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cadernos pagu (50), 2017:e175008

ISSN 1809-4449
DOSSIÊ CONSERVADORISMO, DIREITOS, MORALIDADES E VIOLÊNCIA

“#queroviajarsozinhasemmedo”: novos
registros das articulações entre gênero, sexualidade
e violência no Brasil*
Adriana Piscitelli**
Resumo

O título deste texto alude a uma das diversas hashtags que


circularam no Twitter, no Brasil, em 2016, como parte das reações
ao desaparecimento e à morte, no início desse ano, de duas
jovens turistas argentinas no Equador. Essas reações tiveram lugar
no âmbito do que foi denominado “primavera feminista no Brasil”
e são inusuais em um país no qual se até agora se prestou pouca
atenção a casos de violência contra mulheres turistas. Tomando-as
como ponto de partida, exploro algumas questões metodológicas
a serem enfrentadas em estudos sobre as relações entre gênero,
violência e turismo e levanto dois pontos vinculados ao debate
mais amplo sobre as relações entre gênero, sexualidade e
violência. O primeiro remete às condições que tornam certos
registros da violência particularmente relevantes para os
feminismos. O segundo ponto se refere às ferramentas analíticas
que as abordagens teóricas feministas oferecem para refletir sobre
essas relações.
Palavras-chave: Violência, Gênero, Sexualidade, Feminismos,
Turistas Estrangeiras.

*
Recebido para publicação em 9 de maio de 2017, aceito em 17 de maio de
2017.
**
Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero-Pagu, da Universidade
Estadual de Campinas, Campinas-SP, Brasil. piscitelliadriana@gmail.com

http://dx.doi.org/10.1590/18094449201700500008
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Apresentação

O título deste texto se refere a uma das diversas hashtags


que circularam no Twitter, no Brasil, reagindo ao desaparecimento
e morte de duas turistas argentinas no Equador, no início de
2016.1 Tomo como ponto de partida essas reações para fazer
alguns comentários sobre um dos novos registros das articulações
entre gênero, sexualidade e violência que, envolvendo o turismo,
tem se disseminado na internet, em mídias feministas e de
circulação geral, no Brasil. A novidade reside em que, até pouco
tempo atrás, a problemática da violência voltada para as turistas
foi pouco contemplada pela produção acadêmica no país2 e não
atraiu a atenção dos ativismos feministas.
Meu interesse nesses registros está vinculado a inquietações
em relação à compreensão de como essas articulações afetam as
mulheres “de fora”, frequentemente estrangeiras, que viajam sem
companhia de homens em locais turísticos em diferentes países,
incluindo o Brasil. Esse interesse está associado a um estudo que

1
Agradeço aos organizadores do Simpósio Especial 003 “Gênero, sexualidade,
intolerância e violência”, na 30 Reunião da RBA (João Pessoa, 2016), Horacio
Sivori, Regina Facchini e Maria Filomena Gregori, a ocasião oferecida para
apresentar uma primeira versão deste trabalho, o generoso debate ali realizado
por Cynthia Andersen Sarti, os comentários e observações dos participantes
desse simpósio e o amplo e cuidadoso levantamento de mídia brasileira e
internacional realizado por Maira Del’Evore, com o apoio da Fapesp. Sou grata
também às participantes do Workshop “Cultura do Estupro”, realizado na
Unicamp em dezembro de 2016 e, particularmente a Adriana Vianna, pelos seus
instigantes comentários. Agradeço ainda a Regina Facchini e a Maria Filomena
Gregori pela substantiva contribuição no desenvolvimento deste texto, a Carolina
Branco Ferreira e Natalia Corazza Padovani e a todas e todos os que
participaram da disciplina que ministramos juntas, “Pensamento pós-colonial,
decolonial e feminismos”, na Unicamp no primeiro semestre de 2017, a imensa
disposição para discutir sobre “essencialismos estratégicos” e sobre as relações
entre formulações teóricas e práticas ativistas.
2
Isso se tornou evidente nos levantamentos realizados para os estudos iniciais
que fiz sobre a problemática em locais de praia no Ceará, no final da década de
2000 e nas pesquisas de iniciação científica e mestrado realizadas por Fernanda
Leão Antonioli (Piscitelli, 2011, 2015; Antonioli, 2008; Motta, 2002)
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explora como, no âmbito da imbricação entre turismo e


socialidade3, as interseções entre gênero, sexualidade, idade,
nacionalidade/regionalidade e classe social alimentam diferentes
modalidades de agência, incluindo aquelas nas quais tensões e
conflitos se materializam em hostilidade e violência.4
Nas reações à morte das turistas argentinas, os ativismos
mobilizaram uma série de noções, frequentemente sintetizadas na
expressão “cultura do estupro”, que fazem parte do arcabouço
feminista do combate à violência sexual contra as mulheres. Essas
noções e os pressupostos nos quais elas se ancoram também
permeiam a produção internacional sobre gênero e turismo que
tem tratado tratou da violência contra as mulheres que viajam sem
companhia masculina. Refiro-me aos estudos sobre relações
sexuais e afetivas estabelecidas entre mulheres viajantes e homens
locais, que tendem a ser englobados nos estudos sobre “turismo
romance” e sobre “turismo sexual feminino”. Não estabeleço
relações entre a morte das turistas argentinas e essas modalidades
de viagens, mas aludo a essa literatura porque, até o momento, é
a produção que se debruçou mais diretamente sobre situações de
violência contra mulheres turistas.
O arcabouço que se manifesta na noção de “cultura do
estupro” certamente é produtivo em termos de mobilizações
políticas. No entanto, e esse é o meu primeiro argumento, os
pressupostos nos quais essa noção se ancora apresentam
problemas quando acionados no plano analítico. Isso é evidente
na literatura sobre gênero e turismo que mencionei. Trata-se de
leituras que, atualizando linhas do feminismo radical nas quais se
concede centralidade ao patriarcado (Dworkin, 1976; Brownmiller,

3
No sentido outorgado a essa noção por Marilyn Strathern (1988), como
criação e manuntenção das relações sociais.
4
Esse projeto está sendo elaborado em colaboração com a professora Susan
Frohlick, da British Columbia University, no Canadá, instituição que apoiou
minha viagem a esse país para elaborar suas primeiras formulações. A pesquisa
envolve as articulações entre violência, gênero e turismo que afetam turistas
entrangeiras originárias de países do norte na região do Caribe, na Costa Rica,
no Ceará, no Brasil e na costa de Ghana, na Africa.
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1975), analisam a violência em termos de desigualdade de gênero,


outorgando um lugar secundário a outras desigualdades. E,
ignorando diferenças entre contextos, dinâmicas de poder e
dimensões de violência, recorrem à utilização do modelo de
violência “doméstica/conjugal” para pensar na violência
perpetrada contra as turistas (Jeffreys, 2003). Minhas preocupações
estão relacionadas às formulações dessas abordagens, que
acabam operando à maneira de uma prisão analítica.
Levando em conta as reações à morte das turistas argentinas
no Equador, levanto dois pontos a partir dos quais é possível
dialogar com o debate mais amplo sobre as relações entre gênero,
sexualidade e violência. O primeiro ponto, desenvolvido nas
primeiras seções deste artigo, remete às condições que tornam
certos registros da violência particularmente relevantes para os
feminismos. Considero a visibilidade adquirida pelo caso dessas
turistas utilizando diversas fontes on-line, incluindo matérias
disseminadas pela grande imprensa e por uma imprensa mais
independente, sem fazer um exame mais detalhado delas. Prestei
particular atenção às mídias feministas, levando em conta a
fundamental relevância da web para considerar os ativismos atuais
(Alvarez, 2014; Rentschler, 2014; Ferreira 2015; 2016; Modelli, 2016).
No entanto, não trabalhei esse material com o rigor metodológico
utilizado nos estudos voltados para a compreensão das
modalidades de ação política possibilitadas por espaços de
sociabilidade on-line (Falcão, 2017). Interessada nas noções
acionadas na visibilização dessas mortes e procurando explorar
como as ideias “se comportam” (Strathern, 1992:xxviii), tratei do
material disseminado por umas e outras fontes como se tivessem
uma continuidade etnográfica.
O segundo ponto refere-se às ferramentas analíticas que as
abordagens teóricas feministas oferecem para refletir sobre essas
relações. Desenvolvo esse ponto nas duas últimas seções do texto,
nas quais considero como os estudos internacionais sobre turismo
têm tratado da violência contra as turistas e reflito sobre os
problemas metodológicos apresentados por essas abordagens.
Meu segundo argumento é que esses estudos, assim como
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algumas discussões mais amplas sobre as relações entre gênero,


sexualidade e violência, ainda enfrentam o desafio de dar conta
das diversas dimensões presentes nessas relações, particularmente
quando se trata da violência que se manifesta nas relações
interpessoais, no âmbito da intimidade.

