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Encontro À Meia-Noite

Meet Me at Midnight

Suzanne Enoch

Londres
Tudo
começou com um
beijo...
A
personalidade
exuberante de
Victoria Fontaine é
alvo de comentários
em toda a alta
sociedade londrina.
A reputação de
Sinclair Grafton,
porém, consegue
escandalizar ainda
mais as pessoas, e o
passar dos anos em
nada contribuiu
para calar os rumores.
O encontro de Victoria e Sinclair em um baile de gala, como haveria de se esperar,
provoca um verdadeiro tumulto entre os ilustres presentes. Pegos em flagrante, aos
beijos, pelo pai de Victoria, Sinclair é forçado a reparar a honra da moça pelo casamento.
No início, a jovem liberal se recusa a entregar seu futuro a alguém que não ama e que a
trata com indiferença.
Aos poucos, contudo, Victoria começa a perceber que um homem notável e
enigmático se esconde sob a aparência de irresponsabilidade.
E finalmente, após uma inesquecível noite de paixão, ela promete a si mesma
desmascarar o verdadeiro Sinclair Grafton e satisfazer um coração que anseia por mais
do que liberdade.

Digitalização e Revisão: Crysty


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Querida leitora,
Quando Victoria e Sinclair são surpreendidos se beijando e se acariciando nas sombras do
jardim, durante uma festa da alta sociedade, Sinclair sente-se obrigado a se casar com
Victoria, para devolver a ela a boa reputação. No entanto, ele tem seus próprios motivos para
querer desposar Victoria. Ele está de volta a Londres, depois de cinco anos, para investigar o
assassinato de seu irmão, e Victoria tem um círculo de amizades de onde ele poderá extrair
informações valiosas. A atração entre eles é intensa e arrebatadora, mas após o casamento,
Victoria se vê envolvida numa trama em que ela não sabe mais em quem pode e em quem não
pode confiar...
Leonice Pomponio Editora

Copyright © 2000 by Suzanne Enoch


Originalmente publicado em 2000 pela HarperCollins Publishers
PUBLICADO SOB ACORDO COM HARPERCOLLINS PUBLISHERS
NY,NY —USA
Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas
vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

TÍTULO ORIGINAL: Meet Me at Midnight


EDITORA Leonice Pomponio
ASSISTENTES EDITORIAIS Patrícia Chaves
Paula Rotta Vânia Buchala
EDIÇÃO/TEXTO
Tradução: Nancy de Pieri Mielli
Revisão: Giacomo Leone
ARTE Mônica Maldonado
MARKETING/COMERCIAL Andréa Riccelli
PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi
PAGINAÇÃO Gustavo Moura

© 2009 Editora Nova Cultural Ltda.


Rua Paes Leme, 524 — 10 andar — CEP 05424-010 — São Paulo - SP
www.novacultural.com.br
Impressão e acabamento: RR Donnelley

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

CAPÍTULO I

— Mais rápido, Marley!


Lady Victoria Fontaine abriu os braços como se fosse voar. Seu maior sonho
era ser livre e independente, embora os pais não concordassem. Pequenas
ousadias eram severamente castigadas. Como na última semana, em que ficara
proibida de sair do quarto.
De volta ao mundo naquela noite, Victoria perdera a conta das voltas que
dera ao redor da pista de danças da mansão de lorde e de lady Franton. Tornara-se
o centro das atrações depois que seu par e amigo a erguera nos braços e começara
a rodopiar. Os olhares atônitos dos convidados a deleitavam e compensavam, após
três dias de sombrio confinamento.
— Mais é impossível — o visconde explicou, ofegante. — Estou ficando tonto.
— Então gire em sentido contrário!
Apesar do empenho em satisfazer mais esse, entre os muitos caprichos de
Victoria, o esforço ultrapassou os limites de Marley e ele se desequilibrou ao tentar
devolver Victoria ao chão. A multidão de espectadores se apressou a ampará-la.
Marley, no entanto, precisou recorrer à sua agilidade e rolar para o lado, ou seria
pisoteado pelo séquito de admiradores.
O riso de Victoria borbulhava pelo ambiente. Seus olhos brilhavam de
excitação e ela piscava a todo instante para afastar a impressão de que continuava
girando pela pista como num carrossel.
— Componha-se, Vícky — aconselhou o amigo Lionel Parrish, estendendo as
mãos para ajudar Victoria a se levantar. — O duque de Hawling quase teve uma
síncope quando você escorregou alguns minutos atrás e suas pernas apareceram
sob o vestido.
— Estou me sentindo como se estivesse sendo tragada por um redemoinho—
Victoria confidenciou. — Leve-me até uma cadeira, por favor.
Com Victoria em segurança, alguns se lembraram de acudir o pobre visconde.
Havia um assento vago junto a Victoria, e para lá o levaram.
— Dessa vez você abusou. — Marley cruzou os braços sobre o abdômen.
— Fraco, é isso que você está! — Victoria caçoou. — Precisa tomar umas
gemadas para se fortalecer. E por falar em estimulantes, quem pode me servir uma
taça de ponche? — Victoria se abanou. — Estou morrendo de calor e de sede!
Meia dúzia de pretendentes se levantou e se dirigiu para a mesa onde
estavam os refrescos e bebidas. Outra meia dúzia se apressou a ocupar os lugares
que vagaram. Enquanto isso, os músicos tocavam os primeiros acordes de uma
melodia folclórica. Lucy Havers aproveitou uma pequena distração da mãe, que a
proibira de se aproximar de sua melhor amiga para evitar falatórios.
— Céus! Você poderia ter quebrado um braço ou uma perna! Tem certeza de
que está bem?

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— Oh, sim — Victoria respondeu, avoada. — Como Marley estava embaixo,


ele amorteceu minha queda.
— Ainda bem que você não é gorda. — Marley estreitou os olhos. — Eu
poderia estar morto a esta altura.
— Se eu fosse gorda, você não teria me levantado no ar como se eu fosse
uma bandeira. — Victoria tornou a rir e olhou para Lucy. — Meus cabelos não estão
uma desgraça?
— Mais ou menos — disse Lucy. — Você perdeu um pente.
— Ele está comigo — avisou lorde William Landry, exibindo a delicada peça
em marfim. — Eu o devolverei em troca de um beijo.
Victoria olhou para o terceiro filho do duque de Fenshire por entre os cílios e
sorriu, provocante.
— Só isso? Você sabia que esse é meu pente favorito?
A mensagem foi captada. O sorriso de provocação foi correspondido.
— Talvez possamos negociar um acordo mais interessante quando
estivermos a sós. No momento, um beijo me basta.
— Como você quiser — Victoria respondeu, condescendente. — Lionel, beije
lorde William por mim.
— Nem em um milhão de anos!
Todos riram. Somente Victoria suspirou. De nada adiantaria prolongar o
pagamento do prêmio. William Landry se envaideceria do fato e espalharia por todos
os cantos que ela estava em divida com ele. Colocou-se, assim, na ponta dos pés e
beijou-o no rosto. O hálito de William recendia a álcool. Por sorte ele não fora
específico a respeito do beijo. Detestaria pousar seus lábios nos dele, naquelas
circunstâncias.
— Meu pente! — Victoria estendeu a mão com um sorriso debochado. Sabia
que não deveria provocar William, com seu gênio temperamental, mas não resistiu.
William Landry também já deveria ter aprendido com quem estava lidando. Fazia
tempo que eles se conheciam. Ninguém levava vantagem sobre Vicky Fontaine.
— Esse beijo não vale — William protestou sob assobios e aplausos.
— Por que não? — questionou Marley.
Diante da algazarra, Victoria fez um sinal para que os amigos se
aquietassem.
— Sosseguem! Lady Pranton está nos olhando enviesado!
— A velha bruxa! — resmungou William. — A única coisa boa que ela faz é
dar festas!
— Talvez esteja faltando um pouco de diversão em sua vida — sugeriu Lucy.
— Lady Franton a leva demasiadamente a sério.
— Eu sei do que a bruxa precisa — afirmou Marley. — Mas ela que não conte
comigo para isso!
Lucy corou de vergonha. Victoria não se importava com aquele tipo de
conversa e de linguajar, mas não aprovava que seus amigos civilizados se

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constrangessem e se afastassem de sua companhia por causa dos dissolutos. Sem


que Marley pudesse antecipar seu gesto, ela lhe bateu na mão com o cabo do leque.
— Ai! O que deu em você? Prefere ficar do lado de lady Franton a me
defender?
— Você está sendo inconveniente — Victoria acusou-o. — Se continuar se
portando assim, não tornarei a falar com você.
Os flertes estavam começando a cansar Victoria. Tanto Marley quanto os
outros rapazes de seu grupo não tinham imaginação. As brincadeiras eram sempre
as mesmas. As conversas também.
O pessoal tornou a assobiar. Outra coisa que estava irritando Victoria. O mais
surpreendente era que os rapazes acreditavam que aquele tipo de assédio lhe era
agradável.
— Para ser sincera, resolvi fazer um voto — Victoria declarou e olhou ao
redor para aumentar o impacto da revelação. Mas, como já seria de esperar, alguém
zombou de suas palavras e todos se puseram a rir novamente.
— Não de castidade, eu espero — disse lorde William.
Lionel Parrish franziu o cenho. Victoria o viu colocar-se junto de Lucy como
que para protegê-la.
— Aqui não é seu lugar, Lucy. Esse tipo de conversa não lhe serve.
Marley escondeu as mãos atrás das costas.
— Cuidado com seus dedos, William. Vicky quase quebrou os meus.
— Meu voto também se estende a você, lorde William — Victoria
acrescentou. Era um alívio que seus pais estivessem com lorde Franton em sua
galeria de retratos. Se eles tivessem escutado a metade das palavras que haviam
sido ditas nos últimos minutos entre seus amigos, eles a mandariam para um
convento no dia seguinte. — A partir de agora, eu conversarei apenas com os
homens que souberem se comportar como cavalheiros.
A perplexidade se apoderou dos semblantes masculinos. Fez-se um instante
de silêncio. Stewart Haddington o quebrou, provocando uma nova explosão de
gargalhadas.
— Com a companhia de quem, então, nossa estimada amiga pretende
contar? Quem mais faz parte de seu rol de amizades, Vicky, além de nós,
doidivanas?
Victoria hesitou. O que acontecerá com seu senso de humor? Os giros com
Marley pelo salão teriam afetado não só seu equilíbrio, mas também suas
expectativas? De repente, a festa havia perdido o brilho. As conversas estavam sem
graça.
— Vocês certamente conhecem pessoas elegantes e charmosas. São
aquelas que evitam a todo custo.
— Eu poderia lhe apresentar um ou dois sujeitos sérios e cultos — ofereceu
Marley —, mas sou capaz de apostar que você se entediaria com eles em dois
minutos.
— Por que diz isso?

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— Porque homens bem-comportados são maçantes, minha cara. É por isso


que você me escolheu para ser seu par.
— E nós como amigos — lembrou lorde William.
Victoria esnobou o grupo com olhares e insinuações de superioridade. Mas
ela sabia que Marley estava certo. Homens sérios eram monótonos, antiquados e
dominadores. Não gostava que lhe dessem ordens, que duvidassem de sua
inteligência. Os boêmios e irresponsáveis ao menos a divertiam.
A atenção geral se voltou, subitamente, para a porta do salão. Marley parecia
estupefato. Victoria hesitou entre a curiosidade por seu estranho comportamento e a
chegada do novo convidado.
— Minha nossa! — Marley exclamou, sem afastar os olhos da entrada. —
Não posso acreditar que Sinclair, o pecado ambulante...
— Vigie seu linguajar, está bem? — Victoria estava reprovando o amigo mais
uma vez quando deparou com a figura mais atraente e máscula que já tivera
oportunidade de ver. Naquele momento, ela se esqueceu do que Marley dissera, do
que ela própria dissera.
— Vicky! — Lucy segurou Victoria pelo braço. — Eu acho que o recém-
chegado está olhando para você.
O coração de Victoria batia tão forte que ela mal conseguia respirar. O
homem parecia familiar, mas tinha certeza de nunca tê-lo visto antes. Marley o
conhecia. Victoria o ouvira chamar o desconhecido de "pecado ambulante". Quem
ele poderia ser?
Se um deus grego entrasse no salão de lady Franton naquele instante, ele
não seria muito diferente do garboso moreno. O modo como caminhava pelo salão,
em seu traje cinza-escuro de talhe perfeito, demonstrava autoconfiança e
determinação. Sua postura era de um nobre. O modo, entretanto, como mantinha o
olhar fixo em Victoria, embora se dirigisse a outras pessoas, o tornava um predador
como as dezenas que se espalhavam por Londres.
Victoria estava acostumada a lidar com predadores. Ela conhecia, aliás, cada
um deles. Homens em busca de diversão fácil se encontravam disponíveis em cada
salão da cidade. Nenhum jamais fizera sua pulsação acelerar... até então.
— O "pecado personificado" — lorde William disse num resmungo.
— Althorpe — disse Lionel.
— Althorpe? — Victoria repetiu, atônita. — O irmão de Thomas?
— Aparentemente, o filho pródigo retornou à cidade — acrescentou Marley,
aproveitando a aproximação de um lacaio para se servir de outra taça de vinho. — O
dinheiro deve ter acabado.
— Ou o expulsaram da Itália — sugeriu lorde William, apreensivo, ao
perceber que lorde Althorpe estava andando na direção deles.
— Itália? — estranhou Lionel. — Eu ouvi dizer que ele estava devassando a
Espanha.
— Disseram-me que ele estava na Prússia — aventou Marley.
— Será possível que o miserável tenha sido expulso do mundo? — zombou

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lorde William.
Ao redor, as pessoas trocavam especulações similares. Victoria sentiu a
tensão aumentar, com o burburinho se somando à música e ao sapateado dos
dançarinos. Não conseguia distinguir o que falavam.
— Ele se parece demais com o irmão — Victoria observou, quase para si
mesma. — Embora Thomas tivesse uma compleição mais clara.
— Apenas de corpo, porque de alma... — observou lorde William com
maldade antes de fingir um sorriso cordial. — Como vai, Althorpe? Que surpresa vê-
lo aqui em Londres.
O marquês inclinou a cabeça em saudação.
— Eu gosto de surpresas.
Victoria não conseguia afastar os olhos da figura imponente. Não era de
admirar que todas as mulheres no salão tivessem de queixo caído. As conversas
haviam sido interrompidas. O marquês se tornara o centro absoluto das atenções.
De todos os libertinos que já conhecera, ele parecia o mais perigoso. Seu físico era
magnífico. A calça preta moldava cada músculo, a capa cinza aderia aos ombros
largos e realçava os quadris estreitos.
Os olhos, de um âmbar dourado como o do mais puro uísque, não sorriam
como seus lábios ao pousarem no grupo de rivais. Victoria cogitava sobre o que
poderia estar se passando na mente daquele homem. Ele a assustava com a força
de seu magnetismo. Parecia ser do tipo que jogava uma mulher sobre o ombro
quando queria subjugá-la aos seus desejos. No entanto, como o mais gentil dos
cavalheiros, Althorpe lhe fez um meneio.
— Milady.
A voz grave ressoou por todo o corpo de Victoria. Um arrepio lhe subiu pelas
costas. O marquês esbanjava sensualidade em cada gesto. Uma mecha dos
cabelos pretos caiu subitamente sobre a testa bronzeada e Victoria precisou cerrar
os punhos para conter o impulso de devolvê-la ao seu lugar.
William a trouxe de volta de seu devaneio.
—- Vicky e Lucy, este é Sinclair Grafton, o marquês de Althorpe. Althorpe,
estas são lady Victoria Fontaine e lady Lucy Havers.
O marquês tomou a mão enluvada de Victoria e lhe fez uma mesura. Em
seguida sorriu para Lucy da mesma forma que fizera com os outros e se colocou ao
lado de Marley. Victoria sentiu uma aguilhoada. Era ridículo, mas estava com
ciúmes! Por alguma razão inexplicável, não queria dividir as atenções dele com
ninguém.
— Lorde Althorpe. — Victoria inclinou-se, formal. — Minhas condolências por
seu irmão.
— Obrigado, milady — ele agradeceu e continuou conversando, ignorando-a.
— De nada — Victoria tornou a interrompê-lo. — Eu o teria cumprimentado
antes, é claro, mas o senhor estava indisponível.
O olhar de Althorpe passeou por Victoria até os pés.
— Eu teria retornado antes, milady, se soubesse que a senhora estava

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ansiosa por me confortar.


— O que o traz a Londres? — Marley perguntou abruptamente.
Seu tom de voz não era amigável. Naquela última temporada, ele conseguira
se tornar o favorito de lady Victoria. Não se importava de dividir as atenções da
mulher mais interessante de Londres com dois ou três amigos, mas recusava-se a
ter seus privilégios roubados por um forasteiro, mesmo que o marquês fosse tão
inglês quanto ele próprio.
Althorpe encolheu os ombros com indiferença.
— Assuntos que antes de eu receber o atual título não me cabia resolver.
— O título lhe foi concedido há dois anos — Victoria tornou a se manifestar,
para surpresa de Lucy e dos demais, que mal podiam acreditar na falta de cortesia
da jovem mais disputada dos altos círculos.
Ela não fez caso dos olhares de advertência dos amigos. Estava disposta a
qualquer coisa para impedir que o marquês a ignorasse.
Mais uma vez ele a fitou daquele jeito que a fazia se sentir menor do que era.
Ao menos uma vez na vida, Victoria gostaria de ser alta, para poder encará-lo de
igual para Igual. Mal chegava aos ombros dele.
— Por que essa observação agora, milady? — Seria impressão de Victoria,
ou algo passou rapidamente pelos olhos do marquês? Ele não parecia ter gostado
do lembrete. — Algum interesse pessoal sobre meu título, talvez?
— Seu irmão foi meu amigo.
Dessa vez não foi impressão. Victoria teve certeza que a expressão se
tornara hostil.
— Isso é novidade para mim. Eu não fazia idéia de que meu irmão se
relacionava com pessoas em condições de caminhar sem o auxílio de uma bengala.
A observação fora propositalmente agressiva. Victoria cogitou se fora a ela
que o marquês quisera atingir. O motivo para tal, ela não fazia a menor idéia qual
fosse. De qualquer modo, ele não estava sendo justo e deveria se retratar.
— Thomas não era...
— Talvez possamos conversar a esse respeito durante a próxima dança.
A orquestra estava iniciando os acordes de uma nova música. Um arrepio de
excitação tornou a se espalhar pelo corpo de Victoria. Ela deveria obrigar seu bom
senso a prevalecer. Por mais atraente que fosse Sinclair Grafton, ele destilava
perigo por todos os poros. Uma desculpa se fazia premente, e ela deu a primeira
que lhe ocorreu.
— Esta dança foi prometida ao sr. Parrish.
Althorpe nem sequer se deu o trabalho de olhar para Lionel.
— Você não se importa, não é, Parrish?
— Não, se Vicky não se importar — o outro respondeu diplomaticamente.
— Eu me importo — declarou Marley.
— Esta valsa não era sua — Althorpe retrucou, a mão estendida para Victoria,

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não como um convite, mas como uma intimação. — Milady?


O comportamento do marquês deixava a desejar. Porém, como Victoria já fora
responsável por uma cena naquela noite, talvez devesse calar sua contrariedade e
passar despercebida perante os outros convidados até o final da festa.
— Foi rude de sua parte ignorar a vez de Lionel — Victoria protestou assim
que sentiu o toque em sua cintura. Precisava anular o poder que aquele homem
exercia sobre ela, custasse o que custasse.
— Não encaro dessa forma — o marquês retrucou, prendendo-a pelos olhos.
— Prefiro pensar que eu simplesmente consegui o que queria.
— E o que seria?
— Você — ele respondeu sem hesitar.
Um suspiro acompanhou a confirmação de que o primeiro instinto de Victoria
não falhara. O marquês era igual aos outros. Sua aproximação fora igual. O modo
de falar fora igual.
— Devo entender que entre todas as mulheres presentes, eu fui a única com
quem desejou dançar?
— Primo por meu gosto impecável.
— Ou seria o caso de todas as outras terem lhe recusado esta valsa por
conhecerem sua reputação?
— Você a conhece. No entanto, está dançando comigo.
— Você não me deu escolha.
— Eu não seria um vencedor se lhe tivesse permitido a vitória, não acha?
— Considera uma simples valsa um troféu? — Victoria respondeu com
provocação.
— Oh, não. Para mim, a valsa significa apenas o começo.
O ar foi arrebatado dos pulmões de Victoria, aos intermináveis volteios. Com
a mão firmemente apoiada em sua cintura, o marquês a conduziu ao redor de toda a
pista.
A sensação de impotência que a dominara no primeiro instante em que o viu
se acentuou. Sua cabeça rodava ainda mais que seu corpo. A lucidez, contudo, não
a abandonara. Estava por nascer o homem que se apoderaria de seu coração.
Muitos outros haviam tentado e falhado. Ela conhecia seus jogos. Lorde Althorpe
seria seduzido, antes de seduzi-la.
— O começo? — ela insinuou, aceitando o desafio.
— Eu seria um tolo, ou um fantasma, se não tivesse feito planos a seu
respeito, milady.
A confissão abalou Victoria, apesar de ela continuar sorrindo.
— Esperava que eu fosse corar com essa declaração, milorde?
— Eu não diria que sim. Não neste momento. — Um brilho divertido iluminou
os olhos de Althorpe. — O que eu tenho em mente poderá surpreendê-la no devido
tempo. Ou meu apelido não teria fundamento.

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O apelido do marquês era Sin, de Sinclair. Sin significava "pecado", em inglês.


Victoria precisou baixar os olhos, na tentativa de controlar a chama que pareceu se
acender dentro dela. Mas reagiu prontamente.
— Por que não tenta me surpreender agora, milorde? Ele riu baixinho.
— Depois desta contradança virão os beijos. Eu pousarei meus lábios nos
seus, bem devagar. Procurarei sentir a maciez e o calor de sua boca antes de tocá-
la profundamente. Oi beijos serão longos e demorados. Você terá a sensação de
derreter por dentro.
Victoria sorriu. O homem era esperto. Mas ela não ficava atrás.
— Talvez possa me explicar por que está tão empenhado em me beijar,
considerando que há cinco minutos pareceu-me mais interessado em conversar com
Marley do que em dançar comigo.
Nada mudou. Nem a expressão com que ele a fitava, nem o modo como a
abraçava, nem seus graciosos passos na festa, mas Victoria percebeu que a
observação atraíra sua atenção. E tão inesperadamente quanto acontecera com ele,
ela soube o porquê de não ter notado antes dos outros a presença do marquês no
baile. Por algum motivo desconhecido, ele assim o quisera.
— Espero que me dê uma oportunidade de reparar esse mal-entendido. Eu
jamais daria mais importância a alguém que não fosse você. — O marquês fez uma
pausa e olhou ao redor. Quando tornou a falar, sua voz adquiriu um tom íntimo. —
Conhece algum lugar onde eu poderia lhe pedir desculpas sem testemunhas?
O atrevimento era uma característica que se apresentava sem floreios no
famoso marquês. Mas Victoria Fontaine estava acostumada a contornar ataques
frontais como aquele.
— Lady Franton certamente mandou que trancassem todas as portas que
possam dar em ambientes reservados a seu uso particular. — Victoria quase deixou
escapar um sorriso satisfeito ao notar a contrariedade do marquês. Ele ainda não
sabia com quem estava lidando! — Exceto o jardim.
Sem dizer nada a princípio, Althorpe se limitou a encará-la. Quando retribuiu o
sorriso, Victoria teve certeza de que fora o mais malicioso que já lhe fora dirigido.
— Eu posso, então, me desculpar com você no jardim, lady Victoria?
Recusar o convite naquele instante estava fora de cogitação. Afinal fora ela
quem sugerira o local.
— Não é preciso se desculpar comigo. Mas eu aceitaria uma explicação, se
for de sua vontade.
Eles se encontravam perto da varanda. Poderiam passar quase
despercebidos por uma das portas-balcão que se abriam ao longo da parte leste da
saía. O jardim de lady Franton vinha merecendo todos os prêmios como o mais bo-
nito e exótico de Londres nos últimos anos. Era realmente maravilhoso, com seus
canteiros de plantas exuberantes margeando os caminhos iluminados por tochas
que levavam a uma praça circular arrematada por um pitoresco lago.
A cada passo, Victoria cogitava sobre a forma com que se daria a
aproximação. Ela seria capaz de apostar que lorde Althorpe não esperava que seu
flerte fosse se revelar ineficaz, uma vez que a dama em questão se antecipara ao

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convite. Mal podia esperar para descobrir qual seria a saída dele nas circunstâncias.
Afinal, não era considerado de bom-tom tentar seduzir a filha de um conde
praticamente em público, uma vez que eles estavam participando de um baile com a
presença de membros da sociedade.
Se fosse sincera consigo mesma, todavia, Victoria admitiria que a presença
do marquês colocara um ponto final em seu tédio.
— Milorde? — Victoria insistiu.
— Ainda não temos privacidade suficiente — Althorpe respondeu enquanto
prosseguia rumo à praça do lago, segurando-a levemente pelo cotovelo.
O toque, por mais suave, a fez adivinhar a força por trás daquela mão; um
sinal silencioso de autoridade que não deixava dúvida de quem estava no comando;
um sinal de que Victoria não conseguiria se desvencilhar, caso ele resolvesse
prendê-la. Longe de assustá-la, se essa era a intenção do marquês, essa
demonstração de poder a excitou.
Eles pararam sob uma árvore esplendorosa, carregada de flores roxas que
exalavam um perfume adocicado naquela noite quente de verão. Althorpe se
colocou diante de Victoria, sem lhe soltar o cotovelo,
— Onde estávamos? Ah, sim. Estou lhe devendo uma explicação.
Victoria aguardou que ele falasse. O marquês tinha algo em mente. Ela
soubera disso desde o primeiro momento. Mesclado ao brilho de seu olhar dourado,
ela reconhecia a frieza do gelo, assim como o toque de veludo escondia a dureza do
aço. O silêncio só era quebrado pelo murmúrio dos violinos e pelo balanço das
folhas à brisa noturna.
— Eu estava enganada. — Victoria achou por bem quebrar o silêncio que
estava se prolongando.
— A respeito de quê?
— Minha primeira impressão foi de que você se parecia com seu irmão. Você
não se parece com ele.
Com a ponta do indicador, Althorpe afastou uma mecha de cabelos do rosto
de Victoria.
— Você o conheceu bem, não conheceu?
Victoria estremeceu pela afronta, mais do que pelo roçar em sua pele.
— Seu irmão era um homem de respeito.
— E eu não sou?
Victoria engoliu em seco. Ele estava tentando acuá-la!
— Eu não entendo por que você parece ter algo contra seu falecido irmão,
quando todos o admiravam.
O modo como o marquês a estudou à tênue claridade das tochas a fez
perceber que havia algo além de um simples flerte em seus planos.
— Ele certamente não era admirado por todos. Alguém, afinal, foi responsável
por sua morte.
— Você fala como se Thomas tivesse sido seu inimigo.

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Victoria se encolheu ao descaso com que seu acompanhante discutia a morte


do irmão. Seu coração era de pedra?
— Eu escutei direito? Marley a chamou realmente de Vicky, como variação de
Victoria? Ou seria Vixen, a palavra inglesa para "matreira"?
Victoria apoiou as mãos na cintura.
— Então era isso? — As manobras do marquês de repente fizeram sentido.
— Essa conversa no jardim foi uma forma de você exibir uma nova conquista aos
amigos?
O marquês ficou sem palavras por um instante, mas logo recuperou a fleuma.
— E se for isso? Com uma pequena ou grande diferença. Eu não tenho
amigos; apenas rivais.
— Tanto empenho por causa de um beijo? — Victoria tentou caçoar, mas
Althorpe não lhe deu chance. Imediatamente seu olhar pousou nos lábios dela,
obrigando-a a umedecê-los com a ponta da língua.
— Não serei o primeiro, com certeza. Marley já deve tê-la beijado.
— Marley e muitos outros.
Então, os lábios de Althorpe se fecharam sobre os dela.
Acostumada a exercer o controle sobre suas emoções e sobre os homens,
Victoria se sentiu perdida por um momento. Nas nuvens, no paraíso. Ela não saberia
dizer onde. Seu coração, sua mente, todos os seus sentidos entraram em tumulto
conforme aqueles lábios se amoldavam aos dela, pressionando e mordiscando
tentadoramente.
Enquanto absorvia o sabor e a textura da boca de Victoria, Althorpe segurava-
lhe o rosto. Incapaz de permanecer com os braços inertes, Victoria os ergueu até
enlaçá-lo pelo pescoço. Nesse instante ele a abraçou e a fez recuar até suas costas
encontrarem a robustez de um tronco de árvore. As carícias, então, passaram para
os ombros, descendo para a cintura e para os quadris. Ébria de excitação, Victoria
mergulhou os dedos nos cabelos dele, atraindo-o ainda mais para o calor de sua
boca. Os ruídos cessaram no exterior, sufocados pelo troar do sangue pulsando em
seus ouvidos. Ela nunca se sentira mais mulher.
Um repentino frescor atingiu-a nas pernas. O marquês a estava acariciando
sob o vestido e os saiotes. Fechou os olhos e se esforçou por acalmar a respiração
ofegante.
— Victoria!
Pela impaciência do chamado, aquela certamente não era a primeira nem a
segunda tentativa do conde de Stiveton de localizar a filha, mas era a primeira que
os ouvidos de Victoria registravam.
— Papai?
Basil Fontaine estava olhando para a filha do outro lado do lago. A força com
que segurava a taça de vinho fazia pensar que o vidro fosse se partir. Victoria não
imaginara que o pai tivesse testemunhado sua escapulida. Ofegante até alguns
segundos antes, ela agora mal podia respirar.
— O que, em nome de Deus, deu em você, Victoria? E você, Althorpe, tire as

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mãos de cima de minha filha!


Imóvel como uma estátua, Victoria ouviu o farfalhar da seda conforme o
vestido deslizava ao longo de seu corpo. O pai devia ter visto o marquês acariciar
suas pernas sobre a seda das meias e sobre o cetim das calçolas. Seus olhos
clamavam por fitar os dele, na expectativa de descobrir como Althorpe estava se
sentindo ao serem pegos em flagrante. Mas não se atreveu a erguê-los. Temia que o
beijo não o tivesse afetado com a mesma intensidade. Era ela quem deveria
manobrar os homens a seu bel-prazer, não ao contrário.
— O senhor deve ser lorde Stiveton.
— Eu me recuso a me apresentar nestas intoleráveis circunstâncias! Afaste-
se de minha família, seu canalha!
Victoria franziu o cenho conforme a razão vencia, pouco a pouco, a nuvem
vermelha da paixão que a cegara momentaneamente. Seu pai detestava
escândalos, principalmente quando o nome da filha estava envolvido. Ele devia ter
perdido a cabeça para gritar daquele jeito. Victoria desejou que a terra a engolisse
ao reparar que a lista inteira de convidados de lady Franton se reunira na varanda e
arredores para melhor apreciar o prato principal da noite.
— Não foi exatamente o fim que eu esperava para o nosso encontro —
Althorpe murmurou, como se o incidente não o tivesse atingido.
Sem voz, sem defesa, sem ter como responder, Victoria quis afundar ainda
mais em um buraco ao ver a mãe surgir do meio da multidão para se reunir ao pai.
— Victoria, como pôde fazer isso conosco?! Com você mesma? Ouça seu pai
e se afaste desse homem sem escrúpulos!
O mundo parecia ter desabado. Victoria olhou para o alto e desejou que nada
daquilo estivesse acontecendo. Que ela ainda estivesse sob a glicínia em flor,
beijando o marquês.
— Foi só um beijo, mamãe — Victoria tentou justificar.
— Só um beijo?! — lady Franton e seus convidados repetiram em chocado
uníssono. — Ele a estava bolinando!
Lorde Franton se apresentou, cercado por meia dúzia de lacaios.
— Isto foi inadmissível. Eu o convidei para minha casa em respeito à memória
de seu irmão. Mas sua conduta obviamente demonstra que o senhor não está à
altura de honrar o título que...
— Permita-me interrompê-lo — disse Althorpe, já interrompendo. Seu tom de
voz permanecia inalterado. Ele continuou falando com a calma de quem estivesse
conversando sobre o tempo.
— Não, eu não permito — lorde Franton respondeu com desdém. — Só
existe uma maneira de o senhor remediar esta situação e não será com gracejos
que o fará.
— Não estou brincando. Regressei a Londres com a intenção de assumir a
responsabilidade que o título me confere.
Os espectadores se calaram à declaração. Vencida pela curiosidade, Victoria
finalmente se atreveu a erguer os olhos e fitar o marquês.

Projeto Revisoras 13
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Não era meu desejo ofendê-lo, a lorde Stiveton, nem a ninguém. Para
remediar a situação, eu me casarei com lady Victoria. Acredito que esta medida
limpará a mácula lançada sobre sua propriedade por uma pequena indiscrição.
— Eu não acredito no que acabei de ouvir! — Victoria protestou.
— Você ouviu corretamente — Althorpe declarou. — Nós nos deixamos
arrebatar pelo entusiasmo. Nosso casamento será a solução lógica para o deslize.
— A única solução lógica será esquecermos o episódio — Victoria retrucou,
inflamada. — Foi apenas um beijo, afinal. Os senhores estão fazendo tempestade
em copo d'água!
— Não foi um simples beijo! — discordou o duque de Hawling. — A julgar pelo
que vimos, e pela reputação dos ofensores à moral e aos bons costumes, não seria
de admirar se um herdeiro já estiver a caminho!
— É verdade. Eles estavam praticamente mantendo uma relação no meu
jardim! — concordou lady Franton, abanando-se como se o comportamento
desavergonhado do infame casal a fizesse passar mal.
Os cochichos e meneares de cabeça foram além dos limites de tolerância.
Victoria não podia admitir uma acusação tão injusta.
— Eu disse e repito que foi apenas um beijo. Eu nunca tinha visto este
homem antes desta noite!
— Não é com seus olhos que estamos preocupados, filha — resmungou o
pai. — Procure-me amanhã sem falta, Althorpe, ou mandarei prendê-lo.
O marquês se inclinou com uma mesura. Seu rosto era uma máscara
desprovida de emoção. Ninguém podia imaginar o que se lhe passava pela mente.
— Perfeitamente, milorde. — Em seguida ele se voltou para Victoria e beijou-
lhe a mão. — Milady.
Furiosa, Victoria quis correr atrás dele. O pai, antecipando sua reação,
segurou-a pelo braço.
— Vamos para casa.
— Eu me recuso a casar com Sinclair Grafton!
— Desta vez você foi longe demais, mocinha — o pai retrucou. — Eu cansei
de avisá-la, mas você nunca me ouviu. Se você não se casar com o marquês, a
vergonha nos impedirá de continuarmos freqüentando os salões de Londres. Ao
menos a metade de nossos amigos viu suas pernas esta noite. Por duas vezes, pelo
que lady Franton me contou.
— Mas eu...
— Basta! — o pai ordenou. — Não quero ouvir nem mais uma palavra!
Victoria ainda abriu a boca para se defender, mas a carranca do pai a fez
mudar de idéia. Ela esperaria que ele e sua mãe se acalmassem antes de tentar se
explicar. Até o dia seguinte, muitas coisas poderiam acontecer. Ela daria um jeito.
Recusava-se a se casar. Com qualquer pretendente. Mesmo que fosse o marquês
de Althorpe.

Projeto Revisoras 14
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Alguém estava à porta dos aposentos de Sinclair. Ele ignorou as batidas.


Estava se barbeando e recordando os eventos da noite anterior. Gostaria de ter
acabado com o miserável do Marley. Mas optara por atingi-lo mais fundo, roubando
a mulher por quem ele estava interessado.
Depois de tornar a bater sem ser atendido; o valete abriu a porta e espiou por
uma fresta.
— Eu disse que não queria ser incomodado — Sinclair resmungou.
— Talvez seja algo urgente — Roman insistiu. — Talvez alguém esteja
trazendo a notícia de que sua noiva pode ter resolvido fugir.
— Ou talvez seja algum de seus pretendentes querendo me dar um tiro!
O valete tornou a fechar a porta. Alguns segundos depois, as batidas se
repetiram.
— O que foi agora? — Sinclair resmungou, irritado.
— Milo está aqui comigo.
Sem se abalar, Sinclair continuou escanhoando o queixo. Apenas quando
terminou, e lavou as mãos e o rosto na bacia de latão para remover a espuma, deu
sua resposta.
— Verifique o que ele quer.
— Eu faria isso, milorde, mas como sabe, ele se recusa a falar comigo desde
que cheguei a esta casa.
Com um suspiro, Sinclair se enxugou e jogou a toalha sobre os apetrechos de
barba. Roman não esperou que o marquês se encaminhasse para o corredor, mas
abriu a porta de par em par para que o mordomo entrasse no quarto.
— Diga.
— O correio acabou de chegar, milorde — Milo informou, a cabeça erguida,
ignorando a presença de Roman. — Esta carta lhe foi enviada por uma tal lady
Stanton.
Sinclair pegou a carta e guardou-a no bolso da calça, sem abrir. O mordomo
pestanejou.
— Obrigado. Agora me responda. Costumava interromper a toalete de meu
irmão com assuntos insignificantes?
Milo quase engasgou.
— Não, milorde. Ainda não estou familiarizado com sua rotina. Desculpe se o
incomodei. Mas eu não tinha como saber que a carta era insignificante.
— Está desculpado. Envie um buquê de rosas vermelhas para a dama em
questão, com meus cumprimentos. E avise a cozinheira que eu não jantarei em casa
esta noite.
— Perfeitamente, milorde. — O mordomo se afastou, constrangido. Sinclair o
chamou de volta e lhe deu uma piscadela.
— Obrigado, Milo. Não se preocupe com lady Stanton. Eu cuidarei desse
assunto. — Sinclair aguardou que o mordomo se retirasse e virou-se para o valete.
— Procure se entender com ele. O homem me parece competente.

Projeto Revisoras 15
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Em seu lugar, eu mandaria embora todos os criados que trabalharam para


seu irmão. Qualquer um deles pode ter disparado a bala que o matou! Não tem
medo que outra vá parar na sua cabeça no meio da noite?
— Eu prefiro tê-los perto de meus olhos do que longe do meu alcance. — O
marquês se mirou no espelho e apontou para o paletó sobre a cama amarfanhada.
— Eu não me apresentarei com essa coisa horrível em minha primeira visita
ao meu futuro sogro.
— É um traje clássico.
— Não sou um conservador. Apanhe-me o paletó bege.
— Parecerá um boêmio.
— Eu sou um boêmio, seu tolo. Quero deixar bem claro a Stiveton que sou
quem sou e que ele não deverá nem sequer sonhar em me transformar.
Como se tivesse esquecido a presença de Roman, Sinclair rasgou o envelope
e começou a ler a carta. Ao erguer os olhos, esboçou um sorriso ao surpreender o
amigo, agora seu valete, com o cenho franzido.
— Pode me chamar de tolo, mas não fui eu que caí em uma armadilha em
minha primeira festa em Londres.
— Eu não caí em nenhuma armadilha. Quero ficar o mais perto possível de
Marley. Victoria é vista constantemente com ele.
— E seu casamento?
— Foi a melhor saída que encontrei para não ser expulso de Londres a
pontapés.
— Ah!
— Ah, digo eu! — Sinclair retrucou para não dar o braço a torcer. Desgraça
pouca era bobagem, como diziam. Ele poderia ter passado sem mais essa outra
surpresa, enviada por carta. — Nenhum pai, em seu juízo perfeito, entregaria uma
filha em meus braços. Ela está em piores lençóis do que eu.
— Quem é essa lady Stanton, afinal?
— Para você eu posso contar. Lady Stanton é o pseudônimo que Crispin
inventou para não despertar suspeitas sobre as investigações que nosso grupo está
procedendo. Sempre que precisarem se comunicar comigo eles enviarão
mensagens em nome da referida dama. Ela é supostamente uma rica viúva
escocesa que está se mudando para Londres. Bates, Wally e Crispin alugaram uma
casa em Weigh House Street.
— Bates não disse nada sobre as dez libras que está me devendo?
— Já que você quer saber, o dinheiro está a caminho. Bates e os outros
mandam lembranças.
— Nenhuma novidade ainda? — Roman perguntou embora pudesse
adivinhar a resposta.
— Nada. — Sinclair estendeu a carta para o valete e confidente. Na verdade,
seu melhor amigo. — Quer ler?
Roman apanhou o papel e leu a mensagem tão avidamente quanto Sinclair.

Projeto Revisoras 16
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Folgo em saber que Crispin estará presente ao encontro. Talvez ele


consiga dissuadi-lo dessa idéia absurda de se casar.
— Agora eu sou um marquês e terei de assumir novas responsabilidades.
Sinclair guardou o restante do pensamento para si. Não estaria tão
entusiasmado com a perspectiva de um casamento, se a noiva fosse outra. Chegara
à festa preparado para encontrar Marley, seu maior suspeito, em companhia de uma
jovem sem grandes atrativos, não de uma deusa. Vicky Fontaine era adorável. Seria
um imenso prazer levá-la para sua cama.
— Eu sei disso, no entanto as sua fama não combina com casamento.
Sinclair retomou a carta, amassou-a e atirou-a no fogo.
— Não complique ainda mais a situação, Roman — Sinclair pediu, o olhar
perdido nas chamas da lareira.
— Mas você não é o tipo de homem que eles pensam! Aliás, um estouvado
não admitiria se casar sem um motivo, mesmo que fosse com a linda Vicky.
— O casamento não será para já. Pare de se preocupar.
O valete cruzou os braços sobre o peito.
— Você é quem está complicando as coisas. Não está podendo nem sequer
viver em sua própria casa sem que os criados pensem que é um...
— Pela última vez, Roman — Sinclair interrompeu o outro. — Nada mudou
desde a França, da Prússia ou da Itália.
Roman descruzou os braços e deu um profundo suspiro.
— Está bem. Se você faz questão de que todos o considerem um devasso
em vez de um herói, e se está disposto a se casar para sustentar seu disfarce, eu
não direi mais nada.
Sinclair assentiu com convicção.
— Estou aqui para encontrar o assassino de meu irmão. A Coroa pode ter me
mantido afastado de Londres nos últimos cinco anos, mas agora que Bonaparte foi
vencido, não há mais razão para eu continuar longe. Porém, enquanto o disfarce for
útil para minha missão, eu o manterei.

— O senhor não pode estar falando a sério, papai!


— Nunca falei mais a sério em toda a minha vida, mocinha — o conde
respondeu, andando em círculos ao redor do sofá da biblioteca. — Quantos deslizes
nós já toleramos de sua parte? Seu comportamento tem sido vergonhoso para
nossa família.
— Não daria para o senhor tolerar só mais esse?
— VICTORIA!
Victoria se encolheu ao grito do pai, mas não abandonou a postura dramática,
deitada no sofá com os braços cruzados sobre os olhos.
— Foi só um estúpido beijo! Quantas vezes vou ter de repetir?
— Não foi apenas um beijo! As pessoas viram Sinclair Grafton com as mãos

Projeto Revisoras 17
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

por todo o seu corpo! Foi um escândalo!


Victoria recorrera a essa mesma estratégia na semana anterior, sem sucesso.
O resultado fora três dias sem sair de casa. Era preciso mudar de tática. Sentou-se.
— Eu já beijei outros rapazes, e o senhor não me obrigou a casar com
nenhum deles.
O conde de Stiveton fechou os olhos e tapou os ouvidos.
— Basta! Desta vez você foi longe demais. Não beijou qualquer um, mas
Sinclair Grafton, um desclassificado! Em público!
— Mas, papai...
— Chega de explicações, chega de desculpas. A menos que lorde Althorpe
tenha morrido de ontem para hoje, você se casará com ele e assumirá as
conseqüências de seu ato.
— O senhor nunca fez nada apenas para se divertir? — Victoría implorou.
— Diversão é para crianças. Você tem vinte anos. Nessa idade muitas
mulheres já têm filhos.
O conde deu a discussão por encerrada ao se dirigir ao escritório onde ficaria
no aguardo do marquês. Na biblioteca, Victoria tornou a se deitar no sofá. Dez horas
deveriam ter sido suficientes para ela convencer o pai de que um casa mento era
uma medida drástica demais para uma pequena escapada. Mas ele se mostrara
irredutível.
— Eu não quero me casar! — ela gritou, sem resposta.
De todos os castigos, aquele fora o pior. Faltava apenas um ano para ela se
tornar maior de idade. Com seu dote, sonhava em fazer uma longa viagem, sem
ninguém que lhe ditasse regras e ordens. Mas se fosse obrigada a casar, seu dote
iria para Sinclair Grafton e ele o gastaria em mesas de jogo e bebidas.
E daí que Sinclair Grafton fosse um dos homens mais atraentes que já vira? E
daí que ele tivesse feito seu coração acelerar com aquele beijo? Essas não eram
razões para um casamento. Ela não o conhecia. Só ouvira rumores sobre sua
terrível reputação. Por mais dores de cabeça que estivesse dando aos pais com seu
comportamento, não merecia um marido como o marquês.
Furiosa, Victoria se pôs a esmurrar as almofadas. Sua única esperança era
que o marquês estivesse tão horrorizado quanto ela com a perspectiva de se casar.
Oxalá seu pai estivesse certo sobre ele ter morrido, ou então partido para terras
desconhecidas. Se algum dia ela decidisse se casar, seria com um homem amável,
inteligente e compreensivo, que a admirasse e a respeitasse por sua inteligência e
sagacidade, não apenas por sua aparência.
Sinclair desceu do cabriolé diante de Fontaine House e subiu a escada de
mármore que dava para a entrada principal. Questionara-se a respeito daquela visita
e chegara à conclusão de que o Sinclair Grafton que todos conheciam certamente
procuraria lorde Stiveton. Não para acertar a data, mas para convencer o homem a
desistir de casar a filha. Segundo as informações, lorde Stiveton não era um tolo.
Assim que se acalmasse, conseguiria enxergar que essa medida não resolveria o
problema, mas criaria outro.
De qualquer modo, Sinclair excedera o limite do tolerável ao levar lady Vicky

Projeto Revisoras 18
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Fontaine para um canto escuro do jardim na noite anterior. Deveria ter encontrado
outra maneira de lhe falar a sós e descobrir se ela sabia algo sobre o envolvimento
de Marley no crime.
A reputação de sua noiva não era das melhores. Quem era ele, porém, para
julgá-la? Deveria agradecer a ela, e também à sua boa sorte por ter colocado
Victoria Fontaine em seu caminho. A festa de lady Franton teria sido sua primeira e
última na cidade, porque ninguém mais o convidaria. Em outros tempos, Sinclair não
teria dado importância a isso, mas agora era de vital necessidade que ele tivesse
acesso a todos os lugares freqüentados por Marley e pelo resto de seu grupo. Ao
menos até que descobrisse o culpado pela morte do irmão.
Outro detalhe preocupante se prendia à própria Vicky Fontaine. Como Sinclair
poderia manter os pensamentos focados unicamente na solução do enigma da
morte de Thomas, se a imagem da moça não lhe saía da mente? Com seus cabelos
azulados, de tão pretos, e os olhos cor de violeta, ela era uma das mulheres mais
lindas que já vira. No momento em que seus olhares se cruzaram, ele se esquecera
por completo de suas suspeitas sobre Marley, lorde William Landry e os outros.
O passeio no jardim fora uma mera desculpa para beijá-la. O desejo o teria
arrebatado e o levado a incríveis intimidades se o pai e os convidados não os
tivessem descoberto. Sinclair sonhava em tê-la novamente nos braços. Nada o
impediria, nesse momento, de completarem o pequeno interlúdio que mal havia sido
iniciado.
Sinclair tomou fôlego antes de bater com a aldrava. Em poucos segundos, a
porta de carvalho foi aberta.
— Lorde Althorpe? — indagou o mordomo com ar de reprovação.
— Sim. Onde posso encontrar lorde Stiveton?
— Ele o espera no escritório, milorde. Queira me acompanhar.
Sinclair seguiu os passos do homenzinho atarracado pelo vestíbulo e ao
longo do corredor até a saleta situada sob a escada que dava para o segundo andar.
A família Fontaine era tradicional. A mansão em que viviam era antiga e lu xuosa.
Sinclair pôde calcular naquele instante a gravidade da ofensa que ele causara ao ser
flagrado em intimidades com a filha do proprietário.
O conde, porém, talvez devesse se conformar por ter sido um marquês a
beijar a filha, e não Marley, que Sinclair tinha quase certeza de ser um assassino,
embora não pudesse acusá-lo formalmente por falta de provas. Era de enlouquecer.
Após dois anos de investigação, ele ainda continuava sem respostas.
Lorde Stiveton não se levantou para receber o visitante, permanecendo atrás
de sua escrivaninha de mogno à feição de um banqueiro, mais do que de um nobre.
Havia um livro contábil aberto à sua frente, mas Sinclair duvidava que o homem
estivesse com cabeça para números, naquele momento.
— Pensei que você já tivesse fugido para o campo a esta altura — lorde
Stiveton declarou com rude franqueza.
— Bom dia, milorde. Sinto desapontá-lo.
O conde olhou por cima do ombro de Sinclair.
— Pode ir, Timms. Não desejo ser incomodado.

