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HATOUM, Milton. Amazonas capital Manaus.

In: NUNES, Benedito; HATOUM,


Milton. Crônica de duas cidades: Belém e Manaus. Belém: Secult, 2006. p. 49-70.
[72 p. il.]

[49] Cada escritor elege seu paraíso, sabendo que se trata de um paraíso perdido.
A cidade da nossa infância é um desses paraísos perdidos para sempre. A casa, o
quintal, a rua, os terrenos baldios, as praças, o mergulho nos igarapés... O rio e a
floresta, que rivalizam em grandeza, mistério, beleza.
Manaus, cidade na selva, foi para mim esse pequeno paraíso. Octavio Paz, no poema
Hablo de la Ciudad, evoca, lembrando Baudelaire, “a cidade que todos sonhamos e que
muda sem cessar enquanto sonhamos”.1
Nossa cidade sonhada traduz, de certa forma, nosso tempo e lugar perdidos,
ambos reiventados pela memória e linguagem.
A cidade de ontem é hoje quase irreconhecível.
“Novidade de hoje e ruína de depois de amanhã, enterrada e ressuscitada cada
dia”2, escreve Paz no mesmo poema.
[50] Quem sobrevoa Manaus, vindo da Amazônia Ocidental ou Oriental, pode
perceber que a cidade situa-se num ponto do principal eixo de navegação fluvial do
Brasil. Como bem observou o geográfo Aziz Ab’Saber, Manaus “é uma espécie de elo
entre a navegação fluvial, rudimentar e extensiva, e as grandes rotas marítimas de
cabotagem. Possui, por esta razão, uma situação geográfica absolutamente privilegiada
em face das extensões amazônicas e do gigantesco quadro de drenagem da bacia
hidrográfica regional” 3.
Do ponto de vista geográfico e topográfico, trata-se realmente de um sítio
privilegiado. Situada à margem esquerda do rio Negro, Manaus é uma cidade fluvial de
confluência, a vinte quilômetros do rio Solimões, e assentada sobre a área ribeirinha de
um sistema de colinas suaves.
Assim, os colonizadores portugueses souberam conciliar a estratégia militar com
o encanto da paisagem.
O Forte de São José do Rio Negro, no coração da hinterlândia amazônica, foi
fundado em 1669, oito anos depois da expulsão das Missões Jesuíticas. Sem a presença
dos Jesuítas, as tropas de resgate agiram com mais liberdade, e é provável que a
ausência das missões tenha retardado o desenvolvimento do núcleo construído em torno
do Forte.
Como se sabe, as missões fundavam colônias com base agrária próximas dos
povoados. Os jesuítas sentiam as injunções [imposições] do poder local, mas eram
mediadores da força de trabalho indígena. Empenhavam-se no ganho da alma e no
progresso ou sucesso da colonização, atuando, nesse sentido, como um fator de
equilíbrio entre o apresamento de índios e o povoamento efetivo4.
A presença militar portuguesa nesse ponto estratégico da Amazônia pretendia
deter o avanço espanhol pelo Solimões e o holandês pelo Orinoco. Durante mais de dois
séculos, o pequeno povoado chamado Lugar da Barra “não dependeu de nenhuma rota
terrestre, mas tão somente dos rios de planície e de uma história econômica ligada
intimamente à navegação fluvial5.
1
Octavio Paz Lozano (Cidade do México, 31/03/1914 — Idem, 19/04/1998). In: Arbol adentro. “La
ciudad que todos soñamos y que cambia sin cesar mientras la soñamos”. (Nota minha)
2
“Novedad de hoy y ruína de pasado mañana y enterrada y resucitada cada día.” (Nota minha)
3
AB’SABER, Aziz Nacib. A cidade de Manaus. Boletim Paulista de Geografia. São Paulo, v. 15, p. 18,
1953.
4
Ibid. p. 23
5
Ibid. p. 19
2

O Forte era “um simulacro de Fortaleza”6, bem mais rústico e precário que outros
fortes erguidos na Amazônia e no litoral. Os índios Manaos, Tarumãs e Barés eram
capturados pelas “tropas de resgate” e transportados para Belém. Muitos índios
permaneciam aldeados, quer dizer, escravizados para a força de trabalho local. Vale a
pena fazer uma breve digressão sobre o destino dessas nações indígenas, não apenas por
causa do nome da cidade (Manaus), que encerra uma forte dimensão simbólica, mas
também porque durante muito tempo a população do Lugar da Barra foi
predominantemente indígena.
Os Manaos ocupavam as duas margens do baixo rio Negro, e formavam o grupo
étnico mais importante da área de influência do Forte. Os Tarumãs habitavam os rios
Tarumã e Ajurim, afluentes da margem esquerda do rio Negro, não longe do Forte. Os
Barés povoavam a parte superior do Negro, e algumas tribos habitavam uma região
vizinha à dos Manaos. Estes foram, em grande parte, exterminados na segunda década
do século XVIII, quando houve escassez de mão-de-obra em Belém. O extermínio foi
fruto de batalhas sangrentas entre soldados portugueses e índios Manaos; desse
confronto desigual perdurou na memória coletiva dos amazonenses a imagem de
Ajuricaba, líder guerreiro dessa nação indígena7.
Até a década de 1860, quando a economia da borracha já preparava o terreno para
uma mudança radical do cenário urbano, Manaus conservaria basicamente o mesmo
aspecto da primeira metade do século XIX. O crescimento demográfico, a partir de
1860 “foi constante, mas não espetacular”, como seria na década de 1890 8. Os últimos
anos de 1870 assinalam o início da expansão da economia gomífera, mas as exportações
da “havea” haviam quase triplicado na década de [51] 1860. Esse fato teve uma
repercussão importante no âmbito de uma economia estagnada, como a da Província do
Amazonas e mesmo da região como um todo.
Nessa época, algumas obras foram iniciadas ou reformadas, como a Matriz, e a da
Igreja dos Remédios; outras apenas concebidas, como o Cais da Praça Tamandaré, uma
olaria a vapor, o calçamento de várias ruas e a rampa no “Caes da Imperatriz”, então o
principal porto da cidade9. Os discursos do presidente da Província e de Membros da
Câmara Municipal já continham a intenção de tornar Manaus um espaço higiênico e
civilizado. Tal projeto seria realizado, ainda que parcialmente, três décadas depois. Mas,
por volta de 1860, os manauaras já podiam apreciar as imagens do Cosmorama, ou
Polyorama, como anunciou o jornal Estrela do Amazonas, em 24 de agosto de 1862.
Qual teria sido o efeito de estranhamento causado pelas “vistas” do Cosmorama,
que incluíam a Savóia no inverno, o Palácio de Cristal em Nova Iorque, um dia de
mercado na Suíça, o castelo de Saint Cloud e Rousseau dando uma lição de botânica em
Ermeville?
O descompasso entre o anseio civilizador e a realidade amazônica consta das
descrições de vários viajantes e naturalistas estrangeiros que passaram por Manaus ao
longo do século XIX. Todos aludem à rusticidade do pequeno povoado. Quase todos o
vêem com um olhar objetivo, e não míope ou transverso, como certas visões do Outro,
idealizadas ou distorcidas. Visões que aparecem em alguns desses relatos de viagem,
sobretudo quando refletem sobre as sociedades nativas. Na observação e percepção do
Outro, a objetividade perde fôlego, e o discurso torna-se eurocêntrico, na medida que a

