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Introdução

O direito agrário remonta a tempos antigos, pois o homem desde antes precisava retirar seu
alimento da terra para sua sobrevivência. O cultivo, a criação de animais e os agricultores já
se faziam presentes no tempo antigo e união de grupos era necessário para sobreviver. No
Brasil a história do direito agrário se inicia a partir do Tratado de Tordesilhas, em que após a
chegada de Colombo a América já havia uma preocupação em proteger as leis pela corte
espanhola.

A partir deste momento surgiriam os primeiros latifúndios e que posteriormente, com a


colonização criou as léguas das sesmarias, onde se percebia o privilégio dos próprios
portugueses em latifundiar as terras. Essas léguas duraram até o ano de 1822. Com o
desrespeito ao tratado de Tordesilhas houve uma desenfreada ocupação no território
brasileiro. Nesse contexto firmou se a “ Lei das Terras”, tendo em vista que uma das
finalidades era a de legitimar a posse de terras devolutas. Como essa Lei de Terras não
satisfez os anseios da época, igualmente nos dias de hoje, em que existe inúmeras e vastas
áreas de terras com um pequeno número de pessoas, posteriormente as Constituições vinham
regulando tal assunto, como o texto constitucional de 1891, que regulamentava áreas
destinadas à defesa de fronteiras.

Assim, com este trabalho pretende-se saber quem é o titular ou proprietário da terra, quais
são as instituições de tutela, condições de concessão de título de uso e aproveitamento de
terra e quem tem direito aos mesmos (pessoas físicas ou colectivas, nacionais ou
estrangeiras) e, por fim, fazer o estudo comparativo com o regime moçambicano. Para
alcançar esse objectivo, a pesquisa sera qualitativa, exploratória confrontando a doutrina e
legislação brasileira e moçambicana concernente à matéria que se pretende pesquisar.

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1. Propriedade de Terra

1.1. Conceitos gerais

O direito agrário está inicialmente disciplinado no Constituição da Republica Federativa do


Brasil de 1988, no art. 22, inciso I, em que “compete a União legislar sobre: I (...) direito
agrário”. Direito agrário é o conjunto de normas jurídicas concernentes ao aproveitamento
do imóvel rural 1. Por outras palavras, o direito agrário é o conjunto sistemático de normas
jurídicas que visam disciplinar as relações do homem com a terra, tendo em vista o
progresso social e económico do rurícola e o enriquecimento da comunidade 2.

A regulação do direito agrário, bem como a função social a terra, sempre estará presente no
conceito da disciplina. O direito Agrário é o conjunto de princípios e normas que, visando a
imprimir função social à terra, regulam relações afeitas à sua pertença e uso, e disciplinam a
prática das explorações agrárias e da conservação dos recursos naturais.

O progresso social e económico também faz presente no direito agrário, haja vista que os
conflitos oriundos do acesso a terra se fazem até os dias actuais. Tal assunto será abordado
em um tópico específico.

1.2. Titulares da propriedade agrária

A propriedade da terra não é um direito natural neste país. Ao contrário de um imaginário que
se reproduz, o processo histórico mostra que o direito à posse da terra é tão jovem quanto a
formação da República brasileira. Esta terra, fonte de matérias-primas preciosas, que
estruturou inúmeros ciclos agrários (cana-de-açúcar, café, cacau, borracha) até 1850 estava
sob o domínio da Coroa Portuguesa. Era Portugal quem tinha o Brasil como parte de seu
império marítimo e que concedeu o direito de uso da terra à terceiros, com as
chamadas Capitanias Hereditárias e Sesmarias para estimular o povoamento e dominação
territorial. O facto de ser um país agrário não significou distância das negociações de mercado
(nacional e internacional) desde a época dos descobrimentos há mais de 500 anos. A
1 OPITZ, Sílvia C. B., Curso Completo de Direito Agrário, 8ª edição, Editora Saraiva, São Paulo, 2014, p.60
2 RODRIGUES, Gaspar Rodrigues, Direito Agrário, 2ª edição, Editora jus Podivim, Rio de Janeiro, 2010,
p.34

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colonização do Brasil é contraditória e está em perfeita sintonia com a acumulação primitiva
de capital dentro de um processo global de transformações económicas. Muita gente no Brasil,
Portugal, Países Baixos, Inglaterra ganhou muito dinheiro com o que aparentemente é
considerado primário: a escravidão e o melado da cana3.

As terras brasileiras são públicas e particulares. Compreendem terras públicas nos termos do
artigo 9, do Estatuto de Terras, aprovado pela Lei nº 4504 de 15 de Novembro de 1964, as
seguintes: as de propriedade da União, que não tenham outra destinação específica; as
reservadas pelo Poder Público para serviços ou obras de qualquer natureza, ressalvadas as
pertinentes à segurança nacional, desde que o órgão competente considere sua utilização
económica compatível com a actividade principal, sob a forma de exploração agrícola; as
devolutas da União, dos Estados e dos Municípios.

O artigo 12 do mesmo regime jurídico estabelece quais são as terras de propriedade privada.

