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Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Hipótese Sapir-Whorf: uma discussão sobre a


relação entre linguagem e pensamento

Aluna: Andressa Vieira e Silva

Disciplina: Estudos sobre o Pensa-


mento - Módulo I

Professor: Profo . Dr. Miguel At-


tie Filho

São Paulo
2018
Resumo

A relação entre a linguagem e o pensamento é um assunto discutido há


muito tempo, desde os filósofos antigos até a atualidade. Na Linguı́stica,
esse tema está intimamente ligado à hipótese Sapir-Whorf. Ela se baseia
na relação entre as estruturas semânticas e a forma como os falantes veem
o mundo. Duas versões dessa hipótese foram desenvolvidas, uma forte, de
cunho determinista, e outra fraca, de cunho relativista. Nesse trabalho, serão
discutidos os prós e contras da hipótese Sapir-Whorf, oferecendo trabalhos
na área para fundamentar a argumentação. Por fim, será feita uma breve
conclusão a respeito de cada uma dessas versões e como elas estão sendo
aplicadas atualmente.

1 Introdução
A relação entre linguagem e pensamento demarca uma discussão de longa data,
sendo debatida pela filosofia, psicologia, linguı́stica, neurociências, entre outros cam-
pos de pesquisa. Essa questão chama a atenção humana, uma vez que a lı́ngua é
uma das formas mais corriqueiras de expressar pensamentos, apesar de não ser a
única ou mais primitiva.
Atualmente na Linguı́stica, essa questão está intimamente ligada com a hipótese
Sapir-Whorf. Essa hipótese foi derivada dos trabalhos de dois linguistas-antropólogos,
Edward Sapir (1884-1939) e Benjamin Lee Whorf (1897-1941), apesar de não ter
sido formulada por eles. Sua base está na ideia de que as estruturas semânticas das
lı́nguas refletem, de alguma maneira, a forma como seus falantes veem o mundo.
A partir disso, duas vertentes dessa hipótese surgiram: uma fraca e outra forte.
A hipótese forte é de cunho determinı́stico, defendendo que a lı́ngua determina o
pensamento, caso em que a visão de mundo de cada indivı́duo estaria limitada pela
lı́ngua que ele fala. A hipótese fraca, por sua vez, é relativista, postulando que a
linguagem tem correlatos com a forma de pensar de uma comunidade.
A hipótese Sapir-Whorf esteve em alta durante a primeira metade do século XX,
em que foram desenvolvidas diversas pesquisas empı́ricas na tentativa de comprová-
la, examinando a relação entre as categorias semânticas particulares das lı́nguas e
sua forma de categorização do mundo. Esses estudos foram importantes porque fo-
mentaram a investigação de lı́nguas não indo-europeias, fornecendo dados relevantes
para explorar a diversidade linguı́stica. Porém, elas foram refreadas na década de 60,
com o crescimento das ciências cognitivas, que foram na direção oposta, buscando
mostrar as universalidades entre as lı́nguas e as limitações impostas pela cognição
humana e não pela lı́ngua.
De uma forma ou de outra, a questão sobre a relação entre linguagem e pensa-

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mento continua em aberto. Será que a lı́ngua é capaz de influenciar a forma como
os indivı́duos veem o mundo? Se sim, até que ponto isso é verdade? Nesse trabalho,
será discutida a hipótese Sapir-Whorf em sua versão forte e fraca e as implicações
das afirmações contidas em cada uma delas. Para dar suporte à discussão, alguns
dos trabalhos na área serão utilizados.