6
MONTEIRO, Mário Ypiranga. Fundação de Manaus: aspectos do panorama histórico-social do antigo
Lugar da Barra. 2. ed. Manaus: [s.n], 1952.
7
FREIRE, José Ribamar Bessa. Barés, Manaos e Tarumãs. In: Manaus: História em novos cenários.
Manaus, n. 2/3, p. 163-173, 1993/1994.
8
WEINSTEIN, Barbara. A borracha na Amazônia: expansão e decadência 1850-1920. Tradução Lólio
Lourenço de Oliveira. São Paulo: HUCITEC/EDUSP, 1993. p. 89.
9
MESQUITA, Otoni Moreira. Manaus — História e Arquitetura 1852-1910. Manaus: Universidade do
Amazonas, 1997. p. 35.
3

imagem do índio e do mestiço é sempre comparada, de forma negativa, com a do


europeu10.
Assim, nas impressões registradas por Alfred Wallace em 1850, Henry Bates em
1850 e 1859, Avé-Lallement em 1859, François Biard em 1856, pelo casal Agassiz em
1865 e por Franz Keller-Leuzinger em 1867, prevalece a descrição da cidade como um
pequeno núcleo formado de construções rústicas e derruídas, sem alinhamento nem
calçamento, e desprovida das mínimas condições de higiene e infra-estrutura. As
ilustrações a bico-de-pena de Paul Marcoy e Franz Keller reiteram a tosca fisionomia
urbana mencionada nos relatos de viagem. Nos desenhos nota-se a predominância do
aglomerado caótico, ou seja, a ausência de um traçado planejado; a mistura de
habitações de madeira e palha com construções de alvenaria coberta de telhas; nota-se,
enfim, a presença da água, dos igarapés, esse elemento tão amazônico que será
parcialmente banido do cenário urbano durante o ciclo da borracha. A paisagem lembra
antes um lugar ameno e bucólico, do que uma cidade, com a sua complexidade e
diversidade de funções e usos. Na verdade, como assinalou Ab’Saber,

“a cidadezinha, em 1865, possuía todos os defeitos urbanos e sociais de


um povoado amazônico, minúsculo e segregado, nascido e crescido de
um aldeamento de índios e à sombra de uma rústica fortaleza de
soldados-colonos... Manaus a esse tempo, era sobretudo uma cidade
índia, onde a população de origem índia e os resíduos de costumes e
atividades do índio, eram um fato na movimentação da vida urbana”11.

No entanto, o registro objetivo desses viajantes encerra uma ânsia de


modernidade, ou a promessa de um mundo urbano em sintonia com as capitais
européias. Já por volta de 1825, os naturalistas Spix e Martius impressionaram-se com a
“situação em saudável e aprazível altitude (da cidade)”, debruçada sobre o rio Negro, e
próxima do rio Amazonas. Para os viajantes alemães, o rio Negro e seus principais
afluentes (Uapés e Branco), uma vez povoados e cultivados, seriam “enobrecidos pela
indústria e civilização”. O Lugar da Barra, “florescia em rica e poderosa cidade
comercial”, e seria a “chave da parte ocidental do país” 12.
[52] Há nessas observações de Spix e Martius uma mescla de antevisão histórica
com otimismo exagerado. Outros viajantes como Elizabeth Agassiz, compartilhariam
dessa premonição otimista. Realmente, a cidade viria a ser, sob certo ângulo, rica e
poderosa. Entretanto, a antevisão e o otimismo exagerado tendem a esfumar ou reduzir
a complexidade da realidade.
Esses viajantes não perceberam, ou talvez não pudessem perceber o fosso
existente entre o desenvolvimento do capitalismo nos centros europeus mais avançados
e a sua periferia mais distante. O mesmo anseio pela modernidade marcará a tônica dos
discursos dos administradores e políticos do Amazonas durante o apogeu da borracha.
Essa concepção de um urbanismo planejado e higienizado excluía toda uma tradição
cultural dos povos nativos.
Não apenas em Manaus, mas em todas as cidades amazônicas, a presença da
cultura indígena é significativa sob vários aspectos. Às vezes, é uma presença soterrada,
passado que se pretende morto, à semelhança dos cemitérios indígenas de Manaus,
sobre os quais foram erguidos vários edifícios, símbolos da arquitetura do poder e da

10
GODIM, Neide. A Invenção da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1994.
11
AB’SABER, Aziz Nacib. A cidade de Manaus. Boletim Paulista de Geografia. São Paulo, v. 15, p.
27, 1953.
12
SPIX, J. B. e MARTIUS, C. E. P. von. Viagem pelo Brasil. Tradução Lúcia Furquim Lahmeyer. Rio
de Janeiro: [s.n.], 1938. p. 212. v. 3 apud AB’SABER, A. N. ibidem., p. 11.
4

civilização. No entanto, os costumes, a habitação popular, a culinária, e até mesmo a


língua portuguesa — em cujo vocabulário consta o étimo [a etimologia] de vários
troncos lingüísticos de nações indígenas —, tudo isso traduz formas de uma tradição
cultural fortemente arraigada nas cidades amazônicas. Basta pronunciarmos o nome de
uma fruta, de um peixe, de uma árvore, ou o nome da cidade (Manaus), para que
reacenda em nós uma chama dessa tradição indígena, dessa ausência que nos anima e
que, mesmo à nossa revelia, se faz presente e presença.