Projeto Revisoras 19
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Sim, milorde. — O mordomo fez uma mesura e se retirou, fechando a


porta.
— Arrependimentos não apagarão suas ações de ontem, Althorpe. — O
conde apoiou as mãos sobre o tampo da mesa em um gesto de intimidação.
— Meu comportamento foi imperdoável. Eu admito — Sinclair declarou.
— Concordar comigo tampouco fará com que eu o encare com outros olhos.
Quantas vezes o senhor já se comportou de maneira ignóbil e não respondeu pelos
estragos que causou?
— Quer que eu lhe diga o número exato?
— Sua ironia não o levará a nada. O modo como se portou no Continente foi
intolerável.
— Com o devido respeito, milorde, não fui o único culpado. Sua filha me
acompanhou espontaneamente.
Com o rosto rubro de cólera, o conde finalmente se levantou.
— É assim que espera obter minha compreensão?
Sinclair esfregou a manga do paletó para retirar uma partícula invisível de pó.
— Eu não vim aqui para implorar seu perdão, lorde Stiveton, mas para me
colocar às suas ordens. Tenho uma sugestão a oferecer, mas a palavra final será
sua.
Sem pestanejar, o conde retomou seu assento.
— Esperava que eu fosse desafiá-lo para um duelo em defesa à honra de
minha filha?
— Não. Pensei que o senhor fosse exigir uma retratação minha em público.
Um duelo o levaria à morte.
O relógio bateu um quarto de hora, mas o conde não dava sinais de encerrar
a entrevista. Sinclair não gostava do rumo que a conversa estava tomando. Quais
seriam os planos de lorde Stiveton? O modo com que o homem o encarava era
especulativo. O silêncio provavelmente seria a única atitude a manter naquela
situação vexatória.
Sinclair teve uma surpresa com a súbita mudança que se operou em seu
anfitrião. O homem se inclinou conspiratoriamente sobre a escrivaninha e entrelaçou
os dedos sobre o livro.
— Por mais que eu desejasse poder afirmar o contrário, os eventos da noite
passada não foram inteiramente de sua culpa.
— Então o senhor concorda que um pedido de desculpas poderá...
— Um momento, Althorpe. Ainda não terminei. Minha filha tem um tempera-
mento rebelde e impulsivo. Eu pensei que ela fosse aprender a se disciplinar através
de uma educação mais rígida, mas os fatos estão provando meu engano.
As armas que Sinclair levara para a reunião caíram por terra diante daquela
declaração. Com sua honestidade, o conde merecia seu respeito. Sinclair imaginara
que lorde Stiveton fosse acusá-lo para defender a reputação de Victoria. Mas ele
estava lhe falando de igual para igual. Isso fez com que o próprio Sinclair

Projeto Revisoras 20
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

reconhecesse sua responsabilidade. Era um homem que sabia o que queria. A


verdade era que Victoria não tivera nenhuma chance. Ele não lhe dera escolha.
Chegara à festa determinado a conquistar a namorada de Marley, fosse ela quem
fosse e como fosse.
— O que o senhor decidiu? — Sinclair quebrou o silêncio que estava
começando a se estender.
— Como eu já disse, não tolero situações como a que aconteceu ontem à
noite. Em especial com membros de minha própria família. — O conde apanhou
uma caneta. — Eu lhe darei dez mil libras agora pelo dote de Victoria e três mil libras
daqui a um ano. Ao completar a maioridade, Victoria tomará posse da herança que a
avó lhe deixou.
A surpresa se tornou perplexidade. O conde provavelmente não fora
informado sobre a péssima reputação do homem com quem ele pretendia casar a
filha.
— Sua generosidade me comove. Sua filha e mais dez mil libras?
— E meu nome limpo! É para isso que estou pagando.
— Talvez o senhor não tenha considerado que qualquer homem solteiro se
sentirá honrado em ter sua filha como noiva, no momento em que eu me retratar em
público pelo que fiz.
— Tenho certeza disso, mas pretendo resolver esse problema de uma vez por
todas. O casamento deverá ser realizado o mais rápido possível. Na verdade, já
enviei uma mensagem comunicando o evento ao príncipe George. A cerimônia será
realizada no próximo sábado, na Catedral de Westminster.
Sinclair conteve uma exclamação de espanto. O conde certamente estava
com pressa para se livrar da filha.
— O Príncipe Regente assistirá ao casamento?
— Com certeza. Duas famílias importantes estarão se unindo nesse dia.
— E sua filha está de acordo?
— Não. Claro que não. Mas agora é tarde demais para lamentações. Se ela
tivesse se comportado, nada disto estaria acontecendo. Eu lhe apresentei uns vinte
pretendentes nos últimos três anos e ela não aceitou nenhum deles. Enganava-me
pedindo tempo para se apaixonar. Finalmente confessou que não tem planos de se
casar. — O conde estreitou os olhos. — O comportamento de minha filha me é
intolerável. O seu não fica atrás, Althorpe. Mas, diante das circunstâncias, prefiro
relevar sua reputação e prezar a oportunidade de ver minha filha casada com um
homem de família nobre e tradicional.
Sinclair engoliu em seco. Ele estava se sentindo como se tivesse acabado de
perder o último bispo e a rainha em um jogo de xadrez que nem sequer sonhara
estar jogando. Estava literalmente preso em uma armadilha. A idéia, contudo, estava
longe de ser desagradável. Ir para a cama com lady Vicky Fontaine seria um
tremendo prêmio de consolação.
No momento, porém, em que Stiveton mandou chamar a filha, Sinclair teve
ímpetos de sair da sala e fugir para longe. Não gostava de ser pressionado. Por
outro lado, de quem era a maior culpa por aquela situação?

Projeto Revisoras 21
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Maldição!
— Foi o que eu disse quando meu pai me informou sobre sua presença nesta
casa — Victoria declarou.
Sinclair fizera planos de se manter alheio, de olhar para a noiva com ar de
indiferença e até mesmo de desdém. Em vez disso, precisou conter a vontade de
abraçá-la.
— Bom dia, lady Victoria. — Ele fez uma mesura e levou a mão dela aos
lábios.
Apesar de estar usando um vestido simples de musselina cinza e verde,
Victoria estava adorável. Sinclair precisou se lembrar de respirar ao vê-la se afastar
em direção à janela, o tecido diáfano roçando sensualmente sobre os quadris
ondulantes.
— Meu pai me disse que você aceitou os termos para o nosso casamento.
— Os termos foram satisfatórios.
— Meu pai é um homem determinado — Victoria acrescentou, ressabiada.
— Você também parece ser firme em suas decisões.
— Sou obrigada a admitir que fugi da festa com você por minha vontade —
Victoria confessou para surpresa de Sinclair. — Apenas jamais teria me passado
pela cabeça que você fosse tentar me despir.
Sinclair sentiu a pulsação acelerar. Victoria tinha esse poder sobre ele. Desde
o primeiro momento. Ela também o desejara.
— Você não pareceu se importar até seu pai aparecer. O lindo rosto
enrubesceu.
— Admito que gostei de beijá-lo, milorde. Não esperava, contudo, que dois
minutos de diversão fossem terminar como terminaram.
— De qualquer modo, minha afronta será remediada em público. Mas não
espere que eu me desculpe com você. Porque adorei beijá-la.
— Está tentando me seduzir? — Os olhos de Victoria faiscaram de malícia. —
Não é preciso, milorde. Meu pai já lhe concedeu minha mão em casamento.
Sinclair observou com curiosidade o modo como Victoria se afastou da janela
e fechou a porta.
— Se pretende continuar o que começamos ontem à noite, estou à sua
disposição, milady.
— O que eu pretendo, milorde, é encontrar uma forma de nos livrar desta
enrascada. Sei que não deseja este casamento, tanto quanto eu.
— Ocorre-lhe alguma idéia a respeito?
Victoria juntou as mãos. O gesto lhe dava a aparência de uma mulher de
negócios.
— O senhor viveu no Continente durante os últimos cinco anos. Ninguém se
surpreenderia se voltasse para lá.
— Provavelmente não.

Projeto Revisoras 22
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

O pai de Victoria estava certo. A diabinha se achava no direito de ditar as


ordens.
— Se dinheiro é o problema, eu tenho uma reserva de que posso dispor. Acha
que poderia viver confortavelmente em Paris com mil libras por ano?
Sinclair mal podia acreditar no que estava ouvindo.
— Espera que eu volte para Paris?
— O quanto antes.
— Concorda em pagar todas as minhas despesas? Moradia, vestuário,
alimentação?
Victoria encolheu os ombros, a expressão desconfiada.
— Sim.
— Concorda também em me visitar esporadicamente levando bombons?
— Não estou propondo nada de sórdido! — ela retrucou com ar indignado. —
Só quero mantê-lo afastado de mim.
Sem saber se a atitude de Victoria o ofendia ou divertia, Sinclair se limitou a
encará-la.
— A questão é que eu gosto daqui. Não tenho nenhuma intenção de voltar
para Paris.
— Paris é linda nesta época do ano.
— Londres também. E você é ainda mais.
— Mas ninguém aqui gosta de você.
E ninguém em Londres tinha conhecimento de que Sinclair quase perdera a
vida, pelo menos uma dúzia de vezes nos últimos cinco anos, para salvá-los. Com o
peito apertado de angústia, Sinclair se virou de modo que Victoria não pudesse
notar. Ela, surpreendentemente, o segurou pelo braço.
— Desculpe. Eu fui rude com você.
Compaixão era um dos sentimentos que Sinclair não tolerava.
— Os londrinos aprenderão a me apreciar quando eu a tiver a meu lado.
Milady é muito popular.
A idéia do casamento parecia cada vez mais atraente a Sinclair. Victoria lhe
abriria as portas para os clubes e reuniões exclusivas, e a julgar pelo espírito
rebelde de sua noiva, ele não precisaria se preocupar com a perda de sua liberdade.
Porque ela insistiria em manter a própria.
— Eu não quero me casar — Victoria respondeu, categórica. — Com
ninguém. Ainda mais com alguém como você.
Sinclair sorriu.
— Nesse caso, não deveria ter me beijado.
Victoria tornou a corar.
— Não receia que o casamento venha a interferir com seus hábitos?

Projeto Revisoras 23
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Não mais do que com os seus. — Sinclair sorriu. Admirava Victoria por seu
olhar franco e opinião firme. A maioria das pessoas não conseguia olhar diretamente
nos olhos do interlocutor. — Seremos um casal perfeito. Fomos feitos um para o
outro. — E ao dizer isso, Sinclair se inclinou e beijou-a.
A exclamação de surpresa se fundiu com um murmúrio de prazer conforme
Victoria movia os lábios em sintonia com os de Sinclair. A resposta imediata o
inflamou da mesma maneira que acontecera no jardim de lady Franton. Sinclair
queria desprezar aquela jovem, como desprezava todos os membros da nobreza
que não se abalaram em descobrir o autor do crime que roubara a vida de seu
irmão. Como poderia? Victoria era autêntica. Ela não camuflava suas emoções.
Além disso, ele já havia beijado muitas mulheres e nunca sentira o que estava
sentindo por Victoria.
— Se eu me casar com você, será apenas para satisfazer o desejo de minha
família — declarou ela, séria, ao se afastar. Sinclair precisou se controlar para não
responder que tinha certeza de que o casamento para ela seria uma forma de se
livrar da família. Seus lábios, de qualquer maneira, se distenderam em um sorriso
impregnado de malícia.
— Posso levá-la amanhã para um passeio no parque?
— Eu combinei de fazer compras com Lucy Havers e Marguerite Porter.
— Então no sábado?
— Já tenho um compromisso.
Seria com lorde Marley? A esse pensamento, Sinclair cerrou os punhos.
— Estou enganado ou você não quer ser vista comigo?
Victoria aquiesceu com a sinceridade que lhe era própria.
— Ainda tenho esperança de ver a poeira baixar em alguns dias e que essa
história de casamento não seja mais necessária.
— De qualquer maneira, passarei aqui no sábado para levá-la ao parque.
— E se eu não quiser acompanhá-lo?
Sinclair ergueu uma sobrancelha. Em breve Victoria iria descobrir que
desafiá-lo não era a melhor maneira de se livrar dele.
— Como eu lhe disse ontem na festa, a dança é apenas o início da conquista.
A segunda etapa é muito mais interessante. — Antes que Victoria pudesse retrucar,
Sinclair abriu a porta e saiu. — Até sábado, milady.

CAPÍTULO II

Projeto Revisoras 24
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Christopher Grafton desceu correndo a escadaria de Drewsbury House para


abraçar o irmão. Sinclair retribuiu o caloroso gesto de boas-vindas do irmão caçula
antes de se afastar. Um nó, que ele carregava na garganta sem saber, se desfez.
Perdera um irmão, mas conseguira voltar para casa a tempo de impedir que a
desgraça se abatesse novamente sobre sua família.
— E bom ver você, rapaz. Cresceu bastante.
— Não tanto quanto eu esperava. Queria ficar mais alto que você.
— Christopher terá a mesma altura que o avô de vocês — disse uma mulher
da porta da sala de café. — Incrível que tenha reconhecido seu irmão após cinco
anos de ausência.
Sinclair sentiu uma paz e uma alegria indescritíveis ao ouvir a voz de sua avó.
Não era um sonho. Era real. Ele estava de volta ao lar.
— A senhora não mudou nada, vovó Augusta. Eu a reconheceria em qualquer
lugar.
Lady Drewsbury suspirou.
— É claro que mudei. Perdi um neto.
Christopher corou até a raiz dos cabelos.
— Por favor, vovó. Sinclair acabou de chegar. Dê-lhe um momento para tomar
fôlego antes do sermão.
Lady Drewsbury se calou, mas seus olhos azuis permaneceram fixos em
Sinclair. Era o que ele mais temia sobre seu retorno a Londres: o que dizer à avó
sobre a reputação que fora forçado a criar em detrimento de si mesmo para poder
investigar a morte do irmão sem despertar suspeitas.
— Está tudo bem, Christopher. — Sinclair se obrigou a usar um tom leve e
despreocupado. — Não seja um desmancha-prazeres. Vovó deve ter começado a
ensaiar esse discurso semanas atrás.
— É verdade, Sinclair. Você me decepcionou. Mas seu irmão está certo. Não
vou estragar a alegria de sua volta com um sermão. O chá está pronto. Venham
comigo.
De todas as maneiras que sua avó poderia tê-lo reprovado por seu
comportamento intolerável nos últimos cinco anos, sua amorosa aceitação foi o que
mais o atingiu. Teria preferido ouvir mil insultos.
— Não posso ficar para o chá.
Ela devia estar preparada para mais essa decepção. Tornou a fitá-lo e fez um
meneio com a cabeça. Christopher, no entanto, protestou.
— Não pode ir embora! Você acabou de chegar!
— Não incomode seu irmão, Christopher — a avó murmurou. — A agenda de
Sinclair deve estar repleta de convites para festas e jantares.

Projeto Revisoras 25
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Esse é um dos motivos de minha visita. Vim convidá-los para um evento no


próximo sábado.
— Você faz parte de nossa família, Sinclair, mas nem eu nem seu irmão
participaremos de encontros com gente indigna da nossa amizade.
— Eu admito ter andado em má companhia e que esse evento pode ser uma
farsa, mas o príncipe George estará presente e também a alta sociedade. Eu vou
me casar no dia quinze.
— Você vai se casar? — Christopher repetiu, atônito. — Mas acabou de
chegar!
— Ela está esperando bebê? É italiana?
A cada minuto, Augusta Drewsbury se mostrava mais decepcionada. Sinclair
fechou os olhos. Quando tornou a abri-los, forçou-se a sorrir.
— Não. Ela é inglesa. Eu a conheci recentemente. — Deus, ele a conhecera
no dia anterior. Como pudera se meter em uma enrascada como aquela quando mal
chegara à cidade?
— Quem é a moça?
— Lady Victoria Fontaine.
— Vicky Fontaine? Você vai se casar com Vicky Fontaine?
— Sim.
— E o príncipe George assistirá à cerimônia?
— Sim. Ele disponibilizou a Catedral de Westminster para nós.
— Se é assim, nós iremos — a avó concordou. — Trata-se de uma questão
de honra para a família.
Sinclair fez uma mesura em agradecimento. Ao recuperar a pose inicial,
percebeu que a avó havia se retirado.
— O que esperava? Não se deu o trabalho de vir ao funeral de Thomas.
— Eu não soube a tempo! — Sinclair mentiu.
Com o fim da guerra, ele deveria ter ficado liberado para contar a verdade
sobre seu paradeiro e sobre a missão que lhe fora designada desde que deixara o
país. Thomas tivera conhecimento dessas informações e fora morto. Ao saber sobre
sua morte infame, Sinclair jurara guardar segredo sobre suas ações até ter certeza
de que a família estaria livre de represálias.
Christopher acompanhou o irmão até a porta.
— Você voltará outras vezes?
— Não sei. Estou morando em Grafton House. Vá você me visitar. Se vovó
permitir, é claro.
— Eu tenho vinte anos — Christopher respondeu, orgulhoso. — Posso ir
aonde quiser.
— Não a abandone. — Sinclair apertou o ombro do irmão. — Você é tudo que
lhe resta.

Projeto Revisoras 26
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Você não está morto! Bastaria que se lembrasse de cumprir seu dever!
Sinclair se despediu com um aceno e um sorriso cínico.

— Quais são as novidades?


Sinclair combinara de ir buscar Victoria para darem um passeio. Certa de que
ele não cumpriria sua palavra, Victoria convidara as amigas para tomar chá.
— Parece que Marley ainda não se recuperou da bebedeira desde a festa em
casa de lady Franton.
— O que não é de espantar — disse Victoria. — Onde há bebida à vontade, lá
está nosso amigo.
Marguerite Porter, sentada do outro lado de Victoria, fingiu se ocupar com o
punho da blusa de renda.
— Diane Addington estava louca para tomar chá conosco, mas a mãe a
proibiu de vir. Ela disse que você exerce má influência.
Lucy deu uma risadinha.
— Cá entre nós, eu também teria beijado lorde Sinclair, se estivesse no lugar
de Victoria. Ele tem um charme irresistível.
— A opinião da mãe de Diane não me importa — Victoria afirmou. — Saibam
que os Addington já confirmaram sua presença no casamento.
— Não se falava de outra coisa ontem à noite no Almack's — Marguerite
contou.
Victoria se levantou e foi até a janela. Nenhum sinal de Sinclair, como já era
de se esperar.
— Eu não tenho permissão para sair sem meus pais ou sem meu noivo. Ele
deve achar que eu poderei fugir na primeira oportunidade. — A idéia realmente
ocorrera a Victoria, mas viver no exílio não a seduzia.
— Por sorte ele não beijou a mim — disse Marguerite.
— Embora seja o homem mais lindo que eu já vi, soube que ele morou em
um bordel nos últimos seis meses.
Um cabriolé dobrou a esquina naquele momento, e as palavras de Marguerite
se perderam na sala. Victoria prendeu a respiração ao ver Sinclair descer do veículo,
de botas, chapéu, calça preta e paletó da mesma cor. Ele andou pela calçada e
subiu os degraus sem nenhuma pressa, apesar do atraso de sete minutos.
As mãos de Victoria começaram a tremer. Para não deixar sua xícara cair, ela
a depositou no peitoril da janela. Era ridículo. Sinclair Grafton arruinara sua vida e
ela estava nervosa de antecipação pelo passeio em sua companhia?
O mordomo entrou na sala para anunciar a visita. Antes que Victoria a
permitisse, Sinclair surgiu como se fosse o dono da casa.
— Bom dia, milady.
— Boa tarde — Victoria respondeu e indicou as amigas. Antes de
cumprimentá-las, Sinclair pegou a mão de Victoria e levou-a aos lábios.

Projeto Revisoras 27
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Você notou.
— Notou o quê?
— Meu atraso — ele respondeu com um sorriso.
Um forte rubor cobriu as faces de Victoria. A finalidade da observação era
censurar o atraso, e não dar a impressão de que sentira a falta de Sinclair.
— Esta é Lucy Havers. — Victoria retirou a mão e apontou as amigas, como
se ele não tivesse falado. — Eu não acreditei que viesse, e as chamei para me
fazerem companhia — Victoria explicou antes que Sinclair fizesse alguma
descortesia, como dispensar suas colegas. — Tornei-me uma prisioneira nesta casa
desde ontem.
O sorriso de Sinclair se acentuou após uma ligeira hesitação.
— Nesse caso, eu convido a todas para uma caminhada. Lamento, mas só há
lugar para duas pessoas em meu cabriolé.
— Todas nós? — Marguerite quis confirmar.
— Por que não? Está um lindo dia, e eu detestaria privar lady Victoria da
companhia das amigas.
— Talvez elas não queiram ser vistas em sua companhia — Victoria sugeriu,
contrariada. Era para eles saírem sozinhos!
Marguerite se desculpou, mas Lucy aceitou o convite e os três se dirigiram
para o Hyde Park. Victoria seguiu na frente, de braço dado com Lucy. Não queria
que Sinclair ficasse no meio das duas.
— Não é estranho você andar comigo e não com seu noivo? — Lucy
perguntou.
— Não. Eu ainda não perdi a esperança de que meu pai volte a si a tempo de
desistir desse casamento absurdo — Victoria alegou em voz alta para que Sinclair
escutasse, mas no fundo ela adoraria caminhar com a mão no braço dele, olhando
para ele. E ele para ela. Só para ela. Quando se casassem, ela pretendia acabar
com aquele costume de Sinclair de viver cercado de mulheres.
Sem ter noção dos planos de Victoria para modificá-lo, Sinclair caminhava
distraído com a conversa das duas moças e com o movimento dos veículos e dos
pedestres. Ele lamentava que a jovem Marguerite Porter não tivesse aceitado seu
convite. Ela era sobrinha do visconde Benston, que conhecera Thomas. Mas ele
saberia esperar. Uma das lições que aprendera ao trabalhar para o governo de Sua
Majestade era ter paciência.
— Você está muito quieto. — Victoria se virou com a sombrinha protegendo-a
do sol.
— Estou admirando a vista.
— O que está achando de Londres? — perguntou Lucy.
— Agora há mais trancas nas portas, eu diria. — Sinclair aproveitou a chance
para se aproximar e segurar Victoria pelo cotovelo. — Conte-me, srta. Havers, minha
noiva já partiu muitos corações?
— Centenas.

Projeto Revisoras 28
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Lucy! — Victoria protestou.


— É mais do que justo, milady — Sinclair argumentou.
— Conhece minha reputação e eu não sei nada sobre a sua. De repente,
Sinclair se inclinou para beijar Victoria. Não porque ela lhe seria útil, mas porque a
vontade de beijá-la era sincera. Victoria corou e se desvencilhou.
— Nós estamos tentando esquecer sobre o casamento, não reforçar o
compromisso!
— Você está querendo esquecer. Eu gosto da idéia — Sinclair retrucou.
— Você o quê?
Victoria se deteve e Lucy deu uma tossidela discreta.
— Talvez devêssemos prosseguir. Estão olhando para nós.
— O que isso me importa? — Victoria esbravejou. — Por que, afinal, você
está querendo esse casamento forçado?
— Por que não? Eu teria de me casar em breve, de qualquer jeito, por causa
do título que herdei. Você é de boa família, é uma moça bonita, e além disso temos
a permissão de seu pai.
As palavras de Sinclair deixaram Victoria ainda mais furiosa. Ela agarrou o
braço de Lucy e apertou o passo.
— Tenha um bom dia, lorde Althorpe.
— Esqueceu sua sombrinha, milady. — Ainda bem, ou Victoria talvez a
tivesse quebrado na cabeça dele.
— Fique com ela.
Sinclair sorriu.
— Até o próximo sábado, então. Em nosso casamento.
Sinclair acompanhou as moças, de longe, até Fontaine House. Preocupava-
se com a segurança de Victoria. Ao se envolver com ele, Victoria também poderia
estar na mira de um inimigo, como acontecera com Thomas.
Assim que elas entraram na casa, Sinclair subiu no cabriolé e pegou as
rédeas que Roman entregou a um simples olhar antes de se desculpar.
— Retiro o que disse sobre você ter perdido o juízo. A moça é...
— Deslumbrante.
— Eu pretendia dizer que ela é fina e bonita demais para um devasso como
você finge ser.
— E você fala demais para um valete, ou camareiro, ou cocheiro, ou seja
mais o que for que você finge ser — Sinclair retrucou.
— Eu sei disso, mas como posso me calar? Ela estará correndo perigo ao se
casar com você.
— Já pensei nisso. — O amigo não gostaria da nova missão que Sinclair
tinha em mente. Mas ele era o único a quem confiaria essa tarefa. — A partir de
sábado, você se tornará seu anjo da guarda.

Projeto Revisoras 29
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— E quem será o seu anjo da guarda, enquanto eu a vigio? — Roman franziu


o cenho.
— O diabo não precisa de anjos, Roman — declarou Sinclair, sem admitir
réplica.

Na manhã de sábado, Victoria teria concordado em se casar com qualquer


um só para sair de casa e do silêncio acusador dos pais. Estava farta de ficar
trancada entre quatro paredes sem receber visitas. As amigas a estavam evitando,
com exceção de Lucy. E nem mesmo Lucy aparecera nos últimos dois dias. Sua
mãe garantia que após o casamento tudo ficaria bem, como se uma aliança na mão
esquerda fosse torná-la uma pessoa diferente.
Victoria segurava-se na penteadeira enquanto Jenny, sua camareira pessoal,
amarrava o espartilho sob o vestido de noiva.
— Aperte mais, Jenny — Victoria ordenou. — Se eu não conseguir respirar,
perderei os sentidos e assim não haverá casamento.
— Um plano razoável — opinou Jenny. — Desde que a senhorita esconda
todos os sais antes para que não consigam reanimá-la.
Antes que Victoria pudesse responder, a porta foi aberta. Esquecida dos
problemas por um instante, ela correu para os braços da visitante.
— Lex!
Alexandra Balfour, condessa de Kilcairn Abbey, retribuiu o abraço caloroso.
— Então é verdade. — A condessa se afastou e ajeitou a manga do vestido
de noiva que havia amassado.
— Você poderia ter nos dado mais tempo para nos prepararmos. Pensei que
fôssemos nos atrasar.
— Se dependesse de mim, esse casamento não aconteceria.
Alexandra não esperava por aquela confidência. Olhou imediatamente para a
criada e pediu que a deixasse a sós com a noiva.
— Lady Victoria deverá estar na catedral às onze horas em ponto — Jenny
lembrou.
— Ela estará.
Assim que Jenny saiu do quarto, Alexandra também se sentou na beirada da
cama.
— Conte-me. O que foi que aconteceu?
Victoria suspirou.
— Tudo e nada. A escolha é sua. O marquês de Althorpe e eu nos beijamos
na festa de lady Franton e fomos vistos. Meu pai decidiu que teríamos de nos casar.
— O que deu em você para beijar o marquês em público?
Victoria deitou-se para trás e escondeu os olhos com o braço.
— Não me pergunte. Acho que o charme dele me fez perder a cabeça.

Projeto Revisoras 30
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Você conhece dezenas de homens bonitos e charmosos e nunca os beijou


diante de outras pessoas.
— Foi ele que me beijou. — O silêncio da amiga fez Victoria abrir os olhos e
voltar a se sentar. — Está bem. Fui uma tola.
— Seu problema é que você age sem pensar.
— Eu sempre fui assim.
Um olhar de Alexandra foi suficiente para Victoria entender a mensagem.
— Essa é a sua maneira de dizer que eu mereci esta situação? Porque se for,
eu lhe agradeço, mas já estou farta de ouvir sermões.
— Na verdade, eu pretendia lhe dizer que desde que a conheci, no Colégio
Grenville, e mais tarde, quando me tornei sua tutora, você sempre fez apenas o que
queria.
— Está insinuando que eu estou me casando com Althorpe porque quero?
Engana-se. Ele é impossível! A reputação dele é pior que a minha. A única diferença
entre nós é que ele quer se casar comigo, mas apenas para se poupar o trabalho de
procurar uma noiva, já que decidiu se casar porque isso faz parte de seu novo perfil,
por ter herdado o título do irmão mais velho.
— Ele disse isso a você?
— Sim.
Alexandra se levantou lentamente.
— Nesse caso, Vicky, seu noivo não a merece. Pena que agora seja tarde
demais para cancelar o processo.
— Eu pensei em fugir, mas essa alternativa me pareceu ainda pior. De que eu
viveria? Teria de me tornar uma atriz ou algo do gênero.
— Fugir não é a solução. Meu conselho é que você dê algum tempo a si
mesma e a lorde Althorpe. Ele deve ter algo de bom a oferecer, como todo mundo.
Eu mesma jamais me casaria com Lucien ao primeiro encontro. Fui gostando dele
aos poucos. Seu noivo não pode ser um desclassificado, ou não teria sobrevivido
sob as ameaças de Bonaparte durante cinco anos.
— Eu o desprezo, Lex. Althorpe morou em um bordel por seis meses. Só vou
me casar com ele para não envergonhar minha família.
Alexandra beijou-a no rosto.
— Não perca as esperanças. Lorde Althorpe poderá surpreendê-la. Você não
me surpreende sempre?
— É o que eu espero — Victoria respondeu com um encolher de ombros.

— Você enlouqueceu?! — esbravejou John Bates.


— Talvez — Sinclair admitiu enquanto terminava de ajeitar a gravata com a
ajuda de Roman. — Mas eu preciso dela.
— Precisa dela ou a deseja?
— Também.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Convença-a a ir para sua cama, então. Não precisa no casar para isso!
— Cuidado com as palavras, Bates — Sinclair respondeu em tom ríspido. —
Você está falando de minha futura esposa.
— De sua esposa em vinte minutos — Roman lembrou.
O pensamento fez Sinclair se calar. Ele estava se casando com Victoria
porque realmente a queria, não porque o pai dela o forçara, nem porque aquela
união o ajudaria a encontrar o assassino de Thomas.
— Não teme pela vida de sua noiva? — Bates traduziu a maior preocupação
de Sinclair em palavras.
— Eu não deixarei que nada de mau lhe aconteça. Daqui a algum tempo, se
Victoria quiser, pedirei a anulação do casamento.
Antes mesmo de concluir essa declaração, Sinclair sentiu aversão à idéia. Por
mais estranho que parecesse, quanto maior era o empenho de Victoria em cancelar
as bodas, maior era o desejo dele de realizá-las.
— A menos que você tenha recuperado o juízo, precisamos seguir para a
catedral ou chegaremos atrasados.
Sinclair engoliu em seco.
-—Talvez eu deva tomar algo antes para me dar coragem.
— Para quê? Para cair em desgraça definitiva perante a nobreza? Além
disso, é bom que você esteja sóbrio para testemunhar o maior erro de sua vida.
Uma sensação gelada se apoderou de Sinclair. Bates estava certo,
provavelmente. Mas ele não era do tipo que deixava as coisas pela metade.
— Eu não diria o maior, mas talvez mais um de uma infinidade. E os outros,
eu garanto, não ofereciam Vicky Fontaine como compensação. Ela passará a ocupar
o quarto Contíguo ao meu. Quero, aliás, que você verifique com MiIo se o quarto e a
sala de estar ao lado estão em ordem para receber minha esposa.
— Milo ainda se recusa a falar comigo — justificou Roman.
— Mande meu recado a ele, então. Mas fique atento.
Roman suspirou.
— Eu gostaria que você tivesse mais alguém em quem confiar!
Sinclair apertou o ombro do amigo e piscou.
— E quem disse que eu confio em você?

Brilho! Muito brilho! Ao se lembrar da cerimônia, mais tarde, Victoria pensou


em luzes, pérolas e pedras preciosas faiscando ao reflexo das chamas das centenas
de velas espalhadas pela nave.
A igreja estava repleta. Membros da mais alta nobreza se apresentavam em
ricas indumentárias. Desde o príncipe George e o duque de Wellington até o duque
de Monmouth. A maioria dos convidados sorria benevolente ao ouvir a noiva repetir
docemente as palavras do arcebispo.
Declarados marido e mulher, Sinclair ergueu o véu e inclinou-se para beijar a

Projeto Revisoras 32
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

noiva. Victoria franziu o rosto. Ele sorriu e disse algo que Victoria jamais esperara,
antes de beijá-la:
— Eu não a decepcionarei.
Essas palavras ficaram girando na mente de Victoria durante toda a recepção
que seus pais organizaram em Fontaine House.
— Você se revelou uma noiva como dos contos de fada.
Victoria virou-se ao reconhecer a voz de Lucien, o conde de Kilcairn Abbey,
que galantemente se inclinou e lhe beijou a mão.
— Eu quase não acreditei quando Alexandra me contou. Alguém, finalmente,
conseguiu fisgar a mulher mais desejada e arredia de Londres?
— Não por minha escolha, é claro. Lex também deve ter contado.
O conde encolheu os ombros.
— Nada é definitivo.
— O que você quer dizer com isso?
— Se você não gostar dele, mate-o.
— Um conselho nada convencional — Victoria respondeu com uma risada.
O conde sorriu e chegou mais perto.
— Você é nossa amiga. Se precisar de ajuda, é só dizer. — Ele sorriu e lhe
deu uma piscadela.
— Como vai? Não creio que já tenhamos sido apresentados.
Victoria estremeceu ao ouvir a voz de Sinclair. Ele segurou sua mão e apoiou-
a na curva do próprio braço, mas seus olhos estavam fixos no desconhecido.
— Este é o conde de Kilcairn Abbey. — Victoria apresentou o amigo. —
Lucien, meu marido, lorde Althorpe.
Os dois homens, ambos altos e morenos, olharam um para o outro como se
estivessem diante de um espelho,
— Bonito casamento — o conde elogiou.
— Obrigado.
— Espero que saiba honrá-lo e a Victoria.
Victoria se colocou entre os dois e tratou de mudar de assunto. Sinclair estava
se portando como um marido ciumento a julgar pela hostilidade em seu olhar.
— Uma de suas conquistas? — insinuou ele assim que o conde se afastou.
— Está com ciúmes? — ela rebateu, mais frustrada e zangada a cada minuto.
Sinclair pestanejou a essa sugestão, como se a idéia nunca lhe tivesse
ocorrido.
— Deve pensar bem mal de mim para supor que eu flertaria com outros
homens no dia do meu casamento. Por outro lado, talvez você esteja apenas me
julgando por seus próprios padrões de comportamento.
Sinclair ouviu a recriminação em silêncio.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Terminou?
— Sim.
— Nesse caso, podemos dançar?
Victoria hesitou. Ainda estava irritada, com vontade de esmurrá-lo. Mas a
promessa que ele lhe fizera após os votos continuava ecoando em seus ouvidos.
— Acho que esse é meu dever.
A orquestra estava tocando uma valsa. Nos braços do marido, Victoria sentiu
a mesma atração magnética da noite em que o conhecera. Um estremecimento lhe
percorreu o corpo sem que pudesse evitar.
— Está nervosa?
— Por que estaria? É fácil dançar uma valsa.
— Em antecipação à noite de núpcias?
Victoria admirava a autoconfiança. Arrogância, porém, era algo diferente.
— Este casamento foi uma farsa. Você, mais do que ninguém, sabe disso.
Não haverá noite de núpcias. Não no sentido a que você está se referindo.
—Você não parecia desgostar tanto de mim uma semana atrás.
— Querer beijá-lo e querer me relacionar com você são coisas completa-
mente diferentes. É um tolo se pensou que fosse me seduzir com atenções e
galanterias como faz com outras mulheres.
Sinclair franziu o cenho a essa observação.
— Não sou um tolo, Victoria. Tolos são os outros homens que a tiveram e a
deixaram escapar. Eu a quero em minha cama e não faço segredo disso.
Victoria sorriu, condescendente.
— Você certamente pagou um alto preço para conseguir seu objetivo, mas fez
um mau negócio, porque seu desejo não irá se realizar.
O sorriso que Sinclair lhe deu em resposta abalou-a mais do que ela gostaria
de admitir. Provocou uma cascata de arrepios ao longo de sua espinha.
— Nós dois sabemos que será apenas uma questão de tempo. E eu sei que
essa certeza a assusta.
— Não esteja tão certo, milorde.
— Sinclair.
— Sinclair — Victoria repetiu e ele lhe deu um sorriso. Ela o imitou, mas em
seguida tornou a provocá-lo. — É fácil satisfazer um homem. Basta adulá-lo.
— Eu não sou desse tipo. Por isso a deixo nervosa. Meu maior desejo é
conhecer você.
— Conhecer meu corpo, você quer dizer.
— Você não sabe quase nada sobre mim — Sinclair lembrou-a.
A valsa terminou e Victoria tentou se afastar. Mas a orquestra iniciou outra, e
Sinclair a estreitou novamente nos braços.

Projeto Revisoras 34
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Não é de bom-tom dançar duas músicas seguidas — Victoria observou.


— Ninguém poderá nos condenar esta noite. Acabamos de nos casar. Por
que não me conta algo a seu respeito?
— Não quero. Arrume outro assunto.
— Está bem. — Sinclair indicou o homem que estava dançando com Diane
Addington. — Quem é ele?
— O visconde de Perington. Um sujeito odioso. Soube que sente prazer em
afogar gatos.
— Por que o convidou?
— Meus pais o convidaram. Ele me pediu em casamento no último verão e
minha recusa o ofendeu.
— Seus pais, então, o convidaram no sentido de estabelecerem um pacto de
amizade?
— Eu diria que eles quiseram mostrar ao visconde que ele saiu ganhando
com minha perda, e que poderá lucrar ainda mais se aceitar exportar os artefatos de
cerâmica produzidos pela Stiveton Factory.
Victoria não esperava que Sinclair fosse demonstrar interesse por sua
conversa. Seus olhos a fitavam com genuíno entusiasmo.
— E quem é aquele cavalheiro à mesa de bebidas?
— Ramsey DuPont. Outro que me pediu em casamento no ano passado.
— Se o sujeito estava usando esse mesmo traje, eu posso entender sua
recusa.
Apesar da contrariedade, Victoria teve de rir ao ouvir a observação.
— Acho que sim. Verde-limão é a cor favorita dele.
— Como DuPont reagiu ao ter seu pedido negado?
Victoria estudou Sinclair por um instante. O interesse por Ramsey não se
comparava ao que Sinclair demonstrara por Lucien Balfour. Do primeiro, Sinclair
parecera sentir ciúmes. Victoria não resistiu a um aprofundamento da investigação.
— Nada bem. Para ser franca, estou admirada que ele tenha vindo. Talvez
tenha em mente alguma vingança.
— De que tipo?
Victoria olhou para Sinclair com deliberada malícia.
— Está esperando presenciar uma cena? Com gritos e acusações?
— Apenas quero estar preparado — Sinclair respondeu com idêntica
provocação.
Victoria se calou por um instante. Sinclair era esperto. Em uma conversação
aparentemente superficial, ele conseguira descobrir várias passagens sobre a vida
dela. A dele, contudo, permanecia uma incógnita.
— Sua avó e seu irmão são pessoas adoráveis. Eu ainda não os conheço
pessoalmente.

Projeto Revisoras 35
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

A valsa terminou, mas Sinclair manteve Victoria junto a si, conduzindo-a até a
mesa de refrescos.
— É estranho que Thomas não os tenha apresentado. Ele não era seu
amigo?
A insinuação de ciúme estava de volta. Por quê?
— Eu os encontrei no funeral de Thomas. Não me pareceu apropriado
conversar. Apenas ofereci minhas condolências.
— Você foi ao enterro? — Sinclair pareceu tão chocado com a afirmação que
Victoria não soube o que pensar.
— Claro que fui. Toda a alta sociedade de Londres esteve presente. Ou
quase. E você, por que não foi?
Lucy Havers veio cumprimentá-los naquele momento, antes que Sinclair
tivesse tempo de responder.
— Parabéns aos noivos. Você, Victoria, é a noiva mais linda que eu já vi.
Escutei Diane dizer à mãe que quer um vestido igual ao seu quando se casar.
— A enorme quantidade de vinho que ela já bebeu explica seu desatino —
Sinclair caçoou.
Victoria se manteve em silêncio. Jamais teria adivinhado que Sinclair
estivesse prestando tanta atenção ao comportamento dos convidados. Principal-
mente que já soubesse quem era Diane Addington.
— Não foi certo ela ter desertado você, Victoria — disse Lucy.
— Posso entendê-la. Seus pais são severos como os meus — explicou
Victoria.
— Posso fazer uma pergunta? — Lucy hesitou e prosseguiu a um sinal
afirmativo dos noivos. — Onde vocês passarão a lua-de-mel?
— Não poderemos viajar — Sinclair respondeu sem olhar para as duas
mulheres, mas se servindo de uma taça de ponche. — Como eu acabo de retornar à
cidade, tenho assuntos urgentes a resolver.
A declaração foi tão inesperada que Victoria teria caído se não estivesse
apoiada no braço do marido. Não que ela estivesse esperando por uma lua-de-mel
tradicional, mas a informação a decepcionara mais do que desejaria admitir.
— Eu disse a Diane que achava que vocês iriam para a Espanha —
confessou Lucy.
Constrangida, Victoria deu um sorriso. Assim que a amiga se afastou, ela
ergueu os olhos para Sinclair e se afastou bruscamente.
— Você poderia ter me avisado!
— Sobre o quê?
— Sobre a viagem de núpcias. Sobre você não ter feito planos para termos
uma, mais propriamente.
— Foi você quem disse que nosso casamento era uma farsa.
— E é, mas os outros não precisam saber disso — Victoria retrucou, irritada,

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fazendo menção de deixar Sinclair sozinho no meio da festa e mudando


instantaneamente de ideia ao notar que estavam sendo observados por William
Landry.
— Não precisamos ficar até o fim da festa. Se você preferir, podemos ir agora
para casa.
Casa. Sinclair estava se referindo a Grafton House. Victoria estremeceu. Suas
roupas e todos os seus pertences já deveriam ter sido transferidos para lá.
A tristeza e o orgulho a fizeram erguer a cabeça. Suas amigas afirmavam que
ela não teria aceitado aquele casamento se realmente não o quisesse. De fato,
alguma coisa em Sinclair Grafton a atraía, ou ela não o teria acompanhado ao jardim
naquela noite. Restava descobrir se ele valeria a perda de seus sonhos de liberdade
e independência.
— Então vamos.
Sinclair segurou a mão de Victoria e eles se foram, sem se despedir de
ninguém.
A lista de suspeitos crescera no espaço das últimas horas. Ramsey DuPont,
Lucien Balfour e o visconde Perington também ficariam sob a mira de Sinclair. Por
intermédio de Victoria, ele descobrira detalhes sobre a vida dos três que antes lhe
eram desconhecidos.
Pela primeira vez em sua vida, Sinclair se perguntava como se comportar
com uma mulher. Sua mulher. Victoria não o fitara nem sequer uma vez durante o
trajeto para casa. Ele não era um tirano. Procurava tratar bem até mesmo seus
inimigos. Embora não tivesse se casado por amor, respeitava a esposa e não
achava justo o que os pais lhe fizeram.
— Acredito que todas as suas coisas já tenham sido transferidas para Grafton
House — Sinclair resolveu quebrar o silêncio.
— Onde mandou que as colocassem?
Victoria estava zangada. Talvez houvesse uma chance de convencê-la a
partilhar de seu quarto se ele não tivesse feito a tolice de contar diante das amigas
dela que não a levaria em viagem de núpcias.
— Concordaria em partilhar de meus aposentos?
— Não, se eu puder escolher. E claro que você pode me obrigar a...
— Eu não farei isso — Sinclair respondeu, sério. — É contra os meus
princípios. Quero-a em minha cama, não vou mentir. Mas estou preparado para
esperar que você venha para meus braços por sua livre e espontânea vontade.
Gosto de um bom desafio.
— Bem, nesse caso, fico feliz em representar um desafio para você.
— Eu a coloquei no quarto contíguo ao meu — prosseguiu Sinclair, ignorando
o comentário. — Há uma porta de comunicação entre eles. Mas não receie. Ela
pode ser trancada dos dois lados. Você ficará com a chave.
— E você terá uma chave também? Sinclair negou com a cabeça.
— Prefiro esperar pelo seu convite. Você será bem-vinda ao meu quarto, no
momento em que decidir ir lá.

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Os cavalos pararam. Normalmente a porta era aberta por um lacaio em dois


ou três segundos. Passaram-se trinta. A chegada antecipada do casal devia ter
causado tumulto entre a criadagem. Sinclair dera ordens para que todos os serviçais
se reunissem na entrada para darem as boas-vindas à nova patroa.
Sinclair pensou que Victoria fosse ficar nervosa diante da curiosidade
ostensiva de seus vinte e dois criados, mas ela desfilou com elegância e
naturalidade, sorrindo para todos, e se detendo, como era de praxe, apenas diante
do mordomo.
— Victoria, este é Milo — Sinclair apresentou. — Milo, tenho a honra de lhe
apresentar a marquesa de Althorpe.
Sinclair observou em silêncio, mas aliviado, enquanto Milo apresentava os
demais responsáveis pelas tarefas domésticas. O acolhimento a Victoria fora mais
caloroso do que a ele, por ocasião de seu regresso algumas semanas antes.
— Devo carregá-la em meus braços para transpormos a porta de entrada
pela primeira vez? — Sinclair sugeriu no fim das apresentações.
— Não — Victoria respondeu, sem pestanejar.
O que ele esperava? Para disfarçar sua perturbação curvou-se em uma
mesura.
— Depois de você.
Victoria hesitou ao adentrar o vestíbulo. O mobiliário era antigo e conservador,
bastante imponente em mogno escuro. Ocorreu a Sinclair que Thomas não
economizara na decoração de Grafton House.
— A saleta de estar íntima está localizada à sua direita — Sinclair informou.
— É lá que meu irmão guardava as bebidas e oferecia aos amigos. Você gostaria...
— Eu gostaria de ir para meu quarto e descansar — Victoria interrompeu.
Com um suspiro, Sinclair indicou a escada em caracol. Um burburinho se
elevava entre a criadagem.
— Pensei que o segredo de nosso casamento devesse ficar entre nós. Que
você quisesse evitar que os outros soubessem que foi uma farsa — Sinclair
lembrou.
— Eu só disse que estava cansada.
— O jantar costuma ser servido às oito. Acho que haverá tempo suficiente
para você se refazer. A menos que...
— Está bem. Eu descerei às oito horas.
— A menos que você decida fazer algo mais divertido do que apenas
descansar. Era o que eu pretendia sugerir.
— Lamento decepcioná-lo. — Victoria se deteve ao alcançar o topo da
escada. — Se quiser se divertir, procure alguém que esteja disposto a acompanhá-
lo.
Sinclair subiu lentamente os degraus. Victoria parecia agora mais vulnerável
do que desafiadora.
— A chave — ela pediu e ele riu consigo mesmo.

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Não era esse tipo de reação que esperava de Victoria. Ela era uma mulher
diferente das outras. Em silêncio, ele tirou a chave do bolso, depositou-a na palma
da pequenina mão e curvou os dedos para escondê-la.
— Espero que não se sinta confinada em seus aposentos. É livre para andar
por toda a casa. Lembre-se de que Grafton House passou a ser sua também.
— Não receia que eu tente fugir? — A expressão ainda era altiva, mas
Sinclair notou que suas palavras a comoveram.
— Você não me deu motivos para isso.
Sinclair parecia disposto a passar o resto da tarde conversando com ela.
Victoria se descobriu desejando o mesmo. Parte dela, porém, a racional, obrigou-a a
entrar no quarto e fechar a porta. E sufocar um grito de susto ao sentir algo roçar em
seus tornozelos.
— Eu não consegui colocá-lo na gaiola, milady — Jenny se desculpou, sua
voz vindo de outro cômodo.
— Não é preciso. — Victoria se abaixou com um sorriso e pegou seu gato de
estimação no colo. — Ele poderá ficar solto.
— Mas como será durante nossa ausência? Quem cuidará dele?
— A viagem foi cancelada. Vamos ficar em Londres.
— Mas...
— O marquês acabou de regressar a Londres após cinco anos, Jenny. Por
que ele desejaria voltar ao Continente e em companhia de uma esposa que mal
conhece?
— Não é de praxe que os noivos viajem em lua-de-mel?
Victoria moveu os ombros em um gesto de indiferença.
— Ele tem assuntos para resolver. Nossas agendas não deverão ser
alteradas.
— Então posso mandar buscar seus outros animais?
— Sim, por favor, faça isso. Meus pais, aliás, devem estar ansiosos por se
livrarem deles.
— Espaço, ao menos, não deverá faltar. Seu marido foi generoso. — Jenny
chamou Victoria para lhe mostrar não apenas o dormitório, mas o imenso quarto de
vestir, a confortável sala de estar privativa e um lindo terraço envidraçado com
plantas e vista para o jardim. Perfeito para quem levava a vida em reclusão. Não
para alguém que gostava de sair e de ver gente como Victoria.
De volta ao quarto, Victoria pousou os olhos sobre a porta de comunicação,
enquanto aguardava que Jenny a ajudando a tirar o vestido. Teve ímpetos de girar a
maçaneta só para se certificar de que estava trancada. Mas e se não estivesse?
Ela não estava preparada para encarar Sinclair, caso ele a estivesse
esperando do outro lado.
Ficou olhando para a chave por um longo tempo na palma da mão. Por fim,
introduziu-a na fechadura e, com um suspiro, deu uma volta, trancando a porta.
— Com qual vestido descerá para jantar, milady? O azul de musselina ou o

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verde de seda?
— Com o verde, mais formal. Não sei se é o traje mais apropriado para um
primeiro jantar de casados, mas prefiro pecar pelo excesso que pela falta.
— Da falta, seu esposo certamente se encarregará mais tarde — Jenny
acrescentou com uma risadinha que fez Victoria corar até a raiz dos cabelos.
— Jenny!
— Desculpe, milady, mas com um marido bonito como o marquês, eu...
— Não é um casamento de verdade! — Victoria interrompeu o discurso com
veemência. — Você sabe.
— Eu me pergunto se o marquês pensa o mesmo...
Victoria não respondeu. No horário marcado, contudo, ela se deu conta de
que passara as últimas horas recordando a qualidade dos beijos que seu noivo lhe
dera. Desceu pontualmente, mas apesar de estar acostumada a freqüentar mansões
e palacetes, perdeu-se a caminho da sala de jantar. Sinclair afirmara que a casa
também lhe pertencia, mas a realidade era que o casamento a tornara legalmente
uma peça adicional aos bens de seu marido.
Sinclair ainda não havia chegado. Ela saudou o mordomo e a meia dúzia de
criados que aguardavam para servi-los.
— Boa noite, milady — Milo respondeu, puxando uma cadeira na cabeceira
da mesa para acomodá-la.
— Esta situação deve lhe parecer estranha — disse Victoria. — Primeiro um
novo patrão e agora uma nova patroa, em menos de um mês. Trabalha para os
Grafton há muito tempo?
— Sim, milady. Quase a metade dos criados já estava aqui nos tempos do
antigo marquês.
— Ele foi um bom homem.
— Um homem muito bom — Milo declarou com tanta ênfase que Victoria
precisou sorrir.
— Lorde Althorpe deve apreciar sua lealdade. Por quanto tempo esteve a
serviço de Thomas?
— Cinco anos, milady. Eu gostaria de ver enforcado o maldito que o
assassinou.
Victoria ficou impressionada com a aquiescência dos demais lacaios. Mas
antes que pudesse tecer qualquer comentário, Sinclair entrou na sala.
— Boa noite, Sinclair — Victoria cumprimentou-o, admirada que o nome do
marido em seus lábios soasse absurdamente familiar.
— Você está deslumbrante — Sinclair elogiou, passando pelo local onde
Victoria estava sentada, antes de se dirigir à outra extremidade da mesa.
— Obrigada.
— Eu fui buscá-la em seu quarto para descermos juntos, mas parece que
você já está em condições de se orientar sozinha pela casa.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Mais ou menos — Victoria confessou. — Perdi-me pelos corredores.


