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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES


LICENCIATURA PLENA EM LETRAS
HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGESA

MIRANEIDE ALVES RODRIGUES DOS SANTOS

OPERADORES ARGUMENTATIVOS:
ANÁLISE SEMÂNTICA DE PRODUÇÕES TEXTUAIS EM PLE

JOÃO PESSOA

JUNHO DE 2011
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
LICENCIATURA PLENA EM LETRAS
HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGESA

MIRANEIDE ALVES RODRIGUES DOS SANTOS

OPERADORES ARGUMENTATIVOS:
ANÁLISE SEMÂNTICA DE PRODUÇÕES TEXTUAIS EM PLE

Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras


da Universidade Federal da Paraíba como requisito para
obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em
Língua Portuguesa.

Profa. Dra. Mônica Mano Trindade Ferraz, orientadora

JOÃO PESSOA

JUNHO DE 2011
Catalogação da Publicação na Fonte.
Universidade Federal da Paraíba.
Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA)
Santos, Miraneide Alves Rodrigues dos.

Operadores argumentativos: análise semântica de produções textuais


em PLE / Miraneide Alves Rodrigues dos Santos. - João Pessoa, 2011.
41f.

Monografia (Graduação em Letras) – Universidade Federal da


Paraíba - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes.
Orientadora: Profª. Drª. Mônica Mano Trindade Ferraz

1. Língua portuguesa. 2. Programa de Língua Estrangeira (PLE). 2.


Análise de textos. 3. Gêneros textuais. I. Título.

BSE-CCHLA CDU 811.134.3


MIRANEIDE ALVES RODRIGUES DOS SANTOS

OPERADORES ARGUMENTATIVOS:
ANÁLISE SEMÂNTICA DE PRODUÇÕES TEXTUAIS EM PLE

Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da


Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em
Língua Portuguesa.

Data de aprovação: ____/____/____

Banca examinadora

Profa. Dra. Mônica Mano Trindade Ferraz, DLCV, UFPB


Orientadora

Profa. Dra. Maria Leonor Maia dos Santos, DLCV, UFPB


Examinador

Profa. Dra. Margarete Von Mühlen Poll, DLCV, UFPB


Examinador
Dedico este trabalho aos meus pais pelo amor
incondicional e por toda dedicação para comigo, por terem sido
a base fundamental para que eu tenha me tornado a pessoa que
hoje sou. As minhas irmãs pelo carinho e conforto nos
momentos que mais precisei.
AGRADECIMENTO ESPECIAL

À minha orientadora, Profa. Dra. Mônica Mano Trindade Ferraz

pela grande atenção e pela paciência;

por ser uma professora tão competente e dedicada à profissão;

por me apontar as possibilidades e os caminhos a serem percorridos;

por estar sempre disposta a compartilhar seus conhecimentos;

e, principalmente, por acreditar em mim.


AGRADECIMENTOS

A Deus por ter me dado forças e iluminado o meu caminho para que eu pudesse
concluir mais uma etapa da minha vida.
Aos meus pais Ednaldo e Maria Cleonice por todo amor e dedicação que sempre
tiveram comigo, pois sem eles não teria concluído essa etapa da minha vida. A vocês meu
eterno agradecimento pelos momentos em que sempre estiveram ao meu lado, me apoiando e
me fazendo acreditar que nada é impossível.
As minhas irmãs Miranice e em especial Mirinalda, estudante de Pedagogia, esta
que me acompanhou nos momentos mais difíceis e presenciou toda a minha ansiedade e
dificuldades que passei, pelo carinho e atenção que sempre tiveram comigo.
Aos amigos que fiz durante o curso, por todos os momentos que passamos durante
esses quatro anos e meio, meu especial agradecimento. Sem vocês essa trajetória não seria tão
prazerosa.
A minha orientadora, professora Mônica Mano Trindade Ferraz, pelo ensinamento
e dedicação no auxilio à concretização dessa monografia.
A todos os professores do curso de Letras, pela paciência, dedicação e
ensinamentos disponibilizados nas aulas, cada um de forma especial e única de ensinar que
contribuiu para a para minha formação profissional.
Por fim, gostaria de agradecer aos meus amigos e familiares, pelo carinho e pela
compreensão nos momentos em que a dedicação aos estudos foi exclusiva, a todos que
contribuíram direta ou indiretamente para que esse trabalho fosse realizado meus sinceros
AGRADECIMENTOS.
RESUMO

Este trabalho de conclusão de curso tem por objetivo fazer uma análise de textos produzidos
por alunos do curso de Língua Portuguesa como Língua Estrangeira (doravante PLE),
verificando os recursos sintático-semânticos e pragmáticos da língua como componentes
essenciais à argumentação. Trata-se de um corpus delimitado de produções de artigos de
opinião, cartas argumentativas e resenhas críticas, de autoria dos alunos dos níveis
intermediário e avançado do curso de PLE, ofertados pelo Programa Linguístico-cultural para
Estudantes Internacionais (PLEI). Para a elaboração deste trabalho foi utilizada a pesquisa de
campo que consistiu na prática como docente de PLE. A base teórica utilizada para o estudo
dos gêneros textuais se sustenta nas ideias de Marcuschi e quanto à concepção de texto e de
argumentação parte-se de Koch. Apresenta-se, em sequência, uma explanação sobre o ensino
de PLE, os conceitos básicos à prática de produção escrita a partir da perspectiva dos gêneros
textuais e, por último, a análise de trechos que exemplificam como o conhecimento de
operadores argumentativos favorece à argumentatividade do texto.

Palavras-chave: PLE. Gêneros textuais. Operadores argumentativos.


RESUMEN

Este trabajo de conclusión tiene como objetivo hacer un análisis de textos producidos por
alumnos del curso de Lengua Portuguesa como Lengua Extranjera (ahora llamaremos PLE),
verificando los recursos sintáctico-semánticos y pragmáticos de la lengua como componentes
esenciales a la argumentación. Se trata de un corpus delimitado de producciones de artículos
de opinión, cartas argumentativas y reseñas críticas, de autoría de los alumnos de los niveles
intermediario y avanzado del curso de PLE, ofertados por el Programa Lingüístico-cultural
para Estudiantes Internacionales (PLEI). Para la elaboración de este trabajo fue utilizada la
investigación de campo que consistió en la práctica como docente de PLE. La base teórica
utilizada para el estudio de los géneros textuales se sustenta en las ideas de Marcuschi
mientras que la concepción de texto y de argumentación se parte de Koch. Se presenta en
secuencia, una explanación sobre la enseñanza de PLE, los conceptos básicos a la práctica de
la producción escrita a partir de la perspectiva de los géneros textuales y, por último, el
análisis de fragmentos que ejemplifican como el conocimiento de operadores argumentativos
favorece a la argumentatividad del texto.