On commença tout, on termina peu de choses...13


Paul Le Cointe — L’Amazonie Bresilienne

Na virada do século, Manaus tornou-se a segunda maior cidade brasileira da


Amazônia. De 1889 a 1920, sua população cresceu de dez mil para setenta e cinco mil
habitantes. O acanhado núcleo urbano deu lugar a uma cidade planejada, construída a
partir de um projeto racional e pretensamente eficiente. Nesse projeto não houve uma
integração do espaço urbano com a natureza; ou seja, alguns igarapés que cortavam o
centro da antiga cidade foram aterrados; além disso, nenhum trecho da floresta foi
transformado num grande bosque ou parque, como ocorreu em Belém. O projeto desse
urbanismo transplantado separou a cidade de seu entorno, e essa separação ainda hoje é
visível e sentida.
Entre 1880 e 1910 a arquitetura e o traçado urbano de Manaus mudaram
substancialmente. O poder do capital determinou uma nova concepção de cidade, e as
funções e o uso do espaço foram redefinidos, como bem observou a historiadora Edinea
Mascarenhas Dias.

“Para cada igarapé aterrado, o surgimento de uma avenida ou o


alargamento de uma antiga viela. Uma forma de arruamento harmônico e
uso do espaço é imposta nos planos de embelezamento de Manaus. O
tecido urbano passa a configurar um novo desenho de cidade, contando
com novos grupos sociais em suas mais diferentes relações, situações e
conflitos”14.

A grande transformação da cidade ocorreu durante a administração do governador


Eduardo Ribeiro (1892-1896) e foi ampliada por seus sucessores.
[53] [54] [55] Sistemas de abastecimento de água e captação de esgoto, telefonia,
luz elétrica e linhas de bonde formavam a infraestrutura da nova cidade. Além do
aterramento de alguns igarapés (que se tornaram vias públicas), construíram-se praças,
pontes, dois grandes hospitais, residências suntuosas (como o palacete da família
Scholz, atualmente um centro cultural), e edifícios públicos monumentais, como o
Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, a
Alfândega, o Instituto Benjamin Constant, o Ginásio Amazonense, a Biblioteca Pública
e tantos outros.
Para Euclides da Cunha, Manaus tornou-se a “Meca tumultuária de seringueiros”;
mas foi também a Meca de muitos imigrantes brasileiros e estrangeiros. Além dos
nativos (índios e mestiços), a cidade abrigou um grande contingente de nordestinos que,
ao fugirem da seca do sertão, povoaram os seringais e as cidades da Amazônia. Muitos
estrangeiros (portugueses, espanhóis, italianos, alemães, ingleses, sírios e libaneses e

13
“Começou-se tudo, terminou-se pouca coisa...”
14
DIAS, Edinea Mascarenhas. A ilusão do fausto: Manaus 1890-1920. Manaus: Valer, 1999.
5

judeus marroquinos) desembarcaram em Manaus já na década de 1880. Dez anos


depois, na cidade de 50 mil habitantes, esses imigrantes foram responsáveis pela
dinamização do comércio, serviços urbanos e atividades terciárias. Alguns eram
regatões e faziam a ponte entre a capital e o interior do Amazonas. Muitos, sobretudo os
mais pobres, trabalharam na construção civil. Alguns italianos e franceses, mestre-
artífices que tinham trabalhado na decoração do Teatro Amazonas, permaneceram na
cidade.
O brusco crescimento demográfico de Manaus revela também a face perversa de
uma modernização inacabada ou falha. O espaço da cidade se estratifica, segundo uma
nova configuração: a de classes sociais15.
Na pequena cidade de outrora prevalecia a mescla de sobrados de alvenaria com
habitações rústicas. A madeira e a palha (elementos da arquitetura nativa, mas também
signos de pobreza) podiam avizinhar-se da alvenaria e da telha. Na nova cidade, os
índios e imigrantes pobres tornam-se trabalhadores urbanos, homens e mulheres
excluídos de um projeto em que só há lugar para as elites e uma classe média incipiente.
É nesse momento que surgem cortiços, albergues e acampamentos de imigrantes
nordestinos à espera de um barco para o seringal distante. Os miseráveis de Manaus são
muitos, e, com eles, as doenças e epidemias. Daí a necessidade de o poder público editar
códigos de posturas a fim de excluir da vitrina urbana a presença dos miseráveis e
enfermos. Na cidade planejada segundo um ideário burguês muito mal aclimatado no
equador, é preciso pensar em formas de isolamento dos excluídos16.
Os mais pobres serão confinados em bairros distantes do centro histórico, como o
Mocó, a Colônia Oliveira Machado, São Raimundo e Constantinópolis. Uma
penitenciária, Asilos de Mendicidade e de Alienados e uma Colônia Agrícola
completam o aparato arquitetônico para abrigar os desvalidos, marginalizados e foras da
lei. Esses edifícios tentam exercer mecanismos de controle, num momento em que a
população pobre cresce e é vista como uma ameaça ou perigo à ordem e ao bem-estar
burguês.
Quando hoje presenciamos as deploráveis condições de habitação nas dezenas de
bairros da periferia de Manaus, esquecemos que essa miséria urbana tem fundas raízes
no vazio econômico do interior do Amazonas, mas faz parte também do processo
histórico da cidade e de sua política excludente.
Durante a vazante de 1914, ao visitar o subúrbio de Manaus, um Superintendente
Municipal declarou: “Se fosse possível a existência de uma necrópole de vivos, de
cadáveres ambulantes, tê-la-íeis naquele subúrbio” 17.
Não por acaso, na época gloriosa da economia gomífera foram fundadas a
Sociedade Beneficente de Amparo da Pobreza, a Liga Protetora da Pobreza e o Instituto
Benjamin Constant, sendo este destinado a abrigar meninas órfãs e pobres e educá-las
para trabalhar como donas-de-casa. O seu correlato masculino foi o Instituto de Artes e
Ofícios, onde se formou a mão-de-obra especializada que o mercado demandava.
Assim, a filantropia e a má consciência da elite manauara fincam fundas raízes em solo
amazonense.
[56] [57] [58] Controle social e também moral. Com a fundação do Asilo de
Mendicidade, o governo do Estado, por meio do Decreto número 1 de 29 de janeiro de
1910, proibiu a mendicância em Manaus. Por outro lado, os banhos de igarapé, lazer
secularmente prazeroso em todas as cidades amazônicas, foram assim comentados pelo
matutino O Norte, em 4 de novembro de 1912:

15
DIAS, Edinea Mascarenhas. A ilusão do fausto: Manaus 1890-1920. Manaus: Valer, 1999.
16
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
17
DIAS, E. M. ibidem.
6

“Prática que ofende a moral: Homens e Mulheres que tomam banho na


Usina Elétrica em franca promiscuidade como revivem toda a
primitividade dos costumes passados.”18

As últimas palavras dessa nota edificante referem-se aos hábitos indígenas


herdados pela população mestiça da cidade.
A modernidade de Manaus foi, na verdade, efêmera e para poucos. O senso
comum de que a cidade foi uma réplica equatorial de Paris parece-me exagerado. O
prefeito Haussmann (“o artista demolidor”, segundo Walter Benjamin) transformou a
fisionomia de uma cidade já industrializada: a Paris ao mesmo tempo pobre e grandiosa
evocada na prosa de Zola; a capital decaída, destruída e reconstruída, onde ruínas e
obras se confundem, como num palco de metamorfoses incessantes. A Paris, enfim,
cantada por Baudelaire.
No caso de Manaus, o governador Eduardo Ribeiro construiu e urbanizou um
espaço desprovido de indústrias, cuja riqueza fora gerada pela economia extrativista,
ameaçada e logo minada pela concorrência britânica na Ásia. A elite regional percebeu
essa ameaça tarde demais. Na verdade, não refletiu seriamente sobre o nada lendário
roubo de milhares de sementes da havea brasiliensis. Em 1872, Henry Wickham, um
botânico a serviço do império britânico, transportou em surdina as sementes aclimatadas
no Kew Garden e posteriormente plantadas na Ásia.
Quarenta anos depois dessa façanha, Wickham foi execrado por jornalistas,
proprietários de seringais e barões da borracha. Talvez Wickham mereça um lugar
menos indigno nessa história da havea levada para a Ásia. Penso que uma breve
biografia do laborioso e labioso botânico poderia ter sido incluída na História
Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges.
Manaus quis espelhar-se em Paris ou Liverpool, mas a imagem surgida no espelho
refletiu o descompasso entre o capitalismo avançado na França e Inglaterra e o atraso de
uma economia não industrializada de uma região periférica. Desajustamento que
ocorreu inclusive com relação a São Paulo, como apontou Aziz Ab’ Saber:

“Guardadas as proporções, aconteceu com Manaus um pouco daquilo


que se passou com São Paulo, mais ou menos durante a mesma época.
São Paulo, à sombra do desenvolvimento econômico do café, cresceu
desmesuradamente, controlando a um tempo a expansão ferroviária no
planalto, a imigração estrangeira e uma industrialização crescente.
Manaus, ao contrário, cresceu sob o impulso de uma ‘economia de
coleta’ extensiva, dependendo de correntes de imigração interna, de um
mecanismo de circulação moroso ligado exclusivamente, aos rios e,
tendo que dividir as glórias de metrópole com a cidade de Belém, a maior
cidade do Norte do país”19.

Certamente Manaus dividiu — e ainda divide — as glórias de metrópole com


Belém, mas esta já era o centro irradiador cultural e econômico da Amazônia bem antes
do ciclo da borracha. A perplexidade dos que passaram por Manaus no começo do
século 20 reflete uma visão contrastante entre o pequeno núcleo urbano (quase um porto
de lenha) e a cidade planejada. Paul Walle, em 1908, comparou o “grande burgo” de
vinte anos atrás com a “cidade recentemente construída... Atualmente (1908) é um

18
DIAS, E. M. op. cit.
19
AB’SABER, Aziz Nacib. A cidade de Manaus. Boletim Paulista de Geografia. São Paulo, v. 15,
p. 30, 1953.
7

grande centro de navegação e comércio”20.

[59] [60] [61] Do ponto de lenha ao Manaus Harbour

Quase tudo na Amazônia é visto de uma forma hiperbólica. Os superlativos em


torno da grandeza e da exuberância escondem o que há de mais prosaico, o chão mesmo
do nosso cotidiano. A retórica oficial e iconoclasta atribuiu à cidade a grandiosidade e a
exuberância da Natureza. O luxo urbano-arquitetônico de Manaus teria, enfim,
encontrado os adjetivos que antes só eram atribuídos à floresta que a envolve. Muitos
mitos foram fabricados em torno desse urbanismo ostentoso. Caruso e Sarah Bernhardt,
por exemplo, nunca se apresentaram no Teatro Amazonas. E se o projeto deste lembra o
do Scala de Milão ou o Teatro da Ópera, de Paris, trata-se realmente de uma
comparação de fachadas e interiores. São grandezas que se acercam, mas só na
superfície. No fundo, as diferenças são muitas e saltam aos olhos e aos ouvidos. Houve,
por certo, uma dinamização da cultura, com seus teatros, cinemas, ateliês fotográficos,
jornais, editoras e livrarias.
No entanto, para um observador estranho à cidade, o que mais impressiona é a sua
vocação comercial, de exportação e importação. Tudo o que a elite consome vem dos
Estados Unidos e, sobretudo, da Europa: do champanhe à telha de Marselha, do
mármore italiano à farinha de trigo, da estrutura metálica à roupa.
A moda européia aparece nas vitrinas de lojas como La Ville de Paris, Maison
Chic, Old England, Au Bon Marché e Aux Cent Mille Paletots, situadas nas principais
artérias da cidade (as atuais avenidas Eduardo Ribeiro e Sete de Setembro) e em suas
adjacências, ou seja, na área compreendida entre o porto e o Teatro Amazonas. Também
nesta área situavam-se os principais hotéis, bares, cassinos e cabarés, onde o cancã, o
vaudeville, a jogatina, a algaravia e a luxúria carnal encontravam um destino comum.
A euforia do delírio (ou o delírio da euforia) fez subir em vários tons a gargalhada
dos seringalistas e dos grandes importadores e exportadores. “A ilusão do fausto” 21,
além de ofuscar a iminente derrocada econômica, estimulou práticas [62] não
propriamente requintadas (pois há algo de sublime no requinte), e sim atitudes
delirantes eivadas [contaminadas] por um sentimento de desmedida. É como se a
opulência econômica nublasse para sempre a experiência da escassez: cegueira que
entranhou na elite um sentimento de infinitude com relação ao fausto.
A roupa confeccionada em Paris era enviada às lavanderias de Lisboa e remetida
de volta a Manaus. Esse exemplo de delírio extravagante combina o nosso passado
colonial com a projeção dos desejos da elite. Ou seja, Paris será a metonímia de uma
Europa civilizada. Nesse sentido, Manaus tentou encenar a mímica do cenário
parisiense, a começar pela arquitetura.
Nos palacetes e obras públicas nota-se uma predominância do estilo neoclássico,
mas as fachadas e os interiores de vários edifícios ostentam elementos ecléticos e art-
nouveau. O projeto urbano de Manaus, datado de 1893, é pelo menos cinco vezes maior
do que a planta de 1852. Limitada ao sul pela baía do Negro, Manaus espandiu-se [sic]
nos sentidos norte e leste. Ao norte, a cidade estendeu-se até o Bulevar Amazonas e o
cemitério São João Batista. Também ao norte situavam-se os amplos e ajardinados
chalés de madeira e as chácaras onde as famílias abastadas passavam o fim-de-semana.
Ainda existem vários casarões dessa época, e em alguns deles (que pertencera ao
escritor Alberto Rangel) morou Euclides da Cunha em 1905, antes de partir para o alto
Purus enquanto chefe da Comissão de Demarcação das áreas de fronteira entre o Brasil

