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ALISON M KING

Noites de Paixão

EDITORA INDEPENDENTE

2017
Copyright © 2017 by Alison M King

Todos os direitos reservados

É proibida a reprodução de parte ou totalidade da obra sem a autorização prévia do


autor.

Capa e Diagramação: Alison M King

Revisão: Laura Junea

Produção Independente
ISBN: 978-15-211501-6-0

Todos os personagens desta obra são fictícios.


Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

2017
Dedicado à minha mãe que sempre me apoia, mesmo sem saber, pelo simples fato de existir,
aos meus leitores que diariamente me incentivam a continuar criando meus personagens e a todos que
consideram o amor como algo eterno.
Se alguém quiser causar-lhes dano, da boca deles sairá fogo que devorará os seus inimigos. É assim
que deve morrer qualquer pessoa que quiser causar-lhes dano.

Apocalipse 11 – 5
I - Quente e Frio
II - Parque de Diversões
III - Alec
IV – Trabalho
V – Verdades
VI – A Confirmação
VII – Recordações
VIII – O Presente
IX – Cristiano Ataca
X – Cativeiro
XI – Resgate
XII – A Transformação
XIII – Depois da Transformação
XIV – Coisas de Casal
XV – Uma Visita Inesperada
XVI – Vingança
XVII – A Viagem
I - Quente e Frio

Eu já não andava mais, corria. Sentia que alguém me seguia. Sentia olhos a me observar
enquanto corria desesperada para chegar a algum lugar onde estaria segura. Não conseguia
parar de pensar nos olhos prateados do homem que me abrigara, do homem que era um
psicopata. Como ele podia ajudar-me e ao mesmo tempo guardar um corpo na própria casa? Será
que ele pretendia me matar também? Era o mais provável. E por que me sentia tão estranha em
fugir?
Corria mais por instinto que por vontade. Ele havia me beijado e isso não saia da minha
cabeça. Suas mãos frias me deixaram queimando. Foi a primeira vez que um beijo me tirou
totalmente o controle.
Senti quando alguém se aproximou atrás de mim. Poderia ser apenas impressão
considerando o quanto eu estava assustada.
Continuei correndo até que tropecei e bati a cabeça em uma pedra, mas antes que a
escuridão da inconsciência me invadisse sorri. Por mais estranho que possa parecer sorri. Não foi
por alegria ou por algum efeito da adrenalina da corrida. Foi apenas pela ironia da situação, pois
no exato momento da queda lembrei dos filmes de terror que já tinha visto. A vítima sempre caia
antes de ser atacada.
Quando assistia a esses filmes costumava achar esse aspecto ridículo. Se sobrevivesse
respeitaria mais os roteiros de terror.

Acordei em um quarto que já conhecia, em uma cama que já conhecia, mas não estava
amarrada ou amordaçada como imaginei e mesmo estando escuro acreditava que meu corpo
estava inteiro. Não saber o significado da situação me deixava cada vez mais confusa e ansiosa.
A luz se ascendeu e o vi junto ao interruptor me observando.
Tentei controlar meu coração e minha respiração que não estavam descontrolados devido
ao medo e sim a um absurdo desejo. Deixei meu instinto de sobrevivência falar por mim.
― Por quê?
Podia esperar qualquer resposta. Por que ele ainda não me matou? Iria me matar? Por que
tinha um defunto no quarto de empregadas?
Ele não respondeu. Aproximou-se e a cada passo ficava mais difícil raciocinar. Eu devia ser
louca por estar pensando em sexo quando deveria pensar em formas de fuga.
Ele não parou quando chegou próximo a cama. Ela não parecia obstáculo. Como poderia?
Eu estava imóvel seguindo cada movimento seu com o olhar. Ele subiu na cama e continuou se
aproximando até que a mão fria tocou meu rosto deixando rastro de fogo por onde passava. Eu
já não queria mais sobreviver. Isso ficou claro quando desviei o olhar para onde as mãos pálidas
me guiaram e vi tão de perto seus olhos prateados.
Na minha mente afastei tudo que podia atrapalhar aquele momento. Eu o queria e me
forcei a crer que tudo não passava de um sonho e por isso tinha que aproveitar cada instante.
Nunca tinha sentido tamanha atração por alguém. Pensaria na possibilidade de uma morte certa
depois.
Passei os braços ao redor do seu pescoço e agarrei seus cabelos negros puxando para
que seu corpo se aproximasse do meu.
Ele sorriu surpreso diante da minha reação. Só mesmo em um sonho existiria um sorriso tão
lindo.
― Não quero acordar agora. – deixei escapar enquanto o beijava como se minha vida
dependesse disso.
Ele sorriu novamente afastando meu rosto com suavidade.
― Já que está sonhando pode fazer o que quiser. O que deseja? – atiçou o fogo do meu
corpo. Seus lábios tão próximos e convidativos se moviam de forma sensual a cada sílaba
pronunciada.
― Quero você. – confessei.
Cada palavra que saia da minha boca acionava o lado lúcido do meu cérebro. Esse lado
gritava o quanto aquilo era loucura, mas grande parte do meu cérebro e o meu corpo gritava
mais alto dizendo: Aproveite seu sonho.
A maioria sempre vence.
Em algum momento ele decidiu que faria o possível para que meu sonho fosse perfeito me
proporcionando todo prazer que eu nunca sequer imaginei que existisse. Beijos e carícias
abrasadoras não eram suficientes, a cada toque dele eu queria mais. Queria que fossemos um.
Enquanto tentava arrancar suas roupas ouvi o barulho do tecido rasgando e parei por um instante
envergonhada pela violência dos meus movimentos.
Sem desviar o olhar do meu rosto ele puxou a camisa preta pela cabeça e jogou em algum
lugar do quarto.
Engoli em seco. Foi impossível evitar. Seu corpo era o desenho da perfeição. Poderia dizer
que se assemelhava a uma escultura. Tão pálido, no entanto seu aspecto em nada parecia doente.
Estávamos sentados na cama. Minhas pernas rodeavam sua cintura.
Assim que consegui reagir a visão do seu abdômen perfeito estendi as duas mãos e vaguei
por aquele peito musculoso com elas. Sentia que faltava alguma coisa naquele cenário, porém não
conseguia raciocinar direito tendo a língua dele passeando pelo meu pescoço. Ele desabotoou o
meu sutiã meia taça tirando-o e deixando meus seios sensíveis em contato com o tecido da blusa de
seda.
Enquanto nos beijávamos ele foi pressionando meu corpo em direção a cama até que
estava sobre mim.
Sufocava meus gemidos com beijos enquanto acariciava meus seios com uma das mãos.
Depois de muito tempo focados em sugar tudo que nossos lábios tinham a oferecer ele
parou de me beijar e sem aviso prévio saiu da cama. Fiquei zonza por alguns instantes sem
entender o que houve, mas logo sua voz deliciosamente rouca invadiu o ambiente:
― Tire a blusa, por favor.
Uma parte minha achou engraçado o por favor depois do pedido que mais parecia uma
ordem, mas obedeci. Era fácil obedecer quando o homem desejado estava a minha frente
desabotoando a calça jeans preta.
Ele sorriu quando tirei a blusa, mas cobri os seios com as mãos.
Como para dizer que não adiantava esconder ele passou a língua lentamente pelos lábios
e em seguida se desfez da calça e ficou coberto apenas pela cueca da mesma cor das outras
peças de roupa.
Deu a volta na cama; sempre acompanhado pelo meu olhar curioso. Quando chegou perto
de onde estava meus pés ele colocou o joelho na cama e lentamente foi deslizando as mãos pelo
meu jeans desbotado. Desabotoou e em seguida o puxou trazendo junto a calcinha de renda
branca. Naquele momento, nua na frente dele, não sabia se descobria meus seios para cobrir o
triangulo entre minhas pernas ou se mantinha as mãos onde estava. Também não sabia de onde
vinha aquela vergonha se tudo que queria era ter ele dentro de mim.
Ele parecia se divertir com meu embaraço, pois permaneceu de pé próximo a cama
observando-me. Cruzei as pernas tentando não parecer tão exposta, mas não saí do lugar. Do
mesmo jeito que ele me encarava eu o encarava de cima a baixo demorando-me no volume que
sua cueca tentava esconder.
Percebendo meu interesse naquela parte especifica de seu corpo ele se desfez da última
peça de roupa.
Apertei mais uma perna na outra ao ver seu imenso membro ereto livre do tecido.
Ele estendeu a mão em um convite mudo e depois de alguns segundos de relutância deixei
a vergonha de lado e me levantei arrastando até onde ele estava. Ele sentou-se na cama e
novamente passando as pernas ao redor de sua cintura sentei em seu colo e o enlacei trazendo
seu rosto para próximo ao meu. Seu membro cutucava minha barriga como se reclamasse por não
estar onde desejava.
Eu também não estava satisfeita. Com uma das mãos tentei guiar o membro para o lugar
quente e molhado que ansiava por ele. Ele sentiu minha urgência, pois logo após sussurrar "venha
comigo" em meu ouvido, éramos um. Não houve mais preliminares. E não era preciso. Estava pronta
para recebê-lo desde o momento em que abri os olhos naquele quarto.
Sinceramente não sei descrever onde ele me levou. Poderia chamar de paraíso. Sei que me
joguei e criei asas. Voei. Cada estocada trazia gemidos involuntários que quase se tornavam gritos.
Sentindo que em breve cairia da montanha russa acelerei os movimentos. Ele havia deixado seu
corpo cair na cama como que o entregando de bandeja para que eu guiasse os movimentos e foi
o que fiz. Cavalguei seu corpo até trazer o primeiro orgasmo da minha vida. Sem saber o que
fazer com as sensações novas deixei meu corpo desabar sobre o seu e por alguns instantes fiquei
ali permitindo que ele acariciasse meu corpo com suavidade. Ele parecia saber que eu precisava
de um tempo para absorver as sensações e estar pronta novamente para ele. Depois de algum
tempo rodou nossos corpos ainda unidos e me trouxe para baixo do seu. Olhando em meus olhos
recomeçou os movimentos de vai e vem que antes eu controlava.
Não queria, mas depois que ele me levou ao paraíso algumas vezes acabei adormecendo
com a estranha sensação de que a única respiração ofegante era a minha. E se tivesse analisado
mais antes que o sono me envolvesse perceberia que não havia outra respiração naquele quarto.

Acordei consciente de onde estava e por mais que todo meu corpo exalasse desejo, senti
medo. Um medo sufocante que dessa vez não seria superado pelo desejo recém saciado.
Tentei me levantar enquanto puxava um lençol sobre minha nudez. Me esforcei para
desviar minha visão do corpo dele. Ele me deixou levantar, se limitando a observar meus atos
enquanto eu me dirigia a porta que estava trancada.
Ao constatar que não tinha saída me virei para os olhos prateados que me encaravam
impassíveis.
― Você vai me matar? – tentava me acalmar, mas minhas mãos tremiam. Minha mente
vagava por notícias de maníacos sexuais que abusavam de suas vítimas antes de matá-las. Aquilo
só podia ser alguma forma de tortura. Fazer com que eu me envolvesse antes de matar-me.
― Poderia ter feito isso em vários momentos na noite passada. Confesso que ainda não sei
o que farei com você. – respondeu suavemente.
Por que ele parecia tão calmo? Isso me deixava mais assustada.
― Não entendo a mente de psicopatas. – sussurrei.
Ao ouvir esse sussurro ele veio em minha direção e não estava nu por baixo do cobertor
como minha imaginação louca me fazia crer. Estava com uma calça preta de malha para corridas
matinais. Chegou bem próximo. Meu corpo tremia de forma incontrolável.
― Por favor. – eu estava apavorada.
― Não gosto de te ver tremendo assim. Não por medo. Seu corpo deve tremer por outros
motivos. – disse fazendo com que a lembrança da noite anterior invadisse minha mente.
― Nessa situação só consigo sentir medo. – não estava sendo inteiramente sincera. Se ele
me tocasse voltaríamos para a cama e eu me entregaria novamente. Era preciso muito esforço
para minha voz sair e ocultar a paixão que ele despertava.
― Duvido, mas vou fingir que acredito. – o sorriso era de deboche.
― O que você quer de mim? – odiava usar essas frases feitas para filme de terror, mas
não pensei em nada inteligente para dizer que me livrasse daquela situação.
― Repito: Ainda não sei.
― Tinha algo em mente quando me trouxe para sua casa?
― Muitas coisas. Algumas te assustariam e em outras você sequer acreditaria. – sorriu
novamente quase me desarmando – Você me acha um psicopata, essas respostas não vão mudar
absolutamente nada.
― Será porque você guarda corpos em sua residência? – tentei parecer cínica.
― Talvez um dia eu esclareça isso para você. Ou talvez não. O que faremos nesse instante
é mais prático. – olhou meu corpo coberto pelo lençol branco – Vista-se vou te levar para sua
casa.
Fiquei imóvel e muda. Como alguém podia sentir alivio e decepção ao mesmo tempo? Eu
senti.
Depois de absorver o que ele disse agi da forma que achei certa. Peguei minhas roupas
espalhadas pelo chão, tentando não pensar. Já que meus pensamentos se tornaram loucuras. Me
sentia um zumbi vestindo cada peça de roupa. Tinha certeza que fugia de uma morte certa, porém
parecia que eu seguia direto para ela.
Ele me esperava parado no mesmo lugar próximo a porta com um olhar indecifrável.
― Vamos?
Foi a última coisa que ouvi de seus lábios até chegar ao destino.
Durante todo trajeto ele seguiu em silêncio. Nunca disse onde morava e ele parecia seguir
como se conhecesse o caminho. Se ele queria silêncio teria silêncio. Na verdade, eu pouco olhava
na sua direção. Observava as paisagens que mudavam. Casas dando lugar a mata e novamente
mata dando lugar a casas.
A viagem era curta. Não estávamos longe da minha casa quando ele resolveu falar comigo.
― Quer que eu te leve até a porta ou prefere não ser vista comigo?
Um medo súbito me assolou. Quis adiar a resposta. Sentia que depois que ele me deixasse
em casa jamais o veria.
― Posso perguntar como descobriu o endereço onde está me levando? – estava evitando
essa pergunta e a usei para ter a falsa esperança de que ficaríamos mais tempo juntos, mas ele
parecia ter pressa em se livrar de mim. Seu olhar era diferente, misturado com o desejo que eu
sempre via presente estava um ódio explicito. Como se o estivessem torturando a ferros quentes.
Era impossível entender o que ele tinha em mente.
― Não tem importância como sei. Devo considerar isso como qual resposta?
― Faça como quiser. – perdi a paciência.
Ele me levou até a porta da casa de minha mãe. Sem falar mais nada desci do carro e
fiquei observando ele partir. Sem dizer adeus. Sem dizer nada.
Permaneci olhando o jardim de rosas que minha mãe plantou, e também as outras flores e
plantas. Mamãe amava plantas. E eu amava minha mãe. A casa estava silenciosa. Muito estranho,
pois estava sempre tão agitada, cheia de gente. Eu devia entrar, mas meus pés pareciam colados
ao chão. Só minha mente viajava. Pensava naquele estranho que me deixou ali. Pensava em como
era possível que eu houvesse me entregado a um desconhecido. Eu que achava ridículo os
romances em que os personagens se apaixonavam à primeira vista. Eu que achava absurdo os
encontros que minhas colegas descreviam onde se entregavam a homens que mal conheciam. Tudo
que eu achava mais ridículo estava acontecendo comigo: as cenas de filmes de terror, sexo com
alguém que eu sequer sabia o verdadeiro nome, deixar-me levar para pela beleza de um
assassino. Nada disso deveria ter acontecido. Era tudo culpa de Cristiano.
Eu iria encontra aquele maldito um dia só não sabia se seria para matá-lo ou para
agradecer.
II - Parque de Diversões

― Ei, o que você está fazendo parada aí? – ouvi a voz da pessoa que mais amava em
minha vida.
Há quanto tempo será que ela estava me observando? Eu estava tão distraída que nem
notei sua presença em uma das janelas.
― Oi, mãe. Pensei que ouviria o barulho de todos antes de entrar. – disse olhando como se
observasse uma peça rara em um museu. Como amava aquela mulher!
― Estou sozinha em casa. Seus irmãos foram ao parque que está na cidade e seu pai está
vendo o jogo na casa do irmão. Afinal porque estamos conversando assim? Vamos, entre. Essa casa
ainda é sua. – ela sorriu apagando tudo que aconteceu anteriormente. Faria qualquer coisa para
vê-la feliz e isso incluía não contar a loucura da minha aventura.
Quando entramos ela tocou no assunto que eu queria evitar.
― Pensei que você ia ficar mais de uma semana viajando com seus amigos. Até avisei a um
de seus amigos que veio te procurar que só te encontraria na próxima semana. O nome dele se
não me engano é Cristiano.
Aquele idiota. Devia estar se sentindo culpado. – pensei odiando aquele homem mesquinho
que me deixou à mercê da sorte na estrada.
― Depois ligo para ele. – respondi e já mudei de assunto – E a senhora por que não quis ir
ao parque também?
― Estou velha para essas coisas. Você que devia ir, mas primeiro procure descansar. Parece
muito cansada para quem viajou com intenção de descansar. – era impossível fingir que estava
tudo bem, mas conseguia mentir sobre o motivo da minha expressão desanimada.
― Devo parecer cansada porque voltei muito antes do programado. – respondi enquanto
pensava em um motivo para ter voltado.
― Entendo. E por que voltou antes? Algum problema? – ela estava tranquila, pois confiava
em sua filha.
― Uma colega minha se machucou ao cair de uma árvore e achamos melhor trazê-la de
volta, mas já está tudo bem.
Tive que esclarecer que era só um machucado bobo quando vi o início de preocupação no
rosto dela.
― Mal conheço alguns de seus amigos e outros nunca vi. Não acha interessante trazer
alguns deles aqui algum dia? – mamãe sempre encontrava um jeito de chegar na parte em que eu
devia ter mais amigos.
― Pode ter certeza que os que considero amigos a senhora já conhece. Os outros são
apenas colegas. Não vale a pena procurar um vínculo que não existe.
― Você quem sabe. – ela riu da minha maneira sincera de referir aos meus colegas e
levantou convidando-me para um café.
Ela queria que eu tivesse tanto amigos quanto meus irmãos. Eles faziam amizade com
qualquer pessoa que parasse sessenta segundos para conversar. Eu não sou assim, preciso de
tempo para conhecer com quem divido minha vida. Está certo que por uma loucura que ainda não
sei explicar me joguei na cama de um desconhecido. O pouco que sabia dele era um nome que
nem sei se é verdadeiro e o fato dele guardar corpos em sua casa.
Tirando a possibilidade de ele trabalhar em um necrotério a única explicação lógica seria
ele ser um psicopata.
― Está pensando em que? – tirou-me de meus devaneios.
― Desculpe. Só estava imaginando que terei que cozinhar e que não estou nem um pouco
disposta a encarar o fogão. Que tal a senhora me convidar para jantar aqui? – meu estômago
reagiu ao lembrar da comida dela.
Não percebi que estava distraída, ainda bem que tenho um raciocínio rápido. Caso
contrário teria gaguejado ao inventar uma desculpa que não era bem mentira. Não fazia questão
alguma de cozinhar, por isso gostei da possibilidade de jantar com minha mãe mesmo sabendo que
ouviria um sermão sobre a importância dos amigos e da família em nossas vidas. Tinha sorte que
ela não era daquelas mães obcecadas por ver seus filhos casados. Preferia ter todos com ela,
porém não foi novidade o fato de não fazer escândalo quando decidi morar sozinha. Ela sempre
soube que eu gostava de solidão. Conhecia cada um de seus filhos e suas manias.
Enquanto conversávamos na cozinha as lembranças do momento em que expus minha
decisão me encheu de mais amor por minha mãe.
Eu havia acabado de completar dezenove anos, fazia faculdade de pedagogia e fazia
estágio em uma escola municipal auxiliando crianças com dificuldade de aprendizado quando
Fabrícia, uma amiga de infância convidou-me para cuidar da casa dela, pois moraria em Portugal
e não confiava em alugar a casa. Era uma quitinete localizada no centro de Ouro Negro, cidade
mineira onde morávamos desde sempre.
― Claro que aceito! – respondi rapidamente, pois morar sozinha ajudaria no meu
desenvolvimento como pessoa. – Vou sentir muito sua falta, mas é uma oportunidade imperdível
você vai ser muito feliz lá!
― Assim espero. Não é todo dia que conseguimos bolsa integral para a Universidade de
Coimbra. Só de pensar em toda mudança que vai acontecer em minha vida arrepio toda. –
comentou e instantaneamente passou as mãos nos braços como que simulando conter um arrepio.
Éramos tão diferentes. Fabrícia era uma garota de vinte anos, de baixa estatura, cabelos
loiros e curtíssimos, pele branca e olhos castanhos claros em contrapartida eu era mais alta que a
maioria das mulheres, meus cabelos castanhos escuros e totalmente cacheados passavam muito da
altura dos ombros, minha pele era morena, herança da minha mãe, e meus olhos eram de um azul
herdado da família de meu pai. Uma mistura exótica que eu adorava. Focada em estudar e
trabalhar raramente envolvia em relacionamentos o que não impedia de ser cortejada.
Olhei a futura advogada e já sentia um aperto de saudade antecipada no peito. Abracei
forte minha melhor amiga e continuamos a falar sobre a viagem dela, de como seria morar no
campus e na minha mudança para sua casa.
Fabrícia vivia sozinha, na casa que herdou dos pais mortos em um acidente de carro, desde
os dezoito anos.
Quando cheguei em casa não esperei e fui logo despejando:
― Mãe, a senhora sabe que a Fabrícia vai morar em Portugal. – ela só balançou a cabeça
confirmando. Estávamos em sua sala de costura. Continuei falando. – Ela ofereceu a quitinete para
que eu morasse lá e aceitei.
Na hora que pronunciei essas palavras o lugar foi invadido por um silêncio incomodo.
Esperei a explosão dela, mas o barulho da máquina de costura voltou e a voz calma se fez ouvir:
― Sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Só não esperava que fosse tão
cedo. Criamos os filhos para conquistarem o mundo e isso não acontece sob as asas dos pais.
Imaginava que ela se esforçava para não chorar.
― Mãe. – puxei uma cadeira e sentei ao seu lado. Ainda estava com os livros de
pedagogia da aula nas mãos. – Prometo que não deixarei com que sinta minha falta. Vou vir
tantas vezes te visitar que vai ser como se eu não estivesse morando fora.
― Quando você vai? – se virou para me encarar. Os olhos castanhos estavam cheios de
lágrimas o que fez algo apertar meu coração, mas segurei para não chorar também, pois não
ajudaria em nada.
― Irei no início do próximo mês. – respondi.
― Tudo bem! Falarei com seu pai. – era um alívio saber que não precisaria pedir permissão
ao meu pai porque ele sempre explodia. Era um homem de palavras rudes o que não impedia de
amar seus filhos. Minha mãe sempre intercedia por nós e sempre o convencia de qualquer coisa.
― Eu te amo, mamãe. – a abracei e beijei seus cabelos. – Agora vou guardar esses livros
para estudar no fim de semana.
― Também te amo. – a ouvi responder o meu comentário quando já estava na porta e saí
levando os livros e o aperto no peito que insistia em não me abandonar.

