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Gramsci é o ópio dos intelectuais

Ele criou uma farsa filosófica, vestiu-a de suposta complexidade e se tornou o guia
intelectual da esquerda.

Por Olavo de Carvalho

Um fenômeno alarmante da pseudocultura brasileira contemporânea é a importância


desmesurada, beirando a idolatria, que se dá a um pensador fraco e capenga como Antonio
Gramsci. Recentemente um grande jornal paulista, talvez ignorando que há 30 anos esse
ideólogo italiano é o autor mais lido e venerado na esquerda local, anunciou em seis
festivas páginas a reedição das obras dele como se fosse um fiat lux destinado a renovar de
alto a baixo o pensamento brasileiro - algo como dizer que a Hebe Camargo está
revolucionando o estilo dos programas de auditório. Na Internet de língua portuguesa
nenhum outro escritor ou pensador, daqui ou de fora, tem um site com tantos e tão devotos
colaboradores como aquele que os gramscianos brasileiros dedicam ao seu amado guru.
Nem Jorge Amado, escritor que é uma unanimidade nas afeições nacionais, ou Gilberto
Freyre, que foi o nosso pensador de maior repercussão mundial, podem competir com o
fundador do Partido Comunista Italiano em número de teses universitárias consagradas às
suas obras nas universidades brasileiras ao longo das últimas décadas. No entanto, Gramsci
não teve uma única idéia que já não circulasse, em versão melhor e mais consistente, no
ambiente mental europeu da sua época. Tudo o que ele fez foi orquestrar com idéias
correntes um novo conjunto de pretextos para o exercício do maquiavelismo político com
boa consciência, isto é, com falsa consciência. Quase todas as doutrinas dele estão abaixo
da possibilidade de uma discussão filosófica estrita, pois misturam de maneira inextricável
os simples erros técnicos de argumentação, a informação histórica deficiente e um conjunto
de pontos cegos projetados por motivações inconscientes, que só podem ser "analisadas" no
sentido psicanalítico do termo. Sempre que busquei examinar alguma idéia de Gramsci, fui
obrigado a percorrer o mesmo trajeto: começava na lógica e terminava na psicologia;
tentava encontrar os fundamentos de uma tese e acabava tendo de me explicar a mim
mesmo a peculiaríssima - no sentido de esquisita ou mórbida - forma mentis necessária a
acreditar em coisa tão manifestamente boba ou falsa. Por exemplo, quando Gramsci
proclama que "a filosofia é uma ordem intelectual, coisa que a religião não pode ser",
temos de nos perguntar se ele ignora que toda a noção mesma de ordem ou sistema
intelectual no sentido moderno (tal como aparece, por exemplo, nas construções do
racionalismo de Espinoza ou Leibniz) é modelada segundo a estrutura da teologia medieval
ou se, sabendo disso, ele finge que não sabe. No primeiro caso, temos de nos explicar como
a total abstinência de conhecimentos sobre um assunto pode coexistir com a sensação de
absoluta segurança ao falar nele. No segundo, temos de nos perguntar se com isso Gramsci
imaginava poder enganar alguém mais informado do que uma massa de operários sem
tempo de estudar. Em ambos os casos, temos de reconhecer que estamos diante de um caso
de patologia intelectual, de total desinteresse pela verdade, mesmo na acepção puramente
histórica e factual do termo. Os exemplos podem multiplicar-se ao infinito. Aqui não é o
lugar de enumerá-los, mas (pausa para os comerciais) os interessados encontrarão um
mostruário periodicamente renovado deles na minha homepage, onde inaugurei uma seção
destinada a ir desmontando, fibra por fibra, o castelo de papelão armado por um político
azarado, dublê de filósofo diletante. Qualquer que seja o assunto sobre o qual lança seu
olhar, Gramsci projeta sobre ele um monumental escotoma, uma área cega formada em
parte por preconceitos, em parte por desinformação, em parte por desinformação
preconceituosa, isto é, pela ignorância providencialmente seletiva daquelas precisas coisas
que é necessário ignorar para acreditar no que ele está dizendo.

Não obstante todas essas monstruosas distorções ópticas, preciso reconhecer que uma parte
da sociedade humana funciona exatamente como Gramsci a descreve. Qual parte? Ora, a
intelectualidade militante, é claro. Ela funciona como Gramsci diz que funciona, não
apenas pela razão demasiado óbvia de que essas pessoas leram Gramsci e fazem o que ele
sugere - isto é, não apenas no sentido vulgar de profecia auto-realizável -, mas porque todo
o sistema de Gramsci é uma racionalização das ambições de poder dessa categoria de seres
criados pela expansão do ensino: o "proletariado intelectual", como o chamava Otto Maria
Carpeaux, as massas de classe média pseudoletradas, que não encontram uma função útil na
sociedade e um belo dia acabam por descobrir, com mal disfarçado alívio, que, em vez de
se matar, elas podem simplesmente inventar uma nova sociedade à sua imagem e
semelhança. Sinais de como será essa nova sociedade já estão mais que visíveis no mundo
contemporâneo, e sua imagem é, cuspida e escarrada, a cara de Antonio Gramsci.

