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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC

ENGENHARIA AMBIENTAL E URBANA

ANA CAROLINA FRAGAL

OBRAS DE CONTENÇÃO DE ÁREAS DE RISCO NO ÂMBITO DO


PAC PARA A REGIÃO DO GRANDE ABC: SOLO GRAMPEADO

SANTO ANDRÉ
2016
ANA CAROLINA FRAGAL

OBRAS DE CONTENÇÃO DE ÁREAS DE RISCO NO ÂMBITO DO PAC


PARA A REGIÃO DO GRANDE ABC: SOLO GRAMPEADO

Relatório apresentado à disciplina “Trabalho de


Graduação III” do curso de Engenharia
Ambiental e Urbana da Universidade Federal do
ABC, como requisito para obtenção do grau de
Engenheiro Ambiental e Urbano

Orientadora: Profª Drª Cláudia Francisca


Escobar de Paiva.

SANTO ANDRÉ
2016
AGRADECIMENTOS

Agradeço, inicialmente, minha professora orientadora, Dra. Cláudia F.


Escobar de Paiva, pelo suporte e atenção empregados durante todo o Trabalho de
Graduação.
Agradeço também aos demais professores e colegas do curso de Engenharia
Ambiental e Urbana e à minha família pelo incentivo e apoio constantes, que foram
fundamentais para a conclusão deste trabalho.
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo contribuir para o maior entendimento das
técnicas disponíveis para estabilização de encostas, em especial, o uso da técnica
do Solo Grampeado, com foco nos municípios do Grande ABC.
Para tal, foi feita a investigação e caracterização das principais obras
geotécnicas de contenção e, especialmente, um estudo do uso e aplicação da
técnica de Solo Grampeado, acompanhado de uma análise qualitativa de suas
vantagens e limitações atreladas ao seu crescente emprego no mercado de
soluções geotécnicas. Por fim, ressalta-se a importância de novos estudos
direcionados às soluções técnicas para contenção de encostas na área de
geotecnia, de forma a promover uma melhor aderência entre soluções técnicas e
processos instalados, buscando soluções cada vez mais efetivas de acordo com
cada cenário.

Palavras-Chave: Solo Grampeado; Obras de Contenção de Encostas; Obras de


Drenagem; Riscos Geológico-Geotécnicos; Movimentos de Massa; Prevenção de
Desastres Naturais; Região do Grande ABC.

ABSTRACT
This paper aims to contribute to a greater understanding of available slope
stabilization techniques, in particular the use of Soil Nailing technique focused in the
ABC Region.
For that, a research and characterization of the most used geotechnical
techniques for slope stabilization was made and also, in particular, a study about use
and application of Soil Nailing technique, followed by a qualitative analysis of its
advantages and limitations, linked to its growing expansion in the geotechnical
solutions market. Finally, the paper emphasizes the importance of new studies
focused on technical solutions in the geotechnical area, in order to promote more
adherence between technical solutions and geological processes, seeking for more
effective solutions according to each scenario.

Keywords: Soil Nailing; Slope Retention Techniques; Drainage Techniques;


Geological-Geotechnical Risks; Mass Movements; Prevention of Natural Disasters;
ABC Region.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1: Classes e Subclasses do Risco ................................................................. 14


Figura 2: Correlação entre chuvas e escorregamentos na Serra do Mar (SP). ......... 19
Figura 3: Variação da coesão em função do grau de saturação. .............................. 20
Figura 4: Croqui Esquemático - Queda de Rocha. .................................................... 21
Figura 5: Exemplo de Queda de Rocha. ................................................................... 21
Figura 6: Croqui Esquemático - Tombamento ........................................................... 22
Figura 7: Exemplo de Tombamento (Bragança Paulista, SP). .................................. 22
Figura 8: Croqui Esquemático - Rastejo. ................................................................... 23
Figura 9: Exemplo de Rastejo ................................................................................... 24
Figura 10: Croqui Esquemático – Corrida ................................................................. 24
Figura 11: Exemplo de Corrida ( Blumenau – SC). ................................................... 25
Figura 12: Croqui Esquemático - Escorregamento Planar. ....................................... 26
Figura 13: Exemplo de Escorregamento Planar (Nova Lima, MG). .......................... 27
Figura 14: Croqui Esquemático - Escorregamento Rotacional .................................. 27
Figura 15: Exemplo de Escorregamento Rotacional (Jaraguá do Sul, SC). .............. 28
Figura 16: Croqui Esquemático - Escorregamento em cunha. .................................. 28
Figura 17: Exemplo de Escorregamento em Cunha (Belo Horizonte, MG). .............. 29
Figura 18: Exemplo do uso de drenagem superficial. ............................................... 32
Figura 19: Exemplo de DHP ...................................................................................... 33
Figura 20: Exemplo de Barbacã ................................................................................ 33
Figura 21: Exemplo de Muro de Pedra Seca............................................................. 34
Figura 22: Exemplo de Muro de Pedra Argamassada ............................................... 35
Figura 23: Exemplo de muro de concreto ciclópico ................................................... 36
Figura 24: Exemplo de Crib Wall ............................................................................... 37
Figura 25: Exemplo de Muro de Gabião. ................................................................... 38
Figura 26: Exemplo de Muro de Solo-Cimento Ensacado. ........................................ 39
Figura 27: Exemplo de Muro de Concreto Armado. .................................................. 40
Figura 28: Exemplo de Cortina Cravada. .................................................................. 41
Figura 29: Exemplo de Cortina Atirantada. ............................................................... 42
Figura 30: Técnicas de execução de túneis com revestimento rígido e flexível. ....... 43
Figura 31: Processo de construção do Solo Grampeado. ......................................... 45
Figura 32: Estrutura de um Grampo ou Chumbador. ................................................ 46
Figura 32: Esquemas das fases construtivas do Solo Grampeado ........................... 47
Figura 34: Exemplo de Solo Grampeado com Cobertura Vegetal............................. 48
Figura 35: Exemplo de Solo Grampeado em Talude com Alta Declividade. ............. 48
Figura 36: Deslocamento Máximo em função da rigidez da face .............................. 50
Figura 37: Somatório das trações máximas em função da rigidez da face ............... 51
Figura 38: Solo Grampeado em Taludes Naturais e Escavados ............................... 52
Figura 39: Solo Grampeado na favela Vergueirinho/Nova Divinéia-SP. ................... 53
Figura 40: Solo Grampeado no Jardim Santo André ................................................. 58
Figura 41: Obra de Solo Grampeado na UFABC ...................................................... 59
Figura 42: Perfil do solo a partir de ensaio SPT. ....................................................... 60
Figura 43: Plano de execução dos grampos, vista frontal. ........................................ 61
Figura 44: Plano de execução dos grampos, vista lateral. ........................................ 61
Figura 45: Detalhe do Barbacã.................................................................................. 62
Figura 46: Gráfico comparativo preços de Cortina Atirantada e Solo Grampeado .... 63
9

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 10
2 JUSTIFICATIVA ..................................................................................................... 12
3 OBJETIVOS ........................................................................................................... 13
3.1 Objetivo Geral .................................................................................................. 13
3.2 Objetivos específicos ....................................................................................... 13
4 SÍNTESE DA BIBLIOGRAFIA FUNDAMENTAL ..................................................... 14
4.1 O Conceito de Risco ........................................................................................ 14
4.2 Riscos Geológicos ........................................................................................... 15
4.3 Estabilidade de taludes .................................................................................... 17
4.3.1 Influência da água na estabilidade de taludes .......................................... 18

4.4 Movimentos de Massa ..................................................................................... 20


4.4.1 Quedas (Falls) ........................................................................................... 20

4.4.2 Tombamentos (topples) ............................................................................ 21

4.4.3 Rastejos (creeps) ...................................................................................... 23

4.4.4 Corridas (flows) ......................................................................................... 24

4.4.5 Escorregamentos (slides) .......................................................................... 25

4.5 Soluções .......................................................................................................... 29


4.5.1 Obras de Drenagem .................................................................................. 30

4.5.2 Obras sem Estrutura de Contenção - Retaludamento............................... 34

4.5.3 Obras com Estrutura de Contenção .......................................................... 34

5 MATERIAIS E MÉTODOS ...................................................................................... 54


6 RESULTADOS ...................................................................................................... 55
7 DISCUSSÃO .......................................................................................................... 67
8 CONCLUSÕES ....................................................................................................... 70
9 REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 72
10

1 INTRODUÇÃO

Estimativas levantadas pela UNDRO - Office of United Nations Disaster


Relief Coordination, apud Ogura (1993), indicam que cerca de 3 milhões de pessoas
morreram em virtude de acidentes naturais, como por exemplo, processos de
movimentos de massa em encostas.
O Brasil apresenta também elevado número de mortes por acidentes
naturais, em especial os acidentes relacionados a movimentos de massa em
encostas. A tabela 1 apresenta uma relação do número de mortes causadas por
escorregamentos registradas por ano, de 1988 a 2006, no Brasil.

Tabela 1: Número de óbitos causados por escorregamentos por ano no Brasil.


NÚMERO DE
ANO
MORTES
1988 277
1989 90
1990 34
1991 26
1992 99
1993 28
1994 64
1995 166
1996 228
1997 89
1998 23
1999 48
2000 85
2001 58
2002 68
2003 102
2004 57
2005 51
2006 13

Fonte: Nogueira (2011b).