Aquela mudança toda aconteceu há cinco anos. Fabrícia estava casada, tinha uma filha
pequena chamada Agatha e estava prestes a formar. Não pretendia voltar para o Brasil. Vendeu
a quitinete para meu pai que a alugou para amigos da família. Eu estava com vinte e quatro anos,
morava sozinha, mas em minha própria casa financiada, desisti da faculdade de pedagogia por
falta de aptidão, trabalhava com telemarketing e ainda não havia encontrado o homem dos meus
sonhos. O mais perto que cheguei foi graças a dois relacionamentos frustrados onde desde o início
sabia que não ia dar certo e a loucura que me levou a desejar um psicopata desconhecido.
Larguei as lembranças em um canto da mente para usar depois e foquei na conversa com
minha mãe onde eu tentava convencê-la a ir ao parque comigo. Não consegui. Ela não gostava de
sair de casa para esse tipo de evento, preferia uma reunião em família no quintal de casa curtindo
a churrasqueira e a piscina.
Mesmo não conseguindo convencer minha mãe a ir comigo decidi que ela estava certa e
combinei com meus irmãos de irmos ao parque no fim de semana. Era minha única chance já que o
parque partiria para outra cidade. Seria o fim de semana de encerramento em Ouro Negro. Era
também uma forma de não deixar meus quinze dias de férias passar totalmente em branco depois
de ter a planejada viagem arruinada por Cristiano.

Como era verão fazia muito calor independente de ser noite e de o céu estar coberto de
nuvens de onde a todo instante descia chuva. Por isso para o passeio ao parque-circo vesti um
short preto e uma blusa branca e parti ao encontro dos meus irmãos. Eles já me esperavam no
portão da casa de minha mãe. Naquele momento a chuva havia dado uma trégua.
Não sabia como meus irmãos cabiam naquela casa. Eram tão espaçosos e barulhentos.
Cada um com seu estilo de vida e figurino. Marcos usava uma camisa branca, calça preta; com
correntes, pulseiras e tatuagens completando seu estilo rapper; Sara de mini saia jeans azul e blusa
verde decotada parecia uma mini dançarina de funk por causa de sua estatura; Laura de vestido
com estampas azuis e pretas era a imagem de uma princesinha e Fernanda com short jeans e blusa
rosa escondia no sorriso seus quase trinta anos.
― Tentei convencer mamãe a ir, mas não consegui. – disse Sara enquanto mexia nos brincos
que ela mesma fez.
― Esperava por isso. Está para nascer quem convence mamãe de alguma coisa. Dona Cida
consegue ser teimosa ao extremo. – falei enquanto andávamos.
― Você herdou isso dela. Brigou até que saiu de casa. – Fernanda parecia se ressentir às
vezes por ser a mais velha e ainda morar com nossos pais, enquanto eu era independente.
― Daqui a muito pouco você vai sair também e se depender do Paulo vai ser casada. –
tentei não ser contaminada pela inveja dela para não correr o risco de atrapalhar o passeio.
― Deus te ouça. – juntou as mãos como em uma prece.
― E por falar em casamento devíamos deixar Marcos em casa, assim não corremos o risco
de ficar rodeadas de garotas histéricas. – Sara entrou na conversa.
― Eu tenho que ir. Caso contrário quem vai proteger vocês? – meu irmão não caia nas
provocações. – Ninguém se atreve a mexer comigo por causa do meu DNA de gigante.
― Ora, nós nos protegeremos. Por que acha que deixamos as unhas crescerem? – Sara
respondeu. – Você devia ter deixado um pouco desse DNA para mim.
Todos rimos diante do enorme contraste na altura dos dois.
Já estávamos quase chegando ao local. Nem via o tempo passar ao lado dos meus irmãos,
pois tudo virava brincadeira ou piada.
Ao chegar ao parque-circo nos divertimos um pouco nos brinquedos e eles me obrigaram a
assistir a um show de mágica. Na hora da apresentação dos palhaços eu já estava ficando
entediada. Palhaços não me encantavam.
― Mágicos dá para aguentar, mas palhaços já é demais. Não gosto deles, não vejo graça
no que fazem. Vou dar outra volta pelos brinquedos. – anunciei levantando.
― Quer que eu vá com você? – Laura se ofereceu.
― Não precisa. Fica e ri por mim. Quando acabar vou estar perto da barraca de pipoca.
― Certo.
Andei pelo lugar sem prestar muita atenção ao meu redor. Os brinquedos não me atraiam
mais e eu percebi que mesmo enquanto me divertia aqueles olhos prateados me perseguiam. Meus
pensamentos estavam naquele homem, por isso nada me animava apesar da presença alegre de
meus irmãos. Encostei nas grades de segurança de um dos brinquedos e fiquei tentando imaginar o
que ele estaria fazendo naquele momento. Será que matou mais alguém depois que saí da sua
casa ou mesmo enquanto eu estava lá?
Procurei por várias respostas enquanto só encontrava perguntas. Distraída me assustei com
a voz ao meu lado:
― Que bom que não aconteceu nada com você. Andei muito preocupado.
Não tinha ideia de há quanto tempo Cristiano estava ali, mas agradeci por não ter o hábito
de falar sozinha. Não queria que ninguém ouvisse as loucuras que estava pensando. Nem mesmo
ele.
Eu não estava nem um pouco disposta a ouvir as suas desculpas, mas ele era insistente
demais. Me concentrei em observar o movimento dos brinquedos a minha frente.
― Não vai dizer nada? – perguntou chateado com meu silêncio.
― Você está vendo que estou viva e inteira. Não graças a você, claro. Se ficou tão
preocupado indica que tem consciência porque me deixar sozinha no meio do nada onde eu
sequer conhecia foi uma atitude no mínimo estúpida. – não resisti e acabei entrando no jogo dele.
― Sinto muito. Liguei diversas vezes para sua casa e para casa de sua mãe, já que seu
celular sempre dava fora de área. Onde estava? – ele realmente estava agindo como o homem
ciumento que sempre foi.
― Minha vida deixou de ser do seu interesse no momento em que bateu a porta do carro e
me deixou naquela estrada. Se não ficou claro posso dizer o que você já devia ter entendido: nem
sua amizade eu quero mais. – minha voz era baixa para não chamar a atenção das pessoas ao
redor, mas a raiva estava lá. Se não houvesse mais pessoas ali socaria a face dele com muita
força.
― Está sendo injusta. – ele também mantinha a voz baixa. Apesar de canalha detestava
escândalos.
― Cristiano, quero que entenda, foi legal o tempo que passamos juntos, mas faça o favor
de nunca mais me procurar.
Meu Deus, por que não percebi o idiota que ele era antes de me envolver? Eu sequer o
amava.
― Quando esfriar a cabeça e se arrepender pode me ligar. – declarou ignorando tudo que
eu disse.
― Certo. Prometo que se algum dia eu descobrir que não posso viver sem você, faço isso.
Agora tenho que ir, meus irmãos estão me esperando.
Saí sem olhar para trás e fui para a barraca de pipoca. Ele não me seguiu. Não demorou
muito para meus irmãos chegarem. Compramos pipoca e caminhamos de volta para casa de nossa
mãe.
Durante todo o passeio e a volta para casa não percebi que alguém me observava oculto
pela escuridão daquela noite de lua crescente, mas ás vezes eu olhava para trás mesmo sem saber
o motivo. Era instintivo.
III – Alec

O tempo passou lentamente. Lá se foram três meses desde que Alec surgiu naquela estrada.
Ás vezes realmente parecia que foi somente um sonho.
Seguia a rotina da minha vida: trabalho, família, televisão, livros e pensamentos estranhos.
Quando eu iria esquecer aquele homem?
Descobri que não seria naquela noite.
Cheguei em casa na segunda-feira, que eu considerava o pior dia para se trabalhar, e fui
direto tomar um banho. Tinha ido do trabalho para a casa de minha mãe ajudar Laura com
algumas tarefas de matemática e só sai de lá ás dez da noite. Mamãe tentou me convencer a
dormir lá, mas só conseguiu me convenceu a ficar para o jantar.
Não sei dizer o que era, mas ao chegar em casa senti algo diferente, como se a casa
tivesse outro cheiro. Não saberia explicar, mas tinha alguma coisa diferente. Contudo eu estava
cansada demais para pensar nisso.
Saí do banheiro direto para o quarto, vesti uma camisola azul confortável, me joguei na
cama e logo adormeci. Assim que o sono me alcançou os sonhos com os olhos prateados também
me invadiram. Acordei assustada no meio da noite. Tinha acabado de sonhar que ele corria em
minha direção com um punhal dizendo que só queria ver a cor do meu sangue.
Respirei fundo para tentar acalmar e dormir novamente, porém alguma coisa me impedia. A
luz estava acessa e eu não conseguia dormir com a luz acessa. Fiquei um pouco confusa, pois tinha
certeza que havia apagado a luz quando fui dormir. Será que estava ficando louca ou cansada o
bastante para esquecer algo tão rotineiro?
Apaguei, voltei para cama e fechei os olhos relaxando corpo e mente. Mesmo de olhos
fechados percebi que ela se acendeu novamente. Tive medo de abrir os olhos, pois não sabia o
que encontraria. Rezei para que fosse apenas alguém da minha família pregando uma peça.
Apenas eles possuíam a cópia da chave de casa. Só me arrisquei a abrir os olhos quando senti um
peso a mais ao meu lado na cama.
Encontrei o que procurava.
― Seria interessante se você falasse enquanto dorme. Deve ter sonhos perturbadores para
se debater tanto. – a voz sensual conhecida fez nascer um nó em meu estômago.
Sentei na cama com os olhos fixos nele e minha boca falou sem minha permissão:
― Pensei que soubesse com o que sonhei. – pronunciava cada palavra aparentando a
calma que não sentia – Sonhei que você me matava. Imagino que este é o motivo para estar aqui?
― Não. Só senti saudade. – estendeu uma mão em minha direção, mas afastei bruscamente.
― Que legal! – pensei em levantar, mas por um pudor sem sentido não o fiz – Pode dizer
com sinceridade o que quer de mim? Ou ainda estou vivendo um pesadelo?
― Tudo o que deseja você associa ao surreal, a sonhos, por quê? – ele recolheu a mão sem
demostrar decepção por ser rejeitado.
― Perguntas e mais perguntas. – eu era pura raiva naquele momento – Não disse que te
queria.
― Disse sim, várias vezes em apenas algumas horas. E agora mesmo todo o seu corpo
afirma isso. Se eu te beijasse poderia te levar onde quisesse. – subiu na cama King Size
ameaçadoramente.
― Não sabia que eu era tão fácil. – a raiva por saber que ele estava certo me impulsionou
a levantar e sair do quarto ignorando o pudor de momentos atrás.
Ainda eram duas da madrugada. Andei para a cozinha, peguei um copo com suco de
maracujá e me sentei à mesa. Ele sempre me seguindo e observando meus movimentos.
Abaixei a cabeça sobre a mesa tentando organizar os pensamentos. Senti a madeira fria e
um arrepio expandiu por minha pele.
― Você ainda não me respondeu. – praticamente sussurrei essas palavras sem levantar a
cabeça. Meus cabelos estavam espalhados pela mesa e escondiam meu rosto como uma cascata
cacheada.
― Quer saber o que quero de você? – perguntou e antes que eu pronunciasse qualquer
sílaba respondeu a própria pergunta. – Juro que ainda não sei. Quando tiver uma resposta você
será a primeira a ser informada. – ele permanecia de pé encarando-me como uma ave de rapina.
― Isso nos leva onde exatamente? – levantei o olhar inquiridor meio encoberto pelos
cabelos.
― Onde quisermos. – respondeu simplesmente.
― Eu quero ir dormir. – abaixei a cabeça novamente. De repente fiquei cansada como se
tivesse trabalhado pesado o dia inteiro.
― Certo. Durma. Quero te contar uma coisa, mas realmente essa não é a melhor hora. Vou
sumir agora e volto antes de amanhecer.
A cozinha ficou silenciosa. Levantei a cabeça e ele havia desaparecido como se nunca
tivesse estado naquele lugar.
Era provável que sua presença fosse fruto dos meus pesadelos e do louco desejo de vê-lo
novamente. O que o levaria a minha casa? Deus, precisava urgentemente de férias, viajar para
perto do mar e lavar meu corpo e minha alma na água salgada; ou de uma visita ao psiquiatra.
Subi novamente para o meu quarto e dormi um sono leve e sem sonhos.
Acordei na manhã de terça-feira com o corpo disposto e a mente confusa. Não demorou
muito para que eu descobrisse que foi tudo real. Ele estava sentado na cadeira da minha
penteadeira.
― Bom dia! Que bom que acordou. – disse iluminando o quarto com um sorriso sereno.
― Ah não! Meu Deus! Quando vou me livrar de você? – desistindo de levantar joguei meu
corpo novamente na cama.
― Provavelmente nunca. Estou meio que obcecado por você e confesso que sou muito
insistente quando desejo algo. Nesse caso alguém. – o sorriso permanecia lá.
― Sou seu novo vício? Que ótimo! – tapei meus olhos com as mãos. Isso dava a ilusão de que
podia livrar-me da sua presença quando quisesse.
― Estou falando sério. Por que fica usando de palavras esquivas ou cruéis? – observava um
par dos meus brincos entre os dedos. O olhar ia das pedras da bijuteria a cama onde eu estava.
Por alguns instantes meu olhar se focou na penteadeira e a vi. A rosa estava lá. A mesma
que encontrei em todas as poucas vezes que despertei em sua casa antes de descobrir o corpo da
mulher. Vermelha como sangue. Fiquei com vergonha da minha atitude. Não fazia sentido mentir
que não o queria ao meu lado.
― É só por causa do momento. – respondi começando a me questionar por que agia na
defensiva com ele. Já percebi que não seria mais uma de suas vítimas. Ou ele era um excelente
ator ou era extremamente sincero. Optei por acreditar na segunda opção.
― Como assim? – os brincos foram deixados de lado e a atenção era toda minha.
― Se alguém me acorda no meio da noite vou, mesmo sem querer, agredi-lo verbalmente.
De manhã também acordo com esse mesmo humor. Preciso de tempo para despertar, tomar um
banho e café, somente assim converso civilizadamente. É um defeito meu.
Seu sorriso se tornou mais amplo e disse:
― Compreendo.
Após meu ritual matinal, ficamos na cozinha, porém diferente da noite anterior estávamos
sentados frente a frente.
― Pronto Alec. Já estou propicia a te ouvir. – tinha dúvidas de que esse fosse o nome
verdadeiro dele apesar de ter se apresentado assim.
― Pelo seu tom de voz não parece, mas vou fingir que acredito. Você quer saber a verdade
sobre os acontecimentos recentes, não é? – ele olhava para o seu copo de suco intocado.
Balancei a cabeça afirmando e depois de alguns segundos de relutância ele prosseguiu:
― No começo você não vai acreditar e depois vai ficar assustada, mas vamos lá. – encarou-
me – Eu realmente matei aquela mulher e outras pessoas durante minha existência. Não por um
motivo insano como você deve estar imaginando. Matei aquela mulher para não correr o risco de
matar você.
Abri a boca para protestar, mas ele levantou da cadeira e com um movimento das mãos me
pediu para não interromper.
― Eu a matei pela necessidade de me alimentar. Sei que não vai acreditar, mas lhe devo a
verdade.
Fez uma pequena pausa e declarou:
― Mia, eu sou um vampiro.
Já estava com muita raiva, por ele me culpar pela morte daquela garota que eu nem
conhecia. Como podia dizer que matou alguém por mim? E agora isso de que é um vampiro. Não
sabia mais se o expulsava da minha casa, se chamava a polícia, se chamava um psiquiatra ou se
apenas caía na gargalhada.
― Vai poder alegar insanidade. – foi a única coisa que consegui dizer diante do discurso
absurdo.
― Mia. Tão linda e apaixonante! Eu disse que não acreditaria e mesmo que acreditasse não
assumiria. Aprendi muito sobre você no pouco tempo em que estivemos juntos. Eu poderia mostrar
minha força, minha velocidade ou mesmo provar seu sangue, mas sei que não será preciso. Quando
se der conta já estará sentindo medo. Só preciso saber o que vem depois do medo.
Senti um arrepio percorrer meu corpo. Vampiro ou louco ele era perigoso, isso estava claro.
E era muito mais perigoso para mim, pois eu não queria que fosse embora. Queria fazer parte
daquela loucura. Não era medo que sentia ao observar os movimentos dos músculos embaixo da
camisa vermelha. Recordava tudo que aquela pele me fez sentir.
Com muito esforço voltei ao presente.
― Louco ou não, por que não diz logo o que quer de mim? Isso se já souber.
― Sei sim. Eu quero você. Tão intensamente como quando o meu corpo conheceu o seu. Tão
intensamente como quando você me queria naquele momento em que estivemos juntos. – sem se
importar com a estranha revelação ele aproximou-se e penetrou os dedos em meus cabelos
massageando-os e trazendo uma sensação lânguida ao meu corpo todo.
― Como pode dizer isso? Nem sei quem é você. Seu nome é Alec mesmo? – eu tinha que
continuar conversando ou acabaria nos braços dele outra vez. Não mostraria fraqueza afastando
daqueles dedos maravilhosos. Também queria aproveitar a sensação o máximo possível.
― Desde que nasci. Alec Maldaner. – respondeu – Escolha do meu pai que ouviu alguém
dizer esse nome na cidade onde passava as núpcias com minha mãe. Isso há aproximadamente
189 anos. Acho que esse nome era comum naquele lugar e naquela época. Considero antiquado,
mas por algum sentimento humano ainda não o mudei.
― Os seus pais ainda estão vivos? – perguntei concentrada em transformar toda aquela
confusão em uma conversa civilizada.
― Não. – ele continuava massageando. Mãos mágicas que me excitava e acalmava
simultaneamente.
― Sinto muito. – realmente sentia, pois não conseguia imaginar minha vida sem meus pais.
― Não sinta. Faz bastante tempo. O vampiro que me transformou não queria a família toda,
por isso se alimentou deles e me fez o que sou. – ele voltou a falar sobre vampiros. – Existem
vampiros em toda parte; escondidos nas sombras, alimentando-se de criminosos e inocentes. O que
me transformou é um tipo solitário que não consegue ficar muito tempo no mesmo lugar ou com as
mesmas pessoas. Logo desapareceu me deixando sozinho. Não reclamei. Era um favor que ele me
fazia.
― Nossa! Não sei o que dizer.
― Diga que acredita em mim e que me quer tanto quanto eu te quero. Não ligo se existem
outros vampiros agora que te encontrei. – as mãos passaram dos cabelos para meu pescoço
massageando sensualmente e tirando minha concentração.
― Não importa se acredito ou não. Acabei de descobri que sou louca. – meus olhos
permaneciam fechados enquanto falava. – Sonho com você todas as noites e sinto sua presença em
todos os lugares em que estou. Independente do que você seja ou das bobagens que fala não
resisto ao que sinto. Absurdo. Loucura. Tanto faz. Tenho uma nítida sensação de que sempre estarei
disposta a ouvir seus devaneios.
Minhas palavras saíam sussurradas. Virei o rosto para cima e estávamos tão próximos que
não tinha mais volta.
― Meu vampiro. – sorri meio trêmula – Espero que tenha se alimentado ou esse será meu
último dia.
Ele sorriu também enquanto seus dedos percorriam meu rosto. Sabia que eu ainda não
acreditava no que disse.
O gosto dos seus lábios ainda estava impregnado em minha pele, mas eu queria mais
lembranças. Enquanto me hipnotizava com seus lábios ele me levantou da cadeira e me sentou
sobre a mesa. Ouvi o barulho de um copo se quebrando. Ele colocou seus dedos entre os meus
conectando-nos e olhou dentro dos meus olhos.
Ficamos assim por alguns instantes, nos olhando, testando, tentando entender. Dentro de mim
se misturando medo, desejo, ansiedade e confusão.
Uma voz em meu inconsciente gritava “não pode apaixonar-se por alguém como ele. ”
Sabia que a voz estava certa, no mínimo ele era louco. Tantos homens no mundo e fui apaixonar
justamente por um psicopata. O psicopata mais lindo do planeta, mas isso não mudava o insano de
suas palavras ou ações.
Sem conseguir resistir ao olhar dele por mais tempo passei o braço ao redor de seu pescoço
puxando-o até que sua orelha ficasse próxima a minha boca, mas não conseguir pronunciar as
palavras que desejava. Era possível ouvir apenas minha respiração pesada. As palavras ficaram
presas em minha garganta.
Entendendo o que eu queria e sem também pronunciar nenhuma palavra ele tirou-me da
mesa com braços fortes e sem colocar-me no chão me levou ao quarto de onde saíamos em raros
momentos.
IV – Trabalho