A construção de um caso

Em fevereiro de 2016, duas turistas argentinas, de 21 e 22


anos, desapareceram no Equador. De acordo com o material
disseminado em mídias internacionais, principalmente nos países
latino-americanos, essas jovens saíram com mochila nas costas
para conhecer a América do Sul e, após terem se separado de um
grupo maior, foram assassinadas no balneário de Montañita.
Segundo essas narrativas, foram presos dois suspeitos, na faixa
dos 30 anos. Um deles confessou ter matado uma das garotas com
um golpe na cabeça, após tentar “abusar dela”5, e acusou o outro
de matar a segunda jovem com uma facada.6 De acordo com
alguns relatos, elas teriam aceitado dormir na casa de um desses
homens porque foram assaltadas e ficaram sem dinheiro. Essas
versões foram imediatamente problematizadas e, segundo
matérias posteriores, o exame toxicológico dos corpos mostrou
que as jovens foram drogadas com um hipnótico, o que deixaria
claro a intenção de “abusar delas”.
As matérias que circularam na imprensa internacional e as
reações a elas são interessantes porque, abrindo a discussão sobre
o “acosso sexual” que sofrem as mulheres quando viajam sem
companhia de homens7, mostram uma disputa entre posições

5
Neste texto, utilizo aspas para me referir a noções êmicas.
6
Entierran a las dos turistas argentinas que fueron asesinadas en Ecuador,
Redacción, BBC Mundo, 1/04/2016
[http://www.bbc.com/mundo/noticias/2016/04/160401_entierran_dos_turistas_arg
entinas_asesinadas_montanita_ecuador_dgm – acesso em: junho 2016].
7
Por que mulheres “viajando sozinhas” são um problema para o mundo, Nexo,
5/03/2016 [https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/03/05/Por-que-
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antagônicas. Matérias mostrando uma leitura negativa das turistas


que viajam sem companhia masculina foram produzidas em
diversos países. No Equador, a vice-ministra de turismo, referindo-
se ao fim dessas jovens, declarou: “isso ia acontecer cedo ou
tarde”, porque elas “viajavam de carona e buscavam festa”.8 Na
Argentina, um psiquiatra considerou essas turistas “vítimas
propiciatórias”. Afirmando não tirar o peso da responsabilidade
dos agressores, ele as descreveu como mulheres que assumem um
alto risco e de alguma maneira formam parte do que mobiliza o
crime.9
As leituras contrárias a essas percepções se expressaram em
diversas partes de América Latina. Nessa linha de debate, o
assassinato das turistas foi vinculado à discussão feminista sobre o
direito de mulheres viajarem sozinhas, que culminou na
disseminação da hashtag #ViajoSola e em vários protestos na
América Latina.10 A reação em defesa das jovens foi evidente nas
mídias feministas, isto é, nas mídias integradas aos ativismos que
dão uma resposta política a conflitos de gênero (McClintock, 2010)
e propõem aumentar o poder das mulheres (Shohat, 2001). No
entanto, num movimento de convergência entre mídias (Modelli,
2016), essas respostas envolvendo noções que se reiteram em

mulheres-“viajando-sozinhas”-são-um-problema-para-o-mundo – acesso em: 29


de agosto de 2016].
8
Blog escrevalolaescreva, 5/03/2016
[http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2016/03/a-sina-das-mulheres-que-
ousaram-viajar.html]. De acordo com as matérias consultadas, essas declarações
teriam posteriormente lhe custado o cargo. “Ministra de Ecuador renuncia por
declaraciones sobre turistas argentinas”, Noticias 24, 10 mar. 2016
[http://www.noticias24.com/internacionales/noticia/111903/renuncia-funcionaria-
ecuatoriana-por-declaracion-sobre-chicas-argentinas/ – acesso em: 30 ago. 2016.
9
Las mochileras, antes de morir: "Viajamos en las cajas de las camionetas".
Bigband news, 1/03/2016 [http://www.bigbangnews.com/policiales/Las-
mochileras-antes-de-morir-Viajamos-en-las-cajas-de-las-camionetas-20160301-
0007.html].
10
pcvasconcellos, “#NiUnaMenos”, Blog “Pela rua virando lata”, 9 mai. 2016
[https://pelaruavirandolata.com/2016/05/09/niunamenos/ – acesso em: 15 ago.
2016].
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redes sociais, blogs, homepages e twitters feministas, foram


rapidamente reproduzidas em matérias da grande imprensa. Nesse
entrelaçamento midiático, a defesa das jovens foi articulada à
exigência de justiça e à reivindicação de que as mulheres possam
viajar em segurança sem companhia masculina.11
Esses textos descrevem como em Mendoza, cidade de
origem das jovens, na Argentina, milhares de pessoas marcharam
em silêncio, com cartazes com a consigna feminista “Ni una
menos”12, exigindo justiça.13 As cidades de Montañita e
Guayaquil, em Equador, também foram palco de marchas.14 No
Peru, a impressionante disseminação do caso nas redes sociais
suscitou a produção de matérias que analisaram as hashtags e
mensagens mediante as quais era defendido o direito das
mulheres de viajar sem companhia masculina.15 O impacto dos
textos sobre o tema e da hashtag #viajosola difundidos por essa
web foram enormes. Algumas semanas depois do anúncio das
mortes, essa reivinidicação era considerada viral e global,

11
#Viajosola: cómo el asesinato de dos turistas argentinas desató un debate
sobre el acoso a las mujeres. Redacción, BBC Mundo, 5/03/2016. In:
http://www.bbc.com/mundo/noticias/2016/03/160304_america_latina_turistas_ar
gentinas_montanita_ecuador_viajosola_ppb.shtml
12
“Ni una menos” é o nome de uma consigna feminista que se expandiu
transnacionalmente e, na Argentina, de um coletivo que, reagindo aos
feminicídios, organizou campanhas multitudinárias, a partir de junho de 2015
[http://niunamenos.com.ar/?page_id=6 – acesso em: abril 2017].
13
“Argentina: Marcham exigiendo justicia para dos turistas asesinadas en
Ecuador”, Correo, 3 mar. 2016 [http://diariocorreo.pe/mundo/argentina-
marchan-exigiendo-justicia-por-dos-turistas-asesinadas-en-ecuador-657907/ –
acesso em: 30 ago. 2016].
14
“Confirman identidad de turistas argentinas muertas en Ecuador”,
Colombia.com, 16 mar. 2016
[http://www.colombia.com/actualidad/internacionales/sdi/133544/confirman-
identidad-de-turistas-argentinas-muertas-en-ecuador – acesso em: 29 ago. 2016].
15
“No viajaban ‘solas’, así responden en redes al asesinato de turistas
argentinas”, Perú 21, 5 mar. 2016 [http://peru21.pe/redes-sociales/no-viajaban-
solas-asi-responden-redes-asesinato-turistas-argentinas-2240623 – acesso em: 12
ago. 2016].
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aparecendo hashtags em outras línguas como #I travel alone e


#Je voyage seule.16
Nesse contexto, a estudante paraguaia Guadalupe Acosta,
tomando emprestada a voz de uma das garotas, escreveu uma
carta que começa com as palavras: “Ayer me mataron…”. É um
texto belo e criativo que denuncia a desigualdade de gênero e a
culpabilização das vítimas de violência sexual e, ao mesmo tempo,
chama as mulheres a reagirem e a multiplicarem as ações para
mudar essa situação. Essa carta se disseminou viralmente nas
redes sociais, chegando a ter 600.000 compartilhamentos em
menos de 10 dias. O ponto que me interessa destacar em relação
a essas reações é que elas também se manifestaram com força no
Brasil, onde rapidamente se disseminaram em português as
hashtags que circularam em outros países, como
#QueroViajarSozinhaSemMedo.

16
“Yo sí viajo sola”, María Fernanda Ampuero, Mujer Hoy, 10 ago. 2016
[http://www.mujerhoy.com/vivir/ocio/201608/03/viajo-sola-mujer-
20160803141235.html – acesso em: agosto de 2016].
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Essa hashtag circulou intensamente em páginas do facebook


no 8 de março, dia internacional da mulher, e se tornou consigna
nas celebrações/protestos desse dia, em 2016, como nas realizadas
pela rede “USP não cala”. Diversas páginas no facebook
divulgaram a carta denúncia de Guadalupe Acosta que, traduzida
para o português, também foi reproduzida na revista Capricho on
line17 e no Jornal El País/Brasil.