Palabras-clave: PLE, Géneros textuales, operadores argumentativos.


Sumário

Introdução ........................................................................................................................... 9

1. Contextualizando o ensino de PLE ................................................................................ 11

2. Conceituando o texto como objeto de análise ................................................................ 15

2.1. Definindo gênero textual .............................................................................................. 16


2.2. Apresentando os operadores ......................................................................................... 17

3. Analisando a produção escrita em PLE: artigos, cartas e resenhas ............................ 19


3.1. Artigo de opinião............................................................................................................... 19
3.1.1 Análise dos textos........... ............................................................................................. 20
3.2. Carta argumentativa.. ................................................................................................... 23
3.2.1. Análise dos textos............ ........................................................................................... 23
3.3. Resenha crítica..................... .......................................................................................... 25
3.3.1. Análise dos textos............... ........................................................................................ 25

Conclusão ................................................................................................................................28

Referências ......................................................................................................................... 29

Anexos ................................................................................................................................ 30
Anexo A - Textos do nível Intermediário ............................................................................. 31
Anexo B - Textos do nível Avançado ................................................................................... 37
9

Introdução

O presente trabalho tem como tema a produção escrita de textos argumentativos nas
aulas de Português como língua estrangeira (doravante PLE). O objetivo é apresentar uma
análise de textos de gêneros argumentativos – artigo de opinião, carta argumentativa e resenha
crítica – produzidos nas aulas de PLE, feitos por estudantes de nível intermediário e
avançado, verificando o uso dos operadores argumentativos nos textos, como recursos
linguísticos favoráveis à argumentação.
Ao levantar algumas hipóteses para tentar compreender a dificuldade mostrada por
muitos alunos estrangeiros ao produzirem textos argumentativos, surgiu a ideia deste tema, a
partir de uma pesquisa realizada no Programa Linguístico-Cultural para Estudantes
Internacionais (PLEI), do qual participei como bolsista PROBEX nos períodos de 2010.1 e
2010.2.
A experiência como docente em um curso de PLE foi inovadora, pois foi lançado um
novo olhar para o ensino de língua materna, uma vez que a metodologia adotada para o ensino
de Português como língua materna não se adequa ao ensino desta mesma língua, quando o
foco é o ensino dela como língua estrangeira. O trabalho em sala de aula se pauta na
perspectiva da abordagem comunicativa, por isso desenvolvemos atividades que buscavam
cumprir com essa proposta.
Vale ainda ressaltar que, além de adquirirmos experiência como docente, ao
ministrarmos os cursos de PLE, temos a oportunidade de realizar pesquisa em uma nova área,
não prevista na grade curricular, o que contribui para a formação em Licenciatura.
Sabemos da importância de trabalhar na sala de aula com a perspectiva dos gêneros
textuais e com produções de textos, visando ao desenvolvimento das quatro habilidades de
comunicação: fala, audição, escrita e leitura. Nesse processo de aprendizado, verificamos os
recursos linguísticos coesivos que sustentam o discurso argumentativo.
As propostas de produções escritas para os aprendizes são vinculadas nesse viés, para
que eles se sintam inseridos em diversas situações de uso da língua. Desse modo, a análise
prioriza uma dessas habilidades – a competência escrita – e, para chegar ao produto final, os
alunos passam por várias etapas do processo de escrita, inclusive a da reescrita textual.
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Koch (2002) argumenta que a competência sociocomunicativa dos falantes/ouvintes


leva-os a detectar o que é adequado ou inadequado em cada uma das práticas de comunicação
social.

A competência textual de um falante permite-lhe, ainda, averiguar se em um texto


predominam sequencias de caráter narrativo, descritivo, expositivo e/ou
argumentativo. O contacto com os textos da vida quotidiana, como anúncios, avisos
de toda a ordem, artigos de jornais, catálogos, receitas médicas, prospectos, guias
turísticos, literatura de apoio a manipulação de máquinas etc., exercita a nossa
capacidade metatextual para a construção e intelecção de textos. (KOCH, 2002,
p.53)

Desse modo, essa competência estimula a diferenciação de determinados gêneros de


textos, portanto, como bem coloca Koch, há o conhecimento das estratégias de interpretação
dos textos, assim, eles passam a ter mais confiança em ler e escrever.
O suporte teórico parte de uma pesquisa bibliográfica de caráter reflexivo e crítico,
tomado como base pressupostos como: MARCUSCHI (2008), KOCH (2002), ALMEIDA
FILHO (1997), entre outros.
Para tal propósito o trabalho está dividido em três capítulos, sendo que o primeiro trata
do ensino de PLE. O segundo capítulo dispõe da concepção de texto e de gênero textual. O
terceiro capítulo discorre sobre os gêneros argumentativos onde também é feita a análise dos
operadores nos textos, com os referidos resultados.
Por fim, são tecidas as considerações finais, bem como a bibliografia de apoio à
pesquisa realizada.
11

1. Contextualizando o ensino de PLE

Considerando que a demanda para o ensino da Língua Portuguesa como Língua


Estrangeira (PLE) teve um aumento considerável nos últimos anos, pode-se dizer que o
Português é uma das línguas mais faladas no mundo, pelo menos, a terceira no Ocidente,
tornando-se, portanto, uma língua das mais procuradas e estudadas pelos estrangeiros. No
entanto, sabemos que o ensino de PLE é uma área nova e que ainda está tomando seus
primeiros passos, por isso é um campo para muitas investigações e pesquisas acadêmicas de
natureza teórico-metodológica.

o mundo contemporâneo perde progressivamente fronteiras nacionais, voltando-se


para a formação de grandes blocos. A difusão do português brasileiro no atual
quadro internacional traz novas obrigações ao estado e às universidades.
(CASTILHO, 2010, p. 102).

