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]orge Ferreira

(organizador)

O populismo e sua história

debate e crítica

]orge Ferreira (organizador) O populismo e sua história debate e crítica CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA Rio de Janeiro

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

Rio de Janeiro

2001

]orge Ferreira (organizador) O populismo e sua história debate e crítica CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA Rio de Janeiro

COPYRIGHT© 2000 by Jorge Ferreira

CAPA

Evelyn Grumach

PROJETO GRÁFICO

Evelyn Grumach e joão de Souza Leite

Cll'-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTI. SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DEUVROS,RJ

P868 O populismo e sua história: debate e crítica / organiza- ção, Jorge Ferreira. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,

2001.

ISBN 85-286-577-2

1. Populismo - Brasil. 2. Brasil - Política e governo -

1930- . 1. Ferreira, Jorge.

01-0964

CDD 320.981

CDU 32(81)

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia autorização por escrito.

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Impresso no Brasil

2001

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Sumário

INTRODUÇÃO

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POPULISMO E AS CIÊNCIAS SOCIAIS NO BRASIL: NOTAS SOBRE A

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TRAJETÓRIA DE UM CONCEITO

Angela de Castro Gomes

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NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLÍTICA BRASILEIRA

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Jorge Ferreira

POPULISMO LATINO-AMERICANO EM DISCUSSÃO

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Maria Helena Rolim Capelato

TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO:

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UM PROJETO PARA O BRASIL (1945-1964)

Lucília de Almeida Neves

TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO: UM BALANÇO DOS

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ESTUDOS RECENTES

Fernando Teixeira da Silva Hélio da Costa

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JORGE

FERREIRA

CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO: REFLEXÕES A PARTIR DE DUAS

TRAJETÓRIAS SINDICAIS NO RIO DE JANEIRO

Elina G. da Fonte Pessanha Regina Lúcia M. Morel

• O COLAPSO DO COLAPSO DO POPULISMO OU A PROPÓSITO DE

UMA HERANÇA MALDITA

Daniel Aarão Reis Filho

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Introdução

O "populismo", como noção para explicar a política brasileira de 1930 a 1964, tornou-se uma das mais bem-sucedidas ima- gens que se firmaram nas Ciências Humanas no Brasil. O ano de 1930 seria o início do "populismo na política brasileira"; 1945 marcaria rearranjos institucionais que teriam permitido a sua continuidade na experiência democrática; 1964, finalmen-

te, significaria o se~_c~lapso. O sucesso da expressão, no entanto, não se limitou aos es- tudos universitários, invadindo, da mesma maneira, as páginas da imprensa e a linguagem cotidiana da população. O político populista, assim, surge como l!r:i:1 personagem que agiria de má U, mentindo e enganando o povo, sobretudo nas épocas de elei- ções, prometendo tudo e nada cumprindo. Quando uma mes- ma noção é compartilhada por intelectuais e professores uni- versitários, mas também por jornalistas e trabalhadores, é mui- to difícil investigar a sua origem na história política do país, repensá-la e criticá-la. Aceita como um dado, como algo que é, a expressão tornou-se, na cultura política brasileira, uma espé- cie de "s~_ns()_çQrol1m", no sentido elaborado por Antonio

Gramsci. Embora tenha sofrido mudanças de caráter teórico ao lon-

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çQrol1m", no sentido elaborado por Antonio Gramsci. Embora tenha sofrido mudanças de caráter teórico ao lon-

INTRODUÇÃO

godo tempo, 0 "populismo", como cat.egor!a explicativa, teve a função de responder a uma pergunta mqmetante: por que os trabalhadores manifestaram apoio a Getúlio Vargas durante o Estado Novo e quais as razões que os levaram, entre 1945 e 1964, a apoiar os líderes trabalhistas e votar no PTB? Em torno da pergunta, formulações de vários matizes surgiram, sendo as mais disseminadas as que aludem à manipulação dos trabalha- dores, sempre desviados de um caminho que se queria ideal, e a uma postura antiestatal, sempre condenadora do Estado e vitimizadora da sociedade. Mas, se o "populismo" teve uma função, ele igualmente tem uma história. História que, retrospectivamente, teria sido con- firmada pela própria trajetória política do país. As primeiras formulações sobre o "populismo" surgiram no contexto da democratização de 1945. No entanto, as idéias que estabelece- ram a noção naquela época não se basearam em categorias teó- ricas com respaldo acadêmico, mas, sim, procuraram fabricar imagens politicamente desmerecedoras do adversário, esforçan- do-se para elaborar uma representação negativa daquele que se queria combater no decorrer da própria luta política. As elites liberais que perderam o poder em 1930, contrariadas com o intervencionismo estatal na economia, o cerceamento do regio- nalismo político, os ataques à tradição liberal individualista, a elevação dos trabalhadores à categoria de cidadãos e as arbitra- riedades da ditadura do Estado Novo, mas sobretudo assusta- das com o movimento "queremista", passaram a explicar o apoio dos assalariados a Vargas ressaltando a demagogia, a manipula- ção, a propaganda política, a repressão policial, entre outros fatores, sugerindo uma relação destituída de reciprocidade: o

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Estado, com Vargas, surgia como todo-poderoso, capaz de in- fluenciar as mentes das pessoas; a sociedade - os trabalhado- res em particular -, amedrontada com a polícia e confundida pela propaganda política estatal do DIP, era transformada em massa de manobra e, portanto, vitimizada. A partir daí, e até 1964, as oposições liberais, com amplo acesso aos meios de co- municação, delinearam, com maior nitidez, imagens que aludi- am à cooptação política dos sindicatos, à corrupção estatal e à demagogia eleitoral, todas patrocinadas pelos trabalhistas. No entanto, em termos eleitorais e na capacidade de mobilização, os petebistas cresciam ao longo do tempo. Por essa época, nos anos 50, algumas teorias, ainda sem grandes reper- cussões e restritas a pequenos círculos intelectuais, interpreta- vam a política brasileira a partir da relação dual entre campo e cidade, entre líderes carismáticos e "massas". Massas, vale di- zer, porque, a partir de critérios estabelecidos por aqueles mes- mos intelectuais, os trabalhadores "ainda" não tinham consci- ência de sua própria classe. O "populismo", portanto, surgiu primeiro como uma imagem desmerecedora e negativa do ad- versário político, e somente depois como uma categoria explicativa de âmbito acadêmico. Março de 1964, no entanto, repercutiu com grande impac- to entre a intelectualidade. Assim, as teorias que circulavam ti- midamente na década de 1950 e início dos anos 60 apropria- ram-se daquelas imagens pejorativas, tomando corpo e alcan- çando rápido sucesso. O "populismo", cuja lógica estava entre o mundo rural e o urbano, ter-se-ia se baseado no controle e na cooptação dos trabalhadores, tendo por cúmplices cúpulas sin- dicais elitistas sem maiores vínculos com as bases operárias. Desse

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INTRODUÇÃO

modo, olhando para trás, tudo se encaixava na teoria com pre- cisão: novo padrão de acumulação, inconsistência das organi- zações sindicais, personalismo político, camponeses sem tradi- ções organizativas que se tornaram operários, esquerdas iludi- das com o nacionalismo, trabalhadores esperando o sol e a chu- va dos líderes populistas. Sobretudo, na definição mais conhe- cida, o "populismo" teria a tendência irresistível a trair. No en- tanto, como lembra Adam Przeworski, repetindo uma pergunta de Fernando Claudin, "essa explicação exige uma outra: por que os trabalhadores seguiram tais líderes 'traidores'?" 1 A per- gunta nunca foi satisfatoriamente respondida, mas, seja como for, retrospectivamente a experiência democrática pós-45 so- mente poderia resultar em desastre - e dificilmente, dizia a teoria, aconteceria de outra maneira: março de 1964 teria sig- nificado o colapso do "populismo". Um cenário de "populistas" e "pelegos", eis a imagem que temos da política brasileira entre 1930 e 1964. Formulada pelas oposições liberais, ela foi apropriada pela teoria, e esta, por sua vez, reforçou a própria imagem, sedimentando, na dimensão imaginária de gerações de alunos de cursos de níveis médio e superior na área de ciências humanas, a idéia de que teria exis- tido um "populismo na política brasileira". Assim, personagens de diferentes tradições políticas foram reduzidos a um denomi- nador comum: líderes trabalhistas como Getúlio Vargas, João Goulart, Leonel Brizola e até mesmo Miguel Arraes perfilaram- se ao lado de políticos regionais paulistas, como Adhemar de

1 •Adam Przeworski. Capitalismo e social-democracia. São Paulo, Companhia das Letras, 1989, p. 15.

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Barros e Jânio Quadros; de um general anódino, como Eurico Outra; de um udenista golpista, como Carlos Lacerda; e de uma figura ainda mal estudada, como Juscelino Kubitschek. Após 1964, o próprio general-presidente João Figueiredo igualmen- te entrou no rol, segundo algumas análises. Além do desconhe- cimento das peculiaridades e da anulação de historicidades, pro- jetos políticos que fincaram tradições políticas, e que ainda hoje se manifestam na sociedade brasileira, como o trabalhismo petebista e o liberalismo udenista, dissolvem-se e confundem-se em um mesmo rótulo: tratar-se-ia do "populismo". Em fins dos anos 70, um novo acontecimento impactante. No ABCD paulista, os operários patrocinaram grandes greves e questionaram o poder dos militares. Lula, bastante crítico, não poupou o passado. Entre diversas afirmações negativas sobre a política brasileira anterior a 1964, disse que a CLT era o AI-5 dos assalariados. A teoria do "populismo", assim, tomou novo fôlego. Agora, saudaram as esquerdas e diversos estudiosos, haveria operários conscientes de sua classe; agora, teríamos um "novo" sindicalismo, bem diferente do "velho"; agora, teriam surgido lideranças que, saídas da própria classe, fundaram um partido de trabalhadores e não para os trabalhadores. Não foi casual, assim, que por essa época muitos passassem a estudar o movimento operário na Primeira República, os anar- quistas em particular. Ambos, libertários no passado pré-1930 e operários do ABCD paulista pós-1978, surgiam como atores combativos, sem ilusões com as "ideologias dominantes" e, so- bretudo, imbuídos de práticas autonomistas. A História, por- tanto, teria retomado o seu rumo, desviada que fora até então pelos políticos populistas e sindicalistas pelegos. Entre 1930 e

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INTRODUÇÃO

1964, um interregno lastimável, os trabalhadores, sabe-se lá por quê, teriam sido seduzidos pelos trabalhistas, traidores por de- finição, e pelos comunistas, autoritários por profissão. Com o fim do regime militar, pensava-se, a política brasilei- ra finalmente entraria em outro patamar, mais elaborado. Afi- nal, o "populismo", ficara comprovado, teria entrado em co- lapso desde muito tempo. O autoritarismo de direita também se esgotara. Não mais haveria espaços para líderes salvacionistas, verborrágicos, manipuladores, demagógicos. O momento his- tórico seria o dos partidos, das instituições, das idéias políticas consistentes. A própria classe trabalhadora mais avançada do país, no ABCD paulista, recusando o passado "pelego-populista", dizia-se na época, surgiu no cenário nacional como sujeito polí- tico. Mas, para assombro daqueles preocupados com a questão democrática, eis que surge, vitorioso na primeira eleição presi- dencial com a redemocratização, um personagem sem partido, histriônico, autoritário, arrogante e manipulador de imagens, que se dirige não à classe trabalhadora ou à sociedade civil or- ganizada, mas, sim, ao que chamava de "minha gente". O choque, sem dúvida, não foi pequeno. Era preciso repen· sar a política brasileira, reavaliar as teorias e reler a bibliografia com outros olhos. Alguns insistiram em reafirmar a teoria do "populismo". Tratar-se-ia, agora, não de um período delimita- do e datado, mas, sim, de uma verdadeira maldição na política do país. As tradições teológicas, messiânicas, escravistas, da co· Ionização portuguesa, entre outras mazelas milenares, ter-nos- iam condenado, quase de maneira irreversível, a conviver com este tipo de gente. A prova maior seria que o neoliberalismo dos anos 90 não passaria, na verdade, de um "neopopulismo".

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A noção de "populismo" tornou-se tão elástica e, de certo modo, a-histórica, que passou a explicar tudo - e, como ocorre nesses casos, a explicar muito pouco. Outros intelectuais recusaram a maldição do "populismo" e procuraram alternativas. Muito contribuíram para isso as abor- dagens afinadas com a história cultural, com a nova história política e com a história social inglesa - E.P. Thompson em particular. Aos poucos, uma vertente da historiografia brasilei- ra, influenciada por reflexões revisionistas, recusou a imagem, tão solidificada, do "populismo na política brasileira". A história política brasileira entre 1945 e 1964 ainda está para ser construída. A sociologia, em um momento, e a ciência política, em outro, muito contribuíram para o avanço do co- nhecimento daquela temporalidade. Os historiadores, por sua vez, durante muito tempo alimentaram desconfianças em estu· dar períodos mais recentes. Atualmente, contudo, superando as suas próprias dificuldades, passaram a enfrentar, como muitos definem, a história do tempo presente. No entanto, o que te- mos sobre o período é uma história ainda a ser resgatada, con- tada e interpretada. Mesmo hoje, se retomarmos aquela per- gunta inconveniente - por que os trabalhadores apoiaram Vargas e, mais tarde, os trabalhistas? -, as respostas, muito possivelmente, se repetirão: manipulação política, propaganda estatal, doutrinação das mentes, consciências desviadas, con- trole operário, pelegos sindicais, camponeses que vestiram ma· cacão, demagogia populista, cegueira nacionalista dos comunis- tas, tradições messiânicas, resquícios sebastianistas e, até mes- mo, totalitarismo. Trata-se de explicações frágeis e de difícil sustentação teórica e empírica. Todas, no entanto, ajudam a

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INTRODUÇÃO

compor a expressão "populismo", que, como um "senso co- mum" gramsciano, continua a freqüentar o vocabulário políti- co brasileiro. Afinal, quem se desvia de um caminho previamen- te estabelecido como "não-populista" só pode ser, obviamente, um "populista". Esta coletânea tem objetivos diversos e plurais, embora obe- dientes a um eixo comum: discutir, criticamente, a noção de "populismo" como categoria explicativa. Assim, Angela de Cas- tro Gomes acompanha a trajetória do conceito na produção acadêmica da história e das ciências sociais no Brasil, identifi- cando as principais propostas elaboradas para conformar a ca- tegoria na experiência política brasileira, situando alguns con- textos, textos e autores, além de apontar questões centrais para um debate que se prolonga até hoje. Eu mesmo, em meu artigo, procuro demonstrar que a noção de "populismo" tem uma his- tória, e estabeleço os diversos momentos de sua formulação, bem como relaciono as condições de sua produção com a pró- pria história política do país, ressaltando, ainda, enfoques alter- nativos. Maria Helena Rolim Capelato, além de criticar as ge- neralizações que apontam para um "populismo na América La- tina", centra a discussão na validade do conceito de "populismo" pelos historiadores que, atualmente, se voltam para o estudo do peronismo e do cardenismo. Lucília de Almeida Neves, inter- pretando as propostas e a atuação do PTB entre 1945 e 1964, argumenta que o trabalhismo, ao longo dessa temporalidade, elaborou um programa de reformas sociais e um projeto de ci- dadania bastante específico, no qual se mesclaram elementos da social democracia e do assistencialismo estatal. Embora diversi- ficado e apropriado por organizações da sociedade civil, o

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trabalhismo orientou-se por um eixo, por uma estrutura dorsal nacionalista, distributivista e desenvolvimentista, permitindo a constituição de um projeto para o país, marcado por forte soli- dariedade social. As análises sobre o sindicalismo mereceram um destaque especial. Afinal, a imagem de trabalhadores destituídos de capa- cidade associativa, consciência e combatividade tornou-se um dos pilares de sustentação do assim chamado, pejorativamente, "sindicalismo populista" - ou "velho", como queiram. Desse modo, Francisco Teixeira da Silva e Hélio da Costa, em texto conjunto, e bastante instigante, analisam trabalhos relativamen- te recentes a partir de suas inflexões teórico-metodológicas, sis- tematizando criticamente as suas contribuições conceituais e empíricas, preocupando-se, ainda, com a história dos trabalha- dores e suas experiências vivenciadas nos seus próprios termos, ou seja, em sua cultura, expectativas e história, sem diluí-las em categorias apriorísticas e demiúrgicas. Igualmente preocupadas em criticar interpretações que insistem no caráter "desviante" do movimento sindical na experiência democrática de 1945 a 1964, Elina Pessanha e Regina Morei, também em texto con- junto, apresentam, em uma perspectiva comparativa, duas ex- periências sindicais representativas do sindicalismo no Rio de Janeiro: a dos trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacio- nal-CSN, então empresa estatal, e a dos operários navais de vá- rios estaleiros - públicos e privados - da Baía da Guanabara. Em oposição aos argumentos que atribuem uma excessiva politização das cúpulas sindicais no período, as autoras anali- sam, por um lado, a abrangência do trabalho político das lide- ranças em sua relação com as bases, e, por outro, a construção

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INTRODUÇÃO

de uma "cultura de direitos", configurando uma situação de cidadania até então sem precedentes na história do país. Por fim, Daniel Aarão Reis Filho defende que, no Brasil, o tra-

balhismo se afirmou como uma corrente autêntica do movimento das classes trabalhadoras, estabelecendo uma tradição, nomea- da pelo autor de nacional-estatismo. A derrota do projeto em 1964, no entanto, permitiu que sociólogos e as esquerdas, em busca de bodes expiatórios, formulassem a imagem do populismo

e seu colapso, embora, anos mais tarde, com o esgotamento do

regime militar, o trabalhismo ressurgisse em correntes diversas,

a exemplo do PDT e do próprio PT, com a retomada do progra-

ma nacional-estatista. Os propósitos da coletânea, portanto, são os de rever e ques-

tionar interpretações aceitas como consensuais, recusar e criti- car as ortodoxias, antigas ou mais recentes, alargar e aprofundar

a discussão sobre abordagens alternativas, conhecer e compre-

ender, sob outros enfoques, o passado recente deste país. En- fim, resgatar a história e debater a noção de "populismo na política brasileira", que, nesta coletânea, como diz Angela de Castro Gomes, passa de pedra a vidraça, embora saibamos que

o gato ainda tem muitas vidas a consumir.