Eu podia estar apaixonada por um psicopata que achava que era um vampiro, mas não iria
perder o emprego por isso. Chegar atrasada por ter arrastado ele para cama logo depois do
café da manhã, e algumas outras vezes depois disso, não era problema. Era a primeira vez que
me atrasava, então qualquer desculpa serviria para justificar a falha.
― Onde vai? – perguntou enquanto me observava sair da cama.
Arrastei o lençol cobrindo meu corpo e deixando a vista seu corpo magnifico e nu. Era muita
tentação.
― Trabalhar. – respondi sem maiores detalhes e desviei o olhar da sua direção.
― Para que? – a pergunta não fazia sentido, mas ele não parecia estar brincando.
― Ora, eu não sobrevivo de sangue. Viver requer dinheiro e dinheiro requer trabalho. –
era uma discussão sem sentido.
― De quanto precisa? – a pergunta fazia menos sentido que o rumo da discussão.
― Da quantia que recebo pelo meu trabalho. – resolvi não o incentivar a continuar com
aquele assunto.
― Case comigo e não vai mais precisar trabalhar. – observava cada passo meu que ia da
penteadeira ao guarda-roupa escolhendo as peças de roupa e os acessórios que usaria.
― Por que? Você vai me transformar em um imortal como você? Alec acho que eu teria mais
trabalho se me casasse como você. – respondi rindo. Ele só podia estar brincando ao fazer uma
proposta daquela.
Ele ficou calado por alguns instantes, pensativo. Depois disse surpreendendo-me:
― Já descobri o que quero de você. Quero que seja minha mulher, minha esposa,
eternamente minha.
Fiquei sem palavras. Não pelo que ele disse, mas pela intensidade como falou.
Sem pensar nas consequências de atrasar-me ainda mais soltei o lençol que envolvia meu
corpo e estendi a mão em sua direção.
Ele se levantou e segurou a mão estendida levando-a aos lábios. Incialmente beijou-a com
suavidade, mas logo seu beijo virou uma tortura sensual. Virou a palma para cima e começou a
passar a língua no centro dela. Aquilo mexeu com todo meu corpo. Novamente quis ele dentro de
mim. Joguei longe preocupações básicas como gravidez e doenças sexualmente transmissíveis e me
entreguei sem reservas e sem proteções.
Sentado na cama ele me puxou com lentidão. Parecia querer usar a suavidade como
instrumento de tortura. Deslizou as mãos pelas minhas nádegas até chegar à cintura onde segurou
com firmeza e trouxe minha barriga para junto aos seus lábios. Trilhava beijos e lambidas do meu
umbigo a base dos meus seios.
Cheia de desejo encostei a cabeça na sua e quase sem voz pronunciei:
― Alec, o que está fazendo comigo?
Ele não respondeu. Percebendo que meus seios estavam ao alcance dos seus lábios ele
capturou um com os lábios e o outro com a mão. Dava pequenas mordidas e sugava enquanto a
mão estimulava o outro para não ser injusto.
Eu estava desesperadamente excitada e podia ver pelo membro rígido que roçava minha
pele que ele também estava.
― Alec, por favor. – eu pronunciei o nome dele várias vezes implorando para ser possuída,
mas ele não obedecia. Pelo contrário, continuava encontrando formas de me torturar.
― Alec...
Antes que eu pudesse terminar de pronunciar a suplica seus lábios e suas mãos se afastaram
dos meus seios. Minha esperança durou pouco. Seus lábios se focaram no outro seio e suas mãos
desceram por entre minhas pernas onde penetrou um dedo e com os outros iniciou uma massagem
que me fez perder o equilíbrio.
Estava nua, com as pernas levemente separadas, apoiada nos ombros dele para não cair
enquanto ele mantinha a atenção presa em meus seios e no centro do meu prazer. Suas mãos e
seus lábios traziam gemidos altos para minha boca. Não queria que ele parasse. Desejava que
fosse mais rápido, mais forte.
Foi como estar em uma montanha russa subindo cada vez mais alto. A queda foi espetacular.
Um orgasmo majestoso envolveu todo meu corpo trazendo espasmos e me deixando lânguida.
Abracei seu pescoço e fiquei ali esperando as batidas do meu coração normalizar. Uma das mãos
dele permanecia entre minhas pernas enquanto a outra acariciava meus cabelos soltos sobre os
ombros.
Era uma posição estranha. Em pé meio torta abraçando seus ombros, mas queria
permanecer ali o máximo possível.
Alec me amparava enquanto eu era dominada pelo orgasmo. Depois de um tempo ele me
colocou sentada em seu colo. Ignorava propositalmente sua ereção. Colocou os dedos dentro da
boca um de cada vez limpando-os com a língua como se houvesse sujado as mãos de chocolate.
Fazia tudo com tamanha sensualidade e eu somente olhava encantada com o que ele podia fazer
comigo.
― Terá mais disso quando voltar. Prometo. – estava descaradamente me desafiando a ficar
e cada vez que sua boca se movia pronunciando aquela promessa meu desejo de cumprir com
minhas obrigações no trabalho diminuíam. Mas não podia faltar.
Beijei seus lábios suavemente e saltei do seu colo.
― Você é algum tipo de feiticeiro e fez algo comigo, mas preciso ir.
Sem muita vontade voltei ao ritual de preparação para o dia de trabalho. Evitava ao
máximo olhar na direção do homem nu e excitado na minha cama.
― Tenho mesmo que ir? – questionei para minha consciência já no banheiro para o banho
mais rápido da minha existência. Ela respondeu que sim.
Vesti o uniforme no banheiro. O tempo todo as palavras dele me perseguiam “já descobri o
que quero de você. Quero que seja minha mulher, minha esposa, eternamente minha. ”
Quando voltei do banheiro ele estava concentrado em analisar o teto do quarto. O silêncio
era quebrado apenas pelo barulho que eu fazia enquanto pegava algumas coisas necessárias
para o trabalho e colocava em minha bolsa.
― Estou indo. Se você for sair a chave está na fechadura. – não sabia se o beijava em
despedida ou simplesmente saia.
― Venha aqui. – estendeu uma das mãos e como conduzida por um imã fui em direção à
cama.
Segurei a mão estendida e senti meu corpo sendo jogando sobre o dele. Recebi seus lábios
urgentes temendo que aquele fosse nosso último beijo. Depois de alguns instantes ele me libertou
prometendo:
― Estarei aqui quando voltar. – foi inevitável que um sorriso estampasse meu rosto. Senti
tamanha alegria que não pude controlar.
Ele não tentou me manter presa na cama por mais tempo. Ao invés disso brindou-me com a
promessa de que estaria ali esperando por mim.
Sai de casa quase correndo. Aquilo tudo não podia ser real. O tempo todo enquanto
trabalhava minha cabeça flutuava tentando imaginar um motivo para que aquilo estivesse
acontecendo comigo. Nem me dei ao trabalho de inventar uma desculpa pelo atraso, só disse que
perdi a hora e que não iria mais acontecer. Entrava no trabalho ás 14:00 horas e cheguei quase
as 17:00.
Como era boa no que fazia nada aconteceu. Trabalhava como atendente de cadastro na
empresa de telecomunicações Mares. Tinha que falar com vários vendedores externos e era
responsável pelo lucro deles e da empresa. Se errasse nos dados significaria perdas para ambos.
Nunca aconteceu.
Hoje eu fazia tudo automaticamente e no final de cada ligação sequer lembrava o nome de
quem atendi. No fim do expediente minha supervisora não veio falar comigo, isso significava que
não havia feito nada de errado. Sempre via acontecer com outras pessoas. O feedback não era
diante dos outros funcionários, mas sabíamos o que ocorria. Os erros são rapidamente descobertos
onde trabalho. E infelizmente as mudanças também.
― Você está diferente. Pensamento distante e sorriso nos lábios. Quem fez isso com você? –
quem me perguntava era Val, uma colega de trabalho. Tive dúvidas se ela realmente falava
comigo. Imaginei que minhas emoções não eram perceptíveis.
― Oi, Val! Nem percebi que estava diferente. – disse enquanto pensava em uma desculpa
para livrar-me dela.
― Não é nenhuma grande mudança. Apenas está com uma expressão apaixonada. Isso
toda mulher reconhece. – o olhar ansioso dela mostrava que não ficaria satisfeita com qualquer
desculpa.
― Confesso que estou envolvida com alguém, mas ainda não tenho certeza de nada.
Estamos nos conhecendo, assim que tiver certeza do que está acontecendo você será a primeira a
saber. Só nesse dia revelarei o nome. – dei a ela a confirmação de que suas suspeitas estavam
certas sem passar detalhes isso devia ser suficiente, pois não informaria nada a mais.
― Vou ficar esperando. – sorriu e olhou para o relógio – Agora tenho que ir. Meu intervalo
já está no fim.
― Até breve.
Sabia que ela esperaria. Não era comum a Val fazer alardes ou mesmo insistir em algo que
não dizia respeito a sua vida. Ela era curiosa e se considerava minha amiga então era natural que
quisesse saber. Valquíria não era nenhuma fofoqueira.
Quanto a mim, tinha que mudar a expressão. Nem todos na empresa eram discretos.
Fiquei na frente do espelho do banheiro treinando até tirar a expressão extasiada do rosto,
depois que consegui o dia passou mais normal. Ainda estava no mundo da lua, mas ninguém iria
perceber.
Fim do dia de trabalho. Saí da empresa Mares quase correndo. Tinha que saber se Alec
ainda estava em minha casa. Se cumpriria sua promessa.
V – Verdades

Ele realmente estava lá. Quase da mesma forma de quando o deixei, deitado na cama que
agora estava arrumada. Ao seu lado na cama estava outra rosa tão bela e vermelha quanto as
outras que sempre aparecia. Outra diferença é que ele estava vestido. Seu belo corpo coberto
por uma calça jeans surrada e uma camisa azul. Quando abri a porta o silêncio da casa me fez
temer entrar no quarto e não o encontrar.
Percebendo o quanto era difícil olhar para ele sem imaginar as coisas que fazia com meu
corpo comecei uma conversa trivial:
― Oi, o que fez enquanto estive fora?
― Nada importante. – respondeu sem se levantar.
― Hoje é um dia útil na semana. Você não tem compromissos? – imaginei em que ele
poderia trabalhar.
― Já tive compromissos demais. Agora vivo para gastar o que adquiri no passado. Não
tenho motivo para trabalhar. – estava totalmente relaxado na cama. A imagem mais perfeita que
já vi era aquele homem jogado sobre meus lençóis coloridos.
― Certo playboy. Comeu alguma coisa?
― Bebi. – respondeu me corrigindo.
― Espero que não seja ninguém que eu conheça. – ri.
― Não. Fui o mais longe possível do seu círculo social e familiar. – fez uma pausa – Nem sei
porque perco meu tempo explicando isso já que você não acredita em nada do que falo.
― Verdade. – concordei.
― E isso é estranho. – ele novamente pareceu curioso. Tinha quase certeza que provocava
essa curiosidade dele.
― Como assim? – não sabia se a resposta iria me agradar, mas quis descobrir o que ele
achava tão estranho.
― É estranho que você prefira acreditar que sou um assassino psicopata e me aceite mesmo
assim. É estranho, quase assustador. – a expressão continuava relaxada. Imaginei se ele nunca
estressava.
― Também acho. Agora podemos mudar de assunto? Não quero falar das pessoas que
você matou, seja qual for o motivo. – mesmo que fosse uma piada aquelas palavras que pronunciei
fez um arrepio percorrer meu corpo. Instantaneamente lembrei do corpo na casa dele e imaginei
como estaria a família daquela mulher. Senti um imenso nó no peito.
― Tudo bem! Fale-me do seu trabalho. Como foi hoje? – fez um gesto indicando a cama
para que eu sentasse. Obedeci ignorando a sensação ruim que a lembrança daquela mulher
trouxe.
― Diferente dos outros dias. Automático. Mas correu tudo como deveria. – enquanto falava
senti o movimento do colchão quando ele levantou para massagear meus ombros. Aquelas mãos
frias eram mágicas.
Peguei a rosa e aspirei seu perfume.
― Conte-me a história dessas rosas. – pedi curiosa.
― Eu quis fazer algo para conquistá-la e decidi presenteá-la com uma rosa todas as
manhãs. Fiquei muito irritado por não poder fazer isso nesses últimos meses.
― Pode continuar fazendo isso agora. Adoro esse mimo. – fechei os olhos com um sorriso no
rosto.
Deixando o assunto da rosa de lado ele me incentivou a falar do meu trabalho desde
quando comecei na empresa. Contei sobre os altos e baixos, as pessoas, as ligações mais
marcantes. Ele riu de algumas coisas e de outras não. Era como se nossa situação fosse comum não
um estranho caso de um psedo vampiro com uma aspirante a louca.
Depois de algum tempo, já sentados no sofá assistindo um episódio de Supernatural ele me
surpreendeu com uma pergunta direta demais:
― Por que você é assim? – olhava dentro dos meus olhos esquecido dos personagens que
lutavam por suas vidas na tela da TV.
― Assim como? – realmente não sabia a que ele se referia.
― Introspectiva. Tão dentro de si mesma. Esconde o que sente. Até comigo é assim. – seu tom
de voz estava mais intenso. Os olhos prateados mostravam que saberia se eu mentisse.
― Nossa! Ganhei um psicólogo. – tentei disfarçar, fugir da pergunta.
― Na verdade acabou de afirmar o que eu disse. Poderia simplesmente me responder, mas
decidiu fazer piada disso. Seu medo é tão grande que até o que deseja você associa a sonho. Tem
medo de mim e da minha ausência; isso te faz sofrer com antecedência por algo que pode nem vir
a acontecer.
Como ele podia saber tanto sobre mim? Mal nos conhecíamos.
― Não vai dizer nada? – insistiu.
Balancei a cabeça negativamente e ele me abraçou. Eu sabia que se abrisse a boca para
tentar dizer algo choraria e prometi que ninguém jamais me veria chorar. A temperatura do corpo
dele me ajudou a recuperar o controle. Ele era tão frio que ás vezes eu me pegava questionando
se ele realmente não era um vampiro.
― Não quis te magoar. Sinto muito. – a voz suave e rouca dissipava qualquer preocupação.
― Não sinta. Você só disse a verdade. A verdade me atinge porque eu realmente não
tenho motivo para ser como sou. – falava com o rosto escondido em seu peito.
― Pode parecer egoísta, mas esse seu suposto problema tem um lado bom. Pelo menos
para mim. – ele falava enquanto seus dedos deslizavam por meus cabelos.
― Qual seria?
― Se você fosse normal já estaria no mínimo comprometida com alguém normal. Sequer
olharia para mim e talvez eu nem te percebesse. Acha que uma pessoa normal se envolveria com
alguém que considera um psicopata?
― Dois loucos. Que ótimo! – ensaiei um sorriso.
― Comigo você não precisa se esconder. Seja quem é. Bom ou ruim sei que vou gostar. –
sussurrou em meu ouvido.
― Só queria me isolar do mundo. Não gosto dele. Essa rotina me assusta: estudar, trabalhar,
casar, reproduzir, envelhecer e morrer. E outro começa em seu lugar. Queria algo diferente, só não
sei o que. – meu rosto continuava escondido e ao sussurrar essas palavras eu aspirava o seu
cheiro. Seu perfume amadeirado misturado ao odor de sua pele lembrava as noites frias de
inverno.
― Não quer ter filhos ou marido? – perguntou bastante curioso.
― Não da forma que me é oferecido, como uma obrigação humana, como se não tivesse
escolha. – mentalmente questionava se minha justificativa fazia sentido.
― E sua família? – continuou com o questionário fazendo-me crer que havia algum sentido
em minhas palavras.
― Amo minha família. Amo mais ainda quando estou distante e sinto falta deles. Só mais
uma loucura para minha coleção. – calei-me um pouco pensativa, mas continuei. – Ou não, pois
geralmente sentir falta das coisas e pessoas que amamos é o que nos possibilita a certeza de que
realmente os amamos.
― Antes de me conhecer alguém já te interessou? – perguntou com voz mais mansa que o
normal, fazendo-me perceber que ele tinha ciúmes de meu passado.
― Todos os homens que conheci me interessaram em determinado momento, mas só por um
momento. Até que descubro que é só mais um na rotina da vida ou até que meus pensamentos se
desviem para algo que eu considere mais importante.
― Quer dizer então que não fui o primeiro na sua vida? Eu devia me prender a uma
virgem. Seria o desejo de meus pais. – dava para sentir que ele sorria.
― Não foi primeiro, mas quero muito que seja o último. – relutantemente levantei o rosto
escondido desejosa de encarar seus olhos ao mesmo tempo em que tinha dificuldades de afastar-
me do frio de sua pele macia. A camisa azul de botões estava semiaberta deixando minha pele
tocar a sua. Eu estava com o baby-doll da mesma cor da sua camisa que ganhei no último natal.
Havia me trocado logo depois que cheguei do trabalho.
― E se não for? – encarou-me profundamente.
― E se... – bufei com raiva daquela pequena conjunção condicional – não gosto de ses. –
abaixei e levantei o rosto tentando formular uma frase coerente. – Você parece tanto comigo que
me dá dor de cabeça.
― Não repita isso nunca mais. Dizem que são os opostos se atraem. Então quero ser o seu
oposto. – seu olhar não desviava do meu.
― Você me atrai. Atraiu-me desde o primeiro dia em que o vi. – sorri tentando disfarçar
que estava encabulada com seu olhar.
― Não sei se percebeu, mas você sempre diz o que quero ouvir. – sorriu também alheio aos
meus sentimentos bobos.
― Idem. – percebi naquele momento que por mais que ficasse encabulada seu olhar manter-
me-ia sempre firme.
― Sinceramente não tenho uma resposta certa ou completa para o porquê de eu ser assim.
Só posso dizer que odeio isso. – voltei à primeira pergunta dele. – Quando algo dá errado na
minha vida, mesmo as menores coisas como uma resposta errada, perder a hora, passar o troco
errado, etc. por muito tempo me faz sentir como se fosse o fim. O que chamariam de uma
tempestade em copo d’água, mas uma tempestade silenciosa que afeta apenas meu interior. Sinto-
me mal quando converso algo importante com alguém, no final é como se eu tivesse deixado de
dizer algo de suma importância, mesmo que já tenha dito tudo, mesmo que não saiba o que falta.
Isso me corroí o dia todo, ás vezes mais de um dia. Depois que te conheci isso mudou. Me sinto mais
completa, mais viva, feliz e não tenho mais essas crises. Devo dizer que você me fez economizar o
dinheiro que gastaria com psicólogos.
Segurei seu rosto com as mãos da mesma forma que ele fazia comigo, enquanto via sua
expressão mudar de seriedade para desejo.
― De verdade. Obrigada por me curar. – beijei seus lábios levemente – Agora vamos
deixar de lado minhas loucuras.
Ele ficou algum tempo sem dizer nada. Apenas me olhando. Minhas mãos ainda em seu
rosto.
― Pode parecer precipitado no seu mundo, mas tenho que dizer que eu te amo.
Surpreendeu-me o que ele disse, mas respondi o mais sinceramente que pude:
― No meu mundo e fora dele sempre te amarei.
Era uma verdade absoluta. Independente de como aconteceu, eu o amava. Sem pensar
onde aquilo podia me levar.
Cada vez mais nos envolvíamos na teia que o amor tecia.
VI – A confirmação

Estava vivendo os melhores dias da minha vida. Sempre que chegava em casa ele estava
me esperando, como uma miragem. Cada vez mais me abria para ele. Não precisava usar
máscaras.
Era estranho que ele não mexia em nada comestível e nem bebia nada quando eu estava
fora ou quando estava em casa, mas me parecia saudável apesar da palidez frequente. Estava
cansada de dizer que ele podia comer o que quisesse e ele insistir que estava se alimentando.
Deixei de lado. Ele podia muito bem-estar comendo em algum restaurante para sustentar a história
de que era um vampiro.
O que realmente me assustava era perceber que quando fazíamos amor a única
respiração ofegante era a minha, o único coração batendo era o meu. Inevitavelmente eu
começava a duvidar da minha certeza de que vampiros não existiam, mas não daria o braço a
torcer tão facilmente. Um dia descobriria a verdade sobre o mistério que era o Alec.
Tive que apresentá-lo à minha mãe para que ela perdoasse o tempo que fiquei sem vê-la
depois que o conheci. É claro que deixei de lado os detalhes obscuros de nossa relação como a
ocasião de quando nos conhecemos. De resto tudo que contei era verdade.
Disse que o conheci na viagem que fiz, que ele veio me procurar e que estava hospedado
em minha casa. Ela não se mostrou muito satisfeita com ele estar morando comigo, mas não
questionou. Por tudo que sabia sobre meus relacionamentos imaginou que esse não duraria muito,
mas em seu íntimo uma chama se acendeu com a esperança de que eu enfim tivesse encontrado o
homem certo. Apaixonou-se por ele no primeiro dia. Como não se apaixonar? Alec tratava com
carinho sua amada filha e tratava sua família com extremo respeito.
Ela o adotou no momento em que soube que havia perdido sua família. Claro que
inventamos que foi em um acidente de avião. Estava ficando boa em inventar histórias.

