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Nilton Milanez Victor Pereira Sousa Jamille Santos (orgs.)

Nilton Milanez Victor Pereira Sousa Jamille Santos (orgs.) Anais do Colóquio 30 Anos com Foucault Vitória

Anais do Colóquio 30 Anos com Foucault

Milanez Victor Pereira Sousa Jamille Santos (orgs.) Anais do Colóquio 30 Anos com Foucault Vitória da

Vitória da Conquista

2014

FICHA CATALOGRÁFICA

C836c

Corpo e Heterotopias: Anais do Colóquio 30 Anos com Foucault [recurso eletrônico] / organização Nilton Milanez, Victor

Pereira Sousa, Jamile Santos

2014.

149p.

--Vitória

E-book ISBN: 978-85-66665-06-2

da Conquista: Labedisco,

1.

Filosofia Congressos. 2. Foucault, Michel 1926-1984.

3.

Heterotopia (Filosofia). 4. Corpo (Filosofia). I. Milanez,

Nilton. II. Sousa, Victor Pereira. III. Santos, Jamile. IV. Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. V.T.

CDD: 194

Elinei Carvalho Santana CRB-5/1026 Bibliotecária UESB - Campus de Vitória da Conquista-BA

Correspondências para:

Labedisco/UESB a/c Nilton Milanez Estrada do Bem Querer, Km 4, Módulo II Bairro Universitário Vitória da Conquista BA / CEP 45083-900 labedisco.uesb@gmail.com

Copyrigth @ 2014 Labedisco

Labedisco Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo

(http://www2.uesb.br/labedisco)

Organizadores:

Nilton Milanez nilton.milanez@gmail.com Victor Pereira Sousa victor.ps1984@gmail.com Jamille Santos jjmillesilva@gmail.com

Revisão e primeiro tratamento:

Renata Celina Brasil Maciel - recelina@gmail.com Tyrone Chaves Filho t.y.r.o.n.e.007@hotmail.com

Diagramação, projeto de capa e supervisão de arte:

Victor Pereira Sousa victor.ps1984@gmail.com

O TEOR DOS TEXTOS PUBLICADOS NESTE VOLUME, QUANTO AO CONTEÚDO E À FORMA, É DE INTEIRA E EXCLUSIVA RESPONSABILIDADE DE SEUS AUTORES.

É DE INTEIRA E EXCLUSIVA RESPONSABILIDADE DE SEUS AUTORES. Laboratório de Estudos do Discurso e do

Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo Departamento de Estudos Linguísticos e Literários Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

2014

Colóquio 30 Anos com Foucault

Corpo e Heterotopias

UESB, 04 e 05 de dezembro de 2014 Auditório Glauber Rocha Campus Vitória da Conquista

Uma realização do Labedisco/CNPq/UESB

Apoio Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia UESB Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação PPG/UESB Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários PROEX/UESB Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq Université Sorbonne Nouvelle Paris 3

Coordenação:

Nilton Milanez Victor Pereira Sousa Jamille Santos

Articulações com Grupos de Pesquisa / Diretório CNPq

Grupo de Estudos de Análise do Discurso de Araraquara GEADA Laboratório de Estudos do Discurso LABOR Grupo de Pesquisas em Espacialidades Artísticas GPEA Grupo de Estudos Mediações, Discurso e Sociedades Amazônicas GEDAI Círculo de Discussões em Análise do Discurso CIDADI Grupo de Estudos Foucaultianos da UEM GEF Laboratório de Estudos Discursivos Foucaultianos LEDIF

SUMÁRIO

Apresentação

11

Dissertações e Teses em Andamento

A

imagem do bom governante nas eleições 2014

13

Alessandra Souza Silva Edvania Gomes da Silva

Linguagem e subjetividade em Cazuza Anísio Batista Pereira Antônio Fernandes Júnior

16

Regimes de verdades e redes de memórias no telejornalismo paraense Arcângela Auxiliadora Guedes de Sena Ivânia dos Santos Neves

19

Cartografias do discurso: a constituição de um dispositivo de TDAH Bruno Franceschini Cleudemar Alves Fernandes

22

Discurso, corpo e governamentalidade: as marcas identitárias do sujeito fumante em campanhas antitabagistas nas embalagens de cigarro Claudemir Sousa Regina Baracuhy

27

Egos em evidência: (re)configurações do íntimo na tessitura do discurso midiático Francisco Vieira da Silva Regina Baracuhy

30

O

fascínio por assassinos em série na ficção: uma ordem discursiva a partir de

Dexter Glaucia Mirian Silva Vaz Luciane de Paula

33

A

noção de arquivo na obra hilstiana: morte, autoria e sexo

36

Jaciane Martins Ferreira Cleudemar Alves Fernandes

José Saramago e a vontade de verdade: um nó discursivo a ser desvendado Karina Luiza de Freitas Assunção Cleudemar Alves Fernandes

39

“Nem toda nudez será proibida”: a produção de identidades para o sujeito mulher no discurso turístico oficial brasileiro Karoline Machado Freire Pereira Regina Baracuhy

42

Lugares fora de lugar: “o chão da utopia” nas narrativas heterotópicas de Rosa Magalhães Leonardo Augusto Bora Frederico Augusto Liberalli de Góes Luiz Felipe Ferreira

45

As sociedades indígenas e o audiovisual: as relações de poder em outros espaços e identidades Maurício Neves Corrêa Maria do Rosário Valencise Gregolin

49

A vigilância eletrônica e a expansão do panoptismo Maykon dos Santos Marinho Luciana Araújo dos Reis

53

Narrativas orais indígenas como interação: a arqueologia do saber tembé- tenetehara Nassif Ricci Jordy Filho Ivânia dos Santos Neves

56

Mito, cinema e discurso: um olhar arqueológico sob o viés discursivo em “O senhor dos anéis: a sociedade do anel” Nicaelle Viturino dos Santos de Jesus Maria Emília de Rodat de Aguiar Barreto Barros

60

Entre quadros, indígenas e identidade: a presença indígena nos quadrinhos, discursos e redes de memória Otoniel Lopes de Oliveira Junior Ivânia dos Santos Neves

64

O corpo monstruoso do zumbi: discurso e memória da (a)normalidade no cinema Renata Celina Brasil Maciel Nilton Milanez

67

Modos de subjetivação e transgressão na dança Samene Batista Pereira Santana Nilton Milanez

70

Corpo, poder e resistências: os sujeitos do sexo na pornochanchada brasileira

(1975-1985)

73

Tyrone Coutinho Chaves Filho Nilton Milanez

“Uga Uga” e “Alma Gêmea”: personagens indígenas nas telenovelas brasileiras Vívian de Nazareth Santos Carvalho Ivânia dos Santos Neves

76

Outros Trabalhos em Andamento

(Des)continuidades sobre o corpo da mulher indígena como espaço de memória na fotografia Ana Shirley Penaforte Cardoso

80

Corpo monstruoso: discurso e (des)ordem em filmes de zumbi Bruno Pacheco Nilton Milanez

83

A

metamorfose no corpo do cisne negro

85

Cremilton de Souza Santana Janaina de Jesus Santos

Violência simbólica organizacional direcionada aos trabalhadores: considerações exploratórias Cristina Miyuki Hashizume

89

Foucault, domínio do corpo e resistência do sujeito jurídico como objetivação de construção de si no longa-metragem "A mulher do desejo, de Chistensen Carlos Hugo Daniel Soares Sousa Lemos Nilton Milanez

92

Corpo, sujeito e monstro: análise do discurso do terrir no filme "Um lobisomem na Amazônia" Diana de Oliveira Brito Nilton Milanez

96

Desdobramentos do corpo: o discurso do sonho no filme "Meshes of the afternoon" Flora Paranhos Monteiro Alvarenga Nilton Milanez

100

O corpo está em jogo! Modalidades enunciativas do corpo e do sujeito na série

The castle of otranto: a espacialidade fantástica em Horace Walpole Geysa Dayanne Gomes da Costa Janaina de Jesus Santos

106

A

anarquia é para todos: discurso político em "V de vingança"

110

Isa Ferreira Lima Nilton Milanez

Análise do discurso-corpo do horror em "Amor só de mãe" Iuri Rocha Pires Nilton Milanez

113

Morfologia do corpo e disciplina: o figurino das divas do pop em videoclipes

(1980-2014)

116

Leonardo Teófilo da Silva Santos Nilton Milanez Victor Pereira Sousa

Análise de práticas discursivas do plano nacional de educação: estratégias de governamentalidade Luciane Alves Coutinho Maria Regina Baracuhy Leite

120

A

impressionante expressividade do corpo: discurso do desdobramento do

corpo em diferentes espaços Maria Andreia Santos Isac Flores Nilton Milanez Jamille Santos

124

O

(des)governo do corpo: necrofilia e snuff em vídeos eróticos

128

Matheus Vieira Rocha

Nilton Milanez

Sujeito e corpo: o discurso do amor entre mulheres no cinema de horror Mirtes Ingred Tavares Marinho Nilton Milanez

131

Foucault, a transexualidade e as metamofoses: políticas do corpo no curta- metragem “Joelma”, de Edson Bastos Ricardo Amaral Nilton Milanez

135

Os

vários ângulos da festa de aparelhagem: o discurso, poder e a mídia

138

Robert Leandro Silva Freitas

Marcos André Dantas da Cunha

Materialidades do sangue: uma análise discursiva de “Color me blood red”, de Herschell Gordon Lewis de 1965 Ueslei Pereira De Jesus Nilton Milanez

141

Materialidades para um corpo suicida: modos de governo do outro em vídeos de curta duração Vilmar Prata Correia Nilton Milanez

144

Automutilação/cutting: corpo, governo e práticas de confissão em vídeos da internet Vinicius Lemos da Silva Reis Nilton Milanez

147

11

Apresentação

As datas nos levam no tempo e marcam nosso corpo no espaço. Neste 2014

reafirmamos nossos laços com o pensamento de Michel Foucault. Pensar com Foucault e

falar a partir de Foucault é ter a oportunidade de compreender que as teorias se

movimentam e os estudiosos circulam. O Colóquio “30 anos com Foucault: Corpo e

Heterotopias” tomou um dos temas do pensador como problemática. Como se constituem

nossos corpos hoje? De que maneira nossos corpos dizem quem somos? Em que espaços

tais corpos se circunscrevem? Mais do que a pluralidade em “corpos” e “espaços”

consideramos a relação corpo-espaço como possibilidades inumeráveis de modos de se ver,

de ser e de viver.

Essas políticas de vida e de espaço se materializaram por meio da discussão entre

Grupos de Pesquisa em Análise do Discurso no Brasil que colocam Michel Foucault no

centro de suas discussões. O Colóquio fez parte de uma rede de eventos no Brasil que se

iniciou na UNESP de Araraquara, passando pela Federal de Uberlândia, Federal de São

Carlos, Federal do Pará e, por fim, na UESB de Vitória da Conquista, na Bahia.

Nosso foco foi discutir, em específico, as heterogeneidades do corpo e do espaço

como também, de maneira mais ampla, acolher trabalhos em andamento nos domínios do

universo dos estudos do discurso da maneira como o compreendemos no Brasil. O

Colóquio “30 anos com Foucault: Corpo e Heterotopias” foi uma ação dos Projetos de

Extensão e de Pesquisa realizados pelo Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo, o

Labedisco/CNPq, desenvolvidos na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

Neste volume encontram-se os textos dos trabalhos que integraram o referido

evento, em formato de resumo expandido, cuja exposição se deu durante as sessões de

apresentação de dissertações e teses em andamento e também apresentação de painel. Vale

ressaltar que o teor dos textos aqui publicados é de inteira responsabilidade de seus autores.

Prof. Dr. Nilton Milanez Prof. Me. Victor Pereira Sousa Profa. Ma. Jamille Santos

Corpo e Heterotopias Labedisco ISBN 978-85-66665-06-2

DISSERTAÇÕES E TESES EM ANDAMENTO Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2

DISSERTAÇÕES E TESES EM ANDAMENTO

Corpo e Heterotopias Labedisco ISBN 978-85-66665-06-2

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A imagem do bom governante nas eleições 2014

Alessandra Souza Silva (PPGLin/UESB) Edvania Gomes da Silva (UESB)

Resumo: O presente trabalho é um recorte da pesquisa desenvolvida dentro do Programa de Pós-Graduação em Linguística da UESB, em nível de Mestrado Acadêmico, cujo objetivo é analisar as estratégias discursivas utilizadas para a construção da imagem do bom governante na propaganda eleitoral gratuita dos candidatos à presidência da República do Brasil nas eleições de 2014. Para este trabalho, analisaremos o primeiro programa eleitoral dos presidenciáveis do ano de 2014, detendo-nos nas falas que, em alguma medida, citaram Eduardo Campos nos programas dos três principais partidos que disputam as eleições, e utilizamos como referencial teórico postulados de Jean-Jacques Courtine (2006) acerca do discurso político, alguns conceitos operacionais que fazem parte do dispositivo teórico- analítico da Análise de Discurso Francesa, além de discussões empreendidas por Michel Foucault sobre poder, saber e vontade de verdade.

Palavras-Chave: Discurso; Imagem discursiva; Política.

Introdução

Com o avanço da tecnologia e da facilidade de acesso a ela, o discurso político

também precisou modernizar-se. As campanhas políticas já não são feitas só em palanques,

com longos discursos, mas, sobretudo, nos diferentes meios de comunicação, como

televisão e redes sociais. De acordo com Courtine (2006), essa mudança, ocorrida a partir

da década de 1970, tornou a coisa pública simples aparência, puro espetáculo, que, para

nós, tem a propaganda eleitoral gratuita como um de seus principais atos.

Materiais e Métodos

Para o presente trabalho, recortamos do primeiro programa eleitoral dos

presidenciáveis de 2014, veiculado na televisão aberta em 19/08/2014, as falas

materializadas nos programas dos principais candidatos à presidência que, em alguma

medida, citaram Eduardo Campos, ex-candidato a presidente da Republica do Brasil, morto

em um acidente sofrido no dia 13/09/2014. Verificamos que, dos onze partidos que

Discente do Programa de Pós-Graduação em Linguística PPGLin da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia UESB, em nível de Mestrado. Professora Doutora, docente do Programa de Pós-Graduação em Linguística PPGLin da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB.

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disputam a presidência, cinco citaram o referido político em seus programas, a saber, PSB, PSDB, PT, PSDC e PV. Destes, analisamos apenas os programas do PSB, PSDB e PT, que têm os principais candidatos da disputa presidencial. A partir deste recorte, destacamos não só as materialidades verbais, mas também algumas características imagéticas dos vídeos. Procuramos verificar o que foi discursivizado no programa de cada candidato sobre Eduardo e quais os efeitos de sentido que podem ser depreendidos a partir de tais referências.

Resultados e discussão

A nova forma de apresentação do discurso político, apontada por Courtine, levou os seus oradores a uma busca da construção de suas imagens enquanto bons governantes, buscando evidenciar uma constante prática da virtude, que segundo Foucault (1985), determinaria o controle da vida privada e pública do sujeito político, pois as práticas de si definem aquele que é ou não capaz de governar o outro. A propaganda eleitoral, um dos mais importantes lugares de materialização de discursos sobre a imagem dos candidatos a governantes, em suas diferentes formas de discursivização, apresenta, para a construção de tais imagens, um efeito de verdade que, posta em circulação, se impõe como realidade, e tais “produções de verdades não podem ser dissociadas do poder e dos mecanismos de poder” (FOUCAULT, 2010, p. 229). Nas propagandas eleitorais ora analisadas, identificamos diferentes estratégias de criação de um efeito de verdade para as imagens dos candidatos em questão, todas, no entanto, utilizando a imagem do Ex-Candidato Eduardo Campos como sustentáculo. Na propaganda eleitoral do Partido Socialista Brasileiro - PSB, tais estratégias discursivas apontam para uma tentativa não só de construção da imagem de Eduardo Campos como o político ideal para presidir o Brasil, mas também da candidata Marina Silva como uma continuidade do projeto político de Eduardo, que teria sido escolhida por ele mesmo. Na propaganda eleitoral do Partido Social Democrata Brasileiro - PSDB, o discurso materializado não só busca construir a sua própria imagem a partir de uma aproximação com a imagem pessoal e política de Eduardo Campos como também apresenta o candidato Aécio Neves como continuidade das ideias de Eduardo. Por fim, o discurso materializado na propaganda eleitoral do Partido dos Trabalhadores - PT contribui para a construção da imagem da candidata Dilma Rousseff como alguém que dará continuidade a uma suposta luta de Eduardo Campos pelo Brasil.