Jorge Ferreira

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O populismo e as ciências sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito*

Angela de Castro Gomes

sobre a trajetória de um conceito* Angela de Castro Gomes *Este texto foi apresentado no XI

*Este texto foi apresentado no XI Congresso Internacional da Associação de Historiadores Latino-americanistas Europeus (AHILA), realizado na Univer- sidade de Liverpool de 17 a 22 de setembro de 1996, e posteriormente publi- cado em Tempo. Revista do Departamento de História da Universidade Fede- ral Fluminense, vol. 1, nº 2. RJ, Relume-Dumará, 1996.

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UM CONCEITO, MUITAS HISTÓRIAS

Não importa qual seja a escolha realizada; escrever sobre o populismo no Brasil será sempre um risco. Por incompletude ou por "má" compreensão, por adesão ou por rejeição, o texto

será alvo fácil para críticas de todas as espécies. Neste sentido, o destino de qualquer reflexão que trate do tema reproduz, em

certa medida, o

Consciente, portanto, de tais percalços, devo esclarecer que este trabalho assume uma abordagem historiográfica para en- frentar o "tema" do populismo. Trata-se de acompanhar a traje- tória de um conceito na produção acadêmica da história e das ciências sociais no Brasil, tendo por base um período aproxima- do que decorre de meados dos anos 50 até os dias atuais. Tal desejo já é por si só ambicioso e exige uma estratégia altamente seletiva de operacionalização. Portanto, não se pretende, de nenhuma forma, nem discutir a questão dos significados do con- ceito em outras experiências históricas (como a russa ou a nor-

próprio destino de seu objeto de estudo. 1

1 Mas, assumindo todas as responsabilidades, desejo agradecer os comentári- os do colega Daniel Aarão Reis Filho a uma versão preliminar deste texto.

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te-americana), nem estender as observações aqui formuladas a outras vivências latino-americanas, e nem mesmo tentar esgotar 0 debate sobre o tema em nosso país. O objetivo deste texto é procurar identificar e delinear as principais propostas elabora- das para conformar a categoria na experiência brasileira, situ- ando tão-somente alguns contextos, autores e textos. Desta for- ma, seria possível sistematizar os rumos de uma formulação, ainda que com muitas ausências, localizando, de maneira esquemática, argumentos e questões centrais de um debate que se prolonga até hoje. De início, convém observar que se trata de um conceito com um dos mais altos graus de compartilhamento, plasticidade e solidificação, não apenas no espaço acadêmico da história e das ciências sociais, como transcendendo este espaço e marcando o que poderia ser chamado uma cultura política nacional. Ou seja, o exame da categoria exige o reconhecimento da ocorrência de seu deslizamento de uma retórica sociológica erudita para uma retórica política popular, presente nos meios de comunicação de massa e no senso comum da população. Valorar este fato é importante, porque ele pode ajudar a esclarecer alguns aparentes paradoxos. Se o conceito ainda vem sendo utilizado e defendido na academia como de valor, vem igualmente sendo sistemática e fortemente criticado, e mesmo abandonado, por integrantes da mesma academia. Tal debate, que se realiza mais de uma década, pelo menos, evidencia tanto as variações de sentido do conceito quanto seus graus de resistência e virtualidade. Contudo, este nível de questionamento parece não afetar em praticamente nada a aceitabilidade e trânsito do mesmo con-

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ceito no uso corrente da sociedade, pois aí ele tem um significa- do preciso e incorporado à memória coletiva daqueles que, em graus variados, têm participação política: o de estigmatizador de políticos e da política em nosso país. São populistas os polí- ticos que enganam o povo com promessas nunca cumpridas ou, pior ainda, os que articulam retórica fácil com falta de caráter em nome de interesses pessoais. É o populismo, afinal, que de- monstra como "o povo não sabe votar" ou, em versão mais otimista, "ainda não aprendeu a votar". Daí decorre uma série de desdobramentos lamentáveis que, no limite e paradoxalmente, podem justificar a supressão do voto em nome da "boa políti- ca". Desta forma, o princípio da classificação, que identifica a categoria na experiência brasileira, acabou por ser associado a um critério de valor que hierarquiza e condena in totum o populismo e tudo que ele possa adjetivar. 2 Naturalmente, este texto não pretende investigar a mecâni- ca do deslocamento antes referido, o que remeteria a reflexão ao interessante e difícil terreno da transformação das idéias políticas em elementos integrantes do vocabulário da cultura política de um país, numa certa época. Mas, é o que se deseja ressaltar, seria impossível pensar, mesmo que simplificadamente, a trajetória acadêmica do conceito ignorando sua apropriação mais ampla, já que ela mesma passa a atuar como força de pres- são e conformação dos debates que se desenvolvem sobre sua utilização de uma forma abrangente.

sobre sua utilização de uma forma abrangente. 2 Luís Fernando Dias Duarte. "Classificação e

2 Luís Fernando Dias Duarte. "Classificação e valor na reflexão sobre identi-

dade social", em Ruth Cardoso (org.), A aventura antropológica: teoria e pes-

quisa, 2ª ed. Rio de janeiro, Paz e Terra, 1988.

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O CONTEXTO DAS PRIMEIRAS FORMULAÇÕES

Reservas feitas à fluidez de toda tentativa de periodização, a escolha do marco inicial deste texto recaiu em meados da déca- da de 50, quando a academia vivia a juventude de seus vinte e poucos anos e era muito recente o interesse dos cientistas soci- ais em construir análises sobre a estrutura do poder nacional. Podemos simbolicamente assinalar, como ponto de partida des- te processo, as reuniões periódicas realizadas, a partir de agosto de 195]., por um grupo de intelectuais, visando discutir os pro- blemas políticos, econômicos e sociais relacionados ao desen- volvimento do país. Como tais reuniões, patrocinadas pelo Mi- nistério da Agricultura, ocorriam em Itatiaia - a meio caminho do Rio e São Paulo -, o grupo ficou conhecido como Grupo de Itatiaia. 3 São eles que, já em 1953, criam o Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP ) e, no mesmo ano, co- meçam a publicar os Cadernos do nosso tempo. 4 Esta publica- ção seria considerada o berço da ideologia nacional-desenvol- vimentista que cresceria no decorrer da década, sendo o IBESP

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-,

que cresceria no decorrer da década, sendo o IBESP --- -, 3 Participam do grupo e

3 Participam do grupo e colaboram em sua publicação, dentre outros, nomes como os de Alberto Guerreiro Ramos, Cândido Mendes de Almeida, Hermes Lima, lgnácio Rangel, João Paulo de Almeida Magalhães e, com destaque para esta reflexão, Hélio jaguaribe. 4 0 ano de 1953 é pleno de eventos significativos na história política brasilei- ra. É o ano da campanha do "Petróleo é nosso", da grande greve que mobili- zou a cidade de São Paulo e da reforma ministerial do governo Vargas, por exemplo. Não é casual o boom ocorrido na área da reflexão social na segunda metade da década, aquela dos anos JK.

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o núcleo básico para a organização do Instituto Superior de

Estudos

Brasileiros, o ISEB. 5

Este seleto grupo intelectual tinha como objetivo mais ime- diato formular uma interpretação para a crise nacional em cur- so, interpretação que pretendia esclarecer e mobilizar as forças progressistas do país, tendo em vista o desencadeamento de um movimento amplo em prol de reformas de base. A atuação des-

tes intelectuais aposta, portanto, no E~E~! de uma vanguarda esclarecida que, produzindo uma nova visão de mundo, abaste- ceria projetos políticos capazes de solucionar problemas estra- tégicos por eles identificados e equacionados. Um dentre os principais problemas divisados na agenda do grupo é o do surgimento do populismo na política brasileira. Ele pode ser sugestivamente exemplificado, neste texto, por um pequeno ensaio intitulado: "Que é o ademarismo?". Publicado durante o primeiro semestre do ano de 1954, antes portanto do suicídio do presidente Vargas, o artigo tem como preocupação e móvel imediato a projeção do político paulista Adhemar de Barros como candidato à sucessão presidencial de 1955. Sem autor identificado, o ensaio considera imperativo responder à pergunta-título, de forma a situar precisamente a que tipo de manifestação política se está assistindo.

a que tipo de manifestação política se está assistindo. 5 0 IBESP, recém-formado, conveniou-se com a

5 0 IBESP, recém-formado, conveniou-se com a CAPES, liderada por Anísio Teixeira, para realizar um seminário sobre os problemas brasileiros. Esta é a origem do processo de transformação do IBESP em ISEB, ambos responsá- veis por estudos que seguiam, no fundamental, as formulações da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL). Simon Schwartzman (seleção e

introdução). O pensamento nacionalista e os "Cadernos de nosso tempo".

Brasília, UnB, 1981.

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De maneira breve, descarta-se a identificação do ademarismo com uma expressão da política de clientela, embora ele também se beneficie de práticas clientelísticas. Neste sentido, ainda que disponha de um partido, o Partido Social Progressista (PSP), sua influência, especialmente sobre o eleitorado de base rural, é de ordem pessoal. Assim, é o líder que dá substância ao partido, e não a máquina eleitoral que sustenta o líder, como acontece- ria no caso dos políticos do Partido Social Democrático (PSD). Por outro lado, também não se trata de um fenômeno típico de política ideológica, embora o líder paulista exerça um certo apelo difuso desta natureza em relação a seu eleitorado urbano, reco- nhecido como amplo e diversificado. A classificação que lhe convém e que o artigo frisa como freqüentemente utilizada na linguagem corrente é a de po- pulismo. O que se ressalta logo a seguir, porém, é a ausência de esforços para a conceituação deste fenômeno nas condições bra- sileiras e a necessidade de empreender tal tarefa. 6 De uma for- ma bem esquemática, pode-se dizer que o ensaio aponta duas condições fundamentais para a emergência/caracterização do populismo. Atuando como variáveis histórico-sociais, elas terão longa carreira em inúmeras formulações posteriores, integran- do-se ao esforço coletivo empreendido no campo das ciências sociais. Em primeiro lugar, o populismo é uma política de massas, vale dizer, é um fenômeno vinculado à proletarização dos tra- balhadores na sociedade complexa moderna, sendo indicativo de que tais trabalhadores não adquiriram consciência e senti-

6 Ver "Que é o ademarismo?", em Simon Schwartzman, op. cit., pp. 23-30.

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mento de classe: não estão organizados e participando da polí- tica como classe. As massas, interpeladas pelo populismo, são orÍginária~do proletariado, mas dele se distinguem por sua in- consciência das relações de espoliação sob as quais vivem. Só a superação desta condição de massificação permitiria a liberta- ção do populismo ou, o que seria quase o mesmo, a aquisição da verdadeira consciência de classe. A influência marxista é apon- tada então como perniciosa, por associar, de forma rápida e descuidada, fenômenos populares a fenômenos progressistas de esquerda, sem atentar para o caráter reacionário de manifesta- ções políticas como o populismo. ·Em segundo lugar, o populismo está igualmente associado a uma certa conformação da classe dirigente, que perdeu sua representatividade e poder de exemplaridade, deixando de cri- ar os valores e os estilos de vida orientadores de toda a socieda- d~. Em crise e sem condições de dirigir com segurança o Esta- do, a classe dominante precisa conquistar o apoio político das massas emergentes. Finalmente, satisfeitas estas duas condições mais amplas, é preciso um terceiro e~emento para completar o ciclo: o surgimento do líder populista, do homem carregado de carisma, capaz de mobilizar as massas e empolgar o poder. É da combinação dinâmica destas condições que uma certa configuração política pode ou não se desenhar, sendo a razão pela qual o Brasil assistiu e poderia ainda assistir, segundo pro- jeções do ensaio, a bem-sucedidas manifestações populistas. O que importa aqui destacar é a seleção de variáveis históri- co-sociológicas efetuada para a construção do modelo, bem como o perfil dos atores que o integram: um proletariado sem consciência de classe; uma classe dirigente em crise de

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hegemonia; e um líder carismático, cujo apelo subordina insti- tuições (como o partido, embora com ele conviva) e transcende fronteiras sociais (de classe e entre os meios urbano/rural). O ademarismo, em meados dos anos 50, e o janismo, mais para o final da mesma década,7 atualizariam questões que o getu- lismo já delineara desde os anos 40, impondo às ciências sociais brasileiras um campo de reflexão tanto mais significativo quan- to igualmente compartilhado por outras comunidades intelec- tuais latino-americanas. Pode-se dizer, assim, que a questão do populismo não mais abandonaria o horizonte das formulações deste campo de estudos, sendo possível entender por que os cientistas sociais paulistas foram particularmente sensíveis às análises deste fenômeno político, que se manifestava de forma expressiva nos momentos de competição eleitoral no estado e na capital. 8 Uma forma simples e ilustrativa de acompanhar o fluxo das reflexões realizadas é traçar brevemente a trajetória de H_~.li? Jaguaribe, um dos sociólogos de maior destaque no Grupo de Itatiaia: Como os demais colaboradores dos Cadernos do nosso tempo, Jaguaribe está concentrado no esforço de compreensão da crise dos anos 50, solidamente dramatizada pelo suicídio de Vargas e pelos episódios acontecidos durante a tentativa de impe-

pelos episódios acontecidos durante a tentativa de impe- 7Vale observar que, também em meados dos 50,

7Vale observar que, também em meados dos 50, começam a surgir estudos de sociologia eleitoral, como o artigo de Azis Simão, "O voto operário em São

Paulo", Anais do 1 Congresso Brasileiro de Sociologia, São Paulo, 1955.

8 Além das figuras referenciais de Florestan Fernandes e Azis Simão, grandes lideranças nos estudos sobre a questão racial e a questão da participação po· lítica dos trabalhadores, este grupo de cientistas sociais será integrado por nomes que se tornarão obrigatórios, até hoje, nestas áreas de investig~ão.

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dir, em novembro de 1955, a posse do presidente eleito, Jusceli- no Kubitschek de Oliveira. Neste contexto, as formulações sobre o fenômeno populista estão imersas na temática mais abrangente do nacional-desenvolvimentismo, sendo ele entendido como uma manifestação da transição dos países latino-americanos de uma fase de economia dependente de base agrário-exportadora para uma fase moderna de expansão urbano-industrial, em que a exis- tência das massas é uma das características. Dos anos 40 aos 60, portanto, o populismo teria como que duas faces absolutamente indissolúveis. A econômica, traduzida pelo processo de industrialização em curso, reconhecido como exitoso, no país; e a política, mais complexa e ambígua em ter- mos de diagnósticos, materializada pela experiência de democra- cia (relativa, porém ímpar), exemplificada pelos anos JK. Os inícios da década de 60, com a emergência da figura do presi- dente João Goulart, o herdeiro de Vargas, e de seus competido- res, Leonel Brizola e Miguel Arraes em particular, elevam o tom do debate, que, como todos os demais, sofrerá o impacto do movimento militar de 1964. O fenômeno do populismo passa então a integrar, com des- taque, a nova agenda de investigações que visava responder a uma grande e crucial questão: quais foram as razões do golpe? É neste contexto intelectual e político que uma associação fun- damental é traçada: as causas do golpe deitariam raízes no esgo- tamento da experiência'populista, que passa a possuir uma cla- ra periodização. Ela tem início em 1930, quando eclode o mo- vimento militar liderado por Vargas, e se conclui em 1964, quan- do do movimento militar que depõe João Goulart. Desta for- ma, tanto o tema quanto o período se transformam num impe-

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rativo de pesquisa na área das ciências sociais. De 30 a 64 vive- se 0 "ciclo populista", e este adjetivo passa a se estender a dife- rentes substantivos. Muitos intelectuais trabalharão nesta área. Alguns, como Jaguaribe, continuando uma reflexão que mantém laços de con- tinuidade compreensíveis com o que já vinha sendo produzido. Ele se destaca, por exemplo, ao integrar um importante volume, organizado para circulação internacional por Celso Furtado, a convite de Jean-Paul Sartre, em 1968, e que seria publicado pos- teriormente em português com o título: Brasil: tempos moder- nos.9 A partir desta data, e com o endurecimento trazido pelo AI- 5, o curso dos acontecimentos políticos recebe um novo impac- to, para só tornar a sofrer uma inflexão quando da posse do pre- sidente Geisel, em 1974. Jaguaribe estará lançando, neste mesmo ano, Brasil: crise ealternativas, 10 com toda a primeira parte desti- nada a um balanço sobre a natureza e a crise do populismo brasi- leiro. Escrito como uma conferência, pronunciada em 1973 no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), vinculado às Faculdades Cândido Mendes, o texto aponta a pre- ocupação do autor não mais com as origens do regime militar, mas com seu futuro, que assinala movimentos de flexibilização.

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0 livro é da editora Paz e Terra, no Rio de Janeiro, e o artigo de Jaguaribe é "Brasil: estabilidade social pelo colonial-fascismo?", pp. 49-76. Participam da publicação, além de Celso Furtado, José Leite Lopes, Antonio Callado, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e também Francisco Weffort. 1 º0 livro foi publicado pela Zahar, no Rio de Janeiro, na coleção Biblioteca de Ciências Sociais. Esta editora, assim como a Paz e Terra, tem papel signifi- cativo na divulgação de pesquisas na área das ciências humanas durante o regime militar.

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Em São Paulo, ao longo deste período, um grande grupo se formara, reunindo sociólogos, cientistas políticos, economistas e historiadores, como Juarez Brandão Lopes, José Albertino Rodrigues, Leôncio Martins Rodrigues, Emir Sader, Francisco de Oliveira, Boris Fausto e José Álvaro Moisés, dentre outros. Devido aos limites e objetivos deste texto, é impossível apre- sentar contribuições tão numerosas e significativas. A intenção é tão-somente registrar a importância de autores e de um pen- samento político que percorre um longo período, tendo influên- cias na montagem da reflexão que se estrutura e dissemina a partir de meados dos anos 60. Talvez se possa dizer que só en- tão o populismo encontra, em um integrante do grupo citado, seu mais importante teórico no Brasil: o professor de ciência política da Universidade de São Paulo (USP), Francisco Weffort. Por esta razão, torna-se necessária uma incursão especial a suas formulações.