Fazia mais de uma semana que nós estávamos juntos e o fato dele nunca comer ou beber
na minha presença começou a me incomodar mais que de costume. Acabei por comentar isso com
ele enquanto assistíamos ao seriado Supernatural. Eu gostava desse seriado e não perdia nenhum
episódio que passava nas madrugadas. As aventuras de Sam e Jin eram arrebatadoras. O amor
de irmãos entre os dois era um exemplo e me fascinava.
― Como foi seu dia? – perguntei.
Ele não respondeu de imediato apenas me abraçou e continuou a olhar fixamente a
televisão. E eu passei minha atenção para a pipoca e para a TV. Assim que acabou o seriado ele
transferiu o olhar fixo para meu rosto, do jeito que fazia sempre que queria conversar algo
incomodo.
― O que está tentando provar? – perguntei já sem muito interesse no assunto. Estava
chateada com esse negócio de “sou vampiro”.
― Quero provar seu gosto. Até demais eu diria. – desviou o olhar para o meu pescoço, em
seu rosto uma indiscutível expressão de vergonha – É melhor eu não dormir aqui hoje. Vou sair.
Já estava levantando quando segurei seu braço frio.
― É essa história de vampiro? Por isso você evita comer e beber quando está comigo? -
permaneci segurando firme.
― Te disse a verdade e não preciso provar nada. Porém, se faz tanta questão vem comigo
que vou acabar de uma vez com suas dúvidas.
Obrigou-me a levantar, puxando-me pela mão que o segurava, e seguir para cozinha.
― O que vai fazer? – questionei enquanto acompanhava seus passos largos e rápidos
quase aos tropeços.
― Provar para você. – respondeu.
― Não precisa provar nada, não quero que prove. Mesmo achando absurdo o que disser
que é vou aceitar, não estou com você? – tentei força-lo a parar, mas não surtiu efeito, permaneceu
nos mesmos passos e as garras de ferro permaneciam em meu pulso.
― Eu sei que você quer acreditar em mim. – segurou meu rosto trazendo para próximo ao
seu – Melhor que querer é realmente acreditar.
Soltou meu rosto, pegou uma faca que estava em cima da pia e passou ela no braço de
perto dos ombros até a mão sem se preocupar com dor ou com minha expressão de pânico. Meus
olhos fixos no sangue negro que caia no chão da cozinha. Eu estava quase hipnotizada, mas
consegui esboçar uma reação.
― Alec não faz isso, por favor.
Ele não dizia uma palavra sequer, continuava enfiando a faca cada vez mais fundo. Eu
chegava a sentir um desconforto no meu braço como se o corte fosse em mim. A expressão dele
era como se estivesse passando a própria mão no local e não uma faca. Como se acariciasse o
braço.
Saí do meu estado de choque e corri até o lugar onde guardava o kit de primeiros
socorros para limpar o braço dele enquanto não chegava a ambulância que iria chamar. Eu só não
sabia por onde começar: Ligar para a emergência ou limpar o sangue negro que insistia em sair.
Quando voltei ele olhou para a caixa em minhas mãos com desprezo.
― Largue isso. Depois limparei o chão se isso te preocupa. – segurou meu braço com força
causando dor.
― Mas você... – tentei argumentar.
― Apenas observe.
Ele me fez encarar seu braço. Estava horrível. Temia que não houvesse possibilidade de o
médico fazer algo por ele. Alec estava indo longe demais. Eu não queria olhar, mas a dor que o
outro braço dele provocava em mim não deixava escolha. Minhas mãos tremiam.
De repente algo me fez ter mais atenção ao corte. Ele parecia ter vida própria. A carne se
movendo e ficando uniforme, a pele se encontrando e fechando cada pequeno orifício. Em poucos
instantes não havia mais corte. Nem cicatriz. O braço dele estava como antes de entrarmos na
cozinha.
Eu não podia acreditar.
Senti uma tontura e a escuridão me envolveu.
Acordei sentindo que minha cabeça descansava no colo dele. Não abri os olhos. Tive medo
de me mover, mas ele sentiu minha respiração e meu coração acelerados. Eu não podia fingir que
ainda estava inconsciente.
― Mia? Está tudo bem? – era uma pergunta, mas soava como uma afirmação.
Tentei me acalmar respirando fundo três vezes como ouvi alguém recomendar em algum
momento da minha vida e respondi:
― Sinceramente, não faço ideia.
― Só não associe o que aconteceu a um sonho ou delírio. Não tenho a mínima vontade de
repetir aquilo. Não que eu vá sentir dor, mas por causa da expressão que vi no seu rosto. Era
como se nunca tivesse me visto. Como se enfim estivesse frente a frente com um psicopata. – sua
voz soava repleta de tristeza.
― Como posso associar a algo irreal se meu braço ainda doí onde você segurou?
― Desculpe. Estava ansioso demais para controlar minha força. Sei que te machuquei físico
e emocionalmente, mas era necessário. Queria esclarecer isso de uma vez e nos permitir maior
liberdade de expressão, porém percebo que ainda está reservada. Fale o que realmente sente.
― Sinto o mesmo que sentia antes. Com um pouco mais de medo, claro. – fui sincera.
― Mia, te peço que me aceite. Como me aceitou quando achava que eu era um psicopata
assassino. No fundo você já sabia que eu era diferente de qualquer outra pessoa que já conheceu,
por isso me amou logo que me viu. – um sorriso tímido iluminou seu rosto.
O toquei com minhas mãos ainda trêmulas.
― Já disse. O que sinto é o mesmo. Quero você. Tenho certeza que não vou encontrar outra
pessoa que me complete como você. Ser ou não vampiro é só um detalhe.
Mantinha o rosto dele de forma que podia encarar seus olhos prateados e quando ele
passou a língua pelos lábios formigas imaginárias subiram pelas minhas pernas. Ele sempre
passava a língua pelos lábios deixando-os úmidos quando pretendia me beijar.
― Se não estou enganado. Somando todas as suas palavras o resultado do que disse é
que continua me amando. Certo?
― Certo. Eu te amo. – não conseguia tirar o sorriso que se instalou em meu rosto.
― Não mais do que eu te amo.
Seu rosto foi se aproximando tão lentamente que fazia a ansiedade pulsar em minha veia.
Quando finalmente nossos lábios se tocaram foi indescritível. Um beijo suave, intenso, maravilhoso.
Quando nossos lábios se separaram permanecemos com os olhos fechados e rostos colados.
Demorou alguns instantes para eu abrir os olhos. Percebi que ele permanecia com os olhos
fechados e acariciei seu rosto fazendo com que duas pedras prateadas com brilho intenso me
encarassem.
Se fosse um sonho eu não queria acordar nunca mais. Pensei isso, porém não disse para ele.
Continuei conversando para tentar entender aquilo.
― Agora que já está esclarecido quem ama mais me explica sobre aquela mulher morta em
sua casa. – minha voz saiu um pouco estranha devido a emoção do beijo.
Ele sorriu e seu sorriso acabou com qualquer temor que eu ainda tinha.
― Meu desejo de sangue me impedia de chegar mais perto de você. Tive medo que minha
sede pudesse fazer com que eu perdesse o controle e te mordesse. E eu estava certo. Você com
aquela história de sonho acabou com qualquer controle que eu ainda possuía. Se eu não tivesse me
alimentado dela talvez não estivéssemos tendo essa conversa.
Percebi que o que ele queria dizer é que eu poderia estar morta. Ele poderia ter acabado
com minha vida antes mesmo que eu pudesse arrancar suas roupas naquele dia.
― Eu estava louca por um assassino. – deixei escapar.
― Deixar sua lucidez de lado para ficar comigo não foi e nunca será em vão eu prometo.
E por falar em lucidez, era sério quando disse que não podia ficar aqui hoje. Estou no meu limite.
― E o que vai acontecer com a gente no futuro? – pela primeira vez fui abalada pelo fato
de que estava apaixonada por um imortal. Alguém que não envelheceria e que não morreria.
Ele levantou do sofá me levando junto.
― Você não foi a primeira mulher em minha existência, mas quero que seja a última.
Após dizer isso ele saiu da casa numa rapidez sobre-humana algo com o que eu deveria
me acostumar. Não sabia o significado das suas palavras, mas guardei todas elas em meu coração.
Ele voltou no meio da madrugada e me despertou com beijos e com a maciez das pétalas
de uma rosa que passava pelo meu rosto. Sua boca estava com gosto de sangue e para minha
surpresa não me importei. Envolveu-me em seus braços e permaneceu acariciando meus cabelos
até que o sono tomou minha consciência.
VII – Recordações

No outro dia quando voltei do trabalho o encontrei me esperando sentado no sofá. Meu
vampiro particular. Agradeci mentalmente a Cristiano por ter me deixado na estrada naquele dia.
Isso me fez lembrar de uma coisa.
― Alec, tem uma coisa que não posso deixar de perguntar. – sentei ao seu lado e joguei a
bolsa na mesinha de centro.
― Sobre vampiros? – perguntou depois de roubar um leve beijo.
― Não. Quero saber como me levou para minha casa sem questionar meu endereço. Como
sabia onde eu morava?
― Não ser capaz de dormir ás vezes é bastante chato, então aproveitei enquanto você
sonhava em minha cama e mexi em sua bolsa. Descobri seu endereço e fui até lá. Resolvi conhecer
um pouco mais sobre você naqueles dois dias que passou em minha casa. Observei sua família e
vizinhos por algum tempo. – olhei e um amplo sorriso invadiu seu rosto. Era o sorriso de um
predador. – Por falar nisso devo revelar que não cheguei na estrada por acaso. Estava
procurando alguém que servisse de alimento. Vi o carro em que você estava e passei a observar
cada detalhe dos passageiros. Tinha esperança de que o carro estava parado por estar
quebrado e que vocês dois me saciasse.
― Nossa! Eu poderia ter virado comida de vampiro. – recordei os momentos em que estive
na estrada discutindo com Cristiano. – O que te fez mudar de ideia?
― A garota que saiu do carro xingando e continuou xingando enquanto o carro partia. Te
achei engraçada parada no meio da estrada de calça bege frouxa e camiseta preta, sempre
resmungando. Você xingou por muito tempo, mas não disse um palavrão.
― Não gosto de palavras chulas. Há muitas formas de extravasar a raiva sem dizer
palavrões. – sorri ao lembrar o quanto eu estava com raiva de Cristiano.
― Ouvi você amaldiçoar aquele cara que estava contigo no carro durante algum tempo
naquele dia. O que aconteceu para que você descesse no meio da estrada? Você não chegou a
comentar isso.
― Ele era um cara legal no início. Talvez até continue sendo, mas não deu certo o nosso
relacionamento, não me envolvi. Ele usou aquela viagem para tentar dar um passo a mais na nossa
relação. Inventou que me levaria ao aniversário de sua mãe e que a casa estaria cheia de
convidados. Inventou também que alguns amigos do nosso círculo iriam. Seu erro foi ter confessado
a verdade no meio do caminho. Disse que armou aquilo para ficar sozinho comigo. – deixei
escapar um longo suspiro. – Confesso que usei isso para colocar um fim em nossa relação. Discuti
com ele e falei que se ele não fosse me levar para casa poderia me deixar ali mesmo. O infeliz
realmente me deixou ali. E assim que o carro partiu eu comecei a andar na direção contrária.
― Foi nesse momento que eu saí da mata e te abordei.
― Eu me lembro. Você disse: “Senhora, não pode andar por aqui sozinha. É perigoso. Está
com algum problema? Seu carro quebrou? ”.
― Não sei porque você demorou para responder. Deve ter sido o choque por eu ter
aparecido de repente.
― Não. Na verdade eu não conseguia me desviar dos seus olhos. São hipnotizantes. – ele
sorriu – Amo seu sorriso. Lembro que sorriu naquele dia. Você já me tinha nas mãos.
― Estou registrando essa conversa caso algum dia você decida ficar com raiva de mim. Vou
precisar de argumentos.
― Golpe baixo. – reclamei.
― Posso te dar uma arma também. Não sei se você já sabe, mas toda vez que você diz
que me ama, me desarma. Deixo de ser um ser imortal e me toro um menino que teme perder seu
bem mais precioso.
― Vou lembrar disso. – suas palavras haviam me deixado emocionada. Segurei para não
chorar.
Ficamos um bom tempo perdidos nas recordações daqueles dias.

Quando comecei a andar naquela estrada a única coisa que dominava meus pensamentos
era a vontade de quebrar o pescoço de Cristiano. Meio perdida nos planos de vingança encontrei
aqueles olhos cheios de expectativas ocultas.
― A senhora não pode andar por aqui sozinha, é perigoso. Está com algum problema? Seu
carro quebrou? – uma voz sensual saiu dos belos lábios, mas havia uma pitada de sotaque caipira
que não combinava com a imagem daquele homem.
Demorei para responder. Estava pasma com a beleza do homem que surgiu a minha frente.
― Senhora? – ele insistiu.
― Meu carro acabou de me deixar na estrada e meu ex-namorado também. Só existe um
posto de gasolina que fica a uma hora daqui. Acho que são problemas. – decidi fingir que não
estava com medo e nem encantada com sua beleza.
― Posso ajudá-la. Tenho carro e posso te dar uma carona. – ofereceu.
― Seria muito bom. Onde está o seu carro? – questionei desconfiada.
― Na minha casa. Fica a vinte minutos daqui, seguindo aquela trilha. – apontou algo
parecido com uma estrada de terra.
― Sua casa? – tentei imaginar como seria a casa dele.
― Sim, moro lá há alguns meses. É um ótimo lugar para se isolar, mas se a senhora teme ir
comigo pode ficar esperando aqui que busco o carro sozinho.
― Não me importo em ir, mas pare de me chamar de senhora. Meu nome é Mia Wilson.
Como posso chamá-lo?
― Alec. – ele me olhou meio desconfiado. Devia ser por causa de minha ousadia ao aceitar
ir com ele – Se não há problemas, vamos. Assim posso levá-la para onde você quer ir antes de
anoitecer.
O tal Alec falava demais, de um jeito que me incomodava. Tanto que em certo momento o
interrompi:
― Posso dizer uma coisa?
― Claro. – respondeu olhando para trás enquanto caminhávamos na estrada de terra.
― Me desculpe se vou te ofender, mas seu jeito me parece forçado. Principalmente a forma
como estava me chamando de senhora, uma forma meio caipira que não combina em nada com
sua fisionomia e nem com seu timbre. – fiz uma pausa e sorri para amenizar meu excesso de
sinceridade. – desculpe, não controlo minha língua.
Ele sorriu também.
― Tudo bem. Você está certa. Esse não sou eu. Só achei que como moro sozinho no meio do
nada, um caipira te assustaria menos. – falou sem o sotaque.
― Não se preocupe. Sou difícil de assustar. Tanto que é até perigoso. Ninguém aprovaria
que eu fosse com você ou mesmo que eu descesse do carro. Ainda assim desci e estou caminhando
atrás de você.
― A precaução nem sempre está presente quando precisamos. – o sorriso apareceu
novamente nos belos lábios. – Já que eu não te assusto vamos seguir.
Havíamos parado e durante todo o tempo em que conversamos não consegui desviar meus
olhos dos dele.
Chegando na casa logo percebi que ela não era nada modesta. Não tinha cerca ou muro,
era pintada de amarelo e tinha dois andares. Bonita, mas não combinava muito com ele. Havia uma
picape preta estacionada na frente da casa. Nada ali combinava com ele.
― Interessante a sua casa. – comentei enquanto observava.
― Sei o que quer dizer. Não combina comigo. Faz pouco tempo que me mudei para ela.
Daqui alguns meses terá minha personalidade. – justificou percebendo que meu olhar ia do imóvel
para ele alternadamente.
Tentei imaginar uma casa com a personalidade dele e na minha imaginação as decorações
eram sombrias, mas muito belas, como ele.
― Está com sede? – interrompeu meus pensamentos.
― Na verdade muita. Só percebi agora que perguntou. – confessei.
― Eu também estou sedento. Vamos entrar.
Parecia ter um duplo sentido no que ele falou. A intensidade com a qual me olhou deixou-
me incomodada. Desviei o olhar e segui para a porta de entrada.
Tomei a água na cozinha da casa observando cada movimento dele e cada detalhe do
ambiente. Os vários tons claros da cozinha davam a sensação de que ela não era usada. Na
geladeira, que era branca, literalmente só havia água. E não muita.
― O que pretende fazer quando chegar na sua casa?
A pergunta me pegou desprevenida e distraída. Eu nem pensava no que tinha me levado
ali ou o que iria fazer. Tinha apenas uma vaga ideia de vingança.
― Acho que não vou diretamente para casa, quero dar um susto em Cristiano. Ele merece
por ter me deixado sozinha na estrada. – enquanto falava arquitetava o plano de ficar algum
tempo longe para Cristiano achar que aconteceu algo comigo.
― Realmente, poderia ter acontecido algo ruim. Já tem algum lugar especifico para onde
pretende ir?
― Não.
― Ótimo. – ele estava apoiado na bancada de mármore branco com os braços cruzados
sobre a camiseta preta colada ao peito largo.
Aquele “ótimo” tinha algo de suspeito.
― Por que ótimo?
― Você pode aceitar ou recusar, mas tenho uma proposta. Acho que minha casa seria o
melhor lugar para você ficar durante esse tempo. Seu namorado nunca vai pensar em te procurar
aqui. Aliás ele nem sabe que “aqui” existe. – me encarava enquanto falava.
― Não poderia abusar assim da sua boa vontade. – estava disposta a aceitar a proposta
dele. Uma aventura me faria bem.
― Abuso seria se você me pedisse. Eu estou oferecendo e vou até lucrar um pouco com isso.
― Como lucraria?
― Ora, isso não acontece todo dia. Ter a chance de participar de um plano desses. Vai ser
divertido. – parou subitamente – Desculpe, você deve estar chateada com o que aconteceu e eu
querendo me divertir com seu sofrimento.
Ri. Quase alto demais.
― Infelizmente não estou magoada. Só meio decepcionada por mais uma escolha errada.
Não precisa se desculpar. Eu realmente sofreria, mas se o amasse. Lamento dizer que ainda não
conheço o amor. – por que estava sendo tão sincera?
― É uma pena que ainda não conheceu o que o ser humano tem de melhor. – riu de um
jeito cínico. – Vamos deixar de melancolia. Você vai ficar ou não?
― Eu morreria de fome se depender da sua geladeira. – tentei argumentar mesmo
sabendo que aceitaria ficar.
― Posso dar um jeito nisso. – ele saiu de onde estava e abriu a geladeira analisando o
conteúdo.
― Não quero te dar trabalho.
― Isso não é desculpa.
Suspirei resignada.
― Está certo ficarei. Você é sempre tão insistente assim?
― Você nem imagina. – bateu a porta da geladeira e voltou a encarar-me.
E foi assim que tudo começou. Em nenhum momento ele se insinuou. Não sei como, mas ele
encheu a geladeira de tanta comida que não daríamos conta de comer nem se fosse em um mês.
Conversávamos sobre coisas banais e cotidianas. Assim passou o primeiro dia.
A noite chegou e ele fez questão de me ceder seu quarto. Eu não podia contra sua
insistência.
Cada instante que passava eu tinha a impressão de que faria qualquer coisa que ele
pedisse. Poderia até resistir um pouco devido minha natureza teimosa, mas rapidamente cederia.
O quarto era normal, como resto da casa. Pintado de bege, com uma cama de casal,
guarda-roupa, uma cômoda com alguns livros em cima e nada mais. Nem um quadro na parede.
Estava bastante arrumado nada fora do lugar.
Tive uma noite cheia de sonhos estranhos. Quando acordei no dia seguinte a cama parecia
ter sido palco de uma guerra. Os lençóis estavam desarrumados, mas em meio a bagunça havia
uma bela rosa vermelha. Olhei para os lados como se esperasse ver a pessoa que a deixou ali.
Aspirei seu perfume e sorri lembrando do homem que me abrigou.
Agradeci por Cristiano ter deixado minha bolsa em que estavam as coisas que eu usaria na
casa dos seus pais, assim não teria constrangimentos com roupas.
Vesti o vestido florido que tinha separado para usar no dia seguinte a festa e desci para a
cozinha. Fiquei algum tempo parada na porta, observando Alec lutar contra as panelas e não
contive o riso.
― Boa tarde! Pare de rir, acho que é normal um homem não saber cozinhar. – disse
ofendido.
― Só estou rindo porque me vejo olhando você aí. Cada panela que cai, cada comida que
queima.
― Jura? Então você deve ser péssima.
Os ovos mexidos com bacon que ele preparava até cheirava bem o que fez meu estômago
reclamar.
― Espere, você disse tarde? – Lembrei do cumprimento inicial.
― Sim. Está próximo das 13 horas e estou tentando fazer um almoço leve. Já que você
perdeu o café da manhã.
― Desculpe. Não pretendia acordar tão tarde e muito menos te dar trabalho. – estava
envergonhada por ter acordado tão tarde.
― Sem problemas vou te deixar fazer o jantar para que não se sinta culpada. Aproveito
para ter certeza se sabe ou não cozinhar. – desligou o fogo dos ovos e se concentrou em fazer
uma salada de legumes.
― Pior para você. – sentei em uma cadeira alta e fiquei observando os movimentos dele.
Era uma bela visão em uma camiseta branca e um jeans surrado.
― Você que pensa. Estou de regime. – sua atenção era dividida entre conversar e cortar os
legumes.
― Se não vai comer eu não vou comprar briga com o fogão. – reclamei.
― Considera cozinhar tão ruim assim?
― Me diz você.
― Certo. É péssimo. Tem razão não devo te forçar a mesma tortura que estou passando.
― Você é tão bonzinho.
Caímos em uma risada gostosa e eu parti para a área de combate para ajudá-lo a
derrubar as coisas.
Apesar das partes cruas e/ou queimadas até que ficou boa a comida que fizemos. Ovos
mexidos com bacon (que deveria ser parte do café da manhã), salada de legumes, arroz e peito
de frango grelhado.
Mesmo assim ele não quis comer. Disse que não conseguia porque tinha ajudado a fazer e
isso tirava sua fome. Eu comi e não foi pouco.
Novamente a noite chegou e demorou um pouco para que eu notasse. Estava tão presa as
coisas que ele me mostrava e falava. Ele parecia disposto a qualquer coisa para me deixar feliz.
Como alguns fazem para pessoas que possuem pouco tempo de vida.
Não falava muito do seu passado. Dizia que o passado não tinha importância porque não
era possível mexer nele. Nos divertíamos com nossas conversas sobre filmes, livros, religião, política,
etc. tanto que foi ruim ver as estrelas no céu por mais bonitas que estivessem. Significava menos um
dia ali.
Chegou o momento em que eu tinha que ir para o quarto, pois o sono insistia em me vencer,
então desejei boa noite para ele e subi para o segundo andar onde quarto ficava.
Pouco tempo depois ele bateu na porta que eu tinha trancado. Fiquei curiosa sobre o que
ele queria e abri.
Ele foi logo dizendo:
― Só queria reforçar que se precisar de qualquer coisa não hesite em me chamar.
― Obrigada! Chamarei.
Ele me desejou boa noite novamente e saiu. Eu estava tão tonta com sua presença que não
conseguia lembrar onde deixei a chave. Não me lembrava de tê-la tirado da fechadura. Eu tinha
que parar de deixar ele me afetar tanto, estava beirando a loucura.
Por enquanto iria ter que dormir com a porta destrancada como na noite anterior. Que
perigo poderia haver? – pensei.