2 Um pouco de história
As ideias que derivam a hipótese Sapir-Whorf precedem os autores que deram nome
a ela. Dois importantes pensadores que merecem ser mencionados como influências
dessas ideias no âmbito da Linguı́stica são Wilhelm von Humboldt e Franz Boas.
Wilhelm von Humboldt (1767-1835) foi um filósofo alemão cujas ideias sobre a
linguagem eram inovadoras para sua época. Ele se dedicou ao estudo de variadas
lı́nguas, sendo uma das suas principais contribuições seu trabalho sobre a lı́ngua
Kawi, falada na ilha Java. Em suas reflexões sobre a natureza linguı́stica, o autor
conclui que a lı́ngua não é um produto (ergon), mas uma atividade (energeia), no
sentido que ela está sempre criando algo. Desse modo, ele se convence que a lı́ngua
reflete a cultura de um povo, uma vez que ela é o canal para a compreensão e or-
ganização do mundo a sua volta. Suas reflexões, no entanto, foram ignoradas pelos
pensadores de sua época, sendo que seus estudos só foram recuperados posterior-
mente.
Anos depois, o antropólogo americano Franz Boas (1858-1942) retoma essa hipótese,
mas, diferente de Humboldt, seu trabalho influenciou toda uma geração de linguistas-
antropólogos, incluindo Sapir e Whorf. Ele passou grande parte de sua vida estu-
dando a lı́ngua e a cultura em comunidades indı́genas, fornecendo trabalhos extre-
mamente relevantes para a Linguı́stica, uma vez que ele demonstra que as lı́nguas
indı́genas são estruturalmente complexas e capazes de expressar pensamentos abs-
tratos quanto às europeias, derrubando a ideia de que essas lı́nguas eram inferiores.
Para Boas, cada lı́ngua seleciona suas subcategorias semânticas e sonoras de
maneira arbitrária, o que gera as diferenças entre lı́nguas. Entretanto, essa arbi-
trariedade desaparece quando se toma uma única lı́ngua, já que para seus falantes
nada é arbitrário nessa escolha: as classes expressas na lı́ngua refletirão as coisas
com que esses indivı́duos têm contato, seu ambiente, suas práticas socioculturais,
etc. O trecho abaixo reflete bem como se dá a relação entre lı́ngua e pensamento
para Boas:

...it will be recognized that in each language only a part of the complete
concept that we have in mind is expressed, and that each language has a
peculiar tendency to select this or that aspect of the mental image which

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is conveyed by the expression of the thought. (Boas, 1966, p. 43)

Nesse sentido, a relação entre lı́ngua e pensamento está atrelada à cultura, pois
suas categorias estão sujeitas às necessidades sociais daquele povo, criando assim
uma relativização das classes semânticas entre lı́nguas. Um exemplo são as dis-
tinções entre marcação de gênero: existem lı́nguas que não distinguem gênero, outras
separam masculino e feminino, outras incluem também o neutro, etc.
Foi a partir dessas ideias de Boas, desenvolvidas posteriormente pelo seu discı́pulo,
Edward Sapir, e pelo discı́pulo deste, Benjamin Lee Whorf, que surgiu a hipótese
conhecida como Sapir-Whorf. Em sua origem, essa hipótese está fortemente ligada
aos conceitos boasianos. Porém, interpretações errôneas posteriores feitas sobre os
trabalhos de Sapir e Whorf levaram à versão forte da hipótese, fazendo com que
ela fosse praticamente banida das discussões em Linguı́stica por sua prevalência
determinista.

3 Discussão
Como já mencionado na Introdução, a hipótese Sapir-Whorf prevê que as estruturas
semânticas em diferentes lı́nguas refletem a maneira como os indivı́duos dessa comu-
nidade pensam e agem. Isso significa que essa hipótese está intimamente associada
com o processo de categorização de coisas, sejam materiais ou imateriais. Quando
se pensa em categorização, duas vertentes podem ser derivadas. Uma delas é que
as categorias são pré-estabelecidas, ou seja, independem de escolhas do indivı́duo.
Nesse caso, espera-se que as categorias definidas nas lı́nguas sejam as mesmas, já
que elas seriam universais. O segundo caso é aquele em as categorias são postuladas
a posteriori, ou seja, a partir da experiência. Assim, cada lı́ngua selecionaria um
conjunto de categorias de acordo com a relevância dentro daquela comunidade.
Ao comparar diversas lı́nguas, percebe-se que elas apresentam diferenças entre si,
não somente no que diz respeito aos sons, mas também conceitos. Qualquer um que
se dedique ao trabalho de tradução se dará conta da dificuldade de traduzir alguns
termos entre lı́nguas. Por exemplo, no português a palavra “carneiro” expressa
tanto o animal vivo quanto sua carne, enquanto no inglês esse campo semântico
corresponde a duas palavras “sheep” (animal) e “mutton” (carne). Essa é distinção
na forma de categorização de conceitos, o que indica que os elementos pertencentes
a cada classe podem variar.
Essas diferenças não estão restritas ao léxico, sendo encontradas em todos os
nı́veis de análise linguı́stica (morfologia, sintaxe, semântica e pragmática). Um im-
portante trabalho a esse respeito é o de Aikhenvald (2004), que estuda o fenômeno
da evidencialidade nas lı́nguas. A evidencialidade é a marcação gramatical obri-

