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ROUDINESCO, Elisabeth - Lugares de arquivos, palavras inéditas de Freud

Lugares de arquivos, palavras inéditas de Freud


Por Elisabeth Roudinesco1

Colóquio Internacional Arquivos de Psicanálise - Textos

Gostaria inicialmente de agradecer a Lucia Valladares que me honrou me convidando para pronunciar a
Confereê ncia inaugural deste Coloó quio. Ela foi minha aluna, do qual me orgulho, e soube trabalhar muito bem
nos arquivos para redigir sua tese sobre a Histoó ria da psicanaó lise em Saã o Paulo.

Antes de situar a questaã o dos arquivos na sua relaçaã o com a metodologia historiograó fica, gostaria de fazer
um desvio pela autobiografia. Isto porque, como sabemos muito bem, toda pesquisa histoó rica, toda
abordagem arquivíóstica supoã e a autobiografia. Porque ao contar a histoó ria dos outros, ou mesmo a histoó ria
extraíóda desse grande Outro que eó o arquivo em estado bruto, o historiador se diz atraveó s do outro, atraveó s
daquilo que conta dos outros, atraveó s da maneira pela qual interpreta o arquivo, pela qual o imagina e o
reconstroó i. Haó sempre na pesquisa histoó rica, naã o um simples meó todo, mas uma “ego-histoó ria”, uma
Selbstdarstellung como dizia Freud.

Haó portanto uma ligaçaã o muito forte entre o ato de fazer a histoó ria – eu ia dizer o ato de amor ou ato sexual –
e a clíónica da psicanaó lise. Normalmente, a histoó ria se escreve quando a teoria estaó em crise, quando os
mestres desaparecem para deixar lugar aà herança institucional. Igualmente haó nesse ato de fazer a histoó ria
uma maneira de relançar as questoã es teoó ricas. A rememoraçaã o do passado eó como uma travessia do inferno.
O historiador passa pela morte e regressa dos mortos, tal como Ulisses, tal como um personagem traó gico.

Fundamentalmente, poderia se dizer, ele soó trabalha sobre a morte, mesmo quando escreve a histoó ria dos
vivos, porque ele inscreve o presente e o vivo em uma eternidade que se assemelha ao sileê ncio das tumbas. O
contraó rio da sociedade do espetaó culo, o contraó rio dessa economia de mercado – verdadeira teologia da
mercadoria – que exclui o traó gico e que apaga a histoó ria para substituir-lhe a um tempo reduzido a zero, um
tempo limitado aà passagem de uma imagem virtual na televisaã o.

O historiador fala com os deuses, com os mitos, com a eternidade. E mesmo quando ele recusa a hagiografia,
ele fabrica deuses. Ao exumar os mortos, ele permite aos vivos questionar os deuses e se interrogar sobre o
presente. Cada vez mais hoje em dia, os historiadores do freudismo, e principalmente a escola americana que
domina o mundo, naã o pertencem mais aà comunidade psicanalíótica. Eles se distanciam do objeto sobre o qual
trabalham e muitas vezes seus estudos naã o saã o lidos pelos psicanalistas que teê m medo da histoó ria, da sua
proó pria histoó ria, opondo, quando ela eó escrita, uma resisteê ncia taã o violenta quanto aquela que o comum dos
mortais impoã e aà psicanaó lise. Com essa atitude, eles enlouquecem os historiadores tornando-os anti-
freudianos, como eó o caso da escola revisionista americana.

Existe em todo historiador, em toda pessoa apaixonada pelo arquivo uma espeó cie de culto narcíósico da coisa
arqueoloó gica, verdadeira captaçaã o especular da narrativa histoó rica pelo arquivo, e eó necessaó rio se violentar
para naã o ceder a isso.

Se tudo eó arquivado, se tudo eó vigiado, anotado, julgado, a histoó ria como criaçaã o naã o eó mais possíóvel: ela eó
entaã o substituíóda pelo arquivo que se torna saber absoluto, espelho de si. Mas se nada eó arquivado, se tudo eó
apagado ou destruíódo, a histoó ria tende para o fantasma ou o delíório, para a soberania delirante do eu, ou seja,
para um arquivo reinventado funcionando como um dogma.

Entre esses dois impossíóveis, que saã o como as duas bordas de uma mesma interdiçaã o – interdiçaã o de saber
absoluto, interdiçaã o da soberania interpretativa do eu – , se faz necessaó rio admitir que o arquivo – destruíódo,
presente, excessivo ou apagado – eó uma condiçaã o da histoó ria.

Para resumir, poderia se dizer que a obedieê ncia cega aà positividade do arquivo, ao seu poder absoluto,
conduz tanto a uma impossibilidade da histoó ria que a recusa do arquivo. Dizendo de outra forma, o culto
excessivo do arquivo conduz a uma contabilidade (a histoó ria quantitativa) desvestida de imaginaó rio, e
interditando pensar a histoó ria como uma construçaã o capaz de suprir a auseê ncia de traços. Quanto aà negaçaã o
do arquivo, de seu peso interiorizado como memoó ria subjetiva, ou como herança genealoó gica, ela corre o
risco de conduzir a um delíório que reconstruiria o espelho do arquivo como um dogma.
Os arquivos Freud

Em se tratando de Freud, a obra escrita estava terminada no momento de sua morte. Em 1939, as
correspondeê ncias, abundantes, ainda naã o estavam reunidas, mas sabia-se que naã o estavam de maneira
alguma perdidas. Produziu-se entaã o, no movimento psicanalíótico, uma vontade forte e combinada de
escrever a histoó ria, de continuar dando vida aà obra de Freud, de transmitíó-la.

Ernest Jones foi o artesaã o desse empreendimento historiograó fico, inicialmente porque ele redigiu a biografia
do mestre,2 e em seguida porque consolidou a posiçaã o da escola inglesa no mundo. Ele foi seu fundador e a
havia concebido como um contra-poder aà poderosa escola americana reforçada desde 1933 pela chegada dos
imigrantes europeus, vienenses principalmente. De onde um duplo movimento: os imigrantes queriam
conservar os traços de uma Europa varrida pelo nazismo e dessa forma fazer reviver o Freud da juventude e
das lembranças vienenses deles, enquanto Jones, chefe políótico da International Psychoanalytical Association
(IPA), fundada em 1910, procurava assegurar a predominaê ncia políótica e geograó fica da Graã -Bretanha e da
escola inglesa de psicanaó lise face ao gigante americano. Tornada inglesa apoó s sua imigraçaã o em 1938, Anna
Freud se sentia dividida entre seu amor pelos vienenses, que havia, a maior parte deles, adotado a cidadania
americana, e sua ligaçaã o aà cidade de Londres, onde ela havia sido taã o bem acolhida como o seu pai e toda a
sua famíólia.