A incipiência desses estudos acarreta ainda algumas reflexões, visto que a metodologia
própria para o ensino de Português como língua materna não se adequa ao ensino desta
mesma língua, quando vista como língua estrangeira. Entre as dificuldades discutidas nos
textos publicados nesta área, temos: formação básica dos professores, pois quase não há
formação acadêmica em PLE; aperfeiçoamento; desenvolvimento de cursos; planejamento das
aulas; criação de tarefas envolvendo leitura e produção de textos e, por último, seleção e
elaboração de materiais didáticos.
Portanto, cursos de PLE, preparação de professores e material didático adequados são os
primeiros passos para atender uma demanda já expressiva e que tende a aumentar cada vez
mais com o desenvolvimento econômico-social do Brasil.
O fazer metodológico é um dos desafios encontrados pelo profissional dessa área,
quando sua formação é em Letras-língua portuguesa e se propõe a atuar em PLE. Para tal,
obriga-se a refletir sobre sua prática no ensino de língua materna, a conhecer as concepções
teórico-metodológicas para o ensino de língua estrangeira, a fazer reflexões críticas e
metodológicas para buscar, através de aplicações práticas, diferentes metodologias para o
ensino de PLE. “Uma abordagem equivale a um conjunto de disposições, conhecimentos,
crenças, pressupostos e eventualmente princípios sobre o que é a linguagem humana, LE, e o
que é aprender e ensinar uma língua alvo.” (ALMEIDA FILHO, 2005, p.17).
O ensino de Português a estrangeiros não se pode limitar apenas ao ensino da língua
como estrutura fechada e isolada, isto é, tratar a língua apenas no seu aspecto gramatical.
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Deve-se ir além, pois, para o aprendiz, conhecer a cultura da língua é, sem dúvida, uma
motivação de extrema importância que acelera a aprendizagem. O ensino não pode e nem
deve se desvincular da cultura do país da língua alvo, pois é fundamental para seu
aprendizado que o estudante comece a se familiarizar com os costumes, com a maneira de
viver e de se comportar das pessoas nativas da língua-alvo. O ensino/aprendizado de uma
língua estrangeira não é e não pode ser visto separadamente do ensino/aprendizado de fatores
culturais e sociais dos falantes nativos desse idioma, já que exercem interferência, pois esses
são parte da língua.
Quando se ensina uma língua estrangeira deve-se, pois, ter-se a consciência de que há
uma necessidade de elaboração de materiais que atendam as diversas situações reais de
comunicação. Com base nisso, o referido autor traz um conceito de nível limiar de uma língua
que visa trazer uma proposta de aplicação ao ensino de português para estrangeiros que
residem no Brasil, vejamos:

O conceito de nível limiar se insere no contexto das teorias de habilidades básicas de


comunicação em língua estrangeira. Uma teoria de habilidades básicas de
comunicação é caracterizada como aquela que propõe uma descrição de um nível
mínimo de poder comunicativo lingüístico que permita ao usuário-aprendiz conviver
funcionalmente nas situações mais comuns de língua-alvo em que se encontre.
(ALMEIDA FILHO, 1997, p.56).

Uma parte dos estudantes de língua estrangeira cursa a língua fora de seu país, por
participarem de programas de intercâmbio ou por outros motivos pessoais e familiares. Nesse
caso, esses alunos vivem em situação de imersão no país de língua-alvo, portanto é natural e
lógico que os mesmos se deparem com diversas situações reais de comunicação. Em função
disso, o conceito limiar posto por Almeida Filho se preocupa com esse conhecimento básico
que ele chamou de limiar para que o aprendiz possa conviver socialmente e saiba se
comunicar e interagir nas mais variadas situações de comunicação. Nessa proposta de ensino,
estão implícitos os conceitos de competência comunicativa e abordagem comunicativa de
ensino.
A competência comunicativa deve ser entendida como um conhecimento necessário
das regras gramaticais como também das regras contextuais ou pragmáticas (implícitas ou
explícitas) na criação e desenvolvimento de um texto, seja oral ou escrito, de modo coeso e
coerente. Desse modo, a abordagem comunicativa do ensino está voltada para as situações de
uso efetivo da língua, sem deixar de levar em consideração todos os aspectos, desde os níveis:
fonológico, morfossintático, semântico, pragmático discursivo.
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O autor propõe um modelo de gramática para um nível limiar de proficiência em


português que visa atender as necessidades comunicativas de um aprendiz de português como
língua estrangeira:

[...] o programa é organizado não somente em termos de elementos gramático-


estruturais mas também, e talvez prioritariamente, em termos de como esses
elementos estruturais são utilizados para realizar funções comunicativas em eventos
de fala, dependendo dos papéis sociais/ psicológicos, cenários e tópicos que um
grupo de alunos necessite para manejar a língua de maneira apropriada. (ALMEIDA
FILHO, 1997, p. 57).

Diante dessa proposta, podemos verificar que o autor coloca ênfase no ensino de uma
gramática que busque atender as necessidades de um estudante de PLE, no que diz respeito ao
desenvolvimento da competência comunicativa, fazendo com que o aluno adquira
conhecimento da língua, principalmente no uso efetivo da linguagem e com isso fazê-lo com
que se sinta seguro ao falar e escrever.
Tendo vista essa proposta com base comunicativa de Almeida Filho, pautando-se na
proposta de trabalhar com diversos gêneros textuais, possibilitando o desenvolvimento das
competências comunicativas, tanto as de recepção quanto as de produção, temos como
suporte metodológico nesta Universidade a prática pedagógica inserida no PLEI, que trabalha
nessa perspectiva. É importante destacar que o foco deste trabalho está voltado para uma
dessas quatro habilidades, no caso, as produções escritas produzidas por esses aprendizes nas
aulas de PLE.
O PLEI também é cadastrado pelo MEC como um posto aplicador do Exame CELPE-
Bras, responsabilizando-se, assim, pela divulgação e aplicação da prova duas vezes ao ano.
O objetivo do exame CELPE-Bras é testar a capacidade de comunicação oral e escrita
em Português do Brasil nas diversas situações reais do cotidiano. Como o exame é de base
comunicativa, requer do aluno o desenvolvimento das quatro habilidades de comunicação: a
escrita, a leitura, a audição e a fala. O aluno é avaliado por meio da produção de quatro textos
em diferentes gêneros textuais, realizados em duas horas e trinta minutos e por uma entrevista
oral durante vinte minutos.
Considerando essa estrutura indicada pelo exame a mais adequada para verificar a
proficiência do candidato na língua alvo, nós, professores do PLEI, trabalhamos também com
a abordagem comunicativa, pautando-nos na compreensão e produção de Gêneros Textuais,
tanto na modalidade escrita quanto oral.
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Para o trabalho desenvolvido em sala de aula, utilizamos o material didático “Bem-