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Conclusão

Foi possível verificar que, nos discursos materializados nos programas eleitorais dos

três partidos analisados, ideologicamente diferentes, houve a tentativa de construção da

imagem Eduardo Campos como “político perfeito” e também de associação desta as

imagens dos seus candidatos como continuidade do projeto desse político, com vistas a

garantir a construção de uma determinada imagem de político ideal, posta em circulação

como um efeito de verdade.

Referências

COURTINE, Jean-Jacques. Metamorfoses do discurso político: as derivas da fala pública. Trad. Nilton Milanez, Carlos Piovezani Filho. São Carlos: Claraluz, 2006.

FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos IV: Estratégia, poder-saber. Trad. Vera Lúcia Avelar Ribeiro. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

História da sexualidade III. O cuidado de si. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque. Rio de Janeiro. Graal, 1985.

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Linguagem e subjetividade em Cazuza

Anísio Batista Pereira (UFG Regional Catalão) Antônio Fernandes Júnior (UFG Regional Catalão)

Resumo: A emergência do rock brasileiro dos “anos 80” se dá em meados da década de 1980, período que sucede o fim do regime militar no Brasil. Após esse regime, acontece uma abertura política e, consequentemente, cultural, sobretudo da cultura de massa, momento em que esse segmento musical ganha destaque. Dessa forma, várias bandas são formadas, sobretudo por jovens. Este trabalho propõe analisar perfis identitários, construídos por meio da linguagem, que deem visibilidade a perfis de uma identidade jovem. Para tanto, escolheu-se a letra de música Ideologia, de Cazuza, pois nela encontramos elementos que possibilitam apreender perfis identitários do período supracitado. Como suporte teórico, adotou-se Foucault (2009), Fernandes (2012) e Duarte (2010). Ressalte-se que este trabalho é parte de um estudo mais amplo, em desenvolvimento, que propõe pesquisar a construção de uma identidade jovem nas letras de rock dos anos 1980 no Brasil.

Palavras-chave: Linguagem; subjetividade; rock brasileiro da década de 1980; Cazuza.

Introdução

O rock brasileiro dos anos 80 tem sua ascensão após o fim da ditadura no Brasil. Esse

segmento musical foi constituído por bandas formadas por jovens com idades entre 16 e

29 anos. Pela linguagem artística, vários grupos puderam dar visibilidade a questões de

interesse de muitos jovens. Assim, este trabalho pretende discutir aspectos relacionados à

subjetividade jovem, a partir da letra da música Ideologia, de Cazuza.

Material e métodos

O presente estudo obedece ao modelo de pesquisa bibliográfica, sendo, por isso,

analítica descritiva. Quanto ao aporte teórico-metodológico, o trabalho se fundamenta em

Foucault, apoiando-se no conceito de subjetividade, com destaque, também, para a

identidade que é possível perceber a partir da análise do corpus. Para a análise, escolheu-se a

letra de música Ideologia, do roqueiro Cazuza, por tratar diretamente da questão da

subjetividade e a um perfil de juventude, correspondendo aos objetivos deste estudo.

Mestrando em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Goiás Regional Catalão. Doutor em Estudos Literários pela UNESP Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e professor adjunto da Universidade Federal de Goiás.

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Feita a leitura do recorte teórico e escolha da letra de música, dentro do rock brasileiro da década de 1980, foi realizada a análise, considerando alguns pontos ligados ao conceito de subjetividade, possibilitando apontar para um perfil de identidade jovem, materializado na referida letra musical.

Resultados e discussão

Fernandes (2012, p.74), em uma leitura de Foucault, conceitua subjetividade como o “processo constitutivo dos sujeitos, pela produção da subjetividade que possibilita [ objetivação dos sujeitos”. Foucault (1995) relaciona a subjetividade com o discurso, tomando o enunciado como aporte para a materialização de posições-sujeito, no qual o sujeito se inscreve. Dessa forma, o sujeito, a partir de sua relação com o exterior,

a

]

“constrói” o seu interior. E, nessas relações, o sujeito recorre a saberes, considerados, aqui, como construções subjetivas. Relacionando essas posições-sujeito com a identidade, Duarte (2010, p. 94/95)

pensando nos efeitos de sentido produzidos pelos vários cruzamentos de

discursos e pelas várias posições-sujeito assumidas pelo enunciador, podemos perceber a

defende que “(

)

inscrição da identidade e da subjetividade”. Vejamos um trecho de Ideologia, integrante do terceiro álbum solo de Cazuza:

O meu prazer Agora é risco de vida Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n' roll Eu vou pagar a conta do analista Pra nunca mais ter que saber quem eu sou Pois aquele garoto que ia mudar o mundo (Mudar o mundo) Agora assiste a tudo em cima do muro (CAZUZA, FREJAT, 1988)

As marcas linguísticas “meu”, “vou”, ‘sou” revelam posicionamentos do sujeito no discurso, abordando questões sociais marcadas historicamente, nos anos 1980, como drogas, rock’n’roll e a ameaça de futuro anunciada pela aids, que se percebe nos versos “o meu prazer/ Agora é risco de vida”. Nota-se que a marca temporal “agora”, delimita o espaço e tempo do sujeito. Soma-se a ameaça da aids, a negação da identidade (“não ter que saber quem é”) e a descrença política, delimitada pelo enunciado “em cima do muro”, que indica tanto a ausência de posição política quanto a desilusão com o futuro (“mudar o mundo”). Percebe-se, no discurso, traços de uma subjetividade que desacredita no futuro

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(mudança) e no presente (assiste a tudo em cima do muro), além da perda da utopia e do

espírito revolucionário dos anos 1960. E esse panorama aponta para um perfil de

identidade jovem que se construiu, historicamente, nos discursos da década de 1980 no

Brasil.

Conclusões

O estudo teve o propósito de indicar pontos de analise da letra de música Ideologia,

de Cazuza, integrante do rock brasileiro da década de 1980, a fim de perceber, por meio da

linguagem, a formação da subjetividade no discurso. Pela análise, sob as considerações

foucaultianas, é possível perceber que há materializada na referida letra, subjetividades

(posições-sujeito), formadas a partir de trocas sociais (político-ideológicas e culturais),

possibilitando a percepção de uma identidade jovem.

Referências

CAZUZA; FREJAT, Roberto. Ideologia. Intérprete: CAZUZA. In: CAZUZA. Ideologia. Universal Music, p1988. 1 CD. Faixa 1.

DUARTE, Sirlene. Subjetividade e identidade na literatura de autoajuda. Goiânia:

Cegraf UFG, 2010.

FERNANDES, Cleudemar Alves. Discurso e sujeito em Michel Foucault. São Paulo:

Intermeios, 2012.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

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Regimes de verdades e redes de memórias no telejornalismo paraense

Arcângela Auxiliadora Guedes de Sena (UFPA/GEDAI) Ivânia dos Santos Neves (UFPA/GEDAI)

Resumo: Esta pesquisa se propõe a pensar a presença indígena no telejornalismo paraense, a partir da compreensão das formações discursivas, fundamentadas pelas formulações de Michel Foucault (2014), tomando como análise o processo de produção da notícia. Quais os regimes de verdade e as redes de memórias que posicionam as identidades indígenas, no telejornal local? Discursos que tem na descrição ideal do indígena, no Brasil, redes de memórias estabelecidas, a partir de possibilidades de condições históricas, em vários enunciados sobre os “índios” e que tentaremos compreender a partir da proposta arquegenealógica de Foucault (2014).

Palavras-chave: Televisão; telejornalismo; identidade; índio; memória.

Introdução

A temática indígena disputa espaço na pauta de um telejornal com outros assuntos de

interesse da sociedade e, portanto, afetam diretamente, os critérios de noticiabilidade dos

produtores do telejornalismo. O artigo faz parte dos estudos, desenvolvidos pelo GEDAI,

Grupo de Estudos, Mediações, Discursos e Sociedades Amazônicas, coordenado pela

Professora Doutora Ivânia Neves que, há quatro anos, vem se dedicando a pesquisas sobre

identidades indígenas no Brasil. O estudo ainda está em sua fase inicial, mas já esboçamos,

neste, as primeiras reflexões sobre redes de memórias, saber-poder e condições de

possibilidades históricas na comunicação televisiva na Amazônia.

Material e métodos

A Pesquisa tem por objetivo discutir a mídia televisão e a identidade da população

indígena que vive no Pará, a partir da compreensão das formações discursivas,

fundamentadas pelas formulações de Michel Foucault, e tomando como análise o processo

de produção da notícia nos telejornais exibidos no Estado, onde a partir de um estudo

arquegenealógico (FOUCAULT, 2014), nos permitirá uma análise das regularidades e

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Amazônia (PPGCOM-UFPA). Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM-UFPA).

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dispersões exibidas em diferentes condições de possibilidades históricas, no telejornalismo paraense. A partir da análise das práticas discursivas, tomares também como estudo as produções de identidade que se formam a partir dos sentidos que circulam nos discursos do telejornal, com base em Douglas Kellner (2001) e seu entendimento sobre a identidade contemporânea.

Resultados e discussão

O discurso em FOUCAULT (2014, p.25) é tomado como uma prática social, historicamente determinada, que constitui os sujeitos e os objetos. A mídia, enquanto prática discursiva, produto de linguagem e processo histórico, deve ser analisada, levando- se em consideração a circulação dos enunciados, as posições de sujeito, as materialidades que dão corpo aos sentidos e as articulações dos enunciados com a história e a memória. Em cada época são criados diferentes dispositivos que contribuem para a constituição das diferentes identidades. Kellner (2001) afirma que na sociedade contemporânea a questão da identidade é cada vez mais mediada pela mídia, que produz “posições de sujeitos” (KELLNER, 2001), “que valorizam certas formas de comportamento e modo de ser, enquanto desvalorizam e denigrem outros tipos” (KELLNER, 2001, p. 307). Os enunciados de um telejornal trazem à tona as diferentes vozes que se constituem historicamente num corpo institucional e isso é vivenciado em todas as formas de materialidades que circulam na redação e passam desde a produção, momento em que se formula o que poderá servir como notícia, até a apresentação do material no ar. Cinco emissoras detém a maior audiência no telejornalismo paraense: TV Liberal (afiliada à Rede Globo), TV Record, SBT, RBA (ligada ao grupo Band) e TV Cultura (Emissora ligada à Rede Educativa). Nos telejornais paraenses dessas emissoras a figura indígena ainda está povoada de discursos que nos remetem ao século XVI, cheias de desdobramentos morais e filosóficos. Essas sociedades, já nesta época, eram retratadas como figuras alegóricas, constituídas por cocas, arcos e flechas, pinturas corporais e nem um traço de subjetividade. “Hoje, pensar em uma análise das produções de sentido pela mídia não se limita mais a compreendê-la como uma “ação representacional” (NEVES, p.05, 2013). Fazer a história descontínua dos acontecimentos que envolvem as sociedades indígenas e sua relação com as sociedades ocidentais, é compreender como a mídia constrói as diferentes identidades desses povos, e também compreender como “cultura midiatizadas” (NEVES, 2013), se constroem a partir dessas dispersões históricas.

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Conclusões

É importante trabalharmos um pouco das condições históricas que deixaram essas

redes de memórias no processo de produção da notícia e que também ajuda nos

dispositivos de controle do que se pode saber e do que deve ser silenciado nessas

produções. A televisão no Pará chega 11 anos depois da primeira transmissão feita no resto

do País, em 2 de setembro de 1961, com a TV Marajoara, canal 2. No início eram 3 horas

de programação, a partir do início da noite. Havia dois telejornais, além de novela e

programação musical, tudo feito ao vivo. Mas, tempos depois, a produção local dá espaço à

produção da cabeça de rede TV Tupi, com seus enlatados nacionais e internacionais. Se

reafirmam ou se refutam através desses discursos o saber e o poder; são estabelecidos os

direitos de fala, legitimamente e institucionalmente reconhecidos. O viés econômico,

ainda continua sendo o principal fio condutor das pautas que tornam-se acontecimento no

dia a dia das redações dos telejornais paraenses e o assunto ligado as sociedades indígenas

também são alvo dessa avaliação. A herança do discurso colonial está presente na seleção

da pauta, no enquadramento, no texto, na seleção de imagens e no lugar que a reportagem

irá ou não ocupar no espelho do telejornal. A memória coletiva que ver a Amazônia como

lugar a ser ocupado, integrado, está presente, mesmo que numa leitura subliminar do

sujeito produtor do noticiário. É o que Pollack chama de “enquadramento da memória”,

que trabalha a reinterpretação do passado para o bem do presente e do futuro. “Manter a

coesão interna e defender as fronteiras daqui que um grupo tem em comum, em que se

inclui o território (

eis as duas funções essenciais da memória comum. Isso significa

fornecer um quadro de referências e de pontos de referências” (POLLACK, 1989, p.09).

),

Referências

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do Saber. Forense Universitária. 8ª edição. 2014

KELLNER, Douglas. A Cultura da mídia. Bauru: EDUSC, 2001.

POLLACK, Michael. Memória, esquecimento e silêncio. In: Estudos históricos. Rio de Janeiro, v. 02, n.03, 1989.p.03-15.

NEVES, Ivânia. A invenção do índio e as narrativas orais Tupi -- Campinas, SP : [s.n.],

2009.

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Cartografias do discurso: a constituição de um dispositivo de TDAH

Bruno Franceschini (UFU/LEDIF) Cleudemar Alves Fernandes (UFU/LEDIF)

Resumo: Este trabalho objetiva discutir a constituição de um dispositivo de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) tendo em vista a observação e descrição dos elementos que compõem esse dispositivo, bem como apresentar uma proposta de cartografia do dispositivo em questão. O que se apresenta, neste momento, é uma das reflexões mobilizadas no projeto de tese “Operacionalização do conceito de dispositivo na construção discursiva do TDAH”, pesquisa que tem por objetivo analisar como, por meio do conceito de dispositivo, é constituído o discurso médico naquilo que diz respeito ao diagnóstico do TDAH. Assim, considerando que uma prática discursiva é constituída com base em regulamentos sócio-históricos que possibilitam o exercício da função enunciativa, como teorizado nos estudos de Michel Foucault, o foco deste estudo é observar e descrever a constituição e o funcionamento do saber médico e a relação deste com o campo da educação naquilo que diz respeito à objetivação e subjetivação do aluno hiperativo.

Palavras-chave: Discurso; Dispositivo; Prática discursiva; Subjetivação; TDAH.

Introdução

Este projeto de tese destina-se a analisar a maneira como se dá a construção

discursiva da identidade do aluno hiperativo por meio da análise de artigos científicos

publicados em periódicos de divulgação científica que tratam, em diferentes eixos da

ciência, da conceituação, do diagnóstico e das formas de tratamento do TDAH e do sujeito

aluno hiperativo. Para tanto, trabalhamos com a noção de trajeto temático

(GUILHAUMOU & MALDIDIER, 1997), noção esta que nos possibilitará apreender o

tema nesses diferentes campos e nos permitirá descrever as regularidades discursivas

presentes nos enunciados a serem analisados, os quais serão divididos em quatro eixos de

discussão teórica-analítica. Assim, de modo a compreendermos como esse sujeito da

educação é produzido na/pela linguagem, procuramos desenvolver este estudo tendo como

conceito principal a noção de dispositivo, conceito complexo e carente de aprofundamento

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de Uberlândia (PPGEL UFU) Doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo. Professor Associado da Universidade Federal de Uberlândia e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de Uberlândia.

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teórico-analítico, com vistas a explicitar sua proficuidade aos estudos em Análise de Discurso e à obra de Michel Foucault.