Conheci a biblioteca e a sala de música antes de chegar aqui.
— Amanhã poderemos fazer um tour completo pelas instalações — Sinclair
propôs.
— Talvez — Victoria respondeu, incerta. — Terei um almoço beneficente
amanhã.
O tom cínico voltou a impregnar a voz de Sinclair.
— Pensei que você tivesse se preparado para fazer uma viagem.
— Sim, mas como permanecerei em Londres, não creio que deva faltar a um
compromisso assumido antes de nos conhecermos. — Victoria fez uma pausa para
apreciar o faisão assado que Milo colocara em seu prato. — É claro que poderá me
acompanhar, se quiser.
— Eu? Participar de um almoço beneficente? Não, obrigado. Nem tente me
convencer...
— Não tentarei — Victoria respondeu, abrupta. — A caridade deve ser
espontânea.
— Esta ave foi caridosa conosco, mas não se deu a nós espontaneamente.
Alimenta-nos e nos deleita com seu sabor.
Victoria sentiu o sangue aflorar ao rosto. Se Sinclair não se importava em
causar má impressão aos criados, por que ela se importaria?
— Se você confunde uma obra de caridade com o sacrifício de uma ave ao
seu paladar, não me admiro que tenha confundido a quem demonstrar sua lealdade
enquanto esteve no Continente.
Sinclair parou de comer. Lentamente largou os talheres sobre o prato. Não
afastou seus olhos de Victoria em nenhum momento.
— Minha lealdade?
— Sim. Por que outro motivo permaneceria na França quando todo o resto da
Inglaterra estava em guerra com o país?
— Eu sempre me mantive fiel a mim mesmo — Sinclair respondeu após um
longo silêncio. — Na França ou em qualquer outro lugar.
Victoria se levantou instantaneamente.
— Isso me parece ainda mais triste do que se você tivesse escolhido o lado
errado. Peço licença para me retirar.
Dessa vez, Sinclair não se atreveu a manter a cabeça erguida.
— Eu lhe desejo uma boa noite.
— Obrigada — ela respondeu, sem, no entanto, retribuir o cumprimento.

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CAPITULO III

Sinclair andava por seus aposentos de um lado para outro, parando


ocasionalmente diante da porta de comunicação. A tentação de descobrir se Victoria
a trancara era grande, mas ele preferiria morrer a entrar sem ser convidado.
Então Victoria tivera o desplante de questionar sua lealdade. Ela, uma mulher
conhecida por toda a Londres como frívola! Não vinha ao caso, naquele momento,
que esse tivesse sido o propósito de seu disfarce. Dar a todos, principalmente a
Bonaparte, a impressão de que estava interessado demais em se divertir para se
preocupar com política. O mesmo propósito que o trouxera de volta à Inglaterra para
encontrar o assassino de Thomas.
Ele só não imaginara que a franqueza de Victoria fosse doer tanto.
O relógio do vestíbulo bateu duas horas. Com desalento, Sinclair jogou uma
capa preta sobre os ombros e desceu as escadas em direção ao escritório
localizado no primeiro andar. Apesar da escuridão, ele não teve dificuldade para
retirar a tranca da janela e saltar para fora.
— Bates! — chamou baixinho, ao se aproximar do estábulo.
— Você está atrasado — disse uma voz gutural, vinda das sombras.
Sinclair se virou, já empunhando uma pistola.
— Não se mova!
— Eu não seria louco, com uma arma apontada para minha cabeça. Calma,
Sinclair. Foi só uma brincadeira.
— Não se brinca com a morte, Wally — Sinclair retrucou, devolvendo a pistola
ao bolso.
— Eu disse a ele que não era engraçado — concordou Bates.
— Bem, eu não teria tido tempo para planejar o susto, se você tivesse
chegado na hora marcada — Wally alegou.
— Eu perdi a noção do tempo.
— Acho justo — Bates tentou contemporizar. — Esta, afinal, é sua noite de
núpcias.
Como Sinclair não queria contar aos amigos que ele e sua noiva dormiriam
em quartos separados, mudou bruscamente de assunto.
— Espero que estejam me trazendo boas notícias para compensar.
Wally e Bates negaram com a cabeça.
— A suposta testemunha que seguimos nos últimos dias revelou-se apenas
um velho e bêbado escudeiro sem conhecimento de nada que não sejam palavras
de baixo calão.
— Imaginei que uma polpuda oferta de dinheiro fosse nos trazer novas

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revelações — Sinclair lamentou.


— Eu acho que dinheiro não é a questão — disse Wally. — Ou alguém já teria
aberto o bico dois anos atrás.
— E verdade. Só nos resta nos ater ao velho sistema de investigação. Ou
seja, todos são suspeitos até prova em contrário.
Crispin, que se mantivera calado até aquele instante, quis saber por onde
eles deveriam recomeçar.
— Mais da metade da criadagem foi embora, e nenhum dos que ficaram se
lembra de ter visto ou ouvido algo de incomum naquela noite. Das duas, uma: ou o
assassino é um completo desconhecido que entrou na casa sem ser notado e matou
seu irmão de surpresa, ou o assassino é conhecido de todos que moram aqui e fez o
que fez sem que sua presença tivesse despertado qualquer suspeita.
— Com uma tempestade como a daquela noite dando cobertura, qualquer
das hipóteses é perfeitamente plausível — declarou Bates, pensativo.
— Eu continuo de opinião que o assassino entrou pela janela do escritório. A
escrivaninha fica mais perto da janela do que da porta — afirmou Sinclair.
— De qualquer modo, haveria tempo suficiente para seu irmão se precaver
contra o ataque — lembrou Crispin. — Mas ele não viu necessidade de se defender.
— Exatamente. É por isso que eu tenho quase certeza de que Thomas
conhecia seu assassino.
— Então devemos continuar investigando os nomes constantes da lista?
— Sim. Não eliminaremos nenhum deles até conseguirmos provas de sua
inocência — Sinclair determinou.
— Wally, você assume a vigilância de Ramsey DuPont. Duvido que ele seja
nosso homem, mas seus maus instintos requerem vigilância. Bates ficará com lorde
Perington, que se compraz em afogar gatos, e Crispin com o conde de Kilcairn
Abbey.
— Antes você não suspeitava de Lucien Balfour — questionou Crispin.
— Qualquer um pode ser o assassino — Sinclair se limitou a dizer, com
ciúmes do outro, mais do que desconfiança. — Em caso de alguma novidade,
continuaremos a nos comunicar através de lady Stanton. Caso contrário, nos en-
contraremos no Harém de Jezebel à meia-noite da próxima quinta-feira.
Bates estreitou os olhos.
— Você tem certeza de que não quer mudar o local do encontro? A presença
de um homem casado naquele clube causará rumores.
— Você está certo — Sinclair concordou. — Eu não tinha pensado nisso. O
encontro será no Boodle's.
— Prudência nunca é demais — filosofou Crispin. — Por falar nisso, você
extrapolou todos os limites desta vez, Sinclair. Como pôde se casar em nome de
uma investigação?
— Por que você não diz que essa poderá se revelar a mais brilhante das
estratégias? — Sinclair retrucou, recusando-se a refletir sobre o enorme passo que

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

acabara de dar.

Victoria soltou a cortina e se afastou da janela. Não conseguira reconhecer


propriamente as três figuras masculinas conversando com Sinclair perto dos
estábulos, mas poderia apostar que se tratavam dos mesmos cavalheiros com quem
seu noivo conversara durante a recepção. Estranho que eles parecessem
perfeitamente sóbrios, quando deram a impressão de estarem bêbados na festa.
Ela se sentou, distraída, na beirada da cama e se pôs a afagar lorde Baggles,
seu gato de estimação. Sinclair e aqueles três não pareciam os mesmos homens
que se mostravam em público. Sinclair empunhara uma arma. Ao partirem, os outros
se comportaram como soldados.
Cansada e atordoada com os últimos acontecimentos, Victoria fechou os
olhos. Não se sentia culpada pelo pequeno ato de espionagem. Sinclair não poderia
acusá-la. Ela apenas quisera contemplar a lua no céu estrelado. Não poderia
imaginar que fosse testemunhar um aparente complô. Não que tivesse planos de
contar a ele esse seu segredo. De qualquer modo, Sinclair deveria ter uma
explicação lógica para aquele misterioso encontro noturno.
Sinclair já havia saído para a cavalgada matinal quando Victoria desceu para
tomar o desjejum. Antes, dois ou três rapazes já estariam esperando por ela na sala
de visitas para convidá-la para um piquenique no parque ou para passear de
carruagem.
Grafton House não abrigava admiradores de Victoria Fontaine, incluindo o
próprio marido. O que não deixava de ser uma opção agradável após anos e anos
de conversas fiadas.
— Milo, o que lorde Althorpe pensa sobre animais de estimação? — Victoria
perguntou ao mordomo ao se sentar à mesa.
— Eu francamente não sei, milady. Posso afirmar, contudo, que ele comprou
vários cavalos depois que chegou.
Victoria fez uma pausa.
— Você disse "chegou", não "voltou". Não conhecia lorde Althorpe antes de
ele assumir esse título?
O mordomo apanhou o bule de chá das mãos de um criado e mandou que ele
saísse da sala.
— Eu o vi em uma única ocasião, milady, logo depois que comecei a trabalhar
aqui. Sua visita foi breve. O antigo marquês não nos apresentou. Eu diria que
acertadamente...
Victoria tomou um gole do chá para disfarçar seu interesse na informação.
Porque embora o mordomo não tivesse contado nada de comprometedor, ele lhe
deixara a nítida impressão de não gostar do novo patrão.
— Segundo o que você está me dizendo, lorde Althorpe não mantinha um
bom relacionamento com o irmão?
— Eu não tenho certeza, mas testemunhei uma séria discussão uma vez.
Depois disso o antigo marquês evitava mencionar o nome do irmão, a não ser
quando lia alguma notícia a seu respeito nos jornais.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— É triste saber que os dois irmãos não se entendiam. Eu gostaria de ter uma
irmã com quem conversar.
— Lorde Althorpe tem outro irmão — Milo prosseguiu. — Com Christopher, o
caçula, ele se dá bem.
Victoria sorriu. Era fácil arrancar informações dos homens. Bastava ter um
pouco de jeito.
— Você parece gostar do jovem Christopher.
— Ele é um bom rapaz.
— Eu o conheci ontem. Estranhei que meu marido não o tivesse mencionado.
— Correm boatos de que lady Drewsbury, a avó, não aprovou a demora do
novo marquês em assumir o título.
Victoria estava agradecendo a ajuda que Milo lhe dera em situá-la a respeito
de alguns fatos de família, quando percebeu uma sombra se movendo no hall.
— Peço sua licença, milady.
Era Jenny. Victoria rezou para que sua camareira pessoal não tivesse deixado
lorde Baggles escapar. Antes que tivesse chance de responder, ouviu um baque.
— Desculpe, milorde.
— Não foi nada, Milo. Cuide para que Diable seja conduzido de volta ao
estábulo e alimentado. — Sinclair surgiu à porta e cumprimentou Victoria.
Os criados se apressaram a arrumar um novo lugar ao verem o patrão ignorar
a cabeceira da mesa e se sentar ao lado da esposa. Victoria sentiu que corava sob o
olhar especulativo.
— Diable? — ela repetiu, para dizer alguma coisa.
— Meu novo cavalo. Ele estava impossível esta manhã.
Victoria aquiesceu com um sorriso. Sinclair parecia estar de bom humor.
— Você dormiu bem? — ele perguntou, retribuindo o sorriso.
— Sim. — Sinclair não parecia se importar que os criados soubessem que
eles haviam dormido em quartos separados. Ela não tentou ocultar o fato, tampouco.
— Meus aposentos são bonitos e confortáveis. Obrigada.
— Folgo em saber que você gostou de suas acomodações, mas não era
preciso me agradecer.
— Eu insisto. Você foi atencioso.
— Entendo que as mulheres necessitam de um lugar privativo para que
possam escapar da monotonia da rotina doméstica.
Victoria não sabia nada sobre esse tema, mas fazia questão de tecer
observações sobre as mulheres em geral, como se fosse igual às outras.
— Se a casa de um homem é seu castelo, acho razoável que a mulher conte
com alguns cômodos de uso exclusivo.
— Estou enganado, ou você está tentando começar uma discussão?
— Está enganado. Não o conheço o suficiente para discutir.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Outra vez a mesma alegação? — Sinclair acusou-a. — Você é persistente.


— Essa é uma de minhas maiores qualidades. — A que horas será o almoço
beneficente?
Victoria pestanejou à abrupta mudança de assunto.
— Preciso me apresentar à uma hora, o mais tardar, em casa de lady Nofton.
O almoço está marcado para a uma e meia.
— Só para mulheres?
— Alguns cavalheiros comparecerão. Os mais liberais, principalmente, mas
também alguns clérigos.
— Jovens adoráveis como você, ou velhotas solteironas na maioria?
— Isso não me importa. Mas se seu interesse reside em conhecer outras
moças, não conte com minha colaboração para apresentá-las.
Sinclair não conteve um sorriso. Seria ciúme? Em silêncio, pegou um
morango do prato de Victoria e levou-o à boca.
— Peço desculpas.
— Minha tutora costumava dizer que a única coisa melhor do que reconhecer
um erro é não cometê-lo.
— Terei esse conselho em mente. Mas juro que não tive a intenção de
ofendê-la.
— Aceito suas desculpas.
— Então permite que eu a acompanhe a esse almoço?
— Por quê?
— Desejo conhecê-la melhor, mesmo que para isso eu seja forçado a
comparecer a eventos religiosos. Sua resposta? — Está bem. Talvez uma mudança
em sua agenda sociaI lhe faça algum bem. Sinclair colocou a mão sobre a de
Victoria.
— Ótimo. Tenho um compromisso, mas voltarei sem demora.

Milo estava descartado como suspeito.


Apoiado contra o balcão da sapataria, Sinclair tirava mentalmente o chapéu
para sua esposa. Em alguns instantes naquela manhã, à mesa do café, Victoria
conseguira extrair mais informações do mordomo do que ele em quase um mês.
Era verdade que Milo tinha razões para antipatizar com ele e nenhuma para
se ressentir contra Victoria, mas a astúcia com que ela sabia lidar com as pessoas o
fazia lembrar uma raposa. O mordomo não precisaria apresentar álibis para
convencê-lo de sua inocência. Ele gostara genuinamente de Thomas. Por sorte
resolvera voltar mais cedo da cavalgada e chegara a tempo de ouvir a conversa.
Roman ficaria desapontado com a notícia, por não ter sido ele a fazer essa
descoberta. Mas ao menos agora Sinclair poderia dormir mais sossegado.
O sapateiro puxou uma fatura de uma enorme pilha de papéis, deixando a
metade para fora.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Enfim a encontrei. Está em nome de Thomas Grafton. Venha ver. — O


homem exibiu o pedaço de papel. — Não posso tirá-la porque estão colocadas em
ordem de data.
Sinclair passou pelo balcão e se dirigiu à escrivaninha no fundo da loja. Ao se
curvar para verificar o documento, bateu deliberadamente com o cotovelo na parte
de cima da pilha, sobre a marcação.
— Mil perdões.
— Não há problema, milorde — garantiu o pobre funcionário diante das
dezenas de faturas espalhadas pela mesa e pelo chão.
Sinclair aproveitou a distração do rapaz, ajoelhado no chão, para apanhar as
faturas que estavam mais próximas da indicada. Descobriu de imediato que outros
cinco clientes estiveram na loja no dia em que Thomas viera comprar um novo par
de botas. O dia de sua morte. As botas com que ele fora enterrado.
Dois nomes eram bem conhecidos. Os demais, ele tratou de memorizar.
— Desculpe lhe dar todo esse trabalho — disse Sinclair quando o rapaz se
levantou.
— Não tem importância. As faturas estão numeradas. O senhor não me deve
nada. Seu irmão pagou à vista pelas botas.
Satisfeito com seu progresso, Sinclair voltou para a charrete e seguiu rumo a
Berkeley Square. Fazia anos que não via Astin Hovarth. Seria um prazer voltar a ver
aquele que fora o melhor amigo de Thomas. Talvez os dois tivessem ido juntos
naquele dia comprar um par de botas.
Milo o recebeu como se estivesse engasgado. Parecia ter algo importante a
lhe dizer, mas sua voz se recusava a sair.
— O que houve? Você está bem?
O mordomo balançou a cabeça de um lado para outro e tossiu antes de
responder.
— Lady Althorpe acaba de receber mais alguns itens pessoais.
Então era isso? Sinclair chegara a pensar que Victoria tivesse fugido de casa.
— Ela está?
— Sim, milorde. No jardim-de-inverno.
Sinclair subiu a escada para o segundo andar. Ao se aproximar dos
aposentos da esposa, deparou com dois criados carregando vasos com flores e
plantas exóticas. Como a porta da varanda estava fechada, ele bateu.
— Um momento.
Um momento e outros mais se passaram até que a porta fosse aberta. Jenny
arregalou os olhos ao vê-lo.
— Lorde Althorpe está aqui, milady.
— Peça que ele entre e feche logo a porta.
Não houve tempo. Um pequeno amontoado de pelos brancos passou entre os
pés de Jenny, e teria escapado se Sinclair não fosse rápido o suficiente para se

Projeto Revisoras 47
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

abaixar e segurá-lo. Antes que tornasse a se levantar, porém, Victoria veio por cima,
e os dois desabaram no chão.
— Você se machucou? — Sinclair se apressou em perguntar.
— Não. — Victoria afastou a cascata de cabelos negros que deslizou sobre
seu rosto. — Eu estou bem. E você?
— Eu e o cachorro também. — Sinclair indicou o minúsculo poodle toy.
— É fêmea — ela corrigiu. — O nome dela é Henrietta. Foi abandonada, ou
se perdeu. Eu a encontrei em Covent Garden, em uma sarjeta, tremendo de medo.
Henrietta está estranhando a mudança. Foi por isso que tentou escapar.
Uma onda de ternura inundou Sinclair. De repente, sua vontade de beijar
Victoria se tornou quase irresistível. Para não forçar uma situação, levantou-se.
— Ela aprenderá a gostar daqui antes do que você imagina.
Um lindo sorriso surgiu nos lábios de Victoria que permaneceu enquanto
Sinclair estendia a mão para ajudá-la. Ele não saberia dizer por quanto tempo os
dois ficaram parados, apenas olhando um para o outro. Justamente no momento
que ele decidiu beijá-la, um miado os distraiu.
— Sheba! O que houve? — Victoria colocou Henrietta de volta nos braços de
Sinclair e correu para a varanda, voltando em seguida com uma enorme gata persa
no colo. — Espero que você não se importe, mas meus pais se recusaram a cuidar
dos meus bichinhos de estimação. Como você disse que agora esta também é
minha casa...
— Eu não me importo.
— Ótimo. Porque eles vão ficar.
— Foi o que eu deduzi — Sinclair afirmou com ar irônico, embora a situação
lhe fosse simpática.
— Você não terá com o que se preocupar — Victoria prosseguiu, na
defensiva. — Eles são de minha total responsabilidade. Eu me encarregarei de
todas as despesas.
— Eu não estou preocupado. Apenas não esperava por isso — Sinclair
confessou.
A cada momento, Victoria se tornava uma revelação.
Não era a jovem estouvada de que todos falavam. Praticava a caridade com
os humanos e também com os animais.
— Agora posso entender seu repúdio por lorde Peringlon, Qual desses gatos
você salvou das garras dele?
— Lorde Baggles. É o meu xodozinho. Deixei-o dormindo em meu quarto.
— Eu não fazia idéia de que lorde Perington era um sádico.
Victoria estreitou os olhos.
— Os fracos precisam provar sua superioridade com criaturas mais fracas do
que eles.
Após um único dia, a mulher com quem Sinclair pensara ter se casado por

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

interesse estava provando ser digna de sua admiração e de seu amor. Porque seu
caráter talvez fosse ainda mais bonito do que o rosto e o corpo.
Victoria se surpreendeu olhando para o marido mais do que algumas vezes,
depois que eles desceram da carruagem nos magníficos jardins da propriedade de
lady Nofton, nos ar redores de Londres, onde aconteceria o almoço beneficente,
— Seja gentil com as pessoas — Victoria murmurou, no ver lady Nofton
acenando em sinal de boas-vindas.
O braço de Sinclair enrijeceu sob os dedos de Victoria.
— Não sou um de seus animais — Sinclair protestou. — E não sou uma
criança.
— Eu não quis dizer isso. Apenas quero que tudo dê certo hoje.
— Está se referindo à minha reputação?
— Você a fez!
— E você a sua!
Por pouco Victoria não mostrou a língua para o marido. Na verdade, não tinha
do que se queixar. Ele estava se revelando um homem muito melhor do que ela
esperava.
— Querida Vicky! — lady Nofton a cumprimentou efusivamente. — Que bom
que você veio! Estou tendo dificuldade para organizar os lugares à mesa.
Victoria se ofereceu para verificar a lista do convidados e ao mesmo tempo
apresentou Sinclair, que após os cumprimentos de praxe se afastou em companhia
do mordomo para buscar uma bebida no escritório de lorde Nofton.
— Então você agora é uma mulher casada! — Estelle exclamou. — Eu não
quis acreditar quando me contaram. Agora entendo. Ele é um pedaço de mau
caminho, não?
Victoria sorriu e fez que sim. Não houve tempo para explicações. Era preciso
organizar os lugares antes que os demais convidados começassem a chegar.
Sinclair parecia ter se esquecido dela. Retornou apenas quando o almoço foi
servido. E com um forte cheiro de álcool.
— O almoço será regado a vinho. Você não deveria ter tomado uísque.
— Não sou de perder tempo — Sinclair zombou.
Victoria não respondeu. O hálito de Sinclair estava fresco, com aroma de
menta, da bala que o vira chupando durante o trajeto. Ele apenas estava fingindo
que bebera. O mais estranho era que essa mesma possibilidade lhe ocorrera ao
observar os amigos de Sinclair na festa de casamento e depois os surpreender,
perfeitamente sóbrios, naquela reunião atrás do estábulo.
— Não, não é. Estou começando a perceber, aliás, que você também não é o
que parece ser.
— Não entendi. Poderia me explicar?
— Em primeiro lugar, você não bebeu.
Estelle chamou Victoria naquele instante e a conversa teve de ser
interrompida.

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Sinclair franziu o cenho. Precisaria encontrar uma boa desculpa antes que
Victoria desconfiasse da verdade.
— Quem era aquele sujeito pedante que acabou com as castanhas
brasileiras? — Sinclair perguntou durante o trajeto de volta para casa.
— Você as queria todas? — Victoria indagou, mal-humorada. — Eu o vi
comendo uma porção.
— Sim, mas eu não peguei um prato inteiro quando ninguém estava olhando.
— Uma pessoa estava olhando: você. — Victoria não se conteve. — Por que
fingiu ter bebido? Deve ter derramado uísque na gola do casaco para cheirar
daquele jeito. Fez de propósito para me fazer passar vergonha?
Sinclair disse a primeira coisa que lhe veio à mente:
— Não gosto que me digam o que fazer. Especialmente pessoas mais jovens
e menores do que eu.
— Principalmente se for uma mulher.
— Sim. Principalmente.
Victoria cruzou os braços.
— Está bem. Eu não lhe direi o que fazer, desde que você concorde em me
tratar de igual maneira.
— Não sou seu pai. Não lhe dei nenhuma ordem. Compareci a esse almoço
inútil só para lhe fazer companhia.
Uma lágrima deslizou pela face de Victoria.
— Não foi inútil. O comedor de castanhas era o vigário de Cheapside. Se for
necessário comprar um caminhão de castanhas para convencê-lo a abrir uma nova
escola para crianças carentes, eu comprarei.
Sinclair estava gostando de saber que Victoria não era insensível e
irresponsável como ele pensara ao se casar. Impressionara-o favoravelmente seu
comportamento ao almoço e com seus animais de estimação. Sonhava com o dia
em que também poderia se apresentar como ele mesmo, e não como o homem que
as circunstâncias o obrigaram a fingir ser.
— Não leve tudo tão a sério, Victoria! — Sinclair protestou com mais vigor do
que desejaria. — Era brincadeira!
— Não creio. Você está se comportando como alguém irresponsável e
desagradável de propósito. Por quê?
Sem ter o que responder, Sinclair puxou Victoria para si e beijou-a. Um beijo
impetuoso, desesperado, feito para apagar as perguntas cujas respostas lhe eram
impossíveis.
Os lábios de Victoria se entreabriram para que o beijo se aprofundasse.
Sinclair apertou-a contra o peito e estremeceu ao sentir que ela o enlaçava pelo
pescoço. Estava rijo do excitação. Se Victoria quisesse, ele faria amor com ela ali
mesmo. E como se a idéia fosse se concretizar a esse pensamento, Sinclair puxou a
bengala, acessório de que os cavalheiros elegantes faziam uso ao caminharem
pelas ruas de Londres, e bateu contra o teto para avisar Roman que o passeio pelo

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Hyde Park deveria ser prolongado.


— Você ainda não me respondeu — Victoria insistiu, sem afastar os lábios
dos dele.
Sinclair se retesou, a bengala rolando pelo banco. Victoria continuava com os
braços ao redor de seu pescoço.
— O que eu posso lhe responder é que você está tentando interpretar
significados onde não há o que ser interpretado. Eu sou o que sou.
Sim, ele já havia se portado mal uma infinidade de vezes. Mas nunca se
sentira tão infame como agora! Porque já havia contado muitas mentiras, mas nunca
a alguém a quem desejava contar apenas a verdade.
— Não insistirei mais. — Victoria se desvencilhou. — Se você não confia em
mim, não espere que eu confie em você.
Sinclair detestou a expressão de desapontamento que se espalhou pelo
semblante feminino. Mas era preferível decepcioná-la a vê-la morta. Ou viúva.
Assim, por mais que desejasse se desculpar e garantir que ela não se arrependeria
de ter paciência com ele, Sinclair se calou.
A carruagem parou e alguns segundos depois um lacaio abriu a porta.
— Tenho um compromisso esta noite — Victoria avisou ao descer o degrau.
— Alguém que eu conheça?
— Como posso saber? — Victoria encolheu os ombros.
Sinclair hesitou. Seu estratagema resultaria ineficaz caso Victoria não lhe
desse acesso a seus amigos. Das duas, uma: ou ele lhe contava outra mentira para
apaziguar os ânimos, ou uma meia-verdade. Qualquer coisa, desde que essa
medida não colocasse sua esposa em risco, nem seus amigos, e lhe rendesse
alguma cooperação. Milo se adiantou para recebê-los.
— Boa tarde, lorde e lady Althorpe. Como foi o almoço?
Em quatro semanas, aquela era a primeira vez que Milo se interessava em
saber como Sinclair passara seu dia. Ele fez questão de responder antes que
Victoria o fizesse.
— Muito bem, obrigado.
À frente, Victoria caminhava com o olhar perdido no céu, ou em seus
aposentos no segundo andar. Trancados a chave!
— Victoria, posso ter uma palavra com você?
— Você esteve a meu lado o dia inteiro.
Ela começou a subir a escada. Sinclair adiantou-se e pegou-a no colo.
Victoria o fitou, estarrecida.
— Ponha-me imediatamente no chão!
Sem responder e sem atendê-la, Sinclair seguiu para a biblioteca, um
território neutro, do lado oposto à ala dos dormitórios.
— Você é mais do que um mal-educado irresponsável! — Victoria censurou
ao ser finalmente colocada no sofá, sob a janela. — Ninguém jamais me faltou ao

Projeto Revisoras 51
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respeito como você. Não vou tolerar que me trate assim.


Ela se levantou e se encaminhou para a porta. Sinclair pediu que voltasse e
se sentasse.
— Não.
— Eu preciso falar com você. Não me obrigue a usar de força.
O olhar de Victoria poderia congelar o sol. De qualquer modo, a ameaça
surtiu efeito. Embora com o cenho franzido e os braços cruzados sobre o peito,
Victoria retomou seu assento.
— Obrigado — Sinclair agradeceu e se deu conta, naquele instante, de que
não sabia por onde começar. Fazia tanto tempo que não se abria com alguém que
os fatos sobre sua vida pessoal pareciam terem sido esquecidos nos recessos da
mente. O questionamento nos olhos de Victoria obrigou-o a uma tomada de atitude.
— Não fui inteiramente honesto com você.
— Não conte com minha compreensão — Victoria resmungou. — Agora eu já
não me importo mais.
Na esperança de que a esposa não estivesse dizendo a verdade, Sinclair foi
até a janela, hesitou por um momento e tornou a fitá-la.
— Meu regresso não se prendeu apenas à posse do título.
— Não. Você mencionou algo sobre sua nova vida requerer um novo estado
civil. — Victoria apanhou um livro e começou a folheá-lo. — Eu estava disponível.
— Eu jurei encontrar o homem, ou a mulher, que matou meu irmão.
Victoria fechou o livro.
— Eu sabia! Mas não entendo o porquê de você ter demorado tanto para
voltar e fazer com que a justiça se cumpra.
— Não dependia de mim. Eu precisei permanecer onde estava. Por outro
lado, talvez essa demora reverta a meu favor. Após todo esse tempo, o assassino
deve estar confiante de que seu crime passará impune.
— O que isso tem a ver com as bebedeiras forjadas, suas e de seus amigos?
Eles me pareceram perfeitamente sóbrios, depois da festa, quando participaram
daquela reunião com você nas sombras da noite.
Sinclair enrijeceu. Como era possível que Victoria tivesse descoberto o
esquema? Agora algumas peças estavam se encaixando. Estava aí a razão de
tantos olhares e observações de desconfiança. Victoria era ainda mais inteligente do
que ele imaginara.
— Eu os conheci durante minhas excursões pela Europa. Eles se ofereceram
para me ajudar na investigação.
— E as supostas bebedeiras?
— As pessoas falam mais abertamente quando se encontram sob o efeito do
álcool. Nós fingimos beber para encorajar os outros.
Victoria fez silêncio por um longo tempo. Sinclair receou ter exagerado nas
informações. Quanto menos sua esposa soubesse, menos riscos correria. Foi um
alívio descobrir que era outro o assunto-que mais a preocupava.

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— Quantas das histórias sobre a vida devassa que você levou na Europa são
verdadeiras?
— A maioria — Sinclair respondeu e aproveitou para tentar reverter o quadro.
— E sobre a sua, em Londres?
— A maioria — disse Victoria e desapareceu em direção aos seus aposentos.
Sinclair ficou olhando até ela entrar no quarto e fechar a porta. Não
conseguira uma aliada. Mas ao menos não fizera de sua esposa uma inimiga. O
resultado da conversa lhe parecia positivo. Uma trégua parecia ter se estabelecido.

— Uma moeda por seus pensamentos.


Victoria pestanejou. Estivera brincando com a comida no prato nos últimos
cinco minutos, sem perceber.
— Eles valem uma moeda de ouro, no mínimo, Lex.
Alexandra Balfour deu um sorriso.
— Feito.
— Primeiro você fala, depois nós pagamos — exigiu Lucien Balfour do outro
lado da mesa.
A condessa de Kilcairn percebeu o desconforto de Victoria e lembrou o marido
de seu compromisso com os amigos no clube. Victoria acompanhou com atenção as
brincadeiras entre o casal e o modo como se beijaram, com doce cumplicidade, ao
se despedirem. Era assim que deveria ser entre todos os casais.
— Então, Victoria? O que houve? — Alexandra indagou assim que as duas
ficaram a sós.
— Eu me aborreci com Sinclair e inventei este jantar com vocês só para sair
de casa. Desculpe por ter vindo sem avisar.
— Sua presença aqui é sempre um prazer. Nunca esquecerei o que fez por
mim. Mas o que houve que a deixou tão zangada?
— O tempo em que você foi minha governanta ficou no passado. Não fale
mais nisso.
— Está bem. Agora somos grandes amigas. Mas eu nunca teria conhecido
Lucien se não fosse por você.
— Como minha amiga, você me preveniu de que eu acabaria me casando
com um desclassificado se não aprendem se a me comportar devidamente.
Alexandra sorriu.
— Não. Quem lhe disse isso foi a srta. Grenville. Ela a aconselhou a mudar
seu temperamento, se não quisesse adquirir uma má reputação.
— Eu acabei fazendo as duas coisas — Victoria desabafou, levantando-se e
dando uma volta completa ao redor da mesa. — Sinclair e eu não conseguimos ficar
juntos cinco minutos sem discutir.
— Como lorde Althorpe reagiu à chegada de seus animais de estimação?
— Bem. Ele até pareceu gostar.

Projeto Revisoras 53
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— Se aceitou receber Mungo, em minha opinião ele não pode ser tão mau.
— Sinclair ainda não viu Mungo.
— Oh, oh! Não está mais aqui quem falou! Mungo pode significar um
problema em qualquer relacionamento. Mas eu a conheço como ninguém. Você
nunca foi covarde para desistir de um desafio sem uma boa luta.
Victoria ponderou sobre o conselho por um longo minuto. O esforço de
Alexandra em levantar sua moral era evidente. A amiga estava certa. O casamento
se realizara dois dias antes. Uma vida inteira se estendia à sua frente. Era seu dever
tentar que desse certo.
Quando Victoria regressou a Grafton House, Sinclair não estava. Ela
aproveitou para alimentar os animais.
Henrietta adorara se esconder entre os vasos com densas folhagens;
Grosvenor, o velho cão, era um freqüentador assíduo do antigo sofá que ela trouxera
de sua casa de solteira; Mungo, o papagaio, subira no peitoril da janela e já havia
comido a metade dos amendoins que ela lhe dera.
Victoria permaneceu por cerca de uma hora à espreita, atrás da cortina, mas
nem Sinclair nem seus amigos apareceram. O local do encontro deveria ter sido
mudado por causa dela. Intrigava-a que eles fingissem estarem ébrios para colher
informações durante conversas. Sinclair confessara ter usado esse estratagema
anteriormente. Se ele acabara de chegar a Londres, isso significava que o mesmo
esquema fora aplicado na Europa. Por que motivo?
Ao se deitar entre os lençóis macios e perfumados, Victoria sorriu com
otimismo. Se em tão pouco tempo do casados, ela já havia descoberto um segredo
de Sinclair, a revelação de outros seria apenas uma questão de tempo.

— Você contou a ela?!


Bates ficou boquiaberto; Wally entornou a cerveja do copo; Crispin
pestanejou, aturdido.
— Eu não tive escolha — Sinclair respondeu na defensiva. — Victoria nos viu,
da janela do quarto.
— Como pode dizer isso? Justamente você, o mestre do disfarce? — Bates
contestou.
— Sosseguem! Eu não contei tudo! Apenas o suficiente para ela parar de
fazer perguntas.
Sinclair precisava cativar a esposa de alguma maneira. Victoria vinha
evitando-o sistematicamente. Ele queria sua companhia. Queria mais do que isso.
Sentia falta de beijá-la, de ouvi-la falar.
— Você não é mais o mesmo — Wally acusou-o. — Perde-se por um par de
olhos azuis.
— Violeta — Sinclair corrigiu. — Olhos de uma beleza excepcional, como eu
nunca encontrei antes. E eu só contei a ela que jurei encontrar o assassino de
Thomas, mais nada.
— Como justificou nossa presença? — quis saber Crispin.

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— Eu disse que vocês se ofereceram para me ajudar. Por falar nisso, alguém
tem alguma novidade para me contar?
— Eu estive com Kilcairn ontem — contou Bates. — Ele é contra Bonaparte.
— Um primo dele foi morto na Bélgica — informou Crispin. — Eu não creio
que Kilcairn seja seu homem. Lamento.
— Por que você lamenta? — Sinclair franziu o cenho. — É bom saber que um
suspeito já foi praticamente eliminado.
— Porque você parecia querer botar fogo pelas ventas quando falou com
Kilcairn em seu casamento.
Antes que Sinclair pudesse responder, uma voz pastosa pronunciou seu
nome.
— Lorde William — Sinclair saudou, surpreso com a hostilidade com que
estava sendo encarado. Uma atitude inesperada, a não ser que pudesse ser
atribuída à bebedeira. Ou ao fato de o filho do duque de Fenshire estar entre os
membros do grupo que disputavam as atenções de Victoria na noite da festa.
A razão se tornou clara em seguida.
— Só porque você trilhou o caminho mais fácil para levar nossa Vicky para a
sua cama, não significa que nós outros devamos fingir que aceitamos a perda.
Afinal, se ela é tão fogosa entre quatro paredes quanto se mostra em público...
Os olhos de William Landry eram um espelho da quantidade de copos que ele
havia tomado. Sinclair deveria ter relevado a afronta. Os companheiros ainda
tentaram detê-lo, mas não chegaram a tempo de impedir o soco.
— Você enlouqueceu? — Crispin agarrou Sinclair por trás para impedi-lo de
continuar batendo no rival.
— Você ouviu o que ele disse?
— Se você não tivesse deixado o sangue subir à sua cabeça, teria notado
que sua esposa nunca teve nada com o imbecil. Por que, então, ele desejaria saber
como ela se porta na intimidade?
Sinclair se afastou com relutância. Não sem dar um último aviso, de que
terminaria a lição se o sujeito se atrevesse a insultar Victoria novamente. Mais tarde,
na rua, ele mostrou a lista com os nomes que acrescentara depois de visitar a
sapataria.
— Alguma novidade sobre Marley?
— Nenhuma — Bates respondeu.
O visconde não fora visto desde o baile em casa de lady Franton. Era o
suspeito número um de Sinclair por Thomas ter escrito em sua última carta que a
amizade entre os dois estava estremecida. Que desconfiava da presença assídua de
Marley em sua casa. Que ele deveria ter algum motivo escuso para procurá-lo tanto,
pois os interesses em comum eram poucos.
— Você já conseguiu a lista de presenças no dia da votação na Câmara dos
Lordes? — Wally perguntou, e Bates respondeu que estava providenciando uma
cópia.

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— Será mais um passo — disse Crispin. — Ao menos descobriremos quem


entre os membros não se encontrava em Londres naquela semana.
— Bem, acho melhor nos despedirmos por agora — sugeriu Bates. — Estou
seguindo uma nova pista. Tenho esperança de que essa pessoa nos seja útil. Por
causa do boato que espalhei, talvez não seja recomendável que nos encontremos
nos próximos dias. Qualquer comunicação deverá ser feita através de lady Stanton.
Wally e Bates se afastaram rumo a Covent Garden, um dos bairros menos
respeitáveis de Londres. Crispin aconselhou que Sinclair fosse para casa.
— Por quê? — Sinclair perguntou, tenso. — Acha que a morte de Thomas
deixou de ser minha prioridade? Não passo um único dia, sequer, sem pensar em
meu irmão. Eu vou encontrar quem o matou, nem que isso seja a última coisa que
eu faça.
— Mesmo ao preço de magoar uma inocente? Sinclair empalideceu.
— Victoria Fontaine foi o recurso mais valioso que encontrei até agora para
me ajudar na solução do crime. Ela não foi a primeira mulher que usei para alcançar
um fim.
— Mas foi a primeira mulher com quem você se casou.
Sinclair encerrou a conversa naquele instante. Até que chegasse à sua casa,
Victoria estava dormindo. Todos em Grafton House, aliás, já haviam se recolhido.
Acostumado a se esgueirar por entre as sombras, Sinclair seguiu pelo longo
corredor até o escritório de Thomas. Sentou-se à escrivaninha de mogno, e a idéia
de que o assassino era uma pessoa conhecida de seu irmão tornou a lhe ocorrer.
Um leve ruído do lado de fora o colocou em alerta. Instintivamente seus
dedos se fecharam ao redor da pistola.
— Você está bem? — A figura curvilínea de Victoria se recostou contra a
porta.
— Estou. — Sinclair suspirou de alívio. O que faz, acordada tão tarde?
— Eu o ouvi chegar. — Victoria avançou pela sala e deslizou a ponta dos
dedos pela superfície de madeira. — Thomas estava aqui quando o mataram?
— Sim.
— Nessa cadeira?
— Sim — ele tornou a assentir.
Victoria o fitou através da claridade da lua.
— Desculpe por tê-lo julgado mal. — Ela estendeu as mãos em um convite
para que Sinclair se levantasse. — Não gosto de vê-lo nesse lugar. Me causa
arrepios.
Sinclair aquiesceu docemente. Com os cabelos soltos, Victoria ficava ainda
mais bonita. Ele sentiu vontade de tocá-los. De tocá-la inteira.
— Você conheceu bem meu irmão?
Victoria balançou negativamente a cabeça.
— Ele parecia bem mais velho do que você.

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— Sim. Dez anos mais velho. Em breve completaria quarenta anos. Ajudou
minha avó a me criar e a Christopher.
Em silêncio, Sinclair ergueu a mão e segurou o queixo de Victoria. Depois
pousou os lábios sobre os dela e sentiu a pulsação ficar mais rápida à aceitação de
seu gesto.
— Ele foi um bom homem — Victoria respondeu, por fim. — Era um grande
admirador das pinturas de Gainsborough. Era de temperamento tranqüilo. Uma vez
me disse que gostava de desenhar e de pintar, mas nunca surgiu nenhuma
oportunidade para que eu pudesse apreciar sua obra.
— Eu não sabia desse talento de Thomas para a arte e não encontrei nenhum
desenho entre seus papéis até agora — Sinclair confessou. — Falarei com minha
avó a esse respeito.
— Faça isso.
Sinclair estreitou os olhos.
— O que houve esta noite para você me tratar com toda essa cordialidade?
— Não sei. Acho que me comovi ao vê-lo sentado nessa cadeira e tentei me
colocar em seu lugar. Odiaria perder um membro de minha família como você
perdeu seu irmão. Fico cogitando como você pode ter permanecido longe daqui por
dois anos ainda após o sucedido.
— Eu teria voltado antes se a conhecesse.
O tom de voz de Victoria se tornou ríspido.
— Pare de se aproveitar de meus sentimentos para me seduzir!
Sinclair deu um passo para trás, mas continuou encarando-a com desafio.
— Foi você que me procurou. E é você quem menciona o nome de Thomas
como desculpa cada vez que nos beijamos. Pode me dizer por quê? Meus beijos a
perturbam, Victoria?
— Não seja arrogante! Você não é o primeiro que me beija nem que me diz
palavras doces.
— Mas você não se casou com os outros.
— Claro que não! Os outros não me beijaram na frente de meus pais e de
metade da população desta cidade.
Victoria se afastou depois disso, deixando Sinclair com um sabor de derrota
na boca. O que dera nele para se comportar daquele jeito? Não era um homem
rude. Por que não admitia de uma vez por todas que estava fascinado por Victoria
como nunca estivera por outra mulher? Para negar essa evidência, estava se
comportando como um tolo.
Ele a deteve antes que saísse para o corredor.
— Quem você acha que matou Thomas?
— Não sei. E você?
Com um suspiro e um olhar intenso, Sinclair respondeu:
— Todos. Não sei com quem nem com o que meu irmão estava envolvido.

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Enquanto eu não encontrar o culpado, continuarei suspeitando de todos.


— Eu não entendo — Victoria confessou. — Como pôde ficar tanto tempo em
Paris apesar do perigo?
— Pelo prazer das aventuras — Sinclair mentiu.
— Disseram-me que você morou seis meses em um bordel. Isso é verdade?
Mais tarde, Sinclair se detestaria por ter dado essa rés-posta, mas naquele
momento era importante.
— Madame Hebiere oferecia vantagens. Suas moças eram lindas. Os
membros mais influentes no governo de Bonaparte freqüentavam o lugar.
Victoria fez silêncio por alguns segundos.
— Eu soube, no último mês, que lorde Liverpool anunciou a prisão dos
últimos conspiradores de Bonaparte de que se tem notícia. Se você era tão amigo
dos nobres e dos oficiais daquele maníaco, como conseguiu escapar?
— O que está insinuando? — Sinclair encarou-a. — Que eu sou um traidor?
— Eu não estou insinuando nada — Victoria respondeu e dessa vez se foi,
sem que Sinclair a impedisse.

CAPITULO IV

Apesar de ter adquirido a fama de ser uma mulher atrevida e intrépida,


Victoria precisou engolir em seco ao descer da carruagem e subir os degraus da
imponente mansão. Antes de bater com a aldrava, hesitou e tomou fôlego.
— Sim? — Um homem de cabelos grisalhos e libré preta se inclinou em
saudação.
— Esta é a residência de lady Drewsbury?
— A quem devo anunciar?
Victoria se sentiu estranha ao mencionar sua nova identificação. Ainda não
mandara confeccionar cartões de visita. Nem sabia se deveria confeccioná-los.
— Lady Althorpe.
O mordomo se esquivou para dar passagem a Victoria.
— Desculpe-me por não tê-la reconhecido. Siga-me, por favor. Avisarei Lady
Drewsbury imediatamente de min presença.
— Obrigada.
Victoria foi levada a uma saleta na ala lente da casa, A decoração era bem
feminina, com almofadas bordados e espalhadas sobre o sofá e as poltronas.

Projeto Revisoras 58
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Victoría esperava que lady Drewsbury concordasse em recebê-la. De repente,


descobrira-se ansiosa por saber mais sobre Sinclair. Tinha uma porção de perguntas
para fazer, e a necessidade de obter respostas era tão premente que a levara a
procurar sua família sem se fazer anunciar.
— Lady Althorpe.
Victoria se levantou e se curvou em uma respeitosa mesura.
— Lady Drewsbury.
— Chame-me de Augusta.
— Eu sou Victoria. Vicky, se preferir.
A baronesa se sentou e pediu que o mordomo trouxesse chá.
— Eu sugeriria que você me chamasse de vovó, mas acho que ainda é cedo
demais para isso, e que nos constrangeria a ambas.
Victoria retribuiu o sorriso, mais à vontade a partir desse momento.
— A senhora deve estar se perguntando o motivo de minha visita.
— Acho que posso adivinhar. Sinclair?
O coração de Victoria acelerou. Mais ainda quando um jovem se reuniu a elas
e lhe ofereceu um buquê de margaridas recém-colhidas.
— Vovó, eu lhe pedi que me avisasse sempre que recebêssemos visitas de
jovens de tal formosura.
— Sim. De jovens solteiras.
O irmão mais novo de Sinclair fez uma mesura e ofereceu as flores.
— Eu estou tão só ultimamente que prefiro renunciar a meus escrúpulos. Em
especial quando meu irmão não está por perto.
Lady Drewsbury balançou a cabeça e mandou que o neto se retirasse.
Victoria gostou do rapaz à primeira vista. Como gostara da avó.
O chá foi trazido e lady Drewsbury pediu que o mordomo colocasse as flores
na água. Em seguida virou-se para Victoria.
— Onde estávamos? Ah, sim. Você queria saber sobre Sinclair.
— Ele não quer ou não pode responder às minhas perguntas — Victoria foi
direto ao assunto. — Eu estava cogitando se à senhora poderia me ajudar.
— Dependerá daquilo que você deseja saber. Não conheço mais Sinclair
como antigamente.
O tom da baronesa revelava pesar. De qualquer modo, ela seria a maior
ajuda de que Victoria certamente poderia dispor.
— Antes de tudo, preciso que me prometa que esta conversa ficará apenas
entre nós.
A avó de Sinclair depositou a xícara na mesa antes de responder.
— Tem a minha palavra.
Trêmula de agitação, Victoria fez a primeira pergunta: a que mais a intrigava.

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— Quando Sinclair partiu para a Europa, ele e Thomas estavam brigados?


