evidenciadas
desse corpo que se auto-exibe são os seios e os glúteos. Essas colocações nos levam a
pensar como a disciplina é fundamental para controlar os corpos dos indivíduos a fim de
que se torne possível utilizá-los em sua máxima espetacularização. Os mecanismos de
poder utilizados para docilizar e adestrar esses corpos vem por meio de seus figurinos,
adequando a morfologia corporal à normas de beleza midiáticas.

Conclusão

Foucault localiza o corpo como objeto e instrumento de controle do poder, que


necessita ser transformado para ser e permanecer produtivo. Esse entendimento ganha
cada vez mais força na contemporaneidade, uma vez que o homem ainda deve se
subordinar a condições que servem, principalmente, para manter-se no estado original em
que estava. À medida que se nutre a crença de que a disciplina é imprescindível para a
constituição de uma sociedade mais próspera, o indivíduo, ao mesmo tempo em que é alvo
do poder, é também seu produto.

Referências

DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio
de Janeiro: Contraponto, 1997

FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso – Aula inaugural no College de


France.Pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução de Roberto Machado. São
Paulo. Ed. Loyola, 1996.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel


Ramalhete. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 11ª ed., Rio de Janeiro: Graal, 1997.

MACHADO, Arlindo. A Televisão Levada a Sério. São Paulo: Editora SENAC São
Paulo, 2000.

MILANEZ, N. A “casa de Usher” de Roger Corman: o campo de memória e o


cromático-discursivo no discurso fílmico. In: Revista Letras & Letras. Uberlândia-MG.
v.28, n.2. p.579-590. jul.-dez., 2012.

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Videografia

Madonna. Open Your Heart, 1986. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=


snsTmi9N9Gs

Shania Twain. Man, I Feel Like A Woman, 1999. Disponível em: https://www.youtube.
com/watch?v= ZJL4UGSbeFg

Christina Aguilera. Lady Marmalade, 2001. Disponível em: https://www.youtube.com/w


atch?v=RQa7SvVCdZk

Beyoncé. Partition, 2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pZ12


_E5R3qc

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Análise de práticas discursivas do plano nacional de educação:


estratégias de governamentalidade

Luciane Alves Coutinho (UFPB/CIDADI)


Maria Regina Baracuhy Leite (UFPB/CIDADI)

Resumo: Esta pesquisa analisa o PNE, entre outros documentos, a fim de verificar as
práticas discursivas que permeiam a temática, bem como analisar o discurso do biopoder e
da governamentalidade nele presentes. Conhecer as condições em que esses discursos são
construídos e difundidos é imprescindível à compreensão de como o descompasso revela-
se entre o discurso oficial e as propostas da sociedade civil. Para tal, orienta-se pela AD, à
luz dos estudos de Pêcheux e Foucault. Ressalta-se que o PNE, assim como a Constituição
e a LDB, disciplina os discursos que serão trabalhados na e para a educação; sendo
utilizado como instrumento de regulação pelo Estado. Neste sentido, o discurso no PNE
poderá apontar na direção de uma política contrária ao interesse da população, porém
ajustada ao processo econômico que, sutilmente, passa a construir discursos que traduzem
estratégias de governamento. Contudo, o estudo encontra-se em fase inicial, não sendo
estes dados conclusivos.

Palavras-Chave: Plano Nacional de Educação; Governamentalidade; Biopoder; Análise do


Discurso.

Introdução

O presente estudo busca analisar as práticas discursivas que permeiam o Plano


Nacional de Educação - PNE e que traduzem sentidos em torno de estratégias de
governamento e suas implicações nas relações de poder na sociedade. Uma vez que
acredita-se haver uma ressonância dos discursos veiculados pelo biopoder e a
governamentalidade, à medida que o Estado cria estratégias que regulam e normatizam o
ensino através das normas, as quais estabelecem metas a serem alcançadas na Educação.

Material e métodos

Este estudo será orientado metodologicamente por abordagens de cunho qualitativo,


objetivando analisar documentos oficiais, em especial os que compõem o PNE, bem como
outros documentos relevantes concernentes ao tema, a fim de verificar as práticas


Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); Especialista em Língua Portuguesa
pela UFPB.

Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP. Professora do PROLING/UFPB.
Coordenadora do Grupo de Pesquisa CIDADI – Círculo de Discussões em Análise do Discurso.

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discursivas que permeiam a temática e que traduzem sentidos em torno de estratégias de


governamento, bem como suas implicações nas relações de poder na sociedade. A partir do
conceito de Sargentini (2011, p. 287), “o corpus de análise passa, então, a ser composto por
textos variados, de diversos gêneros, que circulam em diferentes suportes, sobre um
mesmo tema, conceitos ou acontecimentos”; são os diferentes discursos veiculados nos
documentos, que abordem a temática do PNE. Para a análise do corpus, se utilizará o aporte
teórico da AD, com base nos estudos de Pêcheux (2012a; 2012b) e suas interfaces com a
genealogia foucaultiana, para verificar os discursos das entidades envolvidas no processo
educacional e de representação social.

Resultados e discussão

A questão da política educacional é de grande relevância, não só para a compreensão


das estratégias de regulação da educação por parte do governo como para a produção de
discursos que disciplinam a gestão da educação no Brasil. Investigar as condições em que
esses discursos oficiais são construídos e disseminados na sociedade através de documentos
legais (Planos, Leis, e a Constituição) e os relacionados ao tema faz-se necessário à
compreensão de como é revelado o descompasso entre o discurso oficial e as propostas da
sociedade civil. Particularmente, como o governo exerce seu poder sobre o outro, tendo
em vista que para Foucault (2004, p. 37), “as relações de poder estão talvez entre as coisas
mais escondidas no corpo social”.
As contribuições da Análise do Discurso - AD e suas interfaces com os estudos
foucaultianos, sobretudo os que abordam as questões de governamentalidade e a
constituição de subjetividades compõem um dispositivo teórico e analítico consistente e
coerente para a análise do corpus, visto que alguns dos seus conceitos básicos nos permitirão
aliar a materialidade linguística ao social, bem como conceitos como condições de
produção, efeitos de sentido, interdiscurso e formação discursiva (FOUCAULT, 2008b).
Ressalta-se que o PNE disciplina, assim como a Constituição e a LDB, os discursos
que serão trabalhados na e para a educação; sendo muitas vezes utilizado como
instrumento de regulação pelo Estado. O PNE poderá ser visto como um espaço
discursivo interdisciplinar que reúne várias expertises e onde são produzidos vários
discursos conduzidos para a educação: o social, o politico, o jurídico circulando de forma a
interferir em diferentes esferas sociais e produzindo acontecimentos que refletem
diretamente no cotidiano da população. Essa reflexão, para tentar compreender a melhor

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


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maneira de governar, foi estudada por Foucault com o objetivo de buscar “a instância da
reflexão na prática de governo e sobre a prática de governo.” (FOUCAULT, 2008a).

Conclusões

O estudo encontra-se em fase inicial, não apresentando dados conclusivos. Contudo,


pode-se dizer que os sentidos veiculados nos discursos sobre a educação são permeados
por formas de controle e disciplinamento. Supõe-se que o processo econômico e social que
permeia o discurso do PNE poderá, ou não, apontar na direção de uma política contrária
ao interesse da população, mas ajustada ao processo econômico que, sutilmente, passa a
construir discursos que traduzem estratégias de governamento.