Vindo”, composto de livro do aluno, livro de atividades e um CD. Com esse material,
podemos trabalhar com a leitura e o áudio de textos relativos aos módulos que compõem cada
nível, incluindo exercícios variados e tópicos gramaticais. Além disso, cada professor elabora
um material complementar, destinado ao nível pelo qual se responsabiliza.
Sabemos que, na proposta metodológica adotada, a abordagem comunicativa, as
tarefas de produção e de compreensão de textos são vinculadas à teoria de gêneros, sendo
necessária, previamente, a construção de um modelo didático do gênero que seja definido com
clareza tanto para o professor quanto para o aluno, expondo o objeto que está sendo ensinado,
guiando, assim, as intervenções didáticas. Visando atender às diversas circunstâncias de
comunicação, é feito um trabalho de produção textual por meio do qual abordamos o
conteúdo gramatical, fazendo um recorte, a cada atividade, daquilo que precisa ser trabalhado
e aprimorado.
A seguir, trataremos da concepção de texto no âmbito da Linguística Textual e, em
seguida, da definição de gênero textual e de alguns gêneros em específico, os quais
constituem o objeto de análise neste trabalho.
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2. Conceituando o texto como objeto de análise

A ciência ou Linguística do texto teve início em 1960, mas ganhou maior proporção na
década de 80, tendo por função o estudo dos textos, pois eles exercem um papel comunicativo
muito importante na sociedade. Inicialmente, a Linguística Textual preocupava-se em
descrever os fenômenos sintático-semânticos ocorrentes no nível da frase, ainda de forma
muito limitada, é o que se denominava de “análise transfrástica”, e ainda não havia estudos
mais aprofundados sobre os fenômenos ligados a coesão e a coerência.

O texto era conceituado como uma seqüência ou combinação de frases, cuja


unidade e coerência seria obtida através da reiteração dos mesmos referentes ou do
uso de elementos de relação entre segmentos maiores ou menores do texto. (KOCH,
2006, p.23).

Só na década de 80 é que surgem novas vertentes para a linguística de texto, mas


fundamentadas em pressupostos básicos comuns como a de Beaugrand e Dressler, Givón,
Schimdt entre outros.
Dentro da linguística, encontramos várias denominações para Linguística Textual,
como por exemplo: Teoria da estrutura do texto, Estrutura do mundo, Textologia etc.
Muitos autores da área Linguística Textual consideram o texto como um enunciado
qualquer oral ou escrito, longo ou breve, provido de significação. Nesse aspecto, podemos
dizer que a noção de texto pode ser entendida como uma unidade de sentido, ou melhor, uma
manifestação linguística das ideias de um autor, que serão interpretadas pelo leitor/ouvinte, de
acordo com seus conhecimentos linguísticos e culturais.
Uma concepção de texto é que “O texto é muito mais que a simples soma das frases (e
palavras) que o compõem: a diferença entre frase e texto não é meramente de ordem
quantitativa; é sim, de ordem qualitativa.” (KOCH, 2007, p.11).
Com efeito, na construção de um texto escrito ou oral, usamos mecanismos para
garantir ao interlocutor a compreensão do que se lê/diz. Esses mecanismos linguísticos que
estabelecem a conectividade e a retomada do que foi escrito/dito são os referentes textuais e
buscam garantir a coesão textual para que haja coerência, não só entre os elementos que
compõem a oração, como também entre a sequência de orações dentro do texto. No entanto,
vale ressaltar que há muitos textos destituídos de recursos coesivos que apresentam coerência,
o que pode ser atribuído ao contexto de produção.
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Ao produzirmos um texto, temos que levar em consideração o contexto de produção,


pois é constituído pelas representações sobre o local e o momento da produção, considerando
o emissor e o receptor. Esta ideia foi defendida quando se afirmou que: “a coerência depende
em muito de fatores pragmáticos, já que a compreensão do texto depende de fatores como:
contexto de situação, intenção comunicativa, características e crenças.” (KOCH, 1999, p.74).
Segundo a autora, o processo de compreensão obedece a regras de interpretação
pragmática, ou seja, depende do conhecimento do uso efetivo dos falantes nas situações reais
de comunicação, uma vez que se deve levar em conta a interação, desejos, quereres,
preferências, normas e valores dos interlocutores. Isso nos permite dizer que é uma forma de
realizar linguisticamente objetivos específicos em situações sociais particulares. Então a
escolha de um determinado gênero está ligada à intenção comunicativa a que se destina o
texto, por isso deve se levar em conta para quem se fala, sobre o que se fala e com que
finalidade, adequando os enunciados de forma a tornar a mensagem compreensível.
Passemos, em sequência, a tratar da definição de gênero textual e da apresentação dos
operadores argumentativos, considerando que são dois aspectos essenciais à posterior análise.

2.1 Definindo gênero textual

Sabemos que todas as nossas produções, sejam orais, sejam escritas, se baseiam em
formas padronizadas denominados de gêneros textuais. Os gêneros textuais são textos
encontrados na sociedade de forma materializada, isto é, são a materialidade linguística dos
discursos, tais como: artigo, resumo, entrevista, notícia, bilhete, receita, conto, crônica,
romance e tantos outros, situados no tempo e espaço:

Os gêneros textuais são os textos que encontramos em nossa vida diária e que
apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições
funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados na integração
de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas. (MARCUSCHI, 2008, p.155).

Quando o planejamento das aulas de produção textual se faz a partir da concepção de


gêneros textuais, pretende-se possibilitar ao aprendiz a compreensão da atividade escolar
como a simulação de uma atividade real. Logo, quando o aluno produz um determinado
gênero específico, ele deve aprender a levar em conta as situações de produção que envolvem
a prática da escrita, como: o interlocutor – a quem se escreve –, o objetivo – para que se
escreve –, a estrutura/forma – como se escreve – e a linguagem adequada ao objetivo e ao
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interlocutor. Desenvolvem-se, assim, as competências para a produção do gênero na vida


social, quando for necessário. Essa mesma concepção se aplica às práticas de escrita em PLE,
pois, se o propósito da aprendizagem da língua estrangeira é a comunicação nesta nova
língua, como já posto, pressupõe-se, na abordagem comunicativa, que o aluno esteja apto à
recepção e à produção dos textos de circulação social.
Como os gêneros selecionados para a análise neste trabalho- artigo de opinião, carta
argumentativa, resenha crítica – são textos nos quais se prevê um alto grau de argumentação,
exige-se que o aluno/autor conheça os recursos linguísticos responsáveis pela organização da
estrutura argumentativa do texto, entre eles, os operadores argumentativos.

