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Bons professores em um terreno perigoso: rumo a

uma nova visão da qualidade e do profissionalismo*

Raewyn Connell**
Universidade de Sydney

Resumo

Ideias sobre o que caracteriza um “bom professor” são importan-


tes para se possa refletir a respeito da reforma educacional, e elas
têm ganhado destaque recentemente. Essas ideias são controver-
sas e estão abertas a mudanças. A primeira parte deste artigo
examina modelos do que é considerado um “bom professor” na
Austrália, desde os bons servidores da era colonial, passando pelo
ideal do professor erudito autônomo, até as atuais listas de com-
petências dos docentes. A segunda parte examina mais
detalhadamente o modo pelo qual as autoridades responsáveis
pelo registro e credenciamento de professores, em governos
neoliberais, definem um “bom professor”. A terceira parte oferece
propostas para uma nova compreensão do conceito de “bom pro-
fessor”, baseadas no entendimento do processo de trabalho e da
dinâmica ocupacional do ensino, na estrutura intelectual dos es-
tudos sobre a Educação e na própria lógica da educação como
um todo.

Palavras-chave

Trabalho docente — Ensino de qualidade — Profissionalismo — Po-


líticas neoliberais.

Correspondência:
Raewyn Connell
Faculty of Education & Social Work
University of Sydney
NSW 2006 Australia
e-mail: r.connell@edfac.usyd.edu.au

**Agradecimentos: Utilizei-me das ideias oferecidas em muitas contribuições aos seminários “Good
teacher” de 2008. Sou particularmente grata às apresentações de Craig Campbell, Susan
Groundwater-Smith, Jo-Anne Reid, Lesley Scanlon, Terri Seddon e Tony Welch, em cujas ideias este
artigo se baseia. Embora a responsabilidade final pelo texto seja totalmente minha, este artigo é uma
*Traduzido por Carlos Malferrari do ori- tentativa de sintetizar uma discussão multifacetada, e agradeço a todos que dela participaram. Meu
ginal em inglês fornecido pela autora, agradecimento especial ao grupo organizador que, ao longo do último ano, incluiu Di Bloomfield, Robyn
a ser publicado em Critical Studies in Ewing, Kelly Freebody, Debra Hayes, Lesley Scanlon, Geoff Sherington, Louisa Smith, Richard Walker e
Education, Sidney, Austrália. Deborah Young. Sou também grata pela colaboração dada por meu assistente de pesquisa, John Fisher.

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Good teachers on dangerous ground: towards a
new view of teacher quality and professionalism*

Raewyn Connell**
Universidade de Sydney

Abstract

Ideas about what makes a good teacher are important in thinking


about educational reform, and have come into focus recently.
These ideas are contested and open to change. The first part of this
paper traces models of the good teacher in Australia from the co-
lonial-era good servant, through an ideal of the autonomous
scholar-teacher, to contemporary lists of teacher competencies. The
second part looks more closely at the incoherent but insistent way
the good teacher is now defined under neoliberal governance by
teacher registration authorities. The third part of the paper makes
proposals for a new understanding of good teachers: based on
understanding the labour process and occupational dynamics of
teaching, the intellectual structure of Education studies, and the
overall logic of education itself.

Keywords

Teachers work — Good teaching — Professionalism — Neoliberal poli-


cies.

Contact:
Raewyn Connell
Faculty of Education & Social Work
University of Sydney
NSW 2006 Australia
e-mail: r.connell@edfac.usyd.edu.au

**Acknowledgments: I have used the ideas offered in many contributions to the seminar “Good
teacher” in 2008. I am particularly grateful to the presentations of Craig Campbell, Susan
Groundwater-Smith, Jo-Anne Reid, Lesley Scanlon, Terri Seddon and Tony Welch, whose ideas in
*Traduzido pelo Sr. Carlos Afonso this article is based. Although the ultimate responsibility for the text is entirely mine, this article
Malferrari e revisado pelo prof. dr. Luis is an attempt to synthesize a multi-thread, and I thank all who participated. My special thanks to
G. Fragoso, do original em inglês forne- the organizing group that over the last year, added Di Bloomfield, Robyn Ewing, Kelly Freebody,
cido pela autora a ser publicado em Debra Hayes, Lesley Scanlon, Geoff Sherington, Louisa Smith, Richard Walker and Deborah Young.
Critical Studies in Education, Sidney, I am also grateful for the cooperation given by my research assistant, John Fisher.
Austrália.

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O bom professor e a nova Council of Australia, 2008).
regulamentação Todas essas discussões partem do pressu-
posto de que — como foi afirmado, de modo tão
Nos últimos anos, os professores e a qua- incisivo, pela OECD (2005) — “os professores são
lidade da prática docente tornaram-se o foco de importantes”. O relatório da OECD fez um resu-
um amplo debate sobre políticas de ensino. Em mo da vasta pesquisa sobre os fatores
2002, a OECD1 deu início a um grande projeto determinantes do aprendizado, afirmando que,
sobre políticas de ensino, que acabou envolven- embora as maiores variações de resultados decor-
do 25 países e cujos resultados foram publicados ram da origem socioeconômica e das habilidades
em um volume intitulado Teachers matter2 (OECD dos alunos, o fator mais importante e “potenci-
2005). O debate acadêmico sobre profissionalismo, almente suscetível à influência de políticas públi-
padrões de ensino e impacto da globalização no cas” é o ensino e, em particular, a “qualidade dos
magistério acontece em nível internacional como professores” (p. 26). (Note-se o pressuposto de
mostra o recente Handbook of teacher education que a origem socio-econômica e as habilidades
de Townsend e Bates (2007). não são suscetíveis à influência de políticas
Na Austrália, o foco deste artigo, todos públicas. Voltarei a essa questão). Existe um
os estados e territórios começaram recentemen- amplo consenso. Pesquisadores que se opõem
te a se preocupar com a avaliação, as respon- frontalmente à postura tecnocrática da OECD
sabilidades e a prestação de contas dos profes- argumentaram em termos bastante similares
sores, como observam Kleinhenz e Ingvarson recentemente:
(2004) — autores que defendem um sistema
nacional de certificação e avaliação do magis- Além da origem familiar, são os bons profes-
tério. Em 2003, um conselho australiano, com- sores que fazem uma grande diferença nos
posto de secretários estaduais da educação3, resultados do aprendizado dos alunos. (Hayes
divulgou um documento que esboçava um pro- et al., 2006, p. 1)
grama nacional de “padrões de qualidade pro-
fissional”, que regulamentaria a certificação e a Tal consenso poderia sugerir que gover-
avaliação de professores. Quando o Departa- nos com a intenção de aperfeiçoar a educação
mento de Educação e Treinamento de Nova alocariam uma enorme quantidade de recursos
Gales do Sul iniciou um processo de consultas para a formação de professores. No entanto,
sobre as direções futuras da educação pública, isso não aconteceu.
deu início a um debate sobre mudanças na O que de fato ocorreu, na Austrália e
educação, parte do qual se voltou à discussão em outros países ricos, foi a criação de um
de um “ensino de qualidade” (good teaching, novo e grandioso aparato de certificação e re-
DET, 2005). O Parlamento Nacional realizou gulamentação do magistério. Institutos
recentemente uma investigação sobre a forma- estatutários foram montados e incumbidos de
ção de professores (House of Representatives, definir padrões mínimos para o ingresso na
2007). No âmbito federal, o Departamento de carreira; e a maneira como vêm fazendo isso já
Educação, Emprego e Relações no Local de Tra-
1. N.T. Organization for Economic Cooperation and Development ou
balho empreendeu uma nova tentativa de ava- Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
liar o trabalho dos professores (Owen et al., 2. N.T. Versão em português de Portugal: Os professores são impor-
2008). Até mesmo o Business Council, uma tantes: atraindo, desenvolvendo e retendo professores eficazes.
3. Conhecido como MCEETYA ( Ministerial Council on Employment,
organização capitalista que não se caracteriza Education, Training and Youth Affairs – Conselho Ministerial de Em-
exatamente pela preocupação com o interesse prego, Educação, Treinamento e Assuntos para a Juventude). Após a
abolição da Schools Commission [Comissão das Escolas], um órgão
público, divulgou um relatório sobre a qualida- de grande representatividade, este conselho se tornou o principal fórum
de do ensino chamado Teaching talent (Business para a elaboração de políticas educacionais australianas nas últimas
décadas.