Referências

BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da


Educação nacional. Brasília, DF: Casa Civil, Subchefia para Assuntos Jurídicos, 1996.
Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm>. Acesso em: 10
set. 2014.

_____. Lei n. 10.172, de 9 de janeiro de 2001. Aprova o Plano Nacional de Educação e


dá outras providências. Brasília, DF: Casa Civil, Subchefia para Assuntos Jurídicos, 2001.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10172.htm>.
Acesso em: 18 set. 2014.

_____. Constituição (1988). Emenda Constitucional n°.59, de 11 de novembro de 2009.


Acrescenta § 3º ao art. 76 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias para
reduzir, anualmente, a partir do exercício de 2009, o percentual da Desvinculação das
Receitas da União incidente sobre os recursos destinados à manutenção e desenvolvimento
do ensino de que trata o art. 212 da Constituição Federal, dá nova redação aos incisos I e
VII do art. 208, de forma a prever a obrigatoriedade do ensino de quatro a dezessete anos e
ampliar a abrangência dos programas suplementares para todas as etapas da educação
básica, e dá nova redação ao § 4º do art. 211 e ao § 3º do art. 212 e ao caput do art. 214,
com a inserção neste dispositivo de inciso VI. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc59.htm>.
Acesso em: 18 set. 2014.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 20. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2004.

_____. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979); 1°ed.


São Paulo: Martins Fontes, 2008a. (Col. Tópicos).

_____. Segurança, Território, População: curso dado no Collège de France (1977-1978);


1°ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008b. (Col. Tópicos).

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PÊCHEUX, Michel. Análise de Discurso: Michel Pêcheux textos selecionados. 3. ed.


Campinas: Pontes Editores, 2012a.

_____. O discurso: estrutura e acontecimento. 6. ed. Campinas: Pontes Editores,


2012b.

SARGENTINI, Vanice Maria Oliveira. A noção de formação discursiva: uma relação


estreita com o corpus na análise do Discurso. IN: BARONAS, Roberto Leiser (Org.).
Análise do Discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de
formação discursiva. 2. ed. (revisada e ampliada). São Carlos: Pedro & João Editores,
2011.

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A impressionante expressividade do corpo: discurso do


desdobramento do corpo em diferentes espaços

Maria Andreia Santos (UESB/Labedisco)


Isac Flores (UESB/Labedisco)
Nilton Milanez (UESB/Labedisco)
Jamille Santos (UESB/Labedisco)

Resumo: Este trabalho visa analisar os três principais curta-metragens da cineasta


ucraniana Maya Deren, a partir da relação corpo-câmera e os movimentos traçados por
esse. Tem como objetivo demarcar a experiência coreográfica através da lente,
aproximando a ideologia corpórea subjetiva e seus espaços distintos, que serão baseados na
teoria de Michel Foucault. Trata da subversão, transformação e ressignificação da imagem a
partir da exploração dos dispositivos fílmicos, essencialmente marcados por um trabalho
significativo da montagem e da representação que compõem o discurso, rompendo assim,
com a lógica da continuidade, potencializando uma estrutura poético-discursiva.

Palavras-Chave: Corpo; Espaços; Montagem; Movimentos; Subjetividade.

Introdução

O corpo surge como elemento central da obra, produzindo uma relação de


identidade com a câmera. Se decifra com o processo da metamorfose enquanto arte e
através dela, possibilitando a possível expressividade de todas as nuances do ser,
representando uma subjetividade histórica, a partir do momento em que possibilita a
hibridação de dispositivos cinematográficos como meio de desconstrução, se constituindo
assim, o corpo como sujeito em profusão de elementos criativos.

Material e métodos

O trabalho será analisado a partir da obra da cineasta ucraniana Maya Deren, pioneira
das vanguardas européias da década de 40. O estudo almeja refletir sobre a relação corpo-


Graduanda em Cinema e Audiovisual, VII semestre, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. E-
mail: sorriso_andreia@yahoo.com.br

Graduando em Cinema e Audiovisual, III semestre, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. E-
mail: isacfloresatr@gmail.com

Pós - doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle – Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós-graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Uesb. É líder do
Labedisco/CNPq – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail:
nilton.milanez@gmail.com

Mestra em Linguística pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

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câmera, dissociando o julgamento do corpo apenas como matéria, permitindo mostrar que
esse dispõe da exploração dos seus limites como coadjuvante da transformação,
construídos a partir dos dispositivos cinematográficos, fundamentando nos estudos da
teoria de Michel Foucault e intermeando as várias possibilidades de estabelecer uma
compreensão da forma de significação de imagens através dos potenciais da câmera com o
espaço. O olho representado pela câmera segue os movimentos do corpo, enquanto esse
reforça a importância da coreografia representada, que o caracteriza como elemento
discursivo da linguagem, se propagando através dos diferentes espaços em que será
representado, criando assim uma “nova realidade”.

Resultados e discussão

Os filmes “At Land”, “Study in choreographi for camera” e “Meshes of the afternoon” utilizam
o mesmo tipo de linguagem cinematográfica. Em todos eles, podemos notar as seguidas
repetições dos planos detalhes, descontinuidade de espaço-temporal e a relação com o mar.
Os vídeos se associam a partir desses enunciados, criando um enlace substancial ao
raciocínio, que por sua vez atua como forma de coerção para o desenvolvimento da
transformação de maneira subjetiva a partir do corpo e suas extensões. O corpo explora
espaços distintos, como forma de desapropriação e reestrutura do ser. A presença do mar é
fundamental, pois traça grande influência a partir do seu movimento, a julgar que os filmes
exploram essa característica do corpo no espaço. Tudo é definido e pleno, como se fosse
um poema condensado, intenso, explorando com perfeição o ritmo da transformação do
corpo em distintos espaços. Os planos-detalhes de rosto, mãos e pés, descrevem a extensão
da concepção corporal e a necessidade de transcorrer a mutação de sentidos. Os filmes
trabalham com a questão do crescimento interior pessoal. Dessa forma, entendem-se os
enunciados como elementos importantes para a construção da subjetividade a partir dos
parâmetros que avaliam a compreensão dessa narrativa. A escada está presente na
construção da imagem e, também, se repete no decorrer da análise. A sombra é recorrente
no filme Meshes in the afternoon, onde aparece repetidas vezes e em diferentes posições, talvez
numa indicação de que há uma necessidade de se fazer um processo de viagem interior,
uma maneira de se despir de si mesmo, para dar lugar a um novo eu, uma nova forma do
ser. Da mesma forma, a relação com o espelho, à medida que se projeta nele o reflexo de
sua própria existência. Nesse sentido, Michel Foucault também deixa clara a questão do
espaço irreal a partir do espelho como sentido interrelacional e atemporal.

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No espelho, eu me vejo lá onde não estou, em um espaço irreal que se


abre virtualmente atrás da superfície, eu estou lá longe, lá onde não
estou, uma espécie de sombra que me dá a mim mesmo minha própria
visibilidade, que me permite olhar lá onde estou ausente: utopia do
espelho. Mas é igualmente uma heterotopía na media em que o espelho
existe realmente, e que tem, no lugar que ocupo, uma espécie de efeito
retroativo; e a partir do espelho que me descubro ausente no lugar em
que estou porque me vejo lá longe (FOUCAULT, 2009, p. 414 ).