20
WALLE, Paul. Au Pays de l’Or Noir. Paris: Guilmoto/Librairie Ocidentale & Americaine, [19 —]. p.
104-105. apud. AB’SABER, A. N. op. cit. p. 29.
21
Uso o título bastante sugestivo do ensaio de Edinea Mascarenhas Dias.
8

e o Peru. O crescimento no sentido norte tornou-se possível graças ao aterramento de


dois grandes igarapés: as atuais avenidas Eduardo Ribeiro e Getúlio Vargas. A fim de
viabilizar a expansão em direção ao leste, foram construídas pontes de ferro sobre os
igarapés da Cachoeirinha e Cachoeira Grande, e pontes “romanas” sobre os igarapés de
Manaus e Bittencourt.
O projeto foi pensado de forma racional, com eixos estruturais e ruas secundárias,
paralelas e perpendiculares. Esse traçado quadriculado contrariava a sinuosidade do
leito dos igarapés, de modo que no “projeto de embelezamento” da cidade, a Natureza
tornou-se um problema. Com o aterramento de alguns igarapés, ficou inviável fazer de
Manaus uma Veneza amazônica.
Em 1909, o governador Antônio Ribeiro Bittencourt criticou os aterros de
igarapés, “um dos encantos” da cidade. Para ele, os igarapés, se convenientemente
drenados, fariam de Manaus “não só a linda princesa do rio Negro, mas ainda uma
Veneza mais poética, mais gentil e menos sombria, enfeitada pela luxuriosa vegetação
amazônica” 22.
Os espaços poéticos imaginados por Bittencourt não passaram de devaneios antes
da crise de 1910. Entretanto, nessa Veneza que não deu certo, as margens desses
pequenos caminhos de água foram ocupadas por palafitas. A arquitetura popular (casas
de madeira com cobertura de palha) sempre fez parte da paisagem de Manaus. Nesse
sentido, pode-se falar, lembrando a expressão de Alejo Carpentier, de uma cidade de
“terceiro estilo”, em que prevalece a mescla da arquitetura nativa com uma arquitetura
transplantada. Apesar da tentativa de se excluir do centro as moradias humildes, o
espaço urbano de Manaus foi (e continua sendo) um espaço misturado, onde o palacete
do passado e a mansão burguesa do presente não conseguem isolar-se totalmente das
casas populares. É como se a periferia com seus marginalizados teimassem em
permanecer no centro; essa obstinação deve-se sobretudo à ocupação das margens dos
igarapés pela população mais pobre.
Não por acaso, no projeto recente da Manaus Moderna, pretende-se transformar os
igarapés (agora esgotos a céu aberto) em amplas avenidas. Ou seja, cem anos depois, a
Natureza ainda não encontrou seu lugar na urbs.
O projeto urbano de 1893 incluía um anel de praças arborizadas, com seus coretos
de ferro e estátuas de divindades gregas, importados de Liverpool e Paris
respectivamente. Eram praças amplas, e algumas dotadas de caminhos de pedra e lagos
com peixes e animais.
[63] Na minha adolescência, quando estudante do Ginásio Amazonense Pedro II
(o imponente edifício neoclássico que, juntamente com a sede não menos imponente do
quartel da Polícia Militar formam as duas “paredes” da Praça Heliodoro Balbi), eu
acompanhava a professora de Ciências, cujas aulas ao ar livre consistiam em nomear as
plantas aquáticas, as orquídeas aninhadas na copa das árvores, os peixes e animais que
habitavam essa praça. De certo modo, uma amostra da fauna e da flora amazônica
pertencia à cidade, como agora pertencem apenas à nossa memória.
Imagino que um estudante de engenharia civil possa aprender alguma coisa sobre
estruturas metálicas ao observar o Mercado Municipal, a ponte de ferro sobre o igarapé
da Cachoeira Grande, e sobretudo apreciar a harmonia entre a plasticidade e a solução
técnica usada na ponte pênsil sobre o igarapé da Cachoeirinha.
Se o ícone da cultura da elite foi o Teatro Amazonas, o símbolo maior da vocação
comercial da cidade foi o porto, o Manaus Harbour, ou simplesmente Roadway, como
era chamado pelos manauaras.

