Você está na página 1de 18

Apostila – Filosofia – 7º EF – 1º Bimestre

Aula 1: Introdução à lógica

Relembrando: o que é a filosofia?

Podemos dizer que a filosofia surge quando os seres humanos começam a exigir
provas e justificações racionais que validem ou invalidem as crenças cotidianas. Por
que racionais? Em primeiro lugar, porque racional significa argumentado, debatido e
compreendido; em segundo lugar, porque racional significa que, ao argumentar, e
debater, queremos conhecer as condições e os pressupostos de nossos pensamentos e os
dos outros e; em terceiro lugar, porque racional significa respeitar certas regras de
coerência do pensamento para que um argumento ou um debate tenham sentido,
chegando a conclusões que podem ser compreendidas, discutidas, aceitas e respeitadas
por outros.

A primeira característica desta atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não


aos “pré-conceitos”, aos “pré-juízos”, aos fatos e às ideias das experiências cotidianas,
ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido. A segunda característica da atitude
filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que das coisas, as ideias, os fatos,
as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação
sobre o porquê e o como disso tudo e de nós próprios. “O que é?”, “Por que é?”, “Como
é?”. A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos
de atitude crítica. Por que “crítica”? A palavra crítica vem do grego e possui três
sentidos principais: 1) capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente; 2)
exame racional de todas as coisas sem preconceito e sem prejulgamento; 3) atividade de
examinar e avaliar detalhadamente uma ideia, um valor um costume, um
comportamento, uma obra artística ou científica. A atitude filosófica é uma atitude
crítica a qual, como se observa, é inseparável da noção de racional, que vimos acima.

Considerando estas características gerais da filosofia, podemos perceber que


muitas características que são atribuídas à prática científica são, na verdade,
características filosóficas. A busca pela verdade, pensamento racional, procedimentos
especiais para conhecer fatos, aplicação prática de conhecimentos teóricos, correção e
acúmulo de saberes: esses objetivos e propósitos das ciências não são científicos, são
filosóficos e dependem de questões filosóficas.
Primeiro contato com a lógica

A lógica se dedica ao estudo dos conceitos de prova e verdade. Um dos objetivos


da lógica é determinar se a argumentação utilizada por alguém para se chegar a uma
certa conclusão é válida ou não. A lógica tem sido utilizada em todas as áreas da
ciência: exatas, biológicas e humanas. É de uso comum por parte do matemático, do
cientista da computação, do engenheiro, do advogado, do biólogo, do historiador, etc...

Vimos que a atitude filosófica implica um uso racional do argumento, em que é


preciso: 1) provar a sua opinião; 2) fundamentar a sua opinião e; 3) dar sentido à sua
opinião. Estas três atitudes não estão apenas embasadas no uso racional do argumento,
mas em seu uso lógico. A lógica, neste sentido, é o exercício de encadear um
pensamento de maneira racional, a partir das atitudes filosóficas que vimos na última
aula, para que uma opinião possa ser comprovada como verdade.

ATIVIDADE

1- O que quer dizer a palavra crítica?

2- Quais são as três principais perguntas que caracterizam a atitude filosófica?

3- Por que a atitude filosófica é racional?

4- Por que a lógica é uma atitude filosófica?

Aula 2: Lógica e Filosofia

Vimos que a lógica é o exercício de encadear um pensamento de maneira


racional, a partir das atitudes filosóficas, para que uma opinião possa ser comprovada
como verdade.

O uso da lógica na filosofia exerce um papel fundamental, pois é através da


lógica que os filósofos reconhecem uma proposição filosófica, uma tese ou uma teoria
como verdadeira ou falsa, boa ou má. Ora, sempre houve boas e más teorias, seja qual
for o problema que procuram resolver. As teorias dos filósofos não podem constituir
exceção. Assim, também há boas e más teorias filosóficas. Mas, como é óbvio, apenas
estamos interessados nas boas teorias filosóficas. Por isso se torna crucial saber
distinguir as boas das más teorias. Há duas maneiras de avaliarmos teorias, para
procurarmos saber se são boas ou más: 1) podemos procurar saber se a teoria resolve o
problema que pretendia resolver, e se essa solução é aceitável; 2) podemos procurar
saber quais são os argumentos em que essas teorias se apoiam e verificar se tais
argumentos constituem boas razões a favor daquilo que nelas se defende.

