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O programa arquitetônico urbanístico

nos planos museológicos


dos museus brasileiros

Flávia Pereira
Simone Kimura
Flávia Pereira, Simone Kimura

O programa arquitetônico urbanístico nos planos museológicos dos museus brasileiros

Flávia Pereira

Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo e mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente


pela Universidade Federal de Alagoas. Atualmente trabalha como arquiteta da Divisão de
Arquitetura e Expografia no Departamento de Processos Museais do Instituto Brasileiro de Museus
(IBRAM/Minc Brasília/DF). flavia.pereira@museus.gov.br

Simone Kimura

Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (1997) e


mestre em Teoria, História e Crítica da Arquitetura (2013) pela Universidade de Brasília - UnB.
Arquiteta do Museu Histórico Nacional (Instituto Brasileiro de Museus / Ministério da Cultura).
simone.kimura@museus.gov.br

Resumo

O trabalho consiste na discussão da metodologia a ser adotada para a elaboração do


Programa Arquitetônico Urbanístico nos Planos Museológicos dos museus brasileiros, tendo em
vista que o Estatuto de Museus (Lei Federal Nº 11.904, de 14 de janeiro de 2009) aponta a
obrigatoriedade de elaboração do referido instrumento para todas as instituições museológicas. De
acordo o Decreto que regulamenta o Estatuto de Museus (Decreto nº 8.124, de 17 de outubro de
2013), o Programa Arquitetônico Urbanístico do Plano Museológico deve abranger a identificação,
a conservação e a adequação dos espaços livres e construídos, bem como das áreas de entorno
da instituição, contendo descrição dos espaços e instalações, além de informar sobre os aspectos
de acessibilidade, conforto ambiental, circulação, identidade visual e possibilidades de expansão.

Abstract

This research consists in a discussion about the methodology to be adopted in the process
of elaboration of the Architectonical Urbanistic Program at the Museological Plans in Brazilian
museums, considering that the Statute of Museums (Federal Law Nº. 11.904, of January 14, 2009)

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points out the requirement for preparing this instrument for all those institutions. According to the
Decree that regulates the Statute of Museums (Nº 8.124, of October 17, 2013), the Architectonical
Urbanistic Program shall cover the identification, conservation and the adequacy of free and built
spaces, as well as the surrounding areas of the institution, containing description of spaces and
facilities, and report on aspects of accessibility, environmental comfort, circulation, visual identity
and expansion possibilities.

O presente trabalho tem como objetivo geral sugerir uma metodologia para a
elaboração do Programa Arquitetônico Urbanístico nos Planos Museológicos dos museus
brasileiros; e como objetivos específicos ampliar o entendimento sobre o citado programa e
possibilitar a coleta de informações e reflexões para a elaboração de planos de ação para os
museus, além da cooperação entre as equipes técnicas das instituições museológicas e do
Ibram (Instituto Brasileiro de Museus).

A abordagem pautou-se na análise dos Planos Museológicos dos museus do Ibram, em


uma revisão bibliográfica que amplia o entendimento inicial de um Programa Arquitetônico-
urbanístico e nas discussões preliminares da equipe técnica do Ibram para a elaboração das aulas
da Unimuseus, curso virtual a ser implantado pelo Ibram.

1. Abrangência

O Estatuto de Museus (Lei Federal Nº 11.904, de 14 de janeiro de 2009) aponta, em seu


art. 46, o Programa Arquitetônico Urbanístico como um entre os que devem ser contemplados no
Plano Museológico, instrumento de planejamento estratégico, que deve priorizar as questões
estruturantes e cruciais nos museus.

De início, ressalta-se que o termo urbanístico amplia o entendimento inicial de programa


de arquitetura para museus, tornando explícito, que desde a sua concepção, o espaço do museu
não pode ser considerado encerrando-se em si mesmo, pois está inserido em um contexto urbano
mais amplo, com o qual interage e interfere. De certo modo, essa abordagem reflete o pensamento
dominante na Mesa Redonda de Santiago do Chile de Maio de 1972, evento que juntou pela
primeira vez museólogos e outros especialistas para discutir o papel dos museus na América
Latina; e também as diretrizes da Lei Federal conhecida como Estatuto da Cidade (Lei Nº 10. 257,
de 10 de julho de 2001). Não há mais espaço para a separação entre museu-comunidade, museu-
sociedade e, consequentemente, entre museu e cidade.