18
USP não cala, São Paulo, 8/3/2016.

O material produzido e/ou disseminado no Brasil não é


homogêneo. Em algumas reflexões escritas por mulheres em blogs

17
“Só morta entendi que para o mundo não sou igual a um homem”, Isabella
Otto, Revista Capricho, 4 mar. 2016 [http://capricho.abril.com.br/vida-real/so-
morta-entendi-mundo-eu-nao-sou-igual-homem-939700.shtml – acesso em: 12
ago. 2016].
18
Postagem de Laura Moutinho na página facebook da Rede USP não Cala, em
8/03/2016
[https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10208441381893555&set=pcb.10
208441425054634&type=3&theater – acesso em: ago. 2016].
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de viagens está presente a indignação pelos assassinatos, mas os


comentários estão, sobretudo, voltados para oferecer conselhos
práticos que aumentem a segurança e a diminuição da
vulnerabilidade das viajantes.19 Em blogs e revistas feministas on
line destaca-se a revolta em relação à ideia disseminada em
jornais do exterior, segundo os quais as jovens “estavam
sozinhas”. Essas postagens destacam que o fato de tratar-se de
duas mulheres, e portanto não estarem sós, foi ignorado em razão
de elas não estarem em companhia masculina20 e expressam
revolta em relação ao “machismo que mata” e ainda culpa as
“vítimas”.21 E matérias da grande imprensa reiteraram várias das
ideias de postagens feministas que circularam nas redes sociais. Na
revista Capricho, a autora de um texto sobre o assassinato afirmou
que as jovens argentinas viajavam “juntas” e não
“desacompanhadas”22 e, reagindo à culpabilização das vítimas,
estabeleceu relações entre esse assassinato e a violência sexual da
qual são objeto mulheres e meninas no âmbito de espaços muito
diversos, locais turísticos ou campos de refugiados, chamando a
atenção para a situação de vulnerabilidade à violência comum a

19
Camila: “Quando um mochilão de amigas argentinas termina em tragédia” ,
Blog “MustShareBR”, 1 mar. 2016
[http://mustsharebr.com/2016/03/01/mochilao-argentinas-tragedia-america-do-
sul/ – acesso em: 17 ago. 2016]; Janira Borja: “Mulheres deveriam viajar
sozinhas pelo menos uma vez na vida”, Blog “Burocrata Viajante”, 6 mar. 2016
[http://www.burocrataviajante.com.br/2016/03/mulheres-deveriam-viajar-
sozinhas-pelo.html – acesso em: 15 ago. 2016]; “#ViajoSozinha: assassinato de
jovens turistas não pode intimidar viajantes”, Blog “Lado B Viagem”, 8 mar.
2016 [http://ladobviagem.com.br/?p=1108 – acesso em: 11 ago. 2016].
20
Letícia Bahia, "Elas estavam sozinhas", 4 de marco de 2016, página facebook
da Revista AZMina
[https://www.facebook.com/revistaazmina/photos/a.548351111970610.1073741
829.541675135971541/654491004689953/?type=3&theater].
21
Lola Aronovich: “A sina das mulheres que ousaram viajar ‘sozinhas’”: Blog
“Escreva Lola Escreva”, 5 mar. 2016
[http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2016/03/a-sina-das-mulheres-que-
ousaram-viajar.html – acesso em: 12 ago. 2016].
22
Ver nota 16.
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todas as mulheres, idosas ou adolescentes, independentemente de


idade ou localização.23
A trama tecida pela indignação teve como efeito o “caso”
das argentinas superar o caráter efêmero de muitas denúncias que
circulam na internet. Os twittaços relacionados com a morte das
turistas argentinas no Equador se concentraram no mês de março.
No entanto, o episódio continuou sendo evocado ao longo de
vários meses.24

Mídias e trama política: entre os registros da violência e a causa social

A reação a esses assassinatos no Brasil é inusual,


considerando que durante a década de 2010, assassinatos e/ou
estupros de turistas noticiados pela mídia não provocaram
respostas análogas. Entre esses episódios, vale mencionar o
estupro que teve lugar, em abril de 2013, no Rio de Janeiro. Nesse
mês, os jornais noticiaram o ataque a um casal de estrangeiros,

23
“Só morta entendi que para o mundo não sou igual a um homem”, Isabella
Otto, Revista Capricho, 4 mar. 2016 [http://capricho.abril.com.br/vida-real/so-
morta-entendi-mundo-eu-nao-sou-igual-homem-939700.shtml, Acessado em: 12
ago. 2016].
24
Em maio de 2016, num texto publicado no blog “Pela rua virando lata”, a
autora afirma que as mulheres continuarão viajando sem homens, família e até
sem amigas. E lembra das jovens assassinadas apelando à comunidade de
experiências entre mulheres: “elas eram eu e você, e elas não podem ser
esquecidas. Estamos todas juntas, nem uma a menos”, Pcvasconcellos,
#NiUnaMenos”, Blog “Pela rua virando lata”, 9 mai. 2016
[https://pelaruavirandolata.com/2016/05/09/niunamenos/ – acesso em: 15 ago.
2016]; E em julho desse ano, no artigo postado na página das Blogueiras
Feministas: “Duas mulheres viajando sozinhas… Como assim? Como uma
mulher quer viajar sem companhia uma jovem de 20 e poucos anos refletia sobre
a experiência de viajar sem companhia masculina entrelaçando sua recente
experiência de viagem com a história das turistas argentinas. Texto de Lara
Ramos para as Blogueiras Feministas. 28/07/2016
[http://blogueirasfeministas.com/2016/07/duas-mulheres-viajando-sozinhas-como-
assim-como-uma-mulher-quer-viajar-sem-
companhia/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Fe
ed%3A+BlogueirasFeministas+%28Blogueiras+Feministas%29 – acesso em:
junho de 2016].
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uma turista dos Estados Unidos de 21 anos e seu namorado


francês. De acordo com os relatos, ela foi roubada e estuprada por
homens que teriam saído a “caçar gringos”, enquanto o
namorado foi espancado e forçado a olhar os estupros. Essa
jovem ainda teria sido oferecida a um traficante que a teria
rejeitado por estar em “mal estado”.25
Um dos principais pontos levantados nas mídias brasileiras
em relação a esse episódio é que ele levantaria temores sobre a
segurança de visitantes na Copa do Mundo no Brasil no seguinte
ano. Nas matérias, há comentários sobre os paralelos realizados
por veículos midiáticos internacionais, a CNN e o The Guardian,
entre esse caso, no Rio, e o estupro e violência contra um casal
suíço, no mês anterior, na Índia. Nesse país, o fluxo de turistas
estrangeiros teria diminuido 25%, depois que passou a ser notícia
internacional por episódios de violência contra a mulher, e a
queda nas visitas de mulheres teria sido ainda mais intensa: 35%.26
Em agosto de 2013, de acordo com algumas matérias, o Brasil foi
integrado na lista dos países mais perigosos para as mulheres,
conjuntamente com a Índia, a Turquia, a Colômbia, o México e o
Quênia.27 Após o estupro de uma jovem estadunidense de 16 anos

25
Turista americana foi estuprada oito vezes na van do terror, 8/04/2013,
Veja.com [http://veja.abril.com.br/brasil/turista-americana-foi-estuprada-oito-
vezes-na-van-do-terror/ – acesso em: junho de 2016].
26
Marcos Prates: “Estupro de turista assusta mídia internacional antes da Copa”,
Revista Exame, 1 abr. 2013 [http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/estupro-de-
turista-assusta-midia-internacional-antes-da-copa – acesso em: 24 ago. 2016].
Essas impressões e analogias com o estupro coletivo sofrido por uma jovem
estudante na Índia foram reproduzidas em matérias veiculadas em jornais e
também em um registro de mídia feminista no Brasil. “Imprensa Americana
repercute estupro de turista em van no Rio”, Geledés, 4 abr. 2013
[http://www.geledes.org.br/imprensa-americana-repercute-estupro-de-turista-em-
van-no-rio/ – acesso em: 26 ago. 2016].
27
“Brasil é considerado um dos lugares mais perigosos para turistas mulheres”,
Bahia no ar, 12 ago. 2013 [http://bahianoar.com/brasil-e-considerado-um-dos-
lugares-mais-perigosos-para-turistas-mulheres/ – acesso em: 29 ago. 2016]. Nesse
contexto foi difundida a notícia do estupro de uma turista argentina de 55 anos
em Búzios, “Turista argentina diz ter sido estuprada em Búzios, no Rj”, Portal
G1, 2 set. 2013 [http://g1.globo.com/rj/regiao-dos-lagos/noticia/2013/09/turista-
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em Porto Seguro, em 201528, essa lista, atualizada, foi novamente


divulgada, disseminando a ideia de que o Brasil seria o segundo
lugar mais perigoso do mundo para as mulheres viajantes, só
superado pela Índia e seguido por Turquía, Tailândia e Egito.29
No Ceará, onde realizei pequisas sobre turismo internacional
na segunda metade da década de 2000 (Piscitelli, 2011; 2015), as
notícias sobre estupros e assassinatos de turistas se multiplicaram
na década de 2010. De acordo com diversas matérias, em finais de
2014, uma turista italiana que viajava só foi assassinada em
Jericoacoara.30 Um ano depois, nesse local, foi assaltada e
estuprada uma turista alemã que estava acompanhada por um
austríaco.31 Em 2016, uma turista lituana separou-se de um grupo
de ciclistas no caminho entre Jericoacora e Fortaleza e foi
assaltada e estuprada.32 Nesse mesmo ano, uma turista japonesa

argentina-diz-ter-sido-estuprada-em-buzios-no-rj.html – acesso em: 29 ago.