Haó , portanto, dois grandes lugares de depoó sito de arquivos e de atividades historiograó ficas apoó s a 2° Guerra
Mundial: Washington e Londres. Para a traduçaã o da obra de Freud e para o empreendimento biograó fico,
Londres triunfa sobre Viena e sobretudo sobre a diaó spora vienense: Jones foi o historiador do movimento e
James Strachey o responsaó vel pela traduçaã o completa das obras de Freud, a famosa Standard Edition muito
mais lida, hoje em dia, que as Gesammelte Werke ou as Gesammelte Schriften.3

Foi na Library of Congress (Loc), na Biblioteca do Congresso de Washington onde foram depositados os
arquivos. E foi, primeiramente, Siegfried Bernfeld, imigrante vienense, quem concebeu o projeto das suas
Freudiana, apoó s ter tentado, sem sucesso, escrever a biografia de Freud. Em seguida, coube a Kurt Eissler
realizar esse sonho, ao constituir o departamento dos manuscritos de Freud: os Sigmund Freud Arquivos
(SFA).

Entre os representantes da terceira geraçaã o mundial,4 Kurt Eissler permanece o mais vienense dos
psicanalistas americanos. Ele possuíóa um maravilhoso senso de humor e se dedicou, ao longo de toda a sua
vida, a defender a doutrina original de Freud a ponto de adotar, por gosto da provocaçaã o, uma atitude de
franca rebeliaã o contra todos os avanços do poó s-freudismo. Sua ortodoxia tinha assim a forma de um
conservadorismo resplandescente, aà maneira de Lacan. Eissler manifestou uma forte hostilidade aà escola
americana, que criticava por ter abandonado a subversaã o freudiana e a anaó lise profana. No entanto, naã o
cessou de se colocar como o avalista de uma fidelidade sem falhas aos ideais da IPA.

Apoó s a Segunda Guerra mundial, instalado em Nova York, ele reuniu para o SFA numerosos documentos
sobre a saga freudiana: cartas, textos ou entrevistas com os sobreviventes que haviam participado do
movimento (Max Graf ou Wilhelm Reich, principalmente). Com o assentimento de Anna Freud, ele adotou
uma políótica taã o brilhante quanto desastrosa. Preocupado em classificar e ordenar toda a memoó ria de um
mundo absorvido e do qual conheceu apenas os uó ltimos momentos, ele recusou aos historiadores
profissionais o acesso aos arquivos com o objetivo de conservar intacta a imagem do mestre morto.

Eissler tinha uma concepçaã o “soberana” do arquivo, no sentido em que este, ainda que depositado em um
lugar laico, garantido pelo Estado, ficaria reservado exclusivamente aos membros de uma comunidade
definida e constituíóda em um reino soberano: a IPA. O arquivo seria assim a “propriedade” dos psicanalistas
formados no celeiro do movimento freudiano. Os “outros”, pertencendo a um outro campo, a uma outra
naçaã o, a uma outra comunidade, estavam excluíódos.

Dividida em “seó ries” (A, B, E, F, Z), a Coleçaã o SF – cujos direitos para publicaçaã o dependem da Sigmund Freud
Copyrigths (que representa os interesses financeiros dos sucessores, netos e descendentes de Freud) –
finalmente acabou por ser aberta a todos os pesquisadores, ou seja, esses “outros” que haviam sido
excluíódos.
Foram impostas restriçoã es, por vezes, justificadas e conforme as leis em vigor, mas acrescentaram tambeó m
interdiçoã es contestaó veis e muitas vezes ridíóculas. Assim, a seó rie Z, submetida a uma desclassificaçaã o
progressiva indo ateó o ano 2100, deveria conter documentos sobre a vida privada das pessoas (pacientes,
psicanalistas, etc.), mas, na realidade, acaba escondendo certos textos que naã o teê m nada de confidencial e
outros que naã o comportam nenhuma revelaçaã o extraordinaó ria, ainda que relacionados com segredos de
famíólia ou de divaã . A eles se acrescentam ainda documentos que naã o entendemos porque estaã o laó , por
exemplo, os contratos de Freud com seus editores, as trocas de correspondeê ncia com uma organizaçaã o
esportiva judaica, ou informaçoã es sobre Josef Freud jaó conhecidas dos historiadores.

Em uma confereê ncia datando de 1994, 5 Josef Hayim Yerushalmi mostra que a necessidade de esconder
segredos de polichinelo conduz a alimentar rumores inuó teis e que a uó nica maneira de evitaó -los seria de abrir
todos os arquivos ditos “secretos” afim de deixar livre curso a todas as pesquisas. Yerushalmi lembra a frase
de Lord Acton: “Fechar os arquivos aos historiadores corresponderia a deixar sua histoó ria aos seus inimigos”.
E conclui: Vivemos uma eó poca onde a informaçaã o, em todos os campos, nos soterra sob um diluó vio, ao qual a
pesquisa sobre Freud naã o escapa. Esta uó ltima tornou-se uma induó stria em si mesma. O controle da ordem
estritamente bibliograó fica dos seus produtos eó de agora em diante de uma certa forma impossíóvel.

A historiografia oficial desenvolvida por Eissler supoã e naã o uma auseê ncia de arquivo, mas um excesso de
arquivos. Nessa perspectiva, o arquivo eó depositado como um saber absoluto que se deve censurar. O traço,
quanto mais sacralizado, mais deve ser dissimulado: o excesso de arquivo caminha junto com a censura do
arquivo.

De tanto manter o princíópio soberano de uma histoó ria oficial e de recusar aos historiadores o acesso aos
arquivos, os herdeiros de Freud provocaram uma verdadeira tempestade nos Sigmund Freud Arquivos, SFA.

Em 1980, com a autorizaçaã o de Anna Freud, Eisller decidiu confiar a publicaçaã o integral das cartas de Freud
a Fliess a um universitaó rio americano, Jeffrey Moussaieff Masson, devidamente formado nos quadros da IPA.
Ainda que efetuando um real trabalho de ediçaã o das cartas, 6 ele decidiu decifraó -las interpretando-as de
maneira selvagem, convencido de que elas recobriam uma verdade escondida, um segredo vergonhoso: o
segredo de um abuso que naã o pode ser revelado. Assim, ele afirma, sem a menor prova, que Freud teria
renunciado por covardia aà teoria da seduçaã o. Naã o ousando revelar ao mundo as atrocidades cometidas por
todos os adultos sobre todas as crianças, Freud teria assim inventado a noçaã o de fantasma para mascarar a
realidade traumaó tica do abuso sexual na origem das neuroses.