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exerce um impacto nos programas universitá- tente” [competent craftsperson], o predileto do
rios de formação de professores. Cabe também governo; o modelo do “profissional reflexivo”,
a esses institutos a tarefa de definir graus mais disseminado nas universidades; e o modelo do
avançados de qualidade docente — o ponto- “professor carismático”, que circula na cultura
chave da agenda do Business Council — e o popular, em filmes de Hollywood etc.
modo como vêm fazendo isso provavelmente Fora do universo de língua inglesa, a di-
terá grande influência sobre as escolas na pró- versidade é ainda maior. A tradição
xima geração. confucionista chinesa, por exemplo, define o
Desse modo, o significado de “bom pro- “bom professor” como uma autoridade moral. É
fessor” tornou-se uma importante questão de por isso que a educação chinesa pressupõe tão
ordem prática. Conceitualmente, isso também é intensamente o respeito da parte dos alunos.
importante, pois os conceitos sobre o que cons- Por outro lado, um professor na tradição zen-
titui um “ensino de qualidade” são incorpora- budista chinesa e japonesa é menos uma auto-
dos aos projetos de instituições educacionais e ridade moral do que um revolucionário
estão por trás de nossas conversas sobre currí- cognitivo. Nessa tradição, o professor busca
culos, tecnologia educacional e reforma escolar. provocar uma mudança radical na percepção do
O propósito deste artigo é suscitar ques- aluno e, para tanto, pode recorrer a anedotas
tões acerca do que caracteriza um “bom pro- provocativas ou a paradoxos (Watts, 1957).
fessor” e como se pode estimular um “ensino No caso australiano, fica claro que o
de qualidade”. O artigo nasceu do debate pro- conceito de “bom professor” tem mudado ao
vocado pela série de seminários The good longo da história. No período em que o siste-
teacher 4, realizados na Universidade de Sidney ma público de ensino era criado pelos gover-
em 2008, e baseei-me nas ideias de muitos que nos coloniais, os programas voltados à relação
participaram dessas discussões. entre aluno e professor e os cursos de forma-
O artigo tem como foco a Austrália, um ção de docentes visavam apenas ao conjunto
país rico — ainda que dependente — da perife- limitado de habilidades pedagógicas exigido
ria global. Alguns detalhes de nossa história são em um currículo escolar rigidamente controla-
singulares, pois decorrem do período colonial do do. Esse sistema também apresentava uma
país. Entretanto, a agenda neoliberal que exer- grande preocupação moral, dando ênfase à res-
ceu tanto impacto sobre o país é internacional peitabilidade e à obediência (Hyams, 1979).
(Harvey, 2005; Rudd, 2009), e grande parte do Isso não foi casual. Os novos sistemas de
que é relatado aqui tem uma relevância que escolarização em massa foram intervenções em
transcende nossas fronteiras. uma sociedade colonial turbulenta e almejavam
o controle social dos jovens das zonas rurais e
Parte I: Em mutação, o conceito de das classes trabalhadoras, que poderiam facil-
“bom professor” mente evitá-lo. A capacidade de pensar de
modo independente era pouco valorizada. O
De servidor a professor erudito bom professor dessa época era, sobretudo, um
servidor obediente às autoridades.
Os conceitos sobre o que constitui um À medida que surgia a necessidade de
“bom professor” variam ao longo do tempo, de formar os quadros docentes das escolas secun-
cultura para cultura e até mesmo dentro de uma dárias, tornou-se também necessário ampliar o
determinada cultura. Em um estudo admirável
intitulado The good teacher, Moore (2004) des- 4. N.T. De 8 de maio a 19 de junho: The Good Teacher in History, The
Good Teacher at Work. The Good Teacher Measured, The Good Teacher
taca três discursos em coexistência na Inglaterra in Teacher Education [O bom professor ao longo da História, O bom
contemporânea: o modelo do “artesão compe- professor no trabalho, A avaliação do bom professor, O bom professor
na formação docente].

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conteúdo intelectual. No início do século XX, as controle, mais diretos e objetivos: o controle bu-
escolas de formação de professores reivindicaram rocrático do ensino permaneceu em vigor até
certo grau de independência e incorporaram al- meados da década de 1960.
guns elementos da Educação Nova e da psicolo- Uma segunda dificuldade foi que o ensino
gia americana do aprendizado à formação do carecia de uma base de conhecimentos própria —
professorado australiano, embora fosse mantida algo que começou a mudar com o surgimento de
uma grande ênfase na conformidade social e no ferramentas aparentemente científicas de avalia-
cumprimento de regras. Por exemplo, The ção educacional. A psicologia tornou-se, então,
groundwork of teaching (Mackie, 1924), um li- uma ciência soberana na formação de professo-
vro de textos preparado pelos docentes do res. Testes de inteligência foram importados da
Teachers College de Sidney, não questionava o Europa e dos Estados Unidos no período entre
papel do Estado como fonte única de autorida- guerras. O Conselho Australiano de Pesquisa Edu-
de. Os docentes recebiam inúmeros conselhos cacional foi criado na década de 1930, e logo
práticos sobre a vida cotidiana nas escolas, os começou a publicar grandes quantidades de tes-
planos de aulas, os exames e os procedimentos tes padronizados para uso nas escolas. Nesse es-
administrativos. No entanto, The groundwork quema, o “bom professor” era um especialista,
também continha um ensaio sobre “A vocação do alguém que sabia medir as capacidades e o de-
professor”, escrito por um mestre em estudos sempenho dos alunos e, portanto, era capaz de
clássicos, que enfatizava a necessidade da ima- orientá-los na direção que se mostrasse apropri-
ginação e da dramaticidade no ensino e aconse- ada.
lhava os professores a não se aterem demasiada- Desse modo, o modelo técnico-profissi-
mente aos livros didáticos. onal de magistério acabou associado a uma ide-
Todos os autores do The groundwork of ologia de hierarquia educacional e de diferen-
teaching eram homens, mas seu público-alvo ças naturais, no que diz respeito à inteligência
era composto, em sua maioria, por mulheres. e à educabilidade, com traços socialmente con-
A docência foi uma ocupação em que, desde servadores. Isso destoava claramente das ten-
seus primórdios, houve segregação baseada no dências reformistas da educação da geração
sexo: as mulheres se dedicavam ao trabalho em seguinte, que assistiu a um grande aumento na
sala de aula com crianças menores, ao passo demanda por educação entre as classes traba-
que, na administração e na educação secundá- lhadoras após a Segunda Guerra, à rápida ex-
ria e superior, o predomínio era masculino. pansão das escolas secundárias generalistas
Como observou Acker (1983), havia na Grã- entre as décadas de 1950 e 1970, a mudanças
Bretanha, em consequência disso, uma forte na direção de uma crescente igualdade entre os
tendência a enquadrar as professoras em pa- sexos e à abertura de novas universidades e
péis familiares. Para as mulheres, o conceito de faculdades.
“boa professora” tendia a se confundir com o Consequentemente, o modelo técnico-
de “boa mãe”. profissional não teve grande sucesso. A formação
Para os homens, fazia mais sentido uma de professores pouco a pouco foi sendo
ideologia de profissionalismo. Entretanto, a ideia transferida para as universidades, que continua-
de uma profissão autônoma conflitava com o vam sendo polos de educação humanista em
modelo do professor como servidor obediente às meados do século XX. Isso deu margem para que
autoridades. Na Grã-Bretanha, a solução encon- se caracterizasse o “bom professor” como alguém
trada foram modos de profissionalismo que exer- que não apenas é capaz de conduzir uma clas-
ciam um controle indireto sobre os professores se, como também aprendeu a pensar por conta
(Lawn, 1987). Na Austrália, o Estado própria, a aplicar um conhecimento composto de
desenvolvimentista era mais forte e os métodos de preceitos e normas e a atuar como um agente de

