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Obs: Este livro possui trechos em audiobook, por esse motivo pode ser lido e

ouvido no kindle fire, celular, tablet, notebook e pc. No kindle mais antigo não é
possível. O ideal é baixar gratuitamente o aplicativo de leitura em um dos
aparelhos citados acima.

Extremamente erótico, explícito, detalhado e sem pudores, A coleira é o livro de


estreia de Nana Pauvolih.

A jovem Lorenza tinha apenas 17 anos quando conheceu Miguel Montês. Ele
fez uma proposta que mudou sua vida. Em meio a acordos desonestos e fuga,
ela o evitou, mas nunca o esqueceu.

Agora, seis anos depois, pega em uma armadilha, Lorenza acaba na cama dele,
obrigada a usar uma coleira, prisioneira de um homem que queria cobrar
velhas dívidas do passado.

De uma louca e intensa atração, permeada por dramas e cenas altamente


sensuais, Lorenza vai descobrir o amor de uma forma única, voraz, de uma
maneira totalmente diferente dos seus sonhos.
Prólogo

6 anos antes

Lorenza

Eu sabia que as coisas não estavam indo bem. Apesar de ter apenas dezessete
anos e estar preocupada demais com a minha formatura do Ensino Médio
muito próxima, o vestibular que eu prestaria em pouco tempo e com um
namoradinho que só me dava dor de cabeça, eu percebia que os problemas,
daquela vez, eram muito sérios.

Meu pai não costumava deixar que eu me envolvesse nos negócios e sempre
negava qualquer problema quando eu perguntava. Mas eu sentia-o calado,
tenso, mais magro e pálido. E prestava atenção nos assuntos sussurrados pela
casa, entre os empregados. Há muito tempo que as empresas não davam o
lucro esperado e meu pai lutava para reerguê-las. Pelo visto ele estava
perdendo a batalha.

A enorme casa em que morávamos estava silenciosa quando cheguei da escola


naquela sexta-feira à tarde. Eu havia estranhado ver o carro do meu pai lá fora
aquele horário, ao lado de uma luxuosa Mercedes preta com motorista. Ele
devia estar no escritório com visitas.

Preocupada, fiquei parada no meio da sala e deixei minha mochila pesada


escorregar para o chão. Eu queria ir até lá ver se estava tudo bem e saber o
motivo de meu pai estar em casa no meio da tarde de um dia de trabalho. Isso
era algo que ele nunca fazia.

Porém sabia que ele não gostaria que eu interrompesse, se estivesse em


reunião. Pensei em subir, tirar o uniforme da escola, tomar um banho e depois
procurá-lo.
Mas fiquei imersa em pensamentos de preocupação, imóvel no mesmo lugar.
Por fim ouvi vozes que se aproximavam e fiquei com os olhos fixos no corredor.

Otávio, meu pai, surgiu em meu campo de visão. Fiquei surpresa ao notar seu
aspecto apático, doentio, pálido. Meu Deus, como ele pudera emagrecer e
envelhecer tanto em tão pouco tempo? Era óbvio seu semblante de derrota, seu
olhar perdido, seu ar desesperado. Abri a boca para chamá-lo, saber o que
estava acontecendo, confortá-lo.

Entretanto, eu vi outro homem surgir atrás dele e nossos olhares se


encontraram. Eu nunca vira aquele homem antes. Disso eu tinha certeza. Eu
nunca esqueceria um homem daqueles.

Por um momento minha atenção se desviou totalmente para ele. Fiquei


surpresa com o impacto que ele me causou. Era o homem mais lindo que eu já
vira na vida, sem nenhum exagero. Confesso que uma onda quente de calor me
envolveu por inteira quando meu olhar encontrou com o dele. Isso nunca tinha
me acontecido antes.

Seus olhos eram lindíssimos, de um castanho claríssimo, que se sobressaíam


no rosto bronzeado e devido aos fartos cabelos escuros. Cílios cheios e longos e
másculas sobrancelhas pretas completavam aquela rara beleza masculina. Seu
olhar era profundo e penetrante e me deixou momentaneamente sem ar.

– Lorenza? – Meu pai parou e franziu o cenho ao me ver. – Não devia estar na
escola?

Respirei fundo e consegui libertar meu olhar do moreno alto e impressionante.


Sentia meus membros formigarem quando olhei para o meu pai. Incrivelmente,
a imagem do outro homem continuou em minha mente.

– Eu... foi o último dia de aula. Fomos liberados mais cedo.


Vi meu pai concordar com a cabeça, já sem interesse. Mas meu olhar não pôde
se prender por muito tempo nele. Voltou ao estranho como se fosse
independente de mim. Ele continuava a me olhar, imóvel. Senti-me quente,
viva, pulsante. Engoli em seco. O que estava acontecendo comigo?

– Tenho que voltar ao escritório. Falaremos mais tarde.

Meu pai fez menção de se afastar. A voz do estranho, grossa e aveludada, o fez
parar. E me fez estremecer.

– Não vai me apresentar à sua filha, Otávio?

– Oh! – Meu pai não parecia muito à vontade, como se estivesse muito
preocupado com outras coisas. Mas continuava polido. – Claro. Esta é minha
filha única, Lorenza de Moraes Prado. Lorenza, este é Miguel Montês. Um
parceiro nos negócios.

Todo mundo dizia que eu tinha olhos enormes, que tomavam conta do meu
rosto.

Eu os sentia arregalados e imaginei como devia estar parecendo. Uma jovem


impressionada, desconfortável em seu uniforme de escola, trêmula como uma
boba. Tentei sorrir, disfarçar, ser educada, porém não consegui. Ainda mais
quando ele se aproximou de mim.

– É um prazer conhecê-la, Lorenza. – Meu coração batia acelerado quando eu o


vi parar à minha frente. Apesar de ser alta, senti-me pequena perto dele, com a
cabeça na altura de seus ombros muito largos. Tudo naquele homem
impressionava. Mesmo que ele não estivesse impecavelmente vestido num
terno escuro que lhe dava uma aura de poder, ele se sobressairia em uma
multidão. Eu nunca vira uma pessoa tão bela e tão impressionante.

– Oi, senhor Montês. – Tentei sorrir. Mas estava distraída demais por sua
aparência, sem poder desviar o olhar de seu rosto anguloso, com nariz
finamente talhado e lábios carnudos. Seus olhos então, deixavam-me
desorientada.

– Se seu pai tivesse me dito que tinha uma filha tão bela, eu teria aceitado os
convites dele para jantar aqui.

Enrubesci. Todos que me conheciam gostavam de meu jeito descontraído e


extrovertido. Pela primeira vez na vida sentia-me extremamente tímida, quase
fora de minha razão. Tinha vontade de ficar horas ali, só olhando para ele.
Mergulhada nos lindos olhos claros, meio amarelados, meio esverdeados,
envolventes.

– Precisamos ir, Lorenza. – A voz de meu pai interrompeu meu enlevo.

Corei ao perceber que o canto dos lábios de Miguel Montês estava curvado num
meio sorriso, como se ele soubesse o efeito que tinha sobre mim.
Envergonhada, murmurei algo inteligível e virei-me para sair dali e fugir
daquela presença de bruxo. Ele só podia ter feito algum feitiço para me deixar
daquele jeito. Quase tropecei na mochila no chão. Abaixei-me, peguei-a
rapidamente e, literalmente, saí correndo dali. Subi as escadas para o andar
superior da mansão esquecida das boas maneiras e desesperada para me
refugiar em meu quarto.

Só parei ao me jogar de bruços na cama e fechar os olhos, respirando com


dificuldade. Eu só podia estar louca! Parecia que eu tinha sido possuída por
aquele homem.

Aquele êxtase nunca me acontecera antes. Nem quando eu descobrira que o


rapaz mais lindo da escola gostava de mim! O rapaz que eu paquerara por
meses! Sentia-me descontrolada. Miguel Montês era um homem, por volta dos
trinta anos.
Eu já encontrara homens lindos antes e nunca me sentira daquele jeito. O que
devia ter acontecido? Fiquei deitada, com a imagem dele fixa em minha mente
e com o corpo todo alerta, receptivo, quente, arfante. E ele nem tocara em mim!

Foi a experiência mais impressionante da minha vida.

Ninguém mais, depois disso, me abalou como Miguel Montês.

Só mais tarde eu soube que ele mexeu não somente com meus sentimentos.

Ele mudou toda a minha vida.

Capítulo 1

Dias atuais

Eu sentia-me exausta após as últimas horas. Em pouco tempo eu tivera que


me desfazer de minha casa, arrumar minhas malas, deixar meu trabalho, me
despedir de meus amigos, ir pela última vez ao túmulo do meu pai e depois
tomar um avião de volta para o Brasil. Deixara meu lar em Portugal nos
últimos seis anos e agora estava de volta.

Apesar do cansaço, não conseguia relaxar e dormir. Sentia-me agitada e


nervosa demais para isso. Assim, recostada em meu assento perto da janela,
mantinha meu olhar fixo no vidro escuro e minha mente longe da minha
imagem refletida nele.

Eu jurara que nunca mais voltaria ao Brasil. Saíra de lá com meu pai,
praticamente fugida e, apesar de não ter nenhum problema com a lei do meu
país e de estar fora há tempo demais para que alguém se lembrasse de mim, eu
tivera medo de voltar. Contudo não conseguira resistir. Há mais de dois anos,
desde que meu pai falecera, meu desejo de voltar à minha pátria só tinha
aumentado. E eu acabara me convencendo de que não corria perigo. Tudo
havia esfriado.

