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A ESTRUTURA

DO
COMPORTAMENTO
ESTANTE D E PSICOLOGIA

Teorias da Adolescência — R o l ! E . Muuss


Infância e Adolescência — Stone e Cburch
Uberdade Para Aprender — Cari R . Rogers
Ludoterapia — Virginia Mae M u n e
Nossos Filhos e Seus Problemas — Heloísa de Resende Pires Miranda
Psicoterapia d e G r u p o c o m CriartgaS — l i a i r r i G . G i n o t t
Psicoterapla e Re104e9 HUMar185 — I e I I Cari R . Rogers e G . MKinget
arian leu
A E s t r u t u r a do Comportamento — M . IvIerleau-Pority
Á ESTR VERÁ
/tiséqe
DO
COMPORTÁMENTO
ENSINO SUPERIOR

Como Fazer I r m a Monografia — D e c i o Vieira Salornon


G Homem e a Ciência do Homem — WUhlam R. Coulson — Cari R. Itager5
Maurice Merieau-Ponty
Modernização e Mudança Social — S. N . Eisenstacit
Precedido d e
Poesia e protesto e m GregOto de Matos — P r a z Teix&ra de aniles
Contribuição à Metodolog.a do Serviço Social — Boris Alexis Lis-ma
U M A FILOSOFIA D A AMBIGUIDADE

Alphonte d e Waelhens

TRADUÇÃO: José d e Anchieta Corria


PEDIDOS

Interlivros de Minas Gerais Ltda.


Av. Augusto de L i m a 223 — Sobre-loja 22 (loja)
M . Contorno 2031 (Editora)
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B e l o 111:1V.ZDELLC — M i n a s G e r a i s

interLivita,
Belo Horizonte a - 1975
P i t t S t i O l t 3UA 1-UNI t
DE CONHECIMENTO
Atendemos pelo Serviço d e Reembolso Postal BIBLIOTECA CENTRAL
PUC-RS. 1
I A STRUCTUrRE D U c o m p o R t n e w n
Maurice Merleau-Ponty

ORDENAÇÃO EDITORIAL: E l i s a Hedbuth Verçoza


DIAGRAMACAO: M i n a m P i n - t e n t e i A n
REVISÃO GRÁFICA: M i n a m PiMent.C1 Antunes
Maria Tereza d e Morais
íNDICE
CAPA: Cláudio Mart'ns

P-U C - R S .
PREFÁCIO à Edição Brasileira XIII
r -

[Z0Çjj t E T f l f l Uma filosofia d a ambigtildade, p o r Alphonse de Waelhens 1 9


Introdução — O problema das relações e n t r e consciência e natureza 2 9
637-T-2, 852)
CAPITULO I — O COMPORTAMENTO REFLEXO
Copyright 1971. P r o s a » U n i v e r s a t r a t de Franca-

Introdurgio: a definição d a objetividade e m f i s i o l o g i a e a


concepção clássica d o reflexo. O s métodos d e análise r e a l
e de explicação 33

Univerkataires d e I — A Concepção Clássica do Reflexo e 81111.5 Hipóteses Auxi-


publicada por Presses liares
Edição original e m francês
France — Paris — 1972 1. O " e s t i m u l o " 36
2. O l u g a r d a excitação 41
3. O circuito reflexo 4.3
Condições químicas, secretoras, v e g e t a t i v a s d o r e f l e x o
Condições cerebrais e cerebelosas; noções de inibição e de
controle, d e coordenação e d e integração; COnCeNãO hie-
rárquica d o sistema nervoso. — Dependência d o reflexo
em relação a reações s:multaneas. E m relação às rea-
ções precedentes: irradiação, a Inversão d o reflexo, a l e i
Direitos de Tradução crn Lingua POttUglICSa de Weber e a noção d e l i m i a r.
n r r E R u i n t o s D E MINAS GERAIS LTDA. 4. A R e a ç ã o 55
Cauta Postal, 1843 — Te l . : 222-2568
Belo Horizonte — Minas Gerais
11I — As Estruturas d o Comportamento

ReSUITIO; O problema d a ordem: o r d e m anatômica e o r - 1. A aprendizagem não pode ser Interpretada como uma as-
dem fisiológica. sociação d e acontecimentos nervosos exteriores u n s a o s
outros 124
11 — A Interpretaçao do Reflexo da Teoria da Forma 12•A Descrição d a s estruturas d e comportamento 115_
A) A s formas sincréticas e o Instinto. — B ) A s «l'OrMe-5
...... 59
1. o Reflexo d e fixação ocular; a s relações das excataçaes 61 amovíveis": o sinal; a s relações espaciais e temporais:
entre s l e a reação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . as relações mecânicas e estáticas. — C ) A s formas s i m -
2. Conseqüências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .izações
.......... bólicas.
64
3. Ve r i f i c a ç ã o dessas conseqüências: a s reorgan f i m -
cionais e as suplências e m particular n a hemianopsia • • Conclusão: Significação d o r e f l e x o condicionado: fenómeno
4. Significação biológica d o reflexo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 9 patológico o u atividade superior. Comportamento e existên-
cia 158
I n — Conclusão

1. A categoria "formas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 3 CAPITULO I I I — A ORDEM FISICA, A O R D E M V I TA L , A O R D E M


HUMANA
2. e l a supérflua e a r u t i l a ) nervosa se reduz. em uma fisio-
74
logia bastante desenvolvida, a u m entrecrusarnento de re-
lações d o tl.po físico? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Introdução: A Te o r i a d a F o r m a q u e r ultrapassar a s a n t i n o -
3. F O r M a e finalidade. A o r d e m como categoria descritiva 7 6 mias d o substancialismo• — N a realidade, ela é reconduzida
a ele p o r falta de uma análise filosófica d a " f o r m a 165

— A Estrutura e m Física
CAPITULO I I — OS COMPORTMVIENTOS SUPERIORES
1. E m que sentido é verdadeiro dizer, contra o positivismo,
I — A reflexologia d e Pavlov e Seus Postulados
que o m u n d o físico comporta estruturas 172
Ela pressupõe t u n a descrição d o comportamento. A n á r s e f t - 2. M a s as estruturas não estão "em" uma -natureza" 176
SICOCIIIITIllea e análise d o comportamento e m fisiologia . . . . . . 7 9 3, A estrutura é p a r a u m a consciência 179

— O "Setor Central" d o Comportamento e o Problema das I I — As Estruturas Vitais


Localiaoções
1. Originalidade das f o r m a s v i t a i s c r u relação aos sistemas
1. Resultados geralmente admitidos n o problema d a s loco, fisicos• O organismo e s e u m e i o como termos d e u r n a
lizaçaes................................................ 8 8 dialética n o v a 181
A análise d a doença, a s perturbações d e estrutura. - - 2. O organismo c o m o aidaaa." 188
PUIICIOMMICOM global e funcionamento e m mosaico. — 2. A un:dade de significação, n o organismo, para além da an-
Conaeoçao M s t a das lwalizaçaes e paralelismo funcional. tinomia nieuticiamo-vitalLarno 189
2. Interpretação desses resultados: a noção d e COOrderlat40
basta p a r a d a r conta dela? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 0 8 I i i — A Ordem Humana
A coordenação n a percepção espacial e a "disposição das
imagens". — N a percepção cromática; o ' n i v e l cromáti- 1, A v i d a d a Consciência 19.
co". — N a Fisiologia d a linguagem. — Equivoco d a n o - — A relação entre consciência e ação permanece exterior
ção de coordenação. nos contemporâneos. Conseqüências n o q u e concerne a
3. Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 2 0 teoria d a percepção 19a
Contra o empirismo e o Intelectualismo e m fisiologia_
A f o r m a nos fenômenos centrais. Mas o que é uma forzna?
eeptiva 255

— Caracteres d a percepção incipiente: eia se apega a i n - Listas das obras citadas 257
tenções humanas a n t a que a °lajeies e experimenta rea-
lidade antes q u e conhece verdade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 0 4
— Conseqüências n o que concerne à estrutura d a cons-
ciência: várias espécies d e intenções, a Consciência d a
realidade.
2. A consciência propriamente h u m a n a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 0 7
3. C o n t r a o pensamento causal e m psicologia. Interpretação
do freudismo e m t e r m o d e e s t r u t u r a . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 11
4. O "psíquico" e o espírito não são substâncim, mas dialé-
ticas ou formas de unidade. — Como ultrapassar a alter-
nativa d o "mentalismor e d o m a t e r i a l i s m 0 " . O P s í -
quico como estrutura d o comportamento . . . . . . . . . . . . . . . . 2 1 4

Conclusão: D u p l o sentido das análises preoedentes• A d m i t e m


ela urna conclusão criticista? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 1 3

CAPITULO 13/ — A S RELAÇÕES ENTRE A ALMA E O CORPO E O


PERCEPTIVO

1 — A s soluções C á s s i a s
1. A consciência ingénua e seu realismo empírico . . . . . . . . . . 2 1 9
2. o realismo filosófico d o sensível. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 2 3
3_ O pseudo-cartesianismo da ciência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 2 5
4. A análise cartesiana d a consciência perceptiva . . . . . . . . . . 2'23
5. A idéia critica. O problema das relações entre a a l m a e
o corpo resolvido por uma teoria intelectualista da percep-
ção• •• . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 230

Existe Ema Verdade do Natrtrallsmo

1. E m que sentido os capítulos precedentes conduzem à a t i -


tude transcendental. Matéria, vida, espirito definidos c o -
mo três ordens de significação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 3 4
2. N o s s a conclusão n ã o é criticista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2313
3. 2 preciso distinguir a consciência como lugar das signifi-
cações e a consciência corno f l u x o d o vivido . . . . . . . . . . . . 2 4 3
A) A percepção exterior. O fenómeno da coisa. — o Fe-
nômeno do corpo próprio. — Retorno ao campo percepti-
vo como a urna experiência originária. O realismo Corno
erro b e m fundado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 4 3
E) o erro, as estruturas psíquicas e sociais . . . . . . . . . . 2 5 1
4 E s t r u t u r a s e significação. O problema da consciência per-
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

A t r a d u ç ã o d e A E s t r u t u r a d o Comportamento apresenta grande


Interesse p a r a o s estudos fenomenológicos n o Brasil, principalmente n o
que d i z respeito à o b r a d o Merleau-Ponty, sem dúvida " a r u i s r i c a e m
possibilidades dentre todas aquelas que mesmo e m sua t e r r a natal a Fe.-
nomenologia d e Husserl e Heidegger inspirou", como bem o d i z Enuna-
nuel Levinas

O aparecimento desse l i v r o e m edição brasileira é. Pois, f o t o r e a l -


mente alvissareiro. J á possuímos quase t o d a a o b r a d e Merleau-Ponty
traduzido.: Sinais t n , Humanismo e Te n o r (2', O Olho e o E s p i r i t o (3),
Fenomenologia d a Percepção 14,, O Visível e o Invisível (SI, Ciências d o
Homem e Fenomenologia (In, A Prosa d o M u n d o (7).

A Estrutura do Comportamento é o primeiro l i v r o de Merleau-Pon-


ty. P o n t o d e I r ',tida d e sua filosofia, é d e capital importância p a r a a
compreensão t i & formação e d a evolução d e s e u pensamento. A noção
de " c o r p o - p r ó p r i o " o u c o r p o fenomenal, noção c h a v e n a Filosofia d e
Merleau-Ponty, t e m e m A Estrutura d o Comportamento o l u g a r d e s u a
constituiçãc_

_ 11 ) T r a d u ç ã o d e F e r n a n d o G I L E d i t o r i a l M i n o l a u r o , L i s b o a , 1 9 6 2 ,
Tradução d e ?<Immo L a d o s k y. Te m p o B r a s i l e i r o . E l o . 196S,
a i T r a d u ç ã o d e G e r a r d o D a n t a s B a r r e t o , G r i f a e d . . B l o , 1999.
(4) T r a d i ç a ° d e Reginaldo d l F i e r o . L i v r a r i a F r e i t a s Bastos, R i o 1971.
(5) T r a d u ç ã o cie José A r t u r G l a n o t i e A r m a n d o M o u r a d'011veira, E d i t o r a Perspectiva.
Não P a u l o . 1971.
(C). T r a c u ç ã o d e S a l m o Ta u n u s M c r r l r n i I , S a r a i v a , S A o P a u l o , 1 9 7 3 .
TruidoVio d e & U n a L u z , Bickeit, I t t o , 1971.
dido e m parte, guardando e m si u m fundo d e silêncio. Denunciar t a m -
Obra difícil, procura colocar e m exercido u m novo modo de filosofar bém essa psicologia idealista, psicologia d o sujeito como " p u r o p a r a s i " ,
um n o v o e s t a t u t o d a objetividade, d a i s e u grande Interesse para as ilusória "presença de si a si". Ta l a atualidade da obra de Merleau-Ponty,
chamadas "ciências d o h o m e m " T a l interesse, n ã o s e r e d u z , p o i s , Faz-se, pois, menos necessário atualizar a s informações cientificas
por mais Importante que seja, a sua contribuição metodológica. Não é pró- utilizadas p o r Merleau-Ponty d o q u e d a r seqüência a o cordrontamento
prio d e Merleau-Ponty emperthar-se n u m a ' c a ç a sem presa". p e l o p u r o da ciência f e i t a h o j e , — s e j a e l a o behavlorismo n a sua f o r m a atual,
prazer da busca lato é. o slcinnerianismo, seja e l a a psicanálise, o u a Ciência Política —
Terminada e m 1938, A EStrittUra d o Comportamento tem. sua p r i - com a f i l o s o f i a q u e e l a t r a z pressuposta; t a r e f a a q u e Merleau-Ponty
dedicou o melhor de seu exerciam filosófico. Prosseguir esse afrontamen-
meira edição datada d e 1942. To d a v i a é a Penomenologia d a Percepção,
to, esse descobrimento d o s pressupostos o u das crenças filosóficas n ã o
cuja primeira edição d a t a d e 1945, que f a z convergir para o jovem f i -
justificadas, n ã o explicitadas e , porque n ã o dizer, eseamoteadas, q u e o
lósofo d e então a atenção dos estudiosos e se impõe corno o centro d o cientista esposa, e sobre as quais alicerça muito de suas condutas "cien-
debato dessa nova filosofia. H á entretanto e n t r e esses dois livros, m a l - tificas".
grado a distância n o tempo e m q u e f o r a m escritos, malgrado a s d i f e -
rença de enfoque. u m a articulação essencial, u m reenvio d e analise e do Atualidade q u e s e t r a d u z a i n d a pelo empreendimento dessa árdua
fundação, N u m a palavra, s ã o d o i s l i v r o s ' f r u t o s u m d o o u t r o " n a s e - e d i f í c i l t a r e f a d e compreender a " j u n ç ã o d o sentido e d a existência"
gura observação de A , d e Waelliens. realizada pela condição humana: " p a r t e d o mundo", c o m todas a s suas
Urna e o u t r a o b r a t r a t a m d a estrutura d o s e r humano enquanto itlerénela.S biológicas, psicológicas, m a s t a m b é m " s e r intencional", capaz
de v i s a r todas as coisas n ã o sendo nenhuma delas.
presença, elaboram ambas u m a tellOrrienOlOgla q u e j á contém e m s i o
movimento q u e possibilitará s u a releitura, s u a "explicitação ontológica"
tal como Merleau-Ponty o n o t a e m O Visível e o Inaasível.
Pensar a condição humana, p a r a a l é m d a perspectiva d o " p o n t o
de vista reflexivo" e d o "ponto d e v i s t a objetivo". Pensá-la não a p a r - Na f i l o s o f a d e Merleau-Ponty trata-se sempre d e u m trabalho i n -
P t : r do l u g a r dos filósofos q u e dela fizeram a f o n t e absoluta d o sentido. visível, silencioso que sustenta a obra, que n u t r e o diálogo. O que c o n -
mas também n ã o d o l u g a r d o s homens d e ciência q u e a reduziram a ta não são t a n t o as proposições que se esperava verem anunciadas, mes-
um comportamento dado a u m espectador eatrangeiro, visto q u e o solo mo porque tão logo anunciadas, as proposições que fariam a síntese desse
de ancoragem da filosofia d e Merlcau-Ponty é a própria eXperiénela. movimento — antítese empirismo-idealismo, " p a r a s i " - " e m s i " , real-ima-
ginário — essas sínteses o u aproximações se abrem p a r a outras distân-
Tal situação levará Merieau-Ponty a c r i t i c a r e a explicitar a ' o n - das, como para acusar a necessidade d e u m o u t r o passo.
\ tologia que toda ciência secreta" 4 n . C r i t i c a r e explicitar t a n t o esta I n - De Merleau-Ponty se pode d i z e r q u e f o i plenamente u m filósofo.
'I c l i n a n o reitleatile d a d e l i c i a e d a prática cientifica, q u a n t o seus des-
vios idealistas. Denunciar, p o r exemplo, n a Psicologia, a reifitaÇãO d o A freqüentação — a o l a d o d e Descartes, Malebranche, M a i n e d e B i r a n
1 comportamento, essa tandência a t o m á - l o corno "colsa",. c o m o " d a d o ' , — de Rege!, Husserl e Heidegger n ã o f a z dele n e m u m hegeliano, nem
fazendo dele u m a "natureza", quando n a verdade é martifestação de u m a tampouco um husserliano ou um heideggerlano. Sua proximidade é ao mes-
história que se faz, da vida que se tece. P o r a n u essa atitude substan- mo t e m p o distancia, a r i g o r e l e n ã o s e f i l i a a nenhuma escola, a n e -
cMlista. repressiva, praticada p o r u r n a "ciência", q u e a:Nstrn procede i n - nhum sistema. N ã o t e m mesmo a Intenção d e c o n s t r u i r u m sistema,
consciente de seus fundamentos, surda ao seu próprio discursa, que f a l a permanecerá sempre fazendo d a filosofia u m m o d o d e s e r i n t e r r o g a t i -
da alucinaaão, d a perda d o s e n t i d o r e a l , s e m s e Interrogar e m p a r t e vo, u m a "dialética s e m síntese", consciente q u e j a m a i s ex:ste ultrapas-
alguma sobre o que é esse real, supondo " r e a l " o que ele, psicólogo, t e - sarnento e m todos o s azimutes, q u e t o d o ultrapassamento é "enxertado
de déficits".
rapeuta o u hOTIWITI d e ciência vê; c o m o se t o d a visão não fosse situada,
\ toda percepção perspectivista e t o d o objeto r e a l apatias parcial. conca- A presença de Preud, que j á se manifesta em A Estrutura do Com-
portamento, s e r á sempre retomada, ratificada, e aprofundada p o r M o r -
leau-Ponty. S e existe urna grande distancia entre a s reflexões d e A E s -
trutura do Comportamento, dedicadas a Freud e aquelas expostas no Pre-
it) S t r i e s , Goihmord P a r i s . M O , p , 123.

• ‘,
vez desfeita esta idealização e franqueada esta antinomia chave, Merleau-
Ponty. e n f i m liberado daquilo que havia guardado d a filosofia d a cons-
fatio à obra de Hesnard (I) sobre Freud e as páginas de O Visível e o I n - clenclas é conduzido ã interrogação d a realidade p r i m e i r a d e t o d o s e r,
visível, verdade é que Merleau-Ponty deu ao inconscente u m lugar cada no "quiasma d o Visível e d o Invisível" ( I ) .
vez mais importante e m sua obra. DiSSO d ã o testemunho entre outros,
J. t o r e n , J . B . ? e n t a l i s (2) e A n d r é Green (3). A evolução d a filosofia d e Merleau-Ponty pode, então, s e r c o m -
preendida como a evolução d a noção de "corpo" à noção de "carne", que
não é senão " a história d a liberação d a a n t i n o m i a d o ser-sujeito e d o
Do mesmo m o d o Merleau-Ponty esteve sempre a t e n t o à p r o b l e -
ser-objeto pela descoberta d a "carne" como " m e l o f o r m a d o r ( 2 ) .
mática p o l i t i c a , c i e n t í f i c a e a r t í s t i c a d e s e u t e m p o : M a r x , S o u s -
sure, Goldstein, ELOSteiTI, Cézane estão presentes e m s e u trabalho. » a "Esses dois momentos d a Filosofia d e Merleau-Ponty t ê m e m c o -
mesma f o r m a n e l e e s t ã o presentes p r o b l e m a s t a s como: o c o l o n i a - mum o desejo e a preocupação d e construir u m a filosofia d a encarna-
lismo, a Indochina, a Argélia, a Revolução Russa e o Estalinismo_ ção d o Espírito, seja pelo seu apego à idéia d a unidade d o homem c o -
Urna mesma unidade de objetivo e de pesquisa nutre e anima toda mo subjetividade engajado, afirmação d e u m a facticidade inalienável, se-
ja pela sua 'vocação d o concreto" d a qual a reflexão sobre a arte, e m
a obra, de Merleau-Ponty: "compreender a s relações e n t r e a conscien-
que existe promiscuidade d o vidente e d o v!sivel e a reflexão s o b r e o
cio e a natureza — orgfanEca, psicológica o u mesmo social" (41; " c o m -
trabalho h u m a n o e a ação politica são testemunhas incontestes"
preender o h o m e m e o m u n d o a p a r t i r d e sua facticklade" 15); "saber
o sentido cio ser no mundo" (0). A atitude e a obra de Merleau-Ponty sejam, pois, OCIA.5IãO e estimulo
No i n t e r i o r dessa unidade d e objetivo e pesquisa u m movimento para o desenvolvimento entre nos d e urna reflexão e d e u m a praxis i n -
dialético, u m a evolução se fará_ Poderíamos caracterizá-lo e m t o r n o d o s terdisciplinares, onde a filosofia reencontre seu lugar e tenha algo r e a l -
mente a dizer.
dois conceitos chave d a filosofia d e Merleau-Ponty: o ' c o r p o " e a " c a r -
ne". Teríamos então u m p r i m e i r o momento, q u e é o d a Filosofia d o Belo Horizonte, fevereiro de 1975
Corpo, q u e n o s revela " o ser-humano e m s u a originalidade d e ser-no- José de Anchieta Corrêa,
mundo e o c o r p o p r ó p r i o c o m o expressão desta n o v a realidade: n e m
um para-si p u r o d a ordem de u m a consciénela absoluta, n e m u n i em-Si..
coisa pura, da ordem do objetivo; n e m u m n e m outro porque o ato p r i -
mordial d e significação e m que o exprimido n ã o existe à parte d a e x -
pressão, m a s estabelece u m sentido encarnado' ( 7 ) .
Um segundo momento, o d a FilOSOri3 d a Carne, e m q u e Idetleall-
POBty v a i aprofundar e t i r a r todas a s conseqüências d o f a t o q u e a s
noções d e " s u j e i t o " e d o " o b j e t o " f o r a m consumidas n o c o r p o . ISIna

O ) P r e f á c i o a •11;0•curre d e P e c a i e t soa importante p o n t t e Monde Moderar- D r .


A. B e s n a r d , Payot. P a r i s , 1960.
(2) C . L e s T e m i " Nederints, n s 1/41-185, P a r i s , 1952.
(3) n r • " n o comportement á l a c l u d r : i t i n e r a i t e d e Merleau.Fonty», I n Ileritbassew.
as 211, P a r i s , D e z . 1 9 6 1 , p p , 11117-164a.
(4) t a Straerure d a Comportement. Faris, F. C . F _ . 1242, p . 1
(5) Phinomertologie d e i a Percept.-on. Gaillusard, w 2 1 ,
(a) t o Viuibie e t t*Inatirble, Pneus, G•illoiard, 1964, p . 2 1 .
(l) C o r r ê a . José d e Anehleta, lievoltdlois de i a n o l o n d e «Lrotpa" à I . notion de "chalra' (I) I d e m . Idem.
chez, Maurice Merleau-Ponly, Te s e d e doutoramento apresentado n o Instituto Superior (2) I d e m . Idem.
de Filosofia d a Unitersidade d e L e a v a i n . Bélgica, e m J u l h o d e 1071; extraio d e I m e (3) I d e m . I d e m .
publicado n a r e s i s l a K r i t e r l o a d e Universidade F e d e r a i d e M m a s Ger/Ais, v o l . X I X
(Ano 1906-1972). p _ i s . 17
UMA FILOSOFIA
DA AMBIGÜIDADE

As doutrinas contemportmeas repetem d e b o m grado que o homem


se define (se é que a idéia de definição l h e seja aplicável) pelo ser-no-
mundo. M a s esta tese requer evidentemente q u e s e conceba a p r ó p r i a
existência d o h o m e m f o r a d a alternativa d o Para-si e d o E m - s i . S e é
coisa o u consciência p a r a , o homem deixa d e s e r n o mundo. Porque a
coisa coexiste c o m outras coisas: n ã o a s transcende, p o i s e l a n ã o t e m
horizonte. O r a , o m u n d o n ã o e s t á n a s coisas, m a s n o horizonte d a s
coisas. E inversamente, a consciência p u r a n ã o é m a i s q u e u m o l h a r
que estende t u d o d i a n t e dela, s e m implicações, obstáculos o u ambigüi-
dades, e cujo conceito é rebelde a própria idéia de resistência o u de en-
gajamento, em que consiste para nós a experiência-tipica do real.
Todavia, é preciso d i z e r q u e o s autores m a i s decididos a igualar
existência e s e r n o m u n d o freqüentemente negligenciaram o u s e esqui-
varam de nos descrever esse misto que é a consciência humana. Heldegger
se coloca sempre a u m n í v e l d e complexidade q u e p e r m i t e i m a g i n a r
resolvido o problema de que tratamos. Porque é n o terreno d a percep-
ção e d o sensível que o problema deve receber u m tratamento decisivo.
Ora, os projetos que, segundo Sein u m ! Zeit, engendram para nós a i n -
teligibilidade d o r e a l , j á pressupõem q u e o s u j e i t o d a existência c o t i -
diana levante seu braço pois ele crava e forja, d i r i j a seu o l h a r pois con-
sulta seu relógio, s e oriente pois conduz seu carro. Q u e u m s e r h u m a -
no possa desempenhar essas diferentes tarefas não c r i a dificuldade algu-
ma, desde que s e julgou "evidentes" s u a capacidade d e a g i r e d e m o -
ver s e u corpo, s u a faculdade d e perceber. Perseguir a s evidências d o
senso c o m u m é t a r e f a n u n c a acabada e o l e i t o r d e Heidegger percebe

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tática que é constitutiva da negação interna e d o conhecimento, é o e m -
muito tarde que a acuidade minuciosa desenvolvida pelo a u t o r n a des- si e m pessoa q u e é pólo concreto n a s u a plenitude e o para-si n ã o é
crição d o m u n d o projetado p o r n ó s t e v e e m contrapartida u r n a t o t a l outra coisa que o vazio e m que se desprende o em-si. (1)
negligência do mundo que está "desde-semore-al" para nós.
As conseqüências disso, p a r a o problema q u e o r a n o s ocupa, s ã o
E bem nesse mundo que surge a paradoxal estrutura de urna exis- importantes. Manifestam fortemente u m a discordância e n t r e a d o u t r i n a
tência consciente, de u m a existência que se faz coisa dominando a coisa. metafísica d e Sartre e os dados descritos p e l a fenomenologia d o mes-
mo a u t o r. Porque como sustentar doravante, se a consciência e o conhe-
Se para m i m u m p r o j e t o e u m a interpretação d o r e a l são possíveis, é
cimento se definem semelhantemente, que não existe nenhuma identidade
porque sou, em u m sentido radical, parte ligada com esse real. O r a , não
se e n c o n t r a e m Sei-ri u n d Z e i t trinta l i n h a s s o b r e o p r o b l e m a d a entre eles que, " t o d a consciência não é conhecimento"? 2 • O r a , é p r e -
cisamente u m t a l identificação, lenomenologicamente insustentável como
percepção; não se encontra dez sobre o problema do corpo
D próprio Sartre o admite, q u e t o r n a r á incompreensíveis t a n t o percep-
o caso de Sartre é mais estranho. L t t r e e t t e Néant contént com ção c o m o c o r p o . A p r i m e i r a s e reduz, conforme o q u e acaba d e s e r
efeito, além d e u m a c r i t i c a m u i t o rebuscada das doutrinas clássicas d a dito, a esta presença da coisa ao mesmo tempo imediata a distanciada ( : )
sensação e d o "psicológico" e m geral, u m estudo sistemático d a corpo- da q u a l a visão fornece a estrutura-tipo: "Perceber o vermelho c o m o
reidade como modalidade ftmdarnental do ser-no-mundo. Foi Sartre quem a cor desse caderno é se refletir a si-mesmo como negação interna dessa
introduziu n o existencialismo contemporâneo a distinção — c a p i t a l — qualidade. Equivale a dizer que a apreensão d a qualidade não é "preen-
do corpo para-mint e de meu corpo para-outro. sem a qual t o d a a p r o - chimento" (Erftilung) como o quer Husserl, mas informação de u m vazio
blemática d o c o r p o perde-se n a confusão e f i c a s e m defesa c o n t r a Os como vazio determinado dessa qualidade, Nesse sentido a qualidade é
ataques d o positivismo. Q u a n t o tis teses adiantadas p o r Sartre sobre a presença perpetuamente Inatingível... Daremos conta mais fielmente d o
própria natureza d a corporeide,de, concebida essencialmente c o m o t u n a fenómeno original d a percepção insistindo n o f a t o d e que a qualidade se
dialética opondo o corpo-utensil:o 3,em u n i sentido m u l t o particular, a o mantém e m relação a n ó s através d e urna relação d e proximidade a b -
corpo-facticidade, aparecem como de urna excepcional fecundidade e sus- soluta — está aí", obseda-nos — sem dar-se n e m recusar-se m a s é ne-
cetíveis de nos fazer compreender enfim como a consciência existente po- cessário acrescentar q u e essa proximidade implica u m a distância. E l a é
de ser ao mesmo t e m p o urna inerência e u m projeto P e n a q u e não se o q u e está imediatamente f o r a d e nosso alcance, o que, p o r definição,
possa compreender e aceitar essas teses, t ã o logo T11)S colocamos, como indica-nos a nós mesmos como u m vazio." (11 M a s se a percepção tes-
é necessário, n o quadro geral d a ontologia sartriana. Pois, precisamente, temunha uma presença da coisa, claramente aposta diante de nós sem equi-
esta ontologia acentua com urna obstinação incansável a oposição — não voco nem mistério, se ela tem a transparência cristalina de u m olhar que o
mais dialética, desta feita, porém radicalmente inconciliável — d o E m - s i Para-si põe sobre o Em-si, ela não se distingue absolutamente de nenhum
c d o Para-si. A s s i m s e encontra restaurado e m s e u p r i n c i p i o o d u a - outro tipo de conhecimento: " H á somente um tipo de conhecimento, o intui-
lismo cartesiano d a StlbStittle1a-132Tamento e d a substancia-extensã'o. tivo" Go A d e r e - s e então, ao que parece, ã intuição do rationalismo clás-
Restaurado, aliás, é m u i t o f r a c o ; e m realidade, trata-se d e u m a g r a - sico e reencontram-se todas suas dificuldades p a r a Justificar o sentido
vo, pois e m Descartes o pensamento e a extensão, se não t ê m deterrai- e o alcance originais d a percepção, Perde-se mesmo o direito de sair-se
nação comum. todavia, e m urna certa medida, s e unificam pelo f a t o d e pela tangente, c o m o Descartes e S i t i a r a , chamando-a u m a i d é i a c o n -
que u m e o u t r o são concebidos como substância. Pensamento e exten- fusa. U m a vez que Para-si e E m - s i são radicalmente separados, u m a vez
são são pois semelhantemente subsistentes em si mesmos e semelhantemente que a consciência torna-se u m espectador sem consistência própria, a sor-
relativos a ação criadora de Deus. S a r t r c objetará, é verdade, que essa
dupla analogia se revelaria ilusória caso Descartes tivesse t i d o o cuida-
do d e explicitar-lbe a significação. Talvez, m a s isso equivaleria a c o n - (1) E . N . , p , 2 2 5 . O u a i n d a e m a i s claramente: " o conhecimento. s e c o n f u n -
fessar-Se culpado, o l h e m o s a questão d e p e r t o . A consciência, S a r t r e d e _ c o m a s e r ek•estatico d o Para-si", E . N . , p • 2 6 L
afirma, é u m nada de ser que se desdobra n a nedificação d o ente (1). A (2 a N . , p . I s .
definição d o conhecimento não é m u i t o diferente: "nessa relação ek-es- (a) i s s o significa simplesmente q u e o p a r a i i n ã o sendo u m a coisa n ã o poderia s e
encontrar A distancia d a c o i s a , m a s q u e , p o r o u t r o l a d o , a percepção s e n d o u r n a
perpetuo afirmação d e que se é a coisa n ã o a sendo, a dist/mula outolOgi cri d o pana-si
à coisa permanece sempre i n f i n i t a
( i ) " O s e r d a consciência. ettqUanto c n n s t I esteia. é d e e x i s t i r a d is/anela d e (4) E . N . , p • 236.237.
st como presença a s i c esta distancia n u l a que o s e r t r a z e m seu s e r, é o N a d a s . (5) E . N . . p . 2 2 0 .
liettre e t i t Néant. p . 120.
21
20
r-
que esta facticidade — que, e m c e r t o sentido, define nossa situação —
sendo inseparável de u m projeto pelo qual ela é retomada e interpretada,
te está lançada: u m a t a l consciência conhecerá o u n ã o conhecerá, m a s ilumina-se, ( p a r a empregar u m t e r m o heideggeriano) e m função desse
não poderia conhecer d e diversas maneiras, n e m referir-se a o E m - s i d e
mesmo projeto. A faeticidade, o corpo o u o passado se revelam pois v a -
maneira 'ambígua. T ã o l o g o o conhece, trenspassa-o. T ã o l o g o fala,
riáveis segundo o sentido q u e l h e d á nossa projeção. T u d o isso não s e
tudo é d i t o d e u m g o l p e . S e m d ú v i d a , a conseiência pormenoriza
expõe a n e n h u m a objeção imediata. M a s n ã o é a mesma coisa q u a n -
suas negações e n ã o é de u m a vez, pelo conhecimento, negação de t o d o
do s e esforça p o r distinguir n o E m - s i , aquilo q u e procede d o corpo e
o E m - s i . M a s as qualidades que ela percebe, percebe-as n o absoluto. A
aquilo que não procede dele. P o i s chegamos então a esta tese, pelo Me—
consciência n ã o está n o m u n d o porque n ã o está engajaria naquilo q u e
nos paradoxal, d e q u e t o d o conhecimento se constituindo pela nadifica-
percebe e n ã o colabora e m sua percepção. O r a , são precisamente esta ção d e u m E m - s i , t o d o conhecido s e integra a nossa facticidade, t o r n a -
colaboração e este engajamento q u e d ã o a o conhecimento sensível u m
se nosso corpo_ S a r t r e aceita algumas vezes e s t a conseqüência d e s u a
aspecto d e constante e intrínseco não-acabamento, u r n a necessidade d e doutrina, e, de certa maneira, ela não é Injustificável o 1. Pois se o Pa-
ser perspectivista e d e se fazer d e u m ponto d e vista, todos o s traços ra-si s e a f i r m a surgindo como urna nadificação d o e n t e e m totalidade,
que S a r t r e fenerrienálOgr) m u i t o b e m v i u , m a s q u e s u a metafísica n ã o este ente e m totalidade é a facticidade que ele nadifica e portanto, con-
justifica. S e m dúvida ele salva e mesmo sublinhe, p o r s u a doutrina, o forme à definição q u e acaba d e ser enunciada, o próprio corpo. O p r o -
caráter imediato d o realismo; mas não chega nunca a explicar que a coi-
blema c o m p o r t a contudo, a o l a d o d e seus dados fenomenológicos, u m
sa, imediatamente presente, não se entrega todavia a nós senão d e u m a outro aspecto m u i t o menos f á c i l . J á que a fenomenologia — a d e Sar-
maneira, ao mesmo tempo evidente e sibilina, u m a vez que O percebido,
tre também — revela c o m efeito u m a facticidade m i n h a e m u m sentido
Indubitável enquanto percebido, espera, sempre receber seu sentido pleno
muito mais profundo e m u i t o mais radical. 2 a que n o s revela, e m u m
de u m a exploração ulterior que, p o r sua vez, delineia u m novo horizon-
limite quase inacessível, o sofrimento e a náusea. Citemos Sartre: q u a n -
te d e potencialidades. N o Sartre metafísico, a s diversas visadas d e u m
do consideramos desta f o r m a o corpo, "trata-se simplesmente p a r a nós
mesmo objeto n ã o se sucedem senão porque a consciência assim o d e -
da maneira peia qual a consciência existe sua contingência: é a própria
cidiu conforme a urna necessidade, arbitrariamente invocada, d e sua es-
textura d a consciência (2) enquanto ela ultrapassa esta textura e m d i r e -
trutura própria: e s t a parcialidade, esse caráter sucessivo e ambíguo d a
ção a suas próprias possibilidades, é a maneira pela q u a l a consciência
percepção não resultam d a própria natureza do contato que une a cons- existe espontaneamente, e de u m m o d o não tético, aquilo que ela cons-
ciência e a coisa. P a r a Sartre, a consciência pormenoriza u m conheci-
titui eticamente mas implicitamente como ponto d e v i s t a a respeito d o
mento q u e e l a poderia seguramente esgotar d e u m golpe, simplesmente
mundo. I s s o pode ser a d o r pura, mas isso pode ser também o humor,
porque u m olhar eiteustivo (perfeitamente possível o u a t é mesmo exigi-
como tonalidade afetiva não tética, o p u r o agradável, o p u r o desagradá-
do e m principio) f i x a r i a a consciência e m coisa, a congelaria e m E m - s i
vel, d e u m a maneira geral, é t u d o o q u e se n o m e i a o "coenestésioe".
e, dessa forma, acabaria p o r destrui-la I S a r t r e reconhece u m a dialé-
tica d a percepção, n ã o p o r q u e e s s a dialética seria inerente ã própria Esse "coenestésico" aparece raramente s e m s e r ultrapassado e m direção
ao mundo p o r u m projeto transcendente d o Para-si; como t a l , é m u l t o
apreensão que possamos t e r das coisas, m a s porque sem ela não have-
difícil estudá-lo à parte. Contudo, existem algumas experiências privilegia-
ria v i d a d a consciência. M a s esta vida, vé-se, não está assegurada e m
das e m q u e s e pode captá-lo e m s u a pureza, e m particular a d a d o r
seu principio: é invocada e colocada antes q u e incluída n o p r ó p r i o f e -
que se c h i e m física" UH. o sentido desse texto é claro e, p o r mais d i f í -
nómeno d a percepção.
cil que possa s e r conciliá-lo c o m certas teses fundamentais d a metafísi-
As mesmas dificuldades s u r g e m quando S a r t r e t e n t e harmonizar ca sartriana, n ã o s e poderia, s o b este pretexto, f i n g i r esquece-lo. P o i s
sua lenomenologia d o corpo e sua metafísica. Pode-se aceitar sem o b - ele reivindica o direito d e u m a experiência incontestável que, a não s e r
jeção as descrições, tão originais quanto verdadeiras, que ele d á d o c o r - que se renuncie ao t i t u l o de fenomenólogo, deve-se manter diante e c o n -
tra todo pressuposto metafísico,
po. Mas não se chega nunca a cornpreendê-las. Contudo, t primeira vista,
as explicações d e S a r t r e parecem claras, coerentes, e verdadeiramente
Não s e poderia p o i s negar q u e a consciência o u o Para-si, a i n d a
suscetíveis d e fornecer u m a resposta a o problema. O Para-si não tendo
ser e m s i mesmo, s ó pode existir como nadificação d e u m a facticidade.
Esta Ú l t i m a é precisamente o c o r p o p r ó p r i o t i ) , Concebe-se t a m b é m
(I) " E l e ( o corpo) s e identifico p o r outro Ilido como mundo p . 372.
(2) G r i f o nosso.
(1) C X . E . N . , p p . 231-232. (3) E . N . , p - 396.
(2) C f . E . N . . p . 3 7 1 . N ó s n o s l i m i t a r e m o s a q u i o c o n s i d e r a r a s explicações u n t o .
lOgiens d a corporeidade. n ã o s u a descrição fe110111C110161/11,1à,
23
a despeito das instituições e das descrições contrárias, o d e u m a cons-
que ontologicamente n a d a d e s e r , existe contudo s o b a m a n e i r a d a ciência-testemunho. E s t a é a t e s e f u n d a m e n t a l defendida e m níveis
Inerência ou, d i t o d e o u t r o modo, que e l a se Incrusta e m algum e m - s i diferentes e m A E s t r u t u r a d o Comportamento 11P e n a Fenomenologia
e destaca assim u m a facticidade p r ó p r i a . S e m dúvida, esta lacticidade da Percepção (211. É ainda, n o fundo, a mesma concepção q u e se reen-
bruta de nosso corpo não é fácil d e ser colocada e m evidência, uma vez contra nos diversos artigos e m q u e esse a u t o r esboçou s u a filosofia d a
ela se encontra normalmente retomada e m u m projeto q u e a t o r n a a o história e sua interpretação do marxismo (:11 É verdade que nesses ú l t i -
mesmo tempo sigmilicativa e mundana r e s t a d o r provém de uma incem mos trabalhos a influência hegeliana se faz mais visivel. Mas, e isso não
no estômago, é m i n h a úlcera") e que, s o b este aspecto, é apenas u m foi suficientemente assinalado, não existe nenhuma contradição entre u m
elemento o u uma lace d e organização geral d o real, organização que e u tal existencialismo e a inspiração profunda que animava Regei, sobretu-
elaboro necessariamente pelo p r ó p r i o f a t o d e que existo. M a s ao l i m i t e do o Hegel d a Phanomenolosie des Geltes • O s protestos antihegelia-
e e t n principio, u m a factieldade, a o m e s m o t e m p o o u r a e puramente nos de u m Kierkegaard e d e u m Jaspers. a atitude d e alguma maneira
minha, deixa-se descobrir. Aconselhamos a quem disso duvide u m a l e i - desdenhosa d e u m Husserl f a c e a qualquer filosofia d i a l é t i c a alimenta-
tura d e A » u s e s . O r a , como u m a t a l facticidade é concebível, s e não ram p o r m u l t o tempo graves equívocos a esse respeito. Sobre isso ainda
existe nenhuma cumplicidade de natureza entre o Era-si e o Para-SI, co- convém fazer algumas distinções necessárias.
mo não se contunde c o m o conjunto d e u m passado e dos objetos que
conheci ( d o mesmo m o d o que o corpo segundo o primeiro sentido des-
crito)? S e é verdade q u e o Para-si se esgota e m s e r distancia w i d t h -
A primeira tarefa que se nos impõe é de precisar exatmnente a d i -
cante, p o r que, se t o d a experiência é nadificação daquilo que não se é,
ferença d e p o n t o d e v i s t a manifestada e m A E s t r u t u r a d o Comporta-
toda experiência — enquanto que facticidade p u r a e f o r a de t o d a valo-
mento e n a renomenologla d a Percepção. P o i s , poder-se-ia p e r g u n t a r
rização pelo projeto — não possui o Mesmo peso? Ou antes como se Con-
qual necessidade impunha ao a u t o r escrever d o i s livros cujo tema é. em
cebe q u e u m a facticidade possa pesar? O r a , se é verdade q u e depende
um c e r t o sentido, Idêntico. S e é verdade, c o m o o sustenta Merleau-
sempre d e m i m que e u ceda a u m a d o r, u m minuto, u m segundo, u m
Pontyi_mte_ a _experiência natural t i o homem_ eoloca-ri d e chofre e m u m
décimo d e segundo mais tarde, é verdade também que a dor m e oprime.
Murn_ j_o_ge_st ataas-e-emrsiste-para- ele e m se o r i e n t a r no meio delas e Crii
Em outros termos, se o Para-st é apenas a distancia d e u m o l h a r tomar partido, descrever o comportamento dó h o n i é t - e sua- percepção d a
coisa 6 ater-se a u m mesmo o b j e t o : ?lesse perspectiva, o segundo l i v r o
sem ser, a p a r t i r d o momento cru que se admite unta facticklade não se
do a u t o n e r i a simplesmente mala completo que o primeiro, pois, n o p r o -
compreende corno p a r a e l e t u d o n ã o s e j a igualmente facticidade; q u e
longamento d a própria percepção, se esforça p o r esclarecer o que seme-
exista n o p r ó p r i o interior d e m i n h a experiência, u m a facticidade rainha
lhante d o u t r i n a i m p l i c a n o tocante à reflexão n a t u r a l ( q u e opomos a
em u n i sentido radical e u m a facticidade t ã o somente e m u m sentido
reflexão científica e, se é cabível, metafísica, do homem), acerca da tem-
relativo. Pouco I m p o r t a q u e essa diferença seja, n o f a t o , dificilmente
poralidade e d a liberdade mundanas d o sujeito. D i r - s e - á que A E s t r u -
Lsolável: b a s t a q u e s e u principio s e j a reconhecido p a r a q u e s e v e j a o
tura de Comportamento é uma obra por excelência negativa que se esfor-
ser-no-mundo p r o v e r - s e d e u m a n o v a dimensão, a q u a l a dualidade
ça p o r m o s t r a r a i n a n i d a d e o u a inaSlIfitiênCla d a s respostas q u e a
absoluta d o E m - s i e d o Para-si n ã o poderia aquilatar, o u m e l h o r, t o r -
psicologia d e laboratório oferece a o problema d e nosso comportamento,
naria impossível. Concluir-se-á q u e e s t a dualidade compromete o s e r -
e isso apesar daquilo que ela mesma descobriu e acentuou? Mas Isso se-
no-mundo o u , pelo menos, que ela l h e confere u r u sentido itiStIfiCierlte
ria restringir excessivamente a significação desse livro e m que j á se anua-
face à d e s c r i ç ã o . o m e s m o e m p o b r e c i m e n t o o u , s e s e q u e r , a m e s m a
fraqueza constatar-se-ia, p o r o u t r o lado, a propósito d a noção s a r t r i a -
na d e liberdade, a o menos n o g r a u d e erplicitação e m q u e o a u t o r a
) 1 v o l 3 1 4 p . P a r i a , P.11-1,1., 1 0 1 2 . N o v a e d i ç ã o , 1 v a i - . 2 4 0 p . P a r i s . ' P A : A ' ?
conduziu em suas obras publicadas. 1049.
(2) 1 v o l . 5 3 1 p _ P a r i s , G a l l i m a r d _ 1945_ — S o v e E d t f l o . 1 9 4 9 .
(3) ESSC3 a r t i g o s f O r l i n t r e u n i d o s e m d o i s h o l u r n e s I t u m a n i s m e e t Te r r e n a . ( P a r i s ,
Galimard. 10171 e & a s e f M o a Sens ( P a r i s . Nagel- 1918)-
As dificuldades q u e acabamos d e levantar a propósito d e H e l - (4) " l i a u m existencialismo d e i l e a e l n o s e n t i d o e m q u e p a r a c i e . o h o m e m a i o é
degger e d e S a r t r e s ã o a s mesmas q u e d e r a m nascimento a reflexão de c h o f r e u m a consclencia q u e p o s s u i c l a r a m e n t e s e u s p r ó p r i o s pensamentos. m o s
de M . Mer1Call-P011ty_ To d o seu esforço tende à elaboração de uma d o u - uma v i d a d a d a a s i m e s m a q u e b u s c a compreender a s i m e s m a • To d a a P e n e MC110-
nrarayla d o E s p i l t o descreve esse esforço q u e f o z o h o m e m p a r a s e apreender". M e t -
trina d a consciência engajacia. P e l a primeira vez, afirma-se u m a filoso- leau,Pontly: O Existentialtsmo e m Hegei e m Sens e t Non-Sens_
fia existencial e m que o m o d o d e ser ú l t i m o d o Para-si não s e revela,
25
24
urna floresta, u m prado ou um riacho 02) pág. 26). Contudo parece-nos pre-
ferível começar a leitura por A Estrutura do Comportamento. É a ordem
ela formalmente a posição t a l a i d a s Idéias d e Merleau-Ponty, e esque-
que o p r ó p r i o a u t o r deseja ( I I e n ã o s e poderia renunciar a e l a s e m
cer-se de que sua segunda abra comporta também uma parte critica m u i -
sérias razões. Mesmo q u e existam estas razões, existem outras, a o c o n -
to Importante, dirigida desta f e i t a contra a psicologia intelectualista dos
trário, que nos levam a aceitar seu convite, É que a concepção defen-
grandes racionalistas clássicos e seus epígonos, Descartes, Spinoza, t e i b - dida pelo a u t o r n ã o é d e f o r m a alguma d e acesso f á c i l e s e e l a n ã o
niz, Lacheller. Lagneau e M a i n . A distinção real n o s parece de preferên- se choca c o m u m c e r t o sentimento espontãneo d e nosso ser, contraria
cia residir n o t i p o d e experiência descrita, A Fenomenologia d a Percep-
diretamente t u d o o q u e a filosofia m o d e r n a n o s ensinou a pensar n o
ção se estabelece sem desfalecimento n o plano d a experiência natural e tocante a esse ser. É pois aconselhável, para compreendê-la corretamen-
ingênua, j á descrito n o ú l t i m o Husserl. S e a o b r a faz apelo m u l t o f r e - te, não se negligenciar certos atalhos e nos persuadirmos antes, que acer-
quentemente e redobradas vezes m u i t o engenhosamente aos dados f o r - ca do problema d a percepção e d e seus prolongamentos, a s soluções d a
necidos p e l a psicologia d e laboratório O u pela psicopatologia, é c o m a
tradição moderna são caducas. Assim, e m lugar de penetrarmos de c h o -
finalidade d e esclarecer o u d e preparar a interpretação d a experiência
fre n o i n t e r i o r d e urna d o u t r i n a á r d u a e desconcertante, m e l h o r seria
natural, única e m questão. A o contrário, A Estrutura d o Comportamento
experimentarmos Inicialmente a s razões pelas quais o s caminhos t r a ç a -
aceita u m o u t r o debate. E l a se apodera d a nossa imagem esboçada —
dos p o r u m a c e r t a h i s t ó r i a são impasses; talvez então veremos, pouco
em cores n e m sempre harmónicas — pelas principais escolas d e psico-
a pouco e progressivamente, elevar-se acima desses fracassos u m a o u t r a
logia experimental (sobretudo a Gestallpsychologrie e o behaviorismo) e luz.
se interessa e m p r o v a r q u e o s f a t o s e o s materiais reunidos p o r essa
ciência são suficientes p a r a contradizer c a d a urna das doutrinas I n t e r -
pretativas às quais o behavorismo e a Gestalitheorie implícita o u e x p l i -
citamente recorreram. A Estrutura d o Comportamento coloca-se n o n í - Essas poucas explicações n o s preservam d e u m grave engano. Ta l
vel d a experiência não natural mas cientifica e procura provar que esta engano consiste e m pretender, c o m o f a z i a certo d i a diante d e nós u m
experiência mesma — isto é , O c o n j u n t o d o s f a t o s que, trazidos a l u z critico d e Merleau-Ponty, q u e esta filosofia, n a medida e m q u e é p o r
pela investigação cientifica, constitui o comportamento — n ã o é c o m - toda p a r t e cuidadosa e m s e apoiar sobre o s fatos revelados p e i o p r o -
preensível dentro das perspectivas ontológicas que a ciência espontanea- gresso d a psicologia, seria solidária d a ciência a t u a l e destinada a c a i r
mente adota ( l ) . s ó s e o b t é m c o m sucesso u m a visão coerente desse ou a vencer c o m ela, i s t o é. e m certo sentido, j á condenada. H á a i u m
comportamento se o interpretamos c o m a a j u d a d e u m a concepção q u e contrasenso absoluto e, d e resto, a m a i o r parte das abjeções que se l e -
não d ê crédito nem a hipótese d e u m comportamento-coisa e n e m à h i - vantaram e m certos meios c o n t r a a doutrina d e Merleau-Ponty se I n s -
pótese d e u m comportamento-Manifestação d e u m espirito p u r o . D o n - pira n u m a idéia exatamente contrária ( e igualmente falsa) p o r q u e elas
de é necessário concluir que a noção d e consciência-engajado., t a l c o m o o censuram t o r n a r a ciência s e m v a l o r o u impossível. Constatamos
a desvelará m a i s t a r d e a descrição d a experiência n a t u r a l Ou ingênua, que essa pretensa sujeição d a filosofia d e que tratamos a u m a ciência
já se encontra Implicadas e mesmo imposta, pela critica Interpretativa d a experimental qualquer (biologia, fisiologia, psicologia) n ã o possui qualquer
experiência cientifica. D e fato, contudo, a tese de A Estrutura d o C o m - aparencla de razão S e Merleau-Ponty reúne e discute incansavelmente os
portamento permanece subordinada à tese d a Fenomenologia d a Percep- fatos fornecidos pela experimentação cientifica o u a psiquiatria, é u n i -
ção como a experiência d o cientista permanece subordinada, n a sua o r i - camente c o m o f i m d e provar que esses fatos fazem literalmente explo-
gem, à experiência quotidiana que ela se encarrega d e explicar e sem a dir e m pedaços o s quadros ontológicos — geralmente implícitos — den-
qual ela não existiria. " Vo l t a r às coisas mesmas, é voLtar a esse mundo tro dos quais são apresentados. I s t o n ã o q u e r dizer que o a u t o r queira
anterior a o conhecimento d o qual o conhecimento FA L A sempre, e face entregar a o cientista a s tarefas o u a s responsabilidades d o metafísico.
ao qual t o d a determinação é abstrata, significativa e dependente, como a Isso significa simplesmente que, p a r a esse filósofo, o cientista — como
geografia face à paisagem e m que apreendemos originariamente o que é todo homem — pensa espontaneamente e m função d e u m a ontologia e
que n o caso esta ontologia — q u e u m velho h á b i t o t o r n a n a t u r a l —
t i l o c i e n t i s t a n ã o t e r i a condições d e r e p l i c a r a q u i q u e p e n s a s e m pressuposto e m se encontra e m oposição radical c o m a visão q u e a experiência natural
toloaleo. A c r e d i t a r q u e ritLU s e f a z m e t a l i s b a o u q u e r e r abster-me d e t e r n o . é s e m -
pre i m p l i c a r u m a ontologia! m a s U M A o n t o l o g i a n ã o c r i t i c a ; d a m e s m a E Orna q u e Os
governos d e otecnietstas" n a o r a s e m p o l i t i c a . c o n t u d o n ã o d e i t a n d o J a m a i s d e t e r
uma. e V reqUentemente a p i o r d e t o d a s .
(2 P . P . , p . I n . " To d o o t a l a r s e kredala n o ‘ horizontes a b e r t o s p e l a p e r c e p ç ã o ' . 44) T r ê s a n o s SODanta, p u b l i c a ç ã o d o a d o i s l i v r a s .
P " . p . 2 4 0 " A s determinações nuna,rieas d a clenclo repassam s o b r e o p o n t i l h a d o d e
tinia constituição d o m u n d o j ó f e i t o antes d e l a s . " P. P. . p . 3 1 8 .
27

26
e ingênua — n a qual t o d a experiência cientifica se entaiza (1‘ — parece
se Impor quand0 nos esforçamos p o r compreendê-la sem preconceitos.
Alp1-10115e D E W A E L H E N S

INTRODUÇÃO

Nosso objetivo é compreender a s relações e n t r e a consciência e a


natureza, — orgânica, psicológica, o u mesmo social. Entende-se aqui p o r
natureza u m a multiplicidade d e acont,:cimentos exteriores u n s aos o u -
tros e ligados p o r relações de causalidade.

No q u e concerne à natureza física, o pensamento criticista t r a z a


este problema u m a solução b e m conhecida: a reflexão descobre q u e a
análise física não é u m a decomposição e m elementos reais, que a cau-
salidade e m seu sentido efetivo n ã o é u m a operaç:ão produtora. N ã o h á
então natureza física n o sentido que acabamos de d a r a esse termo, na-
da n o mundo que seja estranho ao espirito. O mundo é o conjunto das
relações objetivas assumidas pela consciência. Pode-se dizer que, e m seu
desenvolvimento, a f í s i c a j u s t i f i c a p e l o s f a t o s e s t a filosofia. V e m o - l a
empregar indiferentemente modelos mecánicos, dinâmicos, o u mesmo p s i -
cológicos, c o m o s e , l i b e r t a d e pretensões ontológicas, s e tornasse i n -
diferente às antinomias clássicas d o mecanismo e d o dinamismo que s u -
põem u m a natureza e m s i .

A situação n ã o é a mesma na biologia. D e fato, as discussões e m


torno d o mecanicismo e d o vitalismo permanecem abertas. Provavelmen-
te a razão disso é q u e a análise d o t i p o físico-matemático progride a i
muito lentamente, e q u e assim nossa imagem d o organismo é e m sua
grande p a r t e aquela de 1111111 massa material partes extra partes. Nestas
condições o pensamento biológico permanecerá freqüentemente realista,
seja porque justapõe mecanismos separados, seja porque o s subordina a
Uma enteléquia.