No caso dos filósofos, conhecer os argumentos que sustentam as suas teorias é


ainda mais importante do que noutros casos. Isso é assim porque os problemas da
filosofia são problemas de carácter conceptual e não empírico. Dificilmente acontece,
com base em factos empíricos, mostrar que uma teoria filosófica é verdadeira ou falsa,
ao contrário do que se verifica com muitas teorias científicas. Não há factos empíricos
que mostrem que Deus existe ou não existe; mas a teoria segundo a qual existe vida em
Marte pode ser refutada ou confirmada pelos factos. Daí que o valor de uma teoria
filosófica, mais do que qualquer outro tipo de teoria, dependa essencialmente dos
argumentos que a sustentam.

Não podemos, pois, saber se uma teoria é boa se não soubermos avaliar a
qualidade dos seus argumentos. Esse é, precisamente, o nosso objectivo ao estudar
lógica.

ATIVIDADE

1- Como reconhecemos a validade de uma teoria ou proposição filosófica?


2- Qual é a importância dos argumentos de um proposição para sua validade como
verdade?
3- De que modo a lógica pode servir para avaliar a validade dos argumentos de
uma proposição?

Aula 3: Elementos da Lógica: abstração, conceito e racionalidade.

Alguns elementos constituem o pensamento lógico como o argumento, a


proposição e o conceito. Entretanto, entender estes elementos requer atenção e cuidado,
pois são elemento essenciais para que um pensamento possa ser entendido como
racional e filosófico. Alguns desses elementos são a abstração, o conceito e a
racionalidade de um pensamento lógico.

1- A Abstração
Exemplo: “Todo homem é um ser social” (Aristóteles)

Vocês saberiam reconhecer as abstrações deste enunciado? Ora, quando


Aristóteles se refere ao conjunto de seres humanos existentes pela palavra homem, ele
procede por abstração, isto é, identifica, por uma mesma expressão, toda a diversidade
de pessoas existentes em nosso mundo. Quando lemos, então, “Todo homem é um ser
social”, sabemos que Aristóteles se dirige também às crianças, aos velhos, às mulheres
etc., e sabemos isto porque entendemos qual foi o processo de abstração filosófica feita
por Aristóteles.

Neste sentido, a abstração é a capacidade de generalizar e reduzir em uma


palavra vários aspectos de nossa realidade.

2- O Conceito

E como se chama esta palavra que usamos para generalizar e reduzir vários
aspectos da realidade, ou seja, que usamos para realizar a abstração: esta palavra é o
conceito. Usamos os conceitos quando queremos caracterizar vários aspectos de nossa
realidade que possuem alguma coisa em comum em uma única palavra.

Alguns exemplos de consceitos bem conhecidos são: animal, vegetal, criança,


escola, carro etc.

Ora, sabemos que existem vários animais diferentes, várias escolas distintas e
muitos modelos de carros, mas, quando no referimos a eles de modo geral e dentro de
uma proposição filosófica usamos os conceitos, para dar conta de toda estas variedade.
Só existe pensamento lógico a partir do uso da abstração e do conceito.

3- A Racionalidade

Outro aspecto da lógica é o pensamento racional. Ou seja, o pensamento, como


já vimos, precisa ser argumentado, debatido e compreendido e, para isto, precisa
respeitar certas regras de coerência do pensamento para que um argumento ou um
debate tenham sentido, chegando a conclusões que podem ser compreendidas,
discutidas, aceitas e respeitadas por outros.

Em suma, o pensamento lógico precisa ser racional, e sempre parte da abstração


e do conceito.
ATIVIDADE

Desafios de Lógica. Para cada proposição abaixo, identifique se suas conclusões são
lógicas, isto é, se seus argumentos e se suas conclusões são validadas como proposições
lógicas:

“Tenho certeza de quem é meu pai,


Não tenho certeza de quem é o homem mascarado,
Logo, meu pai não é o homem mascarado”.

