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Nome do painel: “Era uma vez...

a Didáctica de Línguas: enredos, actores e cenários


de construção do conhecimento” (Comunicação 2)

PRÁTICAS COLABORATIVAS NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO E


DA ACÇÃO EM DIDÁCTICA. UM CASO EM PORTUGAL

Manuel Bernardo Q. CANHA1


Isabel ALARCÃO
Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa
Universidade de Aveiro (Portugal)
bernardocanha@ua.pt
ialarcao@dte.ua.pt

Resumo
As relações entre investigação e acção em Didáctica parecem hoje atravessar uma
fase de mudança no sentido de uma crescente aproximação, movimento que tende a
consolidar a identidade epistemológica de uma disciplina que se afirma na circularidade
entre teorização e contextos de prática. Neste contexto, uma cultura relacional de
natureza colaborativa entre os autores e actores desses domínios é entendida como
condição de emergência de ambientes operacionais propiciadores de tal estreitamento.
O caso que aqui se apresenta foi construído no âmbito do trabalho de
Doutoramento do primeiro autor deste texto e constitui exemplo concreto de uma
iniciativa ancorada nas convicções anteriormente expostas. Trata-se do projecto
ICA/DL (Investiga, Colabora e Actua em Didáctica de Línguas), projecto levado a cabo,
em Portugal, entre Outubro de 2003 e Novembro de 2005, por um grupo constituído por
professores do Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa da Universidade de
Aveiro (DDTE/UA) e de uma escola dos ensinos básico e secundário da mesma região,
a Escola Secundária Dr. João Carlos Celestino Gomes, em Ílhavo. Imbuído do ideal
colaborativo, o grupo de trabalho procurou aliar investigação em Didáctica, formação
de professores e práticas de ensino/aprendizagem, na perspectiva do aprofundamento do
conhecimento no domínio da temática específica abordada, do seu próprio
desenvolvimento profissional e da melhoria das suas práticas.
Neste texto, damos conta da avaliação feita pelos participantes na conclusão do
seu projecto. Destaca-se, pois, a sua visão de intervenientes num processo de construção
de conhecimento em colaboração, reservando-se para momentos posteriores, a
divulgação dos frutos da análise empírica realizada pelo autor do aludido projecto de
Doutoramento que enquadrou a iniciativa em foco.

Palavras-chave: Didáctica, investigação, práticas profissionais, cultura e práticas


colaborativas

1
Financiamento: Fundação para a Ciência e Tecnologia.
Painel: "ERA UMA VEZ... A DIDÁCTICA DE LÍNGUAS: ENREDOS, ACTORES
E CENÁRIOS DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO" (Comunicação 2)

SUB-TEMA 1. Condições de produção da didática: tendências e trajetórias (as contribuições teóricas no


campo; a história e a identidade da Didática; a pesquisa e a construção de conhecimento em Didática).

PRÁTICAS COLABORATIVAS
NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO E DA ACÇÃO EM DIDÁCTICA.
UM CASO EM PORTUGAL
Manuel Bernardo Q. Canha & Isabel Alarcão
Universidade de Aveiro/UA, Portugal
bernardocanha@ua.pt
ialarcao@dte.ua.pt
Financiamento: Fundação para a Ciência e Tecnologia

