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Parte I

Onze de fevereiro de 1951 – Cidade sem Nome.

A chuva caia na noite fria e nublada da cidade, o vento soprava uma brisa leve e gelada fazendo com
que seus moradores ficassem em suas casas, se aquecendo nas suas lareiras. Da janela de uma das casas
era possível ver um homem andando sob a chuva, ele usava um sobre tudo preto e um chapéu da
mesma cor, ele segurava o chapéu em sua cabeça, pois o vento podia levá-lo. Ele sentia o frio da chuva
em todo o seu corpo, mas aquilo não parecia pará-lo de seguir em frente.

Ele faz seu caminho até uma casa velha no final daquela mesma rua. O homem para em frente a casa e a
observa por um instante. A casa era desgastada pelo tempo, e parecia abandonada, sua fachada era
branca, mas tudo estava sujo e empoeirado, o mofo já corroía toda parede, fazendo com que a cor
branca da fachada ficasse em um tom de cinza escuro. Voltando-se para a porta a sua frente, ele subiu o
pequeno lance de escadas e parou em frente a ela, sua mão foi de encontro à maçaneta, ele deu um
suspiro de ansiedade, um sorriso insano e ao mesmo tempo medonho e entrou rapidamente na casa.

Quatro dias antes.

Oito de fevereiro de 1951 – Cidade sem nome.

A delegacia estava calma e silenciosa naquela noite, havia poucos policiais fazendo registros de boletins
e catalogando provas de crimes. Não havia nenhum civil no local, assim os policias ficavam mais a
vontade para relaxar e jogar conversa fora.

Na porta de uma das salas da delegacia estava escrito: INVESTIGADOR CRIMINAL. Dentro da sala estava
um homem de quase 50 anos, Jack Lewis, o investigador da delegacia. Ele estava sentado em sua
cadeira olhando fixamente uma foto em sua mesa. A foto era de uma menina sorridente, ela usava um
lindo vestido bordado que parecia dar cor e alegria para aquela foto velha e suja das marcas do tempo.
Os olhos de Jack se enchiam de lágrimas quando olhava aquela foto, lembrando-se de seu passado. Em
um silêncio sereno e ao mesmo tempo macabro, Jack pouco a pouco ia se perdendo em seus
pensamentos, mas de repente seu telefone toca em um rinchar alto e irritante fazendo com que ele
volte a si. Ele passa a mão em seus olhos para secar as lágrimas que se seguravam para não cair. Ele
atende ao telefone com uma voz calma e cansada e diz:

- Jack Lewis, investigação, com quem eu falo?


A voz do outro lado da linha era de uma mulher assustada, ela chorava e sua voz estava trêmula, e
quase não se podia entender o que falava:

- Por, por favor! Por favor! Ele quer me ma... Ele vai me matar!

Jack tenta se concentrar para entender a mulher que tremia ao telefone, ele aperta o telefone sobre a
orelha para tentar ouvir melhor o que a mulher diz, e fala:

- Senhorita, acalme-se! Onde você está? Mandarei uma viatura até sua casa.

O tom de sua voz muda drasticamente, ela não parece estar mais chorando. Sua voz agora é grave e
medonha, ela diz:

- Rua Bulevar, 439.

Logo quando ela termina de falar, Jack ouve um chiado de estática de TV ao fundo, ele se concentra
ainda mais na esperança que a mulher fale mais alguma coisa, mas alguns segundos depois a ligação
termina, ele devolve o telefone ao gancho e se intriga com a ligação. Sem pensar muito, ele pega as
chaves do carro que está sobre a mesa, se levanta e coloca sua arma no coldre e sai da delegacia
naquela noite calma. Josh, um dos policiais que estavam do lado de fora do departamento avista Jack
saindo apressado e diz:

- Algum problema amigo?

Jack continua caminhando em direção ao carro e diz para Josh:

- Vou verificar uma ocorrência. Qualquer coisa eu chamo no rádio.

Ele entra em seu carro, e logo já está dando a ré no estacionamento da delegacia e começa a seguir para
rua da cidade. Josh apenas levanta a mão ao longe, para mostrar que entendeu o recado de Jack, e volta
para seu posto.

Parte II

A noite é lenta e parece mais fria do que quando saiu da delegacia, Jack olha ao redor e vê poucas
pessoas nas ruas, e à medida que vai se aproximando da rua mencionada pela mulher misteriosa, tudo
vai ficando cada vez mais silencioso e inquietante. Jack não esconde o nervosismo e a curiosidade sobre
o que vai encontrar no local.