A aquisição de terras para a reforma agrária pode ser feita de diversas maneiras. A mais
utilizada e conhecida é a desapropriação, seguida do processo de compra e venda. Nestes
dois casos, imóveis de particulares são incorporados à reforma agrária.

Toda aquisição começa com pesquisas cartoriais e locais feitas pelo INCRA, bem como a
partir de indicações - apresentadas pelos movimentos sociais - de fazendas que seriam
passíveis de desapropriação. Cada superintendência regional do INCRA estabelece as regiões
prioritárias para obtenção de terras, de acordo com alguns critérios pré-estabelecidos, tais
como maior proporção de famílias do campo em situação de extrema pobreza, áreas
com maior concentração fundiária e existência de outras acções do Poder Público para
melhoria das condições sociais e económicas locais.

Nas regiões prioritárias e nas buscas locais, o INCRA visa inicialmente os imóveis rurais
classificados como grandes propriedades, aquelas cuja área é superior a 15 módulos

3 MAYOR, Mariana Soutto, Pequeno histórico da propriedade da terra no Brasil, Colectivo


Partida Teatral, 23/08/2011, disponível em
https://partidateatral.wordpress.com/2011/08/23/pequeno-historico-da-propriedade-da-terra-no-
brasil/

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fiscais. Pequenas e médias propriedades não podem ser desapropriadas (desde que o
proprietário não possua nenhum outra propriedade rural).

Após a indicação ou detecção, o proprietário do imóvel em questão é notificado pelo INCRA e


uma equipe do órgão, chefiada por um perito federal agrário, procede a um levantamento local
das características da área, a vistoria de fiscalização do cumprimento da função social.

2. Órgãos de Tutela das propriedades públicas de terra; sujeitos


privados

Nos termos do artigo 11 e 16 do parágrafo único da Lei de Terras brasileiro, a instituição


responsável pela gestão de terras é o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária fica investido de
poderes de representação da União, para promover a discriminação das terras devolutas
federais, restabelecida a instância administrativa disciplinada pelo Decreto-Lei n. 9.760, de 5
de Setembro de 1946, e com autoridade para reconhecer as posses legítimas manifestadas
através de cultura efectiva e morada habitual, bem como para incorporar ao património
público as terras devolutas federais ilegalmente ocupadas e as que se encontrarem
desocupadas.

Através de convénios, celebrados com os Estados e Municípios, iguais poderes poderão ser
atribuídos ao Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, quanto às terras devolutas estaduais e
municipais, respeitada a legislação local, o regime jurídico próprio das terras situadas na faixa
da fronteira nacional bem como a actividade dos órgãos de valorização regional.

Tanto quanto possível, o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária imprimirá ao instituto das
terras devolutas orientação tendente a harmonizar as peculiaridades regionais com os altos
interesses do desbravamento através da colonização racional visando a erradicar os males do
minifúndio e do latifúndio.

Mas nos termos do artigo 37 do mesmo diploma legal, são órgãos específicos para a execução
da Reforma Agrária: o Grupo Executivo da Reforma Agrária (GERA); o Instituto Brasileiro de
Reforma Agrária (IBRA), directamente, ou através de suas Delegacias Regionais; as
Comissões Agrárias.

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Nos termos do artigo 14 do diploma legal em análise, podem ser sujeitos de direito de
propriedade agraria as pessoas físicas, associações, empresas comerciais.

Com base nos artigos 17 e 18, o acesso à propriedade rural será promovido mediante a
distribuição ou a redistribuição de terras, pela execução de qualquer das seguintes medidas:
desapropriação por interesse social; doação; compra e venda; arrecadação dos bens vagos;
reversão à posse (Vetado) do Poder Público de terras de sua propriedade, indevidamente
ocupadas e exploradas, a qualquer título, por terceiros; herança ou legado.

A desapropriação por interesse social tem por fim: condicionar o uso da terra à sua função
social; promover a justa e adequada distribuição da propriedade; obrigar a exploração racional
da terra; permitir a recuperação social e económica de regiões; estimular pesquisas pioneiras,
experimentação, demonstração e assistência técnica; obras de renovação, melhoria e
valorização dos recursos naturais; incrementar a electrificação e a industrialização no meio
rural; facultar a criação de áreas de protecção à fauna, à flora ou a outros recursos naturais, a
fim de preservá-los de actividades predatórias.

3. Direito Agrário moçambicano e brasileiro

Se no caso de Moçambique a acumulação primitiva realizado por Portugal se deu


especialmente no comércio de escravos, no Brasil é a terra o elemento fundamental para a
execução do projecto colonial, na medida em que com a posse dela era possível garantir a
produção dos géneros agrícolas, necessária à acumulação de capital que ocorria em Portugal.
Estes cenários do processo colonial que, embora tenham sido produzidos mantendo uma
mesma lógica sustentada na produção e circulação de mercadorias e fizessem parte de uma
mesma engrenagem do projecto colonial, explicam algumas das diferenciações encontradas
actualmente no espaço agrário dos dois países. Além das distinções no modelo de colonização,
é necessário considerar outros elementos indutores do processo de modernização capitalista
que geraram diferenciações4.