“Todos os homens são mortais,


Sócrates é um homem,
Logo, Sócrates é mortal”.

Aula 4: Elementos da lógica: argumento e proposição


O que é um argumento?

Podemos começar por dizer que um argumento é um conjunto de frases. Só que


não se trata de um qualquer conjunto de frases. O seguinte conjunto de frases, por
exemplo, não é um argumento:

Gosto do Algarve por causa do clima, do Alentejo por causa do silêncio e do


Alto Douro por causa da paisagem. E se nas próximas férias desse uma volta
pelo país?

Para que um conjunto de frases constitua um argumento tem de haver entre elas
uma certa relação, de tal modo que uma, e só uma, se apresente como conclusão e que
todas as outras sirvam como razões para obter essa conclusão. As frases, ou afirmações,
que oferecemos como razões chamamos premissas, podendo haver uma ou mais
premissas num argumento; a afirmação que daí obtemos, fazendo apelo às premissas,
chamamos, como se viu, conclusão. Eis um exemplo de um conjunto de frases que é um
argumento:
Se os filósofos têm sempre razão, então não vale a pena discutir o que dizem,
porque se têm sempre razão não temos nada para criticar e se não temos nada
para criticar não vale a pena discutir o que dizem.

Neste conjunto de frases há uma delas que é a conclusão e duas outras que são
premissas. Perante um argumento, a primeira coisa a fazer é um trabalho de
interpretação, identificando a conclusão e as premissas (ou premissa, caso haja apenas
uma). Um argumento, contudo, não é constituído por qualquer tipo de frases. Só as
frases que exprimem proposições podem fazem parte dos argumentos.

O que é uma proposição?

Acabamos de afirmar que só um certo tipo de frases exprime proposições.


Embora talvez todas as proposições se possam exprimir por meio de frases, há frases
que não exprimem proposições. As frases seguintes não exprimem proposições:

 Que horas são?


 Tira os pés da mesa!

 Ser sempre corajoso.

 Quem me dera saber lógica.

 Prometo que amanhã vou à praia contigo.

Estas frases não exprimem proposições porque não são frases declarativas. Ou
seja, não afirmam nada; exprimem apenas promessas, desejos, ordens e perguntas. Por
isso não estamos em condições de dizer se são verdadeiras ou falsas. Diz-se que não têm
condições de verdade. Assim, as frases declarativas são todas as frases, e só essas, que
têm condições de verdade. Donde se excluem todas as frases que, como acontece nos
exemplos anteriores, exprimem promessas, desejos, ordens e perguntas. As seguintes
frases podem ser verdadeiras ou falsas, e portanto têm condições de verdade:
 São seis horas da tarde.
 Alguém disse ao Paulo para tirar os pés da mesa.

 Nós somos sempre corajosos.

 Gosto de aprender lógica.


 Prometi à Carla que amanhã vou à praia com ela.

Saber se uma frase é declarativa ou não torna-se fácil, embora haja frases muito
semelhantes em que uma é declarativa e outra não. Eis um exemplo, em que a primeira
é uma frase declarativa e a segunda não é:
 Rui está na sala.
 O Rui está na sala?

É claro que podemos ter dúvidas ou nem sequer saber se algumas daquelas frases
são verdadeiras ou falsas. Mas, apesar das nossas dúvidas, e quer saibamos ou não, elas
hão-de ser verdadeiras ou falsas. Quer dizer, elas têm um valor de verdade. A frase “são
seis horas da tarde” proferida às nove da manhã é falsa e proferida às seis da tarde é
verdadeira. Não deixa, contudo, de ter um valor de verdade. Assim como a frase “gosto
de aprender lógica”, proferida por umas pessoas pode ser verdadeira e por outras falsa.
Mas tem de ser verdadeira ou falsa.

ATIVIDADE

Identifique as premissas e as conclusões dos argumentos a seguir. Em seguida, indique o


valor de verdade de cada uma das proposições que formam os argumentos, afirmando se
são verdadeiras ou falsas.

