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Texto de Jean Clottes

O requinte das pinturas de Chauvet modificou as teorias sobre os


primórdios da arte paleolítica, à medida que a equipa de Jean
Clottes desvendou o processo criativo destes artistas do
Quaternário.

Jean Clottes,
director da equipa de investigação que desvendou a arte rupestre
existente na Caverna de Chauvet, descreve a sua emoção nesta
descoberta, e apresenta os planos para a preservação da gruta (em
inglês).

AUDIO
(recomendado para ligações lentas)
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Este é um excerto da reportagem que pode encontrar na
edição impressa da NGM – Portugal.

A Ponte do Arco liga as duas margens do rio Ardèche há pelo


menos 500 mil anos. Nos seus contornos, os homens pré-históricos
podem ter visto a barriga arqueada e o lado esquerdo da cabeça de
um animal, talvez de um mamute ou de um bisonte. Guardado por
uma besta gigante de calcário, o vale parece estar impregnado de
um significado mítico: desde os finais do séc. XIX foram aqui
descobertas cerca de duas dezenas de grutas decoradas. No
entanto, até à descoberta da Gruta de Chauvet, em 1994, a arte de
Ardèche mereceu pouca atenção, comparativamente às imagens de
Lascaux, com 20 mil anos, ou às criações de Altamira, em Espanha.
Os especialistas e o público ficaram cativados com as primeiras
fotografias. Durante décadas, os estudiosos apresentaram teorias
sustentando que a arte tinha evoluído por fases, desde os desenhos
primitivos até às representações naturalistas e animadas.
Atendendo ao sombreado subtil, ao engenhoso uso da perspectiva e
à elegância das linhas, as obras de arte de Chauvet encontravam-se
sem dúvida no topo da evolução. Mas quando os resultados da
datação com carbono chegaram, os pré-historiadores tiveram um
choque: com quase o dobro da idade das descobertas nas grutas
mais famosas, as imagens de Chauvet representavam não só o
apogeu da arte pré-histórica mas também o seu início. Poucos
milhares de anos depois de o homem anatomicamente moderno
surgir na Europa, já as pinturas rupestres eram tão sofisticadas
como no futuro. Até ao momento, existem 30 datações por
radiocarbono, mais do que em qualquer outro sítio de arte
rupestre. Esta datação, aferida para reflectir os anos do calendário,
mostra que os seres humanos usaram estas grutas há
aproximadamente 32 mil anos radiocarbono, ou seja 35 mil anos do
calendário, e a datação directa de 17 obras de arte demonstrou que
foram criadas nessa época. Uma segunda vaga de visitantes chegou
6 mil anos mais tarde, para observar ou pintar o que ainda não
sabemos. Foram necessários 2 anos e milhares de francos para
alargar a estreita entrada, instalar um sistema de segurança e
preparar uma área de trabalho, sem alterar o equilíbrio da gruta. A
equipa de 12 pessoas estudou a arte parietal e os vestígios
humanos e animais no solo. Os peritos em datação, análise de
pigmentos, comportamento animal e outras disciplinas prestaram-
nos assistência, visitando a gruta sempre que necessário.
Beneficiámos igualmente dos conselhos de especialistas em arte
rupestre de 10 países [entre os quais o português Varela Gomes].
Vinte e oito autores colaboraram comigo na realização do primeiro
livro sobre o projecto.* Chauvet nunca foi habitada. Artistas pré-
históricos, crianças e talvez participantes em cerimónias rituais
vieram aqui para conhecer o poder deste santuário subterrâneo.
Depois, parte dos penhascos ruiu, selando a gruta e preservando as
maravilhosas obras de arte.
Leia a história completa nas páginas da National Geographic
Magazine.