Resumo

As relações entre investigação e acção em Didáctica parecem hoje atravessar uma


fase de mudança no sentido de uma crescente aproximação, movimento que tende a
consolidar a identidade epistemológica de uma disciplina que se afirma na circularidade
entre teorização e contextos de prática. Neste contexto, uma cultura relacional de
natureza colaborativa entre os autores e actores desses domínios é entendida como
condição de emergência de ambientes operacionais propiciadores de tal estreitamento.
O caso que aqui se apresenta foi construído no âmbito do trabalho de
Doutoramento do primeiro autor deste texto e constitui exemplo concreto de uma
iniciativa ancorada nas convicções anteriormente expostas. Trata-se do projecto
ICA/DL (Investiga, Colabora e Actua em Didáctica de Línguas), projecto levado a cabo,
em Portugal, entre Outubro de 2003 e Novembro de 2005, por um grupo constituído por
professores do Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa da Universidade de
Aveiro (DDTE/UA) e de uma escola dos ensinos básico e secundário da mesma região,
a Escola Secundária Dr. João Carlos Celestino Gomes, em Ílhavo. Imbuído do ideal
colaborativo, o grupo de trabalho procurou aliar investigação em Didáctica, formação
de professores e práticas de ensino/aprendizagem, na perspectiva do aprofundamento do
conhecimento no domínio da temática específica abordada, do seu próprio
desenvolvimento profissional e da melhoria das suas práticas.
Neste texto, damos conta da avaliação feita pelos participantes na conclusão do
seu projecto. Destaca-se, pois, a sua visão de intervenientes num processo de construção
de conhecimento em colaboração, reservando-se para momentos posteriores, a
divulgação dos frutos da análise empírica realizada pelo autor do aludido projecto de
Doutoramento que enquadrou a iniciativa em foco.
Palavras-chave: Investigação, práticas profissionais, Didáctica, cultura e práticas
colaborativas

1. Introdução

Apesar da discussão, das interrogações e de alguma divergência de pontos de vista


que ainda perduram entre os didactas em torno das questões epistemológicas da
Didáctica, parece ser consensual no seio desta comunidade científica que os traços de
identidade da disciplina e da sua autonomização face às outras ciências com que
interage se reconhecem na interacção estreita que se estabelece entre o conhecimento
construído através da investigação e as situações de ensino/aprendizagem, seu objecto
de estudo. Deste modo, as relações entre investigação e prática profissional dos
professores afiguram-se cruciais para a sua afirmação identitária.
Estas relações entre estas vertentes didácticas, a investigativa e a profissional,
parecem atravessar hoje uma fase de mudança que evidencia sinais de uma consciência
crescente da necessidade de as aproximar (Canha, 2001), reconhecendo-se a formação
contínua de professores como espaço privilegiado para a efectivação de tal
convergência. O reforço de uma relação de natureza colaborativa entre os intervenientes
nesses domínios parece constituir contexto fértil para a consolidação desta tendência.
O caso de que aqui damos conta, inscrito num projecto de doutoramento centrado
nesta problemática (actualmente em curso), ocorreu em Portugal e envolveu um grupo
de professores do Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa da Universidade
de Aveiro (DDTE/UA) e da Escola Secundária Dr. João Carlos Celestino Gomes,
situada na mesma região. O grupo organizou-se em torno de um projecto que tomou a
designação ICA/DL (Investiga, Colabora e Actua em Didáctica de Línguas) e que
assentou em duas proposições nucleares:
- A colaboração entre académicos (Acds.) e professores das escolas (Profs.),
desenvolvida no âmbito de projectos de investigação em Didáctica de Línguas, e o
comprometimento institucional dos seus contextos específicos de trabalho poderão
aproximar investigação e ensino/aprendizagem de línguas, favorecendo o
desenvolvimento profissional dos sujeitos implicados, das suas instituições profissionais
e dos alunos nas escolas.
- Os contextos locais de formação contínua de Profs. centrada na investigação
poderão constituir espaço privilegiado para o desenvolvimento dessas dinâmicas de
colaboração.
Neste texto, conferimos protagonismo à perspectiva dos intervenientes,
apresentando o resultado do balanço crítico por si realizado na conclusão do projecto.