O pai fundador se tornava, portanto, suspeito, naã o somente de ser um falsaó rio, mas um cuó mplice de um crime
cometido sobre o corpo das mulheres e das crianças. Aos olhos da Ameó rica puritana, Freud foi transformado
em um personagem diaboó lico. Soberano mentiroso, aprisionado na tormenta de um segredo patoó geno, ele se
assemelhava a esse pastor culpado do romance de Nathaniel Hawthorne, A carta escarlate (1850).
Igualmente, ele podia ser acusado de ter dissimulado propositalmente crimes incestuosos, a fim de preservar
o poder patriarcal.

Em 1984, Masson publicou um livro sobre o tema, O Real escamoteado,7 que foi um dos maiores best-sellers
psicanalíóticos americanos da segunda metade do seó culo. Contra os ortodoxos da teoria do fantasma, contra
Eissler e Anna Freud, a obra vinha confortar as teses de uma historiografia dita “revisionista” que colocava
em causa a soberania de uma histoó ria oficial. 8 Mas a revisaã o efetuada por Masson, longe de conduzir a uma
elucidaçaã o da verdade, ia no sentido de uma interpretaçaã o delirante do arquivo. Face ao arquivo censurado,
Masson excedia o arquivo, como se este fosse uma espeó cie de real incontornaó vel, um lugar de gozo,
suscitando significaçoã es ilimitadas, impossíóveis de conter ou de simbolizar.

Apoó s o caso Masson, a corrente revisionista americana de desmontagem, naã o somente da doutrina freudiana,
mas do proó prio Freud. Apoó s ter sido assimilado a um saó bio diaboó lico, ele foi acusado de relaçoã es abusivas na
sua proó pria famíólia. Desde 1981, Peter Swales, um autodidata, louco por arquivos, afirmou que Freud teria
tido relaçoã es sexuais com sua cunhada Minna Bernays. Inclusive, ele a teria engravidado e depois forçado a
abortar. Preparando uma biografia de Fliess, ele pretendia encontrar nos arquivos a prova de que este teria
querido assassinar Freud.

Freud Museu
EÉ difíócil evocar os arquivos Freud sem falar de um outro grande lugar de depoó sito de traços: o Freud Museum
de Londres. Habitado por Freud em 1938, depois por sua filha Anna, essa casa no nuó mero 20, da Maresfield
Gardens, no bairro de Hampstead, eó uma espeó cie de lugar pleno que se opoã e a um lugar vazio, ou seja aà outra
casa de Freud, situada em Viena.

Freud, um dia, disse a Ernest Jones, que sentia por Viena uma aversaã o profunda: “No iníócio das minhas
relaçoã es com ele, escreve Jones e antes de conhecer sua aversaã o, um dia, eu lhe disse ingenuamente que, do
meu ponto de vista, deveria ser muito interessante viver em uma cidade taã o cheia de ideó ias novas. Para
minha grande surpresa, ele se levantou, repentinamente, e de um tom seco, me disse: Faz cinquü enta anos que
vivo aqui e nunca encontrei uma ideó ia nova!”9

Em 3 de junho de 1938, ele deixou Viena pelo Orient-Express para nunca mais voltar. Ele levava com ele sua
biblioteca, seus objetos, seus moó veis, suas cartas, seus manuscritos: os traços e lembranças de uma vida
inteira. O apartamento da Bergasse, 19 foi entaã o inteiramente esvaziado, e tudo o que continha foi
transferido para Londres, na nova casa de Hampsteadt. Dez dias antes da partida, a pedido de August
Aichhorn, Edmund Engelmann, jovem fotoó grafo vienense, fez uma seó rie de fotos dos lugares ainda intactos.
Ele utilizou uma Rolleiflex e uma Leica. Forçado, ele tambeó m, de deixar Viena, confiou os negativos a
Aichhorn que os fez chegar a Londres: “Eu voltei a Viena, escreve Engelmann, apoó s a partida do uó ltimo
locataó rio. Vi quanto os lugares haviam sido destruíódos: subsistiam poucos traços da sua antiga dignidade: as
belas peças de faiança haviam desaparecido, tendo sido substituíódas por horrorosos aquecedores. Reunidos
em um aó lbum,10 as fotografias de Engelmann traziam o testemunha vivo de quarenta e sete anos (1891-
1938) de uma vida consagrada aà cieê ncia, aà arte, aà cultura.

Quando o historiador Henri Ellenberger foi visitar a Bergasse, em 24 de agosto de 1957, ele constatou que a
Federaçaã o mundial da sauó de mental havia colocado uma placa em lembrança de Freud. Mas a locataó ria do
lugar lhe declarou: “De fato, eó aqui mas naã o tem nada para ver. Tudo foi mudado. Naã o podemos mostrar nada.
O tempo inteiro, as pessoas veê m pedir para visitar o apartamento. EÉ irritante. Prestei queixa diversas vezes
aà s autoridades pedindo que me comprem o apartamento (me dando um outro em troca). Mas eles dizem que
naã o teê m dinheiro;”11

Somente em 1959 foi fundada a Sigmund Freud Gesellschaft com o objetivo de restaurar o apartamento e
criar um museu. Nele soó estaraã o as fotos e os moó veis da antiga sala de espera de Freud.

Freud havia constituíódo um museu pessoal graças aà sua coleçaã o de antiguidades. Na verdade, ele leu mais
obras de arqueologia que de psicologia. Em sua coleçaã o naã o consta nenhum objeto posterior ao
Renascimento. Antiguidades gregas, latinas, chinesas, egíópcias, tais saã o as prefereê ncias do fundador da
psicanaó lise que naã o teve nenhum interesse por nenhuma forma de arte judaica e que durante toda a sua vida
manifestou uma espeó cie de horror ao vazio mundo vitoriano. Em sua casa, tudo era recoberto de alguma
coisa. Os moó veis, as paredes, o divaã eram carregados de pesados tapetes persas, almofadas, tinturas
coloridas.

Freud misturava, sem classificar nem ordenar, objetos de todas as origens: molde da Gradiva, cavaleiro chineê s
de barro, gravura representando uma Esfinge, muó ltiplas figuras romanas, chinesas, gregas egíópcias . Ele as
colocava, umas vinte dentre tantas, face a ele, sobre sua mesa de trabalho, com uma clara prefereê ncia por
personagens em posiçaã o de peó . Ele atribuíóa a cada estatueta uma personalidade proó pria e as amava como
membros de uma famíólia.

Viena eó , portanto, o lugar de um museu vazio, que envia ao lugar vazio da psicanaó lise nesse paíós, a uma
psicanaó lise duas vezes vencida: primeiro pela queda do Impeó rio austro-huó ngaro, segundo, pela irrupçaã o do
nazismo. Apoó s a Segunda Guerra Mundial e apesar dos esforços de alguns vienenses, a psicanaó lise naã o poê de
se reconstruir na AÉ ustria e Anna Freud colocou a casa da Bergasse em “quarentena”. Em Londres, o museu
pleno eó uma espeó cie de síómbolo da resisteê ncia freudiana no continente europeu face a uma Ameó rica que
Freud detestava e que acabou por devorar sua descoberta.

