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Inquisição Digital

Por: Michael Brooks


da "New Scientist"

Tudo começou com uma conversa regada com cerveja, mas terminou numa profunda
revelação. Paul Ormerod, economista da empresa Volterra Consulting, em Londres,
estava falando sobre seu trabalho com ciência de redes, como a internet e grupos de
amigos. "Interessante", disse seu amigo Andrew Roach, historiador especialista em
Idade Média da Universidade de Glasgow. "Soa bastante parecido com o tema no qual
eu estou trabalhando." Foi uma afirmação ousada da parte de Roach. Ele estuda a
perseguição aos heréticos medievais -pessoas em países católicos que rejeitavam, entre
outras coisas, a autoridade inquestionável do papa. Mas o comentário no "pub" levou a
dupla a explorar o assunto mais profundamente, e parece que Roach estava certo. No
século 13, os inquisidores católicos pararam o avanço da heresia explorando princípios
que são incrivelmente parecidos com os que a ciência usa hoje para descrever redes tão
diversas quanto estruturas sociais, o contágio de uma doença e a internet. O ponto
comum entre as duas coisas são as chamadas redes sem escala ["scale-free networks"].
As propriedades dessas redes foram desvendadas há menos de cinco anos por Albert-
László Barabási, professor de física na Universidade de Notre Dame em Indiana (EUA),
quando ele usou um software-robô para analisar as conexões entre sites na internet.

Barabási esperava que o robô revelasse que os sites se conectam entre si de forma
aleatória. De acordo com um ramo da matemática chamado de teoria dos gráficos, a
maioria dos sites teria mais ou menos o mesmo número de conexões (ou links). Mas
Barabási ficou chocado quando o robô descobriu que muitos sites estão conectados a
apenas alguns poucos, enquanto um número muito pequeno de sites têm um número
enorme de links. Uma vez que nenhum número de links predominava, como ele
imaginara antes, Barabási batizou a rede de "sem escala". Nos últimos anos, a
compreensão das redes sem escala transformou a maneira como os cientistas vêem um
conjunto impressionante de sistemas físicos e biológicos, de ecossistemas a doenças e
relações sexuais. Esses estudos mostram, por exemplo, que uns poucos "nódulos" bem
conectados na rede -sejam eles pessoas, computadores, vírus ou outros organismos
biológicos- são cruciais para sua operação. Sem esses nódulos, a estrutura da rede se
esboroa. Graças a essa percepção, fica muito mais fácil enfrentar a disseminação de uma
doença ou analisar as fraquezas da internet.

Conexões heréticas

Ormerod e Roach afirmam que a análise feita por Barabási não pode ser replicada em
documentos medievais. Mas a semelhança que eles revelaram agora sugere que a
Inquisição, de fato, investigou o problema e identificou o que nós chamaríamos de um
fenômeno sem escala. No começo da Inquisição, a Igreja Católica usava um método
grosseiro para lidar com os heréticos. Ela simplesmente instruía os cruzados a matar
todos os que viviam em vilas e cidades suspeitas de abrigar dissidentes. Mas esse foi só
o começo, e a igreja não tinha percebido com que estava lidando. Não se consegue
destruir uma rede sem escala com destruição indiscriminada. Não se consegue, por
exemplo, derrubar a internet tirando do ar sites aleatórios. Redes sem escala exigem um
plano mais astuto. Os inquisidores começaram a perceber isso quando os heréticos
simplesmente se recusaram a desaparecer. Os massacres aleatórios conseguiram um
alívio temporário, mas a heresia sempre ressurgia. É um padrão que os epidemiologistas
modernos reconhecem: um surto de gripe que parece ter sido erradicado vai voltar, a
não ser que medidas preventivas sejam tomadas. Assim, os inquisidores decidiram
encontrar uma maneira melhor de extirpar a epidemia herética. Nos anos 1230, dizem
Ormerod e Roach, a igreja tinha descoberto como a heresia se espalhava e como poderia
ser detida. Em 1250, já havia manuais para inquisidores detalhando o que hoje se
reconhece como a melhor maneira de derrubar uma rede sem escala. O frade
dominicano Bernardo Gui, cujo manual para inquisidores é provavelmente o mais
conhecido, deixa claro que não adianta se concentrar num indivíduo. Todo o esforço
deveria se dirigir a identificar os heréticos que visitaram o suspeito em sua casa, bem
como os guias que os conduziram até lá e os levaram embora, diz ele. O importante são
as conexões, não os nódulos. De fato, assim que os inquisidores estabeleceram a
importância da mobilidade para o espalhamento da heresia, eles mudaram totalmente
seu estilo de punição. Os heréticos penitentes tinham sido enviados em peregrinações,
antes disso, mas ali pelo fim do século 13 essa prática havia sido interrompida. Era
arriscado demais: os penitentes poderiam fazer carradas de novos contatos em uma área
geográfica ampla.