É importante salientar que se trata, em alguns casos, de morfemas que a gramática


tradicional considera como elementos meramente relacionais-conectivos, como mas,
porém, embora, já que, pois etc., e, em outros , justamente de vocábulos que,
segundo a N.G.B., não se enquadram em nenhuma das dez classes gramaticais.
(KOCH, 2002, p.103).

Com base na definição dessa autora, passemos agora para alguns exemplos destes
operadores e suas respectivas funções. É importante ressaltar que eles podem aparecer nos
mais diversos contextos de interação e, inclusive exercendo uma outra função.

2.2 Apresentando os operadores


Os operadores argumentativos são elementos textuais muito importantes na construção
de um texto. Eles são os responsáveis pela coesão textual e, além de fazerem o encadeamento
dos segmentos do texto, eles estabelecem uma relação semântica entre as partes (causa,
conclusão, contradição, entre outras). Os operadores são utilizados para introduzir vários tipos
de argumentos. Vejamos abaixo alguns operadores mais comuns vistos em Koch (2002).

Ainda- Operador que pode servir como marcador de excesso temporal/ não temporal ou como
introdutor de mais um argumento a favor de uma determinada conclusão.
EX: Ele ainda não se considera derrotado. (marca temporal)
Convém frisar ainda que... (Introdutor de mais um argumento).
A fim de que- Operador de finalidade.
EX: Cheguei cedo, a fim de adiantar o trabalho.
Como- Operador que estabelece relação de comparação ou de conformidade.
EX: Choveu como chove em Manaus. (comparação)
Choveu como foi previsto. (conformidade)
18

Embora- Operador de concessão.


EX: Acompanhei o comício, embora não tenha sido da minha vontade.
Então /Portanto- Operadores conclusivos que orientam argumentos para uma direção.
EX: Estudou muito, portanto sairá bem no exame
A vida é feita para ser bem vivida, então não faça mal a si mesmo.
Já que- Operador que introduz causalidade, explicação.
EX: Já que o Brasil é um país democrático, devemos ter voz. (causa)
Mesmo que- Operador que introduz um enunciado concessivo.
EX: Mesmo que fosse bom jogador, não ganharia a partida.
Mas/Entretanto- Operadores que introduzem ideias opostas orientadas para conclusões
contrárias.
EX: O carro bateu, mas ninguém se feriu.
Ele saiu cedo, entretanto não chegou na hora combinada.
Não só ... mas também- Operadores que somam argumentos a favor de uma mesma
conclusão.
EX: Ele não é só inteligente mas também muito articulado.
Por isso- Operador que introduz uma conclusão para argumentos anteriores.
EX: Ela estava doente, por isso não foi à aula.
Porque/Pois- Operadores de coordenação que introduzem um ato de justificativa/explicação
no enunciado anterior.
EX: Devolva-me o livro, pois estou precisando dele
Ela não vai entrar porque está com pouco tempo.
Se- Operador que estabelece uma relação de condição.
EX: Viajaremos se não chover amanhã.
Somente- Operador denotativo de exclusão.
EX: Ele somente fica satisfeito quando come tudo.
Tão ...quanto- Operadores que estabelecem relação de comparação entre elementos do
enunciado.
EX: O Brasil é tão auto-suficiente quanto os Estados Unidos.

A partir dessa breve explanação dos marcadores argumentativos, trataremos, no próximo


capítulo, da análise dos operadores nos textos dos alunos com o propósito de averiguar como
eles aparecem e que função eles exercem nas produções textuais dos alunos de PLE.
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3. Analisando a produção escrita em PLE: artigos, cartas e resenhas

Os textos selecionados para esta análise foram elaborados em aulas de PLE para os
níveis Intermediário e Avançado. Para tanto, foram destacados trechos retirados de um corpus
constituído por oito textos, produzidos por oito alunos de nacionalidades diferentes. Dentre os
alunos estão 02 de nacionalidade inglesa, 01 haitiana, 02 francesa e 02 alemã.
O corpus que aqui se encontra está delimitado a: 02 cartas argumentativas (nível
avançado); 04 artigos de opinião (02 do nível intermediário e 02 do nível avançado); 02
resenhas crítica (do nível intermediário). Apresentamos nossa análise, cujo objetivo é verificar
o uso de operadores argumentativos como recursos sintático-semânticos e pragmáticos como
responsáveis pela organização da estrutura argumentativa.
Para a realização do trabalho de produção escrita, foram escolhidos textos pertinentes
e atuais, retirados de sites na internet para que pudessem servir de base para a concretização
da proposta de produção textual, a partir da discussão na sala e da troca de impressões. Para a
produção dos artigos foram feitas as seguintes leituras: Pais devem estabelecer limites, de
Chiara Papali; Haja kbça p/ tanta 9idade, de Claúdia Pinho e À procura do próprio estilo, de
Alexandre Taleb. Já para a produção das resenhas, a leitura utilizada foi a seguinte: A
importância do papel da mulher na sociedade, de Ana Claúdia Ferreira de Oliveira. E, por
fim, para a realização das cartas argumentativas foi feita a leitura de A polêmica da
obrigatoriedade do voto, de Marcos Galvão.
É importante frisar que este trabalho de análise textual é uma prática que é recorrente
nas aulas de português como língua estrangeira, uma vez que os textos solicitados são
corrigidos e encaminhados aos alunos para o processo da reescrita.
Feitas essas observações, vale ressaltar algumas características dos gêneros
argumentativos artigo de opinião, carta argumentativa e resenha crítica para, em seguida, a
análise dos textos selecionados.

3.1 Artigo de opinião

O artigo de opinião, como o próprio nome já diz, é um texto em que o autor expõe seu
posicionamento diante de algum tema polêmico e atual. É um texto dissertativo, por isso
espera-se que o autor apresente argumentos sobre o assunto abordado, e isso depende do
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conhecimento que ele possui sobre o assunto. Portanto, o escritor, além de expor seu ponto de
vista, deve sustentá-lo através de informações coerentes e admissíveis. A linguagem desse
gênero é objetiva, mas pode apresentar a subjetividade do autor diante do assunto.
Uma característica muito peculiar deste tipo de gênero textual é a persuasão, que
consiste na tentativa do emissor de convencer o destinatário, neste caso, o leitor, a adotar a
opinião apresentada. Por este motivo, é comum presenciarmos descrições detalhadas, apelo
emotivo, acusações, humor satírico, ironia e fontes de informações precisas. É muito comum
encontrarmos artigo de opinião em jornais e revistas, por isso são textos considerados de fácil
acesso, segundo Cabral, 2010.