“Picasso era pintor,


Eu sou pintor,
Logo, eu sou Picasso.”

“Quando vou à praia e tomo banho de mar, leio um livro


Porém, não tenho um livro que possa levar à praia
Logo, tomo um banho de mar em minha própria casa.”

“Platão era filósofo,


Platão nasceu em Atenas,
Logo, Platão era um filósofo ateniense.”

Aula 5: Elementos da lógica: validade

O que é validade?
Dizemos frequentemente que uma ideia, uma pessoa ou uma iniciativa são
válidas. Com isso queremos dizer que tal pessoa, tal ideia ou tal iniciativa são boas ou
úteis, ou que têm um certo valor. Isso é o que acontece na linguagem comum. Em lógica
e filosofia, porém, o termo validade tem um significado diferente e muito preciso, que
já veremos qual é. Antes disso, há uma ideia que tem de ficar bem clara. Essa ideia é a
da distinção entre verdade e validade; distinção fundamental em lógica e filosofia.
De uma proposição dizemos que é verdadeira ou falsa. Mas de um argumento,
que é formado por várias proposições, já não podemos dizer que é verdadeiro ou falso.
Isso seria um erro enorme. Algumas pessoas pensam que se um argumento é um
conjunto de proposições e como as proposições são verdadeiras ou falsas, assim
também os argumentos podem ser verdadeiros ou falsos. Isso seria o mesmo que dizer
que um conjunto de pessoas é alto porque é formado por pessoas altas. As pessoas
podem ser altas ou baixas, mas os conjuntos (sejam eles de pessoas ou de outra coisa
qualquer) não são altos nem baixos. Se, como se verá, o mesmo argumento pode conter
proposições verdadeiras e falsas, por que razão afirmaríamos que esse argumento é
verdadeiro em vez de falso, ou vice-versa? Aquilo que, primeiramente, nos interessa
num argumento é saber se a conclusão se segue das premissas. No caso de isso
acontecer estamos perante um argumento válido. Caso contrário, estamos perante um
argumento inválido. O seguinte argumento é claramente válido:
Todos os espanhóis são toureiros.
Bill Clinton é espanhol.
Logo, Bill Clinton é toureiro.
Ao analisar este argumento, a diferença entre verdade e validade torna-se clara.
É fácil verificar que tanto as premissas como a conclusão são falsas. Contudo, a
conclusão segue-se das premissas. Por isso o argumento é válido. Falamos de verdade e
falsidade quando referimos as premissas e a conclusão e falamos de validade ou
invalidade quando referimos o próprio argumento. Veja-se agora o seguinte argumento
claramente inválido:
Todos os portugueses são europeus.
Luís Figo é europeu.
Logo, Luís Figo é português.
É muito fácil verificar que se trata de um argumento inválido, bastando substituir
o nome de Luís Figo por outro nome como, digamos, Tony Blair, mas mantendo tudo o
resto. E, apesar de ser um argumento inválido, todas as proposições que o constituem
são verdadeiras. Só que a conclusão não é sustentada pelas premissas.

Mais uma vez se diz que um argumento é válido ou inválido consoante a sua
conclusão se segue ou não das premissas, sejam elas verdadeiras ou falsas. Mas esta é
ainda uma forma imprecisa de dizer o que é a validade. Existe, contudo, uma definição
explícita de “argumento válido”. Assim, diz-se que um argumento é válido se, e só se, é
logicamente impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa. Sabemos agora
exactamente o que procurar num argumento para saber se é válido ou não. Tudo pode
acontecer com um argumento válido, menos uma coisa: ter premissas verdadeiras e
conclusão falsa. Mas isto não significa que o argumento é válido desde que não tenha
premissas verdadeiras e conclusão falsa. Não basta que não tenha as premissas
verdadeiras e a conclusão falsa; é necessário que isso seja impossível de acontecer.
Repare-se no meu último exemplo: não acontece ele ter as premissas verdadeiras e a
conclusão falsa, até porque premissas e conclusão são todas verdadeiras. Mas se no
mesmo argumento substituirmos, como atrás sugeri, o nome de Luís Figo pelo de Tony
Blair, o que acontece? Acontece que as premissas continuam verdadeiras mas a
conclusão é falsa. E essa é a única coisa que não pode acontecer num argumento válido.
Portanto, é inválido.