2. Relações entre Investigação e Acção em Didáctica – uma Cultura de


Colaboração num Horizonte de Possibilidades

Recentemente, definimos Didáctica como “… uma ciência de interface entre


várias áreas do saber, que mobiliza com o fim de compreender e intervir sobre os
acontecimentos em sala de aula, seu objecto de estudo” (Canha, 2001: 36). Neste
entendimento epistemológico, sublinha-se a relação próxima entre os processos de
construção do conhecimento didáctico e o seu campo de intervenção, por outras
palavras, entre as vertentes investigativa e profissional da Didáctica (Alarcão, 1994). De
igual modo, está patente neste pensamento a necessidade de promover laços mais
estreitos entre investigadores e Profs., como factor potenciador do processo de
consolidação identitária da disciplina.
De acordo com o estudo que começámos por referir (Canha, 2001), existem hoje
em Portugal indicadores que põem em evidência o início de uma fase de mudança das
relações em foco. Se, por um lado, a investigação parece ainda arredada dos Profs. e das
suas práticas, ancorada numa cultura eminentemente académica, simultaneamente, é
possível identificar sinais claros de uma consciência emergente entre os investigadores
da necessidade de criar conexões mais estreitas e consequentes entre conhecimento,
processos de construção de conhecimento e prática profissional nas escolas.
É neste contexto que têm vindo a multiplicar-se as vozes de investigadores que
vêem na promoção e no crescimento das relações de tipo colaborativo, nomeadamente
entre investigadores e Profs., caminhos potenciadores de uma maior aproximação entre
investigação e prática em Didáctica bem como do desenvolvimento profissional dos
intervenientes (Alarcão, 2003; Badley, 2003; Day, 1997; Hargreaves, 1995; Lieberman,
2002; Sillam, 2002; Zay, 1998). Esta convicção tem dado origem à realização de
iniciativas concretas, de que são exemplo, entre nós, os projectos levados a cabo pelo
Grupo de Trabalho Pedagogia para a Autonomia, coordenado por Flávia Vieira (Vieira,
2002).
Contudo, ao mesmo tempo, dividem-se os pontos de vista no que toca aos papéis
que os investigadores e, em particular, os Profs. poderão assumir nesses encontros
colaborativos. Se o conceito de professor reflexivo e investigador (Alarcão, 2003; Sá-
Chaves, 2003; Schön, 1983) ganhou já uma expressão incontornável no discurso dos
didactas, são igualmente numerosos os autores que alertam para as dificuldades que
poderão advir da distância entre duas comunidades com identidades alegadamente
distintas (Costa, 2003; Eikrem, 2001; Huberman & Thurler, 1991; Larabee, 2003) e
para as limitações que as exigências profissionais impostas aos Profs. levantam, em
termos da sua disponibilidade efectiva para se envolver em práticas de investigação
sistemática, passíveis de os reconhecer como elementos da comunidade científica
(Costa, 2003; Patrício, 1989). Nesta perspectiva, legitima-se a tradicional
responsabilidade atribuída aos Acds. na construção do conhecimento pela investigação.
A nossa posição actual face a esta discussão fundamenta-se, primeiramente, na
constatação do crescente número de Profs. que se envolve em investigação,
nomeadamente, no âmbito da realização de trabalhos de mestrado e doutoramento.
Acreditamos que esses Profs., que designamos por Professor em Contexto Académico
(PCA) (Canha, 2001; Canha & Alarcão, 2004), reúnem condições privilegiadas de
interface entre o contexto tradicional de investigação e o universo da prática profissional
e que, por isso, poderão ser elementos vitais na dinamização do movimento
aproximativo que defendemos. De acordo com um relatório do governo australiano
(RAG, 2001), esta nossa percepção é já uma realidade naquele país, onde o volume da
investigação produzida por estes profissionais é inequivocamente expressivo. Pensamos
também que o cumprimento das responsabilidades profissionais dos Acds. não é menos
exigente do que o que caracteriza a actividade docente nas escolas. Importa ainda
questionar o próprio conceito de investigação (Alarcão et al, em publicação) e olhar,
com optimismo, para as possibilidades que se abrem pela convergência de esforços de
investigadores (Acds. ou Profs.) e Profs. na prossecução da finalidade que, lhes é
comum, de procura de inovação e melhoria educacional. Na perspectiva da escola
reflexiva defendida por Alarcão (2001; 2003), escolas e universidades deverão
entender-se como parceiros, envolvendo-se institucionalmente em iniciativas comuns,
apoiando e viabilizando os projectos partilhados por Profs. e Acds. (RAG, 2001).
Aliando a nossa experiência pessoal enquanto formador de professores ao
pensamento de outros autores (Day, 1997; Eikrem, 2001; Huberman & Thurler, 1991;
Zeichner, 1995), encontramos nos contextos de formação contínua de Profs.
potencialidades que permitem identificá-los como espaços favorecedores da diluição de
barreiras entre investigação e prática docente. Sobretudo quando os problemas
abordados e as finalidades definidas se relacionam intimamente com as preocupações
práticas dos Profs., acentuando o carácter local da investigação/formação, tendem a
emergir entre eles atitudes de manifesto reconhecimento do valor da investigação,
enquanto corpo referencial de conhecimento e enquanto prática ao serviço da
construção do próprio saber profissional.
Mas o nosso próprio conceito de colaboração, que entendemos como relação
partilhada entre parceiros na prossecução de finalidades comuns e com benefícios
mútuos (Canha & Alarcão, em publicação) e os frutos de um trajecto investigativo
realizado por uma equipa do DDTE/UA (Andrade et al, 2004; Araújo e Sá, Canha &
Alarcão, 2002; Araújo e Sá, Canha, Costa & Alarcão, 2002 e 2003) levam-nos a
compreender a importância de que se reveste a compreensão dos efeitos de um processo
tendencialmente colaborativo no crescimento do conjunto dos seus intervenientes. No
caso das relações entre investigação e prática em Didáctica, o olhar alarga-se assim
também aos Acds., investigadores experientes. E é essa compreensão integrada que
possibilita o conhecimento mais global das sinergias que ocorrem e, assim, a
antecipação de cenários rumo a um desenvolvimento efectivo.