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O Estatuto da Cidade aponta diretrizes para a política urbana e dispõe sobre instrumentos
para concretização da função social da propriedade. Enfatiza que o desenvolvimento das cidades
deve ser planejado, com a oferta de equipamentos urbanos e comunitários de forma ordenada,
com controle do uso do solo. Por exemplo, a instalação de um museu, dependendo de seu porte,
poderá funcionar como polo gerador de tráfego. Isso demanda um estudo prévio, denominado
Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), com o objetivo de prever a infraestrutura correspondente e
os investimentos necessários para que o novo museu atenda a sua função social e não se
configure em transtorno.

2. Atividades preliminares
2.1. Legislação Municipal

Antes de se pensar na elaboração de um Programa Arquitetônico Urbanístico para


museus existentes ou a serem criados, torna-se necessário dedicar especial atenção à legislação
urbanística Municipal, em especial ao Plano Diretor e suas leis complementares. Pelo texto da
Constituição de 1988, o Plano Diretor é o instrumento básico da política de desenvolvimento
urbano municipal. Cabe a este garantir o cumprimento da função social da cidade e da propriedade
urbana. Entre as incumbências dessa lei, está a definição dos critérios para a utilização dos
instrumentos estabelecidos no Estatuto da Cidade, tais como a Outorga Onerosa do Direito de
Construir e a Transferência do Direito de Construir.

Dependendo da abordagem desses instrumentos nos planos diretores, imóveis com


características históricas podem dispor de incentivos que possibilitem a instalação de
equipamentos culturais, como museus. Além dos referidos instrumentos, a maioria dos Planos
Diretores dedica um capítulo ao Patrimônio Cultural e apresenta incentivos fiscais para obras de
conservação, reparação ou restauração de imóveis históricos.

Em termos gerais, a Transferência do Direito de Construir e a venda do solo criado


(Outorga Onerosa do Direito de Construir) são instrumentos de geração de contrapartidas em
função do adensamento. Devem estar previstos no Plano Diretor Municipal e podem resultar em
recursos para a criação ou investimentos nos museus.

Como exemplo, têm-se os imóveis históricos, quando são tombados em zonas com
potencial construtivo mais elevado (em áreas da cidade onde se podem construir edifícios, por
exemplo). Para que o prejuízo possa ser ressarcido, há a possibilidade do proprietário transferir
(vender), seu direito de construir para terceiros, para ser utilizado em outra área em que a limitação
não exista ou seja menor. Desta forma, os proprietários de imóveis históricos são compensados e
os imóveis atingidos por restrições de caráter preservacionista não perdem seu valor.

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Em São Paulo, por exemplo, uma lei municipal de 1984 institucionalizou a transferência do
Potencial Construtivo, admitindo a transferência de 100% do potencial concedido pelo zoneamento
se o imóvel preservado for destinado à instalação das atividades que permitem a fruição do
público. Em Curitiba, no caso de imóveis particulares a serem preservados, o proprietário deve
restaurar o imóvel como condição para receber o potencial de transferência. Muitas vezes, a
operação de restauro é feita em parceria, na qual o proprietário se associa a um empreendedor
interessado em receber o potencial. Em relação aos museus, sua instalação em imóvel tombado
localizado em área com elevado potencial construtivo pode gerar a possibilidade de venda do
potencial adicional, resultando em recursos para aplicação nas próprias instituições.

Pelo abordado, percebe-se a importância da observância da legislação urbanística


municipal, em especial do Plano Diretor e suas leis complementares, antes mesmo de se iniciar a
concepção de um programa de arquitetura para o museu que se pretende.

2.2. Elaboração de Programa de Necessidades na etapa do Diagnóstico

A elaboração de um Plano Museológico deve compreender quatro etapas: 1 - diagnóstico;


2 - definição da vocação do museu; 3 - programas, projetos e ações; 4 - publicidade.