Gramsci não acreditava em conhecimento objetivo. Influenciado pelo pragmatismo, via as


ciências, as artes, a cultura apenas como expressões dos desejos coletivos e como
instrumentos para realizar esses desejos. A diferença entre ele e os pragmatistas comuns é
que, para ele, o sujeito ativo do conhecimento, ou melhor, da ação, não é um qualquer, um
simples cidadão de carne e osso, e sim aquela entidade coletiva que, entre os íntimos, é
apelidada carinhosamente de Partidão, ou Clube. Proletário em intenção ou imaginação, o
Clube compõe-se essencialmente de intelectuais, e a função dos intelectuais - sejam os do
Clube, sejam os adversários - não é produzir conhecimento, no sentido de uma descrição ou
compreensão da realidade, e sim o discurso legitimador dos interesses de classe. De qual
classe? Aí é que os intelectuais gramscianos se revelam as mais surpreendentes das
criaturas. No capitalismo, eles devem "ocupar espaços" e obter para o Partidão (ou qualquer
outro nome que tenha) a hegemonia, isto é, o controle sobre a atividade mental consciente e
inconsciente da população. Feito isso, operam sem grandes traumas a transição para o
socialismo - Gramsci odiava violências - e assumem o controle oficial de uma sociedade
que extra-oficialmente já comandavam. Ora, uma classe que domina a alma do capitalismo
e exerce o governo no socialismo é, sem dúvida, muito poderosa. Quando Gramsci diz,
portanto, que a atividade intelectual consiste em produzir discursos legitimadores de
interesses de classe, parece impor-se a conclusão de que a classe capaz de dirigir o curso
das coisas em dois regimes deve ter melhor discurso autolegitimador. No entanto, não é
isso o que diz Gramsci. A classe intelectual não tem um discurso em causa própria. Ela fala
apenas em nome dos capitalistas ou dos proletários. Não é um milagre? O poder - seja o
controle nominal do Estado, seja o domínio sutil sobre as consciências - é o instrumento
para a realização dos interesses de classe com o auxílio de um discurso autolegitimador,
mas a classe que exerce o domínio sutil no capitalismo e o controle nominal do Estado no
socialismo não precisa dizer nada no interesse próprio.
Parece uma contradição lógica da doutrina, mas na verdade é coisa pior. O intelectual
gramsciano é realmente o sujeito que exerce a hegemonia hoje, o poder nominal amanhã,
sempre dizendo que quem manda não é ele, e sim os capitalistas ou os proletários. Não é só
uma falha de lógica formal: é uma falsidade existencial. Pois, na ordem das coisas, o
capitalista no capitalismo e o proletário no socialismo são reduzidos à condição inerme de
fornecedores de pretextos, de servidores passivos de uma estratégia que não precisam
sequer compreender e que, no entanto, é posta em ação em nome deles e sob a
responsabilidade deles. Naturalmente, a serviço dessa causa, cada um dá o que tem: o
capitalista entra com o dinheiro, o proletário com a força de trabalho. O intelectual entra
com as decisões e ainda diz que no fundo foram eles que as tomaram. Os dois idiotas
acreditam e se dispõem a ajudar mais um pouco. É por isso que no capitalismo as classes
capitalistas podem gastar rios de dinheiro para custear uma cultura socialista que, no seu
conteúdo explícito, é contra elas, ao passo que, no socialismo, as massas proletárias
consentem em ser escravizadas e reduzidas à míngua em nome de uma ideologia cujo
conteúdo explícito é a favor delas. Acima de ambas essas coletividades de trouxas paira,
misteriosa e inatingível por trás da fumaça como um polvo gigante, a classe dos intelectuais
gramscianos. Se ela não tem um discurso autolegitimador, melhor para ela, porque, falando
somente em nome dos outros, ela pode agir sempre no interesse próprio, dirigir nesse
sentido o rumo da história e tornar-se cada vez mais mandona, enquanto a platéia continua
imaginando que tudo é uma luta entre interesses capitalistas e proletários. O poder, dizia
René Guénon, é invisível por definição.

Quando uma situação se torna confusa a ponto de desafiar toda a compreensão humana e
parecer uma treva demoníaca, é porque alguém está mentindo e algum dado fundamental
foi escamoteado da discussão pública. A intelectualidade ativista, que tem o domínio sobre
todos os canais de formação da mentalidade - desde as escolas primárias e os consultórios
de psicoterapia até os grandes organismos internacionais como a ONU e a Unesco,
passando por uma infinidade de ONGs que dão palpite em tudo -, vive e prospera sob a
sombra protetora de um discurso de luta de classes onde a única classe que nunca aparece
no ringue é ela própria. E quanto mais ela segue Antonio Gramsci, persuadindo-se de que
não é senão humilde servidora de capitalistas ou proletários, mais ela chega à perfeição da
invisibilidade, que consiste em tornar-se invisível a si própria. Eis o motivo do sucesso de
Antonio Gramsci: o intelectual gramsciano é o sujeito que pode começar sua carreira como
manipulador de consciências infantis numa escola primária e terminá-la no posto de um
Stálin ou de um Fidel Castro, sem nunca ter de se dar a mínima conta de que fez algo em
proveito próprio. Uma ideologia como essa é o mais poderoso analgésico de consciências
que já se colocou à venda no mercado da torpeza universal. Para sujeitos complicados e
cheios de conflitos, como geralmente o são os intelectuais na juventude, é tudo quanto
pediam ao capeta. Antonio Gramsci é o Papai Noel das consciências pueris sequiosas de
auto-engano.