Quanto à psicologia, o pensamento criticista n ã o l h e d e l a o u t r o


UI) " T o a m . a s elinelas s e tolOellni e m u n i ruttntin «eornpieton e real s e m s e aperce-
berem q u e f a c e a esse m u n d o a experiêncla p e r n e p t i v • é constituinte. A E : f r a t u r a d o
COmporiccomollo, 1 3 4 U , p , 2 3 5 -29
28
ir

recurso senão o d e s e r p o r u m lado Urna "psicologia analitica" (1) que, "realidade i n t e r i o r " se faz segundo a antinomia clássica, e m proveito d a
paralelamente à geometria analítica, reencontraria o juizo sempre presen- fisiologia, e o comportamento é reduzido a u m a soma d e reflexos e d e
te, e p o r o u t r o , u m estudo d e c e r t o s mecanismos corporais. N a m e - reflexos condicionados e n t r e o s quais n ã o s e a d m i t e nenhuma conexão
dida e m q u e q u i s s e r u m a c i ê n c i a n a t u r a l , a psicologia permaneceu intrínseca. M a s Justamente e s t a interpretação atomista j á fracassa n a
fiel a o realismo e ao pensamento causal. N o início d o século, o materia- teoria do reflexo (cap. I ) e com mais forte razão na psicologia, mesmo ob-
lismo fazia d o "psíquico" u m setor particular d o mundo real: dentre Os jetiva, dos comportamentos superiores (cap. / I I ) , como bem o mostrou a
acontecimentos e m s i , alguns n o cérebro t i n h a m a propriedade d e exis- Gestalttheorie. Passando pelo behaviorismo, lucra-se pelo menos e m i n -
tir também p o r si. A antítese espiritualista colocava a consciência como troduzir a consciência, não como realidade psíquica o u como causa, mas
urna causa produtora o u como uma coisa: f o i a principio o realismo dos como estrutura. Resta indagar-se (cap. I I I ) sobre o sentido e o m o d o
"estados d e consciência" ligados p o r relações d e causalidade, segundo de existência dessas estruturas,
mundo paralelo e análogo a o " m u n d o físico", conforme a tradição d e
}lume; depois, e m u m a psicologia mais refinada, o realismo d a "energia
espiritual" que colocava e m lugar d o s fatos psiquicos descontínuos unta
multiplicidade de fusão e de interpretação, uma realidade fluente, — mas
a consciência permanecia o análogo d e u m a f o r ç a . I s t o s e observava
bem quando s e tratava d e explicar s u a ação sobre o corpo, e que s e
reduzia ao mínimo, sem poder suprimi-la, a "criação d e energia" neces-
sária i 2 ) : o universo d a física e r a tomado corno u m a realidade c m s i ,
na q u a l fazia-se aparecer a consciência a t i t u l o d e realidade segunda.
Entre Os psicólogos, a consciência s e distinguia dos seres d a natureza
como u m a coisa de uma outra coisa, p o r u m certo número de caracteres.
O f a t o psíquico, dizia-se, é mextenso conhecido p o r Unta pessoa somen-
te... M a i s recentemente a d o u t r i n a d e Preud aplica ã consciência m e -
táforas energéticas e d á conta d a conduta p o r interações d e forças o u
de tendências. se f a l a a s s i m d e u n i á c i d o , d e u n i d é t r o n , d e u m a p e d r a o u d e u m a n u v e m senão
por m e t á f o r a . P r o c u r a m o s n a presente t r a talho e l u c i d a r diretamente a n o ç ã o d e c o m -
AS51111 se a c h a m Justapostas entre o s entiteMpOrafle0S, n a França, portamento e n ã o s e g u i r • 10MBLIR d e c a n s e i énela d o r o m p o r l a m e n t o n a p s i c o l o g i a
americana V a m o s J u s t i f i c a r r a p i d a m e n t e e s t e procedimento d i r e t o l e m b r a n d o a t r a v é s
uma filosofia que faz de toda a natureza Urna unidade objetiva constituí-
de q u a l d e s o r d e m idcolág:ca a n o ç ã o d e caniportarrunto f o i desenvolvida e m s e u p a i s
da face à consciência, e ciências que t r a t a m o organismo e a consciên- de o r i g e m . C o m o o m o s t r a o r e c e a i . , t r a b a l h o d e T i — q u e m i s chega n o
cia como duas ordens d e realidades, e, e m s u a relação recíproca i como momento e m q u e o 1105S0 e s t á n a r e v i s ã o . — e l o t e r d i f i c i i m e n t e s e u c a m i n h o n o
"efeitos" e como "causas". U m a volta p u r a e simples ao criticismo será melo d a s f i l o s o f i a s q u e n ã o conseguiam p e n i t t - l a , l à p e l o s e u i n i c i a d o r. Wa t s o n , e l a
não encanireva s e n ã o u m a t r a d u ç ã o f i l o s ó f i c a I l l i M i f i c i e n i t - D i z la,se q u e o c o m p o r -
a solução? E u m a v e z f e i t a a crítica d a análise r e a l e d o pensamento tamento n t i o e s t á localizado n o sistema nervotio c e n t r a l ( A , ' n i q u i m L i , Behautorisnits
causal, não h á a í nada de fundado no naturalismo d a ciência, nada que, pp, 7 2 e 1031, q u e ele reside e n t r e o I n d i v í d u o e o m e i o ambiente G d . , i b i d . . p . 341,
"compreendido" e transposto. d e v a encontrar l u g a r e m u m a f i l o s o f i a que conseqüentemente o M i a d o dg" C011111Ortanter110 p o d e s e f a n e s e m u m a p a l a v r a d o
transcendental? fisiologia ( i a . . i b i d . , p o r e x . , p . 1 0 7 e q u e f i n a l i n v o l e e l e v e r s a s o b r e u n i a I l u s o
de ação ( M e t a m o t ac i l i v i ty ) q u e o v i v e n t e p r o j e t a A v o l t a d e l e ( I d . , I b i d . . p p . 1 8 0
e 351), q u e a f e t a o s e s t i m u l e s c o m t i r a s e n t i d o caracteristico ( I d . , I b i d . , m l O i l l
Chegaremos a estas questões partindo " d e baixo" e p o r urna aná-
M i n c o r p o r a á resposta ( id.. i b i d . , p , 3 4 6 1 . M a s o q u e h á d e s a d i o e d e p r o f u n d o
lise da noção de comportamento. E s t a noção nos parece importante p o r - neslai i n t u i ç ã o d o c o m p o r i a mento — i s t o é . a v i s ã o d o homens r a m o debate e " e x p l i -
que tomada nela mesma é n e u t r a face à s distinções clássicas d o ' p s í - cação' p e r p é t u a c o m u m m u n d o t i s k ° e c o m u m m u n d o s o c i a l , — s e e n c o n t r a v a
quico" e d o "fisiológico" e pode então nos d a r a oportunidade d e rede- compromrlido p o r u n t a f i l o s o f i a i n d i g e n t e . E m m a ç ã o c o n t r a a s t r e v a s d a M I M - d i l a -
fini-las ( 3 ) . Sabe-se q u e e m Wa t s o n a negação d a consciência c o m o de psicológica, o bebas. iorismo n ã o p r o c u r a recursos, • m a l a r p a r t e d o t e m p o , sendo
em u n i a e x p l i c a ç ã o f i s i o l ó g i c a o u m e s m o ' N i c e . s e m v e r q u e e l a e s t á e m c o n t r a d i -
ção entn a s definiçães i n i c i a s — e l e s e d e c l a r a materi l i s ta, s e m v e r q u e i s t o consiste
em r e c o l o c a r o comportamento n o s i s t e m a n e r v o s o , E t n n o s s a O n i n i ã o ( q u e n ã o é
a m a s ma d e T i k m M i . 1 , Va I n l i n h a e m v i s t a . q u a n d o f a l a v a d e c o m p o r t a men lo,
111 L. B r u n s c h v kg, S p i n o z a e t Sei noutemPorainr
o que o s o u t r o s c h a m a r a m t i o a i : t e n d e , e a 1111%fi noção n ã o p o d i a receber s e u esta.
(2) Belisca
Fala•se d e u m h o m e m o u de u n a a n ! r n a l q u e e l e t e t o u m COMPON121,1trit0; r i d o %tutodialético.
f i l o s o f ce, senão s e abandonasse o pensamento causal o u mecânico p e l o pensante».
(3

30
Capítulo I

O COMPORTAMENTO REFLEXO

A análise científica do comportamento é definida d e inicio por opo-


sição aos dados d a consciência Ingénua. S e estou e m t u n a sala escura
e u m a mancha luminosa aparece sobre a parede e a í s e desloca, d i r e i
que ela "atraiu" m i n h a atenção, q u e voltei o s olhos " e m direção" a ela,
que e m todos o s seus movimentos e l a "arrasta" m e u o l h a r. Apreendido
do interior, m e u comportamento parece como q u e orientado, dotado d e
II urna Intenção e d e u m sentido. A ciência parece e x i g i r q u e rejeitemos
esses caracteres c o m o aparências s o b a s quais é preciso descobrir u m a
realidade de u m o u t r o gênero. D i r - s e - á que a l u z v i s t a não está "senão
em nós", E l a encobre u m movimento vibratório q u e , ele p r ó p r i o , não
é j amai s d a d o á consciência. Chamemos " l u z fenomenal" a aparência
qualitativa, e " l u z real" o movimento vibratório. U m a vez que a luz real
não é nunca percebida, ela n ã o saberia se apresentar como u m f i m e m
direção a o q u a l se orienta meu comportamento. E l a não pode s e r pen-
sada senão c o m o u m a c a u s a q u e a g e s o b r e o m e u o r g a n i s m o . A l u z f e -
nomenal era u m a força d e atração, a l u z real é u m a v i s a tergo E s s a
inversão coloca logo u m a série de questões. Desde o instante e m que a
luz é definida c o m o u m agente f í s i c o q u e impressiona m i n h a r e t i n a ,
não se t e m mais o direito d e considerar como dados nela o s caracteres
que pertencem h luz fenomenal, O estímulo q u e n ó s chamamos " m a n -
cha luminosa" se decompõe, pela análise cientifica, e m tantos processos
parciais quantos elementos anatômicos distintos existem sobre a minha

33
preestabelecidas (freqüentemente concebidas c o m o dispositivos a n a t ô m i -
cos) entre certos órgãos o u aparelhos receptores e certos músculos e l e -
retina. D a mesma maneira se se a considera como u m a realidade além
teres. O funcionamento nervoso o mais simples n ã o é o u t r a coisa q u e
de m i n h a consciência, a ação durável d a mancha luminosa sobre meus
a colocação e m movimento d e u m grande número d e circuitos autôno-
olhos s e resume e m u m a sucessão indefinida d e fatos físicos; era c a d a
mos. O reflexo será, pode-se dizer, u m fenõmeno "longitudinal". E a
momento d o tempo ela deve s e r renovada, como t ã o b e m O exprime a
operação de u m agente liste° o u químico definido sobre u m receptor es-
idéia cartesiana d e criação continuada. D a mesma f o r m a ainda, o m o -
vimento d o s m e u s olhos q u e f i x a m a mancha luminosa n ã o colocava pacialmente definido, q u e provoca, p o r u m t r a j e t o definido, u m a respos-
ta definida.
nenhum problema à consciência ingênua, porque ele se encontrava guia-
do por u m f i m . M a s doravante não há mais terminus ad quem e se meus Nesta série l i n e a r d e acontecimentos físicos e fisiológicos, o e s t i -
olhos oscilam de t a l maneira que a mancha luminosa venho a se refletir mulo t e m a dignidade de u m a causa, n o sentido empirista de anteceden-
no centro d e m i n h a retina, é n a s causas o u condições antecedentes d o te constante e incondicionado, e o organismo é passivo, u m a v e z q u e
movimento q u e s e deve encontrar a razão suficiente desta adaptação. se l i m i t a a executar o que lhe é prescrito pelo lugar da excitação e pelos
Deve haver a i , n o ponto d a r e t i n a onde a mancha luminosa se f o r m o u circuitos nervosos q u e a i t ê m s u a origem. O senso c o m u m c r ê q u e
de inicio, o s dispositivos q u e regem convenientemente a amplitude e o voltamos o s olhos para u m objeto "para vê-lo". N ã o somente- esta " a t i -
sentido d e m e u reflexo d e fixação. D i f - s e - á então q u e cada l u g a r d a vidade prospectiva" ( I ) r e m e t i d a aos dados antropomorticos d a obser-
retina t e m u m " v a l o r especial" determinado. I s t o é , que ele está unido vação interior, m a s ela não chega a e x i s t i r senão a t i t u l o d e efeito d o
por circuitos nervosos preestabelecidos a certos músculos motores, d e mecanismo refrérce. NãO-Scit-rierité -a percepção espacial n ã o g u i a o m o -
maneira que a luz, tocando-a, não tenha senão que desencadear u m m e - vimento d e fixação d e m e u s olhos, m a s s e r i a necessário mesmo d i z e r
canismo p r o n t o a funcionar. E n f i m , s e a mancha luminosa se desloca que ela procede dele. Percebo a posição d a mancha porque m e u corpo
e meu olho a segue, devo ainda aqui eomprcender o fenômeno sem nele i n - respondeu a ela p o r reflexos adaptados N o estudo cientifico d o com-
troduzir nada que se assemelhe a uma intenção. Sobre minha retina consi- portamento, deve-se rejeitar como subjetivas todas a s noções d e i n t e n -
derada, n ã o c o m o u m a t e l a qualquer, m a s como u m receptor o u m u i t o ção o u d e utilidade o u d e v a l o r, porque elas n ã o t ê m fundamento n a s
mais c o m o u m c o n j u n t o d e receptoras deSCO:11.1111105i não existe. f a l a n - coisas e n ã o são determinações intrínsecas delas. S e tenho f o m e n se,
do c o m propriedade, movimento d a luz, U r n a onda é u m indivíduo ape- absorvido p o r m e u trabalho, estendo a m ã o p a r a u m f r u t o colocado
nas p a r a o homem que a o l h a e que a v ê avançar sobre ele; n o m a r, por acaso perto d e m i m e o levo a m i n h a boca, o f r u t o não age como
não é mais que a elevação sucessiva das partes d a água segundo a v e r - um objeto Investido de u m certo valor, o que desencadeia m i n h a reação
tical, sem transporte d e matéria segundo a horizontal. D o mesmo modo motora é u m c o n j u n t o d e cores e luzes, o estimulo t i s k ° e químico.
o "deslocamento" d o r a i o luminoso sobre a r e t i n a n ã o é u m a realidade Se, porque estava desatento, coloco m i n h a m ã o a o l a d o d o "objetivo",
fisiológica. A r e t i n a não registra senão urna excitação sucessiva dos p o n - uma segunda tentativa d e apreensão não deve ser ligada a nenhuma i n -
tos pelos quais ele passa E m cada u m deles, agindo sobre u m elemen- tenção permanente, m a s explicado simplesmente p e l a permanência d a s
to nervoso distinto, ele pode provocar u m reflexo d e fixação semelhante causas que provocaram a primeira. S e o comportamento parece i n t e n -
ao q u e f o i descrito acima, e d a i advém que m e u olho parece "seguir" a cional, é q u e e l e é regulado p o r cert-WS-trajetos nervosos preestabeleci-
luz. Realmente, seu movimento é a integração de u m a série d e adapta- dos de t a l 'maneira que d e f a t o eu obtenha satisfação. A atividade " n o r -
ções parciais. como caminhar se reduz a u m a série d e quedas recupe- mal" d e u m Organismo não é mais q u e o funcionamento desse aparelho
radas. D e u m a maneira geral o s agentes físicos n ã o podem impressio- montado pela natureza; n ã o existem normas verdadeiras, existem apenas
nar o organismo p o r suas propriedades d e forma, tais como movimento, efeitos. A t e o r i a clássica d o reflexo e os métodos d e análise real e d e
ritmo, distribuição espacial. A f o r m a espacial o u temporal d e u m acon- explicação causal dos quais ela. não é senão u m a explicação parecem o s
tecimento f i s i c o n ã o repousa sobre O receptor. n ã o d e i x a n e l e o u t r o s únicos capazes d e constituir u m a representação cientifica e objetiva d o
traços que u m a série d e e s t i m u l a r a s exteriores umas às outras. E s o - comportamento. O objeto d a ciência s e define p e l a exterioridade m ú -
mente p o r suas propriedades ~ l i a i s q u e o s excitantes podem a g i r. tua das partes o u dos processos.
Assim, a partir do momento e m que cessamos de nos f i a r nos dados Ime-
diatos d a consciência e queremos c o n s t r u i r u r n a representação c i e n -
tifica d o organismo, parece q u e somos conduzidos a t e o r i a clássica d o
( I ) R . D e j e n , E t u d e phytholoutque d e I a "dt.statteen d u a s ! a p , 109
reflexo — I s t o é , a decompor a excitação e a reação e m u m a multidão (2) c r . l e " N a t i v I s m e r e r l e x e " d e J . P l é r e n . D u r õ l e d e s rettexes locallsateurs 1111.113
de processos parciais, exteriores uns aos outros n o tempo corno n o e s - les pereepttuns spetiales, J . d e P S . X V I I I , 1 0 . 1 0 2 1 , p p . 1101117,
paço. A adaptação d a resposta à situação s e explicaria p o r correlações
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ria, desprovida d e significação biológica neste g r a u d e orga-
Ora, é u m fato que a teoria clássica do reflexo é ultrapassada pela
nização, n ã o s e reencontra quando o comportamento e regu-
fisiologia contemporanca. S e r i a suficiente melhorá-la o u deve-se m u d a r lado pela excitação dos receptores; é sem dúvida porque eles
de método? A ciência mecanicista t e r i a falhado n a d e l i n i n o d a o b j e t i - estão aptos, — eles mesmos o u sua projeção central — a r e -
vidade? A clivagem d o subjetivo e d o o b j e t i v o t e r i a s i d o m a l f e i t a , a
gistrar a s propriedades d e f o r m a d o s estimulas q u e , então,
oposição d e u m universo d a ciência, inteiramente f o r a d e s i , — e d e muito mais d o que o l u g a r e a natureza d o excitante, deter-
um universo d a consciência, definido p e l a presença total de s i a si, seria
minariam a reação 1 • A mesma razão explicaria q u e os r e -
insustentável? Se a análise real fracassa, a biologia encontraria seu m é -
flexos típicos possam s e r e m n ú m e r o bastante l i m i t a d o ; o
todo n u m a análise ideal d o t i p o fislco-matemático, n a intelecção spino-
"conteúdo" dos estimulos pode v a r i a r sem que a própria res-
zista? O u então v a l o r e significação n ã o seriam determinações i n t r í n -
posta desencadeada varie, se eles são d e mesma f o r m a espa-
secas d o organismo, q u e s e r i a acessível apenas a u m n o v o m o d o d e ço-temporal 12), E m caso d e concorrência d o s estimulas, é
"compreensão"? a forma, m u i t o m a i s q u e a natureza, o lugar, o u mesmo a
intensidade d a excitação q u e determina o reflexo r e s u l t a n -
te 13) U m a excitação dolorosa d o pênis, mesmo s e é fraca,
Se a ordem n o reflexo (1), — i s t o 6 , . a adaptação d a resposta a o Inibe o reflexo cla ereção, U m contato imobiliza a medula es-
estimulo e a coordenação d o s movimentos parciais n o gesto total, — é pinhal (Luchsinger), enquanto q u e excitantes cutâneos m a i s
i s — m a — I n a s e —1-C-eMeXões preestabelecidas desde a superfície sensível possantes provocam respostas m u i t o diferentes, Pode-se o b -
até aOs OniScuiris -ejetores, a concepção clássica coloca e m primeiro p i a - ter, agindo-se sobre a orelha d o gato, c i n c o respostas r e f l e -
fio con-sidefacões "dê topografia; o lugar da excitação deve determinar a X aS diferentes d e acordo c o m a estrutura d o excitante u t i l i -
reação; o estimulo deve a g i r p o r aquelas suas propriedades q u e podem zado, O pavilhão da orelha se inclina quando é dobrado, mas
modificar o s elementos anatômicos tomados u m a u m ; o circuito n e r - responde a o a t o d e fazer cócegas p o r algumas batidas r á p i -
voso deve ser isolado, u m a vez que se ele n ã o fosse guiado desta m a - das. D e acordo c o m a f o r m a d a excitação elétrica (farádica
neira, o r e f l e x o n ã o p o d e r i a s e r adaptado a o e s t í m u l o c o m o d e ou galvânical o u d e acordo com sua potência a maneira das
fato o é . O r a , sabe-se h á longo tempo q u e o reflexo assim definido é respostas modifica-se completamente e , p o r exemplo, a s p o -
muito raramente observável, tências fracas provocam respostas rítmicas, as potências f o r -
tes provocam reflexos tónicas. U m g a t o decerebrado v o m i t a
a água logo que ela é introduzida na sua faringe; mas, a água
adicionada d e algumas gotas d e álcool provoca uma dobra e
1 - O «estímulo» movimentos da lingua (Sherringlon e Miller).
Freqüentemente e l e age m u l t o menos p o r suas propriedades e l e -
distribuição espacial, seu r i t m o o u o r i t m o d e Esta dependência d o reflexo f a c e as propriedades formais o u glo-
mentares d o que pela sua
acontece c o m m a i o r freqüência é que o efeito bais d o excitante não poderia ser n a concepção clássica senão u m a apa-
suas intensidades, O que
nAo seja previsível a p a r t i r dos elementos que rência, E x p l i c a r o funcionamento nervoso, n ã o pode s e r senão remeter
de u m estímulo complexo
_
o compõem, o complexo ao simples, descobrir os elementos constantes de que é feito
o comportamento. D e c o m p o r - s e - á e n t ã o o e s t í m u l o c o m o a r e a ç ã o
Nunca s e obtém, p e l a excitação d o s troncos nervosos, até que se encontrem "processos elementares" formados d e u m estímulo
reações comparáveis àquelas q u e provoca a excitação dos r e - e de uma resposta sempre associados n a experiência, P o r exemplo, a ação
ceptores. Mostrou-se c o m a r ã e (Sherrington) c o m o l a c - do estimulo d e c o ç a r será analisada e m t a n t a s ações parciais quanto
tente q u e a excitaçãO d a s raizes posteriores provoca c o n t r a - existam n a orelha receptores tácteis anatomicamente distintos, O b a t i -
ções a o nivel d o s músculos q u e dependem d a s raizes a n t e -
riores cOrrespondenteS: e s t a reação metarnerizada, segmenta-
( ) V . F . V o n W c i r s a e k e r • nericsgesetze I n H a n d b u c h d e r n o r m a t e n a n d p a t h o l a -
utechen Phgetologle, l i g g v o n b e i be, t X . p p 3 8 . 3 9 .
são q u a s e t o d o s b a s t a n t e conbe-
(1) O s r a t o s q u e serão mencionados n e s t e c a p i t u l o •lemães c o m o W e t t a a c k e r O U (7) V . F . s uri ‘Veltsnekre. ketiesgosetre. f n Handdarth d e r normaten u r u ! potholevischen
Physiolagte, b g g . v O n Dethe, t X . p p . 9 8 3 9 ,
tidos. M a s s ã o compreendidos e n t r e t i s a u t o r e s Unia n o v a concepção d a c s p i k - (3) p . 14.
Goldstein, s o b categorias o r i g i n a i s q u e r e .potidem a Capitulo.
cação e m I isto tugia. P . o q u e Just.] f ;ta o presente
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mento d a orelha, que responde a esse excitante, será resolvido p o r sua nas movimentos separados d o s martelos o u d a s cordas são produzidos,
vez e m u m c e r t o n ú m e r o d e contrações elementares. E m principio, a e é através d a s montagens motoras d o executante, n o sistema nervoso
cada parte d o estímulo deveria corresponder urna parte d a reação. A s do ouvinte, que os fenõmenos físicos isolados, dos quais o plano é a sede,
mesmas seqüênckas elementares, reunidas d e outra forma, deveriam cons- constituem u m único fenómeno d e conjunto, q u e a melodia e m sua se-
tituir t o d o s o s reflexos. A s propriedades qualitativas d a situação e d a qüência e e m seu r i t m o característico existe verdadeiramente o o r g a -
resposta, — o q u e constitui p a r a a consciência a diferença e n t r e coçar nismo, justamente, não pode ser comparado a u m teclado sobre o q u a l
desempenhariam o s estímulos exteriores e Onde desenvolveriam sua f o r -
e dobrar a orelha do animal, entre u m a batida dessa orelha e u m m o -
ma p r ó p r i a p o r esta simples razão q u e contribui p a r a constitui-la,
vimento de retração, — deveriam, se verdadeiramente o s mesmos recep-
tores s ã o atingidos e m u m caso c o m o e m o u t r o , conduzir a diversas Quando m i n h a mão, mantendo u m instrumento d e apreensão, segue c a -
da esforço d o animal que se debate, é claro q u e cada u m de meus m o -
combinações d o s mesmos estimules, d o s mesmos movimentos elementa-
res, E s t á absolutamente excluído q u e u m substrato orgânico possa p r e - vimentos responde à urna estimulação externa, mas é claro também que
essas estimulações não poderiam ser recolhidas sem os movimentos a t r a -
encher alternadamente funções verdadeiramente diferentes e a reação m u -
dar d e natureza p o r urna simples diferença no r i t m o das excitações a p l i - Vée dos quais exponho meus receptores à sua influência." ) As pro-
priedades d o objeto e a s Intenções d o sujeito ( ) n ã o s e misturam
cadas sucessivamente aos Mesmos aparelhos. N o entanto o s reflexos q u e
apenas, m a s a i n d a constituem u m t o d o n o v o (2> Q u a n d o o o l h o e a
acabamos d e enumerar n ã o s e deixam decompor e m reações elementa-
orelha seguem u m a n i m a l q u e foge, n a t r o c a dos estímulos e das r e s -
res. P a r a c i t a r apenas dois exemplos, a ação d a água adicionada de a l -
postas, é impossível dizer "quem começou". U m a vez que todos o s m o -
gumas gotas d e álcool sobre u m gato descerebrado n ã o é compreendida
vimentos d o organismo s ã o sempre condicionados pelas influências e x -
pela ação da água pura e do álcool puro. P o r outro lado a água e o álcool ternas, pode-se bem, se se quer, t r a t a r o comportamento como u m efei-
não constituem u m a combhiação química, q u e poderia exercer sobre o s
to d o meio. M a s d a mesma f o r m a , como todas a s estimulações q u e o
receptores u m a ação diferente d a exercida pelos compostos. E pois n o
organismo recebe s ó f o r a m possíveis p o r sua vez através d e seus m o v i -
organismo que teremos d e buscar aquilo que f a z d e u m estímulo c o m -
mentos precedentes, q u e f i n d a r a m p o r expor o organismo receptor à s
plexo o u t r a coisa que a soma d e seus elementos. D a mesma forme, o
ItaltlènelaS externas, poder-se-ia dizer t a m b é m q u e o comportamento é
efeito inlinclor d e u m contato eutáneo sobre a medula espinhal n ã o s e
a causa primeira d e todas a s estimulações. A s s i m a t o n t a d o excitante
deixa compreender c o m o u r n a simiees adição algébrica d a s excitações
é criada pelo p r ó p r i o organismo, p o r sua maneira p r ó p r i a d e oferecer-
que o efeito provoca e daquelas que, p o r outro lado, provocavam o rae- se às ações d e fora, S e m dúvida, p a r a poder subsistir, ele deve encon-
tejamento. A considerar a s observações a s m a i s freqüentes, nada auto-
trar a o seu redor u m certo numero d e agentes físicos e químicos, M a s
riza a t r a t a r as reações q u e chamaríamos qualitativas como aparências,
é ele, segundo a natureza p r ó p r i a d e seus receptores, segundo o s l i m i a -
— as mações conformes à teoria d o reflexo c o m o únicas reais.
res d e seus centros nervosos, segundo o s movimentos d o s órgãos, q u e
Essas observações n ã o introduzem, cora a noção d e f o r m a o u d e escolhe n o m u n d o f í s i c o o s estímulos a o s q u a i s s e r á sensível
totalidade d o estimulo, nada que, p a r a ser registrado, suponha Unia es- 'O meio (Umwelt) se destaca no mundo segundo o ser d o organismo, —
pécie de psiquismo, e f o i com razão que se assinalou que a física conhe- estando claro q u e u m organismo não pode existir, salvo se encontra n o
ce máquinas especialmente concebidas p a r a receber formas U m t e - mundo u m m e i o adequado 4,0". S e r i a u m teclado q u e s e m o v e a s i
clado é justamente um aparelho que permite, segundo a ordem e a cadência mesmo, d e maneira a oferecer, — e segundo r i t m o s variáveis, — t a i s
das impulsões recebidas, produzir inumeráveis melodias, todas diferentes en- ou t a i s d e suas n o t a s à ação e m s i mesma monótona d e u n i martelo
exterior.
tre s i , e sabe-se q u a l o uso f e i t o d a metáfora d o teclado n a fisiologia
dos centros nervosos t 2 L U m telefone automático é, mais claramente a i n -
O modelo d o telefone automático parece m a i s satisfatório. E n -
da, u m aparelho que responde apenas a excitantes d e u m a certa f o r m a contramos de f a t o aqui u m aparelho que elabora ele próprio o s estímu-
e modifica suas respostas segundo a ordem espacial e temporal d o s es-
timulos. M a s a s constelações d o s excitantes a g e m sobre o organismo
corno os dedos d o pianista sobre o instrumento? N o próprio piano, ape-
11) W
(2) I de.l .e si obriidt e. r. Refingeseire• p . 4 5 . " ( ) o r g a n i s m o e . d i z Weizaaeker, R e l e g e s t o l t e r,
(3) W e i z s a c k e r. Rerlexgesetzt. p . 4 5 .

(4) G o l d s t e i n , D e r A u n a i d e s Orgentsmus. C a p . I l . p . 5 8 . N u e x i s t e a i n e n h u m
t i k R . R u y e r • L i n modele metal:Ligue d o i a canadense. / o u r o s / d e Pittretwrolle.
i'vital;smo".
pretaçno v i r á FAMAS descrições d r % e n i s e r t o m a d a s p o r a q u i l o q u e e l a s s ã o . A I n t e r -
e m seguida.
Ottobre. 11/32, p . 5 5 2 .
(2) a * i n f r a . c a p . I l .

38 39
sumir q u e p a r a o simples anatômico corresponda necessariamente u m
simples funcional. D e f a t o certos fislologistas s ã o levados r e i n t r o d u -
los. Graças aos dispositivos instalados n a central automática, a mesma zir a qualidade n a linguagem d a ciência ( I ) • P a r a f o r m u l a r a s leis d a
ação externa t e r á u m efeito variável segundo o contexto das ações p r e - "composição dos reflexos", Sherrington leva e m consideração o valor b i o -
cedentes e seguintes. U m o marcado n o mostrador automático t e r á u m lógico d o s estímulos: quando d o i s excitantes estão e m concorrência, é ,
valor diferente conforme venha em primeira posição, — quando por exem- diz ele, o excitante doloroso que i n i b e o outro 12e M a n corno a concep-
plo peço o c i r c u i t o Oberkampf, — o u e m segunda posição, — quando ção clássica, à qual e l e permanece f i e l , exige q u e o reflexo dependa d e
por exemplo peço o circuito Botzaris. Pode-se dizer q u e a q u i como n o um dispositivo local, e c o m o o v a l o r biológico d o estimulo q u e parece
organismo, o excitante, — o que põe e m movimento o aparelho e deter- determinante n ã o t e m receptores adaptados, ele supõe terminações l o -
mina a natureza d e suas respostas, — n ã o é t u n a soma d e estímulos cais especializadas na recepção dos excitantes dolorosos 43} N o momento
parciais, pois u m a soma é indiferente à ordem de seus fatores, mas unta mesmo em que se é obrigado a introduzir a noção de valor na definição do
consielaeão, u r n a ordem, u m c o n j u n t o , q u e d á s e u s e n t i d o m a n e n t e - estimulo da mesma forma a noção de valor é introduzida na definição dos re-
neo a cada u m a das excitações locais. A manipulação a t e m sempre o ceptores distintos. Na teoria do funcionamento nervoso, tudo se passa como
mesmo e f e i t o i m e d i a t o , m a s , n a c e n t r a l automática, exerce funções
se estivéssemos s u j e i t o s à a l t e r n a t i v a d o a n t r o p o m o r f i s m o o u d a concepção
diferentes segundo p r e c e d a O u s i g a a manipulação O — c o n t o O anatómica d o reflexo, quando seria necessário talvez ultrapassá-la. Antes
mesmo painel pintado t o m a dois aspectos qualitativamente distintos s e -
de qualquer interpretação sistemática, a descrição d o s f a t o s conhecidos
gundo e u a i v e j a u m disco a z u l s o b r e u m f u n d o róseo, o u a o c o n - mostra q u e o destino d e urna excitação é determinado pela sua relação
trário u m a n e l rosco n o m e l o d o q u a l apareceria u m f u n d o a z u l . N o
com o conjunto d o estado orgánico e c o m as excitações simultãneas o u
caso simples d e u m telefone automático, construído p a r a u m n ú m e r o
precedentes, e que entre o organismo e seu melo as relações são, não de
limitado d e manipulações, o u n o caso d e u m reflexo elementar, a o r -
causalidade linear, mas de causalidade circular,
ganização c e n t r a l d a s excitações p o d e s e r e l a p r ó p r i a concebida c o m o
um j o g o d e dispositivos preestabelecidos: a p r i m e i r a manipulação t e r i a
como efeito t o m a r somente acessível às seguintes certo teclado e m que
elas v i r i a m se Inscrever. Teremos que pesquisar se, n a s reações de usa 2 - O lugar da excitação
rdvel superior, pode-se d a mesma f o r m a fazer corresponder a cada esti-
mulo uma operação distinta, a cada " f a t o r " uni dispositivo visível, Ou mes- Parece estabelecido que n ã o s e pode f a i a r para cada excitante d e
mo r e f e r i r a função a variáveis ideais q u e sejam independentes. Desde um campo receptor anatonficamente circunscrito.
agora é certo que, mesmo a o nível d o reflexo, a Interação dos estímulos
impede d e considerar a atividade nervosa como u m a soma d e fenôme- Sherrington assinalou que o s limites d o campo reflexo-
nos "longitudinais", s e desenvolvendo a p a r t i r d o s receptores a t é a o s gene p a r a a reação d e coçar v a r i a m c o m o s d i a s e a s c i r -
efetores e que, como n a central automática, deve-se predLIZI/1 e m algum cunstâncias 115. Pode-se acrescentar: c o m a intensidade e a
lugar n o sistema nervoso 'fenômenos transversais" o 1. freqüência d o s excitantes t51, O campo receptor n ã o é e s -
tritamente definido senão n a s condieees artificiais d a expe-
Essas observações não concernem somente aos reflexos compostos.
riência d e laboratório o u a i n d a nas condições patológicas: é
Há m u i t o t e m p o o s fiStOlOgISUIS estudaram, sob o n o m e d e "combina- somente após a secção transversal d a medula q u e o s recep-
ção d e reflexos", reações complexas que n ã o estavam inteiramente p r e - tores d o reflexo d e extensão ipsilateral são invariáveis n o h o -
visíveis a p a r t i r das leis d o reflexo simples. M a s e r a n a esperança d e mem A d m i t e - s e normalmente q u e é impossível assinalar•
os reconduzir a essas leis quando elas tivessem s i d o m e l h o r determina- para c a d a p o n t o d a r e t i n a u m " v a l o r espacial" f i x o , e p o r
das. C o m e f e i t o O m e n o r d o s estímulos atinge a o mesmo t e m p o v á -
rios elementos anatômicos sobre o s receptores. A s leis d a "composição
dos reflexos" n ã o são leis d o p r ó p r i o reflexo t217 Todas as reações que
conhecemos sendo reações a u m complexo d e estímulos, o q u e s e d i a (I) I d . . M d . . p . 45.
de urna 'cação elementar é conjettuni. N ã o podemos n e m mesmo o r e - (2) A l e i é contestada, m a s n o a s ° ai:titile° n ã o é d e d i s c u t i r - l h e a e x a t i d ã o .
t3t D e i "Nocieepteties»
nbee iiCtS Setten (4) Goldstehl, D e r Autbdau de3 C a r g a n b M I L I , E m p , 1 1 . p p ,
(5) We i z s a c k e r. Iteficagmet, I t . 1 0 .
"Queetnnktionen" d e We r t e h e i n t e r. C f E x p e r i m e n t r i l e S t u d i e n O» I d . . i b i d
ven Brwegung. Z e i t t e h r i l f , Pegrholegte, 1012. t . 6 1 , p 5 ! 1 7 .
(2) W e i t s a c k e r. Rellexametze, p • 5 0 . 41
40
conseqüência o "sinal local" d e cada sensação ( s e se conser- 3 - O circuito Reflexo
va esta noção) n ã o é u m a função simples d a posição d o e x -
citante sobre a retina. Considerando aqui a percepção c o m o Há u m t r a j e t o definido, u m processo d e condução isolada, quando
um caso p a r t i c u l a r d a reação, é - n o s permitido s e m d ú v i d a se v a i d a excitação à reação? A distinção, devida a Sherrington, d a e x -
aplicar à t e o r i a d o reflexo a q u i l o que a fisiologia dos senti- teroceptividade, d a interoceptividade e d a proprioceptividade p a r e c e
dos n o s ensina ( I ) • A excitação d a mácula ocasiona sensa- justificar-se p o r s i mesma. P o r t a n t o a p r ó p r i a o b r a d e Sherrington e
ções localizadas " e m frente", " à d i r e i t a " o u " à esquerda" se- as observações d a fisiologia contemporânea p e r m i t i r i a m s e m dúvida e s -
gundo a posição d o olho e m relação k órbita e da cabeça e m tabelecer q u e n ã o h á j a m a i s reflexo exteroceptivo puro, — i s t o é . q u e
relação a o corpo. D a mesma f o r m a a excitação de u m recep- tenha necessidade, p a r a existir, apenas d a intervenção d e u m estímulo
tor pode provocar diferentes reflexos e a excitação d e d o i s externo. Todos os reflexos exigem no organismo o concurso de u m a m u l -
pontos distintos pode ocasionar o mesmo reflexo ( 2 ' . tidão d e condições exteriores a o a r c o reflexo, q u e t ê m , t a n t o quanto o
"estimulo", o direito d e serem chamadas causas d a reação. Passa-se n o
conhecimento d o organismo o que se assinalou n o conhecimento d a n a -
A t e o r i a clássica t e n t e antes d e t u d o fornecer u m a interpretação tureza t i h a b i t u a - s e a t r a t a r c o m o "causa" a condição sobre a q u a l
desses f a t o s sem abandonar suas idéias diretrizes; será necessário então podemos a g i r m a i s facilmente. S e s e esquece d e mencionar, e n t r e o s
supor q u e cada receptor seja religado p o r conexões preestabelecidas a antecedentes d o reflexo, o s q u e são interiores a o organismo, é porque
todos o s dispositivos motores c u j o exercício pode comandar. M a n t é m - freqüentemente eles se encontram reunidos t ã o logo nomeados. M a s esta
se o p r i n c í p i o d a s v i a s "privadas", i s t o é , afectadas cada u m a a u m a constância relativa das condições Mira-orgânicas é ela própria problemá-
categoria especial de resposta, — contenta-se e m multiplica-las. M a s se- tica, u m a vez que, n e m anatomicEunente, nem funcionalmente o aparelho
ria necessário i r longe nesse sentido, u m a vez que a observação mostra reflexo é u m aparelho Isolado e que assim a permanência das condições
que a mesma resposta m o t o r a pode algumas vezes ser desencadeada p o r Interiores não pode ser tida como dada por tuna estrutura preestabelecida.
comandos repartidos e m pontos o s m a i s diferentes d o organismo. C o m o
por o u t r o l a d o h á c i n c o v i a s a f e r e n t e s a m a i s que vias eferentesi
Sherrington admite que os dispositivos centrifugos comportam u m "último Com efeito, o reflexo parece estar em primeiro lugar sob
segmento comum" n o qual o mesmo substrato nervoso pode servir para a influência d e u m a série d e condições qui:nicas, secretorias
desencadear reações qualitativamente diferentes. N ã o abandona ele a s - e vegetativos bastante poderosas p a r a s u p r i m i r, p o r vezes
sim a concepção clássica da ordem que explica a resposta pela solidariedade mesmo para inverter o efeito esperado de u m certo estimulo.
entre u m receptor especializado e u m efetor especializado? Se o mesmo A excitação d o simpático o u d o vago se traduzem, segundo
substrato motor pode desempenhar várias funções, não se vê o que exclui- o estado humoral, p o r reações extremamente variáveis, O cál-
ria e m p r i n c í p i o a extensão desta hipótese a o s e t o r aferente, O s d i - cio, q u e normalmente desacelera o pulso, acelera-o n o caso
ferentes reflexos, e m lugar de corresponder a tantos circuitos "privados", de inStifteièneia (tónica. A pilocarpina excitante n o r m a l d o
representariam os modos variados d o funcionamento de u m mesmo apa- vago p o d e tornar-se, s o b certas condições, u m excitante d o
relho nervoso. N ã o consideramos ainda essa o u t r a concepção como e s - simpático A excitação d o vago acelera os batimentos d o c o -
tabelecido, mas a teoria clássica d o funcionamento nervoso é levada pela ração depois d o tratamento p e l a nicotina. A sensibilidade à
força das coisas a se sobrecarregar de hipóteses auxiliares que estão quase adrenalina v a r i a consideravelmente n u m receptor e m função
em contradição c o m ela, — corno o sistema d e Ptolomeu revelou s u a da secreção d a hipófise. A ação sensibilizadora d a adrenali-
Insuficiência p e l o grande número d e suposições a d h o c tornadas neces- na, e m caso ne colesterinemia, depende do meio químico, que
sárias para colocá-lo de acordo com os fatos.
deve ser neutro o u ácido, o que equivale a dizer que o esta-
do fónico condiciona o funcionamento d o sistema autónomo.
Mas este sistema supõe ainda u m certo equilíbrio entre o ele-
trólito e as partes coloidals, q u e p o r sua vez está ligado a o
P l h o n J á c o l o c o u e m p a r a l e l o o s progressos d a MOCM d o CrlICX0 c o n d i d o
nado e o s d a t e o r i a d a pereeppao. i t e l , o s problemas d a p e r e e K t o e a pslcofistologia.
Annee Psyrtiologique, 1926, I - 27. p p - I s t p l i . Teremos l o g o a ocasián d e m o s t r a r di u n i -
dade d o fLMCIMMIMMIO tICTVOSC C M s u a p a r t e m o t o r a e n o s e u l i e l O t s e n s o r i a l ,
l2t S o n d t n , E r a L u d w i n g , c i t a d o , p o r Weissacker. Retiessesetze. p . .12. elt L a l a n d e , L c t h é o n i e t d e risidtnetion e t d e r e r p e r t m e n t a t t o n ,

42
43
potencial n a superfície d a s células, o q u a l depende d e t o d a rebral e antes de tudo a u m controle negativo: admitir-se-ia então que o
uma série d e fatores e e n f i m d o estado d o sistema nervoso cérebro p o s s u i u m p o d e r g e r a l d e Inibição. M a s o s fatos n ã o o b r i -
vegetativo. U r n a vez m a s, trata-se a q u i d e u r n a verdadeira gam d e f o r m a alguma a interpretar o "choque" d o qual falávamos mais
causalidade c i r c u l a r. M a s o sistema animal está ele p r ó p r i o acima c o m o o desencadeamento d e dispositivos inibidores p r ó p r i o s a o
sob a dependência d o sistema vegetativo. A secção d o vago cérebro, urna vez que se obtém d o mesmo modo u m a inibição total n o s
modifica a cronaxia nos territórios do córtex. A ação [ a r m a - momentos seguintes a uma secção espinhal (choque espinhal), N ã o seria
°adinâmico sobre o sistema vegetativo m o d i f i c a a c r o n a r i a o choque u m a alteração d o funcionamento q u e não se localiza e m parte
dos aparelhos sensíveis periféricos. Inversamente, p o r o u t r o alguma e p o d e t e r o r i g e m e m r e g i õ e s nervosas m u i t o diferentes?
lado, certas lesões d o cérebro, observadas e m conseqüência de Se Isso é admitido, como existe o choque cerebral, a intervenção d o c é -
ferimentos d e guerra, acarretaram modificações d a pressão rebro n o reflexo n ã o poderia consistir simplesmente e m autorizar ou e m
sangüínea, d o pulso, d a inervação pupilar (1). Interditar certas mações totalmente montadas — deveria t r a z e r a s e u
próprio desenvolvimento u m a contribuição positiva, A esse respeito a
A e s t a p r i m e i r a s é r i e d e condições, seria necessário noção qualitativa d e nvigliariela" ( H e a d ) s e r i a m a i s satisfatória quando
acrescentar as influências cerebrais e cerebelosas, que, ao menos se trata d e explicar as Insuficiências reflexas nas infecções, n o cansaço,
no homem, intervém provavelmente em todos os reflexos. N i n - na hipnose. M a s ela não d á senão urna descrição bastante longínqua d o
guém contesta a existência d o fenômeno d e "choque" q u e , comportamento e não precisa bastante o papel d o cérebro, Tr a t a r - s e - á
na r ã p o r exemplo, após o esmagamento d o s órgãos i n t e r - somente d e u m a função d e coordenação e d e integração? Essas noções
nos o u d a s pernas, interrompe o u modifica t o d o s o s r e f l e - podem designar a simples associação d e automatisnios preestabelecidos,
xos 1.2 S a b e - s e j á h á m u i t o tempo que n o homem a aten- A i d é i a d e integração o u d e coordenação e a idéia d e controle o u d e
ção dada a u m reflexo basta algumas vezes para inibi-10. O inibição supõem u m a e o u t r a q u e s e admita n o sistema nervoso u m a
cansaço, a hipnose m o d i f i c a m o s reflexos, atenuando-os O u estrutura hierárquica e m dois nitreis, — u m primeiro nivel composto d e
acentuando-os. O reflexo d e flexão d o s dedos d o pé, provo- arcos reflexos conformes a o t i p o clássico, a o q u a l s e superporia u m a
cado p o r urna excitação p l a n t a r, depende t a n t o d e condições instância s u p e r i o r, c e n t r o s c o o r d e n a d o r e s o u d i s p o s i t i v o s i n i b i d o r e s , e n -
cerebrais que, e m vez do niovimetno d e flexão, é considerada carregados d e g o v e r n a r o s a u t o m a t i s m o s , d e o s a s s o c i a r, d e o s d i s s o c i a r.
corno o sinal de uma lesão ao nível das vias piramidais (Babins- E e s t a concepção h i e r á r q u i c a q u e q u e r í a m o s e x a m i n a r s o b r e u m e x e m -
ki). De uma maneira geral, parece incontestável que os reflexos plo o n d e s e encontram p o i s indiretamente visadas a o mesmo t e m p o a s
noções de Integração e de controle.
de u m animal descerebrado são m u i t o diferentes dos reflexos
normais L3). E m certos polvos, após ablação dos ganglios cere-
Chamávamos a atenção mais acima de que o reflexo de flexão plantar
brais e d e u r n a p a r t e d o s gânglios centrais o s limiares s e é substituído p o r u m reflexo d e extensão d o s dedos e m caso d e lesão
elevam o u a o contrário decrescem extremamente; a coorde-
das vias piramidais. Te n t o u - s e explicar este f a t o supondo que, n o s u -
nação d o s movimentos d o s braços é comprometida; o s r e - jeito normal, o reflexo d e extensão, p r o n t o p a r a funcionar, se encontra
flexos d e preenstio e d e consumação f a c e a o s c a r a n g t e - inibido pelas excitações piramidais que, segundo Sherrington, favorece-
jos são irregulares ( i ' , A s atividades d i t a s espinhais depen- riam o s reflexos medulares (tísicos, de origem externa, as custas dos r e -
dem portanto de influências cerebrais o u cerebelosas. flexos tónicos e proprioceptivos ( I J . M a s esta hipótese é incontrolável:
supõe-se a existência de u m dispositivo reflexo q u e não é possível cons-
Os autores se dividem somente quando se t r a t a de interpretar es-
ses fatos. Busca-se freqüentemente u m a explicação q u e deixa subsistir tatar n o s u j e i t o a d u l t o e n o r m a l , p a r a p o d e r e x p l i c a r s u a a p a r i ç ã o n o
doente p o r simples "escape o f control" o u liberação do automatismo. S e
a concepção d o r e f l e x o subordinado-O somente a u m a regulação c e -
se limitasse a descrever o s efeitos d a doença, seria necessário dizer que
ela t r a z c o n s i g o u m a m u d a n ç a n a f o r m a d o r e f l e x o , A m a n e i r a
e a estrutura d a resposta s e m o d i f i c a m n a medida e m q u e t o d o o s i s -
(1) To d o s esses resultados f o r a m resumidos p o r Goldstein. I n D e r A u f b a u d e s O r - tema nervoso o u somente u m a parte d o sistema contribua p a r a ela. É
gantsmus. C P . 11 - p p . 4 6 s q q , Justamente esta alteração qualitativa do comportamento que a teoria d á s -
(21 W e l h a c k e r. Rellhaesetze, p , 5 1 .
i31 R e t i c x g r • e t l e . p. 53.
1.4) B u y i e n d i j k , D a s Verimiten v o n ° d e p u s n a t h tellwelser Zerstorunil d e s & b i t u s _
I / Weizsacker, Rellesgese1rt. P - 5 3 -
Atehíves NielleedaSes d e Phirsfologre. X V I I I . 1933, p p . 52-53.

44 45
outro, p o r exemplo a flexão sobre a extensão t i l . Toca-se aqui n o p r o -
sica d o reflexo considera c o m o u m a aparência. E l a a reduz h simples
blema gerai d a s localizações nervosas o u d a s relações e n t r e função e
substituição d e u m circuito preestabelecido p o r u m outro, o comporta- substrato n o sistema nervoso. N a teoria d o reflexo c o m o n a d o funcio-
mento patológico deve s e r então compreendido p o r subtração a p a r t i r namento central, teve-se d e i n i c i o tendência a designar, p a r a cada e l e -
do comportamento, normal, trata-se a doença como u m simples d e f i c i t mento nervoso, u m fragmento d o comportamento q u e dependesse dele:
ou em todo caso como um fertólter10 negativo, pretende-se que não há real- localizaram-se a s 'imagens verbais", procurou-se p a r a cacto movimento
mente n o organismo acontecimento. A h i p ó t e s e d e u m r e f l e x o d e reflexo u m dispositivo espec.alizado. O s fatos n ã o p e r m i t i r a m ater-se
extensão p r o n t o para funcionar n o sujeito normal é evidentemente u m a
a esta análise real d o comportamento e m fragmentos isoláveis. A p e r c e -
construção. E l a acarreta uma segunda hipótese, Se é certo existir no n o r -
beu-se cada vez mais q u e as diferentes regiões nervosas corresponcilarn,
mal u m circuito capaz de desencadear o reflexo d e extensão, fica a com- não à s partes reais d o comportamento, — à palavras, a t a l reflexo d e -
preender como esse reflexo não se produz. Supõe-se então que ele é inibi- finido p o r seu estimulo, — mas a certos tipos o u a certos níveis de a t i -
do. Forja-se a idéia de inibição para justificar a ausência de u m reflexo vidade, — p o r exemplo ã linguagem voluntária, d i s t i n t a d a linguagem
de extensão arbitrariamente suposto, A q u i a idéia não é Introduzida para automática, aos reflexos d e flexão, que, comparados aos reflexos d e e x -
tornar inteligível O p r ó p r i o f a t o , m a s p a r a mascarar u m desacordo v i -
tensão, representam u m a adaptação mais fina, d e v a l o r superior. É pois
sive' entre a t e o r i a e a experiência. É pois p e r m i t i d o dizer que a s t d - um novo gênero de análise, fundada sobre o sentido biológico dos c o m -
póteses auxiliares d o c o n t r o l e e d a i n i b i ç ã o e s t ã o destinadas antes a portamentos, q u e s e i m p õ e a o mesmo t e m p o ã psicologia e à fisiolo-
manter a t e o r i a clássica d o reflexo q u e a f a z e r compreender positiva-
gia 121 • A intervenção das influências cerebrais t e r i a p o r efeito reorga-
mente a natureza d a atividade nervosa. Que a conduta d o doente, como
nizar o comportamento, elevá-lo a u m nível superior d e adaptação e d e
aliás a do animal, da criança o u do " p r i m i t i v o ' , não possa se compreen- vida, e n ã o s o m e n t e associar o u dissociar dispositivos preestabeleci-
der p o r simples desagregação a p a r t i r d o comportamento adulto, são e dos. N ã o s e t r a t a a i d e u m a construção arbitrária; esta hipótese está
civilizado, é talvez a Idéia menos contestada d a psicologia moderna. 2 calcada sobre o s fatos, enquanto que a concepção chissica obriga a t r a -
necessário u n i r a explicação fisiológica à descrição psicológica. Te n t e - tar o reflexo d e Babinski como u m a inibição d e inibição. E l a está aliás
mos, pois, precisar, sobre o exemplo q u e escolhemos, a transformação de acordo c o m outros resultados d a patologia. Apresenta o sistema n e r -
qualitativa d o funcionamento nervoso q u e seria o essencial d a doença. voso como u m todo, não como u m aparelho f e i t o d e duas peças hetero-
o reflexo d e extensãO s e encontra nas paraltsias periféricas, onde o t r a - gêneas, O r a , d e u m a maneira geral a aparição d a razão, a d o sistema
jei° que v a i d o córtex iss vias piramidais e às saliências anteriores não nervoso superior, transforma a s próprias partes d o comportamento q u e
está de f o r m a alguma interessado, e onde, p o r conseqüência, não é pas- dependem d o cérebro médio e parecem as mais institivas, U m dualismo
sivo' supor u m a liberação d o automatismo. M u i t o s sujeitos que, e m p o - de simples subordinação é impossivel ( 3 S
sição normal, apresentam o reflexo d e extensão, não o apresentam mais
desde q u e o joelho deles é fletido, desde q u e se o s coloca e m posição A entrada e m j o g o d e u m " c i r c u i t o reflexo" depende a i n d a d a s
ventral ou apenas desde que são obrigados a executar certos movimentos de reações simultâneas o u precedentes, O fato é estudado desde longo t e m -
cabeça. Se, como parece, o reflexo d e extensão é condicionado p o r u m a
Inversão d a s cronaxias, — a d o s músculos flexores tomando-se m a i o r
que a dos músculos extensores, e a extensão mais fácil que a flexão —
(1) I d . , i b i d . p p . 307-308.
dizemos que a relação, normal o u patológica, dessas cronaxias é d e t e r -
minada, n ã o p o r a l g u m dispositivo i n i b i d o r localizado, m a s p e l a situa- (2) 1.1rn parágrafo u l t e r i o r mosirara ( e t . c o p . 1 1 ) , q u e o s a o l s tipos d e localizactio
existem. q u e o especo corpgral é ambivalente. É precisamente o q u e t o n t a t a l estudo
ção nervosa e motora n o conjunto d o organismo (1), P o r conseqüência, importante p a r a n ó s . O organismo ë a o mesmo tempo LIMA IrláqUillit onde a a t h d d a -
a ação d o cérebro sobre a atividade reflexa n ã o é m a i s a autorização dade tola! é • Nome d a s atividade,' locais, e u m todo o n d e a s atividade, locais n o
dada o u recusada por u m a instancia superior a processos automáticos o u sáo isoláveis. Q u e modo d e rXiStèneia possni entáo, como realiza a transieilo d o p a r -
autônomos. A o mesmo tempo que perde seu papel d e árbitro entre m e - les extra parles a unidade, como como pode ser coisa, d e acordo cont o primeiro ponto
de V i a « , i d e i a d e acordo com o segundo?
canismos prontos para funcionar, o cérebro. reintroduzido no circuito ner-
43i C o l d s t e m . p o r exemplo, a l a s t r a q u e certas l e s á t s d o c ó r t e x m i o d e i x a m Intacto
voso. assume u m papel positivo n a p r ó p r i a constituição d a s respostas o comportamento sexual: " E s b e d a r t b r i solcben K r a n k e n z.b., achou g a n i besondert
reflexas. É ele que faria predominar u m m o d o de organização sobre u m von oussen u r u e i n e m Sexualiverkehr I i , G a n i ; b r i n g e n " . G o l d s t e i n . D e r
Anthaa d a s Orponismas p . 3 0 1 . O a u t o r prossegue: " V o n e i n e m besauders starken
Trieb i s t i n t aligemeinrm n i c h t d l Rede; i n t Geg,autell erst WCIM durch cela ausserliche
Maitipulation d i e E i n f ü h r u n g d e s Sexualorgans staligctundett i t a t k o m m t d e sexual
Rotim:lung überhaupl i n C a n " .
Ordanixmlts. P11, & P I -
Goldstein, P e r &turbou das

46 47
jam religados a o centro p o r condutores aferentes especialmente antepos-
tos à determinação d o reflexo iminente, visto que esse Ultimo, a obser-
po s o b o n o m e d e "composição d e reflexos", E m geral, quando u r n a
vação o mostra, é função d a situação i n i c i a l dos próprios músculos n o s
reação se produz, todas a s reações q u e outros estiniulos poderiam p r o -
vocar a o mesmo tempo s e encontram inibidas, e quando d o i s reflexos quais ele se completa.
antagonistas e n t r a m a s s i m e m concorrência, n ã o h á compnornisso, s ó
um dos d o i s se realiza (1). T u d o s e passa c o m o se o sistema nervoso Uma mesma excitação sobre o braço de urna estrela d o
não pudesse fazer duas coisas ao mesmo tempo. Esse f a t o obriga a es- mar provoca u m movimento n a direção d o ponto excitado se
tabelecer entre os circuitos nervosos relações transversais. M a s e m m u i - o braço está estendido sobre u m p l a n o horizontal, — e p o r
tos autores elas permanecem d o mesmo t i p o q u e a s relações longitu- oposição, u m movimento u n i f o r m e n a direção d o lado m a l a
dinais da concepção clássica: O organismo não desempenha nenhum papel tenso s e o braço está e m p a r t e sem apoio (11• U m choque
positivo na elaboração dos estímulos. Ta l é o sentido das noções de i n i - embaixo d a rótula provoca n o homem u m a reação d e exten-
bição o u d e inervação recíprocas introduzidas p o r Sherrington. O s p r o - são se a perna Interessada está cruzada sobre a outra, — uma
cessos nervosos que comandam a contração dos flexores provocariam au- reação d e flexão, s e e l a está estendida passivamente, O e x -
tomaticamente a inibição dos extensores e reciprocamente. M a s aqui ain- trato de hipófise provoca reações inversas sobre o útero, quer
da o modo de ligação suposto entre o s circuitos nervosos não é bastan- a m u l h e r esteja grávida o u não. A excitação d o vago t e m
te flexível: segundo Goldstein, somente se observa a s aparências de u m a efeitos opostos, q u e r a cárdia esteja retraída o u dilatada n o
Inibição recíproca quando s e opera p o r excitação elétrica d o s músculos momento considerado (2).
desinseridos. A Inervação natural, exceto a d e u m movimento forte, n ã o
segue essa l e i rígida. Desde q u e se t r a t a d e movimentos delicados d a Deveremos a q u i a i n d a s u p o r dispositivos inibidores especiais q u e
mão o u mesmo d e movimentos d e apreensão, constata-se unta inervação Interditam t a l o u t a l reflexo segundo o estado d o órgão terminal? M a s
simultânea d o s antagonistas, c u j a distribuição depende d o a l v o a a t i n - eles não se fazem necessários senão p a r a os postulados d o método clás-
gir, do t i p o de movimento a executar. N ã o é pois o que se passa ao n í - sico. Analisa-se o funcionamento d o organismo indo d a periferia ao cen-
vel d o s flexores q u e determina o q u e se passa a o nível dos extensores, tro; concebe-se o s fenômenos nervosos s o b o m o d e l o d a s e s t i m u l a -
ou inversamente, m a s esses d o i s processos parciais aparecem como a s - ções discretas que são recebidas n a superfície d o organismo; prolonga-
pectos d e u n i fenómeno d e conjunto q u e f i c a p o r descrever ( 2 ) . M a i s se n o i n t e r i o r d o sistema nervoso a descontinuidade d e suas termina-
geralmente, parece necessário s e interrogar sobre o v a l o r d a noção d e ções sensoriais, se bem que o funcionamento seja finalmente representado
antogonismo, e pôde-se contestar, p o r exemplo, q u e a v i d a vegetativa como u m mosaico d e processos autônomos q u e interferem e s e c o r r i -
consiste e m u m equilíbrio entre as excitações simpáticas e parassimmiti- gem uns aos outros P o r q u e se começou p o r supor a existência de arcos
CaS 13). P a r a n ã o m u l t i p l i c a r a s hipóteses s e m necessidade, seria p r e - reflexos predeterminados, quando s e constata q u e nossas respostas v a -
ciso d e f i n i r u m a conceNão d o funcionamento nervoso que t o r n a i n t e - riam c o m o estado dos músculos que elas vão fazer i n t e r v i r, se é o b r i -
ligível ao mesmo tempo e pelo mesmo principio a exclusão recíproca dos gado a acrescentar a o s dispositivos n o r m a i s comandos suplementares
reflexos e a colaboração variada d o s circuitos nervosos n o i n t e r i o r d e que possam i n i b i - l o s n o momento certo. M a s o q u e se pensaria de u m
cada u m deles. S e se adnaitic-se q u e cada reflexo supõe urna elaboração físico que, a cada n o v a observação, fosse obrigado a acrescentar à sua
dos estímulos n a qual todo o sistema nervoso está interessado, compreen- teoria u r n a cláusula d e salvaguarda q u e l h e prolongasse a a p l i c a -
der-se-ia bastante b e m que ele não possa ''fazer duas coisas a o mesmo ção? O que é verdade, é que, como urna figura deve seu aspecto caracte-
tempo", s e m t e r necessidade d e supor qualquer Mecanismo d e inibição ristico a o fundo sobre o qual e l a se destaca, cada movimento supõe n o
especial. Quanto à diStribuição regulada das excitações motoras, ela e n - conjunto d o sistema nervoso condições positivas e negativas 4 0 , m a s
contraria exatarnente s u a explicação nessa mesma elaboração d o s e s t i - elas não devem s e r realizadas à parte, como se viessem se acrescentar a
mulos que seria a função própria do sistema nervoso. D e resto, Se se quer reações j á prontas e modificá-las n o ú l t i m o momento. Seria m a i s c o n -
supor u m dispositivo preestabelecido p a r a d a r c o n t a d e cada u m a d a s forme a o s fatos, considerar o sistema nervoso c e n t r a l c o m o o l u g a r
influências que se exercem sobre o reflexo, será necessário multiplicá-las
além de t o d a medida, será necessário que os próprios órgãos efetores se-

Cl) G o t t i s t e i n , D e r Au/Én:ai d e r O r j a n t r u l a r „ p p . 45-46.