3.1.1 Análise dos textos

Texto 1 (artigo de opinião – nível Intermediário)

Hoje em dia, o uso de computadores para crianças não pode ser proibido. Em muitos lugares
crianças têm acesso ao computador: seja em casa, na lan house, na escola ou nas casas dos
amigos. Por isso é muito importante que a criança não só sabe mexer no computador, mas
também sabe se proteger, pois o uso do computador, principalmente o uso da internet traz
muitos perigos.

No trecho acima, o autor introduz sua opinião a respeito do uso dos computadores
pelas crianças, deixando evidente que é quase impossível essa proibição vigorar. Isso é
demonstrado através do operador de disjunção inclusiva seja, que direciona o argumento
favorável à problemática em questão, pois, mesmo que haja uma proibição, elas terão
facilmente acesso à internet.
Em seguida, temos um operador de conclusão por isso, que irá desencadear um novo
argumento que servirá para sustentar a sua defesa quanto ao uso de computadores pelas
crianças, embora faça no final da oração uma advertência do uso da internet representado pelo
pois, que é operador de coordenação explicativo, responsabilizando-se, assim, pelo
encadeamento de um novo enunciado apresentado como justificativa do que foi dito
anteriormente.
Considerando o estudo sobre escalas argumentativas de Ducrot, segundo Koch (2002),
temos que não só...mas também são operadores que somam argumentos em favor de uma
mesma conclusão, ou melhor, estes operadores têm a mesma força argumentativa. Podemos
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observar que, apesar da presença de problemas gramaticais, como por exemplo a troca do
Presente do Subjuntivo pelo presente do Indicativo (sabe/saiba), e de pontuação, percebemos
que o autor já domina alguns recursos responsáveis pela coesão textual, e, esses desvios da
norma presentes no texto não trazem prejuízos para a coerência do texto.

Texto 2 (artigo de opinião – nível Intermediário)

No momento, nós estamos numa era, em que as crianças e adolescentes criam uma nova
linguagem para facilitar a comunicação na internet ou celular [...] Eu acho que essa maneira de
abreviar tem tanto vantagens como desvantagens [...] como já foi dito, é um método que facilita
os bate papos e mensagens, mas por outro lado, somente deveria ser usado para conversar com
amigos ou pessoas novas, porque eu acho que a gente mais velha não conhece essas abreviações.

Além disso, esse modo de escrever tem desvantagens, sobretudo, para as crianças que estão
aprendendo escrever e já usam a internet e as abreviações para comunicar.

O artigo é introduzido com uma visão da flexibilidade da língua e do uso de


abreviações pelos usuários, no caso as crianças e adolescentes. E, logo em seguida, traz dois
operadores tanto/como, estabelecendo uma relação de comparação entre elementos (vantagens
e desvantagens).
Em seguida, a expressão como já foi dito retoma a mesma ideia do início do texto de
que as abreviações facilitam a comunicação por serem mais rápidas e práticas.
Percebemos o uso do operador adversativo mas com valor de adição. O denotador de exclusão
somente é usado quando o autor assume a posição de que essa é uma linguagem dos jovens e,
mais adiante, ele, por meio do conector de explicação porque, justifica que pessoas com mais
idade não conhecem essa nova “invenção”e, consequentemente, não saberão se comunicar por
meio delas.
Mais adiante, temos um conector além disso, usado para adicionar uma nova
informação no enunciado, introduzindo as desvantagens. Observamos que o conector
sobretudo sinaliza o argumento mais forte da escala, orientando o sentido para uma conclusão
negativa. O já é uma marca de operador de tempo que tem por função introduzir, no
enunciado, conteúdos pressupostos, no caso, pressupõe-se que, antes, elas não usavam a
internet, agora elas usam.
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Texto 3 (artigo de opinião – nível Avançado)

Entretanto há pessoas que querem se vestir de certa forma, mas simplesmente não podem arcar
a roupa, e portanto têm que se vestir numa maneira que satisfaz seus recursos.

No geral, penso que o estilo pessoal é algo importante para cada pessoa porque é um modo de
alto-expressão, e de mostrar essas personalidades. Ao mesmo tempo de vez em quando
precisamos ajuda, não somente para elegir a roupa mas também para nos vestir dentro de um
orçamento.

Neste artigo, podemos observar que ele apresenta alguns problemas gramaticais, como
problemas de pontuação, de escrita de algumas palavras ( elegir/eleger) e de regência verbal,
quando o autor usa o verbo precisar sem a preposição de. Embora haja esses problemas, o
sentido do texto não fica prejudicado, pois percebemos o emprego de alguns conectores
coesivos que estabelecem a coerência do texto.
Verificamos o uso do operador entretanto introduzindo um enunciado com valor de
ideia contrária a uma anterior, e mais adiante, o uso do conectivo portanto para se chegar a
uma conclusão em direção ao enunciado anterior.
Temos também o operador discursivo porque que, segundo Koch (2002), introduz um
ato de justificativa ao enunciado anterior e, um outro que liga dois argumentos a favor de uma
mesma conclusão, representado pelo mas também.

Texto 4 (artigo de opinião – nível Avançado)

Na nossa sociedade a aparência define a primeira idéia que os outros vão ter de você. Você
queria conhecer uma pessoa mal-vestida, com roupas mal-ajustadas? Não, já teria um
julgamento negativo dela. Então eu posso entender que algumas pessoas precisam de ajuda afim
de encontrar seu próprio estilo.

A maioria das pessoas querem somente estar bem vestidas para dar uma boa imagem na
sociedade ou no meio do trabalho. Por isso o personal stylist encontra sucesso. Se a pessoa tem o
dinheiro eu não vejo onde está o problema para pagar um especialista. É muito caro, mas existe
pessoas pouco seguras de si que precisam de conselhos.

Neste texto, podemos encontrar alguns desvios gramaticais, como de pontuação, de


concordância nominal e de tempo verbal.
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No primeiro trecho, observamos que o autor utiliza-se de um conector de finalidade a


fim de para, em seguida, apresentar um argumento em defesa de que algumas pessoas
precisam de serviços de um especialista em moda, para poderem encontrar sua identidade.
Mais adiante, verificamos o uso do denotador de exclusão somente e, em seguida, é
empregado o operador conclusivo por isso, que desencadeia uma conclusão a um argumento
anterior. Ainda, temos o conector se introduzindo um enunciado condicional.
Em seguida, ele usa o mas que é o operador de oposição por excelência, para
argumentar que, mesmo sendo de alto custo o serviço de um personal stylist, há pessoas que
não se sentem a vontade de vestir certas roupas e, então, precisam de dicas para melhorar sua
forma de se vestir ou até mesmo encontrar sua personalidade.