Em 1980, a SFA comprou o terreno e a casa, graças aos fundos que a New-Land Foundation, fundada por
Muriel Gardiner, havia colocado aà disposiçaã o de Anna. Em 1986, o Freud Museum abriu suas portas.
Acessíóvel aos visitantes – que podem ver o divaã de Freud, sua biblioteca, suas coleçoã es – , ele conteó m tambeó m
numerosos arquivos: vinte e cinco mil documentos, entre os quais as fotografias, cartas e fotocoó pias de
manuscritos e correspondeê ncias cujos originais saã o conservados na Biblioteca do Congresso. O museu de
Londres eó portanto um museu do museu Freud.

Os Arquivos Lacan

A obra de Lacan eó oral e, durante vinte e seis anos, foi enunciada atraveó s de uma palavra viva, ao longo de
todo o famoso Seminaó rio. Foi necessaó ria a intervençaã o eneó rgica de um grande editor, François Wahl, para que
fosse publicada a famosa quantidade de artigos de Lacan (os Escritos), que aliaó s eram muitas vezes
confereê ncias transcritas e depois corrigidas. 12 Jaó os outros trabalhos foram confiados aà famíólia herdeira –
principalmente ao genro de Lacan, que hoje em dia possui um domíónio consideraó vel sobre a obra lacaniana,
naã o apenas juríódico mas interpretativo.

Os manuscritos, as notas, a correspondeê ncia naã o foram nem classificados, nem listados, nem “depositados”.
Eles naã o existem e essa auseê ncia de arquivo, taã o pesado quanto o excesso de arquivo, eó o sintoma de uma
histoó ria apagada ou de um processo de apagamento do traço, que permite muitas vezes aà comunidade
lacaniana reconstruir uma soberania imaginaó ria da obra e da pessoa de Lacan, fundada na impossibilidade
do luto da figura do mestre. Para os fieó is do lacanismo, tudo se passa como se o proó prio Lacan fosse o avalista
de uma histoó ria no futuro anterior, desde jaó escrita, uma histoó ria desde jaó traçada para toda a eternidade.
Posto que nenhum traço eó acessíóvel, isso parece significar que a obra de Lacan naã o tem fontes, sem histoó ria,
sem origem. Da mesma forma, o sujeito Lacan soó existe atraveó s do ouvi dizer, atraveó s de testemunhos fraó geis
e fantasmaó ticos feitos de belas palavras, de histoó rias piedosas, de rumores, de anedotas.

Essa concepçaã o a-histoó rica do texto se encontra na maneira como o herdeiro legíótimo, o genro de Lacan,
Jacques-Alain Miller, co-autor da obra oral de seu sogro desde 1973, a transcreve. Ele faz dela um enunciado
sem nota, sem refereê ncia, como se esse enunciado fosse ainda hoje pronunciado pelo mestre vivo do qual naã o
se consegue fazer o luto. Tudo se passa, portanto no seio dessa ordem familiar fixada no passado, como se
Lacan estivesse, desde entaã o, fora do tempo, como se, atraveó s da sua palavra sempre viva e jamais
historicizada, ele pudesse escapar aà usura do tempo a ponto de se tornar imortal.

Mas contra essa transcriçaã o, outros transcritores se colocaram em situaçaã o contraó ria procurando todos os
traços que o transcritor legíótimo pretendia ocultar. Em consequü eê ncia, eles acrescentaram – e continuam a
acrescentar – aà obra oral, um aparato de notas e refereê ncias consideraó vel de tal maneira que tendem a
recobrir o texto. Face aà auseê ncia de arquivo, face ao seminaó rio oficial, despossuíódo de toda a histoó ria, eles
tendem a fazer emergir um excesso de traços e essa atitude deve ser entendida como sintoma de um terror
da perda do arquivo e do poder soberano que atribuem ao mestre.

AÀ auseê ncia de arquivo, como sintoma de uma concepçaã o dogmaó tica da herança, eó oposta a uma tentativa
inversa de pesquisa sistemaó tica de traços. De tanto recolher notas de auditores do seminaó rio, de tanto
atribuir ao ensino oral de Lacan uma significaçaã o multidimensional, de tanto lhe restituir, contra o dogma da
auseê ncia de arquivo, uma significaçaã o plural fundada na proliferaçaã o de detalhes, de variantes, de
refereê ncias, os transcritores naã o legais transformaram a obra oral de Lacan em um hipertexto, em uma obra
polifoê nica, irredutíóvel a um enunciado uníóvoco. 13

O culto da auseê ncia de arquivo responde naã o apenas aà ideologia do dogmatismo lacanianao, mas a uma certa
concepçaã o lacaniana da histoó ria. Lacan de uma certa forma fez com que sua obra oral seja transcrita como se
ela continuasse a ser pronunciada por um mestre vivo e imortal. O proó prio Lacan procurou se projetar em
um presente interminaó vel, inalteraó vel, narcíósico, dominado pelo si-mesmo grandioso de um mestre agindo
como ator de um significante chegando sempre aà destinaçaã o

Igualmente, atribuiu ao arquivo, e sobretudo ao arquivo escrito, um poder exorbitante, um poder que vai de
encontro ao seu ideal de mestre imortalizado pela palavra. De um lado, Lacan recusava toda forma de
historicizaçaã o do pensamento freudiano, se querendo o inteó rprete de uma nova ortodoxia fundada no
retorno aos textos de Freud, e de outro lado, era obcecado por um desejo de histoó ria e pela vontade de deixar
para a posteridade um traço escrito de seu ensinamento e da sua pessoa, um traço do qual sonhava ter o
domíónio absoluto. Em outros termos, Lacan procurava captar o arquivo tal qual o sujeito capta sua imagem
segundo o processo do estaó dio do espelho. De onde essa dialeó tica do apagamento do reconhecimento, da
antecipaçaã o, da assunçaã o jubilatoó ria, que se manifesta, aliaó s, na maneira como faz uso da injuó ria, da maó xima,
do slogan, do jogo de palavras e que naã o cessa de percorrer sua obra.
Tudo se passa como se esse mestre paradoxal pensasse contra si mesmo. Afirmaçaã o, de um lado, da
soberania do escrito, impossibilidade, de outro, de deixar uma escritura da obra; recusa das fontes e dos
arquivos, de um lado, exacerbaçaã o, de outro, do peso de arquivo; questionamento radical da soberania do eu,
de um lado e, de outro, desejo de transmitir um si mesmo inalteraó vel.