Material e métodos

Este projeto de tese tem como questão central a construção discursiva da identidade do sujeito hiperativo tendo em vista a discussão teórica-analítica e o desenvolvimento dos estudos do discurso a respeito do conceito de dispositivo trabalhado por Foucault. De modo a discutir essa problemática, tomamos como objeto de análise 20 artigos científicos publicados em periódicos classificados no Sistema WebQualis nos extratos A1 e A2 a partir do ano 2000, artigos esses que tratam diretamente, em diferentes perspectivas, do Transtorno do Déficit de Atenção e de Hiperatividade (TDAH), além de documentos específicos da área da saúde, tais como os DSMs (Dicionários de Saúde Mental) e o CID- 10 (Classificação Internacional de Doenças). A escolha em trabalhar com textos científicos é justificada pelo status de verdade conferido a essas materialidades, uma vez que à ciência é um lugar social construído historicamente ao qual atribui-se, também, um lugar de verdade, a ela cabe o diagnóstico da doença, bem como a prescrição do tratamento, e o discurso veiculado nesse campo é aceito, com frequência, como verdadeiro e incontestável. Uma vez que é possível a nós a descrição e a interpretação dos discursos provenientes das diversas instâncias científicas que estudam o TDAH, pretendemos investigar os discursos e os dispositivos que perpassam as instituições e os sujeitos de onde obteremos esses discursos. Pensamos nesse objeto como o mais apropriado para o levantamento dos aspectos discursivos que constituem a identidade do aluno hiperativo em seus diferentes funcionamentos discursivos e institucionais. Os artigos a serem analisados são oriundos de campos científicos da área da saúde, a saber: neurologia, psiquiatria, pediatria e farmacologia, e suas articulações, bem como estudos do campo da educação. Os saberes produzidos por essas áreas específicas estão compreendidos no processo de identificação, do diagnóstico e do tratamento do TDAH e do sujeito aluno hiperativo e serão investigados no desenvolvimento da tese como o que promove construções identitárias ao sujeito hiperativo. Isto posto, o trabalho será desenvolvido em quatro eixos: a) apresentação de como O TDAH é considerado na literatura médica e pedagógica; b) Reflexão/exposição das noções de discurso e prática discursiva; c) Discussão sobre os dispositivos de saber e de poder e a ordem do olhar; d) Reflexões sobre os dispositivos e as

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práticas de objetivação e de subjetivação. Em todos os eixos, os apontamentos teóricos serão balizados com o estudo da construção identitária do aluno hiperativo. Dessa forma, em cada um desses troncos, desenvolveremos nossas reflexões de modo a compreender o funcionamento de um dispositivo de saber-poder que faz circular, que reatualiza, legitima, silencia, dentre outros movimentos do discurso, os saberes presentes nesses enunciados. Para tanto, procederemos com o recorte de séries enunciativas que expõem o objeto (TDAH e o aluno hiperativo) e apresentam as pesquisas recentes com vistas a delinearmos um dispositivo mais abrangente do qual emanam os discursos que servirão como parâmetro para os demais, bem como os discursos de experimentos e estudos que balizam o que se entende por TDAH na atualidade, as formas de diagnóstico e de tratamento.

Resultados e discussão

Neste momento, a análise dos DSMs recairá na observação e descrição dos índices do volume III com vistas a compreendermos as práticas de normatização e de normalização, uma vez que, no âmbito da normatização, há a delimitação de práticas científicas, a definição de critérios, de condições e daquilo que é concebido como padrão, sendo o índice o seguinte:

DSM III 1

como padrão, sendo o índice o seguinte: DSM – III 1 No volume III, o que

No volume III, o que seria o TDAH não está mais compreendido na seção que envolve questões orgânicas, mas em desordens da infância e da adolescência. Um dado discursivo que merece atenção diz respeito aos verbos “evident” e “diagnosed” - evidenciado e diagnosticado, respectivamente. Há uma diferença semântica em algo que é evidente e em outro que é diagnosticado e sobre esse fato levantamos o questionamento de que isso possa ser uma marca do desenvolvimento do saber psiquiátrico e uma aproximação à neurologia. A psiquiatrização da infância é uma das formas iniciais de se normatizar os comportamentos e um dos modos pelos quais esse processo tem início é no seio familiar por meio da ordem do olhar, ou seja, a criança está sempre exposta a um regime de visibilidade daqueles que dela cuidam, ao mesmo tempo em que o discurso da

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psiquiatria também faz parte desse movimento, uma espécie de moto-contínuo em que ocorre a formação de um saber sobre a criança tendo em vista seu comportamento. Observamos que a ordem do olhar é um dos principais componentes do dispositivo porque é por meio das linhas de visibilidade que os sujeitos discursivos em diversas instâncias podem enunciar seus discursos, uma vez que dada a posição de onde esse sujeito fala, há, como sabemos, as implicações das relações de saber-poder. Até mesmo porque os sujeitos que falam estão compreendidos nesse regime de visibilidade. Como expõe Deleuze (1988, p. 66), “a condição à qual a visibilidade se refere não é, entretanto, a maneira de ver de um sujeito: o próprio sujeito que vê é um lugar na visibilidade”.

Conclusões

Na discussão aqui proposta, observamos como a ordem do olhar é produtora de saberes sobre esse sujeito da educação e como esse mesmo olhar médico joga com as relações de saber-poder e produz discursos com efeito de verdade sobre o que é o TDAH e quem é o sujeito hiperativo segundo seus aspectos comportamentais. De modo a didatizar a construção desses saberes, apresentamos, então, uma proposta de cartografia do dispositivo de TDAH. A primeira imagem é um panorama do que acreditamos ser esse dispositivo, enquanto a segunda, a cartografia dos componentes dessas redes discursivas.

a cartografia dos componentes dessas redes discursivas. Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN

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Essa cartografia ainda apresenta-se enquanto um estudo preliminar do que seria e

como funcionaria esse dispositivo de TDAH, uma vez que o estudo sobre a construção

discursiva da identidade do sujeito hiperativo ainda está em desenvolvimento, mas

procuramos, de qualquer forma, apresentar uma proposta de discussão e de leitura sobre

esse objeto.

Referências

DELEUZE, Gilles. Um novo arquivista (Arqueologia do Saber). In: Foucault. São Paulo:

Martins, 1988.

GUILHAUMOU, Jacques e MALDIDIER, Denise. Efeitos do arquivo: a análise do discurso no lado da história. In: Eni P. Orlandi. (Org.) [et. al.] Gestos de leitura:

da história no discurso. Trad. Bethania S. C. Mariani [et. al.] 2.Ed. Campinas: Editora da Unicamp, 1997.

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Discurso, corpo e governamentalidade: as marcas identitárias do sujeito fumante em campanhas antitabagistas nas embalagens de cigarro

Claudemir Sousa (UFPB/CIDADI) Regina Baracuhy (UFPB/CIDADI)

Resumo: Neste trabalho, objetivamos analisar como se exercem as relações de saber-poder sobre o corpo do sujeito fumante (entendido como unidade discursiva) e a constituição de suas identidades em campanhas de prevenção ao tabagismo, a partir de enunciados que circulam na materialidade sincrética das embalagens de cigarro. Ancoramo-nos na Análise do Discurso, a partir dos diálogos de Michel Pêcheux com Michel Foucault, as contribuições de Jean-Jacques Courtine para o estudo de uma Semiologia Histórica da imagem e alguns teóricos dos Estudos Culturais para tratar da constituição da identidade dos sujeitos fumantes. Utilizamos o método arqueogenealógico de Foucault para as nossas análises pelo fato de que esse aporte nos permite escavar da história as condições que permitiram a emergência do discurso de combate ao tabagismo, a interdição das propagandas de cigarro e as transformações nas posições identitárias do sujeito fumante em nossa sociedade.

Palavras-chave: Análise do Discurso. Campanhas de Prevenção. Corpo. Relações saber- poder.

Introdução

Neste estudo, pretende-se analisar as relações de saber-poder que incidem sobre o

corpo do sujeito fumante (entendido como unidade discursiva) e a constituição de suas

identidades em campanhas de prevenção ao tabagismo. Para tanto, se faz necessário pensar

questões como a governamentalidade, a biopolítica e os biopoderes que incidem sobre o

corpo desse sujeito.

Material e métodos

Este trabalho se caracteriza metodologicamente por uma abordagem qualitativa do

corpus, pois tem como marca a interpretação. Para sua realização, selecionaremos um corpus

de 30 enunciados presentes em embalagens de cigarro, os quais serão distribuídos em três

séries enunciativas, de acordo com as escolhas temáticas (referências à sexualidade,

Graduado em Letras Português/Inglês, pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA); Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal da Paraíba (PROLING/UFPB). Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP. Professora do PROLING/UFPB. Coordenadora do Grupo de Pesquisa CIDADI Círculo de Discussões em Análise do Discurso.

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consequências sobre o fumante, consequências sobre outrem) e as correlacionaremos a outra série enunciativa, composta de propagandas de cigarro, o que nos possibilitará verificar as movências que o discurso sobre o tabagismo sofreu na nossa sociedade e as diferentes posições que o sujeito fumante passou a ocupar em decorrência disso. Para a análise do corpus, utilizaremos o aporte teórico da AD, realizando uma abordagem arquegenealógica do discurso, para verificar as condições de emergência do discurso de combate ao tabagismo.

Resultados e discussão

O discurso sobre o consumo de tabaco sofreu mutações ao longo do tempo. Na década de 1950 houve um momento de estímulo ao tabagismo através de propagandas veiculadas na TV e outras mídias, nas quais apareciam pessoas jovens, na maioria homens, que praticavam esportes, tinham carros, poder e independência financeira. A indústria cinematográfica hollywoodiana teve um papel fundamental nesta divulgação. Já nas décadas de 1960/70, com os movimentos de contracultura, o consumo do cigarro aumentou e passou a ser relacionado a liberdade e autoafirmação. Nos anos 1980, o foco na divulgação e estímulo ao consumo de cigarro era o garoto-propaganda da Marlboro, que na propaganda fumava um cigarro denotando prazer e satisfação. Segundo Renovato at al (2009), no final desta década começam a circular resultados de pesquisas relacionando o tabaco a várias doenças, como os cânceres, e a tabagismo começa a ser reconhecido como doença, tendo sua inclusão no Código Internacional de Doenças (CID), entre os transtornos mentais devido ao uso de substâncias psicoativas. Conforme Renovato at al (2009), a Portaria nº 490, de 1988, obrigou as indústrias de cigarros a incluir a advertência “O Ministério da Saúde adverte: Fumar é prejudicial à saúde”, nas embalagens e publicidades dos produtos contendo tabaco. Em 1999 foram introduzidos novos alertas. Ainda segundo os autores, a Resolução nº 104, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), tornou obrigatória a veiculação de imagens no verso das embalagens do cigarro em 31 de maio de 2001. O segundo grupo de imagens foi inserida por determinação da Resolução nº 335, da ANVISA, de 21 de novembro de 2003. Em maio do mesmo ano o Brasil adotou, na 56ª Assembleia Mundial da Saúde, um tratado internacional de saúde pública, chamado “Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco” com o propósito de banir a publicidade do cigarro. Segundo Mota at al (2013), novas imagens foram lançadas causando impacto ainda maior junto aos fumantes.

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Conclusões

Em conformidade com as noções de governamentalidade e bipolítica de Foucault

(1999; 2013), segundo as quais o governo visa manter a vida da população saudável,

evitando gasto com tratamentos de saúde, podemos afirmar que a emergência do corpo do

sujeito fumante como estratégia de combate ao tabagismo, a partir da inserção de imagens

sanitárias em embalagens de cigarro, deve-se à divulgação de pesquisas sobre os prejuízos

do tabaco à saúde. O tabaco se torna um risco à saúde de toda a população.

Referências

FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal,

1999.

Governamentalidade. In: MACHADO, Roberto (org.). Microfísica do Poder. São Paulo: Graal, 2013.

MOTA, José Roberto; at al. Impacto do apelo ao medo nas embalagens do cigarro: a percepção de fumantes em relação às mensagens de advertência antitabagismo. Campo Largo PR: Revista Eletrônica de Ciência Administrativa (RECADM), 2013. P. 246-

259.

RENOVATO, Rogério Dias; at al. Significados e sentidos de saúde socializados por artefatos culturais: leituras das imagens de advertência nos maços de cigarro. Campinas SP: Ciência & Saúde Coletiva, 2009. p. 1599 1608.

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Egos em evidência: (re)configurações do íntimo na tessitura do discurso midiático

Francisco Vieira da Silva (UFPB/CIDADI) Regina Baracuhy (UFPB/CIDADI)

Resumo: Nossa pesquisa de doutorado, ainda em andamento, intenta problematizar a noção de intimidade, a partir da análise de discursos que circulam na mídia, os quais paulatinamente põem em xeque as linhas divisoras historicamente determinadas no que tange à chamada vida íntima. Assim, vemos despontar nos dias de hoje uma intensa profusão de discursos sobre si nos mais variados veículos midiáticos. Esses discursos, normalmente, (re)constroem fatos, imagens e declarações outrora restritos à esfera do privado. Para tanto, tomamos como corpus trinta notícias publicadas no site Ego, nos anos de 2013 e 2014. Amparamo-nos na Análise do Discurso, a partir das reflexões de Michel Pêcheux e das teorizações de Michel Foucault. A partir desta pesquisa, objetivamos pensar o que estamos nos tornando frente à hiperexposição midiática atualmente em voga, tendo como norte o olhar sobre a constituição da celebridade, no contínuo desvelar da intimidade, na tessitura do discurso da mídia digital.

Palavras-chave: Análise do Discurso; Mídia; Celebridade; Intimidade.

Introdução

Investigar o processo de exposição da intimidade na mídia redunda em rastrearmos,

nas fissuras do terreno da história, os modos através dos quais a intimidade é dada a ver.

Desde a consolidação do sentimento de intimidade atrelado a uma moral burguesa (KHEL,

2004) até as configurações do íntimo no exibicionismo atualmente em voga, importa-nos

evidenciar como o sujeito contemporâneo, mais particularmente o sujeito celebridade,

constitui-se no âmbito desse contínuo desvelar de discursos sobre a vida íntima.

Material e métodos

Tomamos como corpus principal para essa tese trinta notícias publicadas no site Ego

- que abordam aspectos relativos à vida privada de sujeitos os quais, por algum motivo,

iluminaram-se com os holofotes da mídia. Faremos um trajeto que parte da notícia para

chegarmos noutros canais midiáticos, como as redes sociais e aplicativos virtuais,

Mestre em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Doutorando em Linguística pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP. Professora do PROLING/UFPB. Coordenadora do Grupo de Pesquisa CIDADI Círculo de Discussões em Análise do Discurso.

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responsáveis pela produção de sentidos que espetacularizam a intimidade do sujeito- celebridade. As notícias entrelaçam essa rede discursiva cujo propósito tem sido evidenciar esse sujeito, a partir da incessante exposição de sua privacidade, mais precisamente na transformação dessa intimidade num show, numa tentativa de mitificar a vida cotidiana. Na leitura do corpus, estabelecemos um trajeto temático frente à diversidade de notícias do site Ego, qual seja: família, amor e sexualidade. Esse trajeto procura convergir para determinadas palavras-chave do universo da intimidade que historicamente atrelam-se ao âmbito do privado.

Resultados e discussão

Dada a fase inicial em que o trabalho se encontra, ainda não é possível tecer uma discussão que contemple os resultados da pesquisa. Todavia, vale salientar que neste trabalho amparamo-nos na tese foucaultiana, cujas bases provêm de Kant, segundo a qual, para perscrutarmos quem somos nós hoje, é preciso deduzir genealogicamente o que fez ser o que somos (FOUCAULT, 2008); isso implica reconhecer o que paulatinamente deixamos de ser. Por isso, a discussão em torno do atual a partir de Foucault não envolve necessariamente o que somos, mas o que estamos nos tornando, levando em consideração ainda o que somos em devir, isto é, a história que nos constitui (DELEUZE, 1990). Nossa pesquisa volta-se, portanto, para o exame das discursividades midiáticas por onde os sujeitos constroem-se, tendo em vista a cultura do exibicionismo e do espetáculo atualmente em voga. Em outras palavras, indagamos: O que estamos nos tornando hoje frente à exposição midiática que nos interpela? Por extensão, questionamos: Como o sujeito celebridade constitui-se mediante as atuais (re)configurações da intimidade no cerne de uma cultura da visibilidade? Para tanto, buscamos depreender as diferentes feições assumidas pela intimidade, tendo a mídia como uma instância a partir da qual esse construto tem apresentado outras possibilidades de existência.

Conclusões

Para finalizar, gostaríamos de destacar as contribuições desta pesquisa, quais sejam:

numa perspectiva macro, objetivamos subsidiar os estudos desenvolvidos sob a perspectiva da Análise do Discurso, a partir do entrocamento com as teorizações foucaultianas; num

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viés mais específico, oportunizaremos (re)pensar o quem somos nós hoje, tendo como pano de

fundo os discursos sobre a intimidade na mídia na/da cultura da visibilidade.

Referências

DELEUZE, G. O que é um dispositivo? In:

Wanderson F. Nascimento. Barcelona: Gredisa, 1990.

Michel Foucault, filósofo. Trad.

Arqueologia das ciências e história

dos sistemas de pensamento. Trad. Elisa Monteiro. Rio de Janeiro: Forense

Universitária, 2008 (Coleção Ditos e Escritos, v.II).

FOUCAULT, M. O que são as luzes? In:

KEHL, M. R. O espetáculo como meio de subjetivação. In: BUCCI, E.; Videologias: ensaios sobre televisão. São Paulo: Boitempo, 2004.

