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UNIVERSIDADE REGIONAL INTEGRADA DO ALTO URUGUAI E DAS

MISSÕES
PRÓREITORIA DE ENSINO, PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
CÂMPUS SANTIAGO
CURSO DE PSICOLOGIA

GEOVANE CAMPANHER DOS SANTOS

ANÁLISE EXISTECIALISTA-FENOMENOLÓGICA DO LIVRO METAMORFOSE

SANTIAGO RS
2017
1- INTRODUÇÃO

O livro Metamorfose, novela escrita por Franz Kafka e publicada pela primeira vez em 1915,
trata da história de Gregor Samsa, que trabalha como caixeiro viajante, embora detestando seu
trabalho, é responsável pelo sustento de sua família. Composta pelo Senhor Samsa, um
homem aparentemente idoso, obeso, ocioso, que não trabalhava há cinco anos desde a
falência de seu último negócio, pela Senhora Samsa, asmática que não fazia nada em casa por
conta de sua doença, precisava de uma empregada, Anna, e pela irmã Grete, uma menina de
17 anos, que tinha o sonho de ser violinista e tinha o costume de se maquiar e dormir até mais
tarde.

Devido a uma divida contraída por seu pai e assumida por seu chefe, Gregor em prol de sua
família, obrigava-se a trabalhar como caixeiro viajante, submetendo-se a cargas horárias
pesadas de trabalho e pressões morais de seu chefe. Sua vida era tomada por uma constante e
monótona rotina de levantar e pegar sucessivos trens diariamente, até que em certa manhã,
Gregor levanta e percebe que está se transformando em um inseto monstruoso, razão que fez
perder o horário de seu trabalho, algo que até então nunca havia acontecido. Isto foi motivo
para sua família estranhar e começar a chama-lo em sua porta, até o gerente de seu trabalho
foi à casa de Gregor investigar o acontecido, apesar da grande dificuldade em coordenar seu
novo físico, ele então abre a porta e todos se dão de frente com um enorme inseto, que ainda
aparentava pesar como um ser humano.

Logo após esse primeiro contato com a nova forma de Gregor, a família passa por um
processo de quebra da estagnação presente em sua casa, podendo ser considerada como um
processo secundário de metamorfose dentro do contexto do livro. Seu pai abandona a
ociosidade e volta a trabalhar, estando pronto para qualquer opção de trabalho, sua mãe
começa a costurar roupas finas para uma loja, sua irmã dá início aos estudos de estenografia e
francês, também conseguindo um emprego, passaram a controlar os gastos e se apoiarem de
forma mútua em suas tarefas, tanto quanto em humanizar suas relações, elogiando-se com
mais frequência.

Mas em contrapartida, Gregor é forçado a viver em isolamento, suscetível as mais diversas


agressões, principalmente por parte de seu pai, e durante a noite ficava escutando as conversas
de seus familiares lamentando sua triste realidade e a crescente intensão de livrar-se dele. Esse
estado de vigília aumenta quando a casa torna-se uma hospedaria e a necessidade de escondê-
lo se intensifica. A não aceitação com a metamorfose de Gregor faz com que as interações
com sua família tornam-se quase extintas, exceto por Anna que em alguns casos tentava
compreender sua situação, mas devido as drásticas mudanças físicas, pensava que seu irmão
já não existia mais e sua essência havia se dissipado com a transformação.

2- ANÁLISE DA OBRA

Durante o decorrer da História, é possível notar alguns pontos de ligação dos fatos ocorridos,
com ideias existencialistas e fenomenológicas, a seguir serão apresentados alguns trechos para
a explanação e compreensão destes conceitos introjetados de forma indireta pelo autor.

Em certo momento da obra, Gregor questiona-se o motivo de trabalhar em uma empresa cujo
um simples atraso, provocaria tanta suspeita e alvoroço, ao mesmo tempo em que se enxerga
condenado a continuar vinculado a ela, como se analogicamente uma força externa acima de
suas forças a tivesse colocado naquela situação, e que, portanto, nada poderia ser feito,
gerando uma aceitação de sua realidade.

O viés existencialista afirma que o covarde se faz covarde, que o herói se faz herói; existe
sempre, para o covarde, uma possibilidade de não mais ser covarde, e, para o herói, de deixar
de o ser (Sartre, 1987). Esta citação remete a ideia que a existência humana é fruto das
inúmeras escolhas realizadas durante nossas vidas, ele é o construtor e autor do seu existir,
podendo usufruir desta irremediável liberdade, inclusive escolhendo não ser livre, como no
caso de Gregor que escolhia uma passividade diante de sua família, sacrificando-se em algo
ao seu ponto de vista inautêntico, resultando num constante estado de angústia, vendo sua
liberdade sendo modelada pelo contexto social.