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gatória a respeito da fonte da informação. Por exemplo, na lı́ngua Tariana, falada
na Amazônia, não é possı́vel dizer ao do tipo “João saiu”. Para que tal sentença
seja gramatical é preciso informar através de marcas morfológicas se você obteve
essa informação por via visual, auditiva, alguém te disse aquilo, etc. A evidenciali-
dade está ausente na maioria das lı́nguas indo-europeias, mostrando que essa é uma
seleção feita por apenas algumas lı́nguas.
Esses exemplos mostram que as lı́nguas organizaram suas categorias de maneira
distinta e aquilo que está presente em uma pode estar ausente em outra. Com
isso, pensou-se que, de fato, não existiriam categorias a priori, mas que cada lı́ngua
as selecionaria de forma arbitrária, podendo variar sem restrições. Na tentativa
de negar tal suposição, muitos pesquisadores se voltaram para a identificação de
categorias universais.
Um famoso trabalho nessa linha é o de Berlin and Kay (1991), que estudam como
as lı́nguas categorizam o espectro de cores. É fácil perceber que há bastante variação
quanto aos termos para cores nos vocabulários linguı́sticos: alguns distinguem ape-
nas entre claro e escuro, outros entre as cores primárias, etc. Isso reforçava a ideia
de que não haveria limites para a categorização linguı́stica, tendo em vista que um
processo neurofisiológico podia ser percebido de maneira distinta entre os falantes
de lı́nguas diferentes. Em seu experimento, os autores confirmaram que há variação
quanto à divisão de fronteiras entre cores no espectro de acordo com cada lı́ngua.
Porém, no momento em que foi solicitado aos indivı́duos para apontar o melhor
exemplo de uma cor, houve regularidade. Um exemplo, lı́nguas que apresentavam
um termo para expressar o que correspondia no espectro à porção de verde até azul,
não escolheriam como membro mais representativo o verde-água, mas tomariam o
verde ou o azul. Ou seja, não é uma média entre os dois extremos, mas exatamente
uma das cores primárias. Essa regularidade na escolha do membro mais prototı́pico
independeu da lı́ngua usada pela falante.
Assim, esse trabalho mostrou que nem tudo pode ser derivado da escolha ar-
bitrária de categorias, mas que existem categorias derivadas de processos cogni-
tivos, portanto compartilhadas entre os membros da espécie. Todavia, nem tudo
que parece ser cognitivo apresenta essa universalidade. É isso que mostram Steven
Levinson e coloboradores1 , do Max Planck Research Group for Cognitive Anthropo-
logy, em sua pesquisa sobre a localização espacial e a expressão linguı́stica. Assim
como a visão, a concepção de espacialidade é um aspecto não-linguı́stico que faz
parte da cognição humana, portanto comum da espécie. Porém, a investigação de
Levinson identificou dois tipos de sistema linguı́sticos diferentes para expressar a
localização: um deles baseado em pontos relativos, tomando como centro o corpo
1
Para mais detalhes sobre a pesquisa, vide o site http://www.mpi.nl/people/levinson-
stephen/research#spatial-language-and-cognition