EÉ de uma certa forma para apagar esse apagamento do arquivo e para suprir o arquivo que falta, decidi, em
1990, consagrar um livro ao estudo histoó rico da geê nese do sistema de pensamento de Lacan: suas fontes, sua
geê nese, sua construçaã o interna, etc. Para isso, existia eó claro sua obra oral e escrita nas quais se podia
explorar todos os tipos de refereê ncias e informaçoã es. Mas para o itineraó rio intelectual e privado, na auseê ncia
de uma “verdadeira” correspondeê ncia (apenas 250 cartas) e sem nenhuma nota de trabalho, eu soó tinha aà
minha disposiçaã o os fragmentos de fontes espalhadas entre todos que haviam conhecido o Lacan de outrora,
da infaê ncia, o Lacan de antes de Lacan, e onde os arquivos eram disponíóveis.

EÉ , portanto em razaã o desse trabalho de coleçaã o de arquivos naã o ter sido feito, no que se refere tanto aà vida de
Lacan quanto aà sua obra, que meu livro de 1993, Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de
pensamento acabou por funcionar, contra minha vontade, como uma biografia, quando meu livro naã o eó uma
biografia e naã o consta a palavra biografia. EÉ nessa fonte que desde entaã o se apoó iam os outros livros que
procuram relatar naã o apenas os elementos de uma vida de Lacan, mas as fontes proó prias aà sua obra da qual
passei a ser, sem saber, a uó nica detentora, na auseê ncia de qualquer depoó sito efetuado pela famíólia. Isso
quando meu livro naã o eó uma biografia e a palavra biografia naã o eó utilizada.

Portanto eu “reconstruíó” Lacan, um Lacan destituíódo de rumores e de lendas, mas hipoteó tico, posto que naã o
avalizado por um traço satisfatoó rio.

Os arquivos de Marie Bonaparte

Agora, eu gostaria de evocar um outro aspecto do olhar arquivíóstico: o de Marie Bonaparte. Foi Serge
Lebovici quem propiciou o encontro da princesa Eugeà ne da Greó cia, filha de Marie Bonaparte, com Ceó lia
Bertin,14 uó nica bioó grafa de Marie Bonaparte, que teve acesso a uma quantidade consideraó vel de documentos
– diaó rios, correspondeê ncias, agendas – que nunca haviam sido consultados. Ela me transmitiu seus arquivos,
mas permanece a uó nica, ainda hoje, a saber decifrar certos textos da princesa. Seus manuscritos – compostos
principalmente do Sumário de minha análise e de minha correspondência com Freud até 1939 assim como seu
Diário de análise, ainda naã o saã o acessíóveis aos pesquisadores posto que os arquivos de Marie Bonaparte soó
seraã o abertos em 2020. Em contrapartida, os famosos Cinco cadernos de uma menina foram publicados
enquanto ela estava viva e mais tarde, eu mesma os reeditei, em 1983, a pedido de Philippe Sollers. 15

Marie Bonaparte tinha mania de arquivo a ponto de recopiar aà maã o traços da sua histoó ria afim de que nada
lhe escapasse. Ela fazia dos seus proó prios arquivos o equivalente de um saber absoluto sobre ela mesma e
sobre o mundo que a cercava, como se esse saber pudesse recobrir toda possibilidade de distanciamento
sobre ela mesma. Tudo deveria estar organizado, anotado, traçado, como se a falta de traço pudesse fazer
surgir a anguó stia.

Igualmente, ela deixou como herança aà sua filha uma coó pia de todos os seus arquivos depositados, de um
lado, na LOC e nos SFA, e de outro, na Bibliothèque Nacionale de France (BNF), em Paris. Na Library of
Congrès,16 Marie Bonaparte depositou os documentos relativos aà s relaçoã es com Freud e na BNF seus outros
manuscritos pessoais. Ernest Jones e Max Schur puderam consultar sua correspondeê ncia com Freud, da qual
uma parte foi publicada em seus livros. Eles tiveram acesso a alguns manuscritos. Outras cartas foram
publicadas na Correspondeê ncia geral de Freud.17

Quanto aà s cartas trocadas entre Freud e Fliess, entre 1887 e 1904, e que estiveram na origem do caso
Masson, Marie Bonaparte as tinha comprado de um antiquaó rio. Subsistiram apenas as cartas de Freud, posto
que ele destruiu as de Fliess. Agindo contra a opiniaã o do mestre, que se opunha aà publicaçaã o e compra dessas
cartas, a princesa o enfrentou, argumentando que esse arquivo fazia parte do patrimoê nio cultural e que aleó m
disso, era necessaó rio aà compreensaã o do começo da psicanaó lise.

Assim, em 1950,18 os herdeiros publicaram essa correspondeê ncia, intitulando-a O nascimento da psicanálise,
pretendendo respeitar a vontade de Freud. Eles suprimiram o que supunham que Freud teria desejado
censurar, ou seja sua intimidade. Cento e quarenta cartas naã o foram publicadas. Segundo seus editores, elas
relatavam fragmentos da vida pessoal de Freud que naã o esclareciam nem invalidavam sua pesquisa
cientíófica. De fato, censuraram fatos de uma importaê ncia crucial para as origens da psicanaó lise,
principalmente a histoó ria de Emma Eckstein, uma paciente tratada por Freud e Fliess, cuja identidade seraó
revelada pela primeira vez por Max Schur.19

Por outro lado, o psicanalista americano Frank H. Hartmann, que preparava uma biografia de Loewenstein,
ajudou Ceó lia Bertin a redigir o seu livro em ingleê s e atraveó s dela obteve acesso aos arquivos de Eugeà nie da
Greó cia. Igualmente, solicitou-lhe autorizaçaã o para traduzir e publicar os diaó rios ineó ditos da sua maã e:
principalmente o Diário de análise e o famoso Sumário. Eugeà nie concedeu um acordo de princíópio. Entaã o
Frank Hartman fotocopiou os documentos. Onze anos mais tarde, em 1991, Ceó lia Bertin me confiou uma
coó pia do Sumário e em 2003, atraveó s das minhas indicaçoã es, ela reencontrou nos papeó is que havia
conservado, o Diário de Análise e a coó pia das cartas de Freud feita por Marie Bonaparte. 20

Hartman naã o se contentou em deter os documentos. Ele os utilizou nos Estados Unidos com a finalidade de
rumores e fantasmas logo apoó s a eclosaã o do famoso caso Masson. Nesse contexto, onde era reivindicado e
com razaã o, por numerosos especialistas, um acesso naã o censurado aos arquivos da histoó ria da psicanaó lise,
ele informou a imprensa que havia recebido autorizaçaã o de Eugeà nie para publicar os “diaó rios” de Marie
Bonaparte. Citando Hartmann, Daniel Golemand redigiu para o New York Times, de 12 de novembro de 1985,
um artigo explosivo aonde chegou mesmo a citar algumas “boas paó ginas” extraíódas dos manuscritos da
princesa.