Além de inúmeras mortes e perdas materiais relevantes para a população


atingida, as instabilizações em encostas decorrentes de movimentos de massa
causam inúmeros transtornos sociais, bem como a necessidade de ações corretivas
por parte dos poderes públicos federais, estaduais e municipais.
11

Com o intuito de prevenir e minimizar a ocorrência de movimentos de massa


que podem causar acidentes se faz necessário o desenvolvimento de técnicas para
conter a movimentação de taludes. Dentre as técnicas existentes destacam-se a
execução de obras de estabilização e contenção. Essas estruturas podem variar
dentre as mais simples as mais complexas, mas todas têm o mesmo objetivo de
aumentar as forças de resistência do maciço, permitindo que este fique estável.
Diante do exposto, estudos relacionados à estabilidade de taludes e suas
formas de contenção se mostram de extrema importância para que seja possível
minimizar e prevenir esses fenômenos da maneira mais eficiente e econômica
possível.
12

2 JUSTIFICATIVA

A vulnerabilidade das áreas susceptíveis a movimentos de massa tem sido


intensificada pelo aumento de moradias nesses locais e pela falta de condições
sociais para superar possíveis prejuízos causados por tais acontecimentos (Farah
2003, Carvalho & Galvão, 2006).
Em locais susceptíveis a acidentes geológico-geotécnicos, as obras de
engenharia são comumente aplicadas. Há uma vasta variedade de obras que se
adequam a diferentes cenários, tipos de fenômenos e orçamentos.
Faz-se necessário um rigoroso estudo das alternativas disponíveis antes da
escolha deste tipo de solução, de modo a decidir quanto ao tipo de obra a ser
aplicado, com real conhecimento dos fatores envolvidos em cada situação, como
custo, prazo e segurança. O desenvolvimento e o uso de novas tecnologias e
métodos construtivos deve ser acompanhado de um forte processo de tomada de
decisão para a escolha das obras mais adequadas em cada caso, evitando a
escolha do método tecnicamente mais eficaz, porém de mais alto custo, sem levar
em conta sua real necessidade.
Desta forma, é relevante a proposição de projetos e pesquisas para discussão
e análise da aplicabilidade de obras de contenção, assim como, a divulgação e
disponibilização de conhecimento científico e tecnológico sobre o assunto.
13

3 OBJETIVOS

3.1 Objetivo Geral

Este trabalho de graduação tem como objetivo principal apresentar as


principais características da técnica Solo Grampeado, além de discutir as vantagens
e desvantagens do uso desta solução técnica para a contenção de encostas.

3.2 Objetivos específicos

O projeto possui como objetivos específicos:

 Investigar e caracterizar as obras geotécnicas de estabilização mais


empregadas em áreas susceptíveis a movimentos de massa;
 Apresentar as principais características, vantagens e desvantagens do uso da
técnica de Solo Grampeado frente a outras soluções técnicas;
 Discutir o uso da técnica de Solo Grampeado para contenção de encostas.
14

4 SÍNTESE DA BIBLIOGRAFIA FUNDAMENTAL

4.1 O Conceito de Risco

Castro (1998) define o termo risco como a probabilidade estatística de


ocorrência de um acidente ou dano potencial dentro de um determinado período de
tempo, que está relacionada com a intensidade dos danos e com a vulnerabilidade
do receptor dos seus efeitos.
Cerri & Amaral (1998) consideram os riscos ambientais como a classe maior
dos riscos, subdividindo-os em classes e subclasses de acordo com a Figura 1.

Figura 1: Classes e Subclasses do Risco

Fonte: Adaptado de Parizzi, 2014.


15

4.2 Riscos Geológicos

Os riscos geológicos podem ser definidos pela possibilidade de um processo


geológico causar mortes, danos materiais, ambientais, sociais, econômicos ou à
saúde humana (Parizzi, 2014).
Varnes (1984) define risco a partir da seguinte equação:
𝑅𝑡 = 𝐸 . (𝐻 . 𝑉)
Onde 𝑅𝑡 representa o risco total, E representa os elementos de risco
(população, propriedades, atividades em uma determinada área), H representa a
probabilidade de ocorrência de um fenômeno natural e V significa a vulnerabilidade.
Cardona (1993) adota a seguinte equação:
𝑅 = 𝐴 .𝑉
Em que o risco R é representado através da probabilidade de ocorrência de
eventos perigosos (A) e da vulnerabilidade (V) a que a área está exposta.
Muitos outros autores representaram seus conceitos de risco através de
outras equações. Shook (1997) apud Nogueira (2002) adiciona a estas equações um
novo fator “g” que representa o grau de gerenciamento da área em questão.
Nogueira (2002) resume o conceito de risco a partir da seguinte equação:
P(A). C(V)
R=
g
Onde R representa o risco, que é definido pela probabilidade (P) da
ocorrência de um acidente associado a um processo físico ou ameaça (A) e que
possa resultar em consequências (C) que variam de acordo com a vulnerabilidade
(V) do meio que se encontra exposto ao perigo. O risco pode ser diminuído pelo grau
de gerenciamento (g) em que o cenário encontra-se inserido.
O primeiro termo da equação P(A) indica a probabilidade de ocorrência de um
processo físico e pode ser chamada de “perigo”. A identificação do perigo pode ser
feita a partir da análise de qual processo físico está envolvido neste perigo, qual a
probabilidade de que ele aconteça e em que condições sua evolução poderá causar
um acidente. A identificação destes fatores é muito importante, visto que as
condições que desencadeiam a ocorrência de diferentes processos podem não ser
as mesmas e o entendimento do exato processo que pode ocorrer em um local é
essencial para a correta avaliação do perigo. Além disso, para cada situação de
16

perigo, existem condicionantes naturais e antrópicas que são responsáveis pelo seu
desenvolvimento. Alguns exemplos são: clima, relevo do terreno, vegetação,
desmatamento, lançamento de água servida na superfície e cortes e aterros
(Nogueira, 2006).
A consequência do possível evento, em função da vulnerabilidade C(V) do
meio é a segunda componente da equação. Segundo Castro (1998), vulnerabilidade
é o inverso da segurança, e corresponde ao nível de insegurança intrínseca de um
cenário que é definida por suas condições físicas, sociais, econômicas e ambientais.
Por exemplo, a vulnerabilidade de uma área pode ser intensificada pelo aumento de
moradias em locais susceptíveis a acidentes geológico-geotécnicos e pela falta de
condições financeiras para recuperação da área em caso de um possível acidente
(Farah, 2003). Dois eventos de mesma proporção podem ter consequências
diferentes de acordo com o local em que ocorrem. As consequências de um acidente
geológico-geotécnico em uma área ocupada com moradias precárias, frágeis e com
pouca infraestrutura são muito maiores do que a de uma área sem edificações ou
com moradias mais preparadas para tais eventos. Dessa forma, pode-se dizer que a
consequência de um determinado evento depende de quão vulnerável é a área em
questão (Nogueira, 2006).
A terceira componente da equação é o gerenciamento (g). De acordo com a
equação, quanto maior o gerenciamento, menor o risco. Segundo a UNDRO (1991),
no caso dos riscos geológicos, esse gerenciamento pode ser feito através da (1)
identificação e análise dos riscos; (2) adoção de medidas estruturais para prevenção
de acidentes e redução dos riscos; (3) adoção de medidas não estruturais (planos
preventivos, monitoramento, atendimento a emergência) e; (4) informação pública
visando à capacitação para prevenção e autodefesa.
Um fenômeno geológico pode gerar perdas ou não. Segundo Cerri & Amaral
(1998), caso ele gere danos ou perdas é chamado de acidente, caso contrário é
chamado de evento. Dessa forma, a susceptibilidade de uma área a um fenômeno
geológico está relacionada com a probabilidade de ocorrência de um determinado
evento, enquanto que o risco desta mesma área está relacionado com a
probabilidade de ocorrência de um evento acompanhado de perdas e danos, ou
seja, a probabilidade de ocorrência de um acidente.
O termo urbanização de riscos é usado por Rolnik (2001) apud Nogueira et al.
(2011a) para se referir à ocupação de áreas periféricas, que normalmente são
17

ambientalmente mais frágeis e mais baratas, por estarem longe da infraestrutura da


cidade regularizada com oportunidades de trabalho, transportes, cultura e lazer.
É possível, portanto, dizer que o aumento das consequências de desastres
naturais tem uma clara relação com a vulnerabilidade social que inclui a pobreza, a
carência de serviços urbanos e a falta de acesso a recursos materiais e imateriais,
somada ao aumento da degradação ambiental, ao desrespeito à legislação, como as
leis de uso e ocupação do solo e o código florestal, e a questões econômicas como
a especulação imobiliária (Almeida, 2009).
Levando em conta a vulnerabilidade das áreas de risco, as Nações Unidas
por meio da ISDR (International Strategy for Desaster Reduction) apud (Campos
2011) recomenda minimizar o risco por meio do desenvolvimento de capacidades
individuais e coletivas nas comunidades de forma a se contrapor aos danos. Dessa
forma, mesmo sabendo do perigo inevitável de determinados locais, a minimização
da vulnerabilidade se torna um elemento chave na diminuição do risco de desastres.

4.3 Estabilidade de taludes

Um talude é qualquer superfície inclinada que limita um maciço de terra, de


rocha ou ambos. Podem ser naturais, como no caso das encostas, ou artificiais,
como os taludes de cortes e aterros.
A estabilidade de um talude depende da relação entre a resistência do solo ao
cisalhamento e as tensões cisalhantes ao longo de uma superfície. Dessa forma, os
agentes instabilizadores são aqueles que podem diminuir a resistência do solo ao
cisalhamento ou aumentar as tensão cisalhantes.
Segundo Varnes (1978) apud (Calle, 2000), os principais fatores que
contribuem para um acréscimo de tensões são:

 Desconfinamento lateral (devido à erosão, ação antrópica ou quedas


de blocos);
 Sobrecarga (devido ao acumulo de água, construções, depósitos, etc.);
 Pressões de percolação de água dentro do maciço;
 Pressões laterais (causada pelo empuxo da água ou expansões);
18

 Tensões transitórias (causadas por vibrações naturais ou de origem


antrópica);

Além disso, os principais fatores que contribuem para o decréscimo da


resistência do solo são:

 Aumento do grau de saturação do solo;


 Descontinuidades como falhas, juntas, fraturas, etc.;
 Perda de coesão pela hidratação de minerais argilosos expansivos;
 Liquefação de areias finas saturadas, por meio de vibração;
 Modificação da estrutura dos solos sensíveis.