2016].
28
“Turista Americana de 16 anos é estuprada em praia de Porto Seguro”,
Tribuna da Bahia, 3 ago. 2015
[http://www.tribunadabahia.com.br/2015/08/03/turista-americana-de-16-anos-
estuprada-em-praia-de-porto-seguro – acesso em: 25 ago. 2016].
29
“Brasil é 2º em lista de piores países para mulheres turistas”, Portal Terra, 24
fev. 2015 [https://mulher.terra.com.br/brasil-e-2-em-lista-de-piores-paises-para-
mulheres-turistas,01a2df104acbb410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html –
acesso em: 24 ago. 2016].
30
“Turista italiana é encontrada morta na praia de Jericoacoara”, SINAIS DE
VIOLÊNCIA, O povo on line, 26/12/2014
[http://www20.opovo.com.br/app/ceara/jijocadejericoacoara/2014/12/26/notjijoca
dejericoacoara,3368267/turista-italiana-e-encontrada-morta-em-praia-de-
jericoacoara.shtml – acesso em: abril de 2017].
31
Turista alemã é assaltada e estuprada na Praia de Jericoacoara, 27/12/2015,
Tribuna do Ceará
[http://tribunadoceara.uol.com.br/noticias/segurancapublica/turista-alema-e-
assalta-e-estuprada-na-praia-de-jericoacoara/ – acesso em: junho de 2016].
32
Turista da Lituânia é estuprada no Ceará, Tribuna on line, 30/05/2016
[http://www.tribunaonline.com.br/turista-da-lituania-e-estuprada-no-ceara/ –
acesso em: junho de 2016].
cadernos pagu (50), 2017:e175008 “#queroviajarsozinhasemmedo”

foi atacada com uma paulada na cabeça, roubada e sofreu


“tentativa de estupro” na Praia do Futuro, em Fortaleza.33
O assassinato da turista italiana em Jericoacoara provocou a
mobilização dos movimentos sociais de maneira mais
contundente. No entanto, essa reação foi em defesa não da
mulher morta, mas de uma mulher brasileira, negra, detida como
suspeita. Trata-se de uma farmacêutica, estudante de pós-
graduação no Rio de Janeiro, que tinha tido contato com a vítima
e foi considerada suspeita pela polícia. A prisão, considerada
arbitrária, injustificável e devido ao preconceito, mobilizou
movimentos em defesa dos direitos humanos, o movimento negro
e feministas negras.34 Meus comentários não pretendem
questionar ou relativizar a importância da defesa dessa mulher
negra, detida injustamente. O meu ponto é que até o caso das
jovens argentinas mortas no Equador, a violência contra as turistas
não havia se tornado uma questão relevante para setores dos
feminismos no Brasil.
Como a violência envolvendo essas turistas se tornou
particularmente importante para os feminismos no país? A
construção do “caso” no âmbito da complexa formação do
feminismo atual no Brasil certamente é um fator central no
destaque por ele adquirido. Sonia Alvarez aborda (2014) essa
complexidade considerando os feminismos como campos
discursivos de ação. A autora percebe esses campos como
marcados, nesse momento, por um fluxo horizontal de discursos e

33
Turista japonesa sofre tentativa de estupro em plena luz do dia na ciade mais
violenta do Brasil e a 12o do mundo”, Ariquemes online, 31 jan. 2016
[http://www.ariquemesonline.com.br/noticia.asp?cod=300185&codDep=22 –
acesso em: 26 ago. 2016].
34
Cidinha Silva. Diário do Centro do Mundo. A lição da libertação de uma
carioca acusada da morte de uma turista italiana, 26/08/2015
[http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-licao-da-libertacao-de-uma-
carioca-acusada-da-morte-de-uma-turista-italiana-por-cidinha-silva/ – acesso em:
abril de 2016]; Dois meses depois: Quem matou Gaia Molinari? Entrevista com
Mirian França, 26/02/2015 [http://www.geledes.org.br/dois-meses-depois-quem-
matou-gaia-molinari-entrevista-com-mirian-franca/#gs.Y7hKjgo – acesso em:
abril de 2016].
cadernos pagu (50), 2017:e175008 Adriana Piscitelli

práticas plurais que se expande em diversos setores paralelos da


sociedade civil e para além dela, multiplicando os campos
feministas, conduzindo a uma proliferação geométrica de atoras
que com eles se identificam e a um descentramento no interior
desses feminismos plurais. De acordo com Alvarez, esses campos
são articulados mediante pontos nodais, através de redes político-
comunicativas e de linguagens, sentidos e visões de mundo pelo
menos parcialmente compartilhadas. E nessa expansão e
popularização do feminismo, as chamadas “feministas jovens”,
extremamente heterogêneas, têm adquirido particular visibilidade
e a internet tem adquirido lugar de destaque.
Considerando essa importância, Ferreira (2016) observa
que, no Brasil, desde 2011, entender as manifestações feministas
requer levar em conta as relações mediadas entre redes ativistas
on e off line. Segundo a autora, nesse período a internet tem tido
um papel central na articulação de pessoas e na tradução de
termos, ideais e lutas feministas. A web teria permitido a
constituição de redes que aprofundaram contatos em e entre
grupos já existentes e, ao mesmo tempo, teria criado outras redes
de comunicação como instrumento de identificação e recurso de
ação política, em ações que, sem requerer uma
militância/“consciência feminista” prévia, ampliaram
consideravelmente o número de pessoas atingidas.35 No entanto, a
violência contra mulheres turistas no Brasil ao longo da década de
2010 não chamou a atenção dessas redes.
Paula Lacerda (2013:154) chama a atenção para a maneira
pela qual “os casos” são construídos. De acordo com a autora, a
credibilidade de uma denúncia está associada ao fato de tratar-se
de uma causa de interesse coletivo que, produzindo empatia,

35
A “Marcha das Vadias”, versão brasileira da Slut Walk que se originou no
Canadá, em 2011, reagindo a um policial que, numa fala sobre prevenção ao
estupro na Universidade de Toronto advirtiu às mulheres que não deveriam se
vestir como “putas” (Modelli, 2016:85), é tida por Ferreira (2015) como um dos
acontecimentos feministas mais importantes no Brasil, na primeira metade da
década de 2010, e como exemplo notável da articulação entre redes digitais e
ocupação do espaço público.
cadernos pagu (50), 2017:e175008 “#queroviajarsozinhasemmedo”

suscita a capacidade de sensibilizar-se. Essa sensibilização, porém,


faz parte de processos sociais a serem analisados considerando os
agentes que neles participam, o tempo no qual eles têm lugar e a
história das ações a eles vinculadas.
As reações feministas à morte das turistas argentinas, no
Brasil, adquirem sentido considerando a particular trama política
na qual elas tiveram lugar. As respostas ao assassinato das turistas
argentinas no Equador, mediadas pela internet, tiveram lugar no
âmbito de um momento particular da expansão dos ativismos
feministas que a mídia denominou de “primavera feminista no
Brasil”. Essa expressão alude à organização de diversos tipos de
campanhas e de grandes manifestações de rua, articuladas
principalmente pela web por redes feministas, a partir de 2015.36 A
expressão “primavera feminista” talvez possa ser problematizada.
Isso, porém, não retira a relevância de ter chamado a atenção
para a explosão de manifestações feministas ocorridas durante o
longo processo político, marcado por um crescente
conservadorismo37 e seríssima acentuação na desestabilização de
garantias de direito, que se deu de modo concomitante à grave
crise política que culminou com o afastamento da presidenta eleita
Dilma Rouseff.
Na primeira metade de década de 2010, a web mediou a
intensificação de debates e campanhas sobre violência sexual.
Vale mencionar as discussões sobre denúncia de violência sexual
em campus universitários38 e as campanhas
36
Primavera feminista no Brasil, El País, 12/11/2015
[http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/13/opinion/1447369533_406426.html].
37
Na leitura realizada por Lia Zanota Machado (2016) essa escalada
conservadora teria tido início anos antes, considerando que a grande tensão que
mudou os termos da negociação entre feminismo e Estado se iniciou em
2005/2006. A partir da denúncia do “Mensalão”, na troca de moedas políticas, o
governo teria tido apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil desde que
não levasse adiante o projeto do aborto.
38
Violência sexual é mais comum em festas e trotes, diz professora da USP,
Globo.com, 23/08/2014
[http://g1.globo.com/educacao/noticia/2014/08/violencia-sexual-e-mais-comum-
em-festas-e-trotes-diz-professora-da-usp.html].
cadernos pagu (50), 2017:e175008 Adriana Piscitelli