Dez anos mais tarde, nada havia sido publicado, mas Hartmann continuava a se servir dos documentos
“emprestados” para estimular, fornecendo informaçoã es truncadas e fantasmas de cartas roubadas, perdidas e
reencontradas, a curiosidade dos pesquisadores sempre privados de acesso aos arquivos da LOC.

Entremos agora no detalhe dos arquivos que conteê m ineó ditos de Freud dos quais vou citar diversas
passagens posto que ateó hoje ningueó m os conhece.

Marie Bonaparte recopiou 111 cartas de Freud em alemaã o cujos originais encontram-se na LOC. Dessas 111,
7 foram publicadas em extratos por Jones – entre as quais a ceó lebre carta sobre o incesto – , 9 por Max Schur
e 2 no volume geral da Correspondeê ncia de Freud. A elas se somam 15 cartas complementares que naã o fazem
parte das 111 recopiadas por Marie, mas cujos extratos saã o citados por Jones e Schur, o que parece significar
que elas as emprestou e naã o as recuperou. Em princíópio, portanto, Freud escreveu 126 cartas a Marie
Bonaparte, das quais temos traços – durante um períóodo de 12 anos, de 26 de março de 1926 a 16 de junho
de 1939.

Saã o cartas crepusculares. Jaó doente, fala sem cessar dos seus sofrimentos fíósicos, ao mesmo tempo que, vai se
vendo agonizar e assiste a ascensaã o do nazismo na Alemanha seguida da AÉ ustria. Atraveó s dessa
correspondeê ncia, assiste-se ao fim de Freud, ao fim de uma certa ideó ia da psicanaó lise e ao fim de um mundo.
A morte eó incessantemente presente. No meio do desastre do mundo, Freud reafirma posiçoã es essenciais
depuradas de tudo que comporta as suas correspondeê ncias de juventude. Ainda que testemunhe de um
grande carinho por Marie Bonaparte, ele naã o eó mais romaê ntico, mas ceó tico, pessimista, por vezes feroz, triste
e aà beira da agonia. Assim, em uma carta de 21 de abril de 1926, de uma soó vez, ele assinala, como sempre
fez, mas com mais radicalidade ainda, sua hostilidade virulenta aà religiaã o em geral e ao judaíósmo em
particular: “Eu me considero como um dos inimigos mais perigosos da religiaã o, mas eles parecem (esses que
me convidaram) naã o adivinhar”.

Encontra-se tambeó m uma reafirmaçaã o da sua crença na origem quíómico-bioloó gica das psicoses a propoó sito
de uma paciente de 45 anos tratada por Ernst Simmel pela psicanaó lise mais na qual ele recomenda um
“tratamento dos ovaó rios”.21

“O senhor sabe, ele diz, que em tais psicoses, naã o obteremos nada pela anaó lise. Antes de tudo falta o eu
normal com o qual pode-se entrar em relaçaã o. Sabemos que os mecanismos das psicoses naã o saã o diferentes
daqueles das neuroses, mas naã o dispomos de quantidades suficientes de excitaçaã o que deveria se utilizar
para modificar esses mecanismos. As esperanças de desenvolvimento para o futuro residem na quíómica
orgaê nica e mais precisamente no caminho que a ela conduz passando pela endocrinologia. Esse futuro estaó
ainda muito longe, mas dever-se-ia estudar cada caso de psicose pela anaó lise posto que esse conhecimento
dirigiraó mais tarde a terapia quíómica” (15 de novembro de 1930).
No mesmo ano, em 10 de março, a morte estaó por laó , sempre presente, com a ideó ia da decrepitude do corpo e
dos oó rgaã os e a diminuiçaã o das faculdades intelectuais, o que Freud mais temia: “A senhora naã o acredita que
este veraã o seraó o meu uó ltimo veraã o? Pense nisso antes que todos os oó rgaã os dos sentidos naã o diminuam, um
apoó s o outro, antes que fiquemos talvez paralisados pela metade por uma apolepsia e que continuemos a
vegetar como um fragmento e que perdemos, na senilidade, o pouco de estíómulo intelectual que havíóamos
conseguido manter ateó ali”.

Outro momento importante que teraó um papel consideraó vel na atitude de neutralidade de Freud diante da
políótica de Jones de salvamento da psicanaó lise durante o nazismo: o oó dio de Wilhelm Reich. Freud preferia
que tivessem se livrado de Reich, em 1933, mais do que do nazismo. Ele naã o era favoraó vel aà políótica
jonesoniana, mas deixou acontecer, preferindo que Reich fosse excluíódo, este que preconizava, com razaã o,
uma políótica, naã o de “salvamento”, mas de retirada absoluta diante do Nazismo. O oó dio de Freud se expressa
de maneira cega e tendo por pano de fundo a obsessaã o pela desagregaçaã o na carta de 17 de janeiro de 1932:
“Reich fez a vergonhosa tentativa de poluir nosso jornal com a propaganda bolchevique. Voceê s vaã o ler que
me opus de maneira eneó rgica”. Em seguida, ele encadeia tambeó m tratando de “bolchevique” Otto Fenichel, o
que naã o era o caso. Sobre Reich: “Eu penso em me livrar e deslocar a redaçaã o para Viena. Tudo se desagrega.
Tem cada vez mais gente do lado da colaboraçaã o entre os quais contaó vamos, que se verificaram inutilizaó veis –
Freud emprega muitas vezes essa palavra – e se tornam cada vez mais negligentes. Com as forças que
diminuem, eó necessaó rio tomar o leme e procurar conduzir o barquinho”.

Sobre Ferenczi, em 11 de setembro de 1932: “Ferenczi passou a beber seriamente. Sua mulher taã o inteligente
me disse: “pense nele como em uma criança doente: o senhor tem razaã o, a decadeê ncia psíóquica eó pior que a
inevitaó vel decadeê ncia corporal”.

Com a chegada do nazismo, as cartas se tornaram cada vez mais crepusculares. Num primeiro momento,
Freud pensa que o nazismo naã o atravessaraó para a AÉ ustria (carta de 16 de março de 1933): “Naã o acredito no
perigo aqui e se ele devesse acontecer, estou decidido a esperar aqui; Se eles me batem aà morte, bom, eó uma
maneira de morrer como qualquer outra. Mas eó provavelmente uma exageraçaã o barata”. Dez dias mais tarde,
em reaçaã o a um convite da princesa que lhe oferece sua casa em Saint-Cloud: “Obrigado pelo seu convite.
Estou decidido a naã o fazer uso, aliaó s, isso seraó quase desnecessaó rio. Os ataques de violeê ncia na Alemanha
parecem ter se acalmado (…) e a opressaã o sistemaó tica de judeus e a expulsaã o de todos apenas acabam de
começar. A perseguiçaã o dos judeus e a restriçaã o das liberdades saã o os uó nicos pontos do programa de Hitler.
Na AÉ ustria, isso naã o deveria ir muito longe, mas a covardia dos judeus jaó se mostrou”.