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O fascínio por assassinos em série na ficção: uma ordem discursiva a partir de Dexter

Glaucia Vaz (Unesp/FCLAr GED) Luciane de Paula (Unesp/FCLAr GED)

Resumo: Objetivamos, de modo geral, analisar, em termos de discurso, a constituição do fascínio por assassinos em série na ficção a partir do seriado estadunidense Dexter (2006- 2013). Nos questionamos sobre um estereótipo do assassino em série cunhado em uma dada configuração histórica, mais especificamente, em discurso médico que tem sido propagado por meio (também) da exibição de séries e filmes. Há uma maneira bastante específica para se falar desse sujeito: geralmente um psicopata cujos impulsos de matar decorrem ou de um trauma de infância (vitimização) ou de necessidades biológicas (desumanização). Partimos da Análise do discurso de linha francesa, especialmente da noção de enunciado foucaultiana (e aqui tomamos imagens e formulações verbais como enunciados) e das discussões sobre imagens/fotografia de Barthes.

Palavras-chave: Assassinos em série; Sujeito; Discurso; Seriado; Imagem.

Introdução

Durante o mestrado, analisamos, a partir do recorte de corpus de duas obras de

Patrícia Melo, O matador (2002) e Mundo Perdido (2006), a constituição do sujeito criminoso

no discurso literário e o processo de (des)criminalização dos sujeitos. Seguindo ainda a

linha temática de pensar a produção discursiva acerca de assassinos em série na ficção,

expandiremos as análises para materialidades não apenas do literário, mas também para as

esferas televisiva e publicitária.

Materiais e métodos

O corpus será recortado a partir das oito temporadas do seriado Dexter (2006-2013) e

de seu material publicitário. Num primeiro momento (capítulo da tese), traçaremos o

histórico do corpus (produção cinematográfica, produção literária e o que a psiquiatria diz

sobre matadores em série). Apresentaremos a fortuna crítica que versa sobre matadores em

série na ficção para apontar o lugar do corpus nesse panorama geral. Num segundo capítulo,

explanaremos sobre a indústria do entretenimento e os gêneros na produção/recepção de

efeitos de sentido: romance, série televisiva e publicidade. Trata-se, de forma geral, de

Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Linguística e Língua Portuguesa da Unesp/FCLAr. Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.

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enunciados verbais, não-verbais e verbo-visuais. Mas gostaríamos de destacar toda uma definição sobre gêneros distintos. Ainda que vistos por um mesmo eixo temático, consideramos importante traçar os efeitos de sentido que tal variedade pode produzir. No terceiro capítulo, iniciaremos uma análise temática, visando a compreender e elucidar o processo de construção identitária do sujeito assassino. Daí a necessidade de nos apoiar em conceitos como identidade, conforme os Estudos Culturais. Além disso, objetivamos demarcar os lugares de onde se constrói tal identidade, ou seja, procuraremos verificar se um desses lugares não possa ser o da medicina, por exemplo. No quarto capítulo, também temático, elucidaremos como o carisma, o cotidiano e a noção de justiceiro vêm funcionar na produção do fascínio. Demonstraremos como determinados elementos, tomando-os como enunciados, são ativados por uma memória discursiva que atualiza e produz efeitos de sentido acerca do matador.

Resultados e discussão

Ressaltamos que nossa unidade de análise é o enunciado, de modo que, ao escolhermos determinadas obras, não afirmamos que seja este nosso corpus e, sim, o conjunto de enunciados a partir dos quais identificamos posições-sujeito. Trata-se de pensar os enunciados num todo que seria a obra, mas também de compreender sua singularidade. Em outras palavras, referimo-nos à possibilidade de tomar tanto formulações verbais quanto enquadramentos de cena no seriado ou a fotogenia de folders para a divulgação como enunciado, por exemplo. Assim, tendo como objetivo geral compreender o lugar do fascínio pelo assassino em série na ficção dentro de uma ordem discursiva, visamos, especificamente, a: a) elucidar o funcionamento da produção/recepção de sentidos em gêneros distintos (série televisiva e publicidade); b) analisar a constituição identitária do matador em série na ficção; c) explicitar os lugares histórico-sociais que possibilitam a construção do fascínio pelo matador em série; d) explicitar os dispositivos institucionais que estão em jogo quando se trata do matador em série (como o familiar, o religioso e o médico). Além disso, consideramos a necessidade de conceitos que nos permitam compreender esses objetos semiológicos, o que nos leva a pensar na operacionalização de conceitos barthesianos como o processo de conotação na produção de sentidos em termos de imagens, em que elementos como trucagem, pose, objetos e fotogenia, por exemplo, bem como a noção de studium (grosso modo, a maneira como nos investimos de um lugar cultural na relação com as imagens) oferecem mais uma base para

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tomar as imagens como enunciados, portanto, como constitutivas do funcionamento

discursivo.

Conclusões

Mais do que ir ao encontro de conclusões, propomos repensar as análises realizadas e

refletir sobre a possibilidade que nossa proposta permite ao ser tomada a partir de outras

materialidades e seu lugar num arquivo, ou seja, em um funcionamento discursivo mais

amplo. Um estudo, em termos de discurso, poderia contribuir para compreender a

produção e a recepção de sentidos acerca do assassino em série, nesse caso, na ficção.

Consideramos que um olhar para o sujeito discursivo permite expandir reflexões a partir e

juntamente com as pesquisas que advém de outras áreas do conhecimento.

Referências

BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

O óbvio e o obtuso. Lisboa: Edições 70, 2009.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 7 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. 238 p.

MELO, Patrícia. O matador. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Mundo Perdido. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Análise do

discurso: Michel Pêcheux. Textos selecionados por Eni Orlandi. Campinas: Pontes Editores, 2011. p. 141-151.

PÊCHEUX, Michel. Leitura e memória: projeto de pesquisa. In:

VEYNE, Paul. Foucault: seu pensamento, sua pessoa. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2011.

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A noção de arquivo na obra hilstiana: morte, autoria e sexo

Jaciane Martins Ferreira (UFU/LEDIF) Cleudemar Alves Fernandes (UFU/LEDIF)

Resumo: Estar sendo/ter sido, Hilst (2006) traz a história de um homem de 65 anos que resolve romper com os protocolos sociais por estar perto da morte. Esse livro faz a retomada de outros personagens de livros da autora Hilda Hilst, constituindo um arquivo dentro dessa obra, tal arquivo traz enunciados que nos remetem aos temas morte, sexo e autoria. Para essa apresentação, traremos uma análise que contempla o livro Cartas de um sedutor, Hilst (2002)para pensarmos como o discurso sobre a morte aparece imbricado com o discurso sobre sexo e autoria. A nossa proposta não é, então, fixar o que entendemos de regular no âmbito de obra hilstiana como uma forma de dizer que aqueles discursos dizem respeito à autora, é entender os sentidos que perpassam pela temática morte e a relação com sujeitos.

Palavras-chave: sujeito; discurso; morte; autoria; sexo.

Introdução

Em nossa pesquisa de doutorado, trabalhamos com alguns livros da escritora Hilda

Hilst, temos como principal objetivo pensar o sujeito que emerge desse material

selecionado e como essa emersão se dá a partir de uma dada escritura de si, de uma

exterioridade criada a partir da temática morte. Trabalhamos, então, com o livro Estar

sendo/Ter sido, como livro central de nossa pesquisa, livro que traz a história de Vittorio,

senhor de 65 anos, que rompe com os protocolos sociais para viver o fim de sua vida.

Nossa análise contempla o livro Cartas de um sedutor, pensaremos como o discurso sobre a

morte aparece imbricado com o discurso sobre sexo e autoria.

Material e métodos

O presente trabalho será desenvolvido com base no referencial teórico da Análise do

Discurso, atendo-nos, porém, principalmente ao arcabouço teórico da Análise do Discurso

desenvolvida no Brasil a partir do diálogo com Michel Foucault, tendo como aporte

metodológico a teoria sobre enunciado e arquivo (FOUCAULT, 2008). O arquivo é, pois,

Doutoranda em estudos linguísticos pelo Programa de pós-graduação em Estudos Linguísticos, na Universidade Federal de Uberlândia - UFU; bolsista CAPES Doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo. Professor Associado da Universidade Federal de Uberlândia e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de Uberlândia.

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o que vai definir o aparecimento de uma variedade de enunciados como acontecimentos

discursivos em uma dada regularidade. Dessa forma, têm-se, em primeira instância, três conceitos que não se dissociam, a saber: o discurso, o enunciado e o arquivo, os quais servirão de suporte inicial para apreensão do sujeito discursivo contido na seleção de livros da obra hilstiana. Partiremos sempre de enunciados do livro Estar sendo / ter sido, para depois partirmos para os outros livros.

Resultados e discussão

Vittorio dialoga com o personagem Karl do livro Cartas de um sedutor (HILST, 2002). Nesse livro, assim como em Estar sendo/ter sido, há a ocorrência de uma prosa descontínua, tendo como narrador/personagem Stamatius, um escritor mendigo. Dentro da narrativa de Stamatius, surge o cotidiano de Karl, um homem rico, amoral e culto. A maior parte do livro é composta por cartas entre Karl e sua irmã Cordélia, a qual vive distante e culpada por ter tido relações incestuosas com o irmão e o pai. Ao final, descobrimos que Stamatius

e Karl são um só. O que nos interessa é investigar a maneira como esses personagens se

interrelacionam, como aparece a função autor, o discurso sobre o sexo e a temática da morte. Vittorio de assemelha muito tanto com Stamatius quanto com Karl. Ele discursa contra o que os editores fazem, assim como Stamatius, ao mesmo tempo em que se entrega

ao escrever o que é pedido por eles, como Karl. Stamatius tem maior visibilidade no livro por ser um personagem narrador. Assim como Vittorio, Stamatius também faz um retorno

a si para pensar sobre a pessoa que foi e sua condição de vida nesse momento. Ele medita

sobre si, lê-se como alguém que viveu sem tirar muitos proveitos. No momento em que diz ter “consciência de estar aqui na Terra, e não ter sido santo nem suficientemente crápula. De inventar, para me salvar. Enganar a morte inventando que esse não sou eu, que ela pegou o endereço errado” (HILST, 2002, p. 141-142), esse personagem também se vê como um ser que está morrendo e nada mais pode fazer para ser diferente. Vittorio também fala de seu passado e olha para si como um ser que está morrendo, isso é uma forma de meditação, nos termos de Foucault (2006). Vale ressaltar que as atitudes e falas de Vittorio, em muitos momentos, não condizem com o comportamento diante da morte da sociedade pós-moderna, isso cria um mal-estar nos outros personagens, pois em nossa sociedade a morte é escondida, nas palavras de Ariès (2012, p. 89), “a morte tornou-se um tabu”, sobrepondo-se ao sexo.

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Conclusão

De acordo com Foucault (2009), depois que a autoria se transformou em algo

jurídico, ficou realmente difícil fazer a separação entre autor e obra, uma vez que esse

nome exerce a função de fazer os discursos circularem. Contudo, a escrita possibilita o

desaparecimento desse autor, para isso, é preciso que observemos as lacunas deixadas pelo

desaparecimento do nome desse autor, como também seguirmos “atentamente a repartição

das lacunas e das falhas e espreitar os locais, as funções livres que essa desaparição faz

aparecer.” (FOUCAULT, 2009, p. 271). Em nossa perspectiva, essa lacuna tem a ver com a

criação de sujeitos que tomam vida própria no âmbito do espaço literário. O nome Hilst,

tomado como um autor externo, deixaria espaço para os sujeitos-autores internos dentro

de sua obra. Esse nome próprio desapareceria na medida em que esses sujeitos outros

tomam vida, ficando apenas sua função de delimitação discursiva.

Referências

ARIÈS, Philippe. História da morte no ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária,

2008.

A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

O que é um autor? In: MOTTA, Manuel Barros (org). Michel Foucault estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. (Ditos e Escritos III). Rio de Janeiro:

Forense Universitária, 2009. (p. 264-298)

Hilst, Hilda. Cartas de um sedutor. São Paulo: Globo, 2002.

Estar sendo/ter sido. São Paulo: Globo, 2006.

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José Saramago e a vontade de verdade:

um nó discursivo a ser desvendado

Karina Luiza de Freitas Assunção (UFU/LEDIF) Cleudemar Alves Fernandes (UFU/LEDIF)

Resumo: A presente pesquisa será fundamentada na Análise do Discurso de linha francesa e nos estudos de Foucault sobre a verdade. Nossa proposta buscará compreender o funcionamento discursivo da verdade nas obras A caverna (2000), O homem duplicado (2008), Memorial do convento (2008a) e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1997) de José Saramago. Atentaremos para os discursos que apontam para a verdade do senso comum, da história e da religião e como elas são desconstruídas e outras assumem seu lugar.

Palavras-chave: discurso; verdade; vontade de verdade; sujeito.

Introdução

A partir da leitura de alguns romances de José Saramago, no caso, os romances A

caverna (2000), O homem duplicado (2008), Memorial do convento (2008a) e O

Evangelho segundo Jesus Cristo (1997) e dos textos de Foucault nossa atenção se

voltou para questões referentes à constituição discursiva da “verdade”. Notamos que a

construção de uma dada “verdade” está interligada às condições históricas que permeiam

sua produção e, consequentemente, também a vontade de verdade e os jogos de verdade.

Material e Métodos

O objetivo geral da presente pesquisa foi problematizar como se articula a

constituição da verdade nos romances A caverna (2000), O homem duplicado (2008),

Memorial do convento (2008a) e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1997), com a

finalidade de compreender o funcionamento da vontade de verdade e dos jogos de verdade

presentes nessas obras. A partir desse objetivo foram eleitos os seguintes objetivos

específicos: discutir como se constitui a literatura na contemporaneidade e sua relação com

a história; apontar como a história, “a vontade de verdade” e as “políticas de verdade”, a

Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Uberlândia. Doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo. Professor Associado da Universidade Federal de Uberlândia e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de Uberlândia.

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partir do viés foucaultiano, colaboram para a compreensão da constituição dos discursos; problematizar a relação entre a análise do discurso francesa e o conceito de “verdade”; e analisar a constituição da verdade nos romances saramaguiano atentando para os enunciados que apontam para a temática religiosa, histórica e do senso comum que emergem nesses discursos e os seus efeitos de sentidos. Para o desenvolvimento da proposta de trabalho partimos da hipótese de que a historicidade, que permeou a produção dos romances A caverna (2000), O homem duplicado (2008), Memorial do convento (2008a) e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1997), estaria fundamentada por determinadas regularidades discursivas que possibilitaria a “reelaboração” da vontade de verdade e, consequentemente, dos jogos de verdade presentes nas obras mencionadas. A partir dessa hipótese defendemos a seguinte tese: essas obras são constituídas por efeitos de sentidos que apontam para o fato de que, ao mesmo tempo em que elas questionam algumas verdades “legalmente” instituídas, no caso a “verdade” do discurso religioso, científico (história) e do senso comum, elas demonstram, através da vontade de verdade que emerge nessas obras e de seus sentidos, a construção discursiva de outras, ou seja, simultaneamente essas obras questionam, desconstroem e reconstroem algumas verdades cristalizadas pela sociedade.

Resultados e discussão

A partir das questões elencadas por Foucault, no decorrer de suas pesquisas, podemos aferir que “a vontade de verdade” envolve muitos aspectos, uma vez que não é uma construção simples, mas sim algo complexo que merece ser estudado com mais atenção. Foucault (2006) na mesma obra menciona que a “vontade de verdade” nem sempre foi a mesma, pois ao longo dos tempos ela sofreu algumas modificações em sua constituição. Em alguns momentos estava relacionada com o ato ritualizado, em outros, sua produção estava associada com a classificação dos seres e em um terceiro momento temos essa “vontade de verdade” pautada na autorização que alguns sujeitos teriam de produzi-la, como exemplo mencionamos o saber psiquiátrico. A verdade é uma construção discursiva que obedece a determinadas regras históricas. As discussões sobre a parresía, a medicina e a sexualidade apresentadas por Foucault são exemplos da problemática que envolve a verdade, ou seja, em como ela está relacionada com a história e também em como o discurso para ser considerado “verdadeiro” obedece a determinadas regras de elaboração. Observamos também que o discurso, veículo de circulação das “verdades”,

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sofre constantes mudanças em sua constituição, por conseguinte, a verdade não pode ser

considerada estática e imutável, ou seja, ela é sempre movente e cambiante. Sendo assim, a

compreensão apresentada por Foucault do seu funcionamento é muito importante para a

AD francesa, pois ajuda a vislumbrar a não fixidez dos discursos, consequentemente,

atentar para as regras de emergência que perpassam a constituição dos discursos e como

uma dada verdade assume socialmente um papel de relatividade para os sujeitos, uma vez

que podemos questioná-la e identificar as suas regras de formação.