Em Meshes in the afternoon, a escolha do espelho se torna esse lugar, pois relaciona a
personagem como sujeito do seu próprio destino, o espelho reflete a personalidade
inexistente enquanto lugar isolado e não reconhecido. Essa referência tem como agente
dispositivo a troca de associações interiores, que se dá a partir da autotransformação.

Conclusão

A estratégia usada para delimitar o discurso do corpo em relação aos distintos


espaços é a metamorfose física associada ao formato desses espaços. Nos filmes, isso fica
bem claro quando a montagem se utiliza de raccord de gestos, que é não mais que a ação de
uma mesma cena continuada em espaços visualmente diferentes, ou seja, os mesmos gestos
continuam de um cenário para outro, o que não era usual no cinema dos anos 40. Para
Michel Foucault (2009 p. 212), “o espaço é um conjunto hierarquizado de lugares: lugares
sagrados e lugares profanos, lugares protegidos e lugares, pelo contrário, abertos e sem
defesa, lugares urbanos e lugares rurais (onde acontece a vida real dos homens),” o que
reforça o desdobramento do corpo a partir dessa metamorfose, já que os lugares moldam a
forma que o corpo dispõe, como forma designadora de funções. É o corpo que tem o
controle sob os aspectos da mobilização consciente do eu, direcionando sua capacidade de
exploração espacial.

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Referências

FOUCAULT, Michel. Outros espaços In: Ditos e escritos III; tradução de Inês Autran
Dourado Barbosa. 2º. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

_____. O corpo utópico In: O corpo utópico, as eterotopias. 26. ed. Nueva Vision:
Cepat, 2010.

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O (des)governo do corpo: necrofilia e snuff em vídeos eróticos

Matheus Vieira Rocha


Nilton Milanez

Resumo: Este trabalho tem por objetivo analisar o discurso fílmico em vídeos eróticos de
necrofilia/snuff e discutir as políticas de (des)governo do corpo materializadas por meio da
arqueogenealogia proposta por Michel Foucault. Trataremos dessa prática sob três óticas.
Primeira: as práticas enquanto lugar de embate entre norma e transgressão. Segunda: os
vídeos enquanto lugar de exercício de incitação do sexo, prazer e desejo. Terceira: a
espetacularização do horror, da dor e da morte nos audiovisuais.

Palavras-Chave: Corpo; Necrofilia; Snuff; Discurso fílmico; (Des)governo.

Introdução

Este projeto toma os estudos desenvolvidos por Foucault para analisar o discurso e o
lugar do corpo em vídeos de necrofilia e snuff. Os vídeos de necrofilia retratam a parafilia
em que o sexo, o prazer e o desejo se dão na relação com cadáveres; os de snuff, relações
violentas em que a finalidade é sodomizar, ferir e/ou matar o(s) parceiro(s). A proposta
aqui é discutir os aspectos discursivos e biopolíticos que formam as ações, os praticantes e
espectadores das gravações.

Materiais e métodos

Para se analisar o discurso do corpo e das parafilias, serão tomados como base
material de análise quatro vídeos encontrados no site erótico/pornográfico “Heavy-r”, pelo
sistema de busca: deadly sex, necrophilia, deadly body, snuff e gore. A partir dos resultados dessas
buscas, optamos por tratar de duas categorias: necrofilia e snuff. Depois, subdividimos o
primeiro grupo em: a) vídeos ficcionais de relações sexuais com cadáveres; b) fotografias e
vídeos de exibição e manuseio de cadáveres reais; e o segundo grupo em: a) prática sexual
com suplício e tortura; b) estrangulamento, assassinato e coito. Focalizaremos os trabalhos


Estudante de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) – V. da
Conquista. Integrante do Labedisco/UESB – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. Email:
matheus.vrlp@gmail.com

Pós - doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle – Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós-graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Uesb. É líder do
Labedisco/CNPq – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail:
nilton.milanez@gmail.com

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de Foucault para discutir a questão do corpo e do (des)governo de si, o exercício do desejo


e do prazer, das temperanças, considerando o lugar/momento em que os vídeos e as
práticas puderam ser executadas e divulgadas, além do desenvolvimento de uma
espetacularização da tortura e da morte. Essas possibilidades discursivas serão
compreendidas sob a luz da História da Sexualidade, de Michel Foucault (1984).

Resultados e discussão

Os objetivos teórico-analíticos centram-se em relações de poder e controle social,


controle esse, que é intrínseco ao objeto de estudo dessa pesquisa. Tratamos das políticas
de governo do corpo e população (FOUCAULT, 2001) enquanto instrumento e alvo.
Transformada entre século XIX e XX, deixaram de ser voltados para o indivíduo e
passaram seu olhar para o grupo. Os vídeos de necrofilia e snuff confrontam a bio-política
ao estarem contra o sistema pró-vida e ao trabalharem a individualização dos atos que
fogem dos padrões de massificação governamental. Seja nas relações sexuais com cadáveres
ou nas que buscam ferir e/ou tirar a vida de outro, fazem da morte um acontecimento
visível e retomam um passado em que o corpo era visto como lugar de suplício e flagelo
(FOUCAULT, 1987). Consequentemente, ameaçam o conjunto social como um todo, pois
ele estaria perdendo membros ativos/úteis ao seu funcionamento e manutenção. A questão
do (des)governo está, também, clara nos eróticos ao abordar atitudes que fogem dos
padrões da normalidade e são condenados por uma sociedade que priva as regras e os
códigos de comportamentos. Nos snuff e necrofílicos o que se vê é o domínio dos desejos e
das intemperanças, quando as necessidades internas se revelam no exterior. As relações de
sexo, prazer e morte no estudo são vistas pelas óticas das questões morais (FOUCAULT,
1984), de espetacularização (DEBORD, 1997) da relação sexual, do suplício e do cadáver.
Todos os quesitos acima estão refletidos nos audiovisuais em elementos de câmera (que,
por vezes, tem seus movimentos calculados e, em outras, segue o fluxo das ações), na
forma como a ação se constitui (exibindo os corpos supliciados enquanto produtores e
efeitos do desejo) e como os participantes, vivos e mortos, compõem a afirmação das
intemperanças (MILANEZ & SANTOS, 2013).

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Conclusão

Pensando-se nos estudos desenvolvidos por Foucault e nos materiais audiovisuais


coletados nos dominios virtuais, essa pesquisa discutiu o lugar da necrofilia e do snuff no
seu espaço/momento temporal e biopolítico, empreendendo a produção discursiva fílmica
e a posição dos sujeitos diante de um domínio específico da sexualidade em torno de
questões sobre excesso e (des)controle no momento histório e biopolítico da segunda
década dos anos 2000.

Referências

DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio
de Janeiro: Contraponto,1997

FOUCAULT, Michael. História da Sexualidade 2; O uso dos Prazeres. Tradução Maria


Thereza da Costa Albuquerque Rio de Janeiro: Edição Graal, 1984

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel


Ramalhete. Petrópolis: Editora Vozes,1987

FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos. Estética: literatura e pintura, música e cinema.


MOTTA, Manoel Barros da (Org.). Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2001. v. 3.

MILANEZ, Nilton; SANTOS, Jamille da Silva (orgs.). Modalidades da transgressão:


discursos na literatura e no cinema. Vitória da Conquista: LABEDISCO, 2013.