O perigo estava sentado à beira da cama me encarando enquanto eu despertava no meio


da madrugada por causa de mais um pesadelo.
A luz estava acessa e eu podia vislumbrar toda a perfeição do seu rosto muito próximo. Ele
não falou nada e eu não conseguia abrir a boca para perguntar o que ele estava fazendo ali.
Antes que me desse conta do que estava acontecendo sua boca estava colada à minha e
meus braços em torno do seu pescoço. Aquilo não era um beijo. Era uma tortura, uma tortura
viciante, e já não havia cura para mim.
Tão de repente como começou, ele me largou na cama e saiu sem olhar para trás, me
deixando cheia de expectativas e zonza demais para segui-lo.
Me revirei na cama pensando no que tinha acontecido até dormir novamente.
Ao acordar no dia seguinte eu sabia que não tinha sonhado com aquele beijo. Podia sentir
o gosto dele em meus lábios.
Tive um sobressalto ao olhar para o relógio que coloquei sobre a cômoda na noite
passada, eram mais de meio dia. Levantei disposta a obrigar o Alec a me explicar o que tinha
acontecido naquela noite. Aquela chave não sumiu por acaso. Isso era obvio porque novamente
havia uma rosa vermelha ao meu lado na cama.
O procurei por toda a casa. Chamei por ele e não houve resposta. Só havia uma porta
trancada e pelo que eu sabia da casa era do quarto de empregadas. Eu era curiosa demais para
não tentar abrir aquela porta. Tentei abrir com um grampo, mas diferente do que acontece nos
filmes não foi possível. Me lembrei que havia na cozinha uma gaveta com várias chaves dentro.
Busquei e comecei a testar cada uma delas. Já estava na penúltima quando ouvi o barulho da
porta sendo destrancada. Achei a chave.
Entrei naquele cômodo fazendo o mínimo de barulho possível. Parecia não ter nada de
diferente ali, era um quarto dividido em dois ambientes por uma parede baixa. A sala que
também parecia servir como cozinha era onde eu estava. Parecia que tinha alguém morando ali,
pois havia vasilhas sujas na pia. Pelo jeito a empregada só limpava a casa do patrão.
Não resisti e entrei no quarto. Tinha uma mulher deitada na cama. Fiquei com vergonha da
minha invasão e estava me virando para sair quando tropecei em um sapato que estava jogado e
caí. No chão tinha um pouco de sangue. “Se ela se machucou devia no mínimo limpar o sangue do
chão” pensei.
O sangue era pouco, mas parecia estar ali há algumas horas. Com um monte de
reclamações que não faria, pois ela não era minha empregada, me levantei e decidi olhar o rosto
dela. Estava curiosa para ver a cara da mulher.
Quase desmaiei. A mulher não dormia, estava morta.
Fiquei apavorada, enquanto uma voz gritava em minha cabeça “Você é a próxima. Você
vai morrer. ” Foi nesse momento que comecei a correr. Sem pensar nas coisas que deixei para trás
ou se aquilo tinha ou não explicação.
VIII – O presente

Estava tão feliz com Alec ao meu lado que não via o tempo passar. Ele resolveu comprar
um apartamento para eu não ficar malvista diante dos meus amigos e vizinhos uma vez que não
estávamos casados, mas sempre que eu pensava nele ele estava comigo.
Eu estava cada vez mais apaixonada e todos percebiam isso. Todos mesmo, até Cristiano
que ás vezes me ligava para reclamar sobre minha felicidade.
Em uma dessas ligações ele começou a fazer ameaças. O tom de voz parecia lúcido, mas as
palavras eram frutos de loucura. Não contei nada a Alec, pois temia que Cristiano virasse o jantar
dele e por mais chato que Cristiano fosse não merecia morrer. Ás vezes, dias depois da ameaça,
as palavras dele ainda ecoavam em minha mente.
― Por que você não me ama como ama ele? – disse assim que atendi o telefone.
― Cristiano, ninguém escolhe quem vai amar. Você devia seguir sua vida. Não quero parecer
grossa, mas mesmo quando estávamos juntos não existia amor. – não precisou muito para eu saber
que era ele do outro lado da linha.
― É o que vou fazer. Seguir minha vida e pode ter certeza que você estará comigo. – a voz
soou calma.
― Pare com isso. Sabe que não vai acontecer. – eu estava ficando histérica com a insistência
dele.
― Você vai ser minha e de mais ninguém. Nem que para isso alguém tenha que morrer. –
ameaçou.
― Tenho a sensação de que você está ficando louco.
― Pareça fria o quanto quiser, mas não esqueça o que eu disse. Não importa o que eu tenha
que fazer, você será minha. – desligou.
Depois dessa ligação ele não voltou a dar sinal de vida. Foi a melhor coisa que fez. Não
gostava de esconder coisas de Alec, mas jamais diria a ele que o louco que me deixou na estrada
estava fazendo ameaças. A primeira coisa que ele faria seria sangrar a ameaça até a morte.
Alec sabia que eu estava escondendo alguma coisa, ele me conhecia bem demais. Sempre
que ele perguntava o que era eu só respondia: “Nada que valha a pena”.

No meu vigésimo quinto aniversário Alec decidiu me fazer uma surpresa que eu jamais
esqueceria.
Depois da festa, que minha mãe não abria mão de fazer, ele me levou para o seu
apartamento onde ele raramente ficava. O lugar tinha o mesmo aspecto da casa que fiquei
hospedada quando o conheci. Isso deixou claro que ele não era nada ligado em decorações.
No princípio não entendi o que ele pretendia. Ele sabia como disfarçar, mas eu era curiosa
demais.
― Você está aprontando alguma coisa, Alec. – comentei de pé com os braços cruzados
sobre o peito.
― E por que você acha isso? – disse tentando disfarçar o sorriso.
― Ora, você raramente me convida para vir aqui e logo hoje decide fazer isso. Algo me
diz que não foi espontâneo.
― Se você quiser podemos ir para sua casa. Para mim tanto faz. – tirou os sapatos e as
meias e colocou os dois pés sobre o sofá onde estava sentado. Era uma posição confortável. Tive
vontade de me juntar a ele.
Se ele pensa que pode me manipular vou mostrar um pouco das minhas garras.
― Ok. – respondi.
― Ok? – ele pareceu não entender onde a palavra de duas letras se encaixava.
― Vamos para minha casa. – disse para explicar o que significava.
― Não está falando sério?
Percebi sua surpresa e gostei dessa reação.
― Você disse que tanto faz, então prefiro ir para minha casa. – continuei jogando.
― Mas...
― Continue. Mas o que? – aticei.
― Eu ia dizer que comprei champanhe para comemorar seu aniversário de uma forma mais
gostosa e bastante íntima, mas já sei sua resposta: ”Podemos levar para minha casa”. – bufou
chateado. – Menina chata. Quando o assunto se transformou em onde ficaríamos?
― Você me oferece opções, eu escolho e depois sou taxada de chata. Sinceramente, é meu
aniversário, dia de eu ser paparicada e não contrariada. – sentei no sofá ao seu lado e apoiei a
cabeça em seu peito. – Não sei o motivo do assunto ter seguido esse caminho.
― Certo. Sobre eu te contrariar no seu aniversário vou te compensar com alguns doces. –
afagou meus cabelos.
― Amo doces. – comentei com um sorriso ao mesmo tempo em que brincava com os botões
da camisa dele. Desabotoando e abotoando. Ele estava quase todo de branco, somente o cinto era
preto. Estava lindo como sempre, porém a minha cor favorita em suas roupas sempre seria o preto.
― Não sei mais o que fazer com você. Me deixa louco com esse jeito tão despreocupado. –
ele fingia de bravo.
Cheguei bem perto e respirando irregularmente perto da sua orelha falei:
― Que tal me beijar?!
― Não sei se merece. – segurou meus cabelos com firmeza mantendo me rosto onde
estava.
― Mereço. Fui uma boa menina. – sussurrei. O jeito que segurava meus cabelos me deixava
muito excitada.
Ele fingiu que ia me beijar e se afastou. Fiquei deitada no sofá. Imitando sua posição
anterior tirei as sandálias de salto, coloquei os pés em cima do sofá e puxei a saia florida do meu
vestido longo de forma que cobriu meus pés.
― Já que você foi uma boa menina merece ganhar um presente especial. – falou enquanto
andava descalço até o quarto.
― Mais que um beijo? – falei alto para que pudesse ouvir de onde estava.
― Bem mais. O beijo é só uma lembrancinha. – sua risada chegou até a sala.
― Amo lembranças. – minhas palavras saíram como uma espécie de gemidos. Amava seus
beijos.
― Chega de brincadeiras. – voltou para a sala com as mãos escondidas atrás das costas. –
Sente-se corretamente e abra o seu presente.
Ignorei seu pedido e permaneci na mesma posição.
Ele sentou-se ao meu lado. Tentei segurar seu rosto para beijá-lo, mas ele colocou um
embrulho entre nós. Parecia um livro. Ele estava provocando. Podia sentir meu desejo. Qualquer um
que me olhasse naquela posição com os pés em cima do sofá e um olhar de suplica no rosto
perceberia o que eu queria dele.
― Não me lembro do motivo pelo qual comecei a fazer isso. Espero que goste. Eu tenho
uma cópia. – disse olhando o embrulho colorido.
Abri o pacote e me deparei com um álbum de capa verde com imagens de pequenos
botões de rosas vermelhas. Dentro dele vi imagens de várias etapas da minha vida que não
fotografei. Minha expressão de raiva na estrada quando Cristiano me largou sozinha, meu corpo
adormecido em meio a lençóis bagunçados, meus irmãos e eu comendo pipoca enquanto
voltávamos do parque, minha mãe e eu conversando no portão e várias outras cenas contadas a
partir do momento em que minha vida esbarrou em sua existência.
Não contive as lágrimas.
― Nossa! Adorei. Não sabia que você me observava. – minha voz saiu rouca de emoção. –
O mais estranho é que desde que te conheci sempre tinha a impressão de ser seguida, mas
associava ao medo de ser atacada pelo psicopata que hoje amo mais que tudo.
― Era mais forte que eu. Não, é mais forte que eu. – não se importou com minhas lágrimas.
Sabia que era um bom sinal.
― Nunca vou me cansar de dizer que te amo. – confessei.
― Eu também amo você. – passou a mão fechada em meu rosto limpando as lágrimas que
desciam.
Coloquei o álbum na mesinha de centro e roubei o tão desejado beijo.

Mais tarde em outra parte do apartamento, nos braços frios do meu vampiro surgiu-me
uma curiosidade.
― Quantos anos você é mais velho que eu?
― Relativamente pouco. Se contar a data do meu nascimento humano, aproximadamente
160 anos.
― Então você teria ao todo uns 185 anos. Não tem muita diferença. – alisei seu rosto
analisando cada detalhe. O brilho intenso em seus olhos prateados, os lábios um pouco finos, os
belos dentes branquíssimos que mordia os lábios enquanto me encarava, as sobrancelhas espessas
que subiam toda vez que era contrariado, a barba cerrada que nunca era feita.
― Diga-me uma coisa.
Percebendo que eu acariciava sua barba ele respondeu:
― Mesmo que eu faça a barba ela cresce na mesma hora. Com o cabelo é a mesma coisa.
Eles foram eternizados da forma que estavam quando fui transformado.
― Interessante, mas não era isso que eu pretendia perguntar. Quero saber qual a data do
seu aniversário?
― Qual deles? O do meu nascimento humano ou a data em que me tornei o que sou?
― O que você considera.
Movimentei meu corpo sobre o dele para não colocar todo meu peso sobre ele mesmo
sabendo que isso não faria diferença. Meu peso era ínfimo para um vampiro.
― Considero o meu aniversário humano. Vai ser daqui alguns meses, dia nove de setembro.
Fui transformado quando tinha 29 anos.
― Você comemora?
― Nem sempre.
― Posso comemorar?
― Se quiser. Só não me assuste.
― O que assustaria um vampiro?
― Não sei. Talvez a ideia de viver eternamente no vazio, sozinho.
Senti que ele ficou triste.
― Eu estou aqui. – ignorando que estávamos nus coloquei minhas pernas ao redor da sua
cintura e me sentei em sua barriga sem cerimônia.
Ele me olhou com um olhar cheio de expectativas, mas com grande esforço ignorou seus
desejos e continuou a conversa:
― Mas por quanto tempo vai estar comigo? O ser humano é tão complexo.
― Pretendo fica pelo tempo que você desejar.
― Você entende o que está acontecendo? – ele levantou o tronco fazendo meu corpo
escorregar perigosamente para baixo. – Você é humana e eu não. Um dia verei você morrer e
não vou poder fazer nada.
― Já pensou em me transformar? – apoiei minhas mãos em seus ombros.
Era uma conversa muito séria para a posição em que estávamos.
― Várias vezes. – desviou os olhos envergonhado quando disse.
― E o que decide quando pensa nisso? – insisti.
― Que eu não tenho o direito de pensar nisso. – ele ainda não me olhava.
― E se eu quiser? – com um toque suave trouxe seu olhar para mim.
― Acho que está influenciada pelo momento. Pode se arrepender e me odiar para sempre.
Eu não suportaria seu ódio.
― Eu nunca poderia te odiar. Te amo tanto que dentro de mim não cabe outro sentimento.
― Sabe de tudo que teria que abrir mão por isso?
― Sim e sei de tudo que teria em troca. – decidi que não iria perdê-lo, nem mesmo para a
morte – Quero que me faça uma promessa. É muito importante.
Ele demorou um pouco provavelmente tentando descobrir o que estaria passando em minha
cabeça, mas acabou concordando.
― Não tenho nada a perder. Prometo o que quiser.
― Quero que me prometa que no dia em que eu decidir ser como você, seja pelo motivo
que for, você me transformará.
― Tem certeza disso?
― Tenho.
― O que eu mais desejo é nunca ficar sem você. Se me pedir para ficar do seu lado
eternamente, eu o farei. Mesmo sabendo que é um ato egoísta e mesquinho. Não posso evitar.
― Não pode mesmo. Eu não vou deixar. – ficamos alguns instantes em silêncio – Agora
mudando de assunto, obrigada pelo presente. Você como sempre me surpreendeu e superou
qualquer expectativa da minha parte.
― Disponha. – suas mãos estavam em minha cintura acariciando com sensualidade.
― Mudando novamente de assunto; adoro essa sua barba. A sensação dela roçando o meu
pescoço ou qualquer outra parte do meu corpo é indescritível. – cada palavra saia dos meus
lábios sem que nossos olhos se desviassem.
Entendendo que aquilo era um convite ele desceu o rosto devagar provocando minha pele
e excitando cada parte do meu ser.
― Eu sei bem o que ela provoca em você. – com um sorriso ele focou sua atenção em
brincar com minha pele e suas reações.
IX – Cristiano Ataca

Era bom demais para ser verdade que Cristiano houvesse me deixado em paz. Eu
duvidava ter tanta sorte. E minhas dúvidas estavam certas.
Alguns dias depois do meu aniversário Alec decidiu se alimentar em outra cidade, pois já
estavam sendo noticiados os desaparecimentos que ocorriam em Ouro Negro. Eram
desaparecimentos de criminosos, mas as notícias começavam a deixar as pessoas preocupadas.
Não sei como, mas parece que Cristiano adivinhou que teria tempo para me importunar sem
que Alec se metesse.
Ouvi a campainha tocar e atendi meio sem vontade, imaginando que seria algum vendedor
já que meus amigos sempre ligavam antes de me visitar. Para minha decepção o rosto de Cristiano
apareceu sorridente.
― Bom dia! Vim te fazer uma visitinha já que você finge que me esqueceu. – ele aproveitou
minha surpresa para entrar sorrateiramente. – Falei sério quando disse que queria ser seu amigo
na última vez que nos vimos.
Ouvindo ele dizer isso me lembrei de minha mãe insistindo para que eu fosse educada com
todos. Imaginei que todos deveria incluir Cristiano, então coloquei um sorriso forçado no rosto e o
convidei:
― Entre. – frisei bem a palavra para que ele percebesse que não gostei que tenha
entrado sem convite – Estava preparando um café. Aceita?
― Claro.
Enquanto caminhávamos para cozinha tentei me lembrar do momento em que ele me disse
que deveríamos ser amigos, mas não consegui recordar.
Ele estava estranhamente amigável. Durante todo tempo que passamos na cozinha ele falou
de coisas como seu trabalho e família. E o mais estranho foi que se mostrou interessado em meu
relacionamento com Alec.
― Até que enfim alguém conseguiu domar seu coração. Realmente eu não sou bom de laço.
– riu.
― Não seja bobo. Se não deu certo entre nós dois é porque não era para ser. Você vai
encontrar a pessoa certa para você.
O café estava em um bule de louça que minha mãe me deu quando mudei. Incomodada com
o repentino silêncio de Cristiano diante dos meus votos decidi que era melhor encher minha xícara
de café novamente. Levantei e fui até a pia onde havia deixado o bule. O tempo todo sentia o
olhar dele me acompanhar.
Não ouvi seus passos. Aconteceu tudo muito depressa. Logo escutei a respiração pesada em
meu ouvido e cheiro de éter invadiu minhas narinas.
Lutei por alguns instantes tentando livrar-me, mas foi em vão. Logo tudo ficou escuro e cai na
inconsciência.
Não vi o presente da minha mãe espatifando no chão e derramando café quente para todo
lado.
Acordei um pouco atordoada. Tentei entender onde estava. Havia pouca luz e eu estava
deitada. Tentei mexer os braços, mas não consegui e percebi que estavam amarrados. Assim como
minhas pernas.
Olhei meu corpo e assustei ao perceber que usava apenas a lingerie branca que escolhi
para esperar por Alec.
― Que espécie de loucura é essa? – perguntei para o quarto vazio.
Aos poucos fui lembrando do que aconteceu antes de chegar aqui, antes de perder a
consciência.
― Não, não, não. – comecei a lamentar.
― Vejo que acordou. Bem-vinda a minha casa! – Cristiano entrou no quarto. Estava com
uma toalha enrolada na cintura e outra jogada nos ombros. Tudo indicava que sairá naquele
momento do banho.
― O que fez comigo seu maluco?
― Amarrei você para evitar que escape. Cansei de tentar te convencer a ficar comigo. Vai
ficar amarrada nessa cama sem água e sem comida até que perceba que me ama.
― Você realmente ficou louco. – preocupada com o tom tranquilo na voz dele tentei
argumentar. – Se me deixar ir agora vou fingir que nada aconteceu.
― Vou jantar sozinho hoje. Quando estiver pronta basta me chamar.
Sem olhar para trás ele saiu e fechou a porta.
― Cristiano. – gritei seu nome. Naquele momento não havia medo, somente ódio.
― Chamou-me? – um sorriso de triunfo bailava em seu rosto.
Aquilo inflamou meu ódio ainda mais. Meu olhar em sua direção foi tão fulminante que
mesmo em sua loucura Cristiano parou de sorrir.
Senti um nó na garganta. Não conseguia pronunciar as palavras que queria. Meus
pensamentos trabalhavam para imaginar o que Alec estava fazendo. Se Cristiano estava se
preparando para jantar já era noite. Ele disse que voltaria a noite. Será que já chegou? Será que
sabe o motivo de eu não estar em casa? Como poderia saber? Ninguém imaginaria que o idiota
parado na minha frente era capaz de algo assim. Principalmente quando ninguém, além de Alec,
sabia que ele me deixou em uma estrada desconhecida sozinha após uma discussão. Tinha que
acreditar que Alec chegaria até a mim.
― Queria me dizer algo? – Cristiano considerando meu silêncio como fraqueza alfinetou.
― Você vai se arrepender. Ninguém irá te salvar.
Observei os passos lentos dele até a cama. Ele abaixou-se para que seus lábios ficassem
próximo a minha orelha.
― É você quem está amarrada. Suas ameaças não soam tão sérias quando estou ocupado
observando a perfeição que é o seu corpo.
Balancei a cabeça numa tentativa inútil de afasta-lo. O gesto só fez com que meus cabelos
caíssem na frente do meu rosto atrapalhando minha visão. Com as mãos amarradas não
conseguiria volta-los ao lugar.
Cristiano apenas riu e saiu do quarto.
Depois que ele saiu comecei a analisar a situação e pensar em uma forma de fugir. Em vão
tentei escapar das cordas. Minhas mãos estavam bem amarradas. Se ele tivesse apertado um
pouco mais dificultaria a passagem do sangue em meus pulsos.
Não tinha como fugir. Teria que esperar e rezar para que Alec ou outra pessoa me
encontrasse antes que fosse tarde ou poderia mentir que ele estava certo sobre meus sentimentos e
tentar fugir.
Decidi esperar. Se não aparecesse ninguém para ajudar eu jogaria o jogo dele. E Deus me
ajude, mas o mataria.