Conclusões

A partir das considerações apresentadas podemos concluir que Saramago

(des)reconstrói verdades cristalizadas socialmente, ou seja, a partir do momento que ele

questiona-as ele assume nos romances analisados “outros” lugares de verdades.

Referências

FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

Do governo dos vivos. Rio de Janeiro: Achiamé, 2010.

SARAMAGO, J. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras,

1997.

A caverna. São Paulo: Editora Schwarcz, 2000.

O homem duplicado. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Memorial do convento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008a.

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“Nem toda nudez será proibida”: a produção de identidades para o sujeito mulher no discurso turístico oficial brasileiro

Karoline Machado (UFPB/CIDADI) Regina Baracuhy (UFPB/CIDADI)

Resumo: Este trabalho objetiva analisar as construções identitárias para o sujeito mulher no discurso turístico oficial brasileiro. Tem como aporte teórico a Análise do Discurso, situando-se na interface dos trabalhos de Michel Pêcheux com Michel Foucault, Jean- Jacques Courtine e os Estudos Culturais. Utiliza o método arqueogenealógico de Foucault para a análise de um corpus composto por trinta propagandas turísticas oficiais brasileiras. As análises evidenciaram que, nas décadas de 1970 e 1980, havia uma superexposição da nudez do corpo da mulher no discurso da propaganda turística institucional, mas, na última década, a imagem da mulher seminua foi interditada nesse discurso. No entanto, a pesquisa apontou que essa interdição não ocorreu no discurso relativo ao Carnaval brasileiro, simbolizado pela nudez da mulata, porque ele faz parte de um discurso fundador da identidade brasileira, forjado pelo movimento incessante de enunciados e imagens que são “comentados” (na acepção foucaultiana do termo) infinitamente em nossa sociedade.

Palavras-chave: Análise do Discurso, Propaganda Turística, Corpo, Identidade.

Introdução

Nesse resumo esboçaremos o andamento da nossa dissertação de Mestrado,

apresentando, em pinceladas, algumas informações sobre uma trajetória de estudo sobre o

corpo da mulher no discurso turístico produzido pela EMBRATUR, sob a ótica da Análise

do Discurso e dos Estudos Culturais. Esse trabalho partiu da seguinte questão: “Por que há

a interdição da nudez do corpo da mulher no gênero propaganda turística e o mesmo não

ocorre em relação ao Carnaval, já que ambos são discursos turísticos?”.

Material e métodos

Nossa pesquisa é de cunho bibliográfico, documental e, principalmente, analítico

(descritivo/interpretativo), porque, tendo como referencial teórico a AD, cabe-nos

reconhecer que a produção de efeitos de sentido só é possível através do movimento

analítico que reconhece a estrutura (linguística) e o acontecimento (histórico-social) como

Graduada em Turismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); Especialista em Língua Portuguesa pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal da Paraíba (PROLING/UFPB). Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP; Professora do PROLING/UFPB; Coordenadora do Grupo de Pesquisa CIDADI Círculo de Discussões em Análise do Discurso.

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inseparáveis. Dessa forma, utilizamos o método arqueogenealógico de Foucault para a análise de um corpus composto por trinta propagandas turísticas oficiais brasileiras. Justifica- se a opção metodológica pelo fato de que precisávamos de um método capaz de nos proporcionar esse aporte, que auxiliasse escavar da história as condições de possibilidade que permitiram a emergência dos discursos analisados; que permitisse conhecer como surgiram, se formaram e se destacaram as políticas aplicadas ao corpo, enquanto objeto discursivo; a partir da análise da irrupção dos acontecimentos, das regras das formações discursivas e das rupturas nas redes de memória.

Resultados e discussão

A identidade é uma construção discursiva, que adquire sentido por meio de sistemas simbólicos (WOODWARD, 2000). Então, nesse clima de recente Copa do Mundo no Brasil, muito se discutiu acerca desses vários símbolos que compõem a identidade do país. Seriam eles o futebol, o Carnaval, o samba e a bunda da brasileira? A EMBRATUR foi criada em 1966, dando início a promoção turística oficial do país e a preocupação de se construir uma identidade brasileira no exterior. Desde o início, houve um elemento que se sobressaía no discurso das primeiras propagandas turísticas oficiais: o corpo seminu da mulher brasileira. Isso se deve ao fato da EMBRATUR querer lançar ‘O Carnaval do Brasil’ no exterior (ALFONSO, 2006), como também ao uso de estereótipos para divulgar o produto Brasil (SÁ, 2002). Afirmamos, então, que, por conta da exaustiva reprodução da imagem estereotipada da mulher brasileira nas propagandas turísticas oficiais do país, a EMBRATUR teve papel fundamental na produção, consolidação e cristalização desse símbolo identitário brasileiro. Esse efeito identitário é possível porque as imagens e a memória, por meio de movimentos de intericonicidade, fazem deslizar o dado e instauram o novo (GREGOLIN, 2008). No entanto, a regularização discursiva é suscetível de ruir sob o peso do acontecimento novo (GREGOLIN, 2001) e, na contramão da acentuada exposição do corpo da mulher na mídia, hoje, utilizando-se do discurso do politicamente correto, órgãos oficiais trabalham no reposicionamento da imagem do Brasil, tendo em vista que esse discurso culminou com o agravamento do turismo sexual. Então, como forma de coibir esse tipo de crime, o corpo seminu foi interditado no discurso turístico brasileiro e estabeleceu-se, assim, uma nova ordem discursiva. Porém, a pesquisa apontou que o corpo seminu não foi interditado no discurso relativo ao Carnaval, simbolizado pela

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nudez da mulata, porque ele faz parte de um discurso fundador, ou seja, de uma identidade

brasileira já cristalizada.

Conclusão

Analisamos, em nosso trabalho, o corpo discursivizado nas propagandas turísticas

oficiais brasileiras, as relações com os possíveis efeitos de sentido que emergiram a partir

das diferentes construções do discurso sobre o corpo e a interdição da nudez do corpo da

mulher. Assim, estudar o corpo, enquanto superfície de inscrição dos acontecimentos

(FOUCAULT, 2012a), nos proporcionou conhecer os processos envolvidos na construção,

cristalização e interdição de símbolos identitários do Brasil.

Referências

ALFONSO, Louise Prado. EMBRATUR: Formação de imagens da nação brasileira. 2006. 139f. Dissertação (Mestrado) Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 8 ed. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 2012a.

GREGOLIN, Maria do Rosário. J.-J. Courtine e as metamorfoses da análise do discurso:

novos objetos, novos olhares. In: SARGENTINI, Vanice; GREGOLIN, Maria do Rosário (orgs.). Análise do Discurso: heranças, métodos e objetos. São Carlos: Editora Claraluz,

2008.

GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise. Sentido, sujeito e memória: com o que sonha nossa vã autoria? In: GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise; BARONAS, Roberto Leiser, (orgs.). Análise do discurso: as materialidades do sentido. São Carlos, SP: Claraluz, 2001. p. 60-78.

SÁ, Rosana Bignami Viana de. A imagem do Brasil no turismo: construção, desafios e vantagem competitiva. São Paulo: Aleph, 2002.

WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In:

SILVA, Tomaz Tadeu da (org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. p. 07-72.

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Lugares fora de lugar: o “chão da utopia” nas narrativas heterotópicas de Rosa Magalhães

Leonardo Augusto Bora (UFRJ) Frederico Augusto Liberalli de Góes (UFRJ) Luiz Felipe Ferreira (UERJ)

Resumo: O trabalho parte das reflexões desenhadas por Michel Foucault na conferência “Outros Espaços” para a leitura de narrativas de enredo da carnavalesca Rosa Magalhães, seguindo a linha de análise discursiva (poética) proposta por Alberto Pucheu ao analisar o poema “Carnaval Carioca”, de Mário de Andrade. Problematizam-se as ideias de espaço e lugar, mapa, utopia e heterotopia, especialmente no que tange à narrativa de 2004 (fio condutor da pesquisa), intitulada “Breazail”. Trata-se de um enredo sobre as possíveis origens do nome “Brasil”, a alegória ilha da Utopia, de More, e os corpos utópicos dos vinte e quatro marinheiros da esquadra de Vespúcio “abandonados” em terras brasileiras. O objetivo da pesquisa é “mapear” o imaginário da artista, articulando os princípios foucaultianos com os estudos carnavalescos, a geografia cultural e a teoria literária. A narrativa de 2004, nesse sentido, é uma bússola possível síntese de um universo discursivo, espaço de experimentação.

Palavras-chave: utopia; heterotopia; mapa; Rosa Magalhães.

Introdução

Esta pesquisa (adaptação de projeto homônimo, apresentado como requisito para o

ingresso no curso de Doutorado em Teoria Literária do Programa de Pós-Graduação em

Ciência da Literatura da UFRJ) se debruça sobre as narrativas de enredo da carnavalesca

Rosa Magalhães, artista carioca de sólida formação acadêmica cujas criações apresentam

diálogos interartes, experimentações e marcas ensaísticas. O texto-base para a

fundamentação teórica é “Outros Espaços”, de Michel Foucault.

Licenciado em Letras Português-Inglês (Pontifícia Universidade Católica do Paraná PUCPR), Bacharel em Direito (Universidade Federal do Paraná UFPR), Mestre em Teoria Literária (Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura) e Doutorando em Teoria Literária (Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura). Doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é professor associado i da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária. Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, editor da revista Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, coordenador do Centro de Referência do Carnaval e líder do grupo de pesquisa Laboratório da Arte Carnavalesca.

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Material e métodos

O corpus a ser analisado é formado pelo conjunto de narrativas de enredo elaboradas por Rosa Magalhães ao longo de mais de 30 anos dedicados às escolas de samba cariocas. São textos escritos, a exemplo dos libretos, anualmente apresentados aos compositores e ao júri. A narrativa de 2004 é a centelha reflexiva, o núcleo da pesquisa: intitulada “Breazail” e desenvolvida para a Imperatriz Leopoldinense, recria a viagem de Américo Vespúcio ao Brasil, nos primórdios da colonização portuguesa, em diálogo com Thomas More. O cotejo dos textos referenciados, portanto, é o primeiro passo metodológico. Enquanto fundamentação, aparecem as reflexões de Michel Foucault sobre os corpos utópicos e, especialmente, as heterotopias. A proposta teórica do trabalho também é pensar a Passarela do Samba enquanto lugar heterotópico e heterocrônico, ao modo do que propõe Alberto Pucheu ao analisar “Carnaval Carioca”, de Mário de Andrade. Mapear as rotas discursivas de Rosa Magalhães é um caminho a ser seguido.

Resultados e discussão

Pensar o carnaval carioca em suas diferentes dimensões é um desafio sobre o qual têm se debruçado inúmeros pesquisadores de áreas complementares (antropologia urbana, teoria literária, geografia cultural, artes plásticas, música, etc.). Este trabalho, ainda em fase embrionária, segue tal entendimento transdisciplinar e propõe um olhar menos categorizador e mais poético sobre a obra de Rosa Magalhães. A conferência “Outros Espaços”, de Michel Foucault, interessa aos estudos dos trabalhos da autora porque, em primeiro lugar, a metáfora da viagem (de navio, em especial, sendo que o “barco” é o símbolo teorizado por Foucault ao final do referido texto) é uma recorrência notável e estrutura a narrativa de 2004, mote para a pesquisa. Além disso, ao apresentar os princípios que definem as heterotopias, Foucault necessariamente revê as teorizações sobre a ideia (genérica) de “utopia” – justamente o final da narrativa de Rosa Magalhães, que compara o Brasil à ilha de Thomas More, revendo criticamente a nossa origem colonizada e olhando para os corpos dos marinheiros abandonados na “utopia selvagem”. A materialização utópica também ocorre na imagem da árvore pau-brasil, outro ponto a ser investigado as metáforas naturais e um imaginário que permeia o universo artístico brasileiro desde as crônicas quinhentistas, culminando no Romantismo. Expandida a reflexão, também é importante observar as dimensões heterotópicas e heterocrônicas do lugar especialmente

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construído para a apresentação do enredo: a Passarela do Samba, palco aberto em linha

reta. Um olhar detalhado e provocativo sobre os discursos apregoados pela carnavalesca

dificilmente trará respostas prontas à teoria literária, mas seguramente levantará novas

discussões o resultado desejado.

Conclusões

O estudo de uma narrativa como “Breazail” permite que se pense o carnaval carioca

e, por extensão, o Brasil enquanto “lugares fora de lugar” - expressão inspirada nas

provocações de Roberto Schwarz, aqui costurada às noções de utopia e heterotopia. Olhar

para um texto carnavalesco que explicitamente dialoga com Thomas More a partir do olhar

desestabilizador de Foucault é um convite às mais conflitantes interpretações identitárias e

a possibilidade de se mapear um universo autoral complexo.

Referências

BUENO, Eduardo. Pau-Brasil. São Paulo: Axis Mundi Editora, 2002.

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ / MinC / Funarte, 1994.

CAVALCANTI, M. L. V. C.; GONÇALVES, Renata (orgs.). Carnaval em múltiplos planos. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2009.

CUNHA, Eneida Leal. Pau-Brasil, bárbaro e nosso. In: CUNHA, E. L. Estampas do Imaginário. Literatura, história e identidade cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG,

2006.

CUNHA, Maria Clementina Pereira (Org.). Carnavais e Outras F(r)estas. Campinas:

Editora Unicamp, 2005.

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34,

1998.

FERREIRA, Felipe. Escritos carnavalescos. Coleção Circuitos da Cultura Popular Vol. 07. Rio de Janeiro: Aeroplano editora, 2012.

Inventando Carnavais. O surgimento do carnaval carioca no século XIX e outras questões carnavalescas. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.

O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

O Marquês e o Jegue estudo da fantasia para escolas de samba. Rio de janeiro:

Altos da Glória, 1999.

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Rosa Magalhães: Pós-Modernidade Barroca. In: Imperatriz Leopoldinense Revista de carnaval 2009. Rio de Janeiro: Gráfica Formato3, p. 34.

FOUCAULT, Michel. O Corpo Utópico, as Heterotopias. São Paulo: N-1 Edições,

2014.

Outros Espaços. In: MOTTA, Manoel Barros da. (org). Estética: literatura e pintura, música e cinema. Coleção Ditos & Escritos III. Rio de Janeiro/São Paulo:

Forense, 2001.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras,

2010.

Visão do Paraíso. São Paulo: Brasiliense, 1996.

KRELLING, Gustavo; OSINSKI, Dulce Regina Baggio. “Rosa de Ouro nunca foi de brincadeira”: a presença da arte erudita no carnaval de Rosa Magalhães. In: Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, Estudos de Carnaval, v.08, n. 02, 2011, p.

167/182.

MAGALHÃES,

Rosa.

Breazail.

Sinopse

de

enredo

disponível

no

sítio

Fazendo Carnaval. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.

MORE, Thomas. Utopia. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

PUCHEU, Alberto; GUERREIRO, Eduardo (org.) O carnaval carioca de Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Beco do Azougue Editorial, 2011.

QUEIROZ, Maria Isaura P. de. Carnaval brasileiro. O vivido e o mito. São Paulo:

Brasiliense, 1999.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São Paulo:

Companhia das Letras, 1995.

ROCHA, João Cezar de Castro; RUFFINELLI, Jorge (org). Antropofagia hoje? Oswald de Andrade em cena. São Paulo: Realizações Editora, 2011.

VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008. http://www.geocities.ws/fusaoracial/FusaoRacial_A_Cicero.htm.

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As sociedades indígenas e o audiovisual:

as relações de poder em outros espaços e identidades

Maurício Neves Corrêa (UNESP/GEADA) Maria do Rosário Valencise Gregolin (UNESP/GEADA)

Resumo: O projeto pretende realizar uma pesquisa arquegenealógica sobre os diferentes processos discursivos que inventaram e inventam as identidades de povos indígenas Tupi da Amazônia em produções audiovisuais contemporâneas.

Palavras-chave: Sociedades Indígenas; Discurso; Identidade e mídia.

Introdução

Existe uma produção de discursos sobre os indígenas brasileiros que chega pelos

meios de comunicação massiva e pelas redes sociais. Estas produções contribuem para as

formulações que a sociedade brasileira faz sobre as identidades indígenas. Por tantas

particularidades, as produções audiovisuais das/e sobre as sociedades indígenas apresentam

um universo bastante amplo de pesquisa. Ainda sabemos muito pouco sobre as

construções discursivas que aparecem nestas produções e nem mesmo podemos afirmar

que os suportes por onde são transmitidas já representam um ponto pacífico nas reflexões

acadêmicas.