Este ponto acentua-se ainda mais na passagem em que Gregor relata que gostava de apoiar-se
na janela para observar a rua, na tentativa de remeter o sentimento de liberdade que tinha,
limitando-se a fazer isso à noite, em consideração aos seus pais, pois não queria causar alarde
em sua vizinhança. Mais uma vez constata-se a busca pela aprovação de seus pais, colocando
sua liberdade a mercê da modulação de terceiros, mesmo que sua transformação tenha lhe
oferecido um desligamento das suas obrigações com a família, abrindo um leque de novas
escolhas, e consequentemente dando mais possibilidades de escolhas financeiras para sua
família, Gregor decidiu virar prisioneiro em seu quarto. Pode-se ligar o fato de ter mais
possibilidade de escolhas e a sua consequência à Sartre, onde se entende que a escolha que o
homem faz compromete o seu ser em um devir, tendo responsabilidade por esta possibilidade
de escolha.
Chegando aos momentos finais da história, Gregor passa a encarar a morte como única forma
para dar fim ao seu sofrer e de sua família, nesse contato com sua finitude, ele passa a analisar
os acontecimentos de sua vida, tornando-se um ser para morte, fazendo uma alusão aos
conceitos de Heidegger, uma existência só pode tornar-se autêntica quando o indivíduo toma
a consciência de que é finito, encarando a morte como a possibilidade da impossibilidade, não
mascarando isto de forma impessoal. Desta forma, Gregor só conseguiu ver a vida de forma
intensa e real dando peso a seu viver atual e suas futuras ações, após ter tomado consciência
de seu inevitável destino, vendo que já não via a possibilidade de existir.

3- REFLEXÕES SOCIAIS

A Metamorfose traz de forma metafórica, uma análise de como os laços sociais, com a
crescente busca por autossatisfação, estão tornando as relações humanas frias e calculistas,
visando sempre um modo de se obter algum ganho, diminuindo ainda mais o grau de empatia
e coesão entre as pessoas. Um exemplo categórico disto, é a família de Gregor que frente a
visível insatisfação dele perante seu trabalho, tornavam-se apáticos a suas necessidades, pois
o único fator que prendia sua família a ele era os ganhos vindo de sua profissão, após sua
transformação, impossibilitado de realizar suas funções, sua família marginaliza aquele que
sempre foi sua base.

As poucas interações feitas com Gregor, depois de sua transformação, eram os cuidados de
sua irmã, que os fazia na esperança dele retornar a sua forma física normal e voltar a ser o
sustento da casa. Todos seus familiares ficam aliviados após sua morte, pois para eles já não
existia nenhuma utilidade em sua existência, visto que todos já estavam trabalhando e já não
precisavam de sua ajuda. Percebe-se um egoísmo explícito por parte de seus familiares,
devido à construção social vigente da busca incessável por ganhos, tornando as pessoas meros
objetos provedores de satisfação.

Kafka traz uma reflexão de como a sociedade moderna e suas imposições, transformam as
pessoas em seres alienados, ligados a uma rotina monótona, submissos na busca por um
sentido de sua existência, vivendo em um estado de inquietação e angústia contínua, sentindo-
se sempre a deriva, principal causa que vai levar Durkhein a criar o conceito de Anomia
Social, na sua obra O Suicídio.

Estas ideias também podem ser vinculadas ao conceito de tédio e desespero de Kierkgaard,
segundo ele, a decepção mais comum é não podermos ser nós próprios, mas a forma mais
profunda de decepção é escolhermos ser outro antes de nós próprios (Kierkgaard 1844). Esse
estado contínuo de angústia, e mesmice causada por um viver não autêntico, vai aos poucos
corroendo a subjetividade de cada sujeito, que em muitos casos, sem opção, se adequam as
normas sociais para sobreviver ao fluxo diário.

A metamorfose de Gregor também traz a reflexão de como a sociedade valoriza o externo,


deixando muitas vezes de admirar a essência de cada ser humano, impondo padrões e
forçando pessoas a colocarem-se a margem para não serem julgadas ou ocasionarem dor as
pessoas que as cercam.

4- CONCLUSÃO

Diante disso, pode-se concluir que a obra de Kafka traz um grande leque de reflexões das
relações sociais vigentes, evidenciando o jogo de interesses que as sustentam, como são
facilmente quebradas com algum advento fora da expectativa, descortina a supervalorização
do exterior, colocando em detrimento a real essência humana e expõe a dificuldade de
algumas pessoas de lidar com o inesperado. É um livro que apesar da data de sua publicação,
continua atual, provocando uma metamorfose diferente em cada um de seus leitores e abrindo
seus olhos para novos meios de encarar o contexto histórico-social de suas vidas.