ATIVIDADE

Semelhante à atividade da última aula, identifique a validade dos argumentos a seguir,


independentemente se suas proposições forem verdadeiras ou falsas:

“Picasso era pintor,


Eu sou pintor,
Logo, eu sou Picasso.”

“Quando vou à praia e tomo banho de mar, leio um livro


Porém, não tenho um livro que possa levar à praia
Logo, não posso ir à praia poruqe não tenho um livro.”

“Platão era filósofo,


Platão nasceu em Atenas,
Logo, Platão era um filósofo ateniense.”
Aula 6: paradoxo, aporia e falácia

Vimos que, para um argumento ser considerado válido ou inválido sua conclusão
deve ser resultado de suas premissas, não importando que premissas e conclusão sejam
verdadeiras ou falsas. Ainda que todo o argumento seja construído com proposições
falsas, se sua conclusão decorrer de suas premissas, ainda assim este argumento pode
ser considerado válido. Contudo, há alguns casos em que o argumento se torna inválido,
ou seja, que não há uma construção lógica de suas proposições. Veremos, nesta aula,
três destes casos, que são os mais conhecidos: o paradoxo, a aporia e a falácia.

O que é o paradoxo?

O paradoxo é uma sentença, um argumento, que pode parecer como um


argumento válido, mas leva a uma contradição lógica. Geralmente se dirige contra o
senso comum, isto é, contra aquilo que geralmente é aceito como verdade e como
lógico. Vemos esta função na própria composição da palavra “paradoxo”:

 (Para-): contrário, alterado, oposto de;

 (-doxa): opinião.

O paradoxo não é uma ferramente importante apenas para a lógica, mas também
para a filosofia moral, em suas proposições filosóficas e no modo de construir seus
argumentos. Observe o exemplo a seguir:

“Temos que amar o nosso próximo,


Assim como devemos fazer para o próximo aquilo que esperamos para nós,
Mas meu próximo está tentando me fazer mal, devo ainda amá-lo?”

Preste atenção na contradição que há entre as duas premissas e a conclusão.


Ambas as premissas são recomendações morais verdadeiras. Entretanto, na situação em
que se encontra o locutor desta sentença, as premissas indicam ações opostas perante
esta situação. A primeira premissa “temos que amar o nosso próximo” indica que o
locutor deve, mesmo seu próximo tentando lhe fazer mal, ainda amá-lo acima de
qualquer coisa. A segunda sentença, entretanto, indica que o locutor deve devolver a
mesma ação que seu próximo lhe impõe, pois “devemos fazer para o próximo aquilo
que esperamos para nós” e, quando um próximo lhe faz mal, isto indica que ele espera
que o locutor também lhe faça algum tipo de mal. Na conclusão vemos o locutor da
sentença em uma situação de contradição que é característica do paradoxo.

O que é Aporia?

A aporia é um impasse ou uma contradição que impede que o sentido de um


texto ou de uma sentença seja determinado. Diferentemente do paradoxo, em que a
alteração de alguma das proposições do argumento ou da sentença pode desfazer a
contradição, no caso da aporia não há solução lógica para o problema.

Podemos observar um exemplo lógico de aporia, que é o problema das metades:

|_______________________________|________________|_______________|
A C D B
-1m-

Imagine que para percorrer a distância que vai do ponto A até o ponto B, que é
de 1 metro, você possa caminhar apenas a metade da distência restante. No ponto inicial
A, a metade da distância restante para chegar até B é de 50cm. Após percorrer esta
distância, concluimos que, no novo ponto de partida C, a metade da distência restante
para chegar até B será de 25cm. Percorrida esta nova distância, no novo ponto de
partida D, a metade da distância restante para chegar até B será de 12,5cm. Assim por
diante, percorrendo sempre a metade da distância restante para chegar até B, nunca se
chegará, dentro deste sistema lógico, até o ponto B. Sempre faltará a metade da
distância, independentemente do ponto de partida, para se chegar até B.