Material e métodos

Segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas

(IBGE), publicados em agosto de 2012, existem hoje no Brasil, 305 etnias e 274 línguas

indígenas. Os números desta pesquisa divergem com boa parte dos trabalhos acadêmicos

que davam conta 238 povos indígenas e suas 180 línguas nativas. Segundo o IBGE, a maior

parte destes povos vive na Amazônia. A intenção é reunir produções audiovisuais,

presentes em postagens na internet, no YouTube e nos sites G1 e R7, que (re)transmitem

as reportagens veiculadas nas TVs Globo e Record. Outras fontes com o Museu da

Imagem e do Som e os arquivos de TVs de cidades como Belém, Manaus, Rio Branco e

Estudante de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho- Unesp. Livre-docente em Análise do Discurso. Doutora em Linguística e docente do departamento de Linguística da Universidade Estadual Paulista Unesp, de Araraquara.

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Macapá, capitais amazônicas e polos da produção de vídeos sobre sociedades indígenas. O trabalho de pesquisa pretende fazer um histórico da presença indígena na Produção audiovisual Brasileira. Na internet, além de sites institucionais relacionados às sociedades indígenas, serão de suma importância as postagens de pesquisadores e de usuários que assumem uma identidade indígenas nas diferentes redes sociais.

Resultados e discussão

O objetivo do trabalho é realizar uma pesquisa arquegenealógica sobre os diferentes processos discursivos que inventaram e inventam as identidades de povos indígenas Tupi da Amazônia em produções audiovisuais contemporâneas. Pretende-se analisar com que regimes de verdade estes discursos se constituíram. Por que determinados enunciados

ganharam destaque na mídia e outros foram interditados, excluídos? Que relações de saber

e poder agenciaram e agenciam o movimento destas agitações históricas? Seria a Terra

Indígena um espaço heterotópico ou utópico? A partir desta perspectiva teórica, a proposta

é colocar em luta os saberes produzidos pelas diversas produções audiovisuais sobre os

povos indígenas, observando o lugar histórico de onde eles falam. Quais os interesses e as

oposições de atores tão distintos como a TV Globo, as ONGs, os antropólogos, os documentaristas e os próprios índios produtores? De que forma os saberes destas culturas

são tratados no “cientificismo” proposto pelas produções não ficcionais como reportagens

e documentários? Para Gregolin (2008:12), a função do arquegenealogista é “interpretar ou

fazer a história do presente”. Este procedimento consistiria em mostrar que “as transformações históricas foram as responsáveis pela nossa atual constituição como sujeitos objetiváveis por ciências, normalizáveis por disciplinas”. Os principais pressupostos teóricos deste projeto pautam-se na Análise do Discurso (AD) de linha francesa, especialmente aos estudos voltados para as discussões relacionadas a identidades e ao funcionamento da mídia. Neste sentido, toma-se como referência a obra de Michel

Foucault e suas formulações sobre as construções históricas dos sentidos e as contribuições de J.J. Courtine. Na relação mais estrita entre discurso e mídia, as leituras de Rosário Gregolin, que retomam as formulações da AD francesa e ampliam as reflexões sobre o funcionamento da mídia no Brasil.

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Conclusões

A partir do projeto será possível chegar ao funcionamento discursivo destas

produções audiovisuais e compreender as lutas, estratégias e táticas, nestas mediações

atravessadas de relações de poder, recorrências e dispersões, que é o audiovisual. Ao final, a

tese poderá mostrar como os povos indígenas aparecem nestas materialidades, produzidas

em diversos formatos e por diversas instituições com interesses peculiares. É procurar

entender quem são os indígenas e como são seus espaços em nossa sociedade hoje. Somos

todos indígenas? Quem está autorizado a “usar” esta identidade e quais seus

funcionamentos?

Referências

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A vigilância eletrônica e a expansão do panoptismo

Maykon dos santos Marinho (PPGMLS/UESB) Luciana Araújo dos Reis (UESB)

Resumo: Este estudo tem como objetivo empreender uma reflexão teórica sobre a vigilância eletrônica no contexto da sociedade atual. Realizou-se uma revisão bibliográfica, procurando-se levantar as principais relações entre os dispositivos de vigilância eletrônica e a forma de poder presente na visão foucaultiana. O panoptismo é um dos traços característicos da atual sociedade capitalista, através da qual os indivíduos são vigiados, punidos e normatizados. A sociedade contemporânea é baseada em uma vigilância semelhante ao que acontecia com o sistema panóptico, definido por Foucault. Assim, o principio do panóptico continua plenamente ativo, mas agora se exerce nas novas formas de controle implementadas pela vigilância eletrônica e pelas novas tecnologias, trazendo consigo novas práticas e relações de poder.

Palavras-chave: Panóptico; Foucault; Controle; vigilância.

Introdução

Atualmente, vivemos em uma sociedade de vigilância, em que a cada momento

podemos observar ou notar que estamos sendo controlados ou vigiados. E muitas vezes

essa vigilância é tão mascarada ou tão natural que às vezes nem notamos a sua presença.

Dessa maneira, a vigilância eletrônica exerce um poder disciplinar similar ao do panóptico

apontado por Foucault (2012). Assim este estudo tem como objetivo empreender uma

reflexão teórica sobre a vigilância eletrônica no contexto da sociedade atual.

Material e métodos

Realizou-se uma revisão bibliográfica, procurando-se levantar as principais relações

entre os dispositivos de vigilância eletrônica e a forma de poder presente na visão

foucaultiana. Assim recorreu-se a Foucault (2012), Botello (2010), Castro e Pedro (2010)

que discorrem a respeito da formação de uma sociedade de controle e dos sistemas de

vigilância eletrônica na sociedade contemporânea.

Graduado em Enfermagem pela UFBA. Mestrando do PPGMLS/UESB. Bolsista pela CAPES. Pós-Doutora em Saúde Pública pelo Instituto de saúde Coletiva da UFBA. Doutora em Ciências da Saúde (UFRN). Professora Adjunta da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Professora Titular e Gerente de Cursos FAINOR.

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Resultados e discussão

Atualmente é possível observar um arsenal tecnológico de controle que inclui

câmeras de vigilância para vigiar ruas, escolas, aeroportos, ônibus, igreja, lojas, agências

bancárias, locais de trabalho, supermercados. A utilização dos sistemas de

videomonitoramento como ferramentas de segurança estão frequentemente atreladas a

uma estratégia específica de “proteção das fronteiras”, buscando delimitar, a partir da

localização das câmeras, uma zona segura, reorganizando o espaço social de uma maneira

específica que gera um determinado exercício de poder capaz de manter afastada desses

espaços ameaças e riscos específicos, como tráfico de drogas, pichações, roubos e furtos.

Assim, como observa Foucault, a nossa sociedade não é mais a sociedade dos espetáculos,

mas a da vigilância. A sociedade contemporânea é baseada em uma vigilância semelhante

ao que acontecia com o sistema panóptico, definido por Foucault (2012). O indivíduo na

contemporaneidade pode ser panopticamente controlado, seja pelas tecnologias da

comunicação e da informação, seja pela interiorização de normas e valores contidos nos

discursos do poder. Dessa forma, o princípio do panóptico continua plenamente ativo, mas

agora se exerce nas novas formas de controle implementadas pelas novas tecnologias,

trazendo consigo novas práticas e relações de poder.

Conclusão

Diante do exposto, podemos afirmar, então, que assim como no panóptico de

Benthan, para além da redução dos riscos de crimes e da violência urbana, a vigilância

eletrônica é uma poderosa ferramenta de controle social e através da captação e exame de

suas imagens, permite a organização de informações sobre certos indivíduos e grupos

sociais que pode ser usada precisamente com o objetivo de supervisioná-los e controlá-los.

Referências

BOTELLO, N. A. Orquestração da vigilância eletrônica: uma experiência de CFTV no México. In: BRUNO, F.; KANASHIRO, M.; FIRMINO, R. Vigilância e visibilidade:

espaço, tecnologia e identificação. Editora Sulina, 2010, p. 17-35.

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Narrativas orais indígenas como interação: a arqueologia do saber tembé-tenetehara

Nassif Ricci Jordy Filho (UFPA/GEDAI) Ivânia dos Santos Neves (UFPA/GEDAI)

Resumo: Este trabalho pretende apresentar as narrativas orais Tembé-Tenetehara como um dos principais estratos da cultura deste povo e também como tática desta sociedade frente às belicosas estratégias oficiais de controle e silenciamento impostas pela sociedade não-indígena. A análise das narrativas orais propostas aqui vê e trata estas histórias como materialidades fortuitas e emergenciais que modificam as relações de poder entre os indivíduos desta sociedade, evidenciando, além de uma ação comunicativa, uma memória subterrânea e um sujeito no presente de uma trama histórica, considerando assim, principalmente, a constituição dos saberes Tembé-Tenetehara.

Palavras-Chave: Narrativas Orais; Tembé-tenetehara; Interação; Arqueologia.

Introdução

Os Tembé-Tenetehara, povo indígena de língua e tradição Tupi, vivem atualmente na

Amazônia oriental, mais precisamente no leste do estado do Pará. Uma das mais singulares

características culturais deste povo são suas histórias, narradas oralmente por quem sabe

contar, ou seja, por quem detém o saber. Estas narrativas orais contam, além da

singularidade identitária, a cosmologia dos Tembé-Tenetehara. Estas histórias estão

presentes na memória coletiva das sociedades indígenas e embalam a tradição desses povos

ao longo de gerações.

Material e métodos

Esta pesquisa visa compreender como as narrativas orais Tembé-Tenetehara, além de

funcionarem como tática contra uma memória nacional, ‘circulam’, através de uma

memória coletiva, provocando certas ações dentro da comunidade deste povo.

Há duas narrativas orais tratadas aqui: uma se baseia a partir do ponto de vista da

temporalidade ocidental, judaico-cristã. A história recente deste povo (subterrânea) emerge

de acordo com sua possibilidade histórica. Outra se situa num tempo Tenetehara, onde os

Mestrando do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia-(PPGCOM/UFPA). Email:

nassif.jordy@gmail.com. Professora do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM/UFPA). Email: ivanian@uol.com.br.

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‘homens de verdade’ (significado da palavra tupi ‘Tenetehara’) ainda eram animais ou possuíam seus poderes. Daí todo o conhecimento é passado de geração em geração. Estas duas narrativas (histórico-política e histórico-cosmológica) não se contrapõem, pelo contrário, trabalham em conjunto, formando uma rede de discursos, de poderes, de estratégias e de práticas. A fundamentação teórica deste trabalho se baseia nos princípios da análise do discurso e de noções foucaultianas, como as de acontecimento e descontinuidade. Ou seja, a nova história, aquela cujo método de análise tenta escapar de qualquer antropologismo. Mas, por sua natureza interdisciplinar (e campestre), transita pelos estudos de antropologia, de epistemologia, de interação, de psicologia e de história cultural de teóricos como Gregory Bateson, Erwin Goffman e Vera França.

Resultados e discussão

O objetivo geral deste trabalho é mostrar que a tática usada pelos Tembé Tenetehara,

antes de ser fuga de um silenciamento imposto através de uma memória nacional (Polack, 1989), é exatamente a ruptura - tarefa crítica -, a formação de sua descontinuidade regular -

tarefa genealógica - e o ponto de sua possibilidade histórica (Foucault, 2005).

A materialidade emaranhada dos (enunciados) discursos nos quais se desenham os

descontínuos, porém regulares, acontecimentos Tembé-Tenetehara (as duas formas de narrativa) permite “circunscrever o lugar, as margens de sua contingência e as condições de sua aparição.” (Foucault, 1996, p.53). A cristalização da memória subterrânea, de microacontecimentos, em ‘documentos’ como este trabalho, que faz parte de uma produção de saber institucionalizado (Universidade), mostra um ponto de possibilidade histórica, uma cesura, que rompe e irrompe hoje na história do presente deste antigo povo.

Conclusões

Estes processos interacionais, que estão sempre em ação e com os processos de construção de identidade, se movimentam, também, pelas brechas, dando oportunidade de uma apropriação ativa, criando pontos de fuga para os indígenas, fazendo com que se redesenhem modelos de diálogo entre seu próprio povo e entre eles e a sociedade evolvente. Não há cultura pura, assim como não há identidade imóvel. Hall nos diz:

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A identidade torna-se uma “celebração móvel”, formada e transformada

continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou

) à medida que os

sistemas de significação se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiantes de identidades possíveis). (HALL, 1999, p.13)

interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (

Um dos principais eixos deste trabalho será mostrar como os próprios Tembé-

Tenetehara compreendem as transformações e as movimentações de suas práticas culturais,

através das narrativas e, consequentemente, de suas práticas comunicacionais. Com estes

objetivos, a pesquisa assume um olhar menos distanciado. E, percorrendo os caminhos

indicados por Martín-Barbero (2004), procuro um lugar construído a partir da experiência

entre eles.

Um mapa não para fuga mas para o reconhecimento da situação desde as mediações e os sujeitos, para mudar o lugar a partir do qual se formulam

as perguntas, para assumir as margens não como tema mas com enzima.

Porque os tempos não estão para síntese, e são muitas as zonas da

realidade cotidiana que estão ainda por explorar, zonas em cuja exploração não podemos avançar, se não apalpando, ou só com um mapa noturno. (MARTÌN-BARBERO, 2004: 18)

Com base nas noções de Michel Foucault, nas formulações de mediação e cartografia

de Martin-Barbero (2004) e nos estudos de interação propostos por Goffman e Bateson,

este trabalho vai procurar saber como se constitui a história do presente entre os

Tenetehara e como se dá a ação e a prática comunicacional através das narrativas orais

desse povo. Esta proposta de trabalho acadêmico, que já começa a inscrever na história as

memórias subterrâneas (essa ‘história dos vencidos’) deste povo Tupi também se

fundamentará no modelo praxiológico, pois pretende “observar o próprio lugar da

comunicação, não mais como um processo recortado ou restrito, mas enquanto lugar de

conhecimento.” (FRANÇA, 2003, p.15).

Referências

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Mito, cinema e discurso: um olhar arqueológico sob o viés discursivo em “O senhor dos anéis: a sociedade do anel”

Nicaelle Viturino dos Santos de Jesus (UFS) Maria Emília de Rodat de Aguiar Barreto Barros (UFS/LED)

Resumo: Este trabalho consiste em reflexões iniciais sobre nosso objeto de dissertação de mestrado. Constitui uma análise discursiva embasada, principalmente, na perspectiva foucaultiana; adotamos um ponto de vista arqueológico acerca da construção do sentido. Os corpora selecionados contemplam o filme e o romance O senhor dos anéis: a sociedade do anel; são materialidades distintas, permeadas de histórias fantásticas e mitos que nos remetem a discursos em circulação. Objetivamos, portanto, analisar os efeitos de sentido perpassados a partir da inserção, da reiteração dos mitos dispostos nos corpora em estudo. Consideramos, assim, a transposição do romance para um gênero audiovisual, sob o viés da mídia, uma instituição cujo objetivo está pautado numa concorrência mercadológica, divulgando discursos relacionados a esse mercado (CHARAUDEAU, 2007). Além disso, buscamos observar o deslocamento da função autor nas diferentes materialidades linguísticas, os efeitos ocasionados por tal deslize.

Palavras-chave: mito; discurso; mídia/cinema; função autor.

Introdução

Neste trabalho fazemos reflexões iniciais sobre o objeto de análise da nossa

dissertação de mestrado, qual seja: O Senhor dos anéis: a sociedade do anel em duas versões: o

livro de Tolkien (traduzido para português) e o filme. Dispomo-nos a realizar uma análise

discursiva embasada na perspectiva foucaultiana, sob o viés arqueológico da constituição

do sentido. Nosso objetivo é analisar os efeitos de sentido ocasionados pela reiteração dos

mitos, bem como o deslocamento da função autor em relação às diferentes materialidades.

Abaixo expomos algumas considerações acerca do gesto interpretativo adotado.

Materiais e métodos

Consoante Foucault (1997b), o gesto arqueológico é uma investigação acerca das

similitudes da constituição de determinados sentidos, isto é, busca-se o fio condutor que

perpassa discursividades diferenciadas. Assim, nos debruçamos sobre os seguintes objetos:

* Mestranda na área de Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Sergipe, pesquisadora da área de Análise do Discurso. Professora doutora (adjunto 4) de Língua Portuguesa e disciplinas afins, na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Pesquisadora da área da Análise do Discurso.