(2) I d . I b i d . , p p s 15-14.
Vireis-saci.= RenrAgesellei P .
(3) G o l d s t e i n . D e r & t u l h a d e r Organienius, p a s e i n i e p . e x . , p p . -115 s q q .
(2) GOlithttill. D e r Amfirou dee Orgardrions, p p . 1 7 5 1 8 3 .
(3) Id.. i b i d . , p p . 175-183.
49
48
onde se elabora u m a "imagem" total d o organismo, onde o estado local
de cada parte se encontra expresso. — de u m a maneira que resta a pre- dados funcionais; a terceira l e i estabelece que os aparelhos motores p e -
cisar. É essa Imagem de conjunto que comandaria a distribuição dos i n - dem cada u m n ã o somente u m a c e r t a quantidade d e excitante m a s
fluxos motores, dar-lhes-ia logo a organização que testemunha o m e n o r ainda u m excitante de u m a certa natureza, ( A estricnina t e m exatamen-
de nossos gestos. repartiria a excitação e n t r e o s flexores e o s extenso- te p o r efeito t o m a r o s comandos d o s extensores sensíveis aos mesmos
res, levado em conta o estado dos órgãos terminais. agentes que excitam os flexores) ( 1 ) . É pois provável que, desde a exci-
tação a mais fraca, certos conjuntos musculares e p o r conseqüência n e r -
A mesma hipótese d a r i a c o n t a d e u m ú l t i m o f a t o d o q u a l n o s vosos, trabalhem p o r I n t e i r o ( 2 ) . C a d a onda, mesmo a m e n o r, parece
resta f a l a r ; a dependência d e cada reflexo c o m respeito àqueles q u e o percorrer t o d o o sistema: à medida q u e o s procedimentos d e observa-
precederam i Sherringtor0 • ção se aperfeiçoam, constata-se, para cada excitação efeitos m a i s distan-
tes, e dissemos q u e a ablação d e t a i s regiões nervosas modifica t o d o s
os reflexos t a l . N o fenômeno de irradiação, visto que a excitação de ba-
Observou-se q u e u m reflexo d a d o é freqüentemente s e - se se conduz e m todos o s circuitos, a excitação adicional n ã o pode t e r
guido de u m movimento inverso e esse fenomeno é designado simplesmente p o r efeito i n t e r v i r e m novos circuitos c u j o s comandos s e
por termos significativos: o r a contragoipe t U , o r a "Indução encontrariam mais afastados d o p o n t o excitado originalmente, E l a p r o -
sucessiva" S h e r r i n g t o n 1 2 I voca, sem dúvida, uma redistribuição das excitações e das inibições, u m a
O desenvolvimento temporal das reações e a influência d o s efeitos "reordenação d o estado d e c o n j u n t o " " c o m o o golpe q u e s e d á sobre
anteriores são a i n d a m a i s visiveis n o s fenômenos d e irradiação (Sher- um caleidoscópio" (4). O grande m é r i t o de Sherrington é t e r generaliza-
rington) e de inversão d o reflexo. U m excitante aplicado p o r m u i t o tem- do a idéia d e Inibição, t e r compreendido q u e todos o s reflexos contém,
em proporções variáveis, excitações e inibições, É a repartição dessas
po e c o m u m a intensidade crescente e m u m receptor provoca reações
cada vez mais amplas, a p o n t o d o organismo i n t e i r o poder e n f i m n e l e ações inibidoras e excitantes que varia n a medida e m que a estimulação
colaborar 1 , , Segundo a interpretação clássica, se, para u m mesmo e x - dura o u se faz mais intensa Ui). A Inibição aparece nesse sentido como
citante, as respostas variam — contração dos flexores d e u m a perna, de- um caso particular d e colaboração, D e o u t r a parte, c o m o é r a r o q u e
pois dos extensores d a perna oposta, á exclusão dos extensores ipsilate- a excitação d e u m a c e r t a região muscular s e acompanhe nas outras d e
rais e dos flexores contralaterais, — é que a mesma excitação se difunde inibição p u r a e simples, não se pode t e r p o r adquirida, n o funcionamen-
sobre o receptor e atinge sucessivamente domínios nervosos cada vez mais to d o s elementos nervosos motores, a l e i d o t u d o o u nada, e cada u m
distantes d o ponto tocado originalmente. M a s essa interpretação concor- deles parece capaz d e funcionar d e diferentes maneiras, segundo aquilo
da mal com os fatos. E n t r e as cinco leis que Sherrington concluiu de seu que é prescrito n o momento considerado pela situação d e c o n j u n t o d o
estudo sobre a irradiação d a s raízes, encontramos c o m efeito u m a l e i sistema, Essas conclusões seriam confirmadas se, e m lugar de estudar o
de "proximidade espacial" que faz depender entre raizes aferentes e ele- caso pouco favorável das excitações raquld_anas, descrevêssemos os e f e i -
rentes a relação funcional d a distância; m a s a segunda lei estabelece que, tos d e certas excitações cutãneas, e m particular sobre as partes as mais
mesmo p a r a o s excitantes os mais fracos, a descarga motora é r e p a r t i - móveis do corpo. Para urna excitação crescente do pavilhão da orelha, ob-
da sobre vários segmentos e que assim as raízes motoras não são u n i - tém-se sucessivamente n o gato movimentos d a nuca e d a p a t a dianteira
ipsilateral, — movimentos d a p a t a traseira ipsilateral — contração d o s
músculos d a cauda e d o t o r s o — movimentos d a p a t a traseira c o n t r a -
(1) Tr a d u z i m o s o alemão Ruckslag C I . c i n larliefflar Werzsacker, refle‘gesetze. Cp. 71b- lateral — movimentos d a p e r n a d i a n t e i r a contralateral, A irradiação
(2) « A q u i a i n d a o s fislologislas p m e u r a r a m explicar o s fatos religando p a r l e a p a r - pretendida m i s t u r a pois o s reflexos simétricos e assimétricos curtos o u
le, quando s e t r a t a r i a 1 0 I Vr7 d e u m único r e f l e x a t o t a l caracterizado p o r urna f o r m a longos, e não invade os dispositivos motores na ordem em que estão colo-
difasEca. c o m efeitos orientados x o t e s . vamente n a s t i n i u direções opostas". I d . . I b i d .
cados anatornicarnente. M a s se a l e i de proximidade espacial não funcio-
(3) E m u m s e n t l d o esse fenômeno p o d e r i a N e r considerado t e m o u m caso_ilialic
das substituições q u e s e produzem I p m n d o u r n a resposta motora è impedida; die_se na, qual lei se pode então fazer aparecer a partir dessas observações? Como
que, s e a r imobiliza a perna c o m o q u a l o a n i m a l s e coça, a outra perna retoma p o r foi dito acima, a excitação, após ter sido levada aos flexores de uma perna
sua c o n t a o movimento t o m a d o Impossivel p e l a p r a n e : r e : s e s e d e l t a u m a n i m a l
sobre o 10110 cúçado t We i t s a c k • r. p . .93). e l e s e coça d o l a d o l i v r e e teremos m a i s (11 Weimacker, neflezgesctze. p . 8 0 .
adiante a estudar e m certos insetos exemplos a i n d a m a i s Stinirei91 lir Mel d e & a n a f e . 12) Id.. i b i d . , p . 7 8 .
renda o u d e substituições reflexas. E n f i m . a influencia q u e a r a b a d o s e r assinalada
Id., I b i d . r h
no próprio aparelho afetar sobre a t u r m a d o reflexo e u m caso particular d o mesmo (4) Sherringtort, citado p o r %Yds...atices. i b I t t
processo d e derivação. lõ) Weimacker Reflexicesette, I s , 7 9 .

50
intervenha após u m a s é r i e ele o u t r a s excitações o u , a o contrário, e n -
contraía os extensores d a o u t r a p e r n a como p a r a não t o m a r Impossível contre o sistema nervoso e m estado d e repouso. N a inversão d o reflexo
a posição d e p é d o animal, a q u i t a m b é m "são a s formas fundamentais o mesmo estimulo provoca reações, não somente descontinuas, mas a i n -
do movimento d o andar, m u i t o mais que a difusão espacial n a substan- da inversas_ O r a , n ã o é d i f í c i l encontrar para esses fenômenos modelos
cia nervosa, que determinam a f isionomia d o reflexo" k l ) E n q u a n t o o físicos. U m mesmo acréscimo d a pressão exercida sobre u m g á s p r o -
estimulo cresce d e u m a m a n e i r a continua, o organismo n ã o responde duz efeitos diferentes conforme o gás se encontre o u não n a vizinhança
através d e movimentos q u e expressariam u r n a difusão contínua d a e x - da preSS(10 máxima n a temperatura da experiência. E m física, como nas
citação a t r a v é s d e circuitos preestabelecidos: a excitação é elaborada ciências naturais, a f ó r m u l a " a s mesmas causas produzem o s mesmos
de t a l maneira que a cada acréscimo notável ela se traduz nos aparelhos efeitos" é equivoca. Mas, o fato de existirem "limiares" em física não apoia-
motores p o r movimentos novos e se reparte entre eles de maneira a de- ria urna fisiologia mecanicista senão Se a Interpretação física fosse neces-
sencadear u m gesto dotado d e sentido biológico. Essa mudança d e f o r - sariamente mecanicista. A teoria clássica d o reflexo compreende o fenô-
ma descontinua n o quadro das excitações motoras reflexas, a aparição meno d o s " l i m i a r e s " c o m o u m a substituição d e circuitos: o s t r a j e t o s
no tunetenamento nervoso, de u m novo t i p o d e ordem, não mais funda- reflexos n ã o s ã o acessíveis senão a u m a excitação d e u m a Intensidade
da sobre a permanência d e certos circuitos k2,, mas criada a cada M o - determinada, e quando a s excitações acumuladas ultrapassam o l i m i a r
mento pela atividade p r ó p r i a d o sistema nervoso e conforme às exigên- assinalado a u m deles, elas se transferem para u m o u t r o circuito. A des-
cias vitais do organismo, eis o que, nas observações mesmas de Serrington, continuidade d o s efeitos é explicada pela descontinuidade anatômica d o
ultrapassa a a n t i g a concepção d o reflexo, á q u a l entretanto e l e p e r - substrato e pelas propriedades absolutas d o s elementos. O s teóricos d o
manece vinculado em. S e é possível encontrar uma l e i d o comportamen- reflexo parecem crer que esse modo de explicação seja o único "cientifico".
to, essa l e i n ã o saberia religar diretamente a s mações observadas e m A física m o s t r a q u e n ã o é assim. S e j a q u a l f o r a tendência a t u a l d a
certos dispositivos locais; elas dependem do estado t o t a l do sistema n e r - teoria das mudanças de estado, nenhum físico c r ê que a sorte d a c i ê n -
voso e d a s intervenções ativas q u e são necessárias p a r a a conserVaçãO cia esteja ligada a u m a interpretação inecanicista que t r a t a r i a a passa-
do organismo. C o m o compreender essa dependência das partes com res- gem d o estado gasoso ao estado liquido como u m a concreção das partes
peito a o todo? N ã o se refuta o finalismo ignorando o s fatos dos quais quase sólidas, preexistentes n o gila, e reduziria a descontinuidade a p a -
ele extrai argumento, m a s compreendendo-os m e l h o r que ele. rente d o fenômeno supondo corpúsculos dotados d e propriedades i n v a -
riáveis, Acontece q u e a física moderna t o m a e m consideração e s t r u t u -
A dependência d o reflexo e m relação aos q u e o precederam é a i n -
ras descontinuas e d e alguma f o r m a anatómicas, mas o mais freqüente-
da visivel n o s fatos d e Inversão d o reflexo. Tr a t a - s e a i d e u m caso l i -
mente. ela as Insere nos campos d e forças 1.1, E e m n e n h u m caso e l a
mite dos fenômenos d e l i m i a r. A l e i d e Weber mostrava que o mesmo
se c r ê sujeitada a escolher entre afirmações ontológicas: c o n t i n u o o u
estimulo p o d e o u não provocar u m a resposta do organismo, segundo ele
descontínuo, força o u extensão. S e a fisiologia q u e r se inspirar n a f í s i -
ca, deve p o r sua vez ultrapassar o preconceito d a análise real. N e n h u -
ma razão d e principio, nenhuma exigência d o método cientifico o b r i g a
0 ) I d . . i b i d - . p . 5 2 . C f . L . L a p i t q l l t , Physiologie générale d o systéme nerveaux, l u a interpretar a l e i d e Weber d e n t r o d a linguagem d a antiga teoria d o
Wouveau T n i t i é d e Peu:holOgie G . D u m a s . t . I , c a p . I V . p . 2 e 1 . A excitação p r o l o n - reflexo — i s t o é , a considerar o s limites d o s diferentes aparelhos n e r -
gada extravasa sempre d e u n i m e m b r o e m d i r e ç ã o daquele q u e e s t á e m conexão c o m vosos c o m o definidos u r n a v e z p o r t o d a s p o r s u a p r ó p r i a estrutura.
ele n o f u n c i o n a m e n t o h a b i t u a l : g extensão d e u m p a t a s e r á seguida d a eXicoaão d a
entra n a r ã q u e a v a n ç a e m g e r a l p o r m o v i m e n t o s /01ziêtric04; m a s n o c a s o d o c ã o , Quanto aos fatos, sabe-se que as lesões centrais o u apenas a fadiga f r e -
cujos m o v i m e n t o s o r d i n á r i o s s ã o & P e n a d o s , a excliação. d e p o i s d e t e r p r o v o c a d o a quentemente t ê m c o m o e f e i t o elevar o u abaixar o s limiares d o s r e f l e -
triell5ãO d e u m a p a t a . p r o v o c a r á a f l e x ã o d a o u t r a . xos, mais comumente, d e torná-los lábeis, O s limiares seriam pois f u n -
(2) L o g o a p ó s l e r n o t a d o q u e a i r r a d l l i ç ã o segue a l e i d o s m o v i m e n t o s v i t a i s d e
ções d o estado geral d o sistema nervoso. Pequenas quantidades de adre-
cada a n i m a l . e m l u g a r d e s e c o n f o r m a r à d i s t r i b u i ç ã o OnoltArctieu do% comandos m i l _
tons. L a p i c q u e acrescentava: " M a s e s t a M a ç ã o n ã o 6 f a i a l c o r n o e i a o a r r i a s e n ã o nalina abaixam tanto mais a pressão sangüínea quanto o tiniram, nos mús-
dependesse senão d e urna estruturo: reencontramos a q u i a l e l geral d o controle v a r i á v e l " . culos dos vasos, é mais elevado ( G a m o w. Mas se ação da adrenalina i n -
A irradiação n o sentido a n t i g o d a p a l a v r a , o transbordamento d e u m a excita- tervém enquanto os músculos do estômago estão em repouso, ela terá ao
ção q u e I n v a d e a s v i a s ner,•osas m a i s p r ó x i m a s . n ã o p o d e s e r consattada s e n ã o contrario u m efeito tônico tiCroetzi. F o r a de toda hipótese preconcebida,
num c a s o p a r t i c u l a r. o d a s eacitaçCie, o m i t o d o l o r o s a s e excessivas. P r i m e i r a ocasião
de ise n o t a r q u e a t i n l i g a concepção d o funcionamento nervoso e x p r i m e antes q u e a a l i .
%Idade n o r m a l d o v i v e n t e . c e r t o s f r n b i n e n 0 6 p a t o l ó g i c o s o u c e r t a s experienclas d e
laboratório. C , f We i s s a c k e r, Reflexgesetze, p . 8 2 . Te r e m o s a c o n s i d e r a r esses p r ó .
[mios casos p a r t i c u l a r e s e a e x p l i c a r c o m o u m o r g a n i s m o p o d e s e c o m p o r t a r confim. a l C f . Infra top.
me l e i s d i fe r e n te s e m m e l o a r t i f i c i a l e n o s e u i n M o v i t a l .
53
ir

descrever-se-á exatamente esse f a t o dizendo q u e o aparelho nervoso, n o ação exterior, m a s u m a elaboração dessas influências q u e , d e f a t o , a s
submete à s n o r m a s descritivas d o organismo um.
qual cada excitação eficaz provoca uma ruptura de equilíbrio, torna-se i n -
sensível, além d e certas intensidades, i i s intervenções exteriores; s e elas
continuam a se produzir, ele reage d e t a l f o r m a que d e f a t o elas p r o -
vocam, n ã o u m crescimento, m a s a o contrário u m a diminuição d o e s - 4 - A Reczção
tado geral de excitação. U m a vez q u e os próprios limiares não são c a -
racterísticas invariáveis d e c e r t o s aparelhos nervosos, n a d a p e r m i t e
Mesmo s e existissem estímulos, receptores, trajetos nervosos espe-
traduzir e s t a descrição e m t e r m o s d a linguagem d o atomismo f i s i o l ó - cíficos, e l e s n ã o p o d e r i a m e x p l i c a r p o r s i m e s m o s a adaptação d o
gico, — supor p o r exemplo q u e o reflexo t ó n i c o atribuído particular- reflexo a o estimulo, p o i s o m o v i m e n t o a eítecutar e m c a d a caso d e -
mente a certos dispositivos não se produz senão abaixo de u m certo l i - pende d a posição i n i c i a l d o s membros, q u e é variável. N o reflexo d e
miar fixado u m a vez p o r todas, e que, u m a vez atingido esse l i m i a r, a coçar, a s contrações musculares necessárias p a r a l e v a r m i n h a m ã o a o
excitação s e difunde automaticamente e m u m o u t r o aparelho encarrega- ponto excitado são m u l t o diferentes, conforme m i n h a m ã o n o i n i c i o se
do d o reflexo inverso. É o estado g e r a l d o sistema nervoso q u e pres- encontre estendida p a r a a d i r e i t a o u p a r a a esquerda. I m a g i n a - s e n o
creve a o aparelho tônico ( s e s e q u e r s u p o r u m ) s e u l i m i a r inomenta- ponto coçado tantos circuitos preestabelecidos quantas posições iniciais
neo; é ainda a atividade central d o sistema nervoso que fecha esse apa- possíveis existem p a r a m i n h a mão? A i n d a n ã o s e compreende como o
relho e assinala a o contrário a o dispositivo antagonista u m a cronaxia influxo escolhe, dentre as vias abertas, justamente aquela que provocará
tal que ele seja p o r sua vez atingido pela excitação. Mesmo supondo que o movimento conveniente n a situação considerada. Sherrington mostrou
cada reação típica está ligada a u m aparelho distinto, n ã o se pode e v i - que u m movimento adaptado é possível nesse caso sem mensagem p r o -
tar a hipótese d e u m a elaboração Central n a qual se exprimem d e f a t o prioceptiva v i n d a d o m e m b r o movido, o q u e n o s i m p e d e d e i m a g i n a r
as necessidades vitais d o organismo, T u d o s e passa como s e o organis- uma série d e correções trazidas d o c e n t r o a o movimento inicial segun-
mo oscilasse era t o r n o d e u m estado d e excitação privilegiado q u e nos- do as indicações d a proprioceptividade. É pois que " o reflexo t r a z em s i
sos reflexos têm p o r lei manter e que prescreve a cada estímulo seu efei- a(s) condição (condições) d e u m movimento de localização correto" 121,
to. M a s desse ponto d e vista, a inversão d o reflexo, e m lugar d e " v o l - De o n d e o r e f l e x o a s t e m , u m a v e z q u e n ã o são l o g o dadas c o m a
tar-Se" à l e i d e Weber poderia lhe d a r u m a significação que inicialmen- estimulação local? Esta adaptação imediata de nossos reflexos n ã o ocor-
te n ã o t i n h a sido percebida. 1 1 Quando o organismo e m presença d e re somente c o m relação a o espaço ocupado p o r nosso corpo. O espaço
um estimulo adicional, em lugar de inverter o reflexo se l i m i t a a diferi- exterior é atingido p o r eles c o m a mesma segurança, S e u m sujeito, d e
lo, essa resistência à s excitações novas não deveria ser interpretada c o - olhos vendados, recua d e urna certa distância e se e m seguida se pede
mo u m simples fenômeno d e inércia. A q u i ainda, s e certas excitações a ele percarre-]a d e novo i n d o p a r a a frente, ele o consegue, seja a n -
permanecem subliminares, é q u e o sistema nervoso a s elabora d e t a l dando d e l a d o o u d e frente, a pequenos o u a grandes passos. Q u e é
moda q u e o estado d e equilíbrio n ã o é modificado ( l e i d o nivelamento que regula e governa seu movimento nesse caso? 13). Como representar-
de K o f f k a ) . Q u a n d o a excitação adicional c o n t i n u a a crescer, a c a b a
nos seu substrato fisiológico? N ã o se pode t r a t a r de u m controle visual,
por n ã o ser mais compatível c o m o estado e m que o sistema se m a n t i - pois o s olhos d o sujeito estão vendados, Wa t s o n mostrou d e u m a m a -
nha a t é aquele momento. E n t ã o o equilíbrio se reorganiza a u m o u t r o neira geral q u e o movimento n ã o pode s e r guiado p e l a reprodução d e
nível d e excitação, superior a o q u e seria requerido p e l o estímulo p r e - estimulações exteroceptivas. D i r - s e - i t q u e o p r i m e i r o movimento d e i x a
sente ( l e i d e acentuação d e K o ff k a ) e e m que o organismo se manterá atrás d e s i traços kinestésicos q u e servirão d e regra a o segundo? M a s
durante u m tempo apreciável, enquanto que o estímulo continua a cres- Lashley estabeleceu q u e ratos, após a ablação d o cerebelo, permanecem
cer ( 2 ' . A s s i m a excitação n ã o seria j a m a i s o registro passivo d e u m a
capazes d e percorrer corretamente u m l a b i r i n t o q u e eles "aprenderam",
o q u e impede pelo menos d e considerar a s imagens kinestésicas c o m o

(I) S o b r e o s f a t o s q u e . n a t i s : a l o g i a t i a percepção, j u s t i f i c a m e s s a h i p ó t e s e . e t .
(I) N ã o v i s a m o s m i n i s e n ã o a f ó r m u l a a m o i a '1,•aga e a m e n o s C•MtMitáVel t i a l e i . Infra Ca». 11-
que o p õ e a s variaerms descontinuas d a sensação À s varlaeóes c o n t i n u a s d o e s t i m u l o . (21 W e i s s a t h e r, Rellesgeseite. p . 4 1 .
(2) X . K o f f k o . P e r e e p t i o n : A u t r a n s d u c t i o n t o l h e G e s t a t t T h e o r y, P h i t e h a i n g i c a l 13) B u y i e n d i j i t . " Ve r s u c h e o b e r S t e u e n m g d e r howegungenn, Archlue.1 aderlandailes
Balletin. I . 1 9 , 1 ) 2 2 , p p . 537-333. C r . W . K o e h l e r, D t o p h y s t s r h o n a d u l e m I n B a b e de phystatogie, t . X V I I , 1032, p p . C3-9s.
and I n glattenaren Z a s t o o t , p . 11 e p p 2 1 1 s q q .

55
tes domínios sensoriais n ' t " . É preciso q u e a ciência conceba u m a r e -
os únicos princípios diretores d o movimento ( i ) . Aliás, n o exemplo que presentação fisiológica desta "intenção de movimento" 421 q u e é " d e I n í -
tomamos, o trabalho executado n a experiência preparatória e o trabalho cio dada como u m núcleo a p a r t i r d o q u a l a totalidade d o movimento
requerido n a experiência c r í t i c a são, considerados p a r t e p o r parte, i n - se diferencia a seguir" 1.3'. O corpo e m s e u ftmcionamento n ã o pode
comensuráveis, pois s e inverteu o sentido d a marcha e s e modificou a se d e f i n i r como u m mecanismo cego, u m mosaico d e seqüêncim causais
amplitude dos passos. E m casos desse gênero, o s autores q u e formula- independentes
ram, c o m a teoria d o reflexo, princípios d e explicação corporal insuf
cientes, são tentados a fazer I n t e r v i r " a Inteligência". M a s , a l é m disso Tentamos c o m o s lisiologistas d e w o b r i r estímulos adequados, r e -
não dispensar d e f i n i r s e u s instrumentos corporais. u m a resposta i n t e - ceptores específicos, arcos reflexos Invariáveis para u m a reação dada, —
ligente, seja n o caso presente, seja n a aprendizagem infantil, é muito i n - Isto é, em lugar de classificar os fatos, nós os apresentamos, com o risco da
verossímil. S e , enquanto m o s t r o u m objetivo c o m a m ã o direita, v e n - repetição, n a o r d e m e m q u e eles s e oferecem a u m a pesquisa fundada
dam-me o s olhos e m e pedem para apontá-lo c o m a mão esquerda o u sobre o s postulados clássicos. M a s essas repetições são significativas; à
com a cabeça ( 2 i , consigo i s s o s e m necessidade d e f a z e r u n i j u í z o : medida e m que se deseja precisar as noções d e estímulo, de receptor, de
a inteligência, se ela Interviesse, deveria realizar aqui u m trabalho m u i - arco reflexo, vê-se estas noções fundirem-se umas sobre as outras, o r e -
to longo q u e n ã o chego n e m a Imaginar antes d e t e r refletido s o b r e flexo cessa d e s e r u m a série de acontecimentos justapostos n o corpo, e
ele, Seria necessário determinar a posição de meu braço d i r e i t o ern r e - chega-se a u m problema que gostaríamos de formular resumindo a s p á -
lação a u m sistema de coordenadas e calcular a posição que meu braço ginas precedentes. — O estimulo adequado n ã o pode s e definir e m s i e
esquerdo deve ocupar e m relação a o m e s m o sistema p a r a designar a independentemente do organismo; não é uma realidade física, é uma rea-
direção d o mesmo o b j e t o . D e f a t o , possuo a s conclusões Sem q u e a s lidade fisiológica o u biológica. O q u e desencadeia necessariamente u m a
premissas m e sejam dadas e m p a r t e alguma, executo a tarefa proposta certa resposta reflexa, n ã o é u m agente físico-quirnico, é uma certa f o r -
sem saber o que faço, assim como o s hábitos adquiridos p o r u m grupo ma d e excitação d a qual o agente físico-químico é a ocasião antes que
de músculos podem s e transferir imediatamente para u m outro: m i n h a a causa. D a l procede q u e o s fisiologistas n ã o consigam e l i m i n a r d e s u a
escrita n o quadro s e assemelha à m i n h a escrita n o papel, se b e m q u e definição d e e s t í m u l o t e r m o s q u e d e s i g n a m j á u m a r e s p o s t a d o o r g a -
os músculos interessados aqui e l á não sejam o s mesmos. H á e m n o s - nismo, como quando falam de estímulos dolorosos. É que a própria e x -
sas respostas reflexas alguma coisa d e geral que lhes permite justamen- citação j á é u m a resposta, n ã o é u m efeito importado d e f o r a para o
te estas substitutOes d e efetores. Quando o sujeito, d e olhos vendados, organismo, é o primeiro a t o d e seu funcionamento próprio. A noção d e
recua u m certo número d e passos, é preciso q u e esse movimento se r e - estímulo remeto à atividade original pela qual o organismo recolhe e x -
gistre nos centros, não sob a forma d e u m resumo das contrações m u s - citações d i s p e r s a d a s l o c a l e t e m p o r a h n e n t e s o b r e s e u s r e c e p t o r e s e d á
culares q u e s e produziram realmente, m a s s o b a f o r m a global d e u m uma existência corporal a esses seres de razão que são o r i t m o , a figura,
certo "espaço percorrido", imediatamente traduzivel e m passos d e u m a as relações de intensidade, em u m a palavra a forma de conjunto d o s es-
outra amplitude e diferentemente orientados. O que regula nossas rea- tímulos locais. A s excitações punctuals n ã o sendo decisivas, o l u g a r d a
ções motoras d e u m a maneira decisiva, é esse f a t o r geral q u e não está excitação t a m b é m n ã o poderia sé-lo, o q u e c o n f i r m a a labilidade d o s
ligado necessariamente a nenhum dos materiais do comportamento. " . . . o campos receptores. Assim, o mesmo estímulo parcial pode ocasionar efei-
animal, como o homem, sabe r e transportar e:n u m ponto do espaço que tos variáveis e o mesmo elemento nervoso funcionar d e maneira quali-
não l h e é dado n a percepção e sem dispor d e sinais q u e indiquem o tativamente diferente conforme o que é prescrito pela constelação dos es-
"caminho" ( 3 " , O a n i m a l e o h o m e m reagem então d e u r n a maneira tímulos e pela elaboração que ela enseja para além das terminações sen-
adaptada ao espaço, mesmo n a ausência d e estímulos atuais o u d e estí- soriais descontinuas. N ã o poderia esta elaboração s e r concebida d e t a l
mulos recentes q u e sejam adequados. "Esse espaço é ligado com o c o r - maneira q u e o esquema do reflexo permanecesse válido d e direito? Bas-
po p r ó p r i o d o a n i m a l como u m a parte d e sua carne. Quando o animal taria s u p o r q u e a atividade central intervém fechando certos circuitos
se move nesse espaço a o qual ele é adaptado, u m a melodia d e caracte- e dirigindo a excitação p a r a o u t r o s circuitos estabelecidos d e antemão
res espaciais se desenrola de u m a maneira continua e a t u a nos d i l e m a - (inibição, controle). M a s a concepção clássica s ó s e mantém s e a r e -

(I) I d . . I b i d .
(1) C i t a d o p o r B u y i t e n d l j k , J I A & p 9 1 . (2) B e w e g u n w i e n t w u r t .
(2) I d . , UI1LI.. p 9 1 . 131 S c h i l d e r, " D a s K o t t e s c h t m o s . p . 6 5 .
Buylendijk, " Ve . r u c h e (11,er d i e Steuerung d e r Beweg-ungen".
ar/
56
gulação é localizada e m certos dispositivos comparáveis a arcos reflexos. Mas p o r i s t o entende apenas q u e o s c i r c u i t o s reflexos s i m p l e s s ã o ,
Ora, ela não parece exclusivamente ligada á atividade cerebral ( h á fatos de f a t o , complicados e mascarados p e l a intervenção d a s instâncias s u -
de "liberação do automatismo" mesmo n a ausência de toda lesão das vias periores, pela integração; é sempre p o r u m a combinação de ligações r e -
cérebro-espinhais, — casos d e inibição t o t a l e m q u e a atividade cere- flexas q u e ele pensa d a r conta d o comportamento; t r a t a - s e apenas d e
bral n ã o está diretamente interessada), n e m p o r o u t r o l a d o explicável multiplica-Ias; é c o m u m a soma de abstrações q u e ele q u e r construir o
em cada lugar p o r dispositivos d e associação o u d e disjunção (inibição concreto. D o esquema tradicional à atividade nervosa efetiva, a diferen-
reciproca, indução sucessiva). Conforme ao caso, cada parte d o sistema ça para ele não é senão a d o simples ao complexo n 1 To d a a obra d o
nervoso pode p o r sua vez parecer Inibidora e inibida. Poder-se-la dizer Sherrington mostra que a ordem — a adaptação d a resposta ao estimulo
da inibição o q u e f o i d i t o d a coordenação: q u e ela t e m seu centro p o r e a adaptação d a s partes d a resposta entre si, — n ã o pode s e r eimli-
toda parte e e m parte alguma k l ) . E m u l t i m a análise, inibição e c o n - cada p e l a autonomia d e trajetos nervosos preestabelecidos. O r a , a s I n i -
trole não explicam o funcionamento nervoso. E l e s próprios supõem u m bições e o s dispositivos d e controle q u e se superpõem aos arcos r e f l e -
processo que regula s u a distribuição. A s próprias instâncias superiores xos simples são, eles próprios, concebidos sob o t i p o d o a r c o reflexo.
às quais o s f a t o s o b r i g a m a subordinar o reflexo t ê m necessidade d e Esses novos circuitos, vimo-lo, n ã o são mais autónomos q u e o s p r i m e i -
serem explicadas, pelas mesmas razões que a s fizeram s e r introduzidas. ros e admitirão p o r s u a vez t o d a espécie d e interferências. O p r ó p r i o
Seria necessário renunciar a conceber a atividade nervosa, naquilo q u e controle deverá pois s e r submetido a u m a regulação superior, e n ã o é
ela t e m d e mais essencial, não somente como sujeita a certos trajetos ainda nesse grau q u e se encontrará o reflexo p u r o . M a s o mesmo r a -
determinados, mas também como u m a escolha entre vários trajetos p r e - ciocínio deverá s e r recomeçado indefinidamente, e a solução s e r á sem-
estabelecidos. Somos reconduzidos a u m a inervação de conjunto, ela p r ó - pre diferida, j a m a i s fornecida até o momento e m que se t e r á i n t r o d u -
pria é capaz de repartir a excitação e constituir inteiramente os trajetos zido n o funcionamento nervoso u m princípio que constitui a ordem e m
reflexos. A m e t á f o r a d o p o s t o d e c o n t r o l e • n ã o é a p l i c á v e l , lugar d e s o f ré-la. É paradoxal conservar teoricamente a noção d e a r c o
visto q u e n ã o s e e n c o n t r a o n d e s i t u á - l o , p o i s s e r i a u m p o s t o q u e reflexo sem poder aplicá-la e m parte alguma. Como e m todas a s ques-
recebe suas ordens d o s p r ó p r i o s comboios a o s quais é encarregado de tões particulares q u e mencionamos, e m s u a concepção geral d o sistema
dirigir e que, segundo a s indicações dos comboios, improvisa as v i a s e nervoso Sherrington p r o c u r a salvar o s princípios d a fisiologia clássica.
os controles. O s estímulos n ã o v ê m sobre a s superfícies sensoriais p u - Suas categorias n ã o são feitas p a r a o s fenômenos q u e ele p r ó p r i o p ô s
xar, c o n f o r m e à comparação d e Descartes, o s f i o s q u e comandam o s em evidência.
músculos interessados n a resposta; n ã o h á " f i o s " e a relação estímulo-
resposta, mesmo quando é estável, como o reflexo d e flexão p l a n t a r n o
Consideremos a i n d a urna v e z o reflexo d e fixação o c u l a r q u e j á
normal, é mediatizada p o r interações complexas n o i n t e r i o r d o sistema
110s serviu para definir à concepção clássica do funcionamento nervoso 421.
nervoso. A s s i m também, o s diferentes movimentos q u e compõem u m a
Se s e admite q u e o s primeiros movimentos d e fixação s ã o imperfeitos
mação n ã o estão ligados j u n t o s p o r u m a conexão material, a n t e r i o r a
e que devem ser aperfeiçoados a seguir, — seja pela aprendizagem, seja
esta maças,. Mas se tudo depende de tudo no organismo, de onde vem, sendo
pela maturação dos aparelhos nervosos, n ã o se lhes contesta geralmente
dado t a l estímulo, a relativa estabilidade de suas respostas, de onde vem
o caráter reflexo, u m a v e z q u e puderam s e r observados n o s primeiros
que h a j a mações típicas, q u e h a j a mesmo "reações", e n ã o COIVAILSõeS
dias d a vida. D i z e r que esses movimentos são reflexos, é dizer, corno O
Ineficazes? Se a ordem n ã o pode s e r fundada sobre estruturas anatómi-
vimos, q u e o s pontos d a r e t i n a tocados pelos r a i o s luminosos devem
cas prestabelecidas, d e onde v e m a coerência d e nossas reações e s u a
estar e m conexão centrai c o m o s nervos motores capazes, fazendo osci-
adaptação ao estimulo? lar o o l h o , d e t r a z e r a impressão luminosa sobre a mácula t , I L M a s
esse sistema d e conexões q u e religaria cada f i b r a d o n e r v o ó t i c o aos
Esse problema f o i colocado p o r Sherrington a propósito dos f a t o s dispositivos motores não é ainda suficiente. Suponhamos, com efeito, que
de irradiação. E l e v i u b e m que, nesse caso, u m a ordem biológica, — a o olho de u m sujeito fixado sobre A ' se desloque e m direção a A, e que
dos movimentos d o andar, — substitui a ordem mecânica das conexões
anatómicas_ E l e a d m i t e então q u e O reflexo clássico é u m a abstração.

Weltexacker. "Rerlexgeselze". D . 7 5 e Colibteln. " D e r Atribui] cies Ortonismus", p .


(2) C t . e u p r a . p p . 1 . s q q .
(1) G o l t h l e i n , " D e r Auttion d e ' onicznisnius", p . 0 1 . (3) a . exemplo Billtler. ' O t e velitige Enhuickelung eds Rtndes% t a e d . , 1924.
( . ) N o o r i g i n a l : "poste dialgulllage'. pp. 1 9 3 l i a .

58 59
I r

em seguida, Sem n e n h u m movimento d a cabeça, se desloque e m direção baraça e compromete a s concepções anatómicas, é que elas n ã o podem
a B . O ponto B se reflete sobre a retina n o mesmo lugar onde o ponto facilmente Introduzir uma regulação d o reflexo, seja peia situação ã qual
A se refletia antes, pois u m e o u t r o servem altemadamente de ponto d e ele responde, s e j a p o r seus próprios efeitos. " A a t i v i d a d e instintiva, e
fixação a o o l h o . E . quando o o l h o d o s u j e i t o está f i x a d o s o b r e B , o mesmo a maior parte da atividade reflexa aparece como altamente adap-
ponto B I se reflete n o mesmo lugar onde s e refletia A ' quando o o l h o tada, o animal executa a s ações q u e s ã o Úteis p a r a ele e m seu meio,
fixava A . A s s i m o mesmo lugar d a retina é excitado alternadatnente p e - mas, do p o n t o d e vista desta teoria, a adaptação não é u m a proprieda-
los dois pontos luminosos A ' e R ' . To d a v i a as contrações musculares a de desses p r ó p r i o s atos, n ã o é senão u m a impressão q u e eles chio a o
sarem produzidas para passar respectivamente de A a A ' e de B a B ' são espectador. A s ações n ã o são determinadas, e m nenhum grau, pela n a -
muito diferentes. S e queremos f a l a r a linguagem das conexões preesta- tureza intrínseca d a situação, m a s Inteiramente pelas conexões preexis-
belecidas, é preciso então supor que cada f i b r a d o tentes. A situação só intervém como u m agente que g i r a a chave, pres-
nervo ó t i c o está religada não somente a u m d i s - siona o botão, põe em marcha a máquina. M a s corno urna máquina v e r -
A'. 1 3 1 p o s i t i v o motor, mas ainda a todos aqueles que ela dadeira, o animal só pode a g i r segundo o sistema das conexões preesta-
pode t e r para colocar e m ação segundo a posição belecidas, seja o u n ã o a ação adequada a s circunstancias. A relação e n -
do o l h o n a ó r b i t a O , . V ê - s e a q u e dispositivos tre situação e resposta é, p o r conseqüência, puramente contingente o in.
complicados conduz a hipótese das estruturas arta- A fisiologia clássica d o reflexo exige que a função seja somente u m p r o -
& A t a t n i c a s . M n d a n ã o estamos seguros d e q u e e l a duto o u u m r e s u l t a d o d a s e s t r u t u r a s existentes, e m r e s u m o n e g a
não se negue a s i mesma- Porque, estando a d m i - sua realidade p r ó p r i a e objetiva: n ã o é m a i s que u m a maneira humana
tido que cada ponto d a retina possui todas as conexões requeridas, resta de designar o s efeitos d o mecanismo. M a s pode a pesquisa científica s e
a saber o que. e m cada caso particular, orienta a excitação e m direção submeter a essa interdição? "Seria uma tarefa sem esperança para o bio-
ao caminho conveniente. A impressão luminosa local evidentemente não logista explicar u m a estrutura c u j a maravilhosa complexidade assegura-
basta p a r a isso, pois e l a é a mesma, n a figura acima, quando se t r a t a ria u m a função adaptada, sem que essa função possa servir p a r a g u i a r
de f i x a r B I ou quando se t r a t a de f i x a r A ' . É preciso então a d m i t i r que o desenvolvimento ( 2 . " Para que os movimentos vitais tenham a o mes-
o reflexo de fixação é determinado concorrentemente pelas impressões r e - mo tempo a justeza e a flexibilidade que são notáveis neles, o u que pelo
tinianas locais e pelas excitações proprioceptivas que exprimem n o centro menos possam se corrigir pela experiência, é preciso que a inervação m o -
tora seja regulada a cada momento e e m cada caso levadas e m conta
a posição d o olho n o inicio. C o m o conceber a intervenção dessas exci-
tações reguladoras? Seria necessário u m mecanismo d e controle e x t r e - as particularidades d a situação. " A inervação dos músculos que é reque-
mamente complexo. N ã o s e r i a m a i s simples a d m i t i r q u e o movimento rida p a r a escrever, ainda q u e seja apenas u m fragmento d e letra, a d -
mite u m a margem considerável d e variações possíveis, conforme escre-
de fixação resulta, não d a s o m a d e duas séries d e excitações indepen-
dentes, mas d e u m processo t o t a l n o q u a l a parte das excitações r e t i - vamos e m grandes o u pequenos caracteres, rápida o u lentamente, pesa-
Manas e a d a s estimulações proptioceptivas s ã o indiscernivels? O q u e da o u levemente, c o m t a l o u q u a l posição d o braço, à direita o u à es-
recomendava a o fisiologista a hipótese d e conexões anatómicas preesta- querda, mais a l t o o u m a i s b a i x o sobre o papel ( 3 ) . " O r a , todas essas
belecidas entre certos pontos d a superfície sensorial e certos aparelhos regulações s e e x e c u t a m Instantaneamente, O n d e p o d e m e n c o n t r a r
motores, n ã o podia s e r senão a correspondência cega algumas vezes o b - sua origem, senão nos processos aferentes que preparam a reação m o t o -
servada entre o l u g a r d a excitação e o efeito m o t o r. O r a , reencontra- ra? Pôde-se mostrar que u m a criança de berço, que segura e m sua mão
mos a q u i u m caso onde, o l u g a r d a excitação permanecendo constante um lápis, recoloca-o seis vezes e m seguida n a boca, mesmo se cada vez
e constante também o efeito funcional, o s fenômenos intermediários o u , ele é afastado e m uma direção diferente. A s s i m a cada momento a p o -
se se pode dizer, os instrumentos d o reflexo são todavia diferentes. N a - sição d o braço, expressa n o c e n t r o p e l a proprioceptividade, basta p a r a
da obrigava então a conservar aqui a hipótese das conexões preestabele- regular sem aprendizagem a direção e a amplitude d a reação motora.
cidas, nem a t r a t a r as impressões retinianas e a s estimulações p r o p r i o - É necessário então que a p a r t e receptora e a parte motora d o sistema
ceptivas como componentes realmente distintos d a excitação t o t a l . nervoso cessem d e s e r concebidas c o m o aparelhos independentes c u j a

Mas como, este então, deve-se representar a relação e n t r e a r e a -


ção motora e a constelação dos estímulos que a condicionam? O que em-
( I ) K o r e t o . "Mente! rknelopmentw, I n Pegehologin ort 1925", eer« C . Sturchtiont p . 1 3 0 .
(2) I d . , "Growth o / m e M m d " . p .
(3 V o n K r i e s . " U b e r ( I r e Veterletten C r u n d l a r n Rewurateineertheinerwn.
- gorrho, " C r e w t h o f t h e elind", p . gen. 1 - t i n i & ) 0 0 1 . citado p o r K o l f k a . G r o w t h o f S u n d ' . p . 2 7 2 .

60 61
estrutura seria estabeiedda a n t e s q u e e n t r e m e m relação " A d q u i - funcionais c o m partes móveis, das quais certos movimentos, de uma f o r -
rimos o hábito de considerar o arco reflexo como composto de u m ramo ma definida, t e r i a m p o r efeito relaxar a s tensões q u e existem ainda n o
centrípeto e u m r a m o centrífugo, estes sendo mantidos p o r partes i n d e - campo, esses movimentos s e produzirão imediatamente, desencadeados
pendentes, enquanto q u e o t r a ç o característico d o dispositivo e r a a c o - pela energia disportivel n a s forças d o campo. E l a s só "esperavam" p o r
nexão que existe entre eles 411, O s fatos sugerem, ao contrário, que sen- assim dizer uma ocasião de fazer operar a energia que contém, por exem-
sório e m o t o r funcionam corno as partes d e u m 56 órgão. Sabe-se, p o r plo, agindo sobre as partes móveis n o sentido d e u m melhor equilíbrio.
exemplo, q u e é m u l t o d i f í c i l f i x a r longamente u m objeto e m urna p a i - Um melhor equilíbrio, nos fenômenos físicos, se encontra sempre n a d i -
sagem iluminada pela l u z d o d i a e que, ao contrário, u m ponto l u m i n o - reção das forças que tendem a produz:-lo mas, n o caso particular do sis-
so n a n o i t e exerce sobre o o l h o corno que u m poder d e atração d i f í c i l tema nervoso, elas n ã o podem obt&-lo diretamente n o i n t e r i o r d o c a m -
de transpor; sabe-se ainda que o s movimentos reflexos d e nossos olhos po. E l a s a í chegarão portanto, se é possível, p o r u m desvio: agindo so-
se fazem c o m freqüência segundo o s contornos dos objetos percebidos, bre as partes móveis, q u e são a q u i o s músculos d o s olhos, n a direção
e enfim q u e o olho se coloca sempre d e t a l maneira que recebe d o o b - de distensão de suas energias. N ã o há nada de sobrenatural e m u m p r o -
jeto visado estimulaçóes t ã o r i c a s quanto possível ( 2 , T u d o s e passa cesso físico ordenado desse gênero, nenhurn processo d i r e t o o u i n d i r e -
como se uma l e i de mzucimum regulasse o s movimentos de nossos olhos, to podendo j a m a i s p r o d u z i r mudanças q u e n ã o sejam orientadas p a r a
como s e a cada m o m e n t o esses movimentos fossem o q u e devem s e r um equilíbrio mais estável d o sistema inteiro. S e aplicamos esse esque-
para realizar certas situações d e equilíbrio privilegiadas p a r a a s quais ma à parte visual d o cérebro e a suas conexões nervosas c o m os m ú s -
tendem a s forças q u e estão e m ação n o s e t o r sensível. S e durante a culos d o s globos oculares, obtemos u m a n o v a explicação d o s movimen-
tos de fixação.._ c 1)".
noite u m ponto luminoso aparece e m zona marginal, é como se o equi-
librio d o sistema sensório-motor fosse rompido; resulta disso u m esta-
Um l i q u i d o que tende a u m a distribuição equilibrada pode utilizar,
do d e tensão resolvido pelo movimento d e fixação q u e t r a z o ponto l u -
para introduzir-se e m u m vaso q u e corfltillita c o m aquele o n d e se e n -
minoso a o centro funcional d a retina; o s dispositivos motores aparecem
contra, caminhos desviados s e o s m a i s diretos estão obstruídos; — d a
assim c o m o o s meios d e restabelecer u m equilíbrio cujos condições são
mesma maneira, o reflexo poderia produzir-se por vias nervosas de subs-
dadas n o s e t o r sensorial d o sistema nervoso, o s movimentos c o m o a
tituição se, p o r u m a razão qualquer, a s v i a s habituais estão f o r a d e
expressão e x t e r i o r desta reorganização d o campo d a s excitações c o m - uso, M a s esta comparação não é exata, porque o líquido que busca Seu
parável a o amontoamento dos objebos e m u m recipiente s o b a ação d o
equilíbrio e m vasos comunicantes segue v i a s estabelecidos d e antemão.
peso. S e s e apresenta a o estereoscópio u m a l i n h a vertical a cada u m
Quando m u i t o se poderia supor q u e a obstrução das vias m a i s diretas,
dos olhos, d e t a l maneira que, p a r a u m g r a u n o r m a l d e convergência,
fazendo subir o liquido acima do nível comum, desencadeia, p o r u m d i s -
as duas linhas aparecem como paralelas e m u i t o próximas u m a d a o u - positivo automático, a abertura d a s v i a s d e substituição prontas a e n -
tra, e m breve o sujeito a s v ê fundirem-se e m u m a só. É q u e nossos trar e m função. E e m u m o u t r o sentido q u e o reflexo s e r i a relativa-
globos oculares adotaram à nossa revelia u m g r a u d e convergência t a l mente independente dos substratos n o s quais ele comumente se realiza.
que a imagem retiníana das duas retas se f o r m a sobre meridianos c o r -
Pois, como u m a gota d'água submetida a forças exteriores realiza, p e l a
respondentes. T u d o se passa como se o s processos fisiológicos q u e c o r -
ação reciproca dessas forças internas, u m a distribuição dos elementos e
respondem a cada u m a das impressões retinianas exercessem u m sobre uma f o r m a d e conjunto novas q u e reconduzem o equilibrio, a atividade
o outro, no centro d a visão, uma espécie de atração, que se traduziria, na
reflexa seria capaz de improvisar substituições aproximativas que, sem j a -
região motora, p o r movimentos orientados n o sentido d e suas forças. mais serem o equivalente exato d a nação tornada impossível, manteriam
"Se s e examina esta situação d o p o n t o d e v i s t a d a tísica, parece q u e no organismo a função ameaçada. U m resultado funcional aproximadamen-
Ura processo desse gênero pode realmente i n t e r v i r ( — ) e m Urna d i s t r i - te constante seria então o b t i d o p o r " m e i o s " variáveis e s e r i a acertado
buição equilibrada de processos, o campo permanece cheio de forças que dizer q u e é a função que permite compreender o organismo. A s e s t r u -
se anulam momentaneamente, mas representam uma provisão de energia.
turas anatómicas deveriam p o r t a n t o s e r consideradas, quando são i n a -
Assim n o caso d a visão, parece a i haver forças q u e tendem a u n i r a s tas, como as condições topográficas d o desenvolvimento funcional e m sua
duas paralelas. E m física, se u m campo desse género está e m relações
origem, modificáveis p e l o p r ó p r i o funcionamento e portanto comparáveis

(1) K o f f k a . -1(11»olutil o ) ' t h e M i n d ' s p . 7 1 . W. R o cp hpl.e r. A4n9 2t.r i p e d a r Gestalt P s y e b o t o g y, I n P s y c h o l o g i e r o f 1025, e d . b y


itureblson, 101
(2) I d . i b i d . , p . 8 1 .

62 63
ao eletrodo q u e comanda o fenômeno d e eletrólise m a s é alterado p o r sejam simultãneos, e provoquem o s movimentos d e orientação capazes
ele d e v o l t a , — q u a n d o s ã o a d q u i r i d o s c o r n o o resultado d o f u n - de fornecer esse resultado 411
cionamento mais habitual, — e a anatomia como u m corte sobre o d e -
vir d a fisiologia. E n f i m , s e estava estabelecido q u e o s processos n e r - Sabe-se h á m u i t o tempo que, após a extirpação d e u m a o u várias
falanges, o besouro é capaz d e prosseguir imediatamente s u a marcha.
vosos e m cada situação v ã o sempre restabelecer certos estados d e equi-
líbrio privilegiados, esses últimos representariam o s valores objetivos d o Mas os movimentos d o coto que subsiste e os d o conjunto d o corpo não
organismo e ter-se-Ia o d i r e i t o de classificar o s comportamentos e m r e - são u m a simples perseveração d o s d a marcha n o r m a l ; representam u m
lação a esses valores e m ordenados e desordenados, significativos o u i n - novo m o d o d e locomoção, u m a solução i n é d i t a d o p r o b l e m a colocado
significantes. Essas denominações, longe d e serem extrínsecos e a n t r o - pela extirpação. E s t a reorganização d o fUTIC1011aMent0 d e u m ó r g ã o
pornorlicas, pertenceriam ao ser vivo como t a l . (ilmstellung) n ã o se produz, além disso, senão s e é tornada necessária
pela natureza d o solo: sobre u m terreno desigual onde o membro, mes-
Ora, essas conseqüências se encontram verificadas, n o que concer- mo encurtado, pode encontrar pontos d e fixação, o processo normal d e
ne a o reflexo d e fixação, pelas experiências d e transplantação j á a n t i - marcha é conservado; é abandonado quando o animal chega a u m solo
gas de Marina ( I ) . Se. e m u m macaco, se põe e m conexão o s músculos liso. A reorganização d o funcionamento n ã o é e n t ã o desencadeada a u -
internos dos globos oculares c o m os filetes nervosos que comandam o r - tomaticamente pela ablação d e u m a o u m a i s falanges, como aconteceria
dinariamente os músculos externos, e, p o r outro lado, esses últimos c o m se se tratasse d e u m dispositivo d e socorro preestabelecido; e l a n ã o s e
os filetes nervosos que comandam habitualmente Os primeiros, o animal, realiza senão s o b a pressão d e condições externas e somos levados a
colocado e m u m quarto escuro, v o l t a corretamente os olhos e m direção pensar que ela é improvisada, c o m o h á pouco o reflexo d e fixação, p e -
a u m ponto luminoso que aparece p o r exemplo à direita. Qualquer que las forças que estão operando n o setor aferente do sistema nervoso. A s
seja o instrumento dessa adaptação, é claro q u e e l a n ã o s e compreen- experiências de Trendelenburg o confirmam.
deria se os dispositivos anatômicos fossem decisivos, se u m processo r e -
Um a n i m a l incapaz, após a extração parcial d a região
gulador do t i p o descrito acima não viesse assegurar a adaptação d o f u n - cerebral apropriada, d e pegar seu alimento c o m seu membro
cionamento à permutação das inserções neuro-musculares.
direito, reencontra o uso do membro após amputação do mem-
bro esquerdo q u e se t i n h a substituRio ao primeiro. S e nesse
A hipótese d e Koehler n ã o s e aplica somente a o reflexo d e f i x a - momento se completa a ablação dos centros que comandam o
ção. Poder-se-ia aplicá-la também pesquisando c o m o a m ã o se desloca
membro direito, o animal permanece capaz de utilizá-lo quan-
para i r apreender u m objeto v i s t o o u para levar à boca u m objeto t o -
do a situação o exige de u m a maneira imperiosa, p o r exem-
cado Nesses casos, como n o precedente, a impressão visual ou tátil, com-
plo q u a n d o o a l i m e n t o s e encontra f o r a d a gaiola. Quase
binada c o m a s representações centrais d a posição d o s membros e d o
não é possivel fazer corresponder a cada u m a das fases des-
corpo, deve ela própria regular a reação motora, pois, como se obsevou 125,
sa experiência u m novo dispositivo d e socorro c u j a situação
a criança, se quer apreender u m o b j e t o , n ã o o l h a s u a m ã o , m a s G
do momento seria o estimulo adequado; a hipótese d e urna
objeto, se quer levar à boca u m objeto que segura em uma mão, não tem
distribuição c a d a v e z i n é d i t a d a s inervações, regulada pela
jamais necessidade d e referenciar c o m sua outra m ã o a posição d a b o - própria situação, concorda m u i t o m a i s c o m o f e i t i o d o f e -
ca. E ainda p o r u m a explicação d o mesmo género q u e s e d a r i a conta nômeno.
dos movimentos reflexos d a cabeça e m direção a urna fonte sonora. S a -
be-se (Katiz) q u e apenas i n t e r v é m nesta mação, quando e l a é reflexa, A reorganização d o funcionamento, aliás, c o m o o recurso a ações
o intervalo de tempo que separa a chegada d o som à orelha direita e de substituição tErsatzlelstungen n a s quais u m membro o u u m órgão
orelha esquerda, sem que p o r outro lado o sujeito tenha consciência des- toma a seu cargo a função de u m outro, só se produz de u m a maneira
se intervalo corno t a l . É d e s e presumir então que ainda aqui os p r o - característica s e u m interesse v i t a l e s t á e m j o g o e n ã o s e t r a t a d e
cessos nervosos desencadeados pelas duas estimulações sonoras t e n d a m
um a t o " s o b comando". Va l e d i z e r q u e e l a representa o meio d e u m a
para u m estado d e equilíbrio onde o s d o i s grupos sucessivos d e ondas volta a o equilíbrio p a r a o conjunto d o sistema nervoso e n ã o o d e -
sencadeamento d e u m dispositivo l o c a l automático M a s reorganização

111 M a r n o . " D i e Ptektionent d e , Palsepotephainn s i t i a sLellt f i t e , ? t r a r e i . GentrGrebt.,


1915, 34, p p . a s s - s t s . — a . K a f k a , G e o w t h o f t h e M i a r ! " . p p . 271 s q q .
k 2/ P . G u i l l a u m e . " L ' i m t h a t i o n t h e : t e l l i o n e t • P, 123• (I) K o f f k a , "Growth o f t u . Miriti". p . 5 5 .

