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A Irmandade dos homens pretos[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Irmandade dos homens pretos


As irmandades de homens pretos surgiram na América colonial no período escravocrata
como forma de socialização, resistência e cooperação entre escravos e os alforriados[1]. A
figura da Mãe de Deus, representada pelo rosário, destacou-se fortemente nos cultos
dessas irmandades por dois motivos: uma catequização dos escravos, quanto à
importância da Virgem Maria, que vinha sendo feita pelos portugueses desde as Costas
africanas[2]; e pela adoção comunitária de um único santo (denominado patrono), que
embasaria o culto, tipicamente banto, em torno de um ancestral comum[1].
A associação de irmandades, que no geral eram muito pobres e não contavam com posses
territoriais, era muito comum, pois permitia que diferentes associações religiosas
utilizassem o mesmo templo. Um exemplo é a Irmandade de Santa Ifigênia (uma princesa
Núbia que foi catequizada), que, sendo a maior e de mais destaque entre as irmandades,
ficou responsável por outras agremiações menores[2].A atual Igreja Nossa Senhora do
Rosário dos Homens Pretos, por exemplo, é considerada uma capela dependente da Igreja
paroquial de Santa Ifigênia[3].
Um exemplo da mistura entre as divindades católicas e pagãs nos cultos dos homens
pretos era a substituição de nomes de santos católicos por nomes da tradição negra. São
Benedito era chamado de Lingongo; Santo Antônio de Vereque; e Nossa Senhora das
Dores de Sinhá Samba[4]. Esse sincretismo religioso era necessário quando as religiões de
matriz africanas eram negligenciadas pelos homens brancos no Brasil (normalmente os
donos de escravos, senhores de engenho). [5]

A primeira igreja[editar | editar código-fonte]


A primeira Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi fundada pela
Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no século XVIII. Sua história
começou com uma petição da Irmandade, no ano de 1721, ao então rei de Portugal, Dom
João V, pedindo permissão para construir um templo "que pudesse solenizar os mistérios
do Rosário da Mãe de Deus"[6]. Apesar de não haver registros da resposta real, presume-
se que ela tenha sido favorável, uma vez que nos anos subsequentes começou um
processo de arrecadação de fundos para a construção da igreja. Nesse mesmo ano,
enquanto não tinham os recursos necessários nem a permissão oficial da realeza, os
escravos, proibidos de frequentar as igrejas dos brancos, construíram uma pequena capela
nas proximidades do ribeirão do Anhangabaú[6]. Na época, tratava-se de um subúrbio da
cidade reconhecido pelas reuniões de escravos e de alforriados[7].Essa primeira igreja foi
construída de taipa de pilão e tinha características predominantementes barrocas[8].
O processo de arrecadação de dinheiro começou em 1725, quando o ermitão Domingo de
Melo Tavares, devoto da Irmandade dos homens pretos, começou uma peregrinação pelo
estado de Minas Gerais recebendo esmolas em nome da Irmandade. Nesse mesmo ano a
Irmandade pediu um terreno para a Câmara Municipal de São Paulo (CMSP) para que a
igreja pudesse ser construída. O pedido foi visto com simpatia por D. Antônio de
Guadelupe, bispo de São Paulo, que os ajudou a conseguir o tereno[6]. No Livro do Tombo
da Sé há uma referência ao fato: ele diz que a Virgem do Rosário foi "colocada pelos
pobres escravos e pretos com toda a devoção na Capela que edificarão por graça do Ex.
Snr. d. Antonio de Guadelupe"[2]. Como a irmandade era muito pobre, constituída pelos
escravos e alforriados, quase todos os elementos que compunham a primeira igreja, como
móveis, madeira, imagens de santos, tecido, toalhas e bordados para o altar, entre outros
foram adquiridos através de doações[8].
Foi esse terreno, no qual a primeira capela tinha sido construída, que foi doado pela
Câmara de São Paulo para a Irmandade em 10 de julho de 1728. Somado aos 10 mil
cruzados que o ermitão Tavares recolhera de doações em Minas Gerais, a posse legal do
terreno permitia a construção de uma igreja canônica. As obras começaram nesse ano, e
há registros de terem acabado apenas em 1737[2]. A conclusão das obras foi comemorada
com a celebração de uma missa seguida da festa de Congos (congada)[8]. As outras
referências à igreja registradas são de épocas bem posteriores: há duas cartas registradas
na Câmara em 1750 e, em 1783, ela figura em uma relação de templos paulistas feita por
Manuel Cardoso de Abreu[2]. Em 5 de novembro de 1745, o ermitão que arrecadou os
fundos para ereção da igreja foi nomeado Administrador Perpétuo das Obras da Igreja
Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
O antigo templo ficava na atual rua 15 de Novembro, região central da cidade de São
Paulo, na esquina com a atual Praça Antônio Prado. Sua fachada ficava na rua 15 de
Novembro, e era formada por quatro janelas, uma torre do lado esquerdo, que possuía
uma janela baixa, e duas portas. Sua outra face, voltada para o Largo do Rosário, possuía
uma porta de entrada para a sacristia e uma janela acima desta. A capela-mor possuía
seis tribunas e um altar com painel da N. S. do Rosário, ao lado de S. Roque e S. Antônio. O
corpo da igreja possuía quatro tribunas, dois púlpitos e dois altares, sendo um para Bom
Jesus da Prisão, Santa Ifigênia e Santo Elesbão e outro para o Sagrado Coração de Jesus. A
capela do Bom Jesus da Pedra Fria ficava à esquerda da igreja, sendo o outro lado tomado
pela sacristia e um altar de Nossa Senhora das Dores[9].
A criação de uma igreja apenas para os negros evidencia dois traços importantes da
época: o número crescente de escravos que eram trazidos para São Paulo; e a capacidade
de associação e cooperação entre si[10]. Nas palavras da pesquisadora Fernandes, a
criação dessa igreja “constitui-se como entidade de união e auxílio mútuo de forros e
escravos da cidade, atuando ainda como promotora de alforrias e participando das
atividades abolicionistas”[3].
Festas e sincretismo religioso[editar | editar código-fonte]