#EuNaoMerecoSerEstuprada, reagindo à divulgação de uma


pesquisa do Instituto de Pesquisas Aplicadas/IPEA, realizada em
201439 (Modelli, 2016:56), e #meuprimeiroassédio, em abril de
2014.40 Em 2015, porém, as campanhas recrudeceram
aceleradamente reagindo aos ataques de políticos conservadores
aos direitos das mulheres e de pessoas LGBT.
Bila Sorj (2016) sintetiza essas ofensivas, no Congresso
Nacional. Segundo a autora, os ataques operaram em dois planos.
O primeiro se refere às reformas legislativas que representam
retrocessos nos direitos sexuais e reprodutivos, como a que cria
obstáculos para o atendimento, pelo serviço público de saúde, de
mulheres que engravidaram em decorrência de estupro, reduzindo
o acesso ao aborto legal. O segundo plano se refere a uma
ofensiva conservadora sobre as novas visões de cidadania que
foram construídas pelos movimentos feministas, negro e LGBT nas
últimas décadas. Em 2014, por pressão de parlamentares
conservadores foi suprimido do Plano Nacional de Educação o
trecho que, segundo eles, promovia a nefasta “ideologia de
gênero”. O trecho abolido dizia que as escolas deveriam promover
a igualdade de gênero, raça e orientação sexual e ainda ações de
combate ao preconceito sexual, de gênero, e étnico-racial nas
escolas públicas. Desse modo, negava-se a pluralidade e a
diversidade de posições sociais reivindicadas pelos movimentos
sociais.
Sorj (2016) e Modelli (2016) convergem em assinalar que o
clima de campanhas moralizadoras e de retrocesso de direitos

39
Nessa pesquisa, cujos dados foram corregidos pouco tempo depois, 65,1% dos
entrevistados concordaram com a afirmação de que "mulheres que usam roupas
que mostram o corpo merecem ser atacadas". De acordo com a correção só
seriam 26% (Modelli, 2016; “Ipea errou: 26%, e não 65%, concordam que
mulheres com roupas curtas merecem ser atacadas”
[http://veja.abril.com.br/politica/ipea-errou-26-e-nao-65-concordam-que-
mulheres-com-roupas-curtas-merecem-ser-atacadas/].
40
Na campanha se pedia às mulheres que revelassem seu primeiro caso de
assédio sexual ou a primeira vez da qual se lembrassem de terem sofrido alguma
forma de abuso (Sorj, 2016).
cadernos pagu (50), 2017:e175008 “#queroviajarsozinhasemmedo”

individuais impulsionaram os ativismos feministas juvenis.


Manifestações convocadas pelas redes sociais, particularmente, as
“Mulheres contra Cunha”41, entre outubro e novembro de 2015,
tiveram grande adesão e impacto na mídia (Sorj, 2016). E como
reação a esses ataques aos direitos das mulheres teria aumentado
a interação com blogs mais antigos e teriam surgido novos blogs e
páginas feministas na internet (Modelli, 2016). As respostas ao
assassinato das turistas argentinas no Equador tiveram lugar nesse
contexto de efervescência política e inusitada expansão de
manifestações feministas.
Esse “caso” adquiriu no Brasil o estatuto de causa social
feminista nesse tempo de expansão geométrica dos campos
discursivos de ação feministas heterogêneos, nos termos de
Alvarez (2014), de extrema agitação mediada pela web, a partir de
postagens que mobilizaram a empatia coletiva, acionando noções
de desigualdade de gênero, machismo”, violência sexual, e
culpabilização das vítimas e suscitaram emoções apelando a uma
vulnerabilidade comum a todas as mulheres, em contextos
extremamente diferentes.

Violência, gênero e sexualidade

As noções acionadas na disseminação do “caso” das turistas


argentinas no Equador, significativas para os feminismos, remetem
a uma conceitualização que já circulava no país e se difundiu
intensamente em 201642, a de “cultura do estupro”. Esse termo foi
criado nos Estados Unidos, na década de 1970, marcando as

41
Essas manifestações se opunham à aprovação na Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei de autoria do
deputado e então presidente da Câmara Eduardo Cunha, que dificulta ainda
mais o acesso de vítimas de violência sexual ao aborto e a contraceptivos de
emergência (Sorj, 2016).
42
Adolescente é vítima de estupro coletivo no Rio de Janeiro, 26/05/2016, Band
notícias
[http://noticias.band.uol.com.br/brasilurgente/videos/15875174/adolescente-e-
vitima-de-estupro-coletivo-no-rio-de-janeiro.html – acesso em: julho de 2016].
cadernos pagu (50), 2017:e175008 Adriana Piscitelli

diferenças entre leituras do estupro realizadas por feminismos


liberais e radicais. De acordo com Rebecca Whisnant (2013), as
leituras liberais tendem a considerar o estupro como um ataque
neutro, em termos de gênero, à autonomia individual, sendo
análogo a outras formas de ataque e/ou de apropriação ilegítima e
se centrariam sobretudo no dano que o estupro faz a vítimas
individuais. Segundo a autora, as leituras mais radicais afirmam
que o estupro deve ser compreendido como um importante pilar
do patriarcado, vinculado a construções patriarcais de gênero e
sexualidade, no contexto de sistemas mais amplos de poder
masculino e destacam o dano que o estupro faz às mulheres
enquanto grupo.
No âmbito dessas discussões, Susan Browmiller, em um
livro publicado em 1975 que é considerado um divisor de águas
em termos das discussões sobre o tema43, trabalhou com a ideia
da necessidade de examinar os elementos da cultura que
promovem e difundem atitudes violentas, oferecendo aos homens
que integram a população de potenciais estupradores a ideologia
e o estímulo psicológico para cometer atos de agressão
(Brownmiller, 1975:391). Nesse livro já está presente a denúncia da
culpabilização das mulheres que sofrem ataques sexuais. Nesse
mesmo ano, foi produzido um documentário denominado
“Cultura do estupro”44, ao que se atribui a primeira definição
dessa noção, e, na primeira metade da década de 1990, a
coletânea “Transformando a cultura do estupro”. O conjunto
dessa produção é percebido como tendo por alvo as práticas
culturais que reproduzem e justificam a perpetração da violência
sexual (Rentschler, 2014).
As conceitualizações dessa noção que circulam no momento
atual, no Brasil, na web, mostram algumas diferenças, mas

43
Against our will, (Brownmiller, 1975).
44
“Rape Culture”, filme de 1974/5 realizado pelo Cambridge Documentary
Films, produzido por Margaret Lazarus and Renner Wunderlich, que examina as
relações entre as fantasias sexuais no Estados Unidos e o estupro, através de
filmes e outras mídias [https://www.youtube.com/watch?v=3Ew3Pqjw5D8].
cadernos pagu (50), 2017:e175008 “#queroviajarsozinhasemmedo”

tendem a seguir a conceitualização de ONU Mulheres.45 Numa


reelaboração das formulações anteriores, essa conceitualização
considera a “cultura do estupro” como “as maneiras pelas quais a
sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o
comportamento sexual violento dos homens”.
Um aspecto a ser destacado é que várias das noções e dos
pressupostos nos quais se ancora essa conceitualização também
são centrais nas perspectivas analíticas que, na produção
internacional, tratam das relações entre gênero, sexualidade e
turismo e consideraram a violência contra as turistas que viajam
sem companhia masculina. Trata-se dos estudos sobre “turismo
sexual feminino” e sobre “turismo romance”, problemáticas que,
como assinalei na apresentação deste texto, não têm relação com
as viagens das turistas argentinas, mas compõem a literatura que
tratou de maneira mais direta com a violência contra mulheres
turistas.
Estupros, espancamentos e roubos nas relações entre
homens locais e mulheres viajantes de fora, particularmente de
países ou regiões mais “ricas”, foram considerados em estudos
sócio-antropológicos realizados em diferentes partes do mundo,
em análises voltadas para o “turismo sexual”46 protagonizado por
mulheres. Abordagens que hoje denominaríamos de
“interseccionais” prestaram atenção a como gênero, raça,
nacionalidade e classe operam nas distribuições diferenciadas de