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humano (p. ex. esquerda/direita, cima/baixo) e outro baseado em pontos fixos do
ambiente (p. ex. norte/sul, leste/oeste).
Desse modo, enquanto no Português se diz que “Maria está em frente à loja”, em
Guugu Yimidhirr, uma lı́ngua australiana, seria necessário dizer algo como “Maria
está ao sul da loja”, por exemplo. Essa é uma diferença de categorização notável,
no entanto, será possı́vel afirmar que ela reflete uma diferença na forma como es-
ses indivı́duos pensam? Aparentemente sim. Como o Guugu Yimidhirr exige que
as descrições espaciais estejam acompanhadas de referências cardeais, os falantes
dessa lı́ngua demonstram um senso de orientação melhor do que o da maioria dos
indivı́duos, sendo capazes de falar com precisão a respeito da posição cardeal de
objetos na narração de eventos do passado.
Com esse trabalho, Levinson tenta corroborar a hipótese Sapir-Whorf de cunho
determinista, já que ele ressalta como a cognição é formatada de acordo com as-
pectos linguı́stico-culturais. Dessa perspectiva, o estabelecimento de categorias, ou
formas de pensar, dependeria da experiência. Se o indivı́duo nascesse em uma co-
munidade que fala português, ele pensaria as categorias espaciais como centradas
em si, enquanto que se ele falasse Guugu Yimidhirr, suas categorias seriam pensadas
como cardeais. Essa é uma afirmação muito forte e é preciso tomar certas precauções
com relação a ela. Primeiro porque, independente da lı́ngua que se fala, com trei-
namento especializado é possı́vel aprender a utilizar a categorização cardeal, então
não se trata de uma determinação cognitiva. Segundo, a forma de categorização das
relações espaciais não implica na incapacidade de pensar sobre outras possibilidades.
No português temos termos para ambas as categorias (cardeais e relativas), a única
diferença é a relevância delas, ou seja, damos preferência para organizar os objetos
de forma relativa em vez de cardeal.
Por fim, diversos estudos se propuseram a investigar a versão fraca da hipótese
Sapir-Whorf. Um estudo interessante a esse respeito foi feito para os numerais na
lı́ngua Pirahã, falada na Amazônia (Gordon, 2004; Frank et al., 2008). Havia uma
discussão em torno dessa lı́ngua pelo fato de ela ter apenas palavras para expressar
pequenas e grandes quantidades, sem computar quantias exatas como “um”, “dois”,
“três”. Essa ausência de numerais levantou questões a respeito da capacidade dos
Pirahã em raciocı́nio matemático, uma vez que, não havendo números nessa lı́ngua,
esses indivı́duos seriam incapazes de pensar sobre eles (hipótese determinista). Para
contradizer essa hipótese, Frank et al. (2008) executaram uma série de experimentos
em indivı́duos falantes de Pirahã e concluı́ram que eles são capazes de realizar tare-
fas em correspondência exata de quantidades. Por exemplo, eles se saı́ram bem em
uma tarefa em que o experimentador ordenava determinada quantidade de carretéis
e pedia para o participante colocar a mesma quantidade em balões. Suas dificulda-
des aparecem no caso de memorização de quantidades grandes. Por isso, os autores

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concluem que a ausência da categoria numerais não impede o raciocı́nio matemático,
mas que os números são uma ferramenta de auxı́lio no cálculo de grandes quantida-
des. Assim, a invenção dos numerais aparece como um artifı́cio cultural, mas não
universal.

4 Conclusão
A discussão exposta acima aponta para diversos pontos positivos e negativos na
hipótese Sapir-Whorf. Por manter sua base na relação entre classes semântico-
gramaticais e a forma de organizar o mundo, ela pode ser vista como um processo a
priori ou a posteriori. Os experimentos discutidos acima apontam que é há variação
na forma de categorizar os objetos em cada lı́ngua, assim como propôs Boas, mas que
nem toda categorização tem base linguı́stica, como mostra o estudo sobre as cores
primárias e sobre o Pirahã. Desse modo, parece inviável aceitar a hipótese Sapir-
Wohrf forte como verdadeira, tendo em vista que diversos tipos de raciocı́nio, como
o matemático e lógico, e outros processos cognitivos, como a visão e a percepção,
parecem funcionar independentemente da lı́ngua, mostrando que a forma de pensar
do ser humano não é determinada por ela.
A versão fraca, por sua vez, é mais plausı́vel, uma vez que propõe apenas uma
correlação entre fatos de lı́ngua e a visão de mundo dos indivı́duos. Segundo Boas, a
lı́ngua deve ser tomada como um fenômeno social, integrada aos demais fenômenos
etnológicos. Sendo assim, a lı́ngua é cultural e a cultura de uma comunidade está
fortemente relacionada com a forma com que ela vê o mundo. Isso significa que as
relações de hierarquia social, as práticas socioculturais e polı́ticas, os ritos e crenças,
as regras de conduta, tudo o que pertence ao domı́nio etnográfico influencia na forma
como os indivı́duos de determinada cultura veem o mundo. E isso inclui a lı́ngua:
a maneira como as pessoas devem interagir, quais palavras são bonitas ou feias,
adequadas ou inadequadas, quais situações devem ser consideradas formais ou infor-
mais, enfim, tudo o que envolve a comunicação, mesmo os aspectos extralinguı́sticos,
como expressão facial, postura, etc, tudo se encaixa nessa esfera etnográfica.
Quando todos esses aspectos são considerados, a hipótese Sapir-Whorf ganha
uma força inestimável, pois não lida somente com o significado puramente gramati-
cal, mas toda forma de criação de sentido. Não se trata mais de observar o que está
presente ou ausente em uma lı́ngua, mas analisar todos os aspectos socioculturais
envolvidos e como eles moldam a visão de mundo dos indivı́duos ao criar sentido.
Isso é o que a linguı́stica-antropológica está buscando atualmente: não reduzir a
complexidade de um evento social focando em caracterı́sticas selecionadas a pri-
ori, mas descrever e analisar a complexidade dos eventos sociais compreensivamente
(Blommaert, 2007, p. 1).