64 65
funcional e ações d e substituição permanecem fenômenos nervosos e l e - Mas a visão entre os hemianópt!coa ( f l fornece o m e l h o r exemplo
mentares que não atingem a flexibilidade d a s reações ditas conscientes: de urna atividade nervosa orientada p a r a o equilíbrio funcional. S e se
elas não aparecem n o cão, n o caranguejo O u n a estrela d o m a r, e n - determina, pela medida do perímetro de visão, o s setores retinianos que
permanecem capazes d e provocar n o hemianópsico sensações luminosas,
quanto o membro, e m l u g a r d e s e r amputado, é somente imobilizado.
Nesse Caso, a atividade s e emprega inteiramente e m esforços d e l i b e - constata-se q u e ele não dispõe mais d o que d e duas meias retinas e se
ração q u e pouco a pouco degeneram e m comportamento desordenado. esperaria e m conseqüência que seu campo visual correspondesse à meta-
de, d i r e i t a o u esquerda conforme a o caso, d e u m campo visual normal,
No homem, ao contrário, o s -desvios" Citeis se produzirão sem delibera-
com u m a zona d e visão, periférica clara. N a realidade, t a l n ã o ocorre;
ção se o membro é absolutamente imobilizado. Esses fatos são p o r t a n -
o paciente t e m a sensação d e v e r m a l , m a s n ã o d e estar reduzido a
to essenciais p a r a n ó s p o i s colocam e m evidência, e n t r e o mecanismo
melo c a m p o visual. É q u e o organismo s e a d a p t o u à situação criada
cego e o comportamento inteligente, u r n a atividade orientada d a q u a l
o meeanicismo e o intelectualismo clássicos não dão conta 0 ) . pela doença, reorganizando o funcionamento d o o l h o . O s globos ocula-
res oscilaram d e maneira a apresentar à s excitações luminosas, quer elas
venham d a d i r e i t a o u d a esquerda, u m a p a r t e i n t a c t a d a r e t i n a : e m
outros termos, o s e t o r retiniano preservado, e m l u g a r d e permanecer
afetado, c o m o antes d a doença, pela recepção d o s r a l o s luminosos v i n -
dos de u m a metade d o campo, instalou-se n a órbita e m posição central,
( i i S o b r e t o d o s esses punhos, r i • G o l d s t e i n , D e r A u f b a u d a O r g a n i s m o s . p i s . 1113
sqq. J á t i v e m o s o c a s i ã o d e a s s i n a l a r o f e n ó m e n o d e t r a n s f e r ê n c i a d e h a b i l i t e i o Mas a reorganização do funcionamento muscular, que é comparável à que en-
empolado d a m ã o d i r e i t a n ã o t e m necessidade. p r o p r i a m e n t e f a l a n d o , d e a p r e n d e r contramos n o reflexo d e fixação, n ã o s e r i a d e efeito a l g u m s e n ã o s e
a escrever c o m a m ã o e s q u e r d a ; n o s s a e s c r i t a p o s s u i c a r a c t e r ' 'dicas constantes, q u e r acompanhasse d e urna redistribuição das funções nos elementos r e t i n i a -
escrevamos s o b r e u m a f o l h a d r p a p r l unIcantente c o r o o s m i r a c u l a d o s d e d o s o l t
nos e nos elementos da calcarirm que parecem de f a t o corresponder pune-
no q u a d r o c o m o s m u s e u ' os d e t o d o o b r a ç o A p e r m a n ê n c i a n o e n c e r a l o d e e * . tualmente a estes.
trittunn. f u n c i o n a i s o u " f o r m a s " capazes d o s e e x p r i m i r e m diferentes C013111MOS m o -
tores sara estudada n u c a p i t u l o t i . Te r s e . a ocasião t a m b é m d a c o m p a r a r á s s u b s t i t u i -
ções reflexas o s m o v i m e n t o s p e l o s q u a i s u m u a c a r i te d o G e l b e G o l d s t e i n ( P s y c h a - Sabe-se que a s diferentes regiões d a r e t i n a estão longe
lagücht A n a r g s t n IfirnpcthoJOgiScher F a t i e , I . I , p p . 1 3 1 2 ; Z u r Psychologie d e s l i t u . de serem equivalentes, em um sujeito normal, quanto à acuida-
optischen r i u - c a i u - m i n a s u n d Erkennungsvorganges ) I m i t a v a o s c o n t o r n o s d o s M i j e - de visual, à percepção d a c o r e à percepção espacial, l i m a
los apresentados à s u a v i s t a , e q u e s u b s t i t u í a m n e l a o p o d e r e x t i n t o d e p e r c e b e r
conjuntos v i s u a i s , O p o n t o essencial é q u e o p a c i e n t e i g n o r a v a t a n t o o d e f i c i t v i -
vez q u e doravante certos elementos retinlanos, "periféricos"
sual q u a n t o a s u b s t i t u i ç ã o m o t o r a q u e o e n c a r a v a I d . . I b i d . . p p . 5.24 L E n t r e a s na visão normal, tornaram-se "centrais" e inversamente, é n e -
r unções n e r v o s a s d i t a s s u p e r i o r e s e a s f u n ç õ e s i m p r o p r i a m e n t e d i t a s I n f e r i o r e s , t o . cessário que se tenha produzido entre eles uma permuta siste-
das a s transições s ã o e n t ã o d a d a s A n o ç ã o d e " f o r m a ' 6 a ú n i c a q u e a t é a q u i mática d e funções. E m particular a antiga fovea, repelida à
permite e x p l i c a r a o m e s m o t e m p o o q ur J á e x i s t e d e i n t e n c i o n a l n a s ú l t i m a s . o
periferia, perdeu s e u privilégio d e visão c l a r a e f o i s u b s t i -
que permanece cego n a s p r i m e i r a s E l a d á c o n t a bembé:o d o p a r a l e l i s m o n o t a v e i q u e
existe r o l i r r t a i s r o m p o riamentos r e f l e x o s e o s comportamentos s u p e r i o r a . e m p a r - tuida p o r u m a flpseudofovea" situada n o centro d a zona d o -
ticular n a doença Te r e m o s ocasião d e descrever seguindo B u y t e n d i j k e Plessner ( D i e ravante excitável, A s medidas de Fuchs mostram que a acui-
physiologische E r k i &rung d a r V e r b a l lens. e i n e K r i t i k s i a d e r t h e o r t e P e e i ova. A c t a dade visual d a pseudolovea é e m 1/6, 1 / 4 , o u mesmo 1 / 2 à
Blaritrarenta, S e r i a A . v o l . I . P a i s 3 , 1935. p p , 151.171 ) u m a verdadeira "neurose e x •
peeimental" p r o d u z i d a p o r experiências r e p e t i d a s e m u m d o s c ã e s s o b r e o s q u a l ,
da fávea a n a t ó m i c a A s excitações luminosas q u e e l a recebe
PILVIot o p e r a v a . — c o m a s a t tudes d e negativismo, d e espetam, o u a l a b i 'idade d o são localizadas pelo paciente " e m frente". To d a s as cores en-
comportamento q u e a p a t o l o g i a h u m a n a conhece i m u n • O p r ó p r i o G o l d s t e i n f e z u m fim são percebidas pela nova tovea, mesmo se ela está situa-
paralelo t Der M i n t a m d e * lirganisoslis. p p 2 , 1 s q q ) • E n t r e o comportamento d o s a n i - da e m u m a região retiniana q u e , e m u m sujeito normal, é
ma i' q u e , a p õ s simpaticectomi a, f o g e m d o a r quente e d a s c o n t a t e s d e a r ( C a n n e n )
— e d o s f e r i d o s d o c é r e b r o q u e e v i t a m t o d a s a s situações q u e s e r i e m incapazes d e
cega p a r a o v e r d e e o v e r m e l h o .
dominar e restringem e m conseqüêntia s e u m e l o v i t a l ; a a t i t u d e d o a n i m a l q u e " s e
faz d e m o r t o " e o d o d o e n t e q u e esta s e m p r e ' o c u p a d o " . j a n t a i s d i s p o n í v e l p a r a a s
Se n o s apegamos à s concepções clássicas q u e r e l a c i o n a m a s
t a r e f a q u e o m e l o p o d e r i a i nopi mula ateste l h e p r o p o r . Ta l v e z t r i e s n i n s e p o d e r i a funções perceptivas d e c a ponto d a retina à sua estrutura anatómica,
buscar n a s " f o r m a s " d o comportamento a razão d a s analogias apontadas p o r f t Cal ilOIS
49-11 Stante R e l ateu se, reelterehr s o r 1 a n a t u r e e t I a s i g n l f i c e t l o i t d o m y t h e n , Mesures-
bri 1 9 3 7 ' entre certos d r a m a s d a v i c i a a n i m a l e certos n i l los h u m a n o s o s m a i s t e ,
neles. E s s e s comparações q u e , d e t o d o m o d o . c o l o c a m u m p r o b l e m a . n a d a I a m d e
(1) C f . c i l a , " E i n e P s e u d o l o r a b e i 11 mal anopi kern", Psychologisrite Farschung, 1'922.
antroponiort leo a p a r t i r d o m o m e n t o r o l q u e s e reconhece n o s fenómeno% nervosos d i t o s
I, p p • I57-186. O s resultados d r F u c h s s ã o r e s u m i d o s c interpretada» p o r Goldstein,
elementares u r n a o r l entaçao, u r n a e s t r u t u r a
"Der A u f b a u d e s O rganl smus". p . 3Z-38

66 67
e p o r exemplo à proporção d e cones e de bastonetes que a i se encon- "A função que cada parte d a retina preenche n o processo de c o n -
tram, a reorganização funcional n a hemianopsia n ã o e compreensível. junto v a r i a segundo a t a r e f a d i a n t e d a q u a l o organismo s e encontra
Ela s ó o será se as propriedades d e cada ponto roa/nano lhe são assi- colocado, segundo o gênero d e solução que cada situação particular t o r -
naladas, n ã o p o r dispositivos locais p:eestabelecidos, m a s p o r u m p r o - na necessária kl''". N ã o é porque u m objeto se projeta sobre a mácula
cesso de distribuição flexível comparável à repartição das forças e m uma que e l e é percebido c o m o situado " e m f r e n t e " d e n ó s o u q u e é v i s t o
gota d e óleo e m suspensão n a água. Ora, u m a série de experiências nitidamente; é preciso dizer, inversamente, que a mácula i a região d a
dá apoio a esta hipótese. retina onde se projetam com mais freqüência os abjetos percebidos como
Se u m sujeito f i x a u m ponto marcado a o lado de u m a frontais e e m visão nítida, e essas características p o r sua vez nos abje-
tela sobre a qual s e projetam letras, a distancia objetiva d o tos fenomenais provém d a situação ocupada pelos processos fisiológicos
ponto fixado à letra que aparece mais clara varia pouco. quer que lhes s ã o correspondentes n a constelação d o s processos perceptivos
o sujeito esteja colocado a u m metro o u a dois metros da t e - do momento, e das re:(WóeS d e equilíbrio q u e se estabelecem entre u n s
la, e e l a é aproximadamente igual à distância d a mais clara e outros segundo o esquema geral de Koehlea Freqüentemente essas rela-
das letras à periferia do campo. O ponto de mais clara visão ções t e m por efeito fazer aparecer e m visão nítida e em situação frontal
não corresponderia então a u m elemento r e t i n i m o fixado u m a o objeto cuja imagem se f o r m a no centro d a zona excitável t2). A esses
vez p o r todas, situar-se-ia a c a d a m o m e n t o n o c e n t r o d a caracteres fenomenais, conhecidos pela consciancia a i a devem correspon-
campo visual efetivamente percebido e este não coincidiria ab- der certas propriedades específicas d o s processos fisiológicos subjacen-
solutamente c o m o setor d o m u n d o que se projeta objetiva- tes. Compreende-se que os tecidos sejam modificados p o r eles, e d a í v i -
mente sobre a retina S e se faz variar a dimensão das letras ria que a função cria para s i órgãos apropriados que, sobre a meia-reti-
sobre a tela, constata-se que a distancia objetiva do ponto de na s ã do heminianápsico, se constitui n u m a pseudoftivea. É m u i t o cedo
fixação ao ponto de visão mais clara, e conseqüentemente a d i - para estender esta explicação à s estruturas anatómicas consideradas a t é
mensão objetiva do campo abarcado por nossa percepção, cresce aqui c o m o inatas (41- M a s n o q u e concerne à s localizações adquiridas,
com a dimensão das letras projetadas. A influência das caracte- é preciso a d m i t i r u m a regulação pela função. Enquanto o reconhecimen-
rísticas d o o b j e t o percebido sobre a dimensão objetiva d o to dos abjetos não é tornado impossível, p o r exemplo nos casos d e h e -
?Sambla:mia, n e n h u m a reorganização funcional s e p r o d u z a a E l a i n -
campo visual é m u i t o m a i s considerável que a das condições
estritamente anattanizas, como o prova u m a terceira série de tervém, e m compensação, e à revelia d o doente, desde que esta função
essencial é suprimida.
experiências. S e se f a z variar a o mesmo tempo e proporcio-
nalmente a dimensão d a s l e t r a s e a distancia d o sujeito à
Uma vez q u e nossas reações, as menos conscientes não são jamais
tela, se b e m que nessas condições o angulo sob O q u a l cada
isoláveis n o conjunto da atividade nervosa, que parecem guiadas e m c a -
letra é v i s t a permanece constante, nota-se q u e , p a r a letras
da caso pela própria situação interna e externa e capazes1 a t é u m certo
maiores, a d i S t t l e i a d o ponto d e fixação à letra que aparece
mais c l a r a é objetivamente m a i o r, m a i o r também, catita, a ponto, de se adaptar ao q u e ela t e m d e particular, não é m a i s possível
superfície d o c a m p o sisual percebido. Parece então q u e a
quantidade d e espaça abareada p o r nossa percepção e a l o -
calização d a zona d e visão c l a r a n o campo fenomenal expri- Goldstein, " D e r A u f b a n d e i O r g a n i s m u s " , p . 3 7 ,
mem, m u l t o mais q u e a projeção geométrica dos objetas s o - (2) A s experiénclas aelnea r e l a t a d o s m o s t r a m t o d a v i a q u e o p o n t o r e t i n i a n o d e m a i s
bre a retina, certos modos de organização d o campo sensorial clara v i s ã o n ã o e s t á necessariamente s , t o a d o n o c e n t r o d a z o n a e x c i t á v e l , • m s l h a
centro d a s estimulai:4es r e t i n i a : m a elizares, i s t o é , d a q u e l a s q u e s ã o representadas n o
em relação com os caracteres dos abjetos apresentados ao olho campo v i s i t e i f e n o m e n a l . S e r i a p r e m a t u r o , n o e s t a d o a t u a l d o s conhecimentos, f o r .
e dependentes de certas leis de equilíbrio próprias ao sistema l a r . c o m u n i r i g o r q u e e l e 1111.0a u t o r i z a e s s a s l e i s h i p o t é t i c a s . O e s s e n c i a l é q u e
nervoso b e m m a i s d o que das estruturas anatennicas, se possa a grosso m o d o p o r e m correlação a V i t r w u n i d a e a vista° c o n f u s a c o m a s
partes e n v o l v i d a s e envolventes d o s processos viau,ais e c o m p r e e n d e r a s reglães Cort-
trala d a z o n a excitável c o m o u n i " s e n t i d o d a s f i g u r a s " . K o f f k a . "PritreJpies o ( GeSidit
(I R e l a t a d a s p o r K a f k a . " P r i n t i p k s o t G r s t a t t P s o l e t o l o g r, 2 0 2 - 2 0 1 3 . E s s a s e x - Psyehology". p p . 2 0 2 s q q • ) s u a s regiões periféricas* c o m o u n i " s e n t i d o d o s f u n d o s " .
pertencias a n t e c i p a m o c a p í t u l o s e g u i n t e n a q u a l s e t r a l a r a m a i s especialmente d o la/ P o d e r i a m . » d a ntenolos b o n i t a d i z e r - e x p r e a , o s n o c o m p u r l s o l e n t o v e r b a l " . N i e l
comportamento p e r c e p t i v o . N r i s a s c i t a m o s a q u i p a r i • trar a unidade d o fenó- é noenssario a q u i i n t r o d u z i r a C0115CiênCia e t i rit•CLIION 1111)Crlas p u r a s e r m o s breves.
meno f i s i o l ó g i c o d e " v i s ã o ' n o q u a l n ã o s e p o d e i s t , : a r " r e f l e x o s ó c u l o - m o t o r e s " . A DD O p r ó p r i o K o f f k a n ã o f a z ( P r i n c i p i e s r i r Gestaltpaythology. p . 2 0 7 / a não, s e r
nora t i r a r p a r t i d o t i l , i n Ve n t i t l e .
orsanleacáo d o s I n f l u x o s m o t o r e s d e p e n d e d a o r g a z i r a ç ã o d a s excitações a f e r e n t e s
e esta p o r s u a v e z n ã o é explicável p a r l e p o r p a r t e ilt.4 Goldstein, " D e r A u f b a u d e , Organtsontle. p . 3 4 ,

68 69
nmnter entre as atividades "reflexas" e as atividades "instintivas" o u " i n -
sas reações é caracteristica: trata-se sempre d e u m movimento d e s i m -
teligentes" a distinção categórica q u e a s concepções clássicas estabele-
ples orientação e m relação a o excitante, quando m u l t o de u m movimen-
ciam teoricamente. N ã o se pode o p o r a u m automatismo cego urna a t i -
to d e aplicação e de apreensão_ O orgsmismo obtém assim u m a neutra-
vidade intencional c u j a s relações c o m e l e permaneceriam n ã o obstante
Unção d o s excitantes perigosos, e o reflexo constante seria então u m a
obscuras « Todavia a concepção clássica d o reflexo s e fundava sobre u m
certo número de observações que é preciso levar e m conta. É que todos reação "catastrófica " q u e aparece n a s "s:tuações l i m i t e " 1 P, s e quiser-
mos, comparável a s mações monótonas d e f u g a d a patologia humana.
os graus existem n a organização e na integração d o comportamento. A s - A fisiologia clássica, quando procurava obter no laboratório reflexos cons-
sim como u m a série d e condutores n o i n t e r i o r dos quais a s cargas elé-
tricas estão distribuídas segundo u m a l e i d e equilíbrio podem s e r r e l i - tantes, observava algumas vezes reações inversas p a r a u m mesmo esti-
mulo, o u a mesma resposta p a r a estímulos diferentes. A pseudocoas-
gados p o r f i o s m u i t o f i n o s s e m constituir u m Único sistema físico, a s -
sim também a atividade nervosa pode s e subdividir e m conjuntos p a r - tãncia d o reflexo q u e ela considerava c o m o n o r m a l e os caprichos que
parecem e m contradição c o m ela, são e m realidade d o i s aspectos d i f e -
ciais, articular-se e m processos distintos c u j a influência m ú t u a seja des-
rentes de u m a mesma anomalia d o funcionamento. É porque as reações
prezível. S e tudo dependesse verdadeiramente d e tudo, n o organismo c o -
mo n a natureza, não haveria leis n e m ciência. O s processos d e conjun- não estão solidamente "centradas" n a atividade de conjunto d o organis-
to de Koehler admitem u m a clivagem interior e a Orestaltheorie se man- mo q u e p o d e m apresentar e s t a m o n o t o n i a a despeito d a s m o d i f i c a -
ções d o estimulo, e s e inversamente u m a reação p o d e s e substituir a
tém eqüidistante de uma filosofia d a simples coordenação ( t i n d - Ve r b i n d -
outra subitamente, permanecendo o estímulo constante, é porque nem uma
ungen) e d e u m a concepção romântica d a unidade absoluta d a nature-
nem outra está inserida n o conjunto dinâmico que o exigiria c o m exclu-
za ( I ) . M a s e l a quer d i s t i n g u i r a análise verdadeira, que segue sia a r t i -
sividade k21. A patologia d o comportamento superior conhece assim esta
culações naturais dos fenõmenos, de uma análise que os t r a t a como c o i -
alternância d o s estereótipos e d o "aimportequisme" 13) q u e exprimem
sas, i s t o é , c o m o conjuntos dotados d e propriedades absolutas, e n ã o
igualmente a impotência d o s u j e i t o p a r a d o m i n a r u m a situação, Desde
respeita as estruturas parciais n a s quais eles estão inseridos. O reflexo
que o fisiologista q u S analisar modos d e adaptação menos m d i m e n t a -
tal corno é definido n a s concepções clássicas não representa a atividade
normal do animal, mas a Tenção que se obtém de u m organismo quando res — n ã o m a i s s i m p l e s a u t o - r e l a ç õ e s d o s ó r g ã o s f E i g e n r e l l e x e l
mas reações q u e resolvem u m problema colocado p e l o m e l o ( F r e m d r e -
o obrigamos a trabalhar, p o r assim d i z e r p o r peças destacadas, a r e s -
flexe), n ã o m a i s s i m p l e s processos compensadores, m a s v e r d a d e i -
ponder, n ã o a situações complexas, mas a estimules isolados Q u e r dizer
ras ações ( o "reflexo" d e coçar j á é u m a delas nesse sentido), — ela
que ele corresponde ao comportamento de u m organismo enfermo, as l e -
não reencontrou n e m a constância n e m p o r outro lado a labilidade e x -
sões tendo p o r p r i m e i r o efeito r o m p e r a continuidade funcional dos t e -
cidos nervosos, e a o "comportamento d e laboratório", onde o animal á trema das reações precedentes « o que s e observa, sobretudo se coloca-
colocado e m uma situação antropomorlica, pois, e m lugar de t r a t a r c o m mos O animal e m u m a situação natural, é u m a o u t r a espécie d e cons-
essas unidades naturais que são u m acontecimento, ele é limitado a cer- tancia e u m a o u t r a espécie d e variações. S e , n a caminhada, e u esbarro
o pé n u m a raiz, o s músculos flexores d o p é se encontram bruscamente
tas discriminações; u r n a presa deve r e a g i r a certos agentes físicos e
distendidos e o organismo reage acentuando esta distenção q u e v a i l i -
químicos q u e s ó t ê m existência separada n a ciência humana (2) • To d a
berar meu p é . S e a o contrário, descendo d e u m a montanha, e r r o m e u
reação orgânica supõe u m a elaboração d e conjunto d a s excitações q u e
confere a cada u m a delas propriedades que ela não t e r i a isoladamente. passo e m e u calcanhar t o m a rudemente contato c o m o solo, antes d a
planta d o pé, urna vez ainda o s músculos flexores são bruscamente d i s -
Não é surpreendente que! mesmo no laboratório, se encontrem tão poucos
reflexos puros: n ã o se pôde descobrir re-aeões conformes a definição clás- tendidos, m a s o organismo reage instantaneamente p o r urna contração.
Trata-se aqui d e respostas que " s e produzem n o quadro d e u m a situa-
sica, — isto é , constantes para u m excitante dado, — senão quando h á
ção de conjunto do excitante e podem ser diferentes quando este Intervém
relação imediata entre o receptor e o efectua-, quando s e t r a t a de u m a
em situações t o t a i s diferentes, I s t o é , q u a n d o t e m p a r a o organismo
reação d e auto-regulação d o s órgãos i t i g e n r e f l e g e d e Goldstein), o n d e
estes funcionam, se isso pode ser d i t o , p o r conta própria. A f o r m a des- significações diferentes" t u . A q u i a variação d a resposta e m presença
de estirímlos análogos está e m relação c o m o sentido d a s situações e m

I d . , 11,10ti n . 1 ' 2
( l ) W . K o r h t r r . f i n t e p h y s t s e h e n C e s t a t t e n É n R o b e etn i r a 4tatronnern ZCIStailLt
Goldstein, " D e r A u f b a n d e s O r g a n i n n u s " . p . 1 0 6 .
Ploget.
tine n a t u r p h i J o s o p h b e l l e t h a e r s n e h u n g " , r i . ' U a i s q q .
(2) G o l d s t e i n , " D e r A u r b a u d e s Organisnius". p . 1 0 6 s q q .
Goidstein. s b e r A u f b a n de.? O r t n n i n n u s " . 1 1 1 .

70
71
que eles aparecem, e inversamente poderá acontecer que situações, que pa- de u m a " f o r ç a vital", mas u m a estrutura indecomponível dos comporta-
recem diferentes se as analisamos e m termos de estímulos físico-quími- mentos. Ê pelas reações ordenadas q u e podemos compreender, a t i t u l o
de degradações, a s reações automáticas. A s s i m como a anatomia r e m e -
cos, provoquem nações análogas. O s reflexos d o laboratório assemelham-
se aos movimentos d e u m homem que caminha na n o i t e e cujos órgãos te à fisiologia, a fisiologia r e m e t e à biologia, " A s formas d e movimen-
to d o s reflexos s ã o marionetes d a v i d a ( . , . ) , imagens d o s m o v i m e n -
táteis, o s pés, a s pernas, funcionam, p o r assim dizer, isoladamente (1).
tos q u e u m organismo r e a l i z a q u a n d o s e m a n t é m d e p é , caminha,
Esse funcionamento p o r partes separadas representa n a ontogènese a n i -
luta, voa, t o m a e come, n o jogo e n a reprodução ilP
mal u m a aquisição tardia: s ó s e encontram reflexos propriamente ditos
na salamandra adulta, o embrião executa, movimentos d e conjunto, m o - Em resumo, a c r i t i c a d a t e o r i a d o reflexo e a análise d e alguns
vimentos d e n a d o globais e indiferenciados i21• t t a l v e z mesmo n o exemplos m o s t r a m q u e se deveria considerar o setor aferente d o siste-
homem q u e se encontrará m a i s facilmente reflexos puros, porque ele é ma nervoso como u m campo d e forças que exprimem concorrentemente
talvez o único a poder entregar isoladamente t a l parte d e seu corpo à s o estado intra-orgánico e a influência dos agentes externos; essas forças
Influências d o meio. Quando Se examina e m u m sujeito humano o r e - tendem a se equilibrar Segando certos modos d e distribuição privilegia-
flexo p u p i l a r poder-se-ia d i z e r q u e o s u j e i t o "empresta" s e u o l h o t i o dos e obtém das partes móveis d o corpo o s movimentos próprios a esse
experimentador; então e somente então se observa para u m estimulo d a - efeito. O s movimentos, à medida q u e se executam, provocam modifica-
do uma reação aproximadamente constante; esta regularidade n ã o se r e - ções n o estado d o sistema aferente que, p o r sua vez, provocam de novo
encontrará n o uso v i t a l da visão (3) A s s i m o reflexo, efeito de uma dis- movimentos. Esse processo dinâmico e c i r c u l a r asseguraria a regulação
sociação patológica, característico n ã o d a atividade fundamental d o s e r flexível de que temos necessidade para dar conta do comportamento efetivo.
vivo, IlleS d o dispositivo experimental d o q u a l n o s servimos p a r a esto-
dá-lo o u atividade supérflua, t a r d i a n a ontogénese c o m o n a filoge- Demos dele, de acordo com Koehler, vários modelos físicos e em par-
nese, n ã o pode s e r considerado c o m o o elemento constituinte d o c o m - ticular u m modelo elétrico. Censurou-se a Koehler essas "hipóteses fisioló-
portamento animal senão p o r uma ilusão antropomorlica I I I . N ã o é t a m - gicas aventureiras". É que elas não eram tomadas no sentido em que ele as
bém u m a abstração, e c o m relação a isso Sherrington e r r a : o reflexo entende. E l e não pensa que algumas analogias bastem para que se pos-
existe; representa u m c a s o m u i t o p a r t i c u l a r d e c o n d u t a , observável sa reduzir o funcionamento nervoso a u m processo d e distribuição elé-
em condições determinadas. M a s n ã o é o o b j e t o p r i n c i p a l d a f i s i o - trica. Submete a hipótese ao julgamento d a experiência e n ã o é a esse
logia, não é p o r ele q u e se pode compreender 0 resto. N ã o se poderia modelo particular que ele se apega. Acontece que existem "sistemas f í -
considerar c o m o u m a realidade biológica t o d a reação obtida n o labora- sicos" cujas propriedades são semelhantes à s q u e reconhecemos n o s i s -
tório interrogando u m organismo enfermo o u e m condições artificiais. tema nervoso: evoluem até u m estado de equilíbrio privilegiado e h á de-
O objeto d a biologia é apreender o que faz de u m ser vivo u m ser vivo, pendência circular e n t r e os fenômenos locais (21, S e ao setor visual d o
isto é , n ã o s e g u n d o o postulado realista c o m u m a o mecanicismo e sistema nervoso se reconhecesse, p o r exemplo, o caráter de u m sistema
ao vitaliSmo, a superposição d e reflexos elementares o u a intervenção físico em geral t:1), dar-se-ia conta do reflexo d e fixação t a l como o des-
crevemos. N ã o s e t r a t a d e arriscar u m a hipótese entre outras m a s d e

( I ) Goldstein, " D e r ~ P a u cks trila< I 1 i4 MUS" p . t i l .


( i i F . V . Ve I z s a c k c r, Refingesetze, p , 3 7
(2) C f , B u y t e n d " L e Cerveau e t ' I n t e l ligence". o u m a l d e Psycluslogie. 1931. p . 357.
(2) a f t q u a n t i d a d e d e e n e r g i a capaz. d e t r a b a l h o d e v e s e r, p a r a o sistema, t o m a d a
(3) T i v e m o s ° n a d á , ' d e a s s i n a l a r r e ( . s u p r a p a i " . 6 7 ) c l u v n u bensionõPs icn a m e -
como U n i t o r t o , t a n m í n i m o , o c o l m a r a t u n m á x i m o , e o s . v e t o r e s c u j o r u f i a
dida d o p e ri mel ro d e v i s ã o e a observarão d a f u n ç ã o v i s u a l e m s e u u s o n a t u r a l d ã o
lambast r e s u l t a d o s d i s c o r d a n t e s . t i n i a r e o r g a n t raçõ o f u n c i o n a l i n t e r v ê m n a segunda constitui o s i s t e m a n o d e v e m receber, e m c a d a p a r t e t o m a d a e m separado. v a l o r e s
e posições determinadas p o r s i m e s m a s : é necessário q u e p r o d u z a m , p o r s e u a g r u p a .
atitude q u e n ã o s e p r o d u z n o e x a m e d e l a b o r a t ó r i 13 pontue s e e x i g e d o orstaillsmo
mento I n t u i e r i a ti comeu le u m n o o u t r o , u n i c o n j u n t o d u r á v e l . O estado o u a c u a .
que e l e r e s p o n d a a e s t i m u l e s p l i n e t u a i s , A s l e i s d a r e i lexologia s e d e i x a m t r a n s f o r -
trelinento e m c a d a l u g a r depende e m p r i n c i p i o p o r e s t a rOrr09 d a s condições i l u d a s
mar p e l a s d a littleottalotegla - e , veremos, e m b r e v e , p e l a s d a psicologia
O m e s m o conflito e n t r e a s egigénclus a n á l ! s e real e a s d o s fettátnentet
Cru l o d o s o s o u t r o s s e t o r, " d o s i s t e m a S e a o t e n t r i t r i o pode_se F o r m u l a r separuda-
iodados s e reencontra di a p r o p ó s i t o d a n o ç ã o d e sertsaM0. Longe d e s e r u m conteúdo mente a s l e i s ( d o estado d e e q u I (brio) p a r a c a d a p a r l e t o m a d a c r u separado d e u n s
complexo ( l a i c o . e n t ã o e l a s n ã o c o n s t i turno u m s i s t e m a M i c o e c a d a u m a t o m a d a k
p r i m i t i v o e elementar d a consciência, a sensação, I s t o é. a •preensito d e u m a p u r a quer
parte p o r s u a c o n t a u m s i s t e m a desse g é n e r o ' . K o e l i l e r, " P i e Physiselten DestaDenn •
Ildude. é u m m o d o d e o r g o r d z e n a t a r d i o e excepcionai d o consciência h u m a n a . a s
p• XVI.
doutrinas q u e querem c o m p o r a consciência d o ciensações s ã o ilusões untroporénteices.
(3) I d . , M d . , p X I X
O q u e é p r i m e i r o cronologicamente n o comportamento c o m o n a percepção n ã o 4, lignia
uni mosaico d e parles eXterlorrs• b e n s e u n i d a d e precisa q u e t o r n a possivel a a n a l (4) W e r t b e i n t e r, " E x p e r i m e n t e i le S t u d i e n ü b e r d a s Sectsen v o n Ilessegung's 2 r D l e h r i f t
trir Psychologie. 1912.
6, c o r n o s e disse frequenlomente, o s Metall saio •

72 73
Introduzir u m a n o v a categoria, a categoria d e " f o r m a " que, tendo s u a comandos motores, sobre aquele que, n a v i d a d o animal f u n c i o n a e m
aplicação n o d o m i n i o inorgânico c o m o n o d o m í n i o orgânico, p e r m i t i r i a colaboração c o m o primeiro, não h á m a i s nada misterioso nessa "esco-
fazer aparecer n o sistema nervoso, s e m hipótese vitalista, a s "funções l a " é porque certas vias estão momentaneamente 41 sincronizadas que
transversais" de que havia falado Wertheimer ((4, p á g . 73) e c u j a exis- unicamente elas s e abrem à excitação. M a s o problema é apenas deslo-
tência é confirmada pela observação. Porque as "formas" e em particular cado. Tr a t a - s e agora d e saber c o m o a s sincronizações convenientes são
09_ sistemas 1 isleos s e definem como processos t o t a i s cujos propriedades asseguradas n o organismo. E l a s dependem, segundo Lapicque, de fatores
t i t ã ° são a soma das que possuiriam as partes isoladas t l , — mais precisa- periféricos e d e fatores centrais. A posição dos membros pode provocar,
mente como processos totais que podem ser indiscemiveis u m d o outro, com uma redistribuição das c r o n o t s , a inversão d o reflexo. U m primei-
enquanto que suas "partes", comparadas u m a a uma, diferem e m gran- ro movimento executado o u , a o contrário, o s obstáculos opostos a esse
deza absoluta,ou, e m outros termos, d i f e r e m como totalidades transpor- movimento, podem ocasionar, pelo mesmo meio, u m a "permutação c o m -
táve;s 42,. D i r - s e - i a que existe forma e m t o d o lugar onde a s proprieda- pleta dos másculos postos e m atividade" 4 ) . To d a v i a é provável que es-
des d e u m sistema se modificam p a r a toda mudança trazido a u m a s ó sas relações, como aquelas que estão empregadas n a Irradiação, não se-
de suas partes e s e conservam, ao contrario, quando elas mudam todas, jam rígidas e n ã o escapem u m a vez p o r todas á "dominação" (3) d o s
conservando e n t r e elas a mesma relação. r o s a s definições convêm aos centros encefálicos. M a s p o r sua vez o poder d e orientação desses cen-
fenômenos nervosos, p o i s que, acabamos d e vé-10, n ã o s e pode neles tros não é u m poder absoluto, O a u t o r considera o conjunto dos c o n -
relacionar cada p a r t e d a reação a u r n a condição parcial, e existe ação dutores nervosos como u m "sistema funcional" t o . O cérebro é compos-
recíproca e conexão interna entre as excitações aferentes d e u m lado, os to d e neurônios que, como t o d o s o s outros, podem m u d a r d e eronaxia
Influxos motores d e outro, entre uns e outros e n f i m . Qualquer que seja sob a ação dos neurônios vizinhos e, paulatinamente, sob a influência d a
a espécie d o s modelos d e Koehler, a analogia sobre a qual eles estão periferia. A eronaxia d o s centros motores = t i c a i s seria então variável
fundados existe e podemos considerá-la como adquirida. Restar-nos-á a Pode-se modificá-la aquecendo o u esfriando, excitando p o r eletricidade
pesquisar aquilo que faz o caráter distintivo das formas físicas e se e m a parte d o corpo que se projeta n a zona interrogada. Encontra-se ( C a r -
principio se pode a d m i t i r a redução d a s "formas fisiológicas" à s " f o r - dot) para u m mesmo centro e de u m instante a outro valores m u l t o v a -
mas físicas". riáveis d a eronaxia, dependendo e m particular d o n e r v o pneumogástri-
CO e d o aparelho amoldem A distribuição d a s cronaxias e a organiza-
É realmente necessário, p a r a compreender o s fenômenos nervosos,
ção dos trajetos nervosos dependem, pois, d o encéfalo; a ação pela qual
introduzir uma nova categoria? A Gestalttheorie justifica a noção de " f o r -
o encéfalo reparte a s erortudas n ã o é e l a p r ó p r i a senão u m efeito d e
ma" p o r u m a c r i t i c a d o "espírito anatômico" e m fisiologia. N ã o seria certas influências periféricas o u vegetativos, e nesse sentido resulta d a s
a necessidade desta noção m u l t o menos evidente e m urna fisiologia " f u n -
91/1eTOIliZa0eS anteriores. " ( . . . ) O poder d e orientação p o r modificação
cional", que funda os trajetos nervosos sobre conexões momentaneas tais
de cmnaxia que atribuímos a o cérebro n ã o é u m a Imaginação antropo-
como aquelas que se estabelecem, sem levar e m conta a topografia, e n - mortica dissimulada p o r trás d o mecanismo que colocamos como i n s t m -
tre ressonantes ( S c h i ff , P, Weiss) o u entre neuronios sincronizados ( L .
Lapicque)? Lapieque colocou o problema da ordem, como o próprio Sher-
rington e31 a propósito d o fenômeno d e irradiação. S e a excitação, u l - (1) C o m efeito. a r e l a ç ã o d e q u e f a l a m o s n ã o é r i g i d a e Molemente a c o n e x ã o mo-,
trapassando u m membro, se aplica, sem levar em conta a proximidade dos m a l « ) e x p l i c o f a c i l m e n t e s u a f l e x i b i l i d a d e . L e m b r e m o s q u e a crena:sia d e u m n e r v o
isolado ( e r o n a r l a d i t a d e constituição) é m o d i f i c a d a q u a n d o o n e r v o v a l a i n s e r i d o
no sistema n e r v o s o . ' N o sistema n e r v o s o e r n c i t a d o n o r m a l . I s t o é , c o n s t i t u i n d o e t e -
t i l A o p r i m e i r o c r i t é r i o d e Ebrentels. c f . K o e l i t e r . " m e phyeierhen Geetai,en", livamenle u m s i s t e m a f u n c i o n a l , h á s e m d ú v i d a p o r t o d a p a r t e Itilervençães d e s s o
género, a t r o n a x i a d e constituição, a d a nesurentio I s o l a d o e e m repouso, d ó l u g a r a
pp. 9 5 - 3 7 .
(2) S e g u n d o c r i t é r i o d e Eive-rifeis. orna t r o n a i s d e s u b o r d i n a ç ã o r e g u i a v e l 'temendo i n f l u ê n c i a s d i v e r o a s " . l a p l e q u e .
(3) " A s f i b r a s n r n o h a S sensitivas d e u n i a região eutãnee d a d a , p o r pequeno q u e seja. Physiologta générale d u s y s t é m e n e r v e u x i n " N o u v e a u T r a l t é d e PhythOlOg]e" d e o .
Dumas, t . I . c a p . I V . p . 1 5 2 . E m p a r t i c u l a r ( I d . , I b i d . ) . " O encéfalo t e t o realmente
se diSpersanl e m v á r i o s f e i x e s r a d i c u l a r t a , m e s m o e m d u a s l i i i t r é s nein.% adjacentes
e ( a r e m ~ l i n s u a e n t r a d a n a m e d u l a p r r a n l e t o d a u m a série d e f i b r a s Inodoros o p o d e r d e m o d i f i c a r a s e r o n a t i a s m o t o r a s p e r i f é r i c a s " . A n o ç ã o d e I n i b i ç ã o s e em,
contra a s s i m consideraseinielite d i t i n p i t t i c a d a e p r e c i s a d a : é a d i s j u n ç ã o d a s v i a s
pertencentes t a n t o a exteresners q u a n t o a flexores. P a r a p i e o i n t e n t o obsen-a-
do possa s e r e a l i z a r, ampliando-se d e f l e x o r e m f l e x o r s e m j a m a i s a t i n g i r s u r i « t e n - nervosas p e i a s i m p l e s m o d i f i c a ç ã o d e ( To n a r i a . O s f e n ó m e n o s d e p a r a d a e d e I n _
sor, s e r i a necessário e n t ã o adrrettlr, pergunta-se ( S i t e r r i n g t o n ) , s e a s f i b r a s s e n s i t i v a s ersão t i o r e f l e x o s e d e i x a m f a c i l m e n t e r e p r e s e n t a r n a m e s m a l i nguagem.
plantarem f o r a m n a substancia cinzenta d a n t e d u l a e r n b u s c a d a s células m o t o r a s d o s (2) L a p i e q u e P s y s i o l o g i e generale d u systénze n e r v e u x . i a " N o u v e a u T r a i l e d e P i l l •
Flexores. d e i x a n d o etildactomimente d e I e d a a s c é l u l a s m o l o m • t i o s o u t r o s músculos, thOlegEe d e G _ DUEESEEE, E . 1 . c a p . I V , p . 1 5 1 .
13/ I d . , i b ( d .
nolociament,, d o s « t e r n u r a s ? ' L a n h a i « . "PhysiOlogiet générale d u s y s t e m ° nerveus", i n
14) I d . . t b r d „ p . 152
l'leauttedru r e a g e d e PsUetwlegle" d e G . D u m a s , t . I , c . p I V , p . 1 4 9 ,

74 75
mento desse poder, Esse poder devera resultar automaticamente d o p r ó - o organismo d e "comportamentos privilegiados", — i s t o é, mais freqüen-
prio mecanismo quando o s estudos desse género tiverem f e i t o progres- tes d o q u e se t e r i a esperado p a r a considerar u m a a urna a s condições
sos suficientes" M a s , se a organização das cronaxlas e a organização externas e internas d a conduta — ela n ã o pede, também, nenhuma e x -
dos trajetos nervosos dependem assim d e m ú l t i p l a s condições, a o mes- plicação especial. P o r q u e a "freqüência" é a i n d a u m a constatação d e
mo t e m p o interiores e exteriores a o organismo — se o c e n t r o remete nOSSO espirito, n a s c o i s a s e x i s t e m a p e n a s acontecimentos singulares
à periferia e a p e r i f e r i a a o c e n t r o , é preciso colocar a LapicqUe a dos quais é preciso cada vez dar-se conta p o r causas particulares. N ã o
há então m o t i v o para se perguntar o q u e vem g u i a r o mecanismo c r o -
questão q u e e l e p r ó p r i o c o l o c a v a a S e r r i n g t o n , O q u e a c r o n a -
ida e x p l i c a é a integração, o u s e j a , o f a t o d e q u e " o c o n j u n - náideo e orientá-to e m direção a movimentos "ordenados". U m a vez que
to d o s comandos nervosos é capaz d e l a z e r reagir todos o s músculos ele os produz, é que nele as condições necessárias estão reunidas. E n -
do corpo sob a excitação dos mais diversos pontos d a periferia" 12). É quanto a doença e a emoção, com suas "reaeões de desorganização", não
necessário a i n d a compreender c o m o e n t r e todos esses sistemas d e l i g a - aparecem, é q u e elas n ã o s ã o possíveis n a s condições dadas. E s e o
ções possiveis, só são realizados comumente aqueles q u e t ê m u m v a l o r comportamento ordenado s e mantém, é q u e e l e é único. É i n ú t i l s u -
biológico — como esse circuito de causas e de efeitos termina, para r e - por u m "poder de orientação' "oculto p o r trás" dos mecanismos cerebrais
tomar os termos de Lapicque, e m " u m movimento" e não e m "espasmos pelos quais ele se realiza, e o problema d a ordem não t e m sentido, se se
convulsivos sem eficácia" s l i . A teoria d a cronaxia põe e m evidência, co- faz dele u m segundo problema d e causalidade. — I s s o q u e r dizer q u e
mo a função própria do sistema nervoso, a organização de trajetos novos não sendo u m a causa, o " p o d e r de orientação" seja u m efeito ou. como
a cada momento, P o r isso mesmo e l a apenas t o r n a m a i s visível aquilo diz ainda Lapicque, u m "resultado automático" d o próprio mecanismo? O
que resta a explicar. N ã o se pode mais contar, para assegurar uma dis- funcionamento d o sistema nervoso poderia, e m u m estado bastante avan-
tribuição d a s cronaxias q u e produza movimentos e não espasmos, c o m çado d a ciência, s e r reconstruido peça p o r peça, d e fenômeno local e m
nenhuma estrutura anatómica, c o m nenhum dispositivo estável, c o m n e - fenómeno local. A análise cronáxica poderia duplicar-se e m u m a síntese
nhum centro autónomo. N ã o sendo guiada p o r nenhuma topografia e Ora, esta síntese r e a l é inconcebível. S e partimos, c o m o d e urna reali-
estando p o r outro lado submetida a condições indefinidamente variáveis, dade existente e m si, d a imagem q u e a análise = r u b r i c a d á d o funcio-
como compreender q u e esta distribuição determine ações típicas r e l a t i - namento nervoso, encontramos cronaxas d e subordinação q u e dependem
vamente estáveis, percepções c o n s t a n t e s d e o b j e t o s , m o v i m e n t o s , umas outras sem t e r m o e sem corte, e cada uma, n o momento conside-
onde cada excitação parcial considerada, p o r assim dizer, excitações simul- rado. pressupondo todas as outras, que a pressupõem, a gênese d o t o d o
taneas e ulteriores, e n f i m , ações moldadas, p o r assim dizer, excitações por composição das partes é fictícia. E l a quebra arbitrariamente a c a -
sobre a s situações que as provocam? deia das determinações recíprocas. O caso n ã o é o mesmo d e u m t e r -
mostato onde u m a variação d e temperatura interior pressupõe u m a p o -
Mas pode-se rejeitar o s problemas d e " o r d e m " como antropomor- sição d a válvula reguladora, a q u a l pressupõe, e l a própria, u m estado
íleos. S e a Oestaittheorie não é "vitalista", introduziria o antropornorlis-
de temperatura interior, sem que jamais o mesmo fenômeno seja ao mes-
mo e a finalidade e m f i s i c a c o m o e m fisiologia, p e l o simples f a t o d e mo t e m p o condicionante e condicionado e m relação a o mesmo fenóme-
projetar normas humanas n o s fenômenos, e supor processos "orientados no. A o contrário, cada cronaxia é somente u m aspecto d o processo total,
ou "ordenados". É bastante evidente que falando de uma resposta "adap- é p o r abstração q u e é tratada c o m o u m acontecimento l o c a l e n o sis-
tada" a o estímulo o u d e u m a seqüência d e movimentos "coerente", e x -
tema nervoso h á apenas acontecimentos globais. M e s m o quando u m se-
primimos relações concebidas por nosso espirito, uma comparação que ele tor d o sistema parece funcionar " p o r sua conta", — quando p o r exem-
faz entre o "sentido" d o estimulo e o "sentido" d a reação, entre o "sen-
plo variações importantes nas excitações térmicas o u interoceptiviss dei-
tido t o t a l " d a resposta e o s movimentos parciais que a compõem. Essas xam quase intacto o reflexo d o piscar dos olhos, — a concepção d a cro-
relações d e sentido pelas quais definimos a ordem resultam justamente nascia mostra que este isolamento é funcional, que ele repousa sobre u m
de nossa p r ó p r i a organização. E l a s n ã o t ê m pois necessidade d e serem certo numero d e disjunções cronáxicas e deve ser Integrado à constela-
explicadas p o r princípios distintos. S e a ordem é definida d e u m a m a - ção das eronaicias n o conjunto d o sistema. A unidade d o funcionamento
neira f o r m a l , p e l a simples freqüência estatística, a existência e m t o d o nervoso é seu caráter objetivo e, mais particularmente, é esta unidade de
determinação recíproca que o distingue de fenómenOS simplesmente Circu-
lares. Quebra-se esta unidade concebendo-a como uni "resultado", isto é, de-
41i L a p i c q u e . P h y s t o l o g i r g é n é n t l e d u %yaterue u t r y t u x I n - S o p e o u T r a l t é d e P s y • rivando-a da multiplicidade dos fenômenos locais ã qual eia é imanente. Por
chologle" d e ( ; . M i t t l a 6 . I . 1 , cap. I V . D. “ 3 , isso mesmo, aliás, torna-se inevitável a volta a u m -principio de ordem"
(2) e 4 3 ) I d , , a n d . , p . 1 4 8 .

76 77
exterior, c o m o o exprime, n o p r ó p r i o Lapicque, o t e r m o "dominacão"
dos centros encefálicos. A imagem q u e a análise CrOrláXiCEI d á d o f u n -
cionamento n e r v o s o , u m a v e z f e i t a , n ã o p o d e p o i s s e r c o l o c a -
da e m si, n e m separada d o processo pelo qual as cronaxlas se determi-
nam e n t r e s i . É esta autodistribuição q u e a noção d e f o r m a exprime.
Não se t r a t a d e u m a segunda causalidade que v i r i a corrigir o mecanis-
mo: é a teoria dos centros coordenadores que esta objeção pode ser f e i -
ta. A noção de f o r m a exprime apenas as propriedades descritivas de cer-
tos conjuntos naturais. É verdade q u e ela t o r n a possível o emprego do
um vocabulário finalista. M a s essa p r ó p r i a possibilidade é fundada n a
natureza d o s fenômenos nervosos, exprime o t i p o d e unidade q u e eles
realizam. O s comportamentos "privilegiados" d e f i n e m o organismo t ã o
objetivamente quanto a análise cronárica pode faza-lo, se, como é preciso,
renuncia-se a o realismo mecanicista a o mesmo t e m p o q u e a o realismo Capitulo I I
finalista, isto é, a todas as formas d o pensamento causal.

OS COMPORTAMENTOS SUPERIORES
A análise d o comportamento perceptivo desenvolveu-se Inicialmente
como complemento e prolongamento d a teoria d o reflexo ( I P. o proble-
ma que Pavlov colocara é o de saber como o organismo pode entrar e m
relação com u m meio m u l t o mais extenso e m u i t o mais r i c o que aquele
-que age imediatamente sob a f o r m a d e estimulações físicas e químicas
-sobre suas terminações sensoriais, M a s esta extensão d o m e i o se obtém
-pe)a transferência d o poder dos eicitantes naturais aos novos estímulos:
trata-se apenas d e multiplicar o s comandos dos quais dependem nossas-
reações inatas e e m particular de agrupá-los e m cadeias d e reações a u -
tomáticas. É sempre em cada momento pela somatória dos estímulos o r o -
"Prioeeptivos e exteroceptivos presentes (levados e m conta os poderes que
O condicionamento l h e s delega) q u e s e propõe compreender a conduta.
A eSSèneht d a atividade nervosa permanece a mesma: é u m processo de-
componível em partes reais Gn.