Passando-se 10 minutos ele chega à rua da casa mencionada, por volta das 11 da noite. Ele para seu
carro e percebe que não há nenhuma luz nos postes daquela rua, ele avista apenas uma casa que estava
com a luz acesa na Rua Bulevar, estranhamente todas as outras casas já estavam com as luzes apagadas.
Ele percebe que aquela rua não tinha saída, as casas eram simples, velhas e estavam descuidadas.
Ele ligou novamente seu carro e parou em frente a casa com as luzes acesas, Jack saiu do carro e avistou
o número da casa, 439, era ali. Ele olhou para os lados, tentando analisar mais uma vez o perímetro e
não viu nada demais, apenas uma rua vazia. Ele deu uma boa olhada na casa e viu que era muito
simples. Feita de madeira e com uma pequena varanda na frente, tinha um cheiro de madeira molhada,
pois a chuva era quase constante naquela cidade, havia também uma cadeira de balanço na varanda da
casa, que estava com o estofado rasgado e cheio de mofo.

Jack deu três batidas na porta da casa, e disse:

- Aqui é a policia!

O silêncio invade o lugar e deixa Jack mais abismado com aquela situação, não se ouve nada dentro da
casa, ele bate mais uma vez, e fala mais alto:

- Aqui é a policia! Tem alguém em casa?

Jack começa a ficar impaciente com esse silêncio todo, ele vira a maçaneta da porta e descobre que ela
estava aberta, e diz:

- Estou entrando!

Ele pega a arma em seu coldre e lentamente começa a abrir a porta. A luz de dentro da casa começa a
piscar intensamente, fazendo Jack suar frio. Sua mente começa a lembrar de coisas do passado, ele se
sente envolvido naquele silêncio, e a luz continuava piscando enquanto ele abria a porta
cuidadosamente fazendo ele se lembrar de coisas ruins. Ele olha para dentro da casa, está vazia e
quieta, a luz para de piscar e logo aquele medo de Jack vai se dissipando.

Jack vai até a cozinha da casa e encontra alguns pratos quebrados e talheres no chão. Ele deduz que
alguém estava sendo perseguido ali, olha atentamente pra todos os lados da cozinha e não vê mais nada
de estranho. Ele decide entrar no quarto próximo à cozinha. Ainda com a sua arma em mãos ele abre a
porta do quarto, e por um instante ele sente que tem alguém atrás dele. Seu corpo treme e o palpitar de
seu coração acelera, o medo em seu rosto é visível chegando a parecer que ele vai entrar em desespero,
mas em frações de milésimos de segundos, ele controla seus instintos primitivos e se vira apontando a
arma, quando ele se vira, em um piscar de seus olhos, ele vê uma mulher de cabelos grandes e negros,
ela estava nua e coberta de sangue, sua mandíbula estava quebrada e caída sobre o queixo. Jack se
assusta e grita horrorizado com o que viu. Ele se encosta sobre a porta do quarto, que abre, o fazendo
cair no chão do cômodo. Ele se assusta mais ainda com a queda e olha para onde viu a mulher, e não há
nada. Ele vai se levantando do chão e diz consigo mesmo:

- Isso é loucura! Que porra foi essa?

Já em pé, Jack olha o quarto em que caiu. Ele é pequeno e está cheio de livros velhos e empoeirados,o
quarto fede a morte, fazendo Jack cobrir o nariz e a boca com braço. Ele começa revirar os livros do
quarto e um deles chama a sua atenção, ele estava em cima da cama empoeirada e suja do quarto e
diferente dos outros, esse livro não estava empoeirado, ele estava bem conservado, tinha uma capa de
couro de animal e em sua capa estava escrito, “Para meu pai” - autor desconhecido-.

Jack segurou o livro e decidiu levá-lo para lê-lo. O investigador precisava saber o que estava
acontecendo, ele era um homem inteligente e muito experiente. Jack saiu do quarto segurando o livro,
assim que saiu do quarto a TV ligou fazendo um barulho muito alto de estática, Jack tomou um susto e
logo se virou para onde ela estava, caminhou até a mesma e a desligou, no momento em que o barulho
das estáticas acabou ele pensou ter ouvido uma voz de menina chamando seu nome. Jack abraçou o
livro sobre seu peito e seus olhos se perderam em pensamentos, ele olhava fixamente para o chão da
casa, estava visivelmente apavorado. Ele saiu da casa, ainda com seus olhos fundos e vazios, entrou em
seu carro e saiu daquele lugar.

Parte III

O investigador morava em um pequeno apartamento no centro da cidade, as ruas do centro eram largas
e seus prédios formavam uma fileira quase idêntica de edificações do século passado.

Jack colocou o livro sobre a mesa de seu apartamento e pegou seus óculos de grau e deu início a leitura
daquele misterioso livro, e a leitura durou toda a noite, misteriosamente o livro ia dominando Jack, e
sua curiosidade sobre os conhecimentos que aviam nele só aumentavam. O livro era grosso e parecia ter
mais de 1000 páginas, elas estavam envelhecidas e desgastadas, parece que o livro era constantemente
lido. Seu título chamou bastante à atenção de Jack, pois lembrava algo de seu passado. Ele não parava
de ler o livro, isso fez sumir de suas responsabilidades como investigador, pois não foi ao trabalho três
dias seguido na delegacia e ainda não atendia aos telefonemas de ninguém.