Sem querer, a lembrança de um par de olhos castanhos muito claros e


profundos voltou a me atormentar. Fora assim por seis anos. Eu nunca
esquecera Miguel Montês e seu olhar. Como poderia? Ele fora a causa de nossa
fuga. E era agora o meu temor de voltar.

Tentei me acalmar. Eu só o vira uma única vez. Eu morava em São Paulo e


tinha dezessete anos. Agora os anos se passaram, eu tinha vinte e três e estava
indo direto para o Rio de Janeiro. Ninguém sabia disso. Nem minha prima e
amiga, para quem eu mandava e-mails muito raramente e que não sabia de
meu paradeiro. Minha única parenta viva.

Daniela tomaria um grande susto ao me ver. Meu pai não concordaria com a
minha volta. Várias vezes ele pediu que eu prometesse que me manteria longe
do Brasil. Ele achava que Miguel Montês estaria pronto para me pegar assim
que eu pusesse os pés no país. Ele esperaria décadas, se preciso, para cobrar o
que achava que eu lhe devia.

Fechei os olhos por um momento, pensando na loucura de tudo aquilo. Ele me


comprara. Depois de nosso encontro em minha casa, Miguel Montês, que
estava com as empresas de meu pai nas mãos e que era o único capaz de tirá-
lo da falência total, fez a proposta impressionante: comprava as empresas,
salvava os bens e a riqueza de nossa família. Tudo muito justo, uma proposta
irrecusável. Em troca: eu. Ele me queria como sua amante. Indefinidamente.
Até enjoar, como ele garantiu ao meu pai que sempre acontecia em pouco
tempo. Então ficaríamos todos satisfeitos. Eu continuaria a minha vida e nós
continuaríamos ricos.

Eu nem gostava de me recordar o susto que tomei na época. E o pior de tudo é


que ele não precisava daquela proposta. Do jeito que reagi a ele só em vê-lo,
teria sido muito fácil me seduzir. Mas a proposta mudou tudo.
Eu não era prostituta. Eu era menor de idade, virgem, cheia de conceitos que
meus pais incutiram em mim. É claro que disse não. E é claro que meu pai
nunca aceitaria aquilo.

Porém as coisas não foram tão simples. Quando vi, estávamos embarcando
para o Egito às escondidas e de lá desaparecemos do mapa. Meu sério e
responsável pai deu o golpe em todo mundo: sozinho, fingiu concordar com a
proposta após muita relutância e, ajudado por sua fama de honestidade e de
sempre honrar os compromissos, armou tudo: pegou o dinheiro, planejou
nossa fuga e nos fez desaparecer sem que Miguel Montês se desse conta do que
estava acontecendo. E sem que ele sequer me visse mais uma vez, quem dirá
encostar a mão em mim.

Ele não foi desonesto. Deixou uma parte do dinheiro da venda das empresas
para Miguel Montês, como pagamento. Saldou suas dívidas com os
empregados. Ficou com apenas uma parte dos lucros, o bastante para nos
sustentarmos um tempo em uma pequena cidade de Portugal, vivendo numa
pequena fazenda de videiras, sem luxos.

Abri os olhos e ajeitei-me na poltrona, irrequieta. Tivemos uma boa vida lá. É
claro que fomos cuidadosos e não pude fazer faculdade, com medo de ser
rastreada pelo nome. Tudo foi escolhido para que passássemos nossos dias em
uma cidade esquecida do interior, com nomes disfarçados, levando uma vida
simples e saudável. Fomos felizes, fizemos amigos, conseguimos paz. Contudo,
a saudade do que deixamos para trás sempre esteve conosco. E depois que
meu pai morreu, tornou-se insuportável para mim.

A aeromoça avisou para pormos os cintos, pois o avião estava prestes a pousar
no Rio de Janeiro. Ansiosa, obedeci. Não via a hora de pisar em meu país, de
parar de fugir. Estava preocupada e temerosa, porém tentava me convencer de
que, àquela altura, Miguel Montês nem se lembrava mais de mim. Não ia
perder seu tempo e seu dinheiro com uma vingança tola, após tanto tempo.
Além do mais, meu pai deixara uma bela soma de dinheiro para ele.

De qualquer forma, eu tremia, nervosa, quando desci do avião. O sol quente do


Rio de Janeiro fez meus olhos encherem-se de lágrimas de emoção e de
saudade. Agradeci os óculos escuros, que disfarçavam meus olhos vermelhos.
Nem liguei em ter que esperar por passaporte e bagagem. Estava feliz demais
por estar de volta ao meu país.

O aeroporto estava cheio. Era época de férias, de verão, de turistas. Com minha
bolsa a tiracolo e minhas duas malas com rodinhas, embrenhei-me no meio
das pessoas e logo conseguia um táxi.

– Alto da Boa Vista, por favor. – Falei o nome do bairro enquanto o taxista
guardava minha bagagem e abria a porta para mim. Sentei-me no banco com
um sorriso. Valia qualquer risco estar de volta.

Observei a beleza do Rio de Janeiro avidamente. Até as favelas me pareceram


bonitas, tamanha a alegria de estar de volta. Eu nascera no Rio de Janeiro e
morara ali os sete primeiros anos da minha vida, até que minha mãe morreu e
meu pai achou melhor nos mudarmos para São Paulo. Agora minha única
parenta viva continuava a morar ali, na casa que era de seus pais já falecidos.
Eu e Daniela fomos muito amigas, passávamos as férias na casa uma da outra
e nos divertíamos muito.

O nome de minha prima continuava na lista telefônica no mesmo endereço. Eu


esperava encontrá-la e ser bem recebida. Esperava poder refazer a minha vida
ali. Cursar uma faculdade, conseguir um emprego, parar de me esconder.

O taxista era simpático e conversamos durante o percurso. Mas meus olhos


estavam fixos em tudo o que eu via, animados e brilhantes. Até tirei os óculos
escuros, para apreciar melhor tudo.
A paisagem no Alto da Boa Vista era belíssima. A casa de Daniela ficava bem
no meio do morro, numa pacata rua em curva, incrustada no meio de uma
vegetação exuberante que quase escondia a grande casa rosa atrás de pesados
portões de ferro.

Paguei o taxista, dei-lhe uma gorda gorjeta e ele me ajudou a levar as malas até
o portão. Ele esperou enquanto eu apertava o interfone, para ter certeza de que
minha prima ainda morava ali. Uma voz de mulher atendeu:

– Sim?

– Bom dia. Gostaria de falar com Daniela Castro, por favor.

– Quem deseja?

– É a prima dela, Lorenza de Moraes. – Falei, com o coração aos pulos. Rezava
para que ela estivesse em casa.

A mulher ficou em silêncio alguns segundos. Depois disse:

– Espere um pouco, por favor.

Virei-me e sorri para o taxista. Ele sorriu de volta, segurando a porta aberta do
carro. Por fim, a voz da mulher voltou:

– A senhora pode entrar.

– Daniela está?

– No momento não, mas chegará logo. A senhora pode esperar por ela. Vou
abrir o portão.

– Obrigada.

Despedi-me do simpático taxista e puxei minhas malas com rodinhas quando o


portão de ferro abriu-se automaticamente. O caminho de pedras que levava até
a casa continuava o mesmo do meu tempo de criança, irregular e largo.
Felizmente eu usava sandálias rasteiras.

Observei as árvores enormes ao meu redor, lembrando-me de como eu e


Daniela subíamos nelas, apesar das broncas de nossos pais. Sorri
melancolicamente. Sentia que voltava para casa.

Os portões fecharam-se às minhas costas e eu segui em frente. A casa de dois


andares era enorme e da mesma cor rosada com teto de telhas vermelhas que
eu me lembrava. As janelas grandes de madeira e as portas envernizadas de
folhas duplas completavam o visual belo e aconchegante. Fiquei feliz por minha
prima ter mantido a beleza do lugar sem modificá-lo.

A mansão era rodeada por uma grande varanda com trepadeiras nas colunas,
plantas penduradas e jarros com flores nos pequenos murinhos. Ali estava
fresco, com as sombras das árvores atenuando o sol daquela manhã de sexta-
feira.

Subi os degraus da varanda duas vezes, carregando uma mala de cada vez. Eu
acabava de depositar a última no chão e ajeitava a bolsa no ombro quando a
pesada porta de madeira da frente se abriu. Uma mulher alta e esguia, por
volta dos cinquenta anos de idade, cabelos grisalhos curtos, usando jeans,
uma blusa preta e avental branco por cima surgiu. Nós nos fitamos e eu sorri.

– Olá, sou Lorenza, a prima da Daniela.

– Seja bem-vinda, senhora. – O olhar dela, escuro e atento, analisou-me


detidamente. Ela não sorriu ao se apresentar. – Sou Amélia Silva. Cuido da
casa.

– Na época em que eu vinha aqui, havia um casal que trabalhava para a minha
prima desde que ela era pequena. Maria e Augusto Santos. Eles continuam na
casa?
– Não. – Seus olhos possuíam várias rugas no canto, mas não pareciam ser de
riso.

Ela era séria demais e mantinha o cenho franzido. – Ambos se aposentaram.


Agora eu e meu marido somos responsáveis por tudo.

– Entendo.

– Vamos entrar, por favor. Eu levo as suas malas.

– Eu carrego uma. – Sorri de novo.

Amélia não discutiu. Entrou puxando uma mala e eu a segui com outra. Fiquei
maravilhada quando adentramos a sala idêntica à que eu me lembrava, desde
o brilhante piso de madeira corrida, passando pelos móveis pesados de
madeira de lei e pelos estofados floridos, até o teto alto e abobadado com o
pesado lustre de meus avós pendurado.

– Nada mudou. – Murmurei. – Daniela manteve tudo igual.