O POPULISMO NA POLÍTICA BRASILEIRA: SINDICATO E ESTADO

Os trabalhos de Weffort são numerosos, e mais uma vez este texto precisa recorrer a uma estratégia de escolhas para análise, a despeito de haver uma grande harmonia perpassando toda a reflexão do autor ao longo do tempo. De certa forma, pode-se assinalar em "Raízes sociais do populismo em São Paulo", pu-

blicado em 1965 pela Revista Civilização Brasileira de Ênio da

Silveira, um artigo de referência inaugural. Em 1967, seguem- se dois outros artigos importantes: "Estado e _massas no Brasil",

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também na revista citada, 11 e "O populismo na política brasilei- ra". Este último foi escrito para compor o número especial da revista francesa dirigida por Jean-Paul Sartre, Les temps modernes, organizado por Celso Furtado. Seria, contudo, di- vulgado no Brasil em duas oportunidades relevantes: ao inte- grar a coletânea, já mencionada, que traduz o número da revis- ta francesa e tem como título Brasil: tempos modernos, e ao compor o livro que reúne a produção de Weffort, em 1978, e que sugestivamente toma o nome deste artigo. 12 Por ser um tex- to emblemático e por ter circulado nacional e internacional- mente, foi selecionado como base para a análise da montagem da proposta interpretativa de Weffort. Além da produção mencionada, o autor marcou presença com sua tese de doutorado, de 1968, apresentada à USP e in- corporada, com revisões, ao seu livro de 1978; com dois im- portantes artigos, a saber, "Participação e conflito industrial:

Contagem e Osasco, 1968", Cadernos CEBRAP, nº 5, 1972, e

e Osasco, 1968", Cadernos CEBRAP, nº 5, 1972, e 1 1 É importante destacar sempre a

11 É importante destacar sempre a importância de Ênio da Silveira, falecido em 1995, e da Civilização Brasileira para a divulgação do pensamento políti- co brasileiro durante o período mais duro do regime militar. Como as duas editoras já citadas, outros lugares de sociabilidade intelectual serão pontos de referência neste contexto: o IUPERJ, no Rio de Janeiro, ligado às Faculda- des Cândido Mendes; o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP); e o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC), ambos em São Paulo, sendo o último vinculado a Weffort, nos anos 70/80. 1 2Brasil: tempos modernos tem uma segunda edição de 1977, da Paz e Terra no Rio de Janeiro. O populismo na política brasileira é de 1978 e também da Paz e Terra. Estes dois últimos volumes, com os quais estou trabalhando, integram a Coleção de Estudos Brasileiros da editora, cujo Conselho Editori- al era composto por Antônio Cândido, Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso.

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"Origens do sindicalismo populista no Brasil (a conjuntura do pós-guerra)", Estudos CEBRAP, n. 4, 1973; 13 e com um longo texto, publicado em três partes, em 1978/9, pela revista do CEDEC. 14 Convém inicialmente situar que toda esta produção foi rea- lizada num contexto de crise no pensamento das ciências soci- ais brasileiras, marcada pela necessidade imperiosa de explicar o golpe de 1964 e de, para fazê-lo, revisar as interpretações até então compartilhadas e utilizadas como guias de formulação política. Neste sentido, pode-se entender não só a reação a um paradigma analítico que recorria a causas de teor estrutural (só- cio-econômicas, com destaque), como igualmente a opção por uma abordagem que privilegiará os atores políticos e que os colocará, inclusive, como alvo de críticas por escolhas realiza- das em momentos estratégicos para o curso da história do Bra- sil. Daí o tom combativo de vários textos, os debates que susci- tam e a emergência da "burguesia nacional" e do movimento sindical, não mais em uma confortável posição de promotores do desenvolvimento do país. Daí também a centralidade do ator

do país. Daí também a centralidade do ator llEste artigo suscita um debate, que se torna

llEste artigo suscita um debate, que se torna famoso na época, com Maria Hermínia Tavares de Almeida e Carlos Estevam Martins, e que envolve tanto uma dimensão acadêmica quanto uma dimensão militante de crítica e defesa das posições da liderança do Partido Comunista, que transcendia ao período em foco na análise: a conjuntura da redemocratização. Sobre o debate, ver Luiz Werneck Vianna, "Estudos sobre sindicalismo e movimento operário:

resenha de algumas tendências", Boletim Informativo e Bibliográfico de Ciên··

cias Sociais, Rio de Janeiro, nº 3, 1978. 14 "Democracia e movimento operário: algumas questões para a história do período 1945-1964'', Revista de cultura contemporânea, Ano 1, nº' 1 e 2; Revista de cultura política, Ano 1, nº 1, São Paulo, CEDEC, 1978/9.

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Estado e, sem dúvida, do tema do populismo, articulador por excelência desta tríade fundamental. Para Weffort, simplificando muito, pode-se dizer que o populismo é o produto de um longo processo de transformação da sociedade brasileira, instaurado a partir da Revolução de 1930, e que se manifesta de uma dupla forma: como estilo de governo e como política de massas. Assumindo uma nítida perspectiva histórica, sua análise incidirá na construção de dois tempos para a investigação do referido processo. O tempo das "origens" do populismo, que o remeterá para um estudo da natureza da Revolução de 30 e dos confrontos políticos que dela se desdobraram; e o tempo da república populista de 1945-1964, com a experimentação da liberal-democracia. No que se refere às origens, trata-se de assi- nalar a crise do liberalismo oligárquico brasileiro e a necessida- de do alargamento institucional das bases sociais de poder do Estado. Isto não significava, contudo, entender o evento de 1930 como uma revolução burguesa, mas justamente precisá-la como uma transformação ainda encabeçada por forças oligárquicas, capazes de tecer variadas alianças políticas. 15 Dentre estas, figu- ram aproximações tanto com setores industriais econômica e politicamente pouco articulados, quanto com as chamadas clas- ses médias urbanas e também com as classes populares emer- gentes.

urbanas e também com as classes populares emer- gentes. 1 5 É bom assinalar que data

15 É bom assinalar que data de 1970 a primeira edição do hoje clássico livro de

Boris Fausto, A Revolução de 1930: historiografia e história, São Paulo,

Brasiliense. O consultor editorial de sociologia e história desta editora era o professor da USP, Leôncio Martins Rodrigues.

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Ou seja, o quadro analítico construído aponta para a insta- bilidade política do novo equilíbrio de poder, expressa quer na debilidade das "velhas" oligarquias rurais, quer na fraqueza das oligarquias "alternativas" e dos novos segmentos do em- presariado urbano. É esta instabilidade que funciona como start para uma aproximação com as classes populares, percebidas e temidas pelos grupos dirigentes, mas sem condições orga- nizacionais e ideológicas de pressionar por uma participação mais efetiva e autônoma. Numa perspectiva teórica de sabor gramsciano, o autor pro- porá o conceito, que terá largo trânsito, de Estado de compro- misso, que é também um Estado de massas. Ou seja, a idéia do compromisso remeteria a duas frentes que estabeleceriam, ao mesmo tempo, seus limites e potencialidades. Um compromisso junto aos grupos dominantes, consagrando um equilíbrio instá- vel e abrindo espaço para a emergência do poder pessoal do líder, que passa a se confundir com o Estado como instituição;

e um compromisso entre o Estado/Príncipe e as classes popula-

res, que passam a integrar, de forma subordinada, o cenário político nacional. Estilo de governo e política de massas inte- grando o núcleo do que seria o populismo da política brasileira. Nesta formulação, fica muito claro que o compromisso/apelo às massas - segmentos urbanos em geral - é um recurso para encontrar suporte e legitimidade em situação de crise de insta- bilidade, de incerteza política. Por isso, a categoria-chave para

descrever a relação que se estabelece entre líder e massas é a de "manipulação populista", remetendo à idéia básica de controle

e tutela do Estado, mas assumindo certas especificidades que

exigem exame mais cuidadoso. Em primeiro lugar, pode-se di-

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zer que Weffort rejeita a formulação presente no ensaio dos anos 50 sobre o ademarismo, anteriormente mencionado, que entende o populismo como um fruto do processo de "mas- sificação", segundo modelo europeu. Isto é, um processo sócio- econômico que atomizou e enfraqueceu os vínculos de solidari- edade da classe trabalhadora, despolitizando-a; esvaziando-a de sua força original. A categoria "manipulação" é proposta, portanto, não de forma unidirecional, mas como possuidora de uma intrínseca ambigüidade, por ser tanto uma forma de controle do Estado

capacidade de impulsão própria por não estar organizado como classe. As massas ou os setores populares, não sendo concebidos como atores/sujeito nesta relação política, mas sim como desti- natários/objeto a que se remetem as formulações e políticas populistas, só poderiam mesmo ser manipulados ou cooptados (caso das lideranças), o que significa precipuamente, senão lite- ralmente, enganados ou ao menos desviados de uma opção cons- ciente. Neste sentido, se o paradigma de classe operária europeu (e outros) foi questionado, demandando-se uma ótica singular para

sobre as massas quanto uma forma de atendimento de suas reais

a

realidade brasileira, isso se deu para reforçar uma visão de que

demandas. Embora seja enfatizada a dimensão do "masca-

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que existe entre nós são massas - por definição, desorganiza-

ramento" existente neste atendimento, já que os trabalhadores brasileiros eram fracos numérica e politicamente, não dispondo de tradições de luta como os europeus, o impacto da política populista é aqui vivenciado de maneira distinta (como acesso à participação política e social), e precisaria ser analisado a partir desta perspectiva. É interessante observar que Weffort chega mesmo a sugerir a substituição de "manipulação" por "aliança" como categoria mais precisa para o que deseja situar. Contudo, não há investimento nesta modulação, nem por parte do autor, nem por parte de muitos outros que seguem suas pegadas. Os motivos que iluminam a consagração da versão do populismo como política de manipulação de massas repõem a relação entre Estado e classes populares no centro das observa- ções. É evidente, no caso, o reconhecimento da assimetria de poderes entre estes termos. Mas mais do que isto. Há o dese- nho de uma relação em que um dos termos é concebido como forte e ativo, enquanto o outro é fraco e passivo, não possuindo

das e inconscientes -, alvo privilegiado, portanto, da política de manipulação do Estado: do populismo. Quando o autor des- taca a importância de se saber até que ponto os "interesses reais das classes populares foram efetivamente atendidos", ou até que ponto elas funcionaram apenas como massas de manobra, pode- se sentir toda a tensão presente em sua formulação. No caso, a resposta encaminha uma espécie de "evolução" do populismo, já que se estabelece uma relação "originária" de dependência que poderia ser minimizada com o tempo, pois implicaria ambi- güidade no reconhecimento da própria cidadania das massas, consagrada por uma série de direitos legais. residiria o nú- cleo da questão histórica da incorporação das massas à vida eco- nômica e política do país e da possibilidade de, a despeito da manipulação, o processo ter sido vivenciado como positivo, especialmente durante os anos 50, a década de ouro do popu- lismo. Esta formulação é particularmente estratégica, pois permite

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tanto uma interpretação para os acontecimentos de 1964 quan- to uma leitura para o período inaugurado com a Constituição de 1946 e assinalado pelas limitadas transformações então implementadas. Em relação ao primeiro ponto, a crise dos anos 60 é situada como uma crise da manipulação populista.

Com efeito, a manipulação das massas entrou em crise, isto é, abriu a porta a uma verdadeira mobilização política popular, exatamente quando a economia urbano-industrial começava a esgotar sua capacidade de absorção de novos migrantes e quando se restringiram as margens de redistributivismo econômico. 16

Um atento exame deste pequeno trecho pode ressaltar, de um lado, o estreito vínculo estabelecido entre o esgotamento do modelo econômico de substituição de importações - das virtualidades do desenvolvimento industrial empreendido des- de 1930 -, e o esgotamento do regime político que estaria dominado pelo dilema da realização das reformas de base ou do que se chamava o aprofundamento e internacionalização da in- dustrialização.17 De outro lado, e mais significativo para esta análise, a interpretação é a de que se exauriram as condições históricas que permitiam o funcionamento da manipulação populista - da incorporação tutelada das massas-, chegando- se ao momento em que estas ganhavam autonomia, transfor-

se ao momento em que estas ganhavam autonomia, transfor- 1 6 Francisco Weffort. O populismo na

16 Francisco Weffort. O populismo na política brasileira, op. cit., p. 70.

17 Esta interpretação, muito compartilhada nos 60 e 70, vincula-se às análises desenvolvidas por Celso Furtado, sendo um bom exemplo o artigo "Obstácu- los políticos ao crescimento económico do Brasil", Revista Civilização Brasi- leira, nº 1, Rio de Janeiro, 1965.

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mando-se finalmente em sujeitos políticos. Ou seja, a depen- dência originária estaria sendo rompida, e o anacronismo ven- cido, o que teoricamente apontaria para uma situação favorável ao desenvolvimento de uma democracia não mais limitada, de uma democracia não mais populista. Contudo, e este é o paradoxo que análises posteriores irão apontar, 18 são exatamente as condições tidas como próprias à democracia (industrialização, urbanização, informação e mo- bilização) que vão inviabilizá-la no Brasil de meados dos anos 60. Nestes termos, e em uma leitura sem dúvida perversa, o populismo não limitou nossa experiência democrática, antes a possibilitou. Ora, é preciso deixar claro que este tipo de pers- pectiva não estava nos horizontes das formulações intelectuais dos anos 50, marcadas pelo otimismo do crescimento econômi- co e da participação política popular, inclusive por via eleitoral, embora igualmente atentas à ascensão de novas lideranças populistas. A questão, voltando mais estritamente ao pensamento de Weffort mas não ficando a ele reduzida, era a do diagnóstico da incompatibilidade entre transformações econômicas e mobilização social, de um lado, e manutenção institucional da democracia, de outro. Esta tensão, representada como imanejável politicamente, só permitiria alternativas radicais, quer pela rea- lização "na marra" das reformas, quer por sua supressão, bem

marra" das reformas, quer por sua supressão, bem 1 8 Estou utilizando uma série de textos

18 Estou utilizando uma série de textos para tecer estes comentários, mas gosta- ria de destacar entre eles o livro de A. Rouquié, B. Lamounier e J. Scharzer, (orgs.), Como renascem as democracias, Rio de Janeiro, Brasiliense, 1985 e, nele, os artigos de Bolivar Lamounier e Maria do Carmo Campello de Souza.

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como a da mobilização popular. Sustenta-se, assim, o esgota- mento completo do regime populista, que foi uma democracia incompleta e não uma democracia parlamentar plena, na qual

tristemente

Por conseguinte, e mais uma vez de forma paradoxal, a aná- lise desta experiência tornava-se fundamental para pensar os rumos de uma luta pela redemocratização. O período do pós- 45 seria extremamente valorizado, e nele as atenções se con- centrariam nas relações entre Estado e movimento operário/ sindical, base da manipulação populista. De forma muito breve, o que se fará é elencar alguns pontos marcantes para o delineamento desta análise. A centralidade da conjuntura da redemocratização de 1945 é um deles. Momento privilegiado, verdadeira "encruzilhada na história", ele marca- ria um reforço da estratégia populista e do papel desordenador do Estado em face do movimento operário. Mas isto não ocor- reria, a despeito das lideranças deste movimento, em especial

não pôde se transformar. 19

movimento, em especial não pôde se transformar. 1 9 1 9 Allálises já de meados dos

1 9 Allálises já de meados dos anos 80 ressaltam como tal interpretação limita escolhas políticas e atribui a wna natureza sócio-econômica inevitável o curso do processo examinado. Ou seja, as questões são situadas como imanejáveis pelos atores, não havendo possibilidade de adaptação do regime político e de execução de qualquer proposta intermediária. O que se discute hoje é muito menos a radicalidade e determinação dos eventos sócio-econômicos e muito mais que sua representação como imanejável no quadro institucional da época conduziu à impossibilidade de sustentação da democracia. Sobre o tema, ver

Wanderley Guilherme dos Santos, Sessenta e quatro: anatomia da crise, São

Paulo, Vértice, 1986; Argelina Figueiredo, Democracia ou reformas? Alternati-

vas democráticas à crise política, São Paulo, Paz e Terra, 1993, e Allgela de

Castro Gomes, "Trabalhismo e democracia: o PTB sem Vargas", em Allgela C. Gomes (org.), Vargas e a crise dos anos 50. Rio de janeiro, Relwne Dwnará/

FGV, 1994.

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daquelas ligadas ao Partido Comunista, que optaram por uma aliança com Vargas, abrindo caminho para os desdobramentos políticos posteriores. Vale a citação:

"Pretendo sugerir que se a análise histórica do período anteri- or a 45 explica a ruptura existente no movimento operário e a perda de suas tradições, nem por isso se encontrava predeter- minado no após-guerra o rumo que o movimento operário de- veria seguir. São as orientações vigentes em 1945-46, retoma- das e afirmadas em 1950/4, que darão ao movimento operário as características que veio a possuir até 1964 como dependên-

cia do regime populista

brasileiro." 2 º

O fim do Estado Novo emerge como um novo momento original do pacto populista, desta feita retirando de Vargas o monopólio da manipulação e atribuindo às lideranças politi- camente engajadas uma especial responsabilidade pelos ru- mos do regime. Esta responsabilidade é tanto mais visível quanto reiterada em 1950/4, quando Vargas retorna ao po- der e finalmente comete suicídio. Há uma efetiva perio- dização, elaborada a partir da dinâmica política estabelecida entre Estado e movimento operário/sindical, onde os anos 50 se destacam por serem o momento de maior intensifica- ção das pressões populares. O crescente enfrentamento que vinha -ocorrendo entre as forças que sustentavam o pacto populista eclode quando o movimento popular assume for-

populista eclode quando o movimento popular assume for- 2°Francisco Weffort, "Origens do sindicalismo populista

2°Francisco Weffort, "Origens do sindicalismo populista no Brasil (a conjun- tura do pós-guerra)", Estudos CEBRAP, 4, São Paulo, 1973, p. 71. Em 1978/9, Weffort dá continuidade a esta análise no CEDEC.