Na secção Informações Adicionais a equipa


da National Geographic Magazine
disponibiliza algumas das suas melhores
fontes e informações. Um agradecimento
especial ao Departamento de Pesquisa.
Na caverna de Chauvet, tal como noutras grutas europeias
do Paleolítico, figuram em abundância, pinturas rupestres de
animais. No entanto, existem poucas representações de
humanos. Se estes europeus da Era Glaciar conseguiram
fazer imagens tão naturalistas dos animais que os rodeavam,
teriam claramente igual capacidade de se auto-retratar. A
escassez de desenhos de seres humanos deve ser
consequência da sua própria escolha. As pinturas dos
humanos na arte rupestre europeia são representações
incompletas e estranhas. Embora alguns cientistas tenham
encontrado imagens completas nas grutas de La Madeleine
e Peche-Merle, isso é bastante raro. Com mais frequência os
arqueólogos encontram partes do corpo, como mãos,
cabeças, pénis e vulvas. Imagens completas de uma pessoa
aparecem apenas em esboços, ao contrário das pinturas
animadas e naturalistas dos animais. Alguns temas, como
insectos e roedores, são totalmente ignorados pelos artistas
paleolíticos. Pássaros, cobras e peixes são raros, tal como o
são corujas, hienas e panteras (que aparecem em Chauvet).
Os artistas do Paleolítico também escolheram ignorar o
ambiente: pinturas de nuvens, chuva, sol, árvores, rios ou
montanhas, ainda estão para ser encontrados. Também não
existem representações de cabanas, tendas, ou fogueiras.
Alguns teóricos insistem que as decorações das cavernas são
puros desígnios artísticos que devem ser considerados como
arte pela arte. Mas outros teóricos, à luz da escolha dos
temas, vêem as representações como testemunhos de rituais
mágicos, destinados a assegurar a fertilidade ou o sucesso
na caça. Peritos em arte rupestre afirmam que as imagens e
gravuras remetem para o xamanismo (crença em deuses,
demónios e espíritos ancestrais), e que um xamã, num
transe alucinante, criava arte rupestre para representar
espíritos. Outros ainda, defendem que os artistas da Era
Glaciar representavam os pêlos dos animais como tentativa
para marcar as estações do ano.
- Sue Banerjee
Chauvet Cave
www.culture.gouv.fr/culture/arcnat/chauvet/en/
A caverna de Chauvet modificou radicalmente as ideias da
comunidade científica acerca do desenvolvimento da habilidade
humana moderna para criar arte. Além disso, esta caverna
forneceu informação importante acerca do cenário paleolítico,
com as suas imagens de animais pré-históricos e de pegadas
humanas.
Chauvet Research Team
www.culture.fr/rhone-alpes/chauvet/anglais/lettre3/grotte.htm
Depois da sua descoberta, o governo francês decidiu fechar a
caverna de Chauvet ao público, permitindo apenas o acesso a
uma equipa de investigadores profissionais. Visite este site para
ficar a saber quais as descobertas que esta equipa efectuou.
Lascaux Cave
www.culture.fr/culture/arcnat/lascaux/fr/
Descoberta em 1940 por adolescentes, a gruta de Lascaux
contém uma das maiores representações da arte rupestre. Visite
este site para saber mais acerca das pinturas extraordinárias
desta caverna.
Topo

Chauvet, Jean-Marie, and others. Dawn of Cave Art: The Chauvet


Cave. Harry N. Abrams Inc., 1996.

Chippindale, Christopher, and Paul S.C. Taçon, eds. The


Archaeology of Rock-Art. Cambridge University Press, 1998.

Eyewitness Travel Guide. France. Dorling Kindersley Ltd., 1994.


Topo
Lewis-Williams, David. “Paintings of the Spirit: Rock Art Opens a
New Window Into the Bushman World,” National Geographic
(February 2001), 118-125.

Lauber, Patricia. Painters of the Caves. National Geographic


Books, 1998.

Rigaud, Jean-Philippe. “Art Treasures from the Ice Age: Lascaux


Cave,” National Geographic (October 1988), 482-499.

Marshack, Alexander. “Exploring the Mind of Ice Age Man,”


National Geographic (January 1975), 64-89.

Casteret, Norbert. “Lascaux Cave: Cradle of World Art,” National


Geographic (December 1948), 771-794.