Amélia parou no meio da sala e eu a fitei.

– A senhora avisou-a de que estou aqui?

– Sim. Liguei para seu celular. Pediu que eu a acomodasse, pois estava a
caminho. Meu marido não está no momento, assim, deixe que eu levo as suas
malas para cima. Vou mostrar seu quarto. Deseja um refresco ou um café?
Quem sabe um lanche?

– Um refresco seria ótimo. Eu a ajudo com as malas. Estou louca para tomar
um banho e depois andar pelo quintal. – Sorri. – Vivi boa parte da minha
infância aqui. A casa era de meus avós e depois passou para minha tia, mãe de
Daniela. Tenho ótimas lembranças de tudo.

– Compreendo. Por favor, me acompanhe.


Segui-a escada acima. O que teria dado em Daniela para contratar uma mulher
tão mal-humorada? Minha prima sempre foi informal, brincalhona e odiava
gente severa. Teria mudado naqueles seis anos? Ou talvez eu estivesse
julgando Amélia precipitadamente.

Atravessamos o longo corredor acarpetado e me surpreendi quando paramos


em frente à porta do quarto que eu ocupava quando vinha passar alguns dias
ali. Antes que eu dissesse algo, Amélia abriu a porta e comentou:

– Fui informada que este quarto lhe pertencia e que deveria acomodá-la aqui.
Espero que seja de seu agrado.

– Claro. Obrigada.

Parei dentro do quarto e olhei em volta. Nem pude acreditar; tudo igual. As
cortinas brancas impecáveis, a madeira do chão bem encerada, a cama grande
arrumada com uma colcha branca muito semelhante à que eu me lembrava. O
guarda-roupa branco embutido e os quadros de paisagens que eu pintei com
ajuda de minha avó, infantis, porém alegres e bonitos.

– Deus do céu. Tenho a impressão de que vou até encontrar alguns objetos
meus e roupas dentro do armário.

– Sim. Mantenho tudo limpo e no mesmo lugar.

Olhei-a e ela não brincava. Surpresa, deixei minha bolsa sobre a cama e abri
as portas do guarda-roupa. Era incrível, mas ali estava tudo o que eu sempre
deixava na casa para minhas visitas, na época de adolescente. Sandálias e
roupas das quais eu até tinha esquecido, CDs, maquiagem, escovas, cartas,
diversos objetos, todos arrumados impecavelmente, como se fossem novos.

– Não pensei que Daniela tivesse todo esse cuidado. – senti os olhos marejados
de lágrimas. A culpa me espezinhou, pelos anos que fiquei sem saber dela.
Tudo o que fiz foi mandar alguns e-mails, muito raramente, cheios de
mentiras, só para que ela não se preocupasse e soubesse que estava tudo bem.

– Vou deixá-la à vontade. Voltarei com seu refresco.

– Obrigada.

Amélia saiu. Fechei as portas e olhei em volta, sentindo-me segura e em casa


pela primeira vez em seis anos. Eu fizera bem em voltar. Ali era o meu lugar.
Recuperaria todo o tempo perdido com minha prima.

Mais animada, enxuguei as lágrimas e comecei a desfazer as malas. Logo


Amélia voltou com uma bandeja com sanduíches e refrescos. Depositou na
mesinha de cabeceira.

– A senhora pode deixar que desfaço as malas.

– Não é preciso, Amélia, estou acostumada a me virar sozinha. E por favor,


pare de me chamar de senhora. Meu nome é Lorenza.

– Tome seu lanche e deixe tudo comigo. – Ela pareceu ignorar tudo o que eu
disse e começou a pendurar minhas roupas.

Sem ter escolha, sentei na beira da cama e percebi que estava faminta. Ataquei
a limonada e o sanduíche. Satisfeita, afastei o cabelo longo do pescoço suado e
falei:

– Bem, já que você está cuidando de tudo, vou tomar um banho.

– No banheiro tem tudo o que a senhora precisar. Não demorarei aqui e a


deixarei à vontade.

– Certo, Amélia. Mas não sou senhora. – Insisti, com vontade de rir de tanta
pompa. Onde Daniela fora encontrar aquele sargento do sexo feminino? Não
me admirava que a casa estivesse impecável.
Dei de ombros e me tranquei no banheiro, bocejando. Estava mais cansada do
que pensava. Despi-me, observando que o banheiro também continuava o
mesmo. Sorri ao ver meu reflexo de corpo inteiro no espelho que tomava toda
uma parede.

Quando adolescente, toda vez antes de tomar banho ali eu me espiava para ver
se meus seios estavam crescendo. Daniela com dez anos já havia ficado
mocinha e com seios. Eu fiquei frustrada, pois só fui ganhar corpo depois dos
treze anos.

Agora o reflexo que eu via era de uma mulher feita, alta e esguia, com seios
fartos e empinados, do jeito que eu tanto almejava. Sorri para mim mesma,
olhando-me de cima abaixo. Daniela também devia estar uma mulher feita.
Continuaria linda como no passado, morena e com os longos cabelos pretos?

Nós não nos parecíamos. Ela era pequena e delicada, cheia de curvas. Eu era
alta já aos quinze anos, com pele bem clara, sardas no nariz, olhos verdes-
escuros que puxei da minha mãe e cabelo castanho claro ondulado do meu pai.

Minha pele estava bronzeada e as sardas haviam aumentado um pouco, pois


eu vivia ao ar livre na pequena fazenda em Portugal. Até meus cabelos
compridos haviam clareado com o sol e estavam quase louros. Mas eu era a
mesma. Daniela me reconheceria logo.

Bocejei mais uma vez, sentindo as pálpebras pesadas. Tomei uma chuveirada
rapidamente, lavando a cabeça, estranhando aquele cansaço repentino. Eu
devia ter exagerado na correria e na preocupação. Agora é que eu sentia.

Enxuguei-me lutando contra o sono. Vi um impecável e curto robe de seda


verde pendurado atrás da porta e vesti-o sobre o corpo nu. Nem sei como
consegui pentear o cabelo, tonta de sono. Tudo o que eu queria era cair na
cama e dormir.
Saí do banheiro bocejando mais uma vez. Parada ao lado de uma das malas
vazias, Amélia me observava com atenção.

– Meu Deus... – Sentei na cama, cansada. A imagem da empregada ficou fora


de foco. Franzi o cenho, confusa. – Estou tonta. Que sono!

– Voltarei mais tarde para desfazer a outra mala. Agora a senhora tem visita.

– Daniela? – Minha voz saiu engrolada, mas fiz força para fixar o olhar na
mulher.

Pela primeira vez, Amélia sorriu. Mas foi um sorriso tão frio que eu pensei que
fosse fruto do meu cansaço. Com vontade de cair para trás na cama e apagar,
eu observei-a abrir a porta do quarto e sair. Ela deixou a porta aberta. Pisquei.
Isso não tinha importância. Com as mãos apoiadas na cama, tentei manter os
olhos abertos, porém eles pesavam cada vez mais. Fechei-os por um momento.

Ouvi passos que se aproximavam e abri-os, confusa, esperando ver Daniela.


Minha visão estava embaçada.

– Olá, Lorenza. Eu sabia que você voltaria.

Aquela voz. Em meio à sonolência, arregalei os olhos e vi o vulto alto parar à


minha frente. Um homem. Aquele homem. Eu via três dele, embaçado,
movendo-se loucamente. Mas fiquei gelada. O medo percorreu lento meu corpo
dopado. Era Miguel Montês. Ele estava ali. Ele não havia esquecido. Ele se
vingaria, como meu pai me alertara.

– Não... – Murmurei, pensando que precisava fugir. Tentei levantar, grogue,


fora de mim, aterrorizada. Não podia cair nas mãos dele.

Contudo, minhas pernas estavam moles e meus sentidos lentos. Senti que
desmaiaria a qualquer momento e percebi que eu fora drogada. Caí de joelhos
aos pés dele, tonta, com a cabeça girando. O suco. Os sanduíches. Amélia me
drogara. Aquele homem me pegara em uma armadilha. Escorreguei mais para
o chão, mas lutei para não perder os sentidos. Nem percebi que segurei as
pernas dele e que me deitava no carpete.

– Da... nie... la... – Consegui murmurar. Meu Deus, o que ele fizera com
Daniela?

Caí deitada, mas procurei-o com o olhar. Ele parecia mais alto do que nunca.
Não vi, mas senti seus olhos claros e penetrantes em mim, aqueles olhos que
me perseguiram por seis anos. Eu perdia a luta contra a inconsciência.

– Agora você vai me pagar o que deve, Lorenza.

Foi a última coisa que ouvi antes de mergulhar na escuridão.


Capítulo 2

Alguma coisa me perturbava. Eu sabia que devia acordar logo. Um alerta de


perigo soava em minha mente. Mas eu me sentia confusa e desorientada. O
que estava acontecendo? Mexi-me, sentindo-me deitada em um colchão macio,
com lençóis perfumados.

Abri os olhos pesados, lutando contra a dormência. Parecia que eu tinha


dormido por horas. Sentia frio. O ar condicionado estava ligado e minha roupa
parecia gelada contra a pele.

Fixei o olhar na parede branca. Havia penumbra, mas luz o suficiente para
perceber o quadro pintado por uma criança. Meu quadro. Eu o pintara aos sete
anos, acho. Com minha avó.

Franzi o cenho, confusa. Aquele quarto. A casa dos meus avós. De repente,
lembrei-me de tudo e o pavor me engolfou. Assustada, tentei me levantar
rapidamente. Sentei-

-me na cama de supetão e quase perdi o ar quando algo repuxou o meu


pescoço e ouvi barulho de metal. Algo rodeava meu pescoço.