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mas novas e mais autônomas, materializadas especialmente pelos trabalhadores rurais. O governo de Jânio Quadros, um líder populista de feição distinta, e o governo de João Goulart, o herdeiro de Vargas, encerram o longo ciclo inaugurado em 30. É emblemático que tenha sido este último o político identificado pela ruptura do pacto. O momento simbólico assinalado é o do abandono do Plano Trienal, em meados de 1963, com as saídas de Celso Fur- tado e Santiago Dantas de seus postos governamentais. Como o caminho escolhido foi o das reformas radicais, já que a premis- sa era a da impossibilidade de soluções negociadas, o movimen- to militar de março de 1964 acabou por sepultar a república inaugurada em 1945. Em fins dos anos 70 e inícios dos 80, este é um debate pre- sente e marcante nas ciências sociais brasileiras. Além do impor- tante texto de Weffort, publicado em três partes na revista do CEDEC e já citado, pelo menos uma outra contribuição pode ser mencionada, pelo caráter de revisão do tema que assume. Trata-se do artigo de Regis de Castro Andrade, "Perspectivas no estudo do populismo brasileiro", 21 que procura fazer uma dis- cussão conceituai e defender uma interpretação que se distanci- aria daquelas que enfatizam a dimensão das alianças políticas tecidas pelo populismo. Neste sentido, sem reduzir a questão política à economia, importava não exagerar a independência da política, o que suscitava a idéia de um Estado tutelar, repre- sentante de uma "diversidade nacional". O autor cita, como

21 Publicado em Encontros com a Civilização Brasileira, nº 7, Rio de Janeiro,

1 Civilização Brasileira, 1979, pp. 41-86.

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exemplo a se contrapor, as análises de Octavio Ianni e K. P. Erickson, 22 mas não é infundado estender suas observações à constituição da proposta de Estado de compromisso/Estado de mãssas:. Isto porque tais formulações têm nítida inspiração no conceito gramsciano de Estado bonapartista, modernizante, marcado pela ausência de hegemonia de classe e pela presença de um Estado arbitral. Portanto, retomando a categoria populismo, R. C. Andrade irá defender a tese de que, a partir do Estado Novo, inaugurou- se no Brasil uma forma de supremacia burguesa cuja marca foi o "encobrimento" do governo direto da burguesia por meio do controle de poderosos órgãos do poder Executivo e de seus ministérios. Quanto ao pacto entre Estado e massas populares, reconhecido por meio da legislação trabalhista, é reafirmado o controle das massas, mas é questionada a idéia que "reduziria" o p.opulÍsmo a um modelo de manipulação resultante de confli- tos intra-elites. Para o autor, que tais análises ignorariam era que o próprio controle populista necessitaria de um espaço de livre expressão das massas, para então transformar suas deman- das em doações, apropriando-se, com antecedência, de qual- quer projeto autônomo alternativo. Além disso, as pressões po- pulares nunca seriam de fato espontâneas, estando sempre liga-

nunca seriam de fato espontâneas, estando sempre liga- 2 2 Um dos trabalhos mais importantes de

22 Um dos trabalhos mais importantes de Ianni é O colapso do populismo no Brasil, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968 (uso a 3ª ed. de 1975), com relevo para sua segunda parte, intitulada "Populismo e nacionalismo", onde o autor relaciona política de massas e nacional-desenvolvimentismo. O influente livro de Kenneth Paul Erickson é Sindicalismo no processo político brasileiro, São Paulo, Brasiliense, 1979, fundado em pesquisas realizadas em 196617, para seu doutorado.

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das a lideranças organizadas (no PC, com destaque) politica- mente. Por estas duas ordens de razões, a manipulação (que não é descartada) jamais era completa, havendo momentos de mo- bilização progressistas e conservadores. Ou seja, por meio desta reflexão está sendo afirmado não só o caráter francamente bur- guês do regime populista, como sua natureza ambígua e contra- ditória, tanto autoritária quanto democrática. Um equilíbrio sem dúvida instável, que poderia ser rompido pelo crescente peso dos setores populares, sobretudo em situações de crise econô- mica ou política. Desta forma, todos os exemplos de mobilização ocorridos entre os anos 40 e 60 mostrariam esta dupla face: a do fortalecimento das forças populares e a da crença em um Estado benevolente. O que se deseja destacar, para finalizar este item, é como o debate sobre o conceito de populismo galvanizou as atenções dos cientistas sociais durante mais de uma década, envolvendo temas como: a natureza da Revolução de 30; o papel da legisla- ção trabalhista e sindical; o caráter de nossa experiência demo- crática de pós-1945, além de iluminar as razões do movimento militar de 1964. As muitas nuances para delinear o conceito, próprias às formulações de cada autor, não foram obviamente aqui contempladas, desejando-se registrar apenas a contribui- ção possivelmente mais influente - a de Weffort -, não só por fazer escola, como igualmente por suscitar polêmicas e varia- ções sobre o mesmo tema. Contudo, como se buscou apontar com o texto de Regis de Andrade, ainda que se procurasse, em fins dos anos 70, flexibilizar a idéia de manipulação e reforçar ainda mais a ambigüidade existente no conceito de populismo

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(ambigüidade por sinal presente em Weffort), sua utilização era quase uma imposição, pelo compartilhamento já alcançado e pela falta de versões alternativas de maior trânsito.

O POPULISMO, DE PEDRA A VIDRAÇA

Também em fins dos anos 70 e inícios dos 80, pode-se localizar uma crescente insatisfação com o uso do conceito e o início de um esforço mais sistemático no sentido de elencar as questões teóricas e históricas que, nesta abordagem crítica, ele obscure- ceria. É possível associar, mais uma vez e sem mecanicismos, esta busca de novos ângulos interpretativos às transformações que a sociedade brasileira vivenciava, particularmente no que diz respeito ao "renascimento" de movimentos sociais diferen- ciados, dentre os quais o grande destaque residia na retomada do sindicalismo. O governo do general Geisel, em curso, anun- ciava uma distensão "lenta e gradual", o que tornava imperati- vo pensar uma próxima - não se sabia o quão próxima - ex- periência de Assembléia Nacional Constituinte. Classe traba- lhadora, mobilização política e redemocratização estavam na ordem do dia, desdobrando-se em anistia, eleições diretas e or- ganização sindical. Mudanças também ocorriam nas referências intelectuais dis- poníveis para pensar o país, já que, a nível internacional, este é um rico momento de debates na área da história e das ciências sociais, gerando o que se tornará conhecido como a crise dos paradigll1as totalizadores, fossem funcionalistas, estruturalistas ou marxistas. Gramsci, muito utilizado nas análises sobre o fe-

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nômeno populista no Brasil, começava a ganhar competidores dentro do próprio campo marxista, que se renovava, merecen- do destaque a contribuição de E. P. Thompson, pelo impacto que teve na produção acadêmica brasileira. Neste caso, é signi- ficativo o abalo sofrido por orientações marxistas de fundo teleológico que postulavam um certo modelo de consciência de classe revolucionária para o operariado, permitindo todo um conjunto de interpretações que se respaldava no desvio ou na inconsciência daqueles atores quando, não preenchendo os re- quisitos delineados, interferiam nos rumos dos acontecimentos

históricos que insistiam em não

Correndo certamente um risco ainda maior do que o que já vem sendo enfrentado, a estratégia deste texto será a de seleci-

onar o meu próprio trabalho como exemplo de debate com a proposta populista. Alternativa que se afigura pretensiosa, mas que se não fosse contemplada faria o investimento soar falso, uma vez que algum texto precisaria ser tratado, e mencionar minha própria produção facilita o recebimento de críticas. A invenção do trabalhismo 24 começou a ser pensada e pro- duzida exatamente no contexto já referido. Seu objetivo era dialogar com enfoques que até então eram muito abrangentes nos estudos sobre movimento operário/sindical e que, posteri-

seguir o curso imaginado. 23

e que, posteri- seguir o curso imaginado. 2 3 2 3 Nos limites de um texto

23 Nos limites de um texto como este, tais observações funcionam apenas como sinalização, não havendo qualquer intenção de analisar a recepção no Brasil de tão importante debate e contribuições específicas. 24 Angela de Castro Gomes. A invenção do trabalhismo (São Paulo, Vértice, 1988, e Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1994) foi minha tese de doutoramento em Ciência Política, defendida no IUPERJ sob orientação de Wanderley Guilherme dos Santos, em 1987.

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ormente, ganharam a denominação de "sociológico" e "políti- co".25 Mas a preocupação dominante não era a de fazer uma discussão teórica (que, de resto, vinha sendo realizada), e sim,

assumindo uma e_e_rse~c;tiv~}nterdisciplinar, produzir uma in-

terpretação histórica alternativa, fundada em pesquisa empírica mais demorada e iluminada pelas novas contribuições da pro- dução internacional sobre a formação da classe trabalhadora. Neste sentido, uma série de pontos se colocavam como ob- jeto de flexibilização e/ou de questionamento. Em primeiro lu· gar, tratava-se de r_el'ensar a ruptura assinalada pela Revolução de 1930 como instauradora de dois "tempos" para o movimen- to operário, onde um se afigurava como "heróico", e o outro como "alienado". Isto ocorreria tanto porque mudara radical- mente a composição social da classe trabalhadora, não mais for- mada por imigrantes estrangeiros (qualificados e politizados) e sim por migrantes rurais (desqualificados e sem tradições políti- cas); quanto porque 1930 seria o marco da intervenção de- sordenadora do Estado, aspectos que, associados, produziriam um verdadeiro desmonte da classe. A alternativa era não apenas construir laços de continuida- de e marcos de descontinuidade entre os dois tempos, já que de forma alguma transformações eram ignoradas e negadas, como igualmente defender, teoricamente, que um processo histórico de construção de classe não sofre "desvio", pois não há um modelo prévio de percurso a ser seguido e muito menos um

um modelo prévio de percurso a ser seguido e muito menos um 2 5 0 artigo

25 0 artigo que assinala e consagra esta terminologia é o de Luiz Werneck Vianna, "Estudos sobre sindicalismo e movimento operário: resenha de algu- mas tendências", op. cit.

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resultado modelar a ser alcançado. Tais formulações implica- vam considerar uma classe trabalhadora diversificada e afastada de purismos ideológicos, e uma ação estatal como variável de interlocução, o que precisava ser qualificado para além de uma intervenção espúria que quebrava a ordem natural de um pro-

cesso. Portanto, a idéia era investigar a história da constituição da classe trabalhadora no Brasil, atribuindo-lhe, durante todos os "tempos", um papel de sujeito que realiza escolhas segundo o horizonte de um campo de possibilidades. A abordagem se re- cusava a atribuir aos trabalhadores uma posição política passi- va, não importando se mais ou menos completa. Aqui residia a grande dificuldade, teórica e histórica, de utilização do concei- to de populismo, que, como foi visto, remetia à idéia de mani- pulação política, ainda que se reconhecessem todas as suas am- bigüidades. Por razões que se prendiam a seu próprio uso com- partilhado, tudo o que estivesse qualificado como populista enfatizava a dimensão de controle/ação do Estado sobre as mas- sas, pois inclusive uma das questões mais complexas desta for- mulação era a própria negação do estatuto de classe (por falta de organização e consciência) aos trabalhadores inclusos nestas massas, que, sem dúvida, os extrapolavam. Atribuir aos trabalhadores um papel ativo, vale dizer, uma presença constante na interlocução com o Estado, significava reconhecer um diálogo entre atores com recursos de poder di- ferenciados mas igualmente capazes não só de se apropriar das propostas político-ideológicas um do outro, como de relê-las. Tal postura afastava a dicotomia, muito vigente, entre autono- mia e heteronomia da classe, como forma de designar e explicar

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a ausência de lideranças "verdadeiras" e a "falta de consciên- cia" ou a "consciência possível". Este aspecto era importante porque vinculava-se à explicação do sucesso das lideranças populistas, nunca oriundas da classe, e por isso mesmo tendo o poder de colocar sob suspeição aqueles que com elas se relacio- navam, no caso as lideranças sindicais pelegas do regime populista, entre ingênuos e traidores. Como desdobramento deste ponto, seguia-se a utilização da categoria cooptaçã.o como .o reverso da representação, ou talvez, ainda que de·-,;;~aimprecisa, como a atuação sobre aquele que é manipulado/enganado. Ser cooptado excluía assim uma relação de troca, esvaziando .o sujeito da cooptação de qualquer poder (inclusive o de ter suscitado a cooptação), e transformando-o em objeto que é, por definição, incapaz de negociação. Por estas inúmeras razões, que se prendiam ao efeito obscurecedor que o sentido do conceito de populismo acarreta- ria, a opção do trabalho foi rejeitar seu uso, muito embora não haja nele uma argumentação explícita, como a que se fez agora, sobre esta decisão. Ela, sem dúvida, está implícita, em particu- lar quando se propõe assumir a designação de pacto trabalhista para pensar as relações construídas entre Estado e classe traba- lhadora, escolhendo como momento estratégico de sua monta- gem os anos do Estado Novo. A idéia de pacto procurava enfatizar a relação entre atores desiguais, mas onde não há um Estado todo-poderoso nem uma classe passiva porque fraca numérica e politicamente. A lógica deste pacto, cuja efetivação estava sendo datada, precisava ser entendida numa perspectiva temporal muito mais ampla, que

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conectava o período do pré- e do pós-30 e as experiências vivenciadas pela classe trabalhadora e pelo Estado. Neste aspec- to particular, o trabalho procurava se contrapor a uma forte interpretação que explicava o sucesso populista como o resulta- do de um cálculo utilitário em que ganhos materiais eram troca- dos por obediência política, claramente referida à dimensão da manipulação. A proposta realizada, já no marco de contribuições teóri- cas ligadas à dimensão cultural da política, assinala que o dis- curso trabalhista, articulado em inícios dos anos 40, apropria e resignifica o discurso operário construído de forma lenta e diversificada nos anos da Primeira República. Os benefícios materiais "oferecidos" e implementados, como todas as análi- ses anteriores reconhecem com intensidades variadas, bem como a própria forma com que vêm revestidos, serão "recebi- dos" e interpretados pela classe trabalhadora, que os apreen- derá e os manejará segundo os termos de suas possibilidades e vivências. O pacto trabalhista, pensado ao longo do tempo, tem nele, de modo integrado mas não redutível, tanto a pala- vra e a ação do Estado (que sem dúvida teve o privilégio de desencadeá-lo), quanto a palavra e a ação da classe trabalha- dora, ressaltando-se que nenhum dos dois atores é uma totali- dade harmônica, mantendo-se num processo de permanente re-construção. Se a referência teórica mais geral é esta, sua atualização em cada caso de estudo histórico específico, longe de ser prescindí- vel, é absolutamente imperiosa. Este reconhecimento pode abrir perspectivas para repensar, nos anos 30/40, as razões da partici- pação dos trabalhadores na implementação do modelo de

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sindicalismo corporativo (o que chega a ser mencionado), e, nos anos 50/60, a complexa dinâmica de atuação política que envolve sindicatos, partidos e Estado (o que não chega a ser tratado), e que tem na questão da experiência/vivência do corporativismo seu ponto forte. 26 Como se pode facilmente depreender, A invenção do trabalhismo é apenas um dos exemplos de interlocução com o conceito de populismo, e certamente não é um dos que toma a fundo o aberto debate teórico. Contudo, nos limites deste tex- to, funciona ilustrando preocupações, objeções e propostas al- ternativas que foram crescentemente sendo compartilhadas por outros autores. De qualquer modo, é preciso reconhecer que o estabelecimento deste debate está longe de ter abalado o trânsi- to do conceito de populismo.

UM GATO DE SETE VIDAS

Apenas como demonstração da afirmação de linhas atrás, vale a pena trabalhar com uma publicação recente, organizada por

Evelina Dagnino e intitulada Anos 90: política e sociedade no

Brasil, cuja primeira parte é dedicada ao tema do populismo. 27

cuja primeira parte é dedicada ao tema do populismo. 2 7 2 6 Vários estudos foram

2 6 Vários estudos foram produzidos a partir dos anos 80 discutindo as ques· tões aqui apontadas. Gostaria de citar o nome de alguns autores, por vezes com mais de um trabalho, apenas como registro: Elina Pessanha; Regina Morei; José Ricardo Ramalho; José Sérgio Leite Lopes; Carla Anastásia; Angela Ara· újo; Marcelo Badaró Mattos; Ana Lúcia Oliveira.

2 'Evelina Dagnino (org.), Anos 90: política e sociedade no Brasil. São Paulo,

Brasiliense, 1994.

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Para 0 espaço restrito deste texto, um dos artigos é particular- mente interessante: ''A reemergência do populismo no Brasil e na América Latina", de Décio de Azevedo M. Saes. 28 O autor parte exatamente da interrogação sobre uma possí- vel reemergência do fenômeno populista, respondendo afirma- tivamente e procurando caracterizar as novas formas que ele estaria assumindo nos anos 90. Por esta via, traça-se uma espé- cie de tipologia onde se procura distinguir entre um "populismo clássico", vigente entre as décadas de 1930-1960 e interrompi- do pelo regime militar, e um "populismo neoliberal", que esta- ria atualizando aquela matriz política após a reativação do pro- cesso eleitoral e do pluripartidarismo, instalados nos anos 80. Haveria assim um "neopopulismo" não só brasileiro, mas lati- no-americano, interferindo nas expectativas de consolidação da democracia no continente. Trabalhando com a idéia de um processo crescente de "personalização da política", próprio às sociedades capitalistas atuais que alimentam uma "autonomização" da personalidade individual e um "imperialismo da vida privada sobre a vida pú- blica" como valores político-sociais, o autor procura explicar a reemergência do fenômeno de lideranças carismáticas, inclusi- ve no interior de organizações de esquerda. Este fato, segundo ele, poderia conviver com um contexto de reativação eleitoral e partidária (portanto, o fortalecimento dos partidos não é um "horizonte natural" dos anos 90), e com a difusão da mídia eletrônica, mas estaria igualmente associado aos vínculos que as

28Q artigo (pp. 41-8) sofrerá, obviamente, muitas simplificações nesta rápida síntese de seu argumento.