Videografia

Asian Snuff Vídeo. Disponivel em: http://www.heavy-r.com/video/143533/


Asian_Snuff_Video/

Dead Beauties Compilation. Disponivel em: http://www.heavy-r.com/video/102619


/Dead_ Beauties_Compilation/

Bloody Dead Girl Fucked In Morgue. Disponivel em: http://www.heavy-r.com/video


/148919/Bloody_Dead_Girl_Fucked_In_Morgue/

Fucking Dead Girls. Disponivel em: http://www.heavy-r.com/video/


142247/Fucking_Dead_Girls/

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Sujeito e corpo: o discurso do amor entre mulheres no


cinema de horror

Mirtes Ingred Tavares Marinho (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: O presente trabalho está sendo desenvolvido no quadro dos estudos do


LABEDISCO – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo, vinculado ao projeto
“Materialidades do Corpo e do Horror”. Propomo-nos descrever, analisar e interpretar
como a sexualidade é constituída em imagens em movimento, inerentes aos filmes antigos e
contemporâneos. Para tanto, empregaremos como aporte teórico conceitos da Análise do
Discurso, da maneira como é compreendida no Brasil, sobretudo aqueles discutidos por
Michel Foucault em “Ditos e Escritos V: Ética, Sexualidade, Política”, e é claro no livro
“História da Sexualidade”. Tomamos como corpus o filme Alucarda, produzido em 1978,
dirigido por Juan López Moctezuma, e o filme Matadores de vampiras lésbicas, produzido
em 2009, dirigido por Phil Claydon. As materialidades irão nos levar a um olhar discursivo
em torno da sexualidade, permitindo-nos compreender de que maneira o indivíduo faz a
experiência dele mesmo enquanto sujeito de sexualidade.

Palavras-Chave: Prazer; Discurso; Corpo; Sexualidade.

Introdução

Os recursos visuais nos levam a problematizar a sexualidade para compreendermos


de que maneira constitui o sujeito mulher enquanto sujeito de sexualidade que faz uso dos
seus prazeres e o amor entre elas como um modo de vida.
Os métodos de produção das referidas imagens serão por nós entendidas como
materialidades imagéticas do dispositivo fílmico, numa percepção discursiva, susceptível de
repetições. O conceito de corpo também será significativo, pois ao mostrarmos o sujeito
teremos alguns questionamentos: que elementos corporais são destacados nessas
materialidades? Que saberes o corpo (re)cria em nossa sociedade? Cremos que providos
dessas indagações poderemos entender a necessidade do comportamento sexual e os
prazeres do mesmo.


Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, integrante do Laboratório de
Estudos do Discurso e do Corpo LABEDISCO/CNPq/UESB, mirtes.labedisco@gmail.com.

Pós - doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle – Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós-graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Uesb. É líder do
Labedisco/CNPq – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail:
nilton.milanez@gmail.com

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Material e métodos

Utilizaremos, como já foi dito, os corpus “Alucarda” e “Matadores de Vampiras


lésbicas”, como base para a teoria do uso dos prazeres e a amizade como modo de vida
foucaultiana, que nos diz que deveríamos pôr fim a essa renúncia dos prazeres e inventar
em nos mesmos uma maneira de ser, em outras palavras, sermos capazes de sentir prazer.
Não baseando as relações no ato sexual, mas pela amizade, não precisando serem sujeitos
de mesma idade, status, cor, elaborar um modo de vida.
O problema está no amor, na falta de amor, está nos indivíduos começarem a se
amar, pois segundo Foucault:

A instituição é sacudida (...). Olhe o exército: ali o amor entre homens é,


incessantemente, convocado e honrado. Os códigos institucionais não podem
validar estas relações das intensidades múltiplas, das cores variáveis, dos
movimentos imperceptíveis, das formas que se modificam. Estas relações
instauram um curto-circuito e introduzem o amor onde deveria haver a lei, a
regra ou o hábito (CECCATY. R, Danet. J., Bitoux, J., De l'amitié comme mode
de vie, p. 02).

Há partir daí temos tipos de relações possíveis: dois homens, duas mulheres, ou um
homem e uma mulher, tais relações iniciam-se pelos gestos e palavras, surgindo os afetos e
amores.

Resultados e discussão

Notamos que as materialidades presentes nos filmes Alucarda e Matadores de Vampiras


Lésbicas nos levam a um olhar discursivo em torno da sexualidade pra compreendemos de
que maneira se constitui o sujeito mulher enquanto sujeito de sexualidade bem como o
amor como modo de vida entre mulheres.
A análise partirá das noções foucaultianas e dos estudos de Perrot, tais como, a
noção do sujeito mulher e seu lugar de subjugação e também de quem subjuga a partir da
compreensão do mesmo enquanto sujeito de sexualidade. Para Foucault o poder pesa
sobre o corpo, o poder age no corpo, e em consequência disso, instituições como a igreja
tende a atuar no controle do corpo. O ser se constitui historicamente como experiência
para Foucault, passando a interrogar-se sobre os discursos que articulam o saber é preciso
analisar também as manifestações do poder. E o nosso autor se pergunta: “porque o
comportamento sexual, as atividades e os prazeres a ele relacionados, são objetos de

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


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preocupação moral? (...) é que eles são objeto de interdições fundamentais cuja transgressão
é considerada falta grave.” (FOUCAULT, História da Sexualidade, p.14).
A exteriorização aqui direciona- nos a uma critica que se estende para além dos
limites sociais, surgindo a figura da monstruosidade mostrada no vampiro: “O vampiro,
aparece ressignifica, em nossos tempos, de acordo com as emergências de um sistema de
regularidades e de dispersões.” (MILANEZ, 2011, p. 15). Nesse sentido, os filmes
analisados recria o significado do vampirismo a partir da necessidade do momento
histórico, traçando inicialmente a anomalia de ser lésbica como ameaça a igreja, e do ser
vampiro como monstro a ser combatido.

Conclusão

Questionar os problemas antigos e atuais é dar continuidade a história, é recriar


imagens em movimento possibilitando que o cotidiano seja tomado e repetido. As
memórias do passado provocam o seu surgimento no presente. O corpo serve de
intermediador para a produção e transformação dessas imagens, imagens que reverbera
fora e dentro do nosso corpo. Com essa verdade, o corpo retoma a norma de um saber
atual momentâneo, que mostra um sujeito histórico que se transforma a todo momento.

Referências

CECCATY. R, Danet. J., Bitoux, J. De l'amitié comme mode de vie. Entrevista de


Michel Foucault, publicada no jornal Gai Pied, nº 25, abril de 1981, pp. 38-39. Tradução de
wanderson Flor do Nascimento.

FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos V: Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro:


Forense Universitária, 2006.
______. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

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134

______. História da Sexualidade 2: O uso dos prazeres. Edições Graal. Rio de Janeiro,
1984.

______. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1995.

MILANEZ, Nilton. A cuca vai pegar! Medidas do corpo no caldeirão discursivo do


medo.

MILANEZ, Nilton. Corpo e escrita: memórias do sujeito e lugares de autoria.

MILANEZ, Nilton. Discurso e imagem em movimento: o corpo horrorífico do


vampiro no trailer. São Carlos: Claraluz, 2011.

PERROT, Michele. Minha história das Mulheres. São Paulo: Contexto, 2008.

Videografia

ALUCARDA, Diretor: Lopez Moctezuma, Yuma Films, 1978.

MATADORES DE VAMPIRAS LÉSBICAS, Diretor: Phil Claydon, The Weinstein


Company, 2009.