Respirei irregularmente, sentindo o coração acelerado de medo. Levei as mãos


ao pescoço. Uma argola de metal o rodeava. Uma corrente saía dela e prendia-
se no ferro do espaldar da cama. Empalideci. Eu estava presa.

– Uma coleira. – A voz grossa e masculina, aveludada do jeito que eu lembrava,


veio de um canto perto da janela. – É assim que se impede um cão de fugir. Ou
uma cadela.

Prendi o ar, olhando naquela direção.


As cortinas estavam fechadas e havia uma poltrona perto da janela. Pude ver o
vulto dele ali, sentado de pernas cruzadas, quase engolido pelas sombras.
Porém sua presença era muito real.

Minha pele se arrepiou toda. Fiquei imóvel, mal ousando respirar. Eu sentia o
olhar dele penetrando em mim. Lembrei-me do modo que eu reagira a ele pela
primeira vez, fora de mim, trêmula, fascinada. Aquilo nunca acontecera de
novo. Agora se repetia.

Permeado e aumentado pelo meu medo.

Tentei pensar. Eu precisava manter a calma. Precisava ser inteligente. Mas era
difícil. Ele esperara por seis anos para se vingar. Não esquecera. Fora rápido. O
ódio dele poderia ter aumentado todo aquele tempo? Como eu poderia ter
calma estando presa, acorrentada, à mercê dele? O que eu poderia esperar
além de sofrimento, vingança, estupro e talvez até morte?

Arfei, soltando o ar dos pulmões. Tremia tanto que devia ser visível. Mantive o
olhar fixo na direção dele, embora tivesse vontade de deitar, me encolher e
chorar. Minhas narinas ardiam. Meus pensamentos se embaralhavam. Foi
então que pensei na minha prima. A preocupação com ela me deu forças para
murmurar:

– O que você fez... com Daniela?

– Essa é uma pergunta confusa. – Vi-o descruzar as pernas e se levantar.


Mantive-me imóvel, dura, apavorada, enquanto ele se aproximava da cama
lentamente. Por fim ele parou, quando sua perna encostou no ferro da cama. A
parca luz de um abajur incidiu sobre ele. Olhava-me fixamente, como da
primeira vez. Meu coração acelerou tanto que eu sentia-o bater no pescoço. Um
frio percorreu minha barriga. Além do medo, eu reconheci aquele estranho
fascínio da primeira vez.
Miguel Montês estava ainda mais bonito e perturbador, como se fosse possível.
A aura de poder e virilidade estava presente, tornando-o ainda mais perigoso.
Lutei com aquela sensação que me descontrolara quando eu o vira da primeira
vez, como se ele tivesse um estranho poder sobre mim. Agora eu o temia mais
do que tudo.

Seus olhos castanhos amarelados brilhavam como de um animal no escuro,


com pupilas dilatadas. O cabelo negro e o rosto anguloso sombreavam suas
feições. Seus lábios não sorriam. Mas eu podia sentir o ar de cinismo que
erguia os cantos de sua boca.

Ele estava todo ali.

Engoli em seco, contudo tentei disfarçar meu medo. Não recuei nem chorei.
Continuei olhando-o e repeti a pergunta:

– Daniela? O que fez com ela?

– Bem, vejamos se eu consigo responder. – Miguel mantinha os olhos intensos


nos meus. – Primeiro eu fiz amor com ela.

Senti um baque na boca do estômago, mas mantive-me firme.

– Belíssima, a sua prima. Quente, sensual. Foi divertido estar com ela. Daniela
tinha sonhos grandiosos de viajar para os Estados Unidos, estudar fora.

Eu ouvia atenta. Sim, Daniela sempre tivera sonhos de ser uma artista fora do
Brasil.

– Mas não era rica. Seu bem mais precioso era esta casa, muito custosa,
precisando de reformas. – O sorriso cínico formou-se nos lábios dele, expondo
os dentes brancos e perfeitos. – Podemos dizer que unimos o útil ao agradável.
Comprei a casa. Fui muito generoso. Prometi manter tudo como o original e
deixá-la se hospedar aqui comigo, quando ela vier visitar o Brasil. E com o
dinheiro, ela foi tentar a carreira nos Estados Unidos. Às vezes nos falamos por
telefone. Isso responde à sua pergunta?

Não respondi, sem saber se ele dizia a verdade ou não. Eu devia ter contado a
Daniela que eu saíra dali fugindo de Miguel Montês. Ela se envolvera com ele
sem saber de nada. Vendera a casa que tanto amava, pois estava sozinha e
queria seguir seus sonhos.

– Você mora aqui? – Consegui perguntar. Eu queria ganhar tempo, pôr os


pensamentos em ordem, descobrir tudo o que eu pudesse. Mas era difícil com
medo e sob tensão.

– Não. Venho às vezes. Hoje tive um chamado que esperei durante anos. Você
teve sorte. Estava prestes a pegar um avião para o sul hoje. Porém não pude
seguir em frente depois que Amélia me disse a visita ilustre que eu tinha aqui.
– Seu sorriso sumiu lentamente. – Surpresa, Lorenza?

– Muito.

– Pensou que eu tivesse esquecido?

– Meu pai não foi desonesto. Ele pagou o que devia a você. – Falei baixo.

– As empresas iam ser minhas de qualquer jeito. Fui generoso, confiei na


honestidade de seu pai. E ele não me pagou o que devia.

Senti a raiva infiltrar-se dentro de mim. Nem o medo impediu que eu dissesse:

– Como ainda pode se julgar uma vítima? Você queria me comprar! Acha que
meu pai me venderia?

– Então ele que não fizesse acordos! – Sua voz não se alterou, mas seu olhar
era furioso.

– As empresas eram dele!


– Falidas! Não valiam nada!

– Eu era uma criança!

Miguel deu uma risada cínica. Seu olhar sem humor percorreu meu corpo.
Depois voltou aos meus olhos.

– Você não era criança. Era uma mulher no ponto para ser colhida.

– Menor de idade! – Senti os olhos encheram-se de lágrimas de raiva e


frustração.

– Acha que meu pai me venderia para você como uma prostituta?

– Foi o que ele fez. Só fugiu com o meu pagamento.

A frieza na voz dele fez meu medo aumentar. Controlei minha raiva.

– Ninguém nunca passou você para trás.

– Nunca, Lorenza. Sou um homem paciente. Sabia que, cedo ou tarde, você
deixaria um sinal ou apareceria. E aqui está você.

Ergui um pouco o queixo. Levei a mão até a coleira em volta do meu pescoço.
Encarei-o com o máximo de coragem que pude reunir.

– Vai cobrar o que acha que eu lhe devo?

– Por que acha que está aqui?

Eu tinha medo de perguntar o que ele faria comigo, pois podia imaginar.

– Se é assim, por que não me estupra de uma vez e para de me aterrorizar?

– Estuprar. Que palavra feia. Prefiro: cobrar o pagamento.

– O que...
– Com juros de seis anos. Levando em conta o que gastei para encontrá-la e o
que investi para tê-la aqui. – Estava sério, compenetrado, falando suavemente.

Eu tremia.

– Vai me matar?

Miguel riu.

– Não costumo matar minhas mulheres.

– Não sou sua mulher.

– Ainda não.

– Droga, o que você vai fazer? – Não aguentava aquela brincadeira de gato e
rato.

– Vou fazer o que eu quiser. O que eu imaginei durante todo esse tempo. E
você, Lorenza, vai me pagar bem caro por todo trabalho que me deu.

– Isso é crime. Não pode me manter presa aqui!

– E quem vai saber? Você acabou de descer de um avião. Ninguém sabe que
está aqui. Ninguém a esperava ou vai sentir a sua falta.

– Vou fugir! – Perdi o controle e gritei, com os nervos em frangalhos – Vou


contar para a polícia! Você vai ser preso! Vai mofar na cadeia, seu desgraçado!

Ele manteve-se frio, imóvel.

– Mesmo que eu me canse e a deixe sair, ninguém vai acreditar. Será a sua
palavra contra a minha. Sou muito mais rico e poderoso do que imagina. O
máximo que as pessoas vão pensar é que você é uma amante desprezada
querendo vingança.
Olhei-o, desesperada. Percebi que não havia escapatória. Eu estava ali à mercê
dele, com minha vida em suas mãos. Nada que eu fizesse mudaria aquilo.

– Você vai me machucar?

– Está com medo?

– É claro que estou com medo! Você é louco!

– Talvez eu seja, o que é pior para você. – Miguel afastou um pouco a manga do
paletó e olhou para o relógio de pulso. Depois abaixou o braço e seus olhos
claríssimos fitaram os meus. – Preciso cancelar meus compromissos por um
tempo. Mas não se preocupe, voltarei logo.

– Não posso ficar aqui presa! E se eu precisar ir ao banheiro?

– Terá que esperar eu voltar.

Miguel não disse mais nada. Deu-me às costas e saiu do quarto sob o meu
olhar atordoado.

Reagindo, comecei a puxar com força a corrente da cama, até perceber que não
havia como me soltar. Caí deitada na cama chorando, enroscando-me toda,
apavorada, desesperada. Por que eu não acreditara em meu pai quando ele
dissera que Miguel Montês não descansaria até se vingar?
Capítulo 3

O atordoamento causado pela droga e pela surpresa passou totalmente.


Deitada na cama, presa pelo pescoço, eu tremia de medo e de frio. O ar
condicionado estava ligado ao máximo e o curto robe verde de seda parecia
gelado contra meu corpo.

Não havia nenhuma colcha ali para me cobrir.