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lideranças conseguem manter com os setores populares a serem incorporados socialmente. Este modelo reteria do anterior o princípio básico de que é o líder/governo que atua como sujeito da política, sendo os se- tores populares objeto de políticas públicas, donde seu conteú- do autoritário e seu apelo direto ao povo. Contudo, ele se dis- tinguiria radicalmente do "populismo clássico" ao construir um discurso político antiestatizante, rompendo com uma tradição sólida e lentamente construída no Brasil, que vincula estatismo ou estatização a signos de nacionalismo e desenvolvimento. Ou seja, seria pelo desmonte do Estado, identificado inclusive com a experiência populista, que o governo asseguraria, através do mercado, uma nova mecânica redistributiva. Daí a designação de populismo neoliberal e o cuidado em observar que tal proposta trabalha com dados coerentes da rea- lidade social ao evocar o fracasso do welfare state e os índices de corrupção política mais visíveis pela disseminação das infor- mações. Uma nova fase do desenvolvimento do capitalismo e uma nova experiência liberal-democrática estariam, nesta interpre- tação, gerando um novo populismo. Esta abordagem fica ainda mais reforçada se a ela forem agregados alguns elementos pre- sentes no artigo de Marilena Chauí, da mesma coletânea. 29 Para esta autora, o populismo no Brasil poderia ser pensado segundo uma matriz teológico-política e funcionaria como uma mitolo- gia fundadora tanto para as classes dominantes quanto para as

29 0 artigo é "Raízes teológicas do populismo no Brasil: teocracia dos domi- nantes, messianismo dos dominados", op. cit., pp. 19-30.

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classes dominadas. Ela defende que a própria organização da

verticalizada e hierar-

quizada -, havendo assim uma retroalimentação entre socie- dade e mitologia/política. 30

Esta situação trágica explicaria tanto a impossibilidade da efetuação da idéia liberal-democrática de política no Brasil, ba- seada nas noções de cidadania e representação, quanto a impos- sibilidade de sustentação do valor socialista da justiça social. Pela mesma razão profunda, não superaríamos a matriz mística do populismo, que se renovaria, sistematicamente, como pers- pectiva messiânica para os setores populares. É impossível, para quem trabalha com pensamento social brasileiro, não sentir o eco de vozes que, muito antes dos anos 50, na verdade desde os inícios do século, diagnosticavam o caráter insolidário de nossa sociedade e nele plantavam as raízes de um inevitável (embora, talvez, transitório) forte Estado au- toritário. Se para alguns destes pensadores, este diagnóstico era também um desejo a ser realizado, para outros era um tormen-

to a ser evitado, não

se sabia bem como. 31

Hoje, às vésperas de um novo milênio, talvez se possa pen- sar a reemergência do populismo como uma atualização de nos- sa tragédia. Confesso, para concluir, que me preocupo menos

sociedade brasileira é autoritária -

me preocupo menos sociedade brasileira é autoritária - 3 0 ''Ao dizer que a sociedade brasileira

30 ''Ao dizer que a sociedade brasileira é autoritária, estou pensando em certos traços gerais das relações sociais que se repetem em todas as esferas da vida social (da família ao Estado, passando pelas relações de trabalho, pela escola, pela cultura)." Na p. 27 do artigo citado, e, para o que se está destacando, os trechos que se seguem. 31 Sobre o tema, ver Angela de Castro Gomes, "A dialética da tradição", Revis-

ta Brasileira de Ciências Sociais, 12, vol. 5, 1990, pp. 15-27.

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com o sucesso ou insucesso da categoria - pela qual, como ficou claro, não tenho apego -, do que com o que ela guarda de dramático e emblemático da política brasileira, condenada

ao

autoritarismo. Quem sabe, como uma criança, ~ntre a razão

e a esperança, eu me negue a fazer escolhas e com ambas procu- re conviver.

PÓS-ESCRITO

Não importa qual seja a escolha realizada: escrever sobre o populismo no Brasil será sempre um risco. Por incompletude ou por "má" compreensão, por adesão ou rejeição, o texto será alvo fácil para críticas de todas as espécies. Mas, mesmo com este risco, tratar da questão do populismo no Brasil é um exercício estimulante para o historiador e o cien- tista social. Por esta razão, concordei com a republicação do artigo precedente, redigido em inícios de 1996 para ser apre- sentado em um congresso internacional, sem quaisquer altera- ções, acrescido apenas deste pequeno pós-escrito. Um dos motivos da opção pela ausência de revisão é a pró- pria natureza do texto. Nele, eu escolhi uma abordagem his- toriográfica para enfrentar o "tema" do populismo, donde o seu subtítulo: notas sobre a trajetória de um conceito. Quer dizer, meu objetivo não era realizar a análise histórica de qual- quer fenômeno da realidade social ao qual a categoria populismo estivesse vinculada, mas sim refletir sobre a traje- tória da própria categoria, o que poderia iluminar a compre- ensão de seus usos. Minha proposta, ainda pouco freqüentada

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da própria categoria, o que poderia iluminar a compre- ensão de seus usos. Minha proposta, ainda

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no Brasil, era a de um trabalho com história de conceitos, por considerá-los, eles mesmos, produções acadêmicas que podem ser datadas; que podem ser contextualizadas: onde e em que condições conjunturais ocorreu a construção teórica de um certo conceito, e qual o seu sujeito? Assim, se a preocupação do artigo era esta, ele também deveria manter sua "data", de- marcando o momento em que eu o escrevi e o motivo por que

o escrevi. A meu juízo, este tipo de proposta tem alguns pressupostos implícitos. O primeiro deles é que conceitos, todos eles, são construções teóricas, elaboradas por intelectuais em determina- dos momentos, para compreender fenômenos da realidade so- cial. Portanto, nesta abordagem, imaginar a possibilidade de um conceito que não seja um construto intelectual, "distanciando- se" da realidade justamente para poder com ela operar de ma-

neira mais densa, é carta fora do baralho. As "palavras" não são

as "coisas", mas a elas se referem, podendo ganhar sentidos di-

ferenciados através dos tempos. Exatamente por isso, o enten- dimento dos contextos de produção das "palavras" esclarece sobre os "sentidos" das quais elas são investidas, sentidos que têm história - sócio-cultural e não "natural"-, que podem e

devem ser compreendidos. Ou seja, é tão inconcebível, para quem está trabalhando nessa perspectiva, supor que possa ha- ver conceitos que não são "invenções" acadêmicas, quanto su- por que conceitos possam ser produzidos sem estímulos e vinculações com as questões que povoam a "realidade" dos que os elaboram. A segunda razão para a manutenção do texto sem revi- sões foi a intenção de usá-lo para acentuar o próprio contex-

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to intelectual que me levou a optar pelo abandono do uso da categoria de populismo em meu livro A invenção do trabalhismo. O momento era o da primeira metade da déca- fa de 1980, há quase vinte anos, quando a adesão ao concei- to era muito disseminada, na academia e fora dela, tendo ele um "sentido" amplamente reconhecido, compartilhado e pouco criticado. Era precisamente desse "sentido", que transforma uma "pa- lavra" em conceito, e não essencialmente da "palavra", que eu queria me afastar, na medida em que estava rejeitando seu con- reúdo básico. De forma breve, para não ser repetitiva: as idéias de uma classe trabalhadora "passiva" e sem consciência, sendo "manipulada" por políticos inescrupulosos que a "enganavam", e que não tinham, na verdade, representatividade política e so- cial. O que eu pretendia demarcar era justamente que não acei- tava esta concepção, nem de classe trabalhadora, nem de pacto ,•olítico. O uso da "palavra" populismo, assim, me pareceu algo c-xtremamente danoso para enunciar o que eu desejava defen- der, e a "palavra" trabalhismo, cuja invenção eu acompanhava em minha análise histórica, surgia como muito mais adequada para a proposta da então tese. Quer dizer, trabalhismo seria usado, por mim, como uma categoria, passando a se referir a 11m certo conjunto de idéias e práticas políticas, partidárias e sindicais, o que poderia ser identificado para além de seu con- ,-cxto de origem histórica: o Estado Novo. Como todas as "pa- lavras", trabalhismo também não estava desprovida de signifi- cados sociais, estando ligada a alguns partidos e lideranças, es- pecialmente e não casualmente, do pós-45. Ainda assim, consi- derei interessante sua proposição, chamando atenção para a

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necessidade de sua atualização em outros estudos que se dedi- cassem a outros cortes temporais. Na ocasião, também quero reforçar, a insatisfação com o conceito de populismo era até certo ponto discutida nos meios acadêmicos, e a proposição da necessidade de se repensarem postulados vinculados às práticas de lideranças políticas e sindi- cais do pós-30 e sobretudo do pós-45 também. Razoavelmente, é bom frisar, pois vejo hoje como o debate cresceu e se enrique- ceu, beneficiando-se de um bom número de trabalhos que se afastam da idéia de "manipulação" em polítiéa e retomam as experiências partidárias e sindicais do período entre 1930 e 1964. Textos que têm como seu objeto a propaganda política ou que voltam sua atenção para o movimento operário e sindi- cal, investindo os trabalhadores de voz e ressaltando suas com- plexas relações com o patronato e o Estado. No artigo anterior, em nota de rodapé, chego a mencionar alguns autores, cujos textos conhecia bem na época, mas verifico que eles aumenta- ram muito em número, sobretudo na segunda metade da déca- da de 1990. Na verdade, este fato está nitidamente inserido na tendên- cia de crescimento dos estudos de história operária no Brasil, que tanto têm procurado revisitar as experiências da classe trabalhadora em vários momentos e espaços, quanto têm bus- cado enfrentar os desafios lançados pelas transformações ocor- ridas no mundo do trabalho neste fim de século. Aliás, foi uma dessas recentes publicações que mais me estimulou a redigir este pós-escrito, já que em seus textos realiza um apanhado e um debate sobre várias questões vinculadas à produção de uma história social do trabalho na América Latina, incluindo o

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"tema" do populismo. 32 Conforme já destaquei no artigo an- terior, o trânsito que a categoria populismo possui na cultura política do país e os processos de seu "deslocamento" da lin- guagem acadêmica para o vocabulário da mídia e da popula- ção estão a nos desafiar e a merecer reflexões. Conforme tam- bém já destaquei, preocupa-me menos o sucesso ou insucesso da "palavra" do que a permanência do que ela guarda de dra- mático e emblemático da política brasileira, vista sempre como à beira do autoritarismo e sendo alvo fácil de políticos tão hábeis quanto cínicos. Este pós-escrito não é, portanto, um exercício de zelo à polêmica, mas a continuação de uma refle- xão que quer compreender a sociedade e a política brasileiras, acreditando que elas possam se orientar, com solidez, por va- lores democráticos.

se orientar, com solidez, por va- lores democráticos. 3 2 Refiro-me ao livro de Alexandre Fortes,

32 Refiro-me ao livro de Alexandre Fortes, Antonio Luigi Negro, Fernando Teixeira da Silva, Hélio Costa e Paulo Fontes, Na luta por direitos: estudos

recentes em História Social do Trabalho. Campinas, Ed. da UNICAMP, 1999.

Todos os autores têm trabalhos individuais sobre o assunto, e dois deles são autores dessa c:oletânea. No livro, ver particularmente a entrevista do último c:apítulo.

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O nome e a coisa: o populismo na política brasileira

Jorge Ferreira

"Não há povo amorfo. Não há massa bruta e indiferente. A massa é formada de homens e a natureza de todos os homens é a mesma: dela é a paixão, a gratidão, a cólera, o instinto de luta e o instinto de defesa."

Rachel de Queiroz

Herdeiro do "clientelismo" da Primeira República, o "popu- lismo", após 1930, teria dado continuidade a uma relação desi- gual entre Estado e sociedade e, em particular, entre Estado e classe trabalhadora. Sobretudo com a ditadura de Getúlio Vargas, os trabalhadores, com a violência policial, teriam perdido suas lideranças mais combativas e, com a eficácia da máquina do DIP, sido iludidos pela propaganda política estatal. Destituídos de tradições de luta, organização e consciência, os trabalhado- res, fossem os mais "antigos", fossem os mais "novos", aqueles recém-chegados do mundo rural, sucumbiram aos agrados do ditador. Satisfeitos com alguns benefícios materiais, a legislação social em particular, eles, em troca, dedicaram a Vargas submis- são e obediência política.

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Cooptados, manipulados, iludidos e amedrontados com as perseguições da Polícia Especial, os assalariados, após 1945, não teriam conseguido livrar-se das amarras ideológicas tecidas na época anterior: cerceados em suas lutas pela manutenção da legislação corporativista e a tutela estatal dos sindicatos, traídos com a atuação dos pelegos sindicais e confundidos politicamen- te com as lideranças populistas, as mais antigas como Vargas, as mais recicladas como Goulart. Os comunistas, igualmente ilu- didos com o nacionalismo, reforçaram os laços, já apertados, da teia populista. A história dos trabalhadores, como é contada, não é nova e, independentemente de suas diversas versões, retoma uma longa tradição intelectual. Liberais e autoritários, de direita ou esquer- da, diagnosticaram que os males do país provêm de uma rela- ção desigual, destituída de reciprocidade e interlocução: a uma sociedade civil incapaz de auto-organização, "gelatinosa" em algumas leituras, e a uma classe trabalhadora "débil", impõe-se um Estado que, armado de eficientes mecanismos repressivos e persuasivos, seria capaz de manipular, cooptar e corromper. A interpretação ainda foi reforçada por um certo tipo de marxis- mo que defendia um modelo de classe trabalhadora, uma deter- minada consciência que lhe corresponderia e um caminho, úni- co e portanto verdadeiro, a ser seguido. Nesse caso, ~~.~classe não surgiu como se imaginava, se a consciência não se desen- volveu como se previa e se os caminhos trilhados foram outros, a explicação poderia ser encontrada no poder repressivo de Estado, nos mecanismos sutis de manipulação ideológica e, ain- da, nas práticas demagógicas dos políticos populistas. A teoria do "desvio", assim, reforçou a interpretação que polarizava Es-

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tado e sociedade. Como lembra José Murilo de Carvalho, a postura antiestatal, maniqueísta em sua definição, inviabiliza qualquer noção de cidadania e, na prática, "acaba por revelar uma atitude paternalista em relação ao povo, ao considerá-lo vítima impotente diante das maquinações do poder do Estado ou de grupos dominantes. Acaba por bestializar o povo". 1 Culpabilizar o Estado e vitimizar a sociedade, eis alguns dos fundamentos da noção de populismo. Não são poucos, é verdade, os trabalhos que romperam com esta espécie de relação patológica entre um Estado que surge pleno de poderes e uma sociedade incapaz de reagir e se manifestar. 2 No entanto, se o populismo, como categoria explicativa da política brasileira entre 1930 e 1964, e como uma maneira de enfocar o movimento operário e sindical, vem, desde a década de 70, sendo posto em dúvida em um ou outro aspecto, em uma ou outra afirmação, o conjunto da teoria ain- da continua a dar as cartas para explicar o passado recente do país. Nas páginas que se seguem, procuro reconstituir a história do populismo. No entanto, é importante frisar, não compreen- do a expressão como um fenômeno que tenha regido as rela- ções entre Estado e sociedade durante o período de 1930 a 1964 ou como uma característica peculiar da política brasileira na- quela temporalidade, pois sequer creio que o período tenha sido

1996.
1996.

1 José Murilo de Carvalho. Os bestializados. O Rio de janeiro e a república que

não foi. São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp. 10-11.

2 Veja Angela de Castro Gomes. "Política: história, ciência, cultura etc.". ln Estudos Históricos, nº 17. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas,

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ciência, cultura etc.". ln Estudos Históricos, nº 17. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas,

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"populista", mas, sim, como uma categoria que, ao longo do tempo, foi imaginada, e portanto construída, para explicar essa mesma política.

O POPULISMO DE PRIMEIRA GERAÇÃO

Nos anos 50/60, a teoria da modernização repercutiu nos mei- os acadêmicos do país com grande impacto, sobretudo para a configuração da noção de populismo. Para Gino Germani, 3 o mais conhecido desses teóricos, a inserção da América Latina no mundo moderno não seguiu os padrões clássicos da demo- cracia liberal européia. A passagem de uma sociedade tradicio- nal para uma moderna ocorreu em um rápido processo de ur- banização e industrialização, mobilizando, desta maneira, as "massas populares". Impacientes, elas exigiram participação política e social, atropelando, com suas pressões, os canais institucionais clássicos. A resolução dos problemas ocorreu com golpes militares ou com "revoluções nacionais-populares", sen- do que as últimas, sobretudo seus resultados, foram nomeadas de populismo. Torcuato di Tella, 4 por sua vez, foi além. A ex- plosão demográfica e as aspirações participativas das "massas populares" forçaram alterações no sistema político. Em certo ponto, de muita tensão, as "massas", com suas expectativas, se

tensão, as "massas", com suas expectativas, se 3 Gino Germani. Política e sociedade em uma época

3 Gino Germani. Política e sociedade em uma época de transição: da sociedade tradicional à sociedade de massas. São Paulo, Mestre Jou, 1973.