Guidicini e Nieble (1976) utilizam a classificação de agentes e causas de


instabilização para exemplificar esses fatores, classificando como causa o modo de
atuação de um determinado agente na instabilização de um talude. Os agentes, por
eles citados, são divididos em agentes predisponentes e agentes efetivos. Os
agentes predisponentes referem-se a um conjunto de características intrínsecas do
terreno que influem de maneira indireta nos processos de instabilização. Os agentes
efetivos são os que interferem diretamente no processo de instabilização, incluindo
também a ação antrópica. Os agentes efetivos ainda podem ser divididos em
preparatórios e imediatos, de acordo com sua forma de atuação no período que
precede a ruptura.

4.3.1 Influência da água na estabilidade de taludes

A contribuição da água aos movimentos de massa se dá pela redução da


resistência dos materiais da vertente e/ou pela indução de comportamento plástico e
fluido dos solos (Farah, 2003).
Segundo Augusto Filho (1994), as chuvas atuam como o principal agente
não-antrópico na deflagração de escorregamentos no Brasil e seus principais
mecanismos de atuação nos processos de desencadeamento de escorregamentos
são: A diminuição da coesão aparente do solo, diminuição de tensões normais e de
cisalhamento pelo aumento do nível piezométrico e o aumento de esforços laterais
cisalhantes, pela elevação das colunas d’água em fraturas e descontinuidades.
19

Tatizana et al., 1987 correlaciona o nível pluviométrico com os escorregamentos na


Serra do Mar – SP, na figura 2.

Figura 2: Correlação entre chuvas e escorregamentos na Serra do Mar, Cubatão (SP).

(Fonte: Tatizana et al., 1987a,b apud ABGE, 1998).

A diminuição da coesão aparente do solo é um dos principais agente


deflagradores de escorregamentos. Essa diminuição da coesão ocorre pela água
que se aloja entre os interstícios de solo sólido fazendo com que as ligações entre
as partículas se rompam momentaneamente, levando o talude a ruptura (Augusto
Filho, 1994). A figura 3 apresenta um gráfico da variação da coesão aparente de
acordo com o grau de saturação do solo.
20

Figura 3: Variação da coesão aparente do solo coluvionar da Serra do Mar em função do grau de
saturação.

(Fonte: ABGE, 1998)

Outro fator importante da ação da água nos movimentos de massa é a


variação do nível piezométrico em massas homogêneas, que diminui as tensões
normais e a resistência ao cisalhamento, podendo levar taludes a ruptura (Augusto
Filho, 1994).
Além disso, a pluviosidade de uma dada região pode ter como consequência
a elevação da coluna d’água em descontinuidades, como fraturas que resultam em
um aumento dos esforços laterais cisalhantes.
Estudos feitos por Guidicini e Iwasa (1976) apud Augusto Filho (1994),
estabeleceram uma correlação entre precipitação e escorregamentos. As análises
realizadas por eles permitiram concluir que eventos pluviométricos superiores a 20%
da pluviosidade média anual são indicativos de alta possibilidade de deflagração de
escorregamentos significativos.

4.4 Movimentos de Massa

4.4.1 Quedas (Falls)

São movimentos rápidos em que há a queda livre de material do talude (solo


ou rocha) sem a ocorrência de processo de cisalhamento (UNESCO, 1993). As
21

figuras 2 e 3 apresentam um croqui esquemático e um exemplo de queda de rocha,


respectivamente.
As quedas são divididas em quedas de rocha, quedas de solos grosseiros e
queda de solos finos (Castro et al., 1998).

Figura 4: Croqui Esquemático - Queda de Rocha.

Fonte: Brittish Geological Survey apud Silva, 2009.

Figura 5: Exemplo de Queda de Rocha.

Fonte: Silva, 2009.

4.4.2 Tombamentos (topples)

São movimentos em que parte da rocha desloca-se em função de


descontinuidades verticais e da ação da gravidade e pode ter velocidade variada,
22

podendo ocorrer muito lentamente ou muito rápido (Castro et al., 1998). As figuras 4
e 5 apresentam um croqui esquemático e um exemplo do processo de tombamento,
respectivamente.
Esse tipo de movimento é caracterizado pela rotação, que pode ser para
dentro ou para fora da encosta, em torno de um ponto abaixo do centro de gravidade
da mesma (UNESCO, 1993).

Figura 6: Croqui Esquemático - Tombamento

Fonte: Brittish Geological Survey apud Silva, 2009.

Figura 7: Exemplo de Tombamento (Bragança Paulista, SP).

Fonte: Silva, 2009.


23

4.4.3 Rastejos (creeps)

São movimentos muito lentos (da ordem de cm/ano) e contínuos que não
apresentam uma superfície de ruptura bem definida. O movimento atinge grandes
áreas, atuando tanto na superfície quanto nos horizontes mais profundos (Castro et
al., 1998).
A causa da movimentação nos rastejos é a ação da gravidade e os efeitos
das variações de temperatura e umidade. A variação térmica gera um processo de
expansão e contração da massa de material, provocando o movimento vertente
abaixo (Garcia, 2006).
Os rastejos podem ser identificados pela observação de postes, árvores ou
cercas inclinadas no terreno. As figuras 6 e 7 apresentam croqui esquemático do
processo de rastejo e um exemplo real, respectivamente.

Figura 8: Croqui Esquemático - Rastejo.

Fonte: Brittish Geological Survey apud. Silva, 2009.


24

Figura 9: Exemplo de Rastejo

Fonte: Carvalho, 2007.

4.4.4 Corridas (flows)

As corridas são movimentos muito rápidos que ocorrem quando há um


elevado índice pluviométrico, muito além do considerado normal para a região, que
faz com que o solo se misture com a água, formando uma mistura de caráter viscoso
que carrega consigo detritos, árvores, etc. e tem um extenso raio de ação (Castro et
al., 1998). A figura 8 apresenta um croqui do processo de corrida e a figura 9
apresenta uma corrida de detritos ocorrida em Blumenau –SC.

Figura 10: Croqui Esquemático – Corrida

Fonte: Brittish Geological Survey apud. Silva, 2009.


25

Figura 11: Exemplo de Corrida ( Blumenau – SC).

Fonte: Silva, 2009.

4.4.5 Escorregamentos (slides)

São movimentos rápidos (na ordem de m/h ou até m/s) com superfícies de
ruptura bem definidas lateralmente e em profundidade. Ocorrem em função da
existência de planos de fraqueza nos horizontes movimentados, que condicionam a
formação das superfícies de ruptura (UNESCO, 1993). Os escorregamentos podem
ser divididos entre planares (translacionais), rotacionais ou em cunha.
O movimento se inicia quando a relação entre a resistência ao cisalhamento
do material e a tensão de cisalhamento na superfície potencial de movimentação
decresce até atingir 1, no momento do escorregamento (Garcia, 2006).
Os escorregamentos são um dos principais riscos geológicos do Brasil. As
áreas atingidas são passíveis de zoneamento, podendo ser monitoradas a partir do
acompanhamento de dados de precipitações pluviométricas, principal agente
deflagrador do processo (Castro et al., 1998).
26

 Escorregamentos Planares ou Translacionais

São caracterizados por uma superfície de ruptura planar. Esses


escorregamentos acontecem pelas descontinuidades ou planos de fraquezas
existentes no solo e, em geral, em solos pouco desenvolvidos. Esse tipo de
escorregamento é o mais comum e são frequentes nas encostas serranas
brasileiras. A figura 10 apresenta um croqui esquemático deste tipo de
escorregamento e a figura 11 apresenta um exemplo prático em Nova Lima, MG.
Os escorregamentos translacionais podem ser classificados de acordo com
o tipo de material que é movimentado. Pode-se encontrar desta forma,
escorregamentos translacionais de rocha, de solo e de ambos os materiais.
Este tipo de escorregamento acontece, geralmente, logo após ou durante
períodos de chuvas intensas. A chuva age na superfície das encostas e as rupturas
ocorrem em um curto espaço de tempo (Fernandes & Amaral, 1996).

Figura 12: Croqui Esquemático - Escorregamento Planar.

Fonte: Fornasari Filho apud. Silva, 2009.


27

Figura 13: Exemplo de Escorregamento Planar (Nova Lima, MG).

Fonte: Tominaga et al. 2009.

 Escorregamentos Rotacionais

Têm como característica movimentos rotacionais ao longo de uma superfície


de ruptura curva. Este tipo de escorregamento é frequente no sudeste brasileiro, e
tem como início a erosão fluvial no sopé das vertentes e cortes feitos nas encostas
por meio de ação humana. Em geral, esse tipo de escorregamento ocorre em perfis
mais homogêneos (Silva, 2009). As figuras 12 e 13 apresentam um croqui
esquemático de escorregamento rotacional e um exemplo real em Jaraguá do Sul,
SC.

Figura 14: Croqui Esquemático - Escorregamento Rotacional

Fonte: Fornasari Filho apud. Silva, 2009.


28

Figura 15: Exemplo de Escorregamento Rotacional (Jaraguá do Sul, SC).

Fonte: Tominaga et al., 2009.

 Escorregamentos em Cunha

São escorregamentos típicos de maciços rochosos. Esse movimento se dá a


partir da intersecção de dois ou mais planos de ruptura, aumentando
expressivamente o potencial de ruptura (Silva, 2009). A figura 14 apresenta croqui
esquemático do escorregamento em cunha e a figura 15 um exemplo em Belo
Horizonte, MG.

Figura 16: Croqui Esquemático - Escorregamento em cunha.