As festas realizadas na primeira igreja da Irmandade dos homens pretos revelavam grande
sincretismo religioso entre o catolicismo e as crenças africanas da etnia bantu[11], pois
grande parte dos escravos trazidos para São Paulo vinham do atual Congo, de ascendência
bantu. As festas eram conhecidas pela eleição de um rei, uma rainha e uma corte; a venda
de quitutes tradicionais da África; os leilões ao som de tambaques; o manuseio mútuo de
terços católicos e peles de lagarto ou sapo, figas da guiné, olhos-de-cabras e pés de
galinha, tradicionais elementos da religião bantu; a encenação da congada e a
participação de grande parte dos moradores locais, que sempre observavam as
festividades[6]. A procissão da Nossa Senhora do Rosário era a principal festa da
irmandade. Era caracterizada pelas músicas de diversos ritmos, como os batuques,
sambas e moçambiques; as danças entusiasmadas de mulheres que vestiam lenços
brancos na cabeça, colares e pulseiras de ouro e rosários de contas vermelhas; e os
grandes banquetes na cada do rei e da rainha, onde eram servidos cachaça e quitutes
típicos[4]. Como alguns desses ritmos musicais eram muito reprimidos pela polícia, devido
a reclamações de moradores e sua associação com a religiosidade africana, a dança dos
Caiapós também foi adotada pela comunidade como uma forma de expressar sua
religiosidade[12].
A imersão dos moradores locais nos ritos e festas dos "pretos do rosário" foi marcada
também pelo aparecimento dos "escravos de ganho", que eram negro alforriados,
contratados por pequenos comércios, para vender doces, mandioca, pinhão, milho, frutas
e legumes ao redor da igreja[10]. Também era muito comum a construção de casebres
humildes ao redor da igreja, onde moravam os ex-escravos[2]. Muitos observadores da
época registraram a participação de escravos nessa festas, que eram vistas pelos
senhores de escravos como momentos de "alívio do cativeiro"[2].
O cemitério, construído ao lado da igreja logo após sua finalização, também ocupava um
importante papel na vida religiosa daquela comunidade. Na sacristia havia uma gamela
para lavagem dos defuntos e um caixão de madeira que transportava os corpos até as
covas. Tal caixão era usado em todas as cerimônias, uma vez que os mortos eram
enterrados apenas com lençóis. Os enterros começavam sempre de madrugada e eram
caracterizados por um líder religioso que entoava canções identificadas como sendo do
candomblé; o acompanhamento das músicas pelos presentes; e um batuque produzido
pelos "mãos-de-pilão", que socavam a terra que ia sendo jogada em cima da cova[4].
Diversos registros da época relatam o medo e apreensão que os moradores locais tinham
com esses ritos, pois acordavam de madrugada ouvindo batuques associados ao
paganismo e canções em outra língua[2].

Modernização de São Paulo[editar | editar código-fonte]