4 Torcuato di Tella. Para uma polftica latino-americana. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1969.

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aliaram às camadas médias, setores ressentidos por não se tor- narem classes dominantes. Assim, diante de um quadro em que as classes fundamentais não deram respostas adequadas exigidas pelo "momento histórico" - as dominantes, por sua inoperância, a operária, por sua inexpressividade-, surgiram líderes oriundos das classes médias prontos para manipularem as "massas". Desse modo, no contexto da transição de uma "economia tradicional'', de "participação política restrita", para uma "economia de mercado", de "participação ampliada", a teoria da modernização elegeu um ator coletivo central para o surgimento do populismo na América Latina: os camponeses. Mesmo que eles não sejam nomeados com todas as letras, o eixo fundamental dos argumentos de Germani e di Tella gira em torno da questão do mundo rural, definido como tradicio- nal. O populismo surgiu em um momento de transição dessa sociedade para a moderna, implicando o deslocamento de po- pulações do campo para a cidade - o mundo agrário invadin- do o urbano-industrial. Como a mescl~-devalores tradicionais e modernos, os líderes populistas se projetaram em sociedades que não consolidaram instituições e ideologias autônomas, mas necessariamente seriam substituídos por outras lideranças por- tadoras de idéias classistas quando o capitalismo alcançasse maturidade na região. Os críticos de Germani e di Tella, de variadas maneiras, de- nunciaram a suposta vinculação entre camponeses que vieram para as cidades e líderes populistas. Octavio Ianni, por exem- ~~'-~~nuncioua imagem, sugerida pelos teóricos da moderni- zação, de docilidade das "massas às manipulações populistas,

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demagógicas e carismáticas". 5 Por um aspecto, diz Ianni, há o surgimento de populações recém-chegadas do mundo rural que "não dispõem ainda das condições psicossociais, ou horizonte cultural", para um adequado comportamento urbano e demo- crático. Por outro, a sociedade carece de instituições políticas sólidas, a exemplo de um sistema partidário. "Daí o sucesso da arregimentação das massas marginais, ou classes populares, pelo populismo." Trata-se de um descompasso, retrocesso ou desvio de curso no sentido que se queria ideal: o modelo europeu de democracia representativa. "No mundo urbano-industrial", con- tinua Ianni em sua crítica, "onde imperam as relações de merca- do, sobrevivem ou predominam as massas e o líder, cujos víncu- los são a demagogia e o carisma." Com o tempo, as inconsistências da teoria da modernização foram percebidas e as críticas tornaram-se mais agudas. A dis- tinção entre países "atrasados" e "desenvolvidos", indicando, segundo Maria Helena Capelato, uma relação de exterioridade entre eles, o mundo capitalista "moderno" como modelo a ser seguido, a perspectiva etapista, progressista, que levaria à con- solidação do regime democrático nos países "atrasados" - con- cepção desmentida pelas ditaduras militares nos anos 60 -, entre outras questões, abalaram a credibilidade do enfoque. 6 No entanto, mesmo décadas depois, quando as críticas tor- naram as idéias de Germani e di Tella desacreditadas, as ima-

as idéias de Germani e di Tella desacreditadas, as ima- 5 0ctavio Ianni. O populismo na

5 0ctavio Ianni. O populismo na América Latina. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975, pp. 25-28. 6Maria Helena Rolim Capelato. "Estado Novo: novas histórias". ln Marcos Cezar de Freitas. Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo, Contex- to, 1998, p. 186.

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gens de "atraso", "desvio" e "manipulação" perdurariam. As representações imaginárias, sabemos, são capazes de resistir a críticas, mesmo aquelas formais, eruditas e com base na investi- gação empírica. Assim, perdurou, ao longo do tempo, a idéia de que, com o processo de urbanização, os indivíduos recém-che- gados do mundo rural teriam contaminado os antigos operários com suas idéias tradicionais e individualistas. Sociedade atrasa- da, camponeses que vieram para as cidades, igualmente um atra- so, e, logo, uma política novamente atrasada, eis o ambiente em que teriam proliferado os líderes populistas. A teoria da modernização foi decisiva para as primeiras for- mulações sobre o populismo no Brasil. Segundo Angela de Cas- tro Gomes,7 em meados da década de 50 um grupo de intelec- tuais, sob o patrocínio do Ministério da Agricultura, passou a se reunir periodicamente com o objetivo de debater os problemas políticos do país. Como uma vanguarda esclarecida, o Grupo de Itatiaia, como ficou conhecido, 8 esforçou-se para formular projetos políticos e estabelecer uma nova visão de mundo. Um dos problemas identificados foi o surgimento do "populismo na política brasileira". Embora se constate ausência de esforços para conceituar o fenômeno nas condições do país, explicava-

Idem.

7 Angela de Castro Gomes. "O populismo e as ciências sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito". Nesta coletânea. 8 Segundo a autora, o grupo fundou, em 1953, o Instituto Brasileiro de Eco- nomia, Sociologia e Política (IBESP) e começou a publicar os Cadernos de nosso tempo. Participaram da revista intelectuais como Alberto Guerreiro Ramos, Cândido Mendes de Almeida, Hermes Lima, Ignácio Rangel, João Paulo de Almeida Magalhães e Hélio Jaguaribe. O núcleo básico do IBESP, mais adiante, organizaria o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB).

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se a expressão por variáveis histórico-sociológicas, influencian- do, mais tarde, as inúmeras formulações que se seguiram. Para os intelectuais do Grupo, em primeiro lugar, o po- pulismo era uma política de massas. 9 Trata-se de um fenômeno vinculado à modernização da sociedade, sobretudo no tocante ao processo de proletarização de trabalhadores que não adqui- riram consciência de classe. Interpelados como massa, eles so- mente se libertariam dos líderes populistas quando alcançassem a verdadeira consciência de seus interesses. Não é difícil, por- tanto, perceber as influências da teoria da modernização. Mas, em segundo lugar, o populismo igualmente estava associado a uma classe dirigente que perdera a sua representatividade, que carecia de exemplos e valores que orientassem toda a coletivi- dade. Em crise e sem condições de dirigir o Estado, as classes dominantes necessitariam conquistar o apoio político das mas- sas emergentes. Por fim, diante da "inconsistência" das classes fundamentais da sociedade, o terceiro elemento completaria o fenômeno: o líder populista, homem carregado de carisma, com capacidade incomum para mobilizar e empolgar as massas. Nessa linha de abordagem, em 1961, o sociólogo Alberto Guerreiro Ramos, integrante do Grupo de Itatiaia, publicou A crise do poder no Brasil. O livro estabeleceria, de maneira mais sistematizada, a imagem do populismo na política brasileira e influenciaria estudos acadêmicos que, naquela época, ainda es- tavam em curso.

acadêmicos que, naquela época, ainda es- tavam em curso. 9 Na análise que se segue, Angela

9 Na análise que se segue, Angela de Castro Gomes explora o ensaio Que é o ademarismo?, publicado no primeiro semestre de 1954, sem autor identifica- do. Idem.

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Também em uma perspectiva histórico-sociológica, Ramos defende que o estabelecimento do populismo no Brasil ocorreu sobretudo a partir de 1945. Com o fim do Estado Novo, o país conheceu, no plano polfrico, um mínimo de probidade nas elei- ções e, no plano econômico, uma industrialização mais consis- tente. Assim, em uma conjuntura de expansão industrial, urba- nização e de participação político-eleitoral, é que se manifesta- ram as primeiras gerações de assalariados das cidades. Para o autor, o populismo, como uma i_deologia pequeno-burguesa, procurou mobilizar politicamente "as massas obreiras nos perí- odos iniciais da industrialização". 1 °Contudo, os assalariados não apresentavam "aquela mentalidade classista que costuma carac- terizar as gerações de trabalhadores providos de longas tradi- ções de lutas", uma vez que as classes sociais ainda não tinham se configurado, despontando no cenário político do país de "maneira rudimentar", como um "agregado sincrético". Em uma palavra, a classe trabalhadora se apresentava como "povo em estado embrionário". Assim, novamente associando os campo- neses ao populismo, os líderes de massa, diz Ramos, encontra- ram sustentação em "componentes recém-egressos dos campos [que] ainda não dominam o idioma ideológico". São trabalha- dores com escasso "treino partidário" e "tímida consciência de direitos", o que os "torna incapazes" de exercer influência so- bre os políticos populistas. Recuperando as teorias em voga na época, sobretudo as de Gino Germani, Guerreiro Ramos, a seguir, formula críticas ao

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l 1°Guerreiro Ramos. A crise do poder no Brasil. Rio de Janeiro, Zahar Edito· res, 1961, p. 56.

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trabalhismo brasileiro, classificando, não sem alguma ironia, as suas "doenças infantis". A primeira é o varguismo. Trata-se, em suas palavras, de um "resíduo emocional baseado em impres- sões e crenças populares na bondade intrínseca de Vargas". A segunda é o janguismo, definido como uma forma de seguidismo que se fundamenta no "reconhecimento de amplas camadas populares de que o Sr. João Goulart é o continuador da obra do Presidente Getúlio Vargas". A terceira, o peleguismo, na verda- de um subproduto do varguismo e irmão siamês do janguismo. Para Ramos, o peleguismo impede a formação de um "movi- mento obreiro na exata expressão da força política que têm já os trabalhadores brasileiros". Por fim, o expertismo, ou seja, a prática do partido em recorrer a um "doutor, encomendando- lhe uma teoria sob medida". 11 Não é difícil perceber que as "do- enças infantis do trabalhismo", formuladas por Guerreiro Ra- mos, sobretudo as três primeiras, firmaram-se como imagens fortemente introjetadas na imaginação política das gerações que o sucederam. Ironias que foram tomadas a sério. Seja como for, os sociólogos do Grupo de Itatiaia, sobretu- do Hélio Jaguaribe e Guerreiro Ramos em particular, influenci- ados pela teoria da modernização, foram aqueles que formula- ram as primeiras reflexões sobre o populismo na política brasi- leira. Assim, dando continuidade a uma linha interpretativa que se constituía desde meados dos anos 50, um outro grupo de sociólogos, agora nas universidades, desenvolveu reflexões so- bre o papel dos camponeses no processo de formação da classe

1 11 /dem, pp. 90-93.

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operária e do movimento sindical. Nomeada por Luiz Werneck Vianna de a "interpretação sociológica'', o primeiro desses tra- balhos veio ao conhecimento do público em 1964, com Juarez Brandão Lopes. 12 A partir do auxílio de algumas categorias web-erianas, Brandão procurou compreender as motivações de operários de uma empresa de porte médio em um momento de trânsito de uma "economia tradicional" para uma "economia de mercado". A conclusão, segundo Werneck Vianna, foi a de- terminação estrutural entre a origem social e a consciência de classe. Desse modo, os trabalhadores originários do campo e das pequenas comunidades do interior, quando instalados nas cidades, não se identificariam completamente como operários industriais, tendendo a se comportar de acordo com seus "inte- resses pessoais". Não conseguiriam, dessa maneira, explicitar a consciência de sua identidade coletiva devido à falta de experi- ências cooperativas, próprias do mundo urbano e industrial. Os outros operários, qualificados e mais antigos nas cidades, por sua vez, demonstrariam satisfação com suas profissões, mas, por sua situação vantajosa no mercado de trabalho e pela "falta de tradição industrial", tornaram-se pouco sensíveis para ações coletivas através do sindicato. 13 Segundo Luiz Werneck Vianna, os estudos sobre o movi- mento operário e sindical no Brasil se iniciaram com os traba- lhos de Juarez Brandão Lopes e Leôncio Martins Rodrigues,

de Juarez Brandão Lopes e Leôncio Martins Rodrigues, 1 2 Juarez Brandão Lopes. Sociedade industrial no

12 Juarez Brandão Lopes. Sociedade industrial no Brasil. São Paulo, Difel, 1964. llLuiz Werneck Vianna. "Estudos sobre sindicalismo e movimento operário:

resenha de algumas tendências". Rio de Janeiro, Revista Dados, BIB, 1978, pp. 74-75.

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Embora com suas diferenças e especificidades, a "interpretação sociológica" compartilha perspectivas semelhantes em suas aná- lises. Partindo dos "gloriosos anos 1O", com a atuação dos anar- quistas, a reflexão procura tornar evidente a transição, comple- tada na década de 30, para um sindicalismo burocrático e aco- modado, permitindo o surgimento de uma classe operária que teria perdido sua autonomia, espontaneidade e ímpeto revolu- cionário. As matrizes teóricas da "interpretação sociológica", diz Werneck Vianna, provêm da hegemonia do pensamento cepalino nas universidades brasileiras, dos trabalhos de Gino Germani e da leitura de textos de Weber e Marx. Tais concep- ções foram entendidas como convergentes para explicar a reali- dade latino-americana. 15 Assim, o enfoque sobre o "comporta- mento operário", determinado pela origem da força de traba- lho em um contexto de transição de uma "economia tradicio- nal", de "participação política restrita", para uma "economia de mercado", de "participação política ampliada", teria resulta- do em uma classe operária que, marcada pelo individualismo,

como também com os de Azis

por suas origens rurais, tradicionais e patrimoniais, se tornou passiva e dependente do Estado. O resultado, portanto, foi o surgimento do populismo. As críticas, na verdade, tardaram a chegar. Para Maria Hele- na Capelato, um dos elementos constitutivos da noção de

na Capelato, um dos elementos constitutivos da noção de HLeôncio Martins Rodrigues. Conflito industrial e

HLeôncio Martins Rodrigues. Conflito industrial e sindicalismo no Brasil.

São Paulo, Difel, 1966; Azis Simão. Sindicato e Estado. São Paulo, Ática,

1981; José Albertino Rodrigues. Sindicato e desenvolvimento no Brasil. São

Paulo, Difel, 1966. 1 lLuiz Werneck Vianna. Op. cit., p. 71.

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populismo nesse período é a compreensão dos movimentos so- ciais como reflexos das variáveis sócio-econômicas. Assim, "ex- plica-se o comportamento político das classes a partir de determinantes estruturais (processo de industrialização, origem rural da classe trabalhadora). A adesão ao populismo é entendi- da então a partir da estrutura social, sem se levar em conta qual- quer elemento de ordem política ou cultural"• 16 O "novo prole- tariado" da década de 30, muito distante do velho e revolucio- nário anarquismo dos anos 1 O, teria surgido, no dizer de Werneck Vianna, com uma "concepção individualista que traz do mundo do tradicionalismo agrário - se tornaria na massa de manobra

do populismo (

xismo no movimento operário substituído pelo nacionalismo". 17 No entrecruzamento da teoria da modernização com uma certa interpretação do marxismo, eis que surgem os campone- ses no cenário político, representando o ator coletivo chave para

)

assinalando o toque de recolher para o mar-

a formulação e disseminação da primeira versão do populismo. Seria na passagem da "sociedade tradicional" para a "moderna" que atuariam os camponeses, seres incapazes de ações coletivas porque imbuídos de uma percepção individualista da sociedade e, exatamente por isso, refratários às mudanças sociais - em particular as revolucionárias. Portanto, entre meados dos anos 50 e início dos anos 60, algumas imagens sobre os "desvios" da política brasileira e da própria classe trabalhadora, determinados pelo papel dissolvente exercido pelos camponeses que vieram para as cidades, come-

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1'Maria Helena Rolim Capelato. Op. cit., pp. 185-186.

1 7Luiz Werneck Vianna. Op. cit., p. 78.

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çaram a circular em alguns círculos intelectuais no Brasil. Ten- do como matriz a teoria da modernização, tais idéias inicial- mente foram apropriadas pelos sociólogos do Grupo de Itatiaia e, daí, começaram a ganhar espaços nas universidades. O golpe militar, em 1964, no entanto, veio acelerar o processo, permi- tindo que a noção de populismo surgisse como fator explicativo para a fraqueza do movimento operário e sindical diante da investida, verdadeiramente fulminante, da direita civil-militar. Foi nesse contexto político e intelectual que, em meados dos anos 60, veio a público uma série de artigos, reunidos, mais

tarde, sob o título de O populismo na política brasileira. A cole-

tânea resgatou o conjunto de idéias que, desde a década anteri- or, vinha afirmando a noção de populismo e, sintetizando-o de maneira original, abriu caminhos para pesquisas e reflexões posteriores. 18 Embora apresente reflexões avançadas para a pri- meira metade dos anos 60, o próprio contexto intelectual da- quela época impôs limitações teóricas aos textos. Assim, duas tradições interpretativas percorrem as páginas do livro. A pri- meira é a adoção da tipologia de Gino Germani, que alude à passagem de uma "democracia com participação limitada" para uma "ampliada". 19 Trata-se de um processo de "massificação prematura" ou "antecipada" de massas rurais na vida urbana e no processo político. 20 Weffort recupera a tese que afirma o

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1 '/dem, p. 45. 2 º/dem, p. 54.
1 '/dem, p. 45.
2 º/dem, p. 54.

18 Frandsco Weffort. O populismo na política brasileira. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980, p. 22. Minha análise limita-se aos três primeiros artigos da cole- tânea: "Política de massas", escrito originalmente em 1963; "Estado e massas no Brasil", de 1965; e "O populismo na política brasileira", de 1967.

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sucesso da política varguista entre os trabalhadores porque o êxodo rural trouxe para as cidades uma mão-de-obra com tra- dições patrimoniais, individualistas e sem experiências de lutas sindicais. Desencadearam-se, desse modo, a "revolução indivi- dual" dos migrantes oriundos do campo que chegaram ao mun- do urbano e a conseqüente pressão para o acesso ao consumo e ao emprego. Portanto, "trata-se, sempre, de formas individuais de pressão, as quais se apresentavam aos populistas como um problema a resolver". 21 Ou seja, como já afirmara Guerreiro Ramos, existia a classe, mas faltava a sua consciência, mascara- da ou deformada no processo que transformou camponeses em assalariados urbanos, permitindo a Weffort sugerir que a refle- xão sobre o populismo deva basear-se a partir de "relações indi- viduais". 22 A teoria da modernização, portanto, é central nas análises de Weffort. A segunda tradição intelectual presente na coletânea pro- vém de uma época em que se acreditava que os atores sociais tinham "vontade própria". Assim, diz o autor: "a burguesia e o proletariado, em especial este último, tendem a organizar raci- onalmente sua ação política e a colocar, de maneira clara, seus interesses de classe à luz do dia do debate político". 23 Muitas vezes, noções oriundas da ortodoxia aparecem de maneira pe- remptória: "Na impotência histórica da pequena burguesia está

a raiz da demagogia populista(

às formas pequeno-burguesas de ação, o populismo traz em si a

). Deste modo, por limitar-se

21 /dem, p. 75. 22 /dem, p. 72. 23 /dem, p. 28.
21 /dem,
p. 75.
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que conduz inevitavelmente à traição." 24 Se o

populismo foi traição, a grande pergunta, nunca respondida, lembra com razão John French, é: por que os operários sucum- biram aos agrados dos líderes populistas, aceitando a domina- ção, e, no mesmo movimento, se dispuseram a confiar em trai-

dores?25 Portanto, ler O populismo na política brasileira é co-

nhecer um autor afinado com o contexto intelectual de seu tem- po, mas igualmente limitado por ele. Algumas vezes, personagens com tradições e práticas políti- cas distintas são tratados de maneira indiferenciada, perdendo- se, assim, especificidades e a própria historicidade dos projetos:

"entre o populismo dos demagogos e o reformismo nacionalis- ta de 1964 sempre existiram afinidades profundas de conteú- do".26 Em um Estado como esse, alega, "não há lugar de desta- que para as ideologias. Os aspectos decisivos da luta política - as formas de aquisição e preservação do poder - estão vincula- dos a uma luta entre personalidades". 27 Ao mesmo tempo que personaliza o passado histórico da sociedade brasileira, o autor dilui e, conseqüentemente, perde a especificidade dos projetos políticos em que estes líderes políticos se manifestaram. Assim, João Goulart, Leonel Brizola, Roberto da Silveira, Alberto Pasqualini, Fernando Ferrari, Lúcio Bittencout, entre outros, todos filiados a um partido político, o PTB, bem como a uma

inconsistência

24 /dem, p. 28. 27 /dem, p. 54.
24 /dem, p. 28.
27 /dem,
p. 54.