— Eles discutiam incessantemente. O que não era de surpreender. Thomas
era muito conservador, e Sinclair ainda mais arrojado do que Christopher. Sinclair
estava com a idade de Christopher quando se atirou às aventuras. Eu agradeço a
Deus por Christopher não ter tentado imitá-lo. Eu não suportaria perdê-lo também.
— A senhora perdeu Sinclair?
Lady Drewsbury suspirou.
— Essa, minha cara, é uma pergunta que não lhe responderei.
— Desculpe. Eu não tinha o direito...
— Claro que você tem. Casou-se com meu neto. Estou curiosa, aliás, sobre o
motivo que o levou a escolhê-la. E você a ele.
— Não foi tanto uma escolha, mas um erro — Victoria admitiu, para corar em
seguida. — Desculpe se a ofendi. Não era minha intenção...
Para alívio de Victoria, lady Drewsbury sorriu e se dispôs a responder à outra
pergunta.
— Sinclair desejava seguir a carreira militar?
— Não que eu saiba.
Era estranho. Sinclair sacara da pistola com a presteza de um soldado
durante o encontro com os amigos após a recepção.
— A senhora tem alguma idéia do motivo que o manteve na Europa pelos
últimos dois anos quando sua presença aqui era tão importante?
— Penso que ele teria voltado se realmente o quisesse.
— Sinclair me disse que fortes razões o impediram.
— Não vejo quais. Nem Bonaparte nem a guerra o deteriam.
— Seu neto não me contou, por mais que eu insistisse. Ele falou sobre
diversões, bebidas e mulheres. Eu não consigo acreditar nisso, desde que descobri
que ele forja suas bebedeiras.
Essa informação fez lady Drewsbury aguçar os ouvidos.
— O que você quer dizer com isso?
— Sinclair e os amigos que o estão ajudando na investigação do crime fingem
estar bêbados, de modo que as pessoas se sintam mais à vontade para falar o que
pensam.
— Sinclair está investigando a morte de Thomas? — lady Drewsbury repetiu,
alarmada.
— Eu diria que ele está obcecado pelo que aconteceu.
Séria e compenetrada, lady Drewsbury declarou não saber de nada sobre
qualquer tipo de investigação. Victoria achou por bem confessar que talvez pudesse
estar enganada.
— Eu não creio que esteja. Victoria suspirou.
—- Nem eu. Sinclair me disse que se correspondia com o irmão. A senhora

Projeto Revisoras 60
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tem em seu poder alguma dessas cartas?


— Todas. — Augusta se levantou. Parecia mais jovem e disposta do que a
mulher que entrara na sala poucos minutos antes. — Venha comigo.
Ao retornar para Grafton House, Victoria levava consigo os desenhos e
pinturas feitos por Thomas e algumas cartas bastante interessantes que Sinclair lhe
escrevera. Restava agora encontrar uma forma de comunicar ao marido que
descobrira a verdade por trás de seu disfarce, e também que eles teriam a
companhia de sua avó e de seu irmão caçula para o jantar daquela noite.
Ela estava certa desde o início. Sua intuição não falhara, longe de ser um
estróina, Sinclair era um herói. Quanto mais pensava nisso, mais forte batia o
coração em seu peito, Mal podia esperar para abraçar Sinclair, para sentir seus
lábios sob os dele.
A porta foi aberta abruptamente. Em um movimento instintivo, Victoria soltou o
pacote de cartas de modo a ocultá-lo atrás da cadeira.
— Lucy? O que houve para você entrar desse jeito? — Victoria perguntou, a
respiração entrecortada pelo susto.
A amiga atravessou a pequena sala em três passadas e segurou as mãos de
Victoria.
— Você não está sabendo, está?
— Não estou sabendo o quê? — Victoria indagou, aturdida.
— Seu marido deu um soco em lorde William!
— Em William Landry? — Victoria pestanejou.
— Sim. Lionel me disse que o nariz dele não parava de sangrar.
— Mas por que Sinclair brigaria com lorde William? Ele sabe que nós somos
amigos.
— Parece que William falou o que não devia — Lucy cochichou como se
houvesse mais alguém na sala, acrescentando que um loiro muito alto e forte tivera
de segurar Sinclair antes que ele acabasse com o oponente.
Victoria mordeu o lábio. Talvez William tivesse interrompido uma reunião
secreta do grupo. Talvez o motivo não tivesse sido ela, exatamente.
— Quando foi que aconteceu?
— Ontem à noite, no Boodle's. Lorde William tinha bebido. Lorde Althorpe
estava sóbrio, a julgar pela fluidez de seus movimentos, segundo Lionel.
— Ou talvez ele seja mais resistente ao álcool do que William — Victoria
sugeriu, corada de excitação. Sinclair brigara para defendê-la. Ela mal podia esperar
para vê-lo. Agora, mais do que antes. — Desculpe, Lucy, mas meu marido está por
chegar e eu não gostaria que ele desconfiasse que eu já soube de tudo.
Lucy olhou para Victoria com aturdimento.
— Você ficou contente com o que eu lhe contei?
— Sim. — Victoria abraçou a amiga e as duas riram. — Muito contente.
— Você me conta depois? — Lucy implorou. — Eu adoro romances!

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Claro que conto.


Depois que Lucy se foi, Victoria se sentiu ansiosa demais para ficar parada.
Sinclair a teria surpreendido andando de um lado para outro, se não batesse antes.
— Entre.
— Milo disse que você queria falar comigo.
— Sim. Você poderia fechar a porta? — As pernas de Victoria tremiam tanto
que ela precisou ir até a janela e se apoiar no peitoril.
— O que houve, Victoria?
— Nada. — Ela estava sendo ridícula. O fato de Sinclair ter brigado para
defendê-la não era motivo para tal perturbação. Por que as palavras se recusavam a
sair?
— Tem certeza? Você não arrumou um filhote de elefante ou algo parecido?
Ela riu. Um riso exagerado, de nervosismo.
— Não. Eu só queria me desculpar por ontem.
— Por quê? Eu me portei de maneira intolerável.
— Eu o interrompi em um momento de privacidade e tirei vantagem de seu
estado emocional.
Sinclair cobriu lentamente a distância que os separava. Victoria sentiu o
coração bater mais rápido ainda. Queria contar a ele que descobrira seu segredo.
Precisava fazer isso depressa, antes que perdesse completamente a capacidade de
falar.
— Você não poderia tirar vantagem de mim, mesmo que tentasse.
A proximidade de Sinclair a venceu. Sem dizer nada, ela o enlaçou pelo
pescoço e o atraiu para junto de si. E beijou-o. Ou ele a beijou. Victoria não saberia
dizer. Sabia apenas que os lábios dele pressionavam os seus, provocantes, ávidos,
mas com uma incrível maciez.
Quando eles finalmente se afastaram, Victoria abriu os olhos e viu os dele
brilhando.
— Gosto do jeito como você pede desculpas.
Victoria se colocou na ponta dos pés e tornou a beijá-lo.
— Não é apenas um pedido de desculpas; é também um gesto de
agradecimento.
Sinclair deslizou as mãos lentamente pelas costas do Victoria, até os quadris.
Em seguida ele depositou pequenos beijos ao longo do pescoço e dos ombros.
— Não sei o que fiz para merecer isto, mas aceito seu pedido com enorme
prazer.
— Lucy me contou sobre o episódio de ontem no Boodle's.
Os lábios de Sinclair encontraram novamente os dela. Se os braços fortes
não a estivessem amparando, Victoria tinha certeza de que as pernas se recusariam
a sustentá-la. Com a língua, Sinclair fez algo delicioso em sua boca que a levou a
imitá-lo. Não era preciso falar nem pedir. De comum acordo, eles procuravam

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

agradar um ao outro. Victoria estava gostando de beijar e de ser beijada com uma
intensidade que a surpreendia. Outros homens já a haviam beijado antes, mas com
Sinclair era diferente.
— O que William fez para você agredi-lo?
Sinclair se afastou para poder fitá-la.
— Quer mesmo saber? É tão importante assim?
— Sim. Não por causa de William, mas por sua causa — Victoria respondeu,
tocando-lhe o peito e se admirando com a firmeza dos músculos.
Àquela expressão intensa se apoderou mais uma vez do semblante
masculino. E nesse instante, finalmente Victoria entendeu. Desejo. Sinclair se
escondia atrás de observações e de olhares cínicos para não transmitir as emoções
que o dominavam. Mas naquele momento, a força de seu desejo era tanta que
transpareceu no brilho de seus olhos.
— Ele queria saber como você se comportava em circunstâncias íntimas. Eu
fiquei furioso. Você o considerava um amigo e ele a desrespeitou.
— Eu nunca senti que ele ou os outros me dedicavam uma verdadeira
amizade. Todos os homens que conheço manifestam essa mesma curiosidade a
meu respeito.
Sinclair atraiu-a contra o próprio corpo com um movimento abrupto. Suas
mãos desceram pelos quadris e um pouco mais. Victoria sentiu a garganta ressecar.
— Eu sou um homem como eles, Victoria. Está sentindo a minha curiosidade?
Victoria engoliu em seco.
— Estou sentindo a sua... curiosidade... há algum tempo.
— Foi isso que me inflamou, Victoria. A falta de uma resposta.
Teria sido mais fácil se Sinclair a deitasse no chão e se colocasse sobre ela
naquele exato instante.
— Para ser sincera, milorde, eu tampouco conheço essa resposta. Os
homens manifestam certas expectativas que eu não sei se terei condições de
corresponder.
— Está querendo me dizer que...
Victoria baixou os olhos, ruborizada.
— Eu já fui beijada muitas vezes. Isso não é mentira. Inclusive pelo próprio
William. Mas nunca ultrapassei esse limite.
— Até agora — Sinclair insinuou com um grunhido.
— Até conhecer você.
Sinclair encostou a testa na de Victoria. Parecia inseguro. Ela o ouviu buscar
o ar com dificuldade. Quando voltou a falar, sua voz soou baixa e séria.
— Ontem à noite você não parecia gostar de mim.
— Ontem à noite eu não o conhecia como hoje.
A um protesto de Sinclair, Victoria pressionou a ponta dos dedos contra seus

Projeto Revisoras 63
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

lábios, impedindo-o de continuar.


— Pretende continuar me interrogando o resto da tarde? Não receia que eu
mude de idéia?
Com um gesto delicado, Sinclair afastou a mão de Victoria de seu rosto, e
com o próprio corpo a fez recuar em direção ao quarto. Ela não conseguiria detê-lo
mesmo que quisesse. Estava hipnotizada pela força da paixão e do desejo que se
refletia em seu olhar.
Victoria viu, de esguelha, lorde Baggles pular do peitoril da janela para segui-
los. Sinclair o impediu de entrar no quarto, fechando a porta rapidamente com o pé.
Victoria teve de rir ao ouvir o miado de ostensiva contrariedade.
— Você não vai me beijar? — provocou quando o marido tornou a estreitá-la
nos braços e ficou parado, em silêncio.
— Primeiro quero ter certeza de que é verdade. De que você é real e não um
sonho. Eu a desejo desde aquela noite, no jardim dos Franton.
Luxaria. Volúpia. Esses eram os termos que mais definiam o que estava se
passando entre eles. O que surgira entre os dois, aliás, desde o primeiro instante.
Foi Victoria quem tomou a iniciativa de despi-lo. Não era experiente como
fizera crer ao mundo, mas seu instinto de mulher a guiava.
Embora suas mãos tremessem, Victoria não teve dificuldade para afastar o
paletó dos ombros largos e fazê-lo deslizar pelos braços de Sinclair. Não teve o
mesmo êxito, porém, em retirar a faixa amarrada à cintura.
Sinclair achou divertido que ela se atrapalhasse nessa função. As mãos
tremeram ainda mais quando ele sussurrou que ela o excitava com seus gestos e se
colocou às suas costas, beijando-a na nuca e nos ombros enquanto soltava as
dezenas de minúsculos botões do vestido.
Ansiosa por sentir pele contra pele, Victoria tentou ajuda-lo, mas Sinclair
afastou-lhe as mãos.
— Acabará rasgando o vestido, desse jeito. Gosto de vê-la com ele. Tenha
um pouco de paciência.
Victoria ignorou a recomendação. Estava febril de desejo. Virou-se
abruptamente.
— Não quero ser paciente. Quero me deitar com você.
Mais da metade dos botões já estavam soltos. Sinclair fez uma tentativa de
deslizar o vestido pelo corpo de Victoria e exultou com seu sucesso. Ajoelhou-se, em
seguida, e descalçou-a.
Para se equilibrar, Victoria se segurava no pescoço de Sinclair. Ele ergueu os
olhos e percorreu as mãos pelas pernas longas, sob os saiotes.
— A palavra que poderia definir sua beleza ainda não foi inventada. Você é
mais do que poesia.
Victoria fechou os olhos ao arrepio de prazer que Sinclair lhe causou ao
descrever círculos ao redor dos seios com os polegares, que foram diminuindo até
se concentrarem na área sensível dos mamilos. Um gemido involuntário brotou do
fundo de sua garganta ao enrijecimento súbito dos pequenos botões rosados. Uma

Projeto Revisoras 64
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

força desconhecida despertou de seu íntimo.


— Sinclair — Victoria murmurou enquanto procurava tocá-lo por baixo da
camisa. — Eu não estou conseguindo ficar de pé...
Ele não a fez esperar. Arrebatou-a nos braços e carregou-a para a cama,
onde a deitou entre um mar de almofadas verdes e douradas, reforçando a aura de
sensualidade que a envolvia.
Sentado na beirada da cama, Sinclair tirou as botas, sem parar de olhar para
Victoria. Inclinou-se em seguida para beijá-la, não nos lábios dessa vez, mas nos
seios que pareciam chamá-lo em seu calor.
Ao tomar um mamilo entre os lábios, Sinclair ouviu Victoria gemer mais alto e
sentiu os dedos ávidos mergulharem em seus cabelos. Nada que ele vivera até
aquele momento se comparava ao que estava sentindo. O sangue pulsou mais
rápido em suas veias à idéia de que nada se compararia ao que ele ainda estava por
viver com Victoria.
Ela o acariciou no peito até a cintura. Sinclair ainda estava vestido e isso não
era justo. Também queria sentir o calor daquele corpo em suas mãos.
— Eu fiz alguma coisa de errado? — Victoria se deteve ao desabotoar a calça
e vê-lo parar e se erguer sobre os cotovelos para observá-la.
Um sorriso se estampou naquele rosto de traços impecáveis.
— Em absoluto, Victoria. Fiquei surpreso. Só isso.
Ela adorava quando Sinclair dizia seu nome. Os amigos a chamavam de
Vicky. "Victoria", do jeito que Sinclair pronunciava, soava íntimo, especial. Ela
gostaria que ele sempre a chamasse assim.
— Beije-me — pediu, provocante. Apenas não esperava ser obrigada a
interromper o beijo. O ar lhe faltou ao sentir, pela primeira vez, uma carícia mais
ousada, agora entre suas pernas.
— Nada mais justo diante do que você está fazendo comigo, não acha? —
Sinclair declarou, malicioso, ao se posicionar com mais conforto, depois que Victoria
terminou de abrir a braguilha.
Ela não pôde responder. Sinclair tomou um dos mamilos na boca e se pôs a
sugá-lo em sintonia com o ritmo que a tocava em seu lugar mais secreto. As costas
arquearam como se tivessem vida própria. Sua pele parecia queimar onde ele
encostava, como se ambos estivessem em fogo.
Sem raciocinar, Victoria fincou os dedos nos quadris de Sinclair em um
convite fremente ao encontro de si. Ele a penetrou nesse instante. Atônita com a dor
aguda que irradiou por todo o seu ser, ela teria gritado se Sinclair não colocasse a
boca sobre seus lábios em um beijo de posse. Agarrou-o convulsivamente pelos
ombros.
— É só um instante — ele procurou acalmá-la. — Já vai passar.
Victoria abriu os olhos e o viu sorrindo. Emocionou-se ao pensamento do
esforço que ele deveria estar fazendo para refrear seus movimentos e não machucá-
la. Um sorriso foi surgindo, então, em seus próprios lábios, tímido a princípio.
A esse sinal, Sinclair voltou a se mover. Com um gemido, Victoria tornou a

Projeto Revisoras 65
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

fechar os olhos.
— Olhe para mim — ele pediu. — Quero ver seus olhos.
Ela olhou e se perdeu em paixão. Arqueou o quadril para corresponder às
investidas. De repente, algo no fundo de seu ser começou a pulsar. Tanto e tão
depressa que ela teve a impressão de que iria explodir. Nesse instante, Sinclair
fechou finalmente os olhos e aconchegou o rosto contra seus cabelos, na curva do
pescoço. Moveu-se ainda mais rápido dentro dela e seus tremores se misturaram.
Sinclair se ergueu, após alguns minutos, e olhou para ela de um modo novo,
ainda mais intenso.
— Agora nós estamos realmente casados — ele disse.
Sinclair não podia evitar o orgulho e a satisfação de ter sido o primeiro
homem na vida de Victoria. Primeiro e único. A anulação do casamento deixara de
ser uma possibilidade. A não ser que eles inventassem uma história mirabolante,
algo que ele não pretendia fazer. Algo sobre o que, aliás, ele não tinha a menor
vontade nem sequer de pensar.
— Deveria ter me ocorrido antes essa idéia de brigar com seus antigos
pretendentes — Sinclair confessou com deliberada malícia.
— Eu também acho — respondeu ela, os olhos se estreitando, insinuantes. —
Assim nós poderíamos ter feito isto antes, como seria de se esperar de um casal
com a nossa reputação.
— De mundanos — Sinclair completou e ficou repentinamente sério. — Diga-
me. Há mais alguém que você gostaria que recebesse uma lição?
Uma sombra passou pelo olhar de Victoria.
— O homem que matou seu irmão.
Sinclair suspirou. Não estava em condições ainda de voltar à realidade. Não
quando só conseguia pensar que queria que aquela manhã se repetisse pelo resto
de suas vidas.
— Eu tenho pensado sobre o que você vem tentando fazer.
— E?
— E quero ajudá-lo.
Sinclair sentou-se abruptamente do outro lado da cama.
— De jeito nenhum!
Uma informação aqui, outra ali, não constituía perigo. Mas uma participação
ativa de Victoria estava fora de cogitação.
Victoria se sentou também, nua e magnífica ao sol da tarde que penetrava
pela janela.
— Faz sentido — Victoria tentou convencê-lo. — Eu conheço essas pessoas
melhor do que você, e sou boa em descobrir segredos.
— Como quais, por exemplo?
— Como, por exemplo, os seus. — Victoria pousou os olhos nas pernas do
marido e foi subindo lentamente até encontrar os olhos dele. — Eu já sei que você é

Projeto Revisoras 66
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

um espião e que trabalha para o Ministério da Guerra.


Uma risada tardia se seguiu à declaração.
— De onde você tirou essa idéia absurda?
— Eu também sei — Victoria prosseguiu como se Sinclair não a tivesse
interrompido — que você não pôde comparecer ao funeral de Thomas porque estava
fingindo estar apaixonado pela filha do marechal Pierre Augereau de modo a tentar
persuadi-la a lhe revelar onde as forças de Bonaparte estavam concentradas.
Alguém andava soltando demais a língua...
— Quem lhe disse essas bobagens?
— Você — Victoria respondeu, calma.
— Eu? — Sinclair se obrigou a calar. Estava agitado demais. Suas atitudes só
estavam confirmando as suspeitas de Victoria.
— Sim.
Victoria se levantou, decidida, e começou a se vestir. Contra a sua vontade,
Sinclair fez o mesmo.
— O que você pretende?
— Dar-lhe uma prova do que estou dizendo.
Sinclair se colocou por trás de Victoria e segurou-a pelos ombros. Ela se
desvencilhou e puxou-o pela mão.
— Venha comigo.
Ele a seguiu sem discutir. Algo saíra tremendamente errado. Alguém andava
falando demais, e ele precisava descobrir quem era para poder proteger Victoria.
Estranhou que a esposa se encaminhasse para a lareira da sala anexa ao quarto.
Esperou que ela falasse ou lhe fornecesse a tal prova. O que jamais lhe passou pela
cabeça foi que Victoria fosse olhar de frente para ele e confessar seu receio de que
ele não fosse mais querê-la agora que tomara conhecimento da verdade.
A indignação, o medo e uma súbita vontade de rir o dividiram. Não era à toa
que Victoria adquirira fama de impetuosa e estouvada. Ela era simplesmente
irresistível.
— Nós somos marido e mulher. Nosso casamento foi consumado esta
manhã. Eu não lhe negarei nada, esteja ou não zangado com você.
Victoria engoliu em seco.
— Você seria capaz de fazer aquilo comigo, mesmo estando zangado?
Os olhos de Sinclair se estreitaram.
— Por que tenho a impressão de que você está tentando ganhar tempo? O
que tem para me dizer, Victoria?
Em resposta, Victoria se abaixou e puxou um pacote de trás de uma poltrona.
Era quase tão grande quanto uma mesinha de canto, e estava embrulhado em um
xale verde.
— Deixe-me pegá-lo para você.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Não é preciso. — Victoria o colocou sobre o sofá. — Eu o trouxe para cá


sozinha.
— Por que não pediu ajuda?
— Porque não queria que ninguém visse.
A situação estava ficando cada vez pior. Sinclair sentou-se de frente para
Victoria e cruzou os braços.
— O que a faz pensar que eu seja um espião? Victoria sorriu levemente e
puxou um maço de cartas.
— Isto. — Ela apanhou uma folha de papel e começou a ler: — "...Por isso,
meu caro Thomas, em sua próxima carta poupe-me de seus relatos sobre os vinhos
finos que regalaram seus piqueniques com a srta. Hampstead. Estou farto de ouvir
os franceses se vangloriarem da alta qualidade de seus vinhos, estando em Paris
todo esse tempo".
Até que Victoria concluísse a leitura, uma intensa palidez cobrira o rosto de
Sinclair.
— Eu tenho duas perguntas a fazer — ele disse, por fim. — Em que isso me
torna um espião? E onde você conseguiu essa carta?
— Imagino que você não saiba que antes do meu debut, Alexandra Gallant foi
minha tutora.
— Não vejo nenhuma ligação com o fato.
— Mas existe. Você conhece Alexandra como a duquesa de Kilcairn Abbey.
— Sim. E daí? — Sinclair questionou, nervoso com a menção.
— Lex acompanhou de perto as notícias sobre a guerra na Península e
insistiu que eu me mantivesse informada a respeito. Eu passei a ler o London Times
todos os dias. Lembro-me de um artigo, em especial, em que o conde de Chenerre
foi preso, na primavera de 1814, pelos simpatizantes de Napoleão Bonaparte, e
desapareceu de uma prisão em Paris para ressurgir duas semanas mais tarde em
Hampstead de posse de documentos pertencentes à aliança entre a França e a
Prússia. E antes que você pergunte, as terras de Chenerre abrigavam um dos
melhores vinhedos do país.
Para que pudesse refletir por alguns segundos antes de dar uma resposta,
Sinclair se levantou e foi até a janela. Victoria aproveitou o silêncio para continuar
seu discurso.
— Sua carta para Thomas data de nove de maio de 1814, uma semana após
o reaparecimento de Chenerre; e seu irmão nunca participou de nenhum piquenique
com essa tal srta. Hampstead.
— Você não sabe o que está dizendo!
— Tenho mais cinco cartas suas que se referem a eventos ocorridos na
França e em outras partes da Europa em que a Inglaterra demonstrou ter sido
agraciada pela sorte. — Victoria fez uma pausa. — Entendo que sua posição requer
sigilo e discrição, mas, por favor, não me trate como uma idiota.
Sinclair permanecia de costas para Victoria, com os olhos fixos na paisagem,
porém sem enxergar coisa alguma.

Projeto Revisoras 68
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Onde você encontrou essas cartas?


— Com sua avó.
Aquela informação finalmente arrancou Sinclair do marasmo.
— O quê!?
— Ela também tinha em seu poder os desenhos feitos por Thomas. —
Victoria se abaixou para apanhar o estojo de madeira onde eles estavam guardados.
— Quer vê-los?
Sinclair tornou a se virar de costas.
— Você não tinha o direito!
— Você não me deu escolha — Victoria se defendeu. — E não diga que eu
traí sua confiança, porque você nunca a depositou em mim.
— Eu não posso confiar em ninguém — Sinclair desabafou. — Isso
significaria expor essa pessoa a sérios perigos. Descobri essa verdade a duras
penas.
— Você está se referindo a seu irmão, não é? — Victoria murmurou.
— Sim. Ele sabia sobre os acontecimentos e agora está morto — Sinclair
admitiu, detestando-se por ter envolvido a própria esposa naquele pesadelo. Deveria
ter se afastado dela assim que descobrira a intensidade da atração que os unia.
— Eu não sabia qual seria o resultado da minha investigação antes de
procurar sua avó — Victoria explicou. — Perdoe-me, mas eu precisava saber com
quem estava casada.
Sinclair teria feito o mesmo. Não podia culpar Victoria. Ele era o maior
culpado. Encaminhou-se, então, para ela, e sentou-se a seu lado. Não afastou a
mão quando ela a segurou e apertou-a.
— Seu segredo está seguro comigo. E com sua avó.
— Eu já ouvi isso antes.
Sinclair suspirou, pensando em seu pobre irmão. Na verdade, ele não tinha
nenhuma dúvida de que poderia confiar em Victoria. Fora algo instintivo. Embora a
tivesse conhecido em más companhias, acreditara em sua boa índole.
— Eu não tenho mais cinco anos de idade — Victoria retrucou. — Quero e
posso ajudá-lo em sua missão.
— Não se trata apenas de um segredo, Victoria, mas do um segredo
perigoso.
— Não tente me embromar! Eu tive êxito em minhas investigações sobre
você. O que o faz pensar que não serei capaz de descobrir quem é o assassino?
Sinclair cerrou os punhos. A situação estava fugindo ao controle. Não estava
habituado a ter alguém discutindo suas ordens e suas decisões.
— Eu a amarrarei na cama, se for preciso.
Victoria se levantou de um salto.
— Experimente! Não pense que pode mandar em mim só porque é maior do
que eu! — Uma batida na porta impediu Victoria de continuar a esbravejar. — E

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

agora? Deve ser Milo. Não posso atendê-lo usando apenas a roupa de baixo.
— Eu posso. — Sinclair se encaminhou prontamente para a porta.
— Mas você está no meu quarto!
— Somos casados, esqueceu?
Sinclair precisou conter um sorriso de satisfação ao se deparar com a
expressão aturdida do mordomo. Afinal, ele estava apenas de calça, com o peito nu
e os pés descalços. Não seria difícil para Milo adivinhar o que o casal andara
fazendo.
— Sim? — Sinclair indagou ante a demora do outro em falar.
— Os convidados chegaram para o jantar.
Sinclair pestanejou.
— Que convidados?
— Oh, não! — Victoria deu um grito.
Adivinhando o motivo, Sinclair dispensou o mordomo e foi ao encontro da
esposa, que atirava vestidos para todos os lados, até localizar o modelo que
pretendia usar naquela noite.
— Quem você convidou para jantar conosco?
— Eu pretendia lhe contar, mas me distraí quando soube de sua briga com
lorde William.
Victoria parecia um ciclone. A calma de Sinclair era um admirável contraste.
— Quem está nos esperando lá embaixo? — Sinclair insistiu.
— Sua avó e seu irmão.
— Eu não devo ter escutado direito. — Ele hesitou. — Está me dizendo que
convidou minha família para nos visitar, sem me informar, e sem a minha
permissão?
— Sim. E não me arrependo. Você deveria ter visto a expressão de felicidade
de sua avó.
— Prefiro vê-la infeliz a morta! — Sinclair retrucou, tão furioso que pegou um
de seus sapatos e atirou-o contra a parede.
Victoria terminou de abotoar o vestido cinza de noite e se encaminhou para a
porta.
— Então não se preocupe em descer comigo!
Eles estavam terminando de tomar a sopa que fora servida como entrada
quando a porta da sala de jantar foi aberta. O coração de Victoria acelerou. Sabia
que Sinclair acabaria se reunindo aos familiares, mas assim mesmo se surpreendeu
com sua chegada. Era um bom sinal. Agradeceu mentalmente por ter acertado em
suas previsões. Porque Sinclair Grafton se tornara seu mais novo projeto. Estava
determinada a salvá-lo. Ao menos de si próprio, e do muro invisível por trás do qual
se escondera para proteger aqueles de quem gostava.
— Boa noite — Sinclair cumprimentou a avó com um beijo e se afastou
quando ela tentou retribuir. — Também quer um beijo, Chris?

Projeto Revisoras 70
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

O irmão relaxou visivelmente ao se apertarem as mãos.


Sinclair ocupou a cadeira em frente a Victoria, na outra extremidade da longa
mesa. Ela gostaria que Sinclair também a tivesse beijado, mas diante das
circunstâncias, não poderia reclamar.
— Notei que você conservou a maioria dos criados — disse Augusta.
— Sim. Afinal, eles conhecem a casa melhor do que eu.
— A corrida anual de barcos será amanhã — Christopher lembrou. — Você
vai?
— Não fiz planos — Sinclair respondeu, seco. Que Victoria não esperasse
que ele fosse se reconciliar com a família como se nada houvesse acontecido! A
expressão de desapontamento do irmão caçula o tocou. — Mas nada me impede de
ir assistir. Será uma boa oportunidade para eu me inteirar das novidades de Oxford.
O sorriso de Christopher não poderia ser mais radiante.
— Excelente! Vovó não quer ir, mas você nos acompanhará, não é, Victoria?
Será divertido.
Sinclair continuou comendo, sem oferecer nenhum sinal de que a queria ao
lado dele e do irmão. Algo que ela interpretou como um "não".
— Obrigada, Christopher, mas tenho um compromisso para o almoço.
— Com suas amigas, suponho.
— Sim. Você gostaria que eu lhe apresentasse alguma, talvez?
— Essa é uma esplêndida idéia, minha querida! — exclamou Augusta,
fazendo com que todos os olhares se voltassem para ela. — Precisamos comemorar
seu ingresso em nossa família e também o retorno de Sinclair para Londres. Estou
pensando em dar um baile em Drewsbury House.
— A senhora é maravilhosa, vovó! — A euforia de Christopher era inegável,
assim como o desprazer de Sinclair com a notícia. Victoria se apressou a manifestar
sua opinião antes que os planos de Augusta malograssem.
— Adorei a idéia! Posso ajudá-la a preparar a lista de convidados?
— Claro que sim. E para deixarmos Christopher feliz, você deve chamar
todas as suas amigas.
— Permitem-me perguntar quando deverá acontecer o ilustre evento?
— Que tal no dia quinze? Teremos quatro dias para mandar os convites e dez
para aguardarmos as respostas e cuidarmos dos preparativos.
Sinclair estava a ponto de se levantar e sair da sala. Não se manifestara
contra o baile, mas a cada instante pensava mais em fazê-lo. Jamais poderia supor
que Victoria fosse se levantar, colocar-se atrás dele e inclinar-se sobre sua cabeça.
— O que você nos diz, Sinclair?
A expressão de surpresa entre Augusta e Christopher não passou
despercebida a Victoria. Nem o olhar de advertência de Sinclair.
— Ao menos você terá mais com o que se ocupar.
O sorriso desapareceu do rosto de Victoria. Ela deveria ter imaginado que ele

Projeto Revisoras 71
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

diria algo nesse sentido. Mas o importante foi Sinclair ter se portado bem com a
família, de modo que o jantar não foi um completo desperdício de tempo.
— Ainda está bravo comigo? — Victoria indagou, mais tarde, depois que as
visitas se foram.
— Estou. Você nem sequer imagina o problema que está me causando. Mas
venha comigo.
— Primeiro me diga...
— Venha ou eu a levarei à força!
A ameaça não surtiu muito efeito. Afinal, Victoria gostava de ser carregada no
colo. Um calor lhe subiu pelo corpo ao pensar em fazer amor novamente. Mas
Sinclair deveria ter algo importante para lhe mostrar e ela queria saber o que era.
— Estou indo.
Para surpresa de Victoria, Sinclair passou pela biblioteca e pelos aposentos
que destinara a ela e abriu a porta de seu próprio quarto.
— Está receosa? — ele perguntou, parado na soleira.
— Nem um pouco — Victoria respondeu e entrou.
No mesmo instante, Sinclair fechou a porta, arrebatou-a em seus braços e a
beijou. Foi um beijo diferente dos outros, que pareceu irradiar até a ponta dos pés.
— Devo me retirar?
Ao som de uma estranha voz masculina, Victoria levou um susto tão grande
que bateu com a testa no queixo de Sinclair. Ele esfregou o local da contusão e
procedeu como se estivesse acostumado àquele tipo de situação.
— Victoria, este é Roman.
Um homem baixo se levantou de uma cadeira e fez uma mesura. Parecia um
marinheiro, ou trabalhador das docas. Uma feia cicatriz cortava sua face esquerda, e
dois de seus dedos eram curvados, parecendo um gancho.
— Eu me lembro de tê-lo visto perto dos estábulos — disse Victoria.
— Roman é meu valete — Sinclair apresentou. — E também um espião como
eu.
Victoria se encaminhou para o rapaz e apertou-lhe a mão. Não fosse seu
gesto, talvez ele tivesse caído para trás.
— Estou perplexo, milady. Acho que perdi a noção da realidade porque estou
ouvindo algo completamente impossível.
— Victoria adivinhou tudo. Na verdade, ela deduziu os fatos — Sinclair
explicou ao amigo.
Victoria mal podia esperar pela continuidade do relato. Zangado com ela ou
não, Sinclair estava lhe dando acesso à parte secreta de sua vida. Sentou-se perto
da lareira, onde ele se colocara. Um instante depois, o valete se sentou do lado
oposto.
Sinclair ofereceu uma bebida, e ela aceitou. Tinha a impressão de estar
sonhando, mas não era sonho, e sim um pesadelo. Sinclair apresentou-a ao parceiro

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como um novo membro do grupo, para em seguida tentar convencer o outro a


impedi-la de participar.
— Roman, lady Althorpe quer nos ajudar na investigação. Conte-lhe porque
essa não é uma boa idéia.
— Não sou uma tola, Sinclair. Você não me assusta. — Indignada e
desapontada, Victoria se levantou para sair, mas Sinclair a deteve.
— Não acho apropriado relatar os detalhes terríveis que já presenciamos —
Roman se desculpou.
— Histórias de sangue e de horror não me afastarão do meu propósito —
Victoria avisou-os.
— Os ambientes que somos obrigados a freqüentar não servem para uma
dama.
— Vocês estão cometendo um erro de julgamento. — Fazia quase três anos
que ela fora obrigada a aprender a se esquivar de certos cavalheiros que circulavam
livremente pela alta sociedade. Desde os dezoito anos, ela podia freqüentar
qualquer ambiente sem se contaminar. Ofendida, rumou para a porta e dessa vez
Sinclair não tentou impedir sua saída. — Não posso forçá-lo a me incluir em sua
vida, Sinclair. Apenas não espere que eu o inclua na minha. Boa noite, senhores.
Desculpem, mas marquei um compromisso com lady Drewsbury e não quero me
atrasar.
Roman suspirou. Sinclair não pôde evitar um sobressalto ao ouvir a chave
girar na fechadura da porta de comunicação. Mas se uma cama fria e vazia era o
preço para afastar sua esposa do perigo, ele estava disposto a pagá-lo.
— Pensei que você quisesse a ajuda dela — Roman murmurou entre goles
de conhaque.
— Eu ainda quero. Mas recuso-me a inteirá-la dos fatos.
— Parece um pouco tarde para isso.
Sinclair desabou em uma cadeira e escondeu o rosto com as mãos.
— Acha que eu não sei?
— O que eu sei, Sinclair, é que você se ligou a uma mulher que não
consegue controlar. Algo terrível para qualquer marido, e principalmente para um
espião.
Sinclair dispensou Roman com um aceno. O amigo estava certo, é claro. Nem
por isso a situação se tornava mais palatável. Sempre se orgulhara de reconhecer o
limite em que poderia confiar nas pessoas, aliados ou inimigos. Com Victoria, porém,
ele não estava conseguindo lidar da mesma forma. Ela parecia jogar sob outras
regras.
Ou talvez ela não estivesse jogando e as circunstâncias respondessem por
essa diferença. Eles eram casados. Nenhum dos dois fora casado antes. Portanto,
se era seu objetivo continuar casado com Victoria após o desfecho da investigação,
talvez devesse começar a conhecê-la melhor.
A cada dia Sinclair gostava mais de Victoria. Desejara-a desde o primeiro
instante. Ainda mais agora, depois que sentira o gosto da paixão que os arrebatara.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Talvez, lá no fundo, sua intenção fosse usá-la, dada sua reputação do jovem frívola,
para ter acesso a seu círculo social. Não mais depois de descobrir que Victoria era
uma moça honesta o inteligente, digna de ser amada.
Depois de tomar seu conhaque e o de Victoria, Sinclair se serviu de outra
dose. Estava agitado e insone. Não ficaria no quarto, andando de um lado para
outro, só porque a esposa lhe negara sua companhia naquela noite.
Alguns minutos depois, vestido com a formalidade que o ambiente exigia,
subiu na carruagem e seguiu para o Society Club, determinado a arriscar sua sorte
nas cartas e no progresso de sua investigação.
A idéia não poderia ter sido mais produtiva. Lorde Marley estava ocupando
uma mesa com quatro de seus amigos e havia um lugar vago.
— Vocês me permitem? — Sinclair perguntou, já tomando assento.
— Ora, ora! Vejam quem chegou! — O tom não poderia ser mais sarcástico.
Para demonstrar seu repúdio, John Madsen, cujo título era lorde Marley,
esvaziou a garrafa de vinho do Porto em seu próprio copo e nos dos outros. Sinclair
não se deixou afetar pela grosseria do gesto. Fez um sinal para que lhe trouxessem
uma nova garrafa. A quarta, a julgar pelas três vazias a um canto.
— O que vocês estão jogando?
— Faro. Estávamos para iniciar uma nova partida.
— Você joga faro? — perguntou Lionel Parrish, sentado entre os dois. —
Pensei que o vinte-e-um fosse o jogo preferido no Continente.
— Eu tenho fama de jogar qualquer coisa e de ganhar mais do que perder —
Sinclair declarou, arrogante.
— Um vencedor pode se tornar um perdedor a um estalar de dedos.
A observação de Marley foi ostensivamente maldosa. Sinclair percebeu que o
sujeito estava se referindo a Victoria. Em silêncio, tirou uma nota de vinte libras do
bolso e colocou-a no centro da mesa.
— A mesa está alta demais para mim — Parrish protestou.
Sinclair sorriu e recuperou a nota. O desafio servira para quebrar o gelo. O
visconde Whyling garantiu que, com aquela importância, a diversão deveria incluir os
favores de uma mulher. Sinclair respondeu que uma das vantagens do casamento
era não precisar mais pagar por sexo. Uma observação que poderia causar uma
briga entre ele e Victoria, mas que incitou Marley a entrar na conversa.
— Cale-se, Althorpe! Não basta ter roubado nossa Vicky?
— Eu estava falando de modo geral. Não me lembro de ter mencionado
minha esposa — Sinclair respondeu e obrigou-se a ser mais cuidadoso. Bebera
demais.
As apostas começaram em termos básicos. Sinclair aproveitou para lançar a
isca.
— Pena que Thomas não fosse um jogador. Talvez eu pudesse ter retornado
antes e usufruído mais cedo da herança.
— Talvez Thomas gostasse de apostar — Marley sugeriu e acrescentou com

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

uma ponta de malícia que ele apenas se reservasse o direito de selecionar


criteriosamente seus parceiros. — Nós passamos muitas noites agradáveis juntos.
Sinclair percebeu que estava pálido pelo frio que se apoderou de seu corpo. A
declaração o deixara tão transtornado que não percebeu que a partida fora ganha
por Parrish. Sua atenção se voltara para Whyling e seu riso debochado à menção da
palavra "agradável" com referência ao falecido cujo mau humor era notório.
— Eu não conheci Althorpe muito bem, mas ele me parecia um bom sujeito —
disse o quinto jogador.
— Ele era um bom sujeito — Marley confirmou. — Tinha uma boa cabeça
sobre os ombros. Apenas a movia ocasionalmente na direção errada.
— Queira me desculpar — Sinclair interrompeu a conversa. — Vocês podem
falar o que quiserem sobre o caráter de meu finado irmão, menos sobre suas
preferências sexuais.
— Eu nunca duvidei da sua masculinidade — Marley retrucou. — Estava me
referindo ao modo insistente como ele me recomendava para diversificar meus
investimentos em companhias francesas. Eu teria perdido uma fortuna se o tivesse
ouvido.
— Você perdeu de qualquer maneira, não perdeu? — observou Whyling. —
Nesta mesma sala. Em parte para mim.
Parrish pôs um fim na discussão, abraçando Marley pelo ombro.
— Não vale a pena desperdiçarmos a noite e um excelente Porto com
lamentos sobre velhas dívidas. Estamos aqui para nos divertir!
Sinclair concordou com um gesto de cabeça. Pela manhã, ele teria novas
perguntas para fazer a Victoria sobre seu antigo namorado.

CAPÍTULO V

— Tem certeza de que seu marido não se importa com nossa visita?
— Esta casa agora também é minha. Ele vive dizendo isso.
— Você prometeu que me contaria o que aconteceu quando perguntou a ele
sobre sua briga com lorde William — Lucy cobrou.
Nada no mundo impediria que Victoria corasse até a raiz dos cabelos naquele
instante. Para disfarçar, ela segurou o braço de Lucy e se pôs a andar pelo salão de
Grafton House.
— Você sabe como são os homens... — Victoria encolheu os ombros e se
preparou para inventar uma história. Foi salva pela observação de Venetia Hilston.

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— Pena que o baile não será aqui. Este magnífico salão comportaria mais da
metade da população de Londres.
Lionel Parrish puxou Lucy pelo outro braço e pôs-se a girar pela pista.
Lucy riu, divertida, mas Venetia lembrou que não sobraria espaço para eles
dançarem com tanta gente.
— Ela não tem senso de humor. Nunca teve, não é? — lorde Geoffrey
Tremont cochichou para Victoria.
Geoffrey estava rodeando Victoria, como uma abelha a uma flor, a tarde
inteira. Para fazer jus à sua fama, Victoria empurrou-o sobre Nora Jeffrie e pediu que
Marguerite tocasse uma música ao piano. Lucy aprovou imediatamente a idéia,
ainda girando nos braços de Parrish, sem o necessário fundo musical.
Aos acordes de uma valsa, Victoria olhou para os amigos e sorriu consigo
mesma. Reuni-los em Grafton House fora uma idéia soberba. Ninguém deixou de
comparecer. O tempo chuvoso, afinal, não propiciava passeios ao ar livre.
— Milady concede-me esta contradança?
Lorde Geoffrey fez uma mesura a Victoria, que precisou sorrir apesar da
contrariedade.
— Certamente que sim, milorde.
Nora não conseguira prendê-lo por mais de alguns minutos. Lorde Geoffrey
parecia determinado a provocar Marley, roubando-a de sua presença cada vez que o
outro tentava lhe falar. Victoria não o teria convidado para vir à sua casa se ele não
tivesse aparecido no clube, no meio do almoço.
Enquanto dançavam, Victoria aproveitou para observar Lionel Parrish. Depois
de algumas tentativas frustradas de cortejá-la, no início da temporada, Lionel se
voltara para Lucy. Eles formavam um bonito par. Gostava de vê-los juntos.
Uma nota errada, algo raro de acontecer quando Marguerite Porter tocava,
fez Victoria olhar na direção do piano. Ela deveria ter adivinhado. Sinclair estava ao
lado de sua amiga. Embora estivesse indignada por sua recusa em permitir que ela
participasse da investigação, admirava-o. Sinclair estava se comportando como se
concordasse com a reunião festiva que fora oferecida sem seu conhecimento.
Sinclair continuava surpreendendo-a. Era um homem raro.
— Althorpe não parece estar se importando — disse lorde Geoffrey.
— Claro que não. Vocês são meus amigos.
— Eu estava me referindo a nós, minha querida.
— Estamos apenas dançando. Não há nada de mau nisso.
— Eu soube o que ele fez com William Landry. Também ouvi rumores de que
quase se pegou ontem à noite com Marley. Não pensei que o sujeito fosse tão
ciumento. Por mais que eu aprecie dançar com uma mulher adorável como você,
não quero ter meus dentes quebrados.
Victoria tornou a olhar para o marido. Não lhe ocorrera que ele pudesse ter
saído na noite anterior. Lionel estivera com Marley, mas não mencionara nada sobre
Sinclair. Aparentemente, ele estava com espírito de brigar. Não se contentara em tê-
la como única adversária.

Projeto Revisoras 76
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Assim que a valsa chegou ao fim, Victoria foi até o piano.


— Boa tarde.
— Boa tarde — Sinclair respondeu, beijando-a no rosto, como se tudo
estivesse bem entre eles, e sorrindo para Lucy e para Parrish, que também se
aproximavam.
Intrigada por nenhum dos homens fazer qualquer referência sobre o
desagradável episódio, Victoria perguntou a Sinclair se já conhecia todos os
presentes. A resposta negativa, ela fez as apresentações, aproveitando a primeira
oportunidade para tentar descobrir o que houvera.
— Por que você não me contou, Lionel?
— Por que eu não contei o quê?
— Por que não me disse nada sobre Sinclair e Marley terem brigado ontem à
noite?
— Eles não brigaram. Apenas tiveram um desentendimento.
— Por minha causa?
Lionel suspirou.
— Pergunte ao seu marido, Vicky. Marley é meu amigo. — Ele hesitou e
depois a tocou no ombro. — O marquês a trata bem? Seu temperamento...
— O baile acabou? — A voz de Sinclair fez Victoria olhar para trás e Lionel
afastar a mão do ombro dela.
— Ao menos para Lucy e para mim — Lionel respondeu.
— A ópera A Flauta Mágica estréia esta noite, e eu comprei ingressos para a
apresentação.
— Nós nos encontraremos lá?
Lucy olhou para Victoria que, instintivamente, procurou Sinclair com os olhos,
mas calou-se a tempo. Preferiria morrer a lhe implorar um favor.
— Sinclair e eu ainda não conversamos a esse respeito.
— Você gostaria de ir?
— Sim, mas...
— Nós também assistiremos ao espetáculo, Lucy. Até mais tarde — Sinclair
respondeu com um sorriso a Lucy.
—- Espero que consiga ingressos — disse Lionel. — Estavam quase se
esgotando.
— Minha avó tem um camarote permanente.
As surpresas não paravam de acontecer. Victoria tentou não demonstrar seu
contentamento ao acompanhar os amigos até a porta. Assim que eles se
despediram, Sinclair a segurou pelo cotovelo e pediu que o acompanhasse à
biblioteca.
— O que você estava conversando com Parrish?
— Sobre a discussão que você teve com Marley ontem à noite.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— O que Parrish lhe contou?