A partir de finais do século XIX e início do XX, a cidade de São Paulo passou por um
processo de modernização que implicou no realojamento da igreja em outra localidade. O
primeiro passo do processo deu-se em 1870, quando o então presidente da província, João
Teodoro, decidiu demolir alguns casarios antigos e desapropriar o cemitério de escravos,
adjacente à antiga igreja, para a criação do Largo do Rosário. Essa desapropriação foi
muito mal recebida pelos irmãos pretos, pois o cemitério tinha uma importante função no
culto aos mortos, como seguiam das tradições africanas bantos[3].
As mudanças profundas, no entanto, viriam nos anos 1900, quando o primeiro prefeito de
São Paulo, Antônio da Silva Prado, decidiu implantar na região um replanejamento
urbanístico para modernizar a cidade. Seu projeto incluía uma ampliação do Largo do
Rosário, que seria renomeado de Praça Antônio Prado em 1905, para melhorar a
confluência do trânsito de veículos e pedestre no centro; a ligação do Triângulo
Histórico com o Pátio do Colégio; a arborização de diversas praças, como a da Luz e da
República; a reforma e alargamento da Praça da Sé; a construção da Praça do Patriarca e
do Viaduto Santa Ifigênia; e a criação de jardins ao redor de todo o centro[13].
Dessa forma, em 1903 a Câmara Municipal votou a lei nº 607, que declarava de interesse
público a desapropriação dos bens da Irmandade Nossa Senhora do Rosário dos Homens
Pretos para ampliação do Largo do Rosário. A indenização foi de 250 contos de réis mais o
terreno no Largo do Paiçandu, onde se encontra atualmente a igreja[6]. Enquanto a nova
igreja era construída os ritos dos homens pretos ocorreram na Igreja de São Bento de
Pedra, localizada na Praça da Sé[14].
Para alguns autores, a medida correspondeu a uma sanção moral, disciplinar e higiênica
das autoridades, que pretendiam reprimir as manifestações de religiosidade africana e os
aglomerados de pessoas consideradas "selvagens" e de "classes perigosas", segundo os
cronistas da época[13]. Os relatos da época de moradores do Largo do Rosário reclamando
das cantorias noturnas dos pretos, que realizavam seus ritos fúnebres com batidas e
cantigas nos cemitérios, também reforça a ideia de certa sanção moral[2]. Tal opinião
ainda pode ser fortalecida pelo projeto de lei, que surgiu alguns anos depois, que proibia
batuques cateretês dentro da cidade[15].
A área ocupada pela antiga igreja sofreu, no início do século XX, uma expansão e
supervalorização. Diversos comércios surgiram no local e cada vez mais pessoas brancas,
ricas e aristocráticas circulavam por aquele meio, de maneira que o deslocamento da
Irmandade pode ser visto como uma medida higienista do governo. Como conclui
Casablanca de Paula, ao analisar o que significou essa modernização, "os 'benefícios' que
ofereceu à cidade a transferência dessa comunidade negra faziam parte de um acordo
tácito entre as elites e aqueles que menosprezavam esse grupo étnico, considerado
inferior aos demais"[16].
Outra polêmica envolvendo a medida foi o fato do antigo terreno da irmandade ter sido
doado a Martinico Prado, irmão do prefeito. No local foi construído o Palacete Martinico
Prado, que já foi utilizada pelo Citybank e atualmente acolhe a Bolsa Mercantil e de
Futuros[17].
A nova igreja[editar | editar código-fonte]
Com a doação de terras e os 250 contos de réis, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos
Homens Pretos começou a ser construída em 24 de julho de 1904 no atual Largo do
Paiçandu. A medida envolveu muitas polêmicas com os moradores locais, que alegavam
que uma igreja na praça iria acabar com a beleza do local[2].
A construção demorou alguns anos, devido a complicações no novo terreno, que era
encharcado por causa de alguns córregos que por lá passavam. A cobertura do novo
templo foi feita em 7 de janeiro de 1905. E mais de um ano depois, em 15 de abril de
1906, a nova igreja estava concluída. Essa data foi marcada pela bênção do Capelão João
Nepomuccno Manfredo Leite do novo templo. No dia 21 de abril, 6 dias depois, houve o
translado das imagens da Igreja de São Bento de Pedra, onde a irmandade estava
instalada, para a nova igreja. Essa transferência foi marcado por uma grande procissão,
que foi acompanhada pela banda do Maestro Carlos Cruz e recebida no Largo do Paiçandu,
no bairro de Santa Cecilia-centro, por salva de 21 tiros[14]. A figura de destaque nessa
procissão foi a Santíssima Virgem do Rosário, sua Oraga, santa que batizou a igreja[18].
Entre as imagens e símbolos característicos da antiga igreja que foram mantidas estão: os
altares de Nossa Senhora da Dores; a capela do Bom Jesus da Pedra Fria; um painel de
Nossa Senhora do Rosário; um cruzeiro de ferro que servia de ponto de referência aos
antigos moradores do Largo do Rosário[2].
A igreja correu outro risco de ser desapropriada na década de 40, quando a prefeitura
avaliava a instalação do Monumento a Duque de Caxias, de Brecheret, no atual lugar em
que a igreja fica. Um dos motivos dessa escolha era que o terreno havia sido doado em
comodato, o que significava que a indenização a pagar seria muito pequena. A mudança
da prefeitura foi o que salvou a nova igreja, pois, com as mudanças governamentais, a
estátua só seria instalada na década de 60 na Praça Princesa Isabel[14].
Diferentemente da primeira igreja, que foi construída pelos próprios fiéis por conta da falta
de verba, a nova igreja foi erguida pela companhia Rossi & Brenni, contratada com o
dinheiro que a Irmandade recebera de indenização. A empresa foi escolhida através de um
concurso promovido pela Irmandade, em que os interessados analisam a planta da nova
igreja (desenhada pela prefeitura) e entregavam suas propostas aos homens pretos[18].