11 john French. O ABC dos operários. Conflitos e Alianças de dasse em São Paulo, 1900-1950. São Caetano do Sul. Huciteo'Prefeitura de São Caetano do Sul, 1995, p. 9 26 /dem, p. 37.

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tradição política, o trabalhismo, surgem no mesmo patamar que Jânio Quadros e Adhemar de Barros, políticos que o próprio Weffort caracteriza como fenômenos de São Paulo. 28 Eles, por sua vez, são igualados à ala direitista-golpista da UDN, como Carlos Lacerda, ao general Eurico Dutra e a Juscelino Kubitschek. Todos, segundo indicações de Weffort, surgem na mesma di- mensão porque se dirigem ao povo, sem distinguir as contradi- ções de classe contidas nesta concepção. Enfim, vários são os temas a serem explorados na coletâ- nea. No entanto, vale observar uma certa tensão ao longo dos argumentos do autor. Em alguns momentos do livro, um grupo de afirmações revela uma interlocução, uma interação, nas rela- ções entre Estado e classe trabalhadora, vistas como um proces- so legítimo:

o populismo foi, sem dúvida, manipulação de massas, mas a manipulação nunca foi absoluta. Se o fosse, estaríamos obriga- dos a aceitar a visão liberal elitista, que, em última instância, vê no populismo uma espécie de aberração da história alimentada pela emocionalidade das massas e pela falta de princípios dos líderes. Se o populismo foi manipulação, alega, "também foi um modo de expressão de suas insatisfações". 29

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Outra indicação importante, que relativiza o poder de Esta- do e resgata o papel e a atuação dos próprios trabalhadores nas relações políticas daquela época, igualmente é dada por Weffort:

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28 /dem, p. 28.

29 /dem, p. 62.

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"Grupo burguês algum é capaz, por si próprio, de inventar um político de massas. As condições de existência das massas têm também seu papel nesta invenção." 3 º As afirmações, importantes, sugerem que o populismo não foi mera manipulação de massa, de cima para baixo, mas que houve interlocução entre Estado e classe trabalhadora. No en- tanto, muitas leituras não observaram com maior cautela uma linha de reflexão que se abria. Talvez pela própria ambigüidade das idéias contidas em seus textos, as atenções voltaram-se para outro conjunto de afirmações. Weffort critica a versão liberal do populismo, cuja explicação seria a manipulação e a demago- gia dos líderes conjugadas à ignorância e ao atraso das massas. Contudo, em outros momentos, contrariando suas próprias crí- ticas à concepção liberal, o texto permite leituras bem diferen- tes. Assim, para o autor, em 1930 aparece "o fantasma do povo na história política brasileira, que será manipulado soberana- mente por Getúlio Vargas durante 15 anos". 31 Ou então as mas- sas populares constituíram a raiz do poder dos líderes populistas, "mas, nesta mesma condição, não passam de 'massa de mano- bra'. "32 Ao dar ao Estado um poder que ele, teoricamente, não alcançou, mesmo nas ditaduras mais intolerantes, surgem afir- mações bastante questionáveis: "nas formas espontâneas do populismo, a massa vê na pessoa do líder o projeto do Estado; abandona-se a ele, entrega-se à sua direção e, em grande medi- da, ao seu arbítrio". 33

30 /dem, p. 34. 31 /dem, p. 51. 32 /dem, p. 58. 33 /dem, p.
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32 /dem, p. 58.
33 /dem, p.
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Assim, as análises das relações mantidas entre Estado e clas- se trabalhadora são conduzidas sob certa tensão, sob certa am- bigüidade: ora interlocução, ora manipulação. No entanto, esta última maneira, de cima para baixo, foi a que se firmou nos estudos posteriores, ressaltando-se as passagens em que Weffort analisa de maneira mais caricatural as relações entre as "mas- sas" e os líderes "populistas": manipulação, emocionalidade, relações individuais, traição etc. Seja como for, com a teoria da modernização, as idéias do Grupo de Itatiaia, a interpretação sociológica do movimento operário e os trabalhos de Weffort, o populismo, na segunda metade dos anos 60, começou a firmar-se nas Ciências Huma- nas no Brasil. Era necessário, no entanto, situá-lo em um con- texto histórico internacional para estabelecer a noção com mai- or precisão metodológica. Assim, nos compêndios e manuais sobre o populismo na América Latina e no Brasil, invariavel- mente a introdução ou o capítulo inicial tratavam dos "antece- dentes" históricos: o leitor, desse modo, conhecia o populismo na Rússia tzarista e nos Estados Unidos no século XIX. Nova- mente, portanto, há a presença do mundo rural. Embora os contextos econômico, político, social, agrário, cultural, ideoló- gico e religioso do Brasil tenham sido diversos da Rússia tzarista, e, ambos, distintos dos Estados Unidos, o que une histórias tão diferentes é o campesinato. E onde ele está, é de se prever, tam- bém aparecem os populistas.

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Estaria a primeira versão do populismo superada? Creio que não. No primeiro semestre de 1998, em uma prestigiada escola católica na cidade de Niterói, uma aluna da segunda série do

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segundo grau recebeu de seu professor de história uma apostila resumindo a trajetória da política brasileira após 1945. Logo no início, a menina leu: "O período que se estende de 1945 a 1964 é tradicionalmente conhecido como o período do 'Populismo'." Entre aspas e em negrito, para chamar a atenção dos jovens leitores, o conceito teria algumas "características

básicas":

Como já se observou, o populismo na América Latina teve como característica básica uma intensa manipulação das massas, num momento de transição entre a economia agro-exportadora e a economia mais moderna, que começa a se instalar após a crise de 1929. Lideranças mais ou menos carismáticas disputaram o poder junto a essa massa, ora fazendo concessões (as leis traba- lhistas de Vargas são um bom exemplo), ora utilizando o povo como elemento de ataque às antigas oligarquias.

Os trabalhadores, cuja consciência social estaria a meio-ter- mo entre os padrões rurais e os vigentes na indústria, deixaram- se envolver por líderes burgueses, que, habilmente, os usaram como massa de manobra. Após aprender as dimensões teóricas do conceito, a aluna, um tanto confusa, também aprendeu com

o professor o que se seguiu na política brasileira: a democrati-

zação de 1945, o surgimento dos partidos políticos nacionais e

o governo Outra. No entanto, em 1950, surpreendentemente,

o populismo teria ressurgido. Não sem alguma ironia, os auto- res da apostila escreveram:

). Sua vitória

traduzia claramente o poder de manipulação da política

Nas eleições de 1950, Vargas voltou ao poder(

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populista: afinal, Vargas era o 'pai' dos trabalhadores brasi- leiros

Mas, entre 1963 e 1964, as lutas sociais se acirraram, conti- nua a apostila. A conclusão resume-se a um jargão, comum na literatura sobre o assunto: com o golpe militar de 1964, dizem os autores do texto em tom peremptório, "era o colapso da época populista no Brasil". Seria uma injustiça, grave a meu ver, desmerecer o trabalho desses professores. Não é esse o meu objetivo. São profissionais mal pagos, trabalhando muitas vezes em condições difíceis, sem chances de atualização ou recursos para comprar livros. Com honestidade e seriedade, fazem o melhor que podem, mas isso é o melhor que fazem. Para os professores que formam os nossos filhos, a política brasileira e as relações entre Estado e classe trabalhadora du- rante o período de 1930 a 1964 encerram um "senso comum" ' no sentido gramsciano do termo, nomeado de populismo - e em sua primeira versão, a dos anos 50 e 60. Mas seria correto afirmar que esse "senso comum" circula somente entre os pro- fessores de nível médio? Estariam eles tão desatualizados assim? Com ressalvas, creio que não. Os resultados desta primeira versão do populismo são co- nhecidos e aceitos até hoje, tanto nas apostilas de nível médio quanto na bibliografia especializada. No primeiro governo de Vargas, os trabalhadores tiveram acesso aos direitos sociais, mas não aos políticos, e, a partir de cálculos sobre suas perdas e ganhos, trocaram os benefícios da legislação por submissão po- lítica. Assim, incapazes de pensar por si mesmos, fracos diante

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das investidas ideológicas das classes dominantes, recebendo passivamente e sem críticas a doutrinação política, os trabalha- dores brasileiros oriundos do mundo rural, destituídos de tra- dições de luta, organização e consciência, passaram a idolatrar Vargas e, desde 1945, a eleger outros líderes populistas e avo-

tar no PTB.

O POPULISMO DE SEGUNDA GERAÇÃO

Na virada dos anos 70 para a década de 80, a primeira versão do populismo começou a dar mostra de esgotamento em suas hipóteses centrais. A teoria da modernização, o papel do Esta- do como elemento que organizaria as classes, o comportamen- to político da classe trabalhadora determinado por estruturas sócio-econômicas - como sua origem rural ou devido às pecu- liaridades da industrialização brasileira-, entre outros fatores, não mais satisfaziam os estudiosos. Os grandes ensaios sobre o "populismo na América Latina" tornaram-se cada vez mais ra- ros. Sociólogos e cientistas políticos, pioneiros nos estudos, pas- saram a debater com historiadores, os quais, com seus métodos de pesquisa, enfrentaram a questão. Assim, os estudos voltaram-se principalmente para as rela- ções entre Estado e sociedade na época do "primeiro governo" de Vargas. De alguma maneira, o problema que preocupou a primeira versão do populismo foi reiterado pelos novos estu- dos: em 1930, instituiu-se no Brasil um Estado de vertente au- toritária que se acentuou em 1935 e se impôs como uma dita- dura em 1937, influenciada pela experiência do fascismo euro-

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peu. As liberdades democráticas foram suprimidas, e o movi- mento operário duramente reprimido. Anarquistas, socialistas, comunistas e liberais perderam os espaços de atuação política, e

muitos deles, a própria vida. A repressão policial, a censura aos meios de comunicação, entre outros dispositivos arbitrários e discricionários, impediram qualquer movimento para as oposi- ções. No entanto, diante de um contexto político tão sufocan- te, os trabalhadores apoiaram a ditadura de Vargas. O apoio, admitem diversas tendências historiográficas, não era apenas formal, mas sincero, e o reconhecimento, a gratidão e as mani- festações elogiosas dos assalariados ao ditador dificilmente são refutados pelos estudiosos. Esse, portanto, foi o problema que

o populismo de segunda geração herdou da primeira e procu-

rou novamente enfrentar, centrando os estudos nas relações entre Estado e sociedade/classe trabalhadora entre 1930 e 1945. Para enfrentar a questão, houve, inicialmente, a recusa, pelo menos formalmente, das hipóteses centrais da primeira versão do populismo. Contudo, a recusa não foi total, tanto assim que

o texto-síntese daquela primeira versão, O populismo na políti-

ca brasileira, de Weffort, continuou a ser citado nos textos - algo que não é casual. Há uma premissa formulada por Weffort nos anos 60 que persistiu entre os historiadores da década de 80. Interrogando

ao extremo a coletânea O populismo na política brasileira à pro-

cura das razões que teriam levado os trabalhadores a apoiarem "líderes populistas", encontramos um argumento central: o populismo impôs-se pela conjugação da repressão estatal com a manipulação política, embora a chave de seu sucesso tenha sido a satisfação de algumas demandas dos assalariados. Assim, mes-

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mo que a segunda versão tenha rejeitado as premissas anterio- res - teoria da modernização, determinações sócio-estruturais nas organizações da classe trabalhadora, a influência negativa dos camponeses no meio operário, entre outras questões -, a premissa central, sugerida por Weffort, repressão, manipulação e satisfação, continuou presente, embora não exatamente da mesma maneira. Ela continuou nas análises, mas enfatizando o poder repressivo e manipulatório do governo e, no mesmo movimento, minimizando os espaços para a atuação e interven- ção dos trabalhadores e sua interlocução com o Estado. A se- gunda versão do fenômeno apropriou-se das idéias de Weffort, ressaltando as variáveis repressão e manipulação, mas subesti- mando, e muitas vezes desconhecendo, o viés da satisfação. Sur- giu, assim, o populismo na sua interpretação mais repressiva e demagógica. Neste aspecto, é importante citar uma poderosa tradição que influenciou, direta ou indiretamente, toda uma geração de intelectuais: o marxismo. O marxismo apresentou uma questão importante ao estudioso: uma ordem social não é imutável, e a sua própria reprodução propicia a sua transformação. Para um historiador, marxista ou não, a assertiva foi muito bem recebi- da. As divergências, porém, surgiram sobre a maneira e os cami- nhos que permitiriam a transformação, suscitando acalorados debates entre autores e militantes marxistas. Assim, a versão mais disseminada defendeu que a possibilidade da mudança pro- vém da capacidade dos trabalhadores de alcançarem a "verda- deira" consciência de classe, de "desvendarem" as contradições sociais, de perceberem quais seriam os seus "reais" interesses. Não é casual, desse modo, que muitas pesquisas produzidas nos

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programas de pós-graduação em História Social, a partir de fins dos anos 70, discutissem, na parte teórica dos trabalhos, a ques- tão da ideologia. Marx, Lenin, Lukács, Goldman, Althusser ou Gramsci, para citar os mais conhecidos, eram convocados em busca· de uma definição mais apropriada para o fenômeno. Afi- nal, o conceito de ideologia, compreendido na maioria das ve- zes como "falsa consciência", poderia desvendar as razões que teriam levado os operários a não se revoltarem contra ordens sociais opressoras. No campo do marxismo, um dos clássicos que marcaram uma geração foi Antonio Gramsci. Como um dos mais refina- dos pensadores marxistas, em füis dos anos 70 suas idéias entra- ram nas universidades brasileiras - período, também, em que os historiadores começaram a estudar a política brasileira após 1930, em particular o "primeiro governo" de Vargas. Foi a P~<>.­ posta teórica de hegemonia em Gramsci que mais fascinou os estudiosos na época. Não quero discutir o conceito, sabemos que ele permitiu diversas interpretações. O que importa, aqui, é a sugestão de que a dominação de uma classe social sobre outra não se impõe apenas pela força, pelo poder repressivo de Esta- do, como era comum pensar, mas que sua eficácia ocorre ao se conjugar com as instâncias "persuasivas" da sociedade. Com o pensador italiano, não foi difícil para muitos histori- adores reavaliarem a teoria do primeiro populismo. Assim, en-

tre a tríade repressão, manipulação e satisfação em Weffort e a

dicotomia repressão e persuasão em Gramsci, a última tornou- se mais atraente. Com a alteração no enfoque, pode-se dizer mesmo que houve uma regressão na maneira de se pensarem as relações entre Estado e classe trabalhadora na época de Vargas.

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Na primeira versão, ainda havia a variável satisfação, aceitando que os assalariados se beneficiaram com as políticas públicas do Estado varguista, como a legislação social, por exemplo. Na se- gunda versão, no entanto, sequer isto foi considerado. Repres- são e persuasão, ou, como é comum dizer, repressão policial e propaganda política, tornaram-se os elementos centrais para se compreender os mistérios do sucesso de Vargas entre os traba- lhadores. Surgiram, assim, diversos trabalhos a partir do início dos anos 80 sobre o Estado Novo, contribuindo, sem dúvida, para a compreensão daquela temporalidade. Muitos textos enfatizaram a repressão policial, outros acentuaram a propaganda política estatal, e alguns, de maior fôlego, ressaltaram os dois aspectos. Mas a maioria das interpretações concordavam que o populismo floresceria com sucesso em um certo tipo de Estado, autoritá- rio, que recorreria a duas práticas distintas, embora comple- mentares: a primeira, voltada para o movimento operário e sin- dical, utilizou a repressão policial mais truculenta, invadindo os sindicatos de trabalhadores, prendendo os seus líderes, espan- cando os seus militantes, cerceando as suas práticas de luta e de organização, enquadrando os sindicatos por meio de uma legis- lação controladora e restritiva e suprimindo, às vezes fisicamente, as esquerdas. O aparato repressivo, assim, ter-se-ia dedicado a eliminar os setores mais combativos da classe, aniquilando as veleidades autonomistas do movimento operário e solapando as bases do sindicalismo mais avançado. A polícia, a legislação autoritária e os tribunais de exceção teriam impedido que os trabalhadores mais organizados seguissem os caminhos "natu- rais" que os conduziriam a uma autêntica identidade política.

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Assim, derrotando os grupos organizados, o Estado, concomitantemente, teria recorrido a uma segunda prática, vol- tando as suas baterias para o "povo", ou seja, os assalariados que não conheciam as experiências do movimento sindical, os pobres e as pessoas comuns - para utilizar a linguagem dos anos 60 e 70, os "novos" operários de origem rural. Para o melhor sucesso de seus objetivos, o Estado utilizou os recursos oferecidos pelas modernas técnicas de propaganda e de doutri- nação políticas. Com extrema habilidade, o governo de Vargas teria "inculcado" nas mentes das pessoas idéias, crenças e valo- res baseados na mentira, na ilusão e na deformação ou inversão da realidade. Com o auxílio de seus "intelectuais orgânicos", o Estado teria inundado a sociedade com imagens e símbolos de exaltação ao governo, utilizando como veículos rádios, cine- mas, livros, jornais, biografias, cartilhas escolares, músicas, fes- tas, comemorações cívicas etc. Assim, eliminando os operários mais combativos, com a polícia, e manipulando o restante da população, a partir dos meios de comunicação, o Estado po- pulista teria alcançado amplo sucesso, sendo, dessa maneira, aceito como legítimo pelos trabalhadores. Não há muitas dúvidas sobre a repressão policial que se abriu a partir de 1930, se acentuou em 1935 e tornou, a partir de 1937, inviável qualquer resistência ao regime. As pesquisas de- monstram, às vezes de maneira irrefutável, o processo repressi- vo. Igualmente ficou comprovada a montagem de um comple- xo sistema de propaganda política estatal coordenado, sistemá- tico e, dentro dos recursos da época, sofisticado. O que se ques- tiona é abordar as relações entre Estado e classe trabalhadora a partir de paradigmas explicativos, ao mesmo tempo opostos e

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complementares, centrados na repressão e na manipulação, ambos surgindo como formas de violência estatal sobre os assa- lariados, física em uma dimensão, ideológica na outra. Como diz Angela de Castro Gomes, "elas são reconhecidas como fun- damentais e como pano de fundo sem o qual uma reflexão mais refinada sobre seus impactos seria impraticável. Trata-se, por- tanto, de considerá-las teórica e empiricamente insuficientes e equivocadas para dar conta do fenômeno que está sendo exa- minado, considerando-se sobretudo seus desdobramentos atra- vés do tempo". 34 Como defendi em trabalho anterior, o "mito" Vargas não foi criado simplesmente na esteira da vasta propaganda políti- ca, ideológica e doutrinária veiculada pelo Estado. Não há pro- paganda, por mais elaborada, sofisticada e massificante, que sustente uma personalidade pública por tantas décadas sem re- alizações que beneficiem, em termos materiais e simbólicos, o cotidiano da sociedade. O "mito" Vargas expressava um con- junto de experiências que, longe de se basear em promessas irrealizáveis, fundamentadas tão-somente em imagens e discur- sos vazios, alterou a vida dos trabalhadores. 35 As matrizes teóricas do segundo populismo, nos anos 80, portanto, distanciaram-se dos pressupostos defendidos nas dé-

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1997, p. 10.
1997, p. 10.

