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ACHILLE MBEMBE CRITICA DA RAZAO TRADUGAO MARTALA NCA. ANTIGONA No decorrer da minha estada no WISER, pude bene- ficiar do apoio dos meus colegas Deborah Posel, Sarah Nuttall, John Hyslop, Ashlee Neeser, Pamila Gupta e, recentemente, Cathy Burns e Keith Breckenridge. Asp: nas que se seguem devem imenso a amizade de David ‘Theo Goldberg, Arjun Appadurai, Ackbar Abbas, Francoise Vergés, Pascal Blanchard, Laurent Dubois, Bric Fassin, Jan Baucom, Srinivas Aravamudan, Chatlie Piot e Jean- Pierre Chr Pau Gilroy, Jean Comaroff, John Comaroff e a saudosa Carol Breckenridge foram grandes fontes de inspiracao, Agradeco ainda aos meus colegas Kelly Gillespie, Julia Hornberger, Leigh-Ann Naidoo, Zen Marie do Johanines- burg Workshop in Theory and Criticism (JWTC) da Uni- versidade de Witwatersrand. O meu editor Frangois Géze ea sua equipa (Pascale IItis ¢ Thomas Deltombe em particular) mostraram, como de costume, uim irrepreensivel apoio, Agradego as revistas Le Débat, Politique africaine, Cahiers études africaines, Research in African Literatures, Africulture © Le Monde diplomatique, que acolheram os texto: que serviram de base a este ensaio, Por razdes nao expl cadas aqui, este livro é dedicado a Sarah, Léa ¢ Aniel e, também, a Jolyon e Jean. 4 a A questao da raca ‘As paginas que se seguem serio entéo dedicadas & io negra, Por este termo amb{guo e polémico, desig- mos varias coisas ao mesmo tempo: imagens do saber; um modelo de exploracio e depredacao; um igma da submissio ¢ das modalidades da sua snperacao, e, por fim, um complexo psiconfrico. Esta espécie de enorme jaula, na verdade uma complexa rede de desdobramentos, de incertezas e de equivocos, tem a raga como enquadramento. S6 nos é possivel falar da raca (ou do racismo), numa wuagem totalmente imperfeita, dubia, diria até desa- lequada. Por ora, bastara dizer que é uma forma de representagio primaria. Nao sabendo de todo distinguir entre o que esta dentro e o que esta fora, os invélucros e 0s contetidos, cla remete, antes de mais, para os simula- cr0s de superficie. Se aprofiandarmos a questio,a raca seré um complexo perverso, gerador de medos e de tormentos, de proble- mas do pensamento e de terror, mas sobretudo de infini- Imente, de catastrofes. Na sua tas sofrimentos e, event dimensio fantasmagorica, é uma figura da nevrose fébica, obsessiva e, porventura, histérica, 25 Quanto ao resto, trata-se do que se apazigua odiando, mtendo o terror, praticando o alteroci (0 &,cons- tituindo 0 Outro ndo como semelhante a si mesmo, mas como objecto intrinsecamente ameacador, do qual é pre- ciso proteger-se, desfazer-se, ou que, simplesmente, 6 preciso destruir, devido a no conseguir assegurar o seu controlo total’. Mas, tal como explica Frantz Fanon, a raga é também o nome que deve dar-se ao ressentimento amargo, a0 irrepreensivel desejo de vinganca, isto é, raiva daqueles que lutaram contra a sujeigao e foram, no ivro interrogaremos a natureza do ressenti- mento, dando conta daquilo que constitui a raga, a sua profundidade tanto real como ficticia, as relagdes em que se expressa,€ 0 papel que desempenha no movimento que consist, como acontecew historicamente com as pessoas de origem africana, em transformar a pessoa humana numa coisa, num objecto ou em mercadori EFABULAGAO E ENCLAUSURAMENTO. Do Espirito E possivel ficar impressionado com 0 recurso ao conceito lo menos como temos vindo a tragéc-lo. Antes a raga ndo existe enquanto facto natural fisico, Idwin, Nobody Knows My Nome, Fist Vintage International, Nova forque,1993 [1961] ja fungao € desviar a atengao de conflitos iendidos como mais verosimeis — a luta 1a de sexos, por exemplo, Em muitos 1 figura auténoma do real, cuja force ¢ densi- sxplicar-se pelo seu caracter extremamente ‘onstante e caprichoso, ‘nda ha bem ordem do mundo fundava-se num dua- ral que encontrava parte das suas justifica- hho mito da superioridade racials. Na sua vida le de mitos destinados a fundamentar o seu isfério ocidental considerava-se 0 centro do pais natal da razao, da vida universal e da verda- anidade. Sendo o bairro mais civilizado do fentou uum sdireito das gentes». conseguiu edificar uma sociedade civil das nagbes juridicns, ; ‘io de igualdade entce os seres humanos) eo que eles cha Ms c Nott, Trpes of Mankind, Trubner & Co, tres volumes de James Bryce, The Ame