O que é a Falácia?

A falácia, por sua vez, não impede a solução de uma sentença ou de um


argumento, como no caso da aporia. A falácia é um argumento inconsistente, inválido e
falho na capacidade de provar o que alega.

Podemos citar alguns exemplos lógicos de casos de falácia:

“Precisamos estudar porque é preciso”

“Para serem livres, obedeçam a mim”


Vemos, neste casos, que ambas as conclusões das sentenças não são boas o
suficiente para validar os argumentos. No primeiro caso, há a tentativa de justificar a
afirmação usando a própria afirmação. No segundo caso, há a tentativa de definir um
termo (liberdade) pela sua contradição (obediência a uma autoridade). Ambos os casos
são, então, casos de falácia.

ATIVIDADE:

1- Observe as sentenças e e responda as questões a seguir levando en conta o que


você aprendeu sobre paradoxo:

a) Temos sempre que falar a verdade. Mas e quando um mentiroso diz “eu sou um
mentiroso”, ele está mentindo ou falando a verdade?

b) Quando estamos sozinhos e falamos com alguém ao telefone, continuamos


sozinhos ou passamos a estar acompanhados?

2- Construa uma sentença que contenha um exemplo de um paradoxo, aporia ou


falácia. Justifique sua sentença apontando em que sentido ela pode ser
considerada como dentro de alguns destes casos.

Aula 7: A lógica e a filosofia: a lógica aristotélica

Os limites deste texto não permitem expor de forma detalhada muitos pontos
importantes da visão aristotélica do conhecimento. Mas não poderíamos deixar de dizer
uma palavrinha sobre a lógica aristotélica. Antes de Aristóteles não houve nenhum
filósofo que se preocupasse com a formalização de regras que pudessem garantir a
validade de raciocínios e argumentos. Este é propriamente o objeto da lógica. Para
Aristóteles era mais desafiante encontrar uma forma de organizar a massa de dados do
conhecimento do que propriamente reuni-los. Nesse sentido, Aristóteles percebeu que se
fazia necessária uma classificação dos conhecimentos: ele dividiu as ciências em
teóricas (matemática, física e metafísica), práticas (ética e política) e produtivas
(agricultura, metalurgia, culinária, pintura, engenharia, etc.). Mas o filósofo também
concluiu que é fundamental estudar o procedimento correto que deve orientar uma
investigação em qualquer destas áreas. Foi então que nasceu a lógica, conjunto de
regras formais que servem para ensinar a maneira adequada de se produzir argumentos,
raciocínios, proposições, frases e juízos.

Aristóteles em vida não pôde organizar sua obra. Essa tarefa ficou a cargo de
seus alunos. Os escritos que tratavam do raciocínio foram reunidos num único volume
que recebeu o título de Organon, literalmente “instrumento”. O Organon é um conjunto
de diferentes tratados (exposição sistemática de um tema): Categorias, Tópicos,
Dos Argumentos Sofísticos, Primeiros Analíticos, Segundos Analíticos e Da
Interpretação. Segundo o historiador da filosofia Giovanni Reale, Aristóteles sabia que
estava sendo pioneiro quando começou a estudar uma forma de argumentação chamada
silogismo. Por meio das análises que o filósofo fazia de textos de sofistas, de Sócrates e
do pensamento de Platão, a lógica aristotélica:

“assinala o momento no qual o logos filosófico, depois de ter amadurecido


completamente através da estruturação de todos os problemas, como vimos, torna-se
capaz de pôr-se a si mesmo e ao próprio modo de proceder como problema e assim,
depois de ter aprendido a raciocinar, chega a estabelecer o que é a própria razão, ou
seja, como se raciocina, quando e sobre o que é possível raciocinar.”

Aristóteles chegou num ponto em que não se tratava mais de desenvolver


conteúdos filosóficos, mas de examinar a forma como a razão procede. Durante séculos
a humanidade dependeu dos escritos de Aristóteles para estudar áreas tão distintas como
a física e a metafísica. Ao ensinar os princípios básicos do pensamento, Aristóteles
forneceu à humanidade regras de argumentação que permanecem válidas ainda hoje,
sobretudo em domínios como a ética e a política.