Fonte: Fornasari Filho apud. Silva, 2009.


29

Figura 17: Exemplo de Escorregamento em Cunha (Belo Horizonte, MG).

Fonte: Tominaga et al. 2009.

A tabela 2 apresenta a relação entre os tipos de escorregamentos e o tipo de


solo da encosta.

Tabela 2: Tipos de escorregamentos versus tipos de solo

Tipo de escorregamento Tipo de solo

Escorregamentos Rotacionais Solos argilosos espessos, não fissurados.

Escorregamentos em Cunha Solos argilosos fissurados

Desplacamento com Solos argilosos com trincas de tração


Escorregamentos

Fonte: Farah, 2003.

4.5 Soluções

As obras de engenharia são comumente aplicadas em casos de risco de


acidente (obras preventivas) ou em casos em que o fenômeno geológico-geotécnico
já ocorreu (obras corretivas). Há uma ampla variedade de soluções técnicas para
cada tipo de situação, localização, risco e disponibilidade financeira.
As obras de estabilização de encostas podem ser divididas em: (1) obras sem
estrutura de contenção, (2) obras com estrutura de contenção e (3) obras de
proteção de massa. Além destes três grupos, também são utilizadas obras de
drenagem para a estabilização de taludes. A tabela 3 apresenta exemplos dos
grupos mencionados.
30

Tabela 3: Grupos e subgrupos de obras de estabilização.

Grupos Subgrupos
Retaludamento

Obras sem Proteção Superficial (grama, geomanta,


Estrutura de asfalto).
contenção
Estabilização de Blocos (retenção e
remoção)
Muros de Gravidade (muros de pedra seca,
pedra argamassada, gabião, concreto
Obras com ciclópico e concreto armado).
Estrutura de
Contenção Outras Soluções (Terra armada, Solo
Grampeado, Cortina Atirantada,
Microestacas).

Obras de Barreira Vegetal


proteção para
Massas Muro de Espera
Movimentadas

Obras de Drenagem Superficial (canaletas, escadas


Drenagem hidráulicas) e Drenagem Profunda (DHP e
barbacãs).

Fonte: Carvalho et al, 2007.

4.5.1 Obras de Drenagem

4.5.1.1 Drenagem Superficial

A drenagem superficial evita a erosão na superfície do talude, além de


impedir a infiltração de água no solo, diminuindo o risco de saturação que causa
diminuição da resistência e consequentemente movimentos do maciço.
As estruturas para este tipo de drenagem são: canaletas, sarjetas, valetas,
escadas hidráulicas e caixas de captação que recolhem a água que escoa pela
superfície e a encaminha para o local adequado (Carvalho, 1991).
As obras de drenagem superficial apresentam um bom custo benefício, visto
que são obras de baixo custo e apresentam excelentes resultados (Barros, 2005).
31

 Canaletas

Segundo Carvalho (1991), as canaletas são valas que captam e conduzem a


água que chega a superfície do talude. As canaletas podem ser:
 Longitudinais de Berma: Paralelas aos patamares do talude;
 Transversais de Berma: Perpendiculares aos patamares do talude;
 De Crista: próximas à crista do talude;
 De Base: próximas ao pé do talude;
 De pista: lateralmente as rodovias;

 Escadas Hidráulicas

São degraus feitos de concreto armado instalado, em geral, na linha de maior


declive do talude e que têm como objetivo conduzir a água captada pelas canaletas
e conduzi-la até as cotas mais baixas com uma velocidade reduzida. Na base da
escada em geral é construída uma caixa de dissipação que consiste em uma caixa
de concreto que coleta e dissipa a energia da água, evitando erosão no ponto de
lançamento (Carvalho, 1991).
A figura 16 apresenta um exemplo dos usos de algumas obras de drenagem
superficial.
32

Figura 18: Exemplo do uso de drenagem superficial.

Fonte: Barros, 2005.

4.5.1.2 Drenagem Profunda

As obras de drenagem profunda visam retirar água do interior do maciço a fim


de reduzir as pressões neutras intersticiais e evitar a saturação do solo. Esse tipo de
obra exige a existência de um sistema de drenagem superficial para coletar e
direcionar a água retirada do interior do maciço (Barros, 2005).

 Drenos Sub-Horizontais Profundos (DHP)

Os DHP’s drenam para fora do talude a água de percolação do interior do


maciço. Trata-se de tubos (em geral de PVC rígido) que são colocados em
perfurações sub-horizontais no talude (figura 17). A parte do tubo que permanecerá
no interior do maciço é furada e envolta em manta geotêxtil para evitar sua
colmatação. Na parte exterior do talude o tubo deve ter, no mínimo, 1 metro de
comprimento a partir da superfície (Barros, 2005).
33

Figura 19: Exemplo de DHP

Fonte: Carvalho, 1991.

 Barbacãs

Barbacãs são tubos curtos que são instalados juntamente a muros de


contenção impermeáveis de modo a permitir a drenagem da água à montante do
muro, evitando o aumento de subpressões em sua parede interna (figura 18)
(Barros, 2005).

Figura 20: Exemplo de Barbacã

Fonte: Carvalho, 1991.


34

4.5.2 Obras sem Estrutura de Contenção - Retaludamento

Os Retaludamentos são obras de estabilização em que são feitas mudanças


na geometria das encostas, por meio de cortes e aterros, mudando assim o arranjo
de forças presente no talude e diminuindo o risco de acidente (Carvalho et al., 2007).
Em geral, obras de drenagem e proteção superficial são associadas aos
Retaludamentos com o objetivo de evitar a infiltração de água no solo e a erosão
hídrica. Dentre as obras de estabilização de taludes, os Retaludamentos são os
mais utilizados devido a sua eficácia e simplicidade.

4.5.3 Obras com Estrutura de Contenção

4.5.3.1 Muros de Pedra Seca

Este tipo de muro é indicado para taludes de até aproximadamente 1,5 m.


Sua estrutura consiste na junção de pedras de dimensões regulares, arrumadas
manualmente, de forma que apenas seu embricamento resulte na sua resistência.
Sua principal vantagem, além do custo e da facilidade de construção, é a sua
característica autodrenante (Carvalho, 1991). A figura 19 apresenta um exemplo
deste tipo de obra.

Figura 21: Exemplo de Muro de Pedra Seca.

Fonte: Modificado de Alheiros, 2003.


35

4.5.2.2 Muros de Pedra Argamassada

Trata-se de uma estrutura similar ao muro de pedra seca, entretanto, pode ser
utilizado em taludes de até 3,0 m, pois os vazios entre as pedras, que neste tipo de
obra podem ser variadas, são preenchidos com argamassa composta de cimento e
areia, o que proporciona maior rigidez à obra (Carvalho, 1991) – figura 20.

Figura 22: Exemplo de Muro de Pedra Argamassada

Fonte: Leite, 2011.

4.5.2.3 Muros de Concreto Ciclópico

Este muro pode ser utilizado para taludes maiores que 3,0 m. Sua estrutura é
constituída de concreto e agregados de grande porte, que são inseridos em uma
forma. Neste tipo de obra, o uso de sistema de drenagem (dreno de areia e
barbacãs) é obrigatório (Carvalho, 1991). Um exemplo de muro de concreto ciclópico
é apresentado na figura 21.
36

Figura 23: Exemplo de muro de concreto ciclópico

Fonte: Carvalho, 1991.

4.5.2.4 Crib Walls

Crib Walls são armações de concreto, fixas entre si, que formam uma espécie
de caixa que pode ser preenchida com terra, pedras, seixos ou entulho. Essa
estrutura é auto drenante e pouco sensível a movimentação, o que torna seu uso
muito amplo (figura 22).
Para a execução de um Crib Wall é necessário, além do aterro comum, um aterro a
montante e, no caso de obras definitivas, é necessário o uso de manta geotêxtil
entre o crib wall e o aterro (Carvalho, 1991).
37

Figura 24: Exemplo de Crib Wall

Fonte: Carvalho, 1991.

4.5.2.5 Muros de Gabião

Os muros de gabião são formados por diversas caixas de tela metálica com
dupla torção. Essas caixas são preenchidas com pedras e britas encaixadas uma a
uma e amaradas de forma a garantir a estabilidade do muro. A figura 23 apresenta
um exemplo de muro de gabião.
Os gabiões podem ser do tipo:
 Caixa: forma retangular que é utilizada no corpo da estrutura.
 Saco: forma cilíndrica que é utilizada como apoio da estrutura.
 Manta: forma retangular, mas de pequena espessura, que é utilizada
para obras complementares por ser mais maleável.

A estrutura do muro é autodrenante e possui um caráter mais deformável e,


por isso, é bastante utilizada em fundações com maiores deformações.
Para seu uso definitivo é necessário o uso de manta geotêxtil ou areia grossa
entre o muro de gabião e o corte do aterro para permitir a drenagem da água e ao
mesmo tempo conter a fuga de partículas finas presentes no aterro (Carvalho, 1991).
38

Figura 25: Exemplo de Muro de Gabião.

Fonte: Prefeitura Municipal de Nova Friburgo (2012).

4.5.2.6 Muros de Solo-Cimento Ensacados

Para a construção deste tipo de obra, uma mistura de solo e cimento é


colocada em sacos geossintéticos ou de aniagem e são empilhados formando uma
parede. A figura 24 apresenta um exemplo desta estrutura.
O uso deste tipo de obra garante a proteção atuando como contenção do
talude e também como proteção superficial.
A mistura de solo e cimento também pode ser utilizada na superfície do
talude, de modo a garantir maior resistência e menor erodibilidade à camada
superficial (Carvalho, 1991).
39

Figura 26: Exemplo de Muro de Solo-Cimento Ensacado.

Fonte: Alheiros, 2003.