22
MESQUITA, Otoni Moreira. Manaus — História e Arquitetura 1852-1910. Manaus: Universidade
do Amazonas, 1997. p. 206.
9

O porto de Manaus é uma obra-prima da engenharia européia (escocesa, belga e


inglesa), e traduz, tecnicamente, os interesses comerciais da Inglaterra na compra e
venda da borracha amazônica. O Manaus Harbour, um dos maiores portos fluviais da
América Latina (1.313 metros de extensão de cais flutuante para profundidade de 20
metros), refletiu a importância da havea brasiliensis no mercado internacional. A
construção de obras dotadas de grandes estruturas metálicas exigia a presença de
engenheiros e técnicos ingleses. Também os ingleses eram responsáveis pela
administração e manutenção do Porto, das redes de esgoto e tratamento de água, do
Mercado Municipal, do Matadouro Público, do Serviço de Viação Urbana e do Serviço
de Bondes e luz elétrica. Por isso, os manauaras idosos ainda se referem
nostalgicamente à “Manaus dos ingleses”.
Se, por um lado Euclides da Cunha não fez uma única menção à vida cultural
manauara durante os quase três meses em que ele morou na cidade no começo de 1905,
por outro, avultam em sua correspondência para amigos e parentes as observações sobre
o caráter comercial e predatório da capital do Amazonas no auge da economia
extrativista.
Numa carta a um amigo, ele escreveu:

“Caí na vulgaridade de uma grande cidade estritamente comercial de


aviadores solertes, zangões vertiginosos e ingleses de sapatos brancos.
Comercial e insuportável. O crescimento abrupto levantou-se de chofre
fazendo que trouxesse, aqui, ali, salteadamente entre as roupagens
civilizadoras, os restos das tangas dos tapuias. Cidade meio européia,
meio caipira, onde o tejupar se achata ao lado de palácios e o
cosmopolitismo exagerado põe ao lado do ianque espigado...o
seringueiro achamboado, a impressão que ela nos incute é a de uma
maloca transformada em Gand.”23

Euclides irritou-se com o clima quente e úmido da Amazônia, com o qual ele mais
tarde se reconciliaria, pois cita, numa carta a José Veríssimo, datada de 2 de fevereiro de
1905, o “glorious clime” de (Henry) Bates e o “delightful clime” de (Alfred) Wallace.
Entretanto, causou-lhe irritação maior o adiamento de alguns meses de sua viagem para
o alto Purus. É compreensível que Euclides da Cunha tenha tecido uma crítica tão
áspera e contundente a Manaus. É que quase nada deu certo durante sua estadia
prolongada na cidade.
Em tom de desabafo, ele escreveu a Afonso Arinos (12 de janeiro de 1905):

“Somente hoje posso mandar-te uma breve notícia — tais as


atrapalhações, tais os embaraços que nos saltearam aqui, nesta ruidosa,
ampla, mal-arranjada, monstruosa e opulenta capital dos seringueiros. Eu
escrevo doente. Conseqüências do ‘glorious clime’ de não sei se ilustre
ou ingênuo Bates.”24

[64] [65] Algo mais, além dos percalços, do clima inclemente e do estado febril
exaspera Euclides. Ao tecer impressões sobre Belém, “com seus edifícios
desmesurados, as suas praças incomparáveis e com a sua gente de hábitos europeus,
cavalheira e generosa”25, Euclides elogia uma cidade em que a ordem, o progresso e a

23
CUNHA, Euclides da. Correspondência de Euclides da Cunha: ativa. Organizada por Walnice
Nogueira Galvão e Oswaldo Gallotti. São Paulo: EDUSP, 1997. p. 256.
24
CUNHA, E. ibidem. p. 250.
25
CUNHA, E. ibidem. p. 249.
10

higiene se harmonizam com seu ideal positivista. Para ele, Belém pode ser um avatar da
Europa civilizada, ao passo que Manaus (“capital de seringueiros” e “cidade meio
caipira, meio européia”) ainda mantém um forte componente cultural nativo, talvez
primitivo e atrasado na visão de Euclides, um intelectual positivista, cultor da ciência e
do progresso triunfante.
Ainda assim, é surpreendente que o autor d’Os Sertões não tenha feito alusão
ao ambiente cultural da cidade em que morou onze semanas, tanto mais se
considerarmos que em 1905 Manaus dava sinais de uma intensa vitalidade cultural. Os
contrastes culturais que incomodaram Euclides (“onde o tejupar se achata ao lado de
palácios”) eram mais visíveis em Manaus do que em Belém, “desde o século XVIII uma
cidade cêntrica”26, cujo traçado urbano, em sua grandiosidade de espaços e
monumentos, dava continuidade a um longo processo de urbanização.
Mesmo depois da realização do “projeto de embelezamento”, de Manaus, o
espaço urbano não conseguiu esconder a arquitetura nativa e sua população indígena,
cuja presença veio somar-se ao caldeirão de culturas, línguas e etnias: o cosmopolitismo
exagerado, mencionado por Euclides da Cunha.
Naquela época, muitos índios que moravam em Manaus falavam nheengatu
(língua geral), como ainda ocorre na região do rio Negro.
Talvez excessivamente cosmopolita, mas não “uma grande cidade estritamente
comercial”, Manaus tornou-se, a partir da última década do século XIX, um centro
cultural importante na Amazônia.
Viajantes estrangeiros, como o etnógrafo Theodor Koch-Grünberg e o escritor e
poeta francês Henri Michaux não deixaram de ressaltar alguns aspectos importantes da
vida cultural manauara. Por volta de 1905, Koch-Grünberg observou nos concertos da
banda musical da Polícia Militar a habilidade dos músicos, cuja maioria

“são rapazes morenos ou negros, que tocam bastante bem e não apenas
bem ritmadas marchas e danças mas até as melodias mais difíceis das
óperas de Wagner e outras, que dominam com a máxima facilidade”.

Mais adiante, o etnógrafo afirma: “Manaus tem nisso e em outras muitas coisas,
algo das cidades grandes.”27
Em 1928, ao fazer uma longa viagem de Iquitos a Belém, Henri Michaux, em seu
diário de bordo, captou o sentido de transitoriedade e fragilidade da cidade moderna,
sua condição de cenário efêmero, em que os monumentos de um passado recente e
glorioso emitem sinais de abandono:

“Os moradores de Manaus olham sua cidade como um amontoado de


ruínas. No entanto, ela tem monumentos muito novos, um teatro de
Grande Capital e sinais de luxo por toda parte”28

Das grandes obras arquitetônicas construídas nesse período, o Teatro Amazonas é


mais ostentosa. É, realmente, um teatro de Grande Capital, que emite sinais de luxo e
requinte. É possível imaginar a riqueza da elite da época através de uma visita ao Teatro
Amazonas. A riqueza e também o seu avesso: a vida isolada e a labuta estafante de
milhares de seringueiros confinados nas “estradas” dos seringais.
O que mais impressiona nesse edifício eclético é a cúpula de ferro e vidro