ATIVIDADE

Faça uma pesquisa na internet em sites que trazem conteúdos introdutórios de


lógica. Encontre definições e usos de lógica em textos disponíveis na rede.

Aula 8: A passagem para a teoria do conhecimento: Aristóteles e o Método

A teoria do conhecimento se caracteriza por uma preocupação com a busca de


princípios gerais que permitam formular crenças verdadeiras sobre a realidade. Essa
ideia está presente na obra de Platão e é, em larga medida, o que caracteriza também o
pensamento de Aristóteles. É com Aristóteles que a filosofia ganha uma consciência
mais definida acerca do método a ser adotado quando o assunto é o conhecimento.

Para Aristóteles, chegamos ao conceito, como o conceito de “cavalo”, mediante


estudo dos exemplares existentes, chegamos ao conceito de “humanidade” diante estudo
de homens concretos e assim por diante. Aristóteles se pergunta: por que postular
propriedades essenciais de cada objeto que existam separadamente quando sabemos que
conceitos, termos, palavras, frases são produto do próprio pensamento e só existem
enquanto pensamento? Para Aristóteles um homem é mais real que o conceito de
humanidade, e é por meio do primeiro que chegamos ao conceito do segundo.

Do particular ao geral: 1º movimento do entendimento

Segundo Aristóteles, deve-se fazer um caminho que vai do “particular” (o que


faz parte da experiência do público) ao “geral” (a visão de conjunto, mais técnica e
elaborada, sobre a qual você vai falar). A marcha do nosso entendimento vai do simples
ao complexo. Isso significa que compreendemos melhor um assunto quando podemos
fazer a passagem daquilo que conhecemos para aquilo que desconhecemos. Observe
como os grandes oradores começam seus discursos por analogias ou casos que a plateia
logo se identifica.

No texto da “Física” Aristóteles dá o exemplo da criança para ilustrar sua tese:


inicialmente ela chama qualquer homem ou mulher de pai e mãe. Só mais tarde
aprenderá a identificar quem é pai e mãe, e com o tempo formará um conceito de
paternidade e maternidade. Há aqui um curso do entendimento que vai do particular ao
universal, fazendo com que o conhecimento amplie-se. Aristóteles, que era considerado
um professor brilhante, já dominava em seu tempo noções de psicologia e pedagogia
para saber que ser humano algum adquire conhecimento se não puder partir daquilo que
já sabe.

Do universal ao particular: 2º movimento do entendimento

Atenção: a regra anterior é absoluta no que toca ao aprendizado, mas ela não diz
tudo. O texto da Física também indica que o “claro” para nós é, frequentemente, um
dado muito geral e simplista. O conhecimento só é efetivo quando puder descer às
minúcias. A marcha é do que nós sabemos em direção ao que as coisas são de fato.
Procure não fazer confusão sobre esse ponto. Essa é a razão pela qual os melhores
alunos na escola são aqueles que desenvolvem o hábito de acompanhar os pontos
principais do conteúdo. A regra de ouro é: compreenda os conceitos principais, mais
gerais, só então se dedique ao estudo dos pontos particulares. Muitas vezes esses
alunos são tomados por “inteligentes”, mas não é nada disso. Adquirir conhecimento é
uma questão de saber como procede o aprendizado. Muitos que tiram os primeiros
lugares nos vestibulares não dedicam mais do que 4 horas de estudo por dia no período
de preparação, o que escandaliza os demais que no mesmo período chegam a estudar 10
horas por dia e não alcançam os mesmos resultados.

ATIVIDADE:

Releia o que foi exposto anteriormente sobre o processo de conhecimento e desenvolva


as seguin-tes questões:

a) Faça um levantamento com seus colegas sobre alguns conteúdos de física,


matemática, história, etc., que você já estudou.
b) Escreva no caderno o que lembrar e ponha à prova a tese de Aristóteles.
Verifique, sobretudo, se o que você aprendeu segue o esquema do geral ao
particular.

c) Peça ajuda a seu professor para organizar os conteúdos que você lembra de
acordo com essa metodologia.

d) Depois disso, recorde os métodos usados pelos professores: quais foram os que
iniciaram seus conteúdos por apanhados gerais e, posteriormente, acrescentaram
os detalhes.