4.5.2.7 Muros de Concreto Armado

Dentre os muros de concreto armado, o mais comum é o muro de flexão.


Trata-se de duas lajes perpendiculares, uma na horizontal, apoiada no solo e a outra
na vertical, sobre a primeira, trabalhando à flexão. Nos casos de necessidade de
muros muito altos, são utilizados contrafortes de tração ou compressão unindo as
duas lajes. A figura 25 apresenta um exemplo desta estrutura.
Neste tipo de obra é obrigatória a implantação de um sistema de drenagem
com barbacãs e drenos de areia (Carvalho, 1991).
40

Figura 27: Exemplo de Muro de Concreto Armado.

Fonte: Leite, 2011.

4.5.2.8 Cortinas Cravadas

Trata-se de estacas ou perfis cravados no terreno, intercalados por placas de


concreto armado ou madeira (no caso de obras provisórias) que agem à flexão,
resistindo pelo apoio da parte enterrada no perfil. Um exemplo de cortina cravada é
apresentado na figura 26.
Esse tipo de estrutura é muito utilizado em obras de contenção provisórias e,
neste caso, são utilizadas pranchas de madeira entre as estacas (Carvalho, 1991).
41

Figura 28: Exemplo de Cortina Cravada.

Fonte: Carvalho, 1991.

4.5.2.9 Cortinas Atirantadas

As Cortinas Atirantadas apresentam-se como a obra de maior eficácia e


segurança dentre as obras de contenção, no entanto o custo de construção também
se mostra o mais elevado.
Sua estrutura consiste na fixação vertical (ou subvertical) de paramentos
(placas) no talude com o uso de tirantes que são fixados na parte mais resistente do
maciço.
Tirantes são estruturas que ancoram massas de solo ou blocos transmitindo
os esforços à uma zona mais resistente do talude através de cabos de aço, barras
ou fios (Carvalho, 1991). A figura 27 apresenta um exemplo de Cortina Atirantada.
Neste tipo de obra também é necessário o uso de estruturas de drenagem.
42

Figura 29: Exemplo de Cortina Atirantada.

Fonte: Leite, 2011.

4.5.2.10 Microestacas

Neste tipo de obra é feita a introdução de estacas no talude por meio de


perfuração, armação e injeção sobre pressão que concedem grande aderência entre
a estrutura e o maciço. Dessa forma, as estacas funcionam como um reforço do
talude.
O custo deste tipo de contenção é muito elevado, próximo ao das Cortinas
Atirantadas, restringindo seu uso (Carvalho, 1991).

4.5.2.11 Solo Grampeado

A técnica de Solo Grampeado tem sua origem baseada em outra técnica,


desenvolvida por Landislau Von Rabcewicz a partir de 1945, chamada NATM “New
Austrian Tunneling Method” (Bruce & Jewell, 1986). Essa técnica era usada para
43

escavação de túneis rochosos e, diferentemente da técnica convencional, que


utilizava um suporte rígido, consistia na aplicação de um suporte flexível que
permitia que o terreno se deformasse sobre o suporte e fosse reforçado através de
chumbadores (Lima, 2007). A figura 30 mostra a diferença entre as duas técnicas.

Figura 30: Técnicas de execução de túneis com revestimento rígido (a) e flexível (b).

Fonte: Ortigão et al., 1993.

Com o desenvolvimento da técnica NATM para rochas duras, novos estudos


foram feitos para utilização da mesma técnica para rochas brandas e solos,
recebendo assim o nome de Solo Grampeado ou “soil nailing” em inglês. A partir dos
anos 70, a técnica de Solo Grampeado começou a se desenvolver na Europa
(França e Alemanha) e nos Estados Unidos (Lima, 2007).
No Brasil, a primeira obra do tipo foi realizada em 1970 quando a Sabesp
utilizou a técnica NATM para execução de um túnel de adução do sistema
Cantareira em São Paulo. A partir de 1972, foram executadas obras de contenção
na Rodovia dos Imigrantes utilizando chumbadores perfurados e injetados (Lima,
2007).
Os primeiros estudos com Solo Grampeado no Brasil se deram na década de
90, quando o primeiro muro de caráter unicamente experimental foi construído por
meio da técnica de Solo Grampeado no Morro da Formiga, no Rio de Janeiro. O
estudo foi feito por Ortigão et al., (1992) através da fundação GeoRio e apresentou
os principais resultados vantagens do método (Springer, 2006).

 Definição e Execução

A técnica do Solo Grampeado consiste na inserção de grampos, ou


chumbadores, que podem ser barras, tubos de aço ou material sintético,
44

horizontalmente ou inclinados no maciço, de forma a introduzir esforços de tração e


cisalhamento contrários às forças internas naturais (Leite, 2011). O processo de
construção deste tipo de obra é representado na figura 31.
45

Figura 31: Processo de construção do Solo Grampeado.

Fonte: Byrne, 1998.

Chumbadores são barras de aço fixadas com calda de cimento ou resina,


com objetivo de conter blocos isolados ou fixar obras de concreto armado sem o uso
de protensão. Dessa forma, eles unem o solo da zona ativa (à frente da faixa de
ruptura) com a zona passiva, onde é fixado (Carvalho, 1991). A figura 32 apresenta
sua estrutura.
46

Figura 32: Estrutura de um Grampo ou Chumbador.

Fonte: Ortigão et al., 1993.

O processo se inicia com o corte no solo de acordo com o projeto, ou não,


caso o objetivo seja o reforço de um talude.
A segunda etapa é a perfuração para colocação dos grampos distantes 0,8 a
1,2 metros entre si. Os grampos podem ser inseridos por percussão ou por
perfuração e injeção. No primeiro caso, barras de metais são cravadas no maciço
por auxílio de martelete pneumático. Neste caso, a velocidade de execução é alta,
entretanto a resistência ao cisalhamento é baixa, por volta de 40 kPa (Ortigão et al.,
1993).
No segundo caso, é feita a perfuração no terreno (entre 50 e 100 mm), que
pode ser feita com equipamentos de fácil manuseio, que variam entre 25kg a 500kg,
desde perfuratrizes tipo sonda até manuais. Além disso, nos casos em que as
condições permitem alta produtividade, é possível utilizar carretas perfuratrizes
sobre esteiras, cujos pesos variam entre 2 e 4 ton. (Pitta, et al., 2013).
Após a perfuração, são inseridas as barras de aço (entre 13 e 25 mm), que
são fixadas por placas e porcas (figura 26 A), caso o diâmetro seja menor que
20mm, a extremidade da barra pode ser dobrada (figura 26 B). Também são
instalados, adjacentes à barra, tubos de injeção que tem entre 10 e 15 mm. A
injeção é então feita com calda de cimento, fator água/cimento próximo a 0,5 (peso),
até seu extravasamento pela extremidade do furo (Zirlis, 1999).
Por fim, é feito um revestimento externo que pode ser flexível, utilizando-se
geomanta e permitindo o crescimento de vegetação ou de concreto projetado,
normalmente utilizado para taludes de maior declividade. O concreto projetado
consiste na construção de peças de concreto sem a utilização de forma. O concreto
47

é aplicado através de ar comprimido por via seca (água é misturada ao cimento logo
antes da aplicação) ou úmida (cimento é previamente misturado à água). O concreto
pode ser combinado a ferragens, telas ou fibras, de acordo com a necessidade
(Zirlis, 1999). Os equipamentos necessários para essa etapa também são de
pequeno porte, compostos, usualmente, por uma bomba de projeção, compressor de
ar, bomba d’água (no caso de via seca) e o mangote, juntamente ao bico de
projeção. A figura 33 apresenta os esquemas das fases construtivas do Solo
Grampeado, tanto com equipamentos manuais, quanto com equipamentos pesados.

Figura 32: Esquemas das fases construtivas do Solo Grampeado, manualmente ou com auxilio de
equipamentos.

Fonte: Zirlis, 1999.


48

O revestimento da obra de Solo Grampeado também pode ser feito por


cobertura vegetal, por meio do uso de grama, geomantas, biomantas, etc.
dependendo da declividade do talude (Santana, 2006). A figura 34 apresenta uma
obra de Solo Grampeado com cobertura vegetal e declividade média, enquanto a
figura 35 apresenta um talude de alta declividade em que a técnica de Solo
Grampeado com cobertura vegetal foi aplicada.

Figura 34: Exemplo de Solo Grampeado com Cobertura Vegetal

Fonte: Santana, 2006.

Figura 35: Exemplo de Solo Grampeado em Talude com Alta Declividade.

Fonte: Pitta et al., 2013.


49

Para fazer a cobertura vegetal, depois de feito o sistema de drenagem e a


regularização da superfície, é necessário preparar o solo, num processo de
microcoveamento, fazendo pequenas covas na superfície, de modo a reter os
insumos que serão aplicados, como sementes, fertilizantes, etc. (Couto et al, 2010).
Essa técnica leva mais tempo e exige maior manutenção nas fases iniciais do que o
revestimento por concreto projetado.
É recomendado o uso de sistemas de drenagem superficial e profunda
combinados à obra de Solo Grampeado. Devem ser feitas análises para definir as
estruturas de drenagem mais adequadas para cada caso (Zirlis, 1999). O uso de
DHPs e barbacãs é indicado, além da instalação de canaletas de crista e pé e
escadas hidráulicas para direcionamento da água coletada (Springer, 2006). A
presença de estruturas de drenagem se faz necessária para a redução da vazão de
percolação interna entre os poros ou fendas do maciço e a redução da pressão
neutra intersticial, além de evitar o efeito corrosivo nas barras inseridas no maciço, o
que também pode levar a redução da resistência da estrutura (Springer, 2006).