3.2 Carta argumentativa

A carta argumentativa difere-se do artigo de opinião, pois é direcionada a um


interlocutor específico. Sendo assim, faz-se um apelo a tal interlocutor, ou apenas se expõe a
concordância ou a discordância em relação a algo dito por este interlocutor. É necessária a
utilização de argumentos específicos e concretos, no sentido de convencer aquele a quem a
carta é direcionada. Pode-se utilizar um tom mais formal ou mais informal, até mesmo com
uma certa agressividade ou ironia, desde que isso seja parte da estrutura argumentativa do
texto.

3.2.1 Análise dos textos

Texto 1 ( carta argumentativa – nível Avançado)

Escrevo ao senhor em relação ao voto sendo obrigatório neste país. Embora seja bom que todo
mundo decida quem vai ser o nosso próximo presidente, governador, deputado, etc, a realidade é
que muitas pessoas não sabem nada sobre a política e alguns simplesmente não querem votar.

Neste texto, percebemos que é uma carta argumentativa, direcionada a um


interlocutor específico, que possui um cargo político. Logo, a carta tem por finalidade
expressar a opinião do aluno/autor sobre o voto obrigatório no Brasil.
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O autor utiliza-se de argumentos que favorecem a livre escolha do eleitor de votar ou


não. Para isso, observamos o uso do operador embora, funcionando com valor de concessão,
que introduz dois argumentos que levam a conclusões contrárias.

Já que o Brasil é uma democracia, devemos ter a liberdade de não votar, se não quisermos. Na
maioria da Europa, não é obrigatório votar, e os resultados lá geralmente têm sido positivos. Por
um lado, é bom que muitas pessoas exerçam o seu direito de votar, mas por outro lado, o voto
não obrigatório reforça a democracia. Espero que o senhor pense em sério sobre mudar o
sistema.

Mais adiante, o operador já que é empregado com um valor semântico de causalidade,


podendo ser substituído por uma vez que, e, em seguida, deparamo-nos com um operador de
condição se.
Observamos também o conector adversativo mas, para reforçar sua posição a favor do
livre arbítrio que as pessoas deveriam ter com relação ao voto, e, inclusive ele argumenta que
na maior parte da Europa o voto é livre e que essa política traz bons resultados, porém, é
importante ressaltar que o autor reconhece a importância de escolher os nossos
representantes.

Texto 2 ( carta argumentativa – nível Avançado)

Sr presidente, eu sei que votar em todos os países do mundo é um dever que cada cidadão deve
cumprir, mas chegar até obrigar as pessoas é, digamos, um pouco absurdo. Se estamos falando
da democracia que é um sistema permitindo as pessoas de expressar livremente, porque tem essa
obligação de votar?

Nesta primeira passagem do texto, podemos ver o conector mas opondo dois
argumentos orientados em direção contrária, fazendo prevalecer o segundo, pois é o que ele
irá defender no desenvolvimento do texto. O operador se tem valor de condição, uma vez que
se tratando de um país democrático, o voto não deveria ser obrigatório, e isso é questionado
pelo autor no decorrer do texto.

Imagine um país que não anda bem, que não tem escola suficiente, onde as pessoas passam fome,
onde não existe a segurança, é absurdo de obligar a população a votar, pois votamos quando
queremos que nosso pais seja capaz de responder à necessidade do povo.
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Podemos verificar, em outro momento do texto, que o autor traz um discurso


argumentativo para tentar convencer o interlocutor da sua opinião em favor da livre escolha
de votar ou não. Para isso, ele utiliza a conjunção pois, que introduz uma explicação para um
argumento anterior.

3.3 Resenha crítica

A resenha crítica pode ser conceituada como um texto cujo objetivo é apresentar um
outra obra (texto, livro, filme, peça teatral, espetáculo, exposição, evento etc). É um texto que,
além de resumir o objeto ao qual se refere, faz uma avaliação sobre ele, uma crítica, isto é,
apresenta uma análise ou julgamento de valor sobre o texto resenhado, com base em uma
argumentação convincente, apontando seus aspectos positivos e/ou negativos. Trata-se,
portanto, de um texto de informação e de opinião, segundo Fabrino, 2008.

3.3.1 Análise dos textos

Texto 1 (resenha crítica – nível Intermediário)

Mesmo que ao longo da história o papel da mulher já mudou, na maioria dos casos ela ainda é
responsável pelas tarefas de casa e a educação dos filhos. Isso não é justo, mas ainda hoje eu vejo
que a mulher mesma tem a imagem na cabeça de que fosse ela que tem de fazer as tarefas da
dona-de-casa.

Neste trecho, verificamos que o operador mesmo que introduz um enunciado


concessivo com valor justificativo para um argumento possível. Identificamos que há uma
posição de discordância do autor, quando se utiliza da ideia de tempo, marcada pelo
operador ainda. Em seguida, temos o pronome demonstrativo isso, remetendo à visão de que
só as mulheres são responsáveis pelo lar e pela educação dos filhos. Em seguida, utiliza-se da
conjunção coordenativa de oposição mas para se contrapor a algumas posturas de certas
mulheres, representando o argumento mais forte e decisivo do enunciado.

Por isso concordo com a autora e acho também que a conscientização de igualdade entre homem
e mulher tem que acontecer de dentro das famílias [...] Mas eu acho que no mercado de trabalho
é muito difícil mudar a situação delas. Mulheres ocupam cargos ou postos de trabalho mais
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desqualificados do que os homens, recebem menos salário, enfrentam barreiras imensas na hora
de contratação, ficam menos tempo num determinado cargo e custam a chegar aos postos de
chefia.

Em outro momento do texto, notamos que há um ponto de convergência entre o


produtor do texto com a autora do texto original, lido para fazer a resenha, no que diz respeito
à igualdade entre homem e mulher. Mais adiante, há uma relação de ligação de ideias quando
ele utiliza a conjunção coordenativa de adição também para acrescentar mais um novo
argumento ao texto.

Texto 2 ( resenha crítica– nível Intermediário)

A autora desse texto fala sobre o papel da mulher na sociedade e sobre os preconceitos que
existem com respeito ás mulheres. Ela tem a impressão que há ainda muitos preconceitos em
relação ás mulheres hoje em dia. Ela acha que os problemas originam-se das diferenças entre os
sexos e que a discriminação da mulher tem o origem nos anos de domínio social essencialmente
masculino.