Em termos legais, a propriedade agraria em Brasil pode ser pública ou privada, detendo o
poder público o monopólio estadual de expropriar pela utilidade pública ou fim social, o
direito agrário na sua reforma ultimamente visa garantir os direitos dos indígenas e das
comunidades negras que ocuparam as terras finda a colonização. Dito doutro modo, o Estado
4 ALVES, Vicente Eudes Lemos, A questão agrária brasileira e moçambicana: semelhanças e diferenciações, in
GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 29 - Especial, 2011, pp. 57 - 74

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exerce forte intervenção nas relações agrárias, tornando obrigatória a aplicação da lei. A
imperatividade é uma ferramenta que busca principalmente proteger o elo mais vulnerável do
direito agrário, o camponês ou trabalhador rural.

No direito agrário moçambicano, a terra é propriedade do Estado, estando fora do comércio


jurídico sem que o Estado autorize (artigos 109 da CRM e 23 da Lei de Terras).
Diferentemente do Brasil em que o particular pode vender a sua propriedade rustica ou rural,
como diz-se juridicamente em Brasil. Os sujeitos agrários em Moçambique são cidadãos
nacionais, físicos ou colectivos bem como os estrangeiros e que pode-se adquirir a terra por
via administrativa, para ambos os sujeitos nacionais e estrangeiros; via costumeira somente
para cidadãos nacionais e via ocupação de boa-fé por pelo menos 10 anos somente para os
cidadãos nacionais, diferente do Brasil que se adquire via concessão pública ou venda por
parte dos particulares. A venda de terra é crime em Moçambique punível com pena de 2 a 8
anos de prisão maior nos termos do artigo 269 do CP.

Por fim, cumpre dizer que o direito agrário brasileiro está baseado em princípios como:
Monopólio legislativo da União – a União é a única competente para legislar em matéria de
direito agrário; Utilização da terra se sobrepõe à titulação dominical – a terra é um bem que
deve servir à colectividade, em detrimento de um ou um número restrito de indivíduos;
Propriedade condicionada à função – a propriedade rural deve ser plenamente utilizada, e não
se tornar um objecto de especulação financeira; Dicotomia do direito agrário: política de
reforma agrária e política de desenvolvimento rural – a terra deve estar disponível a todos, e
estes devem nela produzir; Interesse público sobre o individual – o interesse público prevalece
sobre as pretensões do indivíduo. Proteção à propriedade familiar e a pequena e média
propriedade – a lei deve buscar a manutenção da propriedade que sirva ao sustento de um
núcleo familiar, e as pequenas e médias propriedades – sempre produtivas, claro – devem ter o
estímulo do poder público; Fortalecimento da empresa rural – deve ser estimulada a unidade
que se dedica a culturas agrícolas, criação de gado ou culturas florestais, com a finalidade de
obtenção de renda; Conservação e preservação dos recursos naturais e do meio ambiente etc. –
a produção rural não deve desperdiçar ou por em risco os recursos naturais disponíveis

CONCLUSÃO

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Finda a pesquisa, deve-se reiterar que o direito agrário é um ramo do direito que regula a
relação do individuo com a terra. Apesar de sua evidente importância, o direito agrário ainda
não tem um código próprio, o que faz com que sua autonomia ainda não esteja consolidada
dentro do sistema jurídico. Mesmo assim, o direito agrário está relacionado constantemente
com outros ramos, como o direito civil, penal, tributário, internacional e outros. A maioria da
doutrina considera o direito agrário como um híbrido, ou seja, seu conteúdo abrange questões
pertinentes tanto ao direito público quanto ao privado, sendo que a definição se dá de acordo
com o caso concreto. No direito brasileiro a posse de terra pode ser pública ou privatizada,
podendo os particulares venderam as suas propriedades. O poder público detém poderes sobre
as terras dos privados podendo expropriar quando razões de interesse público ditarem, como
no caso de fim social. Os sujeitos podem ser pessoas físicas e colectivas, nacionais ou
estrangeiros que podem adquirir a terra tal como acontece em Moçambique mas com diferença
para o facto de que em Moçambique, a terra é propriedade pública e não pode ser vendida e a
mesma pode ser adquirida por via administrativa, por todos os sujeitos mas apenas os sujeitos
nacionais podem a adquirir por ocupação costumeira e de boa-fé por mais de 10 anos, quando
se trate de pessoas físicas.

BIBLIOGRAFIA

ALVES, Vicente Eudes Lemos, A questão agrária brasileira e moçambicana: semelhanças e


diferenciações, in GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 29 - Especial, 2011

MAYOR, Mariana Soutto, Pequeno histórico da propriedade da terra no Brasil,


Colectivo Partida Teatral, 23/08/2011, disponível em
https://partidateatral.wordpress.com/2011/08/23/pequeno-historico-da-
propriedade-da-terra-no-brasil/

OPITZ, Sílvia C. B., Curso Completo de Direito Agrário, 8ª edição, Editora Saraiva, São
Paulo, 2014

RODRIGUES, Gaspar Rodrigues, Direito Agrário, 2ª edição, Editora jus Podivim, Rio de
Janeiro, 2010

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