3. Um Caso em Portugal – o Projecto ICA/DL

3.1. Da conceptualização à operacionalização

O projecto ICA/DL foi impulsionado pela convicção do autor do projecto de


Doutoramento que o fez emergir (cf. 1, neste texto) de que a colaboração entre
investigação e prática profissional tem condições para potenciar o desenvolvimento
profissional dos parceiros envolvidos e, em última análise, a qualidade dos processos de
ensino/aprendizagem e de formação da responsabilidade desses intervenientes. Tal
convicção, que veio a ser partilhada pelos restantes elementos do grupo de trabalho que
se constituiu, conduziu à identificação de quatro parâmetros norteadores do processo de
identificação dos parceiros: i) integração de investigadores experientes em Didáctica de
Línguas (DL) – os Acds. ; ii) integração de Profs. de Línguas; iii) rentabilização dos
espaços formais de formação contínua de Profs., entendidos com o contextos propícios
à efectivação das relações colaborativas então em perspectiva; iv) comprometimento das
instituições que enquadram estes profissionais e as actividades em foco no projecto
(investigação, formação profissional e ensino), em alinhamento com o conceito de
Escola Reflexiva (Alarcão, 2003).
O processo de constituição da parceria, iniciado em Outubro de 2003 (mediante
uma proposta nesse sentido dos autores do presente texto aos então potenciais
parceiros), veio a dar origem à celebração de um Protocolo, assinado por 3 instituições:
o Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa (DDTE) da Universidade de
Aveiro (UA), a Escola Secundária Dr. João Carlos Celestino Gomes – Ílhavo e o Centro
de Formação das Escolas do Concelho de Ílhavo (CFECI). Um Documento Anexo ao
Protocolo formalizou um Acordo de Colaboração Interpessoal, assinado por um grupo 5
docentes do DDTE e de 5 docentes da escola, todos da área de Línguas.
Uma vez constituído, o grupo de trabalho assumiu, como finalidade operacional,
implementar e avaliar um programa de formação em DL, no qual a investigação sobre
as práticas surgisse como estratégia colaborativa. Dando seguimento a este propósito, o
referido programa de investigação/formação, reconhecido e acreditado pelo Conselho
Pedagógico-Científico da Formação Contínua (organismo que, no plano nacional,
aprova e supervisiona as acções neste âmbito), concretizou-se em duas fases que
seguidamente se descrevem.
A fase 1 (Janeiro a Julho de 2004) teve como núcleo a concepção do projecto de
investigação/formação em DL que veio a ser desenvolvido em 2005. Com esse fim em
vista, o grupo construiu um percurso de reflexão que começou por incidir na discussão e
clarificação do campo epistemológico da DL e na análise de estudos e projectos de
investigação neste domínio. Seguiu-se a negociação e identificação da temática a
explorar, processo que o grupo desde início consciencializou como particularmente
relevante para o sucesso dos propósitos colaborativos que o animaram. Dele nasceu o
interesse pelo estudo de modos de desenvolvimento da competência de aprendizagem
plurilingue. Tal competência, consignada nos documentos orientadores da gestão
curricular em línguas no nosso país, implica a capacidade do sujeito de aprender
línguas, pela mobilização e gestão de várias dimensões do seu repertório sócio-afectivo,
linguístico-comunicativo, de aprendizagem e interactivo, permitindo-lhe, em suma,
desenvolver a capacidade de interacção com o outro, linguística e culturalmente
diferente de si (cf. Andrade & Araújo e Sá et al, 2003; Byram, 1997; Conselho da
Europa, 2001; Coste, Moore & Zarate, 1997).
A segunda fase ocorreu entre Janeiro e Novembro de 2005 e orientou-se, no
quadro da temática escolhida, para a concepção, experimentação e avaliação de modos
de intervenção didáctica, capazes de promover a autonomia do aprendente escolar de
línguas. O trajecto percorrido incluiu uma reflexão partilhada em torno de experiências
tidas como relevantes para o desenvolvimento profissional e pessoal dos intervenientes,
o aprofundamento do conhecimento sobre a temática em estudo, a construção conjunta
de situações de ensino/aprendizagem e de materiais e instrumentos de intervenção e a
avaliação dos resultados dessas mesmas intervenções, conduzindo a propostas de
reformulação. Em coerência com o projectado contexto colaborativo de trabalho, o
grupo procurou estabelecer relações no seu seio, por referência a dois aspectos tidos
como comuns nos papéis a desempenhar: todos deveriam ser capazes de partilhar
experiências profissionais (pois todos eram professores, embora exercendo a sua
actividade em contextos diferentes); todos eram investigadores (esperando-se dos Acds.
um contributo supervisivo face à sua experiência como investigadores e dos Profs. a
acção investigativa inerente à sua proximidade com o terreno investigado). Em suma,
todos se reconheciam como membros de uma equipa de investigação, apostada em
construir novos rumos na acção educativa e como co-autores dessa acção educativa,
capaz de conduzir a uma redefinição da investigação.