 Influência do paramento na estabilidade

Segundo Lima (2007), o paramento da obra exerce um papel importante na


estabilidade local do Solo Grampeado, no que diz respeito ao suporte do solo entre
os grampos à medida que se processa a escavação. O paramento deve suportar,
em condições de equilíbrio, os empuxos atuantes e as forças aplicadas
(normalmente se considera apenas as forças de tração atuantes na face da
escavação). Dessa forma, para o correto dimensionamento do paramento é
importante conhecer os valor desses dois parâmetros.
É comum no meio técnico nacional a adoção do revestimento em concreto
projetado, com espessuras que podem variar entre 75 mm e 150 mm. Para os
revestimentos de menor espessura, não são considerados os esforços de
puncionamento e momento fletor sobre o paramento, que atua apenas como uma
membrana, impedindo a entrada de água na obra, sem conferir a resistência aos
esforços atuantes (Lima, 2007). O mesmo acontece com os paramentos feitos com
cobertura vegetal. A cobertura desempenha um papel de drenagem do maciço, mas
não confere resistência as tensões solicitantes.
50

A influência da espessura do paramento no comportamento tensão-


deformação do maciço é apresentada por Lima (1996). Segundo ele, a rigidez do
paramento influencia:
No deslocamento da face: Com um aumento da rigidez da face há uma
diminuição de seus deslocamentos, que podem variar em até 35%.
Tensão máxima no reforço do grampo no paramento: Há uma diminuição
das tensões no reforço, que podem chegar a 10%, quando aumenta-se a espessura
do paramento.
Momento máximo no reforço do grampo no paramento: Os momentos no
reforço podem diminuir até 38% com o aumento da espessura do paramento.
Zonas de Plastificação: conforme aumenta-se a rigidez do paramento, as
zonas de plastificação diminuem.
As figuras x e y apresentam a variação dos deslocamentos máximos e
trações máximas de acordo com a rigidez do paramento.

Figura 36: Deslocamento Máximo em função da rigidez da face

Fonte: Lima, 1996.


51

Figura 37: Somatório das trações máximas em função da rigidez da face

Fonte: Lima, 1996.

 Aplicações

O Solo Grampeado é aplicável a taludes muito íngremes ou até verticais,


sejam naturais ou não (figura 35). Lima (2007) destaca as principais aplicações do
Solo Grampeado:
 Estabilização de taludes naturais, entre 45° e 70°;
 Contenção de escavações temporárias ou permanentes;
 Recuperação de outras estruturas de contenção como Cortinas Atirantadas e
muros de concreto armado.
52

Figura 38: Solo Grampeado em Taludes Naturais e Escavados

Fonte: Lima, 2007

Para obras em escavações, usualmente os chumbadores são aplicados


horizontais ou sub-horizontais, fazendo um trabalho de tração (Zirlis e Pitta, 1992).
Entretanto, quando utilizada para contenção de taludes naturais, os chumbadores
podem ser colocados verticalmente ou perpendicularmente à superfície de ruptura.
Neste caso, as forças de cisalhamento e momentos fletores também são levados em
conta. (Lima, 2007).
Segundo Zirlis e Pitta (1992), o uso de Solo Grampeado em taludes íngremes
de solos arenosos se mostra mais econômico em comparação com outras técnicas,
pois o número de chumbadores utilizados é reduzido.
53

 Exemplo de Aplicação

Muitos exemplos recentes de obras de Solo Grampeado podem ser citados.


Um deles está nas obras de urbanização da Favela Vergueirinho/ Nova Divinéia
localizada no bairro de São Mateus, zona leste de São Paulo. A favela passou por
um processo de urbanização que incluiu a construção de novas moradias com
infraestrutura total além de obras de drenagem e contenção de encostas. Um dos
métodos utilizados para a contenção foi o Solo Grampeado, por apresentar um custo
mais baixo, comparado com outras técnicas, facilidade de execução, rapidez e
equipamentos de fácil acesso à obra (Ikemori, 2008). Juntamente com a estrutura de
contenção, foram instalados DHPs para drenagem do solo. A figura 36 apresenta a
obra finalizada junto com as estruturas de drenagem.

Figura 39: Solo Grampeado na favela Vergueirinho/Nova Divinéia-SP.

Fonte: Ikemori, 2008.


54

5 MATERIAIS E MÉTODOS

A execução do projeto de pesquisa baseou-se principalmente na revisão


bibliográfica de publicações, artigos, revistas técnicas, teses e livros que abordam a
teoria de risco geológico-geotécnico, movimentos de massa, soluções geotécnicas
para movimento de massa e, em especial, o uso da técnica de Solo Grampeado.
Além disso, foram utilizadas outras fontes de dados como:

 Documentos técnicos da obra de Solo Grampeado realizada no campus da


Universidade Federal do ABC;
 Documentos técnicos das prefeituras de Santo André e Mauá obtidos através
do programa de extensão “Urbanização de assentamentos precários no
âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento na Região do ABC”.
55

6 RESULTADOS

O Primeiro Balanço do PAC para o primeiro semestre de 2015 divulgou que


as obras para prevenção em áreas de risco (que englobam contenção de encostas,
contenção de cheias e drenagem urbana) receberam, durante o programa, um
investimento de R$19,7 bilhões, beneficiando 332 munícipios e 740 mil famílias. Ao
todo, 148 obras já foram concluídas e 392 estavam em andamento em 31/08/2015.
Já segundo o 11º balanço do PAC 2 de 2014, desde 2007, 140
empreendimentos de contenção foram selecionados, 98 deles entre 2011 e 2014
totalizando R$575,6 milhões, que beneficiam 65 municípios. Através do Plano de
Gestão de Risco, mais 42 empreendimentos foram selecionados com o investimento
de R$1,7 bilhões.
Conforme site do Ministério do Planejamento, a verba para obras de
contenção nos municípios de Santo André, São Bernardo e Mauá somam mais de
R$67 milhões.
A disseminação do uso de Solo Grampeado tem sido marcante tanto em
obras de taludes de rodovias quanto em áreas de risco localizadas em
assentamentos e favelas. Alguns exemplos do uso dessa técnica na Região do
Grande ABC são as obras no Jardim Oratório em Mauá e Jardim Santo André,
assentamentos que receberam investimentos federais por meio do PAC.
O Jardim Oratório, que fica no município de Mauá, tem área de 1.129.350 m²
onde residem cerca de 33 600 pessoas (Moretti et al., 2012). Segundo relatório
técnico do IPT (2012), o assentamento possui quatro grandes áreas de risco, em
que cerca de 1400 famílias estão inseridas. Essas áreas de risco compreendem, em
geral, taludes naturais ou de corte que, submetidos a condições locais não
favoráveis (drenagem superficial precária ou inexistente, assoreamento, acúmulo de
lixo) apresentam riscos de movimento de massa.
Santos & Paiva (2014) consolidaram, na tabela 4, as obras executadas ou
previstas para este assentamento, tanto pelo IPT, através do Plano Municipal de
Redução de Risco (PMRR) quanto pela prefeitura.
56

Tabela 4: Obras previstas para o Jardim Oratório

Áreas de Risco Diagnóstico Obras Indicadas ou Planejadas


MA - 22
IPT Área sem Projeto
Piripiri
MA - 23
IPT Solo Grampeado e Muro de Arrimo
Itaparica
MA - 24
IPT Solo Grampeado e Muro de Arrimo
Olinda
Rua Guarujá Prefeitura Abertura de Viário (sem contenção)
Rua Porto
Prefeitura Solo Grampeado e Muro de Arrimo
Alegre
Rua Maceió e
Rua Rio de Prefeitura Solo Grampeado
Contas

Fonte: Modificado de Santos & Paiva, 2014.

Pela planilha é possível perceber que, em todas as áreas de risco em que são
previstas obras de contenção, o Solo Grampeado aparece como alternativa,
acompanhado ou não de outras obras.
O segundo exemplo é o do Jardim Santo André, localizado no município de
mesmo nome, tem área de 1,5 milhão de m² que chegou a abrigar 9000 famílias.
Hoje em dia, 3500 famílias ainda residem no local, as demais foram removidas ou
instaladas em conjuntos habitacionais (Moretti et al., 2012).
De acordo com o estudo técnico realizado pelo IPT (2009), foram identificados
30 setores de risco, abrangendo cerca de 2000 famílias e posteriormente, mais três
setores foram adicionados pela prefeitura. Os riscos compreendem, em sua maioria,
movimentos de massa.
De acordo com o plano diretor, as ações previstas para o Jardim Santo André
eram compostas, em sua maioria, de remoções, recuperação de áreas verdes e
consolidação geotécnica. A tabela 5 apresenta as obras previstas para cada setor de
risco. É importante ressaltar que os projetos de alguns setores não foram
encontrados.
57

Tabela 5: Obras Previstas para o Jardim Santo André

Setores Obras Planejadas


1 x
2 Muro de Arrimo.
3 X
4 Escada Hidráulica, Canaleta e Solo Grampeado.

5 Escada Hidráulica, Canaleta e Solo Grampeado.


6 X
7 Canaleta, Muro de arrimo e Gabião.
8 Solo Grampeado e Contrafortes de reforço.
9 X
10 X
11 X
12 X
13 Escada Hidráulica, Canaleta, Dreno e Caixa.
14 X
15 X
16 Escada Hidráulica, Canaleta e Caixa.
17 Escada Hidráulica e Canaleta.
18 Canaleta.
19 Escada Hidráulica e Canaleta.
20 X
21 X
22 X
Escavação, Cortina Atirantada, Canaleta e Solo
23
Grampeado.
24 Escada Hidráulica, Canaleta, Dreno e Caixa.
25 X
26 Escada Hidráulica, Canaleta, Caixa e Muro.
27 X
28 Escada Hidráulica, Canaleta e Solo Grampeado.
29 Barreiras e Alambrado, Canaleta.
30 Escada Hidráulica, Canaletas e Caixas.
31 Escada Hidráulica, Canaletas e Boca de Lobo.
32 Escada Hidráulica, Canaleta e Muro.
33 Escada Hidráulica, Canaleta e Solo Grampeado.