Fiquei enrodilhada, fitando a parede, sem conseguir acreditar no que estava


acontecendo. Meu pai sempre dissera que Miguel Montês era um homem
perigoso e que nunca esqueceria que nós o enganamos. Entretanto depois de
seis anos, eu julgara que aquilo era um exagero.

A porta abriu-se novamente na penumbra e eu fiquei imóvel, sentindo um


medo atroz revolver minhas entranhas. Imaginar que eu estava nas mãos
daquele homem, que ele poderia fazer tudo o que quisesse comigo e ninguém
saberia, deixou-me petrificada.

Depois de passar anos vivendo protegida e feliz na pequena fazenda em


Portugal, eu me sentia totalmente só e ameaçada. Despreparada para enfrentar
o que estivesse me aguardando.

A porta fechou-se e vi a silhueta dele, alta e forte, aproximando-se da cama.


Não podia ver o seu rosto no escuro, mas sentia seu olhar quando ele parou
perto. No silêncio, só consegui ouvir minha respiração pesada, irregular,
arfante. Eu tremia muito mais de medo do que de frio agora. Minha mente
estava confusa, recusando-se a imaginar tudo o que ele poderia fazer comigo.

– Finalmente sós, após seis anos. Temos a casa toda para nós, Lorenza.

A voz dele, grossa e rouca, fez com que eu prendesse o ar nos pulmões. Tive
vontade de gritar, me debater, tentar fugir, contudo sabia que era impossível.
Esperei que me atacasse, batendo os dentes.
Ele se moveu e me encolhi, mas não veio para cima de mim. Calmamente,
aproximou-se do interruptor e acendeu a luz. Pisquei quando o quarto ficou
todo iluminado.

Pude vê-lo claramente quando ele voltou para perto da cama, fitando-me
diretamente nos olhos. Parecia poderoso, ameaçador, envolto em uma aura de
perigo e masculinidade. Em algum ponto de minha mente embotada pelo pavor
e pela tensão, percebi novamente o quanto estava ainda mais bonito e másculo.
Os sentimentos que ele despertara em mim pela primeira vez, de atração e
domínio, estavam ali, mais fortes do que antes.

Alto e musculoso, ele tinha os cabelos negros úmidos e bem penteados e


parecia ter acabado de sair do banho, pois podia sentir cheiro de loção pós-
barba. Usava camisa branca, com punhos dobrados até o cotovelo, com o
primeiro botão aberto, e jeans escuro. Seu rosto anguloso era inescrutável,
seus olhos dourados parecendo perfurar os meus.

Arquejei lentamente, de medo e de algo mais. Sem querer, lembrei-me de todos


os sonhos que tive com ele naqueles anos, das vezes em que me peguei sozinha
imaginando, e quase desejando, que nós tivéssemos ficado no Brasil e que eu
tivesse me tornado sua amante. Sabia que era errado, que meu pai fez o certo
em impedir, que ele não poderia comprar as pessoas. Mas silenciosamente o
desejo queimava dentro de mim. E eu nunca parei de pensar nele.

Agora eu estava ali. Não podia negar que aquela estranha atração, tão forte e
intensa, continuava dentro de mim. Porém eu era prisioneira dele e o medo me
dominava.

Miguel não esquecera e eu sabia que, por trás de sua aparência calma, ele
tiraria de mim muito mais do que eu poderia dar. Ele esperara por seis anos e
só Deus sabia o que um homem assim, paciente e metódico, seria capaz de
fazer.
– Preparada?

– Para quê? – Minha voz saiu baixa e fraca. Ele sorriu levemente, com certeza
percebendo meu pavor.

– Para começar a pagar o que me deve, Lorenza.

Eu sabia que não adiantava discutir. Nem conseguiria, no estado em que me


encontrava. Assim, continuei imóvel, atenta para o que ele faria.

Observei-o caminhar para uma poltrona branca quase em frente à cama. Ele
sentou-se calmamente, esticando as pernas e cruzando os tornozelos. Muito à
vontade, olhou-me com um leve ar de cinismo.

– Quero que comece me mostrando do que me privou todo esse tempo e, pelo
acordo que seu pai assinou, era meu por direito. Fique nua.

Senti um frio no ventre, que se contorceu. Arquejei, soltando o ar dos pulmões,


sem coragem de me mexer. Não sabia o que fazer. Miguel me tinha presa em
uma cama e poderia, a hora em que quisesse, me forçar a ficar nua e fazer
muito mais. Era bem mais forte do que eu.

Mas ele queria que eu obedecesse. Queria me deixar humilhada e com tanto
medo, que eu faria tudo o que ele mandasse, tremendo. A raiva infiltrou-se
dentro de mim. Lembrei dos cuidados e do amor que meus pais tiveram por
mim desde criança, da vida tranquila que meu pai me proporcionou em
Portugal, para me proteger das coisas que não pude fazer, pois estava
escondida de Miguel. E agora, pela primeira vez que eu resolvia me arriscar, ele
me pegava naquela armadilha. Tudo não podia ter sido em vão.

Olhei-o e ergui o queixo. Não seria covarde, dando a ele o prazer de me


dominar sem lutar. A coragem sobrepujou um pouco o medo. Disse baixo, mas
com voz mais firme:
– Se me quer nua, venha aqui e tire minha roupa à força. Não terá minha
cooperação. Vou lutar contra você. Não vou facilitar as coisas. Está me
mantendo presa contra a minha vontade.

Miguel ergueu uma das sobrancelhas negras. Para meu desconforto, sorriu,
nem um pouco abalado. Parecia achar engraçado, como se eu fosse uma
criancinha fazendo birra. Por fim, disse cinicamente:

– Não se preocupe, Lorenza. Nunca me enganei deliberadamente achando que


teria a sua colaboração. Ou que estaria aqui por sua vontade. Mas essa já é
uma questão am-bígua. Desde a primeira vez em que você olhou para mim,
percebi que bastaria estalar os dedos e você viria correndo. Teria vindo para
minha cama por livre e espontânea vontade, não fosse a proposta que fiz de
comprá-la.

Fiquei vermelha, pois ele sabia daquilo. Ele percebeu como me deixou daquela
primeira vez, completamente encantada, dominada. Também devia perceber
que, apesar de tudo, eu ainda me sentia assim. A vergonha e a humilhação me
deixaram sem palavras.

– Mas as coisas, Lorenza, vão ser como eu quero. Quanto mais difícil, mais eu
me interesso. Gosto de ter as coisas do meu jeito.

Recuperei a fala, irritada:

– Imagino que sim. Mas e se eu não for o que você quer? E se esperou todo esse
tempo à toa, por algo que não valia a pena?

– Será sorte sua. Ficará livre bem rápido. Mas enquanto eu não decidir isso, ou
me cansar do que tenho planejado para você, estará à minha disposição.

Sentei-me na cama, cansada de me encolher como um bicho assustado. A


argola em meu pescoço, apesar de fina, pesava. Fiquei mais forte com a raiva
de estar ali, presa numa coleira.
Miguel desceu o olhar penetrante por meu corpo, coberto apenas pelo curto
robe de seda. Fechei-o bem na frente, mas sabia que meus mamilos enrijecidos
marcavam o tecido e que minhas pernas ficavam à mostra. E que ele sabia que
eu estava completamente nua por baixo.

– Chega de brincadeira, Miguel. Sou adulta agora. Por que não para de querer
me assustar e diz logo o que tem planejado para mim?

– E perder a oportunidade de deixar você ansiosa, imaginando mil e uma


coisas? Não, é mais divertido assim. Basta saber que posso fazer o que eu
quiser, Lorenza. O que eu quiser.

A minha coragem era um fio muito tênue, prestes a se romper. Percebi que eu
fora protegida demais na vida para saber me defender agora. E o que poderia
fazer, presa ali, nas mãos dele? Gritar? Lutar até ser dominada? Chorar?

– Quer me ver nua? – Eu arfava, raivosa, medrosa, à beira das lágrimas. – Ou


quer que eu lute, para ter o prazer de me pegar à força? Diga de uma vez,
droga!

– Prefiro que você decida, Lorenza.

A calma dele me deu vontade de gritar e arrancar seus olhos. Furiosa, segurei
o cordão do robe com dedos trêmulos e o puxei. Segurei as pontas do tecido de
seda e as abri para o lado. Com raiva, passei as mangas por meus braços e me
despi completamente.

Sentada nua na cama, arfando, com as pernas dobradas para um dos lados,
olhei para ele furiosa e joguei o robe em cima dele. Miguel segurou o robe com
uma das mãos e deixou-o sobre um dos braços da poltrona, sem soltá-lo. E
sem desviar os olhos castanhos muito claros de cima de mim. Sorri sem
vontade e por um momento eu o encarei sem vergonha, embalada pela raiva:
– É isso que você queria? E então, gostou? Passo no seu padrão de qualidade,
senhor Miguel Montês?

Ele não respondeu de imediato. Seu olhar ficou por um momento no meu, sem
qualquer expressão. Então desceu lento por meu corpo. Senti cada parte que
ele olhava da minha pele exposta, arrepiada, tremendo. Pescoço, ombros, seios.
Seus olhos pararam ali, fitando os seios redondos e cheios, com os mamilos
empinados, rosados, intumescidos.

Meu coração passou a bater como um louco em meu peito. Apertei o lençol
branco entre os dedos, percebendo a loucura de tudo aquilo, mais exposta do
que já fiquei na vida. Nunca um homem havia me visto daquela maneira.
Porque eu fora idiota demais para, apesar de tudo, nunca esquecer o modo
como Miguel me fez sentir. E como nunca o esqueci e nunca senti aquilo por
outra pessoa, não deixei que outro homem me tocasse. Eu continuava tão
virgem como era da primeira vez em que ele me viu.