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renovação cultural. A qualidade do ensino e os mais ou menos na mesma época (Giroux, 1988).
propósitos da democracia estavam unidos por Os programas concebidos pelo professor
uma espécie de humanismo de massa, embutido erudito para a formação de professores estavam
nos currículos de matérias básicas e transmitido ligados a uma concepção ambiciosa da educação
por professores intelectualmente autônomos for- como campo de estudo. A educação não seria
mados em universidades. Dei a esse modelo o apenas um know-how aplicado, mas sim uma
nome de “professor erudito” [scholar-teacher]. disciplina intelectual ou um campo
Esse modelo serviu de base para The interdisciplinar coerente. Por essa razão, na Uni-
Foundations of Education (Connell et al., 1962), versidade de Sidney, os educadores e os teóricos
manual escrito pelos docentes do Departamento da educação insistiram inicialmente que houvesse
de Educação da Universidade de Sidney no auge um programa especializado de graduação na
da expansão do pós-guerra. Essa assim chamada Faculdade de Artes e não uma faculdade profis-
“Bíblia azul” teria sido usada por praticamente sional separada (Connell et al., 1995). A educa-
todos os programas de formação de professores da ção como disciplina seria mantida em algumas
Austrália. A obra termina com um capítulo sobre áreas “fundamentais” — História da Educação,
“A profissão de professor”, que apresenta um im- Filosofia da Educação, Psicologia Educacional e
portante resumo do ideal do professor erudito: Sociologia da Educação. O estudo dessas áreas
forneceria ferramentas para a abordagem de pro-
[…] o professor que tem o potencial para se blemas peculiares ao ensino: currículo, pedagogia,
desenvolver e está apto a enfrentar novas si- avaliação e (um tanto tardiamente) política edu-
tuações no ensino precisa ter estudado as cacional e educação comparada. Essas duas áreas
disciplinas em que a arte de ensinar se ba- dariam, então, suporte a um terceiro patamar de
seia; precisa ter pensado a fundo sobre as projetos especializados, como TESL (Teaching of
metas e finalidades do ensino; precisa ter English as a Second Language, o ensino de in-
compreendido os processos pelos quais o co- glês como segunda língua) e tecnologias educa-
nhecimento e as habilidades são obtidos, o cionais.
modo como a capacidade apreciativa é de- No entanto, esse modelo mostrou-se vul-
senvolvida, e como são adquiridos os pa- nerável em diversos aspectos. Nos campos de
drões e valores de conduta e caráter. É ne- conhecimento tidos como fundamentais para a
cessário que ele tenha acompanhado a história educação, críticas contundentes ao saber rela-
do pensamento educacional e aprendido de cionado a essas disciplinas emergiram em todo
que modo os homens que o precederam en- o mundo (por exemplo, a desconstrução pós-
frentaram e resolveram os problemas que o modernista). Ao mesmo tempo, mudanças no
ensino acarreta. (p. 295) ambiente social das escolas locais contribuíram
para debilitar a educação em geral. O desempre-
Na prática de outras pessoas, a combina- go entre os jovens cresceu na década de 1970
ção de ideias humanistas e competências de e permaneceu obstinadamente elevado, contra-
ensino gerou não apenas o modelo do “profis- riando a crença de que a escolarização seria
sional reflexivo” como também as iniciativas no capaz de garantir segurança econômica. Sempre
sentido de criar uma democracia escolar e cur- houve um componente missionário na agenda
rículos desenvolvidos pelo professor, que se humanista. Nunca foi fácil fazer com que o
tornaram bastante influentes na década de ensino humanista se traduzisse em programas
1970. Na Austrália, essa tendência coerentes para as crianças das classes trabalha-
correspondeu, de modo geral, às concepções de doras — que continuam sendo a maioria dos
“pedagogia crítica” e de professores como “in- alunos das escolas públicas.
telectuais”, desenvolvidas na América do Norte Enquanto isso, o aumento constante das

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verbas públicas para as escolas particulares ensino técnico, que o direcionavam aos interes-
(que se acelerou sob o governo do Partido Tra- ses do mercado. Na reestruturação do ensino
balhista nos anos 1970 e é hoje bastante ele- técnico e superior (TAFE, Technical and Further
vado pelos padrões internacionais) e a virtual Education) ocorrida a partir dos anos 1980, ha-
privatização das escolas públicas “seletivas” de bilidades ou competências específicas foram ex-
elite (que de algum modo são análogas ao traídas da matriz de aprendizados tradicionais,
movimento das “ charter schools ” nos EUA) reembaladas e ensinadas como módulos distin-
abriram o caminho para que grupos com inte- tos. Resultados específicos e mensuráveis, em vez
resses específicos usassem as escolas para pro- de identidades amplas baseadas nas profissões,
gramas religiosos neoconservadores, resguardar tornaram-se a meta do ensino profissionalizante.
privilégios de classe, promover a segregação Desse modo, o modelo do professor com-
sexual e manter esquemas especiais para os petente está inserido em um contexto: está as-
“dotados e talentosos”. Houve uma fragmen- sociado à expansão de uma ordem política e cul-
tação das demandas, que solapou o conceito tural direcionada aos interesses do mercado. Tra-
de cultura e currículo comuns. Como mostra o ta-se de um processo global, com o qual econo-
importante estudo histórico de Campbell e mias periféricas e dependentes, como a australi-
Sherington (2006), houve uma cisão crescen- ana, se envolveram profundamente. A vida pú-
te do sistema de ensino secundário a partir da blica australiana assistiu a uma ampla adoção de
década de 1980 e um nítido declínio do com- políticas e pressupostos neoliberais —
promisso político com o ideal de uma educa- desregulamentação, privatização, redução de im-
ção secundária inclusiva e unificada. Instau- postos, competição, declínio do setor público —
rou-se o cenário ideal para o abandono da , que foi impulsionada pela preocupação com a
visão humanista e o retorno a uma concepção globalização e pela disseminação da ideologia
técnica do “bom professor”. econômica e raciona-lista (Pusey, 1991; Harvey,
2005).
A mudança para o modelo do “professor Surgiu um novo tipo de gerencialismo
competente” nas instituições comerciais, governamentais e
educacionais. A competência em campos espe-
Na educação australiana contemporânea, cíficos (por exemplo, a experiência prévia como
embora ainda haja ideias divergentes acerca do professor ou diretor) foi desvalorizada em prol
que constitui um “bom professor”, uma delas é de habilidades e práticas gerenciais genéricas,
predominante. É a que chamo de modelo de cujos parâmetros técnicos são a eficiência e a
“professor competente”, pois está centrada em eficácia organizacionais. Surgiu também uma
um conjunto de competências atribuídas aos “cultura de auditoria”: no neoliberalismo, a
bons professores. É praticamente a mesma con- avaliação sistemática rapidamente se estendeu
cepção de professor que Moore (2004) denomi- a uma gama enorme de áreas, indo muito além
na de “artesão competente” na Inglaterra e do contexto da contabilidade financeira em
Weber (2007), com espírito mais crítico, de “téc- que teve origem (Power, 1997).
nico condescendente” [compliant technician] na Dois desdobramentos no setor educacional
África do Sul. dos países ricos tornaram essas pressões mais in-
O conceito de competências para profes- tensas. O primeiro foi a atenção cada vez maior
sores não surgiu do nada. Ele apareceu nos Es- que as autoridades responsáveis pela formulação
tados Unidos na década de 1960, expandiu-se de políticas passaram a dar aos estudos quantita-
rapidamente na década de 1970 e chegou à tivos com múltiplas variáveis sobre a “eficácia” de
Austrália (Turney et al. , 1985), onde se escolas e professores. Esses estudos veem as esco-
intercruzou com mudanças drásticas ocorridas no las e os professores como portadores de variáveis