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Foucault, a transexualidade e as metamofoses: políticas do


corpo no curta-metragem “Joelma”, de Edson Bastos

Ricardo Amaral (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: Este estudo tem como objetivo investigar, discursivamente, a construção do


sujeito transexual a partir da metamorfose e das políticas do corpo. Como pensar essa
metamorfoseação do corpo, esse transformar o corpo em outro corpo, a partir da prática
discursiva? Esta é a pergunta que guia o estudo. Para compor o corpus de análise,
utilizaremos o curta-metragem Joelma, do diretor baiano Edson Bastos, como materialidade
para observar essa (trans)formação do corpo transexual. Joelma é um curta de ficção
baseado na história de uma das primeiras transexuais da Bahia. Por meio das cores, numa
leitura cromático-discursiva, serão analisadas algumas questões relativas à constituição do
sujeito Joelma e sua reinvenção de si.

Palavras-Chave: Sujeito; Corpo; Metamorfose; Transexualidade.

Introdução

A pesquisa se insere no domínio da sexualidade. Trataremos aqui, especificamente,


de uma das possíveis formas de aparecimento social e histórico da sexualidade, que é a
transexualidade.
Na prática do cotidiano, a transexualidade refere-se à condição do sujeito que possui
uma identidade de gênero diferente da designada ao nascimento, tendo o desejo de viver
como sendo do sexo oposto. Mas como pensar essa metamorfoseação do corpo, esse
transformar o corpo em outro corpo, a partir da prática discursiva? Esta é a pergunta que
guia o estudo.

Material e métodos

O corpus que compõe a análise desse estudo é o curta-metragem Joelma do diretor


baiano, Edson Bastos. Joelma é um curta de ficção baseado na história de uma das primeiras


Psicólogo graduado pela Faculdade Ruy Barbosa – Salvador/Ba. Especialista em Saúde Mental Coletiva pela
mesma Faculdade. É integrante do Labedisco/UESB – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. E-
mail: ricardo.a.amaral@hotmail.com

Pós - doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle – Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós-graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Uesb. É líder do
Labedisco/CNPq – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail:
nilton.milanez@gmail.com

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transexuais da Bahia. Uma vida marcada por conflitos, nos quais o corpo e a busca por um
governo de si aparecem em “primeiro plano”.
Ao falar em corpo, é preciso apontar para qual corpo se fala. Aqui, não interessa o
corpo biológico, mas o que chamamos de corpo discursivo. Segundo Revel (2005, p.37), “o
discurso designa, em geral, para Foucault, um conjunto de enunciados que podem
pertencer a campos diferentes, mas que obedecem, apesar de tudo, a regras de
funcionamento comuns.”
A partir do corpo discursivo, encontramos a constituição do sujeito na
discursividade. Este sujeito está mergulhado em relações disciplinares de políticas do corpo
e numa busca por um governo de si. Portanto, o método de investigação fundamenta-se no
pensar as formas de encadeamento, sucessão, aglutinação e contraposição (FOUCAULT,
2008), na construção dos planos dos figurinos e da luz (MILANEZ, 2012a; 2012b).

Resultados e discussão

Ao assistir o curta-metragem Joelma, podemos observar, focalizando a personagem


principal, a construção de um sujeito imerso nas tramas históricas da vida. A materialidade
fílmica nos mostra conflitos, divergências, amores, dissabores, tristezas e alegrias. O fio
condutor é a transformação do corpo-homem em corpo-mulher.
As imagens, no nível narrativo, retratam, passando pelas décadas de 1960, 1970, 1980
e 1990, a expulsão de Joel da sua casa no interior da Bahia e sua ida para a capital Salvador,
onde faz sua cirurgia de Redesignação Sexual. Passa a ser conhecida como Joelma, retorna
para a cidade natal com seu companheiro e vê sua vida se transformar após se envolver no
assassinato do responsável por matar seu companheiro. É presa e absolvida no julgamento.
Ao observar os recursos cinematográficos, dentre muitos, tomamos para análise, neste
trabalho, questões relativas à cromaticidade das imagens, que trataremos aqui como
“cromático-discursivo” (MILANEZ, 2012, p. 4). Segundo Milanez (2012, p.7), também “há
uma ordem discursiva para o figurino, na qual não devemos/podemos usar qualquer roupa
em qualquer lugar”. A cor vermelha salta aos olhos quando a personagem principal se
apresenta numa casa noturna, como também, aparece quase sempre vestida com roupas
brancas.
O vermelho materializa a cor da paixão, do amor e da sedução para a mulher. A cena
específica, a partir da dimensão discursiva impressa na materialidade fílmica, nos aponta o

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sujeito numa busca pela feminilidade, após sua metamorfoseação do corpo de homem em
mulher.
O branco acessa uma memória que nos remete à paz e ao sagrado. No curta-
metragem é possível observar a ligação da personagem Joelma com a religião. Portanto, o
vestir-se de branco estaria alçado ao lugar do sagrado, de um corpo purificado após a
cirurgia que lhe dá a “classificação” de transexual.

Conclusões

As reflexões propostas por esse trabalho estão alicerçadas nas noções de corpo
discursivo e da transexualidade. Observamos no sujeito Joelma uma metamorfoseação do
corpo na busca por outra possibilidade de existir, ou ainda mesmo, uma reinvenção de si
mesma, onde as políticas do corpo norteiam tais possibilidades.

Referências

FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves, 7º ed.,


Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

MILANEZ, N. Discurso e imagem em movimento. O corpo horrorífico no trailer. São


Carlos: Claraluz, 2012a.

MILANEZ, N. A “casa de Usher” de Roger Corman: o campo de memória e o


cromático-discursivo no discurso fílmico. Revista Let. & Let. Uberlândia-MG, v.28, n.2,
p.579-590, julho-dezembro, 2012b.

REVEL, J. Michel Foucault: conceitos essenciais. Tradução Maria do Rosário Gregolin,


Nilton Milanez, Carlo Piovezani. São Carlos: Claraluz, 96 p., 2005.

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Os vários ângulos da festa de aparelhagem:


o discurso, poder e a mídia

Robert Leandro Silva Freitas (UFPA/ GEDIZPA) 


Marcos André Dantas da Cunha (UFPA/ GEDIZPA) 

Resumo: O tecnobrega, apesar de ter surgido na periferia paraense, esse novo estilo
musical, por força de determinadas relações de poder, foi ganhando espaço na mídia, vindo
a ser visibilizado para além do estado do Pará. Num movimento de expressão nacional, o
Tecnobrega vem se ressignificando como uma enunciação que se revela diferente.
Diferença que se destaca enquanto voz de resistência. Nossa análise se sustentará na
seguinte indagação: Até onde a mídia paraense reproduz aquilo que está sendo noticiado
pela mídia nacional sobre as festas de aparelhagens e até que ponto ela rompe com aquilo
que está sendo noticiado sobre esse mundo das aparelhagens? A abordagem teórica desse
trabalho se pautará no aporte teórico de Michel Foucault e suas teorias sobre o discurso. A
discussão deste conceito engendra por sua vez o debate entre o saber e o poder presentes
em: Arqueologia do Saber (2008) e Microfísica do Poder (1979).

Palavras-Chave: Discurso; Poder; Mídia e Festa de Aparelhagem.