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Essa mudança de cenário fez com que a hipótese Sapir-Whorf relativista fosse
recuperada, dessa vez em uma tentativa de identificar as categorias relevantes den-
tro de uma comunidade sociocultural para tentar entender seu funcionamento. Essa
abordagem é o oposto do que se faziam, por exemplo, os colonizadores, que tenta-
ram impor suas próprias categorias em suas colônias, incluindo sua própria lı́ngua,
que era vista como uma forma de civilizar os nativos. Portanto, estando no meio
sociocultural, a lı́ngua reflete aspectos da forma como seus falantes veem o mundo,
ou, em outras palavras, categorizam o mundo. Isso não significa que existe uma
barreira intransponı́vel entre indivı́duos que pertencem a comunidades de fala dife-
rentes. Pelo contrário, essas comunidades não são blocos fechados, com fronteiras
bem delimitadas, mas estão o tempo evoluindo, se modificando e interagindo entre
si. Basta observar de perto uma comunidade de fala para se dar conta de quantas
micro-categorias existem dentro dela e como elas se sobrepõe, se combinam a todo
o momento.
Para concluir, essa discussão mostrou que as lı́nguas diferem entre si quanto a
suas categorias, e que essas, por sua vez, são parte de um emaranhado de relações
socioculturais, que interferem na forma como as pessoas dão sentido ao mundo, como
pensava Humboldt. Ademais, apesar de manter suas peculiaridades, essas categorias
são recorrentes em comunidades socioculturais em todo mundo, portanto mantendo
aspectos universais, por exemplo religiões, ritos, hierarquias sociais, entre outras.
Assim, as macrocategorias compartilham aspectos universais, mas se afastam con-
forme essas categorias são inseridas no meio social, em que diversos fatores externos
estão envolvidos. Talvez essas caracterı́sticas universais sejam parte do que é ser hu-
mano, da nossa cognição, algo que nos une como espécie, mas não se pode afirmar
isso com certeza. Dito isso, é interessante notar que, aparentemente, as diferenças
são mais salientes do que aquilo que é similar, portanto reafirmar seu pertencimento
a determinado grupo é ressaltar os traços que o demarcam e a lı́ngua, sendo um dos
meios de comunicação mais usuais, é uma das portas para a transmissão e apreensão
desses traços de visão de mundo dos indivı́duos.

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Referências
Aikhenvald, A. Y. (2004). Evidentiality. Oxford University Press.

Berlin, B. and Kay, P. (1991). Basic color terms: Their universality and evolution.
Univ of California Press.

Blommaert, J. (2007). On scope and depth in linguistic ethnography. Journal of


Sociolinguistics, 11(5):682–688.

Boas, F. (1966). Introduction to handbook of American Indian languages, volume


301. U of Nebraska Press.

Frank, M. C., Everett, D. L., Fedorenko, E., and Gibson, E. (2008). Number as a
cognitive technology: Evidence from pirahã language and cognition. Cognition,
108(3):819–824.

Gordon, P. (2004). Numerical cognition without words: Evidence from amazonia.


Science, 306(5695):496–499.