45
Porque falamos de cultura do estupro? ONU mulheres, 31/05/2016
[https://nacoesunidas.org/por-que-falamos-de-cultura-do-estupro – acesso em:
julho de 2016]. Refiro-me a essa conceitualização porque ela mantém estreitas
relações com o material levantado na internet, mas levo em conta que circulam,
em estudos acadêmicos e documentos de trabalho, conceitualizações mais
nuançadas da “cultura do estupro” (Engel, 2017)
46
Utilizo o termos “turismo sexual” entre aspas, levando em conta as
divergências sobre essa noção, que abrangem diversos aspectos, envolvendo
principalmente os limites de uma conceitualização inicialmente formulada para
analisar o turismo massivo à procura de sexo comercial no Sudeste da Ásia, e as
percepções sobre como operam as distribuições diferenciadas de poder e as
dinâmicas de gênero nos relacionamentos entre visitantes e nativas/os (Truong,
1990; Opperman, 1999; Piscitelli, 2007; Fosado, 2004; Cabezas 2009).
cadernos pagu (50), 2017:e175008 Adriana Piscitelli

poder em locais turísticos, possibilitando às mulheres consumir


sexo, permeado por fantasias racializadas do exotismo, oferecido
por homens de lugares pobres (Kempadoo, 2004; Davidson, 1999).
Esses trabalhos registram episódios de violência contra as turistas,
mas essa violência não adquire centralidade em análises que
destacam como o poder dessas mulheres torna possível que os
homens locais sejam objetificados e até “sexualmente explorados”
no “turismo sexual feminino”, na base dos privilégios conferidos
pelas interseções entre raça, classe e nacionalidade (Taylor, 2006).
Autoras que, ao contrário, consideram os códigos de gênero
como determinantes, afirmam que as turistas “ocidentais” viajam
a lugares “pobres” a procura de romance e relacionamentos
duradouros e não de consumo de sexo e elaboraram uma noção
diferente: a de “turismo romance” (Pruitt; Lafon, 1995). Há
posições intermediárias no que se refere às práticas sexuais e
afetivas das turistas que viajam sem companhia masculina a
regiões pobres do mundo.47 No entanto, a noção de “turismo
romance” é relevante porque as análises sobre turismo e gênero
que, até o momento, têm concedido centralidade à violência que
atinge as turistas, estão ancoradas em pressupostos que têm
afinidade com essas ideias.
Uma autora importante no que se refere a analisar a
violência contra essas turistas é Sheila Jeffreys (2003). Segundo
ela, as configurações de gênero, independentemente de privilégios
vinculados a raça, classe, nacionalidade, inevitavelmente têm o
efeito de situar as viajantes de países “ricos” em posições
subordinadas e, portanto, alvos de violência. A autora considera

47
Essas posicões intermediárias, destacando a diversidade de relacionamentos
entre estrangeiras de países ricos e homens de regiões pobres, consideram que o
foco dos relacionamentos pode estar no sexo, no romance, em uma combinação
de ambos ou, ainda, na procura de companheirismo (Herold, Garcia; DeMoya,
2001). Essas abordagens não tem concedido atenção à violência perpetrada
contra as turistas, mas sem negar os imaginários racializados e as vantagens
estruturais dessas viajantes, sublinham a fluidez presente em relacionamentos nos
quais desejo e controle são permanentemente negociados, no espaço da
intimidade (Frohlick, 2007, 2011, 2013a; 2013b).
cadernos pagu (50), 2017:e175008 “#queroviajarsozinhasemmedo”

os argumentos baseados em leituras interseccionais como neutros,


em termos de gênero, porque obscureceriam as dinâmicas da
violência masculina. Jeffreys pensa esses argumentos como obra
de feministas marxistas que não percebem o patriarcado como
primário e privilegiam as opressões de classe e de raça sobre as de
gênero. Para demonstrar a inadequação dessas abordagens em
termos das relações estabelecidas por essas turistas, a autora toma
como referência análises de “violência doméstica”48 em contextos
“ocidentais”. Essa violência é considerada efeito da construção da
sexualidade dos homens no âmbito da dominação masculina, que
os conduz a confirmar sua masculinidade por meio de práticas de
objetificação e de agressão – enquanto a sexualidade das
mulheres, construída a partir de uma posição de ausência de
poder, se expressaria de maneiras muito diferentes. Essa
interpretação valeria também para a análise da violência contra as
turistas. Para Jeffreys, as análises adequadas sobre essa
problemática seriam as que recorrem à ideia de uma estrutura
patriarcal englobante como marco explicativo.
Um ponto a ser destacado é que essa leitura torna
praticamente equivalente a violência à qual são sujeitas as
mulheres por seus parceiros/cônjuges em seus locais de origem à
violência à qual são sujeitas as turistas estrangeiras que viajam
sem companhia masculina a regiões “pobres” do mundo. A ideia
é que os privilégios raciais e econômicos são muito mais frágeis
que o privilégio (universal) concedido pelo “estatuto de gênero ou
sexual”.
O recurso de apelar à “violência doméstica”/“conjugal” para
pensar em diferentes modalidades de violência contra as mulheres
perpetradas em diversos contextos é problemática. No entanto, ela
está longe de ser original. Debert e Gregori (2016) observam que a
produção brasileira sobre gênero e violência mostra como a

48
Utilizo a expressão “violência doméstica” entre aspas para destacar que é um
termo utilizado pela autora, e também levando em conta as análises críticas
realizadas por Debert e Gregori (2016) que situam historicamente esse termo no
âmbito da produção brasileira e o problematizam.
cadernos pagu (50), 2017:e175008 Adriana Piscitelli

violência conjugal tem sido a referência praticamente exclusiva


para a violência contra as mulheres e, segundo Gregori (2010),
tem se constituído como o caso paradigmático para descrever a
violência contra a mulher em geral. Aspectos dessa relação
também são visíveis na produção internacional. Nesse sentido,
propostas recentes e orientadas por perspectivas interseccionais
são particularmente interessantes.
Um número especial sobre violência publicado no periódico
Feminist Review em 2016 é significativo. Na produção
internacional há um reconhecimento da heterogeneidade existente
nos estudos que analisam a violência contra as mulheres. Algumas
abordagens concedem a essa violência o estatuto de categoria de
análise, definindo-a de maneira ampla ou mais restrita. Outros
estudos procuram estabelecer “parâmetros científicos” para
mensurar essa violência e, a partir deles, realizar estudos
comparativos. Finalmente, outras perspectivas consideram a
violência contra as mulheres a partir de termos culturais e
politicamente específicos (Jones, 2016). Na introdução a esse
número da revista, as organizadoras optam por definir a violência
contra as mulheres, mas em termos amplos para poder abranger
diferentes tipos de violência em diversas partes do mundo49 (Gill;
Heathcote; Williamson, 2016).
Essas autoras consideram a violência contra as mulheres
como um aspecto destacado da desigualdade de gênero no
âmbito global e também recorrem à ideia de patriarcado, mas,
diferentemente de Sheila Jeffreys (2003), afirmam que essa
violência também está vinculada a outros sistemas de
desigualdade baseados na sexualidade, na raça e na classe. Além
disso, elas consideram que as múltiplas experiências da violência,
cujos métodos, perpetradores e agendas são diversificados, estão
inter-relacionadas, são co-constitutivas e se reforçam mutamente

49
A violência contra as mulheres é definida por essas autoras como englobando
qualquer dano físico, sexual, psicológico, emocional, financeiro ou social causado
a uma mulher por indivíduos, grupos, instituições ou estados, baseado
inteiramente, ou em parte, no fato dela ser mulher.
cadernos pagu (50), 2017:e175008 “#queroviajarsozinhasemmedo”