De olhos fechados ouvi minha barriga reclamar por comida. Isso significava que havia se
passado horas. Ignorei a fome, a sede e a vontade de ir ao banheiro o máximo que pude. Quando
não aguentava mais decidi optar pela segunda opção.
― Cristiano. – chamei alto apesar da evidente fraqueza na voz. A falta de água e
alimentos já estava fazendo efeito.
Ninguém respondeu. Talvez ele tivesse saído. Minha bexiga não esperaria por ele.
Depois de alguns segundos que pareceram uma eternidade a porta foi escancarada e
Cristiano apareceu com uma roupa de quem acabou de voltar de uma corrida matinal.
Devia ter amanhecido. Passei a noite sentindo frio, fome e sede.
Tentando camuflar minha raiva falei:
― Preciso ir ao banheiro. Você pode permitir?
― Já sabe as condições. – respondeu sem se mover ainda na porta.
― Farei o que quiser. Parece que não tenho outras opções.
Ele veio em direção a cama.
― Realmente não tem. Duvido que seu “príncipe encantado” encontre minha casa mesmo
que procure muito. A maioria das pessoas com as quais você convive não sabem meu endereço ou
meu sobrenome.
― Por favor. – eu não podia discutir com ele. Estava tão apertada que até falar
incomodava.
Ele soltou as cordas devagar. Cheio de confiança.
Assim que me vi solta andei devagar até o banheiro. Não olhei para trás.
Com a porta fechada tentei fazer as contas de quanto tempo eu duraria em uma luta com
ele. Era inútil. Cristiano podia ter o espírito fraco, mas não o corpo. Procurei algo para usar como
arma pelo banheiro; não havia nada.
Pensei em me trancar dentro do banheiro, mas não havia nada para prender a porta. A
única coisa que tinha naquele lugar que poderia me ajudar era um jarro de água que ele deixou
sobre a mesa de cabeceira. Talvez pudesse usar como arma não só o vaso, mas também a mesa.
Sem outra alternativa abri a porta e sai do banheiro devagar. A cena que vi acabou com
todas as minhas esperanças de sair viva daquela casa. Cristiano estava deitado na cama com o
olhar fixo na minha direção. Em sua barriga estava pousada uma pistola automática.
― Isso é só uma garantia de que você não irá mudar de ideia. – ele pegou a arma e
começou a brincar com ela apontando em minha direção. – Venha. Deite-se aqui comigo. – indicou
o local com o cano da arma.
Estava tudo perdido. Meu orgulho impedia o medo de tomar meu corpo. Não me deitaria
com ele.
― Devo morrer hoje.
Corri até a porta, mas estava trancada. A risada de Cristiano diante da minha tentativa
inútil encheu o quarto.
― Não tem como fugir de mim. Deixe de ser teimosa e venha deitar-se ao meu lado. –
olhou meu corpo de cima a baixo. – Está linda com essa roupa.
― Por favor, tente voltar para a realidade. O que está fazendo é crime. – implorei.
Fiquei perto da porta tentando ao máximo não chegar perto dele.
― Você tem cinco segundos para chegar aqui ou vou atirar em um lugar que não vai te
matar, mas vai doer muito. – ameaçou.
Não me movi.
Irritado Cristiano saltou da cama e veio em minha direção como um furação. No caminho
derrubou a jarra espatifando vidro e água no chão. O olhei com os olhos arregalados de pavor. É
o meu fim. – pensei. Mas ele simplesmente me puxou da frente da porta com força jogando meu
corpo no chão.
― Ainda não está pronta. Volto amanhã para saber se mudou de ideia.
Bateu a porta atrás de si deixando-me novamente presa no quarto vazio.
X – Cativeiro

O tempo estava passando rápido. Contava as horas de acordo com o aumento na minha
fome e sede. Quanto mais pensava em água, mas sede sentia. Sabia que só em respirar meu corpo
perdia água. Minha boca estava seca e eu não conseguia mais pensar com clareza por causa de
uma dor de cabeça insistente.
Deitada na cama só conseguia imaginar se Alec conseguiria me resgatar. Depois de
analisar tudo no quarto e no banheiro cheguei à conclusão de não havia como fugir.
Em pouco tempo eu teria que escolher entre três opções: Morrer, beber a água do vaso
sanitário ou me entregar ao Cristiano.
Deus, por que isso está acontecendo comigo? Não fiz nada tão grave que merecesse tal
castigo. Não havia escrito em nenhum lugar que era pecado se apaixonar por um vampiro. – ao
contrário de rezar para conseguir escapar eu questionava aos céus o motivo de estar nessa
situação.
Tentei levantar, mas uma vertigem me jogou de volta na cama.
― Alec, preciso de você. Por favor, me encontre. – minha voz era um sussurro e falar
incomodava por causa da minha boca seca.
Pensei em dormir para economizar energia, mas tinha medo de Cristiano fazer alguma
coisa caso dormisse. Era um pensamento tolo uma vez que não tinha forças para lutar com ele de
qualquer forma.
Olhar as paredes e o teto azuis não acalmava meu espírito. Quis chorar, porém meu corpo
não estava disposto a gastar água com lágrimas.
Não ouvi a porta abrir. Logo a voz de Cristiano chegou até a mim:
― Você prefere morrer mesmo? – perguntou furioso.
Não respondi. Não sabia a resposta. Realmente preferia morrer a deixar ele me tocar?
Éramos namorados até pouco tempo atrás. Apesar de nunca ter transado com ele. Por mais
estranho que pudesse parecer no início via em Cristiano apenas um companheiro e suas investidas
não me excitavam diferente das chamas que Alec acendia em meu corpo. Sempre que Cristiano
tentava avançar eu conseguia me esquivar com uma desculpa. Desviei o olhar da sua figura
voltando a fitar o teto.
― Nem uma resposta eu mereço. Entendo. Não sou nada para você. Talvez até pior que
nada. Ainda assim te amo. Como sou idiota. – lamentava insistentemente.
― Isso não é amor. – minha voz estava muito fraca. Imaginei que ele não escutou.
Mas percebi que ele escutou quando em uma velocidade espantosa ele chegou até a cama
e sem cerimônia se jogou sobre meu corpo e começou a me beijar e tocar.
Minhas tentativas de bater nele e afastá-lo estavam próximas de caricias porque não havia
força em meus braços e pernas.
Os beijos dele machucavam meus lábios ressecados. Poderia deixar ele possuir meu corpo.
Poderia levar minha mente para um momento feliz como qualquer um dos momentos em que Alec
estava comigo, mas era inútil. Meu corpo e minha mente queriam lutar.
Inquieta sob o peso do corpo dele tentava me esquivar de sua boca e suas mãos.
― Onde estava o surto de adrenalina que precisava para jogá-lo fora da cama e fugir pela
porta aberta? – pensava desesperada.
Senti meu corpo exposto quando ele arrancou o tecido frágil do sutiã. Uma mistura de
medo, vergonha e raiva fez meu sangue ferver, mas ainda assim não me deu a força que eu
precisava para escapar.
Com uma mão de ferro ele segurou meu pescoço dificultando minha respiração. Estava
minando cada vez mais minhas forças.
Desceu a boca até meus seios e se divertiu mordendo e chupando enquanto eu tentava tirá-
lo de cima de mim com mãos fracas. Cada vez que minhas unhas machucavam seu rosto ele mordia
com mais força.
Quando ainda mantendo meu pescoço preso ele desceu a outra mão procurando minha
calcinha me apavorei ainda mais.
― Alec. – gritei. Na minha cabeça era um grito, mas minha voz já fraca e a mão de
Cristiano dificultando minha respiração fez com que só saísse um gemido relativamente alto.
Ouvir o nome do rival deixou Cristiano ainda mais fora de si. Ele soltou meu pescoço,
desbotoou a calça jeans e sem tirá-la separou minhas pernas usando uma das suas.
― Não vai ser rápido. Vou curtir cada momento então relaxe. Se abre para mim. – ele
falava com a boca próxima ao meu ouvido e movia o corpo em uma tentativa inútil de me excitar.
Meus cabelos estavam esparramados, muitas vezes dificultava minha visão.
Sentindo a mão dele passeando pelo meu corpo quase nu só conseguia fazer uma coisa:
repetir o nome de Alec sem parar. Como em uma prece.
― Alec, Alec, Alec, eu te amo.
― Cale-se. – não era um pedido ou uma ordem. Era um grito de ódio.
― Alec, sinto muito. – nada me faria parar. – Alec, por favor...
Lágrimas se formaram nos meus olhos onde permaneceram sem força para descer pelo
meu rosto. Nem as minhas lágrimas tinham forças para seguir lutando.
― Por favor, não.
Mal terminei a frase o peso do corpo de Cristiano sumiu como mágica.
Antes que eu pudesse levantar e aproveitar a oportunidade de fuga brilhantes olhos
vermelhos me fitavam preocupados.
Nunca tinha visto os olhos de Alec daquela cor. Devia ser alguma alucinação. Esperei tanto
por ele que projetei sua imagem em minha mente.
Ele não pronunciou sequer uma palavra. Estendeu a mão que depois de alguns instantes do
susto inicial aceitei.
Me levou para fora da cama e me apoiou em um abraço apertado. Não havia muito foco
por causa das vertigens. Tive certeza que não era alucinação quando o frio do seu corpo começou
a trazer vida para o meu.
Ele afastou um pouco meu corpo analisando meu estado me esforcei para manter o foco em
seus olhos, mas estava em meu limite e fui levada pela inconsciência.
XI – Resgate

Acordei me sentindo mais forte. Entretanto esse sentimento logo foi substituído por um imenso
pavor. Ainda estava na cama de Cristiano, no mesmo quarto azul. A única diferença era que minha
nudez estava coberta por um edredom e um tubo de soro estava conectado ao meu braço.
A porta do quarto estava aberta. Sem perder tempo arranquei o soro e corri para a
porta.
Ele devia ter conseguido se aproveitar da minha fraqueza e depois de me possuir não via
motivo para preocupar com trancas. Por isso estava cuidando de mim. Era um lunático.
Tive ânsia de vomito ao imaginar o que ele fez comigo.
Assim que identifiquei a porta de saída corri mais rápido. Era minha chance de escapar.
Coloquei a mão na maçaneta com o coração aos saltos, mas antes que pudesse abrir fui envolvida
por um abraço por trás. Lutei para escapar. O pavor de novamente cair nos braços de Cristiano
tirou meu ar. Não conseguia respirar.
― Fique calma. Sou eu. Respire.
Era difícil acreditar que Alec estava ali falando ao meu ouvido com suavidade.
― Respire devagar. Vai ficar tudo bem. – repetia.
Aos poucos minha respiração foi normalizando. Me virei e encarei os olhos prateados de
Alec. Questionava a mim mesma se ele havia aparecido anteriormente com olhos vermelhos.
― Onde ele está? – perguntei.
― Nesse momento você só precisa saber que ele não vai mais incomodar. – passou a mão
suavemente em minha face.
Aliviada escondi meu rosto em seu peito.
― Senti tanto medo de te perder. Nem quando era humano me senti tão impotente. –
confessou.
― Sinto muito. Podemos ir para casa agora? Não consigo olhar para esse lugar.
― Vamos de uma forma não convencional então coloque os braços ao redor do meu
pescoço e as pernas ao redor da minha cintura.
Com a ajuda dele fiz o que pediu. Logo um vento frio fazia minha pele arrepiar. Logo
estávamos em seu apartamento.
Não vi o caminho que fizemos. Talvez depois me arrependeria de não ter admirado a
paisagem passar ao viajar nos braços do meu vampiro. Naquele momento não era relevante.
Somente quando desci dos seus braços notei que estava quase completamente nua. O
edredom havia caído na minha tentativa de fugir e depois do acesso de loucura de Cristiano a
única peça que restava era a minúscula calcinha. Novamente senti ódio de Cristiano.
Olhei para Alec e ele percebendo o motivo do meu olhar comentou:
― Ninguém nos viu posso garantir. Vou preparar a banheira para você.
Segui seus movimentos no banheiro e quando a banheira estava cheia entrei me deliciando
com a sensação da água quente na pele.
― Já volto. – Alec anunciou e saiu do meu campo de visão.
Depois de alguns minutos ele voltou com um copo de suco de acerola natural e alguns
biscoitos de chocolate.
― Beba. Depois tente comer. O mais importante agora é repor os líquidos.
Aceitei o copo e ele colocou a vasilha com os biscoitos na bancada de madeira ao lado da
banheira. Bebi devagar e perguntei:
― Como sabe que preciso repor líquidos? – questionei. Queria saber mais sobre o
desfecho do meu sequestro.
― Pela sua aparência quando te encontrei. – respondeu.
― Por falar nisso como me encontrou?
― Foi muito difícil. – sentou na beira da banheira e focou em brincar com a espuma.
Mesmo incomodada com o silêncio que se seguiu aguardei que ele voltasse a falar. O que
não demorou a acontecer.
― Quando cheguei na sua casa e não te encontrei achei estranho, mas esperei. Como o
passar das horas comecei a pensar coisas como você ter enfim percebido que amar um vampiro é
algo demais e ter fugido. – novamente o silêncio. – Foi somente quando sua mãe ligou e falou
sobre o bule quebrado que o pavor se tornou maior. Ela disse que não sabia porque você tinha
deixado cacos no chão e que havia limpado para evitar um acidente. Passou algum tempo
resmungando que aquela não era a educação que te deu e por fim pediu para que eu te avisasse
para lembrar que ela existia e visitá-la.
Não conseguia parar de sorrir ouvindo os detalhes do relato. Minha mãe sempre dramática
e amada não fazia ideia do quanto me deixava feliz com suas reclamações e seus carinhos.
Alheio aos meus pensamentos Alec continuou:
― Quebrei a cabeça para tentar entender onde buscar informações, pois não tinha ideia
de por onde começar. Somente depois que consegui as imagens das câmeras de trânsito e
identifiquei aquele homem na sua rua que as coisas começaram a se encaixar. Peguei a placa do
carro e descobri onde ele morava, mas nisso já se passaram dois dias. Quando finalmente estava
chegando a casa dele ouvi sua voz me chamando.
Eu ouvia seu relato enquanto bebia devagar o suco e tentava visualizar cada passo que
ele relatava.
― Quando o vi sobre você daquele jeito surtei. – pegou minha mão vazia e apertou com
um pouco mais de força que o necessário.
― O que fez com ele? – era a questão que faltava.
Coloquei o copo em um canto e acariciei a mão que apertava a minha.
― Tem certeza que quer saber? Não foi uma coisa bonita. – parecia preocupado em me
assustar.
― Tenho. – imaginei o que ele diria se soubesse de quantas formas diferentes imaginei
matar Cristiano enquanto estava naquele quarto sentindo fome e sede.
Com a mão disponível ele levantou meu queixo me forçando a encará-lo enquanto
pronunciava as palavras devagar:
― Cortei ele em pedaços e coloquei no freezer. Só vou cuidar de seus pedaços quando
você estiver bem e instalada novamente em casa.
Permaneceu me encarando. Analisava minhas reações.
― Obrigada! – toquei seu rosto com carinho. – Eu não cederia mesmo como fome e sede
como ele me deixou todo aquele tempo. Acho que morreria se não fosse por você.
― Não te assusta o que fiz com ele?
Eu realmente deveria temer alguém capaz de cortar outra pessoa em pedaços, mas os
únicos sentimentos que conseguia ter por ele era gratidão, amor e paixão. Não cabia medo. Nem
mesmo quando pensei que ele fosse um psicopata houve espaço para o medo.
Cristiano era outra história. Meus sentimentos por ele passaram por coleguismo, pena, medo
e raiva.
― Me assusta o que ele fez comigo. Primeiro ele me deixou na estrada e depois me
sequestra, tenho certeza que faria mais coisas desse tipo se ainda estivesse vivo. – respondi depois
de alguns momentos refletindo sobre minha vida até o encontro com ele.
― Saber que não te assusto é tudo para mim. – sorriu animado.
― No princípio pensei que você era um delírio. Quando você chegou seus olhos estavam
vermelhos, por que eles ficam assim?
― Eles só ficam assim quando estou com muita raiva ou com muita sede de sangue.
Desviou o olhar. Imaginei que estava lembrando de quando me encontrou e naquele
momento soube o que devia fazer.
― Alec.
― Sim. – lentamente voltou a olhar em meus olhos.
― Gostaria que me transformasse agora. – declarei.
Ele ficou confuso. Com certeza não esperava por isso.
― Tem certeza? Não deve se deixar levar pelo calor do momento.
― Não é por causa do calor do momento. Decidi isso quando soube o que você era, mas
diante da possibilidade de ser levada pela morte e talvez renascer em uma vida em que você não
exista me fez ter certeza de que quero isso agora. Não faz sentido esperar.
Sentindo que ele estava cheio de dúvidas insisti:
― Faça.
XII – A Transformação