) o s reflexos congro ito s n ã o s ã o s u f i e j r n , p a r a a v i d a a n i m a l v i d a


diária exige relações m a i s detalhadas, t o a i s especial iradas d o a n i m a l c o m o m u n -
do circundante ( ) o s f a t o s s e p a s s a m d o s e g u i nte m a n e i r a U l í i n m u l t i d ã o d e
agentes d a :natureza duo p o r sua prrS,cOm o Nintil ( • —J itns agentes rt.le tiva rotule p o n -
to numerosos q u e condicionam o s reflexos tingem liai s. Desta manei ra é obtido o eflui -
I bei o preciso e a r nado d o organismo Com o m e l o circundante. C h a m e i esta a t i v i d a -
de dos hemisférios,
cérdbral • atividade .Jr sinal Exação, " P a v l o v, Lecons 4 o r l'actiuttié d o t o r t e z

12) ' E s t o n a lJza (Ao". r i t o s , eiNt ta P o vi ov, " mo siri t o d a s a i s caracter is ti ras d o a t o
nervoso chamado r e f l e x o . S o t a e x a t o c h a m a r esses reflexos adquiridos retini:1S c o n -
dicionais o u reflexos d e contato. Leçons s o r L'actiodé d u C o r t e i Cérébrol•

78
79
Uma vez que a "situação" permanece u n i mosaico de excitantes t i - sozinho o excitante luminoso provocava n o i n í c i o d a expe-
slcos e químicos e q u e as novas conexões resultam de contigüidades d e riência. É que o novo excitante M tinha como t a l u m a ação
fatos que a í s e encontram, elas s e estabelecerão inicialmente sem esco- inibidora (inibição externa) q u e v a i s e exercer t a n t o sobre
lha, em todas as direções e o desenvolvimento consistirá para Pavlov, como o poder d e excitação d e 121 quanto sobre o poder de inibição
a aprendizagem p a r a o empirismo psicológico, e m u r n a série d e erros de S. Prelo do freio, M deveria nesse sentido aumentar o p o -
compensados. To d o estimulo q u e age sobre o organismo conjuntamente der reflexógeno d o conjunto L S , se a o mesmo t e m p o não
com u m estimulo incondicionado tende a l e v a r e m conta o p o d e r r e - rilminufse o d e L , como demonstra u m a experiência de c o n -
flexógeno deste ú l t i m o (1 1 ( l e i d e irradiação). D a í v i r i a a f o r m a s i n - trole e m que, associado apenas à luz, NI é suficiente para r e -
crética das reaçõeS i n f a n t i s e animais. U m excitante condicionado p o - duzir a secreção gástrica q u e e l a é capaz d e provocar. M a s
deria, mesmo durante algum tempo. comunicar alguma coisa de seu p o - se continuamos a associar conjuntamente os três excitantes ao
der a u m excitante qualquer que não t e r i a sido jantais associado ao ex- extrato de carne, obteremos enfim o s seguintes resultados, e m
citante absoluto. M a s esta p r i m e i r a l e i n ã o é suficiente p a r a explicar que o s algarismos indicam o número d e gotas d e saliva r e -
colhidas:
o ajustamento d e nossas condutas aos aspectos essenciais de urna situa-
ção. É preciso q u e urna seleção s e faça entre o s excitantes condiciona- L = 10 L + M 1 0 + S + 1‘4 = 10
dos possíveis e que o reflexo s e "concentre" (21• Somos levados a c o n -
ceber uma contra-força que venha corrigir os efeitos da irradiação e i m - M = 4 S + M = 4
S O L + S = 0
pedir um estímulo qualquer de provocar alguma das reações com as quais
ele f o i associado. É a inibição, que será então concebida e m Pavlov c o -
mo u m processo positivo capaz d e compensar o s efeitos desordenados Se quisermos interpretar esse resultados através d o sis-
da Irradiação. tema d e conceitos definidos p o r Pavlov, deveríamos dizer que
S, quando é juntado a M , n ã o exerce m a i s influência i n i b i -
Seja, p o r exemplo, u m som S (31 que nunca f o i associa- dora, e que M freqüentemente associado a L e a S c o m e x -
do ao extrato d e carne e que é apresentado seguidamente ao
trato d e carne, a d q u i r i u assim u m c e r t o poder reflextigeno.
mesmo tempo que u n i excitante luminoso L t o r n a d o estímu- Dai, os resultados: lt1 = 4, S + à ( = 4. M a s p o r o u t r o lado,
lo c o n d i c i o n a l d a secreção g á s t r i c a . P e l a i r r a d i a ç ã o a d - Juntado a L que é u m ó t i m o excitante, S recupera u m poder
quire de início u m fraco poder reflexógeno que é logo perdi- inibidor q u e n ã o m a i s manifestava (L-1-S=0). T u d o s e pas-
do: u m estimulo associado a o e s t i m u l o condicional quando sa então como se o excitante M desempenimase u m papel que
este n ã o é associado a o excitante absoluto torna-se i n i b i d o ! não é previsto pelas l e i s formuladas a t é a q u i , — c o m o s e
(inibição condicional). P o r outro lado, desde sua primeira i n - subitamente sua presença modificasse o poder de S a t a l pon-
tervenção, o som, como t o d o estímulo novo que se introduz to que, S + L sendo ineficaz, M + S + L produz ao contrá-
numa situação habitual, j á possuía u m poder inibidor ( I n i b i - rio dez gotas d e saliva. O s efeitos d e u m conjunto d e estí-
ção externa). O s efeitos d a inibição condicional, que n o s i n - mulos n ã o p a r e c e m p o d e r s e r t r a t a d o s como a soma a l -
teressam especialmente, são decisivos: o s o m tornado i n i b i - gébrica de cada u m deles tornado separadamente. É aqui que
dor p e l a Inibição condicional, acaba p o r f r e a r totalmente o Pavlov invoca " u m a espécie de equilíbrio nervoso do qual não
reflexo e nenhuma secreção gástrica é m a i s observada quan- se pode precisar seguramente a natureza" (1(. É verdade que
do luz e som são apresentados conjuntamente. Se, a esse gru- não fizemos ainda i n t e r v i r u m a terceira l e i que pudesse p e r -
po de excitantes, acrescenta-se as batidas de u m metrtmomo e m i t i r preencher, s e t a l ocorre, a s distâncias e n t r e a t e o r i a
associa-se a o novo grupo o extrato d e carne, obtém-se Urna e a experiência. A t é a q u i o poder excitante o u i n i b i d o r não
secreção gástrica, porém fraca i n f e r i o r da metade àquela que dependia d o próprio sistema nervoso, mas somente das asso-
ciações realizadas pela experiência, isto é, e m santa, d o curso
da natureza física. P a v l o v f a z i a i n t e r v i r, e l e também, " f u n -
(1) P a v l o v. f l i r l l o c h s t e N e r v e n t a t I g k e i t v o a p . 3 11 .
(2) D r a b o v i t e l t . L e s Réflexes eonditionnes e t I a claronasIe. R e v a c phiicsopluque.
f é . „ 1937, p . l a t .
pléroa. L e s Itêflexes c a n d I t i o n -
Pavlov, L e s I t i f f e r e s ronditionner.t. p p . 78-87. C f . & l i a nPavlov,
a& p. 3" f5l .e t e s C o n d i e l o a n e l s , p . 8 3 , c i t a d o p o r P i é r o n , L e s R é f l e x e N c o a .
ata, t a D u m a s , Nouocao T r o n e d e PSyÉhelogit. t . I I . PP. 3 5 sclq•

80 81
ções transversais" s o b a f o r m a , é verdade, inteiramente m e - esse principio e vemo-lo invocar para explicar os efeitos d o grupamento
cãnica, d a "indução reciproca" LI t o d a excitação em u m pon- M S u m a l e i d e equilíbrio nervoso sobre a qual n ã o fornece nenhu-
to do córtex provoca u m a inibição nas regiões vizinhas e i n - ma precisão, E l e p r ó p r i o i n d i c a e m q u e sentido s u a análise pode s e r
versamente, Essa nova l e i t e m p o r efeito acentuar a delimi- modificada. U m estimulo objetivo dado produz n o organismo efeitos d i -
tação das zonas excitadas e das zonas Inibidas no córtex com- ferentes segundo aja s ó o u a o mesmo tempo que t a l o u t a l outro. S e L
pensando assim os efeitos das duas primeiras t12,. provoca uma ce,ta reação do organismo, não é necessário, p a r a explicar
que L + S n ã o a produza, supor e m S u m poder d e inibição. L 5
A necessidade e m que s e encontra Pavlov d e c o r r i g i r a cada i n s - não é reflexogeno porque a adjunção de S não é para o organismo u m a
tante urna l e i p o r uma o u t r a l e i prova, sem dúvida, que ele não desco- simples adição, mesmo algébrica. E l a não deixa subsistir o estimulo pre-
briu o ponto d e vista central donde os fatos poderiam s e r coordenados. cedente S . e l a o substitui p o r u m a n o v a situação d a q u a l ele n ã o f a z
O excitante L sendo definido como u m estimulo condicional d a secreção, mais parte. D a mesma maneira o conjunto L + S + M poderá tornar-
o excitante S c o m o u n i i n i b i d o r condicional, e n f i m o estimulo M como se rellexogeno p e l a associação d o e x t r a t o d e carne sem q u e esta p r o -
um c o n t r a - i n i b i r l o r condicional, a r e a ç ã o p r o v o c a d a p e l o c o n j u n t o priedade transmita ao grupamento L + S que, para o organismo, é qua-
L + S M deveria compor-se em Urna síntese real a p a r t i r das proprie- litativamente diferente I s t o q u e r dizer que o verdadeiro estímulo é
dades de cada u m deles. O r a , acabamos d e v e r que esta explicação dei- o conjunto enquanto t a l (2)• Poder-se-la dar u m poder condicional a unia
xa u m resto. Associado a M , o excitante S perde seu p o d e r inibidos; constelação d e excitantes d a qual cada u m tomado ã parte permaneceria
mas, associado a L . o conserva. I s t o q u e r d i z e r que n a s duas " s i t u a - Inibidor, A série l u z — som a l t o — s o m baixo — contato pode ser r e -
ções" L + S e S + M , o estimulo S n ã o desempenha o mesmo papel fiexogena enquanto que a série l u z — som baixo — som alto — contato
ou, e m outros termos, q u e as duas situações n ã o são dois todos e m que não o é . Pode-se o b t e r u m a reação p o r dois sons sucessivos d e mesma
se pudesse reencontrar o elemento c o m u m S M a s desde então percebe- altura e de intensidade desigual q u e vão d o menos a o mais intenso, en-
se q u e a descrição d o comportamento donde p a r t i u Pavlov é j á u m a quanto q u e o s mesmos sons n a o r d e m inversa n ã o produzem n e n h u m
teoria i s l . H á u m preconceito inicial, q u a l seja, o d e a d m i t i r q u e n o efeito. A reação persiste s e modificamos o t o m absoluto destes sons
organismo u m a excitação complexa contém a t i t u l o d e partes reais o s unia vez que mantenhamos constante a diferença de suas Intensidades 131.
processos q u e s e r i a m desencadeados p o r c a d a u m d o s estímulos e l e - Um trabalho j á antigo (•ii mostrou que u m polvo, após haver adquirido
mentares, o u ainda q u e cada estimulo parcial possui urna eficácia p r ó - uma r o a * positiva face a u m grande recipiente onde encontrava seu
pria. E p o r causa deste postulado que, se L apresentado sozinho é u m alimento e aparentemente uma inibição face a u m recipiente menor apre-
excitante condicional positivo, supor-se-á q u e a j u n t a d o a S s e u p o d e r sentado a o mesmo tempo que o primeiro, visita todavia o menor quan-
próprio permanece o mesmo. Como o novo conjunto não produz nenhu- do é apresentado isolado. O excitante verdadeiro d a s reações condicio-
ma secreção é necessário a t r i b u i r a S u m p o d e r positivo d e inibição. nadas não é nem u m som, nem uni objeto, considerados como indivíduos,
Mas quando L + S entrar n u m conjunto m a i s extenso, o mesmo postu- nem u m a reunião d e sons o u d e objetas considerados c o m o conjuntos
lado realista exigirá q u e reservemos a o g r u p o L . + S o poder i n i b l d o r ao mesmo tempo individuais e confusos, mas sobretudo a distribuição dos
que t e m isoladamente. Correlativamente o terceiro t e r m o d o novo c o n - sons n o tempo, s u a seqüência melódica, a s relações d e grandeza d o s
junto s e r á concebido c o m o u m contra-inibidor, u m a v e z q u e o g r u p o objetas, e m geral: a estrutura precisa d a situação,
L + S + M produz u m a secreção. A i d é i a d e inibição, compreendida
como u m processo positivo, e com ela as dificuldades q u e acabamos d e
11) P i é t o r t . L e s Problemes d e I a preception e t I a P h y t i m p h y s i o l o g l e . A n n e Pág.-tudo-
assinalar, torna-se inevitável apenas pelo preconceito d e t r a t a r Uma e x - ginue. 1920, t , X X V V I L p p , 6-7.
citação t o t a l corno a soma das excitações q u e produziria cada u m dos I V S e m d ú v i d a P a v l o v eonsidorou o c a r á t e r s i n c r e t i t o d a s reaçrres i n f a n t i s e a n i -
estímulos parciais. M a s o p r ó p r i o Pavlov n ã o p o d e permanecer f i e l a mais e r a p a r t i c u l a r ( l e i d a I r r u i l l o c ã o ) . N a s a I r r a d i a ç ã o d e PlaViaa é u r n a espécie
de dem-urgem p a r a a q u a l r i m a f o r t e ese:tatim suscita n a s s u a s v i a s d e s a l d a tortas a s
CICiliWõl•a a " l a t i r a s . E l a e x p l : c a e n t ã o q u e n a s e q ü e n e l a u m a q u a l q u e r d e s s a
exeltaçars p o s s a p r o v o c a r a r e a ç ã o estudada. m a s n ã o q u e esse p u d e r pertença a c e r -
Idem., Letons L ' A e l l u i r e d u C o r t e i Cerèbrat. p f L 3 4 9 sqq.. tas COIMICIBISCS d e t e r m i n a d a s ( p o r e x e m p l o L + S + M l e a e l a s s o m e n t e .
121 A i n i b i ç ã o , t a n t o q u a n t o a exeStação, tende o s e i r r a d i a r n o t e m p o e n o esPoçn- + S + + X m i o é refiesogênicol a s reaçães a n o n : t i c o s r e w o n d e m a c o n j u n -
Para a l e m d e u r n a c e r t a distaneks t e m p o r a l o u e s p a d a i , c a t a a ç ã o c e d e l u g a r i i n - tos c o n f u s o s e n q u a n t o q u e a s e s t i e i - O n d a d e condicionamento n o s c o l o c a m e m p r e –
dução r e c i p r o c a q u e I n t e r v é m . e l a t a m b é m . n o t e m p o e n o espaço. sença d e reaçães q u e s ã o l i g a d a s a u m a e s t r u t u r a P r e e t a •
1.31 " To d a l i n g u a g e m d e P a v l o v e d e s e u s d i s e t p u t o s é i m p r e g n a d a , d e a n t e m ã o , d e (3) P i é t a n , L e s R e f l e : r e i C o n d i l l o n n e s , p p .
teoria e o s f a t o s p o d r e l a ta s e r PapraSNO% s o b r e o u t r a s f o r m a . P i t t o n • L e s ItèfICZCS (4) i d . , A n M e Psychologique. 1913, t• X X , p p . 1112-185, - C f . I d „ M i e i , 1926, 4. X X V I I ,
Caudato:umes. i a N o p r o u t r a l t ê d e P.4ucholoult, d e George D u m a s , 1 . I I , p p . 3 3 . a. 1 .

82 83
Longe d e ser u m a descrição f i e l d o comportamento, a teoria d o s Ele observa, e m cães submetidos a repetidas experiên-
reflexos condicionados é urna construção Inspirada pelos postulados a t o - cias, condutas surpreendentes 11 s Desde q u e s e coloca e m
mistas d a análise real_ E l a transporta para a atividade organica os m o - funcionamento o dispositivo q u e p e r m i t e recolher a s secre-
dos de clivagem q u e convém a tira universo d e coisas, e n ã o representa ções, o animal c a i n u m estado comparável ã hipnose, C o l o -
em nenhum grau o instrumento necessário de uma pesquisa científica ( k • cado e m presença d e u m estímulo condicionado, o c ã o res-
Pode-se facilmente datar esses postulados: eles pertencem a u m período ponde p o r reações secretárias comuns, m a s a o c o n t r á r i o a s
ultrapassado d a fisiologia e d a psicologia_ N ó s o s reencontraríamos, — seações motoras n ã o ocorrem. Colocado e m presença d o e x -
e o próprio Pavlov f a z esse paralelo (2,, — se procurássemos analisar a citante ineondielonado ( o pedaço d e carne), o a n i m a l n ã o
percepção d o interior. Psicólogos como Helmnoltz, tratando d a constan- reage como ordinariamente: o r a a secreção salivar é normal,
te d a grandeza aparente dos objetas, supunha que uma conclusão incons- mas os movimentos de mastigação não se produzem, ora ao con-
ciente nos permite reencontrar a verdadeira grandeza p e r detrás d a Ima- trário, o cão come o alimento, mas a secreção salivar se f a z
gem c u j a estatura varia c o m a distancia. Pavlov propõe a d m i t i r que a s esperar d u r a n t e d e z o u v i n t e segundos. Examinemos a e x -
excitações retinianas, provocadas pelo mesmo o b j e t o e m diferentes d i s - plicação q u e PaNICIV d á deste u l t i m o caso. A montagem d o
tâncias, tomam-se o s estimulos condicionais das mações motoras de pal- reflexo condicionado consiste p a r a ele e m u m a conexão que
pação, executadas quando o o b j e t o está is distância d o t a t o . O raciocí- se estabelece e n t r e o c e n t r o cordeai q u e recebe o estimulo
nio, n u m caso c o m o n o o u t r o , é o mesmo. Comeea-se p o r supor que, condicional. o q u e comanda o s movimentos d e mastigação,
para cada percepção d e u m objeto c u j a distância varia, são dados " n a ' e u m c e n t r o sub-cortical d o n d e dependem a s secreções a l i -
consciência imagens individuais d e dimensão diferente o u n o organismo mentares. E s t a perturbação d o comportamento será então de-
processos fisiológicos sem medida comum. O problema é, em seguida, en- signada c o m o u m a "dissociação d a s reações m o t o r a s e s e -
contrar n u m a operação intelectual o u n u m a qualquer conexão associa- cretoras". N ã o s e bits2ará recolocá-la n o s e u contexto b i o -
tiva, o m e i o d e reconduzir esses indivíduos psíquicos o u fisiológicos lógico para descobrir, através desses diferentes sintomas, u m a
unidade. M a s a questão não se colocaria assim e essas soluções não d e - alteração geral d o comportamento 421. Traduzir-se-á a s a t i -
veriam ser consideradas, se n ã o se tivesse começado p o r t r a t a r respecti- tudes observadas dizendo que o centro secretos é inibido, en-
vamente a s "imagens psíquicas" d e u m mesmo o b j e t o o u o s processos quanto que o centro m o t o r n ã o o é . M a s esta inibição eleti-
fisiológicos q u e ele suscita n o sistema nervoso, c o m o tantas realidades va t e m e l a p r ó p r i a necessidade d e s e r explicada_ D a í , duas
separadas. — se se tivesse escolhido como noção diretora e m psicologia hipóteses que n ã o ternos, p o r o u t r o lado, nenhtnna razão d e
e e m fisiologia a estrutura e n ã o o átomo (3)• assumir: Pavlov supõe de i n í c i o u m a inibição geral d o cére-
bro que, partida d e pontos correspondentes aos reflexos c o n -
Pode-se a c h a r espantoso q u e , decidido a f u n d a r u m a ciência d o
comportamento e, para permanecer mais perto dos fatos, a não a d m i t i r dicionados artificiais, s e estenda a o c e n t r o sub-cortical q u e
comanda a s secreções salivares e aos motor-analisadores c o r -
senão expliçações fisiológicas 11,, Paviov tenha introduzido n a sua pes-
ticais. A p ó s haver introduzido urna inibição t o t a l que a o b -
quisa os postulados d a antiga psicologia. É que, e m realidade, nem nele
servação não revela, Paviov admite que a visão d a carne dei-
nem em outros, a explicação fisiológica pode ser direta. N o que concerne
xa i n t a c t a Inicialmente a Inibição d o c e n t r o secretos e u l -
a Pavlov, o arbitrário de seus esquemas fisiológicos n ã o é m u i t o visível
trapassa a d o c e n t r o m o t o r que, d i z ele, é mais m ó v e l q u e
no simples exemplo d e que n o s servimos p a r a descrevê-los. M a s t o m a -
o o u t r o . E s t a m a i o r mobilidade é suposta pelas injimções
se evidente quando o s confrontamos c o m certos comportamentos c o m - mesmas d a explinação Q u a n d o a faz intervir, Pavlov não e x -
plexos aos quais o p r ó p r i o Pavlov busca aplicá-los. plica o fenómeno, n ã o f a z senão nomeá-lo, descrever e m

tonieario. o e s t u d o f i s i o l ó g i c o destes ó r a i l o a n o s a n i m a i s q u e d e v e s e r v i r d e b a s e ã
(11 P l e r o n . L e s P r . : b l e u " d e L a Pereeption e t t e psychophysh3logie« A n n i e P h y c h o - análise tf:h-atrai.
precisa e c i e n t i f i c a d o m u n d o s u b j e t i v o d o h o m e m . l i t e r o n s n r L'aelluttd
logique, 11)10. 1 . X X V I I . p . Cortei
(2) t e c o s ' " i r L ' a c n o t h i d o C o r t e i Cerebral. p p . 100_101, c i t a d o p o r P i e r o n . L e s n e n e -
n Conditionnes, p . 31, n . 1 . (1) P a v i o v. t i o Bertro9 r u i - Physietiogie des hintnotisehen Zonsiondes b e i r o H u n d e ( t e r
(3) I l . P i e r o n a s s i n a l a q u e , a p ó s o s e u e n c o n t r o c o m K a t i ) " , e m 1929 n o Congres- laltarbett v o n D r . P c t r o v a l . p p . 11 4 3 s q q . R a l e t r a b a l h o f o i d i s c u t i d o p o r
Buytendijk e t P l e s s n e r, b k phystotoLytaehe E r k l i t r u n g d e 3 Ve r h a t t e n s . e i n e R r i t t h t r n
so d e P s i c o l o g i a d e Nessbatret. P a s l o v e s t a r i a d i s p o s t o a r e c o n h e c e r a f u n ç ã o p r ó -
deroTheorie
de n d e t i r aPotittoevs.
m o s o s c rA
i t iccraes Riothorettea. skr:es A . v o l . 1 . P a r i s . 3 . 1935. p p . 1GO $olq.
q u e me seguem.
p r i a d o s complexos e d a s estruturas. mas. th.,
44) « ( . . . ) N t l e é a Psicolog.a q u e d e v e ° I o d a r a f i s i o l o g i a d o s h e m i s f é r i o '
(2) H u s i t e n d í j k e t Plessner, f i e P h i n t o t o o l s e h e E r k t o r u n g des Te r h a r t e n t r p . 151.165.

85
termos allatAMICOS e fisiológicos u m a desinibição e l a mesma Esses exemplos colocam e m evidência a distancia que existe entre o
Suposta e "transcrever u m processo problemático e m s i mes- comportamento observável e as hipóteses anatomo-fisiologicas pelas quais
se deseja dar conta dele. S e a palavra reflexo condicionado t e m u m sen-
mo c o m u m a linguagem a i n d a m a i s problemática" 11 1 F a -
tido, deve designar uma reação relativamente estável ligada a certos estí-
lando h á pouco do contexto biológico desta perturbação, fazia-
mos alusão às atitudes negativistas q u e Pavlov também des- mulos. A observação de animais revela ao contrário que suas reações são
variáveis, podem s e dissociar o u mesmo s e i n v e r t e r. M a s Pavlov, c o m
creve m a s p a r a a s quais busca u m a explicação separada: o
cão e m estado d e hipnose desvia a cabeça quando s e l h e é as noções de inibição e indução reciproca, assumiu princípios que permi-
tem f a z e r desaparecer t o d a s a s lacunas d a t e o r i a e c o n s t m l r u r n a
oferecido u m p e d a ç o d e c a r n e , n a p r i m e i r a , n a s e -
explicação q u e deixa intacta a nação d e reflexo condicionado 11 o, O m e -
gunda o u mesmo n a terceira apresentação. Desde que se r e -
tire o a l i m e n t o , v o l t a a o c o n t r á r i o a cabeça e m direção canismo d e estimulações, i n i l i ç õ e s e desinibições q u e i n v o c a t e m
necessariamente o aspecto d e u m expediente destinado a ocultar o d e -
cio prato e o segue com os olhos. N o s casos m a i s favoráveis,
sacordo e n t r e a t e o r i a e a experiência, a t é sermos aigtms informados
finda p o r a b r i r e feahar a boca c o m m u i t a dificuldade, e a
inibição desaparece. P a r a explicar essas atitudes, Pavlov v a i sobre o s processos d a fisiologia cerebral. U m a t e o r i a que, s e m a p e i o
fazer i n t e r v i r u m sistema complicado d e excitações, d e I n i - experimental, supõe forças de sentido contrário, escapa evidentemente a o
desmentido d a experiência, p o i s p o d e sempre f a z e r i n t e r v i r e m d e t e r -
bições e d e desinibições. Começa p o r d e f i n i r o estado d e
minado p o n t o u m dos dois princípios n a ausência d o outro. Pela mes-
hipnose o u d e inibição como u m a fase "paradoxal", n a q u a l
os limites das células nervosas são abaixados, se bem que u m ma razão, n ã o é capaz d e nenhuma justificação experimentai. Longe d e
estímulo poderoso se comporte então como u m estimulo m u i - serem calcadas sobre o s fatos, a s categorias d e Pavlov l h e s s ã o i m -
to poderoso e provoque u m a inibição. Admite, por outro lado, postas. O s t e r m o s excitação, inibição e desinibição designam p r o p r i a -
mente certos aspectos descritivos d o comportamento q u e n o s f a z e m
que o centro m o t o r interessado nas reações comporta u m pon-
to d e inervação positiva q u e desencadeia o s movimentos e m conhecer nossa experiência interna e externa. Contrariamente, a inibição
direção à c a r n e e u m ponto d e inervação negativa que, a o tal como Pavlov a define. — isto é, como u m processo nervoso positivo,
contrário, comanda o s movimentos d e abdução. F e i t a s e s - desencadeado p o r certos estímulos, — é u m símbolo físico-mecânico que
sas hipóteses, as atitudes negativistas se explicariam da mane'- não deve beneficiar-se d o mesmo privilégio d e evidência Go. Paviov p ô -
ra seguinte: a s excitações visuais provocadas pela carne che- de acreditar que empregava u m método fisiológico n a medida e m q u e
gam, segundo o s condicionamentos estabelecidos, o p o n t o d e transportava diretamente p a r a o sistema nervoso central noções descri-
tivas encontradas n a observação d o comportamento. Tr a t a - s e n a r e a l i -
inervação positiva, elas o encontram e m estado paradoxal e
aí p r o v o c a m u m a I n i b i ç ã o . C o n f o r m e a l e i d e i n d u ç ã o dade de uma fisiologia imaginária e não poderia ser de outra forma. Pois,
recíproca, a i n i b i ç ã o d o p o n t o positivo provoca u m a exci- um método fisiológico, q u e parece s e recomendar p e l o m e l h o r espírito
tação d o ponto negativo. O animai desvia-se d a carne Q u a n - científico é realmente aquele que exige m a i s das conjeturas e é o m e -
nos direto d e todos os métodos. Equivoca-se sobre o sentido d o t e r m o
do o operador afasta a carne, o ponto positivo, até aí fortemen-
te inibido, passa p o r si mesmo ao estado de excitação, confor- "fato fisiológsco" 3 ) E s s e t e r m o é empregado o r a p a r a designar f e n ô -
me à l e i d e indução recíproca i n t e r n a . D o mesmo m o d o , o menos observados diretamente n o cérebro, e ora, mais geralmente, aque-
les q u e a análise d o comportamento n o s leva a supor atrás d a s ações
ponto negativo excitado d u r a n t e a p r i m e i r a f a s e passa a o
do animal o u d o homem. Transfere-se ao " f a t o fisiológico", n o segundo
estado de inibição e tende a provocar p o r indução recíproca a
sentido da palavra, u m privilégio d e objetividade que ele não t e m senão
excitação d o ponto positivo. Duplamente excitado, este provo-
cará inicialmente movimentos e m direção à carne quando esta no p r i m e i r o sentido, e. p o r o u t r o lado, p o r u m preconceito realista. S e
é retirada, e , a p ó s duas o u t r ê s apresentações, provocará O
reflexo m o t o r normal c o m o qual a atitude negativista chega
ao f i m . (I) " Q u e p e n s a r d e u m t i s k ° q u e . c o n v e n c i d o d o e x k l ê n c i a d o é t e r empreendesses
como Michelaun, tfresquissis p a r o demonstra-ta e q u e quisesse e x p l i c a r e m u l t a d o n e -
gativo d a e x p e r i ê n c i a p o r u m a p r o p r i e d a d e p a r t i c u l a r d o é t e r o u p o r n o conte:b-
rio-et q u e s u p r i m i s s e s e u e f e i t o ? " R u y i e n d i l k e t P l e s s n e r, 0 1 . Physio,ogische E r k i a .
rung d e s Ve r b a Viena, p . 1 0 7 .
12 I l u y t r o d i j k . e P i n s n e r. P i e Physiologisthe t r i d a r u n g d e , Verholtens, p , 1 0 0 .
t:1) G o l d s t e i n . D i e l . o k a l l s o j l o n n d e r Groashirrorinde I n H a n d b u c k d e r n o r m a t e n a n d
palliologt7rhen P h y l i o l o g t e b o a v o n H e i n e R d X . p . 6 3 9 .
i.11 I d . , H d d . p , 1 6 6 -

86 87

ali
IP'

conheceasemos d e u m a m a n e i r a precisa o s fenômenos fisiológicos d o s


tos d e inervação positivos e negativos as reações positivas o u negativas
quais o sistema nervoso é sede, seria indicado guiar-se p o r eles n a aná-
constatadas. S e se passa à s reações mais complexas, diferentes estímu-
Use d o comportamento. Mas, de fato, o que sabemos d o funcionamento
los vão se encontrar e m concorrência a o nível desses pontos. M a s seus
nervoso nos leva a pouca coisa. C o m razão, pozie-se perguntar se a o b -
poderes adquiridos s e combinarão apenas p o r u m a sornação algébrica e
jetividade, n o conhecimento flEiológico, se confunde c o m os métodos d e
sua reunião pode apenas p e r m i t i r o u p r o i b i r, reforçar o u atenuar, n ã o
medida física e química f l . A aplicação d o s excitantes físicos e q u í m i - modificar qualitativamente a reação comandada pelo p o n t o d e inervacão
cos, as medidas cronáxicas n o s permitem n o t a r certos efeitos d a a t i v i -
(II, A fisiologia d e Pavlov exclui d a mesma f o r m a a idéia de coordena-
dade nervosa, e m condições determinadas e p o r o u t r o lado m u i t o d i f e -
ção motora. A excitação o u Inibição dos pontos d e inervação dos quais
rentes das condições d e seu exercício n o r m a l . N ã o é certo q u e a f u n - acabamos d e f a l a r depende b e m d o q u e s e p a s s a n o r e s t o d o
ção nervosa possa ser assim caracterizada de maneira suficiente. E m t o -
córtex, a indução recíproca e o condicionamento proprioceptivo d e u m a
do caso, n o estado a t u a l d e nossos conhecimentos, seja interrogando o
reação p e l a precedente, são b e m "funções transversais" M a s a i n d u -
organismo p e l a observação d o comportamento o u pela medida das rea- ção reciproca, s e e l a d á a u m f e n ô m e n o l o c a l o p o d e r d e i n i b i r u m
ções q u e certos agentes físicos e químicos n e l e provocam, apreende-se outro, não l h e permite modificá-lo qualitativamente, ela n ã o fornece e n -
apenas manifestações d a f u n ç ã o nervosa e o s d o i s procedimentos são
tão o instrumento do uma regulação flexível, O condicionamento de urna
Igualmente indiretos, A s inferênclas são n u m caso e noutro igualmente
reação pela precedente, se permite compreender que os fragmentos reais
necessárias. Nessa situação, o s riscos d e e r r o são t a n t o menores quanto
do comportamento possam soldar-se u n i a o o u t r o o u dissociar-se, n ã o
mais s e é consciente d o caráter Indireto d o conhecimento fisiológico e
permite compreender como t o r n a r possível a adaptação das partes umas
conseqüentemente pode-se presumir q u e o s riscos d e e r r o serão t a n t o
As outras, a organização r í t m i c a q u e s ã o t ã o assinaláveis p o r exemplo
maiores naqueles que, como Pavlov, pretendem p a r t i r d a fisiologia. C o -
no comportamento verbal. "Pelo t a t o de que os dois processos (excitação
mo de fato ninguém pode p a r t i r dela, é p o r u m estudo do comportamen-
e Inibição) e m estado d e v i g i l l a f_e l i m i t a m mutuamente, produz-se nos
to que Pavios' começa, p o r u m a descrição d a s reações do organismo e m
hemisférios cerebrais u m imenso mosaico e m q u e s e encontra, u n s a o
presença d e certas situações, — a despzito d e seus próprios principios,
— e c o m o n ã o e s t á suficientemente consciente d o c a r á t e r c o n s t r u - lado dos outros, d e uma parte pontos excitados e de o u t r a parte pontos
inibidos e e m u m estado temporal d e s o n o . A presença desses pontos
tivo d e s u a fisiologia, f u n d a - a sobre o s postulados o s menos defensá-
entremeados, o r a excitados, o r a adormecidos, determina t o d o o compor-
veis da antiga psicologia. U m método deliberadamente psicológico e des-
tamento d o animal 2 , " . Como n a antiga concepção das localizações, o s
critivo ofereceria m a i s garantias. P i c a p o r Justificar essas críticas d e
fenômenos nervosos constituem u m mosaico e jamais a atividade n e r -
princípio e p o r extrair delas u m a concepção positiva, analisando alguns
vosa é u m processo autônomo de distribuição. À teoria dos reflexos c o n -
resultados das pesquisas modernas sobre o funcionamento nervoso c e n -
tral e sobre o desenvolvimento d o comportamento. dicionados como à teoria dos reflexos, é necessário colocar a questão de
Buytendijk: e m realidade, nos fenamenos nervosos "temos d e nos a t e r a
funções d a estrutura ou a estrutura funcionais?" C1). E n t r e os estímulos,
Os postulados atornistas q u e obrigam Pavlov a considerar o exci- o sistema nervoso central e o comportamento, Pavlov admite u m a espé-
tante complexo c o m o u m a soma d e excitantes simples excluem d a f i - cie de correspondência punctual e unívoca, E m particular o sistema n e r -
siologia nervosa a noção d e coordenação receptora. Busca-se o modelo voso d i r i g i r i a o comportamento através d e u m a ação comparável à d o
da ação nervosa n o processo "elementar" que associa u m a reação s i m - leme de u m barco ou d o volante d e u m automóvel '11; o órgão d i r e t o r
ples a u m processo isolado. C o m o existe u m a correspondência termo a exerceria u m a ação quase meeánica, e , p o r u m a direção d e marcha d a -
termo e n t r e u m e o u t r o , é s o b f o r m a d e conexões ( o u d e disJunçÕes) da, u m a ú n i c a posição desse órgão s e r i a possível. E s t a concepção d o
que s e i m a g i n a o substrato fisiológico d a reoiça° e marca-se sobre o funcionamento nervoso n ã o é d e f o r m a alguma aplicável senão a o c o r -
mapa d o cérebro pontos d e chegada d a excitação, realiza-se n o s p o n -
( I ! D a m e s m a e s c o l a r p á r P a v i o s , . I v a n o v - S m o l e n s k y a s s i n a l o u a necessidade d e
(1) G o l d s t e i n , D e r A u f b a u d e r Orlaras:riu4. e a p , I I I , r a d i e s . p r , gl_gfi. C f . B u y t e n - um processo d e integração c o r l i n d T M recepção d o s e s t i m u l o ' ( C i t a d o p a r PICCOLL L C 3
d i j k e P l e ssn e r, D k Physteoogie E r k l a r s t n y d e s VerhaDens. " S e d i z e m n s! a e x c i t a .
Flé(lesen Conditionnés. n o Nonpean T r a l t d d e Psyrhologie d e O . D a m o s . 1 , 11, p . 3 4 I .
çáo ê u r n a modificação d g tensão s u p e r f i c i • I d e u r n a M u l a nervosa, n ã o sarnento. desta
i2) P a v i o v, V i s horhsle Nerrentatigkett POR T i n t a . 1926. p . 3 11 . C i t a d o p o r B u y t e n d l i k
forma, n a d a ganhamos n o Que concerne á compreensão d o p r ó p r i o fenómeno. ma% M o -
e Plessner, V i s P h l ~ Erktarom5 d e r Vrehattenes p , 1 5 3 .
da p e r d e m o s d e v i s t a a e x c i t a ç ã o c o m o fC113310110 f i s i o l ó g i c o . E t a t : I n t e n t e c o m o a
(3) B u y i e n d i j k e F i s c h e ! , C e l i n e d i e a k u t l a r b e Wa h e n e h r i m g de% M u d e s . A r d i n 4
definição q u e f a z d o s o m u m a v i b r a ç ã o d o a r t o r n a p o s s i v e l s e m d ú v i d a o a c i s t i
CridWINÉAC3 d e P h y s i a l t y l e X V I I I , 11133, p _ 2 6 7 .
ca l i s t a r, m a s o acesso à i m e d i a t e z e a s s i m à t e o r i a d a m ú s i c a " (13. 1 6 3 ) .
(4) B u y i e n d i j k e Plessner. a r t i g o c i t a d o p p . 163-104,

81J
tez cerebral, onde a s f i b r a s nervosas aferentes e eferentes s e projetam
tologia geral, os sintomas silo algumas vezes dados sem equí-
punctualmente. A existência de mações condicionadas motoras nos p e i - voco: trata-se de deficiências massa/as, freqüentemente o o r -
xes que não possuem córtex cerebral, o u mesmo nos invertebrados e ata
ganismo deixa em todas as circunstancias de responder a cer-
nos protozoários t u sugere q u e essas ['cações n ã o estão ligadas a n e -
tas excitações fisico-quimicas, a perturbação afeta certos f r a g -
nhum dispositivo anatómico particular e q u e devem exprimir u m a p r o -
mentos reais d o comportamento. O u , para ser mais exato, co-
priedade geral d o s fenômenos nervosos o u mesmo d o s fenômenos b i o -
rno s ã o a s adaptações fundamentais face a o m e i o v i t a l q u e
lógicos (25 M a s n o q u e concerne ao funcionamento d o p r ó p r i o córtex,
são comprometidas, a s solicitações desse m e i o s ã o suficien-
a fisiologia moderna caminha no sentido de Pavlov? Se b e m que a dis-
tes normalmente para revelar e caracterizar a doença. O com-
cussão permaneça aberta seja naquilo q u e concerne aos limites d e t a l
portamento patológico poderá então m u l t o freqüentemente ser
ou t a l centro, seja naquilo que concerne à definição das funções mentais
dernido através do u m a análise real q u e enumere as mações
a localizar e m cada caso particular, u m acordo parece ocorrer /3) sobre
conservadas e as reações abolidas. P a r a r e l i g a r e n t r e s i o s
o sentido d a s localizações e m geral, sobre a significação d o l u g a r n a
sintomas e delimitar uma entidade nosologica, poder-se-á f r e -
substância nervosa. Gostaríamos d e f o r m u l a r alguns desses resultados
qüentemente descobrir u m encadeamento real de efeitos e cau-
adquiridos, u m a v e z q u e eles n o s permitirão conhecer o " s e t o r c e n -
tral" d o comportamento e compreender sua inserção n o corpo_ sas, observáveis e m princípio, que conduza das manifestações
superficiais à perturbação essencial. I s s o poderá então ser de-
l a U m a lesão mesmo localizada pode determinar perturbações de signado c o m o a origem causal d a doença, e , mesmo s e a l -
estrutura que interessam a o conjunto d o comportamento e perturbações tera o funcionamento d e t o d o o organismo, t e m u m a sede
de estrutura análogas podem s e r provocadas p o r lesões situadas e m d i - definida e pode s e r locailzado sobre o m a p a d o c o r p o . —
ferentes regiões d o córtex. Transportado e m patologia m e n t a l e s s e método d e análise
real e d e explicação causal levou a d e f i n i r a afasia o u mais
A a n t i g a teoria das localizações subestimava duas d i f i - geralmente a s agnosias p o r certas perturbações circunscritas,
culdades d e fato, — a de localizar a lesão e a de localizar a pela ausência de certos conteúdos d o comportamento. Acredi-
função, — sobre as quais IVIonakov ins;stits ( 1 , mas também tou-se que a sintomatologia das doenças mentais pudesse se
uma terceira dificuldade, a d e d e f i n i r a doença estudada e
contentar também e m n o t a r a s deficiências. N ã o s e aperce-
a função n o r m a l correspondente, q u e ela, n ã o podia s e r u l - bia q u e o sintoma é uma resposta do organismo a uma ques-
trapassada s e m u m a reflexão metodológica, s e m u m a t e o r i a tão d o melo, e que dessa f o r m a o quadro dos sintomas v a -
biológica d o conhecimento. Sabe-se h á longo tempo, q u e é ria c o m as questões q u e s ã o colocadas a o organismo t u . O
para a patologia u m problema c o n s t i t u i r a s "personalidades sintoma corresponde sempre a u m a expectativa d o espirito,
nosológicas", descobrir a perturbação fundamentai donde d e - e, p a r a q u e s e j a significativo, é necessário q u e e l a s e j a
riva a multiplicidade dos sintomas observáveis. Mas, e m p a - precisa_ Retomando a s classificações confusas q u e são dadas

II ( I ) e ( 2 ) P l é r o n , I t . Itétlexes Conditionnés, p . 3 5 .
13l C l ' . p o r exemplo a s conclusócs convergentes d e l i . P l é r o n . O ch-enro e o pensa.
mento. e K . G o l d s t r i n , D r e L o k a l l s a t i o n I n d e r G r o s s h i r n r i n d e n a c h • e n E r f a l t r u n g e n
na linguagem, o médico perguntava somente se o doente p o -
de f a l a r, compreender, escrever, l e r. P o r s u a vez, o s psicó-
logos, se haviam TO/11111C1940 a "faculdade d e f a l a r " o u à " f a -
culdade d e s e l e m b r a r " , estavam limitados a elaborar seus
aio k i m n b e n Mcrischen. I n ; H a n d b u c h d e r ~ m a t e s , a n d ptitholigizehen Physiotorne.
equivalentes enipiristas, e o a t o concreto d a palavra o u d a
hgg v o n B r i l i e , t . X . referência a o passado estava reduzido à possessão d e certos
(4) t i n a lesão p o d e s e estender o t e r r i l n H o s m u l t o afastados daqueles e m q u e é m u i - conteúdos de consciência específicos, "representações" ou "Ima-
tomicomente a s s i n a l a d a . — P o d e t o m a r impoasivei u m a f u n ç ã o %em q u e s e l e n h a o gens". A afasia e a amnésia deviam então necessariamente se
direito d e l o c a l i z a r essa f u n ç ã o n o s t e r r i t ó r i o s o f e n d i d o s . P. neeessarin então q u e v i m ,
definir conjuntamente como a perda o u a perda d e controle
espeeintiradas i n t r O d u z a m n o e e r e b r o e s e s t i m u l a ç õ e i p r o v e n i e n t e s d o s a p a r e l h a s S e n •
sorinis o u l e v e m n o s m ú s c u l o s n s exchtaeges centrifugaa i r l . G o l d s h - I n t t r a b a l h o c i - de certos conjuntos de estados psíquicos. O s médicos decom-
tado, p . 6 3 0 ) . i l a v e r á então u r n a projeção anatómica d a p e r i f e r i a d o organismo s o b r e punham à revelia n o comportamento d o afaste° aquilo q u e
o córtex c e r e b r a l . M a s n ã o ê = c a s a r i o c o n c l u i r d a l u n e n o f u n c i o n a m e n t o 0 0 p r e - se deixava i n t e r p r e t a r c o m o u m a perturbação d a s Imagens
tensos centros d a z o n a d e p r o j e ç ã o s e c o m p o r t e m c o r n o g o v e r n o s ~ r i a m o s . A d l , -
tinção a n a t ô m i c a des " i l r o j e e ã o " e t i a " a s s o c i a ç ã o " n ã o t e m v a l o r l i a l o l é g t r o . U n i a
lesão ° c r i p t a l p r o d u z cegueira, m a s l e s o n ã o ' S e i n e n r t u e s e v e j a "Caos" o l ó b u l o
ocelpilat,
r i ) G o l d s t e i n . D e r i t u r b o u d e a f i e u a n t s m o s . p . 9 - 11

90
91
IP

verbais. S e outros sintomas se apresentavam, o u b e m eram las que exigem a mesma atitude d e gratuidade " C a d a vez que ( c i
rellgados a lesões suplementares, eram colocados d e lado c o - doente) é obrigado a sair d o real para entrar n a esfera daquilo que não
mo alterando a 'pureza" d o caEo, o u então, como freqüente- é senão "possível" o u "concebido", é conduzido a o fracasso" (21, e isso
mente a observação d o doente ultrapassava o quadro teórico quer s e t r a t e d a ação, d a percepção, d a vontade, d o sentimento o u d a
da doença, buscava-se derivar o s sintomas perturbadores das linguagem. U m a perturbação específica deverá então sempre s e r r e c o -
"perturbações primárias", — a parafasia d a surdez psíquica, locada n o comportamento d e c o n j u n t o , e , desse p o n t o d e vista, u m a
as perturbações d a escrita d a destruição o u d a ineficácia das comparação torna-se possível entre o quadro da afasia e o de outras doen-
"Imagens verbais" t i ) . ças, E m todas as situações trata-se sob certa medida d a deficiência d e
O constrangimento d o s fatos, as contradições d a teoria obrigaram urna função fundamental que Gelb e Goldstein chamam "atitude catego-
rial", Read poder de "expressão simbólica", Woorkon "função d e media-
a psicologia e a fisiologia a tomar consciência dos postulados que as ha-
tização" (clarstellende Funktion) t 3 i • C o m o o comportamento d o doente
viam d i r i g i d o p a r a a concepção clássica d a s localizações. A t e o r i a das
adere, m u i t o m a i s estreitamente q u e o d o normal, à s relações concre-
imagens verbais, c o m o a filosofia d a s faculdades, e r a a o mesmo tempo
realista, urna vez que analisava o s atos e m fragmentos reais, e abstrata, tas e imediatas d o melo, a perturbação fundamental poderá ainda se de-
uma vez que o s isolava d e seu contexto. O espírito anatómico buscava finir como " a incapacidade de apreender o essencial d e u m processo" t u
reall7ar o funcionamento nervoso nas conexões visíveis e n o s territórios ou e n f i m c o m o a incapacidade de destacar claramente u m conjunto p e r -
circunscritos. A s pesquisas modernas, a o contrário, procedem e m t e r - cebido, concebido, o u desempenhado, a t i t u l o d e figura, sobre u m fundo
mos d e descrição concreta e d e análise ideal. A s lesões d o córtex Oca- tratado como indiferente A transformação patológica ocorre n o sen-
sionam raramente perturbações eletivas q u e Interessariam isoladamente tido d e u m comportamento menos diferenciado, menos organizado, mais
a certos fragmentos d o comportamento n o r m a l C o m u m e n t e o orga- global, m a i s a m o r f o L61. A c o n t e c e n a M e x i a q u e o doente possa l e r
nismo n ã o s e t o r n a p u r a e simplesmente indiferente a certos setores seu n o m e como palavra, mas n ã o a s letras q u e o compõem tomadas ã
do meio físico químico, não perde a aptidão para executar u m certo con- parte; n a afasia motora, que possa pronunciar urna palavra inserida e m
junto d e movimentas. Sabe-se q u e o alásico o u o apráxico são capazes um c o n j u n t o verbal, m a s n ã o , s e e i a está isolada. N a hemiplegia, o s
ou incapazes de certas ações verbais o u reais segundo estejam situadas movimentos de conjunto, o "legato", permanecem p o r vezes possíveis, en-
em u m contexto concreto e afetivo o u a o contrário sejam "gratuitas". quanto q u e o s movimentos distribuídos, o "staccato", s ã o comprometi-
Em certas afastas amnésicas, a observação mostra que o paciente n ã o dos IT c l a r o q u e a q u i a doença n ã o concerne diretamente a o c o n -
perdeu propriamente a s palavras, q u e permanece capaz d e emprega- teúdo d o comportamento mas à s u a estrutura e que, e m conseqüência,
Ias e m linguagem automática; o paciente perdeu o p o d e r d e nomear, ela não seja alguma coisa que s e observa, mas sobretudo alguma coisa
porque, n o a t o de denominação, o objeto e a palavra são tomados c o - que s e compreende, A c o n d u t a d o d o e n t e n ã o s e d e d u z d a c o n -
mo representantes d e u m a categoria, considerados então d e u m c e r t o duta d o n o r m a l p o r s i m p l e s subtração d e p a r t e s , representa u m a
"ponto d e vista" escolhido p o r aquele q u e nomeia, e q u e esta "atitude
categoria!" n ã o é m a i s possível e m u m s u j e i t o reduzido à experiência
concreta e imediata O que é inacessível, não é então u n i certo esto- (I) A Ittlinélila d o s nomes d e cores s e acompanha, n o paciente estudado p o r Goitisleint
de perturbações d a capacidade d e r e u n i r a s c o r r a Seglitid0 U m p r i n c i p i o d e c l a s s i -
que de movimentos, mas u m certo t i p o de atos, u m certo nivel de ação.
ficação tiOlio t o r o o clareza, o r a a tonalidade f u n d a n t e n t a l t • É q u e esta operação. p a r a
Compreende-se, e m conseqüência, que a perturbação não se l i m i t a a urna ser e f e t ~ d a e l i r r e i g e x i g e a all•Sala a l l I O de categorial q u e n e t - c a s a d a p a r a
faculdade particular mas se encontra, em graus variáveis, em todas aque- manar u m o b j e t o . É necessário t o m a r u m a a m o s t r a , c o m o o representante t l e m o a
categoria d e c o r . O d o e n t e s ó t e n t condições d e c l a s s i f i c a r segundo Impressões t o m
eu, bui d r semelhança q u e S e f o r m a m n e l e , m a s n ã o s e g u n d o u m p r i n c i p i o d i r e t o r
que o r i e n t e a classificação. E l e c l a s s i f i c a d e s s a f o r m a s e u p r i n c í p i o , e d a l a d v ê m
0 G o l d s t e i n . D e r A u f b a u d e s Organismus p . 9 - 11 . que, a b a n d o n a d o à s s a n a Impressões d e c o t - t e n r a , c o l o q u e c o n j u n t a m e n t e o r a : 4 .
(2) A s p e r t u r b a ç õ e s e l e t i v a ! ' B e prculuitern t ã o s o m e n t e ' e m c a s o d e l e s ã o circuns.. tias q u e 111, asseineibun, segundo o IX•liKriii d e c l a r e i a , o r a e Inopinadamente annettnis
n u a f i a " %•la% q u e r e l l g e m n c á r i e , à p e r i f e r i a o u n a s lesões d a s regiões d o c ó r t e x que s ó t e m de COMUM a t o n a l i d a d e f u n d a m e n t a l , q u a l q u e r q u e s e j a i i i n s t r u ç ã o d a d a .
com a s q u a i s o s v i a s e s t ã o e m r e l a ç ã o i m e d i a t a " . ( G o l d s t e i n . P i e 1.nkaltsation i a Gclib e Goldstein, t r a b a l h o c i t a d o . p . 141.3 s q q .
der Grosahírnrinde. p . T o d o ferimento, e mestno c r r t a s comoções, acarretam, edém 12) G o l d s t & n , D e r Aufbern d e s Orpmzn1srnux, p . 1 8 .
das deflete/toas c i r c u n s c r i t a s , p e r t u r b a ç õ e s g e n i a i s d i O funcionantento c e r e b r a l ( a b a i - (2) I d . ,
xamento d o ' nivel d o e s f o r ç o d a atenção, d a " t e n s ã o n e r v o s a " ) ( r i é r o n L c Dertread (4) II d
d .. ,. ibbui S
et te. Pens.'e. D . 5 1 ) . (5) d .. , p . 1 0 e P i e L a i t g l i s a l i o n i n d e r GroaNlitentlindes p . f i c o .
12i G e l i t e G o l d i t e l n , U e b e r Yarbcnnarnvlialflflclle, P s g e h o l o g i s e h t Forst/rung, V I . 192,5, 1611 Goldstein, D e r A n i l ' « d e i Organtynins, p . 2 0 ,
p. 127-180. (7) G o l d s t e i n , M e L n k a l l s a t i o n i n d e r Grossitinrdnde, p . 6 6 7 .

92 93
v.

alteração qualitativa, e , é n a m e d i d a e m q u e elas exigem u r n a a t i - perturbações t ê m u m caráter sistemático. O r a , parece impos-


tude d a q u a l o p a c i e n t e n ã o é m a i s c a p a z , q u e c e r t a s açriee sível d e r i v a r essas diferentes deliclencies d e u m a delas, p o r
são eletivamente perturbadas A p a r e c e a q u i e n t ã o u m n o v o t i p o exemplo d a perturbação d a percepção visual q u e h a v i a sido
de análise, q u e n ã o consiste m a i s e m Isolar elementos, m a s e m c o m - Inicialmente observada e à qual e m seguida havia-se dado p r i -
preender a fisionomia d e u m conjunto e sua lei Imanente. A doença não meiro ( n u m a preponderância que ela não tinha. Todas as de-
é compreendida m a i s , segundo a representação c o m u m , c o m o t i n i a ficiências parecem e x p r i m i r u r n a alteração f u n d a m e n t a l d o
coisa o u u m a potência q u e acarrete d e s i certos efeitos; o funciona- comportamento: " E m t o d o l u g a r o n d e fosse necessário p a r a
mento patológico n ã o é também, segando u m a idéia m u i t o divulgada, reagir corretamente possuir u m dado de urna só vez corno u m
homogéneo ao funcionamento normal. É u m a significação nova do com- todo articulado, o paciente fracassava, enquanto que agia v i -
portamento, c o m u m a u m a m u l t i d ã o d e sintomas, e a relação d e p e r - va e felizmente cada vez que u m processo sucessivo e r a s u -
turbação essencial aos sintomas n ã o é mais a d e causa para efeito, mas ficiente para o acabamento de sua tarefa 12/• Encontra-se en-
sobretudo a relação lógica d e princípio a conseqüência o u cio significa- tão e m presença d e u m a perturbação d e estrutura determi-
ção a sinal. nada p o r urna lesão circunscrita. E s t a correlação j á t i n h a
sido observada p o r Head 1.35, que a considerava como uma l e i
geral d o funcionamento nervoso,
Os trabalhos d e Gelb e Goldstein tornam b e m claro
caráter estrutural d a s perturbações consecutivas à s lesões d o A observação que acabamos de resumir e comparada pe-
córtex e justificam a i d é i a d e urna comparação e n t r e d i f e - lo próprio Goldstein àquelas que outros autores deram e que
rentes doenças cerebrais. E l e s constatam, e m u m f e r i d o d e versam desta vez sobre afesicos, O doente estudado p o r B o a -
guerra (Selmeider. designado s o b s u a inicial e m seus t r a b a - mente e Grunbaum t o apresenta perturbações à primeira vis-
lhos), perturbações interessando conjuntamente a percepção, ta m u l t o diferentes das de S . . . O doente de Gelb e Goldstein
o reconhecimento e a memória visual I n , a especialidade dos reconhece algumas vezes u m objeto, a despeito d e suas p e r -
dados tácteis e o reconhecimento t á c t i l — a motricidade ( o turbações visuais, por certos detalhes característicos, por exem-
doente é Incapaz d e começar o u d e completar u m movimen- plo u m dado com alguns pontos negros que nele estão m a r -
to de olhos fechados) — enfim a memória, a inteligencia e cados. A o contrário, o paciente de Boumann e Grunbaum não
a linguagem (3). A s concepções clássicas autorizariam a diag- percebe o s detalhes e esses autores concluem disso q u e n e -
nosticar n o doente a o mesmo t e m p o u m a cegueira psíquica. nhuma aproximação poderia s e r f e i t a e n t r e o s d o i s casos.
uma astereognosia, e perturbações d a Inteligência, c o m lesões Mas n a realidade, se acontece que S . . , s e j a embaraçado p o r
difusas d e diferentes partes d o cérebro. M a s trata-se d e u m detalhes m u i t o precisos ( é p o r exemplo incapaz d e reconhe-
ferido d e guerra, que parece apresentar uma lesão única pela
explosão d e u m a granada, e p o r o u t r o lado a Integridade d a
sensibilidade e d a motricidade elementares, a aparência n o r - e Goldstein, s e j a peto3 a l u n o s deles, e a lanada rViWra O d o d o e n t e I n i c i a l m e n t e r e c o l h i d o
mal d o comportamento corporal e espiritual n a v i d a p r á t ca ao ! n i m b a i d o s f e r i d a s d o c é r e b r o , d e p o i s s u b m e t i d o a e x a m e s p e r i ó d i c o s n o d i s -
tornam p o u c o verossímil a hipótese d e lesões múltiplas. A s pensário d e P r a n c l o r t s u r - l e - M s t i n , p r o s s e g u i d o s p o r v á r i o s a n o s , e d i K g i d os
• t a c t o s o s a s p e c t o s d e a t u i c o m p o r t a m e n t o t i n c i t i s i v e a ()ondula s e x u a l ;
cf, S t e i n ( e l d . E i n D e l t r a g Z u r A n a l y s e d e r S e x u a l f u n k t i o n , Z t a c h r. f . 4 . g e s . N e u z a -
'avie a n d P s r h i a t t e , 1 8 7 (1927)- p . 1 7 2 s q q ) . C o n s t i t u i u m d o c u m e n t o <mico. U t i l i -
zaremos n u u m o u t r o t r a b a l h o 113 a d m i r á v e l , descrições d a escola d e G e l b e Goldstein
Gelb e Goldstein, Z u r Psychologie d i a Optinehen Wahrnelimungs i n i d Erkenrumgsvor- no q u e concerne á s relaçõe• r a istentes i m i t e Ga perturbações p r o p r i a m e n t e perceptivas
ganges, I n Pburbologisehe Anafasen Ilirnapaihotng.seber F a l h e . t . p p . 1 , 1 4 2 . 1eaP, 11 / - e a p e r t u r b a ç õ e s d o p e n s a m e n t o . A q u i conserkaremos dessas t r a b a l h o s a p e n a s o
121 I b i d . , p p • 157,250 ( r o p . I I ) , l i e b e r d e n E i n t r u s z d e i vollatandkren vez-Instes d e ' noressarlo p a r a a colocação d o p r o b l e m a d o s localizações e d a s i g n i f i c a ç ã o d o l u g a r
na substancia n e r v o s a .
atonsehen Vaelettunasvermagens n a l d a s t u k t d e E r k e n n e n . — G o l d s t e i n . l ' e b e r 11 e
Althangigiteit d e r Bessegungen v o u optischen Vo r ; a g e n , M o n a b e h r i f t f o r Psuebtairie u n d t i l N o seu p r i m e i r o trabalho ( a q u i mesmo citado. p . 7 0 , n 9 3 t , G e l b e Goldstein
Neurologie. t . 154-53, 1023-1924, p p , 141-194. diagnosticaram u m a "Gestallblindhe.1" o u c e g u e i r a p e t a s f o r m a s . O s estudos s e g u i n -
tes a m p l i a r a m o diagnústico.
(3) Psueholagisehe A n a ! y s e n Ilienpathologisehre F a l t e , hgg. v o n A . G e l b u . K . G o t t h
leia; b e n a r y, S t u d i e n z u r l ' u t e r s i t e i n i n g d e r Intellgensz b e l e i n e m F a l i v o n Seetenblim 12) G o l d s t e i n . D i e L o k a l i t a t i o n i n d e r Geosehientinde. 2 . a 5 5 ,
Pladrologie F o r s e b u n g , t . 1 1 11922J. p p . 2 0 9 . s s q . ; e H o e b e i m e r A m t l y s e 13/ R e a d . " S p r e c h a n d t e r e b r a i locczatarlon% b r i d o , v o l . 4 2 (1923). 11. 355.
eines Soelenblinden V on d e r Sr/rache aos. Psgehalagisrhe Furschang, 1. X V I , 11932/. o p . 1 (4) Experimentellpychologisehe Untersebungen a t m A p l a u d e u n d Va m p h a s i e . - Z t s c h n f .
sqq. - - To d o s esses estudos f o r a m f e i t o s s o b r e o m e s m o paciente S . — , s e j a p o r G e l b d. ges. Atenro/00k a n d P i c c h i o / r i r - 1. 08, 1925, p p . 481 som. — Goldstein, i b i d .

91 95
Ir

cer e m u m círculo m a l desenhado u m "mau círculo"), é sem- ação s o b s i m p l e s i n d i c a ç ã o v e r b a l ; e l e s n e c e s s i t a m ,


pre porque sua percepção não v a i ao essencial; a incapacida- para consegui-lo, recolocarem-se n a situação psíquica corres-
de de transpor os detalhes e a incapacidade de perceber qual- pondente ( o que 8 _ o b t é m repetindo a ordem q u e l h e f o i
quer deles são n a roa2idade perturba:Aes da mesma ordem P , dada). U m e o u t r o n ã o p o d e m apontar a direção d e o n d e
nos dois casos, se está igualmente distanciado d a percepção vem u m s o m sem orientar seu corpo p a r a esta direção, U m
organizada d o normal, capaz a o mesmo tempo d e apreender e o u t r o podem localizar urna d o r sobre seu corpo p o r meio
conjuntos sem que eles sejam confusos e d e colocar e m evi- do tato, mas são igualmente incapazes de transferir para u m
dência detalhes quando e l e s t ê m u m a significação. O s d o i s esquema o ponto onde a m ã o deles s e detém, Wo e r k o n i n -
doentes apresentam a mesma deficiência fundamental d a "es- sistiu sobre a superioridade d e S . . . n o emprego d a l i n g u a -
trutura f i g u r a e f u n d o " . O s detalhes e m S . . . n ã o são esco- gem e n o manejo dos conceitos e s)bre as deficiências d e seu
lhidos corno essenciais, integrados e m u m conjunto, — eles paciente nesse domínio. M a s p a r a apreciar exatamente o es-
não são propriamente percebidos. S e ele reconhece u m obje- tado d e S . . . e m relação a isso, é preciso t e r e m c o n t a a s
to e m s u a a l t u r a e e m s u a largura, essas propriedades n ã o suplências que, nele, mascaram a gravidade das defielariclas.
silo apreendidas diretamente, m a s reconstituídas e deduzidas Na realidade u m a observação a t e n t a mostra, p o r exemplo,
de certos sinais confusos (2/ N a realidade então, não h á se- que a adição nele se reduz a u m a operação manual, sem n e -
não diferenças superficiais e n t r e a s perturbações perceptivas nhuma i n t u i ç ã o d o s números ( I ) . Q u a n t o à linguagem, e l a
no paciente d e Gelb e Goldstein o n o d e Boumann e G r u n - não é , a despeito d a s aparências, absolutamente n o r m a l e m
Intim. P o r o u t r o lado, este apresenta perturbações d a aten- S.. o paciente não pode seguir u m ssrmão o u u m discurso.
ção, do pensamento, d a linguagem espontânea, d a leitura, d a Ele s ó f a l a corretamente e m resposta às solicitações d e unta
denominação e d a articulacão c u j a f o r m a d c o m u m e seme- situação concreta, e m todos o s o u t r o s casos, deve preparar
lhante à das perturbações d e S . . . : e m todos esses domínios de antemão suas frases_ Para recitar as palavras de uma can-
"o processo psíquico o u psicomotor está fixado e m u m a fase ção, é o b r i g a d o a t o m a r a a t i t u d e d e c a n t o r. E l e n ã o
primitiva d o desenvolvimento q u e v a i d e u m a impressão d e pode subdividir e m palavras u m a frase que acaba d e pronun-
conjunto amorfa a u m a estruturação tAlgestaltungi m a i s d i - ciar e inversamente, palavras coerentes, m a s separadas p o r
ferenciada ( . . . ) " (3 1 • urna pausa, n ã o constituem jamais p a r a ele u m a frase. E l e
não sabe nem soletrar as letras de uma palavra que pronun-
A comparação é ainda mais demonstrativa e n t r e a o b - cia b e m corno conjunto, n e m escrevê-las Isoladamente, e n -
servação de Gelb e Goldstein e a d o alásico de Woerkom quanto q u e possui a palavra c o m o conjunto m o t o r automá-
As diferenças d o s d o i s casos s ã o evidentes: o doente d e
tico. I s t o mostra a que p o n t o a linguagem é nele deficiente.
Woerkom dispõe n o domínio visual de dados m u i t o mais bera se b e m q u e essas insuficiências s e j a m especialmente marca-
organizados que o s d e S . . . , q u e se reduzem a manchas c o - das n a intuição d o s conjuntos simultâneos. ( 2 )
loridas sem contorno n e m dimensões precisas. Inversamente,
S... f a l a m u l t o m e l h o r q u e o doente d e Woerkon. dispõe As experiências d e Lashley (31, retomadas p o r Buyten-
de expressões m u i t o mais numerosas e a correção gramatical dlik, c o n f i r m a m e s t a descrição d o comportamento m ó r b i d o
nele é constante. Essas diferenças, — sobre as quais uru pró- nas lesões centrais d o córtex. O s movimentos elementares que
ximo parágrafo n o s t r a r á d e volta, — n ã o devem mascarar "compõem" o comportamento d o r a t o , — o s atos d e c a m i -
os traços que coincidem absolutamente nas duas observações. nhar, saltar, conservar-se d e p é sobre a s patas posteriores,
Os dois pacientes são igualmente incapazes d e executar u m a — n e m as discriminações sensoriais que os regulam parecem
comprometidos ripas cauterização das regiões central e f r o n -
tal d o córtex, M a s o animal é desajeitado, todos os seus m o -
<II Salte..se q u e estão a i ass caracteres d a percepção i n f a n t i l , a o m e s m o t e m p o atai%
sincrética e p o r veres m i n u c i o s a q u e a d o a d u l t o .
(2) C l ' . p o r e x e m p l o G e n , e G o l d s t e i n . Z u r Itsycliologie d e s optisellen Wa t i r n e l i m i l u a (1) C l ' . B e n a r y. S t u d i e n s o r Unterschung d e r I n t e l l i g e n s b e i t i n e m F a l i v o n Seelea.
und ttrItrintingsvorganges. , p p . 6 9
billatheit l'IlksrhOratillebe Forsehralg% t . H ( 1 9 2 2 ) , p p . 209.297. e e m p a r t i c u l a r, p / ) .
(3) G o l d s t e i n . D i e L o k a t i z a t i o n I n d e r ( i r o s s i t i e n r i n d e " p . CGS. 222-224.
(4) U r i t e r Storungen I m D e n k e n b e i Aphasieputienten. M o n a t i c h t l f t N r P. w r h l a t r i t (21 G o l d s t e i n . l i t e L o k a t i s a t i o n i n d e r G r e s s i d r u r i n d e , p p . 679-B72,
and Nautatogia% t . 5 9 . 1925, p p . 2 5 6 s q q . lashicy. B r a i n natchantnn a n d Intelligente-, Chicago. / 9 3 9 .