em diversos planos: individuais, institucionais e no plano do


Estado. E ainda sugerem ter cautela no que se refere à
transposição de compreensões locais, nacionais, regionais e
internacionais de violência contra as mulheres, alertando para o
risco de universalizá-las e de articular respostas/interpretações que,
extrapolando as condições locais, sejam pouco eficazes para as
necessidades específicas das mulheres. No entanto, também elas
acabam centrando-se nas análises da “violência doméstica” (Gill;
Heathcote; Williamson, 2016).
O ponto importante aqui é que mesmo em abordagens
interseccionais que pretendem dar atenção à diversidade de
contextos e a diferentes modalidades de violência, a violência
contra as mulheres adquire o estatuto de categoria de análise e é
representada pela categoria “violência doméstica”, que continua
operando como paradigmática. E o patriarcado persiste como
marco explicativo, embora sua centralidade seja matizada por
outras desigualdades.
Em termos dos estudos sobre gênero, violência e turismo,
análises como a de Jeffreys apresentam o problema de operar
com uma perspectiva essencializante e universalizante de gênero e
poder que, tomando como referência as análises de “violência
doméstica”/“conjugal”, desvinculam as relações entre gênero e
violência da complexidade de dinâmicas políticas presentes nos
contextos nas quais elas têm lugar e das eventuais articulações
entre diferentes dimensões e modalidades de violência. E a
persistência do foco na “violência doméstica” e do patriarcado
como marco explicativo, inclusive em perspectivas que, como a de
Gill, Heathcote e Williamson (2016), afirmam a necessidade de
levar essa complexidade em conta, é intrigante, considerando a
história da produção feminista sobre as relações entre gênero e
violência.
Nos primeiros trabalhos acadêmicos sobre o tema, no Brasil,
na década de 1980, a “violência contra a mulher” era pensada
como um ato em que a mulher se encontra na posição de vítima e
o homem é o operador da violência (Franchetto; Cavalcanti;
Heilborn, 1984). Essa percepção mantém relações com a ideia de
cadernos pagu (50), 2017:e175008 Adriana Piscitelli

que a violência ocorre como resultado de uma estrutura de


dominação cuja base social e simbólica é o Pater-famílias, como
mostram Debert e Gregori (2016) analisando as formulações de
Heleieth Saffiotti, e contribui para compreender a redução da
violência contra as mulheres à violência conjugal e doméstica.
Essa perspectiva também era corrente na literatura feminista
internacional. Dworkin (1975:26) atribuía a violência contra as
mulheres ao Patriarcado, instituição cuja unidade social básica era
a família. Esse termo estava associado à ideia de Pater-famílias –
cujo significado seria proprietário de escravos. De acordo com a
autora, nos “velhos tempos” o estuprador de uma mulher
ocuparia o lugar do seu pai como seu proprietário. No entanto, as
análises sobre as relações entre gênero e violência foram
rapidamente tornando-se mais complexas.
Vale lembrar os esforços de teorização, no final da década
de 1980, entre as feministas “do Terceiro Mundo”, “pós-coloniais”
e “transnacionais”, contestando, como fez Chandra Mohanty
(1988), a ideia de uma conspiração masculina internacional e de
uma hierarquia de poder ahistorica, na forma de uma noção
monolítica de patriarcado ou de dominação masculina. Nos inícios
da década de 1990, Henrietta Moore (1993)50 chamava a atenção
para a necessidade de pensar as relações entre gênero e violência
numa perspectiva interseccional e levando em conta as dinâmicas
sociais no entrelaçamento de planos, nacionais e internacionais.
Na décadas de 2000 e 2010, uma explosão de riquísima
produção brasileira e internacional sobre as relações entre gênero
e violência mostrou a fertilidade dessas observações. Trata-se de
uma literatura que, afastando-se de explicações circulares sobre as
relações interpessoais, abriu novos caminhos analíticos. Refiro-me,
particularmente aos estudos vinculados às gestões administrativas

50
Procurando refletir sobre gênero e violência em uma diversidade de contextos
e níveis, nacional e internacional, a autora considerava como gênero e raça
remetiam a diferenças muito reais entre grupos e indivíduos, e também se
tornavam em linguagens que representavam o poder como sexualizado e
racializado, imbricadas em processos políticos e econômicos que estão fora do
controle das comunidades locais (Moore, 1993).
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do Estado (Vianna; Farias, 2011), às re-organizações étnico


territoriais no processo de formação de novos Estados (Das, 2011;
Schvartz Peres, 2011), às novas características assumidas pelos
conflitos armados nos quais a violência contra as mulheres deixou
de ser um efeito colateral, tornando-se em objetivo estratégico
nesses cenários (Segato, 2014) e, em termos amplos, à violência
que tem lugar em espaços/situações que estão fora do âmbito do
privado, como a perpetrada por desconhecidos no brutal estupro
coletivo que teve lugar num ônibus em Nova Delhi, em 2012 (Roy,
2014).
O conjunto dessa diversidade de abordagens sobre as
relações entre gênero e violência aponta para um problema
metodológico presente em várias perspectivas, que tratam da
violência que atinge as mulheres, incluindo aquelas que viajam
sem companhia masculina. Refiro-me ao modelo de violência
“doméstica/conjugal” utilizado para analisar diferentes
modalidades de violência vinculadas às relações interpessoais,
independentemente do contexto e das dinâmicas e dimensões de
violência envolvidas. Nesse sentido, as leituras mais complexas
das relações entre gênero e violência provocam a impressão de
que apenas alguns “tipos” ou modalidades de violência
permitissem romper essas grades analíticas, desafiando a
aplicabilidade do modelo de violência “doméstica”/“conjugal”,
como os conflitos coletivos e/ou distantes do âmbito da
intimidade. Rita Segato (2014) faz uma distinção entre os crimes
de guerra e os crimes de motivação sexual, crimes ordinários de
gênero ou da intimidade, chamando a atenção para as diferenças
entre a violência de gênero que se materializa em cenários
impessoais, desvinculados da intimidade e a violência que
responde a motivações pessoais. O desafio a ser ainda enfrentado
parece ser articular essa complexidade na violência contra as
mulheres nas relações interpessoais e no âmbito da intimidade.
Esse conjunto de abordagens também aponta para tensões
internas no campo político/acadêmico em torno das relações entre
gênero e violência, particularmente visíveis nas análises realizadas
em perspectivas interseccionais. O campo da violência contra as
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mulheres foi conformado décadas atrás, considerando-a


basicamente como expressão da dominação masculina. Como
assinalam Debert e Gregori (2016), quando esse campo se
constituiu, na década de 1970, a “condição das mulheres” era
interpretada por meio de pressupostos universalizantes,
considerando a opressão como uma situação compartilhada por
elas, para além de suas diferenças e dos contextos históricos e
culturais por elas habitados.
Ao longo das décadas, esses pressupostos foram
problematizados incisivamente em diversas áreas de atuação
feminista, implodindo a ideia de “condição feminina” e de
dominação masculina universal (Piscitelli, 2002; Corrêa, 1999). No
entanto, as relações entre violência e gênero parecem colocar um
desafio particular a essas problematizações: como olhar para um
fenômeno percebido como tendo alcance global, levando em
conta especificidades culturais, sem estereotipar, sem generalizar,
mas considerando que a violência sexual e física contra as
mulheres, como ameaça permanente, parece ter impactos em
todas as mulheres?
Defrontadas com essas questões, diversas autoras feministas,
inclusive várias que procuram trabalhar em abordagens
interseccionais, acabam afirmando a idea de que no mundo, para
além de outras considerações, as mulheres continuam a enfrentar
os efeitos de relações de poder desiguais entre homens e mulheres
e apelando à noção de patriarcado (Jones, 2016).
No âmbito dessa tensão, na articulação entre ativismo e
teoria (Mohanty, 1988) e no exercício de práticas teóricas como
formas de ativismo (Spivak, 1990), várias consignas e afirmações
dos feminismos, como os acionados nas reações ao “caso” das
jovens turistas argentinas mortas no Equador, em outras
manifestações enfrentando a violência contra as mulheres e
também em trabalhos acadêmicos, atualizam pressupostos
feministas ora universalizantes, ora essencializantes, no que se
refere a gênero e poder.
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Práticas feministas e essencialismos

Anos atrás, Spivak (1990) respondeu uma pergunta


formulada por Elizabeth Grosz sobre o recurso à universalização
para discutir a opressão das mulheres. Nessa ocasião, Spivak
afirmou a importância de escolher estrategicamente um discurso
não necessariamente universal, mas essencializante, pelo menos
ocasionalmente. Para Spivak, nesse momento, era necessário ter o
objetivo de opor-se aos discursos do essencialismo e do
universalismo. No entanto, estrategicamente isso não seria
possível, porque o essencialismo opera como um recurso que
pode oferecer poder para lutar contra “o outro lado”. Portanto,
seria mais importante utilizar esses recursos do que repudiá-los,
embora sendo vigilantes no que se refere às próprias práticas
teóricas.
Essas observações contribuem na compreensão do
acionamento de essencialismos na teorização e no enfrentamento
à violência. No entanto, vale observar que se os essencialismos
podem ser produtivos, abrindo possibilidades de ação individual e
coletiva, também envolvem riscos, sobretudo em termos teóricos.
Nesse sentido, no âmbito das discussões sobre as relações entre
gênero e violência, as noções e pressupostos vinculados à “cultura
do estupro”, que mantêm relações com as noções acionadas nas
denúncias do assassinato das turistas argentinas oferecem um
exemplo.
A noção da “cultura do estupro” que circula na web está
informada por uma concepção feminista na qual ela é vista como
expressão do poder masculino. Os materiais utilizados para
explicar como ela opera, remetendo a uma ideia de dominação
masculina que atravessa fronteiras, a consideram como resultado
de uma “socialização masculina” vinculada à violência que, às
vezes, também parece estar fora do tempo, e adquire diversas
expressões, materiais e simbólicas, na produção de propagandas,
na produção e no consumo de pornografia e prostituição. E a
culpabilização da vítima é recorrentemente vinculada ao
“machismo” e ao “patriarcado”. O uso político dessa noção
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certamente é eficaz. Oferecendo, nos termos de Alvarez (2014),