Seu olhar seguiu por meu estômago e pela barriga lisa, até a cintura fina, bem
marcada. Eu era esguia, acostumada a nadar muito, cavalgar, viver ao ar livre
fazendo trabalhos na fazenda. Por isso tinha o corpo firme e bronzeado, sem
gordura e sem marcas de estrias ou celulite. E feminino, como mostrava meu
quadril arredondado. Seus olhos vaguearam por minhas pernas compridas, até
os pés com unhas pintadas de cor-de-rosa.

Eu não me movi ou fugi daquele olhar, embora agora tremesse ainda mais,
com a garganta seca, o coração batendo loucamente. Entre o medo e a raiva,
algo a mais me deixava tão nervosa. Uma maldita excitação. De estar
finalmente com ele, apesar das circunstâncias. Estava confusa, dividida,
apavorada.

Miguel fitou-me a boca e depois os olhos. Prendi o ar ao ver que as pupilas dele
estavam dilatadas, escurecendo as íris douradas. Era o único indício de que
algo mudara nele.
– Você é ainda mais bonita do que imaginei, Lorenza. Valeu esperar cada
maldito desses seis anos.

Mordi o lábio, respirando irregularmente. Esperei que ele se levantasse e viesse


até mim. Ia me estuprar, pois eu estava ali presa, não por minha escolha.
Podia ser violento.

Tirar minha virgindade de modo bem diferente do que eu imaginara tantas


vezes, sempre com ele, terno e amoroso. Podia me bater, me obrigar a fazer
coisas que eu sequer imaginava. E destruir os sonhos românticos e tolos que
eu tivera com ele todos aqueles anos, apesar de tudo.

Contudo Miguel não se moveu. Continuou naquela poltrona, quieto, me


olhando. Não mais para meu corpo nu, exposto, esperando e tremendo. Mas
para meus olhos. Como se quisesse ver o que ia à minha alma, tudo que
passava por minha mente.

Aquela tortura psicológica deixou-me tensa como uma mola, a ponto de ter um
ataque de nervos. Eu lutava para não me encolher e chorar como um bebê,
nervosa e ansiosa. Minha raiva voltou, tentando combater o medo, tentando me
dar coragem de enfrentá-lo. Era só ela que me mantinha imóvel, sustentando o
olhar dele. Por fim, não suportei mais. Falei aos borbotões:

– Acabe logo com isso! Vou ficar louca!

– Não tenho pressa.

– Então saia daqui e me deixe em paz! Que prazer é esse, de prender mulheres
e deixar que fiquem apavoradas, com medo de você? – Gritei, descontrolada.

– É assim que você está, Lorenza? Apavorada?

– Estou furiosa! Por que estou presa, a mercê de um louco! Você devia estar
numa cadeia, seu desgraçado! Preso, para saber como é!
Fiquei com mais raiva ao perceber que lágrimas grossas desciam por meu
rosto. Nervosa, sequei-as com o dorso das mãos, sem fugir do olhar dele.
Miguel não se alterou nem por um momento.

Cansei de ficar ali, naquela luta inútil para provar que eu não o temia, quando
nós dois sabíamos o medo que me consumia. Ergui as pernas na frente do
corpo, bem fechadas, e abracei os joelhos, escondendo o sexo e os seios de seu
olhar. Mas não abaixei a cabeça. Precisava ficar de olho nele, atenta ao que ele
faria.

Meus cabelos compridos e ondulados ajudaram a esconder um pouco meu


corpo, espalhando-se por meus braços e ombros. Naquela posição eu
controlava melhor os meus tremores, abraçando minhas pernas com força.

– Vamos passar a noite toda assim? – Perguntei, irritada. Odiava aquela tensão
permanente.

– Prefere que eu vá até você e comece tudo o que eu tenho em mente, Lorenza?
Que penetre seu corpo como imaginei inúmeras vezes, onde eu quiser? Da
maneira que eu quiser?

A voz dele, baixa e profunda, e suas palavras, fizeram com que eu me


descontrolasse ainda mais. Sentia meu queixo tremer e mordia os lábios para
impedir que meus dentes batessem.

– Vou acabar com a sua agonia. Deite-se na cama. E abra as pernas.

As lágrimas voltaram na mesma hora, embaçando minha visão. Furiosa, gritei


com um misto de terror e raiva:

– Vá se foder!

– Não, vou foder você. Agora. – Miguel largou o robe no chão e se levantou.
Arregalei os olhos e as lágrimas desceram. Reagi automaticamente, jogando-me
para trás, tentando fugir. Mas não tinha escapatória. Encostei-me no espaldar
da cama, ouvindo o barulho da corrente presa ali e ao meu pescoço,
encolhendo-me. Toda a coragem me abandonou. Gostaria de fechar os olhos e
imaginar que o que me assustava sumiria se eu não visse, como fazia quando
era criança. Contudo, a presença dele era real demais para eu me enganar.

Vi-o, alto e ameaçador, se aproximar da cama e parar bem perto. Olhei para o
alto, para ele, com tanto medo que me sentia fraca.

– Deite-se. Agora.

Fiquei sem saber o que fazer. O que seria pior, obedecer e ficar imóvel,
deixando que ele fizesse o que queria comigo, ou reagir e brigar, com risco de
apanhar e sair machucada? Eu podia ver nos olhos dele que ele seria capaz de
tudo. E que em qualquer das hipóteses, eu sairia perdendo.

– Decidiu-se, Lorenza?

O sorriso cínico dele, sem um pingo de piedade por meu estado, fez com que eu
sentisse um pouco menos de medo e mais raiva.

– Sim. Vamos acabar logo com isso.

Dura, tirei os braços das pernas e estiquei as duas sobre a cama. Deslizei para
baixo, tremendo, gelada, com os movimentos lentos devido ao medo atroz.
Deitei e fiquei imóvel. Não olhei para ele. Fitei o teto.

– Abra as pernas.

Obedeci. Como um robô, abri as pernas sobre a cama. Meus dedos apertavam
o lençol com força. Eu mal conseguia respirar.

– Mais.
Tive vontade de gritar como louca, xingá-lo, arranhá-lo. Mas abri bem as
pernas. A cama afundou um pouco quando ele se sentou, perto do meu joelho
esquerdo. Olhei-o na mesma hora, agora muito consciente do pavor que me
deixava a ponto de desmaiar.

Quase desejei realmente desmaiar, para fugir de tudo aquilo. Miguel olhou
diretamente para minha vagina exposta. Vi seus olhos escurecerem e apertei o
corpo duramente contra a cama quando ele ergueu a mão direita. Ia começar.
Mordi os lábios para não gritar, chorar, implorar para que me deixasse em paz.
Não adiantaria.

Quase pulei quando percebi aonde ia a mão dele. Arregalei os olhos, porém já
era tarde. Seu dedo longo encostou suavemente em meu clitóris, exatamente
sobre ele, e moveu-se devagar. Meu corpo reagiu na hora, como se tivesse vida
própria. Uma corrente de energia espalhou-se por meus nervos e eu estremeci
sem controle, sem esperar.

Sem pressa, Miguel continuou só com o dedo a rodear o botão pequeno entre
minhas pernas. Novos tremores, estremecimentos desconexos das minhas
coxas, os músculos de meu ventre se contorcendo sozinhos. Sensações
explodiram dentro de mim e eu, que gostava de me masturbar à noite em
minha cama, tocando apenas meu clitóris, sabia o que era aquilo. Prazer.

Senti o líquido quente dentro da minha vagina, enchendo-me, pronto para


escorrer lentamente, me encharcar. Foi muito mais rápido e intenso do que das
vezes em que eu me tocava. Ele sabia exatamente o que fazer, calmo, no lugar
certo. Sem pressa, sem sair do ponto exato.

Fiquei humilhada quando seus olhos amarelados encontraram os meus,


escurecendo. Ele tinha plena consciência das minhas reações. Do que fazia
com meu corpo. Só com um dedo. Mantive-me firme no mesmo lugar, embora
os espasmos fossem incontroláveis.
Não fechei as pernas nem fugi. Sabia que quanto mais dificuldade eu
impusesse, mais longa seria aquela tortura. Ele não me deixaria em paz até me
dominar, até fazer o que tivesse em mente. Se eu ficasse quietinha, se
conseguisse não reagir, se fosse fria... ele perderia logo o interesse.

Tive vontade de rir nervosamente com esse pensamento. Ser fria. Como, se
meu corpo traiçoeiro ardia? Se minha vagina latejava? Se meu quadril não se
erguia da cama, procurando mais o dedo dele, só porque eu o controlava com
uma vontade férrea?

O dedo escorregou entre os lábios vaginais rosados, separando-os levemente,


percorrendo seu interior sem pressa. Fiquei vermelha porque sabia que estava
molhada e ele sentia. Era a prova que meu corpo me traía. Era a prova do que
ele me fazia sentir, com um simples toque. Nem o medo ou a raiva impedia que
o desejo me percorresse como um veneno.

Miguel era delicado. Nem por um momento enfiou o dedo em mim. Apenas
parecia me conhecer, acariciando, sondando, sentindo. E eu toda aberta e
tremendo na cama, digladiando-se com meus sentimentos e minhas sensações,
aterrorizada e excitada ao mesmo tempo. Mal conseguia respirar,
descontrolada, com os nervos à flor da pele.