Introdução

O tecnobrega, apesar de ter nascido na periferia paraense, teve que se difundir para
outros espaços da cidade para conquistar a visibilidade que hoje lhe constitui. As relações
de poder que atravessam o cotidiano dos espaços fizeram do tecnobrega um ritmo que
rompe fronteiras musicais. Perante isso, far-se-á uma análise de duas reportagens em nível
nacional e regional acerca de festas de aparelhagem, respectivamente, a partir das categorias
saber/poder fulcrais no pensar foucaultiano.

Material e método

O método de análise se pautará na materialidade das notícias acerca do tecnobrega


por uma mídia impressa representativa do estado do Pará. E a outra pertinente a uma
notícia nacionalmente disseminada sobre o tecnobrega. A questão principal que subjaz a
análise diz respeito ao modo como esse estilo musical é noticiado tanto nacionalmente
quanto regionalmente. No bojo deste viés analítico acabará por se focalizar a relação


Graduando em letras pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e membro do GEDIZPA (Grupo de
estudos do discurso e da identidade paraense).

Professor Adjunto do curso de letras pela Universidade Federal do Pará (UFPA/Castanhal) e coordenador
do GEDIZPA ( Grupo de estudos do discurso e da identidade paraense).

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existente entre centro e periferia enquanto espaços discursivos construídos e constituídos


sócio-historicamente.
O material adotado para a efetivação desta análise se pautará na utilização de um
vídeo projetado nacionalmente pelo programa A LIGA gravado no dia 09/10/12 para
elucidar como as mídias nacionais noticiam a festa de aparelhagens e de um vídeo do
telejornalismo SBT PARÁ, que é um jornalismo regional, para observar como o mundo das
festas de aparelhagem aparece em seu interior.

Resultados e discussão

Os resultados da nossa análise nos instiga a algumas indagações: Que ritmo musical é
esse que vem reconfigurar o cenário musical brasileiro? De onde ele vem? O que ele possui
de diferente, de peculiar, dos outros ritmos? Perante essas indagações, vemos uma mídia
nacional que constrói para o tecnobrega uma identidade pautada no viés da
espetacularização desse novo modelo musical.
Na reportagem advinda do jornal SBT PARÁ observamos uma mídia que se utiliza
bastante do discurso SOBRE a festa e não o discurso DA festa de aparelhagem. A mídia
regional se abstém de entrar na festa e apenas a tem como objeto, não atribuindo uma voz
ao sujeito periférico que frequenta as festas, mas observando de forma acentuada as
consequências da promoção delas.
O mundo das aparelhagens, diante da mídia nacional, surge como local do espetáculo
e da pirotecnia onde todo o cenário dessas festas de aparelhagens se consagra pelo viés da
espetacularização, desde sua matriz sonora até suas manifestações icônica e imagética, cujo
alicerce se manifesta sobre uma plataforma que o sujeito da aparelhagem é visto como um
local de representação de uma periferia que salta aos olhares externos como uma periferia
que se espetaculariza pelo LED, pelos fogos de artifícios, pela iluminação etc.
A mídia regional utiliza outro olhar para noticiar a festa de aparelhagem. Nela, a festa
é palco de atuação de uma criminalidade dissimulada, cujo discurso da violência é
redirecionado a outra ordem discursiva, ordem que permite que os discursos acerca de uma
barbaridade decorrente da implantação dessas festas, tanto na periferia quanto no centro,
ganhem uma nova conjuntura, cujos dizeres das instituições sociais, como a polícia e
ONGs, entram nas redes discursivas dando um valor para esse cenário das aparelhagens.

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Conclusões

Observamos, diante desta produção, que a mídia regional, no momento em que


noticia a festa de aparelhagem, acaba por fazer uma ruptura daquilo que está sendo exposto
pela mídia nacional. O telejornal SBT PARÁ lança a festa de aparelhagem em caminhos
cujo olhar do telespectador se redirecione às conjunturas diferentes e consequentemente
heterogêneas do periférico mundo que se constitui as festas de aparelhagens. Dissociando,
desta forma, do modo de como a festa de aparelhagem é noticiada nacionalmente.

Referências

ARAÚJO, I.L: Do signo ao discurso: Introdução à filosofia da linguagem. São Paulo,


2004

CERTEAU, A Cultura no plural. 4. ed. Campinas, SP: Papirus, 1995.

CUNHA, Tão longe, tão perto: A identidade paraense construída no discurso da mídia do
Sudeste brasileiro, Araraquara, UNESP, 2011.

DUBOIS, Jean et al. Dicionário de Lingüística; trad. Frederico Pessoa de Barros [et al].
SP: Cultrix, 1999.

FOUCAULT, M. A Arqueologia do Saber. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,


2008a.

_____. A Ordem do discurso. 17. ed.São Paulo: Ed. Loyola, 1999.

_____. Microfísica do Poder. 24. ed. São Paulo: Ed. Graal, 2007.

GREGOLIN, M. R.. A mídia e a espetacularização da cultura. In: GREGOLIN, M. do R.


(org.). Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Carlos: Claraluz, 2003. p. 9-17.

_____. Foucault e Pêcheux na análise do discurso – diálogos & duelos. São Carlos:
Claraluz,2004.a

JENKINS, Henry, Cultura da Convergência. São Paulo :Aleph, 2008

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Materialidades do sangue: uma análise discursiva de “Color me


blood red”, de Herschell Gordon Lewis de 1965

Ueslei Pereira de Jesus (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: Analisar o corpo discursivamente é, aqui, evidenciar os sujeitos quanto à suas


produções discursivas, inseridas num lugar onde se posicionam historicamente. Apresento
uma análise da obra fílmica Color Me Blood Red de Herschell Gordon Lewis, de 1965, onde
elegemos o sangue como lugar de rompimento com as normas que incidem sobre o corpo
e caracterizam transgressões que supõem linhas limites a essas normas. A análise que
propomos incide sobre o corpo em sua forma discursiva, evidenciando, assim, a forma
como este se dá a ver. Perguntamo-nos por que teve emergência de tal forma e não de
outra em seu lugar.

Palavras-Chave: Corpo; Discurso; Transgressão; Sangue; Norma.

Introdução

A escolha deste nosso corpus, que faz parte de uma série de filmes dirigidos por
Herschell Gordon Lewis formada por seus chamados filmes gore, se deu pelas leituras dos
trabalhos de Michel Foucault sobre a descontinuidade na história. Identificamos, nestes
estudos, uma análise das normas que não silenciam aquilo que parecia fugir às análises
possíveis da história – a ruptura –, identificando, nestes fenômenos de ruptura, o lugar
limite à norma que a demarcam, como coloca Foucault em sua Arqueologia do Saber.

Material e métodos

O presente trabalho foi elaborado no interior de uma série de estudos sobre os


chamados filmes gore do diretor Herschell Gordon Lewis, dentre os quais o filme Color me
Blood Red representa o terceiro de uma série de películas do diretor sob tal denominação.
Estes filmes se caracterizam por seus elementos estéticos representarem o rompimento
com as normas que incidem sobre o corpo no audiovisual, elegendo a morte de forma cruel
e o sangue, não como elementos a serem sugeridos ou, simplesmente, constitutivos


Discente em Licenciatura Plena em História- UESB, campus de Vitória da Conquista.

Pós - doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle – Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós-graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Uesb. É líder do
Labedisco/CNPq – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail:
nilton.milanez@gmail.com

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secundários às narrativas, mas elementos primordiais dados a ver em enquadramentos


específicos, em movimentos e ângulos de câmera específicos, elementos estes que emergem
enquanto materialidade, portanto, dotados de existência histórica. Feita essa observação
sobre o elemento transgressor, colocamos, aqui, que seu estudo é feito a partir dos aportes
teóricos de Michel Foucault para a Análise do Discurso, na forma como entendemos no
Brasil, e sua retomada nos estudos de Nilton Milanez, para a especificidade da
materialidade audiovisual.