Fonte: Modificado de Santos & Paiva, 2014.


58

Novamente, é possível perceber que, nos setores em que foram feitas obras
de contenção, a tipologia de obra mais escolhida foi o Solo Grampeado,
acompanhado de outras obras. A figura 37 apresenta uma obra de Solo Grampeado
feita no Jardim Santo André.

Figura 40: Solo Grampeado no Jardim Santo André

Fonte: Santos & Paiva, 2014.

Outro exemplo de obra de Solo Grampeado é a obra realizada no campus


Santo André da Universidade Federal do ABC, apresentada na figura 38. A obra foi
realizada no talude abaixo da Rua Abolição, que faz divisa com a Universidade.
59

Figura 41: Obra de Solo Grampeado na UFABC

Fonte: Foto do autor.

Inicialmente, foram realizados estudos planialtimétricos e ensaios SPTs no


talude com o objetivo de identificar o perfil geológico-geotécnico do mesmo. Os
resultados mostraram o talude formado por: (1) Um aterro de Argila Silto Arenosa,
(2) Solo sedimentar de argila porosa (NSPT <02), (3) Solo residual de silte arenoso
(07 < NSPT < 23) e (4) Solo residual de silte arenoso (NSPT > 25). Um dos perfis está
representado na figura 39.
60

Figura 42: Perfil do solo a partir de ensaio SPT.

Fonte: Dynamis, 2010.

De acordo com as notas do projeto, os grampos foram executados de cima


para baixo, iniciando-se pela execução dos grampos destinados ao ensaio de
arrancamento. As especificações dos grampos são indicadas a baixo.
 Inclinação de 10° em relação à horizontal;
 Espaçamento Horizontal de 1,0 m;
 Espaçamento Vertical de 1,0 m;
 Armação: Barra de aço CA-50A, D= 20mm com pintura anticorrosiva;
 Centralizadores a cada 2,0m;
 Nata de cimento conforme norma NBR-7681 (Relação água/cimento =
0,5)
 Aderência: 20kPa
 Execução da injeção da nata de cimento em duas fases: (1)
preenchimento da bainha com nata de cimento; (2) injeção de nata de
cimento sob pressão de no máximo 0,5kgf/cm², 12 horas após a
primeira fase. O plano de execução dos grampos encontra-se nas
figuras 40 e 41.
61

Figura 43: Plano de execução dos grampos, vista frontal.

Fonte: Dynamis, 2010.

Figura 44: Plano de execução dos grampos, vista lateral.

Fonte: Dynamis, 2010.

As notas do projeto também apresentam a necessidade de implantação de


barbacãs e especificações para as canaletas. É ainda apresentado que todos os
lançamentos de água na crista do talude devem ser direcionados via tubo de PVC
até as canaletas projetadas. A figura 42 apresenta o projeto dos barbacãs em
detalhe.
62

Figura 45: Detalhe do Barbacã.

Fonte: Dynamis, 2010.

Ressalta-se que o planejamento da obra cita o revestimento natural com grama


amendoim e implantação de geocomposto para drenagem, entretanto a obra foi
revestida com concreto projetado, de especificações descritas abaixo:

 Espessura de 10 cm;
 Armação: tela de aço Q138;
 Resistência média aos 7 dias > 20MPA
 Fator água/cimento = 0,5;
 Consumo de cimento mínimo de 400Kg/m²

O atual uso do Solo Grampeado como alternativa de estabilização, tanto nas


obras citadas quanto em outras localidades, pode ser justificada por algumas
vantagens apresentadas pela técnica. A primeira delas é o custo em comparação
com outras soluções, em especial com as Cortinas Atirantadas.
Enquanto as Cortinas Atirantadas apresentam tirantes de trabalho ativo, ou
seja, os tirantes desenvolvem a capacidade de tração após uma pré-tensão com
cargas que variam entre 150 e 1000KN, o Solo Grampeado desempenha um
trabalho passivo, ou seja, os chumbadores apenas mobilizam esforços de tração
após ocorrer algum deslocamento do solo, dessa forma a pré-tensão a que são
submetidos variam apenas entre 5 e 10 KN (Silva, 2009).
Por causa das cargas elevadas nos tirantes das Cortinas Atirantadas, a face de
concreto deve ser dimensionada para suportar o puncionamento aplicado. Já para o
63

Solo Grampeado, o paramento não apresenta função primordialmente estrutural em


vista das pequenas cargas aplicadas sobre ele (Silva, 2009).
Além disso, os grampos do Solo Grampeado são mais curtos que os tirantes de
Cortinas Atirantadas, que são utilizados para superfícies de rupturas mais profundas,
e podem variar entre 15 e 45m, necessitando muitas vezes de equipamento de
maior porte para sua aplicação (Silva, 2009).
Levando em conta os pontos apresentados acima, o Solo Grampeado
apresenta um menor custo de execução, comparado com a Cortina Atirantada.
Segundo Ortigão et al. (1993), a obra apresenta custo 30% menor, comparado ao
das Cortinas Atirantadas. Para Zirlis e Pitta (1992), os custos podem ser de 10% a
50% mais baixos. A figura 43 apresenta uma comparação entre os custos dessas
duas obras feita por Teixeira (2011).

Figura 46: Gráfico comparativo entre preços de Cortina Atirantada e Solo Grampeado

Fonte: Teixeira, 2011.

O menor custo de obra, leva o Solo Grampeado a ser muito utilizado em projetos
de urbanização de favelas, por exemplo, pois com um menor custo é possível
realizar mais intervenções utilizando a mesma verba (Lima Filho et al., 2005 apud
Lima, 2007). A tabela 6 apresenta um resumo das principais diferenças entre Solo
Grampeado e Cortina Atirantada.
64

Tabela 6: Resumo das comparações entre o Solo Grampeado e a Cortina Atirantada.

Solo Grampeado Cortina Atirantada

 Chumbadores desempenham trabalho  Tirantes desempenham trabalho


passivo; ativo;

 Pré tensões de 5 à 10 KN;  Pré tensões de 150 à 1000 KN;

 Paramento não apresenta função  Paramento deve ser dimensionado


primordialmente estrutural, tendo, para suportar o puncionamento
dessa forma, um menor custo; aplicado;

 Chumbadores mais curtos;  Tirantes mais longos;

 Menor custo.  Maior Custo.

Fonte: Elaborada pelo autor.

Outra vantagem do Solo Grampeado é a velocidade de execução. A obra pode


ser feita rapidamente com o uso de maquinário adequado e o uso de concreto
projetado reduz a necessidade de mão de obra (Ortigão et al., 1993). Além disso, os
processos de escavação, perfuração e injeção podem ser conduzidos
simultaneamente em posições diferentes da obra (Lima, 2007).
As obras de Solo Grampeado podem ser inclinadas, acompanhando a
declividade natural do talude, melhorando a estabilidade do muro e reduzindo os
movimentos de solo na obra (Ortigão, Zirlis e Palmeira, 1993). De acordo com
Springer (2006), dessa forma, um grampo em sobrecarga não comprometerá a obra
como um todo. Além disso, as estruturas utilizadas em Solo Grampeado são mais
flexíveis que as tradicionais, o que proporciona melhor adaptação ao terreno e
melhor resistência aos recalques diferenciais.
A versatilidade da técnica também é um ponto favorável. A obra pode ser
aplicada tanto em solos homogêneos quanto em heterogêneos (Springer, 2006).
Para Lima (2007), uma das grandes vantagens do Solo Grampeado é a
possibilidade de adaptação de projeto em meio a sua execução, de acordo com os
cenários encontrados. Além disso, a técnica pode ser combinada com obras de
ancoragem, de forma a aumentar a rigidez da estrutura (Ortigão, Zirlis e Palmeira,
1993).
Entretanto, a técnica também apresenta algumas limitações. A primeira delas é
referente à tipologia de solo: O uso da técnica pode ser dificultado quando o solo
65

não apresenta coesão suficiente para que o talude permaneça estável até a
colocação dos grampos. A aplicação também não é satisfatória em solos com alta
porcentagem de argila, ou que sejam propensos a variação volumétrica (Springer,
2006). Além disso, a obra não deve ser feita em maciços abaixo do nível d’água.
Para tal, deve ser feito o rebaixamento permanente do lençol (Lima, 2007).
O Solo Grampeado apresenta também mais movimentações laterais e verticais,
se comparado com outras estruturas, como o atirantamento. Dessa forma, há
maiores deslocamentos provocados pela flexibilidade da estrutura. Nos casos em
que há a execução dessa obra próxima a estruturas vizinhas, sensíveis a
movimentos do terreno, a obra pode ser combinada à ancoragem tradicional
(Ortigão, Zirlis e Palmeira, 1993).
O uso de paramento com concreto projetado é também uma desvantagem.
Mesmo sendo uma opção produtiva, seu resultado estético pode gerar um
desconforto visual, especialmente em grandes taludes, onde está sujeito inclusive a
degradações antrópicas, como pichações. Nesse caso, o paramento com cobertura
vegetal pode ser mais adequado, especialmente quando se preza pelo aspecto da
obra e sua impressão aos usuários.
Outra desvantagem do Solo Grampeado é que a obra exige estruturas de
drenagem que demandam um processo de manutenção mais complexo se
comparado ao das estruturas de drenagem superficiais, utilizadas em soluções
técnicas mais simples, como o Retaludamento.
A tabela 8 resume as principais vantagens e desvantagens do uso do Solo
Grampeado como solução técnica de contenção de encostas.
66

Tabela 8: Resumo das Vantagens e Desvantagens do uso do Solo Grampeado.