Em 10 de junho, logo apoó s a homenagem fuó nebre a Ferenczi, ele começa a se dar conta do perigo que pesa
sobre a AÉ ustria e escreve: “O mundo estaó se tornando uma grande prisaã o, a pior das celas eó a Alemanha. O
que vai acontecer na cela austríóaca eó bastante incerto. Eu prevejo na Alemanha uma surpresa paradoxal. Eles
começaram com um combate mortal contra o bolchevismo e vaã o terminar como algo muito parecido. Exceto
talvez pelo fato de que o bolchevismo adotou um ideal revolucionaó rio, enquanto o hitlerismo tem um ideal
reacionaó rio e medieval. Mas esse mundo me parece naã o ter muito mais forças para viver, como se ele
estivesse destinado a um fim muito proó ximo.”

Em 19 de fevereiro de 1934, Freud começa a considerar que possa estar em perigo eó assinalado pela princesa
e Ruth Mack-Brunschwick: “Qual eó o perigo que mais me ameaça? Sou relativamente pouco conhecido na
AÉ ustria. As pessoas mais informadas sabem apenas que o fato de me maltratar aqui teria muito efeito no
estrangeiro. A uó ltima carta ineó dita data de 16 de junho de 1936: “O mundo externo eó cada vez menos belo.
Todos os tipos de barulhos estranhos nos envolvem sobre o que deve nos acontecer brevemente.

Tomemos agora um outro arquivo: o que a princesa chama de Diário de análise. Trata-se de 192 paó ginas
datilografadas e numeradas em 28 cadernos, de 30 de setembro de 1925 (data do iníócio da anaó lise) ao
inverno de 1928/29.

Saã o impressoã es de Freud, julgamentos, aforismos, fervorosamente coletados, mas nos quais Marie Bonaparte
leva o mestre a se pronunciar sobre diversos temas. Sempre muito crepuscular, Freud fala sem parar do seu
caê ncer e da sua morte proó xima, mas tambeó m de sua maã e temendo que ela o veja morrer antes dela o que
seria contraó rio aà s leis das geraçoã es. Evidentemente, ele se lembra de uma cena de EÉ dipo de Soó focles. Mas ele
pensa tambeó m na sua filha Anna e diz que ela quis virar analista contra a vontade dele. Ele teme pelo destino
dela apoó s sua morte, mas assinala tambeó m que deve sua coragem e sua lucidez ao fato de naã o estar
angustiado.
Na ocasiaã o de uma visita de Marie ao crematoó rio do cemiteó rio de Viena, Freud diz que iraó laó apenas uma vez,
que seraó queimado e suas cinzas jogadas ao vento. Marie acrescenta uma nota macabra ao perguntar a Freud
se ele prefere esqueletos ou muó mias. Sabe-se que a princesa era obcecada pela morte orgaê nica e pela
decomposiçaã o dos corpos.

Sobre a praó tica da psicanaó lise, Freud adota posicionamentos surpreendentes, assinalando, por exemplo, a
que ponto detesta a posiçaã o sentada, dizendo: eó melhor ficar de peó e andar ou entaã o ficar deitado. Marie, que
nesse momento estaó em sessaã o, se vira e o veê deitado em sua poltrona, as pernas estendidas no banquinho. E
tambeó m sobre os limites da anaó lise: “Me coloco acima da psicanaó lise e vejo, muito bem, suas possibilidades e
limites. Isso naã o pode comandar todas as pulsoã es e todas as possibilidades do homem. A anaó lise tem sim um
objetivo asceó tico que naã o poderaó jamais ser atingido. E felizmente, senaã o o mundo seria muito monoó tono e
chato”.

A propoó sito do dinheiro, ele naã o acredita nem por um instante, como seus sucessores, que o pagamento seja
necessaó rio ao tratamento. Ao contraó rio, ele assinala que a verdadeira felicidade para o analista seria de
trabalhar gratuitamente. Assim, ele inveja aqueles que como Marie, podem faze-lo. Porque foi obrigado a
sustentar sua famíólia, e principalmente seu pai e seus filhos, ele diz, que precisou fazer os seus pacientes
pagarem. Em seguida, ficou arruinado com a guerra e em consequü eê ncia, precisou pedir honoraó rios bastante
elevados, principalmente aos americanos e em doó lar. Ele afirma, aliaó s, invejar esses americanos pelos preços
elevados que cobram para poder sobreviver. Ele se sente humilhado por eles. Ao contraó rio, ele acrescenta,
fazendo alusaã o ao homem dos lobos, antes da guerra, ele naã o pedia nenhum pagamento aos russos.

Como sempre – e isso seraó aqui amplificado por Marie – a sexualidade estaó no centro das proposiçoã es de
Freud que naã o renuncia nunca, naã o aà teoria da seduçaã o, mas aà ideó ia da existeê ncia de cenas de seduçaã o: Veja,
ele diz, eó muito frequü ente, as governantas, a quem saã o confiadas as crianças dos ricos, acariciarem as suas
partes genitais para adormece-las, ou entaã o dar-lhes oó pio. Segundo ele, existiria nessa atitude uma revanche
social, uma “vingança do proletariado”. Essas governantas rebaixam as crianças dos ricos para teê -las com elas
e torna-las neuroó ticas. Sempre muito anglofilo, Freud abre uma exceçaã o para as babaó s britaê nicas. E, aliaó s, ele
acrescenta, o povo ingleê s eó o maior dos povos pelo seu caraó ter e ele deve esse privileó gio aà s babaó s que
educaram as crianças inglesas sem abusar delas. Em um outro caderno, Marie evoca o coito de animais se
perguntando se eles agem como os homens gostando de ver os atos sexuais: “Seraó que a observaçaã o do coito
existe nos animais?” e Freud responde. Naã o se sabe, eó difíócil perceber o lugar dos oó rgaã os genitais nos animais
e aliaó s aquilo que vem do animal naã o eó aplicaó vel ao homem”. Fascinada; Marie replica: “Dizem, no entanto,
que a topeira tem uma vagina fechada com uma pele dura.