97
de cada caixa, p a r a faze-la depender d e seus caracteres c o -
primeiras experiências, o cão corre sempre e m direção ao l u -
muns. A i n d a assim, ela não permitiria compreender como as
gar e m q u e o objetivo s e encontrava inicialmente colocado.
caixas são visitadas n a o r d e m d e suas distancias crescentes.
No dercurso das experiências ulteriores, o c ã o segue o obje-
De fato, é esta ordem que está acima de t u d o p o r explicar.
tivo e m seu movimento ao Jongo d a grade e o apreende n o
O estimulo adequado desta mação s e encontra e m u m a r e - momento em que chega na altura da segunda abertura. E n f i m
lação constante q u e u n e o estimulo p r ó x i m o e o estimulo
o cão se d i r i g i r á diretamente p a r a a segunda abertura, onde
precedente, a caixa a visitar e a caixa visitada, e que expri-
precederá e esperará o objetivo (1). S e se admitisse q u e a
mimos dizendo que é preciso " t o m a r sempre a seguinte". E s - segunda abertura d a grade tornou-se o estimulo concliciomi-
ta relação é e m s i mesma invariável, mas seu ponto de a p l i -
do das reações d o animal, esse estimulo não levaria vantagem
cação é diferente p a r a cada nova experiénda, e, sem ele, eia sobre a ação d o estimulo incondicionado q u e está e m c o n -
não t e r i a nenhuma utilidade. Equivale a dizer que o estímulo
corrência com ele, p o i s l h e t i r a r i a t o d o seu poder, e n ã o se
adequado s e d e f i n e p o r u m a d u p l a referencia d e u m l a d o
explicaria o f a t o d o c ã o abandonar s u a presa p a r a i r e s -
à o r d e m espacial, d e o u t r o á o r d e m d a s operações efetua-
pera-la e m u m ponto, e m q u e ela ainda não está. É preciso
das. U m a reação a essas duas relações n ã o é abstrata u m a
então q u e o objetivo tenha cessado d e se d e f i n i r pelas esti-
vez que elas t o m a m e m cada caso urn v a l o r singular; e nem mulações que exerce atualmente sobre o animai, seja Inserido
muito m a i s u r n a reação a q u i l o q u e existe d e ind:vidual e m nas estruturas espaciais e temporais que o mediatizarn e r e -
cada caixa, u m a vez que é a ordem d o conjunto que confe-
ligam s u a posição presente, a abertura d a grade e o p o n t o
re a cada u m a seu v a l o r d e estimulo positivo_ O sucesso d a
de posicionamento d o cão. Pode-se assistir a u m a substitui-
criança nesta experiência e o fracasso do macaco manifestam
ção desse género e m u m a o u t r a experiência d e Buytendijk.
na primeira a aptidão e n o segundo a incapacidade de se des-
Ele se perguntou qual seria o comportamento d e u m r a t o se
prender d a estrutura elementar que confere ao l u g a r em que
tivesse de escolher entre u m caminho q u e leva d e imeadito
se atinge o objetivo u n i valor reflexogeno positivo, para abrir-
em direção a o objetivo ( a s experiêneisa d e Toll-Jean h a v i a m
se a estruturas m a i s complexas e m q u e o v a l o r reflexogeno
mostrado que para u m comprimento igual, esse caminho é p r i -
é distribuído e m função d o espaço e d o tempo. vilegiado) e u m segundo caminho q u e dele s e distancia I n i -
Assim, a descrição objetiva d o comportamento descobre n e l e u m a cialmente, mas ocorrendo s e r m a i s c u r t o <21. A experiência
estrutura m a i s o u menos articulada, u m a significação i n t e r i o r mais o u mostra q u e a estrutura simples (direção d o objetivo — d i -
menos rica, a referência a 'situações" o r a individuais, o r a abstratas, o r a reção do caminho) pode ser, n o rato, deslocada p o r u m a es-
essenciais, i m i t i r a m a i s complexa e m q u e intervém o comprimento d o
caminho ( f i g . 2 ) , Seis r a t o s introduzidos n u m aparelho t e n -
A mesma variedade se n o t a r i a se considerássemos as condutas e m tam Inicialmente a t i n g i r diretamente o o b j e t i v o e são b a r -
si mesmas mais "difíceis" e mais "integradas" q u e as condutas elemen- rados pelo v i d r o V, depois t o m a m p o r s i mesmos o caminho
tares d o sinal, — e m q u e o estímulo condicionado e o estímulo i n - A E D Z . Q u a n d o t e r m i n a m o c a m i n h o s ã o conduzidos
condicionado, e m l u g a r d e s e r e m simplesmente contíguos, apresentam pelo caminho mais c u r t o A B C Z . U m a primeira experiên-
uma relação que chamaríamos lógica o u objetiva_ O estímulo condicio- cia c r í t i c a é então instituída. O s animais s ã o colocados e m
nado d á l u g a r doravante a reações especiais q u e s e distinguem cada A e deixados livres. Cinco dentre eles tomam o caminho mais
vez mais das reações a o objetivo. Pode-se dizer e m 1.nguagem humana longo, c u j o s elementos iniciais estão n a direção d o o b j e t i -
que ele se t o m a o melo de u m certo f i m . vo, o sexto nele s e empenha inicialmente, depois r e t o r n a e
torna o caminho A B C Z . M a s se se coloca p o r várias vezes
Um primeiro exemplo d e comportamentos desse t i p o é os animais no ponto A, desde o f i m d a primeira jornada ( c n -
fornecido pelos casos em que u m estimulo se torna reflexoge- co provas) d o i s dos quatro ratos permanecendo e m curso es-
no e m razão (tirete d e suas relações espaciais o u temporais
com o objetivo. S e s e coloca u m c ã o diante d e u m a grade
que c o m p o r t a apenas d u a s aberturas e s e s e dispõe a t r á s 11) B u y i e n d i j k . t i l e Bedeutung d e r F e l d k a r t e u n d d e r I n t e n t i o n a l t l a t t i l e d o s Ve r b a l .
da grade, à a l t u r a d a p r i m e i r a abertura, u m objetivo móvel ten d e s H u n d e r. A r c h i u e s Nderiondaíses d P h p l u t o g i e , t X V I I , 1932. p p . 450-491.
que ladeia a grade i n d o n a direção d a segunda abertura, as (2) B u y t e n a l j k • F i s c h e l . T e r Laag, U e b e r d i r Z i o l e l n a t r i l u n g v o u R u l l e n u n d M i n d e n .
t. X X . 1935, p p , 440-166,

142
113
grau m a i s a l t o d e integração, u m a vez que não parecem d e -
sempmhar qualquer papel n o comportamento do cão, que, aca- periènclas q u e descrevemos, — e m q u e o t u b o mais delgado
bamos d e vè-lo, se adapta ás relações de espaço. S e u m pe- ou ao contrário o mais g r o s o f o i o mais aproximado, — e m
daço de carne é colocado sobre u m papelão e amarrado p o r 8 casos sobre 12, o macaco segurava o m a i s grosso c o m a
mão esquerda e o mais f i n o c o m a rnão direita. N a s outras
um barbante cuja extremidade pende até ao solo, os cães não
aprendem a atrair a s i o pedaço d e carne enquanto se l i m i - quatro experiências o animal restabeleceu a distribuição n o r -
tam a " o l h a r " ; é necessário que, brincando com o barbante, mal dos tubos assim que os teve em m i o s , sem nenhuma he-
sitação e antes mesmo d e tentar aproximá-los. Assim, a rea-
eles o f a ç a m c a i r fortuitamente t i U m c ã o observado p o r
Koehler, e que, em outras experiências se t i n h a mostrado mui- çâo d e reunião n ã o é d e m o d o a l g u m ligada á s proprieda-
des absolutas d e cada u m dos tubos, e l a é regulada a cada
to "Inteligente", muWplica a s reações a o objetivo, m a s n ã o
tente nada sobre o barbante que está disposto diante dele (2.. momento pela relação de seus diâmetros. N o decorrer da ex-
Os gatos não adquirem u m comportamento adaptado senão se periência inicial, é necessário p c i s pensar q u e e s t a relação
se esfrega o barbante com u m pedaço de peixe (3) , Pelo con- como t a l desempenhou u m papel decisivo, u m a v e z q u e é
trário os macacos inferiores (•11, e com m u i t o mais f o r t e r a - ela q u e o animal aprendeu a levar e m conta.
zão o s chimpanzés, parecem capazes d e reações adaptadas às Mas a d m i t e - s e g e r a l m e n t e q u e o c o m p o r t a m e n -
relações mecânicas e estáticas c o m o tais. É i n ú t i l descrever to d o chimpanzé ultrapassa o nível d o reflexo condicionado
a experiência bem conhecida no decurso da qual u m dos chim- adaptado a estímulos individuais. É , p a r a nós, m a i s Interes-
panzés de Koehler adapta u m ao outro u m bambu d e peque- sante n o t a r as lacunas e as Insuficiências das relações mecâ-
no diâmetro e u m bambu de diâmetro maior e utiliza o i n s - nicas e estáticas. H á alguma coisa d e a r t i f i c i a l n a s descri-
trumento p a r a trazer a s i u m o b j e t i v o q u e n ã o e r a direta- ções d o comportamento que apresentamos até aqui; solicitan-
mente acessível. Q u e r í a m o s s o m e n t e i n s i s t i r s o b r e O p a - do d o animal mações às relações geométricas e físicas, faz-se
pel que pôde desempenhar a posição f o r t u i t a dos bambus nas crer q u e elas são o quadro n a t u r a l d e s e u comportamento
mãos d o a n i m a l n o momento q u e precedeu sua descoberta. como são, para o homem, constitutivas d o mundo. E m reali-
Pode-se estabelecer que ela f o i a ocasião favorável, talvez mes- dade. antes que elas ascedam ao comportamento animal, é ne-
mo necessária, m a s n ã o a causa d a aprendizagem, S e , c o m cessário que outras estruturas mais naturais tenham sido r o m -
efeito t5t, se dispõe de quatro tubos d e diâmetros crescentes pidas e etnerjam d e conjuntos difíceis d e dissociar. L e m b r e -
e t a i s que a diferença d e u m ao o u t r o seja constante, apre- mos a experiência de Koehler onde u m chimpanzé que j á u t i -
sentando u m após o o u t r o ao animal os três pares possíveis, lizou bastões é deixado s ó n a sua jaula e m presença d e u m
de t a l maneira que o mesmo t u b o seja, n u m caso o m a i o r e objetivo inacessível e d e u m arbusto seco cujos galhos p o -
em o u t r o caso o menor dos dois, constata-se que a reação do dem s e r facilmente cortados. O s resultados são m u i t o desi-
animal não é adquirida c o m respeito a cada tubo considera- guais nos diferentes sujeitos. e. de qualquer maneira, urna so-
do individualmente. C o m efeito, desde as primeiras manipula-
lução n ã o intervém j a m a i s senão depois d e u m a l o n g a fase
ções desse gênero, tinha-se observado q u e é sempre o mais de inatividade. É que o galho d e árvore como estímulo n ã o
delgado dos dois bastões que é empurrado e m direção ao ou- é o equivalente d e u m bastão e a s propriedades espaciais
tro e q u e e m conseqüência o a n i m a l o segura sempre n a e mecânicas que lhe permitiriam assumir esta função não são
mão direita, m a i s hábil, o outro sendo m a n t i d o passivamen- de chofre acessíveis a o comportamento a n i m a l . N o e n t a n t o
te n a mão esquerda. Ora, no decorrer da segunda série de ex- um sujeito de Koehler, que nas experiências precedentes t i n h a
aprendido a manejar caixas, n ã o se serve d a que l h e é o f e -
recida e n q u a n t o u m o u t r o m a c a c o e s t á n e l a assentado;
Buytendijk, Psychotogfr S e Anintaux, p p 2 2 0 m • l , ele apóia-se nela, n ã o s e p o d e p o i s d i z e r q u e n ã o a t e -
t21 Kottizirr, t n t d r i g e n p r s f u n g . n , p . 1 9 . nha visto, m a s e l a permanece p a r a ele u m p o n t o d e apoio
(3) B u y t e n d i j k ,
ou d e repouso, e l a n ã o pode tornar-se u m instrumento 0 1 .
Cr* Shepherd, Test% o n scluplative Intel] I [...tate I n 111,ezu4 monkeys • A m e r. Journ.
o/ P s y c h o l o w 1 8 1 5 . 2 6 — Selimann nn.1 Trrnctelvnburg, to-In l i e l t r a g z u r I n t e l Ilgenz As estruturas mecânicas não pudera pois tomar-se reflexoge-
t a l a i = A t r e n , 2 scher t e r perleigbenett Physislogir. 1920, 4 . p p . 1 8 0 Nqq, nas senão se estruturas mais fortes, que conferem u m v a l o r
(5J K o t h l i z r. Nachweis elsztacher Stretke•urtunkticnen. p . 0 mut.
Koetilzr, Intellígenzpnlrunvtn, p p , 1 2 8 s q q .
146
147
e que, quando u m a ponte lhes é apresentada, vemo-los a í se um estímulo pode s e r engajado e p a r a tratá-las todas como
Instalar, t i r a r u m dos arcos, e d a r "sinais d e pavor" quando diferentes propriedades d e u m a mesma Coisa.
o conjunto desaba. " To d a s a s outras experiências, acrescenta
Koehler n a s quais e m priacípio a intervenção simultânea de Koehler i n d i c a q u e a s estruturas visuais d o a l t o e d o
duas forças desempenham u m papel, fracassaram c o m o e s - baixo, a s coordenadas vertical e horizontal, v ã o a p a r c o m
ta" IIP N ã o é necessário cotejar com estas experiências o f r a - a posição e m pé: d e f a t o a criança não as adquire antes d e
casso d o animal quando s e t r a t a d e afastar u m a f r u t a para se p ô r d e pé, n o chimpanzé, q u e n ã o a s possui, a posição
aproximá-la e m seguida o u d e colocar e m relação dois c o m - de p é n ã o s e t o n n Jantais u m a atitude n a t u r a l 02/ , O d e -
ponentes perpendiculares, como acontece n a experiência da ar- senvolvimento cons!derável d o cerebelo e d o l a b i r i n t o corres-
gola e d o prego (21, n a do laço o u da corda enrolada em t o r - ponde nela evidentemente a esses dois traços de seu compor-
no d e u m a v i g a (a)? A mesma explicação n ã o é a i n d a v á - tamento. M a s q u e relação existe exatamente e n t r e esses três
lida para a "falta de habilidade" do animal nas experiências de fatos? É certamente, se se quer, p o r causa da enfermidade e
construção? Pois se t r a t a aqui ainda cie estabelecer u m a c o r - do privilégio d a proprioceptividade, que a postura de pé per-
relação entre d u a s forças distintas, d e satisfazer simultanea- manece u m a a t i t u d e excepcional. N o entanto, seria c o n t r á -
mente a s duas condições: a coesão p r ó p r i a d o andaime e a rio ao espirito d a Gestalitheorie explicar pelo desenvolvimen-
orientação d o c o n j u n t o com relação à vertical. A mesma d i - to d o labirinto e d o cerebelo o modo d e locomoção d o m a -
ficuldade n ã o s e encontra n o e q u i l í b r i o d o c o r p o prop510, caco. Se se recorda como Koehler concebe as relações da ana-
o "andaime" estando aqui completamente pronto. Assim, n ã o tomia e d a fisiologia (3) será necessário dizer que esta p a r -
é propriztrnente de u m a "enfermidade visual" t i , q u e se t r a - ticularidade anatômica e m s i mesma não é separável, na gê-
ta, o u antes a enfermidade visual é ela-mesma u m resultado: nese, d e u m m o d o d e funcionamento t o t a l d o organismo a o
a Insuficiência d a estática visual deve-se a que, n o domínio qual ela t r a z sua contribuição. É c l a r o que o mesmo r a c i o -
dos objetos exteriores aos quais se relaciona a visão, o equi- cínio é válido no que concerne à "enfermidade visual" do chim-
líbrio é o b t i d o pela composição d e duas forças Independen- panzé. O s t r ê s f a t o s concordantes que relembramos não são
tes. Trata-se pois d e encarar duas coisas como apenas uma, três acontecimentos e x t e r i o r e s u m a o o u t r o , t ê m t o d o s
duas forças como a expressão analítica de uma resultante que os t r ê s o m e s m o s e n t i d o , e x p r i m e m t o d o s o s t r ê s u m a
não t e m nenhuma parte comum c o m elas. A enfermidade v i - mesma estrutura d o funcionamento orgânico, u m mesmo es-
sual n ã o exprime senão a insuficiência d a s relações d e e x - tilo d e existência, s ã o t r ê s manifestações d e u m comporta-
pressão reciproca d o comportamento simbólico o u a i n d a d a mento adaptado a o Imediato e n ã o a o v i r t u a l , a o s valores
"estrutura coisa" ks,, A visão não é imperfeita senão porque funcionais e n ã o à s coisas. Segundo o s p r ó p r i o s princípios
é o sentido d o v i r t u a l . Cora efeito, nas experiências de volta da Gestalitheorie, esse comportamento deve ser compreendido
ao r e d o r d e objetos, cada v e z q u e u m movimento f o r t u i t o na s u a l e i Imanente, n ã o explicado p o r u m a pluralidade d e
do objetivo prepara a solução, o chimpanzé aproveita desta causas separadas, e não se deve apresentar a insuficiência das
Indicação: é que o movimento f o r t u i t o transportou o proble- estruturas estáticas n o macaco c o m o u m a "Insuficiência v i -
ma d o espaço virtual, onde ele devia s e r resolvido p o r ope- sual": é fazer c r e r q u e u m a deficiência é possível n ã o t e n -
rações possíveis, p a r a o espaço a t u a l onde ele começa a ser do s u a razão n a estrutura d e conjunto d a conduta, é v o l t a r
efetivamente resolvido ) pág. 1S5i s e m p r e a mesma capaci- à antiga psicologia dos conteúdos (15. É necessário a d m i t i r,
dade d o comportamento para t r a t a r o conjunto d o campo co- por c i m a das formas "amovíveis" d e que dispõe o chimpan-
rno u m campo de coisas, para multiplicar as relações nas quais zé, u m n í v e l d e conduta o r i g i n a l o n d e a s estruturas s e j a m
mais disponíveis ainda, transferíveis de u m sentido ao outro.

(1) K o e h l e r , L ' I n t e t t i g e n t e d e , singes a u p ê r i e n t s , p . 1 4 4 , a . 1 .


(2) I i i , . t b i t t . p p , 224,04'33.
(3) I d . , i b i d . , p p . 1 0 8 4 0 0 . Cr_ O s exemplos d e R e e l l i c r. p . 224.
(4) I d . , i b i d . , p . 143„ rt.e 1 , Koehler, L"Infrét:gence d e s • n g e s supérteursi p p _ 1 5 3 s q q .
(5) A e s p r e m i ° " d i n g l i e r o g e n e Ve r h a l l e n s é u s u a l n o ' e s c r i t o r e s d e A n g l i a ale:115. Cr. s u p r a , p • 3 8 .
( n u a . 1 1 4 1 f a l a d a - d i n É l b u n e G i l e d e u n g " i n a u t i d e t i l e d o eumporlamento a n i m a l . Na a n á l i s e d o c a s o S . , C e l l . e G o l d f l i n . e l e s t a m b é m , t i n h a m i n i c i a l m e n t e co...

154 155
'911f

dutor elipsoide n o q u a l s ã o depositadas cargas elétricas, a l e i segundo gração e constituir e n f i m u m a hierarquia onde a individualidade se rea-
a qual elas a í se repartem não enuncia simples coincidências; a relação liza sempre mais. Seria p o r definição impossível conceber uma f o r m a f í -
que existe e n t r e o tamanho d o s eixos, a s coordenadas d o p o n t o consi- sica que tivesse as mesmas propriedades que urna f o r m a fisiológica, u m a
derado e a carga que a i se estabiliza n ã o f a z senão exprimir a unidade forma fisiológica q u e fosse o equivalente de uma f o r m a psíquica. E n t r e
interior d o processo d e distribuição, seu caráter totalitário, n o q u a l ela os estímulos e as mações, n ã o haveria me:o algum de se encontrar u m a
encontra sua razão d e s e r. " E x p l i c a r e compreender n ã o são maneiras cadela continua d e ações físicas; o comportamento deveria s e r m e d i a -
difererentes de t r a t a r os objetes d o conhecimento, m a s coisas idênticas Usado pelas relações fisiológicas e psíquicas. M a s enquanto s e p e r m a -
em seu fundo. O que quer dizer que uma conexão causal não é urna simples nece n o ponto d e vista da psicologia, enquanto s e v ê n o comportamen-
seqüência d e f a t o s a registrar n a m e m ó r i a c o m o aquela q u e u n e u m to u m acontecimento d o mundo, Intercalado e n t r e acontecimentos a n -
nome e u m número d e telefone, é u m a conexão inteligível t i .," P o d e - tecedentes e acontecimentos ulteriores, realmente c o n t i d o e m u m s e t o r
se, portanto, conceder a fortiors nas ciências morais o uso das categorias
do espaço e e m u m segmento do tempo, esta mediatização vital e espiri-
de valor e de significação. O mundo, naqueles setores que realizam uma tual n ã o pode s e r compreendida senão como passagem d e u m plano d e
estrutura, é comparável (2) a urna sinfonia, e o conhecimento d o mundo realidade a u m o u t r o , a v i d a e a consciência serão introduzidas c o m o
é portanto acessível p o r duas vias: pode-se n o t a r a correspondência das condições adicionais q u e v ê m s u p r i r a s determinantes físicas I n s u f i -
notas tocadas e m u m mesmo momento pelos diferentes instrumentos e cientes. A s relações, as estruturas biológicas e psíquicas, voltarão ã c o n -
o encadeamento daquelas q u e c a d a u m deles t o s a . Obter-se-ia assim dição d e forças reais, d e causas motoras. Reencontra-se, e m u m a n o v a
uma multidão de leis que permitem a previsão. M a s esta soma d e coin- linguagem, o antigo espiritualismo c o m seus problemas, a noção d e es-
cidências n ã o é o modelo d e t o d o conhecimento. S e alguém conhecesse trutura f o i introduzida e m vão e a Integração buscada não é obtida. A
um fragmento d a sinfonia e a l e i de construzão d o todo poderia derivar psicologia d a forma está multo distanciada dessas conclusões e, n a maior
dele as mesmas previsões e encontraria alem disso n o t o d o a razão d e parte d o tempo, é antes p a r a o materialismo q u e ela s e encaminha, —
ser de cada acontecimento local. M a s se o conhecimento físico, n a m e -
antítese d a solução espiritualista que acabamos de indicar.
dida e m que considera estruturas, admite as categorias mesmas que t r a -
dicionalmente s e reservam a o conhecimento d a v i d a e d o espírito, e m O comportamento, diz-se, t e m suas raizes e seus efeitos últimos no
contrapartida a biologia e a psicologia não deverão p o r princípio se f u r - entorno geográfico, mesmo se, corno s e v i u , a í s e relaciona apenas p o r
tar à análise matemática e à explicação causal. Intermédio d o entorno próprio de cada espécie e de cada indtvIduo. " D e
que modo u m a causa situada e m u m universo d e discurso poderia p r o -
Assim, a teoria da f o r m a é consciente das conseqüências que acar-
duzir u m efeito e m u m outro? Todas a s nossas l e i s causais se referem
reta u m pensamento puramente estrutural e busca prolongar-se e m uma
a acontecimentos interiores a u m mesmo universo d e discurso e , p o r
filosofia d a f o r m a que substituiria a filosofia d a s substâncias. E l a n u n -
conseqüência, desde q u e o e n t o r n o geográfico pertença a o tmlverso d a
ca levou m u l t o longe esse trabalho d e análise filosófica. É que a " f o r - física, é necessário q u e seus efeitos a e l a pertençam também u i " A d -
ma" não pode ser plenamente compreendida, e todas as implicações des-
mito q u e e m nossas explicações ú l t i m a s n ã o podemos l i d a r senão c o m
sa noção desprendidas, senão e m u r n a f i l o s o f i a q u e s e libertasse d o s
um universo de discurso e q u e este deva ser aquele sobre o qual a f í -
postulados realistas que são aqueles de toda psicologia. Enquanto se bus-
sica t a n t o n o s ensinou i21". E m urna filosofia q u e renunciasse verdadei-
que u m a filosofia i n t e g r a l sem deixar esses postulados, não se pode se-
não c a i r no materialismo o u n o espiritualismo que se queria ultrapassar. ramente à noção de substância, não poderia haver senão u m universo, que
seria o universo das formas: e n t r e as diferentes espécies d e formas i n -
Com efeito, n a medida e m q u e u m a filosofia d a estrutura mantém o
caráter original das t r é s ordens e admite que quantidade, ordem e s i g - vestidas d e direitos iguais. e n t r e as relações fisicas e as relaçõs I m p l i -
nificação, presentes e m t o d o o universo d a s formas, São todavia carac- cadas n a descrição d o comportamento, não seria o caso d e se supor n e -
nhuma relação de derivação o u de causalidade, n e m portanto d e se exi-
teres "dominantes" respectivamente n a matéria, n a v i d a e n o espirito,
gir modelos físicos q u e sirvam p a r a suportar n o s e r a s formas fisioló-
é amda p o r u m a diferença estrutural q u e se deve considerar sua distin-
ção. E m outros termos, matéria, v i d a e espírito devem participar desi- gicas o u psíquicas, A o contrário, nos psicólogos de que falamos, o p r o -
blema d a s relações entre físico, fisiológico o psíquico continua colocado
s gualmente
_ d a natureza d a forma,—Fepresentar—diferentes graus d e l a t e -
sem nenhuma relação c o m o caráter estrutural dessas distinções e n o s

(1) I d . , i b É t t s p . 2 0 .
Kottka, P r I n r i p l e s o f Gestail Psychology, p . Q .
(2) W e r t h e i m e r • t r e m i . Gestnitheorle, S y m p o s i u m I . p p . 1 4 1 , (2) I d . . i b i d . , D . 4 8 .

168 169
mesmos termos e m que a psicologia o t e m sempre colocado. Coloca- organizam n o corpo, mostrando q u e alguns d e seus caracteres objetivos
ste o corpo humano n o melo d e u m m u n d o físico q u e seria "causa" de (sua proximidade, sua semelhança, sua aptidão p a r a constltuirem j u n t o s
suas mações, sem se Interrogar sobre o sentido que é dado aqui à pala- uma f o r m a estável) prescrevem-lhes participarem j u n t o s d e u m a m e s -
vra causa, e apesar de tudo que a Gestalttheorie fez justamente para mos- ma configuração, e que esses caracteres estão relacionados com a f o r m a
trar q u e nenhuma f o r m a t e m s u a causa suficiente f o r a d e s i . Desde física dos objetos exteriores correspondentes; a psicologia forneceria u m a
então o comportamento n ã o p o d e aparecer s e n o c a r i o u m a província explicação suficiente d o conhecimento perceptivo, u m a v e z q u e p e r -
do universo físico, e este se substitui as formas n a função de meio Uni- mitiria compreender de que modo as coisas físicas se duplicam n o c o m -
versal q u e elas deveriam preencher. I n t r o d u z i n d o a s considerações d e portamento p o r u m a representação delas mesmas 11 a A s s i m o conhe-
estrutura, a psicologia d a f o r m a não pensa haver ultrapassado a noção cimento continua definido, segundo os esquemas mais simples, como u m a
do mundo físico como omnitudo realistis, p o n t e j á se encontram nele es- imitação das coisas, a consciência permanece u m a parte do ser. A I n t e -
truturas. J á n o mundo físico, a passagem das condições às conseqüências gração d a matéria, d a v i d a e d o espirito s e obtêm p o r sua redução a o
é deszontinua. A s quantidades de eletricidade e m u m condutor não cor- denominador c o m u m das f o r m a s físicas. Pouco i m p o r t a q u e a explica-
respondem p o n t o p o r p o n t o as quantidades que a í são depositadas; elas ção ú l t i m a s e j a sempre física, se a s estruturas físicas supostas n o f t m -
se repartem segundo u m a l e i Interior de equilíbrio elétrico que n ã o une cionarnento nervoso Implicam relações t ã o complexas corno aquelas q u e
cada parte d o efeito a u m a parte d a causa, mas os efeitos locais entre são apreendidas p e l a consciência nas ações d e u m s e r v i v o o u d e u m
si. A s condições topográficas locais n ã o agem jamais cada u m a p o r sua homem. U m a estrutura física complexa é menos "material" que o s á t o -
conta: a carga sobre u m a ponta poderá ser m u i t o fraca, se se encontra mos d e consciência d a a n t i g a psicologia, " S e vamos a t é à s raizes d e
na vizinhança uma segunda ainda mais aguda. O s sistemas físicos apre- nossa aversão f a c e a o materialismo e a o mecanicismo, s ã o a s p r o -
sentam j á , c o m relação à s influencies externas, esta autonomia notável priedades materiais dos elementos combinados que nós encontramos? Pa-
que encontramos n o organismo relativamente à s conceções físicas d o ra f a l a r francamente, existem teorias psicológicas e m u i t o s manuais d e
meio, n o comportamento simbólico relativamente à s u a infra-estrutura psicologia que t r a t a m expressamente dos elementos d e consciência e são
fisiológica. O s predicados d e valor, a significação Imanente c u j a d e f i n i - todavia mais materialistas, inanimados, desprovidos d e sentido e d e sig-
ção objetiva do comportamento não pode se dispensar, não seriam senão nificação q u e u m a árvore v i v a que n ã o t e m talvez u m traço d e cons-
a tradução, e m u m a linguagem humana, aliás legitima, dos processos es- ciência. Pouco importa de que material as partículas do Universo sito f e i -
truturais d o sistema nervoso, e esses p o r s u a v e z n ã o representariam tas, o que conta é o t i p o de totalidade, a significação d a totalidade 1.2k."
senão u m a variedade d e f o r m a s físicas. A t e o r i a d a f o r m a pensa t e r Mas podemos verdadeiramente conservar, como o quer a Gestattheorie a
resolvido o problema das relações entre a alma e o corpo e o problema originalidade d a s estruturas biológicas e psíquicas fundando-as s o b r e
do conhecimento perceptivo, descobrindo processos nervosos estruturais estruturas físicas? U m a expliceçao f í s i c a d o comportamento supõe q u e
que de u m lado tenham a mesma forma que o psíquico e de outro sejam as formas físicas possam t e r todas as propriedades das relações biológicas
homogêneos à s estruturas físicas W . Nenhuma reforma da teoria do co- e psíquicas as quais elas servem de substrato. E m u m a filosofia q u e se
nhecimento seria então necessária e o realismo d a psicologia como ciên- Interdita as distinções materiais, Isto quer dizer que não existe nenhuma
cia natural seria conservado a t i t u l o definitivo. S e u m corpo sólido está diferença entre a s t r ê s ordens, e q u e v i d a e espírito são outros nomes
diante de m i m e eu o t r a t o como t a l e m m e u comportamento, é que a para designar certas formas físicas. Justamente se s e pensa e m termos
"forma" física pela q u a l ele se distingue d o s objetes vizinhos d á lugar, de estruturas, d i z e r q u e f o r m e s físicas d ã o c o n t a e m U l t i m a análise
por intermédio das ações luminosas q u e ele exerce sobre m i n h a retina, do comportamento humano, equivale a dizer q u e elas existem sozinhas.
a urna estrutura fisiológica d e mesmo t i p o e m meu sistema nervoso. S e Se n ã o existem mais diferenças d e estrutura entre o psíquico, o l i s t a -
bem que o s estímulos que chegam aos receptores sensoriais sejam aí, à lógico e o físico, n ã o existe m a i s diferença alguma. E n t ã o a consciên-
sua chegada, independentes u n e d o s outros, e nada tragam consigo d a cia será o que se passa n o cérebro, e com efeito vé-se "Coffee defini-la,
estrutura física de que beiram, — se bem que, p o r exemplo, os raios l u - segundo a tradição do materialismo, como esta propriedade "que t ê m a l -
minosos refletidos p o r u m corpo n ã o tenham entre s i mais relações i n - guns acontecimentos n a natureza de se revelarem eles próprios" (Sb, oo-
trínsecas d o q u e t ê m c o m o s r a i o s luminosos refletidos p o r u m o b j e -
to contiguo, — evidenciando a s l e i s segundo a s quais o s estímulos se
(I) K o t l i t e r , Giestal( " ( c h o l o g y ,
(2) W e r t h e i n i e r. l i c h e r Gestaltheocte. p . 2 0 .
Rofflqi• P r i n c i p i e s o f Gestolt P h y c h o l o u , PP• $6 e 5 7 . Koffka, Prfru.:iples o f Cessalt P u c h o l o w , o . OS.

170 371
mo se ela jamais tivesse por objetas os processos fisiológicos que a acom- to pelas partes q u e se pode a í d i s t i n g u i r que a melodia, sempre t r a n s -
panham. E s t e " l a d o consciente dos processos", s e n ã o e n t r a nas e x p l i - ponivel, é f e i t a pelas notas particulares q u e são s u a expressão m o m e n -
cações causais, deve ser no entanto reconhecido como u m fato, seria UM tânea. U n i d a d e i n t e r i o r inscrita e m u n i segmento d e espaço e resisten-
dos caracteres m a i s notáveis d o s processos fisiológicos n o h o m e m u i , te, p o r s u a causalidade circular, à deformação d a s infiuénclas externas
o q u e bastaria para d i s t i n g u i r a Gestalithemie d o epifenomenismo (2). a f o r m a física é u m indivíduos Poderá acontecer que, submetido a f o r -
Mas se as estruturas de consci‘Mcia são inúteis n a explicação, é porque ças exteriores q u e crescem o u decrescem d e u m a maneira continua, o
tem seu equivalente físico o u f i s i o l ó g i c o , e e s t e " I s o m o r f i s m o " e m sistema, passado u m c e r t o l i m i a r, redistribua a s suas forças e m u m a
uma filosofia d a f o r m a é u n i a identidade. A tomada de consciência não ordem qualitativamente diferente, que n o entanto não é senão u m a o u -
acrescenta nada as estruturas físicas, ela é somente o índice de estrutu- tra expressão d e sua l e i imanente t n C o m a f o r m a s e introduz então
ras físicas particularmente complexas. Dessas estruturas e não d a coas- um principio d e descontinuidade, e são dadas a s condições d e u m d e -
der-leia se deve dizer que são indispensáveis à definição d o homem. senvolvimento p o r saltos o u crises, d e u m acontecimento, d e u r n a h i s -
tória. Digamos e m outros termos q u e cada f o r m a constitui u m campo
Pensamos que n e m nessas conclusões materialistas, n e m n a i n t e r - de forças caracterizado p o r uma l e i que não t e m sentido f o r a dos l i m i -
pretação espiritualista q u e indicamos Inicialmente, a noção d e Gestalt tes d a estrutura dinâmica considerada, e que, e m compensação, designa
seguida até suas m a i s importantes consetrill-Mcias. E m lugar d e s e p e r - a cada ponto I n t e r i o r suas propriedades, se b e m q u e elas não serão j a -
guntar q u e espécie d e s e r pode pertencer à !Orilla, e , surgida ela p r ó - mais propriedades absolutas, propriedades desse ponto.
pria n a pesquisa científica, q u a l a crítica que ela pode e x i g i r dos pos-
tulados realistas d a psicologia, e l a é colocada n o n ú m e r o d o s aconte- Tomada nesse sentido, a noção d o f o r m a quase não parece assimi-
cimentos d a natureza, é usada corno u m a causa o u u m a coisa real, e , lável pela física clássica. E l a nega a Individualidade n o sentido e m que
nisso mesmo, não se pensa mais segundo a " f o r m a " , E n q u a n t o se veja a física clássica o afirmava, — aquela dos elementos o u dos corpúsculos
no mundo físico u m ser que abarca todas as coisas e se queira a í inse- Investidos d e propriedades absolutas; e e m compensação o a f i r m a n o
r i r o comportamento, seremos devolvidos d e u m espiritualismo q u e n ã o sentido e m q u e a física clássica o negava, p o i s corpúsculos agrupados
mantém a originalidade das estruturas biológicas e psíquicas, a não ser continuavam sempre discernivels de direito, enquanto que a f o r m a é u m
opondo substância a substância, a u m materialismo q u e n ã o m a n t é m indlvidtio "molar", N o entanto Koehler encontrou sem dificuldade exem-
a coerência d a ordem física, a não s e r reduzindo a s duas outras a ela. plos d e f o r m a n a física clássica: a distribuição das cargas elétricas s o -
E preciso e m realidade compreender a matéria, a vida e o espirito como bre u m condutor, a diferença d e potencial, a corrente elétrica (2), S e
três ordens de significações. M a s não é com a ajuda de u m critério ex- se considera corno u m a f o r m a o estado d e distribuição equilibrada e de
terior q u e j u l g a r e m o s a p r e t e n s a f i l o s o f i a d a f o r m a . Gostaríamos entropia máxima para o qual tendem as energias operantes e m u m sis-
ao contrário d e r e t o m a r à noção d e forma, buscar e m que sentido f o r - tema conforme o segundo princípio d a termodinâmica t a l , pode-se p r e -
mas podem ser ditas existir " n o " mundo ti:AC() e " n o " corpo vivo, peci's sumir que a noção de f o r m a estará presente n a física por toda parte e m
própria f o r m a a solução da antinomia d a qual ela é a ocasião, a s í n - que se assinala aos acontecimentos naturais urna direção histór.ca• M a s
tese da natureza e d a idéia. em realidade, o que Kochler mostra e m alguns exemplos deve ser esten-
dido a todas a s l e i s físicas: e l a s exprimem u m a estrutura e n ã o t ê m
sentido a não s e r n o i n t e r i o r desta estrutura. S e se consegue determi-
nar a densidade elétrica e m cada p o n t o d e u m elipsolde condutor p o r
A noção d e f o r m a que n o s f o i imposta r i o s fatos se definia c o - uma mesma relação q u e convém a todos e semente a eles, é porque
mo a d e u m sistema •físico, i s t o é , d e u m c o n j u n t o d e forças _em
constituem j u n t o s u m Indivíduo funcionai. D a mesma maneira, a l e i
estado d e -eq. iiiabtro o u d e mudança constante, t a l que nenhuma l e i seja da queda dos corpos n ã o é verdadeira e não permanecerá sendo-o s e -
formulável p a r a cada parte tomada isoladamente e que cada v e t a r seja não s e a velocidade d e rotação d a t e r r a n ã o cresça c o m o tempo; n a
determinado e m grandeza e e m direção p o r todos o s outros. Cada m u -
dança local s e traduzirá então e m u m a f o r m a p o r u m a redistrantição
das forças q u e assegura a conscancia d e s u a relação, é esta circulação
(1) P o d a m , r e m e t e r a o e x e m p l o d a s ( a n d a n ç a s d e estado. o u n o d a t r a r g a r d c a c a o
interior que é o Sistema como realidade f í s i c a , e ele não é mais compos- funcionai n a h e m i a n o p s i a ; p o i s v i m o s , e l a s e p r o d u z bruscamente q u a n d o a s d u a s
(nelas-retinas s e t o r n a m cegas.
(2) C f . P. , G u i l l e a r a c , L a Payellologie d e t o f o r m e .
Cl) I d . , i b h L , p . 8 3 .
(2). I d . . i b i d , (3) K o c h t e r , D i e Physisehen Gee:Wien-, 2 .

172 1 1 7 3
hipóteEe contrária, a f o r ç a centrífuga poderia compensar, depois u l t r a - leis. O que se verifica, propriamente falando, não é então jamais u m a
pass-r a d a gravidade (11. A l e i d a queda dos corpos exprime portanto lei, m a s u m sistema d e leis completamentares. N ã o é o caso de supor-
a constituição, n a vizinhança d a terra, d e u m campo d e forças r e l a t i - se entre a experiência e as leis físicas u m a correspondência ptmctual, a
vamente estável e n ã o permanecerá válida senão enquanto d u r e a es- verdade d a f í s i c a n ã o s e encontra n a s l e i s tomadas u m a a uma, m a s
trutura cosmológica s o b r e a q u a l e l a e s t á fundada. A experiência d e em sua combinação A l e i n ã o podendo s e r destacada dos aconteci-
Cavendish não nos d á uma l e i e m si, salvo se a apoiamos n a concepção mentos concretos em que ela e entrecruza com outras para receber c o m
newtoniana d a gravitação. M a s s e s e i n t r o d u z a n o ç ã o d e c a m p o elas valor de verdade, não se pode falar de urna ação causal linear que fa-
gravilico e se, e m l u g a r d e s e r u m a propriedade individual e absoluta ria s a i r u m efeito de sua causa, puis é Impossível circunscrever n a n a t u -
dos corpos ponderáveis, a gravitação está ligada a certas regiões d o es- reza o autor, bem como o responsável p o r u m efeito dado. Como entre-
paço qualitativamente distintas, c o m o o q u e r a t e o r i a d a relatividade tanto conseguimos formular leis, é preciso que todas as partes da natureza
geral, a l e i n ã o poderia e x p r i m i r urna propriedade absoluta d o mundo. não concorram do mesmo modo para produzir o efeito observado. A Úni-
representa u m certo estado d e equilíbrio d a s f o r ç a s q u e d e t e r m i n a m ca fórmula v á l i d a d o principio d e causalidade será aquela que a f i r m a ,
a história d o sistema s o l a r (2). A reflexão sobre as leis encontra nelas com a solidariedade d o s fenômenos e m u m universo, u m a espécie d e
não, p o r assim dizer, o s traços principais d e u m a constituição a n a t ô - amortização, proporcional à distância, das influências exercidas sobre u m
mica d o mundo, os arquétipos a p a r t i r dos e n w s o m u n d o físico seria fenômeno dado p o r fenômenos anteriores e simultâneos ( 2 ) . Assim, a s
feito e q u e o regeriam, m a s somente as propriedades de certos conjun- leis e a relação linear de conseqüência a condições nos remetem a acon-
tos relativamente estáveis. Somos obrigados a introduzir, e m nossa i m a - technentos e m interação, a " f o r m a s " das quais elas n ã o devem ser abs-
gem d o m u n d o fisico, totalidades parciais s e m a s quais n ã o h a v e r i a traídas." ( . . . ) pode-se perguntar se ( . . . ) n o s diversos ramos d a física
leis e q u e são precisamente aquilo q u e entendia,mos acima p o r f o r m a . pura, n a teoria da gravidade como n a termodinâmica, n a ótica como n o
O jogo combinado das leis poderá r e t i r a r a existência das estruturas que eietromagnetismo, não se introduz u m certo número d e coeficientes o b -
se t i n h a m estabilizado e fazer aparecer outras estruturas cujas proprie- tidos por via experimental, que estão ligados à estrutura tal qual a do nos-
dades n ã o s ã o previsíveis ( 3 ) . H á p o r t a n t o u m curso d a s coisas q u e so mundo e sem os quais as leis, ou antes, as relações fundamentais não
sustenta a s l e i s e n ã o pode s e r resolvido definitivamente nelas. T r a t a r poderiam s e r n e m completamente formularias n e m exatarnente verifica-
o mundo físico como u m entrecmzamento de séries causais lineares onda das Go. S e m mesmo s a i r d a física clássica, corrigida pela teoria d a r e -
cada u m a guarda s u a individualidade, como u m m u n d o q u e n ã o dura, latividade, pode-se então p ô r e m evidência aquilo q u e existe d e i n s u f i -
é u m a extrapolação ilegítima, e é necessário l i g a r a ciência a u m a h i s - ciente n a concepção positiviSta d a causalidade, e n t e n d i d a c o m o u m a
tória d o universo e m q u e o desenvolvimento é descontinuo. N ã o pode- seqüência isolável idealmente, mesmo s e d e f a t o e l a interfere c o m o u -
mos mesmo f i n g i r possuir, e m nossa ciâncla adquirida, verdadeiras "sé- tras 44). O q u e é exigido pelo conteúdo efetivo d a ciência, não õ certa-
ries causais", modelos de causalidade linear. A ncção de sério causal não mente a idéia d e u m universo onde t u d o a r i g o r dependeria d e t u d o e
pode passar p o r u m princípio constitutivo d o universo físico, senão se onde nenhuma clivagem seria possível, mas também não a idéia de u m a
se separa a l e i d o processo d e verificaçfio q u e l h e d á valor objetivo. A natureza onde processos seriam cognoscivels isoladamente e que o s p r o -
experiência d a física não é jamais a revelação d e u m a série causal iso- duziria de seu fundo, não é nem a fusão, nem a justaposição, é a estruttua.
lada: verifica-se q u e o e f e i t o constatado obedece na verdade à l e i p r e -
sumida t e n d o e m c o n t a u r n a série d e condições independentes daque-
las q u e fazem o o b j e t o próprio d a experiência, t a i s como temperatura,
11) L . B r u n s c h v i c s , 1:Expertenee nu:nen:te e t l o c a u s a i l l ê ~ n i n e , p . 5 1 7 .
pressão atmosférica, altitude. Isto é, e m resumo, de u m certo número de (21) 1 0 . . I b i d . , p . 3 1 7 B r u n s e t t v i e g c i t a a t á r i m i l a t i a l ' a i n i e v e : " u m elemento m a t e .
Hal i n f i n i t a m e n t e d i s t a n c i a d o d e t o d o s o s o u t r o s permanece absolutamente f i x o s e s u n
velocidade i n i c i a l é n u l a e descreve n e m r e t a s e e s t á a n l m a d o d e u r n a v e l o c i d a d e
iniciei ( - 4 11 t e r m o i n f i n i t a m e n t e s i g n i f i c a q u e a p r o p o s i ç ã o é t a n t o m a i s e x a t o
(1) C a u r n o t . T r a i M d e t l e n t h a t n e m e n t d e ( ( n e s 1tindamentutes, H 1 3 3 e 184» c i t a d o quanto m a i s o elemento m a t e r i a l e s t á d l ,tenc.ado d e t o d o s o s c l a r o s ' . D e t a tad/bode
por iteunschvieg. 1 : E x p e r i e n t e n a t a l i n a e l t a c a n atire p h y s i q u e i p . 5 1 4 . dans l e s SeittletS, L lute, • . ( 5 11 .
(2) L , B r u n s e b v i e g . i b i d . (2) L . Brunarlisog,.• 1 : E x p e r i e n t e h u t n a i n e e t i a c a u s o : I Q p h y s i q u e , p . 5 1 3 .
(3) O f u t u r o n ã o p o d e r i a s e r c a l c u l a d o " s e n ã o s e puciNssernos d e s t a c a r d o Conjunto (4,1 F e i t a s t o d a s a s remtrvas s o b r e a " c o m p o s i ç ã o " u l t e r i o r d o a r e f l e x o s , S b e r r i n g l o n
cosmológico q u e n o é d a d o u m a o l e i e d e c a u s a s Independentes, q u e m a n i f e s b i r i a m , estava P e r s u a d i d o d e p o i s u i r, c o m a s l e i a d o r e f l e x o a l u m i e s , o s elementos r e a i s d o
cada u n i a e m s u a , e r i e , s e u c a r a t e r cssime:rd, Nem q u e p e l o l o t o d e s e u ennoutre, funcionamento n e r v o s o . E a l s i e e n t ã o e u a t o r d k a n i a e n t r e a o c r i t i c a s q u e s e r e x v a l e r
devesse J u n t a l l s a i r u r n a conseitfiéncla q u e i n t r o d u z i r i a u n i a i n f l e x ã o b r u s c a n o curse cofiam e s t a concepção d a explicação e m b i o l o g i a e o esforço q u e f a z a f l a l c a p a r a s e
das c o s a s " . L . Brunsehvicg. E t p è r k t i c e humcVne e t t a causofité phystque, p . L . 521. •c l i b e r t a r d o dozanallstuo d a s l e i s .

17-1 175
Mas seria necessário perguntar-se o q u e se prova exatamente p e r da superfície d e u m elipseide condutor 41) poderia representar também
essas aproximações. Quando se cUz que existem formas físicas, a propo- grandezas correspondentes, m a s puramente matemáticas, q u e tivassernos
sição é equivoca. E l a é Incontestável se se q u e r e x p r i m i r que a ciência assinalado arbitrariamente n o s diferentes pontos d e u m elipsolde d e p a -
não é capaz de d e f i n i r o universo físico como u m campo homogêneo de pel. "Conseqüentemente, a expressão matemática e m e p o r e l a mesma
onde seriam excluirias a ação reciproca, a qualidade, a história. Mas, falando não revela que se trate dos momentos de uma f o r m a e não deve faza-lo,
de f o r m a s físicas, a Gestaittheorie entende q u e s e pode encontrar e s - pois a linguagem matemática. simbalica geral d e t o d o objeto mensurá-
truturas e m u m a natureza tomada e m si, p a r a constituir com elas o es-
vel, deve poder expreesar t a n t o repartições c o m o e s t r u t u r a s (21», Q u e
pírito. O r a , a s mesmas razões q u e desacreditam a concepção positivis- cada "momento", n o primeiro caso, só existe sustentado pelo resto, esse
ta das leis desacreditam também a /14:40 de formas e m s i . N ã o se cor- fato, característico d a estrutura, n ã o aparece e m sua l e i , O conhecimen-
rige u m a pela o u t r a , e esses d o i s dogrnatismos desconhecem o sentido to f í s i c o de u m a estrutura desse género começa então n o momento e m
vivo das noções d e e s t r u t u r a e de l e i n a consciência cientifica. M u i t o que se considera, para defini-los p o r u m a propriedade constante, os d i -
mais q u e opostos, eles s ã o complementares e representam ant:nondas ferentes pontos que, p o r principio, não t ê m realidade n a f o r m a , A p r ó -
que é preciso ultrapassar. S e contra todo direito se f a z da l e i física uma pria forma, a unidade dinâmica e i n t e r i o r que d á a o c o n j u n t o o cará-
norma d a natureza, como o exercício desta l e i não é possível a não ser ter d e u m Indivíduo indecomponível, é somente suposta pela l e i c o m o
em uma certa estrutura cosmolOgica, será neressário, Lechelier bem o mos- condição d e existência; o s objetas q u e a e L n c i a constrói, aqueles q u e
trou, colocar esta estrutura p o r sua v e z como i n e r e n t e à "natureza".
figuram n o conhecimento f í s i c o elaborado, s ã o sempre feixes d e r e l a -
O universo positivista das séries causas independentes deverá então ser ções . E se a física chega apenas a for-11111111r e m l i n g u a g e m matemática
sustentado p o r u m universo de finalidade onde os shcrontsmos, os con- as l e i s d e certas estruturas, n ã o é q u e a estrutura, p o r s u a essência,
juntos, que supõem as leis causais, fornecem-lhe, com a razão d e ser, o resista à expressão, é que a solidariedade existencial d e seus momentos
fundamento existencial. M a s o que torna quimérica a idéia de uma aná-
torna difícil a aproximação experimental, impede d e a g i r separadamente
lise física pura, — o dado coernológico, a descontinuidade d a história, — sobre u r u deles e obriga a encontrar logo u m a função q u e convenha a
não é como u m a camada d e ser mais profunda, u m a Infra-estrutura d o
todos (3)• N ã o se pode mesmo dizer que a estrutura seja a ratio essendi
mundo !laico sobre a qual repousaria a lei. L e i e estrutura não se dis-
da l e i que seria a ratio cegneseendi dela, pois a existência de t a l estru-
tinguem e m uma ciência como o f a r i a m u m a anál:se real e u m a síntese
tura n o mundo não é senão a intersecção d e u m a multidão d e relações,
real. A l e i d a queda dos corpos é a expressão d e u m a propriedade d o
— que, é verdade, remetem a o u t r a s condições estruturais. E s t r u t u r a e
campo terrestre que e m verdade está a cada instante suportada e man-
lei são p o r t a n t o d o i s momentos dialéticos e n ã o d o i s poderes d e s e r.
tida pelo conjunto das relações d o universo. A s s i m a l e i não é possivel O que é exigido pela física não é e m nenhum caso a afirmação d e u m a
senão n o i n t e r i o r de u m a estrutura d e fato, mas esta p o r sua vez, longe
"physts", n e m corno a TC111112:0 de açees causais Isoláveis, n e m como o
de s e r a t i t u l o d e f i n i t i v o u m dado c u j a opacidade desafiaria p o r p r i n -
lugar das estruturas, o u o poder d e c r i a r dos indivíduos e m s i . A f o r -
cípio a análise, deixa-se i n s e r i r e m u m tecido contínuo d e relações. A
ma n ã o é u m elemento d o m u n d o m a s u m l i m i t e para o q u a l tende o
relação d e estrutura e l e i n a ciência é u m a relação d e envolvimento
conhecimento físico e que ela própria define ( a n pág, 178).
recíproco. Insistíamos, m a i s acima, c o n t r a o positivismo, sobre o e n -
volvimento d a l e i e m u m a estrutura. Convém agora insistir sobre o en- Assim pelo menos ela deve ser conservada e urna teoria d o conhe-
volvimento d a estrutura nas leis. N ã o é somente do lado de fora, ligan- cimento físico ou, c o m maior razão, d o conhecimento histórico que n ã o
do-a a o c o n j u n t o d o s fenômenos, q u e a s l e i s penetram a estrutura. A lhe desse l u g a r e q u e definisse a consciência pela consciência d a s l e i s
ciência decompõe a s determinações reciprocas interiores a u m sistema Mio poderia d a r conta d a história e d a realidade como objetes d e p e n -
físico e m ações e e m reações separadas, l i v r e p a r a torná-las ' c a d a 41CZ
com u m a medida determinada de coeficientes empíricos, de maneira que
possa a t i n g i r a c o m b i n a ç ã o s i n t é t i c a d e s t i n a d a a r e p r e s e n t a r a
aparência t o t a l q u e a s coisas apresentam” K o e h l e r observa que o
caráter estrutural d e u m processo não encontra sua expressão n a física a— - - - 01140 y • z , rpresento a s coordraudaz d o
4 mete •
matemática. A equação que fornece a densidade elétrica e m cada ponto
V5 +Ia+ iitt POLUO vonal.:nrad,, n a m a total. e (Lb.%
(.1 scmLtIxo d o eltpsdide.

42) K o e b l e t • D i e P i g a sehert Gestaltes. n . 1 0 5 .


( l ) L . Bruntelivits, L'Expértenee littinanl‘ e t t a eauselité physlque. p p . 515_519. (3) I d . , t b l e t . p . 11 7 .