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cinema, romance, mito - à luz da AD de linha francesa. De sorte, destacamos a necessidade de compreender duas condições acerca do mito: ele é uma narrativa; e não deve ser entendido em oposição ao discurso verdadeiro (RAMNOUX, 1997). Por fim, evidenciamos, conforme Charaudeau (2007), que do discurso das mídias surge o produto midiático/texto, onde o discurso se materializa. Podemos dizer, então, que, quando se analisa um texto midiático, buscam-se os possíveis sentidos que podem ser produzidos por ele/ a partir dele.

Resultados e discussão

A narrativa se faz mediante um perfil explorador assumido pelos componentes da demanda do anel. Eles buscam, além da destruição do anel, a vivência em lugar harmonioso, sem perigos. Isso nos remete ao mito do paraíso perdido, apresentado a partir da gênese dos seres sob a ilustração de uma cosmogonia do mundo. A busca pelo paraíso perpassa toda a história, desde a luta do bem versus o mal, até a destruição do anel e o reestabelecimento de sentimentos considerados nobres pela sociedade (companheirismo, obediência). Destarte, atentamos para a reprodução, pela mídia/cinema de tais sentimentos, reiterando a necessidade de uma sociedade menos dispersa, de maneira a elevar os preceitos do discurso religioso. Consoante Foucault (2009), a função autor é uma das especificações possíveis da função sujeito. Assim, ela pode ser observada na pintura, na música, etc. Destacamos, então, a posição transdiscursiva em que os autores “fundam” uma possibilidade infinita de discursos. Sob este viés, vale considerar a presença dos mitos, que podem ser entendidos como partícipes de uma relação transdiscursiva, na medida em que, se perpetuam discretamente na sociedade, dando margem para utilizações diversas, por vezes contrárias ao seu caráter inicial. Observamos o apagamento da função-autor nessa dinâmica, de maneira a configurar a opacidade da linguagem cinematográfica, utilizada em favor de interesses ideológicos capitalistas. Consideramos, também, a reatualização - reinserção de um discurso em um domínio de generalização, aplicação ou de transformação novo para ele. Sendo assim, entendemos que o cinema, bem como a mídia, utiliza-se dos mitos sob a perspectiva de sua reatualização, considerando, no entanto, o esquecimento constitutivo destes por parte dos sujeitos.

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Conclusões

A partir das ponderações feitas nesta análise, consideramos, tanto no romance como

no filme, a presença de diversos mitos: o mito da travessia ou o percurso do herói, o

maniqueísmo, o religioso, o herói cavaleiro e o paraíso perdido. Estes nos remetem a

sentidos marcados ideologicamente que convergem para a reiteração da culpabilidade do

homem da destruição do mundo, mas alerta-o para a necessidade de reorganizá-lo.

Observamos, com isso, a manutenção da docilidade, da obediência e da disciplinarização.

Referências

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Entre quadros, indígenas e identidade: a presença indígena nos quadrinhos, discursos e redes de memória

Otoniel Lopes de Oliveira Junior (UFPA/GEDAI) Ivânia dos Santos Neves (UFPA/GEDAI)

Resumo: A questão da representação do índio nos quadrinhos, tanto no Brasil quanto no mundo, tende a ignorar a singularidade de sujeitos e culturas que dispõe as mais de trezentas etnias e mais de duzentas e setenta línguas e dialetos encontrados nos povos indígenas brasileiros, nas representações percebidas nos quadrinhos editados em território nacional e criados tanto no Brasil, quanto nos países europeus. Tais representações, por mais pesquisadas que tenham sido, tendem a uniformizar a pluralidade que se dispõe em um arquétipo que ignora as singularidades e reafirma uma visão genérica dos povos indígenas, reafirmando os discursos presentes nas sociedades do sistema colonial. Neste estudo, tomaremos como corpus de análise as materialidades construídas pelas crianças e jovens da aldeia dos Tembé-Tenetehara e a partir da percepção de suas condições de produção histórica, vamos contrapô-las com as produções de identidade e realidade indígena presentes em alguns dos quadrinhos de massa disponíveis.

Palavras-Chave: Quadrinhos; Episteme; Memória; Narrativas orais; Arte sequencial.

Introdução

A arte-sequencial, ou sua manifestação em meios de comunicação de massa chamada

de quadrinhos, dispõe de uma estrutura de produção prática e autoral que abriga um

processo de mediação que materializa redes de memória e representação de identidades.

Neste estudo, tomaremos como corpus de análise as materialidades construídas pelas

crianças e jovens Tembé-Teneteharra e a partir da percepção de suas condições de

produção histórica contrapô-las com alguns dos quadrinhos de massa disponíveis.

Material e métodos

A metodologia de pesquisa, segundo a base proposta por Vergueiros e Santos (2010),

se dará no aspecto da produção com o foco no produtor e nas condições de possibilidade

histórica que lhes garante a construção de seus enunciados, quando analisados diretamente

por meio de incursões experimentais do pesquisador a campo. O método está centrado na

Mestrando do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia-(PPGCOM/UFPA). Email:

otoniel@iluminuras.ppg.br. Professora do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM/UFPA). Email: ivanian@uol.com.br.

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análise do processo produtivo das materialidades em linguagem de Arte Sequencial e segue

o método arqueológico proposto por Michel Foucault (2008).

Resultados e discussão

Os Quadrinhos são uma linguagem de expressão tão antiga quanto comum na história humana (McCloud, 2006). Após os avanços tecnológicos que propiciaram o surgimento dos meios de comunicação de massa, os Quadrinhos também se tornaram um produto de massa usado para discutir e representar as sociedades na indústria cultural (CYRNE, 2005). As representações passaram inevitavelmente pelas dos indígenas, onde autores como o europeu Hugo Pratt em Corto Maltese (2007) e, no Brasil, a equipe do Maurício de Sousa com o Papa-Capim da turma da Mônica, criaram personagens baseados em pesquisa e inferência sobre a identidade indígena, por vezes reafirmando estereótipos. Em julho de 2014, realizamos a oficina de História em Quadrinhos e Representação de Identidade na Aldeia Sede da sociedade indígena Tembé-Tenetehara, localizada às margens do Rio Guamá, próxima aos municípios paraenses Santa Luzia e Capitão Poço. Durante as atividades, a partir de uma série de estratégias de interação que envolveram tanto a declamação de narrativas orais tradicionais pelos próprios indígenas quanto orientações sobre os caminhos e possibilidades de produção da arte sequencial, num estímulo para a construção de narrativas gráficas em quadrinhos, onde eles mesmos pudessem traduzir suas realidades e identidades. De acordo com Foucault (2000), a episteme é uma teoria de entendimento da relação entre as representações e o que é representado, é uma relação histórica, transforma-se de acordo com as condições de possibilidades históricas. Foram produzidas 3 histórias em quadrinhos pelo grupo de 17 pessoas que participou da oficina, além de ilustrações avulsas. A primeira história foi uma autobiografia do dia, a segunda história consistia em traduzir em quadrinhos uma história contada pela pessoa mais velha que conhecessem e a terceira história foi para que eles representassem em quadrinhos, após ouvirem de um dos líderes, a narrativa oral que conta

a origem que os Tembé-Tenetehara têm para a lua.

Conclusões

As conclusões, ainda preliminares, fazem parte da pesquisa de mestrado em andamento. A relação entre a representação dos indígenas, construída por autores de

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quadrinhos profissionais, pelo que se pode perceber nos meios de comunicação de massa,

em contrapartida ao que se pôde acompanhar da criação dos enunciados produzidos pelos

Tembé-Tenetehara durante as oficinas de quadrinhos nas aldeias, apresenta um material

rico para o estudo da intericonicidade da qual os indígenas, assim como sujeitos e tema de

estudos, também podem ser autores.

Referências

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McCLOUD, Scott. Desvendando os Quadrinhos. Makron Books, 2006.

PRATT, Hugo. Corto Maltese. São Paulo: Pixel, 2007.

VERGUEIRO, W. C. S. ; SANTOS, Para uma metodologia da pesquisa em história em quadrinhos. In: BRAGA, José Luiz; LOPES, Maria Immacolata V. de; MARTINO, Luiz Claudio (Orgs.). Pesquisa empírica em comunicação. São Paulo: Paulus/Compós, 2010.

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O corpo monstruoso do zumbi: discurso e memória da (a)normalidade no cinema

Renata Celina Brasil Maciel (UESB/Labedisco) Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: É notável o crescimento do fascínio pelos filmes de zumbi, de maneira que esse corpo monstruoso muito pode dizer sobre quem somos nós hoje. Para realizar essa análise, recorreremos aos estudos do discurso e do corpo no intuito de pensar o zumbi como figura monstruosa produzida discursivamente na imagem em movimento. Assim, poderemos articular as maneiras como os recursos utilizados pelo dispositivo cinematográfico fazem ver e dizer o sujeito que então olhamos e pensar o lugar que esse sujeito ocupa e quais instituições falam nesse lugar.

Palavras-chave: corpo; zumbi; discurso; cinema.

Introdução

Entendemos que o zumbi tem figurado no cinema com cada vez mais recorrência,

ocupando a atenção de grandes audiências. Essas obras cinematográficas onde os processos

discursivos referentes ao corpo monstruoso do zumbi começaram a circular no que é

conhecido como cinema de horror e a possibilitar, também, a circulação de suas imagens

no corpo social e no corpo individual dos sujeitos contemporâneos.

Materiais e método

Recorreremos aos estudos do discurso e do corpo propostos por Michel Foucault

para pensar o zumbi como figura monstruosa constituída no interior da história. Neste

sentido, o percurso que este trabalho sugere passa por entender e analisar, a partir do

cinema, como o zumbi é produzido discursivamente na imagem em movimento e como

essa anormalidade apresentada dá a ver as relações de saber/poder que a constituem. Além

das propostas foucaultianas em torno do discurso, do corpo e do sujeito, interessa-nos

também os estudos sobre cinema onde, acreditamos, poderemos articular as maneiras

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade da UESB. Pesquisadora do LABEDISCO/CNPq/UESB Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. Bolsista UESB Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho Unesp. Professor do Departamento e Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia UESB e Coordenador do Labedisco Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo.

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como as técnicas utilizadas pelo dispositivo cinematográfico fazem ver e dizer sobre o sujeito que então olhamos. Pensamos que o batimento entre os filmes que compõem o corpus do trabalho pode evidenciar, a partir dos modos como foram produzidos, o contexto social e histórico em que apareceram e a circulação que alcançaram, de que sujeito estamos tratando discursivamente, tomando-o em uma materialidade.

Resultados e discussão

Tomamos o entendimento de monstro teorizado por Michel Foucault em Os Anormais (1974-1975) para pensar a monstruosidade do zumbi nos filmes de horror enquanto uma contradição da lei. O monstro em questão “constitui, em sua existência mesma e em sua forma, não apenas uma violação das leis da sociedade, mas uma violação das leis da natureza. Ele é, num registro duplo, infração às leis em sua existência mesma” (FOUCAULT, 2010, p.47). O entendimento da anomalia enquanto uma combinação do impossível com o proibido, nos leva a pensar que o zumbi, na sua monstruosidade, demonstra a sua capacidade de produzir inquietação e para que possamos (re)elaborar a identificação do monstro zumbi, o seu corpo é materializado de maneira que podemos compreender aquilo que ele tem de mais particular. Concordando com Milanez (2011), o monstro e seu corpo servem como um modelo de transgressão para um retorno ao controle com as amarras da normalização. Tomando-o em uma materialidade o cinema equivalente a um arquivo operador de memória, percebemos a emergência de encadeamentos históricos relativos aos modos como entendemos, por exemplo, como se constroem parâmetros normativos da beleza, da saúde, do trabalho e da própria vida a partir dessa figura cadavérica que transgride tudo isso.

Por isso, é compreensível a existência dessa veneração ao zumbi, pois, enquanto monstro, ele pode aquilo que nós não podemos.

Conclusão

Os sistemas de representação do corpo monstruoso do zumbi no cinema se cristalizaram na memória coletiva, de maneira que a história desse monstro se deu/dá não apenas pelos dispositivos materiais que o registram e pelos sinais que o representam, mas

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também das emoções que são sentidas à vista dessa anormalidade. Ao agrupar os extratos

fílmicos das produções de horror referentes ao zumbi, podemos problematizar o modo

como agimos e pensamos tanto em relação ao sujeito na projeção fílmica quanto em

relação a nós mesmos.

Referências

FOUCAULT, Michel. Os Anormais. Curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo:

Martins Fontes, 2010.

MILANEZ, Nilton. Discurso e imagem em movimento: o corpo horrorífico do vampiro no trailer. São Carlos: Claraluz, 2011.

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Modos de subjetivação e transgressão na dança

Samene Batista Pereira Santana (UESB/Labedisco) Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: Nosso trabalho diz respeito às questões de análise do discurso da imagem, do som e do corpo, bem como, à investigação, na materialidade audiovisual, de como se delineia a história do corpo do bailarino (só e em grupo), enquanto sujeito. Usaremos como corpus, neste trabalho, alguns dos dezesseis espetáculos em dvd do grupo “O Corpo” de dança contemporânea. Assim, procuramos compreender, a partir da análise da materialidade audiovisual, como o(s) corpo(s) do(s) bailarino(s) subjetivam-se e também transgridem em meio aos domínios disciplinares do saber sobre a dança. Consideramos relevante questionar, do ponto de vista do discurso, quais as disciplinas que mantém os traços biológicos-fisiológicos do bailarino contemporâneo nos moldes clássicos, e quais disciplinas o grupo O Corpo, rompe, transgride e recria por meio de novos repertórios, movimentos e estruturas. Utilizamos em nosso percurso teórico, algumas noções de Michel Foucault, e de alguns teóricos do domínio da materialidade audiovisual e cinema.

Palavras-chave: discurso; corpo; dança.

Introdução

Nos propomos, neste trabalho, a investigação dos processos de subjetivação do

corpo (do bailarino e do conjunto de bailarinos) nas obras do grupo de dança

contemporânea O Corpo e das práticas de transgressão dos procedimentos e estratégias que

compõem os espetáculos do grupo, considerando para tal objetivo, a memória, a história e

o discurso. Neste sentido, analisaremos, discursivamente, o corpo que dança e os enredos

das criações - no dispositivo audiovisual que contém os registros dos espetáculos do grupo

O Corpo.

Material e métodos

Tomamos como suporte para análise, alguns dos dezesseis espetáculos do grupo O

Corpo, em dvd compostos do anos 1975 a 2014 que representam sua obra completa. A

escolha desse corpus é resultado da verificação de problemas e discussões concernentes ao

Mestranda na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - Memória, linguagem e sociedade - pesquisa em discurso religioso e discurso jurídico orientada pela Profa. Edvania Gomes da Silva. Possui graduação em Direito pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (2012). Integrante do Grupo de Pesquisa em Análise de Discurso UESB e Labedisco - UESB Doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho Unesp. Professor do Departamento e Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia UESB e Coordenador do Labedisco Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo.

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corpo do bailarino em diversos grupos de dança no mundo, especialmente a partir do inicio do séc. XX, com a ascensão da dança contemporânea. A partir da identificação desses problemas, algumas perguntas e hipóteses fomentaram essa pesquisa e elegemos como objeto, o grupo O Corpo, Cia de dança contemporânea que foi fundada em 1975, na cidade de Belo Horizonte, onde permanece sediada e é reconhecida mundialmente como uma das principais e melhores companhias de dança contemporânea existente. O recorte feito em um só grupo de dança, leva em conta a amplitude do seu reconhecimento artístico no mundo e quase quatro décadas de história.

Resultados e discussões

As análises e discussões sobre o corpus dessa pesquisa, nos leva a fazer alguns questionamentos: que processos e práticas constituem o corpo do bailarino e o tornam reconhecível? Quais os rompimentos técnicos e estéticos, em relação ao balé clássico, que a dança contemporânea fez emergir na trajetória do grupo O Corpo? Que interseções e repetições entre as unidades discursivas presentes no nosso corpus (corpo, movimento, música, roteiro) formam um campo de memória do saber sobre a dança? Como referência teórica para responder as perguntas e discutir sobre os “processos de subjetivação” do corpo que dança e dos procedimentos de “transgressão” das estratégias e composição das obras do grupo O Corpo, recorremos, em especial, ao pensamento de Michel Foucault. A partir destes apontamentos teóricos, constatamos o corpo (que dança) na materialidade audiovisual, como discurso subjetivado e transgredido e entendemos sua constituição perpassada por memórias (campo de memória) e repetições que instauram a composição dos bailarinos e de toda a obra do grupo O Corpo.