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(atitudes, qualificações, grande capacidade de li- Continua sendo necessário ensinar áre-
derança etc.) que devem ser correlacionadas com as específicas do currículo, portanto o conhe-
os resultados obtidos pelos alunos, medidos por cimento e as competências em disciplinas es-
meio de testes padronizados. Isso permitiu dar pecíficas ainda são imprescindíveis. Habilidades
uma interpretação educacional à ideia gerencialista técnicas, que incluem a competência em novas
— derivada do confuso discurso sobre “excelência” tecnologias, também são exigidas. São esses os
da gestão corporativa das empresas — de que principais serviços que as escolas oferecem ao
existe sempre uma “prática melhor” que pode ser mercado, cuja demanda não cessará. Todavia,
instituída e controlada de cima para baixo. não é mais necessário que o professor compe-
O segundo desdobramento foi a própria tente seja capaz de refletir sobre o conjunto de
gestão neoliberal do ensino, bastante diferente conhecimentos no qual o currículo escolar tem
da modalidade profissional de controle a distân- origem. Isso caberá agora às autoridades cen-
cia. Voltado para o mercado, o neoliberalismo trais, que avaliarão os resultados do trabalho
desconfia profundamente do profissionalismo, das escolas. Os currículos produzidos pelos pro-
pois vê as profissões como monopólios fessores tornaram-se um disparate, pois não
anticompetitivos. Especificamente, o podem ser avaliados de um ponto de vista com-
neoliberalismo desconfia, em particular, dos pro- petitivo. Em suma, no novo regime de gestão
fessores. Essa postura teve maior aceitação em educacional, o modelo humanista do “bom pro-
alguns países do que em outros como Doherty e fessor” transforma-se em um anacronismo. No
McMahon (2007) observaram ao comparar a Es- entanto, o que exatamente o substitui? Vejamos
cócia e a Inglaterra, mas a ten-dência é geral. agora a resposta dada pelos próprios órgãos de
Em um regime neoliberal, as instituições registro e certificação de professores.
educacionais devem ser “auditoráveis”, isto é, pas-
síveis de auditoria, de avaliação. Na educação, a Parte II: A definição de “bom
cultura da auditoria inclui a pressão pela aplica- professor” dada pelo novo sistema
ção de testes nacionais, pelo ranqueamento das de registro e certificação
escolas (vistas como empresas que competem
entre si) e pela criação de instituições de As mais importantes definições atuais de
certificação de professores deliberadamente sepa- “bom professor” na educação australiana estão
radas das instituições de formação docente. As contidas nos Standards, documentos elabora-
listas de competências para professores produzi- dos pelos novos órgãos de registro e
das por essas instituições são também listas de certificação. Esses documentos seguem um
desempenhos passíveis de auditoria. formato comum, que resulta do acordo do
As consequências que isso traz para a for- Conselho Ministerial de 2003, embora haja
mação docente são potencialmente imensas. Lis- grande variação em pontos específicos.
tas de competências mensuráveis podem transfor- Os Standards consistem em listas de sen-
mar-se na própria razão de ser de um programa tenças ou cláusulas que afirmam algo que os
de formação de professores. Em tal modelo, não professores fazem ou devem fazer. Por exemplo:
há necessidade alguma de conceber a educação
como uma disciplina intelectual. Não há necessi- Adote uma postura calma e acessível (Tas-
dade de crítica cultural, pois o mercado, ao agre- mânia: nível de bacharelado, B.3, indicador 4).
gar escolhas individuais, determina o tipo de ser- Os professores devem estar familiarizados
viços para os quais existe demanda. Um papel li- com as determinações curriculares e com as
mitado é reservado para a pesquisa educacional, políticas, os materiais e os programas associ-
que realizaria, sobretudo, estudos positivistas vol- ados ao conteúdo que lecionam (Victoria: ní-
tados à descoberta das “melhores práticas”. vel de registro pleno, col. 2, n. 4)

170 Raewyn CONNELL. Bons professores em um terreno perigoso:..


Inicie ou proceda à implementação de políti- a. Resumos da literatura educacional que
cas e processos para integrar a Tecnologia da professores estagiários precisam ter estudado
Informação e da Comunicação ao ambiente e assimilado (ex.: Adquira um sólido conhe-
de aprendizado (Nova Gales do Sul: nível de cimento das teorias de ensino e dos modelos
liderança profissional, n. 1.4.4). pedagógicos dos quais a sua prática deriva).
b. Conhecimentos de campos específicos (ex.:
Os documentos mais sucintos contêm cerca Fique a par de conceitos-chave, estrutura e
de trinta afirmações desse tipo; os mais prolixos desenvolvimentos nas suas áreas de conteú-
chegam a 130 em cada um dos quatro níveis da do).
carreira. Essas afirmações são classificadas em c. Abordagens educacionais genéricas (ex.: “Saiba
seções genéricas, tais como “Conhecimento integrar o aprendizado e a compreensão dos alu-
Profissional”, “Prática Profissional” e “Envol- nos em diversas áreas de conteúdo).
vimento Profissional”. Elas variam ligeiramen- d. O know-how específico e necessário para
te de estado para estado, mas têm muitos pon- atuar numa escola (ex.: Mantenha-se a par
tos em comum. das ferramentas e práticas existentes para
As sentenças substantivas desses docu- avaliar, registrar e relatar o progresso do
mentos não têm relação umas com as outras, aprendizado dos alunos para os pais e as ou-
são meros tópicos isolados ou itens. É possí- tras partes envolvidas).
vel acrescentar novos itens (como alguns comi- e. Afirmações referentes às atitudes ou con-
tês estaduais claramente fizeram) ou subtraí- vicções que os professores precisam demons-
los sem afetar a estrutura geral. As listas não trar (ex.: Considere que todos os alunos são
derivam de nenhuma visão sistemática da edu- capazes de aprender, demonstre uma com-
cação como campo do conhecimento. preensão de tal equidade e comprometa-se a
São apresentadas listas paralelas de tó- praticá-la).
picos para cada um dos quatro níveis de pro-
fessores, de recém-formado ao nível de “lide- Algumas sentenças são per se híbridas.
rança”. Os tópicos dos níveis superiores são, em Na mesma lista, o item “Mantenha-se a par de
geral, mais vagos que os dos inferiores. Não como o currículo e a avaliação são estruturados
obstante, a ideia de que professores podem ser para dar suporte ao aprendizado” sugere um
classificados em uma hierarquia de níveis pro- tópico de know-how organizacional. Entretan-
fissionais é um importante componente formal to, também traz embutido uma postura: a acei-
da noção de padrões operacionalizada pelos tação implícita de que o currículo e a avaliação
Institutos. Com isso, a estratificação da força são estruturados para dar suporte ao aprendi-
de trabalho pretendida pelos programas zado. Será que um professor aprendiz que con-
neoliberais que estimulam a competição indi- clui que o atual sistema de avaliação interfere
vidual entre os trabalhadores foi incorporada à ativamente no aprendizado (como é bem pro-
própria definição do profissionalismo dos pro- vável que aconteça com pelo menos metade dos
fessores. alunos de nossas escolas) atenderia aos padrões
No tocante ao conteúdo, as listas são hí- de qualidade profissionais? Eu espero que sim,
bridas. Tomemos, como exemplo razoavelmente mas os Standards não me dão muitos motivos
típico, o Standards for Graduating Teachers do para acreditar nisso. As advertências, admoesta-
Victorian Institute of Teaching (2008), que con- ções e convites à conformidade superam, em
siste em 48 tópicos agrupados em oito “padrões”. muito, os estímulos a voar por conta própria.
Sob o tema “Conhecimento Profissional”, encon- Nesse aspecto, os Standards são bastan-
tramos vinte afirmações dos mais variados tipos: te tradicionais. Eles contêm a mesma mistura de
conhecimentos formativos essenciais, habilida-

Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. especial, p. 165-184, 2010 171


des pedagógicas, know-how organizacional, ide- por alguns como uma definição pública de
ologia e conformismo social que todo sistema profissionalismo que revela a complexidade do
escolar de massa sempre esperou que sua mão- trabalho realizado pelos professores — e as di-
de-obra apresentasse desde o século XIX. Em ficuldades de realizá-lo a contento. Conside-
outras palavras, são exigências organizacionais rando o quanto os professores de escolas pú-
que justificam a existência desses documentos. blicas têm sido negligenciados pela direita na
Eles são híbridos porque o próprio ensi- política dos últimos trinta anos, isso é um
no envolve um processo de trabalho híbrido. avanço positivo. Os Standards também podem
Como mostram todos os estudos particulariza- ajudar a proteger a educação dos abusos da
dos da vida escolar, a realidade cotidiana do imagem “carismática” do bom professor, uma
ensino é um amálgama improvisado de uma situação que leva políticos sedentos de publi-
extensa gama de atividades. Em certa medida, cidade a colocar jovens despreparados em si-
isso provavelmente vale para todas as profissões, tuações pedagógicas extremamente difíceis,
mas no ensino trata-se de um fato central como tomando por base o princípio hollywoodiano
se reconhece há bastante tempo (Connell, de que o talento natural sempre triunfará no
1985). O fato de diferentes comitês estatais, final.
formados por professores e administradores No entanto, esses benefícios têm seu
experientes, chegarem a diferentes listas de tó- preço. Incorporada à estrutura dos Standards
picos, que parecem igualmente convincentes, é está toda a desconfiança que o neoliberalismo
em si uma ótima indicação da improvisada tem do discernimento dos professores. A praxis
multiplicidade de práticas envolvidas no ensino. destes é segmentada em competências e atu-
Em outros aspectos, contudo, os Standards ações específicas e passíveis de avaliação. Além
revelam algo novo. Eles incluem alguns termos do de ser expressa em linguagem gerencialista, a
modelo do profissional reflexivo, indicando a di- estrutura também incorpora um modelo indi-
versidade de perspectivas dos comitês que os ela- vidualizado de professor que é extremamente
boraram. Todavia, sua linguagem é muito mais in- problemático para um sistema de educação
fluenciada pelo gerencialismo corporativo. Os tex- pública. A arbitrariedade das listas de tópicos
tos estão repletos de termos como “desafios”, faz com que qualquer tentativa séria de aplicá-
“metas”, “as partes interessadas”, “parcerias”, “es- las, seja na prática dos professores ou em pro-
tratégias”, “compromissos”, “capacidades”, “reali- gramas de formação, implique uma limitação
záveis”, “eficazes”, “flexíveis” e “oportunidades”. arbitrária de sua praxis. E considerando que,
Esses termos produzem um efeito retó- numa situação de integração global e diversida-
rico poderoso. Eles constroem o perfil de “bom de social, a educação deve tornar-se cultural-
professor” como o de um indivíduo empreende- mente mais rica, essa limitação não tem como
dor, como alguém que forja um caminho de de- ser benéfica.
senvolvimento pessoal por meio da paisagem
informe da sociedade de mercado, com seus
interesses obscuros e seus infindáveis desafios e Parte III: Rumo a uma nova
oportunidades. É revelador que o documento do compreensão do “bom professor”
estado de Victoria citado acima mencione com
frequência a “profissão”, mas jamais uma “as- A fragmentação do programa neoliberal
sociação profissional” ou “sindicato”. para a educação já se tornou uma realidade
As afirmações contidas nos Standards visível, e a insatisfação de muitos educadores
incluem muitos elementos do senso comum experientes é enorme. Entretanto, ainda não
organizacional referente ao ensino escolar e à existe uma alternativa substancial para tal pro-
formação de professores. Elas foram recebidas grama. Na tarefa complexa de definir futuros

172 Raewyn CONNELL. Bons professores em um terreno perigoso:..


educacionais, um enfoque importante é a ela- professores (também nas universidades) para
boração de uma concepção mais adequada de que sejam “empreendedores”, enfrentem “de-
“bom professor”. Nesta seção, apresento uma safios” contínuos, produzam mais com menos
linha de pensamento que abrange quatro ques- recursos, para que se envolvam numa intermi-
tões fundamentais que emergiram em pesqui- nável competição a fim de progredir na carrei-
sas e discussões recentes sobre os professores. ra. O bom ensino tem de ser sustentável e isso
só pode ser planejado se considerarmos o en-
O trabalho de ensinar sino como um processo de trabalho exequível.
Além disso, está implicada no ensino
O ensino é uma forma de trabalho, empre- uma grande dose de empenho no plano emo-
endido num local específico, com relações em- cional (Hebson et al., 2007; Connell, 1985). O
pregatícias específicas. A formação de professores trabalho em sala de aula envolve um fluxo de
é a constituição de uma mão-de-obra. Como ar- emoções tanto da parte dos professores como
gumenta Reid (2003), precisamos analisar esse dos alunos, que variam desde simpatias e an-
processo de trabalho na educação se pretendemos tipatias até entusiasmo, ansiedade, tédio, ale-
ir além dos enfoques restritos das mais recentes gria, medo e esperança. Todo professor deve
pesquisas sobre o ensino. De fato, eu argumentaria ser capaz de lidar com esse fluxo e torná-lo
que as análises do ensino como trabalho são o produtivo para o aprendizado dos alunos e
melhor ponto de partida para qualquer tentativa para que ele próprio possa sobreviver. Nisso
de compreensão do significado de um “bom en- consiste grande parte do proverbial “first year
sino”. out”, o primeiro ano depois de formado, que
Embora as afirmações dos Standards de é o primeiro estágio de uma carreira no magis-
fato reconheçam essa dimensão do ensino, tério.
quando se referem às habilidades necessárias O aspecto emocional do processo de tra-
para atuar num ambiente escolar, elas apresen- balho dos professores pode ser incluído em
tam uma visão limitada do processo de traba- modelos de competência — e os Standards dis-
lho. É preciso ampliar essa visão. Por exemplo, cutidos acima contêm afirmações ocasionais
o ensino escolar é trabalho personificado, em como “Adote uma postura calma e acessível”.
que se torna importante a presença física do Entretanto, é extremamente difícil avaliar essas di-
professor na interação com o aluno (Estola; mensões e, sob pressão, elas tendem a ser obscu-
Elbaz-Luwisch, 2003). A energia, a movimen- recidas por outras questões como o desempenho
tação, a expressão e a fadiga que resulta do nos testes. Um estudo recente e assustador sobre
trabalho árduo, tudo isso tem importância. Em os procedimentos de “capacitação” nas escolas in-
um dos mais surpreendentes estudos já realizados glesas, envolvendo professores acusados de não
sobre a qualidade do corpo docente, Grace (1978) cumprirem suas obrigações em conformidade com
entrevistou professores de escolas em regiões de- padrões profissionais aceitáveis (Hebson et al.,
terioradas de Londres que haviam sido indicados 2007), revela um risco sistêmico. O trabalho emo-
como “bons professores” pelos diretores. E cons- cional tinha um papel central na autoimagem pro-
tatou que eles viviam num estado constante de fissional dos professores em questão e eles acre-
desgaste físico e emocional, exauridos pelo esforço ditavam estar oferecendo todo o apoio necessá-
de reagir às infindáveis demandas da escola para rio às crianças. No entanto, na visão dos direto-
que se envolvessem plenamente. res de escolas preocupados com o desempenho e
Que sentido tem a existência de um para os mecanismos centralizados de
modelo de “bom professor” que causa a auto- monitoramento, esses professores não estavam
destruição dos bons docentes? Esse é um dos preparando adequadamente os alunos para os
riscos ocultos por trás da pressão sobre os testes.

Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. especial, p. 165-184, 2010 173


Um estudo de reestruturação no mesmo artificiais de um sistema institucional estabele-
país (Stevenson, 2007) revelou um realinhamento cido para criar a competição e a diferença.
do ensino com o enfoque naquilo que a admi- Grande parte do que ocorre na vida coti-
nistração neoliberal considera ser a tarefa essen- diana de uma escola envolve o trabalho conjunto
cial, a saber, o aspecto técnico. Com isso, elimi- dos professores e a relação coletiva destes com
nam-se ou minimizam-se as funções “pastorais” a presença coletiva dos alunos (sua origem
(a terminologia tradicional da educação inglesa socioeconômica, sexo, etnia, cultura regional,
para o trabalho emocional), o que pode até religião; e sua vida dentro do grupo de colegas
melhorar a posição competitiva de uma escola a que pertencem no momento, com as respecti-
nas listas e nos ranqueamentos. No entanto, é vas hierarquias, exclusões, bullying e cooperação).
difícil acreditar que isso resulte numa educação Grande parte do aprendizado dos alunos resulta
de qualidade para as crianças. dos esforços conjuntos de um grupo de profes-
O modelo neoliberal de administração sores, de um processo de aprendizado dos pró-
de pessoal procura definir o trabalhador como prios alunos e (como indica a noção de “currí-
um indivíduo empreendedor, da mesma forma culo oculto”) da atuação da instituição ao seu
que, em todo o mundo, na educação e em redor.
outros setores, a política industrial neoliberal Portanto, o aparente bom desempenho
procura eliminar a coletividade dos trabalhado- de um professor depende muito do que as ou-
res, que se expressa por meio de sindicatos tras pessoas estão fazendo. Os Standards, e
(Compton; Weiner, 2008). Em que medida o também a nova geração de mecanismos de ava-
processo de trabalho na área do ensino tem liação de professores, apresentam uma elabora-
mudado recentemente sob a pressão neoliberal da definição de “professor bem-sucedido” como
é uma questão aberta à discussão (Para um um indivíduo – mas nada dizem sobre o “de-
amplo espectro de pontos de vista e evidênci- partamento bem-sucedido” ou a “escola bem-
as, ver Mahoney et al., 2004; Robertson, 2000; sucedida”. Há algumas décadas, a sociologia
Sammons et al., 2007; Stoddard; Kuhn, 2008). industrial mostrou que, nos processos coletivos
O que é visível, entretanto, é a prioridade dada de trabalho em grande escala característicos da
à individualização. Institucionalmente, os economia moderna, é impossível medir a con-
Standards definem o objeto de registro e avali- tribuição de um trabalhador individualmente.
ação como um professor individualizado; do Portanto, tentativas de estabelecer diferenciais
mesmo modo, a cultura popular comercial de- de rendimento tornaram-se fundamentalmen-
fine o “bom professor” como um indivíduo te irracionais (ou seja, tornaram-se um exercí-
carismático. cio de poder social, não maneiras racionais de
Entretanto, até mesmo a sala de aula determinar valor). Os mecanismos neoliberais
com um único professor faz parte de uma ins- de avaliação de professores se deparam com o
tituição estruturada – a escola – e esse docen- mesmo paradoxo e não têm como superá-lo.
te integra um quadro de funcionários local. Es- O reconhecimento do trabalho coletivo
colas e docentes fazem parte de uma mão-de- dos professores é essencial para uma melhor
obra e de sistemas institucionais mais amplos. compreensão do que é o bom ensino. Geral-
Os conhecidos “resultados” produzidos pela mente, o grupo de professores e a instituição
educação são definidos, em grande medida, por na qual trabalham é que são eficazes ou ine-
esse ambiente estruturado, incluindo as mesmas ficazes. Portanto, a tarefa de melhorar o ensi-
medidas de desempenho dos alunos que são no não pode ser entendida apenas como uma
usadas para avaliar os professores individual- questão de motivar ou capacitar indivíduos. Na
mente. Testes padronizados de aproveitamento realidade, certas tentativas nesse sentido (como
escolar são, em grau surpreendente, mecanismos a intenção do Business Council de selecionar

174 Raewyn CONNELL. Bons professores em um terreno perigoso:..


uma elite) podem ser extremamente prejudici- O pedido de desculpas contido no discur-
ais ao verdadeiro trabalho das escolas. so proferido pelo primeiro-ministro no início de
20085 ajuda-nos a definir esse ponto. Em épo-
A dinâmica ocupacional do ensino cas passadas, o sistema institucional da Austrália
agiu de modo assustadoramente equivocado em
Concepções de profissionalismo já foram relação a muitas crianças aborígenes. Hoje, a
importantes para os professores no passado. No tarefa educacional não é continuar insistindo na
entanto, o conceito de ensino como uma pro- inserção das crianças aborígenes em um siste-
fissão sempre foi ambivalente, pois ele tanto ma eurocêntrico inconteste, mas modificar as
pode cultuar a dependência quanto a autono- instituições educacionais a fim de torná-las re-
mia. Na sociedade de mercado neoliberal, esse levantes para essas crianças.
conceito é ambivalente de um modo distinto. As O mesmo se aplica a outros grupos de cri-
definições de profissionalismo nos Standards anças mal atendidas pelo currículo hegemônico;
revelam a complexidade do trabalho dos profes- às escolas onde só se fala inglês; ao sistema de
sores, mas também cultuam a desconfiança que testes competitivos; às políticas de pessoal perver-
os neoliberais têm das profissões. Os Standards sas que concentram a experiência onde ela é
codificam o trabalho dos professores e a sua menos necessária; e ao desvio de verbas públicas
formação de maneira a torná-los passíveis de a fim de subsidiar privilégios em escolas particu-
avaliações e de um controle a distância. lares. Não estamos falando, aqui, de um peque-
Portanto, é importante saber como – e no grupo de “excluídos sociais”, mas de um nú-
por quem – o profissionalismo dos professores mero bastante grande de crianças em escolas
é definido. Se a identidade ocupacional do pro- públicas.
fessor é definida externamente pelo poder do O bom ensino, portanto, é não apenas,
Estado ou pelas pressões do mercado, ela pro- em grande medida, um trabalho coletivo: ele
vavelmente será limitada em vários aspectos também exige diversificação. Para funcionar
importantes. A capacidade de reagir aos ditames bem, uma escola precisa de professores com
da administração, de divergir, de seguir juízos uma gama variada de capacitações e maneiras
independentes provavelmente não figura com de atuar. Dada a multiplicidade de alunos e de
proeminência nessas definições de “bom ensi- comunidades de onde provêm, uma escola
no”. No entanto, essa capacidade talvez seja deve ter em seu quadro de professores uma di-
crucial em termos educacionais, pois permite versidade de etnias, origens socioeconômicas,
que os professores acompanhem os interesses identidades de gênero e sexo, faixas etárias e
dos alunos com os quais efetivamente traba- níveis de experiência. Qualquer definição de
lham. qualidade, qualquer sistema de monitoramento
Os atuais currículos e as avaliações ofi- ou de promoção que pretenda impor um mo-
ciais são, em grande parte, construídos em delo único de excelência para todos os profes-
torno do modelo do aluno academicamente sores – qualquer que seja esse modelo – tem
engajado, que é “bem-sucedido” nos testes. grandes probabilidades de ser prejudicial para
Ora, tais alunos são muito mais comuns em o sistema educacional como um todo.
escolas que atendem clientes econômica ou Um profissionalismo com essa amplitude e
culturalmente privilegiados. Os professores en- variedade precisa ser sustentado por uma cultura
volvidos na educação de crianças de outras ocupacional dinâmica entre os professores. Hoje a
origens sociais e com outros interesses preci-
sam de um modelo de profissionalismo que 5. N.T. Em 13 de fevereiro de 2008, o primeiro-ministro Kevin Rudd
discursou ao Parlamento pedindo oficialmente desculpas pela manei-
lhes dê espaço de manobra para que possam ra como os vários governos australianos trataram os povos aboríge-
oferecer um ensino de qualidade. nes ao longo da história.

Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. especial, p. 165-184, 2010 175


cultura ocupacional não faz parte das discussões permaneça apegada ao passado. Uma das ma-
sobre qualidade dos professores, mas certamente neiras significativas pelas quais a situação so-
deveria, pois ela inclui a identidade social que os cial dos professores está sempre mudando é a
docentes compartilham; os processos informais diversidade de ambientes nos quais eles lecio-
pelos quais o know-how prático é transmitido para nam. Isso é ilustrado pelas observações de
novos professores no exercício da profissão (uma Hoadley (2003) em duas escolas da África do
parte fundamental da formação de professores Sul pós-apartheid: uma em que os conteúdos
que poderia ser complementada pela capacitação eram lecionados em inglês, outra em xhosa.
formal); a competência ocupacional a que se re- Com salas cerca de duas vezes maiores e um
ferem os Standards, da qual os alunos dependem, terço do tempo efetivo de instrução para cada
especialmente quando não provêm de famílias criança, esta tem de usar métodos de trabalho
com alto grau de instrução; e as em grupo enquanto aquela pode impor um rit-
metacompetências (definidas mais adiante) que mo individual ao aprendizado. No entanto, é
permitem o uso estratégico de competências es- a escola onde as disciplinas são ensinadas em
pecíficas. xhosa que tem uma cultura mais sólida de
Contudo, uma cultura ocupacional dinâ- colaboração entre os professores.
mica entre os professores não é um fato con- O contexto institucional se modifica
sumado. Ela tem de ser estimulada e também com o tempo e hoje o sistema escolar formal
pode ser corrompida. A reestruturação do en- representa uma parcela menor do sistema edu-
sino técnico e superior, voltada para o merca- cacional do que em gerações passadas. O en-
do, contribuiu muito para destruir, ao longo da sino também ocorre em escolas
última década, a cultura ocupacional do ensi- profissionalizantes particulares, organizações
no profissionalizante e inclusivo desse setor comunitárias e de lazer, em empresas comer-
como mostra o estudo de Clark (2003). O en- ciais e industriais, online e em vários outros
sino universitário também foi afetado pela contextos. Sem dúvida, isso diz respeito prin-
reestruturação neoliberal, com o aumento con- cipalmente aos adultos, mas mesmo na educa-
tínuo da carga de trabalho, a deterioração da ção de crianças, as escolas não são o único
relação professor/aluno, empregos mais precá- ambiente importante de ensino e aprendizado
rios e pressões cada vez maiores para obter um (basta se lembrar da orientação e do treina-
desempenho competitivo e passível de avalia- mento oferecidos na área do esporte, por
ção. As escolas australianas não se deterioraram exemplo) (Light, 2008).
com a mesma intensidade, pelo menos não até Com a contínua rotatividade de profes-
o momento, mas não há motivo para julgar que sores nas escolas e o provável aumento destes
elas estão imunes. A análise feita por Weber em tempo parcial decorrente das políticas
(2007) dos estudos internacionais sobre profes- neoliberais, torna-se cada vez maior a proba-
sores em um regime neoliberal sugere a existên- bilidade de que os professores (ou as pessoas
cia de tensão e insatisfação generalizadas. Pro- qualificadas para ensinar em escolas) sejam
mover, em vez de debilitar, a cultura convocados a ensinar em ambientes não esco-
ocupacional dos professores é importante para lares. Uma cultura ocupacional resistente e fle-
preservar a sua resiliência em face de situações xível o suficiente para transitar entre diferen-
difíceis de ensino e – como Sammons et al. tes situações de trabalho sistemático constitui,
(2007) mostraram no caso do Reino Unido – portanto, um elemento verdadeiramente vali-
constitui um importante recurso em escolas oso na sociedade. Precisamos desenvolver for-
mais desfavorecidas. mas de profissionalismo que tornem isso pos-
Uma cultura ocupacional nasce de uma sível. A versão de profissionalismo incorpora-
história coletiva, mas ela terá pouca valia caso da aos Standards e aos processos de

176 Raewyn CONNELL. Bons professores em um terreno perigoso:..


certificação de professores não é adequada a cesso e das outras possibilidades de interpre-
esse tipo de adaptação, pois está direcionada tação que convivem com a nossa.
às autoridades do sistema educacional. Essa necessidade ajuda a definir o ensino
como trabalho intelectual e os professores como
A estrutura intelectual da educação um grupo de trabalhadores intelectuais. Não ape-
nas “trabalhadores do conhecimento” em uma
Uma das virtudes do modelo do profes- economia do conhecimento, mas trabalhadores
sor erudito era a clara importância que esse particularmente intelectuais. Em seu trabalho co-
modelo atribuía à Educação como campo de tidiano, os professores operam com modos de
conhecimento. A abordagem do profissional compreensão e conjuntos de fatos, e necessaria-
reflexivo, embora menos interessada na orga- mente transformam a cultura ao transmiti-la para
nização do conhecimento como um todo, está a geração seguinte. Para fazer isso de maneira
centrada no modo como o conhecimento adequada, são necessárias a iniciativa e a inven-
ocupacional pode ser desenvolvido na prática ção infinitas – a improvisação constante revelada
dos professores. por estudos do processo do trabalho docente. Isso
A agenda neoliberal e o modelo do pro- também requer um conhecimento profundo da
fessor competente abandonaram tais proble- cultura e a prática da análise crítica, que somen-
mas. As afirmações de “competências” produ- te um programa intelectualmente substancial de
zidas pelos Institutos não indicam nenhuma formação de professores pode oferecer.
ideia subjacente a um campo de conhecimen- Todavia, não podemos nos permitir ao
to: são listas de tópicos, meros itens. Na visão saudosismo. O que hoje é considerado intelec-
da cultura da avaliação em educação, os pro- tualmente substancial difere do que o era na
fessores são técnicos que executam “práticas época de Matthew Arnold ou John Dewey ou
de excelência” predefinidas, utilizando-se de mesmo de R. S. Peters e Paulo Freire. Vivemos
um currículo predefinido que é avaliado por num mundo conscientemente pós-colonial e
meio de testes externos – uma situação que pós-patriarcal, ainda que velhas desigualdades
exige habilidade, mas não inteligência. sociais (entre as quais, as relacionadas ao sexo,
Por que nossas reflexões sobre esses à classe e à localização geográfica no plane-
problemas devem ter um conteúdo intelectu- ta) continuem assumindo novas formas.
al? Por dois motivos interligados: o que os Os antigos modelos de conhecimento,
professores fazem e o que eles são. O que eles nos quais se baseava o currículo de disciplinas
fazem nas escolas jamais se limita a transmi- do ensino médio, bem como o modelo do pro-
tir um conjunto de fatos aos alunos. Eles ne- fessor erudito nas universidades, foram obje-
cessariamente interpretam o mundo para – e to de críticas contundentes. Em meio a essas
com – seus alunos. Isso fica nítido na educa- críticas, estão análises feministas do conheci-
ção de crianças pequenas. Contudo, é igual- mento patriarcal (Crowley; Himmelweit, 1992)
mente verdade para a maioria das disciplinas e a incredulidade pós-moderna face às “narra-
técnicas do ensino médio, nas quais a interpre- tivas grandiosas” de progresso e o “iluminismo”
tação está incorporada à linguagem, à escolha (Lyotard, 1984). Como Hopenhayn (2001) res-
dos objetos de conhecimento e às operações saltou no caso da América Latina, a ascensão
mentais características de cada assunto. do neoliberalismo destruiu muitos dos pressu-
Para interpretar o mundo para os outros postos nos quais as ciências sociais estavam
e fazê-lo bem, é necessário não apenas um outrora baseados. Ao mesmo tempo, surgiram
conjunto de habilidades, mas também o co- novas estruturas de conhecimento – a teoria
nhecimento de como essa interpretação ocor- pós-colonialista, os saberes indígenas, sistemas
re, do campo cultural em que ocorre esse pro- de informações baseados em máquinas – em

Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. especial, p. 165-184, 2010 177


torno das quais existe uma infinidade de pro- nômico, deslocamentos demográficos, entre ou-
blemas (ver, por exemplo, Odora Hoppers, tras.
2002, e as relações entre sistemas de conhe- Há algo de verdadeiro nessas ideias. Entre-
cimento). No entanto, uma coisa é clara: as ve- tanto, de modo ainda mais fundamental, a edu-
lhas certezas acerca do conhecimento não mais cação é o processo de formar uma cultura. O en-
existem. A filosofia educacional começou a li- sino não consiste apenas no treinamento de jovens
dar com esse fato fundamental (Peters, 1995) em práticas definidas, ele está relacionado à cria-
e a formação de professores agora se vê na ção de habilidades para a prática (Connell, 1995).
mesma situação. A educação é um processo que cria a realidade
Um programa contemporâneo de forma- social e necessariamente produz algo novo. Ela é
ção de professores deve estar voltado para o parte do processo que conduz a sociedade ao
mundo em que os alunos efetivamente atua- longo do tempo histórico. O questionamento acer-
rão. A formação de bons professores é intelec- ca dos objetivos da educação está associado à
tualmente estimulante como não poderia dei- direção que desejamos dar a uma ordem social,
xar de ser, pois aos professores, que são traba- uma vez que as sociedades não podem evitar a
lhadores intelectuais, de nada serve um con- mudança. É aqui que surgem questões de privi-
junto estático de conhecimentos. É cada vez légio e justiça social na educação, questões que
mais aceito e reconhecido o fato de que os são essenciais ao seu projeto, não meros acrésci-
professores podem e devem agir como seus mos.
próprios pesquisadores. Para dar apenas um Essa reflexão permite uma nova aborda-
exemplo: com relação à Tecnologia da Infor- gem das competências dos professores. Muitos
mação e da Comunicação, tanto o hardware dos problemas do modelo do “professor com-
como o software mudam tão depressa que o petente” decorrem da falta de atenção às re-
treinamento dado no início da formação de um lações entre as competências. Por exemplo:
professor estará obsoleto em poucos anos. Os como ajudar os professores a passar de um
professores devem ser capazes de pesquisar conjunto de habilidades “A” para outro “B”
novos conhecimentos, técnicas e máquinas, quando “A” se torna obsoleto; a questão do
que não temos como definir antecipadamen- equilíbrio entre as habilidades técnicas no en-
te, e aplicá-los às necessidades de grupos de sino de determinados currículos e o trabalho
alunos, cujo perfil tampouco pode ser previs- emocional envolvido na orientação dos alunos;
to de antemão. O conhecimento e suas aplica- a dificuldade de reconhecer definições
ções no ensino são inerentemente dinâmicos. conflitantes de competências; e os conflitos
acerca de quem teria o direito de defini-las —
O processo de educar administradores, professores, crianças, pais ou
autoridades externas.
Em grande parte da reflexão acadêmica Portanto, podemos dizer que certas
sobre educação, e na maioria das discussões questões fundamentais do ensino dizem respeito
públicas a respeito, ela é entendida fundamen- ao que poderíamos chamar de
talmente como reprodução social – a transmis- “metacompetências”, isto é, as habilidades de
são de cultura para uma nova geração, a gera- equilibrar, escolher e empregar competências
ção de mão-de-obra, o legado das tradições. Em específicas. À luz do que foi dito sobre o pro-
um sentido mais estrito (compatível com o con- cesso de trabalho, as meta-competências podem
ceito de reprodução), a educação é vista como ser tanto coletivas como individuais. Quando
um processo neutro de instrução que é molda- dizemos que os professores devem estudar o
do e remoldado por forças que lhe são externas ensino (como o fazem, justiça seja feita, algu-
– mudanças tecnológicas, desenvolvimento eco- mas das afirmações dos Standards) ou refletir

178 Raewyn CONNELL. Bons professores em um terreno perigoso:..


sobre o próprio trabalho, também estamos pen- criar um bom ambiente de aprendizado para as
sando nesse nível. crianças? Eu diria que eles têm uma responsabi-
Isso nos traz de volta ao argumento da lidade coletiva aqui e cabe à formação de pro-
importância do ensino. No início deste artigo, ci- fessores a responsabilidade de apoiá-los nessa
tei o relatório da OECD (2005) sobre professores, questão.
que enfatizava a qualidade destes como fator
determinante nos resultados obtidos pelos alunos, Conclusão: objetivos e a
visto que suas origens socioeconômicas e habili- multiplicidade de opiniões
dades não estariam sujeitas à influência de polí-
ticas públicas. Trata-se de uma perspectiva extra- Neste artigo, não tentei definir um novo
ordinariamente tacanha. A origem socioeco- modelo de “bom professor”, mas explicar por
nômica e as habilidades dos estudantes são sus- que devemos refletir sobre esse tema e indicar
cetíveis a mudanças e podem ser mudadas em algumas das principais questões e obras de
larga escala. Trata-se, apenas, de saber como os pesquisadores que precisam ser levadas em
recursos da sociedade são empregados – saber consideração. Com base nisso, não precisamos
quais decisões coletivas determinam a direção de um retrato do “bom professor” no singular,
social que se deseja seguir. A erradicação do anal- mas retratos de “bons professores” no plural e
fabetismo no mundo inteiro; as profundas mu- do “bom ensino” no sentido coletivo. Precisa-
danças na educação de meninas e mulheres ao mos de modelos de formação de professores
redor do globo nas duas últimas gerações; a re- que promovam práticas de ensino criativas,
dução das desigualdades de classe em termos de diversificadas e justas em um futuro educaci-
acesso ao ensino secundário – todos esses são onal que almejamos como diferente do passa-
exemplos de decisões coletivas sobre a direção que do.
se deseja dar à sociedade e que têm alterado pro- A discussão dessas questões requer a ex-
fundamente os resultados do ensino e do apren- pressão de uma multiplicidade de opiniões. A
dizado. ideologia e a prática neoliberais concedem um
Portanto, uma concepção adequada de lugar central às opiniões expressadas pelos admi-
um “bom ensino” incluirá o papel dos professo- nistradores, muitas vezes na forma impessoal de
res nas ações sociais necessárias à criação de práticas contábeis. Uma cultura ocupacional di-
ambientes apropriados ao aprendizado das crian- nâmica dará suporte às opiniões dos professores
ças. Temos hoje bons ambientes de aprendizado na elaboração de políticas educacionais. E, como
em muitas das escolas que atendem às classes argumentam Scanlon (2004) e Groundwater-
privilegiadas na Austrália como acontece em Smith (2008), também devemos incluir as opini-
outros países ricos, mas não na maioria das es- ões dos alunos por mais árduo e complicado que
colas que atendem às classes trabalhadoras e às isso se mostre na prática. Quando lhes é dada a
mais excluídas. Essa questão não pode ser sepa- oportunidade, as crianças costumam expressar
rada das responsabilidades dos professores invo- perspectivas do ensino bem diferentes daquelas
cando-se a neutralidade profissional, pois ela é com que os adultos estão familiarizados.
um fator determinante das realidades cotidianas A existência de órgãos de certificação de
do ensino. Na verdade, há alguém melhor que os professores é hoje um fato consumado e não
professores para saber o que é necessário para tende a ser alterado no curto prazo. No entan-
to, o modo como esses órgãos funcionam está
certamente aberto ao debate. Por exemplo, a
nova prática de certificar programas de formação
de professores em termos do cumprimento pon-
tual de uma lista de competências (do tipo dis-
cutido acima) é um modo extremamente
questionável de operacionalizar a qualidade do
ensino. Uma maneira eficaz de definir o “bom
Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. especial, p. 165-184, 2010 ensino” seria apresentar sugestões para que 179os
órgãos de registro e certificação realizem melhor
seu trabalho.
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Recebido em 01.07.09
Aprovado em 03.10.09

Raewyn Connell, professora na Universidade de Sidney, na Universidade de Toronto (Canadá) e em Harvard (EUA). Entre outras
obras, Connell publicou Gender (1987 – revisto e ampliado em 2009) e Masculinities (1995), traduzidos em todo o mundo.

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