uma linguagem e remetendo a uma visão de mundo
compartilhada, possibilitou, no Brasil, um impressionante debate
sobre a violência e as desigualdades que permeiam práticas
corriqueiras, tidas como inocentes, como o “fiu fiu”. No entanto,
essa noção é complicada em termos conceituais. E esse é um
ponto ignorado em análises feministas que utilizam essa noção
sem problematizá-la (Rentschler, 2014).
Um dos problemas dessa expressão é a utilização da noção
de cultura. Num sugestivo texto, publicado 20 anos atrás, Lila Abu
Lughod (1996) levanta como ponto central que na antropologia a
noção de cultura, utilizada para explicar e compreender a
diferença, teria sido a ferramenta essencial para criar um “outro”,
em processos que contribuem para produzir essa diferença,
tornando-a fixa e criando separações que inevitavelmente
carregam um sentido de hierarquia.51 Uma das vantagens
atribuída à noção de cultura foi a de que retiraria a diferença do
âmbito do inato, do natural, sendo percebida como aprendida e
como algo que pode mudar. Mas, apesar dessa intenção anti-
essencialista, essa noção acabou quase congelando as diferenças,
outorgando a elas e à separação entre grupos de pessoas que
promovem o ar do autoevidente. O Orientalismo é um exemplo,
ao traçar as diferenças entre habitantes do “Ocidente” e “Oriente”
de tal maneira que poderiam ser consideradas inatas. E essa
fixação das diferenças envolve diversos procedimentos analíticos:
o destaque concedido à coerência cultural; situar os “outros” fora
do tempo, muitas vezes ignorando tanto processos históricos como
conexões e interconexões, nacionais e transnacionais, de pessoas,
formas culturais, mídias, técnicas e mercadorias.
Essa noção apaga diferenças importantes entre
masculinidades, cristalizando homens na posição de algozes e
mulheres na posição de vítimas, alimentando a atualização da
afirmação de Andrea Dworkin (1976:20), para quem existe um

51
Ela se refere à prática da antropologia como o estudo dos “outros” por um self
“Ocidental” não problematizado e não marcado.
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único modelo de sexualidade masculina: “sob o patriarcado, o


filho de toda mulher é seu potencial traidor e também é o
inevitável estuprador ou explorador de outra mulher”.52 Além
disso, a noção “cultura do estupro” também apaga a percepção
de que o estupro não é apenas uma arma da dominação de
gênero, mas dos racismos, colonialismos e nacionalismos (Sorj,
2016b).
Em termos políticos, um dos problemas dessa noção reside
em como ela se presta para traçar hierarquias entre feministas e
alimentar enfrentamentos entre elas. Tomo como exemplo os
recentes ataques, no Brasil, às putafeministas, prostitutas
organizadas que se reivindicam coletivamente como feministas
diante de outras feministas e que lutam pela regulamentação da
prostituição. Feministas contrárias a essa posição, atualizando
ideias contra o exercício dessa atividade formuladas por autoras
como Dworkin (1976) e Catherine Mackinnon (1982)53, autoras
que consideram essa atividade como inerentemente violenta, têm
atacado as reivindicações dessas prostitutas em ações marcadas
por uma intensa violência simbólica, expressada a partir de noções
vinculadas à “cultura do estupro”. As acusações vão além de
negar os direitos reivindicados pelas prostitutas como direitos das
mulheres: convertem os objetos dessas reivindicações –
descriminalização do entorno da prostituição e regulamentação
laboral da prostituição – praticamente em causa da violência
contra as mulheres e as putafeministas em cúmplices da “cultura
do estupro”.
O que me interessa destacar é que, no âmbito das disputas
constitutivas do campo feminista, essas reações acionam a noção

52
No original: “Under patriarchy, every woman’s son is her potential betrayer
and also the inevitable rapist or exploiter of another woman”.
53
Catherine MacKinnon (1982) pensa a heterossexualidade como
institucionalização da dominação sexual masculina e da submissão feminina.
Segundo a autora, a supremacia sexual masculina funde a erotização da
dominação com a construção social do feminino e do masculino. E a
prostituição, o estupro e a pornografia são as expressões mais agudas dessa
institucionalização e da instituição do gênero por ela realizada.
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de “cultura do estupro” exercendo uma violência que talvez seja


intrínseca à conceitualização de cultura, quando ela reprime ou
ignora outras formas de diferença. E que, nesse caso, se
materializa no ataque cruel a outras vozes feministas.

Considerações finais

Neste artigo tomei como ponto de partida as (inusuais)


reações feministas, no Brasil, à violência perpetrada contra as
jovens turistas argentinas mortas no Equador. Considerar as
condições de produção dessas reações e as noções e pressupostos
nelas acionadas me ofereceu um fio condutor para refletir sobre as
ferramentas analíticas existentes para analisar as relações entre
gênero, sexualidade e violência no âmbito do turismo.
Acompanhando ativismos e produção teórica, esse percurso
mostrou como noções que se atualizam na complexa formação do
feminismo atual, no Brasil, “dialogam” com as que permeiam a
produção teórica sobre gênero, violência e turismo e sobre gênero
e violência, em termos mais amplos.
O caminho trilhado sugere que os problemas presentes nos
estudos sobre gênero, violência e turismo são análogos aos que se
encontram em outras análises de violência contra as mulheres que
tomam a violência “doméstica/conjugal” como modelo
paradigmático, indepentemente das desigualdades e dimensões de
violência envolvidas. Esses problemas remetem a outras
dificuldades teóricas, quando a força das análises interseccionais
se dilui ante a força adquirida pelo Patriarcado como estrutura
englobante, o que acontece, particularmente, quando a violência
tem lugar na intimidade. Finalmente, o contraponto entre noções
e pressupostos acionados nas formulações teóricas relativas à
violência contra as mulheres e nos ativismos, tomando como
referência ideias vinculadas à “cultura do estupro” acionadas na
defesa das turistas argentinas, aponta para uma fusão entre as
noções acionadas nessas duas dimensões políticas, marcadas por
certa essencialização.
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Para encerrar este texto, retomo os comentários de Spivak


sobre a utilização de essencializações nos diversos âmbitos da
prática feminista, lembrando sua advertência sobre a importância
da vigilância no que se refere às práticas teóricas. Talvez exercer
essa vigilância possibilite problematizar a fusão, sem
distanciamento analítico, entre as noções e os pressupostos
acionados em mobilizações coletivas e no trabalho teórico.
Se a política radical, como afirmou Strathern (1988), procura
elementos de identidade para realizar mudanças, uma produção
acadêmica radical questiona o terreno no qual são compartilhadas
as experiências e se constrói a identidade. Nesse sentido, para a
autora, a política radical, é “conservadora”, pois é obrigada a
operacionalizar conceitos ou categorias já compreendidos ou
aceitos. As reflexões críticas sobre os essencialismos da
antropóloga maya Aura Cumes (2014) convergem com esse
comentário de Strathern.
Cumes observa que utilizar e aceitar temporariamente uma
posição essencialista pode ser necessário para dar maior força ao
discurso e à ação política talvez porque a lógica hegemônica
apenas compreende os seus próprios termos. O problema seria
que o “essencialismo defensivo” é produzido em função/reagindo
a outros essencialismos, num caminho que sacrifica a observação
constante da realidade e sacrifica também a produção de
conhecimento sobre ela. E não há garantias de que o
essencialismo, mesmo que seja acionado como temporário, não se
torne uma espécie de verdade, conduzindo a desprezar uma
mirada crítica e inquisitiva sobre os processos sociais. E isso
sucede mesmo que os essencialismos se conformem mais numa
chave política do que analítica, no sentido de descrever e
problematizar a realidade. A autora sublinha que com isso ela não
quer dizer que uma noção “política” seja menos importante que
uma noção “analítica”, mas se refere ao que sucede quando
ambas são confundidas. Talvez, então, uma vigilância de nossas
práticas teóricas possa contribuir para abrir caminhos férteis nas
futuras análises sobre as diversas dimensões presentes nas relações
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entre gênero e violência, inclusive quando ela se manifesta nas


relações interpessoais, no âmbito da intimidade.

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