— Nada. Ele mandou que eu perguntasse a você. Imagino que tenham
comentado sobre minhas virtudes ou sobre a ausência delas.
— Você acha que eu discutiria com alguém sobre minha esposa?
Victoria encolheu os ombros.
— Qual foi o motivo, então?
— Nada com que você precise se preocupar. Victoria cruzou os braços.
— E a corrida de barcos, como foi?
— Dois afundaram, mas ninguém se afogou. Quanto ao que estávamos
falando...
— Não precisa se preocupar — Victoria interrompeu, repetindo deliberada-
mente as palavras que ele usou. — Perguntarei a Marley e ele me dirá.
— Você não vai perguntar nada a Marley!
— Não? Você não me quer perto de seus amigos. Não pode me afastar dos
meus.
— Sou seu marido.
— Meu marido, não meu feitor! Tente me proibir!
— O que sabe sobre lorde Marley? — Sinclair se obrigou a manter a calma.
— Mais do que sei sobre você. — Victoria virou-se ao chegar à porta. — Nós
vamos à ópera ou você mudou de idéia?
— Nós vamos —- ele respondeu com um suspiro.
Victoria se afastou, cabisbaixa. Obviamente, ela não significava muito para
Sinclair. Ele estava mais interessado em questioná-la sobre seus amigos do que em
seus sentimentos. Por outro lado, o que ela esperava? O casamento deles não fora
por amor.
Sinclair resmungou por cinco longos minutos depois que Victoria saiu. Sua
esposa não entendia, provavelmente nunca iria entender, que as pessoas que ela
chamava de amigas e que trazia para dentro de sua casa, não eram o que pareciam
ser. Uma delas poderia ter matado Thomas. As outras, pelo que ele fora informado
durante sua permanência na França, compunham um bando de mentirosos,
adúlteros, traidores e trapaceiros.
Ainda resmungando, Sinclair se sentou à escrivaninha para escrever algumas
mensagens. Uma delas de lady Stanton para a sobrinha, Wally Jerrison, que estava
hospedada com amigos em Weigh House Street, para relatar que lorde Marley
discordara do ponto de vista de Thomas Grafton sobre as negociações com a
França e Bonaparte. Outra foi endereçada a Augusta Drewsbury, dizendo que seu
neto e a esposa apreciariam sua gentileza em lhes ceder dois lugares em seu
camarote, caso estivessem disponíveis.
Ao contrário das expectativas de Victoria, o motivo para Sinclair ter
concordado em irem ao teatro não se prendera à investigação. Depois de rever a
avó e o irmão caçula, Sinclair se dera conta da falta que eles lhe fizeram durante
todos aqueles anos de ausência. Mas, acima de tudo, ele quisera satisfazer o desejo

Projeto Revisoras 78
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

de Victoria. Aproveitar a oportunidade de estar ao lado dela, sem ter de lhe mentir.
A resposta da avó não tardou a chegar. Tanto ela quanto Christopher os
aguardariam cora imenso prazer para assistirem à ópera juntos, no camarote da
família. Sinclair podia imaginar a surpresa e a alegria da avó com sua carta.
Também podia imaginar que ir à ópera, dessa vez, não seria nenhum
sacrifício para Christopher. Porque onde estava Victoria, estavam suas amigas.
Depois de pedir que Milo entregasse a mensagem de Augusta a Victoria,
Sinclair se recolheu à biblioteca. Faltara-lhe coragem para ver os desenhos e
esboços deixados por Thomas. Naquele momento, ele decidiu não adiar mais, e
abriu a caixa de madeira.
O primeiro desenho era de Christopher, aos dezesseis ou dezessete anos,
com seu habitual sorriso e os cabelos em desalinho. Victoria estava certa. Embora
ele não fosse um perito nessa arte, os desenhos eram excelentes. A maioria
retratava Grafton House, com as árvores, o lago, os estábulos, e principalmente a
velha mansão.
Os últimos sugeriam desenhos de memória, sem o recurso de modelos. Ali
estavam alguns dos amigos de Thomas: Astin Hovarth, o conde de Kingsfeld, em
traje de montaria sobre seu cavalo, e também em traje formal, no White's Club. Lady
Grayson. Lady Drewsbury. Lorde Hodgiss. Srta. Pickering. Lady Victoria Fontaine.
Sinclair sentiu o coração bater mais forte à simples imagem de Victoria. O fato
de terem feito amor não saciara o desejo que brotara como uma faísca de fogo
desde o primeiro instante. Se possível, só fizera aumentá-lo.
Ela estava linda com um pequeno cacho descendo como uma cortina sobre
um dos olhos. O rosto oval e perfeito refletia bom humor e sagacidade. O brilho dos
olhos parecia dizer que ela percebia claramente a intenção de cada homem ao seu
redor, no salão de baile.
Thomas a retratara. Teria sido um dos admiradores de Victoria? Fizera-lhe
outras confidencias além de lhe contar sobre seu talento para o desenho?
Sem resposta para essa pergunta, Sinclair guardou sua última recordação do
irmão. Mandaria emoldurar a maioria dos desenhos para colocá-los na galeria de
Althorpe House. Talvez assim ele o sentisse mais próximo.
Inconformado com a lentidão do processo, Sinclair decidiu ocupar o resto da
tarde com uma incursão a Pall Mall, local onde poderia, talvez, dar seqüência à sua
investigação. Ocorreu-lhe, porém, que o sótão poderia encerrar segredos mais
interessantes. A busca fora iniciada logo após sua chegada a Londres, mas a
interrompera por causa de Victoria. Agora não havia mais razão que o impedisse de
continuar.
Ao se levantar, Sinclair sentiu algo estranho em seus tornozelos. Era lorde
Baggles. O gato de Victoria parecia tê-lo perdoado pelo outro dia. Abaixou-se para
acariciá-lo. Sem cerimônia, o felino pulou para o seu colo.
Rindo sozinho, Sinclair tornou a se sentar. Um atraso de alguns minutos não
faria diferença em sua busca. Era mais importante naquele momento tentar fazer as
pazes com o bichano e sua dona.
De repente, uma gritaria na rua o deixou intrigado. Antes que pudesse ir até a
janela, Roman surgiu à sua porta.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Estamos com problemas.


Sinclair levantou-se e colocou lorde Baggles no sofá. Correu, em seguida,
atrás de Roman, que já estava alcançando o primeiro andar.
— Graças a Deus, milorde! — Milo exclamou ao ver Sinclair. — Lady Althorpe
está...
Sinclair abriu caminho entre os criados e espiou pela janela. Victoria estava
parada na frente de uma carroça de leite. O condutor berrava para que ela saísse da
frente.
— Não me interessa que o senhor tenha entregas a fazer! Ninguém tem o
direito de maltratar um animal. O senhor está quase matando o pobre cavalo de
tanto chicoteá-lo. Por que não o alimenta como deveria? Ele está tão magro que mal
consegue andar!
Sinclair notou a mão do homem crispando ao redor do chicote. Precipitou-se
pela escada. Antes que o homem pudesse fazer o que lhe passara pela mente,
Sinclair saltou sobre a boleia e puxou o chicote.
— Atreva-se e será um homem morto! O dono da carroça estremeceu.
— Eu não pretendia machucá-la. Só estou querendo trabalhar e ela não
deixa.
— Quanto o senhor quer pelo cavalo?
— Como eu poderei vender meu leite sem a carroça e o velho Joe?
— Quanto o senhor quer por tudo?
Sinclair pagou ao homem mais do que o razoável. Em seguida pediu que
Roman providenciasse para que o animal fosse levado para os estábulos e tratado,
e que o leite fosse entregue no orfanato mais próximo com os cumprimentos de lady
Althorpe.
Victoria estava perplexa. Esperara sermões e reprimendas, não um prêmio.
Seus olhos brilhavam de alegria e admiração quando encontraram os de Sinclair.
— Obrigada.
— De nada. Apenas não espere que eu concorde que Joe fique no viveiro
junto com os pequenos.
— Claro que não.
— A propósito, deixei lorde Baggles dormindo na biblioteca.
— Desculpe. Vou tirá-lo de lá imediatamente.
— Por quê?
Victoria interrompeu o passo e estreitou os olhos.
— Está fazendo isso só porque eu fiquei zangada com você?
— Talvez. Está dando certo?
— Mais tarde eu respondo.
Aquela era a chance que Sinclair esperava. Enlaçou-a pela cintura e beijou-a.
Victoria ficou rígida por um instante, mas logo o enlaçou pelo pescoço. Empolgado

Projeto Revisoras 80
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

com o ímpeto com que ela o beijou de volta, Sinclair a ergueu nos braços,
— O que você está fazendo? Os criados estão olhando!
— Meu arrebatamento a faz sentir vergonha, minha querida? — Sinclair
provocou-a.
— Em absoluto — Victoria respondeu com franqueza. Sinclair queria tornar a
beijá-la e levá-la correndo para o quarto, mas uma figura alta e musculosa
interceptou-lhe o caminho.
— Sinclair Grafton, em carne e osso! Eu juraria que você estava fazendo o
mesmo da última vez em que o vi.
— Kingsfeld — Sinclair murmurou, frustrado. Por maior que fosse sua estima
pelo conde, não se importaria de vê-lo rolar pela escada e quebrar uma perna
naquele momento.
— Seu bom gosto não mudou, pelo que pude observar — o conde
prosseguiu. — Quem é esta deusa?
— Minha esposa, lady Althorpe. Victoria quebrou o tornozelo e não está
podendo andar. Victoria, este é Astin Hovarth, o conde de Kingsfeld. Um amigo de
meu irmão.
— Lorde Kingsfeld — Victoria cumprimentou com um sorriso. — Creio que já
nos vimos antes. Como vai?
— E um grande prazer finalmente conhecê-la, milady. — O homem fez uma
profunda reverência.
Certamente que sim, Victoria pensou. Porque seu prazer e o de Sinclair fora
negado. Seu desejo pelo marido parecia aumentar a cada dia. Uma vez em seus
braços não fora suficiente para aplacar a paixão que ele lhe despertara. Mas a
oportunidade estava perdida. Talvez devesse dispensar os dois para apressar o
desfecho. Se o homem fora amigo de Thomas, Sinclair certamente quereria lhe falar.
Quanto antes a conversa terminasse, mais cedo ela poderia voltar para seus braços.
— Meu tornozelo está doendo — mentiu. — Gostaria de descansar um pouco
no terraço e aproveitar para tomar um pouco de sol.
— Certamente. Enquanto o conde entregava o chapéu e as luvas a Milo,
Sinclair levou Victoria para o sofá. Assim que a depositou sobre as almofadas,
ela o segurou pela lapela e beijou-o na boca.
— Eu vim assim que recebi sua mensagem — lorde Kingsfeld estava dizendo,
mas deteve-se ao surpreender o casal. Sinclair endireitou as costas.
— Está confortável, querida?
— Não.
Sinclair clareou a garganta.
— Vou apanhar um xale para cobri-la. Volto em um instante, Kingsfeld. Fique
à vontade.
Victoria forçou-se a parar de pensar no calor que permanecia em seus lábios
para prestar atenção ao visitante. Realmente à vontade, ele se dirigiu ao móvel sob
a janela para se servir de um cálice de vinho do Porto. Era mais alto que Sinclair e

Projeto Revisoras 81
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

mais forte. Seus olhos azul-claros percorreram o ambiente antes de pousarem sobre
Victoria.
— Algo está diferente do que era? — Victoria perguntou, lembrando-se de
que o conde não devia pisar naquela casa havia mais de dois anos.
— Oh, sim. Thomas nunca trouxe para este sofá uma jovem tão formosa.
Victoria sorriu.
— Lorde Althorpe certamente não era um celibatário.
— Não, mas seu estilo não se comparava ao do irmão. Você é a famosa Vicky
Fontaine, não é?
— Eu era — Victoria corrigiu.
— Fiquei surpreso ao saber da volta de Sinclair. Imaginava-o estabelecido em
Paris. Thomas costumava dizer que nunca sabia aonde as aventuras de Sinclair
poderiam levá-lo.
Victoria assentiu. Ao que parecia, Thomas não confiara plenamente em lorde
Kingsfeld. Sinclair fora a única pessoa a quem Thomas revelara seus pensamentos.
— Eu gosto de pessoas imprevisíveis. Meu marido...
Logo Victoria descobriu que lorde Kingsfeld não prestava atenção ao que os
outros diziam. Era um sujeito convencido, e ela não estava gostando de ser
ignorada. Foi um alívio que Sinclair não demorasse a voltar.
— Seu xale, minha querida. — Sinclair o colocou ao redor dos ombros de
Victoria, que se levantou, esquecida da pequena mentira. — Seu tornozelo! Cuidado
para não forçá-lo!
— A dor melhorou. — Victoria fingiu mancar. — Prefiro deixá-los a sós para
que conversem.
Para desagrado de Victoria, lorde Kingsfeld ficou para jantar. Ele, como a
maioria dos homens, só lhe dirigiu a palavra para elogiar sua beleza. Ela teria se
desculpado e voltado para seus aposentos logo depois de comer, se soubesse que
Sinclair já havia obtido dele as informações que desejava.
— Pretende abrir sua casa nesta temporada? — Sinclair indagou.
— Tomei essa decisão esta manhã — respondeu o conde. — Fiz planos de
ficar em Londres apenas alguns dias, mas não deu para resistir ao seu convite.
— Agradeço sua atenção — disse Sinclair com um meneio. — Sua presença
é de grande valia para mim.
— Foi um prazer. Aliás, quero lhe dar os parabéns pela linda e adorável
esposa.
Dessa vez foi demais. Victoria pegou o guardanapo do colo e quase o atirou
na mesa.
— Queiram me dar licença, mas preciso me pentear antes de sairmos.
— Vocês vão sair?
— Vamos à ópera — Sinclair informou. — Victoria adora música lírica.
Dessa vez Victoria não precisou forçar um sorriso. Estava satisfeita em poder

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

se livrar daquele homem intragável.


— O que você tem? — Sinclair indagou quando o silêncio de Victoria se
prolongou.
— Nada. Descobriu algo de interessante durante a conversa com lorde
Kingsfeld?
— Talvez. Mas d que aconteceu? Por que está assim tão aborrecida?
— Em primeiro lugar, seu amigo não poderia ter batido à nossa porta em
momento mais inadequado.
Sinclair esboçou um sorriso. Encorajado, segurou a mão da esposa e se
sentou mais perto.
— Eu a compensarei por isso. Esta e todas as noites, se você me permitir.
Victoria retirou a mão, mas não se afastou.
— Antes eu tenho uma pergunta para lhe fazer.
— Estou ouvindo.
— Chegou uma carta para você esta tarde.
— Sim, eu sei — Sinclair respondeu, sem entender.
— Quem é lady Stanton?
Ciúmes. Victoria estava com ciúmes dele! Sinclair precisou conter o ímpeto de
tomá-la nos braços e sufocá-la de beijos.
— Ninguém importante.
Primeiro Victoria se afastou para o outro lado da carruagem. Depois deixou
bem claro que ele não deveria esperar dela mais nenhuma informação. O que fazer?
Sinclair franziu o cenho. Sua única certeza era de que não queria continuar
passando as noites sem ela.
— Eu não posso lhe contar tudo, Victoria. Há segredos que não são meus.
A contrariedade de Victoria foi se dissipando aos poucos.
— Era o que eu queria; que você fosse honesto comigo.
— Eu espero corresponder às suas expectativas. Também gostaria que você
fosse sempre sincera comigo. — Sinclair levou a mão de Victoria aos lábios e beijou
cada junta de seus dedos.
— Não faça isso! — Victoria implorou. — Vou ficar excitada e nós temos um
compromisso.
— Eu a excito? — Sinclair provocou-a, beijando agora a palma da mão.
— Você sabe que sim. Pare, por favor.
— Só se você me contar sobre o que houve que a deixou tão irritada —
Sinclair propôs, deslizando as pontas dos dedos pela linha do decote, fascinado com
os murmúrios que Victoria deixava escapar pelos lábios úmidos entreabertos.
— Está bem, está bem — ela concordou, afastando-o por fim de seu peito. —
Lorde Kingsfeld disse algo que me enfureceu.

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— O quê?
— Que sou bonita, que sou dócil, que você fez um bom casamento ao me
escolher...
— Mas o que isso teve de ofensivo?
— Ele me insultou! Você não percebe, ou a questão é que não se importa
com esse tipo de referências?
— Eu tinha outras preocupações em mente.
Victoria achou melhor encerrar o assunto. Recostou-se no banco e fez
silêncio por um minuto.
— Acho você inteligente demais, assim como era seu irmão, para tolerar a
companhia de um sujeito como aquele.
Sinclair teve o bom senso de não sair em defesa do amigo de Thomas.
Victoria estava certa. Ele não havia prestado atenção ao modo como o conde a
tratara. Mais uma vez a decepcionara. Isso devia tê-la magoado mais do que o des-
caso do outro.
— Sinclair?
— Desculpe. Eu estava...
— Tentando entender o motivo por eu ter ficado tão indignada? — Agora
estava mais calma. — A verdade é que eu mesma não sei. Nunca tinha falado com
aquele homem. Não deveria me surpreender que ele me tratasse conforme a
reputação que adquiri ao longo dos anos.
Uma sensação doce e suave se apoderou de Sinclair, e se instalou em algum
lugar perto de seu coração.
— Eu a compreendo, Victoria. Mais do que ninguém.
A declaração comoveu Victoria. Para não demonstrar fraqueza, ela tentou
brincar.
— Para um libertino sem escrúpulos, até que você não é um mau sujeito.
— Obrigado. Tem certeza de que não quer desistir da ópera e voltar para
casa?
Uma risada deliciosa fez Sinclair prender o fôlego.
— Eu voltaria, mas sua avó está nos esperando. E embora você não tenha
aceitado minha contribuição, eu detestaria que você perdesse essa oportunidade de
espionar os espectadores na platéia.
O saguão do teatro estava lotado. Sinclair teve a impressão de ter entrado em
uma caixa de jóias, tal era o brilho ofuscante das gemas e dos vestidos com que as
damas desfilavam. Os amigos de Victoria os cercaram à entrada.
— Sophie D’Anjou estreará em Londres esta noite — Lucy informou,
entusiasmada.
Sinclair não queria acreditar em seus ouvidos. De todos os lugares, por que
ele tivera de trazer Victoria justamente à ópera?
— Você assistiu a algum espetáculo de mademoiselle D’Anjou quando esteve

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

em Paris? — Victoria quis saber, com seu incrível sexto sentido. — Ela é muito
popular na França.
— Sim, em várias ocasiões. Ela tem uma linda voz.
— Althorpe!
Sinclair ainda estranhava que se dirigissem a ele pelo título. Ao
estranhamento somou-se o desagrado de deparar com o conde de Kingsfeld em
companhia de sua avó e de seu irmão.
Victoria deu um beijo na avó de Sinclair e estendeu a mão para Christopher.
— Muito obrigada por permitir nossa presença aqui esta noite.
— Tenho um imenso prazer em recebê-los, acredite — lady Drewsbury
respondeu.
Christopher fez dele as palavras da avó. Victoria se apressou a lhe apresentar
as amigas, como ficara combinado, e Sinclair aproveitou a chance para se aproximar
de Kingsfeld.
— Onde você assistirá à apresentação?
— Os ingressos estavam esgotados. Não havia nenhum lugar disponível. Vim
apenas para lhe falar, se você puder me dispensar alguns minutos.
Intrigado, embora não demonstrasse o que estava pensando, Sinclair avisou
Victoria e a avó e se afastou para um canto ao lado do conde.
— Algum problema?
Astin tirou um envelope do bolso.
— Depois da conversa que tivemos esta tarde, eu dei uma olhada em meus
papéis e este documento me chamou a atenção.
— O que é isto? — Sinclair franziu o cenho. O papel estava tão manchado
que não dava para ler.
— É parte de um relatório que seu irmão e eu estávamos preparando para
apresentarmos na Câmara dos Lordes. A mancha foi causada pela bebida que
Marley derramou quando nos abordou em nossa mesa no White's Club para
discordar de algumas idéias que Thomas estava defendendo. Eu havia me
esquecido do episódio. Agora me lembro de que Marley se mostrava bastante
zangado.
— A que se referia o documento?
— Ao grande problema que a Inglaterra enfrentava dois anos atrás:
Bonaparte e França.
Outra vez Marley, e outra vez a França.
— Obrigado, Astin. Confio em que este assunto fique entre nós.
— Sim, é claro. — Sinclair estava grato pela informação, mas não tinha mais
nada a conversar com o conde. Impacientou-se com a insistência do homem em
permanecer ao lado dele. — Aproveitando a oportunidade, sinto que devo me
desculpar com você.
— Por quê?

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Eu me excedi esta tarde quando estive em visita à sua casa. Acho que
exagerei em meus elogios à beleza de sua esposa. Espero não ter arruinado nossa
amizade. Eu prezava a de seu irmão.
— Não é a mim que você deve desculpas — Sinclair respondeu. — Não foi a
mim que ofendeu.
— Não?
— Minha esposa é mais do que uma mulher bonita. Notará isso quando a
conhecer melhor.
— Espero que sim — disse o conde, entre aliviado e intrigado.
— Com sua licença. O espetáculo já deve estar começando.
— Boa noite.
Sinclair estava otimista. A conversa com Kingsfeld fora proveitosa. Agora
Marley recebera mais um ponto negativo em sua investigação. O que o conde lhe
contara não podia ser considerado um fato grave, mas fora digno de menção.
— Onde está Victoria? — Sinclair perguntou ao irmão, com os olhos já
voltados para a multidão em busca da esposa, vestida de seda cor de malva
naquela noite.
— Ela se afastou com um sujeito que parecia um gigante. Disse que estaria
conosco em um minuto.
— Kilcairn — Sinclair murmurou consigo mesmo, o sangue já fervendo nas
veias.
Mas Victoria surgiu a seu lado quase que imediatamente, e ele conseguiu
fingir serenidade ao lhe dirigir a palavra.
— O que ele queria?
— Eu lhe perguntei se Alexandra iria amanhã ao recital de Susan Maugrie. E
lorde Kingsfeld? Por que quis falar com você em particular?
— Nada de mais — Sinclair respondeu, mas o cenho franzido de Victoria o
incitou a ser mais específico. — Ele quis se desculpar. Achou que poderia ter me
ofendido ao lhe tecer todos aqueles elogios.
—- Seu amigo é um imbecil.
— Você cismou com ele.
— Não simpatizo com ele, admito. Mas você o preza pela amizade que
dedicava ao seu irmão. — Victoria baixou o tom de voz. — Cá entre nós, Kingsfeld
disse algo interessante a você além de se desculpar, não disse?
Ele jamais conseguiria esconder alguma coisa de Victoria.
— Sobre o recital — Sinclair resolveu mudar o assunto —, talvez eu a
acompanhe.
— Talvez um dia você aprenda a confiar em mim — Victoria retrucou. — Não
existem motivos escusos por trás de tudo que as pessoas dizem ou fazem.
— Espero que esse dia chegue em breve.
— Eu também. De todos os habitantes de Londres, apenas um matou seu

Projeto Revisoras 86
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

irmão.
Christopher foi o primeiro a chegar ao camarote. Ergueu a cortina para
facilitar o acesso dos demais. Enquanto a avó se acomodava, ele piscou para o
irmão e para a cunhada.
— Vocês estão sérios como dois pecadores em um confessionário.
— Apenas uma divergência de opinião — informou Sinclair, que resolveu se
sentar na mesma poltrona que a avó, na fileira de trás.
— Não, Sinclair. Sente-se na frente, com sua esposa. Você e Victoria gostam
mais de ópera do que eu. Se eu ficar na frente, não poderei cochilar.
— Eu não gosto da fileira da frente porque as pessoas ficam me olhando e eu
perco a concentração — informou Victoria. — Também prefiro me sentar atrás.
— Vocês não podem se esconder da platéia — opinou Christopher. —
Parecerão dois fugitivos.
— Eu concordo. — Augusta se sentou na fileira de trás e fez sinal para que
Christopher se sentasse a seu lado.
Sinclair sufocou uma exclamação de protesto. Victoria estava começando a
estreitar os olhos. Ajudou-a, cavalheirescamente, a se acomodar e acompanhou-a
em silêncio, rezando para que a famosa soprano não olhasse para cima.
As cortinas subiram e Sinclair se afundou na cadeira. No camarote real,
contudo, o príncipe George olhava para todos os lados, mais interessado em
admirar as mulheres na platéia do que em prestigiar os músicos. Até que Sophie
D’Anjou entrou em cena e se curvou para saudar o público, com seu busto
espetacular.
Sinclair afundou-se ainda mais na cadeira, rezando para que a cantora
voltasse sua atenção inteiramente ao Príncipe Regente. Sua própria atenção
também se desviou, como logo aconteceu com ele, ao ver Victoria abrir o leque e se
abanar com sensualidade.
— O que está olhando? — ela perguntou baixinho. Embora continuasse
olhando em direção ao palco, a intensidade do desejo presente no olhar do marido
não lhe passou despercebida.
— Você.
Ele gostou de vê-la enrubescer e mover mais rapidamente o leque. Mas o
momento se perdeu com a pergunta de Christopher sobre uma das amigas de
Victoria.
— Acha que eu tenho alguma chance com Marguerite? Tive a impressão de
que ela flertou comigo.
— Deixe comigo — Victoria prometeu. — Farei uma pequena investigação
para você.
O resto do espetáculo transcorreu sem interferências. Sinclair trocou vários
olhares com Victoria. Agora que descobrira que a esposa era apreciadora de ópera,
lhe compraria ingressos para todas as exibições. Queria agradá-la de todas as
maneiras. Mal podia esperar para voltarem para casa. Se ela trancasse a porta de
comunicação naquela noite, ele daria um jeito de derrubá-la.

Projeto Revisoras 87
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Ao se despedirem, a avó os convidou para jantar na noite seguinte. Antes que


Sinclair recusasse, ela sorriu para Victoria.
— As respostas aos convites começaram a chegar. E eu soube de seu talento
para a organização dos lugares.
— Quem lhe contou?
— Lady Chilton. Eu sou uma das patronas do orfanato.
Victoria e Augusta se puseram a conversar animadamente sobre eventos de
caridade. Christopher começou a falar sobre corridas de cavalos e Sinclair só
conseguia despir mentalmente a esposa.
Assim que subiram na carruagem, Sinclair trancou a porta por dentro. Victoria
estava tirando uma das luvas e Sinclair retirou a outra. Seu olhar era tão significativo
que Victoria sentiu o ar lhe faltar.
— Você está querendo fazer o que eu estou pensando? Sinclair assentiu e
Victoria ficou sem palavras por um instante.
— Mas e o cocheiro e os lacaios?
— Eles estão ocupados lá fora.
— Mas...
— Beije-me.
Victoria esqueceu os protestos. Nos braços de Sinclair, sentiu o vestido
deslizar pelos ombros enquanto lábios ardentes comprimiam os dela. Empurrou-o
contra o banco e retribuiu o beijo com uma paixão que Sinclair temera não ser real,
mas fruto de um sonho.
Um desejo insano se apoderou dele. Victoria era sua. Pertencia-lhe. E o
queria com a mesma intensidade. Suas mãos impacientes estavam puxando a
camisa para fora da calça. Com imensa satisfação ele a deteve. Retirou as mãos de
sua cintura e levou-as ao peito.
— Não há necessidade disso, aqui — murmurou, puxando o decote do
vestido para baixo e inclinando-se para tomar um dos seios na boca.
Victoria arquejou. Teve ímpetos de gemer alto conforme ele massageava o
mamilo com a ponta da língua. Avidamente, começou a desabotoar a calça dele. Um
riso rouco escapou da garganta de Sinclair e ele fez com que Victoria se sentasse
em suas pernas, de frente.
Ela o cavalgou de olhos fechados. Arrepios lhe subiam pelo corpo e a faziam
estremecer aos movimentos da profunda penetração. Era maravilhoso sentir-se
desejada. Era maravilhoso causar aquele efeito em um homem. Em seu homem.
— Você gosta disto? — perguntou com atrevimento, erguendo e baixando os
quadris.
— Continue. Não pare — Sinclair implorou. Beijaram-se. No ouvido de
Sinclair, Victoria perguntou se havia outras maneiras de fazer amor.
— Várias — ele garantiu.
— Você me ensina?
— E uma promessa.

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Victoria abriu lentamente os olhos. Ela havia adormecido com a cabeça no


peito de Sinclair e podia ouvir os batimentos de seu coração. A luz matinal penetrava
por uma abertura da cortina verde que adornava a suíte, projetando nesgas nos pés
da cama que faziam lembrar barras de ouro.
As roupas estavam esparramadas pelo chão, pela pressa com que foram
tiradas. Seu gato dormia junto da lareira. Lorde Baggles havia conseguido entrar
sem que Victoria percebesse.
— Você acordou.
Victoria pestanejou ao ouvir a voz de Sinclair. Estava tão saciada que mal
conseguia se mover.
— Isso é tão bom!
Esquecida do torpor que se apoderara de seus membros, Victoria se sentou
de um salto. O que seu papagaio estava fazendo no quarto, repetindo o que ela
dissera em um momento de paixão?
— Mungo Park? Sinclair riu baixinho.
— Você o batizou em homenagem ao explorador? — Victoria fez que sim. —
Ele deve ter presenciado nosso encontro. Todo ele.
— Não tem graça! — Victoria protestou. — Que vergonha!
— Está com vergonha de mim? Do que fizemos? — Sinclair a obrigou a
encará-lo.
— Eu nunca imaginei — Victoria confessou. — Só poderia ser com você. Com
ninguém mais.
Uma batida à porta interrompeu o idílio. Sinclair se levantou e enrolou uma
manta ao redor da cintura. Com as cobertas puxadas até o queixo, Victoria
aproveitou para observá-lo de costas, falando com Roman. Simples, natural,
confiante. Um homem de brio e responsabilidade, que arriscara inúmeras vezes a
vida por seu país. Não um libertino. E ela o ajudaria, mesmo que ele recusasse sua
colaboração. Porque enquanto o crime não fosse desvendado, ela não o teria por
inteiro.

CAPÍTULO VI

— Alexandra saiu. Ela e a prima foram fazer compras.


Victoria deu um passo para o interior da sala e se aproximou da mesa de
bilhar.
— Na verdade, eu vim falar com você, Lucien.

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— Então pegue um taco e jogue uma partida comigo — convidou lorde


Kilcairn.
O conde deu uma tacada e errou. Victoria marcou um ponto.
— Sorte de principiante — ele resmungou.
— Lucien, você conhece a escória, não? — Victoria perguntou, satisfeita com
seu êxito.
— Não tanto quanto antigamente, mas ainda sou capaz de identificar um mau
elemento à primeira vista.
— Foi o que pensei.
O conde fez mais algumas jogadas. Apoiou-se, então, contra a mesa e cruzou
os braços.
— Qual é o problema?
— Não sei exatamente. O que você tem para me contar sobre o falecido
Thomas Grafton?
— Não muito. Nós não freqüentávamos os mesmos círculos. Você quer saber
sobre sua vida pessoal ou profissional?
— Ambas as coisas. Estou ajudando Sinclair em um projeto.
Num tom de voz mais baixo, Lucien prosseguiu:
— Não sei quem matou Althorpe, se era isso que você esperava que eu lhe
dissesse, mas nos últimos meses ele fez algumas inimizades no Parlamento.
— Em que sentido?
— Althorpe não fazia distinção entre os antigos investidores e os oportunistas
que achavam lícito comercializar com Bonaparte para aumentar suas rendas. Entre
os antigos, alguns se revoltaram ao serem comparados com os traidores por se
recusarem a abrir mão de seus investimentos na França.
— Isso o fez parar com as acusações?
— Em público, sim. Em particular, eu não sei. Talvez Kingsfeld ou lady Jane
Netherby possam responder a sua pergunta. Em todo caso, não custa usar de
diplomacia. Já ouviu dizer que a curiosidade matou o gato?
Victoria se despediu, prometendo se cuidar. Ao sair, franziu o nariz e mostrou
as unhas.
— Miau!
Victoria poderia ter seguido diretamente para a casa de lady Jane, pois
conhecia seu endereço, mas preferiu provocar um encontro que parecesse casual.
Acompanhada por Lucy e Marguerite, que escolhiam novas fitas para os
cabelos, viu lady Jane entrar na loja onde costumava fazer suas compras e se dirigir
à seção de tecidos.
— O azul é o complemento perfeito para seus olhos — Victoria sugeriu com
um sorriso.
Lady Jane, uma mulher alta de feições clássicas, com cerca de trinta anos,
examinou o tecido à sua frente com mais atenção.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Estou procurando uma estampa primaveril para mandar confeccionar um


traje de passeio.
— E eu procuro algo entre o cinza e o violeta — Victoria pediu ao vendedor,
que se afastou em seguida para verificar o estoque. — Como vai? — ela estendeu a
mão. — Sou Victoria Grafton, lady Althorpe.
Victoria percebeu que a outra ficara desconcertada por um instante ao ouvir
seu nome.
— Eu sou lady Jane Netherby. Você é casada com o irmão do antigo lorde
Althorpe?
— Sim. Eu me casei com Sinclair. Você conheceu Thomas?
— Éramos amigos.
— Eu o vi poucas vezes, mas o admirava — Victoria declarou. — É uma pena
descobrir, só quando é tarde demais, que você gostaria de ter tido a chance de
conhecer melhor uma pessoa.
O sorriso retornou ao rosto da mulher.
— É verdade. Mas também existem desvantagens em se conhecer alguém na
intimidade.
— Em que sentido? — Victoria fez de conta que não estava entendendo. A
outra lhe dera uma indireta? Ou Sinclair a estava deixando paranóica?
— Todos nós temos defeitos, lady Althorpe. Em vida, nos mostramos como
queremos que os outros nos vejam. Na morte, cada um fala o que quiser sobre
aquele que se foi.
— Ou seja, quem procura o mal encontrará o mal?
— Exatamente.
Lady Jane resolveu comprar o tecido azul. Pediu que o vendedor o enviasse
ao ateliê de madame Treveau e se despediu de Victoria, que voltou para junto das
amigas. A mulher a intrigara. Gostaria de pedir a opinião de Sinclair a respeito dela.
Mas seria o mesmo que confessar a ele que não desistira da investigação.
— A fita amarela é a mais bonita — Victoria sugeriu, ciente da preferência da
amiga pela cor. — Quando pretende usá-la?
— Em seu baile, é claro! — Marguerite respondeu para recusar o conselho
em seguida. — Não serve. Fui à ópera com um vestido amarelo. Não quero que ele
pense que não tenho roupas de outra cor!
— Ele? — Victoria questionou. — De quem você está falando?
— Aposto em Christopher Grafton — disse Lucy com uma risadinha. —
Marguerite só falou nele esta semana.
— Christopher adora amarelo — Victoria se apressou a dizer. Se Christopher
não gostava dessa cor, teria de aprender a gostar. De qualquer forma, ele ficaria
satisfeito quando lhe contasse que ir à ópera não fora um completo desperdício de
seu tempo.
— E você, já escolheu seu vestido, Vicky? — as amigas perguntaram,
curiosas.

Projeto Revisoras 91
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— Ainda não.
— Como? — as duas se mostraram atônitas. — Você costumava se preparar
para as festas com semanas de antecedência!
Victoria deu um pequeno sorriso.
— Desta vez será uma surpresa.
Durante o resto da tarde, enquanto percorriam as lojas e admiravam as
vitrines de Bond Street, Victoria cogitou sobre seu estilo de vida do debut ao
casamento. Eram chás, almoços, bailes, recitais e jantares, um após o outro. Uma
vida social intensa e um tédio sem fim. Agora que sua agenda apresentava páginas
em branco, ela se sentia mais plena.
De volta para casa, Milo informou-a que Sinclair saíra para cavalgar. Decidida
a surpreendê-lo e demonstrar sua gratidão, da maneira preferida do marido, Victoria
correu para o estábulo, torcendo para encontrá-lo sozinho.
— Olá — saudou-o, ofegante e satisfeita, ao vê-lo oferecer uma maçã ao
velho Joe, sem mais ninguém por perto.
— Olá — Sinclair respondeu, vindo ao encontro dela. — Fez boas compras?
— Digamos que a tarde foi produtiva. — Victoria abraçou-o pela cintura
enquanto ele a enlaçava pelos ombros. — Nada, porém, poderia me dar mais prazer
do que o que tenho em mente.
Sinclair não tentou esconder o entusiasmo que a proposta lhe causou.
— Quem diria? Acabei criando um monstro!
— Beije-me — Victoria murmurou, persuasiva.
— Lá em casa — Sinclair respondeu, puxando-a pela mão.
Antes que Victoria pudesse protestar, seus olhos captaram um movimento;
uma sombra escura, como se alguém passasse rapidamente pelo canto do estábulo
para não ser visto. Ela deveria ter adivinhado. Fazia oito noites que eles estavam
dormindo juntos. As reuniões agora estavam acontecendo à luz do dia.
Subitamente zangada por Sinclair continuar se recusando a lhe confiar seus
planos, Victoria provocou-o, falando um tom mais alto de propósito para ser ouvida
pelos outros.
— Para que esperar? O que há de errado em nos deitarmos sobre a palha?
Estamos sozinhos.
— Prefiro um lugar mais limpo e confortável. Conte-me sobre seu dia
enquanto caminhamos.
— Não estou com vontade de falar. Beije-me. — Ela o segurou pela camisa.
— Vamos para casa, Victoria. Pare de brincar com fogo — Sinclair insistiu.
— Quem está brincando com fogo é você! —- Victoria protestou. — Eu sei
que um de seus amigos está escondido atrás desses montes de palha!
Uma súbita palidez cobriu o rosto masculino. Antes que Victoria tivesse
chance de perguntar o motivo, Sinclair se afastou e começou a vasculhar o local,
levantando uma nuvem de pó que a fez tossir.

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Ele parecia ter enlouquecido. Assustada, Victoria apanhou um ancinho e se


pôs a revolver a palha. Se o assassino estava ali, ou ela ou Sinclair o encontraria.
Ao ver Victoria com a ferramenta, Sinclair tentou tirá-la de suas mãos. Nesse
instante, Wally resolveu se entregar. Devia ter percebido que corria perigo de vida ou
não teria denunciado sua presença tão abruptamente. Ao se levantar de um salto,
trombou com o casal e os três caíram uns por cima dos outros.
— Você se machucou, Victoria?
— Eu estou bem.
— Eu não — queixou-se Wally. — Você deslocou meu dedo, Sinclair.
— Teve sorte por eu não parti-lo ao meio! Já lhe pedi mil vezes para não vir
aqui sem me avisar!
— Eu só queria...
— Espere até que eu leve Victoria para casa.
Sem mais explicações, Sinclair pegou Victoria no colo e se dirigiu à cozinha,
que ficava na parte de trás da casa, dando ordens para que Jenny preparasse um
banho para a patroa.
No quarto, Sinclair a deitou na cama. Suas mãos tremiam ao molhar uma
toalha e passá-la no rosto de Victoria.
— Sinclair, isto é ridículo. Eu só me sujei, fora isso, estou perfeitamente bem.
— Você poderia ter se ferido. — Ele fechou os olhos e respirou fundo. — Viu
alguém se movendo furtivamente pelas sombras e não me disse nada.
— Eu sabia que era um de seus amigos.
— Você achou que fosse um deles!
Victoria engoliu em seco. Sinclair já ficara bravo antes, mas nunca a tal ponto.
— Eu sinto muito. Da próxima vez, eu direi. Sinclair se ajoelhou ao lado da
cama.
— Você não está entendendo. Se não tivesse sido Wally, talvez você nunca
mais pudesse ter uma chance de fazer a escolha certa. Ou eu.
Agora era Victoria quem estava tremendo. Arrependida, ela estendeu a mão e
acariciou-o no rosto e nos cabelos. Ele pressionou a palma de sua mão contra o
pescoço e suspirou.
— Não quero perdê-la.
Victoria abraçou-o e eles se beijaram até que uma discreta tossidela os
alertou para o fato de haver testemunhas no local. Roman, Jenny e Milo
aguardavam à porta para servi-los. Sinclair voltou a si. Wally o aguardava nos
estábulos.
— Eu não podia imaginar que fosse encontrar sua esposa por aqui — Wally
justificou. — Assim que percebi sua presença, tentei me esconder.
— Espero que tenha um bom motivo para vir aqui sem me avisar.
— Crispin me mandou. — Ele tirou um papel do bolso com a mão esquerda
enquanto Roman examinava a direita. Sinclair leu a carta duas vezes. Depois a

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amassou e guardou no próprio bolso.


— Problemas? — Roman adivinhou.
— Mais problemas, você quer dizer? — Sinclair retrucou e tornou a olhar para
Wally. — Agora suma antes que mais alguém o veja.
Não era de admirar que Crispin tivesse mandado Wally em seu lugar, Sinclair
pensou. O escocês quisera se poupar a cena. Afinal, qual homem não ficaria furioso
de ciúmes ao descobrir que a esposa estivera a sós com outro por vinte longos
minutos? Kilcairn e Victoria eram amigos. Talvez fosse o momento de Sinclair lhe
fazer uma visita. Afinal, um amigo de sua esposa não deveria ser amigo dele
também?
Forjar um encontro casual foi fácil e rápido. Sinclair sabia que Kilcairn
freqüentava o White's Club. Assim que se apresentou no local, naquela mesma
noite, Sinclair o avistou a uma mesa em companhia de lorde Belton, Henning o
alguns outros.
Henning deu uma desculpa de que precisava falar com Charles Blumton e
cedeu seu lugar a Sinclair, que olhou para os presentes em um pedido mudo de
licença antes de formular seu pensamento em voz alta.
— Vocês me permitem?
O conde negou. Sinclair percebeu, de esguelha, a contrariedade de Crispin,
que o acompanhava.
— Algum motivo em particular?
— Ultimamente, aqueles que se sentam a seu lado terminam a noite em um
hospital. Para ser bem-vindo entre nós você terá de acenar com uma bandeira
branca. Essa é a condição.
O conceito de Kilcairn subiu naquele instante para Sinclair.
— É justo — ele concordou, antes de tomar assento e lhe ser oferecido um
charuto em sinal de paz.
— Estávamos conversando sobre o filho de lorde Belton, que está para
nascer. Ele não tem falado em outra coisa, aliás. Talvez você queira iniciar um novo
assunto, ou também está planejando aumentar a família?
— Ainda é cedo para isso — Sinclair respondeu, imediatamente sonhando
com lindas menininhas parecidas com a mãe.
— Parece que sim. Vicky ainda não está pronta para se acomodar. Mas com
o tempo ela começará a cobrá-lo. Todas elas fazem isso.
— O que você está querendo dizer? — Sinclair franziu o cenho.
Como de comum acordo, os demais cavalheiros se levantaram e inventaram
compromissos urgentes. Em poucos segundos, Sinclair e Kilcairn eram os únicos ao
redor da mesa.
— O que você quer beber? — o conde indagou.
— Uísque.
— Uma escolha estranha para um inglês radicado na França por cinco anos.
— Você está fumando um charuto americano. Não vejo nada de errado em

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sua preferência. Mas agora o que me interessa é saber o que você quis dizer sobre
minha mulher.
— Vicky me contou que está trabalhando com você em um projeto. Não me
pergunte sobre o que conversamos. Fale diretamente com ela. Não tenho por hábito
trair a confiança que meus amigos depositam em mim.
Sinclair deveria ter desconfiado. Victoria andava dócil demais. Com sua
obstinação, acabara partilhando o segredo dele com mais outra pessoa.
— Espero contar com sua discrição sobre o assunto.
— Eu tomaria a mesma atitude, caso meu irmão fosse assassinado —
Kilcairn confessou. — Considero Vicky uma grande amiga e sei que ela não se
casaria com um tolo, embora os dois tivessem sido apanhados fazendo uma tolice.
— Isso é um cumprimento ou o quê?
— Considere como um elogio. Não sei exatamente quais são seus planos,
Althorpe, mas conte com minha colaboração no que precisar. Agora tenho de me
despedir. Minha esposa me espera.
Sinclair se levantou e deixou o local ao lado do conde. Ele também precisava
ir ter com sua esposa. Urgentemente.
— Como vão seus amigos misteriosos? — Victoria tentou brincar, mas calou-
se ao perceber a expressão beligerante do marido.
— Eu não os vi. Estive com um de seus amigos.
— Qual deles?
— Kilcairn.
Victoria sentiu que corava.
— Pensei que você não gostasse dele.
— Eu não gostava. E continuo não gostando, porque soube por ele a respeito
de sua pequena investigação.
— Eu só quero ajudar.
— Pedi que não o fizesse.
— Porque tem medo do que pode me acontecer. Mas eu tenho sido
cautelosa.
Sinclair suspirou e se sentou na beirada da cama.
— Não quero brigar com você, Victoria, mas será que não entende que ao
fazer perguntas por aí, você pode alertar o assassino de Thomas e tornar impossível
sua captura?
A mudança de tática surpreendeu Victoria. Mas se Sinclair esperava que ela
fosse se tornar uma esposa frágil e sem vontade própria, que se preparasse para se
surpreender também!
— Até que ponto é importante para você encontrar o assassino de seu irmão?
— Você sabe a resposta.
— Sim, eu sei. Encontrá-lo é seu maior desejo no mundo.

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— Então, por que insiste em me desobedecer? Victoria baixou os olhos e


tentou não demonstrar a mágoa que a corroía por dentro, mas foi mais forte do que
ela.
— Não é agradável ser desprezada. Compreendo que nós fomos forçados a
nos casar, mas eu...
— Você o quê?
Mas eu me apaixonei por você.
— ...Eu não sou uma tola como ás pessoas pensam, inclusive você. Tenho
acesso a lugares e grupos aos quais você não é bem-vindo. Sinto-me mal por você
duvidar da minha capacidade.
— Eu não duvido. A medida que a fui conhecendo, mudei de idéia a seu
respeito. Confesso que tenho minhas suspeitas sobre quem matou Thomas. Não
posso lhe dizer o nome da pessoa. Você é dona de um coração generoso. Não
suportaria descobrir que o assassino é um de seus amigos.
— Não está suspeitando de Lucien, está? — Victoria indagou, trêmula.
— Não dele. — Sinclair segurou-a pelo queixo. — Percebe? Você perdeu o
fôlego só de pensar que um amigo seu poderia ser o criminoso.
Sinclair estava certo, Victoria admitiu. E estava errado.
— Não sou tão ingênua quanto você pensa, Sinclair — Victoria declarou após
um instante. — Confie em mim. De quem você suspeita dentre meus amigos?
Por um longo momento. Victoria receou que Sinclair nunca fosse lhe contar.
Isso significaria que embora tivesse sido consumado, o casamento deles nunca
seria verdadeiro. O casamento que ela começara a sonhar um dia ser possível.
— John Madsen — Sinclair disse, por fim.
— Marley? — Victoria repetiu, perplexa. — Com qual fundamento?
Sinclair se levantou e se pôs a andar de um lado para outro.
— Eu lhe direi sob a condição de você prometer ficar fora da investigação a
partir de agora.
Em ocasiões como aquela, Victoria desejaria ter nascido homem para poder
simplesmente derrubar o oponente com um soco.
— Conte primeiro e discutiremos o resto depois. Victoria começava a pensar
que nunca obteria resposta à sua pergunta quando Sinclair parou à sua frente.
— Está bem. Marley tem participação em várias companhias exportadoras
que ganharam muito dinheiro durante a guerra na Península. Thomas se opunha aos
negócios com a França enquanto Bonaparte controlava o país.
— Thomas não era o único a se opor.
— Thomas me escreveu dizendo que estava desconfiado de Marley.
— Ele não se tornou nenhum milionário com a guerra.
— Não, mas passou incólume por ela, ao contrário da maioria. Além disso, ele
finge que continuou amigo de Thomas até sua morte, o que sabemos não ser a
verdade. Há outro agravante — Sinclair acrescentou. — Marley e Thomas foram

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

vistos no Hoby's no dia do crime. Como antigo amigo de Thomas, Marley conhecia
seu hábito de ir para o escritório, à noite, após o jantar. — Sinclair se calou, preo -
cupado. — Victoria, você está se sentindo bem?
Ela estava sentindo frio no estômago. Talvez Sinclair estivesse certo. Por
mais que detestasse pensar que seu amigo era um assassino frio e impiedoso, a
verdade era que não poderia jurar sua inocência.
Sinclair se ajoelhou aos pés de Victoria e segurou suas mãos. Lágrimas
abundantes deslizavam por suas faces.
— Consegue entender agora por que eu não quero que você se envolva?
— Eu descobri que Thomas conhecia lady Jane Netherby — Victoria resolveu
contar.
— A informação veio de Kilcairn? Victoria aquiesceu.
— Ele sabe tudo sobre todo mundo. Lady Netherby reagiu de maneira
estranha quando eu me apresentei.
— Você foi à casa dela? — Sinclair indagou, aturdido.
— Não sou uma completa incompetente! Eu fui à loja onde lady Jane costuma
fazer compras e fiquei pelos arredores até que ela aparecesse. Quando eu lhe disse
que era lady Althorpe, ela praticamente se atirou pela porta afora.
— O que vocês conversaram?
— Sobre amizades. Ela mencionou que conhecer uma pessoa muito bem
pode ter suas desvantagens. Depois afirmou que uma pessoa controla sua
reputação enquanto é viva, porque depois de sua morte, cada um diz o que quiser a
seu respeito.
As mãos de Sinclair ficaram rígidas sobre os joelhos de Victoria e seu rosto
empalideceu.
— Eu sabia que Thomas estava se encontrando com uma mulher, mas ele
nunca me disse seu nome.
A angústia de Sinclair comoveu Victoria. Com beijos, ela tentou confortá-lo.
Jamais poderia esperar que em vez de levá-la para a cama, ele fosse convidá-la
para sair.
Era quase meia-noite quando Sinclair e Victoria deixaram Grafton House e
começaram a caminhar pelas ruas envoltas em espessa neblina. Para não atrair
atenção, Sinclair preferiu que fossem a pé para o Hyde Park, que ficava nas
imediações. Apesar da tranqüilidade e do silêncio da noite, ele carregava consigo
uma bengala e um canivete. Todo o cuidado era pouco.
Para o sucesso de seu plano, ele decidira finalmente incluir Victoria na
investigação. Até certo limite. Não podia negar que sua colaboração fora preciosa.
Havia momentos, como aquele, em que voltara a se sentir um homem normal outra
vez.
Victoria estava procurando se aconchegar a ele. Gostaria de poder abraçá-la.
Mas precisava estar alerta. Aquele não era um simples passeio de dois simples
namorados. À medida que se aproximavam de um arvoredo, Victoria notou que o
marido diminuía o passo. Enrijeceu ao ouvi-lo murmurar um nome.

Projeto Revisoras 97
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Lady Stanton?
Sinclair conteve um sorriso à nítida manifestação de ciúmes da esposa. O
que jamais teria passado pela mente de Victoria era que lady Stanton fosse sair de
trás de um frondoso carvalho na figura de um imponente cavalheiro, quase um
giganta.
— Crispin — disse Sinclair. — Esta é minha esposa, Victoria. Victoria, este é
Crispin Harding.
— Você é lady Stanton? — Victoria estava um tanto, assombrada.
— De vez em quando — o escocês resmungou e quis falar com Sinclair em
particular, mas teve seu pedido negado.
— Você é quem sabe. — Crispin encolheu os ombros.
— O que você sabe sobre lady Jane Netherby?
— Ela é filha do conde de Brumley — Crispin respondeu, seco.
— Thomas estava saindo com ela — Sinclair contou, e o inesperado da
notícia fez Crispin esquecer a contrariedade por um instante. — Victoria percebeu
que lady Jane se esquivou a responder sobre ele.
— Não foi exatamente isso — Victoria explicou. — Ela se tornou reticente
depois que descobriu quem eu era.
— Se lady Jane estava almejando se tornar a próxima lady Althorpe,
conhecer sua substituta não deve ter lhe dado grande prazer. — Crispin tirou uma
nota do bolso e estendeu-a. — Caso você esteja interessado, três cavalheiros
deixaram Londres ao amanhecer no dia seguinte ao crime.
— Quem? — Sinclair indagou, sem conseguir decifrar os nomes no escuro.
— O duque de Highbarrow, lorde Closter e... — Crispin hesitou.
— Pode dizer — Victoria encorajou-o. — Não seria lorde Marley?
Crispin olhou para Sinclair como se quisesse fulminá-lo. Nessas
circunstâncias, Sinclair decidiu concordar com uma conversa em particular. Pediu
que Victoria aguardasse um minuto e se afastou alguns passos para trás das
árvores.
— Minha esposa insiste em nos ajudar — Sinclair justificou.
— Você deveria ter nos consultado antes de lhe revelar nossos segredos —
Crispin protestou. — Se ela der um passo em falso, todos nós poderemos ser
mortos.
— Por outro lado, ela vive entre os suspeitos e tem acesso a eles como nós
jamais teríamos.
— A moça tem noção de que você está usando como escudo?
— Provavelmente. Mas não quero mais discutir a esse respeito. Está tudo
pronto para amanhã?
— Sim.
— Tenha cuidado.
— Eu terei. Espero que você saiba o que está fazendo.

Projeto Revisoras 98
Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Eu também.
Victoria sentiu um impacto ao ver Sinclair emergir das sombras, embora o
aguardasse.
— Seu amigo já foi?
— Já.
— Ele não gostou de me ver aqui. Foi embora sem sequer se despedir de
mim.
— Dê-lhe algum tempo. Ele, ou melhor, nós não estamos acostumados a
confiar em ninguém.
Victoria encostou a cabeça no ombro do marido.
— Boas pessoas ainda existem.
— Estou começando a acreditar em você.
Ele encontrara uma delas, ao que tudo indicava. E não pretendia deixá-la
escapar.

O baile de Augusta reuniu um grupo eclético de convidados. Aos distintos


nobres, conhecidos da anfitriã, se misturavam os jovens convidados de Christopher,
vindos de Oxford, e os amigos de Victoria, ao menos aqueles que não haviam se
digladiado com Sinclair, cujos amigos e companheiros de espionagem estavam
espalhados pelo salão, de olhos e ouvidos atentos.
— Isso é incrível! — exclamou Lionel Parrish, oferecendo uma taça de vinho a
Victoria e outra a Lucy. — Espero que a noite não termine em uma guerra civil.
— Realmente — Lucy concordou. — Quem haveria de pensar que lorde
Liverpool e lorde Halifax viriam a uma festa e se encarariam sem se atirarem
objetos?
Victoria também concordou. Ao menos até aquele momento, ninguém
chamara ninguém para um duelo.
— Lady Augusta é uma diplomata de tirar o chapéu.
— Assim como você, Victoria — lembrou Lionel. — Até seu marido parece
civilizado esta noite.
Do outro lado do salão, perto da orquestra, conversando com Christopher e
um de seus colegas, estava o homem mais bonito do baile. Um arrepio de excitação
percorreu as costas de Victoria. Mais do que civilizado e inteligente, Sinclair era
magnífico, Faria tudo que estivesse ao seu alcance para derrubar o obstáculo que
os separava. Um obstáculo que naquela noite se chamava "lorde Marley" e que ela
fizera questão de convidar para poder investigá-lo.
— Posso roubar a amiga de vocês por um minuto? — Sinclair surpreendeu
Victoria, aproximando-se por trás.
— Claro que pode — respondeu Lucy. — Nós vamos aproveitar para caçar
Marguerite. Estou louca para saber as novidades.
— A que Lucy se referiu? — Sinclair quis saber.

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— Ao flerte de Marguerite com seu irmão.


— Christopher? Ele ainda é jovem demais para casar.
— Mas e se acontecer?
— Nesse caso, eles devem aproveitar!
O riso baixinho de Sinclair vibrou no ar, inundando-a de prazer. Era disso que
tratava o casamento: duas pessoas com olhos somente um para o outro. A festa, o
resto do mundo deixou de existir enquanto eles compartilhavam aquele momento.
— Ela já chegou?
Victoria sabia a quem seu marido se referia. Lady Jane Netherby, a quem eles
haviam enviado um convite especial.
— Não. Eu lhe disse que ela não viria. Agora me diga quem você quer que eu
investigue?
— Talvez possamos começar com lorde e lady Hastor. Ele e Thomas caçaram
juntos em diversas ocasiões.
— Mas eles estão conversando com meus pais!
— Para compensá-la, eu também me submeterei a um sacrifício, está bem?
Vou trocar uma palavra com Kilcairn. Como você confia plenamente nele, eu resolvi
lhe dar um voto. Victoria teve ímpetos de atirar os braços ao redor do marido e beijá-
lo. Era a primeira vez que ele não apenas mencionava o assunto, mas demonstrava
sua confiança.
— Avise-me assim que avistar lady Jane — Sinclair pediu e beijou-a no rosto
antes de se afastar.
As festas, em geral, aborreciam Victoria. Naquela noite, porém, nervosismo e
tensão a dominavam conforme se movia entre os grupos. Cada palavra podia
revelar o que acontecera com Thomas.
— Boa noite, lady Althorpe.
Por pouco Victoria não derramou o conteúdo da taça em seu vestido.
— Lorde Kingsfeld. Eu estava começando a pensar que não nos brindaria
com sua presença esta noite. — Victoria procurou ser agradável, escondendo-se
atrás de um sorriso cansado. Após uma hora de disfarce, sua impressão era de que
todos estavam mentindo. Não era à toa que, após cinco anos, Sinclair tivesse
perdido a fé nas pessoas.
— Eu pretendia chegar mais cedo. Imploro que me perdoe. — O homem
tomou a mão de Victoria e se curvou. — Posso lhe pedir que me guie até seu
marido?
Por mais que aquele papel lhe incomodasse, Victoria continuou obsequiando
o conde. Nunca fora de fugir de um desafio.
— Certamente que sim. — Ela se despediu de lorde e lady Hauverton, com
quem estivera conversando.
— Espero que Sinclair tenha justificado meu comportamento a você. Pensei
que estivesse acostumada a ouvir elogios à sua beleza.
— O passado pertence ao passado. Hoje falaremos sobre hoje. Onde se

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

localiza Kingsfeld Park? Sinclair nunca me disse.


— Em Staffordshire. É uma propriedade maravilhosa. Eu diria que rivaliza
com Althorpe.
— Costumava visitar Althorpe com freqüência? Wilthshire e Staffordshire não
distam bastante uma da outra?
— Eu visitava Althorpe quando era possível. Thomas nunca saía de casa, a
não ser para cumprir as exigências do Parlamento.
— Eu espero conhecer a casa de campo da família em breve. Sinclair e
Christopher a enaltecem. Vi alguns desenhos de Thomas e eles me forneceram um
quadro razoável do lugar, mas nada se compara ao original, é claro. — Victoria fez
uma pausa. — O que achava do talento de Thomas?
— Talento? Considera-se uma entendida das artes?
A antipatia pelo homem se acentuou naquele momento.
— Eu acredito que o propósito da arte é refletir e capturar a beleza.
— A finalidade da arte, minha cara, é colocar dinheiro no bolso do artista.
— O dinheiro é um produto — Victoria argumentou. — A arte é a essência.
— Você fala como Thomas. Eu sou prático. Não me prendo a nada que não
tenha alguma utilidade. O que não é ou deixa de ser útil deve ser descartado.
Victoria sorriu com ironia.
— Nossa conversa parece ter se tornado inútil, nesse caso. Não lucrará
comigo porque não partilhamos das mesmas opiniões. Deixo-o, portanto, com
Sinclair.
Ao lado do marido, Victoria não se importou em manifestar seu desagrado.
Afastou-se em direção a seu grupo de amigas após um meneio com a cabeça em
despedida. Estava tão transtornada que lady Kilcairn a fez sentar e lhe deu uma
bebida.
Do outro lado da sala, Sinclair conversava com Kingsfeld e Lucien. Como
Sinclair teria interpretado sua postura quase rude? A frieza do amigo em afirmar que
o que se tornava inútil deveria ser descartado a tirara do sério.
Victoria sentiu um calafrio se espalhar por seu corpo a um súbito
pressentimento. Não podia ser! Não Kingsfeld! Não o melhor amigo de Thomas! Não
fazia sentido. Por outro lado, aquelas palavras a induziam a pensar o pior.
— Você está pálida. Beba tudo — aconselhou Alexandra. Victoria tomou o
ponche em dois goles. Augusta se sentou ao lado dela e brincou sobre o neto estar
causando uma má influência. Victoria tentou sorrir e desculpou-se. Sob os olhares
espantados das duas mulheres, saiu para o terraço. Precisava de ar fresco. Estava
se sentindo sufocar.
— Mesmo as mulheres casadas não devem se aventurar sozinhas pelas
varandas.
Victoria levou uma das mãos à boca para sufocar um grito.
— Marley! Você quase me mata de susto! Pensei que não viesse mais.
O visconde permaneceu imóvel, oculto pelas sombras ao fundo.

Projeto Revisoras 101


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— Ainda não bebi o suficiente para me aventurar a entrar. Meu Deus, Vicky!
Entre todos os homens do mundo, você foi me trocar por Sinclair Grafton, um sujeito
de péssima reputação?
Marley era um dos suspeitos, Victoria se obrigou a lembrar.
— Eu não teria me casado com você, mesmo que ele não tivesse aparecido
— Victoria respondeu, recuando devagar em direção à porta.
— Eu sei disso. Não me importava, porque você sempre dizia que não se
casaria com ninguém. De repente ele aparece, e você muda de idéia.
— Se é assim que você se sente, não deveria ter vindo aqui esta noite.
— Você pediu que eu viesse, mas agora está me evitando. O que quer
comigo, Vicky?
Ouvir uma confissão, Victoria pensou. Embora nunca tivesse suspeitado de
Marley.
— Eu queria saber se podemos continuar amigos — Victoria improvisou.
Marley hesitou.
— Não creio que tenhamos sido amigos algum dia. Você queria alguém que a
acompanhasse em suas travessuras e que não se importasse com o que os outros
poderiam dizer.
Victoria estreitou os olhos.
— E você?
— Eu a queria para mim.
Lionel Parrish, entre todos os momentos, escolheu justamente aquele para se
reunir a eles. Sua reação ao encontrar Victoria e Marley sozinhos no terraço foi tão
exagerada que Victoria teve certeza de que ele os vira sair.
— Queiram desculpar, mas o ambiente ficou subitamente pesado lá dentro.
— O que houve? — perguntou ela, apreensiva.
— Liverpool mencionou um novo acordo mercantil com as colônias, e Haverly
ficou tão chocado que deixou cair vinho por toda a parte.
— Nesse caso, talvez eu deva chamar um deles para uma contradança —
Victoria declarou com um sorriso. — Você me conduz ao campo de batalha?
Com um rápido olhar para Marley, Parrish ofereceu o braço a Victoria, que se
afastou propositalmente sem se despedir. No passado, Marley parecia satisfeito com
a companhia dela e beijos ocasionais. Ela não havia gostado de sua afirmação de
que esperara maiores intimidades entre eles.
Na sala, tudo parecia calmo. Victoria olhou para Parrish, e ele encolheu os
ombros.
— Talvez tenha sido apenas uma impressão.
— Obrigada, Lionel.
— Eu tinha visto Marley de relance. Pensei em impedir sua saída para a
varanda, mas não deu tempo.

Projeto Revisoras 102


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Procurarei andar mais devagar da próxima vez — Victoria prometeu,


imensamente grata e ansiosa.
Marley não fazia segredo de sua antipatia por Sinclair. Era mais provável que
ele fosse o assassino do que Kingsfeld. Ninguém seria capaz de matar uma pessoa
e continuar convivendo com os familiares da vítima.
Lady Jane Netherby entrou na sala, vindo da direção do escritório. Victoria
notou sua expressão endurecer. Seguindo seu olhar, deparou com Kingsfeld.
— Lionel, você viu Sinclair?
— Ele estava na sala de estar quando eu fui para o terraço. Algum problema?
— Não. Apenas preciso lhe dizer algo.
— Fique à vontade. Estou devendo uma valsa a Lucy, aproveitarei para pagar
minha dívida.
— Reserve uma para mim.
No meio do caminho para a sala de estar, Victoria cruzou com o marido.
Crispin vinha logo atrás dele. Victoria franziu o cenho ao perceber que a atenção dos
dois estava voltada para lady Jane Netherby. Ela gostaria de ter sido a responsável
pela formação. Aparentemente, lorde Harding a precedera. Sinclair optara por um
encontro acidental. Estava fingindo ter bebido um pouco além da conta. Victoria
aprendera a conhecê-lo. E teve seu palpite comprovado ao vê-lo trombar com lady
Jane, recuar um passo e lhe fazer uma mesura.
Mas o que ela estava fazendo, encarando os dois daquela forma? Virou-se de
imediato e foi se servir de um refresco. Não esperava que sua atitude estivesse
sendo observada até seus olhos encontrarem os de lorde Kingsfeld.
Tomou um gole. Precisava sair dali e socializar com os demais convidados.
Procurou Augusta, com intenção de lhe fazer algumas perguntas sobre o homem
que fora amigo de seu neto. Mas a avó de Sinclair estava dançando com
Christopher, no meio da pista. Estavam exultantes com o regresso de Sinclair. Não
mereciam que sombras se atravessassem em seu caminho. Victoria não permitiria
que isso acontecesse. Não mediria esforços para poupá-los.
Sinclair percebeu que algo estava errado com Victoria durante o trajeto de
volta para Grafton House. Embora ela correspondesse a seus beijos e murmurasse
às carícias que ele lhe fazia, estava calada demais. Ele podia adivinhar o que se
passara. Durante a festa, em suas investigações, Victoria descobrira fatos sobre os
amigos dos quais preferiria não ter conhecimento.
— Sinclair, preciso lhe contar uma coisa.
— Estou ouvindo — ele resmungou, sem parar de deslizar a boca pelo
pescoço macio.
— Não consigo raciocinar, nem falar, com você me beijando.
Sinclair se afastou com um suspiro entre brincalhão e frustrado. Victoria
ajeitou o vestido e recostou no banco. Em seguida estendeu a perna para que o
marido lhe massageasse o pé, como já se tornara hábito entre eles. Um delicioso
hábito.
— Descobriu alguma coisa sobre lady Jane?

Projeto Revisoras 103


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Pensei que você fosse me contar uma novidade.


— Sim, mas antes quero ouvir sua resposta. Para ver se faz sentido.
Sinclair retesou-se. Não se enganara. Victoria voltara preocupada do baile.
Por que razão?
— Lady Jane sabe de alguma coisa. Eu mandei Bates e Wally para o campo
de modo que possam vigiar seus movimentos. Mas conte-me sobre a conversa que
teve com ela. Estou curioso.
— Nós não conversamos nada de relevante. Ela foi amiga de Thomas e
lamenta sua morte prematura. Não fez comentários sobre a violência de sua partida.
Não disse nem sequer que não consegue entender como isso pôde acontecer, como
os outros fizeram. Toda essa calma me levou a pensar que ela conhece o motivo do
crime e talvez até mesmo o autor. — Sinclair se inclinou e beijou o tornozelo de
Victoria. — Você fez um bom trabalho.
— Obrigada. Quanto a ela e Marley se conhecerem, eu duvido. Marley nunca
a mencionou.
Sinclair estreitou os olhos. Cada vez que Victoria se referia ao sujeito, ele
tinha vontade de proibi-la de pronunciar seu nome. Era terrível saber que sua
esposa beijara o homem que, com toda a probabilidade, assassinara Thomas.
— Era isso que queria me dizer?
— Não. — Victoria afastou a perna e substituiu-a por uma das mãos. — E se.
eu lhe disser que soube de alguém que conheceu lady Jane e seu irmão e que
esteve na cidade naquele dia? Um homem que também freqüentava Grafton House
com assiduidade e que não admite a existência daquilo que lhe parece inútil?
— Eu desejarei saber imediatamente o nome dessa pessoa.
Victoria tomou fôlego. Seus olhos brilharam quase em desafio.
— O conde de Kingsfeld.
— Astin? — Sinclair pestanejou. — Não seja ridícula! Você não pode acusar
alguém que meu irmão considerava seu melhor amigo.
— Não estou sendo ridícula — Victoria se defendeu. — Ele falou com extrema
frieza sobre descartar tudo que se torne inútil, inclusive pessoas.
— E de onde você tirou a idéia de que ele achava Thomas um inútil? E que,
por "descartar", ele se referia a "assassinar"?
A carruagem parou diante da entrada principal de Grafton House. Victoria e
Sinclair subiram diretamente para o quarto, em silêncio. Victoria se sentou na
beirada da cama, sem ânimo para trocar de roupa.
— Você me pediu para considerar Marley como um suspeito e eu aceitei. Já
você não admite nem sequer refletir sobre minha opinião. Eu não estou afirmando
que Kingsfeld matou Thomas. Estou apenas recomendando que você não lhe dê as
costas.
— Eu conheço Astin há doze anos!
— Sim, mas e quanto aos últimos cinco anos? Você o acompanhou nesse
período? Francamente, Sinclair, eu não confio naquele homem.

Projeto Revisoras 104


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Você vive se queixando que eu desconfio de todo mundo. Agora me diz


que um velho conhecido, e grande amigo de meu irmão, pode ser o assassino só
porque não simpatiza com ele?
As palavras de Sinclair magoaram Victoria mais do que ela gostaria de
admitir. Com lágrimas nos olhos, levantou-se e se encaminhou para a porta de
comunicação entre os quartos.
— Considere o que eu disse como um aviso de quem reza para que nada de
mau lhe aconteça.
A primeira providência que Victoria tomou ao acordar, na manhã seguinte, foi
elaborar uma lista com duas colunas: a da esquerda com os nomes dos amigos
capazes de guardar segredos, a da direita com os nomes daqueles que espalhariam
suas confidencias para o resto do mundo.
O resultado a surpreendeu, depois de vê-lo no papel. Nunca parará para
pensar que se relacionava quase que exclusivamente com mexeriqueiros. Porque os
únicos em quem poderia confiar eram Sinclair e seus companheiros. E como
nenhum deles queria sua ajuda, ela teria de continuar trabalhando apenas com seu
próprio apoio.
A segunda providência foi redigir uma nota para a amiga Emma Grenville,
pedindo que ela lhe informasse se lady Jane Netherby havia freqüentado o instituto
para moças sob a direção de uma de suas tias. A srta. Grenville tinha por praxe
anotar todas as ocorrências extraordinárias em seus registros, inclusive os nomes
dos eventuais visitantes de suas alunas.
Victoria entregou a missiva ao mordomo e aproveitou que o marido
participaria de uma sessão no Parlamento naquela manhã para ir ao escritório sem
correr o risco de ser flagrada, uma vez que Jenny lhe garantira que Roman saíra
logo depois de Sinclair.
Fechando a porta, Victoria olhou ao redor. Um arrepio a fez estremecer. Um
homem morrera ali, covardemente assassinado. Se houvesse algum documento
importante em cima da escrivaninha, o criminoso teria sido o primeiro a sumir com
ele. Mas talvez ela ainda pudesse encontrar alguma pista. Algo que poderia ter
passado despercebido a Sinclair por estar ele se focando em outros tipos de
evidências.
Victoria iniciou sua busca pela estante ao lado da porta. Os livros estavam
sem pó, mas ela duvidava que algum criado os tivesse retirado das prateleiras para
limpá-los.
A maioria dos volumes versava sobre leis e economia, além de tabelas de
taxas e impostos. Thomas certamente levara a sério suas atribuições no cargo que
ocupava na Câmara dos Lordes. Ela folheou um a um, mas não encontrou
anotações nem marcações. De qualquer forma, se a morte surpreendera Thomas
como surpreendera sua família, ele não devia ter tido o que esconder. Exceto algo
que sua inteligência e argúcia pudessem lhe ter inspirado sem que o assassino
desconfiasse.
Duas horas mais tarde, enquanto verificava o Guia Herbal, de Culpeper,
várias páginas amarelecidas se soltaram e flutuaram até o tapete. Victoria se
levantou e endireitou as costas que, como em um passe de mágica, pararam de
doer. Thomas Grafton deixara uma pista, afinal de contas, e fora ela a encontrar!

Projeto Revisoras 105


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Com a respiração suspensa, ajoelhou-se no chão. Seu coração batia tão


acelerado que precisou arquejar.
— Não fique assim. Pode não ser nada — murmurou consigo mesma.
Mas era algo importante. Provavelmente a chave do mistério. Três
manuscritos. Victoria os leu rapidamente e notou uma grande quantidade de
anotações nas margens, além de estatísticas. Algumas palavras haviam sido
riscadas e substituídas por outras.
Antes que ela terminasse de ler, a porta se abriu.
— Victoria, o que você está fazen... — Sinclair parou de falar ao encontrar a
esposa sentada no chão com o manual aberto sobre as pernas.
Ela o encarou e indicou as páginas que tinha nas mãos.
— Acho que encontrei algo interessante.
Sinclair se aproximou, ajoelhou-se e pegou os papéis.
— Acho que é uma proposta — Victoria continuou. — Algo sobre um negócio
com a França.
Sinclair assentiu.
— Onde a encontrou?
— No meio do Culpeper.
— Não faz sentido. Por que Thomas esconderia um tratado parlamentar em
um guia de plantas?
— Para que ninguém o encontrasse? — Victoria sugeriu
— Pode ter sido coincidência. Talvez ele tenha marcado o local com essas
páginas porque elas estavam à mão no momento.
Victoria ergueu uma sobrancelha.
— Seu irmão tinha interesse no cultivo de figos, especialmente em combater
pragas?
No minuto seguinte, Sinclair estava lendo as anotações.
— Esta era uma proposta para a cessação das relações comerciais com a
França e para a suspensão dos investimentos por parte da nobreza inglesa, como
um exemplo para o mundo e para Bonaparte, em particular. — Sinclair franziu a
testa. — Astin me apresentou uma parte do documento em que ele e Thomas
estavam trabalhando. Parece que Marley não ficou nada satisfeito quando soube.
— O documento era o mesmo?
— Não sei. O papel estava manchado de vinho. Derrubado por Marley.
Grande parte do texto ficou completamente ilegível.
— Nesse caso, por que lorde Kingsfeld o conservou e mostrou a você?
Sinclair apertou os lábios. Percebendo que atingira seu objetivo, Victoria
prosseguiu:
— O próprio lorde Kingsfeld me disse que tem por hábito se descartar de tudo
que lhe é inútil. Por que ele guardaria um papel ilegível ao longo de dois anos? E por

Projeto Revisoras 106


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

que ele soube exatamente onde encontrá-lo para mostrar a você?


— Antes de continuarmos com essas divagações, eu pretendo descobrir
quando foi que o Parlamento indeferiu a proposta. Esse será o fator determinante de
seu significado.
Sinclair devolveu o manual à prateleira e estendeu a mão para Victoria.
— Você compreendeu minha intenção, não é?
— Digamos que você marcou um ponto. Resta saber se o ponto foi positivo
ou negativo — Sinclair respondeu, enquanto conduzia Victoria para fora do escritório
e fechava a porta.

CAPÍTULO VII

Sinclair olhou de esguelha para Victoria ao passarem de charrete por Rotten


Row, no Hyde Park. Sua esposa andava calada demais naqueles últimos três dias.
Sua mente estava ocupada com algum novo plano. Mas ele não podia se queixar.
Ela parará de lhe fazer perguntas e voltara a partilhar de sua cama com a paixão e o
entusiasmo que lhe eram característicos. O ímpeto nas relações amorosas era uma
das grandes qualidades de Victoria.
E esse era o X da questão! Victoria era impetuosa também com suas idéias.
O fato de ela não mais tocar no nome do conde de Kingsfeld não significava que
tivesse desistido de investigá-lo.
O movimento era intenso no parque. Veículos, cavaleiros e pedestres se
cruzavam. Esse ritual vespertino de lazer parecia cansativo a Sinclair. No entanto, lá
estavam eles, no meio do tráfego, sem que Sinclair esboçasse qualquer reclamação.
Ao menos por uma hora, ele poderia ter Victoria sob controle.
— Eu escrevi para minha amiga Emma Grenville — Victoria contou
inesperadamente. — Pena que a única informação que ela pôde me dar foi que lady
Jane Netherby nunca fez parte de seu grupo de alunas.
— Sua iniciativa foi útil sob o aspecto de excluir essa possibilidade.
— Ao menos isso. — Victoria suspirou. — Teve notícias de Bates?
— Ainda não. Ele só deve voltar daqui dez dias.
— Meus pais nos convidaram para jantar com eles esta noite.
— Até que enfim! Pensei que eles tivessem se esquecido da única filha.
— Acho que esse convite é uma proposta de paz. Eles começam a se
convencer de que eu me casei com um cavalheiro, afinal de contas.
Um toque de sarcasmo. Sinclair esboçou um sorriso. Gostava quando Victoria

Projeto Revisoras 107


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

se comportava como quando ele a conhecera.


— O que você respondeu?
— Nada ainda. Devo aceitar o convite?
— Se for de sua vontade.
— Então inventarei uma desculpa. Não recusei de imediato porque pensei
que você talvez quisesse aproveitar para interrogá-los ou algo assim.
Sinclair estreitou os olhos.
— Victoria, qual é o problema?
Ela o fitou fixamente antes de responder.
— O que planeja fazer quando tudo isto acabar?
— Marcar uma reunião com meu advogado e me inteirar da situação em que
Thomas deixou nossa propriedade e o trabalho que desenvolveu no Parlamento,
para não fazer papel de tolo quando assumir definitivamente seus bens.
— Você parece ter planejado cada passo — Victoria murmurou. — Só que...
— Só que? — Sinclair encorajou-a a prosseguir.
— Não parece ter sobrado um lugar para mim em seu futuro.
A pulsação de Sinclair acelerou. Fazia sentido. Victoria acreditava que ele se
casara com ela por causa da investigação. Inventar subterfúgios não funcionaria
mais.
— O que você quer fazer quando a investigação terminar? — ele indagou, em
vez de responder.
— O mesmo de agora — Victoria respondeu com um sorriso. — Continuar a
fazer algo de utilidade.
— Você é útil para mim.
Sinclair desejaria dizer que Victoria era importante para ele, e que vinha se
tornando mais importante a cada dia. Que ele se sentia uma pessoa melhor ao lado
dela. Mas era impossível, por enquanto...
— Sinclair! Mon amour!
Sinclair puxou as rédeas para que os cavalos não atropelassem uma jovem
loira que praticamente se atirou na frente da charrete.
— Srta. d'Anjou. Como tem passado?
— Maintenant, je suis splendide! Agora, eu estou ótima — disse a jovem
francesa, que abandonara seu séquito de admiradores para saudar Sinclair. —
Comment vas tu? Je t’manque, mon amour.
Sinclair pigarreou. Seria pedir muito que Victoria não falasse o francês?
— Eu estou bem, obrigado.
— Qui est Ia femme?
Victoria se aproximou do marido.
— Ela disse que sente sua falta e agora quer saber quem eu sou.

Projeto Revisoras 108


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Sinclair engoliu em seco. Ao menos Victoria parecia estar enfrentando a


situação com elegância. Algo que talvez não acontecesse da outra parte. Qualquer
homem com um mínimo de experiência sobre os assuntos mundanos sabia que
jamais se apresentava a atual companheira a uma antiga amante.
— Srta. D’Anjou, lady Althorpe. Victoria, srta. D’Anjou, uma renomada cantora
de ópera de Paris.
— Boa tarde — Victoria cumprimentou, gentil. — Nós assistimos à sua
apresentação na outra noite. Foi magnífica. Gostaria de ter seu talento.
— Merci, milady. — Sophie fez uma mesura. — Meu Sinclair sempre me
prestigia com sua presença. Quando não tem condições de comparecer aos meus
espetáculos, ele me manda flores.
A fila de veículos estava aumentando atrás deles. Sophie estava provocando
uma cena que poderia se transformar em um escândalo. Sinclair queria ir embora,
mas ela não saía da frente dos cavalos.
— Lady Althorpe já sabe que somos velhos conhecidos — Sinclair tentou
amenizar o impacto da revelação.
— Como conheceu meu Sinclair, milady? — Sophie insistiu.
— Sinclair não deve ter tido nenhuma chance ainda de lhe contar. — Victoria
fitou-o significativamente. — Ele herdou o título e a propriedade dos Althorpe e a
família o pressionou para que se casasse.
Era mentira, mas o recurso serviu para aplacar a ira de Sophie.
— Lamento, mon Sinclair. Sei o quanto prezava sua liberdade. Ainda
permanecerei alguns dias em Londres. Espero tornar a vê-lo.
Eu não. Você é testemunha de uma parte de minha vida que prefiro manter
oculta de Victoria.
— Até mais ver, Sophie. Felicidades. — Sinclair acenou e seguiu em frente.
— Sinto muito, Victoria.
— Está tudo bem. Apenas lamento que você tenha deixado uma grande parte
de sua vida para trás, como ela disse.
O esforço para se controlar acabou cedendo. Sinclair virou-se para Victoria
tomado por uma súbita irritação.
— Não sou uma ovelha desgarrada! Não preciso de sua compaixão. Eu
escolhi fazer o que fiz.
— Sim. A morte de Thomas não foi sua culpa.
Sinclair empalideceu, Victoria enxergara através de sua mente, como
ninguém mais conseguia fazer. Nem sequer ele mesmo.
— Se aquele documento que você encontrou for genuíno, eu posso ter sido o
causador, involuntariamente. Thomas quis impedir a deflagração da guerra e depois
lutou pela cessação porque eu estava entre o fogo Cruzado.
Victoria o encarou. Sinclair parecia distraído. Movida pelo instinto, ela se
apoderou das rédeas.
— Seu irmão era um homem inteligente. Quem pode garantir que ele não

Projeto Revisoras 109


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

teria feito o mesmo, quer você se juntasse ou não ao Ministério da Guerra?


Por um longo momento Sinclair se entregou aos pensamentos conflitantes
que permeavam sua mente. Victoria era uma mulher fascinante. Suas atitudes
acabariam por afastá-la. Era isso que ele queria?
— Fale-me das coisas que gosta de fazer.
O pedido inesperado fez Victoria se distrair por um instante.
— Por que essa pergunta?
Sinclair sorriu e recuperou as rédeas ao perceber que os cavalos estavam se
desviando do caminho.
— Curiosidade. Estou tentando me comportar como um marido e conhecer
melhor minha esposa. Aliás, acabo de descobrir que conduzir uma charrete não é
uma de suas maiores habilidades.
Victoria corou.
— Eu gosto de cavalgar quando vou ao campo. Bons cavalos. Eu me
recusava a montar os cavalos velhos e pacatos que minha mãe escolhia. Quando
me afastava de sua vista, eu sempre trocava de cavalo com o encarregado dos
estábulos.
— O que mais? — Sinclair fez uma anotação mental para destinar um cavalo
ágil a Victoria quando a levasse para Althorpe.
— Gosto de conversar com os amigos. Nem todos são volúveis e
irresponsáveis, como você acredita.
— Tenho uma proposta a lhe fazer.
— Qual?
— Por que não oferecemos um jantar aos seus amigos? Sem incluir os
suspeitos na lista de convidados, é claro.
Victoria se inclinou e beijou-o no rosto. Sem que ela esperasse, Sinclair soltou
uma das rédeas, segurou-a pelo queixo e beijou-a na boca. Após um momento de
surpresa, Victoria correspondeu. Sinclair percebeu comentários e exclamações por
parte dos transeuntes, mas ignorou-os. Victoria era sua esposa e ele queria que o
mundo inteiro soubesse.
— Acho excelente. Desde que você também convide os seus.
Sinclair se afastou, sentindo uma armadilha se abrir à sua frente.
— Isso não está certo, Victoria.
— Nem tudo é uma guerra, Sinclair. Quero que nossos amigos sejam
comuns. Mas a escolha é sua. Só espero que Roman, Bates, Wally e Crispin tenham
uma vida para viver quando a investigação for concluída.
— Eu os convidarei — Sinclair prometeu após um minuto de reflexão.
Esperava não se arrepender de sua decisão. Seria terrível expor seus companheiros
em troca de satisfazer um desejo da esposa.
— Obrigada.

Projeto Revisoras 110


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Lucy Havers tamborilava com os dedos no braço da poltrona enquanto


aguardava a vez de sua amiga, Pauline Jeffries, se apresentar no recital daquela
tarde. A cadeira ao lado estava vaga. Victoria havia se retirado para a antessala para
conversar com lady Kilcairn. Marley estava sozinho, apoiado contra uma coluna de
mármore da sala de música. Ele pretendia esperar que as atenções se voltassem
para Pauline, assim que ela se sentasse ao piano, para ir embora sem ser notado.
Recitais e saraus lhe davam nos nervos. Poderia se tornar interessante se ele
conseguisse se aproximar de Victoria, mas lady Kilcairn não parecia disposta a
dispensá-la tão cedo. Enfim, talvez ele devesse arriscar sua sorte antes de se retirar.
Afinal, o que teria a perder?
— Olá.
— Céus! Você me assustou! — Lucy levou uma das mãos ao peito ao ver
Marley surgir inesperadamente a seu lado. — O que lhe deu para aparecer por aqui?
Pensei que não suportasse tardes musicais.
— Não suporto. Estou pagando uma aposta — Marley confidenciou. — E
você? Por que está aqui?
— Victoria adora reuniões de qualquer tipo. Como ela me acompanhou uma
noite dessas ao Almack's, eu não pude me recusar a vir aqui hoje.
— Victoria está aqui? — Marley fingiu surpresa.
— No hall de entrada. Você não a viu?
— Não — Marley mentiu. — O inconseqüente do marido veio com ela?
— Por que diz isso? — Lucy perguntou, espantada. — Lorde Althorpe é uma
pessoa muito agradável.
— Oh, sim — Marley concordou com ironia. — A maioria dos homens se
mostra agradável para conseguir o que quer. Eu me preocupo com Victoria. Em
público, ela pode contar com os amigos para protegê-la. Mas e quando está a sós
com aquele sujeito?
— De que você está falando? — Lucy pestanejou. — Tenho certeza de que
lorde Althorpe seria incapaz de fazer algum mal a Victoria.
— Fisicamente, talvez não. Mas ainda bem que eu estava no White's Club na
semana passada para detê-lo, ou ele poderia ter comprometido seriamente a
reputação de nossa amiga.
— O que ele fez?
— Usou um linguajar impróprio. Estava bêbado, é claro, mas isso não justifica
uma referência inconveniente à própria esposa. — Marley percebeu a aproximação
de alguém e tomou a mão de Lucy nas suas. — Você promete me contar se Vicky
tiver problemas com ele? Eu gosto dela e me preocupo com sua felicidade.
— Farei o que me pede. — Lucy apertou a mão de Marley em um gesto de
cumplicidade.
— Quero me certificar de que ela esteja bem — prosseguiu Marley. — Sinto
falta daqueles dias em que tanto nos divertíamos, todos nós.
— Agora que você tocou nesse assunto, percebo que Victoria mudou muito
depois do casamento.

Projeto Revisoras 111


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Após essas palavras, Marley agradeceu e se levantou. Sorriu ao ver Victoria


entrar na sala e se sentar ao lado de Lucy. Casada ou não, ela e seu dinheiro
ficariam melhor com ele do que com o maldito Sinclair Grafton.
Victoria correu para apanhar o vaso de cristal que ameaçava tombar da
estante. Sinclair carregava a pesada escrivaninha de carvalho para fora do escritório
com a ajuda de dois criados. No entanto, ao ver o ambiente tão vazio, Victoria se
arrependeu de seu pedido.
— Você não precisa doar o móvel, se não quiser. Grafton House tem vinte
cômodos. A escrivaninha de Thomas poderá ser levada para algum dormitório que
não esteja em uso.
— Você sempre comenta que este lugar lhe causa calafrios. Eu prefiro
redecorá-lo. Cá entre nós, também não me sinto bem cada vez que olho para esta
escrivaninha.
Feita a remoção, Sinclair propôs tomarem um copo de cerveja. Enquanto Milo
e os criados rumavam para a cozinha, ele abraçou Victoria.
— Espero que concorde em colocar a nova escrivaninha sob a janela. O sol
transforma seus cabelos em bronze.
— Está me convidando para partilhar de seu escritório? Eu costumo verificar
minha correspondência na escrivaninha que tenho em meu quarto.
— Aquela é pequena. Este escritório requer móveis mais adequados. Aqui se
trata de negócios. Se eu devo passar grande parte do meu tempo aqui no futuro,
quero poder olhar para você.
Victoria sentiu a esperança avivar sua alma. Sinclair estava se referindo a um
futuro em comum. Pela primeira vez.
— O que você espera que eu faça?
— Negócios. Minha avó dirige o comitê educacional voluntário de Londres.
Você não sabia, não? — Victoria moveu negativamente a cabeça.
-— Ela me contou sobre seu envolvimento em algumas organizações
beneficentes, mas...
— Serviços públicos sempre foram uma prioridade em minha família. Minha
avó certamente precisa de pessoas de boa vontade, como você, para ajudá-la.
Emocionada, Victoria abraçou o marido. De repente, ficara sem fala. Esperara
tanto por aquele momento, e quando ele finalmente se apresentara, ela precisaria
sair.
— Espero que você não se importe. Marquei um almoço com Lucy e
Marguerite.
— Vá e divirta-se. Eu estarei ocupado a tarde inteira.
Victoria subiu para o quarto e trocou de roupa. Detestava mentiras. Aquela,
porém, era por uma boa causa.
Escolheu o vestido verde com estampa de flores. Verde era a cor favorita de
Marley. De acordo com a conversa que tivera com Lucy, Marley estava querendo lhe
falar. Ela aproveitaria essa chance para lhe fazer algumas perguntas. Marley era o
maior suspeito de Sinclair, e Kingsfeld era o assassino, na opinião de Victoria. Para

Projeto Revisoras 112


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

que ela e Sinclair pudessem viver uma vida plena juntos, seria necessário esclarecer
o crime antes.
Sinclair sentou-se à nova escrivaninha e se recostou na cadeira. Com a
substituição dos móveis antigos e a compra de um tapete persa, sua impressão era
de estar em outra sala, em outra casa.
— Aconchegante — observou Roman, da porta. Sinclair se levantou.
— O que faz aqui? Não deveria estar vigiando Victoria?
— Ela acaba de subir no cabriolé. Eu sairei em seguida. E você? O que
pretende fazer?
— Hoje é quinta-feira, o dia marcado para o leilão de cavalos. Kingsfeld
nunca falta. Eu farei de conta que esqueci sua rotina e lhe farei uma visita.
— Você não acredita realmente que tenha sido ele! — Roman protestou.
— Victoria acha que sim. Não custa nada voltarmos nossas atenções para ele
por um momento, mesmo que seja apenas por uma medida de segurança.
— Nesse caso, desejo-lhe boa sorte.
— E você, cuide de minha esposa.
Os dois amigos se separaram. Estavam acostumados a trabalhar sozinhos.
Sinclair cogitou levar alguém para vigiar o lado de fora da casa de Astin, mas não
quis revelar a nenhum outro companheiro sua situação. Astin não era um elemento
suspeito até prova em contrário. E ele não queria ouvir as recriminações dos amigos
por ter dado ouvidos à esposa. Outra vez.
Sinclair chegou a Hovarth House pouco antes do meio-dia, o que lhe
propiciava cerca de uma hora até que o leilão se encerrasse e Kingsfeld voltasse
para casa. Uma ponta de culpa o atingiu, mas ele a ignorou, surpreso por ainda ser
capaz de nutrir esse sentimento. Apeou diante da porta principal, entregou seu
cavalo a um lacaio e aguardou que o mordomo o recebesse.
— Boa tarde, Geoffreys.
— Lorde Althorpe. Lorde Kingsfeld não se encontra na residência neste
momento.
Sinclair franziu o cenho. Puxou o relógio do bolso e consultou-o.
— Que distração a minha! Ele deve estar no leilão.
— Sim, milorde. O que posso fazer para...
— Eu gostaria de aguardá-lo, se for possível.
O mordomo clareou a garganta, constrangido.
— Sinto muito, milorde, mas o conde não permite visitantes em sua ausência.
Sinais de alerta soaram na mente de Sinclair. Sua vontade era forçar a
entrada na casa, mas obviamente essa não seria uma boa medida. Recusava-se a
arruinar uma amizade antiga por um deslize perfeitamente evitável. Por outro lado,
não podia se arriscar a alertar Kingsfeld caso o palpite de Victoria se revelasse
correto.
— Não tem importância. Irei encontrá-lo no leilão. Obrigado, Geoffreys —

Projeto Revisoras 113


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Sinclair agradeceu, resmungando consigo mesmo enquanto se afastava para pegar


novamente seu cavalo e rumar para Covent Garden.

— Que feliz coincidência! — exclamou Marley ao saltar de seu cabriolé e se


colocar ao lado de Victoria.
Ela olhou instintivamente para cima e para baixo de Bond Street, a rua onde
ficavam as lojas mais caras e famosas do centro comercial de Londres. Não queria
ser vista em companhia de outro homem, agora que era uma mulher casada.
— Como vai, Marley?
— Melhor agora, em sua presença. Parrish insistiu em irmos ao Society Club
ontem à noite, e encontramos lorde Spenser. Antes não tivesse saído de casa. Que
tédio!
Lady Munroe e a srta. Pladden passaram por eles naquele instante. Victoria
saudou-as com um sorriso. Estava perdida. Lady Munroe era a maior fofoqueira da
cidade. Por mais que ela quisesse investigar o principal suspeito de Sinclair,
acabaria irritando-o mais do que ajudando.
— Que tal irmos ao Jardim Zoológico conhecer o novo macaco que acaba de
chegar? Eu prometo lhe comprar um sorvete. — Marley segurou Victoria pelo braço.
A situação estava fugindo ao seu controle. Com as faces coradas, Victoria
tentou se desvencilhar.
— Oh, eu não poderia...
— Ora, ora — Marley insistiu. — Você não está casada com um bispo.
Não, ela não estava, mas não queria magoar Sinclair. Por outro lado, recusar
o convite de Marley significaria perder uma ótima oportunidade de falar com ele em
particular. Talvez a última, caso ele resolvesse lhe fazer uma proposta indecorosa.
— Está bem. Vou com você, mas não posso me demorar.
Victoria não teria aceitado o convite, de forma alguma, caso Marley quisesse
levá-la em uma carruagem. O último castigo que seu pai lhe dera prendera-se a
esse motivo, por ela ter acompanhado o visconde em um passeio, sem permissão,
para longe dos olhares vigilantes dos pedestres.
—- Sinto sua falta, Vicky — Marley declarou durante o trajeto. — O episódio
no baile de lady Pranton foi uma catástrofe.
— Catástrofe?
— Sim, para a população masculina de Londres. Para mim.
Victoria tentou sorrir.
— Meu comportamento era avançado demais para nossa época, Marley, e
não teria sido tolerado por muito tempo mais. Se não fosse meu casamento, meu pai
provavelmente teria me mandado para um convento.
— Se você tivesse esperado até completar sua maioridade, e se apossado de
sua herança, não teria de dar satisfações a mais ninguém, pelo resto da vida.
— Para ser franca, eu estava começando a me cansar de desafiar as
convenções.

Projeto Revisoras 114


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— De se divertir também?
— Oh, não. Eu sempre me diverti com você. — Victoria se apressou a corrigir
seu erro.
Se Marley se decepcionasse com ela, se resguardaria em vez de lhe falar
com franqueza. O que Victoria não esperava era que ele fosse lhe roubar um beijo e
que o impulso de empurrá-lo fosse dominá-la quase irresistivelmente.
— Marley! O que deu em você? Sou uma mulher casada agora!
Ele encolheu os ombros.
— Casamento não é empecilho para a diversão. Veja seu marido. Ouvi dizer
que ele e Sophie D’Anjou foram amantes. Parece-lhe coincidência que ela tenha
resolvido se apresentar em Londres pela primeira vez só depois que ele deixou Paris
para retornar à sua terra natal?
A coincidência não havia sido registrada até Marley mencioná-la, mas Victoria
não permitiu que a observação venenosa a influenciasse.
— Você acha isso? — Ela franziu o cenho para demonstrar o contrário.
— Por que não? Você precisa se precaver, minha cara. Deve cuidar de seus
próprios interesses, antes que seja tarde demais. Até algumas semanas atrás, você
gostava que eu a beijasse.
Algumas semanas que representavam uma vida inteira. Victoria não era mais
a mesma de antes. Agora só queria os beijos do marido. Os abraços dele. Nenhum
outro homem a interessava. Nenhum outro fazia sua pulsação acelerar. E o mais
importante: Sinclair era o único que parecia gostar da pessoa que ela gostava de
ser.
— Não sei — Victoria murmurou. — Talvez fizesse alguma diferença se você
me contasse a razão para detestá-lo tanto.
Marley deu uma risada sarcástica.
— Além do fato de ele ter roubado você de mim?
— Você já não gostava dele quando eu o conheci no baile dos Franton
naquela noite fatídica.
O semblante de Marley endureceu.
— Não creio que esse assunto lhe interesse.
O coração de Victoria parou de bater por um segundo. A mulher que Marley
conhecia não se mostraria reticente, nem excessivamente curiosa. Ela precisava
agir como a jovem estouvada de antes. Assim, no instante seguinte, Victoria estava
com a mão apoiada na curva do braço de Marley.
— Lógico que me interessa! Estou morando na mesma casa que ele, mas
conheço você há muito mais tempo e valorizo sua opinião. Você, Marley, é meu
melhor amigo.
Lisonjas sempre funcionavam com Marley, e dessa vez não foi diferente.
— Eu gostaria que você tivesse valorizado minha opinião antes de aceitar
dançar com Grafton naquela noite.
Marley se aproximou mais de Victoria no banco. Ela não se moveu, mesmo

Projeto Revisoras 115


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

quando suas pernas se tocaram.


— No futuro, eu ouvirei você.
— Está me dizendo que haverá um futuro para nós, Vicky?
— Bem, isso vai depender das razões que você me der para eu evitar
Althorpe — Victoria respondeu, surpresa consigo mesma por ter conseguido imprimir
um tom natural à sua voz.
— Não confio nele — Marley afirmou, sucinto. — O irmão morreu e ele
continuou na França por dois anos em vez de regressar e assumir o título e a fortuna
a que tinha direito. De onde provinha o dinheiro que continuou sustentando-o na
falta de Thomas? Era fato conhecido que Sinclair o esbanjava com bebidas e
mulheres.
— O que você está me dizendo? — Victoria indagou, perplexa.
— Todo mundo sabe que o falecido Althorpe queria comprar uma patente
para o irmão ingressar no Exército. Sinclair não aceitou. Provavelmente já havia
conseguido fazer fortuna por outros meios, menos arriscados.
Victoria engoliu em seco para não se trair.
— Se ele fez fortuna na França, não foi o único.
Marley foi obrigado a admitir a veracidade da observação.
—Não. Mas ele era o único com um irmão que se opunha tão ostensivamente
à relação comercial com a França que chegou a quebrar uma caixa inteira de
champanhe diante de todos os membros da Câmara dos Lordes.
Victoria ficou boquiaberta, e não era fingimento.
— Então você acha que Sinclair matou Thomas?
— Digamos que eu não colocaria minha mão no fogo por ele. Os dois mal se
falavam.
Victoria agradeceu mentalmente por estar a par da real situação.
— Eu não sabia que você conhecia lorde Althorpe tão bem. Você nunca me
disse.
Marley estacionou o cabriolé com os outros veículos à entrada do parque
antes de explicar:
— Nós éramos amigos até ele assumir uma posição tão radical contra todos
nós, que investíamos nossos recursos na França, que se recusou a continuar
partilhando da nossa mesa no clube. Foi lamentável. Thomas sempre fez questão de
oferecer o que havia de melhor aos amigos que recebia em sua casa. Eu o visitava
sempre que podia. Acho que nunca mais vou beber tanto e tão bem, de graça.
Não foi ele. Victoria teve certeza absoluta da inocência de Marley ao ouvir
aquele comentário.
— Mais devagar. — Victoria interrompeu o passo e curvou-se. — Estou
passando mal. Você deveria ter me avisado antes! Por que não me disse que
Sinclair era um assassino antes de eu dançar com ele?
Marley abanou Victoria com as próprias mãos e a fez sentar-se em um banco.

Projeto Revisoras 116


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Era o que eu estava dizendo. Não vejo razão para não nos divertirmos, já
que você não poderia ter feito um casamento pior.
Victoria apertou os olhos. As revelações se somavam. Como pudera se
enganar com Marley a ponto de acreditar que ele fosse capaz de dedicar uma
amizade sincera a alguém?
— O que você sugere?
— O que você acha de falarmos com Althorpe e convencê-lo a nos pagar
cinco mil por ano para mantermos nossas bocas fechadas até você ter direito à
herança?
Victoria riu, debochada, como faria a antiga Vicky.
— Não é você quem vive sob o mesmo teto que ele! Já pensou se Sinclair
resolve me silenciar como fez com o irmão?
— Ele não se atreveria. Outro crime o colocaria em evidência. As pessoas
não tardariam a relacioná-lo ao assassinato de Thomas também.
Victoria refletiu por um instante. Marley queria seu dinheiro. Teria de ser
esperta como nunca para lidar com a situação em seu próprio benefício.
— Foram informações demais em uma única tarde. Dê-me algum tempo para
processá-las.
— Eu entendo — Marley murmurou, solícito. — Mas você deve confiar em
mim. Sabe que sou melhor para você do que Sinclair Grafton jamais será.
Victoria não respondeu. Se tivesse o hábito de jogar, apostaria um milhão de
libras que seu amigo estava completamente enganado.