26
Ver neste volume, crônica de Benedito Nunes: Pará capital Belém.
27
GRÜNBERG, Theodor Koch. Dois anos entre os indígenas. Viagens no noroeste do Brasil 1903-
1905. Tradução do CEDEM. Manaus: CEDEM, [19 —]. p. 16.
28
MICHAUX, Henri. Ecuador. Paris: Gallimard, 1968. p. 166.
11

revestida com telhas verdes, amarelas, azuis e vermelhas. Essa cúpula, que inexistia no
projeto original, é um detalhe ousado e surpreendente para o conjunto arquitetônico. É
como se fosse um ruído visual num projeto de linhas predominantemente [66]
neoclás|sica. A parte interna da cúpula — teto da sala de espetáculos —, também
surpreende: telas pintadas em Paris pela Casa Capezot compõem uma alegoria às artes,
tendo como destaque Carlos Gomes e, no centro da pintura, a torre Eiffel vista de baixo
de baixo. Paris e as artes estão nas alturas, entre nuvens etéreas de um pedaço de céu
artificial, como se o espectador, ao olhar para o alto, fosse tocado pela visão do sublime.
No pano de boca que dá para a platéia, a pintura de Crispim do Amaral tematiza o
Encontro das Águas do rios Negro e Amazonas, aproximando o espectador de um
espetáculo da natureza. Mas a ausência das águas do rio Negro contraria o tema da
pintura, reduzindo o Encontro das Águas a um horizonte fluvial de uma única
tonalidade: miopia dos artífices da Casa Capezot ou do artista brasileiro formado na
Academia de São Lucas, na Itália?
O plafond do Salão Nobre, pintado por Domenico De Angelis e sua equipe de
artistas italianos, ilustra a Glorificação das Belas Artes na Amazônia, mas nas paredes
desse luxuosíssimo ambiente, as pinturas aludem à fauna e à flora amazônicas, e a
personagens indígenas de José de Alencar. Assim, na profusão de elementos
decorativos, em que não faltam esculturas barrocas e querubins rococós, percebe-se a
intenção de se mesclar motivos amazônicos com as Belas Artes Belas: mistura até certo
ponto, pois não deixa de sugerir uma oposição entre o “mundo primitivo” amazônico e a
“arte” européia.
É em torno do Teatro Amazonas que se desenvolve um leque variado de eventos
culturais. A partir de 31 de dezembro de 1896 (data da inauguração do teatro, com uma
récita da Companhia Lírica Italiana), é impressionante o número e a variante de
companhias líricas e dramáticas que passaram por Manaus e se apresentaram no Teatro
Amazonas. Na verdade, a quantidade prevalece sobre a qualidade. Se, por um lado, a
elite de Manaus assistiu a várias apresentações da Companhia Lírica Italiana e da
Companhia Lírica Francesa, por outro, essa mesma platéia presenciou a exibição de
mágicos, telepatas, hipnotizadores, operetas, zarzuelas, bandas de música e encenações
circenses.
O Teatro Amazonas, por sua pujança arquitetônica e decorativa, será a referência
maior no que diz respeito à ópera e ao drama, mas outros teatros funcionavam como
casas de diversão e apresentavam espetáculos diversos ao público manauara. Grupos
teatrais amazonenses, como a Arcádia Dramática (1895), o Grupo Dramático de
Manaus (1896) e a Sociedade Dramática Familiar (1897) competiam com as
companhias que vinham do exterior e de outras cidades brasileiras. A diversão mais
popular, no entanto, foi a dança. Dezenas de sociedades recreativas dançantes, clubes,
cabarés e cafés-concertos animavam a vida noturna manauara.
A novidade febril, e verdadeiro frisson nos primeiros anos da década de 1910, foi
o cinema. É que em Manaus não havia uma tradição de récitas líricas, ao contrário de
Belém, cuja elite assistia desde 1880 a algumas das melhores peças do repertório
italiano; além disso, é provável que as várias passagens de Carlos Gomes pela capital
paraense tenham contribuído para formar uma platéia aficionada pela ópera29.
A primeira exibição do cinematógrafo ocorreu no Teatro Amazonas, em 11 de
abril de 1897, e voltaria às telas da cidade três anos depois 30. Os cinemas Alhambra,
Olympia, Alcazar, Odeon, Avenida, Polytheama, Rio Negro e Rio Branco exibiam em
suas telas filmes distribuídos pela Pathé e Gaumont. Alguns tiveram duração efêmera, e

29
Ver neste volume, crônica de Benedito Nunes: Pará capital Belém.
30
COSTA, Selda Vale. El Dorado das ilusões: cinema & sociedade/Manaus 1897-1935. Manaus:
Universidade do Amazonas, 1996. p. 26.
12