Conclusões

A partir das analises do corpus, constatamos que há um saber sobre a dança e modos de subjetivação que não rompem as profusões de medidas do corpo (COURTINE, 2008) difusas numa memória em que as materialidades se repetem, produzindo uma identidade (FOUCAULT, 1969, p. 110) e padronizam nosso olhar, enquanto interlocutores. Esse mesmo saber, permite outras profusões culturais que transgridem (FOUCAULT, 1963, p.33) e não se cansam de sempre romper limites.

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Referências

AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro; rev. téc. Rolf de Luna Fonseca. Campinas: Papirus, 2003.

AUMONT, Jacques et al. A estética do filme. Trad. Marina Appenzeller. Rev. Téc. Nuno César P. de Abreu. Campinas: Papirus Editora, 1995a.

COURTINE, Jean-Jacques. Metamorfoses do discurso político. Derivas da fala pública. Org., seleção Nilton Milanez e Carlos Félix Piovezani. São Carlos: Claraluz, 2006.

O corpo anormal. In: CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges. História do corpo. As mutações do olhar (o século XX). Petrópolis: Rio de Janeiro: Vozes, 2008, p. 253-340.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 1999[1987].

A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

Os Anormais. Curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo: Martins Fontes,

2001.

A hermenêutica do sujeito. Curso do Collège de France, 1981-1982. São Paulo:

Martins Fontes, 2004.

A prisão em toda parte. In:

Ditos e escritos VI: Estratégias de

Poder-Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

A arqueologia do saber. 7ª edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010,

[1969].

Prefácio à transgressão. In: M. FOUCAULT, Ditos e Escritos III. Estética:

Literatura e Pintura, Música e Cinema. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2009.

GAMA-KHALIL, Marisa. A transgressão na literatura fantástica: o limite limitado. In:

MILANEZ, Nilton, SANTOS, Jamille (org) Modalidades de transgressão. Revista O corpo é discurso, Vitória da Conquista: UESB, 2013.

JULLIER, LAURENT; MARIE, Michel. Lendo as imagens do cinema. São Paulo:

Senac, 2009.

MILANEZ, Nilton. O corpo é um arquipélago: memória, intericonicidade e identidade. In:

NAVARRO, Pedro (org.) Estudos do texto e do Discurso. Mapeando Conceitos e Métodos: São Carlos: Claraluz, 2006, p. 153-179.

A possessão da subjetividade. In: SANTOS, João Bosco Cabral dos (org.). Sujeito e subjetividades: discursividades contemporâneas. Uberlândia: EDUFU, 2009.

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Corpo, poder e resistências: os sujeitos do sexo na pornochanchada brasileira (1975-1985)

Tyrone Chaves Filho (UESB/Labedisco) Nilton Milanez (UESB/Labedisco)

Resumo: A hipótese central que norteia esta dissertação é a de que a sexualidade funciona como uma válvula de escape a partir da qual discursos sobre o corpo e materializações de poder vêm à tona, guiando o imaginário social em suas práticas e a constituição do sujeito. Nesse sentido, nosso intuito central é mostrar, a partir de dez materialidades fílmicas brasileiras de 1975 a 1985, como o corpo funciona como suporte a partir do qual é possível desvendar sentidos na história, considerando-o como uma superfície por meio da qual discursos emergem e, igualmente, elencando-o como um objeto de análise para o deciframento de toda uma atuação de jogos de poderes capazes de esclarecer a unidade do sujeito e a sua relação com as alteridades. Assim, a discussão dessa dissertação recai sobre a necessidade de se pensar a condição do sujeito, mais particularmente a do sujeito do sexo, uma vez que a nossa sociedade cristalizou um regime de existência para as práticas sexuais.

Palavras-chave: Corpo; Discurso; Sexualidade; Sujeito; Pornochanchada.

Introdução

A pornochanchada, período cinematográfico que compreende os anos de 1960 até

1980, é constituída por materialidades fílmicas nas quais a sexualidade é bastante explorada

e isso reforça certo regime de visibilidade para o corpo nesse momento histórico. Dessa

forma, nosso objetivo é mostrar como, a partir de materialidades fílmicas brasileiras dos

anos 1970 e 1980, constitui-se um discurso próprio entre sexo e corpo, que reconfigura

lugares sociais e institucionais.

Material e métodos

Nossa análise tem como materiais dez produções fílmicas brasileiras, de meados dos

anos 1970 a meados dos anos 1980, a saber: Pecado na sacristia, de Miguel H. Borges, de

1975; Amadas e violentadas, de Jean Garrett, de 1976; Escola penal de meninas violentadas, de

Antônio Meliande, de 1977; O estripador de mulheres, de Juan Bajon, de 1978; O matador sexual,

Mestrando em Linguística pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB. Integrante do Labedisco Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. Doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho Unesp. Professor do Departamento e Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia UESB e Coordenador do Labedisco Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo.

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de Tony Vieira, de 1979; A Prisão, de Osvaldo de Oliveira, de 1980; Liliam, a suja, de Antônio Meliande, de 1981; Curral de mulheres, de Osvaldo de Oliveira, de 1982; Os violentadores de meninas virgens, de Francisco Cavalcanti, de 1983 e Hospital da corrupção e dos prazeres, de Rajá de Aragão, de 1985. Em termos metodológicos, recortaremos os planos, agruparemos os mesmos em sequências e discutiremos a materialidade repetível dos enunciados, consoante Foucault (2008), para mostrar como as práticas sexuais e o corpo são discursivizados, nos valendo, também, dos postulados de Jacques Aumont (2011) no que concerne às técnicas e às ferramentas cinematográficas.

Resultados e discussão

As materialidades fílmicas da pornochanchada só puderam vir à luz a partir de condições de existência que possibilitaram sua circulação, isso significa, no interior de um regime ditatorial (anos de 1960 até 1980), apelar para recursos metafóricos, indiretos, estabelecer alianças e concessões. Com isso, essa associação entre Ditadura Militar no Brasil e pornochanchada rendeu um tipo de mecanismo que a priori parecia transgressor, mas no final das contas, se revelou um instrumento de normatização e normalização das condutas, instrumento esse que, de modo bastante sutil e estratégico, possuía como finalidade a divulgação de uma moral do corpo e da sexualidade que estava a serviço de instituições regulamentadoras. É nesse ponto que a sexualidade funciona, da forma como entende Michel Foucault (1988) como uma maneira de produzir um saber mediante um poder: a repressão pura e simples não produz conhecimento, saber, mas o poder escondendo uma própria parte de si, revela-se como um eficaz aparelho para atingir seus objetivos conduzir corpos, produzir subjetividades, inserir o sujeito na norma. Nesse sentido, as pornochanchadas brasileiras circulavam nas telas do cinema e colocavam em pauta as transformações no círculo social e, sobretudo, questões acerca dos comportamentos sexuais, de modo que a sexualidade passa a ser objeto de reflexões, se constituindo como um importante recurso a partir do qual são feitas leituras a respeito da constituição do sujeito e das relações de poder mobilizadas nas convivências sociais. Do mesmo modo, o corpo como superfície de subjetividades se viu obrigado a se submeter ao torniquete da norma e essa norma estava a serviço de uma moral, isto é, no interior de produções que vieram à luz sob um regime ditatorial que enrijecia as relações ao mesmo tempo em que pregava ideários moralizantes, as pornochanchadas sobreviveram em função de uma mentalidade que procurava retirar delas o lado pedagógico e edificante.

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Conclusões

As materialidades fílmicas que compõem a assinatura da pornochanchada, tendo em

vista aquelas que fazem parte do nosso corpus, constituem, por meio dos discursos presentes

em seus enredos e encadeamentos de planos, um tipo de material que está bastante

marcado por regras moralistas e por moralidades que, subjacente, de forma estratégica,

visam algum tipo de orientação e/ou pedagogia para o corpo. Isso significa, assim, que a

pornochanchada funciona como um mecanismo de poder que produz saberes.

Referências

AUMONT, Jacques. A estética do filme. Trad. de Marina Appenzezeller. São Paulo:

Papirus, 2011.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1 a vontade de saber. Trad. de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhou Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

Arqueologia do Saber. Trad. de Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

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“Uga Uga” e “Alma Gêmea”: personagens indígenas nas telenovelas brasileiras

Vívian de Nazareth Santos Carvalho (UFPA/GEDAI) Ivânia dos Santos Neves (UFPA/GEDAI)

Resumo: Esta pesquisa visa compreender como as telenovelas atualizam o discurso bastante instituído na sociedade brasileira de que o sujeito indígena está “parado no tempo”, vive em uma floresta distante e não tem contato com nenhuma prática que faça parte do cotidiano de um ambiente urbano. Tomamos como suporte para a análise cenas das telenovelas “Uga Uga” (2000) e “Alma Gêmea” (2005), ambas exibidas pela TV Globo, e tentamos compreender, tendo como referência a proposta arqueológica de Michel Foucault (2008), os discursos que circulam nestas cenas sobre as sociedades indígenas.

Palavras-chave: Telenovela; Uga Uga; Alma Gêmea; Sociedades indígenas.

Introdução

A telenovela é o principal produto da televisão aberta brasileira (ORTIZ; BORELLI

e RAMOS, 1991). Líderes de audiência, as ficções televisivas seriadas são importantes para

que os telespectadores tenham acesso às culturas de diferentes povos. Ao trazer em suas

tramas personagens indígenas, estas produções atualizam e põem em circulação diferentes

discursos sobre essas sociedades, suas identidades e culturas.

Material e métodos

Esta pesquisa visa compreender como as telenovelas atualizam o discurso bastante

instituído em nossa sociedade de que o sujeito indígena está “parado no tempo”, vive em

uma floresta distante e, mesmo na época contemporânea, não tem contato com nenhuma

prática que faça parte do cotidiano de um ambiente urbano. Tomamos como suporte para

a análise cenas das telenovelas “Uga Uga” (2000) e “Alma Gêmea” (2005), ambas exibidas

pela TV Globo, que trouxeram como protagonistas os personagens indígenas “Tatuapu”

(Cláudio Heinrich) e “Serena” (Priscila Fantin). Tomamos o estudo destas cenas em uma

perspectiva foucaultiana, o que significa que atribuímos uma densidade histórica aos

Mestranda do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia-(PPGCOM/UFPA). Email:

viviansantoscarvalho@gmail.com. Professora do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM/UFPA). Email: ivanian@uol.com.br.

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diferentes discursos que circulam nestas tramas sobre as sociedades indígenas. Por isso, para compreendermos as cenas presentes nestas telenovelas é preciso que tenhamos em vista as condições em que essas produções aparecem, “prestando atenção às condições históricas que puderam legitimar aquela fala, naquele lugar” (MILANEZ, 2006, p.26).

Resultados e discussão

Dispositivos sociais, como escolas, instituições jurídicas e veículos midiáticos constantemente atualizam os discursos sobre o que é ser um sujeito indígena brasileiro. Entre os discursos presentes na rede de memória ocidental sobre os povos indígenas, a imagem de sociedades “paradas no tempo”, vivendo em uma floresta distante e isoladas de qualquer contato com outras pessoas, outras práticas culturais e outros objetos que fazem parte do cotidiano das cidades é bastante recorrente. De acordo com Neves (2009), desde a chegada das primeiras embarcações ao Brasil, em 1500, os europeus inventaram discursivamente um índio genérico e selvagem. “Os índios que resultaram desta invenção ocidental pertencem todos a uma única sociedade ‘ideal’ e são absolutamente estereotipados: preguiçosos, sem roupas, antropófagos, de pele amarela” (NEVES, 2009, p.33-34). Esta invenção do indígena é fortemente institucionalizada e bastante duradoura, “e ainda hoje alimentada pela mídia, pela educação e pela falta de políticas públicas efetivas” (NEVES, 2009, p. 34). Discursos de que o sujeito indígena é selvagem, primitivo e alheio às práticas cotidianas de um ambiente urbano, são constantemente atualizados por diferentes materialidades, como os livros didáticos, as pinturas, os filmes e os produtos televisivos, entre eles, as telenovelas. Entendemos que por meio das telenovelas ocorre a materialização dos discursos historicamente construídos sobre as sociedades indígenas brasileiras. Por isso, para compreendermos estas cenas é preciso que tenhamos em vista as condições históricas que puderam legitimar esses discursos, pois “não se pode falar de qualquer coisa em qualquer época” (FOUCAULT, 2008, p.50).

Conclusões

A telenovela faz parte da matriz cultural brasileira (MALCHER, 2009) e, como produto atravessado pela história, ela não pode falar de qualquer coisa em qualquer lugar. As cenas em que os personagens indígenas aparecem isolados, em meio a florestas e animais selvagens, sem conhecer objetos ou práticas que fazem parte do “mundo

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moderno” se filiam a uma rede de memória presente na sociedade ocidental sobre o que é

ser um sujeito indígena brasileiro.

Referências

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 7ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2008.

MALCHER, Maria Ataide. Teledramaturgia: agente estratégico na construção da TV aberta brasileira. São Paulo: INTERCOM, 2009.

MILANEZ, Nilton. As aventuras do corpo: dos modos de subjetivação às memórias

de si em revista impressa. UNESP, 2006.

Tese de doutorado em Análise do Discurso. Araquara, SP:

NEVES, Ivânia dos Santos. A invenção do índio e as narrativas orais Tupi. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem. Campinas, SP: [s.n.], 2009.

ORTIZ, Renato; BORELLI, Silvia Helena Simões; RAMOS, José Mário Ortiz. Telenovela: história e produção. 2ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.

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OUTROS TRABALHOS EM ANDAMENTO Corpo e Heterotopias – Labedisco – ISBN 978-85-66665-06-2

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(Des)continuidades sobre o corpo da mulher indígena como espaço de memória na fotografia

Ana Shirley Penaforte Cardoso (FAINTIPI/ FAPAN/ FAPEN/GEDAI)

Resumo: O foco principal deste trabalho é pensar o corpo como inscrições de verdades sobre o que é ser uma mulher indígena em determinadas condições de possibilidades históricas.

Palavras-Chave: Memória; Corpo; Fotografia.

Introdução

A análise partirá de uma fotografia disponibilizada na imprensa em 1989, produzida

durante o primeiro encontro de povos Indígenas do Xingu, em Altamira-PA. O objetivo do

evento era a discussão sobre a implantação da Hidrelétrica de Belo Monte, que envolveria

centenas de pessoas, em sua maioria, indígenas. O estudo terá como base o conceito de

Intericonicidade desenvolvido por J. J. Courtine (2011) e as noções de corpo sob a

perspectiva da teoria do discurso, a partir de Michel Foucault (2012; 2010).

Materiais e Métodos

Essa abordagem tenta entender como se dão as relações de poder que envolvem os

corpos indígenas na contemporaneidade a partir das possibilidades de produções históricas.

A

espessura imagética, em destaque no primeiro plano da fotografia em questão, deixa ver

o

corpo de uma mulher indígena, Tuíra Caiapó, apontando um facão para José Antônio

Muniz Lopes, então presidente da Eletronorte. Os sentidos disponibilizados através desta

imagem ganham eco por meio de um fio ligado a uma rede de memórias que esquadrinham

o corpo indígena forjado diante dos discursos que circulam em diferentes lugares e

diferentes temporalidades. A movimentação histórica em torno deste discurso permite

pensar nos desdobramentos causados por esse acontecimento, visibilizado na fotografia à

época e que hoje se atualiza, a partir de novos olhares. Analisar alguns dos aspectos dos

Mestre em Comunicação Linguagens e cultura pela Universidade da Amazônia em 2013.

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sentidos inscritos no corpo da indígena, como verdades sobre o que é ser uma mulher indígena em dado momento da história, é o objetivo desta reflexão.

Resultados e discussão

Ideias ligadas à selvageria e à sensualidade são recorrentes nos enunciados sobre indígenas no Brasil desde a primeira imagem produzida sobre essa temática: uma xilogravura, que retrata de forma tendenciosa e pertinente diante da ordem estabelecida à época, sobre a antropofagia praticada entre indígenas. Sobre a produção das primeiras

imagens, afirma Neves (2009, p.76): “Imagens, geralmente, produzidas a partir de relatos de

Não há referências a uma obra específica, mas ela segue os padrões visuais

europeus do início do século XVI”. Nas diferentes materialidades sobre a construção imagética do corpo da mulher indígena no ocidente, destacam-se a figura da personagem de

José de Alencar no livro “Iracema”, a morena nua, banhada pelos raios de sol à beira mar e a pintura modernista de José de Medeiros, que dá forma visual à Iracema, cujo discurso sobre a indígena é atravessado, também, pela ideia de sensualidade. Embora o corpo de Tuíra esteja em condições de diferentes possibilidades históricas em relação aos exemplos citados, é a nudez que marca esse lugar da memória, que aparece atravessado por outros discursos. Para Courtine (2011, p.160), há uma relação entre imagens através da memória: