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21/06/2018 Educar imparcialmente, um desejo intolerante

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Educar imparcialmente, um desejo intolerante Datafolha: quatro tendências e um grande


POR DIOGO QUIRIM
erro
– ON 21/06/2015
CATEGORIAS: CULTURA, POSTS

Sem a cachaça, ninguém segura esse


rojão | LITERATURA BRASILEIRA &
CACHAÇA

Outras Mídias Xavantes: o audacioso convite aos não-


Para índios
compreender a
Petrobras além
da crise (3)
Pedro Parente
foi demitido,
mas suas
política seguem em vigor. São o
início de um projeto que pode levar
à […]
Polêmica: por
que 2013
ainda não
terminou
Revolta Nossa livraria online
mostrou que
contradições
profundas do país não poderão ser
Avicena (Ibn Sīnā), filósofo, astrônomo, psicólogo e poeta muçulmano. Já no século XI, ele sabia que nem resolvidas sem rupturas, apenas
História, nem Matemática podem ser neutras por "gestão" institucional.
Esquerda nada aprendeu […]
Para
Medo da política nas escolas, expresso no programa “Roda Viva” e compreender a
Petrobras além
num projeto de lei, não tem a ver com parcialidade, mas com temor a da crise (2)
opiniões divergentes Não é só de
petróleo que
se trata. Líder
Por Diogo Quirim em inovação, empresa atua até em
biocombustíveis produzidos a partir
de […]
O programa Roda Viva, apresentado pela TV Cultura em 8 de junho, Blog da Redação
entrevistou o atual Ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro. IV Salão do
Livro Político
Próximo ao fim do programa, João Gabriel de Lima, diretor de redação debate país
pós golpe
da revista Época, após traçar críticas à crescente radicalização e Mesa de
polarização na política brasileira, perguntou: “Por que PT e PSDB abertura, 18 de junho, reúne pré-
candidatos à presidência.
Participam Fernando Haddad,

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21/06/2018 Educar imparcialmente, um desejo intolerante
Jessé Souza, Ladislau Dowbor e
mantêm o debate público em um nível tão baixo?”. Ainda: “O que a
Sueli Rolnik. […]
educação pode fazer para ensinar o convívio dos contrários?”. Para pensar
políticas
públicas
O ministro, prontamente, respondeu que, para melhorar o debate cuidadoras O Minotauro Global
Encontros sobre o futuro, que a A verdadeira origem da crise
político, deve-se considerar democracia e educação como termos Fiocruz promoverá em 20/6, nanceira e o futuro da
debatem com Leonardo Boff economia global
equivalentes, em que é necessária uma formação para o respeito do cuidados na saúde como elemento
outro. Augusto Nunes, o apresentador do programa, por sua vez, lançou de […] Autor: Yanis Varoufakis
Agenda: Por R$ 50,00 (PRÉ-VENDA)
uma questão polêmica: “O ensino de história não estimula essa Golpes e Mídia
em debate em
radicalização [política]?”. Deixo a pergunta em suspenso. Florianópolis
Compre
Nilson Lage e
Bernardo Joffily dialogam sobre a
*** relação entre o poder autoritário O Bem Viver
das elites e a tentativa de Uma oportunidade para imaginar
naturalizá-lo Por […] outros mundos
A resposta de Janine Ribeiro foi bastante razoável, afirmando ser a falta
Autor: Alberto Acosta
de educação e de formação os principais elementos estimulantes da Por R$ 30,00
radicalização, embora seja possível encontrar, em nível universitário,
Compre
pessoas mal-educadas em todos os sentidos do termo, incapazes de
respeitar as diferenças. No entanto, permito-me retornar a um
momento anterior da entrevista. Aos nossos amigos
Crise e insurreição

Autor: Comite Invisivel


De R$ 32,00 por R$ 27,00

No segundo bloco, a socióloga Maria Helena Castro indagou o


Compre
ministro sobre a visão do ministério da Educação acerca de uma nova
base curricular nacional, especialmente no Ensino Médio. Em sua
resposta, o ministro sublinhou a existência de diferentes contextos nas
variadas disciplinas, opondo a matemática à história. Afirmou o
ministro que, para a matemática, existe grande facilidade na
determinação de uma base curricular comum, abordando tópicos
consagrados como geometria e equações de segundo grau.