Cruz amarela no peito

"A atenção se voltou então para punições que restringiam os movimentos ou que
destacavam o penitente, tornando difícil o contato social", assinalam Ormerod e Roach
num trabalho encaminhado para publicação no "Journal of Social Structure". Foi assim
que nasceu a pena de custódia: a luta contra a heresia foi o primeiro uso da prisão como
punição em si mesma. Punições mais leves seguiam a mesma doutrina de isolamento.
Aqueles que tivessem mantido contato deliberado e consciente com heréticos, por
exemplo, eram forçados a usar uma cruz amarela na frente e nas costas de toda
vestimenta visível. Bastava ser visto com um portador dessas cruzes para correr o risco
de ser acusado de simpatia pela heresia, de modo que essa medida funcionou como uma
forma eficaz de "inoculação" para a comunidade. Isso ainda não era suficiente, porém,
para deter a disseminação da heresia. Foi só no final do século 13 que os inquisidores
começaram a identificar o problema real. Uns poucos indivíduos altamente conectados,
influentes e móveis estavam espalhando a heresia mais rapidamente do que ela podia ser
erradicada pela matança indiscriminada, pelo aprisionamento e pela "inoculação".

Os inquisidores finalmente perceberam a importância das conexões da rede. Assim


como a internet tem, por exemplo, Yahoo e Napster funcionando como atalhos para
conectar muitas pessoas por meio de poucos links, a heresia dependia das atividades de
umas poucas pessoas influentes, como Guilherme de Milão. Se a igreja pretendia
derrotar a heresia, esse herético altamente conectado -e outros como ele- teria de ser
barrado. Em 1293 Guilherme estava em fuga pelo que hoje é a Eslovênia. Os
inquisidores enviaram um espião para descobrir onde ele se escondia e depois reuniram
uma força-tarefa de frades franciscanos treinados na caça a heréticos para capturá-lo. De
acordo com registros de despesas da Inquisição mantidos no Vaticano, a operação toda
teria custado, em valores de hoje, de 25 mil a 30 mil libras esterlinas [aproximadamente
R$ 120 mil a R$ 140 mil]. Foi dinheiro bem empregado: "Não é preciso uma quantidade
enorme desses personagens bem relacionados para causar uma quantidade enorme de
confusão, e a Inquisição havia entendido isso", diz Roach.
Ciência aplicada
Com efeito, essa compreensão até então irrealizada da natureza das redes heréticas
resolve algumas coisas que os historiadores até então não haviam sido capazes de atinar.
"Explica por que, por exemplo, quando a heresia já se encontrava mais ou menos morta
no final do século 13, e só meia dúzia de heréticos estavam em ação, todo mundo ainda
estava em tamanho frenesi por causa dela", afirma Roach. Naquela altura, as
autoridades católicas já sabiam que, enquanto o tipo certo de pessoa ainda se
encontrasse ativo, a heresia poderia se restabelecer a qualquer momento.

Roach diz acreditar que não é acidente que a Inquisição tenha adotado os mesmos
métodos que agora são aplicados para lidar com as redes sem escala: os inquisidores
envolvidos eram conhecidos como pessoas que
ensavam cientificamente, afirma. "Eram principalmente frades dominicanos, uma das
ordens mais cultas. Acredito que algum tipo de processo científico estava sendo
empregado."

A idéia de que as redes de heresia não tinham escala é "muito plausível", segundo Gene
Stanley, da Boston University, um dos pioneiros da teoria das redes sem escala. A
noção de que documentos históricos possam revelar fenômenos sem escala velhos de
séculos é uma surpresa bem-vinda, afirma. O trabalho de Ormerod e Roach acrescenta
densidade a suas próprias noções de que todas as redes sociais são sem escala. "Esse é
um trabalho fantasticamente original", diz Stanley. "Assim que você começa a pensar
nele, torna- se óbvio, mas isso não quer dizer que não seja importante."

É claro que as aplicações modernas da teoria das redes sem escala, tal como o controle
de doenças, são mais palatáveis que os propósitos dos inquisidores. Assim é que
Ormerod e Roach podem ter trazido mais uma surpresa agradável: talvez seja um sinal
do progresso da humanidade que nossa compreensão das redes sem escala hoje esteja
salvando vidas, não acabando com elas. Quase dá para chamar de Iluminismo.