3.2. Avaliação dos processos e produtos – a perspectiva dos participantes

A análise que aqui apresentamos centra-se, por razões que já anunciámos, na


leitura que os intervenientes no projecto em análise fizeram do trajecto percorrido em
comum. No final desse percurso, o grupo sistematizou a sua avaliação num relatório que
deu origem a uma intervenção num encontro científico (Canha, Lopes & Ramos, em
publicação), texto em que fundamentamos a discussão que se segue. Os dados que
permitiram a análise foram obtidos a partir das percepções dos participantes (recolhidas
em documentos reflexivos), das realizações dos alunos da escola durante o período de
intervenção e de um questionário final, aplicado no âmbito do projecto de
Doutoramento enquadrador que temos vindo a referir.
Os resultados parecem ter sido determinados por um processo, por um lado, muito
vivido no confronto e, por vezes, no conflito e tensão emergentes de assimetrias várias.
Entre elas, o grupo dá conta de assimetrias conceptuais, relativamente à própria temática
e à relevância didáctica dos conceitos teóricos, à percepção dos papéis a desempenhar e
desempenhados pelos intervenientes. Evidenciaram-se ainda dificuldades relativas à
gestão do tempo e à compatibilização de disponibilidades, limitações formais impostas
pelas regras reguladoras da formação contínua de professores (designadamente, no que
se prende com a organização do calendário) e a percepção de alguma consequente
limitação do alcance das intervenções junto dos alunos, com impactes, sobretudo, ao
nível da consciencialização e menos do desenvolvimento de capacidades concretas de
acção.
Mas, por outro lado, o grupo pôde igualmente perceber movimentos claros de
aproximação, geradores de encontro, de convergência e de reconstrução,
proporcionados pelo questionamento e pela convicção sempre afirmada nas virtudes da
partilha e do diálogo. Tais movimentos traduziram-se num conjunto de resultados que a
seguir se enunciam, sem qualquer critério hierárquico de organização:
i) Compreensão mais clara do modo como os diferentes parceiros se
percepcionam, designadamente, quanto aos papéis a desempenhar na construção dos
saberes didácticos. Consciência de que esses papéis evoluem ao longo do processo de
construção da relação colaborativa e, assim, da necessidade de sobre eles ir reflectindo,
de modo sistemático.
ii) Aprofundamento e (re)construção da temática e de conceitos centrais do
projecto, integrando-os e reconfigurando-os.
iii) Partilha de processos de construção do conhecimento e de interpretação do
acontecido e do vivido, traduzida e favorecida, particularmente, pelo processo de escrita
colaborativa.
iv) Reforço da auto-confiança individual na relação com o outro (na construção de
conhecimentos, clarificação de conceitos, descoberta da capacidade de competências
pessoais, nomeadamente, a investigativa).
v) Compreensão das lógicas institucionais e do seu reflexo no comportamento e
atitude individuais, capazes de afectar os indivíduos, os grupos e as relações entre eles.
Maior conhecimento do espaço profissional do outro e do próprio espaço profissional,
com consciencialização de alguns obstáculos impostos pela percepção que cada um faz
das prioridades na gestão da carreira (favorecendo alguns domínios de actividade em
relação a outros, designadamente, o presentemente em análise) e identificação de
limitações concretas determinadas por regras/práticas de funcionamento próprias de
cada instituição.
vi) Consciência da necessidade de articulação entre estilos e dimensões
individuais de trabalho e trabalho grupal ou colectivo, particularmente, em ambientes de
orientação colaborativa.
vii) Percepção da relevância de alargamento do tempo na construção das
mudanças em Educação em geral e, no que respeita ao alcance do projecto, na
consolidação de dinâmicas e relações de colaboração e no desenvolvimento, pelos
alunos, das competências em foco.