Aula 9: O método e a filosofia moderna: Descartes e as regras para bem conduzir a


Razão

Uma das obras mais fundamentais da filosofia chama-se Discurso do


Método e traz o seguinte subtítulo: “para bem conduzir sua razão e buscar a verdade
nas ciências”. Será que não é pretensão demais para um texto escrito de forma
autobiográfica? A trajetória do texto e o poder que exerceu sobre a tradição posterior
revelam que não. O Discurso do Método é uma obra destinada, inicialmente, a servir de
prefácio a três ensaios do filósofo e matemático Descartes: a Dióptrica, os Meteoros e a
Geometria. Os dois primeiros só interessam hoje aos historiadores do pensamento
cartesiano. Já o terceiro teve ampla divulgação entre os matemáticos, por razões que
veremos mais tarde. Quanto ao Discurso, a obra expõe com clareza uma série de
argumentos que permitem à filosofia fundamentar todo o edifício do saber.

Na segunda parte do Discurso, Descartes enumera quatro preceitos que devem


conduzir a ciência. Acompanhemos o texto do filósofo:

“O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não
conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a
prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão
distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.
O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas
parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. O
terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais
simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco, como por degraus, até o
conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se
precedem naturalmente uns aos outros. E o último, o de fazer em toda parte
enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada
omitir”.

A primeira regra, também conhecida por “regra da evidência”, sintetiza um


ponto muito importante na filosofia cartesiana. Descartes entende que a razão é uma
capacidade que o homem possui para examinar os dados que os sentidos captam. Nisto
ele não se distingue de filósofos anteriores. Mas, Descartes também pensa que a
verdade e a certeza são condições sem as quais um homem não pode dizer que possui
conhecimento. Para Descartes é importante rejeitar todos os juízos, demonstrações e
dados que não possam ser tidos como verdadeiros e inquestionáveis. Quando Descartes
recomenda a certeza ele pensa naquela “luz natural” que cada homem possui,
permitindo-lhe “intuir” (no sentido preciso de ver) a verdade de cada coisa. Veja como o
filósofo delineia o método que orienta essa “visão mental”:
“Todo método consiste inteiramente em ordenar e em agrupar os objetos nos quais
deveremos concentrar o nosso poder mental se pretendermos descobrir alguma
verdade. Seguiremos este método com exatidão se desse início reduzirmos as questões
complicadas e obscuras, substituindo-as, passo a passo, por outras mais simples e
depois, começando pela intuição das mais simples de todas, tentarmos conhecer todas
as outras, através dos mesmos processos”.

Como se vê, o método cartesiano é uma projeção de princípios e regras que


orientam o raciocínio matemático-geométrico. A terceira e quarta regras,
respectivamente, apenas confirmam um procedimento de resolução de problemas na
geometria: as linhas e as figuras simples estão contidas nas compostas, etc. Vale
ressaltar uma caracterização do conhecimento em Descartes que podemos chamar de
“unitária”. Talvez sem o saber, Descartes retoma a opinião de Platão, para quem é
possível identificar uma natureza comum do conhecimento, e se põe contra Aristóteles
nesse ponto, o qual defendia a necessidade de distintas metodologias e perfis diferentes
para cada ramo do saber.

ATIVIDADE:

1 – Com suas próprias palavras, explique o que é o método cartesiano.

Aula 10: estudo dirigido

1- O que é a lógica?
2- Qual a importância da lógica para a filosofia?

3- Faça a relação entre o que você aprendeu sobre lógica e a atitude filosófica.

4- Quais são os elementos da lógica que aprendemos em aula?

5- Explique a diferença entre Paradoxo e Aporia.

6- Qual foi o filósofo que primeiro propôs o estudo da lógica?

7- Qual e a importância do método para o conhecimento e aprendizado?


8- Qual a relação entre lógica e método?