― Fique aqui. Resolverei algumas pendências e volto em dez minutos. Preciso de foco para
fazer isso, pois não sei como você vai reagir após a transformação.
Encostei a cabeça na banheira e fechei os olhos.
― A água vai ficar fria.
― Garanto que a temperatura da água não vai te incomodar depois que eu terminar com
você.
Fiquei em silêncio concentrada em meus pensamentos. Momentos depois quando abri os
olhos Alec não estava mais comigo.
Aproveitei os dez minutos que ele me deu e fiquei pensando se estava fazendo a escolha
certa. Sobreviver de sangue de outra pessoa não era algo que me agradava, mas em
contrapartida estava a possibilidade de ser imortal e poderosa. Não pesava meu amor por Alec
nesses pensamentos. Considerar esse amor como contrapartida era ser injusta com o outro lado.
Meu amor por ele era algo que não podia ser medido.
Estava decidido. Em poucos minutos eu saberia como era ver o mundo através dos olhos de
Alec.
O tempo estava passando muito lentamente. A soma da água quente e do silêncio me
fizeram adormecer.
Quando despertei os olhos de Alec estavam lá observando-me repletos de serenidade.
― Quanto tempo dormi? – perguntei.
A água estava gelada.
― Algumas horas. – ele respondeu sem desviar o olhar.
― E você ficou essas horas me observando dormir na água fria? – tentei ficar brava, mas
era impossível.
― Sim. – sorriu formando covinhas no canto dos lábios.
― Ótimo.
Ri da sua ousada sinceridade e levantei em busca de uma toalha. Antes que eu pudesse
alcançar a toalha Alec segurou meu braço quase fazendo eu perder o equilíbrio.
― Desistiu? – perguntou.
Levou alguns segundos para entender sobre o que ele falava.
― Não. O que preciso fazer? – desistir não estava em meus planos.
― Volte a mesma posição em que estava. – ordenou.
― Precisa mesmo ser nessa água fria? – questionei ao imaginar voltar para a água.
― Não, mas quero que seja. – disse sério.
― Sim majestade. – decidi entrar no jogo e fazer como ele queria sem reclamar.
Gemendo de frustração e frio voltei a me sentar na banheira.
― Está pronta?
― Vai doer, não vai? – perguntei ignorando sua pergunta por alguns instantes.
Ele apenas meu encarou como se me desafiasse a desistir.
― Estou pronta. – sabia que ia doer, mas seria a última vez que sentiria dor.
Ajoelhado ao lado da banheira Alec acariciou meu pescoço. Fechei os olhos antecipando o
que viria. Com uma mão ele manteve meu pescoço onde queria e logo seus lábios tocaram a pele
sensível em uma caricia que logo se transformou em dor torturante.
A dor me deixava desorientada. Me esforçava para fugir, mas Alec mantinha minha cabeça
firmemente presa. A água da banheira se espalhava, mas eu estava alheia a isso. Contorcia e
movia o corpo buscando uma escapatória. Nem sabia mais a origem da dor, pois ela se espalhou
por todo meu corpo.
Pareceu durar uma eternidade.
Por fim a dor sumiu. Não só a dor, toda e qualquer sensação do meu corpo sumiu. Restava
apenas minha mente trabalhando para entender o que acontecia. Meus olhos estavam abertos e
pude ver Alec mordendo o próprio pulso e fazendo o sangue descer pelos meus lábios. Por onde o
sangue passava uma estranha e nova vida se fazia presente. Por onde o sangue passava também
se fazia presente uma dor lancinante.
Meus gritos e gemidos de dor eram assustadores. Finalmente livre das garras de Alec eu
contorcia o corpo com violência buscando formas de aliviar a dor. Parecia que aquele tormento
não teria fim. Não mantinha mais os olhos abertos porque a luz incomodava e meus olhos doíam.
Quando meu corpo parecia prestes a explodir em chamas a dor parou. Parou de repente,
em todos os lugares ao mesmo tempo. Me mantive imóvel. Temia que qualquer movimento pudesse
fazer a dor voltar.
― Abra os olhos.
Eu conhecia aquela bela voz. Sabia que precisava obedecê-la.
Lentamente abri meus olhos. A luz ainda incomodava, mas não havia dor apenas a
sensação de que abria os olhos pela primeira vez na minha existência. Aos poucos as coisas foram
criando foco. Descobri que os barulhos ensurdecedores que preenchia minha mente era o barulho
que vinha da vida noturna fora do apartamento. Algo que antes não chamava minha atenção. Me
esforcei para ignorar os sons e olhei ao meu redor. Eu estava deitada no chão. Água e sangue se
misturavam pelo chão, a banheira estava quebrada em vários pedaços e Alec estava sentado em
um pedaço da banheira com as pernas cruzadas apenas observando. Quis ir até ele, mas o cheiro
de sangue que emanava do chão me prendia e deixava minha boca seca.
― Recorda-se do que sou para você? – perguntou.
O estranho é que ouvia a voz, mas seus lábios não se mexiam.
Balancei a cabeça afirmando.
― Preciso que se levante. Antes de qualquer coisa você precisa se alimentar.
Diante da possibilidade de saciar minha sede levantei devagar. O imenso espelho na
parede do banheiro não refletia minha imagem, mas eu sabia que estava nua e suja de uma
mistura de água e sangue. Curiosa sobre as possíveis transformações olhei para Alec.
― Você está linda! Posso afirmar isso. – analisou meu corpo dos pés à cabeça.
― Em todo esse tempo em que estamos juntos nunca me atentei ao fato de que você não
aparecia em reflexos.
― Isso é porque não é importante.
― Sabe o motivo de vampiros não possuir reflexo? – perguntei curiosa. Conversar era uma
forma de tirar o foco do delicioso cheiro que emanava do quarto. O cheiro do meu sangue
humano.
― Existem várias teorias. - enquanto ele falava eu liguei a ducha para livrar meu corpo do
cheiro tentador. - A mais comum é porque não temos alma, porém acho improvável uma vez que
qualquer objeto é refletido. Seria demais acreditar que minhas roupas possuem alma. Sinceramente
não sei a resposta para isso. Talvez nem o primeiro vampiro saiba.
Enquanto enxugava meu corpo e me vestia continuei perguntando:
― Nada de sol, correto?
― Sol somente se desejar deixar essa nova existência de forma rápida e dolorosa.
― Certo. Nada de sol.
Depois de alguns instantes em silêncio terminei de me vestir e disse:
― Pronto. Só mais uma pergunta antes de sairmos. Por que não usamos mais a boca para
falar?
― É um bônus da transformação. Nossa mente está conectada. Suspeitei que isso
aconteceria, pois também pude ouvir os pensamentos da pessoa que me transformou. Agora
vamos, você fica maravilhosa de olhos vermelhos, mas não quero correr o risco de deixar sua sede
aumentar.
Saímos pela porta de mãos dadas como um casal comum e apaixonado.
XIII – Depois da Transformação

As ruas naquela parte da cidade pareciam desertas. Andava devagar enquanto pensava
na minha recente transformação. A única mudança que eu percebia nesse momento era o fato de
poder ouvir uma respiração ou coração batendo mesmo que a pessoa esteja a mais de um
quilômetro de distância. Alguém me seguia. E não era Alec. A pessoa que me seguia respirava e
seu coração estava acelerado.
Lembrei do que Alec me disse logo que nos separamos:
― Vá por aquele caminho. É uma rua sem saída. Qualquer um que ousar te atacar merece
morrer. Vou estar por perto.
Enquanto andava podia ouvir os pensamentos de Alec. Ainda não sabia como controlar
aquela conexão, mas estava encantada com as coisas eróticas que ele pensava.
Sorri. Ele sabia que eu estava ouvindo e também acessava todos os meus pensamentos.
Balancei a cabeça tentando afastar a sessão de sexo virtual. Tinha que cuidar de outra
prioridade: Minha sede.
Não aceitei facilmente que seria capaz de matar alguém, mas obedeci. Cada passo que o
dono daquela respiração dava em minha direção aumentava uma sede absurda que parecia
rasgar minha garganta.
Quando ele chegou perto eu já estava chegando ao fim da rua. Me virei e o olhei
desafiadora.
― Precisa de ajuda? – perguntou enquanto me analisava da cabeça aos pés.
― Infelizmente. Acho que me perdi. – ao terminar de dizer essas palavras ouvi a risada de
Alec em minha cabeça.
O ignorei e continuei com a voz mais fria que o pretendido.
― O imbecil do meu ex-namorado me deixou na estrada depois de uma discussão. – usei
uma história do passado.
― Ele deve ser mesmo um imbecil para largar uma gata como você em um lugar tão
perigoso.
― Pode me ajudar a encontrar um ponto de taxi ou algo assim?
― Até poderia. – desceu os olhos pelo meu corpo novamente. – Mas hoje não estou muito
bonzinho.
― Como? – realmente me assustou sua resposta. Procurei por cheiro de álcool ou algo que
justificasse a atitude, mas não havia nada ali. Era realmente apenas um ser humano ruim.
― Mesmo que você grite ninguém vai te ouvir. A única pessoa louca em se aventurar em
ruas desertas sem saída é você.
Eu olhava meus próprios pés concentrada em ouvir o que Alec pensava sobre aquele
cenário, porém só havia o silêncio. Ele devia estar longe. Levantei a cabeça e encarei o homem a
minha frente. Era um homem bonito, na casa dos quarenta anos, ruivo e vestido como os
motoqueiros dos filmes de ação.
― Não serei eu a gritar. – declarei friamente.
Não havia pena porque quando meus olhos foram atraídos pelo canivete com o qual ele
brincava passando de uma mão para a outra não era mais o ruivo que via e sim Cristiano. Via os
olhos frios de Cristiano. Um turbilhão de lembranças encheu minha mente. Lembranças de Cristiano
tocando meu corpo fraco sem se importar com meus apelos.
― Faça o seu pior. – o desafiei.
Mesmo desconfiado da minha atitude ele avançou com a arma em punho. Deixei que me
apunhalasse na barriga. Queria saber o que aconteceria depois da transformação. Fui
surpreendida por uma forte dor e pelo sangue negro que sujou minhas mãos. Segurei a mão dele
com força e puxei tirando o canivete de dentro do meu corpo. Podia ouvir o barulho dos ossos da
mão dele sendo massacrados mesmo que o barulho dos seus gritos de dor fosse mais alto.
O canivete caiu. Ajoelhei e o trouxe para o chão sem me importar com seus protestos, socos
e tentativas de pontapés. Trouxe seu pulso até meus lábios e o mordi. Assim que o sangue desceu
pela minha garganta perdi o controle. Larguei o braço e antes que ele tivesse chance de pensar
em fugir segurei seu pescoço e cravei meus dentes na pele branca. Minha falta de jeito fez com
que o sangue se espalhasse pelas roupas dele.
Ouvi o barulho da respiração sumindo e o coração parando de bater e parei. Lembrei-me
do que Alec disse antes de me deixar sozinha: Não continuei depois que sua vítima estiver morta.
Suguei quase todo o sangue daquele desconhecido. Não me senti mal com isso. Na verdade estava
satisfeita por tirar do mundo uma criatura que ao ver uma mulher em perigo prefere atacar do
que ajudar.
Deixei seu corpo caído e me levantei. Pensava em como resolveria a bagunça que fiz e em
onde estaria Alec.
― Estou aqui.
Olhei em direção a voz. Alec estava apoiado em um poste próximo com os braços
cruzados.
― Vá para sua casa e me espere. Cuidarei disso dessa vez.
Sorri para ele e fui em sua direção. Roubei um beijo e disse:
― Estarei te esperando e da próxima vez cuidaremos da situação juntos para que eu
aprenda.
Antes que eu pudesse partir ele apertou minha cintura e me puxou para um beijo longo. O
beijo só parou quando ele perdeu o controle e mordeu meus lábios.
Estávamos muito excitados em uma situação incomum. Ele me olhou em busca de uma reação
para aquele ato impensado, mas sorriu quando meus pensamentos deixaram claro que a mordida
somente serviu como combustível para o meu fogo.
― Não demora. – implorei.
Sumi na noite com meus pensamentos.

Trinta minutos depois eu estava deitada em minha cama observando as pequenas manchas
no teto que antes não notava quando a porta se abriu revelando a figura de Alec.
― Falei para não demorar. – reclamei encarando-o de onde estava.
Ele permaneceu parado na porta.
― Precisei cuidar da minha sede também. – cruzou os braços e levantou uma sobrancelha.
– E você, por que ainda está vestida?
― Por que gosto quando você me despe.
― E eu gosto quando fala coisas assim. Venha aqui.
Obedientemente me levantei e caminhei até ele. Sem pressa ele se livrou de todas as
minhas peças de roupa e em seguida pude observar ele se desfazer das suas próprias roupas.
Logo que ele se desfez da última peça avancei e prendendo seu pescoço com meus braços
o puxei para um beijo avassalador.
O desejo estava em espalhado por minha pele. Não queria preliminares. Queria
movimentos frenéticos. Em um movimento passei as pernas pela sua cintura e ele ouvindo minhas
preces apoiou meu corpo na porta do quarto e me penetrou preenchendo o que faltava em mim.
Soube naquele momento que havia feito a escolha certa. A eternidade ao lado de Alec significa o
paraíso.
XIV – Coisas de casal

― Alec? – guiei seu olhar até o meu segurando-o pelo queixo.


Na cama depois de explorar alguns lugares do quarto e algumas posições que talvez nem
exista no Kama Sutra ele brincava de trilhar um caminho entre meus seios indo e voltando.
― Diga.
― Onde você foi quando me deixou ontem?
― Estava observando você por uma das janelas dos depósitos. Confesso que quase fui ao
seu auxilio quando você deixou aquele homem esfaqueá-la. – fez uma careta.
― Estranho. Por alguns momentos não pude ouvir seus pensamentos. – toquei seu nariz com
a ponta do dedo.
― Bloqueei. Com o tempo aprendi a fazer isso. Ouvir meus pensamentos poderia
atrapalhar os seus e eu queria que aquele momento fosse somente seu.
― Hum. Você é aquele tipo de pai que joga o filho no rio para que ele aprenda a nadar. –
ri ao imaginar uma cena em que Alec me ensinava a nadar.
― Algo assim, mas prefiro que me veja como o companheiro que a considera com
igualdade.
― Você só diz o que quero ouvir. – fingi reclamar mesmo sendo impossível esconder minha
satisfação em ouvir suas palavras.
― Isso é porque sou bastante esperto.
E convencido. – pensei.
Ele apenas riu.
― Vamos sair desse quarto, tomar um banho, ver um filme e transar no sofá. – declarei.
― É impressão minha ou você ficou mais atrevida depois da transformação? – continuava
na mesma posição deitado ao meu lado com o rosto apoiado nas mãos para ficar cara a cara
comigo.
― O que adianta não dizer se você já sabe o que penso?
― Verdade, sei que agora você está louca de desejo e se perguntando como isso é
possível depois de tudo que aconteceu nesse quarto nas últimas horas. Isso é outro bônus da
transformação. Nossos corpos não têm mais as fragilidades de quando somos humanos. Não
precisamos mais repor energias quando o motivo é sexo. Também devo dizer que é diferente
agora que não preciso mais me controlar para não a machucar.
Não gostei de saber que ele precisava se controlar comigo. Decidi que nunca mais deixaria
isso acontecer. Como ele mesmo disse: seríamos iguais.
Guardei esse pensamento em um lugar especial da minha mente para nunca esquecer e
declarei:
― Por esse motivo vamos tomar banho separados. Não quero parecer uma viciada.
Sua gargalhada encheu o quarto de vida e luz. Adorava quando ele ria.
― Você quem sabe.
Levantou exibindo sua nudez, mas para fugir da tentação passei correndo por ele e gritei
de dentro do banheiro.
― Vou primeiro.
Poucos minutos depois quando sai do banheiro o encontrei no mesmo lugar com uma toalha
branca enrolada na cintura e os braços cruzados sobre o peito. Entrou no banheiro me deixando
sem acesso aos seus pensamentos.
Vesti uma camisola vermelha por cima de uma minúscula calcinha que fazia parte do
conjunto e desci para escolher um filme.
Enquanto escolhia o filme nos DVDs alugados deixei a TV ligada em um canal onde só
passavam clipes.
Depois de algum tempo ignorando as imagens e curtindo somente as músicas minha atenção
foi roubada por um clipe. Era a música Animals de Maroon Five. No clipe Adam perseguia uma
mulher, mas o que mais chamou minha atenção foi o casal do clipe nus sendo banhados por sangue
enquanto se beijam e se tocam.
― Podemos fazer isso quantas vezes você quiser.
Os lábios de Alec estavam quase tocando minha orelha quando pronunciou essas palavras.
Fechei os olhos e me deixei levar pelo que a presença dele causava em meu corpo. Um
longo gemido escapou dos meus lábios quando ele afastou uma das alças da camisola e cravou as
presas no meu ombro. Tirou meus cabelos dos ombros liberando o meu pescoço e o mordeu. Senti
que ele sugava meu sangue e minha excitação chegou ao extremo. Agarrei o estofado do sofá e
meus dedos afundaram até a madeira. Alec saltou por mim e se colocou entre minhas pernas.
― Seu gosto é delicioso. – passou a língua pelos lábios buscando resquícios do meu sangue.
O encarei com os olhos arregalados antecipando o que ele faria.
Ajoelhado Alec puxou minha calcinha para um lado, me puxou para baixo fazendo meu
corpo escorregar pelo sofá e mergulhou entre minhas pernas. Se alimentava de mim de todas as
formas; com língua, presas e mãos. Sem pudores meu corpo contorcia e minhas mãos estragavam o
estofado. As palavras que saiam minha boca eram ininteligíveis. O que fazia sentido ali era a
língua dele torturando meu ponto mais sensível, era seus dedos que se revezavam dentro de mim,
era sua boca que me chupava, eram seus dentes que me mordiam.
Quando meus gemidos se tornaram baixos e os movimentos do meu corpo mais lento Alec
arrancou minha calcinha, rasgou a camisola e se desfez da própria toalha. Nua e livre da tortura o
puxei pela cintura pronta para devolver todos os gemidos que ela arrancou de mim. Segurei seu
membro com uma mão e com a outra cravei as unhas em sua bunda. Por alguns instantes desfrutei
do seu gosto ao cravar minhas presas em sua virilha, mas logo voltei meu foco para onde queria.
Alec uivava de prazer tendo seu membro mergulhado em minha boca. Ele segurou meu
cabelo com força usando como apoio e minhas unhas entraram mais fundo em sua carne. A ponto
de explodir ele puxou minha cabeça afastando minha boca do seu membro e minhas unhas da sua
bunda, e me empurrou e direção ao sofá. Se jogou sobre o meu corpo e o impacto fez a madeira
do sofá quebrar. Nenhum de nós se importou com o que quebrávamos.
Suas estocadas eram fortes e longas. Nossos corpos eram embalados pela violência dos
nossos movimentos. O sofá fazia barulhos que se misturavam com os nossos. Tudo se misturava e um
intenso orgasmo trouxe gritos altos.
Só depois de me perder nos braços do meu amor lembrei que tinha vizinhos e ri alto
acompanhada por Alec que achou graça da minha súbita vergonha.

Horas depois deitados nas espreguiçadeiras da piscina do prédio de Alec conversávamos


sobre como seria nosso futuro próximo:
― Com qual frequência precisamos nos alimentar?
Passava da meia-noite. Era a melhor hora para um banho de piscina.
― Eu posso ficar até uma semana sem sangue. Como você é uma recém transformada vai
precisar diariamente até conseguir controlar a sede. Isso vai depender da sua força de vontade.
― Eu sou perigosa para minha família? – perguntei mesmo temendo a resposta.
― Infelizmente sim. – respondeu sem muita emoção.
A necessidade de estar com minha família era um sentimento exclusivamente meu.
Percebendo que eu estava perdida em lamentações ele propôs:
― Que tal férias em um lugar onde criminosos são mortos todos os dias e as pessoas não
ligam? Podemos ficar lá até que você consiga controlar as emoções e habilidades novas.
― Onde? No Iraque?
― Pensei em algum lugar na Síria. Além de guerra lá tem alguns pontos turísticos. Você vai
gostar.
― Seria interessante. A única coisa que sei da Síria é que tem guerra. – sorri imaginando
um cenário de guerra com dois vampiros turistas passeando.
― Podemos ficar hospedados em algum lugar em Damasco. Tem muitas atrações turísticas.
Durante nossa estadia lá podemos jantar fora. – sorriu. – Vai ser bom conhecer o gosto dos sírios.
― Gostei da ideia. Vamos pesquisar passagens aéreas com voos noturnos mais tarde.
Agora que tal um mergulho?
Sem esperar por uma resposta levantei e saltei na água. Poucos segundos depois Alec
também saltou.
XV – Uma visita inesperada

Em dois dias sairíamos de “férias”. Era estranho chamar de férias uma vez que abandonei
o trabalho sem dar satisfação. Até quis pedir demissão como manda o figurino, mas o horário da
Mares coincidia com o horário que eu não podia sair de casa em nenhuma hipótese ou poderia
virar churrasco.
Haviam se passado cinco dias depois que me transformei e nesses cinco dias eu só sentia
desejo por sangue e sexo. Não passei nem perto da casa da minha família. Visitaria minha mãe um
dia antes de viajar. Reduzir meu tempo com ela era o único ponto negativo na transformação.
Alec fazia o possível para eu passar por essa fase inicial da melhor forma. Ás vezes me
perguntava se ele já havia transformado alguém, pois parecia saber muito sobre isso. Muito mais
do que alguém que só passou pela experiência de ser transformado.
O mais estranho era que ele não respondia a esses meus pensamentos. Sempre mudava de
assunto e desviava meus pensamentos com artimanhas ou propostas eróticas.