34 Angela de Castro Gomes. "Apresentação". ln Jorge Ferreira. Trabalhadores do Brasil. O imaginário popular. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas,

lSJorge Ferreira. Idem. Aliás, vale repetir uma citação do próprio Weffort, que, décadas atrás, já observara que "grupo burguês algum é capaz, por si próprio, de inventar um político de massas. As condições de existência das massas têm seu papel nesta invenção". Op. cit•• p. 34.

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cadas de 60 e 70 em diversos aspectos, mas, igualmente, resga- taram muitos de seus elementos. A noção permaneceu, contudo recebeu um tratamento mais sofisticado, atualizando-se com as tendências historiográficas do momento. No entanto, ainda na década de 80, houve tentativas de se aband.o~ar a noção de populismo. Diversos autores, evitando utilizar a expressão, passaram a ressaltar as políticas públicas de controle social implementadas pelo Estado varguista, sobretu- do no tocante ao "controle operário". Diante do avanço da mobilização dos trabalhadores desde a década de 1910, em par- ticular do movimento anarquista, e do conseqüente perigo de revoluções anticapitalistas, novas formas de dominação política foram implementadas. O poder, interpretado em um sentido mais amplo, certamente sob a influência das leituras de Michel Fo_ucault, não se limitou a agir pelas instâncias repressivas de Estado e por seus "aparelhos ideológicos". Imiscuindo-se em diversos campos do social, surgiram especialistas que formula- ram discursos "racionais'', no sentido sugerido pela chamada Escola de Frankfurt, Habermas em particular, sobre saúde, edu- cação, sexualidade, habitação, pedagogia, educação física, me- dicina, direito, entre diversos outros. O objetivo dos especialis- tas era "conhecer" o operário. E, conhecendo-o, "controlá-lo". Desqualificados em seu próprio saber, destituídos de legitimi- dade para falarem por si mesmos e pela sociedade, os trabalha- dores deixar-se-iam dominar por um saber racional, porque ci- entífico, e, logo, apresentado como verdadeiro. A ordem social, assim, não ficaria mais sob os auspícios da política, pois um saber técnico e científico, portanto neutro, deveria tomar o seu lugar. Os discursos racionais e científicos, revestidos de toda

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uma eficácia técnica, teriam elaborado variadas formas de co- nhecimento especializado. Fundamentados na competência téc- nica, eles começaram a tomar corpo e forma nos anos 20 para invadirem todas as dimensões da sociedade nos anos 30. O enfoque do "controle operário" surgiu como alternativa ao binômio repressão-propaganda, centrando a análise na efi- cácia do poder baseado no argumento da racionalidade e da técnica. Contudo, a abordagem, sabemos hoje, não foi tão al- ternativa como se pensava. Afinal, a repressão policial e a pro- paganda política tinham por objetivo a adesão dos trabalhado- res e, portanto, o próprio controle. Sobretudo com a recepção da História Cultural no Brasil, percebeu-se que não há por que acreditar em uma relação sem mediações entre as idéias erudi- tas e populares, que há um lapso entre a intenção de controlar e o efetivo controle, que o poder dos poderosos não é tão pode- roso assim. Sem negar os recursos utilizados pelo Estado após 1930, ou ainda nos anos 20, para controlar a classe trabalhado- ra e racionalizar a sua própria existência a partir de critérios técnicos e "científicos", tornou-se necessário relativizar o enfoque a fim de se evitar uma abordagem totalizadora, suge- rindo estruturas capazes de diluir a existência de sujeitos políti- cos e sociais incapazes de superá-las. Os mecanismos de "con- trole operário" foram implementados, mas sua atuação e eficá- cia eram limitadas pela própria cultura da classe trabalhadora. Seja como for, as insatisfações permaneceram. Os enfoques baseados no binômio repressão-propaganda ou no controle, que necessariamente não se opunham, pareciam insuficientes. Era preciso explicar, de maneira mais incisiva e contundente, o su- cesso de Getúlio Vargas entre os trabalhadores. Para alguns au-

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tores, poucos na verdade, as explicações que ressaltavam a pro- paganda política, a repressão policial e o controle social não estariam necessariamente equivocadas, apenas não foram às úl- timas conseqüências. A repressão estatal e a propaganda políti- ca no governo Vargas, portanto, sofreram uma leitura radical. Assim, ainda nos anos 80, e mesmo no início da década se- guinte, as alternativas ao populismo não tardaram a chegar. Afi- nados com os esquemas sociológicos dos teóricos do totalitaris- mo, historiadores aproximaram o governo Vargas dos regimes de Hitler e Stalin. Multiplicando em muitas vezes a capacidade da repressão policial, até elevá-la à categoria de terror generali- zado, e ampliando ao máximo a eficácia da propaganda políti- ca, comparando-a às práticas nazistas e stalinistas, Vargas pas- sou a ser definido como um líder totalitário. A inovação é apa- rente e equivocada: novamente a repressão e a propaganda, como pressupostos centrais da análise, permanecem inalteradas. 36 É curioso observar, neste aspecto, como a teoria sociológica do totalitarismo seduziu muitos historiadores brasileiros. Em- bora os especialistas da história do socialismo, no Brasil e no exterior, recusem a expressão, 37 os debates sobre o caráter tota-

a expressão, 3 7 os debates sobre o caráter tota- 3 6 Jorge Ferreira. Op. cit.,

36 Jorge Ferreira. Op. cit., p. 15. 3 7Na coleção História do marxismo, organizada por Eric Hobsbawm, bem como na coletânea História do marxismo no Brasil, não há um único especi- alista que adote a teoria do totalitarismo. Na avaliação de Martin Malia, a teoria do totalitarismo baseia-se em classificações estáticas, com forte ten-

dência a abstrações atemporais. La tragédie soviétique. Histoire du socialisme

en Russie. 1917-1991. Paris, Éditions du Seuil, 1995, p. 24. Ao dar excessivo poder às técnicas de propaganda e ao terror político, a teoria do totalitarismo desvia a atenção do estudioso para a colaboração da própria sociedade ao regime, da cumplicidade que se estabeleceu entre Estado e socied;ide.

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litário ou não do Estado Novo, como lembra Maria Helena Capelato, geraram algumas polêmicas. 38 Para Marc Ferro, 39 é inquietante, na verdade, o processo de banalização do nazismo com a vulgarização da teoria do totali- tarismo, particularmente se considerarmos a contribuição dos próprios estudiosos do assunto. Se antes da Segunda Guerra somente os regimes de Hitler e Mussolini se definiam dessa maneira, após 1945 o conceito se estendeu também para a União Soviética. 4 °Com Carl Friedrich, Zbigniew Brzezinski e, sobre- tudo, Erns Nolte, 41 diz Ferro, a equiparação dos campos de ex- termínio nazistas com os gulags soviéticos encobriu o racismo, um dos pontos básicos da política hitlerista. Em vários estudos, a conclusão, surpreendente, é a de que o nazismo, como uma

1988.

18 Veja Maria Helena Rolim Capelato. Op. cit., pp. 197 e seguintes.

19 Marc Ferro. História da Segunda Guerra Mundial. São Paulo, Ática, 1995.

40 No caso soviético na época de Stalin, diz Eric Hobsbawm, apesar de brutal, burocrático e terrorista, o sistema soviético não foi totalitário. O romance 1984, de George Orwell, sugeriu a imagem de uma sociedade totalitária, vítima de lavagens cerebrais, onde ninguém escapava do olho vigilante do poder. "Isso é sem dúvida o que Stalin teria querido alcançar", diz o autor. A maioria dos soviéticos, continua o autor, não se importava com as declara- ções sobre política e ideologia marxista-leninista vindas do líder e do parti- do, desde que elas não atingissem seu cotidiano e sua vida comum. Somente

os intelectuais e, certamente, os militantes filiados ao PCUS levavam a sério a teoria "científica" do socialismo soviético. O sistema, afirma Hobsbawm, "não exercia efetivo 'controle da mente', e muito menos conseguia 'conver-

)",embora

despolitizasse e aterrorizasse a sociedade.

são do pensamento' (

Era dos extremos. O breve século XX. 1914-1991. São Paulo, Companhia das

Letras, 1995, pp. 383-384.

41 Carl Friedrich e Zbigniew Brzezinski. Totalitarian dictatorship andautocracy.

Cambridge, Harvard University Press, 1956; Ernst Noite. Nazionalismo e e

bolscevismo: la guerra civile europea 1917-1945. Florença, Sansoni Editora,

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forma extremada do fascismo, surgiu em reação ao "totalitaris- mo" soviético e, para se defender, foi obrigado a imitá-lo nos genocídios. Contradição flagrante, diz Ferro. Na impossibilida- de de negar a existência das câmaras de gás, embora tivessem a ousadia, as interpretações "revisionistas" e "negacionistas" do nazismo responsabilizaram a URSS pelos grandes massacres e, por essa brecha, desculpabilizaram a política nazi, apresentan- do exemplos variados de genocídios: nas colônias européias, no faroeste norte-americano ou nas ditaduras dos países pobres, entre outros exemplos, os extermínios de populações inteiras também aconteceram. Chega-se, portanto, ao estágio avançado de normalização do nazismo - no Brasil, por exemplo, teria sido o caso do Estado Novo, um regime supostamente "totalitá- rio". Para o autor, definir o III Reich como "fascista" ou por generalizações como "totalitário" é encobrir a característica central do regime: o ódio racial e o projeto de dizimação em massa não somente de judeus, mas também de eslavos, ciganos, deficientes físicos, cardíacos, entre outros. 42 Assim, insiste com razão o autor, "identificar o terror hitlerista ao terror da URSS corresponde a fazer tábula rasa da especificidade do racismo, que constituiu um dos pontos básicos da política nazista de exter- mínio". Tal equiparação, segundo Ferro, contribui para o proces- so de banalização do nazismo no mundo atual. 43 A excessiva vul- garização do termo, portanto, minimiza o nazismo e, no mesmo movimento, dilui os horrores perpetrados pelo III Reich.44 Trata-se, portanto, de uma falsa questão discutir se o gover-

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41 Marc

Ferro. Op. cit.

Ferro. Idem., p. 175.

44 Marc Ferro. Idem.

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no Vargas foi, ou não, "totalitário". O que deve ser questiona- do, como vem ocorrendo entre os especialistas da história do socialismo, é a própria teoria sociológica do totalitarismo. As vertentes do populismo de segunda geração - a aborda- gem que privilegia o binômio repressão-propaganda, a teoria do controle social e o enfoque totalitário - têm em comum uma maneira de abordar as relações entre Estado e sociedade/ classe trabalhadora. Como em uma via de mão única, de cima para baixo, à luz do enfoque opressor e oprimido, o Estado, todo-poderoso, pela violência física e ideológica, domina e sub- juga a sociedade, os trabalhadores em particular, surgindo, des- se modo, uma relação destituída de interação e interlocução entre as partes. O Estado, com um poder désmedido, "total" em algumas versões, transforma a sociedade em elemento passi- vo, inerte e vitimizado. Assim, no Brasil, em 1930, 1935 ou certamente em 1937, os governantes, armados com variados dispositivos "simbólicos" de dominação ideológica, em alguns casos psicológica, teriam tido a capacidade de manipular, por meio de imagens e representações, as emoções e a sensibilidade das pessoas, dominando, inclusive, as suas mentes. As delações que ocorreram na época do Estado Novo, por exemplo, comprovariam a capacidade do poder estatal de pressi- onar os indivíduos, deixando-os tensos, apreensivos e inseguros. Muitos teriam escrito cartas a Vargas, ao Dops ou à polícia de- nunciando os opositores do regime porque se encontravam ate- morizados, ou aterrorizados, com as supostas ameaças <los inimi- gos, reais ou fictícios, ao governo e, portanto, à ordem social. Na época do "primeiro governo" Vargas, muitas foram as denúncias deste tipo, e, hoje, facilmente as encontramos no

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Arquivo Nacional ou nos arquivos do Dops. São delações de que o vizinho era integralista ou comunista; as famílias alemãs não falavam português; o comerciante da esquina estocava ali- mentos; o fulano era um conhecido agiota. Todas as denúncias eram seguidas de nomes e endereços. Supor que as pessoas de- latavam as outras por pressões "simbólicas" do Estado é ter como premissa que a sociedade, em seu estado "normal", seria "boa", mas, ao ser corrompida moralmente pelos governantes do Esta- do Novo, ter-se-ia transformado em um bando de delatores. Mais difícil, repito, é compreender que a sociedade, em si mes- ma, não era tão "boa" e isenta de culpas, e que nela circulavam preconceitos contra judeus; manifestavam-se rancores contra alemães e japoneses, sobretudo durante a Segunda Guerra Mun- dial; existiam pessoas com horror dos comunistas ou dos integralistas; encontravam-se alguns que queriam punir o co- merciante da esquina desmedido em seus lucros; havia outras que desejavam livrar-se das dívidas com o agiota - e, em alguns casos, mais raros, do próprio marido. Se havia uma ditadura que se mostrava disposta a ajudá-las, o caminho ficava mais fá- cil. Em outras palavras, as relações entre Estado e sociedade não eram de mão única, de cima para baixo, mas, sim, de interlocução, de cumplicidade. Sobre as vertentes que insistem em vitimizar a sociedade, retomo, aqui, as idéias de José Murilo de Carvalho, que nos adverte sobre os perigos de se tratar uma relação de maneira maniqueísta, "segundo a qual o Estado é apresentado como vi- lão e a sociedade como vítima indefesa" e que, portanto, "a inexistência da cidadania é simplesmente atribuída ao Estado". Insatisfatória, como todas as que trabalham com dicotomias para

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explicar fenômenos sociais, essa perspectiva, em termos teóri- cos, separa partes de um mesmo todo. Mais ainda, diz o autor, "o maniqueísmo inviabiliza mesmo qualquer noção de cidada- nia, pois, ou se aceita o Estado como um mal necessário, à ma- neira agostiniana, ou se o nega totalmente, à moda anarquista. Na prática, ele acaba por revelar uma atitude paternalista em relação ao povo, ao considerá-lo vítima impotente diante das maquinações do poder do Estado ou de grupos dominantes. Acaba por bestializar o povo". Para o autor, "é mais fecundo ver as relações entre o cidadão e o Estado como uma via de mão

dupla, embora não necessariamente eqm 1 ra a . As abordagens que privilegiam o poder estatal nas relações entre Estado e classe trabalhadora a partir de 1930 não se afas- taram, no fundamental, das mesmas preocupações políticas que intrigaram líderes, teóricos e militantes de esquerda desde o século XIX: se a classe operária tem um caminho a seguir e um destino a cumprir, se sua vocação é elaborar uma identidade política autônoma, como, então, ela se submete politicamente e segue líderes "populistas" ou "totalitários"? A resposta, garan- tia o marxismo mais vulgarizado, não era difícil: por meio da repressão aberta e dos efeitos mistificadores da ideologia, as

classes dominantes garantiam e reproduziam o seu poder. AI~~:

mas, mais tarde, levando ao extremo o conceito gramsciano d~ hegemonia, acreditaram mesmo que somente os intelectuais marxistas teriam a capacidade de superar as ilusões fabricadas pela ideologia burguesa. 46

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45 José Murilo de Carvalho. Op. cit., PP· 10-11.

1 46 Jorge Ferreira. Op. cit., p. 15.

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A história da classe trabalhadora no Brasil, sobretudo com a ascensão de Vargas ao poder, reduz-se, assim, a uma espécie de "conspiração" das classes dominantes, sempre criadoras de dis- positivos ideológicos, mecanismos eficientes de controle social, meios habilíssimos de propaganda política, instrumentos sutis de doutrinação das mentes, entre outros meios para manipular, dominar e desvirtuar os assalariados de seus "reais" e "verda- deiros" interesses. Estranha classe operária, no Brasil e nos pa- íses de capitalismo avançado. Forte o suficiente para revolucio- nar o planeta, mas "enganada" por qualquer líder "populista", "totalitário" ou "traidor" que apareça no seu caminho. Como diz Barrington Moore Jr., não importa de onde venham as in- terpretações, moderadas ou revolucionárias, a história da luta dos trabalhadores por suas conquistas confunde-se com "a his- tória da domesticação do proletariado". 47

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DE GRAMSCI A GINZBURG, DE FOUCAULT A THOMPSON

Em meados dos anos 80, muitos historiadores brasileiros adota- ram, em ritmos e graus variados, a literatura de autores identifi- cados com a história cultural. Muito resumidamente, as análises negam que as classes dominantes tenham o monopólio exclusi- vo da produção de idéias. Os trabalhadores, os camponeses e as pessoas comuns também produzem suas próprias crenças, valo- res e códigos comportamentais, o que, no conjunto, convencio-

1 4 'Barrington Moore Jr. Iniustiça. As bases sociais da obediência e da revolta.

São Paulo, Brasiliense, 1987, p. 245.

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