poucos sobreviveram à crise de 1910 e à conseqüente estagnação econômica por que


passou a região até o final da década de 1960.
Ainda nessa época de prosperidade econômica, foi fundada em 1910 a Escola
Universitária Livre de Manaus, com cinco faculdades: Ciências e Letras, Engenharia,
Farmácia, Odontologia e Direito31. Essa Escola Universitária foi o embrião da
Universidade Federal do Amazonas, fundada em 1965.
A fotografia e as “Bellas Artes” também animaram a vida cultural de Manaus. Em
1899, subvencionada pelo Estado, foi criada a Academia Amazonense de [67] [68] [69]
Be|llas Artes, dirigida pelo maestro Joaquim Franco. Além de cursos de música, leitura,
recitação, declamação, desenho, pintura, escultura e arquitetura, a Academia mantinha
ateliês de gravura, litografia, fotografia, fotogravura e fototipia. Uma parte significativa
do corpo docente era composta de italianos: mestres-artífices e “mãos-de-artista” que
haviam trabalhado na decoração dos palacetes e das obras monumentais. Alguns desses
artistas fundaram os grandes ateliês e galerias de fotografia. Fidanza, Arthuro Luciani,
Lyra, Huebner & Amaral são nomes ligados à pintura e à arte da fotografia. Nos vários
jornais da época lêem-se anúncios desses ateliês, sobretudo o da “Photographia
Allemã”, de Huebner & Amaral, considerado um dos mais modernos ateliês
fotográficos do Norte.
Muitos artistas, atores e músicos que participaram desse momento culturalmente
fértil da vida amazônica circulavam entre Manaus e Belém. Artistas italianos como De
Angelis e Capranesi executaram obras de arte nas duas capitais. Fotógrafos como
Fidanza e Arthuro Luciani também mantinham ateliês em Manaus e Belém.
Manaus, por sua localização geográfica, atraía bolivianos, peruanos, colombianos
e venezuelanos de cidades fronteiriças ou perto da fronteira. San Carlos, cidade
venezuelana no alto rio Negro, mantinha relações comerciais com Manaus, apesar da
distância que as separava. Os vapores da companhia inglesa Booth Line navegavam até
Iquitos, de onde traziam madeira (sobretudo mogno) e borracha, que seriam exportados
para a Europa e os Estados Unidos. As notícias de eventos importantes ocorridos na
Amazônia peruana e brasileira eram divulgados na imprensa de Manaus e Iquitos. Foi o
caso, por exemplo, do que se tornou conhecido como “os horrores do rio Putumayo”: o
massacre de milhares de índios peruanos, perpetrado por capatazes de Julio César
Arana, um dos maiores acionistas da Peruvian Amazon Rubber Company. O massacre,
denunciado em Londres pelo engenheiro norte-americano Walter Handenburg, teve
ampla repercussão na “Sociedade Inglesa Antiescravagista e de Proteção aos
Aborígenes”. A partir de 1907, [70] os jornais La Sanción, de Iquitos, e o Jornal do
Commercio, de Manaus, publicaram depoimentos de vítimas que incriminavam
Arana32.
Quando se pensa no cinema, logo nos vem à mente Fitzcarraldo, o delirante
personagem entusiasta de ópera, na visão não menos delirante de Werner Herzog, o
cineasta. Nesse filme, Manaus, Iquitos e alguns rios da Amazônia formam o cenário de
uma região diversificada, mas que encerra afinidades culturais, geográficas, lingüísticas
e étnicas. Na literatura hispano-americana, Manaus é um dos centros simbólicos do
romance La Vorágine, do colombiano José Eustasio Rivera.
Atualmente é significativa a presença de hispano-americanos em Manaus. A
grande maioria é formada de trabalhadores imigrantes, mas há também estudantes e
pesquisadores de vários países vizinhos na Universidade Federal do Amazonas e no
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Além disso, a rodovia BR-174 (Manaus-

31
BURNS, E. Bradford. Manaus 1910: retrato de uma cidade em expansão. Tradução Ruy Alencar.
Manaus: Governo do Estado do Amazonas, 1966. p. 18.
32
COSTA, Selda Vale. El Dorado das ilusões: cinema & sociedade/Manaus 1897-1935. Manaus:
Universidade do Amazonas, 1996. p. 157.
13

Boa Vista-Caracas) certamente vai estreitar as relações econômicas e culturais de


Manaus com a Amazônia venezuelana.
Daqui a poucos anos, a população de Manaus será superior a dois milhões de
habitantes. O crescimento da cidade foi vertiginoso e caótico nas três últimas décadas.
Em 1967, quando foi criada a Zona Franca, Manaus era uma cidade de 250 mil
habitantes. Nessa cidade pacata, à espera de algum milagre econômico, ainda era
possível reconhecer o projeto de 1893, com muitas de suas características urbanas e
arquitetônicas. Era possível reconhecer as praças, os monumentos, os sobrados e
palacetes, os igarapés margeados por palafitas, as mangueiras centenárias que
sombreavam as ruas e os amplos bulevares. Sem dúvida, um caminhante atento ainda
pode desfrutar algo desse passado: “a beleza das ruínas imortais”, como escreveu
Marcel Proust.
Há alguns anos o centro histórico de Manaus vem sendo restaurado, o que
demonstra um empenho muito positivo do poder público no sentido de recuperar os
ícones arquitetônicos e os espaços públicos construídos no período de 1880 a 1910.
Além disso, os dois grandes festivais internacionais de Ópera e de Filmes de Aventura
colocaram a cidade no circuito cultural brasileiro, com uma razoável projeção no
exterior. Mesmo assim, a modernidade de Manaus — e de tantas metrópoles brasileiras
— ainda se mostra refratária a um projeto de bem-estar social. Refiro-me sobretudo à
vasta zona de miséria e pobreza na periferia da cidade, onde a floresta tem sido
devastada e invadida por imigrantes em busca de emprego nas fábricas do pólo
industrial. A euforia causada pelo dinamismo econômico da Zona Franca tapou os olhos
de governantes, administradores e políticos para questões relacionadas diretamente com
a cidadania: habitação, infra-estrutura e lazer. E esse é o maior desafio para os que ainda
pensam no futuro com uma visão ao mesmo tempo crítica e compassiva.
No Brasil, modernidade e cidadania ainda são conceitos que, na vida cotidiana,
são exercitados por uma minoria privilegiada. Talvez seja essa a herança mais nefasta
do nosso passado colonial, que reflete, no mundo urbano, a ausência de uma vida digna
de imensa maioria da população.
“Como ser moderno e civilizado dentro das condições geradas pelo escravismo?”,
pergunta Roberto Schwarz, num ensaio sobre a ordem social no romance Dom
Casmurro33.
O impasse a que induz a pergunta, percebido sutil e agudamente por Machado de
Assis, não deixa de ser a prova de fogo da nossa contemporaneidade. Impasse
perdurável, e sempre latente nas tensões e desigualdades sociais das metrópoles
brasileiras, de que já fazem parte Manaus e Belém.
Sem laivos [resquícios] de nostalgia, penso que as metamorfoses por que passou a
cidade nas últimas décadas emitem signos sombrios. O que restaram dessas ruínas de
um passado tão recente, apagado abruptamente, brutalmente?
Reminiscências... Passeios ao léu em busca de imagens, porque a cidade tornou-
se, para mim, “imagem do pensamento e do inconsciente” 34.
Tornou-se, enfim, um texto em andamento, páginas sempre reescritas,
palimpsesto [pergaminho apagado que recebeu novo texto] a ser desvelado pelo vôo da
imaginação e de memória.

33
SCHWARZ, Roberto. Duas Meninas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 19.
34
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Sete aulas sobre Linguagem, Memória e História. Rio de Janeiro:
imago, 1997. p. 160.