Vantagens Desvantagens

 Menor custo de execução (quando


 Tipologia de Solo:
comparado com outras soluções
É necessário que o talude apresente
técnicas como Cortinas Atirantadas)
coesão suficiente para se manter estável
até a colocação dos grampos
 Produtividade

 Estrutura flexível utilizada permite  Mais susceptível a movimentações


melhor adaptação ao terreno e maior laterais e verticais (quando comparado
resistência aos recalques diferenciais; com outras obras, como as Cortinas
Atirantadas).

 Versatilidade/ Adaptabilidade
 Paramento com concreto projetado pode
gerar desconforto visual além da
possível degradação antrópica
(pichação).

 O sistema de drenagem pode exigir um


processo de manutenção mais complexo
se comparado ao de soluções mais
simples, como o Retaludamento, que
utilizam sistemas de drenagem
superficial.

Fonte: Elaborada pelo autor.


67

7 DISCUSSÃO

A partir dos dados apresentados, é possível avaliar que o emprego do Solo


Grampeado como solução técnica para contenção se encostas apresenta grandes
vantagens, tanto econômicas quanto em termos de execução, popularizando-se em
diferentes cenários e aplicações. Neste contexto, o Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC), tem feito grandes investimentos em obras de contenção de
encostas, aplicando amplamente a técnica de Solo Grampeado, em diversas áreas
beneficiadas, como por exemplo, nos assentamentos Jardim Santo André e Jardim
Oratório, na Região do Grande ABC.
A atual utilização da técnica pode estar relacionada às suas principais
vantagens: praticidade, versatilidade e produtividade. A praticidade relaciona-se,
principalmente, ao maquinário e a mão-de-obra. São utilizados equipamentos leves,
algumas vezes até manuais, e há baixa demanda por mão de obra. A versatilidade
está ligada a capacidade da técnica em se adaptar às condições geométricas do
talude e a solos heterogêneos. Já a produtividade se dá pela possibilidade de
conduzir várias etapas simultaneamente em vários pontos da obra, e pela
possibilidade de se utilizar maquinário pesado (principalmente na etapa de
perfuração) reduzindo o tempo de execução e aumentando a sua produtividade.
Uma obra prática e rápida mostra-se competitiva frente às outras soluções
técnicas, em especial em locais de risco iminente, onde se faz necessária a
execução rápida da obra, e muitas vezes em diversas localidades simultaneamente.
Contudo, mesmo diante das expressivas vantagens apresentadas pelo Solo
Grampeado, as avaliações e análises in situ são de extrema importância para a
escolha da solução técnica de contenção a ser aplicada no local, objetivando
entender, entre outros fatores, o processo geodinâmico incidente, a tipologia do solo
e os possíveis impactos na área.
A análise in situ se faz necessária mesmo após a escolha da solução técnica a
ser utilizada, de forma a evitar superdimensionamento e encarecimento da obra. Na
aplicação do Solo Grampeado isto pode ocorrer, por exemplo, quando são
projetados grampos mais próximos que o necessário, aumentando o custo da
execução de forma desnecessária. O mesmo ocorre na escolha do paramento.
Todas as obras apresentadas nos resultados foram finalizadas com paramento de
concreto projetado, porém, com uma avaliação profunda do fenômenos ocorrente e
68

da situação real no local de aplicação, outras alternativas poderiam ser também


utilizadas. O uso de cobertura vegetal, por exemplo, é raro, sendo utilizado em
poucos casos, o que pode estar relacionado à maior necessidade de mão de obra
(preparo do solo e manutenção de mudas) e maior tempo para finalização da obra,
dado o tempo necessário para desenvolvimento da cobertura vegetal. Sendo assim,
a cobertura vegetal se torna menos atrativa, em especial quando se preza pela alta
produtividade.
É possível perceber, entre as obras analisadas, que soluções técnicas mais
simples, como o Retaludamento, têm sido menos utilizadas, ao mesmo tempo em
que se opta por obras mais complexas e modernas, como o Solo Grampeado e as
Cortinas Atirantadas. Tais soluções mostram-se muito eficazes, entretanto deve-se
sempre avaliar a relação custo-benefício dos diversos tipos de soluções técnicas
possíveis.
Segundo Carvalho (1991), o assunto Retaludamento, juntamente a outros
métodos tidos como “tradicionais” (alterações geométricas, drenagem e proteção
superficial de taludes) têm recebido pouca atenção dos projetistas, que vêm
gradualmente reduzindo sua importância. A eficácia das soluções modernas é
indiscutível, entretanto antes de partir para uma solução mais complexa é importante
avaliar se há a possibilidade de resolver o problema local com soluções mais
simples que, além de serem mais econômicas, podem exigir menos manutenção.
Soluções técnicas mais simples, como o Retaludamento, aplicadas juntamente
a um sistema de drenagem superficial adequado (com o uso de bermas, canaletas,
dissipadores, escadas d’água, etc.) deveriam ser a primeira solução a ser
considerada, levando-se em conta sua simplicidade e, em muitos casos, se
mostrariam soluções menos impactantes, igualmente eficazes e mais econômicas.
Nos casos que envolvem assentamentos em áreas de risco, que recebem
ações financiadas pelo governo, o aumento do custo de uma obra pode significar a
falta de recursos para atendimentos de outras áreas, reduzindo o número de famílias
atendidas. Nesse sentido, a melhor utilização de recursos, em obras mais
econômicas e eficazes, deve ser uma prioridade no momento da escolha de
soluções.
A melhor solução é a que se adequa de forma mais completa à realidade
encontrada em campo, levando-se em conta fatores técnicos e econômicos. Uma
alternativa complexa nem sempre é a mais adequada à realidade local. Neste
69

contexto, Santos [201-] discute o que chama de “modismo tecnológico”, frequente na


engenharia geotécnica atual, onde não mais se buscam soluções técnicas para um
problema, mas sim a solução “prêt-à-porter” (pronta para uso) busca problemas
onde possa se estabelecer técnica e comercialmente.
Ressalta-se que, mesmo a solução técnica sendo completa e abrangente, não
se deve substituir um diagnóstico geológico-geotécnico preciso, com o entendimento
do fenômeno atuante no local, por soluções genéricas, ou superdimensionadas. É
imprescindível que seja feita a escolha pela solução técnica mais apropriada para o
cenário, e que sua aplicação seja realizada da maneira mais coerente com a
realidade local, adotando-se coeficientes de seguranças mais reais, resultando em
obras geotécnicas mais econômicas e eficientes.
70

8 CONCLUSÕES

Acidentes envolvendo processos de movimento de massa tem acontecido


com maior frequência nas últimas décadas, em especial deflagrados por ações
antrópicas.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) investiu milhões de reais
em obras de prevenção em áreas de risco, incluindo obras de contenção de
encostas. Só nos municipios de Santo André, São Bernardo e Mauá mais de 67
milhões de reais foram investidos.
Nos casos de risco geológico-geotécnicos, obras de engenharia são
comumente aplicadas, em especial as obras de estabilização de encostas que
incluem obras com ou sem estruturas de contenção, obras de proteção e obras de
drenagem. A lista de soluções é extensa e varia de acordo com a situação e o
processo incidente no local.
Foi possível perceber que dentre várias opções de obras de contenção, a
técnica de Solo Grampeado tem sido amplamente aplicada, tendo como exemplo
sua utilização no Jardim Santo André e Jardim Oratório, onde grande parte das
obras de contenção previstas eram de Solo Grampeado.
O atual emprego da técnica do Solo Grampeado leva a avaliação de suas
vantagens e desvantagens frente a outras soluções técnicas. Dentre elas se
destacam a praticidade, adaptabilidade e produtividade. Além de oferecer bons
resultados com um custo mais baixo do que obras mais complexas, como as
Cortinas Atirantadas, o Solo Grampeado exige pouca mão de obra e um maquinário
simples, o que possibilita sua execução mesmo em áreas pequenas ou de dificil
acesso. Além disso, várias etapas podem ser conduzidas simulaneamente em
pontos diferentes da obra, fazendo com que o tempo de execução seja pequeno.
Uma obra rápida e prática se destaca frente as outras opções do mercado.
Contudo, o Solo Grampeado também apresenta desvantagens. O solo que
irá receber a obra deve ter coesão suficiente para que o talude se mantenha estável
até a colocação dos grampos. Além disso, a técnica apresenta maior movimentação
lateral e vertical, se comparada a outras soluções como as Cortinas Atirantadas.
Outra desvantagem é o uso do paramento de concreto projetado, que confere
desconforto visual à obra além de estar sujeito a possíveis degradações antrópicas,
como pichações. Por fim, o uso do Solo Grampeado exige obras de drenagem que
71

podem demandar mais manutenção, se comparadas as estuturas de drenagens


superficiais, utilizadas em soluções técnicas mais simples, como o Retaludamento.
Mesmo com as vantagens apresentadas pelo Solo Grampeado, deve-se
reforçar que a melhor solução técnica é a que se adequa de forma mais completa à
realidade encontrada em campo. Nenhuma solução prévia pode ser escolhida antes
de um diagnóstico preciso das características locais e do processo atuante na área,
de forma a se compreender a real situação a ser enfrentada e a melhor solução
técnica a ser aplicada naquele cenário.
Nos casos de assentamentos em áreas de risco que recebem recursos
públicos para contenção de encostas, uma boa avaliação custo-beneficio das
soluções técnicas a serem aplicadas pode significar a melhor utilização de recursos,
beneficiando mais famílias com obras mais econômicas e eficazes.
Por fim, é importante ressaltar a importância de novos estudos voltados à
soluções técnicas na área de geotecnia, bem como aos processos geodinâmicos e
acidentes geológico-geotécnicos nos grandes centros. O desenvolvimento de
pesquisas e conhecimento nessas áreas levará à dignósticos mais corretos e
escolhas de soluções técnicas mais coerentes e eficientes para os problemas de
movimentos de massa enfrentados no Brasil.
72

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