Gostaria de encerrar essa exposiçaã o com os posicionamentos de Freud a propoó sito das mulheres. Nosso
grande emancipador mostra aqui os seus limites clíónicos, principalmente a respeito das putas, empregadas
domeó sticas e atrizes: “Normalmente, ele diz, as mulheres que teê m um espíórito elevado, pulsoã es selvagens e
um intelecto superior saã o furiosas. Sobretudo quando elas teê m poder”. E assinala que Catarina II da Ruó ssia
era horríóvel porque mandou cortar a líóngua da sua rival e assassinar seu esposo. E ele acrescenta: “Portamos
julgamentos falsos sobre Nero e Calíógula. Naã o se deve julgaó -los com os nossos criteó rios atuais. Muitas pessoas
gostariam de agir como Nero, mas, ele podia, nada o impedia de se livrar a esses crimes”. Por que Freud naã o
aplica o mesmo criteó rio a Catarina II que foi muito menos sanguinaó ria e patoloó gica que os dois imperadores
romanos?

Enfim, aà questaã o de Marie “O senhor jaó analisou prostitutas?”, ele responde: “Sim, duas e naã o foi nada
interessante. Elas naã o eram nem sinceras nem interessantes, naã o apreendiam nada.” E ele continua dizendo
que na categoria das mulheres com sexualidade livre, ele prefere as atrizes: “Saã o em geral putas, mas
tambeó m mulheres cultas. Eu tentei analisar algumas mas elas naã o eram mundialmente conhecidas. 22 E isso se
revelou impossíóvel. Essas mulheres naã o captam a significaçaã o da ironia (o chiste). Por outro lado, a
transfereê ncia eó impossíóvel, elas naã o compreendem porque o meó dico naã o se interessa por elas (no sentido
sexual) e entaã o eó necessaó rio interromper o tratamento.

“Mas, Freud acrescenta, quase adepto da teoria psiquiaó trica da paranoó ia ancilar, existe uma outra categoria
de mulheres que naã o podemos analisar, a das domeó sticas. Penso muito em uma senhora que me dizia que sua
empregada domeó stica era nervosa e me pedia para aceitaó -la em anaó lise. A pobreza naã o era um obstaó culo
posto que a patroa se propunha a pagar o tratamento. O verdadeiro problema, eó que essa categoria de
mulheres eó movida por um oó dio de classe. Elas acreditam que iremos contar tudo para a patroa. Elas naã o
entendem que gostaríóamos de conhecer o segredo delas com outros fins que os de oprimíó-las. E assim, isso
nunca leva a nada”.
__________________________
1
Traduçaã o de C. Lucia M. Valladares de Oliveira.
2
Ernest Jones. La vie et l’œuvre de Sigmund Freud., Tomo 1 (New York, 1953, Paris, P.U.F.., 1958, Tomo 2 (New York, 1955), Paris, P.U.F.,
1961, Tomo 3 (New York, 1957), Paris, P.U.F., 1969.
3
Sigmund Freud. Gesammelte Schrifen, 12 volumes, Viena: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1924-1934; Gesammelte Werke
(G.W.), 17 volumes, Londres: Imago Publishing Co (1940-1952), Frankfurt : Fischer, 1960-1988; Index, volume XVIII e
Nachtragsband, volume de suplementos, realizado por A. Richards e Ilse Grubrich-Simitis, Frankfurt: Fischer, 1987; The Standard
Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, editado por James Strachey, 24 volumes, Londres: Hogarth Press, 1953-
1974.
4
A terceira geraçaã o mundial eó composta daqueles que naã o conheceram Freud (Lacan, Winnicott, Kohut, etc). Ver Elisabeth
Roudinesco e Michel Plon. Dictionnaire de la Psychanalyse (1997), Paris: Fayard, 2000. Rio de Janeiro: Zahar, 199$)
5
Yosef Hayim Yerushalmi. Seó rie Z (1994), in Le Débat. Une fantaisie archivistique, 92, novembro-dezembro/ 1996, p. 141-152.
6
As cartas de Freud a Fliess foram publicadas em alemaã o e em ingleê s : The Complete Letters of Sigmund Freud to Wilhelm Fliess 1887-
1904. Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 1985; Briefe an Wilhelm Fliess 1887-1904. Frankfurt: Fischer, 1986.
[No Brasil: A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess 1887-1904. Rio de Janeiro: Imago, 1986. (N.T.)].
7
Jeffrey Moussaíüeff Masson. Le réel escamoté. Paris: Aubier-Montaigne, 1984. Ver tambeó m Janet Malcolm, Tempête aux archives Freud.
(New York: 1984) Paris: P.U.F., 1986.
8
O termo eó tomado aqui no seu sentido claó ssico de revisaã o da histoó ria oficial. Ele naã o deve ser confundido com o negacionismo.
9
Ernest Jones. La vie et l’œuvre de Sigmund Freud, vol. 1 (New York, 1953), Paris: P.U.F., 1958, p. 324.
10
La maison de Freud, Bergasse 19, Vienne. Fotografias de Edmund Engelman e notíócia biobliograó fica de Peter Gay (New York, 1976),
Paris: Seuil, 1979.
11
Henri F. Ellenberger, Médicines de l’âme. Essais d’histoire de la folie et des guérisons psychiques. Paris: Fayard, 1995, p. 92.
12
Jacques Lacan. Ecrits. Paris: Seuil, 1966. Eu narrei em que condiçoã es François Wahl publicou os Ecrits, in Jacques Lacan. Esquisse
d’une vie, histoire d’un système de pensée. Paris:Fayard, 1993.
13
Penso por exemplo no trabalho de Michel Roussan, melhor transcritor atualmente do seminaó rio de Lacan.
14
Ceó lia Bertin. Marie Bonaparte (1982), Paris, Perrin 2000.
15
L’Infini, 2, 1983.
16

17
Sigmund Freud. Correspondance (Londres 1960). Paris: Gallimard, 1966.
18
Sigmund Freud. La naissance de la psychanalyse (Londres, 1950). Paris: P.U.F., 1956. A traduçaã o integral, realizada em alemaã o e em
ingleê s por Masson, na França estaó em fase de preparaçaã o haó mais de dez anos!
19
Max Schur. La mort dans la vie de Freud (New York, 1972). Paris : Gallimard, 1975.
20
Esses arquivos, fotocopiados por Ceó lia Bertin que me transmitiu em duas etapas, foram em seguida «perdidos» por Tatiana
Fruchaud, a filha de Eugeó nie de Greà ce. Quanto aos que haviam sido fotocopiados por Hartman, eles «desapareceram», apoó s sua
morte. Aliaó s eó muito provaó vel que Hartman tenha guardado a coó pia de Engeà nie de Greà ce sem nunca ter lhe restituido. Graças a Ceó lia
Bertin, atualmente, eu sou a uó nica a poder consultaó -los.
21
A propoó sito de convite feito a ele por B‘nai B’rith. Sobre esse tema, ver. Elisabeth Roudinesco, A propos d’une lettre ineó dite de Freud
sur le sionisme et la question des lieux saints, in Cliniques méditerranéennes, 70, 2004.
22
Freud faz aqui alusaã o a Sarah Bernardt que ele admirava.

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