Em arquitetura, um programa de necessidades é o conjunto sistematizado de


necessidades para um determinado uso de uma construção. É elaborado nas fases iniciais do
projeto a fim de nortear as decisões a serem tomadas, funcionando como um dos principais
determinantes do projeto. O Plano Museológico de um museu existente ou a ser criado deve tratar
do Programa de Necessidades já na etapa do Diagnóstico, antes mesmo da etapa de definição de
programas, projetos e ações. Assim, o Programa Arquitetônico Urbanístico iniciará bem antes da
elaboração da citada etapa 3 do Plano Museológico.

No intuito de esclarecer um pouco melhor essa abordagem, basta lembrar que a etapa do
Diagnóstico deve tratar das seguintes questões:

 Número de funcionários;
 Acervo;
 Exposição permanente;
 Exposições temporárias;
 Arquitetura (plantas, descrição das condições do prédio em museu já existente);
 Público;
 Ações educativas e culturais.

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São justamente as “respostas” obtidas na etapa do diagnóstico que orientarão a definição


de um Programa de Necessidades.

Exemplo de Programa de Necessidades:


- Recepção
- Bilheteria
- Administração
- Sala(s) de exposição(ões) permanente(s) e/ou temporária(s)
- Reserva técnica
- Sala de projeção/cinema
- Sala(s) de aula/prática
- Laboratório(s)
- Pesquisas
- Conservação e documentação do acervo
- Sanitários
- Cozinha/copa/almoxarifado
- Biblioteca
- Loja
- Estacionamento

Figura 1 – Exemplo de fluxograma a ser elaborado após o Programa de Necessidades.

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Após o Programa de Necessidades, pode-se elaborar um fluxograma, (figura 1) que


orientará o desenvolvimento do projeto ou a adaptação de construção já existente para abrigar um
museu. Nos museus já existentes, a etapa do Diagnóstico também deve compreender o registro da
estrutura física do museu através de informações como plantas, descrição dos espaços e das
atuais condições do(s) prédio(s) e/ou áreas livres que abrigue(m) o museu. Uma revisão sobre
regulamentações urbanísticas que limitem ou orientem as intervenções em bens tombados e/ou em
seu entorno também devem estar contidas nessa etapa.

3. Definição do Programa Arquitetônico Urbanístico no Decreto nº 8.124, de 17 de outubro


de 2013.

Tanto para museus existentes quanto para aqueles a serem criados, o programa
arquitetônico-urbanístico deve funcionar como uma ampliação do diagnóstico e instrumento de
planejamento.

De acordo com o Decreto que regulamentou os dispositivos da Lei nº 11.904, de 14 de


janeiro de 2009, que institui o Estatuto de Museus, e da Lei nº 11.906, de 20 de janeiro de 2009,
que cria o Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, o Programa Arquitetônico Urbanístico do Plano
Museológico deve abranger a identificação, a conservação e a adequação dos espaços livres e
construídos, bem como das áreas de entorno da instituição, contendo descrição dos espaços e
instalações, além de informar sobre os aspectos de acessibilidade, conforto ambiental, circulação,
identidade visual e possibilidades de expansão.

4. Metodologia
4.1. Programa Arquitetônico Urbanístico nos Planos Museológicos de museus
existentes
4.1.1. O museu que queremos.

Nesta etapa sugerem-se, de início, perguntas orientadoras que irão guiar o processo,
quais sejam:

 A atual estrutura do museu, descrita no Diagnóstico, atende ao Programa de


Necessidades?
 Há necessidade de criação, otimização ou supressão de ambientes nos espaços físicos do
museu?
 Existe déficit e/ou inadequação dos espaços no museu?
 Como se dá o planejamento para utilização dos espaços internos e externos do museu?

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 Como a questão da acessibilidade vem sendo tratada pela instituição?


 Quais os aspectos da estrutura física que demandam intervenções no museu?
 De que forma o Programa Arquitetônico Urbanístico pode se integrar a outros programas,
tais como o de Segurança, o de Acervos e o de Exposições?

4.1.2. Planejamento de intervenções – definição de prioridades, proposta de


cronograma, possibilidades de fomento.