Para disciplinas como a história, no entanto, essa facilidade seria


ilusória. Relembrando seus tempos de “ginásio”, contou que o
currículo de história dividia-se pelos três anos por temáticas, como
História do Brasil, História da América e História do Mundo, o que
considerou equivocado. Além disso, lembrou-se de uma tradição no
ensino de história de não se chegar até o tempo presente, pois este é
um tempo de grandes conflitos políticos. Isso me leva a alguns
questionamentos. Por que é mais fácil estabelecer uma base curricular
comum para a matemática do que para a história? Qual o receio em
abordar os “conflitos políticos” do tempo presente? Não existiriam,
também, conflitos políticos na matemática, assim como na história?

***

Talvez Marcel van Hattem, deputado estadual pelo PP-RS, pensasse


algo em comum com a pergunta de Augusto Nunes sobre o estímulo do
ensino de história para a radicalização política ao protocolar o projeto
de lei nº 190/2015. Inspirado na ONG Escola Sem Partido, tal projeto
visa proibir aquilo que ele chama de “doutrinação política e ideológica”
no sistema de ensino estadual. Um trecho que enfatizo é o Art. 3º,
inciso IV. Este propõe ao professor que, no exercício de sua função,
“ao tratar de questões políticas, sócio-culturais [sic] e econômicas,
apresentará aos alunos, de forma científica e imparcial, as principais
versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito”.

Sem analisar cuidadosamente o projeto, repleto de equívocos, gostaria


de me deter na “forma científica e imparcial” de tratar questões
políticas, socioculturais e econômicas.

Viver é parcial. Nossos atos são uma escolha entre muitas possíveis.
Somos constituídos de experiências individuais que não são

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compartilhadas por mais ninguém. Somos uma trama de cultura, nação,
língua, convicções, emoções, memórias, opiniões, entre inumeráveis
outras particularidades, situadas em um momento no tempo e no
espaço, das quais não nos despojamos completamente ao fazer ciência
e ao ensinar. O que não significa que não possamos ter, sobre elas,
certa consciência e senso crítico. Imparcial, desta forma, geralmente
significa um posicionamento particular sobre algo disfarçado de
verdade inquestionável, esterilizado da contaminação da política e da
subjetividade.

***

Por que o projeto de lei apenas salienta a necessidade de uma


apresentação “científica e imparcial” das questões políticas,
socioculturais e econômicas? Por que não há necessidade de tal
constrangimento nas questões matemáticas? Talvez exista aqui alguma
conexão com a opinião de Janine Ribeiro de que estabelecer uma base
curricular comum para a matemática é fácil e para a história é
complexo.

Acredito que para ambas as disciplinas é complexo.

Supor que o ensino de história pode estimular a radicalização política é


ressaltar que a história é parcial e sujeita a desviar do científico com
certa facilidade, como se houvesse uma ciência neutra dos assuntos
políticos. A matemática, por sua vez, é tida como a mais imparcial e
científica das disciplinas, por isso estabelecer a sua base curricular
seria tão simples.

Ou não. E se o modo como construímos a base curricular da


matemática também for parcial? E se retirássemos um pouco do
espaço dedicado à geometria analítica e abríssemos as janelas entre a
matemática e a filosofia, discutindo com o pitagorismo a ideia de que a
realidade é inteligível através da matemática? E se nos demorássemos
um pouco menos na trigonometria e mesclássemos história e
matemática, através de estudos quantitativos de história demográfica e
econômica? E se, em uma aula de matemática, discutíssemos
privacidade, números primos, criptografia e segurança digital? Ou
ensinássemos as vastas contribuições dos matemáticos muçulmanos,
que incrustaram nosso vocabulário com algarismo, algoritmo,
álgebra… Isso não seria interessante ao tratar da islamofobia?