Seus companheiros da policia começaram a se preocupar com ele. Josh e Kevin, outro policial da cidade,
foram até a casa dele na tarde do dia 11 de fevereiro, Eles bateram na porta algumas vezes, e só
ouviram uma voz rouca e cansada do outro lado da porta dizendo:

- Vão embora! Eu não quero comprar nada!

Kevin olhou para Josh sem entender nada e deu de ombros. Josh Bateu na porta mais uma vez, e dessa
vez falou:

- Aqui é Josh, da delegacia. Estamos preocupados com você, cara. Queríamos saber por que não está
mais indo trabalhar?

Os dois policiais não ouviram respostas do colega de trabalho, eles chamaram mais algumas vezes, mas
no fim desistiram de falar com Jack e foram embora.

Já era noite quando Jack terminou de ler o livro, seu rosto estava pálido, seus olhos fundos e com
grandes olheiras que quase saltavam de seu rosto. Ele fechou o livro e respirou fundo, Jack percebeu
que seus conhecimentos sobre a vida e a morte aumentaram graças ao livro, mas aquilo custou a sua
saúde mental, fazendo com que ele ficasse louco. As luzes do pequeno apartamento de Jack estavam
desligadas, havia apenas a luz de um abajur de mesa que iluminava uma pequena parte do
apartamento, naquela pequena iluminação uma sombra se formou na parede, Jack sentiu mais uma vez
alguém atrás de seus ombros. Ele olhou para a sombra na parede, e viu uma forma humanoide estranha
e apavorante, era medonha e além dacompreensão, grande e corcunda, careca e com grandes garras
no lugar das unhas. Jack olhava aquela sombra na parede a sua frente e sentia a respiração da criatura
atrás dele, ele não tinha forças para olhar diretamente para ela.

Jack começou a piscar os olhos sem parar, seus lábios começaram a tremer em um frenesi assustador.
Ele sentiu seu cérebro congelando, não conseguia se mexer, sentia que não existia mais sanidade em
sua mente. O medo o consumia a cada segundo, a repugnância daquela sombra e o respirar da “coisa”
em seus ombros eram demais para a mente de um homem. Jack lentamente mexeu seu braço até a sua
arma que estava em cima da mesa, suas mãos tremiam muito, a arma sacolejava em sua mão, ele
apontou a arma para sua cabeça, ainda olhando a sombra da criatura na parede, ele ouviu o sussurrar
em seus ouvidos com uma voz infantil e ao mesmo tempo gutural, que fez cair uma lágrima de medo e
tristeza de seu olho, dizendo:

- FAÇA PAPAI!

O tiro foi ouvido por todo o prédio. O sindico abriu a porta com uma chave reserva, e o encontrou caído
sobre a mesa, com um tiro na cabeça. A polícia chegou pouco tempo depois. Investigações sobre o
suicídio de Jack estavam sendo coletadas no apartamento e com vizinhos. Josh estava no local, e falava
com uma vizinha de Jack, que o viu pela última vez há três noites, segurando um livro grande e com capa
de couro.

Josh procurou esse livro pelo apartamento, mas não o achou em nenhum lugar. Ele começou a procurar
outras coisas para ajudar na investigação. Procurando em suas gavetas, achou uma caixa cheia de fotos
empoeiradas e na maioria delas estava uma menina sorridente, em uma delas Jack estava com ela,
parecia fazer muito tempo que aquelas fotos foram tiradas. Eles estavam em frente há uma casa branca
bem antiga, mas conservada. O que mais intrigou o policial foi o fato da menina estar segurando um
livro parecido com o descrito pela vizinha de Jack, o mesmo que ele segurava na última noite que ela o
viu. Josh deduziu que aquela devia ser a filha de Jack. Ele virou a foto e havia uma pequena mensagem
escrita na foto, que dizia: “Venha me ver Papai, ainda estou na nossa casa, esperando você – Rua
Cannon Pune, 36”.

Josh guarda a foto em seu bolso e pensa bastante sobre o livro visto na foto, ele decide ir ao endereço
mostrado na foto. A chuva chega à cidade, ela é leve, mas o vento é frio, mas Josh não parece temer a
chuva ou o vento, ele está obstinado a resolver o mistério da morte de seu companheiro de trabalho.

Ele para seu carro no começo da Rua Cannon Pune e decide ir andando até a casa de número 36. A rua é
estreita e está muito silenciosa. As únicas companhias de Josh naquela noite são a chuva e a vontade de
saber o que matou Jack, mas sua curiosidade sobre o livro também eram visíveis. Talvez no fundo de sua
mente a vontade de ver o livro de perto era mais forte do que investigar a morte de seu companheiro de
trabalho.