176 177
sarnento. N ã o se pode a p ó s haver rejeitado o dogmatismo das leis, que podemos reconstittdr a arquitetura d e u m a civilização desaparecida
fazer como se elas bastassem p a r a d a r ao campo temporal e a o campo e cada progresso d a egiptologia m o d i f i c a a h i s t ó r i a d o E g i t o o ) . M a s
espacial seu sentido, corno se o "fundo n ã o relacional" (2) sobre o qual as estruturas reconstituídas v ê m preencher u m tempo d e universo c u j a
se assentam a s relações estabelecidos pela f í s i c a n ã o entrasse n a d e f i - idéia elas pressupõem. E l a s próprias não são forças reais que orienta-
nição d o conhecimento. O s efeitos das leis se desenvolvem n o tempo, e riam o curso d a h i s t ó r i a e ajuntariam f t causalidade q u e liga o s acon-
a aparição, n a intersecção d e várias leis, d e u m "sincronismo", d e u m tecimentos parcelares urna causalidade d a idéia. a t a s o E g i t o c o m o es-
acontecimento que modifica bruscamente O curso das coisas, a distinção trutura econômica, social, politica, permanece u m objeto d e pensamen-
a seu respeito d e u m "antes" e de u m "depois" permitem f a l a r de u m a to distinto d o s múltiplos fatos q u e o constituíram e levaram à existên-
pulsação d a duração universal. S e m dúvida, é apoiando-nos sobre as leis cia. É u m a idéia, u m a significação comum a u m conjunto de fatos m o -
leculares, q u e todos eles exprimem m a s q u e n e n h u m deles contém i n -
teiramente. D a mesma maneira, as ações e as reações d e que urna f o r -
ma física é a sede são pensadas pelo físico como o s componentes de u m
sistema físico, s e m o q u e sua ciência seria sem objeto. A t o d a tenta-
(4) O e x e m p l o s o b r e o q u a l a c a b a m o s d a r a c i o c i n a r evidentemente n ã o é s u f i c i e n t e .
A dessela contsmsporknea e n c o n t r o u sistemas m a i s integrados q u e a o b r i g a r a m a c r i a r tiva para t r a t a r as qualidades primeiras como objetes de pensamento a u -
Sostrumentos m a t e m á t i c o ' m o a s u t i s . Poder-se.ia c o m p a r a r i s n o ç ã o d e f o r m a e a tônomos, permanece justo opor c o m Berkeley que o espaço supõe a c o r.
noção d e i n d i v i d u a l i d a d e q u e a i está i m p l i c a d o , n a ',sacanice o n d u l a t ó r i a . ( C f _ L . d e As expressões matemáticas pelas quais a física caracteriza seus objetos
broglie. i n d i v i d u a l i t é e t l u t e i - a l i o u ( t o n s l e m o n d e p h y s i q u e . ' ( e s m e d e I t é t a p h y n q u e não cessam d e pertencer aos matemáticos e n ã o exprimem justamente
n d e M a r a l e . eseril 1937, p p . 353.398), O s ' , d i s t o ' m a t e r i a i s , d o t a d o s d e u m a m a s s a
invarliseci, os corpúsculos (eictrons, protons, o c u l t o u , . pasitrons) d e f i n i d o s p o r u m a mas- um fenômeno físico senão se são pensadas c o m o leis d e certas formas,
sa e u m a carga elétrica constantes aparecem j a n a c i ê n c i a p r o i m a n t l e a c o m o uocCiés de certos conjuntos concretos, A f o r m a , e c o m ela o universo d a h i s -
tratos. v i s t o 41110 o m o v i m e n t o d e u m p o n t o m a t e r i a l é d e t e r m i n a d o p e l o c a m p o d o tória e d a percepção, permanece indispensável, n o horizonte d o conheci-
forças q u e ts r o d e l a , e v i s t o q u e a m a s s a t o t a l d e u m s i s t e m a d e corpúsculos e n t mento físico, como aquilo que é determinado e visado p o r ela. " O c o n -
Interação, proporcional. c o n f o r m e a t e o r i a d a relatividade, is s u a energia, q u e n ã o pode
ser r e p e t i d a e n t r e o s corpúsculos, a b o é p o i s I g u a l r i s o m a d a s m a s s a s q u e perten-
teúdo sensível d o dado perceptivo n ã o t e m m a i s sem duvida o valor d e
ceriam a o s corpasculnes a t i n a d o s Isoladamente. N u P r l ó P r i a f I a R a 011110AeLl " a r e a l i - coisa verdadeira e m si, mas o f a t o é que o substrato, O portador ( o X
dade aparece geralmente i n t e r m e d i e r i n e n t r e o conceito d e i n d i v i d u a l i d a d e Inteiramen- vazio) d a s determinações percebidas vale c u m o aquilo que é determina-
te a u t ó n o m o e o d e s i s t e n m totalmente f u n d a d o " ( a r t i g o c i t a d o p . 5 5 7 ) . C o m m a i o r
do e m termos d e predicados físicos pelos métodos exatos (2)". A f o r m a
razão, a elêneta q u â n t i c a , e m q u e e t objetes n ã o p o d e m m a i s s e r sempre localizados
no t e m p o e n o espaço, o n d e S i m p o s s i s e l e x c l u i r a o c u p a ç ã o d o m e s m o l u g a r p o r
é pois não uma realidade física, mas u m objeto de percepção, sem o qual,
dois corpúsculos, o n d e e n f i m a c o n s t a n d o d e s u a s propriedades n ã o é m a i s n u m O d a , aliás, a ciência física n ã o t e r i a sentido, u m a vez q u e e l a é construiria
permite p o r sais v e z c o n c l u i r q u e " a r e a l 1 ti wie, e m t o i r o s o s s e u s d o m i n i o s , p a r e c e a propósito dele e p a r a coordenai-1o.
ser I n t e r m e d i á r i a e n t r e essas d u a s idealizeções estremas" t a r t i g o c i t a d o , p . 0 3 7 5 . 111.1m
[laica q u a n t i c a o sistema é u m a espécie d e o r g a n i s m o n a u n i d a d e d o q u a l a s tinida_ Que finalmente a f o r m a não possa ser definida e m termos de rea-
des elenielitareS constituintes s e encontram quase a b s o r v i d a s ' ( i d . L a it(salité p h y s i q u e lidade, m a s e m t e r m o s d e conhecimento, c o m o u m a coisa d o m u n d o
et Pidealisation. R e e u e c f r Sjpaltu'se, o s riboctobre 1934. p . 1 2 9 ) . E s s a s a n a l o g i a s P0',
declaro s e r m u l t i p l i c a d a s s e m t r a z e r n e n h u m a decisão à q u e s t ã o q u e n o s i n t e r e s s a . físico, como u m conjunto percebido, Koehler o reconhece implicitamen-
Que o s i s b m a f í s i c o n ã o a e j a insaginavel h o j e senão c o s o a a j u d a d e m o d e l o s b l o . te quando escreve que a ordem em uma forma "repousa ( . . . ) sobre isto
lógicos o u psicológicos, c a s e f a t o . t a n t o q u a n t o a a t r a ç ã o n e w t o r d i u m , n ã o descobre que cada acontecimento local, poder-se-Ia quase dizer "conhece d i n a m i -
no fenómeno ( l a i c o a s relações caracteristleas d a v i d a o u d o e s p i r i t o e n í t o e r e i l Mela
camente os outros" N ã o é u m acaso se, para exprimir esta presença
a q u i m e r a d e u m a f í s i c a e s p i r i l u a l i s t a n u d a u m a psicoLogia m a t e r i a l i s t a : sabemos
doravante q u e a causalidade é u m m e i o d e i n Ve n t i r o s f e n ó m e n o ' c u j o sucesso n ã o
de cada momento a todos o s outros, Koehler encontra o t e r m o "conhe-
É garantido p o r antecipação p o r u m a I n f r a - e s t r u t u r a d e l e i s eternas e q u e nesse p a r cimento". U m a unidade desse t i p o n ã o p o d e s e r encontraria senão e m
l i m i a r o s fenómeno" físicos n ã o t ê m privilégio sobre o fenómeno d a v i d a o u sobre 11:11 objeto de conhecimento. Tornada como u m ser de natureza, existen-
o [ e n t i s i c o ° h u m a n o . M a s 41S esta-Muras a s s i m desnudadas p e r d e m t o d o o s e n t i d o
quando s e o separadas t i a s relações matemáticas q u e O f í s i c a a p e s a r d e t u d o a i t o n .
Segue estabelecer I n d i r e t a m e n t e . U m a s e o u t r a t pertencem e n t ã o a u n s u n i v e r s o d e
pensamento e n ã o a u t u u n : v e r s o d e realidades.
l i t P e n s a m o s n a s conclusões q u e Brunschvbeg t i r a d o s u a c r i t i c a d o p o s i t i v i s m o
e d o O n a l i s m o L ' E x p é r i e n c e h u m a i n t e t les Cartrartté phystque. c a p . X L I X , L a Connexion ( I ) L . B r u n s c h v i c g . 1 / E r v O r s e n t e h u n i a i n e e t I a cattsa(ité p h y s t q u e . p . 5 2 0 .
anseie, (2) H a s s e r i M e t a r a eiveis P h a a o m e n o t o g i e a n d Phanamenotagisehe v l i v t a s o p h i e " .
t2i J . W a h l . Ve r s t e r o n c a i . p r é f a c c . p p . 72,73.
OS) Koettler. D i E Phillschen Gestatten, v . 120.

178 1 1 7 9
'aleff

te n o espaço, a f o r m a estaria sempre dispersa e m vários lugares, d i s t r i - absoluto, d e Urna realidade física d a q u a l elas não seriam M a k que a s
buída e m acontecimentos locais, mesmo s e esses acontecimentos se e n - manifestações. O dado perceptivo devia, segundo o espirito d o positivis-
tredeterminam; dizer que ela não sofre esta divisão equivale a dizer que
mo, não ser senão u m ponto de partida, u m apm'épm; treme +ate e, u m
ela n ã o está exposta n o espaço, q u e e l a não existe à maneira d e u m a Intermediário provisório entre nós e o conjunto das l e s, e essas leis, ex-
coisa, que ela é a idéia sob a qual se reúne e se resume o que se passa plicando p o r seu j o g o combinado a apariefao d e t a l estado d o mundo,
em vários lugares. E s t a unidade é a d o s o b j e t a s percebidos. U m a presença e m m i m d e t a i s sensações, o desenvolvimento d o conheci-
círculo colorido q u e o l h o está inteiramente modificado e m sua fisiono- mento e a p r ó p r i a formação d a ciência, deviam assim f e c h a r o circulo
mia p o r u m a irregularidade que r e t i r a alguma coisa a o s e u f e i t i o c i r - e voltar-se a s i mesmas. A o contrário, nós o vimos, a referência a u m
cular e f a z dele u m círculo imperfeito, É então a o universo das coisas dado sensível o u histórico não é uma imperfeição provisória, ela é essen-
percebidas que a Gestalttheorie t o m a emprestado sua noção d e forma, e cial a o conhecimento físico. D e f a t o e de direito, a lei é u m instrumen-
ela n ã o se encontra n a física senão n a medida e m que a física n o s de- to de conhecimento e a estrutura UM objeto de consciência. E l a s só t e m
volve l i a coisas percebidas. c o m o àquilo q u e a ciência t e m p o r função sentido para pensar o mundo percebido. A reintrodução n a ciência m o -
exprimir e determinar. L o n g e então d e que a " f o r m a fleica" possa s e r derna d a s estruturas perceptivas a s m a i s inesperadas, longe d e revelar
o fundamento real da estrutura do comportamento e em particular de sua já, e m u m mundo físico em si, as formas da vida o u mesmo d o espírito,
estrutura perceptiva, ela própria não é concebível senão como u m objeto testemunha somente que o universo d o naturalismo n ã o pôde s e fechar
de percepção. Acontece ã f i s i c a s e r levada, e m sua fidelidade crescente sobre si mesmo e que a percepção t ã o é u m acontecimento de natureza.
ao espetaculo concreto d o mundo, a pedir emprestado suas imagens, não
aos conjuntos p o u c o integrados q u e forneciam à ciência clássica seus
modelos e onde se podia atribuir propriedades absolutas a indivíduos se-
paráveis, — mas às unidades dinaMiCaS, aos campos d e força, à s estru- A f o r m a física é u m equilíbrio obtido c o m relação a certas condi-
turas fortes que o mundo d a percepção t a m b é m oferece. Pode-se dizer ções exteriores dadas, q u e r se trate, como n a repartição das cargas elé-
que. abandonando o espaço homogêneo, a física ressuscitava o "lugar n a - tricas sobre u m condutor, d e condições topográficas, o u , como n o caso
tural" de Aristóteles t i , . Ora, a física de Aristóteles não é, na maior parte de urna gota de óleo colocada no meio de uma massa de água, de condi-
do tempo, senão uma descrição do mundo percebido e Koehler justamen- ções elas próprias dinâmicas. S e m dúvida, certos sistemas físicos m o d i -
te mostrou b e m q u e o espaço perceptivo n ã o é u m espaço euclidiano, ficam, p o r sua evolução i n t e r i o r, a s condtções m e s m a s d e q u e d e -
que os abjetos percebidos mudam de propriedades quando mudam de l u - pendem, como o mostra a polarização dos eletrodos n o caso d a corrente
gar. D a mesma maneira a mecânica ondulatória dos sistemas, que c o n - elétrica, e pode-se imaginar q u e sejam capazes d e deslocar suas partes
sidera u m conjunto de corpúsculos e m interação, é obrigada a 'desmem- móveis d e maneira a restabelecer u m estado privilegattio. M a s a ação
brar" s u e individualidade e t o m a r e m consideração, não ondas associa- exercida p o r f o r a t e m sempre p o r e f e i t o reduzir u m estado d e tensão,
das a cada corpúsculo, m a s u m a o n d a associada ao sistema i n t e i r o que encaminhar o sistema para o repouso, Pelamos ao contrário d e estrutu-
se propagará e m u m espaço abstrato d i t o "espaço d e configuração". A ras orgánicas, quando o equilíbrio é obtido, n ã o com relação a condições
imoossibllidade de se a t r i b u i r a cada corpúsculo u m a localização n o es- presentes e reais, m a s c o m relação a condições somente virtuais que o
paço ordinário, a aparição e m u m conjunto d e propriedades irredutíveis próprio sistema leva t i existéricia, — quando a estrutura, e m l u g a r d e
àquelas dos elementos reunidos, podem b e m s e r aproximadas d e certas proporcionar, sob a coação das forças exteriores, uma distenseo nas f o r -
propriedades d o espaço perceptivo. A ambivalência d o tempo e d o espaço ças que a atravessam executa M n trabalho f o r a de seus próprios limites
ao u i v e i d a cOnSCI:ncia preeptiVat f e z pensar n a s noções mistas pelas e constitui p a r a s i u m m e i o p r ó p r i o . E m u m sistema desse género, o
quais a física moderna transpõe a simplicidade abstrata d o tempo e d o equilíbrio que a s relações Interiores tendem a produzir, não é u m equi-
espaço classicos. N ã o s e deve concluir d a i q u e f o r m a s existem j á e m líbrio a todo preço e, como n a repartição das cargas elétricas, a simples
um universo físico e servem de fundamento ontológico as estruturas per- conservação d e u m a ordem estabelecida« O estado privilegiado, o i n v a -
ceptivas. A verdade é que, a p a r t i r d e certas estruturas perceptivas p r i - riante, não pode m a i s s e r determinado c o m o o resultado das ações r e -
vilegiadas, a ciência procurou construir a imagem d e u m m u n d o físico ciprocas q u e s e desenrolam efetivamente n o sistema.

Sabe-se, p o r exemplo, que u m organismo não realiza j a -


mais todos o s tipos d e comportamento q u e pareceriam p o s -
(1 1 , , B r t l i a l d i v L e g L t n e r i e n t e t r t i m u i n t t i t a einuodit4 p)rmhique, p . 5 I 5 . síveis p a r a eonsiderá-lo t o m o u m a máquina« S e u m sujeito

180 181
aponta c o m o d e d o u m o b j e t e colocado diante dele, à sua dizer d a mesma m a n e i r a q u e o s comportamentos privilegiados d e u m
direita, o u finalmente à extrema direita, constata-se que m o - organismo sejam aqueles que, nas condições d e f a t o e m que ele se e n -
vimentos d o tronco se executam ao mesmo tempo, de manei- contra, oferecem objetivamente a maior simplicidade, a m a i o r unidade?
ra que o ângulo formado pelo plano f r o n t a l e o braço Perma- Mas a m a i o r parte d o tempo, eles não t ê m neles próprios nenhum p d -
nece aproximadamente constante. Estas espécies d e constan- vilégio d e simplicidade o u d e u n i r ' ode.
tes podem s e r individuais, d o i s sujeitos convidados a t r a ç a r
a giz u m círculo sobre u m p l a n o paralelo a o p l a n o frontal, Quando volto m i n h a cabeça e m direção a uma fonte so-
fazem-no e m geral segundo métodos diferentes ( c o m o braço nora, de t a l modo que de f a t o as excitações audltivas se t o r -
estendido o u o cotovelo dobrado) característicos d e cada u m nam sincrónicos ao nível das duas orelhas, o processo de e x -
deles. S e s e pede a u m sujeito p a r a m o s t r a r s u a mão, ele citação, considerado parte p o r parte n ã o é mais simples q u e
não a apresentará c m urna posição qualquer: a palma estará antas- n ã o se mostra corno t a l a menos q u e se busque n e -
na maioria das vezes voltada para baixo, os dedos ligeiramen- le u m conjunto, u m todo, exprimível p o r uma lei única, e e n -
te curvados, o polegar abaixo dos outros dedos, a m ã o à a l - fim senão p o r sua semelhança c o m u m modelo d e simplici-
tura d o meio d o corpo. É bastante conhecido q u e cada u r n dade que nosso espirito s e propõe.
tem sua maneira de m a n t e r a cabeça, sua posição d e sono
Não é porque o comportamento é mais simples que ele é privile-
Enfim o comportamento perceptivo t e m , ele também, deter-
giado, é, ao contrário, p o r q u e é p r i v i l e g i a d o q u e o a c h a m o s m a i s
minações privilegiadas. U m ângulo d e 930 é apontado Corno
simples ( I J . E s e se quisesse dizer c o m Koehler que o comportamento
um " m a u " ângulo r e t o ; o músico f a l a d e notas "falsas" U .
privilegiado é aquele q u e gasta o m í n i m o d e energia, além d e q u e seu
Todo comportamento q u e n ã o é privilegiado s e r á apreciado p e l o caráter econômico n ã o está estabelecido objetivamente, é m u l t o c l a r o
sujeito conto u m comportamento d i f í c i l o u imperfeito. O r a , o q u e con- que o organismo não é u m a máquina regulada segundo u m principio d e
fere aos comportamentos privilegiados seu privilégio? D e onde v e m que economia absoluta. A m a i o r p a r t e d o t e m p o o comportamento p r i v i l e -
eles sejam tratados c o m o " o s m a i s simples" e " o s m a i s naturais", que giado é mais simples e mais econômico e m consideração à tarefa n a qual
dêem u m a sensação de equilíbrio e d e f a c i l i d a d e ( 2 ) ? A orientação o organismio s e encontra engajado e suas formas d e atividades f u n d a -
para esses comportamentos privilegiados é comparável à formação de uma mentais, o f e i t i o de sua ação possível são pressupostos n a definição d a s
bolha d e sabão esférica? Nesse ú l t i m o caso, a s forças q u e s e exercem estruturas que serão as mais simples para ele, privilegiadas nele. E m cer-
do exterior sobre a película de sabão tendem a concentra-1a e m u m pon- tos doentes, t o d o m o v i m e n t o passivo d a cabeça e m direção à careta
to; a pressão d o a r aprisionado exige e m compensação u m volume t ã o acarreta deslocamentos dos membros e d o corpo na mesma direção. M a s
grande quanto possível. A estrutura esférica realizada representa a ú n i - a dissociação permanece possível face a unta tarefa concreta que o exige,
ca solução possível a esse problema d e m í n i m o e d e máximo. Pode-se As reações desencadeados p o r u m estimulo dependem d a significação que
ele t e m para o organismo considerado não como u m conjunto de forças
que tendem a o repouso pelas vias mais curtas, mas como u m s e r capaz
( I ) S o b r e todos esses p o n t e s . c f . Goldatein, D e r A u f b a u d c s Orgonantus, p p . 220 s q q .
(2) P o t l e s e e x c l u i r d e s a l d a a s explicaçães p e r i f é r i c a s q u e r e f e r i r i a m a f r e q i i e n c l a de certos tipos d e ação (2), N o a t o d e "mostrar", o p l a n o privilegiado
desses comporiamentos a c e r t o s d i s p o s i t i v o s l o c a i s ; u r n a l i n h a o b l i r r i m f r a c a t u r n i e i a . onde s e desloca o braço, longe d e s e r determinado pelas condições d e
clinada s e r i o t r a i n d o c o n t o , u m a OOrt leal O P rOXI 'nada. p o r q u e a v e r t i c a l , r e c o b r i n d o um equilíbrio físico c o m o meio, corresponde às necessidades interiores
um m e r i d i a n o d a r e t i n o , LICSSIOFIREin f e n ô m e n o s f i s i o l ó g i c o s e s p e c i a i s . M a s d e f a t o , de u m equilíbrio v i t a l . O piano privilegiado depende n ã o d e condições
é m u l t o r a r o q u e a s v e r t i c a i s o b j e t i v a s s e representam s o b r e u m m e r i d i a n o d u retina. locais, mas da atividade total d o organismo:
porque é m u i t o r a r o q u e mantenhamos n o s s a cabeça e D o m o c o r p o e l e s p r ó p r i o s r i -
gorosamente v e r t i c a i s . — A s posiçiács p r i v i l e g i a d a s i l a n u l o , d a cabeças e d o c o r p o ,
seriam a s m e n o s fatigantes, aqueias o n d e s e r e a l i z a a m e n o r tensão d o o adutores e Todos o s excitantes sensoriais, tácteis, visuais, a u d i t i -
abdutores. M a s a tensão d o s músculos n ã o depende somente e n e m principalmente d a vos o atraem por assim dizer a si (a); todos os movimentos do
meranka l o c a i d o esqueleto. e i a é l a r g a m e n t e d e t e r m i n a d a p e b a p o s i ç ã o d a s o u t r a s
partes d o c o r p o . O t i t é l n - s e u m deslocamento d o p l a n o p r i v i l e g i a d o n o s m o v i m e n t o s
do b r a ç o m o d i f i c a n d o a posição d e outras partes d o u i r p o o u a d o o-ganismo i n t e i r o Goldslein, D e r A u f b a r 4 d e z O r g a n i s m u s , p , 2 3 0 : " A b e r d a s i a t j a d a s P r o b t e r n ;
Se t i d a ° o afastamento d o p i a n o f r o n t a l e daquele o n d e s e m o v e o b r a ç a permanece araram i s t e t w a s t i n e Gestait?
constante p a r a direçães m u l t o v a r i Av e l s d o gast;i, e s t a constancla l o c a l n ã o p o d e s e r (2) b i t i b i d . , m 325.
o e f e i t o d e causaa l o c a i s o n o s n m e t e a u r n a c o n s t a n d o d a a t i t u d e c o r p o r a l i n t e i r a . (3) Sotie-ee q u e . Ela ~ M U m a n e i r a , a v e r t i c a l a p a r e n t e é deslocado p o r u m a t a c i -
Cf. G o l d s l e i n a t d „ p p , 2 2 l l s q q , billÇA0 l a b l r i n t i ç a O U t l . c t i i O U p o r u m a m n e : a n ç a n u s 1 1 uai çã o d o s m e m b r o s .

182 183
corpo próprio, — quer s e t r a t e d a cabeça, d o braço oposto, fieira própria de realizar o equilíbrio, e os determinantes Interiores desse
dos olhos, das pernas, — o modificam. E essas condições mo- equilíbrio n ã o são dados p o r u m a piara:idade de ve:ores, mas p o r u m a
toras não são menos eficazes quando sao inapercebidas do su- atitude geral para com o mundo. D a i provém que as estruturas Marga-
jeito k l ) , U m mesmo movimento deslocará o plano privilegia- nicas s e deixam exprimir p o r u m a lei, ao passo que as estruturas orgâ-
do e m d u a s direções opostas, segundo a significação q u e nicas s ó s e compreendem p o r u m a norma, p o r u m c e r t o t i p o d e ação
esse movimento t e m p a r a o sujeito: p o r exemplo, u m deslo- transitiva que caracteriza o indivíduo. O s lindares d a percepção e m u m
camento dos olhos para a direita f a z recuar para a esquerda organismo estão, dizíamos, entre as constantes individuais que exprimem
o p l a n o privilegiado, se esse deslocamento é g r a t u i t o e sem sua essência. I s t o significa que ele próprio mede a ação das coisas sobre
objetivo, a o contrário o conduz p a r a a direita, s e o sujeito si e d e l i m i t a s e u m e l o p o r u m processo c i r c u l a r q u e é s e m análogo
no m u n d o físico.
volta o s olhos p a r a o l h a r alguma coisa. N a realidade, é s o -
mente p o r abstraç:io q u e podemos f a l a r d e comportamentos
As relações entre o indivíduo orgânico e seu meio são pois verda-
privilegiados, c o m o s e s e tratasse d e fenômenos locais q u e
deiramente relações dialéticas e esta dialética f a z aparecer relações n o -
deveriam ser explicados u m a um. Cada u m deles é insepará-
vas, que não podem s e r comparadas àquelas d e u m sistema físico e d e
vel d o s o u t r o s o n ã o f a z senão u m c o m eles: a queda Cio
tones e m uma metade d o organismo pareceria dever acarretar seu entorno, n e m mesmo compreendidas quando s e reduz o organismo
à imagem q u e a anatomia e as ciências físicas l h e dão. Suas reaçaes,
perturbações d e percepção e d a ação; e l a as acarretaria, com
mesmo elementares, n ã o p o d e m s e r classificadas, dissemos, segundo o s
efeito, se o sujeito n ã o inelinas,:e sem seu p r ó p r i o conheci-
mento a cabeça ou mesmo o corpo inteiro para o lado lesado. aparelhos n o s quais elas se realizam, m a s segundo sua significação v i -
Nessa atitude, ele não cai, marcha direito e percebe verticais tal o a U m a s obtêm o equilíbrio pelos custos mínimos e se aproximam
as l i n h a s objetivamente verticais. A s perturbações reapare- nesse sentido, d e u m processo físico: são compensações locais que colo-
cem se o sujeito é obrigado a manter a cabeça ereta. E que cam o excitante f o r a d e condição d e prejudicar. M a s outras, executam
"os processos de excitação n o conjunto do organismo estavam por f o r a u m verdadeiro trabalho n o q u a l t o d o o orgenismo esta enga-
ordenados conforme a posição inclinada d a cabeça" (2). E m jado. Será necessário então distinguir u m comportamento imediato e u m
comportamento objetivo. E n t r e a s movimentos d e abdução e d e exten-
suma, o que 6 privilegiado n o organismo sadio corno n o e n -
fermo, t i ú ° é, d e u m indo, u m a certa posição d a cabeça, d e são, que de fato parecem ligados antes à atividade da medula, e os m o -
outro, u m certo valor d o tantas, mas u m a relaçao determina- vimentos d e adução e de flexão, q u e dependem antes d o córtex, a d i f e -
da de u m ao outro. rença n ã o é exprimível p o r essas designações anatómicas n e m p o r n e -
nhuma noção física. A ciência d a vida não pode se construir senão com
Como a s mesmas observações poderiam s e r f e i t a s a propósito de noções feitas sob medida e tomadas d e empréstimo à nossa experiência
todas a s atitudes típicas d e cada sujeito, somos conduzidos à :déla d e do s e r v i v o . Notar-se-á p o r exemplo q u e o s movimentos d e extensão
que existe, p a r a cada Indivíduo, u m a estrutura gerala õ comportamentcr são particularmente freqüentes c o m relação aos objetos aos q u a i s n ã o
que s e exprime p o r certas constantes das Condutas, d o s limiares sem-- dispensamos atenção. O bocejo, o a t o d e se espreguiçar, são movimen-
&seis e motores, da afetividade, d a temperatura, d a respiração, d o pulso, tos de extensão pura, E ao c o n t r a t o todos os movimentos precisos ( p o r
da pressão sanguínea. , d e t a l maneira que é impossível encontrar nes- oposição aos movimentos de f o r ç a i são movimentos de flexão, A verda-
te c o n j u n t o c a u s a s e e f e i t o s , c a d a fenómeno p a r t i c u l a r e x p r i m i n - deira d i s t i n ç ã o e n t r e e l e s é e n t ã o a d e "diferentes posições t o m a -
do tão bem o que se poderia chamar " a essência" do indivíduo a i a O r a das p a i o organismo a propósito d o m e i o " U . A flexão é u m a a t i t u d e
o comportamento privilegiado é aquele que permite a ação a mais cômo- em q u e o organismo t o m a posse d o mundo, c o m o s e v ê pelo exemplo
da e a mais adaptada: p o r exemplo, as designações espaciais mais exatas, dos movimentos d e convergência e d e fixação, pela Inclinação d a cabeça
as discriminações sensoriais m a i s f i n a s . C a d a organismo t e m , po:s, e m na atenção. A o contrário, os movimentos de extensão exprimem o aban-
presença de u m meto dado, suas condições ótimas de atividade, sua ma- dono às coisas e a existência passiva d e u m organismo que não domina
seu m e i o l3P. O s movimentos d e expiração, m a i s acentuados e m u m a

Sobro t o d o s essas p o n t o s , c i . G o l d s t e i n , i b i d . , p p . 231 s q q - Cr. s n p r i t , ç a p . I , L m d i s l i n e t i o n d e , E l g e n r e f i r s e e t d e s F r e m d r e l l e s e .


G') G o l d s t e i n . D e r A u f b a u ° r e m a t a i : a p . 3 1 0 .
(2) G o l d s l e i n , a n d , p , 2 3 5 .
(3) I d . . ebid.. p p . 2 3 7 s q q . (3) VertL0•10A O P O r t r t r p o r exemplo n a tartaruga r e t i r a d a d e seu p o n t o d e apoio n a t u r a l .

184 185
atitude passiva, são ligados n o animal e mesmo n o h o m e m a comporta_ Gestaltheorie. As reações perceptivas não podem se explicar por modelos f i -
sicos senão n o s casos e m q u e s ã o isoladas artificialmente d o contexto
mentos de extensão; ao contrário, os movimentos de expiração, mais a m -
de ação n o q u a l s e inserem naturalmente. E n t ã o o privilégio d e certas
plos n o h o m e m n a meditação, são u m caso particular d a flexão. U m a
formas, em lugar de exprimir o modo de ação natural d o organismo con-
analise desse gênero n ã o segue a s articulações d a anatomia: u m a c o n -
siderado, depende apenas dos caracteres objetivos dos estímulos apresen-
tração convulsiva dos fletores n ã o é u m ato d e flexão. O valor biológi- tados, M a s o u b e m essas estruturas, n ã o estando centradas n a ativida-
co d e u m comportamento n ã o s e reconhece p u r a e simplesmente pelos
de t o t a l d o organismo, são formações lábeis, i s t o é , patológicas, exata-
Órgãos q u e u t i l i z a , e l e n ã o pode s e compreender p e l a linguagem d a
mente c o m o a s figuras equívocas d e R a b i n e l I, — o u b e m o processo
anatomia D e v e - s e p o i s esperar encontrar n o s comportamentos d o s
de equilíbrio físico d e onde se deseja fazê-las s a i r n ã o pode ele próprio
organismos os mais simples, urna regulação diferente da regulação dos sis-
se desenrolar sem s e r interrompido, senão sob a garantia e sob a guar-
temas físicos. da d a atividade t o t a l d o sistema nervoso, A s l e i s d o Werthelmor fazem
De fato, os tropismos, que durante multo tempo se con- remontar a formação d a s estruturas a s condições objetivas n a s quais
siderou corno reações aos agentes físicos e químicos d o melo, Se apresentam os estímulos, — lei de proximidade, lei de semelhança qua-
não parecem e x i s t i r s o b esta f o r m a n a s condições d e v : d a litativa, — ou à estabilidade das "boas formas", considerada como uma pro-
normal d o animal, O fototropisino positivo dos solhos jovens priedade que lhes é inerente (2 S e ocorre que, c o m efeito, nossa per-
não se produz em u m grande aquário 1.2,. A anêmona do mar, cepção obedece a essas leis, não é que ela seja assimilável a uma estru-
colocada sobre u m a grade lança seu pecliculo para baixo e, se tura fisica. E que o funcionamento d o sistema nervoso, apesar das i n -
giramos várias vezes a grade, o pecliculo enlaça as malhas da terações perpétuas d e q u e ele é a sede, está organizado d e t a l maneira
grade. Mas após um certo numero de experiências, o animal solta que a s leis d e Wertheimer possam operar, — é que, e m outros termos,
seu pedículo e vai se f i x a r n a areia. Va l e dizer que aqui ain- ele teve a sorte d e nelas encontrar constantes admitidas pela atividade
da o comportamento não pode se d e f i n i r como urna adapta- total d o organismo (3). São o s próprios princípios d a Gestalttheorie que
ção a condições dadas e q u e o organismo coloca ele próprio invocamos a q u i c o n t r a ela. O essencial, e m u m a forma, n ã o é a soma
as condições de seu equilíbrio • O s tropismos n o sentido de das partes, Mesmo se se admite que o organismo é acessível a uma aná-
Loeb representariam reações de laboratório, análogas às de um lise física cie direito, ilimitada, como ninguém contesta que a psicoquinsi-
homem cuja conduta é desorganizada pela emoção e que cor- ca do organismo é a mais complexa possível, é absolutamente certo que
re e m direção à l u z o u à obscuridade. suas estruturas n ã o encontrariam seu equivalente nas estruturas físicas
no sentido restrito d a palavra. C o n s t r u i r u m modelo físico d o organis-
Assim a dialética p r ó p r i a e n t r e o organismo e o m e l o p o d e ser mo, seria construir u m organismo. O s modelos físicos d a Gestaittheorie
interrompida p o r comportamentos "catastróficos" e o organismo r e d u - têm t ã o pouca relação com o s fenômenos d a vida, quanto a cristalização
zido momentaneamente à condição d e sistema físico. M a s trata-se a í de com a cariocinese,
casos patológicos o u d e fenômenos d e laboratório. Essas observações
mão valem somente contra urna fisiologia mecanicista, aplicam-se também à Não é nenhuma forma de vitalismo que sustentamos aqui. N ã o que-
remos dizer que a análise d o corpo v i v o encontre u m l i m i t e nas forças
vitais irredutíveis. Queremos d i z e r apenas q u e as mações d e u m o r g a -
nismo n ã o são compreensíveis e previsíveis a n ã o ser se são pensadas,
( I ) S e r i a necessário r e n u n c i a r d e u n t a v e r p o r t o d a s a c o n s i d e r a r o s i s t e m a n e r . não c o m o contrações musculares que s e desenrolam e m u m corpo, mas
vaso, p o r e x e m p l o , COTIM " s u p e r i o r e m a i a o sistema s e x u a l ; n o f u r t e i ° LLLLLLL Crit0 da como atos q u e s e endereçam a u m certo melo, presente o u v i r t u a l : o
organismo n ã o s e p o d e separa-loa. n e m conseinentemente • u b o r d i n a r u m a o o u t r o . ato d e capturar u m a presa, d e andar e m direção a u m objeto, d e f u g i r
A v i d a s e x u a l n o r m a l e s t á i n t e g r a d a n o c o n j u n t o d o comportamento. A s lesÕes c o r - de u m perigo. O objeto d a biologia n ã o é evidentemente estudar todas
ticais. v i m o s , p o d e m a c a r r e t a r a o Inelialo t e m p o q u e perturbações goosicas, u m a queda
do a m o r s e x u a l n a o r s o n l i d a d e ( G o l d s t e i n , D e r A u t t f r u n O r g u n i s m a s . p . 3 1 3 ) ; as reações q u e se podem obter sobre u m corpo v i v o e m quaisquer c o n -
mostram a s s i m 4111C o s i s t e m a s e x u a l n o n o r m a l o i t o é a u t ó n o m o . A t r a v é s d e
conjunto orgânico anntomienuierde d e f i n i d o p o d e m Tann/ar-se ações d e n i v e l v a r i á v e l .
(2) S'elutelder, n e r p 3 v e h o t a t e . p p . e r s - e s s , I l u y t e n d i j i t P s y e r w i o o k d e cznuttaux,
(1) a . w a h r g e r t o m m e n e Ftsiten.
p. GO
JCnnillgs, I t e l l u v i o r o I l h e t o w e r ~ M a i á • C a u y t e n d i p t . PàychuNgie d e r t2) S o b r e todon esses pontua, e t . P . G u l l i o u n t e , L a "'lie/Jurou& d e t a f o r m e .
cinimata. p • U . (3) G o l d s t e i n . D e r Á u f b u o d e r OrgpmismuL p p . 323-225.

186 187
dições m a s somente aquelas q u e são suas reações o u , como Se diz, ao econômico, do econômico ao cultural, — concordánclas ou derivações_
reações "adequadas". T u d o q u e pode acontecer a u m organismo n o l a - É também, e m u m devir que é, n a escala molecular, inatilculado, m a r -
boratório n ã o é u m a realidade biológica. N ã o se busca fazer física n o car cortes, fases, o f i m d e u m mundo e o começo d e u m outro. A s es-
ser vivo, mas a física d o ser vivo, e m outros termos busca-se desenhar
truturas às quais se chega assim, não são, como as d o organismo, n e m
o contorno d e u m comportamento " n a t u r a l " q u e deve emanar d o c o m - causas suplementares que orientariam os fenômenos parcelares, nem s i m -
portamento d e f a t o , Va l e d i z e r q u e o "organismo" é u m a expressão ples nomes p a r a designá-los. m a s Idéias d a s quais eles participam sem
equivoca. E x i s t e o organismo considerado c o m o u m segmento d e m a - as conter. A ' o f e r t a " e a "procura" n ã o são n e m forças reais escondi-
téria, c o m o u m a reunião d e partes r e a i s justapostas n o espaço e q u e das p o r t r ã s das causes especiais que determinam a produção e m cada
existem umas f o r a das outras, c o m o u m a soma d e ações físicas e q u í -
fábrica, o consumo d e cada Indivíduo, n e m simples nomes p a r a desig-
micas. To d o s o s aconiceimentos q u e a i se desenrolam possuem o mes-
nar a soma aritmética desses fenômenos locais, m a s abjetos d e pensa-
mo g r a u de realidade e n ã o existe, p o r exemplo, distinção d o normal e mento q u e a ciência constrói e q u e d ã o a significação imanente e a
do patológico. É este o organismo verdadeiro, a única representação ob- verdade dos acontecimentos. N ã o é de outra f o r m a que se escreve a his-
jetiva d o organismo? N a realidade o c o r p o assim compreendido n ã o é tória dos planetas e q u e se f a z emergir, através d e u m a evolução m o -
nem o objeto d a biolog.a, n e m mesmo o d a fisiologia. S e pudéssemos lecular continua, as idades d a terra, P o r t a n t o é Impossível à inteligên-
descrever as inumeráveis ações físicas e químicas que fazem passar u m cia c o m p o r a imagem d o Organismo a p a r t i r d o s fenômenos físicos e
ser v i v o d a adolescência à Idade adulta, teríamos u m a seqüência c o n - químicos parcelares, e entretanto a v i d a n ã o é u m a causa especial. E m
tínua d e fenômenos n o s quais seria d i f í c i l reconhecer a duração d e u m biologia como e m física, n ã o s e poderia s u b t r a i r a s estruturas a u m a
organismo. A s "funções" o u o s "processos" típicos, — p o r exemplo a análise que encontra nelas a ação combinada das leis. O que nós b u s -
anagênese e a catagénese, — c u j o r i t m o d e i Me p a r a o fisiologista o f e - camos n a idéia d e v i d a " n ã o é a pedra terminal d e u m edifício, m a s
nômeno d e crescimento o u d e envelhecimento, religadas à s cadeias d e esse p r ó p r i o edifício, onde o s fenômenos parciais. d e início Insignifican-
reações químicas que as condicionam de todas as partes, perderiam seus tes, aparecem c o m o q u e ligados e m u m c o n j u n t o u n i r cado, ordenado.
contornos próprios, sua individualidade, r e b e m que as modificações c a - relativamente constante, d e estrutura determinada C . n ó s n ã o b u s -
racterísticas q u e sofressem c o m a idade cessariam d e s e r perceptíveis. camos u m fundamento r e a l rSeinsgrottncU sobre o q u a l repouse o ser,
Uma andlise molecular t o t a l d k s o l v e r i a a estrutura d a s funções e d o mas u m a idéia, u m fundamento de conhecimento tErkentnisgrimdl onde
organismo n a massa indivisa d a s reaçães lisicas e químicas banais. A todos o s f a t o s particulares encontram s u a verdade" ( I ) . 2 necessário
vida não é portanto a soma dessas reações. Para fazer reaparecer, a par- apenas a d m i t i r que as ações físico-quiris-ais das quais o organismo é d e
tir delas, u m organismo vivo, é necesseelo t r a ç a r a i linhas ele clivagem. uma certa maneira composto, e m l u g a r d e se desenrolar e m sequências
escolher pontos d e vista de onde certos conjuntos recebem u m a signifi- paralelas e Independentes, c o m o o q u e r i a o espirito anatômico, e m l u -
cação comum, e aparecem p o r exemplo c o m o fenômenos d e "assimila- gar d e s e intercalar e m u m c o n j u n t o o n d e t u d o dependeria d e t u d o e
ção", c o m o componentes d e u m a "função d e reprodução", — d e o n d e onde nenhuma clivagem seria possível, s e constituem, segundo a p a l a -
certas sequências d e acontecimentos, tece então mergulhadas e m u m d e - vra d e H e g e i e m " n ó s " o u e m eturtelhões" relativamente estáveis, —
vir continuo, se distinguem p a r a o observador c o m o 'fases", — o cres- te funções, as estruturas do comportamento, — de t a l maneira que o me-
cimento, a idade adulta, — d o desenvolvimento orgânico. É preciso des- canismo se duplica de u m a dialética.
tacar mentalmente certos fenômenos parcelares d e seu contexto r e a l e
subsumi-los s o b u m a idéia q u e n ã o está contida, m a s expressa neles. Mas, não se está reconduzido à alternativa clássica? Se se reconhece
"O sentido d o organismo é seu ser" Cl • e o organismo de que se ocupa que fenômenos físicos e químicos não podem depender, de uma maneira
a análise biológica é u m a unedade ideal. E s t e método d e organização inteligível. senão d e condições e l a s mesmas físicas e químicas, e q u e
da experiência n ã o é próprio para o conhecimento biológico. Compreen- assim a análise físico-química é de d i r e i t o ilimitada, as categorias p r o -
der, e m história, é também recortar segundo categorias o conjunto glo- priamente vitais, o objeto sexual, o ob:eto aementar, o ninho, — e ea con-
bal d o s acontecimentos concretos, depois t e n t a r r e u n i r a unidade r e a l dutas que visam esses objetos n ã o cessam de s e r denominações i n t r í n -
de onde se p a r t i u estabelecendo d e u m a ordem a outra, — d o político secas d o comportamento e d o organismo, n ã o pertencem antes à nossa

( I ) G o b b i t e i n t D e r A u f b a n d e . % Organismu,t, p a. set .

188 189
maneira humana de perce'be-lo, e, e m Ultima análise u m estudo objetivo gundo a norma i n t e r i o r de sua atividade, fizemos dele u m indivíduo e m
não deve substitui-los p o r edifícios de estímulos e d e reflexos? A biolo- um sentido que n ã o é o d a física, mesmo moderna, atribuímos à ecoo-
gia descritiva seria u m inventário preliminar das super-estruturas q u e a salidade u m conteúdo positivo, enquanto que a física se l i m i t a a regis-
física d o s e r v i v o sustenta, e a explicação, e m biologia como n a física, trá-lo como u m f a t o e a contornar o obstáculo por métodos indiretos que
deveria s e reduzir a o t i p o ú n i c o d e explicação pelas leis. O s caracte- permitem lançar sobre a acausalidade uma nova rede de relações matemá-
res d o indivíduo orgânico, a propriedade q u e t e m d e f i x a r e l e p r ó - ticas. A estrutura de f a t o que a física encontra, é uma estrutura de d i -
prio a s condições d e seu equilíbrio, d e c r i a r p a r a s i u m melo, n ã o reito. Para manter a titulo definitivo a originalidade das categorias vitais,
seriam senão o resultado rnacroscoolco d e u m a multidão d e ações ele- seria necessário fazer d o todo orgânico u m todo que produz suas partes,
mentares idênticas As dos sistemas físicos. A explicação, d e direito, p o - encontrar nele o ato simples de onde os fenômenos parciais t i r a m o seu
deria ser coextensiva à descrição_ Dever-se-la somente conceder, e m bio- ser, voltar então à noção de élan vital.
logia como e m física, q u e u m a an6dise exaustiva das estruturas d e f a t o
Mas a idéia d e significação p e r m i t e conservar a categoria de v i d a
é inconcebível: a s ações físicas e químicas n a s quais decompomos urna
sem a hipótese d e u n i a força v i t a l . A resistência d o dado concreto à s
função n ã o p o d e m elas mesmas s e p r o d u z i r a n ã o s e r e m u m c o n -
leis aproximadas d a física é p o r assim d i z e r anônima; é a opacidade
texto estável, as leis não explicam então u m a estrutura dada senão pres-
do fato, o choque d o resultado inesperado, o u a experiência de uma qua-
supondo uma o u t r a estrutura, e nesse sentido a física d o organismo, ela
lidade inexprimível, O estado d e incompletude d o conhecimento pelas
também, é obrigada a p a r t i r d e u m certo " d a d o histórico". M a s n i s t o
leis não obriga a física a a d m i t i r o u t r o modo de conhecimento porque o
ela n ã o é diferente d a o u t r a f í s i c a e a s estruturas d o organismo n ã o resíduo irzeoordenado n ã o s e presta a nenhuma determinação verifica-
seriam senão um caso particular das estruturas do mundo físico, Se ao con-
vel, senão aquelas que a ciência obterá mais tarde peia invenção de n o -
trário quisermos manter como constitutivos do organismo as categorias pro- vas leis. A l e i permanece então o modelo d e t o d a verdade física. A o
priamente biológicas, seríamos reconduzidos a u m a espécie de vitalismo. contrário o " f u n d o n ã o relacional" c o m o qual se choca a biologia e x -
Admitimos que a s ações vitais t i n h a m p o r assim d i z e r u m sent:do a u - plicativa n o s é assinalado p o r caracteres positivos, é a revelação d e
tóctone. O s fenômenos parciais que a análise físico-química surpreende relações objetivas d e u m novo gênero. A s cargas elétricas locais e m u m
no organismo v i v o são religados u n s a o s outros p o r u m a relação o r i - condutor ellpsolde e r a m determináveis e m f u n ç ã o d a s coordenadas d o
ginai. N ã o se t r a t a m a i s d a determinação recíproca dos f í s i c o s q u e ponto considerado, d a dimensão dos eixos e d a carga total. N ã o é desta
deriva idealmente cada u m deles d o s outros. E l e s participam todos de maneira, e submetendo-se a u m a mesma l e i , que s e u n e m o s fenôme-
uma mesma estrutura de conduta e exprimem a maneira que o organis-
nos locais e m u m organismo, A s reações motoras, a temperatura, a p r o -
mo t e m d e m o d i f i c a r o mundo físico e d e a í l a z e r aparecer u m meio porção d e cálcio e d o potássio estão ligadas p o r s u a conveniência c o -
A sua imagem. O indivíduo como 'capacidade determinada de reação" mum ao modo de atividade privilegiado do organismo. A lei, e m u m sis-
é u m a categoria %Herm, u m modelo irredutível t U r b i l d ) (2) d o conhe- tema f í s i c o , d á o v a l o r p e l o menos provável d o estado presente e m
cimento biológico. Desde q u e queiramos, p a r a a l é m d a s determinações função d o estado imediatamente anterior, o v a l o r d o estado l o c a l e m
estatísticas, prever as reações vitais d e u m organismo dado, o coeficien- função d o estado t o t a l . Q u a n d o esta d u p l a determinação é impossível,
te individual q u e devemos levar e m conta e " u m a estrutura determina- o físico i n t r o d u z coeficientes empíricos, "quanta" d e energia indivisíveis
da que lhe pertence p o r u m a necessidade i n t e r n a " (3). O r a , sem dúvida que exprimem e n ã o explicam o comportamento d o átomo. O organis-
a física quântica n o s ensinou a Introduzir e m nossa imagem do mundo mo s e distingue d o s sistemas d a f í s i c a clássica p o r q u e n ã o a d m i t e
físico dadas "acausals" 01P a t r á s d o s quais n ã o h á l u g a r p a r a a f i r m a r
a divisão n o espaço e n o tempo, A f u n ç ã o nervosa n ã o é localizável
por princípio u m a causalidade do t i p o clássico, e os próprios físicos (r,F Ptmetualmente, u m a melodia cinética está t o d a i n t e i r a presente n o seu
fizeram a comparação. M a s n ã o n o s l i m i t a m o s a d i z e r q u e o o r g a - Inicio e os movimentos n o s quais ela se realiza progressivamente só p o -
nismo e r a acausal. A d m i t i n d o q u e ele p r ó p r l o modificava seu melo se- dem ser previstos e m função d o conjunto, como estabelecemos mais a c i -
ma, O organismo s e distingue também d o s sistemas d a f i s i c a m o d e r -
na porque a s unidades d e comportamento indivisíveis permanecem e m
(I) 19.ohr, c i t a d o p o r Goldstein, D e r A u f b a o d e o 0111121113171113, p . 2 5 3 . física como dados opacos, enquanto q u e n a biologia elas s e t o r n a m o
(2) Goldstein. d b i d . meio de u m novo género de intelecção: religa-se paulatinamente as p a r -
(3) 1d V b i t , p . 3 3 3 . ticularidades d e u m organismo Individual A s u a capacidade de ação e a
(4) Id., t b l d . , p .
estrutura d o corpo é, n o homem, a expressão d o caráter. A unidade dos
(5) Cf p o r exemplo a o h r e J o r d a n , d i o d o s por Goldstein, o . 256.

190 191
sistemas f i s c o s é unta unidade de esrrelação, a dos organismos uma uni- dição d e possibilidade d e t o d o s o s juízos d e reconhecimento, como d e
dade d e significação. A coordenação pelas leis, t a l como o pensamento todas a s associações de idéias, A fisionomia cio rosto, a escrita, o p e n -
da física o pratica, deixa nos fenômenos d a v i d a u m resíduo acessível samento, a voz, os gestos d e u m homem apresentam analogias intrínse-
a u m outro gênero de coordenação: a coordenação pelo sentido. A s mes- cas que explicam, ao mesmo tempo que as famosas antipatias Irracionais,
mas razões que tornam quimérica uma física toda dedutiva t o r n a m q u i - o sucesso das experiências d e montagem e m q u e u m sujeito deve assi-
mérica t a m b é m u m a biologia t o d a explicativa. N a d a autoriza postular nalar o p e r f i l q u e corresponde a u m a voz, a escrita q u e corresponde a
que a dialética vital possa ser integralmente traduzido em relações físico- uma fisionomia LIO, Encontram-se também, Uni:mentes ao organismo f e -
químicas e reduzida à condição d e aparência antropomortica. A f i r m á - nomenal, certos núcleos d e significações, certas essências animais, — o
lo, seria inverter a ordem lógica d o pensamento científico, q u e v a i d a - ato d e caminhar em direção a u m objetivo, d e agarrar, comer u m a pre-
quilo que é percebido betono que é coordenado, sem que se possa seguir sa, d e saltar ou contornar u m obstáculo, — unidades que a reflexologia,
o caminho inverso e repousar a o r d e m repóç lasac s o b r e u m a ordem saro vimo-lo, não chega a engendrar a p a r t i r d e reações elementares, e que
A significação e o v a l o r d o s processos v i t a i s , q u e a ciência, v i m ° . são p o i s corno u m a p r i o r i d a d e l i c i a biológica. É evidente q u e esta
10, é obrigada a considerar, são b e m atributos d o organismo percebido, apreensão d a s estruturas não é n e m completa, n e m exata n a percepção
mas não são p o r essa razão denominações extrínsecos face ao organismo comum e que, quando se f a l a d e u m a intuição que as apreende, não se
verdadeiro, porque o organismo verdadeiro, aquele q u e a ciência c o n - quer dizer que esta intuição seja i n a t a (21. A precocidade d a percepção
sidera, é a totalidade concreta do organismo percebido, portador de todas do s e r v i v o s ó n o s servia aqui p a r a excluir a s explicações construtivas
as correlações q u e a análise a i descobre e não decomponível nelas. É e projetivas d a fisiologia clássica. Justamente a biologia descritiva, p a r -
verdade que os esforços convergentes d o intelectualismo e d o mecanicis- tindo das intuições Imperfeitas d a percepção comum, as reorganiza e as
mo r e t i r a m d a percepção d o organismo t o d a determinação original. E corrige. H á permuta d e serviços e n t r e a descrição d o c o r p o fenome-
ao mesmo tempo n a psicologia e n a biologia que a apreensão das e s - nal e a explicação causal, O conhecimento comum contém p o r exem-
truturas deve s e r reconhecida c o m o u m gênero d e saber irredutível à plo uma noção r i c a e confusa d o "macho" e d a "fêmea" que conoto cer-
tas constantes d a conduta, u m a atitude geral reconhecível b e m além d o
compreensão das leis. Digamos somente aqui que a percepção de u m cor-
comportamento sexual propriamente d i t o . É pouco provável q u e esta
po v i v o o u , como diremos doravante, d e u m "corpo fenomenal", n ã o é
um mosaico d e Sensações visuais e tácteis quaisquer que, associadas à noção se constitua n a experiência de cada u m d e n ó s pela aproximação
experiência i n t e r i o r dos desejos, das emoções, dos sentimentos, o u c o m -
preendidas como os sinais dessas atitudes psíquicas receberiam delas tuna
significação v i t a l . To d a teoria d a "projeção", seja e l a empirista o u i n -
telectualista, s u p õ e o q u e d e s e j a r i a e x p l i c a r, p o i s n ã o p o d e r í a -
mos projetar nossos sentimentos n o comportamento visível d e u m a n i - (1) C t . W o l f t . Seholbeurtellung u n d Premi...metei e n g . Psychologische Parschinnqs
mal, se alguma coisa nesse p r ó p r i o comportamento não n o s sugerisse a 16. 1033, M I . 251-328.
Inferência. O r a , n ã o é a semelhança entre o s nossos próprios gestos e 12) A s e m p r e Impressionante v e r c o m o e s a l i t u d m d e extensão. c u j o c a r á t e r catastró-
fico e ciência estabelece 130F MUS Otio,erVaçáo m e l ó d i c a . S ã o percebidos p o r u m a c r i a m
os gestos do outro, que pode dar a esses seus valores expressivas, a crian-
ca d e t r ê s a n o s c o m o u m a expressão d e t e r r o r e r c a l i m d a s p o r e l a m e s m a q u a n d o
ça compreende o sentido alegre do sorriso muito tempo antes de t e r vis- deseja s i n i u l a r o t e r r o r (observação p e s s o a l ) .
to o seu próprio sorriso, o de mímicas ameaçadoras o u melancólicas que (3) I l u y t e n c l i j k f a l a d e u n t a "Invmdigação fenomenológiese d o s m o v i m e n t o s d e expres-
ela jamais executou e tts quais s u a experiancia p r ó p r i a não p o d e p o i s elo" q u e " i s o l a u m fenómene. o t e l l i t t a s e u resíduo irredutível, contempla s e u s
fornecer conteúdo algum. E n f i m o s e r v i v o é conhecido m u l t o t e m p o traços e m e n d a i s p o r u n i a I n t u i ç ã o I m e d i a t a - . ( L e i Diferences essentielles dos fonclionS,
psychlques r h r z 111011117W e t l e s a n i m e « . W e i n ' , d e phtlenopMe d e t a n a t u r e , I V. m i _
antes d o inorgan'co, — o q u e comumente s e exprime bastante m a l f a - 70 e 8 5 ) . A p l i c e n t o á s m í m i c a s inteli%entem, este m é t o d o encontre o r l a s C01120 s e u s e n -
lando d e u m animismo i n f a n t i l , — e é u m anacronismo considerar a tido g e r a l a " p o s s e d e a l g u m a c o i s a % i b i d . , p . S S . A p a l a v r a fenomenologla é t o -
percepção d o s e r v i v o c o m o secundária. É preciso então que o s gestos metia a q u i n o s e n t i d o m u i t o a m p l o d e • e s c r k a o d m estrutureis.
e a s atitudes d o corpo fenomenal t e n h a m u m a estrutura própria, u m a (4) K s t a d e t e r m i n a ç ã o d a s essências s e n ã o e r e c o n h e c i d a c o m o t a l é a c a d a
instante p r a t i c a d a p e l o s cientistas. O s l i s l o l o g i s l u s l e v a m e m c o n t a a f i s i o n o m i a d o
significação Imanente, que ele seja d e salda u m centro de ações que se Comportamento, e m s u a s exper:énclas. M e n c i o n a r ã o e m s e u s resultados q u e o a n i m a i
irradiam sobre u m "nicio", uma certa silhueta no sentido físico e no SC11- estava " f a t i g a d o " , e i s s o e l e s reconhecem p e l o f e i t i o g e r a l d e NUR c o n d u t a , M i r e , q u e
t;do moral, u m certo t i p o de conduta. D e fato, a psicologia moderna pôs pelas m r a c l e r i s t i c a s t i s k . . . q u i n e i s » d a f a d i g a . F o i etEnde c o m a n o r m a d o c o m p o r i a -
em e v i d e n c i a esta a p r e e n s ã o i m e d i a t a das e s t r u t u r a s que é a c o a - mento q u e P a v l o v s e chocou ( c f s u p r a , p . 1 5 8 ) q u a n d o a e x p e r ê n c l a s d e c o n d i d o .
mosmento repetir:leo p r o v o c a r a m e m setes paciento:, verdadeiros neuroses expertmeulals.