***
Astin Hovarth, montado em seu cavalo, sorriu ao ver Sinclair Grafton ser
dispensado por Geoffreys e seguir na direção do parque onde o leilão estava sendo
realizado. Lorde Althorpe aparentemente estava fazendo o mesmo que ele: vigiando
a própria sombra!
Satisfeito com sua estratégia, lorde Kingsfeld deixou seu esconderijo. Estava
em dúvida sobre o que fazer. Deveria alcançar Sinclair e lhe contar o que acabara
de descobrir sobre lorde Marley e o pedaço de papel rasgado de uma carta que
estava sendo usada para marcar uma página de livro?
Depois de refletir por um instante, resolveu esperar por uma ocasião mais
propícia. À noite, no clube, entre cálices de vinho do Porto, certamente seria mais
seguro encontrá-lo. Todo o cuidado era pouco. Qualquer um que prezasse sua vida
deveria evitar abordar lorde Althorpe pelas ruas. Ele, afinal, estava ligado a uma
investigação que ao término levaria um homem à forca.
Augusta e Christopher estavam conformados. Para eles, nada no mundo
poderia trazer Thomas de volta. Sinclair, porém, parecia determinado a não deixar
pedra sobre pedra enquanto o assassino não fosse descoberto e a justiça fosse
feita. O que significava revolver o passado, e Astin não estava disposto a ficar de
braços cruzados sob a ameaça de ocorrências, que deveriam permanecer
enterradas, voltarem à tona. Tudo por culpa de Thomas, que calara a verdade sobre

Projeto Revisoras 117


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

o irmão estar trabalhando para o Ministério da Guerra.


Maldito Thomas. Eles eram grandes amigos. Por que ele não lhe contara que
Sinclair era um espião? Se Thomas tivesse confiado nele, não teria sido preciso
matá-lo. A bala poderia ter sido direcionada ao próprio Sinclair. Com o irmão morto,
Thomas teria se curado daquela obsessão pela pátria e desistido de lutar pelo fim da
guerra.
Lady Jane Netherby não era motivo de preocupação. Ela não desconfiava de
nada. Em todo caso, com Sinclair bisbilhotando, Astin queria se garantir. Faltava
apenas cuidar para que a linda Vicky ficasse de boca fechada, ou ele teria de criar
algum tipo de evidência que a comprometesse com o falecido ou com Marley. De
preferência com Marley.
Para reforçar a imagem da clandestinidade da relação, Victoria pediu que
Marley a deixasse na esquina de Bruton Street com Berkeley Place. Por duas vezes
ele ainda tentou beijá-la, mas Victoria conseguiu se esquivar. No restante do trajeto
até sua casa, Victoria se perguntou como faria para contar ao marido a respeito de
Marley, sem despertar ciúmes. Confessar a ele sobre o método pouco ortodoxo que
empregara naquela tarde estava fora de cogitação.
Milo a recebeu à porta e perguntou se poderia lhe servir o chá. Victoria pediu
que o levasse ao escritório. Ao receber a informação de que Sinclair havia saído,
uma sensação estranha se apoderou de seu corpo.
Ausentara-se de casa por quatro horas. Sinclair lhe dissera que sua única
tarefa naquele dia seria convidar os amigos para o jantar. Aonde teria ido? Se Marley
não era o assassino, Kingsfeld era o próximo nome na lista de suspeitos. E ele e
Sinclair talvez até estivessem juntos naquele exato momento.
— Cancele o chá, Milo. — Victoria tomou uma decisão repentina. — Vou
tornar a sair. Peça para Roman me acompanhar.
— Ele não está — o mordomo respondeu, fazendo uma carranca.
— Roman e lorde Althorpe saíram juntos?
— Não que eu tenha visto.
Os amigos de Sinclair estavam alojados em algum lugar em Weigh House
Street. Victoria decidiu seguir para aquele endereço. Mesmo que não encontrasse
Sinclair, aproveitaria para contar sobre sua descoberta aos outros do grupo.
— Milo, quem é a pessoa que costuma levar a correspondência de lorde
Althorpe para lady Stanton?
O mordomo corou até a raiz dos cabelos.
— Eu não tenho acesso à correspondência particular de lorde Althorpe,
milady.
— Quem é a pessoa, Milo? — Victoria insistiu.
— É Hilson, milady — o mordomo respondeu com um suspiro.
— Chame-o. Quero falar com ele imediatamente.
Um terrível pressentimento se apoderara de Victoria. Com Sinclair e Roman
fora, ela era a única pessoa naquela casa ciente de que havia algo de muito errado
acontecendo.

Projeto Revisoras 118


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

O jovem criado se apresentou nervoso e ofegante. Tentou negar seu


conhecimento a respeito de lady Stanton, mas o mordomo lhe fez um sinal de
concordância.
A urgência fez Victoria ordenar que Milo providenciasse um coche de aluguel.
Após cinco minutos, que pareceram cinco horas, um veículo finalmente parou à
entrada de Grafton House, sob o olhar reprovador do mordomo, que ainda não
desistira de insistir para que Victoria aguardasse pela chegada do patrão, que não
deveria tardar.
— O que devo dizer a lorde Althorpe, caso ele chegue antes?
— Que eu fui visitar lady Stanton e que voltarei logo.
Durante o trajeto, Victoria procurou recordar os ensinamentos da srta.
Grenville sobre o modo correto de uma moça educada se comportar, mas foi
impossível. Lições como as que eram ministradas no instituto não foram feitas para
jovens esposas cujos maridos serviram a pátria como espiões e que agora se
ocupavam com a identificação de um assassino.
Victoria sentia calafrios ao pensar que Sinclair podia estar em perigo. Assim
que os cavalos pararam, ela abriu a porta e saltou, sem esperar pela ajuda de
Hilson.
— Pague o cocheiro e dispense-o. Espere-me aqui. Bateu com força com a
aldrava. O ar, que não percebera estar prendendo, foi exalado em forma de um
suspiro de alívio ao som de passos. Havia alguém na casa, ao menos.
— Bom dia. Eu preciso falar com... — Victoria hesitou. — É você, Wally?
O homem que abriu a porta pestanejou ao ser reconhecido.
Olhou para um lado e para o outro da rua antes de responder.
— Esse era o meu nome. Agora já não sei.
— Posso entrar?
O rapaz se afastou para lhe dar passagem.
— Sinclair está aqui?
Uma sombra se projetou de uma porta à esquerda. Victoria reconheceu de
imediato a figura do escocês.
— Não, ele não está. Como nos encontrou, lady Althorpe?
— Trouxe Hilson comigo.
— Quem mais? — Crispin indagou, preocupado.
— Ninguém mais. Não sou uma tola como o senhor parece pensar. Agora
sabe me dizer onde Sinclair pode estar, ou eu terei de procurá-lo por minha própria
conta?
— Não acha que Sinclair teria lhe dito onde encontrá-lo, se quisesse ser
encontrado?
Victoria teria dado um soco no escocês, se fosse um homem. Como era
mulher, entendeu que precisaria apelar para a diplomacia.
— Você tem razão. Mas como Sinclair parece ter desaparecido, achei que ele

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

talvez tivesse dito aos melhores amigos o que pretendia fazer depois que saiu daqui.
Crispin e Wally trocaram um olhar. Victoria sentiu o coração bater mais
depressa.
— Sinclair não esteve aqui hoje — Crispin informou e pediu que Wally
providenciasse uma xícara de chá. Em seguida levou Victoria para uma sala.
Victoria se deteve à entrada. Havia uma longa mesa retangular no meio do
aposento. De um lado, estava coberta de papéis. Do outro, havia inúmeras caixas
com bandeirinhas brancas. Ao se aproximar, Victoria descobriu que as bandeirinhas
identificavam pessoas e lugares.
— Eu nunca vi nada igual. — Victoria se inclinou e reconheceu sua própria
casa. — Esta é uma representação de Mayfair, não é? Vocês estão fazendo um
estudo das pessoas e dos locais onde elas foram vistas na noite do crime.
Crispin concordou com a cabeça.
— Sinclair tinha razão. Ele disse que milady é tão brilhante quanto um
diamante sob o sol.
— Obrigada — Victoria respondeu. — Posso lhe fazer uma pergunta?
— Não é esse o motivo de sua visita?
— Em parte. Onde o senhor colocou lorde Marley?
— Ele foi retirado desta maquete.
— Por quê? — Victoria indagou, surpresa.
— Ninguém o viu após as vinte horas daquela noite. Ninguém sabe dizer
onde ele esteve depois que saiu do White's Clube, até deixar sua casa de
carruagem na manhã seguinte, antes do alvorecer.
— E lorde Kingsfeld? — Victoria sentiu uma onda de irritação invadi-la ao
notar que Sinclair não contara aos companheiros sobre o parecer da esposa. —
Quer dizer que Astin Hovarth está acima de qualquer suspeita só porque foi amigo
de Thomas?
— Não há necessidade de ser sarcástica — Crispin retrucou. — Apenas
Sinclair não concorda com sua opinião.
— É verdade, mas eu me preocupo com ele e não quero que se machuque.
— Volte para casa e fique sossegada, milady — o escocês respondeu. —
Somos uma equipe. Isso significa que sempre há alguém olhando para trás quando
você está olhando para a frente.
Victoria entendeu, naquele instante, por que Sinclair confiava em seu grupo.
— Obrigada, sr. Harding.
No final daquela tarde, Sinclair estava desalentado. Nada dera certo.
Kingsfeld não fora visto no leilão, nem nos clubes da cidade, nem mesmo no Hyde
Park.
Cansado e mal-humorado, ele se deteve à porta de Victoria. Desistiu antes de
bater e seguiu direto para seu próprio quarto. Enquanto tirava o casaco, pediu que
Roman lhe trouxesse um cálice de vinho do Porto.

Projeto Revisoras 120


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Talvez seja recomendável tomar algo mais forte — o valete sugeriu.


— Por quê? O que aconteceu?
Enquanto despejava uma dose de uísque em um copo, Roman confessou ter
perdido Victoria de vista. Sinclair empalideceu. Se algo de ruim tivesse acontecido...
— Ela foi a pé à casa da srta. Lucy. Em vez de entrar, seguiu para Bond
Street. Dez minutos depois, encontrou-se com Marley a subiu em seu cabriolé. Até
que eu conseguisse alugar um veículo para acompanhá-los, eles já haviam
desaparecido.
Sinclair passou uma das mãos pelos cabelos.
— Tem certeza de que era Marley?
— Claro que tenho! Que espécie de espião você acha...
— A espécie de espião que perdeu a pista de minha esposa! — Sinclair
gritou, enfurecido. — Você perguntou a Milo se ela voltou para casa enquanto você
se perdia pelas ruas?
— Sim, mas ele ficou parado, me olhando, sem responder, como faz desde
que eu cheguei aqui.
Sinclair gritou o nome do mordomo com tanto ímpeto que até as paredes
tremeram. Depois de ser informado de que Victoria havia saído em companhia de
Hilson para ver lady Stanton, ele agradeceu a Deus por Victoria estar em segurança
e agarrou o mordomo pela lapela.
— Isso foi demais. Essa briga de vocês termina aqui e agora. Ou vocês se
entendem de uma vez por todas, ou se matam. Eu não me importo com a escolha
que desejarem fazer. Mas nunca mais permitirei que essa intolerância ponha a vida
de minha esposa em risco!
Sinclair saiu para o corredor e fechou a porta do quarto com estrondo. Ao se
aproximar do topo da escada, viu Victoria subindo os primeiros degraus. Sua
vontade era agarrá-la pelos braços e chacoalhá-la. Nunca sentira tanto medo na
vida.
Victoria o tocou gentilmente nas faces.
— Estava preocupada com você. Ele engoliu em seco.
— Por onde você andou?
Victoria sustentou o olhar reprovador do marido por um instante. Sua voz
soou como um murmúrio:
— Acho que precisamos ter uma conversa em particular.
Ela indicou o escritório e Sinclair concordou em silêncio. Não sabia se
conseguiria controlar o tom de voz, se respondesse. Assim como não conseguiu
controlar sua força. Victoria pestanejou ao baque da porta.
— Por que não me conta como foi seu almoço com Lucy e Marguerite?
— Eu conto, se você me contar se seus amigos virão jantar conosco.
— Então é assim? — Sinclair cruzou os braços. — Porque eu ainda não tive
tempo de distribuir os convites, você usa essa desculpa para passar a tarde inteira
com Marley?

Projeto Revisoras 121


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Por essa, Victoria não esperava.


— Como você soube que eu estive com Marley?
— Roman os viu juntos. Você mentiu para mim.
— E você para mim! — Victoria protestou. — Fui procurá-lo onde me disse
que estaria e você não estava lá!
Algo além de raiva se infiltrou na mente de Sinclair.
— Por que você foi me procurar?
— Por que quer saber se não acredita no que eu digo?
Victoria virou as costas. Sinclair soube que havia perdido a discussão ao fazer
a pergunta.
— Conte-me, Victoria. Por favor.
Victoria demorou alguns instantes para tornar a olhar para o marido, que se
sentara no sofá.
— Marley pediu outro dia que Lucy me alertasse contra você porque se
preocupava comigo. Eu não disse nada porque você nunca aprovaria meu plano. Eu
dei um jeito de forjar um encontro para descobrir o que ele realmente queria.
Sinclair suspirou.
— Você estava certa. Eu jamais aprovaria essa loucura.
— Eu fiz com que o encontro acontecesse em público. Em resumo, Marley
me contou sobre seu caso com Sophie D’Anjou e propôs que nos tornássemos
amantes, para que eu lhe desse o troco.
Sinclair levantou-se de um salto e foi até a janela.
— O que você respondeu?
— Pedi que ele me dissesse o que tinha contra você. Marley me garantiu que
está convencido de que você matou seu irmão. Ele até mesmo sugeriu que o
chantageássemos. — Victoria apertou as mãos e olhou para Sinclair com expressão
de súplica. — Não sei como convencê-lo, Sinclair, mas não foi Marley quem matou
Thomas. Ele não mataria seu provedor. Sua grande amizade por Thomas era, na
verdade, por suas garrafas de bebidas.
Por um longo momento, Sinclair apenas a fitou.
— As pistas ainda apontam para ele. Agora responda a minha pergunta: por
que você foi visitar lady Stanton?
— Você não estava em casa quando eu voltei, e tive medo que estivesse com
Kingsfeld.
— Eu o procurei, mas não o encontrei. Passei a maior parte do dia tentando
localizá-lo.
— Por quê?
— Queria que Astin me mostrasse o documento em que ele e Thomas
estavam trabalhando. Aquele com a mancha de vinho.
— Você acreditou em mim. — A expressão de alívio nos olhos de Victoria

Projeto Revisoras 122


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

dissolveu o que ainda restava da indignação de Sinclair.


— Como não o encontrei em casa, fiz uma visita a Kilcairn. Ele não se lembra
de nenhuma proposta ter sido submetida ao Parlamento nos termos daquela que
você encontrou no escritório de Thomas.
— Isso significa?... —Victoria olhou para o marido com expectativa.
— Significa que talvez você tenha encontrado a chave do enigma.
Victoria abraçou Sinclair pela cintura e encostou o rosto em seu peito.
— Eu sinto que você está perto da verdade. Muito perto, Tenha cuidado.
— Eu terei, se você tiver — Sinclair murmurou. Ele queria perguntar a Victoria
por que ela estava tão preocupada, por que recomendava tanto que se acautelasse,
mas temia que a resposta não fosse a que desejava ouvir. — Prometa que não se
encontrará mais com Marley.
— Eu prometo. Desde que você prometa parar de mandar Roman me seguir.
— Combinado — Sinclair mentiu. Ele substituiria Roman por Wally, mas
Victoria não precisaria saber disso. Ao menos até que ela estivesse totalmente
segura.
— Por que você estava gritando quando eu cheguei? — Victoria quis saber
por fim.
— Porque Roman e Milo precisam parar de se comportar como crianças. Eu
os fechei em meu quarto e disse que não saíssem de lá até se entenderem. Ou se
matarem. Não sei o que deu em Milo para pensar que Roman quer o posto de
mordomo.
Victoria sorriu e eles se abraçaram. Sinclair convidou-a para visitar o novo
escritório e os dois seguiram para lá de mãos dadas.
— Está tudo tão quieto... — Victoria observou após algum tempo. — Acha que
Milo e Roman estão mortos?
Sinclair encolheu os ombros.
— Não creio. De qualquer forma, voltarei ao meu quarto antes que escureça
para verificar.
— Por que motivo você se zangou tanto com eles?
— A recusa de se falarem comprometeu sua segurança.
Victoria se aconchegou ainda mais a ele. Sinclair sentiu uma onda de ternura
envolvê-lo.
— Você realmente se preocupa comigo, não?
— Claro que sim. Você é meu marido, Sinclair Grafton. Você é importante
para mim.
Sinclair não teve palavras para responder. Em vez disso, capturou os lábios
de Victoria com os seus. Queria Victoria em sua vida, mas antes precisaria eliminar
a barreira que os separava.
Eles fizeram amor no sofá da saleta de estar de Victoria, uma vez que a suíte
principal continuava ocupada. O sol já havia se posto quando eles decidiram se

Projeto Revisoras 123


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

vestir e descer.
— Você deveria usar os cabelos sempre soltos. Pareceria uma princesa de
contos de fada.
— Eu pareceria uma selvagem, isso sim — Victoria retrucou.
— Nesse caso, solte-os quando estiver em casa, longe de olhares curiosos e
de línguas afiadas. Eu sei que você é uma selvagem.
Para surpresa de Victoria e de Sinclair, o mordomo estava a postos, na sala
de jantar, quando eles desceram para a refeição da noite. Seu olho esquerdo estava
roxo e inchado, mas exceto por esse detalhe, parecia bem.
— Boa noite. Como vai, Milo?
— Eu estou ótimo, milady.
— E Roman? — perguntou Sinclair.
— Eu gostaria que o senhor perguntasse diretamente a ele, milorde, mas lhe
garanto que não haverá mais problemas de comunicação entre nós.
— Folgo em saber.
Sinclair puxou uma cadeira para que Victoria se sentasse. Ela sorriu e beijou-
o no rosto.
— Se você conseguiu que aqueles dois teimosos se entendessem, tenho
certeza de que é capaz de tudo.
Sinclair estreitou os olhos.
— Espero que você esteja certa.

CAPÍTULO VIII

Kingsfeld se preparava para fazer uma visita a Grafton House quando o


objeto de sua visita se apresentou à porta de sua residência.
— Eu o receberei na biblioteca. — Astin Hovarth se apressou a tirar a capa e
o chapéu que entregou ao mordomo antes de se dirigir ao local e apanhar um livro
que abriu a esmo.
— Como vai, Althorpe? — O conde se levantou e estendeu a mão. — A que
devo o prazer?
— Estive pensando naquela proposta, aquela sobre a qual Marley derramou
uma bebida. Você tem em seu poder o que sobrou do papel?
— Acredito que sim. Devo tê-lo guardado em algum lugar. Na verdade, era
Thomas quem estava redigindo o tratado; eu apenas fiz algumas anotações.

Projeto Revisoras 124


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— O documento chegou a ser apresentado na Câmara dos Lordes?


Kingsfeld fez um movimento negativo com a cabeça. Não era um tolo. Para
se precaver, ele produzira uma pequena parte da proposta.
— Infelizmente, não. O documento ainda não estava pronto, e sem Thomas...
eu não consegui terminar o texto sem ele.
Uma sombra recaiu sobre o semblante de Sinclair.
— Não se culpe. Eu lhe serei grato por qualquer ajuda que puder me dar.
— Talvez não seja nada importante. — Kingsfeld colocou o livro de poesias
de lado e hesitou de propósito. — Mas encontrei algo, um dia desses,
completamente por acaso.
— De que se trata?
Kingsfeld remexeu nos bolsos do casaco.
— Por sorte, eu decidi reler meu Homero. Encontrei um pedaço de papel
entre as folhas e guardei-o para lhe mostrar.
Sinclair segurou o papel e leu-o. Aproveitando-se da distração do outro,
Kingsfeld deu um sorriso de maldosa satisfação. O visconde estava com seus dias
contados. Sua morte seria certa. Ou na forca, ou pelas mãos justiceiras de lorde
Althorpe.
— É a letra de Marley — Sinclair declarou com voz quase inaudível. — O que
era? Uma carta?
— Sim — Kingsfeld afirmou. — Eu me lembro de termos rido dela na época.
Agora o assunto não poderia ser mais sério.
— Embora esteja faltando uma parte do texto, o tom é de ameaça.
— Talvez sim, talvez não. Os ânimos estavam acirrados. — Kingsfeld se
recostou na cadeira. — Eu não quero acreditar no pior. Jamais teria suspeitado de
Marley, se você não tivesse mencionado suas suspeitas com relação a ele. Agora,
parece que as peças começaram a se encaixar como em um quebra-cabeça.
Sinclair ergueu o papel e exibiu-o.
— Levarei esta evidência ao magistrado na segunda-feira. Serei eternamente
grato a você, Astin, quando tudo isso acabar.
— Seu irmão era meu melhor amigo. Você não me deve nada.
Depois que Sinclair se foi, Kingsfeld se serviu de uma dose de conhaque.
Com a euforia de ter encontrado nova evidência, Sinclair se esquecera da proposta.
faltava pouco agora para a prisão de Marley e para o desenlace daquela história.
Para comemorar, ele pretendia se divertir muito no jantar daquele sábado em
Grafton House.
— Ele tentou me confundir — Sinclair contou aos amigos, sentados ao redor
da mesa de Kerston House. — Victoria estava certa. Astin não tem consigo nenhuma
cópia daquela maldita proposta porque deu fim a tudo que poderia comprometê-lo.
—- E agora, o que pretende fazer? Você conseguiu o essencial para
condenar Marley e nada contra Kingsfeld — observou Crispin.
— Não é incrível? — Sinclair cerrou os punhos. — Um mês atrás, de posse

Projeto Revisoras 125


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

desse pedaço de papel, eu já teria dado um tiro em Marley.


— Você precisa ser firme e racional. Não pode se deixar influenciar pelas
opiniões de sua esposa. Acabará enlouquecendo.
— Ela conhece Marley e jura que ele não seria capaz de matar.
— A ganância pode cegar uma pessoa. Ou o instinto de sobrevivência. Se o
conde está tramando algo contra Marley, ele soube esperar com paciência nesses
dois longos anos.
— Até que eu lhe oferecesse de bandeja a chance de se livrar do problema.
A esse comentário de Sinclair, Crispin moveu uma peça na maquete.
— Kingsfeld também, esteve no White's Club naquela noite até por volta das
dez horas.
— E depois?
— Não averiguamos. Mas se esteve com alguma mulher, nós só saberemos
se ele próprio nos contar.
— Tudo isso é muito interessante — disse Wally, da porta. Sinclair se virou.
Ele não ouvira o amigo entrar. Crispin estava certo. Estava esgotado. Suas
distrações poderiam acabar comprometendo a segurança de todos que faziam parte
daquele projeto.
— De que você está falando? — Sinclair perguntou com um suspiro.
— Sei de uma dama que não esteve com lorde Kingsfeld naquela noite. —
Wally se encaminhou para a mesa e tirou uma peça de xadrez da maquete. — Lady
Jane Netherby viajou um dia antes do assassinato e não retornou a Londres até o
final da temporada. Eu também soube, por sua adorável camareira, de nome Violet,
que sua patroa se vestiu de luto e chorou por um mês.
— O que há de estranho nisso? Se ela e Thomas eram íntimos...
— Segundo Violet, lady Jane não recebeu nenhuma correspondência nem
jornais por mais de uma semana, enquanto esteve em casa de sua avó, na Escócia.
Um suor frio cobriu a fronte de Sinclair. Se lady Jane Netherby soube da
morte de Thomas antes que ela fosse anunciada no London Times, sua fonte de
informação fora outra. Era preciso descobrir qual.
— Eu pretendo ir a fundo nessa investigação. Doa a quem doer. Quem está
comigo?
— Agora que estamos a um passo de desvendar o crime, você quer seguir
por outro caminho? — Crispin franziu o cenho. — Não poderia simplesmente
agradecer a sua esposa pela sugestão e colocar Marley atrás das grades?
—- Vocês estão insinuando que eu resolvi investigar Kingsfeld para satisfazer
Victoria?
— Você tem de admitir, Sinclair, que vem passando mais tempo na cama com
ela do que ao redor desta mesa conosco.
— O que está insinuando? — Sinclair se levantou e deu a volta para encarar
Wally em desafio. — Que eu gosto de fingir que vivo para dançar e beber com as
filhas desses nobres cheios de si quando sei que um deles matou meu irmão?

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Você se casou com uma delas.


Esse era o pensamento que ricocheteava na mente de Sinclair desde que
conhecera Victoria. Agora seus melhores amigos atiravam em sua cara a mesma
acusação. O que lhe restava fazer a não ser refletir sobre uma resposta?
Crispin se levantou.
— Por cinco anos, nós nos apoiamos mutuamente e não confiamos em
ninguém que não pertencesse ao nosso grupo. Era a maneira mais segura de
continuarmos vivos. De repente, quando estamos a um passo de encerrar a
investigação, você parece estar empenhado em desprezar todo o nosso trabalho e
voltar ao marco zero para perseguir um novo suspeito.
— Eu não estou ignorando nada nem ninguém, muito menos desprezando
nosso trabalho. Só quero ter certeza de que a justiça seja feita. Porque se pode ser
verdade que Kingsfeld é o assassino, eu não permitirei que um inocente pague por
um crime que não cometeu.
Com um suspiro, Crispin se encaminhou para a porta da frente.
— Nesse caso, nós iremos atrás dessa certeza.
— Espere um pouco. — Sinclair o deteve. — Eu ainda não terminei. Vocês
falaram o que quiseram sobre Victoria Fontaine. Agora é minha vez. Eu gosto dela e
pretendo honrar nosso casamento. Sinto muito se esperavam que eu fosse
abandoná-la com o fim da investigação.
Crispin tornou a suspirar.
— Como eu estava dizendo, por que não procuramos lady Jane Netherby
imediatamente?
Do lado de fora, ao se encaminharem para o estábulo, Wally correu para
alcançar os amigos.
— Vocês podem me explicar o que ficou resolvido?
— Claro que posso — Crispin respondeu. — Acabo de descobrir que nosso
Sinclair está apaixonado pela esposa e que mal pode esperar para vingar o irmão e
começar a exercer sua função de marido e pai em período integral.
Sinclair recebeu naquele instante dois sorrisos de cumplicidade e sentiu que
os amigos continuavam apoiando-o, que a amizade entre eles era sólida e que uma
conversa franca sempre podia afastar os fantasmas da dúvida. Crispin estava certo.
Ele realmente queria ver a justiça sendo feita para poder prosseguir com sua vida ao
lado da mulher que lhe mostrara que havia outras metas importantes a serem
atingidas no futuro, além de crimes e investigações.

***
Ao ser atendido por uma senhora de cabelos grisalhos com expressão
sonolenta, provavelmente a governanta, Sinclair cogitou se teria batido à porta de
lady Jane Netherby em horário inadequado.
— Desculpe o avançado da hora, mas trata-se de um assunto de urgência —
Sinclair explicou, identificando-se pelo título.

Projeto Revisoras 127


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

A mulher pediu que eles aguardassem e fechou a porta. Ao retornar, permitiu


a entrada apenas de Sinclair. Os outros teriam de aguardar do lado de fora.
— Após subir a escada, entre na primeira porta à direita.
Todos os sentidos de Sinclair ficaram em alerta. A sala de estar estava
iluminada apenas por um abajur colocado sobre uma mesinha de canto. A única
ocupante estava sentada em uma poltrona ao fundo, o mais distante possível da luz.
O cenário não poderia ser mais dramático. Sinclair não teria estranhado se a mulher
estivesse usando um penhoar, mas ela parecia estar vestida para sair, com um
elegante vestido azul.
— Lorde Althorpe — ela o saudou em voz baixa. — O que o traz aqui entre
tantos lugares?
— Eu preciso lhe fazer algumas perguntas.
— Não sei em que eu poderia ajudá-lo. Para ser sincera, estou muito
atribulada esta noite. Minha mãe adoeceu e eu viajo amanhã para a Escócia para
vê-la.
— Lamento por sua mãe — Sinclair respondeu, calmo, embora sua mente
trabalhasse febrilmente. — Também foi por causa de sua mãe que deixou Londres
dois anos atrás, em seguida ao assassinato de meu irmão?
A pele naturalmente pálida de lady Jane adquiriu um tom cinzento.
— Não quero falar sobre algo tão triste.
— E importante para mim, milady. Conte-me, por favor, como soube sobre a
morte de meu irmão.
A mulher levou a mão direita ao coração e se levantou.
— Recuso-me a ser submetida a um interrogatório em minha própria casa.
Principalmente por você.
— Eu acho que a senhora sabe quem matou Thomas — Sinclair prosseguiu,
ignorando o aparte. — Se eu tiver de sair daqui sem essa resposta, farei com que
responda não mais para mim em particular, mas diante de um tribunal.
As forças pareceram abandonar Jane. Por um instante, ela se recostou na
poltrona e seus olhos fecharam.
— Eu não tenho como provar, e ele negará minhas palavras. Esteve aqui hoje
para me lembrar da situação.
Com o coração batendo tão forte que o deixou ofegante, Sinclair se
aproximou.
— Lorde Kingsfeld é um homem muito respeitado, mas não é invencível.
— Isso é o que você pensa.
— A senhora deve querer que Thomas fique em paz.
— Thomas está morto. Ele deveria ter sido mais esperto.
— Por que diz isso?
— Thomas não deveria ter despertado a ira de seus compatriotas. Agora vá.
Eu não lhe direi mais nada, exceto para declarar que você já estaria morto, como

Projeto Revisoras 128


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

seu irmão, se ele soubesse que está sendo investigado.


Sinclair percebeu que não adiantaria tentar forçar uma confissão. Jane estava
tremendo. Certamente por causa do assassino mais do que por causa do incômodo
visitante.
— Obrigado, milady. Melhoras à senhora sua mãe.
O olhar da mulher se dirigiu a Sinclair por uma fração de segundo como se
ainda fosse revelar algo. Mas ela apenas disse:
— Saia daqui o quanto antes.
— Vamos embora! — Sinclair fez um sinal para que os companheiros
voltassem para o local onde deixaram os cavalos.
— O que ela disse?
— Que não me contaria nada. Alguém esteve aqui antes de nós e ameaçou-
a. Eu mencionei lorde Kingsfeld e ela não me contradisse.
— Parece que nossa visita não foi de grande valia.
— Oh, sim, ela foi —- Sinclair retrucou. — Marley esteve com minha esposa a
maior parte do dia. Não foi ele quem procurou lady Jane para lhe fazer ameaças.
Crispin e Wally trocaram um olhar. Em seguida, cada um deles tocou o ombro
de Sinclair em um gesto solidário.
— Sua esposa estava certa.
— Victoria não pode saber! — Sinclair exclamou, pálido, seus sentidos
novamente em alerta. — Ela é transparente como água. As emoções se refletem em
seus olhos. Bastaria Astin fitá-la para perceber que está sob nossa mira. E ele é um
de nossos convidados para o jantar que ofereceremos amanhã.
— Eu me ofereço para vasculhar a casa dele aproveitando sua ausência —
disse Crispin.
— Não — Sinclair rejeitou a idéia. — Eu prometi a Victoria que vocês estariam
presentes. Será um jantar entre amigos. Ou quase. Agora voltem para Kerston
House. O que está feito, está feito.
— E você?
— Eu vou para casa mentir outra vez para minha esposa. — E rezar para que
ela me perdoe algum dia.

— Oh, então eles aceitaram o convite? — Victoria sorriu, empolgada. Sinclair


não estava tão contente quanto ela, mas isso não tinha importância. A cautela fazia
parte da natureza do marido. O fato de seus amigos serem espiões, todavia, não
implicava que não pudessem se relacionar com os amigos dela.
— Não sei se Bates voltará a tempo, mas Wally e Crispin confirmaram sua
presença. — Sinclair respondeu e se calou em seguida, embora continuasse com os
olhos pousados nos de Victoria.
— O que foi? — ela percebeu instantaneamente que ele estava escondendo
alguma coisa.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Antes de responder, Sinclair segurou a mão de Victoria e brincou com a


aliança em seu dedo.
— Sei que você não gosta dele e que...
— Você convidou Kingsfeld? É isso que está tentando me dizer? — Victoria
baixou a cabeça para a lista de nomes em seu colo. — Entendo que essa
investigação seja importante para você, mas queria que esta noite fosse especial.
Sinclair levou a mão de Victoria aos lábios e beijou-a.
— Sei que você suspeita de Kingsfeld, mas ele é meu amigo. Eu não poderia
excluir seu nome de nossa lista de convidados sem um motivo razoável.
Victoria percebeu a intenção do marido. O fato de ele estar tentando distraí-la,
porém, não tornava seu gesto menos excitante. Um arrepio lhe percorreu as costas
ao sentir os lábios insistentes pousarem na parte interna de seu braço, desde o
pulso.
— Você acredita em mim?
— Neste momento, a única coisa em que consigo pensar é que quero fazer
amor com minha mulher.
Sinclair começou a tirar os grampos que prendiam os cabelos de Victoria.
Seus lábios pousaram no pescoço alvo e macio, depositando pequenos beijos, leves
como plumas.
— Sinclair, a porta está aberta...
— Shhh... Beije-me.
— Mas você ainda não me respondeu. Já lhe ocorreu que o homem que
matou seu irmão poderá se sentar à nossa mesa esta noite?
Sinclair capturou a boca de Victoria em um beijo voraz. Consumida pelo fogo
da paixão, Victoria espalmou as mãos no peito que se abria para aconchegá-la. Era
uma tola. Sinclair acabaria se cansando de suas cobranças. Deveria aproveitar a
oportunidade de estar com ele, de trocarem beijos e carícias, em vez de insistir em
lembrá-lo de suas tristezas.
Deitada no sofá, com Sinclair por cima, Victoria gemeu baixinho. Mal
conseguia respirar com os beijos, quanto mais raciocinar.
— Sinclair, você viu...
Sinclair e Victoria se sentaram, sobressaltados. Roman estava parado junto
da porta, como se tivesse se transformado em uma estátua. Um instante depois,
sem dizer nada, ele recuou e fechou a porta.
O casal trocou um olhar e um sorriso. Também sem palavras, voltaram à
atividade, como se não tivessem sido interrompidos. Deitado sobre Victoria, Sinclair
circundou-a pela cintura, obrigando-a a arquear o quadril para facilitar sua tarefa.
Era preciso desabotoar o gracioso vestido estampado de flores miúdas para ganhar
acesso aos seios.
Depois, enquanto os beijava, Sinclair se colocou de lado para que Victoria
pudesse lhe tirar o paletó, o colete e a gravata. Livrar-se da camisa foi mais difícil,
porque ele simplesmente não conseguia afastar os lábios e as mãos dos mamilos
túrgidos.

Projeto Revisoras 130


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Sinclair — Victoria protestou, finalmente conseguindo puxar o tecido para


fora da calça.
— Quero ficar dentro de você — ele sussurrou.
O corpo de Victoria se derreteu em luxúria à perspectiva. Com mãos trêmulas
de excitação, Sinclair terminou de despi-la. Colocou-se de joelhos, em seguida,
afastando os braços de modo que não pudessem prolongar sua espera.
Victoria prendeu o fôlego. Adorava quando Sinclair perdia o controle. Adorava
ver Sinclair nesses momentos em que a paixão era tão grande que lhe roubava a
fala e suas mãos se tornavam desajeitadas no afã de eliminar a última peça de
roupa que o impedia de penetrá-la.
O gemido de Victoria agora foi de êxtase. Sinclair estava dentro dela, como
prometera. Com o peso do corpo praticamente apoiado por inteiro nos cotovelos, ele
se inclinou para beijá-la, mergulhando a língua em sua boca com o mesmo rit mo e
calor que aplicava nas investidas em seu baixo-ventre.
A cada experiência, Victoria aprendia algo de novo sobre Sinclair. Seu corpo o
conhecia o suficiente para saber que ele estava se aproximando do clímax. Seus
olhares se encontraram. Uma emoção indescritível brotou do fundo de seu ser. Era
como se o mundo inteiro parasse por alguns instantes e só eles dois existissem,
crescessem e desabrochassem. E explodissem.
— Veja — Sinclair murmurou algum tempo depois, ao se acomodar ao lado
de Victoria e puxar uma folha do papel de trás de suas costas. — Nós amassamos
sua lista de convidados.
— Não tem importância. — Victoria riu. — Nada de sério resultará de nosso
deslize.
Sinclair não respondeu. Rezaria para que Victoria estivesse certa.
— Reconheço quando alguém faz um bom trabalho. Você acabou de me
persuadir. Acho que serei capaz de suportar a presença de Kingsfeld por uma noite
em nossa casa.
— Obrigado. Eu o manterei distante de você o máximo que puder. — Nem
que seja sob a mira de minha pistola.
— Você não fará nada disso — Victoria respondeu.
— Não podemos atrair a atenção de ninguém, a não ser por nosso
comportamento irreverente. Somos conhecidos por nossa boêmia, esqueceu?
Sinclair tornou a abraçar Victoria. Queria dizer tantas coisas! Lenta e
pesarosamente, ele se afastou. Não se atrevia a sonhar que esse dia chegaria.
Porque enquanto não tivesse certeza de que nenhum mal atingiria Victoria, não lhe
declararia seu amor.
— Você é inteligente. E compreensiva.
— Você é inteligente. E persuasivo.
— E bom saber que você pensa isso a meu respeito. — Sinclair se levantou.
— Preciso ir. O dever me chama.
— Promete ter cuidado?

Projeto Revisoras 131


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Você sentiria minha falta se algo me acontecesse?


— Sem dúvida que sim. Além disso, o esquema que preparei para os lugares
à mesa seria prejudicado.
Os dois se despediram com um sorriso. Sinclair seguiu para a Câmara dos
Lordes, onde subornou um funcionário com uma garrafa de conhaque da famosa
coleção de Thomas, e conseguiu examinar todos os documentos e propostas que
haviam sido rejeitados pelo Parlamento dois anos antes. Embora Sinclair soubesse
de antemão que o documento de Thomas não estaria em uma daquelas caixas, ele
só pôde comprovar esse fato após duas horas de pesquisas. Seu irmão fora autor
de vários tratados. Nenhum deles, entretanto, fora tão direto e provocativo quanto
aquele encontrado por Victoria.
Aproveitando-se de uma distração do funcionário, Sinclair entrou na sala
vizinha. As chances de ele ser flagrado ali eram quase nulas. Sua busca não seria
tão demorada quanto a que fora necessária na primeira sala. Porque não seria às
escuras. Agora ele sabia exatamente o que iria encontrar.
O conde de Kingsfeld havia comprovadamente se despojado de inúmeros
investimentos em pequenas companhias com ramificações na França. O que ele
não abrira mão fora de uma importante empresa, sediada a poucos quilômetros dos
arredores de Paris, especializada na fabricação de lampiões a gás para iluminação
pública.
Sinclair praguejou. Não era de admirar que Kingsfeld tivesse mantido silêncio
sobre a posse de tal empresa. Sinclair tivera a oportunidade de visitá-la em
companhia de um dos generais de Bonaparte. Por um motivo: durante a guerra, a
fábrica paralisara a produção de lampiões para armar os soldados franceses contra
os ingleses na Batalha de Waterloo.
Depois de se certificar de ter deixado tudo como encontrara, Sinclair
manifestou sua gratidão ao funcionário e foi embora. A cada passo, sentia aumentar
seu ódio e repúdio por Kingsfeld. Convivera por longos anos com morte e traição,
mas nada se comparava ao golpe que acabara de levar. O homem em quem
confiara acima de sua própria esposa matara friamente seu irmão. E esse homem
estaria sentado à sua mesa naquela noite.
O mais terrível era que Sinclair seria obrigado a conversar e a rir com ele.
Enquanto não pudesse provar a verdade.
Algo estava errado. Victoria se sentou no braço do sofá e fingiu estar entretida
com a conversa entre Lucy e Lionel, mas sua atenção estava voltada para o outro
lado da sala. Sinclair, Kingsfeld e Christopher estavam conversando, mas ela podia
sentir a tensão entre os dois primeiros como se fosse palpável.
— Você não ouviu nada do que eu disse, ouviu?
Victoria pestanejou. Lucy estava olhando para ela. Não havia como mentir.
— Oh, Lucy, por favor, me desculpe...
— Não precisa se desculpar. — Lucy sorriu. — Se eu tivesse um marido
como Sinclair Grafton, também ficaria olhando para ele o tempo todo.
Lionel pigarreou e se queixou. Muito corada, Lucy se apressou a pedir que ele
também a desculpasse.

Projeto Revisoras 132


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Não. Eu não a desculpo. Aliás, vou falar com seu pai amanhã mesmo a
esse respeito.
A surpresa emudeceu Lucy. Lionel aproveitou e beijou-a no rosto. Em seguida
se levantou e deu uma piscadela para as duas mulheres antes de se encaminhar
para outro grupo.
Victoria abraçou a amiga. Ao ver seus olhos marejados de emoção, beijou-a e
puxou-a pela mão.
— Venha. Vamos pedir que Marguerite toque uma música para podermos
dançar com nossos pares.
Sinclair prometera esquecer a espionagem naquela noite, mas não exigira
dela a mesma promessa. Mais cedo ou mais tarde, o conde de Kingsfeld daria um
passo em falso. Victoria pretendia incentivá-lo a dar esse passo. Não estava
suportando mais se preocupar a cada hora do dia e da noite com o que ele poderia
fazer contra Sinclair, Augusta ou Christopher.
Convencer Marguerite a tocar para eles foi fácil. Mais difícil seria abordar o
conde. Até Victoria se lembrar da jovem estouvada que fora até pouco tempo antes.
Sinclair franziu o cenho ao notar o modo como ela se aproximou e sorriu para
Astin Hovarth.
— Lorde Kingsfeld — ela disse, inclinando sugestivamente a cabeça. — Eu
decidi lhe dar outra oportunidade.
— Será um prazer para mim.
Com um sorriso, Victoria permitiu que o conde a conduzisse para o meio da
sala e a enlaçasse pela cintura. Seu rosto se transformou em uma máscara ao sentir
sua mão na dele. Lembrou-se, então de Sinclair e de Thomas, e voltou a exibir seu
sorriso natural.
— Nós parecemos discordar de tudo sobre o que conversamos — ele disse.
— Talvez seja melhor evitarmos qualquer tema que possa levar a um argumento.
— Exatamente o que eu pensei. — Victoria aquiesceu.
— Por isso pensei em falarmos sobre alguém de nossa mútua admiração:
Thomas Grafton.
Nem um pestanejar, nem o menor indício de culpa.
— Desde que seus desenhos não sejam mencionados, é claro.
— É claro — Victoria se obrigou a concordar.
— E como devemos iniciar nosso diálogo?
— Esta dança me inspira. Durante o pouco tempo em que o conheci, nunca o
vi dançar. Sabe de algum motivo que impedia Thomas de colocar seus pés em uma
pista?
— Thomas era um conservador. A valsa era ousada demais para seu gosto.
— O senhor a dança e muito bem, por sinal. Sobre Thomas, Sinclair me disse
que ele gostava de conversar, principalmente sobre política. Surpreende-me que o
senhor e ele tenham sido tão amigos.
— Por que a surpresa?

Projeto Revisoras 133


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Talvez fosse impressão, mas Victoria poderia jurar que o conde apertara sua
mão com mais força do que fizera até aquele momento. Sua expressão permaneceu
impassível. O que seria de se esperar. Alguém que fora capaz de urdir um
assassinato obviamente não entraria em pânico por causa de uma insinuação.
— Suas preferências. Eu diria que é tão liberal quanto Sinclair. Que como
amigos, Sinclair combinaria mais com o seu jeito de ser do que Thomas.
— Sinclair não é liberal; ele é ansioso. — Os olhares se encontraram e
Kingsfeld sorriu para Victoria. — Ou era. Depois de conhecê-la, ele parece ter se
tornado outro homem.
Por fim, uma abertura...
— Sinclair viveu muitas aventuras na Europa. Eu o teria julgado ansioso se
ele não tivesse me contado os motivos que o obrigaram a levar aquele tipo de vida.
— E agora?
— Agora estou contente que ele tenha conseguido sua ajuda na caça ao
assassino de Thomas. — Victoria se aproximou para poder falar mais baixo, como
em uma confidencia. — Cá entre nós, eu tenho minhas dúvidas de que Marley seja
culpado.
— Sim?
Victoria concordou com um gesto de cabeça.
— Marley é esperto. Ele não teria deixado certos papéis para trás.
A afirmação o perturbara. Victoria notou isso pela raiva que passou pelos
olhos dele e pela contração de seus lábios.
— Ele conseguiu burlar a lei por dois anos. Esses papéis não devem ter
grande significado, ou a Justiça já o teria prendido.
— Eu acredito que eles sejam a chave — Victoria prosseguiu no mesmo tom
de quem conta um segredo. — Acabei de encontrá-los. Nem sequer tive tempo
ainda de mostrá-los a Sinclair.
Kingsfeld fez menção de dizer algo, mas calou-se por cerca de um minuto
antes de se decidir.
— Oxalá você esteja certa. Mas eu a aconselharia a não se entusiasmar até
que a veracidade dos documentos seja confirmada. Se quiser, posso dar uma
olhada neles. Assim Sinclair não poderá acusá-la de ser uma tola ou de estar
tentando proteger Marley.
— Não tenho nenhuma razão para querer proteger Marley, milorde. — Quanto
a ser uma tola, Sinclair a chamaria assim, se soubesse o que ela estava fazendo.
— Eu penso que sim — Kingsfeld murmurou com repentina intimidade. —
Sinclair me contou que só foi ao baile naquela noite por causa de Marley e que
arruinar a reputação de uma donzela foi um preço que ele estava disposto a pagar.
A valsa terminou. Victoria teve certeza de que seu coração parou de bater no
mesmo instante.
— O senhor está enganado.
— Não creio. Vamos ver aqueles documentos? Alguém segurou o cotovelo de

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Victoria, fazendo-a estremecer de susto.