– Quando vi você pela primeira vez, percebi que aquele corpo formado de
mulher era completamente puro e inocente. Foi uma surpresa. Aos dezessete
anos, nenhuma garota era tão pura assim. - A voz dele, melodiosa, me fez
fechar os olhos, lembrando aquele dia. Seu dedo continuava me percorrendo,
molhando-se com o líquido quente que eu soltava cada vez mais. - O modo que
me olhou, surpresa com o próprio desejo, deixou claro que era virgem. Nunca
tive desejo por virgens, mas quis você naquele momento, Lorenza. Desejei ser o
primeiro a estar dentro de você, a ensinar o que um homem e uma mulher
podem fazer juntos. Fiquei obcecado com isso.
Ele calou-se. Seu dedo, agora úmido, acariciou novamente meu clitóris. Arfei e
estremeci, sem controle. O botão que ele manipulava inchava, cada vez mais
sensível, deixando-me mole e agitada ao mesmo tempo. Ondas de prazer
espalhavam-se por meu corpo, lentas, pesadas e intensas. Ele voltou a falar
com aquela voz baixa e rouca, que me arrepiava:

– Pensei em tudo que faria com você. Como conheceria sua boca, como entraria
em cada orifício de seu corpo e os faria meus. E então você fugiu. Por seis
anos, não deixei de ter certeza que eu a teria. Era uma questão de tempo.
Agora você está aqui e tudo é diferente.

Abri novamente os olhos quando ele tirou o dedo de mim e se moveu na cama.
Meu corpo reclamou silenciosamente do abandono, tenso e quente sobre a
cama. Olhei para ele, que havia se levantado. Meu coração bateu alucinado ao
perceber que ele se despia.

Muito sério, Miguel me fitava enquanto desabotoava a camisa branca. No


quarto iluminado e gelado, eu tremia de frio e de desejo, sem conseguir tirar os
olhos dele. Não podia negar que, por mais que tudo aquilo fosse humilhante e
que eu estivesse sendo mantida em cativeiro por ele, estava completamente
seduzida, ansiosa pelo mesmo. Há seis anos ele me marcara e mudara minha
vida. Desde então, nunca mais deixara de estar comigo. Mesmo quando eu o
odiava por ter sido obrigada a fugir e me esconder. Eu nunca o esquecera e
nunca parara de pensar nele, como uma obsessão.

Ele abriu todos os botões.

Sem pressa, tirou a camisa e largou-a no chão.

Era muito mais bonito que nas minhas fantasias. Alto e esguio, tinha ombros
largos, braços fortes e peito musculoso, encoberto por sedosos pelos negros.
Seu estômago era duro, definido, sem um grama de gordura a mais. Quando
ele levou os dedos ao cinto, prendi o ar nos pulmões.
Abriu o cinto e o botão. Desceu o zíper da calça. Deixou-a cair aos seus pés.
Desfez-se dela, das meias e dos sapatos, sem pressa. Suas pernas eram longas,
musculosas, lindas. Por fim, desceu a cueca preta.

Eu soltei o ar lentamente e apertei com mais força o lençol. Nunca vira um


homem nu na vida, mas duvidava que houvesse no mundo um mais bonito do
que Miguel. E mais assustador. Era todo grande, forte, moreno, maravilhoso
com aqueles lábios carnudos e aqueles olhos dourados como os de um lobo.
Entretanto, naquele momento não consegui desviar os olhos de seu pênis. Era
enorme, longo e grosso, com a cabeça grande e lisa. Estava duro, com veias,
totalmente ereto.

Fascinada e amedrontada, pensei que tudo aquilo não caberia em mim. Eu era
pequena, virgem, apertada. E ele parecia um dos garanhões que eu vira na
fazenda. Assustadoramente bonito e grande.

Quando ele se moveu, minha reação instantânea foi a de me encolher. Fechei


as pernas e virei-me, só pensando em sair daquela cama. Tomei um susto
quando tentei me levantar pelo lado oposto e a corrente presa na argola em
meu pescoço me puxou bruscamente de volta. Fiquei subitamente sem ar e caí
sentada no colchão.

– Para onde você vai?

Miguel nem me deu tempo para me recuperar. Segurou meu pulso com firmeza
e me puxou de novo para o meio da cama, me empurrando até me fazer deitar,
fitando-o com os olhos arregalados e o peito subindo e descendo com a
respiração descompassada. Ajoelhado na cama, ao lado, ele me encarou. Fiquei
com medo de sua expressão intensa, carregada da mais pura luxúria.

– Você não tem para onde fugir, Lorenza. Dessa vez me encarreguei bem disso.

Um arrepio me percorreu. Eu sentia o perigo no ar. E a tensão sexual entre


nós, tão densa que era quase palpável.
– Abra as pernas.

Ele ia me estuprar. Tive certeza disso. Cheguei a ficar fraca, com os membros
pesados pelo pavor, quase me sufocando pelo simples ato de não conseguir
puxar o ar direito para os meus pulmões. Ele não me tocava, porém era
questão de tempo.

– Abra as pernas para mim, Lorenza.

O tom autoritário me deixou imóvel, sem conseguir reagir. Toda coragem me


abandonou naquele momento. Murmurei:

– Por favor, Miguel...

– Por favor, o quê? – Ele olhou meu corpo todo, minhas pernas encolhidas e
bem fechadas, meus braços apertados contra os seios. Depois fitou meus olhos
arregalados.

– Está assustada?

Fiz que sim com a cabeça, aterrorizada.

Miguel sorriu de leve. Não havia um pingo de delicadeza ou piedade naquele


sorriso sardônico.

– Há seis anos você era uma virgem inocente, Lorenza. Agora é uma mulher.
Quantos homens passaram por sua cama? O que a assusta é o meu tamanho?
– Seu sorriso ampliou-se, expondo seus dentes brancos e uma covinha na face
esquerda. Mas ele não se suavizou. – Devia saber que uma vagina se acomoda
a qualquer coisa.

Eu engoli em seco, sem coragem de dizer que continuava tão virgem quanto
antes.
– Está com medo de ser estuprada? Não se preocupe, quero primeiro aproveitar
o seu corpo. Gosto de um pouco de violência, mas quero saber primeiro o que
perdi todos esses anos. Agora abra as pernas, Lorenza.

Eu percebi que ele estava sem paciência. Não queria deixá-lo furioso, ou ele
poderia me machucar de verdade. Assim, tremendo, estiquei as pernas na
cama e as abri devagar.

– Boa menina. Quanto trabalho teria nos poupado se tivesse sido obediente
desde a primeira vez.

– Você nunca vai esquecer isso. – Murmurei.

– Nunca. – Ele confirmou, movendo-se para o meio de minhas pernas. – Tire os


braços dos seios. Quero vê-los.

Eu não tinha forças para lutar. Obedeci, humilhada, com vontade de chorar.
Estava muito consciente de seu corpo poderoso ajoelhado entre meus joelhos e
que bastava ele se deitar sobre mim, para me penetrar com aquele membro
enorme e rasgar a minha virgindade.

– Está tremendo. – Ele murmurou. Inclinou-se em minha direção e me enrijeci


toda, esperando o ataque inevitável.

Miguel não se deitou sobre mim. Apoiou as duas mãos na cama, dos lados de
meus quadris, sem me tocar. Olhava minha vagina fixamente e descia a cabeça
sobre ela. Eu o olhava como em transe, paralisada, esquecendo até de respirar.
E então seus lábios carnudos fecharam-se sobre o meu clitóris.

Não pude evitar um grito estrangulado, de surpresa e de prazer, enfiando meus


dedos nos lençóis amarfanhados. Sua boca quente e úmida sugou o pequeno
botão e eu reagi de imediato. Minhas pernas tremeram em espasmos
involuntários, meu ventre se contorceu, fagulhas quentes e abrasadoras
percorreram meu corpo de um lado para outro, loucamente.
Só a boca me tocava, me chupando lentamente. Pensei que fosse desfalecer.
Meus quadris se sacudiram sem controle, eu ondulei sob seus lábios e abri
mais as minhas coxas, quase sem perceber. Nunca sentira tamanho prazer na
vida, o que me deixou até sem conseguir pensar, virando uma massa pura de
sensações desconexas.

Senti lambidas suaves de sua língua, inchando meu clitóris, fazendo-me erguer
os quadris e me mover contra a sua boca, alucinada. Gemi, mordendo os
lábios, arregalando os olhos e olhando para sua cabeça entre minhas pernas.
Pude ver claramente seus cabelos negros, seus olhos abertos, seus lábios
roçando os pelos aloirados do meu púbis. E a ponta da língua entre os lábios
rosados, torturando o centro do meu prazer, para depois sugá-lo.

Perdi o controle de vez. Joguei a cabeça para trás no travesseiro, ergui os


quadris da cama, me oferecendo, apertando minha vagina em espasmos
contínuos, sentindo o líquido quente e cremoso que escorria de dentro de mim.
Sua língua desceu mais, abriu minha carne e mergulhou nela. Ele me sugou,
bebendo o resultado do prazer que me proporcionava, saboreando minha
vagina sem pressa, numa tortura lenta e deliciosa.

Comecei a murmurar o nome dele, o único homem que eu quisera na vida, o


dono dos meus sentimentos e agora do meu corpo.

Eu sabia que teria um orgasmo. Não aquelas cosquinhas, rápidas e fugazes


que eu conseguia me tocando, me masturbando. Mas um lento, intenso, que
vinha aos poucos em ondas. Eu latejava e tremia. Totalmente entregue, soltei
os lençóis e enfiei os dedos entre seus densos cabelos negros, roçando minha
vagina em sua boca, ondulando os quadris.