109 193
sua função n o conjunto e varia c o m ela. O s limiares d a percepção c r o - ceberia d e f o r a suas estruturas privilegiadas p e l a ação d e u m a causa-
mática são diferentes e m u m a mesma mancha de c o r segundo seja per- lidade sociológica o u fisiológica. S e essas estruturas n ã o estivessem d e
cebida como "figura" ou como "fundo" f(4 p á g . 203). Essa mesma noção de alguma f o r m a prefiguradas n a consciência d a criança, o o b j e t o d e uso
forma permitirá descrever o modo de existência dos objetos primitivos da ou o " o u t r o " n ã o s e exprimiriam nela senão p o r edifícios d e sensações
percepção. Eles são, dizíamos, a n t e s de conhecidos c o m o abjetos verdeiros, dos quais u n i a interpretação progressiva deveria e x t r a i r tardiamente o
vividos como realidades. Certos estados d e consciência adulta permitem sentido humano, S e a linguagem n ã o reencontrasse n a criança que o u -
compreender esta distinção. o campo d e futebol n ã o é, p a r a o jogador ve falar, alguma predisposição a o a t o d a palavra, a linguagem p e r m a -
em ação, u m "objeto", i s t o é . o t e r m o ideal q u e pode ocasionar urna neceria m u l t o t e m p o p a r a e l a u m fenômeno sonoro e n t r e outros, seria
multiplicidade i n d e f i n i d a d e visadas perspectivas e permanecer equiva- impotente sobre o mosaico d o sensações d e q u e disporia a COTISCiênCIZI
lente sob suas transformações aparentes. E l e é percorrido p o r Unhas de Infantil, n ã o s e compreenderia q u e pudesse desempenhar, n a c o n s t i -
força ( a s " l i n h a s d e t i r o " , Unhas q u e l i m i t a m a " a r e s d e cobrança d e tuição d o m u n d o percebido, o papel d i r e t o r q u e o s psicólogos concor-
falta"), — articulado e m setores ( p o r exemplo as "brechas" entre os ad- dam em l h e reconhecer E m outros termos, se o mundo humano p o -
versários) q u e convidam a u m c e r t o m o d o d e ação, deseneadelam-na e de a d q u i r i r d e improviso n a COnSelÕnela i n f a n t i l u m a importencia m e -
a sustentam à revelia d o jogador. O campo n ã o Lhe é dado, m a s p r e - %elegenda, isto não ocorre na medida em que ele existe em torno da crian-
sente como o termo imanente de suas intenções práticas; o jogador I n - ça, é na medida e m q u e a consciência d a criança, que v ê utilizar obje-
corpora-o a s i e sente p o r exemplo a direção d a "meta" t ã o imediata- tes humanos e começa p o r sua vez a utilizá-los, é capaz de reencontrar
mente quanto a horizontal e a vertical de seu próprio corpo. Não bastaria de improviso nesses a t o s e nesses objetos a intenção d e q u e eles s ã o
dizer que a consciência habita esse meio. Nesse momento ela não é nada a testemunha visível. U t i l i z a r u m o b j e t o humano, é sempre m a i s o u
mais q u e a dialética do meio e d a ação. Cada manobra empreendida pe- menos esposar e r e t o m a r p o r s u a c o n t a o sent'do d o t r a b a l h o q u e o
lo jogador modifica o aspecto d o campo e estende a í novas linhas d e produziu. N ã o se trata d e sustentar a tese absurda d e u m inatismo das
Torça onde a ação p o r s u a vez se escoa e s e realiza alterando d e novo estruturas d e conduta fundamentais. N ã o s ó o i n a t i s m o concorda m a l
o campo fenomenal com o s fatos, — a influancia d o m e l o sobre a formação d o espírito é
bastante visível e é claro que u m a criança que n ã o tivesse jamais visto
Mas, poder-se-la ser tentado a dizer que esses caracteres n ã o c o - roupas n ã o poderia t e r a conduta d o vestuário n e m f a l a r o u represen-
locam n e n h u m problema especial. Q u e a percepção s e j a de início u m a tar para s i própria outros homens se estivesse absolutamente só, — mas
também contorna a dificuldade: limita-se a transportar para "dentro" d a
percepção das ações humanas o u dos abjetos d e uso, i s t o se explicaria
simplesmente p e l a presença efetiva d e homens e de objetos d e u s o n o consclencia, isto é, e m suma, para uma experiência Interna, os conteúdos
entorno d a c r i a n ç a . Q u e n ã o a t i n j a o s o b j e t a s s e n ã o a t r a v é s d a s que o empirismo deriva d a experiancia externa. A criança compreende-
palavras, s e r i a o efeito d a l i n g u a g e m c o m o f e n ô m e n o s o c i a l . Q u e ria antes d e t o d a elaboração lógica o sentido humano dos corpos e dos
transporte os quadros sociais n o próprio conhecimento d a natureza, não objetos de uso o u o valor significativo d a linguagem, porque ela própria
estaria a í senão urna prova a mais e m f a v o r d e u m a sociologia d o co- esboçaria o s atos que dão sentido às palavras e aos gestos. É evidente
nhec;mento. Q u e s e a b r a e n f i m s o b r e u m a realidade q u e c o n v i d a que n ã o está a í u m a solução: j á vimos q u e a criança compreende a t i -
nossa ação antes que sobre u m a verdade, o b j e t o d e conhecimento, isto tudes que jamais teve ocasião d e t o m a r e, sobretudo, não se v é porque,
resultaria d a ressonância n a consciência d e s e u acompanhamento m o - realizadas nela sob f o r m a d e montagens inatas, e oferecidas a e l a e m
tor. E m o u t r o s termos, teríamos posto e m evidência o s determinantes espetáculo interior, essas atitudes seriam mais imediatamente compreen-
sociais e psicológicos d a percepção. teríamos descrito, n ã o u m a f o r m a didas que quando l h e são dadas e m espetáculo de f o r a . Q u e a criança
original d e consciência, m a s o s conteúdos empíricos, sociais o u cenes- contemple sua aparência exterior e visual o u que l h e apreenda e m seu
tésicos, que l h e são impostos pela existência d o corpo o u pela inserção próprio corpo sua realização motora, a questão permanece sempre a d e
em u m a sociedade e não n o s obrigam a modificar a idéia que fazemos saber d e q u e m o d o através desses materiais u m a unidade d e sentido
de sua estrutura própria. PrOpOMO-nos ao contrário, mostrar, que o as- Irredutível é apreendida. P a r a além d a oposição artificial e n t r e Inato e
pecto descritivo d a percepção incipiente exige u m a reformulação d a n o - adquirido, t r a t a - s e então d e descrever, n o p r ó p r i o momento d a expe-
ção de cansei:mela. A simples presença d e fato, n o entorno i n f a n t i l , de
outros seres humanos e abjetos de uso ou d e objetos culturais, não pode
explicar a s formas d a p:ircepeilo p r i m i t i v a c o m o u m a causa explica seu (1) t i , e m p a r i : c o l a r. Cusslect " L e I n n s e e ! I n t o n s t • t u i l l o n d u m o n d e d e s o b j e t s " ,
efeito. A consciência não é comparável a u m a matéria plástica que r e - Jetierilli d e P n r c h ~ g i e n o r m a t e e l p u t h o l o g l q u e , J o n v i e r. 1931-

205
fazer dela o m e i o de acesso privilegiado a u m mundo de fatos psíquicos.
Ela é uma das perspectivas possíveis da estrutura e d o sentido imanente
da conduta que são a única "realidade" psíquica.

Nos capítulos precedentes, consideramos o nascimento de u m com-


portamento n o mundo físico e e m u m organismo. i s t o é, fingimos nada
saber do homem pela reflexão e nos limitamos a desenvolver o que estava
implicado n a representação cientifica d e seu comportamento. Auxiliados
pela noção do estrutura ou de forma, percebemos assim que o mecanicis-
mo e o finalismo deviam ser conjuntamente rejeitados, e que o 'físico",
o " v i t a l " e o "psíquico" não representavam três poderes de ser, mas três
dialéticas. A natureza física n o homem não se subordina a u m princípio Capítulo I V
vital, o organismo não conspira para realizar u m a idéia, o psiquismo não
é " n o " c o r p o u m p r i n c í p i o m o t o r, m a s o q u e denominamos a n a t u -
reza é j á consciência d a natureza, o que chamamos v i d a é j á consciên-
cia da vida, o que chamamos psiquismo é ainda u m objeto diante da cons-
ciência. Todavia, mesmo estabelecendo a idealidade d a f o r m a física, a do
organismo e a d o "psíquico", e justamente porque o fazíamos, n ã o p o - AS RELAÇÕES ENTRE A A L M A E O CORPO E
díamos superpor simplesmente estas três ordens, e cada u m a delas, n ã o
sendo urna nova substância, deveria s e r concebida como u m a retomada O PROBLEMA D A CONSCIÊNCIA PERCEPTIVA
e urna "nova estruturação" da precedente. D a í o duplo a s p e c t o da análi-
se que, a o mesmo tempo, liberava o superior d o i n f e r i o r e o "fundava" Falou-se demais que a conscláncia ingénua e r a realista.-0u,pelp
sobre ele. É essa dupla relação que permanece obscura e nos obriga agora menos, seria necessário distinguir face a essa colocâção as opiniões d o
a situar nossos resultados em relação às soluções clássicas e e m particu- senso comum, a maneira pela qual ele d á conta verbalmente da percep-
lar em relação ao idealismo crítico. N o início consideramos a consciência
como u m a região d o ser e como u m t i p o particular de comportamento. crio (1),,e.as prõprias egp!tibririntl perceptivas, — a percepção falada e a •.percepcâo
Na análise, a consciência é encontrada por toda parte suposta como lugar aparecem quando vivemos neles sem palavras o sem reflexão, e se bus-
das Idéias, e p o r toda parte ligada como integração d a existência. Q u a l camos descrever fielmente seus modos de existência, não evocam nenhu-
é então a relação entre a consciência como meio universal e a consciên- ma metáfora realista, A mesa de trabalho que vejo diante de m im , e o n -
cia enraizada nas dirdétices subordinadas? O ponto de vista d o "especta- de escrevo, o cõmodo n o qual estou e cujas paredes para além d o cam-
dor estranho" deve ser abandonado como ilegítimo e m proveito d e urna po sensível se fecham ao r e d o r d e m i m , o j a r d i m , a rua, a cidade, e n -
reflexão incondiciormda? fim todo u m horizonte espacial não m e aparecem, se m e atenho ao que
me d i z a consciência Imediata, c o m o causas d a percepção q u e t e n h o
deles, q u e i m p r i m i r i a m e m m i m s u a m a r c a o u produziriam u m a i m a -
gem d e s i mesmos n o r u m a ação transitiva. Parece-me sobretudo q u e
minha percepção é como u m feixe d e l u z que revela o s abjetos a i onde
estão e dianifesta sua presença, latente a t é então. Q u e perceba a m i r a
mesmo ou considere u m outro sujeito percebendo, parece-me que o olhar
"se põe" sabre os objetas e os atinge à distância, como bem o exprime o
uso l a t i n o d a palavra " l a m i n a " p a r a designar o o l h a r. S e i c o m c e r t e z a

( I ) Ezda distinpho entre peitem:Mo direla e relatório verbal permanece válida mesmo se a
consCiáncla lingilistizo á prime!ra ( e t , c a p i t u l o precedente) e mesmo a s e u respeito.

218 219
bundo (1); de u m caso ao o u t r o as relações entre a alma e o corpo e os face a o precedente, c o r p o f a c e a o seguinte. O c o r p o e m geral é u m
próprios termos s e m o d i f i c a m segundo a 'normalização" alcance ê x i t o conjunto d e caminhos j á traçados, d e poderes j á constituídos, o s o l o
ou fracasse e a inércia das dialéticas subordinadas se deixe o u não s u - 1 d i a l é t i c o adquirido sobre o q u a l s e opera u m a formalização s u p e r i o r e
perar. N o s s o c o r p o n ã o t e m sempre sentido e , p o r Outro lado, nossos a a l m a é o sentido q u e e n t ã o s e estabelece o e Pode-se certamente
pensamentos, n a timidez p o r exemplo, n ã o encontram sempre n o c o r - comparar as relações entre a alma e o corpo às d o conceito e da pala-
po a plenitude d e s u a expressão v i t a l . Nesses casos d e desintegração. vra ( m o t ) , mas c o m a condição d e se perceber, s o b o s produtos sepa-
a alma e o corpo são aparentemente distintos e é a verdade d o dualis- rados, a operação constituinte que o s u n e e d e se reencontrar, s o b a s
mo- M a s a alma, s e e l a não dispõe d e n e n h u m m e l o d e expressão. — linguagens empíricas, acompanhamento exterior ou vestimenta contingen-
seria m e l h o r dizer: d e nenhum m e i o d e s e efetuar, d e i x a e m breve te d o pensamento, a palavra (parole) v i v a q u e é s u a ú n i c a efetuação,
de s e r o q u e q u e r que seja, cessa e m particular d e s e r alma, c o m o O em q u e o sentido s e f o r m u l a pela p r i m e i r a vez, funda-se assim como
pensamento d o afásico se enfraquece e t e dissolve; O corpo q u e perde sentido e t o m a - s e disponível p a r a operações ulteriores N o s s a s a n á l i -
seu sentido d e i x a e m breve d e s e r corpo v i v o p a r a recair n a condição ses d e f a t o n o s conduziam então à idealidade d o corpo, mas tratava-se
de m a s s a físico-qufinica, n ã o a t i n g e o não-sentido s e n ã o m o r r e n d o . de u m a idéia q u e s e profere e mesmo s e f a z n o acaso d a existência.
Os dois termos não podem jamais se distinguir absolutamente sem d e i - A noção d e Gestalt n o s reconduzia, p o r u m desenvolvimento natural, a
xar d e ser, sua conexão empírica é fundada sobre a operação originá- seu sentido hegeliano, isto é, ao conceito antes d e tornar-se consciência
ria q u e instala u m sentido n u m fragmento d e matéria, o f a z a i h a - de s i , A natureza, dizíamos, é o exterior d e u m conceito 12). 1%111.5 jus-
bitar, aparecer, ser. Vo l t a n d o a essa estrutura como a realidade f u n d a - tamente o conceito c o m o conceito ri.3.o t e m exterior, e a Gestalt p e r -
mental, tornamos compreensível a o mesmo tempo a distinção e a união manecia a s e r pensada c o m o unidade e n t r e o i n t e r i o r e o exterior, a
entre a alma e o corpo. H á u m a dualidade que reaparece sempre a u m natureza e a idéia (3), Correlativamente a consciência pela qual a Gestalt
nível ou a u m outro: a fome ou a sede impedem o pensamento ou OS sen- existe, não era a consciência intelectual, mas a experiência perceptiva (4).
timentos, a dialética propriamente sexual transparece comumente a t r a - É a consciência perceptiva q u e é necessário interrogar p a r a encontrar
vés d e u m a paixão, a integração não é jamais absoluta e fracassa sem- nela u m esclarecimento definitivo, L i m i t e m o - n o s a q u i a i n d i c a r c o m o
pre, mais a l t o n o escritor, m a i s baixe n o afásico. Acontece sempre u m o estatuto d o objeto, a s relações e n t r e a f o r m a e a matéria, a s r e l a -
momento e m q u e escapamos furtivamente d e u m a paixão p e l o c a n - ções entre a alma e o corpo, a individualidade e a pluralidade das cons-
saço o u pelo amor-próprio. E s t a dualidade n ã o é u m simples fato, é ciências são fundadas nela.
fundada e m princípio, t o d a integração supondo o funcionamento n o r -
mal das formações subordinadas, que reclamam sempre seu próprio bem. Não posso Identificar s e m m a i s a q u i l o q u e percebo o a p r ó p r i a
Mas não s e t r a t a d e u m a dualidade d e substâncias, o u e m o u t r o s t e r - coisa, A c o r vermelha d o objeto que v e j o é e permanecerá sempre c o -
nhecida apenas p o r m i m , N ã o t e n h o m e : o a / g u m d e saber s e a i m -
mos, as noções de alma e d e corpo devem ser relativizadas: h á o corpo
como a massa de compostos químicos e m interação, o corpo como dialé- pressão colorida que o objeto oferece a outros é idêntica à minha. N o s -
tica d o ser vivo e d e seu meio biológico, o corpo como dialética do s u - sas confrontações intersubjetivas n ã o v e r s a m senão sobre a estrutura
inteligível d o mundo percebido: posso assegurar-me de que u m outro es-
jeito social e d e s e u grupo, e m e s m o t o d o s o s hábitos s ã o u m c o r -
pectador empregue o mesmo vocabulário que eu para designar a cor des-
po impalpável para o eu de cada Instante. Cada u m desses graus é alma
se objeto, e o mesmo vocabulário, p o r outro lado, p a r a qualificar u m a
série d e outros objetas que chamo t a m b é m d e abjetos vermelhos, M a s
poderia acontecer que, a s relações sendo conservadas, a gama d e cores
(1) " . . . a s u a m ã o q u e a f a s t a v a a s c o b e r t a s c o m u m gesto q u e t e r i a signitheado
outrora q u e ,flistis cobertas a i n c o m o d a v a m e q u e agora n ã o signitMecera n a d a " . P r o u s t
t e Ceife des G a m a r d e s , 11, p . 27. < N o t a d o Tr a d u t o r : P r o u s t . O caminho d e Guerntuntes.
p. 261, • - Tr a d u ç ã o d e M a r i o Q u i n t a n a — E d i t o r a G l o b o . 1 9 5 3 / . " L i v r e g r o c a % ( I ) H a v e r i a ocasião, entretanto, d e a p r o f u n d a r a d i s t i n ç ã o d e n o s o " c o r p o n a t u r a l '
á d u p l a ação d o ox,génio e Kist m o r f i n a , o s o p r o d e m i n h a a v õ n ã o m a i s s e d e b a t i a ,
que e s t á s e m p r e a l i . J á c o n s t i l u l d o r i a consciénelat e d e n o s s o c o r p o " e u i t t i r o r
não m a i s g e m i a . v i v o , l e v e , d e s l i s a v a , p a t i n a n d o , p a r a o f l u i d o d e l i c i o s o . T e l .
que é a sedimentação d e s e u s a t o s espontãneos. O p r o b l e u m é colocado p o r liuscerim
vez a o alento, Insensível conta o v e n t o n a f l a u t a d e u m caniçO, s e mesclasse, naquele
canto, u n i desst.s s u s p i r o s m a i s t u n n i n t a k q u e 1,berlados t t a p r o x i m a ç ã o d a m o r t e quamto d i s t i n g u e " p a s s i v i d a d e o r i g i n á r i a " e " p a s s i v i d a d e s e c u n d a r i a " . C f , e m p a r -
Ocular F o r m a t e u n d transzentiedule, L e g a < p . 2 8 7 , i n J a h r b u c i M r P h i t o l o p h i e u n d
fazem * c r e d i t a r e m impressács d e s o f r i m e n t o o u d e felicidade naqueles q u e J á n ã o sen- rhonornenolog:tehe Forschung, t . X , 1 9 2 9 .
ti-um e viessem acrescentar u m a c e n t o m a i s melodioso, m a i s s e m m u d a r - l h e o r i t m o , (2) C . D. 175.
àquela l o n g a f r a s e q u e s e elevava, s u b i a a i n d a m a i s , d o p e i s r e t o m b a v e , p a r a l a n ç a r - (3) Cl'. p. 147,
se d e n o v o , d e p e i t o a l i v i a d o , e m perseguição d o o x i g é n i o " . i b i d . , p . 3 1 t > l , d o T . (4) Cf. p. 156.
Ibid., p . 2 6 1 ) .

242 2A3
que o outro percebe fosse inteiramente diferente d a minha. O r a é quan- ções objetivas a o espetáculo que atualmente percebo. M a s n ã o s e deve
do o s abjetos m e dão a Impressão originária d o "sentido". quando U m confundir esse saber sobre o mundo com m i n h a percepção de t a l o u qual
esta maneira d i r e t a d e m e Invadir, q u e os d i g o existentes. Resulta d a í segmento d o m u n d o e d e s e u horizonte próximo. O s objetes q u e n ã o
que a percepção c o m o conhecimento das coisas existentes, é u m a cons- pertencem a o circulo d o percebido existem n o sentido e m que verdades
ciência Individual e n ã o a consciência e m geral d a qual falávamos a c i - não deixam d e ser verdadeiras quando não se pensa nelas: seu modo de
ma. E s t a massa sensível n a qual v i v o quando o l h o fixamente u m setor ser é a necessidade lógica e n ã o a "realidade", P o i s neles também s u -
do campo sem buscar reconhecê-lo, o " i s t o " que m i n h a consciência visa ponho com razão u m "perspectivismo" e lhes é essencial apresentarem-se a
sem palavras n ã o é u m a significação o u u m a idéia, s e b e m que possa um espectador através d e u m a multiplicidade d e "perfis". M a s urna vez
em seguida servir de ponto d e apoio a atos d e e x a l t a ç ã o lógica e d e que n ã o o s percebo, trata-se d e u m perspectivismo e m idéia e d e u m a
expressão verbal. J á quando nomeio o percebido o u quando o reconhe- essência d o espectador, a relação d e u m a o u t r o é e l a mesma u m a r e -
ço como u m a cadeira o u u m a árvore, substituo à provação de u m a rea- lação d e significações. Esses obietos pertencem então à ordem das s i g -
lidade f u g i t i v a a subsunção s o b u m conceito, j á mesmo, quando p r o - lailleacõas e não à ordem das existências I I ) . U m a percepção que fosse
nuncio a palavra " I s t o " acrescento u m a existência singular e v i v i d a à coextensiva às coisas sensiveis é inconcebível, e isso n ã o fisicamente, é
essência da exLstència vivida. M a s esses atos d e expressão o u d e refle- logicamente que isso é impossível. P a r a que h a j a perceção, isto é, apre-
xão visam u m t e x t o originareo q u e n ã o pode s e r desprovido d e s e n t i - ensão d e u m a existência, é absolutamente necessário q u e o objeto n ã o
do. A significação q u e e n c o n t r o n u m c o n j u n t o sensível a i j á estava se d ê inteiramente a o o l h a r q u e se coloca sobre e l e e guarde e m r e -
aderente. Q u a n d o " v e j o " u m triângulo, descrever-se-ia m u i t o m a l m i - serva aspectos visados n a percepção atual, mas n ã o possuídos. U m a v i -
nha experiência dizendo que percebo o u compreendo o t r i a n g u l ° a p r o - são que não se fizesse d e u m certo ponto de vista e que nos desse, p o r
pósito d e certos &idos sensíveis. A signifcação é encarnada. É a q u i e exemplo, todas as faces d e u m cubo d e u m a vez é urna p u r a contradi-
agora que percebo esse triângulo como t a l , enquanto a concepção o d á çao n o s termos, p o i s que, p a r a serem visíveis conjuntamente, a s faces
a m i m c o m o u m s e r eterno, c u j o sentido e cujas propriedades, c o m o de u m c u b o d e madeira deveriam s e r transparentes, i s t o é , d e i x a r d e
dizia Descartes, n ã o devem nada a o f a t o d e que o perceba. N ã o é s o - ser as faces d e u m cubo d e madeira. E s e a s seis faces d e u m cubo
mente a matéria d a percepção q u e s e separa p o r assim dizer d a coisa transparente fossem visíveis sob a f o r m a d e u m quadrado, não s e r i a o
e toma-se u m conteúdo d e m i n h a consciência individual. D e u m a certa cubo q u e n ó s variamos. A i d é i a bergsonlana d e u m a "percepção pura".
maneira a f o r m a , e l a também, f a z p a r t e d o indivíduo psicológico o u Isto é, adequada a o o b j e t o o u idêntica a ele, é então inconsistente. E
antes a ele é referida, e esta referência é ineluida n o seu próprio sen- o cubo como significação o u c o m o idéia geométrica que é f e i t o d e seis
tido, u m a vez q u e ela é a f o r m a d e t a l coisa q u e s e apresenta a m i m faces iguais A relação, o r i g i n a l e característica das coisas existentes,
aqui e agora e que esse encontro, que m e é revelado peia percepção, não r d o s 'aspectos" a o o b j e t o t o t a l n ã o é u m a relação lógica c o m o a d o
interessa em nada à natureza própria d a coisa e é ao contrário u m epi- signo à significação; o s lados d a cadeira n ã o são os "simds" da cadeira,
mas justamente os lados.
sódio d a m i n h a vida. S e d o i s sujeitos colocados u m a o l a d o d o o u t r o
olham u m cubo d e madeira, a estrutura total d o c u b o é a mesma para
Igualmente, o fenómeno d e m e u c o r p o deve s e r distinguido d a s
um e para outro, ela t e m v a l o r d e verdade intersubjetiva e é isso que
pinas significações lógicas. O que o diferencia das coisas exteriores, mes-
experimentem, dizendo todos d o i s que existe a i u m cubo. M a s n ã o são
mo tais corno elas s e apresentam n a experiência vivida, é que o f e n ó -
os mesmos lados do cubo que, em u m e e m outro, são propriamente vis-
meno de meu corpo não é, como elas, acessível a uma inspeção ilimitada.
tos e sentidos. E j á dissemos q u e esse "perspectivismo" d a percepção
não ó u m f a t o indiferente, u m a vez q u e sem ele o s d o i s sujeitos n ã o Quando s e t r a t a d e u m a coisa exterior, s e i que mudando d e l u g a r pos-
teriam con-scienta d e perceber u m c u b o existente e subsistente p a r a so v e r o s lados q u e m e estão escondidos, — ocupando a posição q u e
além dos conteúdos sensíveis. S e todos o s lados d o cubo pudessem ser
conhecidos de u m só golpe, não t e r i a mais de m e ocupar com uma coisa
que s e oferece progressivamente à inspecção, m a s c o m u m a i d é i a que ( I ) l i c é e r v a m o s a questão d e s a b e r s e n ã o existe. c o m o o sugere Heldegger, u m a p e r -
meu espirito possuiria verdadeiramente. 2 o q u e acontece quando pen- cepção d o m u n d o , I s t o é , u m a mearíeis d e aceder a u m a c a m p o I n d e f i n i d o d e o b j e t o '
so em objetes que tenho por existentes sem percebê-los atualmente. A f i r - que o s d e e m s u a r e a l i d a d e . O q u e é c e r t o é q u e o perc ebi do h ü s e l i m i t a A q u i l o
mando que eles continuam a existir, quero dizer que u m sujeito psico- que i n i p r e s e i o n a n u m a o l h o s . Q u a n d o e s t o u n e t - d a d o A m i n h a 11101« d e t r a b a l h o .
o espaço s e f e c h a a t r a s d e m i m n ã o s o m e n t e e m I d é i a m a s I f i l I l b é n t c r u r e a l i d a d e .
físico colocado convenientemente v e r i a t a l o u q u a l espetáculo sensivel, Mesmo s e o h o r i z o n t e d o nen-dileto p o d e en•r d i l a t a d o a t é o s l i m i t e s d o m u n d o , a
articulado de Sal o u q u a l maneira, e religado p o r tais o u quais trans1- tonselénein p e r c e p t i v o d o n i u n d o c o r n o e x i s t e n t e permanece d i s t i n t a d a conselencla
intelectual d o m u n d o corno o b j e t o d e u n i a i n f i n i d a d e d e J a t i . » v e r d a d e i r o * .

244 245
era h á pouco a de u m vizinho, poderia obter u m a visão perspectiva n o -
dogmático, postule-se q u e todas a s entidades d a s quais t e m o s a expe-
va e fazer dela u m relatório verbal que concordaria com a descrição que
riência deveriam nos s e r dadas "inteiramente", c o m o a s s i g n i t e a ç õ e s
meu vizinho dera h á pouco d o objeto. C o m relação a m e u corpo, n ã o
pretendem sê-lo. Assim, a obscura causalidade d o corpo s e rCe011atIZ à
tenho a mesma liberdade. S e i perfeitamente que não verei jamais d i r e -
estrutura o r i g i n a l d e u m f e n ô m e n o , e n ã o i m a g i n a m o s e x p l i c a r
tamente meus olhos e que, mesmo e m u m espelho, não posso apreender
"através d o corpo" e e m termos de u m pensamento causal, a percepção
seu movimento e sua expressão viva_ M i n h a s retinas são para m i m u m
como acontecimento d e u m a consciencia Individual, M a s se não se t r a -
inconhecível absoluto_ Finalmente n ã o h á a i senão u m caso particular
ta sempre d e r e l i g a r exteriormente m i n h a consciência a u r u c o r p o d o
do perspectivismo d a percepção, D i z e r q u e t e n h o u m corpo é simples- qual e l a adotaria o p o n t o d e v i s t a d e u m a m a n e i r a inexplicável, e s e
mente u m a o u t r a m a n e i r a d e d i z e r q u e m e u conhecimento é u m a
tudo se reduz e m suma a a d m i t i r q u e certos homens vêem coisas q u e
dialética Individual n a q u a l aparecem abjetos intersubjetivos, q u e esses eu n ã o vejo, p a r a permanecer f i e l a esse fenómeno, é necessário d i s t i n -
objetas, quando l h e são dados sob o modo d a existência atual, se apre- guir n o m e u conhecimento a zona das perspectivas individuais e a das
sentam a ela através d e seus aspectos sucessivos e que não podem c o - significações Intersubjetivas. N ã o se t r a t a aí da distinção clássica entre sen-
existir, q u e finalmente u m deles s e oferece obstinadamente " d o mesmo sibilidade e inteligência, u m a vez que o horizonte do percebido se esten-
lado", sem q u e e u possa contomá-lo. Reserva f e i t a para a imagem que de p a r a a l é m d o perímetro d a visão e contém, a l é m d o s objetas q u e
os espelhos dele m e dão ( m a s a p a r t i r d o momento e m q u e t e n t o v ê - impressionam m i n h a retina, as paredes d o cômodo atrás de m i m , a casa
la s o b diferentes p o n t o s d e vista, inclinando a cabeça p a r a a & r e n s e talvez o vilarejo e m que m e encontro, dispostos perspectivamente e m
e para a esquerda, esta imagem move-se, não é urna verdadeira 'coisa"). tomo d o núcleo "sensível". Ta m b é m n ã o voltamos à distinção e n t r e a
meu corpo t a l q u a l a vista m o oferece é truncado à altura dos ombros matéria e a forma, u n i a vez q u e d e u m lado a p r ó p r i a f o r m a d a p e r -
e é terminado p o r u m objeto tácillo-muscular_ N e s t e espaço vazio e m cepção participa da ecceidade e que, inversamente, posso fazer versar so-
que se encontra m i n h a cabeça, rala-se que u m objeto é visível p o r o u - bre o conteúdo sensível atos d e reconhecimento e d e denominação q u e
tros: a ciência ensina q u e a análise encontraria neste o b j e t o visível vão converte-10 e m significação. A distinção q u e Introduzimos é antes
órgãos, u m cérebro e , cada vez que percebo u m a coisa exterior, " I n f l u - a d o v i v i d o a o conhecido, O p r o b l e m a d a s relações e n t r e a a l m a e
xos nervosos". N ã o v e r e i j a m a i s n a d a d e t u d o i s t o . N ã o poderei j a - O corpo s e transforma, então, e m l u g a r d e desaparecer: s e r á a g o r a o
mais f a z e r corresponder s i g n i f i c a ç ã o " c o r p o humano", t a l c o m o m e problema das relações d a consciência como f l u x o d e acontecimentos I n -
é dada pela clencia e pelos testemunhos, urna experiência atual d e meu dividuais, d e estruturas concretas e resistentes, e d a consciência c o m o
corpo que l h e seja adequada E x i s t e m entidades que permanecerão sem- tecido d e signifIcacões ideais. A i d é i a d e urna filosofia transcendental,
pre p a r a m i m , sob certos d e seus aspectos, significações puras e não se Isto é , a d e u m a consciéncia como constituindo o universo diante d e s i
1
oferecerão jamais senão a u m a percepção lacunar. E s t a estrutura n ã o e apreendendo o s próprios objetos e m tuna experiência externa i n d u b i -
é e m si-mesma m u i t o mais misteriosa que a dos objetas exteriores c o m tável, parece-nos u m a aquisição definitiva c o m o p r i m e i r a fase d e r e f l e -
os quais é a l i á s solidária: c o m o poderia receber u m objeto " e m u m a xão. Mate n ã o s e é então obrigado a restabelecer, n o i n t e r i o r d a cons-
certa direção" s e eu, s u j e i t o perciplente, n ã o estivesse d e alguma m a - ciência u m a dualidade q u e n ã o m a i s se a d m i t e e n t r e a p r ó p r i a cons-
neira escondido e m u m d e meus fenômenos, q u e m e envolve i m p e d i n - ciência e a s realidades exteriores? O s abjetos c o m o unidades ideais e
do-me d e d a r - l h e a volta? São necessários dois pontos para determinar como sitnificações s ã o apreendidos através das perspectivas individuais,
urna direção. N ã o descrevemos completamente a estrutura d o corpo p r ó - Quando percebo u m l i v r o colocado diante d e m i m , sua f o r m a retangu-
prio, q u e comporta a i n d a u m a perspectiva afetiva c u j a importância é lar é u m a estrutura concreta e encarnada. Q u a l é a relação entre esta
evidente M a s o q u e precede é suficiente p a r a m o s t r a r que n ã o existe "fisionomia" retangular e a significação retângulo q u e posso explicitar
enigma d o " m e u corpo", nada d e inexprimível e m s u a relação a m i m . por u m a t o lógico?
É verdade q u e descrevendo-o transformamos e m significação a perspec-
tiva vivida q u e p o r definição n ã o O é . M a s esta essência alógica dos Toda teoria d a percepção busca superar u m a contradição b e m c o -
seres percebidos p o d e s e r claramente designada: d i r - s e - á p o r exemplo nhecida: d e u m lado a conscLíncia é função d o corpo, é pois u m acon-
que e s t á i n c l u í d o n a i d é i a d o s seres percebidos e d o c o r p o o f e r e - tecimento I n t e r i o r " pendente d e certos acontecimentos exterores: d e o u -
cerem-se através d e p e r f i s d o s quais n ã o disponho c o m o disponho d e t r o l a d o esses próprios acontecimentos exteriores sã são conhecidos pela
uma idéia. Reconduzida a seu sentido positivo, a conexão e n t r e a a l - consciência. E m o u t r a linguagem, a consciência aparece de u m lado c o -
ma e o corpo não significa outra coisa que à ecceidade d o conhecimento mo parte cio mundo e de outro lado como coextensiva ao mundo, N o d e -
por perfis, n ã o parece s e r u m prodígio senão se, p o r u m preconceito senvolvimento d o conhecimento metódico, I s t o é, d a ciência, a primeira
constatação parece inielahnente s e c o n f i r m a r : a subjetividade d a s m i n -
246 247
que se atualizam n o m e u c a m p o d e consciência t a i s fenômenos sensí-
'idades segundas parece t e r, p o r contrapartida, a realidade das qualida- veis, u m observador colocado convenientemente v e r i a n o m e u cérebro
des primeiras. M a s u m a reflexão m a i s aprofundaria sobre o s objetos d a tais outros fenômenos que não me são dados a m i m mesmo sob o modo de
ciência e sobre a causalidade física encontra neles relações que não p o - atualidade. P a r a compreender esses fenômenos, ele seria levado, (como o
dem s e r estabelecidas e m s i e n ã o t ê m sentido senão diante d e u m a fizemos n o capitulo I X ) a lhes reconhecer u m a significação q u e concor-
inspeção d o espírito. A a n t i n o m i a d e q u e falávamos desaparece c o m daria c o m o conteildo d e m i n h a percepção. Inversamente, posso, a p a r -
sua tese realista a o nível d o pensamento refletido e é n o conhecimento tir d o espetáculo a t u a l q u e m e é dado, representar-me n o m u n d o d o
perceptivo que ela tem sua sede própria. A t é aqui o pensamento criticista virtual, i s t o é , como puras significações, certos fenômenos retinianos e
nos parece incontestável, E l e mostra maravilhosamente que o problema cerebrais q u e localizo e m u m a imagem v i r t u a l d e m e u corpo. o f a t o
da percepção n ã o existe p a r a u m a consciência que s e atém aos objetes de o espectador e eu próprio sermos ligados u m e outro ao nosso corpo
do pensamento refletido, isto é, às significações. É e m seguida que parece representa, em suma, o seguinte: o que me pode ser dado no modo de atua-
necessário abandoná-lce Te n d o assim remetido a antinomia d a percep- lidade, como u m a perspectiva concreta, n ã o l h e é dado senão n o m o d o
ção á o r d e m d a vida, c o m o d i z Descartes, o u d o pensamento confuso, de virtualidade, como u m a significação, e inversamente. M e u ser psico-
pretende-se mostrar q u e ela n ã o t e m a i consistência alguma: p o r p o u - físico t o t a l ( i s t o é , a experiência que t e n h o d e m i m mesmo, a que o s
co que a percepção pense a s i p r ó p r i a e saiba o que ela diz, descobre outros t ê m d e m i m e o s conhecimentos científicos q u e eles aplicam e
que a experiência d a passividade é a i n d a u m a construção d o espirito. que eu aplico ao conhecimento de m i m mesmo) é , e m suma, u m entre-
O realismo n ã o é n e m mesmo fundado sobre u m a aparência coerente, laçamento d e significações t a l que, quando algumas delas são percebidas
é u m erro. Pergunta-se então o que pode fornecer à consciência a p r ó - e passam à atualidade. a s outras n ã o s ã o senão virtualmente visadas.
pria noção d a passividade, e porque e l a se confunde c o m seu corpo, se Mas esta estrutura de experiência é semelhante à dos objetas exteriores.
esses erros naturais n ã o repousam sobre nenhuma experiência autenti- Em m a i s a l t o grau, elas se pressupõem mutuamente. S e existem p a r a
ca e não possuem a r i g o r nenhum sentido. Tentamos mostrar que, c o m mim coisas, I s t o é , seres perspectives, n o seu p r ó p r i o aspecto perspec-
efeito, à medida q u e s e precisa o conhecimento d o organismo, t o r n a - tivo está incluída a referência a u m ponto donde e u os vejo. M a s estar
se impossível d a r u m s e n t i d o c o e r e n t e à pretensa a ç ã o d o m u n - situado e m u m c e r t o p o n t o d e vista, é necessariamente n ã o v e r a ele
do sobre o c o r p o e d o c o r p o sobre a a l m a . O c o r p o e a a l m a s ã o mesmo, n ã o o possuir como o b j e t o visual senão n u m a significação v i r -
significações e s ó t ê m p o i s sentido a o o l h a r d e u m a consciência. D e tual. A existência d e u m a percepção exterior, a d e m e u corpo, e, " e m "
nosso ponto d e vista também, a tese realista do senso comum desapare- esse corpo, d e feaômenos p a r a m i m imperceptíveis s ã o p o i s rigorosa-
ce ao nível d o pensamento refletido q u e não encontra diante dele senão mente sinônimos. E n t r e u m a e o u t r a n ã o h á relação d e causalidade.
significações. A experiência d a passividade n ã o se explica p o r u m a pas- Trata-se de "fenômenos concordantes". Pala-se freqUentemente como s e
sividade efetiva. M a s e l a deve t e r u m sentido e poder se compreender. o perspectivismo d a percepção s e explicasse pela projeção d o s objetos
O realismo é u m e r r o c o m o f i l o s o f i a p o r q u e transpõe e m tese d o g - sobre minha retina: não vejo senão três faces d o cubo porque vejo a t r a -
mática urna experiência q u e e l e deforma o u t o r n a impossível p o r Isso vés d o s meus olhos, o n d e somente u m a projeção dessas t r ê s faces é
mesmo. M a s é u m e r r o motivado, ele se apóia sobre u m fenômeno a u - possível, n ã o v e j o o s objetes q u e estão a t r e s d e m i m porque eles n ã o
tentico, q u e a filosofia t e m p o r f u n ç ã o explicitar. A estrutura própria se projetam sobre minha retina. Mas da mesma forma, poder-se-ia dizer o
da experiência perceptiva, a referência dos " p e r f i s " parciais à signifea- Inverso. Q u e são c o m efeito "meus olhos", " m i n h a retina", " o cubo e x -
ção t o t a l que eles apresentam seria esse fenômeno. C o m efeito, tomado terior" e m s i mesmo, " o s objetes que e u n ã o vejo"? Significações l ó g i -
em seu sentido efetivo, o pretenso condicionamento c o r p o r a l d a p e r - cas que são religadas ã m i n h a percepção atual p o r "motivações" 41) v á -
cepção não exige nada mais, — e nada menos — para ser compreendido. lidas, que explicam o sentido delas, mas que lhe tomam de empréstimo o In •
1,71moe que a s excitações, o s influxos nervosos, s ã o abstrações e q u e a dice de existencla real E s s a s significações não têm pois em si mesmas
ciência o s religa a u m funcionamento t o t a l d o sistema nervoso n a d e - com que explicar a existência atual de minha percepção. Todavia, a lingua-
finição d o qual o fenomenal está implicado. O percebido não é u m efei- gem a q u e n o s atemos freqüentemente s e compreende: m i n h a percep-
to d o funcionamento cerebral, é s u a significação. To d a s a s consciên- çúci do espaço como um espaço completo e real para além dos aspectos que
cias q u e conhecemos s e apresentam a s s i m através d e u m corpo q u e
é seu aspecto perspectivo. M a s e n f i m c a d a dialética individual t e m p o r
assim d i z e r etapas cerebrais q u e e l a p r ó p r i a ignora, a significação d o
(1) I l t n s r r t . I d e e n f i l d o e r r e i n e n P h a n o m e n o l o s e m u i p h a n o m e n o l o g i s c h e P h i l o s o -
funcionamento nervoso t e m pontos de apoio orgilnicos q u e n ã o figuram phie, P • 8 0 '
nela. erdosolicamente, esse f a t o a d m i t o a seguinte tradução: c a d a veZ Cal N T . N o o r i g i n o l : a t i n e n t e N e t a

249
248
me são dados. É pois natural que eu tenha tendencia a separar o espaço e o pia relação. Percebo a s coisas diretamente, sem q u e m e u corpo s e i n -
cubo das perspectivas concretas e a colocá-Ms e m si. A mesma operação terponha c o m o u m obstáculo e n t r e e l a s e e u , o c o r p o é c o m o e l a s
ocorre a propósito do corpo. E , conseqüentemente, sou inclinado a engen- um fenômeno, dotado é verdade d e u m a estrutura original, q u e j u s t a -
drar a percepção através de uma operação do cubo ou do espaço objetivos mente m o apresenta como u m Intermediário entre o m u n d o e eu, ape-
sobre meu corpo objetivo. Essa tentativa é natural, mas o seu fracasso não sar de que d e f a t o ele não o seja. Ve j o c o m meus olhos, que n ã o são
é menos inevitável: v i m e - l o , n ã o s e pode assim reconstruir, combinan- um c o n j u n t o d e tecidos e d e órgãos transparentes e opacos, m a s o s
do significações ideais (estímulos, receptores, c i r c u i t o s associativos) a instrumentos d e meu o l h a r. A imagem retialana, n a medida e m que eu
estrutura d a experiência perceptiva. M a s s e a fisiologia n ã o explica a a conheço, n ã o é a i n d a produzida pelos r a i o s luminosos provenientes
percepção, também a ótica e a geometria n ã o a explicam. Imaginar que do objeto, m a s esses d o i s fenômenos s e assemelham e se correspondem
vejo m i n h a imagem atras d o espelho porque o s raios luminosos, a t i n - de u m a maneira mágica através d e u m intervalo q u e n ã o é a i n d a d a
gindo m e u s o l h o s , f o r m a m u m c e r t o a n g u l o , e s i t u a r s u a o r i g e m Ordem d o espaço. Voltamos aos dados d a consciência ingênua que ana-
no seu ponto d e concurso, é t o r n a r bem misterioso o uso dos espelhos lisamos n o i n í c i o desse capitulo, I s s o n ã o significa q u e a filosofia d a
durante tantos séculos e m q u e a ótica n ã o t i n h a ainda sido inventada. percepção s e j a inteiramente f e i t a n a vida: acabamos d e v e r q u e é n a -
A verdade é que o homem v ê e m p r i m e i r o l u g a r sua imagam "através" tural à consciência se desconhecer, justamente porque é consciência das
do espelho s e m q u e a palavra t e n h a ainda a significação q u e tomará coisas. A s discussóes clássicas e m t o r n o d a percepção testemunham s u -
diante d a Inteligência geométrica. Depois e l e constrói u m a representa- ficientemente esse e r r o n a t u r a l . Confronta-ee o m u n d o constituldo c o m
ção geométrica desse fenômeno que é fundada sobre as articulações con- a experiência perceptiva do mundo, e se quer, o u bem engendrar a per-
cretas d o campo percebido, explicita-as, dá-lhes razão, s e m j a u l a s p o - cepção a p a r t i r d o mundo, como o f a z o realismo, o u bem não v e r nela
der ser a causa delas, como o quer o realismo, e sem que se possa subs- sen5,0 u m esboço d a elênCia d o mundo, c o m o o f a z o criticismo. V o l -
tituir essas articulações concretas pela representação geométrica, c o m o tando á percepção c o m o a u m t i p o d e experiência originária, e m q u e
o f a z o Idealismo c r í t i c o . O acesso a o domínio p r ó p r i o d a percepção o m u n d o r e a l e m s u a especificidade s e constitui, é u m a inversão d o
tornou-se d i f í c i l a todas a s filosofias q u e , p o r u m a ilusão retrospectiva, movimento n a t u r a l d a consciência q u e s e i m p õ e W e d e o u t r o l a d o
realizavam nela u m a "geometria natural" sob o pretexto d e que f o i pos- toda questão n ã o e s t á suprimida: t r a t a - s e d e compreender, s e m c o n -
sível c o n s t r u i r u m a geometria d o s objetos percebidos. A percepção d e fundi-la c o m u m a relação lógica, a relação v i v i d a dos " p e r f i s " c o m a s
uma distancia o u d e u m a grandeza n ã o se confunde c o m as estimativas "coisa-Sn que eles apresentam, das perspectivas com as significações ideais
quantitativas pelos quais a ciência precisa distancia e grandeza. To d a s que são visadas através delas 125. O problema que Ittlalebranche queria
as cienclas s e colocam e m u m mundo "completo" e real s e m se a p e r - resolver p e l o ocasionallamo o u L e i b n i t z p e l a h a r m o n i a preestabelecida
ceber que face a esse m u n d o a experiência perceptiva é constituinte. se transporta para a consciência humana.
Encontramo-nos p o i s e m presença d e u m campo d e percepção v i v i d a
anterior ao número e à medida, ao espaço, ã causalidade, e que todavia
Ainda n ã o f i z e m o s I n t e r v i r a t é a q u i senão o perspectivismo d a
não s e clã senão como u m a visão perspectiva sobre abjetos dotados d e
parcepção verdadeira. Ficaria p o r analisar os casos em que o vivido apa-
propriedades estáveis, sobre u m m u n d o e sobre u m espaço objetivos.
rece revestido de u m a significação q u e explode, p o r assim dizer, n o c u r -
O problema da percepção consiste em pesquisar como através desse cam- so d a experiência u l t e r i o r e n ã o se verifica através d e sínteses concor-
po é apreendido o mundo intersubjetivo d o qual a ciência pouco a p o u - dantes. N ã o admitimos, para d a r conta dessa subjetividade e m segundo
co precisa a s determinações. A a n t i n o m i a d e que falávamos n o i n í c i o
grau, a s explicações causais dadas p e l o naturalismo, O q u e s e c h a m a
desse parágrafo é f u n d a d a sobre e s t a estrutura ambígua d a experiên-
determinismo corporal, psíquico o u social n a alucinação e n o e r r o n o s
cia perceptiva. A tese e a antítese exprimem seus d o i s aspectos: é v e r -
pareceu reconduzir-se à emergancea de dialéticas imperfeitas, de estrutu-
dade dizer que m i n h a percepção é sempre u m f l u x o d e acontecimentos
ras parciais. M a s porque, i n existendo, t a l dialética d o nível organo-ve-
individuais e o q u e existe d e radicalmente contingente n o perspectivis-
getativo vem, corno acontece n a alucinação, quebrar urna dialética mais
mo v i v i d o d a percepção d á c o n t a d a aparência realista. M a s é t a m -
bém verdade dizer que m i n h a percepção acede à s próprias coisas, u m a
vez q u e essas perspectivas s ã o articuladas d e u m a maneira q u e t o m a
possível o acesso a significações i n t e r i n d i v i d u a i s , u m a v e z q u e
«apresentam" u m m u n d o . H á então coisas exatamente n o sentido e m
(1) D e t i n i t n o a a q u i e t •troducCio tenornenolOglea" n o a e n t i d o q u e l h e diti a e i u m a
que e u a s veio, n a m i n h a história e f o r a dela, inseparáveis dessa d u - • l o s o f i a d e Rimarei.
(2) t p a r u q u e s e r v I r, o noçrio d e " i n t e n c i o n a l i d a d e ' .

250 231
Integrada? A consciência não é somente e sempre consciência d e verda- tegorias, m a s n ã o s e pode d i z e r também q u e a s representações c o l e t i -
de; como compreender a inércia, a resistência de dialéticas inferiores que vas sejam apenas objetes de u m a consciência sempre l i v r e a seu respei-
se opõem ao advento das p u r a s relações d e sujeito impessoal a o objeto to, a consciência e m " N ó s " u m objeto d a consciência e m E u . O psiquis-
verdadeiro e que afetam meu conhecimento de u m coeficiente de subjeti- mo, j a o dissemos (2), nos conduz à estrutura do comportamento. Como
vidade? Como compreender a aderência ao vivido de uma significação t a - esta estrutura é visível d e f o r a e pelo espectador ao mesmo t e m p o que
laciosa que é constitutiva da ilusão? Rejeitamos as categorias causais d e visível de dentro e p e l o ator, o o u t r o m e é e m principio acessível como
Freud e substituímos suas metáforas energéticas por metáforas estruturais. eu próprio, e somos u m e o u t r o objetes revelados diante d e u m a cons-
Mas se o complexo não é uma coisa f o r a da consciência que a i produziria ciência impessoal ( 2 ) . M a s d a mesma f o r m a que e u posso m e enganar
seus efeitos, se o complexo n ã o é senão u m a estrutura d e consciência, sobre m i m mesmo e apreender apenas a significação aparente ou ideal ( • )
ao menos esta estrutura tende, p o r assim dizer, a se conservar. O q u e de m i n h a conduta, d a mesma f o r m a posso m e enganar sobre o o u t r o e
se chama inconsciente, falou-se 115, é somente u m a signinircação i n a - conhecer apenas o invólucro d e s e u comportamento. A percepção q u e
percebida: acontece que não apreendemos em nós próprios o sentido ver- tenho d o o u t r o n ã o é nunca, n o caso d a d o r o u d e u m luto, o equiva-
dadeiro d e nossa vida, n ã o q u e u m a personalidade inconsciente esteja lente da percepção que ele tem d e si mesmo, salvo se estou intimamente
no f u n d o d e nós e governe nossas ações, mas porque não compreende- ligado a ele de m o d o que nossos sentimentos constituam conjuntamente
mos nossos estados vividos s o b u m a i d é i a q u e n ã o l h e s é adequada. uma única " f o r m a " e q u e nossas vidas deixem d e c o r r e r separadamen-
Todavia, mesmo Ignorada p o r nós, a significação verdadeira de nossa v i - te. E através desse consentimento r a r o e d i f í c i l q u e posso verdadeira-
da n ã o é menos sua l e i eficaz. T u d o s e passa c o m o se e l a orientasse mente j u n t a r - m e a ele, como s ó posso apreender meus sentimentos n a -
o fluxo dos acontecimentos psíquicos. Será necessário distinguir sua sig- turais e m e conhecer sinceramente pela decisão de ser e m m i m mesmo.
nificação Ideal ( ” , que pode s e r verdadeira o u falsa, e sua significação Assim, se não m e conheço p o r posição, não tenho c o m mais f o r t e razão
Imanente, — ou, p a r a empregar u m a linguagem mais clara d a qual n o s o poder i n a t o de conhecer verdadeiramente o o u t r o . Comunico-me c o m
serviremos d a q u i p a r a frente: s u a estrutura efetiva e s u a significação ele p e l a significação d e s u a conduta, m a s trata-se d e a t i n g i r s u a e s -
ideal ( * ) . Correlativamente será necessário distinguir n o desenvolvimen- trutura, i s t o é , s o b suas palavras o u mesmo suas ações, a t i n g i r a r e -
to u m a liberação ideal ( * ) q u e não n o s transforma e m nosso ser e m u - gião e m que elas se preparam. O comportamento d o outro, virno-le (3
da somente a consciência q u e temos d e n ó s próprios, e u m a liberação exprMe uma certa maneira de existir antes d e significar u m a certa m a -
real que é Umgestaltinig da qual falamos à maneira de Goldstein. Não nos neira d e pensar E quando esse comportamento s e dirige a m i m , como
reduzimos A conseWncia ideal q u e temos d e nós, e m u i t o menos a acontece n o cUálogo, e c a p t a m e u s pensamentos p a r a responde-los, —
coisa existente se reduz à significação pela qual a exprimimos. D a mes- ou m a i s simplesmente quando "objeteis culturais" q u e c a e m s o b m e u
ma maneira, é f á c i l o p o r a o sociólogo que as estruturas d e consciência olhar se ajustam subitamente a meus poderes, acordando minhas inten-
que ele coloca e m relação c o m u m a certa estrutura econômica são e m ções e fazendo-se "compreender" p o r m i m , — sou então arrastado n u -
realidade a consciência de certas estruturas, o que subentende u m a liber- ma coexistência da qual não sou o único constituinte e que funda o f e -
dade solidária do espirito, capaz p o r reflexão d e se apreender como f o n t e nômeno d a natureza social c o m o a experiência perceptiva f u n d a o f e -
espontánea e naturante aquém das formas contingentes por ele revestidas nômeno d a natureza física. A consciência p o d e v i v e r nas coisas e x i s -
em um certo melo. Como o complexo de Freud, a estrutura econômica não tentes, sem reflexão, abandonar-se a sua estrutura concreta que não f o i
é mais q u e u m dos objetes d e u m a consciência transcendente'. M a s a ainda convertida e m significação exprimível; certos episódios d e sua v i -
consciência transeendental, a plena consciência de s i não é acabada, está da, antes d e serem conduz-Mos A condição d e lembranças disponíveis e
por fazer-se, I s t o é , p o r realizar-se n a existência. Opõe-se c o m razão de objetes inofensivos, p o d e m p o r s u a i n é r c i a p r ó p r i a a p r i s i o n a r s u a
à "consciencia coletiva" d e Durkheim e a s suas tentativas d e explicação liberdade, encurtar s u a percepção d o m u n d o , i m p o r a o comportamento
sociológica d o conhecimento, q u e a consciência n ã o p o d e s e r t r a t a d a eetereotipias; d a mesma maneira, antes d e h a v e r pensado nossa classe
como u n i efeito pois é ela que constitui a relação de causa e efeito. Mas ou nosso meio, somos esta classe, esse meio.
para além d e u m pensamento causal q u e é m u l t o f á c i l d e recusar, h á O ' E u Penso' pode pois estar como que alucinado p o r seus o b j e -
uma verdade d o sociologismo. A consciência coletiva não produz a s c a -
(1) C L s u p r a p á s . 1 9 9
(2) É a lese d e J . P . S o r t r t L a transeendenee d e I t g o . Recherches p h i l o w p h i q u e s
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(3) C f , • u p r a . D . 1 3 7 -
(1) J . P . S a e t r e L a tronsçeruleuee d e l ' E g o i . Recherches p h i s c r o p h i q u e . 1 9 3 6 - 1 9 1 t
<• ) N o o r i g i n a l : " I d e e l l e .
( • ) N o o r ) g i n u l ' s i g n i f i c a / l e n t d t e l t e " : - L a e r a t i o n We e l l e consciente n l e c t i e l .

252 2 5 3
tos. Responder-se-á t e isso é verdade) q u e ele "deve poder" acompa- cias, todos o s problemas que acabamos d e abordar n o s remetem à p e r -
nhar todas as nossas representações e que ele é pressuposto p o r elas, se- cepeeece O problema d a percepção reside n a dualidade das noções de es-
não c o m o t e r m o d e u m a t o de consciência atual, a o menos como u m a trutura e — i r i c a ç ã o . t o l a " f o r m a " t a l como, p o r exemplo, a estrutu-
possibilidade d e princípio. M a s esta resposta cr•ticista coloca u m p r o - ra " f i g u r a e fundo", é u m conjunto que t e m u m sentido e q u e o f e r e d i —
blema; a conversão d o o l h a r que transforma a v i d a d a consciência e m então à análise Intelectual u m p o n t o d e apolee M a s a o mesmo tempo,
uma pura dialética entre o sujeito e o objeto, que reduz a coisa n a sua não é urna idéia, — eia se constitui, s e altera o u se reorgapise diante
espessura sensível a urna rede d e significaçees, a r minLscéncia traumá- de n ó s corno u m espetáculo. A s pretensas "cetesalidades" corporal, s o -
tica a urna lembrança indiferente e submete ã análise a estrutura d e cial, psicológia, s e r e d u z e m a e s t a contingência d e perspectivas v i -
classe de m i n h a consciência — expl!cita uma "condição d e possibilidade" vidas q u e l i m i t a m nosso acesso à s significações eternas. A s "localiza-
eterna, o u melhor, f a z aparecer u m a n o v a estrutura d e consciência? t ções horizontais" d o funcionamento cerebral, a s estruturas aderentes d o
um problema saber o que se passa, p o r exemplo, quando a conscEncia comportamento a n i m a l , a s d o comportamento p a t o l ó g i c o s ã o a p e -
Se separa d o tempo, desse j o r r o ininterrupto p a r a o seu próprio centro. nas exemplos particularmente gritantes. A "estrutura" é a verdade f i l o -
para apreende-10 como u m a significação intelectual e maneável. N i l o c o - sófica d o naturalismo e d o realismo. Quais são a s relações entre essa
loca a consciência a n u , senão aquilo que estava implícito? Ou, a o c o n - Consciencia n a f t a - U - 1 e a -p—elltà consciência de si? Pode-se pensar a cons-
trário, não entra como e m u m sonho lúcido e m que com efeito n ã o e n - ciência perceptiva s e m s u p r i m i - i a c o m o m o d o original, pode-se m a n -
contra nenhuma opacidade, não que tenha aclarado a eelstência das c o i - ter sua especificidade s e m t o r n a r impensável s u a relação à consciência
sas e sua própria existênCa, m a s perque a consciencla vive n a superfí- Intelectual? S e o essencial d a solução criticista consiste e m reenviar a
cie d e s i mesma e sobre o invólucro d a s coisas? A passagem refle:dva existencle aos limites d o conhecimento e reencontrar a significação i n -
para a consciCescia intelectual é u m a adequação d e nosso saber a nosso telectual n a estrutura concreta e se, c o m o se disse, a sorte d o criticis-
ser, o u apenas u m a maneira p a r a a consciência d e se c r i a r u m a e x i s - mo está ligada a esta teoria intelectuallsa d a percepção, no caso e m que
tência separada, — u m quietismo? Essas questões não exprimem nenhu- ela não fosse aceitável, seria necessário redefinir a filosofia transcenden-
ma reivindicação e m i t i s t e , nenhuma complacência p o r "experiências" que te] d e maneira a nela integrar a t é o fenómeno d o real. A "coisa" n a -
não t e r i a m de d a r conta d e s i mesmas. Pretende-se, ao contrário, igua- tural, o organismo, o comportamento do o u t r o e o m e u não existem se-
lar a consciência à experiência inteira, recolher n a consciência p a r a s i ntia através d e seu sentido, mas o sentido q u e j o r r a neles n ã o é ainda
toda a v i d a d a consciência e m s i . U m a filosofia d e inspiração criticis- um objeto kantiano, a vida Intencional que os constitui não é ainda u m a
ta f u n d a a m o r a l sobre a reflexão q u e reencontra p o r detrás d e todos representação, a "compreensão" que Lhes d á acesso n ã o é ainda urna i n -
telecção.
os objetos, o sujeito pensante e m sua liberdade. S e pelo c o n t r á r i o r e -
conhece-se, s e j a a t i t u l o d e fenómeno, u m a e x i s t ê n c a d a consciência
e d e suas estruturas resistentes, n o s s o conhecimento depende d a q u i l o
que somos, a moral começa p o r u m a crítica psicológica e sociológica d e
si mesma, o homem n ã o está seguro d e antemão d e possuir u m a f o n t e
de moralidade, a consciência d e s i n ã o existe nele d e direito, e l a n ã o
é adquirida senão pela elucidação d e seu s e r concreto, n ã o s e verifica
senão pela integração ative d e dialéticas separadas. — corpo e alma, —
entre as quais ele está primeiramente deslocado. E n f i m a morte n ã o
desprovida de sentido, uma vez que a contingência do vivido é uma amea-
ça perpétua para a s significações eternas nas quais ele c r ê exprimir-se
Inteiramente, Será necessário se assegurar d e que a experiência d a eter-
nidade _n _ ã o é. a tumor:dê-fada d a ~ t . t e , ã morte- não está aquém,
mas além, c o m o p o r o u t r o l a d o é necessário distinguir o a m o r a vida
•e o apego à exIstènele• biológeca. O sacrificio d a v i d a s e r á filosofica-
mento impossível. tratar-se-á tão somente de "colocar em jogo" sua vida,
o que é uma maneira mais profunda de viver.

Se se entende p o r percepção o a t o que nos f a z conhecer existêne

254 2 5 5
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