— Desculpe, Vicky — disse Alexandra com um sorriso —, mas você parece
necessitada de um pouco de ar fresco.
— Sim, obrigada. — Victoria aproveitou para se apoiar no braço da amiga e
seguir em direção ao jardim-de-inverno onde ficavam suas plantas e seus animais
de estimação. Não tinha nenhuma intenção de mostrar aqueles papéis a Kingsfeld.
— Você não me parece apenas cansada — sugeriu Alexandra ao se sentar
no braço da cadeira onde Victoria se recostou. — O que houve?
— Nada. A sala estava muito quente.
— Oh, sim. Você nunca consegue dançar mais de uma música, tímida e frágil
como é.
— É sério.
— Eu conheço você, Vicky. Quer ficar sozinha? Posso pedir para Lucien
acabar com a festa em menos de um minuto. Eu já o vi em ação e sei do que estou
falando.
— Não diga mais nada, Alex. Eu só preciso pensar um pouco.
No silêncio que seguiu, a imitação de Mungo da voz de Sinclair, pedindo que
Victoria o beijasse, foi demais para Victoria.
— Meu Deus, Vicky! Por que você está chorando? O que aconteceu?
Victoria sabia que deveria guardar segredo, mas estava tão decepcionada,
agora que descobrira a verdade sobre seu casamento, que nada mais importava.
— Acho que Sinclair se casou comigo só para provocar Marley.
— Foi Kingsfeld quem disse isso?
— Sim. Mas eu...
— Você o ama, não é?
— Não. Eu seria uma tola se me apaixonasse por um homem que só me usou
para atingir um fim.
— Eu não acredito no que você está dizendo. Kingsfeld não tinha o direito de
importuná-la. Nem de envenená-la contra Sinclair. Por que ele fez isso?
— Não posso lhe contar.
— Está bem. Apenas me responda. Em quem você confia mais? Em Sinclair
ou em Kingsfeld?
— Em Sinclair. — Victoria soluçou.
Alexandra segurou a mão de Victoria e recomendou que a amiga respirasse
fundo e procurasse se acalmar. Victoria estranhou essa súbita preocupação com seu
bem-estar.
— Por que você está me tratando como se eu fosse feita de vidro? Eu
costumava cavalgar com chuva ou com sol. Você não se lembra?
— Sim, mas isso foi antes.
— Antes do quê? — Victoria franziu o rosto. Alexandra olhou para Victoria

Projeto Revisoras 135


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

com ar maternal.
— Quando foi seu último ciclo?
— Quando eu me casei, é claro.
Alex deu um largo sorriso.
— Foi o que eu pensei.
— Por que você está me olhando desse jeito? — Victoria indagou. — O ciclo
não fica suspenso com as relações íntimas?
— Não, sua tolinha. Pensei que fosse mais sabida. O ciclo é interrompido
quando a mulher está esperando bebê.
Qualquer que fosse a razão para Victoria estar rodopiando nos braços de
Kingsfeld, Sinclair se recusava a justificá-la. Por mais próximo que estivesse o
desenlace, ele preferiria o fracasso da investigação a comprometer a segurança de
sua esposa.
Amara profundamente seu irmão, mas ele já havia partido deste mundo.
Victoria estava viva e assim deveria continuar para que pudessem envelhecer juntos.
Sinclair não apenas a admirava; amava-a de todo o coração, e faria qualquer coisa
para protegê-la.
— Por que está tão tenso? — Sinclair virou-se ao reconhecer a voz de
Crispin.
— Não agüento mais ver minha esposa dançando com Astin.
— O conde não se atreverá a fazer nada em público. Preocupe-se quando ele
estiver longe dos seus olhos — Crispin aconselhou.
— Essa música parece não terminar nunca. Estou pensando em reivindicar
minha vez.
— Um grande erro. Foi paciente até este instante, e justamente agora,
quando falta tão pouco, você decide pôr tudo a perder?
Crispin tinha razão. De punhos cerrados, Sinclair continuou observando de
longe. Alguns minutos depois, Kingsfeld e Victoria se separaram com um sorriso e
um meneio de cabeça. Victoria deixou a sala em companhia de Alexandra, e
Kingsfeld pediu a Sinclair para conversarem em particular. Os dois se encaminharam
para o escritório. Por mais que Sinclair se esforçasse para parecer descontraído, a
apreensão se apoderava de seu ser a cada passo.
— Lamento esse desconforto — Kingsfeld se desculpou ao entrarem no
escritório e Sinclair fechar a porta —, mas preciso saber de você até que ponto sua
esposa está inteirada dos fatos.
— Fatos? — Sinclair fingiu não ter entendido a alusão, na tentativa de ganhar
tempo.
— Sei que você tem conduzido sua investigação em sigilo. Estranhei que
Vicky fizesse exatamente o contrário. Ela falou em defesa de Marley o tempo todo
enquanto dançávamos. Garantiu que não foi ele quem matou Thomas e me contou
sobre a existência de documentos, que ninguém mais conhece exceto ela própria e
que provam a identidade do assassino. Preocupa-me, Sinclair, que sua esposa
tenha falado nesses termos com outra pessoa, além de mim. Com isso ela pode ter

Projeto Revisoras 136


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

destruído seu trabalho de anos e colocado sua vida e a de sua família em risco.
Sinclair mal podia respirar. O miserável estava tão seguro de si que ousara
ameaçá-lo em sua própria casa, cara a cara. Por culpa de Victoria. Se ela o tivesse
escutado em vez de desacatá-lo, Kingsfeld poderia ter sido pego de surpresa.
— Falarei com Victoria imediatamente.
Fiel à sua palavra, Sinclair acompanhou o conde de volta para a sala e foi à
procura da esposa em seus aposentos.
Victoria não estava no quarto. Sem titubear, ele se dirigiu à varanda, mas se
deteve ao abrir a porta e encontrar Victoria debulhada em lágrimas e Alexandra
Balfour tentando confortá-la.
— Lady Kilcairn. — A expressão de Sinclair não poderia ser mais grave. — Eu
preciso falar a sós com minha esposa por um momento.
— Vicky não está se sentindo bem, milorde.
— Eu já estou melhor, Lex. Não se preocupe — Victoria afirmou num fio de
voz.
Sinclair permaneceu em obstinado silêncio. Sem alternativa, lady Kilcairn
retirou-se, não sem antes enviar um olhar de advertência ao anfitrião.
— Você faz idéia da confusão que provocou? — Sinclair se restringiu a dizer.
Victoria não podia saber que sempre estivera certa ao suspeitar de Kingsfeld.
Conhecia a esposa o suficiente para adivinhar que ela continuaria desafiando-o em
seu intuito de ajudá-lo a prender o assassino de Thomas.
Victoria enxugou as lágrimas com seu lencinho de renda.
— É verdade que você se casou comigo só para chegar a Marley?
Sinclair poderia esperar qualquer pergunta no mundo, menos aquela.
— Quem...
— Kingsfeld me contou.
Astin Hovarth era um mestre da guerra. No espaço de quatro minutos, o
tempo que durara a valsa, ele conseguira enfraquecer seus oponentes, jogando um
contra o outro. Sem tempo para inventar mentiras ou justificativas, Sinclair disse a
única coisa que lhe ocorria naquela emergência.
— Quero que você, minha avó e meu irmão saiam de Londres pela manhã e
fiquem no campo até os ânimos se acalmarem.
Era uma emergência. Em outras circunstâncias, Sinclair teria se sentado com
Victoria e explicado os motivos que o levaram a pedi-la em casamento e para tomar
pessoalmente uma atitude tão drástica.
— Eu não irei para o campo sem você.
— É preciso. Não posso conservá-la a meu lado depois do que fez esta noite.
Você precisa se lembrar, Victoria, de que agora é uma mulher casada e que não
deve provocar as pessoas como costumava fazer quando solteira.
Testemunhar a dor da mágoa e da decepção nos olhos da esposa foi o que
de mais difícil Sinclair teve de suportar em sua vida. Queria tomá-la nos braços e
beijá-la com todas as forças de seu ser. Queria lhe dizer a verdade, que sua

Projeto Revisoras 137


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

estratégia fora brilhante. Mas preferia afastá-la, fazendo com que o odiasse, porque
em sua determinação de ajudá-lo com o que acreditava ser o mais importante na
vida dele, Victoria se colocara na mira do assassino.
— Então não me resta escolha? — Victoria indagou após um longo momento,
uma nova lágrima deslizando por suas faces pálidas.
— Não, não resta — Sinclair declarou e voltou para a sala sem disfarçar sua
contrariedade. Era imprescindível que Kingsfeld soubesse da briga que armara
diabolicamente entre o casal.
Mais tarde, depois que os convidados foram embora, Sinclair ordenou que
Milo permanecesse de guarda no hall superior, de modo que Victoria não pudesse
sair sem ser vista ou outra pessoa entrar em seus aposentos enquanto ele se reunia
com os companheiros no local dos primeiros encontros noturnos.
— O que houve, afinal? — Wally quis saber.
— Alexandra não me revelou o assunto da conversa que teve com Victoria,
mas ela está muito zangada com você — contou Lucien Balfour que Sinclair
chamara, no último instante, para o encontro atrás do estábulo.
— Obrigado por ter vindo — Sinclair agradeceu.
— Fiquei curioso — Lucien confessou.
— Estamos precisando de toda ajuda que pudermos conseguir — Sinclair
confessou e se dirigiu a Crispin. — Como Kingsfeld se comportou enquanto eu
estive fora?
— Ele foi cumprimentar sua avó. Os dois conversaram sobre os eventos
sociais de que participariam no resto da semana. Um frio de gelo atravessou o peito
de Sinclair.
— Kingsfeld acredita que Victoria sabe de algo que ainda não chegou ao
nosso conhecimento sobre o assassino. Estou pensando em mandá-la, junto com
minha família, para nossa casa no campo.
— Seria uma medida prudente — concordou lorde Kilcairn. — Mas, sob o
risco de parecer inoportuno, como espera obrigar Victoria a sair de Londres?
— Nós tivemos uma briga.
Lorde Kilcairn franziu o rosto.
— Diga o que devo fazer.
— Seria útil se você pudesse espalhar rumores de que Victoria resolveu me
deixar e que eu passei o resto desta noite bebendo.
— Sem problemas. Devo deduzir que você não se apresentará amanhã,
então, à sessão no Parlamento?
— Passarei rapidamente, para me certificar de que Kingsfeld estará lá.
— Enquanto isso, nós providenciaremos, finalmente, uma busca na casa dele
-— sugeriu Roman, ao que Sinclair discordou.
— Não. Eu quero que você os acompanhe ao campo para lhes dar proteção.
— E como explicará minha presença a eles?

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Victoria o conhece. Minha avó e meu irmão o tomarão por um criado.


— É com sua esposa que eu me preocupo. Sinclair suspirou.
— Ela não estará se importando com mais nada depois desta noite.
— E quanto a Hovarth House? — Wally insistiu.
— A esta altura, Kingsfeld já providenciou para que qualquer documento que
possa comprometê-lo esteja muito bem guardado. Assim mesmo, quero que ele
saiba que alguém invadiu seu escritório em sua ausência.
— Ele poderá matar você! — Crispin alertou. — Sua morte não resolverá
nada! O criminoso continuará impune e seu sacrifício não salvará seus entes
queridos.
— Eu não farei parte da equipe de busca — Sinclair tranqüilizou o amigo. —
Estarei ocupado reunindo as últimas evidências para a prisão de Marley. E fingindo
beber. Estou apostando que Kingsfeld ficará tão ansioso em conhecer os detalhes
de meu plano que virá em meu encalço. Então eu direi a ele que me falta uma única
peça para colocar Marley atrás das grades: a parte que falta daquela carta. —
Sinclair olhou com firmeza para os parceiros. — Kingsfeld afirma que não a tem em
seu poder. É mentira. Mas mesmo que vocês a encontrem, não a peguem. Eu
preciso que o próprio Kingsfeld a apresente. Será nesse momento que nós o
apanharemos.
— Deus! — Crispin murmurou. — Espero que Bates volte a tempo de
participar do final desta missão.
— Eu também — disse Sinclair. — Preciso mandá-lo de volta ao Parlamento
para assegurar que nenhum documento desapareça "providencialmente" dos
arquivos.
Os companheiros se despediram e se dispersaram.

Victoria passou a noite completamente insone. Se alguém já havia morrido de


coração partido, ela acreditava que teria o mesmo fim. Por mais que refletisse, não
conseguia entender o que estava acontecendo.
Sua mente se recusava a admitir que todas as atenções de Sinclair, que
todos os seus beijos tivessem sido uma mentira. O que deveria ser motivo de
alegria, agora a fazia chorar. Uma criança. O fruto de seu amor por um homem que
não a queria.
— Milady? — Jenny chamou, da porta. — Lorde Althorpe mandou que eu
arrumasse sua bagagem. Devo levar roupas para quantos dias?
— Eu não sei, Jenny — Victoria respondeu, sem forças. Talvez para sempre.
Após o término da investigação, Sinclair não precisaria mais dela.
Propositalmente, Sinclair se despediu com frieza na manhã seguinte. Victoria
não protestou. De que adiantaria? De um lado, estava ansiosa para pôr um fim
naquela farsa. De outro, estava indignada, por ter se apaixonado por um homem que
não a amava.
— É para o seu bem — ele disse e estendeu a mão para ajudá-la a subir na
carruagem.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— É para a sua conveniência — Victoria retrucou, ignorando o gesto dele.


Milo ajudou Victoria a se acomodar. Ao agradecer, ela recomendou que o
mordomo cuidasse com carinho de seus animais e de suas plantas. Talvez devesse
ter contado ao marido sobre o bebê, mas achou que ele interpretaria seu gesto
como uma súplica para ficar.
— Minha avó e Christopher estão à sua espera em Drewsbury House. A
viagem levará dois dias. — No último instante, a determinação de Sinclair fraquejou.
Sua mão tremia. Quase a ergueu para tocar o rosto de Victoria. Controlou-se a duras
penas. — Será por pouco tempo, Victoria.
— Imagino que sim. Agora você não terá ninguém a seu lado para atrapalhar.
Enquanto observava a carruagem desaparecer na distância, Sinclair desejou
que os cavalos parassem e que Victoria saltasse, voltasse para casa e gritasse que
não permitiria que ele a mandasse para longe. Mas representara tão bem seu papel
que talvez a tivesse perdido para sempre.
— Alguma outra recomendação para hoje? — Milo quis saber, ainda mais
acabrunhado do que se mostrara na ocasião em que Sinclair retornara da França
para reclamar seu título.
— Sim. Eu vou ao Parlamento, mas estarei de volta para o almoço.
Se Kingsfeld resolvesse procurá-lo, ele queria estar disponível.
Sinclair chegou à Câmara dos Lordes com vinte e sete minutos de atraso. De
propósito, para chamar a atenção. Sua estratégia funcionara ao deixar Marley fora
da lista de convidados para o jantar oferecido na noite anterior. Kilcairn e Kingsfeld
estavam no recinto, mas o visconde faltara à sessão.
— Bom dia, senhores. — Sinclair seguiu para o assento vago ao lado de
Kingsfeld. — Eu perdi alguma coisa?
— Nada de importante — o conde murmurou. — O que houve com você? Sua
aparência está péssima.
— O que houve? — Sinclair franziu o cenho. — Graças a você, Victoria pensa
que só me casei com ela por causa de Marley.
O conde teve o desplante de fingir remorso.
— Eu não podia imaginar! Estava apenas brincando com ela. Não pensei que
fosse me levar a sério. Tenho certeza de que uma boa conversa...
— Não há mais o que conversar. Ela foi embora.
— Para onde?
Sinclair encolheu os ombros.
— Quem pode saber? Eu disse que a investigação estava praticamente
concluída, mas Victoria ignorou meu comentário. Tudo por sua causa e daquele
infame do Marley. — Sinclair olhou ao redor. — Você o viu?
— Não. Ele não compareceu hoje. — Kingsfeld fez uma pequena pausa. —
Quer dizer que você não tem idéia de para onde sua esposa foi?
Deus do céu! Como ele pudera ter sido tão cego? Victoria estava correndo um
sério perigo, realmente!

Projeto Revisoras 140


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Ela não disse, e eu não perguntei. Prefiro não tocar mais nesse assunto.
— Eu entendo você, meu amigo. — Para reforçar sua atuação, o conde
fechou os olhos por um instante e balançou a cabeça. — Então você decidiu fechar
o cerco sobre Marley.
— Mais do que nunca. Esse sujeito não pode ficar solto sem eu saber do
paradeiro de minha esposa. — Sinclair se aproximou de Kingsfeld para que ele
pudesse sentir seu cheiro de uísque. Um velho truque que costumava usar, der-
ramando a bebida na gravata. — Você não está com o resto daquela maldita carta,
está?
— Não me recordo de onde ela pode ter sido guardada, mas como uma parte
foi encontrada em minha biblioteca, talvez...
— Ela seria de grande valia.
— Lorde Althorpe!
Com um sobressalto, Sinclair baixou os olhos. O conde de Liverpool estava
se dirigindo a ele como ninguém o fizera desde os bancos escolares.
— Milorde?
— Estamos discutindo assuntos de grande importância. O senhor tem algo a
acrescentar ao debate?
— Isso vai depender do que estava sendo discutido — Sinclair gracejou e
deixou escapar um soluço.
Um burburinho se fez ouvir ao fundo do recinto. Em segundos, as vozes se
elevaram e se tornaram um clamor. O primeiro-ministro não pôde tolerar a balbúrdia
e expulsou Sinclair por seu comportamento inconveniente.
Sem se deixar abalar, Sinclair olhou para a platéia. Antes de sair, conseguiu
ver Kingsfeld consultando seu relógio de bolso, e Kilcairn aparentemente tirando um
cochilo.
— Tenham um bom dia, senhores.

Na carruagem, sentado no banco oposto à avó e Victoria, Christopher tentava


convencer a cunhada de que algo estava errado naquela história. Jenny, a
camareira, seguia na segunda carruagem, com a bagagem.
— Se é verdade que Sinclair mandou você embora por causa da briga, por
que ele exigiria que minha avó e eu a acompanhássemos nesta viagem?
Com o rosto encostado à janela para tomar ar, Victoria apertou os lábios
contra a sensação de enjôo provocada pelo sacolejar do veículo.
— Ele quis protegê-los.
— De quê? Das oportunidades de diversão em Londres em plena temporada?
— Christopher protestou. — Eu tinha combinado um piquenique amanhã com a srta.
Porter.
— Por que tantas reclamações? — censurou Augusta. — Hampshire é um
lindo lugar.
— Porque é ridículo! — Christopher continuou, irado.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Sinclair ficou longe de nós por cinco anos, e quando volta não nos quer por
perto?
Victoria concordava com Christopher. Seria tão simples se Sinclair não se
culpasse pelo que acontecera com Thomas; ele se sentia tão responsável pela
morte do irmão que preferia perder o amor de seus familiares a expô-los a qualquer
perigo.
Uma luz brilhou naquele instante diante de Victoria. Seu coração acelerou.
Sinclair preferia perder o amor das pessoas que lhe eram mais importantes?
Pensando bem, Sinclair a expulsara de casa aproveitando-se de uma
situação de fragilidade. Não fora ele próprio que dissera que Grafton House agora
pertencia a ela também? Antes de seguir para o campo, ela se reservava o direito de
lhe fazer algumas perguntas.
— Pare a carruagem! — Victoria ordenou ao cocheiro.
— Só mais um pouco de paciência — disse Augusta. — Estamos a dez
minutos da próxima hospedaria.
— Eu estou passando mal.
Foram palavras mágicas. Christopher bateu no teto com o punho fechado e
gritou para ser ouvido. Assim que a carruagem parou, ele ajudou Victoria a descer.
A cabeça de Victoria estava girando. Uma súbita náusea a invadiu. Ela
precisava decidir o que fazer. A segunda carruagem estava se aproximando e
diminuindo a velocidade. Eles não poderiam permanecer à beira daquela estrada até
o fim dos dias.
— Podemos prosseguir? — Christopher perguntou após alguns minutos.
Victoria olhou para o cocheiro. Ele estava sentado de lado, com os cotovelos
apoiados nos joelhos e o rosto nas mãos. Não dava para ver seus traços, mas ela
reconheceu imediatamente seus dedos em gancho. E teve ímpetos de explodir de
felicidade.
— Sr. cocheiro! Eu preciso lhe falar.
Roman fingiu não ter escutado. Victoria pediu licença a Christopher e foi para
mais perto da boleia.
— Sr. cocheiro!
— Sim, milady — Roman respondeu sem encará-la.
— O que faz aqui, Roman?
— Cumpro ordens, milady. Se a senhora fizer a bondade de subir, eu os
levarei à Red Lion a tempo de chegarem para o almoço.
Uma pousada chamada Red Lion. Victoria respirou fundo conforme uma idéia
começava a se formar em sua mente.
— Se Sinclair se cansou de mim, por que não me devolveu para meus pais?
— Eu não saberia lhe dizer, milady. — Roman se esquivou de responder.
— E por que ele baniu também a família e fez você nos acompanhar?
— Eu não...

Projeto Revisoras 142


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Manobre os cavalos, Roman. Vamos voltar.


Foi um lance no escuro, mas o resultado compensou. Roman ficou aturdido.
Algo estava acontecendo; e o mais importante era que Sinclair talvez não estivesse
pensando em desistir do casamento, afinal.
— Eu não posso atendê-la, milady. Tenho ordens a cumprir.
Victoria esfregou o queixo. Não estava sozinha. Precisava pensar em Augusta
e em Christopher. Não era justo comprometer o projeto de Sinclair quando ele não
medira esforços para protegê-los. Por outro lado, Sinclair não tinha o direito de
decidir por ela.
Victoria voltou para a carruagem banhada em lágrimas. Augusta tomou-lhe as
mãos frias.
— O que está sentindo, minha querida?
— Estou cansada demais. Pensei que poderíamos seguir para minha antiga
escola.
— O instituto da srta. Grenville?
— Sim. Minha amiga Emma é a atual diretora. Faz tanto tempo que não a
vejo... Eu poderia ficar alguns dias com ela e seguir para Althorpe House no final da
semana.
— De maneira alguma! — Augusta retrucou. — Se deseja visitar sua amiga,
nós iremos também.
— Você sempre poderá contar conosco — afirmou Christopher. — Nunca a
abandonaremos como fez o insensato do meu irmão.
Lágrimas de verdade marejaram os olhos de Victoria dessa vez.
— Obrigada. Eu lhes sou muito grata, mas realmente preciso ficar sozinha por
alguns dias. E o instituto é apenas para mulheres.
Augusta ainda refletiu por alguns instantes. Por fim, concordou.

Localizar Marley estava demandando mais tempo do que Sinclair calculara. O


mordomo do visconde se recusou a lhe dar informações e ele teve de percorrer
todos os clubes de Pall Mall. Encontrá-lo era imprescindível para dar a Kingsfeld a
falsa impressão de que ele estava a salvo.
Prestes a se entregar ao desespero, Sinclair finalmente reconheceu cavalo e
cavaleiro atravessando os gramados do Hyde Park.
— Graças a Deus! — Nada melhor do que uma praça pública como palco de
uma prisão.
Era proibido galopar nos limites do parque, mas Sinclair preferiu infringir a
regra a perder Marley de vista. Ficaria em débito com o visconde. Pediria mil
desculpas a ele depois que tudo terminasse, mas naquele momento precisava
atacá-lo.
O visconde virtualmente perdeu o fôlego ao ver Sinclair saltar sobre ele e seu
cavalo, derrubando-o no chão.
— O que significa isso?

Projeto Revisoras 143


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Sinclair se levantou e empunhou uma pistola.


— Pensou que se livraria da forca, não pensou? Mas eu o farei pagar pela
morte do meu irmão.
— Não sei do que você está falando!
Sinclair agarrou Marley pela lapela do casaco e socou-o no estômago. O
visconde se dobrou em dois. Sinclair encostou o cano da pistola em sua orelha.
— O que está acontecendo aqui? — gritou uma voz. Por fim! Dois policiais
estavam correndo na direção deles, com as armas apontadas.
— Este homem matou meu irmão — Sinclair explicou.
— Ele está louco! — Marley protestou. — Eu não matei ninguém!
— Isso deverá ser resolvido em Old Bailey — declarou um dos policiais. —
Os senhores terão de nos acompanhar.
Sinclair sentiu uma pontada de remorso pelo constrangimento que estava
causando ao visconde, sabendo que ele era inocente. Mas era um caso de vida ou
morte.
Os gritos de protesto ecoavam pelos ares, atraindo uma multidão.

CAPÍTULO IX

— Vicky? — Emma Grenville recebeu Victoria com um abraço caloroso e um


sorriso de prazer. — Você é a última pessoa que eu esperaria ver em Hampshire. O
que faz por estes lados?
Em resposta, Victoria se pôs a soluçar.
— Preciso da sua ajuda.
Emma acomodou Victoria e se sentou à sua frente. Desculpou-se por tê-la
feito esperar. Não fora informada sobre o nome da visitante e estava resolvendo
assuntos importantes sobre as alunas.
— Foi bom. Eu aproveitei para refletir sobre minha situação.
— Molly me disse que você chegou acompanhada de um jovem cavalheiro e
de uma senhora, mas que eles logo foram embora.
— Eram a avó e o irmão de Sinclair.
— A família de seu marido, mas nenhum sinal dele — Emma deduziu
corretamente.
— É uma longa história — Victoria admitiu.
— Nesse caso, por que não começa a me contar enquanto almoçamos? —

Projeto Revisoras 144


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Emma estendeu a mão em um convite. — Minhas alunas irão adorar conhecê-la.


Você se tornou famosa neste instituto.
Victoria conseguiu sorrir, apesar dos problemas.
— Eu prometo lhe contar tudo, mas terá de ser em outra ocasião. Na
verdade, eu preciso que você me consiga um transporte de volta para Londres. Uma
carruagem, um cavalo, uma charrete, qualquer coisa.
Emma hesitou.
— Por que razão?
— Sinclair e eu brigamos e ele me mandou embora. Mas à medida que eu fui
me lembrando dos fatos, percebi que ele fez isso para me proteger.
— Se seu marido acredita que você está em perigo, então ele estava certo
em afastá-la.
Victoria balançou a cabeça.
— Você não está entendendo. Eu estou preocupada com ele e me recuso a
abandoná-lo no momento em que mais precisa de mim.
Os olhos da diretora adquiriram um novo brilho.
— Espero conhecer seu marido algum dia. Nunca imaginei que a impagável
Vicky fosse entregar seu coração verdadeiramente a alguém.
— Quando não nos faz chorar, o amor é maravilhoso, Emma — Victoria
afirmou com os olhos marejados. — Espero que você também viva essa experiência
o quanto antes.
Emma tornou a abraçar Victoria, prometendo lhe emprestar seu cavalo
Pimpernel.
— Com uma condição — a diretora propôs. — Que você espere para viajar
com a luz do dia. Durma aqui esta noite. Enquanto descansa e se prepara para o
regresso, poderá me contar sua história.
Victoria preferia partir imediatamente, mas Emma estava certa. A noite
também encerrava perigos. Poderia se perder no caminho ou ainda ser assaltada
por bandoleiros.
— Está bem — ela concordou com um sorriso. — Devo avisá-la que a história
tem começo, mas não tem fim. E é muito, muito longa.

— Kingsfeld não esteve aqui à minha procura? — Sinclair perguntou, ansioso.


— Não, milorde — respondeu Milo.
Não era possível! Os rumores sobre a prisão de Marley já deveriam ter-se
espalhado por toda a Londres. Kingsfeld deveria ter vindo correndo para sua casa a
fim de se informar sobre os detalhes.
— Ele não me mandou nem sequer uma mensagem?
— Não, milorde. Ninguém bateu nesta porta hoje.
Sinclair suspirou. A semente fora plantada e germinara.

Projeto Revisoras 145


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

O fruto amadurecera. Até quando ainda teria de esperar para colhê-lo?


— Estarei em meu escritório.
Bastou um olhar para a escrivaninha de Victoria para Sinclair se arrepender
de sua decisão. Cogitou subir para o quarto dela e tentar sentir sua presença, seu
perfume, mas a perspectiva o fez se sentir ainda pior.
Após dois anos, estava a poucos passos de prender o assassino de Thomas.
Deveria estar se sentindo aliviado. Em vez disso, só conseguia rezar para que
Victoria o perdoasse porque receava tê-la magoado a ponto de perder seu amor. Os
pais de Victoria quiseram se livrar dela por lhes causar problemas com sua
exuberância. Ele os imitara.
Por uma hora inteira, Sinclair andou de um lado para outro no escritório. A
sessão no Parlamento se encerraria apenas no período da tarde. Fora ingênuo em
sonhar que Astin fosse abandoná-la ao meio quando recebesse a notícia.
A espera finalmente terminou com as batidas da aldrava na porta da frente.
Sinclair se apressou a verificar. Jamais poderia adivinhar que a pessoa em visita
fosse lady Kilcairn. Muito menos que ela fosse lhe dar um soco ao estender a mão.
— O que foi isso? — Sinclair esfregou o queixo, não tanto por causa da dor,
mas pelo inesperado do gesto.
— Como pôde deixá-la ir?
Sinclair segurou a condessa pelo cotovelo e conduziu-a de volta para a
carruagem que a esperava.
— Desculpe se a ofendi para merecer esse tipo de tratamento e se vou tornar
a ofendê-la ao impedir sua entrada em minha casa, mas minha vida particular só diz
respeito a mim.
Lady Kilcairn estreitou os olhos.
— Está bem. Eu vou embora. Só vim aqui para me certificar de que você
soubesse de algo que também diz respeito à sua vida particular: ao mandar sua
esposa embora, ela levou consigo o seu filho.
Sinclair empalideceu.
— O que está dizendo?
— Que Victoria não deve ter-lhe contado sobre seu estado, depois do modo
como você a tratou.
O aturdimento não permitiu que Sinclair visse lady Kilcairn partir em sua
carruagem. Ele se sentou no degrau da entrada e ali ficou por um longo tempo. Por
isso Victoria ficara tão transtornada...
A tarde estava chegando ao fim quando a porta foi novamente aberta. Sinclair
sentou-se à escrivaninha e tirou a pistola da gaveta.
Mas eram apenas seus amigos.
O escocês entrou primeiro. Estava tão sério que Sinclair se perguntou o que
poderia ter acontecido. Em seguida entrou Wally. Quando Bates se apresentou,
Sinclair se levantou tão abruptamente que a cadeira tombou para trás.
— O que houve?

Projeto Revisoras 146


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Nós não sabemos ao certo — Crispin respondeu. — Entramos na casa de


Kingsfeld e quase destruímos sua biblioteca para que não restasse nenhuma dúvida
de que a casa foi assaltada.
— E?
— Kingsfeld voltou do Parlamento no horário de praxe. Cinco minutos depois
saiu de novo em disparada, sobre seu cavalo. — Wally pigarreou. — Eu achei que
ele estivesse rumando para cá e fui verificar se Bates estava de volta para instruí-lo
a ir atrás dos papéis que você queria.
Sinclair se apoiou na escrivaninha e cruzou os braços.
— Então aonde foi Kingsfeld? Aqui ele não veio.
— Nós não fazemos idéia, Sinclair. Quando nos demos conta da situação, já
havia se passado uma hora.
— Talvez ele tenha ido para um dos clubes.
— Já verificamos todos.
— Tornem a verificar e tratem de encontrá-lo. Enquanto isso eu irei a Hovarth
House e farei com que Geoffreys me diga onde está seu patrão, nem que seja a
última coisa que eu faça.
— Aonde ele pode ter ido com tanta pressa? — Crispin murmurou.
O sangue gelou nas veias de Sinclair.
— Não quero pensar o que estou pensando — Sinclair se limitou a dizer.
Porque, em seu desespero, ele poderia ter prejudicado Victoria em vez de
protegê-la. Sozinha, ela poderia ter se hospedado em qualquer lugar, sem despertar
suspeitas. Ao fazer com que Augusta e Christopher a acompanhassem e a levassem
para Hampshire, Kingsfeld os encontraria em um piscar de olhos. Se algum mal
acontecesse a Victoria ou a seus familiares, Sinclair jamais se perdoaria.
— Está se sentindo bem? — Crispin colocou a mão sobre o ombro de
Sinclair.
— Não se preocupe comigo. Se encontrar Kingsfeld, detenha-o, não importa
como. Em uma hora, tornaremos a nos encontrar aqui.
O mordomo acompanhava a conversação entre estupefato e orgulhoso. Seu
patrão demonstrava inteira confiança ao falar sobre assuntos secretos em sua
presença. Sinclair sabia o que estava fazendo. Precisava de toda a ajuda que
pudesse conseguir naquele momento.
— Milo, eu preciso que você fique atento. Escolha três dos criados, aqueles
que lhe parecerem mais espertos, e arme-os. Se lorde Kingsfeld vier à minha
procura, segure-o aqui até que eu volte.
— Lorde Kingsfeld? — Milo pestanejou.
— Sim. Ele provavelmente é o homem que matou Thomas.
— Se ele vier aqui, não sairá a não ser por suas instruções, milorde — Milo
prometeu, fiel à memória do antigo marquês.
— Obrigado, Milo. Eu devo estar de volta em uma hora. Eu e estes senhores.
Eles são de minha inteira confiança. E também lorde Kilcairn.

Projeto Revisoras 147


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Hovarth House estava quase às escuras, o que Sinclair considerou um mau


sinal. Kingsfeld ainda não havia retornado e os criados não o esperavam tão cedo.
Geoffreys demorou cerca de um minuto para atender. E, como da outra vez,
recusou-se a dizer onde seu patrão poderia ser encontrado. Sinclair insistiu. Não
havia tempo a perder. Como Geoffreys se recusasse a colaborar, Sinclair sacou a
pistola e ameaçou-o. O mordomo chamou dois criados com um grito. Em seguida
desmaiou.
Sinclair se distraiu por uma fração de segundo apenas, mas foi o suficiente
para que o derrubassem. Antes, porém, que lhe acertassem um segundo golpe,
conseguiu rolar no chão e se levantar. O atacante se desequilibrou ao tentar saltar
sobre ele e ser empurrado para trás. Sinclair o imobilizou.
—Não tenho tempo a perder. Preciso saber onde está seu patrão. Pode me
dizer ou prefere levar um tiro no meio da testa?
Com Geoffreys sem sentidos, o criado resolveu falar.
— Ele foi para Hampshire, milorde.
— Sozinho? — Sinclair sentiu o chão abrir sob seus pés. O lacaio fez que
não.
— Wilkins, o tratador de cavalos, foi com ele, e mais dois homens.
Era preciso pensar rápido. Sinclair não poderia ir embora, deixando aquele
sujeito ali. Mandou que ele o acompanhasse. Assim que a primeira carruagem parou
à porta, Sinclair o mandou subir e deu uma nota de cem libras ao cocheiro com
instruções para que o levasse a Grafton House e o entregasse ao mordomo.
— Se fizer tudo direito, eu lhe darei outra nota igual a esta — Sinclair
prometeu. — Caso contrário, eu o caçarei até o fim do mundo.
— Ele chegará a Grafton House intacto. — o cocheiro prometeu enquanto
embolsava alegremente o dinheiro.
Montado em seu cavalo, Sinclair partiu em direção ao Sudoeste. Combinara
um encontro com os amigos para seguirem juntos, mas resolveu não esperar. Cada
minuto poderia significar a diferença. Ele não descansaria enquanto não estivesse
com Victoria. E se ela pudesse perdoá-lo, nunca mais se afastaria de seu lado.

Por mais que Emma tentasse convencer Victoria a levar um acompanhante


em sua viagem de volta a Londres, ela insistiu que não havia necessidade. Não
conseguira conciliar no sono a noite inteira. Sinclair não acreditara que Kingsfeld
fosse culpado. Precisava salvá-lo. Amava-o como jamais poderia amar outro ser
humano.
Depois de cavalgar por cerca de quatro quilômetros, Victoria se deteve no alto
de uma colina e estudou a paisagem. Dava para ver a estrada. Não havia ninguém à
vista. Se o tempo continuasse ajudando, calculava chegar a Londres ao anoitecer.
Uma sensação de frio e de terror se apoderou de seu corpo. Alguns homens
acabavam de surgir de uma curva. Ela reconheceu o mais alto deles por seu porte,
embora estivesse distante. Thomas o retratara em um de seus desenhos.
Era Kingsfeld, montado em seu cavalo. E ele estava seguindo em direção a

Projeto Revisoras 148


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Althorpe House.
O ar faltou a Victoria. Estava a salvo. O conde não a encontraria. Mas e
Augusta e Christopher? Eles não tinham a menor idéia de quem lorde Kingsley era
na verdade. Sinclair já havia perdido o irmão mais velho. Não suportaria perder mais
nenhum ente querido. Ela levava vantagem sobre o conde e seus homens. Se
corresse, chegaria a Althorpe antes deles.
Victoria reconheceu a propriedade pelos desenhos que Thomas lhe mostrara.
O lago, os pinheiros e os campos que se estendiam ao horizonte lhe pareciam
familiares como se já os tivesse visitado anteriormente.
A casa era branca e magnífica, mas não havia tempo para admirá-la. Assim
que apeou, Victoria bateu à porta com força.
— Milady! — Roman exclamou, atônito. — Por Deus, o que está fazendo
aqui?
— Kingsfeld está vindo para cá! Onde estão Augusta e Christopher?
— Lá dentro, almoçando. Kingsfeld a viu, milady?
— Não creio. Quantos criados há na casa?
— Meia dúzia. Quatro homens e duas mulheres. O conde estava sozinho?
— Não. Três homens o acompanham.
Christopher entrou na sala naquele instante e ficou ainda mais espantado do
que Roman com a presença inesperada de Victoria.
— A situação é grave — ela avisou. — Kingsfeld está a caminho daqui.
— Kingsfeld? — Christopher repetiu, ainda mais perplexo. — Por que você
está se referindo a ele nesses termos? Astin é nosso amigo e...
— Ouça o que ela tem a nos dizer, Christopher — Augusta interrompeu o
neto, assustada com a palidez de Victoria.
— Sinclair e eu achamos que foi Kingsfeld quem matou Thomas.
— Meu Deus! — murmurou Augusta.
— Eu não acredito! — retrucou Christopher.
— Cale-se! — a avó o repreendeu. — Eu confio em Victoria. Na ausência de
seu irmão, vamos acatar o que ela nos disser.
— Há vizinhos a quem possamos recorrer? — Victoria perguntou.
— Não. — Christopher moveu negativamente a cabeça. — Estão todos em
Londres para a temporada.
— Eu vou preparar a carruagem. — Roman se dirigiu à porta. — Precisamos
sair daqui.
Victoria o deteve.
— Os cavalos estão cansados. Eles nos alcançarão. Não teremos nenhuma
chance.
— A casa é imensa. Talvez possamos nos esconder — sugeriu Augusta.
— Lady Drewsbury está certa — concordou Roman.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— E quem é você para dar opinião? — Christopher questionou, até aquele


instante supondo ser Roman um simples lacaio.
— Ele trabalhou com Sinclair no Ministério da Guerra — explicou Victoria.
— Sinclair? Um espião? — Christopher pestanejou. Um tropel de cavalos
anunciou a aproximação dos malfeitores. Fez-se um súbito silêncio. Victoria foi a
primeira a reagir.
— Para cima, todos! Agora! Roman empunhou a pistola.
— Eu ficarei aqui para recebê-los.
— Não — disse Victoria. — Você subirá com eles para protegê-los.
— E quem a protegerá, milady? — Roman questionou, aturdido.
— Eu me protegerei — Victoria afirmou em tom de desafio. Mas Roman era
mais forte. Sem dizer nada, ele a pegou pelo braço e a empurrou em direção à
escada.
— Para cima. Eu protegerei a todos.
A casa parecia estar deserta. Kingsfeld sorriu consigo mesmo ao subir os
degraus. Com exceção de uma égua solta no pátio, não parecia haver ninguém. Ele
apeou e, para sua surpresa, descobriu que o animal estava banhado em suor.
Alguém acabara de chegar. Também teria uma surpresa. Seria morto com o resto da
família.
A porta da frente estava entreaberta. Kingsfeld deu uma olhada pela fresta e
constatou que não havia ninguém no hall de entrada. Fez um sinal para que seus
homens o seguissem e fechou a porta. Se alguém tentasse sair, ele ouviria.
Sinclair tentara bancar o esperto e seu esquema se voltara contra ele próprio.
As acusações contra Marley o delataram. Assim que soube que não apenas Vicky,
mas também Augusta e Christopher haviam deixado Londres na manhã seguinte ao
jantar, o conde adivinhou a intenção de Sinclair. A prisão de Marley o teria
convencido se o escritório dele não tivesse sido revirado. Mas o mais importante era
que Sinclair ainda não possuía provas concretas contra ele, ou o teria mandado
prender em vez de Marley. Era preciso desviar suas atenções com urgência. Um
incêndio em Althorpe House daria conta do recado e lhe proporcionaria o tempo
necessário para reunir o restante das evidências contra Marley, o mais perfeito bode
expiatório que poderia existir.
Victoria nunca se sentira tão amedrontada em sua vida. Nem tão furiosa.
Kingsfeld e os outros homens não tinham o direito de estar ali, ameaçando a vida de
seus familiares e de seus criados. Eles eram sua responsabilidade e de Sinclair. E
como Sinclair não estava presente, cabia a ela protegê-los.
— Roman — chamou com um sussurro.
— Não tenha medo, milady. — O valete saiu de trás de um guarda-roupa e foi
para perto de Victoria.
— Não fale! Nós precisamos capturá-los vivos.
— Vivos?
— Sim. Não temos certeza de que Sinclair conseguiu evidências suficientes
para mandar prender Kingsfeld.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Perdoe-me, milady, mas trata-se de um caso de vida ou morte. Eu a


protegerei a qualquer preço, como Sinclair me ordenou.
Victoria sentiu a emoção transbordar em seus olhos, mas rapidamente se
controlou.
— Você fará o que eu mandar. Sinclair não quer vingança; ele quer justiça.
Preciso de sua ajuda.
— Está bem, milady — Roman concordou com um suspiro. — O que quer
que eu faça?
Um rangido fez Victoria e Roman se calarem e aguçarem os ouvidos. Um
imenso alívio inundou Victoria ao deparar com o cunhado.
— O que foi, Christopher?
— Eu quero ajudar. Se Kingsfeld traiu meus irmãos, ele também me traiu.
— Eu preciso de toda ajuda que puder obter, desde que você prometa ter
cuidado.
— Se os quisermos vivos, teremos de lidar com um de cada vez — observou
Roman.
Até que passos na escada alertassem o grupo para a aproximação do perigo,
Augusta também se apresentara para colaborar com o plano de defesa. Victoria
preferiria enfrentar Kingsfeld sozinha com Roman, mas não tivera coragem para
recusar a oferta de apoio de sua família. Ela sabia o quanto doía uma rejeição.
O quarto onde eles haviam se abrigado era o oitavo ao longo do corredor. A
criadagem ocupava o último. Victoria receou explodir de tensão ao ouvir Kingsfeld
abrir a quinta porta. Deveria ter escolhido o primeiro dormitório. Não entendia como
Sinclair pudera suportar uma espera de dois anos.
— Pronta? — Roman sussurrou de trás da porta. Victoria fez que sim. Não
conseguiu falar. Sua vida e a de todos naquela casa estava em jogo. Não poderia
haver nenhum erro. Não haveria outra chance para eles.
A maçaneta girou lentamente. Victoria prendeu o fôlego. Estava sentada na
cama. Assim que a porta fosse aberta, se tornaria um alvo. Se Roman não fosse
rápido, ela não teria para onde escapar.
Um sujeito grandalhão colocou a cabeça pela abertura da porta. Embora
esperasse encontrar alguém, pareceu surpreso ao deparar com Victoria. Roman
aproveitou essa distração para bater nele com um pedaço de pau.
Christopher saiu de baixo da cama e ajudou Roman a puxar o homem para
dentro do quarto e amarrá-lo com o pingente da cortina. Augusta saiu de dentro do
guarda-roupa e tornou a fechar a porta. Roman examinou a arma que o assaltante
trazia e entregou-a a Christopher.
A porta foi escancarada de repente. Victoria deu um grito e tombou na cama.
Antes que pudesse rolar para descer pelo outro lado, Kingsfeld se jogou por cima
dela e imobilizou-a pelos braços. Tentou mordê-lo para se defender e levou uma
bofetada.
Aturdida, Victoria parou de lutar. Kingsfeld a puxou de maneira que voltasse a
ficar sentada. Ela pestanejou ao ver um segundo homem, parado junto da porta,

Projeto Revisoras 151


Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

com uma pistola apontada para Christopher e para Roman.


— Não atire! Nós nos rendemos! — implorou, mortalmente pálida.
— Astin, o que significa isto?!
O protesto foi tão veemente quanto inesperado.
Kingsfeld olhou para trás e viu Augusta, perto da janela, com um vaso nas
mãos. Victoria sentiu uma grande admiração pela avó de seu marido. Sinclair
certamente herdara sua força de caráter.
— Isto significa, minha cara Augusta, que seu neto não me deixou escolha.
Largue esse vaso!
Lady Drewsbury depositou o objeto em cima da cama. Seu cenho estava
franzido.
— O que pretende fazer agora, seu assassino?
Em resposta, Kingsfeld deu uma risada sarcástica e puxou Victoria pelos
cabelos, ordenando que os demais o seguissem. Victoria pensou que desfaleceria,
mas obrigou-se a não perder a esperança. Seu coração lhe dizia para ter fé.
— Abaixe-se!
Tudo aconteceu muito rápido. Victoria se deixou guiar pelo instinto. Sinclair
ficara escondido junto da porta de modo a render os atacantes quando eles menos
esperavam. Ela fez o que o marido mandava, sem parar para pensar. Ato simultâ-
neo, o punho de Sinclair bateu contra o queixo do conde.
Antes que Kingsfeld tivesse chance de reagir, Victoria se atirou contra o
segundo homem, golpeando-o com o joelho entre as pernas. O homem se dobrou
de dor e ela montou em suas costas. Ao se desequilibrar, o homem caiu sobre
Christopher, que bateu a cabeça contra o criado-mudo, lançando Victoria contra o
guarda-roupa. Uma forte dor no braço e no ombro a impediu de continuar lutando. O
homem se preparou para tornar a atacá-la. Nesse instante foi atingido pelo vaso de
Augusta.
Um tiro foi disparado. Victoria deixou escapar um grito de terror e de angústia
e se precipitou para a porta. Sinclair e Kingsfeld estavam lutando no corredor. A
pistola estava no chão. Devia ter disparado ao cair.
Victoria queria implorar para que Sinclair tivesse cuidado, mas receava
distraí-lo. Mas foi mais forte do que ela.
Kingsfeld estava esticando um dos braços para trás e tirando uma faca da
cintura.
— Sinclair!
Ele se abaixou no instante exato em que Kingsfeld tentou apunhalá-lo.
Empurrou-o então com toda a sua força. O conde rolou pela escada e ficou caído no
último degrau com a cabeça em uma estranha posição.
— Você acha que o tombo o matou? — Victoria perguntou com um fio de voz,
do alto da escada.
Sinclair havia descido para examinar Kingsfeld. Ergueu o rosto para Victoria e
fez que sim.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Ainda há outro homem na casa.


— Eu o peguei na sala de estar. Não tenha receio. O sujeito não voltará a si
tão breve.
Embora seus cabelos estivessem desgrenhados, Victoria estava mais bonita
do que nunca. Sinclair não conseguia afastar os olhos de sua esposa. Era um
homem de sorte. Temera não chegar a tempo de salvá-la, de lhe pedir perdão e
tentar lutar pela felicidade que Victoria lhe dera e ele não fizera por merecer.
Ele subiu os degraus. Hesitou ao chegar ao último. O olhar de Victoria era
indecifrável.
— Victoria...
Ela não respondeu. Atirou-se nos braços dele e soluçou.
— Você está bem? Pelo amor de Deus, diga que sim!
De olhos fechados, Sinclair sentiu o amor e o alívio transbordarem em seu
peito.
— Eu sinto pelo que houve. Eu sinto muito.
— Nunca mais minta para mim.
Houve um súbito silêncio, e Sinclair engoliu em seco.
— Isso quer dizer que você vai me dar outra chance?
— Eu não tenho escolha. Eu amo você.
Sinclair abraçou Victoria como se não quisesse nunca mais soltá-la.
Escondeu o rosto em seus cabelos e precisou confirmar o que já sabia, mas não
conseguia acreditar.
— Você me ama? Apesar de tudo que aconteceu? Duas lágrimas deslizaram
pelas faces de Victoria.
— Eu peguei um cavalo emprestado de Emma para voltar a Londres e para
você. Surpreendi Kingsfeld no caminho e corri para avisar sua família.
— Você arriscou sua vida para salvá-los. Para me salvar.
— Como você — Victoria murmurou.
— Eu te amo... Eu te amo demais!
Um beijo ardente os uniu. Sinclair tornou a beijá-la. O futuro sorria para eles.
Victoria continuava querendo-o.
— Sinclair, há algo que eu preciso lhe contar...
— Eu já soube a novidade.
— Você sabia e mesmo assim me afastou? — A indignação ameaçou trazer a
antiga Vicky de volta.
— Oh, não. Eu soube ontem à noite por lady Kilcairn. Depois que ela me deu
um soco.
Victoria se dividiu entre o riso e as lágrimas de emoção.
— Alexandra fez isso?

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

Sinclair concordou com um gesto de cabeça.


— Ela estava zangada comigo. Não era para menos.
— Sinclair olhou nos olhos de Victoria. — Você percorreu uma longa distância
a cavalo. Tem certeza de que está bem? Uma mulher no seu estado...
— Eu estou bem... agora. Sinclair beijou-a muitas vezes.
— Se quiser me bater, não tentarei nenhum tipo de defesa. Mereço um
castigo. Eu a magoei demais.
— Eu estava magoada e furiosa com você, mas não estou mais. Como se
convenceu de que eu estava certa sobre Kingsfeld?
— A pergunta seria quem me convenceu. Você. Eu confiei em seus instintos,
Victoria, e comecei a investigá-lo. Descobri que ele era dono de uma fábrica de
lâmpadas em Paris.
— Kingsfeld matou seu irmão por causa de lâmpadas? — Victoria questionou,
horrorizada.
— Não. Por coincidência eu visitei a fábrica uma vez, por causa de uma
aposta que fiz com um dos generais de Bonaparte. Eu venci e ele teve de me dar
um rifle em pagamento. Levou-me a uma fábrica de munições. Eu só descobri
alguns dias atrás que a fábrica de lâmpadas funcionava naquele endereço.
— Você acha que Thomas também tomou conhecimento dessa situação?
— Talvez não. Talvez Astin tivesse ficado com medo por Thomas estar
chegando muito perto da verdade. Aparentemente Thomas pretendia apresentar
uma lista à Câmara com os nomes de todos os ingleses que possuíam
investimentos na França.
— Seu irmão suspeitava de Astin, ou não teria sentido necessidade de
esconder aqueles papéis.
Augusta e Christopher se aproximaram naquele instante. Sinclair os abraçou.
— Peço que me perdoem por não lhes ter contado. Era perigoso.
Uma porta foi bruscamente aberta no andar de baixo. Antes que Christopher
terminasse seu protesto, a voz de Crispin ecoou pelas dependências.
— Sinclair?
— No andar de cima. Está tudo bem.
Victoria sorriu. Seus olhos brilhavam.
— Mais do que bem.
Crispin andou com passos acelerados até a escada. Deteve-se ao deparar
com o corpo de Kingsfeld.
— O mal se voltou contra ele mesmo — Crispin murmurou. — Nós tememos
por vocês. Ouvimos um tiro.
Alguns segundos depois, Wally e Bates se juntaram ao grupo.
— Estou ficando velho demais para isso — Wally confessou.
Sinclair bateu no ombro do amigo e em seguida enlaçou Victoria pela cintura.

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Suzanne Enoch - Encontro a meia-noite (CH 416)

— Faça como eu. Estou me aposentando neste momento.


— Você ainda não pode se aposentar, Sinclair — Crispin retrucou. — Existe
uma pendência a ser resolvida em Londres.
Sinclair não respondeu. Estava farto de ser um espião. Recusava-se a passar
o resto de sua vida olhando para o passado, jurando vingança e dizendo mentiras.
Queria poder olhar para o futuro e cuidar de sua esposa, de seus filhos, dos animais
que Victoria adotara e dos outros que ainda chegariam.
— A que pendência você se refere? — Foi Victoria quem perguntou.
— Marley — respondeu Wally.
— Marley? O que ele fez? — Victoria estranhou que o nome do amigo
voltasse à baila após o crime ter sido desvendado.
— Nada — Sinclair respondeu com constrangimento. — Nada, exceto tentar
roubar você de mim.
— Ele nunca teve essa chance. — Victoria foi sincera.
— De qualquer forma, eu mandei que o prendessem; para enganar Kingsfeld.
Preciso voltar a Londres para soltá-lo.
— Pobre Marley — Victoria respondeu com um sorriso brejeiro, irresistível,
que Sinclair precisou beijar.
— A partir deste momento, espero que reserve suas aventuras apenas para
mim. Sou seu marido e me reservo o direito de ser o único homem em sua vida. A
não ser que você esteja pensando em me dar outros filhos. Algo me diz que desta
vez uma menina de cabelos pretos e olhos cor de violeta está a caminho.
Victoria abraçou-o rindo.
— É uma promessa.

Projeto Revisoras 155