Na sequência de elaboração do Programa Arquitetônico Urbanístico deve haver uma


reflexão sobre o “museu ideal” pensado na etapa anterior, das perguntas, entendendo os limites e
possibilidades da instituição. Dessa forma, sugere-se a elaboração de uma estratégia de ação para
atingir os seguintes objetivos:

1. Identificação de intervenções necessárias com definição de prioridades.

2. Balanço das intervenções já realizadas em períodos anteriores.

3. Estimativa de custos e possibilidades de fomento;

4. Estratégia de ação com cronograma;

5. Estratégia de monitoramento das ações.

4.2. Programa Arquitetônico Urbanístico nos Planos Museológicos de novos museus


4.2.1. Programa de Necessidades como ponto de partida.

Diferentemente dos museus existentes e a despeito do porte da instituição, os novos


museus podem ser pensados, desde a sua concepção, de forma a atender às demandas
identificadas no Programa de Necessidades. Dessa maneira, seguem as perguntas orientadoras
pertinentes:

 Qual a estrutura necessária ao museu para que atenda ao Programa de Necessidades?


 O museu já dispõe de espaço físico para sua instalação ou necessitará adquirir
terreno/imóvel?
 Como se dará o planejamento para utilização dos espaços no museu?
 Já foi desenvolvido um estudo preliminar do projeto arquitetônico/paisagístico da instituição?
 Como a questão da acessibilidade e do conforto ambiental estão sendo/serão tratadas no
projeto?

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 Há necessidade de realização de Estudo de Impacto de Vizinhança?


 O projeto será em prédio histórico? Trata-se de inserção de arquitetura contemporânea em
conjunto histórico? Quais os condicionantes de acordo com a legislação aplicável?
 Qual a relação do programa arquitetônico com o entorno? Será realizado estudo de acessos
e fluxos?
 De que forma o Programa Arquitetônico-urbanístico se integrará a outros programas, tais
como o de Segurança, o de Acervos e o de Exposições?

4.2.2. Etapas de implantação. Memorial descritivo, estudo preliminar, etapas de


implantação, possibilidades de fomento.

Em se tratando de novos museus, o planejamento das intervenções compreende:

1. Elaboração de Estudo preliminar com memorial descritivo

2. Estimativa de custos e possibilidades de fomento

3. Etapas de implantação

4. Estratégia de ação com cronograma

5. Estratégia de monitoramento das ações

5. Considerações

A precariedade das informações, reflexões e proposições no âmbito do Programa


Arquitetônico Urbanístico presente na maioria dos planos museológicos dos museus do Ibram
torna evidente a necessidade de uma orientação e definição de metodologia a ser adotada
pelos museus, a fim de tornar seus planos instrumentos de planejamento que possibilitem a
definição de estratégias de ação. Muitas vezes, as equipes técnicas são demandadas e
não encontram nos referidos planos as informações necessárias para a elaboração de
projetos no intuito de melhorar as condições físicas das próprias instituições. Dessa forma,
através do presente trabalho espera-se contribuir para o entendimento, pelos museus, das
possibilidades de abordagens para o Programa Arquitetônico Urbanístico a fazer parte dos
Planos Museológicos, possibilitando um esforço direcionado, que resultará em documentos
úteis para a definição de prioridades e atuação das equipes técnicas.

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Referências Bibliográficas

BRASIL. 2003. Constituição da República Federativa do Brasil -1988. 31 ed.,

Editora Saraiva: São Paulo, Brasil.

BRASIL. Estatuto da Cidade. Lei Federal nº 10.257 de 10 de julho de 2001.

BRASIL. Estatuto de Museus. Lei Federal nº 11.904, de 14 de janeiro de 2009.

LIMA, Francisco Pedroso de. A Evolução de Conceitos Entre as Declarações de Santiago e de

Caracas. Cadernos de Museologia Nº 1, 1993.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Legislação Sobre Museus. Biblioteca Digital da Câmara dos

Deputados. Centro de Documentação e Informação. Disponível em:


http://bd.camara.gov.br/bd/. Acesso em: 10 de julho de 2012.

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