O autor começa introduzindo as informações contidas no texto, obedecendo ao gênero


solicitado, pois a resenha crítica é um resumo, ou seja, uma ideia geral daquilo que será
resenhado para, posteriormente, apresentar sua apreciação crítica.
Este trecho foi retirado de uma produção textual realizada no mesmo nível acima, mas
aqui se verifica um problema de construção sintática. Além disso, o autor repete muitas vezes
as palavras mulheres, ela por apresentar ainda um vocabulário restrito e também constrói
muitos períodos simples em um único parágrafo, sendo que o esperado era que usasse
conectivos para construir a coesão textual.

Ainda hoje em dia muitas mulheres tem desvantagens porque elas são mulheres. Eu penso
especialmente no mercado de trabalho [...] embora elas tem a mesma possisão como os homens.

Podemos verificar também que há problemas na escrita de algumas palavras, como


possisão ao invés de posição, de acentuação, pois não foi usada corretamente a crase e, por
último, também observamos o emprego do verbo Ter no presente do indicativo em tem, onde
só caberia tenham, presente do subjuntivo. O operador argumentativo ainda é empregado
como marca temporal e poderia ser substituído por atualmente.
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No segundo momento do texto, foi empregado o operador de concessão embora,


intoduzindo um argumento orientado para conclusão contrária.

Com esta análise, podemos verificar que alguns textos de determinados gêneros se
apresentam com mais marcas de argumentação do que outros textos. No entanto, é importante
ressaltar que os gêneros textuais analisados neste trabalho são de natureza argumentativa.
Observamos que os textos solicitados como artigo de opinião possuem mais traços
argumentativos do que a carta argumentativa. Isso pode causar certa estranheza, pois é
esperado por parte do produtor de uma carta que ele use seu máximo poder de
convencimento, pois ele se dirige a um único interlocutor.
Para que possamos entender isso, a hipótese é a de que o produtor do texto fica tão
preocupado com a questão da formalidade e o respeito para com seu interlocutor que acaba
deixando sua carta com menos marcas de argumentação. Como já foi dito, todos esses
gêneros analisados exigem um alto grau de argumentação, no entanto, uns mais que os outros.
Diferentemente do esperado, ocorre maior uso dos operadores nos artigos, do que nas cartas,
onde seria o mais esperado.
O estudo dos operadores argumentativos nos textos produzidos por estudantes
estrangeiros nos permitiu avaliar o comportamento que esses operadores exercem e o efeito de
sentido que eles causam nos textos.
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Conclusão

Com este trabalho, podemos concluir que o ensino de português como língua
estrangeira é uma área que merece mais atenção, para que novas pesquisas possam ser
realizadas, embora já existam algumas investigações nesse campo.
Esta análise nos possibilitou perceber que as dificuldades encontradas pelos aprendizes
destes níveis intermediário e avançado ainda estão no campo lexical, pois o que se pode
verificar é que os alunos sentem muita dificuldade no uso das palavras. Portanto, como alguns
têm ainda um vocabulário restrito, podemos comprovar que essa é uma das dificuldades
encontradas por eles. É importante destacar que, mesmo com essas dificuldades, conseguem a
coerência do texto, pois, como observamos, escrevem textos bem elaborados e bem
construídos sintaticamente.
No entanto, a análise feita à luz da semântica argumentativa, revelou-nos que, mesmo
com esses problemas com o uso do léxico, os operadores argumentativos estudados nestes
gêneros textuais artigo de opinião, carta argumentativa e resenha crítica aparecem bem
colocados, exercendo cada um a sua função no texto, estabelecendo assim a coesão textual.
Além do mais, algumas hipóteses foram confirmadas a partir da análise dos textos,
pois os estudantes de PLE tendem a usar com mais frequência um mesmo operador
argumentativo, devido à falta de vocabulário mais amplo e, além disso, observamos que na
escrita de textos de determinado gênero argumentativo, um operador é usado com mais
frequência do que outros, principalmente nas relações de causa e consequência e nas relações
de oposição.
Com efeito, como foi apresentada na nossa análise, o papel que esses operadores
argumentativos exercem nos textos dos alunos de PLE, foi satisfatória, tendo em vista que
eles aparecem de forma bem colocada e, cada um exercendo sua respectiva função nos textos.
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Referências

ALMEIDA FILHO, José Carlos P. de. Dimensões comunicativas no ensino de línguas.


4.ed. Campinas: Pontes, 2005.
_________. O Conceito de Nível Limiar no Planejamento da Experiência de Aprender
Línguas. In: ________; Lombello, Leonor Cabral (orgs.). O Ensino de Português para
Estrangeiros: pressupostos para o planejamento de cursos e elaboração de materiais.
Campinas: Pontes, 1997.
CASTILHO, Ataliba T. de. Nova Gramática do Português Brasileiro. São Paulo: Contexto,
2010.
KOCH, Ingedore G. Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A Coerência Textual. 17.ed. São
Paulo: Contexto, 2007.
KOCH, Ingedore G. Villaça. A Coesão Textual. 21.ed. São Paulo:Contexto, 2007.
_________. Desvendando os Segredos do Texto. 5 .ed. São Paulo: Cortez, 2006.
_________. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1999.
_________. Argumentação e Linguagem. São Paulo: Cortez, 2002.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São
Paulo: Parábola Editorial, 2008.

SITES

CABRAL, Marina. Disponível em: http://www.brasilescola.com/redacao/artigo-opiniao.htm.


(acessado: 10/04/2011).
FABRINO. Ana Maria J. Disponível em: http://www.fflch.usp.br/dlcv/lport/pdf/slp35/04.pdf.
(acessado: 10/04/2011).
30

ANEXOS
31

ANEXO A- TEXTOS DO NÍVEL INTERMEDIÁRIO


32

ANEXO A- TEXTOS DO NÍVEL INTERMEDIÁRIO


33

ANEXO A- TEXTOS DO NÍVEL INTERMEDIÁRIO


34

ANEXO A- NÍVEL INTERMEDIÁRIO


35

ANEXO A- TEXTOS DO NÍVEL INTERMEDIÁRIO


36

ANEXO A- TEXTOS DO NIVEL INTERMEDIÁRIO


37

ANEXO B- TEXTOS DO NÍVEL AVANÇADO


38

ANEXO B- TEXTOS DO NÍVEL AVANÇADO


39

ANEXO B- TEXTOS DO NÍVEL AVANÇADO


40

ANEXO B- TEXTOS DO NÍVEL AVANÇADO


41

ANEXO B- TEXTOS DO NÍVEL AVANÇADO