***

O currículo da matemática parece imparcial se tentarmos cortar todos


os seus laços com a política e com as outras disciplinas. Mas essa
matemática, protegida numa redoma contra os perigos políticos,
históricos e filosóficos, contra a invasão inconveniente das outras
disciplinas, não é imparcial; esse currículo já é uma escolha. Uma
escolha que prejudica tanto a matemática quanto a história. Defender a
imparcialidade política nas escolas é, por um lado, privar os alunos do
direito à educação para o exercício da cidadania através do debate
democrático e, por outro, ressaltar um currículo monodisciplinar,
obsoleto, desinteressante e que não corresponde aos intuitos de
ultrapassar as fronteiras das áreas do conhecimento para formar um
estudante criativo e protagonista de sua própria trajetória.

Quando Augusto Nunes indaga se o ensino de história estimula a


radicalização política, me pergunto o motivo de ele ter escolhido, entre
as disciplinas, justamente a história. Provavelmente porque sua base
curricular comum seja bastante difícil de estabelecer. Não mais do que

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a matemática. Levantar a questão de como queremos ver a história nas
escolas já é admitir o diálogo, a divergência e a inexistência de um
ponto de neutralidade. O mesmo vale para a matemática. Sobre como
eu gostaria de ver os currículos da história ou da matemática, eu não
sei dizer, mas certamente mais vezes juntos em suas parcialidades.

O medo da política nas escolas expresso pela pergunta de Augusto


Nunes e por van Hattem não é o medo da parcialidade, é o medo da
opinião divergente. Como o debate democrático pode ser aprimorado,
como o convívio com as diferenças pode ser ensinado, se querem
suspender a política da educação? O ensino da intolerância estimula a
radicalização política.

Sobre o mesmo tema:

05/11/2015 05/05/2017 30/07/2012 11/03/2015


Outras Palavras. Bauman: assim O retorno dos Para livrar a
Outras Culturas. chegamos à filósofos Educação da
Outra Educação Retrotopia comunistas “Verdade Absoluta”
(2) (1) (9) (5)

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TAGS: ciência, educação, filosofia, História, matematica

4 Comments

Wecisley Ribeiro
Posted junho 21, 2015 at 4:17 PM

Ótimo texto! Sobre a parcialidade da matemática ensinada na escola eu


acrescentaria que as formas etnomatemáticas de muitos jovens, vendedores
informais por exemplo, formuladas a partir da maneira pela qual eles calculam o
troco a ser devolvido ao freguês — de altíssima complexidade — são
absolutamente negligenciadas pelo currículo em benefício de fórmulas abstratas e
desencarnadas do mundo empírico.

Matheus
Posted junho 21, 2015 at 6:47 PM

Excelente texto, Diogo! Abordou muito bem o tema.


Esse papo de imparcialidade costuma vir acompanhado de gente que enxerga
uma história única, que reproduz hegemonias disfarçadas de objetividade. E
lembrar que todo conhecimento é histórico e político, pois foi construído pelo

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21/06/2018 Educar imparcialmente, um desejo intolerante
homem através dos tempos, e instrumentalizado para fins sociais, econômicos e
políticos. Sem essa percepção mais ampla, os radicalismos se multiplicam, pois
as opiniões ficam limitadas a discursos totalitários e rasos geralmente se
espalham mais as explicações mais simples e que dão conta dos medos e
demandas da sociedade.

Eduarda Oliveira
Posted junho 21, 2015 at 7:19 PM

É válida a discussão, porém é preciso que se analise o foco do projeto. Não se


trata de proibir assuntos atuais e polêmicos em sala de aula. Vejo que o problema
passa pelo modo com o qual os temas são tratados. Se um professor emite uma
opinião sobre um fato histórico X, é bem possível que ele não mencione outras
correntes de pensamento. Qual é a solução para que o aluno não seja
manipulado e mero reflexo de impressões alheias?

gerusa
Posted junho 22, 2015 at 11:41 AM

gostei muito! o currículo matemático não é nem nunca foi imparcial ou científico.
basta ler os livros e apostilas sem medo.
tudo é feito com base em uma escolha política, sempre.
parabéns pela reflexão.

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