Resultados e discussão

A emergência de discursos que circulam nesse filme parece vir de encontro a anseios
de nosso próprio tempo. Nesse ponto, principalmente, o medo da morte elegido enquanto
elemento primordial, juntamente ao sangue no filme em questão. Se a morte,
compreendida enquanto tabu na fala comum e é assim interditada a essa, reaparece na
constituição do filme gore como elemento fundamental a ser dado a ver em primeiro plano
e que para além, deve se dar de forma excessivamente violenta, ela parece fundamentar o
elemento transgressor deste filme, identificando, assim, as normas de sua enunciação a
partir de suas rupturas numa descontinuidade.
Para além, como uma imagem sempre supõe outras, é no que chamamos, a partir de
Courtine, de intericonicidade, uma memória de imagens que percebemos no filme em
questão, a continuidade/descontinuidade entre os modos de dar a ver o corpo nos filmes
ditos Nude, nas revistas como a Playboy e no próprio Color me Blood Red, o que é identificado
no corpo das vítimas, sendo assim, retomamos Foucault para observar que o novo não está
no que é dito, mas no acontecimento à sua volta.

Conclusão

As questões que nos guiam neste trabalho, portanto, se relacionam a que corpo é o
corpo do gore e que relações corpóreo-discursivas o atravessam: o corpo cortado,
sanguinolento, corpo desmembrado, corpo exposto, violentamente morto, corpo mostrado
sob determinados enquadramentos, determinados movimentos de câmera e, ainda, corpos
sensuais, corpos suspeitos, corpos anormais. Enfim, todo um inventário de corpos no
audiovisual que nos colocam em relação à uma história do corpo, uma história discursiva
do corpo.

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Referências

AUMONT, Jacques et al. A estética do filme. Campinas: Ed. Papirus, 1995.

BAECQUE, Antoine. O corpo no cinema. In: CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-


Jacques; VIGARELLO, Georges. História do corpo: as mutações do olhar. O século XX.
Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2008. v.3, p.481-508.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves -7ed. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2008.

______. Le jeu de Michel Foucault. Ornicar? Bulletin périodique du champ [reudien. n"
10, julho de 1977. (Tradução brasileira: Sobre a história da sexualidade. In: Microfísica do
Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1999, p. 244).

JULLIER, LAURENT; MARIE, Michel. Lendo as imagens do cinema. Trad. Magda


Lopes. São Paulo: Senac, 2009.

LE GOFF, Jacque e TRUONG, NICOLAS. Uma história do corpo na Idade Média.


Trad. Marcos Flamínio Peres. 3º Ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 2011.

ROUYER, Philippe. Le Cinéma gore : une esthétique du sang. Les Éditions du Cerf,
Paris : 1997.

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Materialidades para um corpo suicida: modos de governo do


outro em vídeos de curta duração

Vilmar Prata Correia (UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: O respectivo trabalho desenvolve um estudo referente ao discurso do corpo


enquanto governo e desgoverno de si, destacando as materialidades para a prática do
suicídio em vídeos do universo midiático. Compreendemos o suicídio enquanto prática
discursiva do corpo, diante de si e da biopolítica que dita as utilidades e inutilidades de sua
existência, para o pleno funcionamento e gerenciamento da ordem social. O trabalho
tomará como base teório-analítica os estudos de Foucault.

Palavras-Chave: Suicídio; Governo; Desgoverno; Biopolítica; corpo.

Introdução

Este trabalho tem como objetivo demonstrar as materialidades discursivo-históricas


do corpo suicida em vídeos de curta duração, atravessado pelos diversos modos de
governo do outro, partindo de um conjunto de formas que se agrupam, se separam, se
transformam e se desfazem, pois segundo Milanez, “A questão de um lugar do corpo, na
mídia, leva-me à problematização das identidades pessoais ou sociais, pontos que [...] visam
a marcar nossa corporalidade pessoal, social, cultural e, por isso, histórica.” (MILANEZ,
2006, p. 153).
O estudo discursivo sobre a prática do suicídio e sua relação com o sujeito, tema e
justificativa para este trabalho, encontra seus ecos nas discussões de Foucault com
Schroeter:

Uma das coisas que me preocupam há certo tempo é que me dou conta
do quanto é difícil se suicidar. Refletem e enumeram o pequeno número
de meios de suicídios que temos à nossa disposição. Cada um mais
desgostoso que os outros: o gás, que é perigoso para o vizinho, o
enforcamento que é tão desagradável para a faxineira que descobre o
corpo na manhã seguinte, atirar-se pela janela, que suja a calçada. Além
do mais, o suicídio é, certamente, considerado da maneira mais negativa


Pós graduado em Filosofia e Existência pela Universidade Católica de Brasília (UCB), graduado em Filosofia
pela Faculdade Batista Brasileira (FBB) e integrante do Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo
LABEDISCO/CNPq/UESB. E-mail: vilmar@ibr.com.br.

Pós - doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle – Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós-graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Uesb. É líder do
Labedisco/CNPq – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail:
nilton.milanez@gmail.com

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pela sociedade. Não somente se diz que não é bom se suicidar, mas se
considera que se alguém se suicida é porque estava muito mal
(FOUCAULT, 1981, p. 7).

Abrindo assim, um vasto campo de discussões sobre o assunto proposto.

Material e métodos

Tomamos como corpus desse trabalho, vídeos de curta duração sobre suicídios e
tentativas de suicídio, veiculados no youtube. Focalizaremos os estudos foucaultianos
como o compreendemos no quadro da Análise do Discurso no Brasil, objetivando a
discussão das noções de corpo e governo. Para tanto, nos questionamos: Que elementos
corporais são evidenciados nessas materialidades? Que posturas o corpo recria frente ao
governo do outro? E assim, com tais questões, entender com Foucault a relação do sujeito
frente ao governo do outro. Partindo daí, o corpo se apresenta ao mesmo tempo sob três
perspectivas de visibilidade nos vídeos: a) A especularização do sujeito suicida, b) A
evidenciação de seu corpo, c) A produção corporal regrada por normas de gerenciamento
da população.

Resultados e discussão

As materialidades indicadas nos vídeos selecionados viabiliza uma compreensão do


corpo suicida sob a intervenção do governo do outro, que preservará a problematização do
conceito de cuidado de si e cuidado do outro, fortalecendo a necessidade da utilidade do
corpo, no processo de manutenção da preservação e desenvolvimento da sociedade.
Assim, é levantada por Foucault (1982, p. 50) uma questão crucial: “Qual é pois o eu
de que é preciso cuidar quando se diz que é preciso cuidar de si?.” Dessa maneira, o
suicídio sob o viés de um discurso sobre o corpo, revela marcas expressivas do controle
bio-sócio-histórico, como nos explica Foucault:

Pela primeira vez na história, sem dúvida, o biológico reflete-se no


político; o fato de viver não é mais esse sustentáculo inacessível que só
emerge de tempos em tempos, no acaso da morte e de sua fatalidade: cai,
em parte, no campo de controle do saber e de intervenção do poder
(FOUCAULT, 1988, p.128).