4. Perspectivas

A análise que apresentamos neste texto foi tecida a partir do olhar dos
protagonistas de um projecto que pretendeu articular processos de construção de
conhecimento em Didáctica, formação de professores e práticas de ensino/aprendizagem
e permite alinhar perspectivas de desenvolvimento das dinâmicas colaborativas que
deram forma ao projecto, em três planos cuja intersecção constitui, a nosso ver, factor
facilitador da inovação.
No Plano da Intervenção Didáctica, destaca-se a consciência da necessidade de
criação de oportunidades alargadas de vivência, pelos alunos, de situações
favorecedoras do desenvolvimento de competências transversais, no caso concreto, a
competência de aprendizagem plurilingue. Esta consciência, agora consolidada pela
experiência, remete para a pertinência de alargar os contextos e dimensões da
experimentação pelos alunos, num tempo que também deverá ser alargado, por oposição
a intervenções pontuais, pouco propiciadoras de desenvolvimento.
O segundo plano, o Plano Institucional e Interinstitucional, reclama um
envolvimento mais directo e assumido, por parte das instituições implicadas em
projectos desta natureza, capaz de conferir uma maior visibilidade às suas dinâmicas e
produtos, na expectativa do seu alargamento a outros profissionais e actores no seio das
suas comunidades. Numa perspectiva clara da gestão institucional como projecto, exige-
se, assim, um comprometimento mais pró-activo, que, no caso da experiência que aqui
se relata, parece ter sido evidente na fase de lançamento do projecto mas mais discreto
ao longo dele. Julgamos que serão necessários um acompanhamento mais próximo e
continuado dos processos e das dinâmicas de trabalho (embora sem comprometer a
autonomia dos diferentes actores) e uma atitude mais facilitadora da resolução de
problemas organizacionais.
Finalmente, o Plano Pessoal e Interpessoal posiciona-se no universo da
individualidade de cada autor e actor na construção do conhecimento e das práticas em
Didáctica, responsabilizando cada um de nós por uma intervenção individual mais
crítica e sistemática na gestão da vida profissional nas instituições e pela assunção de
atitudes de maior abertura face ao outro. Trata-se, em síntese, de assumir na vivência
atitudes mais consentâneas com o ideal colaborativo que perseguimos e que entendemos
como instrumento estratégico e crítico ao serviço da mudança e da inovação em
Educação.

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