Olhei a mala vazia em cima da cama e o guarda-roupa aberto indecisa sobre o que levar.
Sentei na beira da cama e fiquei só olhando as roupas que esperavam para ir para a mala. Alec
estava na sala assistindo um documentário sobre ilhas particulares. Pretendia comprar uma em um
futuro próximo. Segundo ele seria nosso refúgio.
Ouvi quando a campainha da porta tocou e curiosa desci para ver quem seria a visita que
se atrevia a chegar três horas da madrugada.
Não gostei do que vi. Alec estava parado ainda segurando a maçaneta da porta aberta
onde uma ruiva sorria para ele.
Ele parecia congelado.
O que mais me incomodava era que não se ouvia nenhum barulho de coração batendo. Ela
era uma vampira.
― Não me convida para entrar mestre? – ela perguntou. Só então percebi que seu sorriso
era de provocação.
Alec não respondeu.
Desci as escadas correndo e me coloquei ao lado dele.
― Em que podemos ajudá-la? – precisava descobrir o que estava acontecendo porque
mais uma vez Alec bloqueou seus pensamentos.
― Olá Mia, vejo que Alec não resistiu e transformou outra mortal. Somos amigos íntimos,
pode se dizer. Acho que Alec entrou em choque por me ver.
― Nunca mais volte aqui.
A voz sombria de Alec invadiu o ambiente.
A porta foi fechada violentamente deixando uma vampira surpresa lá fora.
Alec se afastou da porta e sentou novamente diante da televisão como se não houvesse
acontecido nada.
Curiosa abri novamente a porta, mas a mulher não estava mais lá.
Quando ia fechar notei que ele havia feito a porta se soltar das dobradiças de ferro.
Sem disposição para deixar as respostas a cargo da minha imaginação sentei ao lado dele
no sofá e fiquei esperando uma explicação.
Depois de alguns instantes fingindo interesse no programa da TV ele finalmente virou e me
encarou.
Assustei com o que vi. Seus olhos estavam vermelhos. Era a segunda vez que via seus olhos
daquela cor.
― Você é a segunda pessoa que transformei. – declarou a contragosto.
Não foi uma surpresa. Desconfiava disso e ele sabia, porém não esperava que fosse algo
tão grave que fizesse seus olhos ficar vermelhos de ódio.
― Se ela não tivesse aparecido nunca falaria sobre isso. É algo de que me envergonho. –
confessou.
― Você disse que deveríamos ser iguais. Não vejo igualdade em guardar segredos.
Principalmente quando esse segredo te deixa tão fora de si. – enquanto falava ajoelhei entre suas
pernas e toquei seu rosto com suavidade. – Seus olhos estão vermelhos e sei que não é sede de
sangue.
― Pode se dizer que é. – sorriu. Não era seu maior sorriso, mas servia para começar. –
Você está certa. Eu não devia ser tão covarde. Sente aqui que vou te contar uma história.
Ele esperou eu me sentar e quando o fiz ele me puxou colocando minha cabeça em seu
colo.
― Prefiro que fique assim porque se tentar fugir fica mais fácil impedir.
― Relaxa garoto. – tentei brincar para aliviar a tensão.
― Você deveria parar de facilitar as coisas para mim. – sua voz era baixa. Ainda estava
abalado pela visita inesperada.
― Vou tentar me lembrar.
Alec balançou a cabeça concordando como se tivesse decidido como me contar em uma
discussão em sua cabeça. Logo começou seu relato:
― Alguns anos depois da minha transformação comecei a procurar por outros iguais a mim,
porém não os encontrava. Com o tempo fiquei enjoado de não ter com quem conversar sobre a
minha realidade e mesmo sabendo que era impossível ficar bêbado saia pelos lugares mais
sombrios bebendo e buscando prazer físico. Em uma dessas aventuras conheci Angélica. Uma
prostituta que atendia por Angel. Uma ruiva ardente que não se importava com minhas
preferencias estranhas. Muitas vezes a machuquei enquanto transávamos e ela não se abalava. Ela
sempre soube que eu era diferente e é claro que ficava satisfeita com o dinheiro e os presentes.
Acabei me apegando a ela e quando ela quis ser transformada não pensei duas vezes. Era minha
chance de não ficar sozinho em meio à multidão. – ele falava baixo. Sua memória vagava pelo
passado e ele me deixava vagar por ela através dos seus pensamentos. – Ela não tinha os mesmos
princípios que eu. Se alimentava de qualquer um e tínhamos que nos mudar constantemente.
Brigávamos muito, mas ela sempre usava o sexo para me convencer. Depois de muito tempo sozinho
minha mente doentia achava que aquilo era amor. Aos poucos o que eu chamava de amor se
transformou em raiva e quando cheguei ao meu limite mandei fazer um caixão de vidro, a prendi
nele e a deixei para ser queimada viva pelo sol em um lugar deserto.
― Mas um caixão de vidro pode segurar um vampiro? – perguntei interrompendo sua
narrativa.
― Pesquisei muito sobre os mitos que estão por aí sobre nós e testei algumas coisas. É por
isso que sei que o sol realmente queima e que sangue de mortos enfraquece os vampiros. Angel
não sabia e aceitou quando ofereci. Isso deixa os vampiros inconscientes por cinco horas
aproximadamente e fracos por até vinte e quatro horas.
Me encarou com intensos olhos vermelhos e continuou:
― Enfim, achei que havia me livrado dela. Depois disso resolvi me isolar e foi graças a esse
isolamento conheci você. – fechou os olhos como se esperasse por algo. – De alguma forma ela
escapou. É isso. O que me diz?
Sem mudar de posição respondi:
― Não existe nada em seu passado que possa mudar o que sinto por você. Eu te amo. Amo
suas qualidades e seus defeitos, suas conquistas e seus arrependimentos.
― Odeio você, sabia? – seu sorriso era intenso. – Você devia ser menos perfeita.
― Sei que me ama. Não adianta tentar disfarçar. – levantei o tronco e passei os braços ao
redor de seu pescoço.
― Você é muito esperta! Eu te amo mesmo. Sempre vou amar. Você é a melhor coisa que já
aconteceu em minha existência.
― Pare de me pedir para beijá-lo através dos pensamentos, garoto imortal. – encostei mais
nossos rostos. – Vamos dar uma volta nos arredores. Ficamos em casa o dia inteiro.
Com a boca bem próxima sua orelha finalizei:
― Quando voltarmos prometo que vou te beijar o quanto você aguentar.
Em um salto Alec se levantou e me levou com ele. Segurou minha mão me puxando para a
porta.
― Vamos logo.
Caminhamos pela praça de mãos dadas em silêncio como um casal de namorados comum.
Não sabíamos que alguém nos seguia escondido pelas sombras.
XVI – Vingança

Na noite seguinte depois de perceber os olhares disfarçados para as veias no pescoço do


meu pai e da minha mãe e de perceber que Alec não conseguia controlar os pensamentos o
obriguei a sair e se alimentar. Eu é que devia estar descontrolada não ele. Depois da minha
transformação ele se importava cada vez menos com a própria existência e fazia dias que não
bebia sangue. Sua desculpa é que era mais resistente e podia esperar até a viagem para não
causar tumulto. Segundo ele, os criminosos também eram notados.
No caminho de volta para casa, depois do jantar de despedida antes das férias, nos
separamos. Não seria uma boa ideia ter um avião repleto de sangue pulsando e um vampiro
sedento.
Quando cheguei em casa uma cena curiosa chamou minha atenção. Angel estava sentada
na pequena escada da entrada. Logo que me viu chegando ela sorriu e levantou.
― Espero que minha visita não a incomode. Sei que Alec deve ter contado tudo sobre mim,
mas gostei de você logo de cara. Se dispuser de alguns minutos gostaria de conversar um pouco. –
a voz exageradamente sedutora estava somente na minha cabeça.
Passei por ela e abri a porta.
― Entre. – esperei ela passar e fechei a porta atrás de mim.
Ela entrou e sentou no sofá novo sem aguardar um convite.
― Desculpe. Sabia que pediria para eu sentar, então me adiantei. – cruzou as pernas
revelando mais que o vestido curto lilás já revelava. – Vou te ensinar uma coisa como pedido de
desculpas pelo meu mau jeito. Sente-se comigo.
Ignorando seu pedido arrastei uma poltrona e me sentei em sua frente.
Ela só sorriu e continuou como se nada tivesse acontecido:
― Vou te ensinar a bloquear seus pensamentos. Vai ver que é uma coisa fácil. A única coisa
que precisa fazer é focar seus pensamentos em uma única coisa. Por exemplo: você pode ficar
repetindo uma música mentalmente ou somente pensar no vazio. Com treino em breve poderá
bloquear qualquer um. E...
― Espere, por que está me ensinando isso? – interrompi. – Duvido que veio aqui para isso.
― Realmente não vim exatamente para isso, mas você me parece muito forte e inteligente.
Um diamante bruto. Pode-se dizer que eu adoraria te lapidar.
Soltou uma gargalhada sonora quando ouviu meus pensamentos.
― Não sou lésbica, querida. Já experimentei de tudo e com certeza minha preferência é o
sexo oposto. Está certo que experimentaria você sem problemas, mas sua amizade seria mais
valiosa que sua paixão. Pena que não terei nenhum dos dois.
Incomodada com aquela conversa sem sentido me mexi na poltrona procurando uma
posição menos incomoda.
Aproveitei aquele momento para esclarecer uma dúvida que me surgiu logo que ela
apareceu.
― Por que você consegue ouvir os pensamentos de outros vampiros além do seu criador?
― Não sei. Descobri que posso e estou me aproveitando ao máximo disso. Posso permitir
que outros me ouçam também. Sou uma criatura espetacular.
Não querendo desviar do foco declarou:
― Vamos voltar ao que interessa. – entrelaçou os dedos das mãos e apoiou o queixo nelas
me encarando da distância que coloquei entre nós. – Tudo que Alec te contou é verdade. Eu era
uma verdadeira prostituta em todos os sentidos. As coisas que me importavam podiam ser
compradas, exceto uma: a imortalidade. Quando soube que ele podia me dar isso me apeguei a
essa possibilidade e aqui estou; linda e imortal. Poderia dizer que você não deveria se preocupar
com Alec desejar voltar para mim, uma vez que a única coisa que sinto por ele é ódio depois do
que ele tentou fazer comigo.
Ela olhou para o teto e liberou o acesso aos seus pensamentos enquanto divagava:
― Nunca senti tamanha dor e o sol estava apenas nascendo. O que me salvou foi o que
sempre me foi útil: minha beleza. Três rapazes meio alcoolizados e muito curiosos quebraram o
vidro e me levaram no carro deles. Depois soube que eles só passaram ali porque se perderam.
Não fosse isso jamais estaria aqui falando contigo. Alec poderia ter simplesmente me afastado,
mas não. Ele quis se livrar definitivamente de seu erro.
As lembranças dela eram dolorosas, mas tinha dúvidas se não eram manipuladas.
― Ele não te obrigou a ser transformada. – tentei defendê-lo.
― Não, mas quis me obrigar a ser queimada por eu não mudar de personalidade. Por que
mudaria? Ele me conheceu assim e me desejou assim.
Fiquei calada. Ela estava certa.
― Transformei um dos homens que me salvou e matei os outros. Ele era o que tinha maior
razão para permanecer humano, por isso o escolhi. Sem sua patética vida humana ele seria meu
escravo. Depois dele transformei outros pelo mesmo motivo. Homens que amavam suas esposas e
filhos e ainda assim caiam na tentação de magoá-los através de uma traição. O medo de ser
descoberto ou de machucar a família fazia com que escolhesse não fazer mais parte da vida
deles. Os usei e continuarei usando assim como fizeram comigo quando era humana.
― Entendo que sua existência antes e depois da transformação não foi fácil, mas por que
faz tanta questão de me contar?
Angel levantou. O sorriso frio no seu rosto me fez sentir frio.
― Eu realmente gostei de você. Aquele negócio de amor ou ódio à primeira vista, mas não
faço questão de nada aqui. Meu único objetivo nessa conversa é te afastar de Alec pelo máximo
de tempo que for possível para que não atrapalhe meus planos de vingança.
Levantei de um salto.
― Planos de vingança?
Enquanto isso fora bem longe da casa.
― Ei, espere. – ouviu chamarem.
Alec virou de forma a encarar o humano que o seguia.
― Você estava com uma garota morena agora a pouco? Ela pediu para entregar isso. – o
homem estrategicamente vestido com roupa de corrida estendeu uma garrafa em sua direção.
Curioso Alec pegou a garrafa escura das mãos do humano que completou:
― O recado é: Diga que não quero tirar o foco em seu objetivo, mas isso é para mostrar
que somos iguais. – o homem falava como se trata-se de um favor a um amigo. – Você é um cara
de sorte. Minha mulher já nem liga em cuidar de mim.
― Sou o ser mais sortudo do universo. – fascinado pelo gesto da amada Alec sorriu para o
desconhecido e continuou seu caminho. Terminaria o que foi fazer, mas antes provaria do presente
que ganhou.
Sentou-se em frente a uma porta de uma loja abandonada e abriu a garrafa. O cheiro de
sangue invadiu seus sentidos e ele percebeu que realmente precisava se alimentar antes de entrar
em um avião repleto de humanos. Bebeu todo o líquido da garrafa e continuou sua caminhada em
busca de algum criminoso que pudesse terminar de saciar sua sede. Poucos passos adiante sua
vista escureceu e seu último pensamento antes de se entregar a inconsciência foi: “Era uma
armadilha de Angel”.

― Seu amado vai sofrer o mesmo que eu. A única diferença é que ninguém vai salvá-lo. –
pronunciava cada palavra com extremo prazer.
― Onde ele está? – o desespero estava presente em mim pela primeira vez desde que fui
transformada.
― Em um lugar deserto onde vai esperar para ver o sol nascer.
― Não. Não. Não. – comecei a repetir sem parar. Não podia acreditar na possibilidade de
uma eternidade sem Alec.
― Sim.
Ela me olhou e dessa vez em seus olhos vi desdém.
― Quer saber, se quiser ver me siga. – determinou e começou a andar em direção a porta.
Diante da possibilidade de não encontrar Alec por conta própria segui a vampira sem
pestanejar.
Chegamos a uma plantação de flores que cobria extensões de terra. Eram flores de várias
cores e espécimes. Solitária em meio a plantação estava uma pequena cabana e diante dessa
cabana havia um poste de madeira onde Alec estava amarrado com os braços pregados acima
da cabeça; inconsciente. Sangue negro descia pelo peito nu dele.
Tentei correr até ele, mas a prostituta me segurou com firmeza pela cintura e ordenou aos
seus três capangas que me mantivesse longe de Alec.
Os vampiros fizeram como ela pediu e me arrastaram para dentro da cabana onde
permaneciam à espera do fim da vítima.
Encolhida em um canto foquei em uma música de Los Hermanos enquanto pensava em
formas de escapar dali com Alec. Pelo sorriso de Angel a técnica para esconder meus pensamentos
deu certo. Aquela prostituta monstruosa estava satisfeita em ter me ensinado aquilo.
O tempo passava rapidamente. O dia logo amanheceria e eu não conseguia pensar em
nenhuma solução. Não era possível enfrentar os quatro oponentes sozinha.
Depois de algumas horas Alec despertou da inconsciência e era possível ouvir seus gritos e
gemidos de frustração em não ter força maior que qualquer humano fraco. Ele amaldiçoava Angel
e prometia vingança.
Enlouquecida com os gritos dele parti para cima dos dois vampiros que guardavam a
porta. Minha fúria era tamanha que eles tiveram trabalho para me dominar.
Pude ver Alec e ele me viu e seus olhos ficaram vermelhos. Sua expressão era uma mistura
de tristeza e raiva. Suas maldições acabaram quando me viu. O lugar foi tomado por um silêncio
fúnebre.
― Fique tranquila. – ouvi sua voz em minha cabeça.
― Como? Não posso perdê-lo. – respondi.
Naquele momento nossa mente estava liberada ao acesso de todos. Não conseguíamos
pensar em desperdiçar tempo em tentar esconder como nos sentíamos.
― Quero que me prometa que quando eu deixar de existir você não fará nenhuma
besteira. Prometa que vai seguir com os planos da viagem e que será feliz.
― Não posso. Se você partir levará a culpa por me fazer sofrer pela eternidade. –
ameacei debilmente.
― Sinto muito.
Se eu tivesse lágrimas derramaria. Fiquei passeando pelas lembranças de nossos momentos
juntos desde quando nos conhecemos na estrada.
― Chegou o momento. O sol está nascendo.
A voz de Angel me tirou do transe e me levou ao desespero. Corri em direção a porta, mas
dessa vez os dois vampiros estranhamente abriram caminho. Enfrentando a dor que as
queimaduras do sol causavam em mim consegui soltar Alec, mas sem força por causa da dor cai
com eles nos braços antes de chegar na porta. Estávamos queimando. Minha única satisfação era
que não ficaria sem ele.
Fechei os olhos e o abracei com todo o resto da minha força.
XVII – A viagem

Coloquei a pequena bagagem de mão no compartimento e me sentei ao lado de Alec.


Seria minha primeira viagem de avião, mas não conseguia aproveitar totalmente. Meus
pensamentos sempre voltavam ao que aconteceu horas atrás. Fechei os olhos e busquei cada
detalhe daqueles momentos de terror.

Alec estava sofrendo exposto ao nascer do sol. Meu desespero me levou a sair disparada
da cabana e envolvê-lo em meus braços. Não havia nada que indicasse uma escapatória.
― Desculpe trazer a destruição para sua existência. – a voz de Alec saia fraca. – Eu devia
protegê-la.
― Mesmo que acabe aqui esses dias com você valeram mais do que todos os dias em que
fui humana.
― Mal posso me mover por causa do efeito do sangue de morto. Não poderei lutar contra
eles ou chegar até a cabana. – lamentou.
Meu corpo absorvia mais luz do sol por tentar cobrir o dele.
― Eu amo você e ficarei contigo até o fim. – soube disso no momento em que ele apareceu
na minha casa pela primeira vez.
― Mas eu te amo e quero que fique bem. – insistia em me fazer desistir de me sacrificar
para não o perder.
― Estou bem. – sorri com dificuldade.
Em pouco tempo viraríamos cinzas.
Quando decidi que poderia tentar lutar antes de entregar os pontos algo estranho
aconteceu. Sombras nos cobriam rapidamente. Tive medo de levantar os olhos e descobri alguma
armadilha nova de Angel, mas ouvi uma voz macia dizer:
― Fiquem onde estão até anoitecer.
Não respondi. Algo me fez sentir que deveria ficar ali e não me mexer. Foi o que fiz.
Também era possível perceber que eles estavam nos protegendo por pena. Talvez também
pudesse ter acesso aos nossos pensamentos como a criadora deles. Não saberia, pois o sol
transformou a existência deles em pó. Por horas fiquei abraçada a Alec, nossas queimaduras aos
poucos desapareciam.

Enquanto era protegida pelos capangas que antes me mantinham presa na cabana
acontecia uma pequena guerra que eu acompanhava pelos pensamentos sem bloqueios de Angel.
Ela devia estar fora de controle para não perceber que abria os pensamentos para outros.
Angel havia transformado vários homens e eles se revoltaram contra ela. Ignorando os
apelos da vampira eles a mantiveram dentro de uma roda ao sol até que todos viraram cinzas,
inclusive ela.
Depois de algum tempo ouvi a voz de Alec tão firme quanto era antes da emboscada:
― O sol se pôs. Podemos ir.
Levantei a cabeça com dificuldade por causa da posição em que estava apertada entre
Alec e os vampiros queimados.
― Tem certeza?
Alec balançou a cabeça afirmando e tocou na perna do vampiro próximo a ele. As cinzas
foram levadas pela brisa suave. Em um efeito em cadeia todos se desfizeram em cinzas ao vento.
Realmente o sol já tinha se posto.
Próximo à onde estávamos havia um espetáculo sombrio. As cinzas de vários homens
rodeando a cinza de uma mulher que de joelhos cobria o rosto com as mãos era um quadro
horrível.
Não consegui sentir pena de Angel. Ela só buscou maldades em sua vida humana e em sua
existência como vampira. Seu fim estava fadado a ser sombrio.
Alec se desfez das cinzas deles também para não criar especulações futuras nos
fazendeiros e chegamos em casa a tempo de pegar as malas para voar para a capital da Síria.

Senti a mão de Alec sobre a minha.


― Pare de pensar nessas coisas. Me chateia o fato de não ter acabado com aquela mulher
com minhas próprias mãos.
― Não estava pensando apenas nisso. – coloquei minha mão sobre a dele. – Alec, não
pretendo voltar para a minha casa ou a minha vida anterior.
― Apoio qualquer decisão sua desde que esteja comigo.
― Minha família já me conhece. Sabe que não sou muito apegada. Visitarei algumas vezes
enquanto minha mãe estiver viva. Aquela nunca foi a minha vida.
― Vamos fazer um trato? – ele propôs.
― Sim. Basta dizer qual.
― A partir de hoje vamos apagar Angel das nossas memórias e somente iremos falar em
sua família quando for vê-los. Seremos somente nós dois. Aceita?
― Sim. É justo.
Alec riu. Sabia que aquele sorriso era por causa do meu pensamento fora de hora.
― Também aceito sua proposta. – ele falou. – Se você prometer não fazer barulho.
Também tenho curiosidade de saber como é transar em banheiro de avião.
― Desculpe pensar nisso em um momento tão inoportuno.
― Todos os momentos são oportunos quando se trata de sexo com você. Segure esse
pensamento que logo que o avião decolar darei um jeito de realizá-lo.
Apenas sorri. Éramos o casal de vampiros mais humanos que existia quando o assunto era
sexo.
Era algo tão fora de comum que levava para longe qualquer preocupação.
Alec me puxou para perto e ficamos abraçados até o avião decolar. Na primeira
oportunidade seguimos furtivamente para o banheiro onde teríamos outra aventura.
Já no hotel Alec me fez um pedido estranho.
― Preciso que dê uma volta pela cidade de mais ou menos duas horas. Quero preparar
uma surpresa para você.
― Agora mesmo. Adoro surpresas. – roubei um beijo dele e aproveitei a madrugada para
sair sem problemas.
Caminhei algum tempo pelo centro da cidade observando a vida noturna dos sírios. Não
procurei por pontos turísticos. Faria isso quando estivesse com Alec. Passei o tempo tentando
adivinhar o que ele pretendia.
Quando enfim passou-se o tempo que ele me pediu voltei devagar para o hotel. Ele me
esperava sentado na cama vestido com o roupão do hotel.
― Feche a porta e tire toda a roupa. – ordenou.
Obedeci sem silêncio. Foquei minha mente em tudo que vi durante meu passeio noturno de
forma a impedi que ele acessasse tudo que eu pensava.
Completamente nua esperei o que viria.
― Acompanha-me.
Segui os passos dele até o banheiro.
Descobri de onde vinha o cheiro intenso de sangue que senti logo que cheguei. A banheira
do hotel estava cheia de sangue e ao seu redor várias rosas vermelhas.
― Queria colocar no chuveiro, mas não seria possível sem mexer em toda a tubulação do
hotel. – encarou minha expressão boquiaberta. – Contente-se com isso. – sorriu fascinado com os
pensamentos que não consegui disfarçar devido a surpresa.
Alec estendeu a mão e me guiou para dentro do líquido agridoce.
Sentada com as pernas ao redor da sua cintura juntei as mãos e peguei do líquido da
banheira, em seguida despejei no peito musculoso e espalhei com as mãos espalmadas.
Percebendo que aquilo o afetava substitui as mãos pela língua.
Alec afastou meu rosto com firmeza e atacou meus lábios com os seus.
Com muito esforço separei nossos lábios e disse:
― Obrigada pela surpresa! – mantinha o rosto dele longe o suficiente com a ajuda da
força das mãos que seguravam seu rosto.
― Eu te amo. Prepare para surpresas durante toda a eternidade.
Sorri e soltei seu rosto. Como ele estava forçando para me beijar acabamos caindo para
trás dentro da banheira e espalhamos sangue pelo banheiro.
Nossa eternidade seria assim. Espalharíamos amor, paixão e cumplicidade por onde
passarmos porque o amor é contagioso.
Table of Contents
I - Quente e Frio
II - Parque de Diversões
III - Alec
IV – Trabalho
V – Verdades
VI – A Confirmação
VII – Recordações
VIII – O Presente
IX – Cristiano Ataca
X – Cativeiro
XI – Resgate
XII – A Transformação
XIII – Depois da Transformação
XIV – Coisas de Casal
XV – Uma Visita Inesperada
XVI – Vingança
XVII – A Viagem

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