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Por fim, nesse sentido, é recriada nesses vídeos a relação do sujeito com sua
sociedade, delimitando sua autonomia enquanto governo de si, bem como a força do
governo do outro sobre o sujeito.

Conclusão

Verificamos nos vídeos analisados que há uma política para o gerenciamento da vida,
marcada na posição de enfrentamento de segmentos sociais com o sujeito, a saber, os
bombeiros, a esposa, o patrão e até mesmo um desconhecido. A produção desse lugar se
centra no ideário de uma polícia da vida do indivíduo e da população. Essa vertente
imprime ao sujeito a marca do controle e de um saber histórico que nos exige viver, cuidar-
se de si e do outro no prolongamento da vida.

Referências

FOUCAULT, M. A Hermenêutica do sujeito. São Paulo: Vozes, 1988.

______. Entre o amor e os estados de paixão: conversa com Werner Schroeter. Paris,
Goethe Institute, pp. 39-47, 1982. Traduzido por Wanderson Flor do Nascimento. Em:
www.filoesco.unb.br/foucault.

______.A Ordem do Discurso. Petrópolis: Vozes, 1994.

______. Arqueologia do Saber. São Paulo:Paulus, 1987.

MILANEZ, Nilton. O Corpo é um Arquipélogo: Memória, Intericonicidade e Identidade.


In: Estudos do Texto e do Discurso: Mapeando Conceitos e Métodos. São Carlos:
Claraluz, 2006.

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Automutilação/cutting: corpo, governo e práticas de confissão


em vídeos da internet

Vinicius Lemos da Silva Reis(UESB/Labedisco)


Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: O trabalho problematiza e analisa a automutilação e a prática do cutting, a partir


dos postulados teóricos Michel Foucault e Philippe Dubois, entrelaçando noções de corpo,
discurso e governo do corpo com o audiovisual, num corpus composto de vídeos
encontrados na internet que expõe a prática do cutting. O objetivo visa analisar e
problematizar o corpo como materialidade de confissão do sujeito e de lugar onde declara e
manifesta seus prazeres e o governo do corpo. Seguimos metodologicamente as
regularidades discursivas e repetições nos vídeos, assim como os recursos de vídeo que
permitem a materialização de discursos e produção de sentidos. Verifica-se a produção da
prática do cutting como uma prática de confissão e testemunho de um governo do corpo.

Palavras-Chave: Automutilação; Confissão; Corpo; Cutting; Governo.

Introdução

Ao navegar os mares das marcas corporais, encontramos uma maior circulação, no


espaço virtual, do flagelo sobre o próprio corpo. Lugares onde o corpo toma lugar de
destaque, porém, para este trabalho, não é o invólucro biológico de carne e sangue que
interessa, o corpo deve ser considerado como uma produção discursiva, conforme
discutido por Milanez (2009). Neste re(corte) teórico, são entrelaçadas noções de práticas e
governo do corpo, além da prática da confissão problematizada por Foucault.

Material e métodos

Foi levantado, para este trabalho, um corpus de pesquisa que é composto por vídeos
amadores e individuais encontrados e disponíveis na internet, que apresentam sujeitos se
filmando e expondo a prática do cutting. Os vídeos estão hospedados em um site que
veicula conteúdos de temática sexual e pornográfica (www.heavy-r.com). Para pensar estes
vídeos, são tomadas as problematizações de Dubois (2004), definindo o vídeo como algo


Psicólogo graduado pela FTC – Faculdade de Tecnologias e Ciências de Vitória da Conquista. É integrante
do Labedisco/Uesb – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. E-mail: vinicius.lsreis@gmail.com.

Pós - doutorado em Discurso, Corpo e Cinema pela Sorbonne Nouvelle – Paris III. Professor Titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua
nos Programas de Pós-graduação em “Linguística” e “Memória, Linguagem e Sociedade”, na Uesb. É líder do
Labedisco/CNPq – Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. www.uesb.br/labedisco. E-mail:
nilton.milanez@gmail.com

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além de uma imagem(ação), tomando-o como um ato(ação) de um sujeito que emerge em


determinadas condições históricas e tecnológicas. Ao olhar os vídeos, na relação com o
espectador, é produzido um sentido constituído por “Nós” discursivos. Assim, o método
acionado para delimitar os vídeos é o da regularidade, discutido por Foucault (2008) e a
verificação das repetições discursivas, questionando como as materialidades e os recursos
de vídeo vão evidenciar o jogo de continuidades e deslocamentos do corpo-discurso.

Resultados e discussão

A análise é constituída por três categorias de regularidades:


1. O corte calculado
É apresentada e discutida uma repetição na prática do cortar a si mesmo, no qual os
cortes são calculados e esquadrinhados em sua intensidade, força e ritmo, por mais que
pareçam aleatórios. Há uma regularidade que expõe a prática a uma normatividade.
Portanto, verifica-se um fio condutor para problematizar como a prática e o governo de
corpo no cutting estão dispostos em um cálculo de si, por meio do corte e seu prazer.
2. O lugar dos cortes
Não são as partes de um corpo de carne e osso que se repetem e, também, não é esse
invólucro biológico que é analisado. A regularidade está exposta pelo dispositivo da
câmera, quando esta foca somente a parte do corte em si. Contudo, as partes focadas
(rosto, seio e nádegas) são tomadas como corpo-discurso, onde o que se repete são partes
de um corpo investidas por um discurso do e para o sexo. As partes focadas só podem ser
tomadas em uma regularidade quando se verifica o discurso de uma prática pedagógica do
sexo (que exalta determinados espaços corpóreos) para reconhecimento do sujeito. Esse
discurso é condição para que estes cortes e recortes do corpo sejam exaltados pela câmera e
não outros. Corrobora com esta análise o meio de circulação dos vídeos, um site
pornográfico, onde o sexo é tomado e visto como uma prática pedagógica.
3. A posição da câmera
Encontra-se uma câmera frontal e fixa que foca um recorte do corpo, o espaço de
incisão do corte, exaltando esse lugar/corte do corpo discursivo. O olhar do telespectador
se identifica e se confunde com a câmera, visando diretamente o objeto, apresentando um
espaço de testemunho. Logo, podemos pensar e analisar na prática do cutting e no corpus
em questão, um testemunho do corpo, o corpo enunciando uma prática discursiva. Assim,

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2


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podemos pensar em uma câmera de vigilância fixa que documenta um acontecimento, um


sujeito que evidencia a prática do cutting como um governo do outro.

Conclusões

Há uma emergência de um sujeito que pratica a si mesmo e que expõe de maneira


controlada o governo do corpo sob olhar do outro. São verificados rupturas e
deslocamentos com a memória histórica, na qual a prática da confissão encontra nova
possibilidade de ato(ação). Os dispositivos de vídeo e discursos permitem que a
materialidade do corpo confesse uma relação consigo próprio. Entretanto, o discurso não é
mais incitado pela palavra. É pelo corpo que o sujeito presta conta a si mesmo e ao outro.

Referências

DUBOIS, P. Cinema, vídeo, Godard. Trad. Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify,
2004.

FOUCAULT, M. Arqueologia do saber. Trad. bras. Luiz Felipe Baeta Neves. 7. ed. Rio
de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

MILANEZ, N. Corpo cheiroso, corpo gostoso. Unidades corporais do sujeito no discurso.


In: Acta Scientiarum. Language and Culture. Universidade Estadual de Maringá, v. 31,
n. 2. Maringá: Eduem, 2009, p. 215-222.

Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2

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