Quase gritei quando ele me largou e ergueu o corpo. Fiquei com as mãos
trêmulas, soltas no ar. Confusa, abri os olhos, deixei os braços caírem sobre a
cama e o fitei com os olhos pesados. Ainda arfava e latejava, perdida no prazer
interrompido antes de se concretizar. Tive vontade de suplicar para que ele não
me deixasse, contudo mordi os lábios a tempo. Miguel sorriu, como se
soubesse o que eu sentia. Lambeu suavemente os lábios, úmidos pelo líquido
quente que ele sugara de mim. E aproximou-se de novo.

Estremeci ansiosa, sem saber o que fazer com as mãos que comichavam para
abraçá-lo. Sua boca agora tocou meu ventre, perto do umbigo, beijando-o.
Fiquei arrepiada, reagindo imediatamente. Ele passou a me mordiscar,
novamente só a boca me tocando.

Na barriga, na cintura, perto do estômago. Mexi-me sob ele, quente, não


conseguindo ficar parada, gemendo baixinho. Meu coração batia loucamente
sob seus lábios, na pele abaixo do seio esquerdo, onde ele beijava. Sem
aguentar mais, agarrei novamente seus cabelos e ofereci meus seios, me
movendo de forma que meu mamilo roçou seus lábios. Estava tremendo,
impaciente, alucinada. Miguel ergueu um pouco a cabeça e me olhou
diretamente nos olhos. Meu mamilo esquerdo quase roçava sua boca.

– O que você quer, Lorenza?

Mordi os lábios, sem coragem de dizer. Mas não queria que ele parasse.
Arfante, empinei os seios, segurando os cabelos dele, esfregando o mamilo em
sua boca, mostrando o que eu queria. Porém ele continuou imóvel.

– Por favor... – Implorei numa voz chorosa, que nem parecia ser minha.

– Quer minha boca em seus seios? Assim? – Miguel fechou os dentes e os


lábios sobre o mamilo duro. Sugou-o gostosamente.

– Ah! – Gemi, apertando sua cabeça contra os seios, me esfregando nele. Meus
quadris saíam da cama, procurando-o involuntariamente, mas ele pôs uma das
mãos em minha barriga, mantendo-me longe. Parecia completamente sob
controle, enquanto eu já o perdera há muito tempo, junto com o orgulho e o
medo. – Miguel...
Ele soltou um mamilo e chupou o outro, deixando-o igualmente duro. Sua mão
deslizou abaixo da minha barriga e eu me abri toda, ansiosa, arfante. Seus
dedos penetraram meus pelos, abriram meus lábios vaginais, acariciando-me
lentamente. Torturada por tanto prazer, precisando senti-lo, procurei-o com os
quadris, querendo todos os seus dedos na minha carne trêmula e encharcada.

Entretanto, Miguel gostava de me torturar. Brincou apenas com meu clitóris,


espalhando adrenalina em meu sangue, chupando meu seio com mais força.
Comecei a dizer palavras desconexas, a mover os quadris loucamente, à beira
do gozo. Novamente ele me impediu. Seus dedos voltaram para minha barriga,
sua mão espalmada me mantendo quieta sobre a cama. Sentia os tremores me
percorrendo. Ergueu a cabeça e subiu mais o tronco, ficando com os olhos na
altura dos meus.

Ele se apoiava na cama, mas evitava deitar-se sobre mim. Senti a ponta de seu
pênis ereto na parte interna da coxa esquerda, perto da virilha, e meus
tremores duplicaram.

– Calma. – Ele disse baixo, percorrendo o olhar penetrante e agora escuro por
todo meu rosto. Fitou minha boca, meus olhos, fascinado pela minha
excitação. – Então você é assim, Lorenza. Impaciente e apaixonada. Não está
mais com medo?

Sim, eu ainda tinha medo, aumentando a adrenalina, espezinhando-me por


dentro. Mas o prazer e a excitação eram tão fortes que eu nem conseguia
pensar sobre aquilo.

– Quer mais? – Ele se aproximou um pouco. Seu pênis escorregou por minha
virilha, parando na entrada molhada da minha vagina aberta, num leve roçar.
Sua mão na minha barriga era firme, controlando meus movimentos. Eu
latejava. Meus olhos estavam pesados. Meus dedos continuavam firmemente
enroscados em seus cabelos. –
Beije-me.

Eu faria tudo o que ele quisesse, dominada e excitada demais para pensar.
Tirei a cabeça do travesseiro, pois ele continuou no mesmo lugar. Segurei a
cabeça dele e mordisquei seu lábio inferior. Era tão carnudo e macio! Gemi,
prazerosa. Colei meus lábios nos dele, inclinando o rosto para enfiar a língua
em sua boca. E então o beijei com vontade, inebriada com seu gosto delicioso,
com a textura de sua língua que passei a lamber sofregamente. Meu corpo todo
reagiu quando ele retribuiu o beijo, possessivo, profundo, enfiando a língua em
minha boca.

Perdi o resto do controle, ondulando, tentando me colar a ele, quase tendo um


orgasmo só em beijá-lo. Quase chorava de frustração porque ele me segurava,
me continha, me deixava naquele estado de total excitação. Gemia contra seus
lábios, ansiosa, procurando-o. Precisava de mais. Muito mais.

– Que boca gostosa... – Miguel descolou os lábios. Estava também excitado,


porém se controlava bem mais do que eu. – Quero essa boca no meu corpo,
Lorenza.

Abri bem os olhos nublados de prazer e fiquei surpresa quando as palavras


dele fizeram minha vagina se molhar ainda mais. Fiquei com água na boca,
sabendo que eu adoraria tocar nele, beijá-lo, saboreá-lo por inteiro.

Ele não esperou minha resposta. Rolou para o lado e recostou-se nos vários
travesseiros sobre o espaldar da cama, quase sentado. Ergui-me um pouco,
sentando também, olhando-o de forma faminta. Contudo, o barulho do anel em
meu pescoço e das correntes que me atavam me deixaram imóvel por um
momento.

Fitamo-nos nos olhos e a consciência de que estava ali, presa por ele,
sequestrada na casa onde fora feliz na minha infância, veio se mesclar às
sensações sensuais que me dominavam. O rancor e a humilhação pesaram em
meu peito. Senti a batalha dentro de mim, entre o desejo louco que eu sentia e
a raiva e a vergonha de me tornar uma escrava, totalmente dependente do que
ele quisesse fazer comigo. Miguel me olhava fixamente. Ergui as mãos até o aro
em volta do meu pescoço.

Minha coleira. Como eu podia ser tão fácil e volúvel com o homem que mudara
toda a minha vida e do meu pai por um puro capricho? E que agora me
prendia como uma escrava, sem direitos e sem vontades?

O pior era que não conseguia pensar com muita clareza ali, na cama com ele,
com meu corpo pegando fogo, vendo-o nu. A minha vontade era uma piada,
pois eu no fundo queria estar ali. Não presa e humilhada, mas ali com ele. Há
seis anos eu esperava por aquilo.

Ele não me apressou, enquanto eu lutava comigo mesma. Meu olhar varreu
seu corpo musculoso e lindo, seu membro enorme e duro, seus olhos
autoritários. Eu poderia dizer não, porém ele me teria de qualquer jeito. O
problema é que eu queria desesperadamente dizer sim.

Desisti da luta com um suspiro, mesclado de prazer e derrota. Sentei ao lado


dele, tremendo, ansiosa, muito nervosa. Por fim, ergui a mão e acariciei seu
rosto. Era tão perfeito! Tão másculo! Os traços firmes, as sobrancelhas negras,
o nariz afilado. E aquela boca. Deus do céu, aquela boca deixaria qualquer
mulher louca!

Segurei o rosto dele entre as mãos, inclinei-me sobre ele e o beijei na boca. Ele
retribuiu na hora, recebendo minha língua, lambendo-a. Arfei, quando ele
segurou meus dois seios, espalmando as mãos sobre eles e acariciando-os.
Beijei-o mais, apertando as coxas uma contra a outra, pois meu sexo latejava.
Quase me deitei sobre ele, oferecendo-me, ajoelhada ao lado de seu quadril.

Soltei seu rosto e escorreguei as mãos trêmulas por seu pescoço, seus ombros
largos, seu peito musculoso e duro. Minhas palmas tornaram-se sensíveis com
os pelos que roçavam nelas. Nós nos acariciávamos mutuamente, sem
desgrudar os lábios.

Seus dedos desceram dos meus seios para minha cintura e daí para os
quadris, contornando-os. Mordi seus lábios e passei a beijar todo o rosto dele,
maravilhada, saboreando seu gosto de homem e seu cheiro delicioso, másculo,
que se impregnavam em mim. Desci a boca por seu pescoço, ainda mais
excitada quando ele gemeu de leve.

Mordisquei sua clavícula e seu ombro, ansiosa, sem saber se era daquele jeito
que se fazia, mas sentindo imenso prazer com o contato.

Mordi de leve seu peito, roçando a ponta do nariz nos pelos, sensível demais a
ele. Um homem não podia ser tão desesperadamente bonito e gostoso como ele.
Eu perdia o resto do meu parco controle, deliciando-me em tocá-lo e beijá-lo
como eu nunca fizera antes. Tinha vontade de passar o resto da vida ali,
lambendo-o e beijando-o.

Com os olhos bem abertos, escorreguei mais para baixo. Beijei sua barriga sem
conseguir tirar os olhos do seu pênis, tão perto, me deixando com água na
boca. Eu sabia que sexo oral era natural em uma relação, entretanto nunca
tocara ou beijara um homem intimamente. Sentia medo e uma certa timidez,
sem saber ao certo o que fazer, mas também uma vontade louca de descer
mais, de saber como era. Senti suas mãos em minhas costas, entre meus
cabelos compridos. Parei com a cabeça sobre o ventre dele, olhando fixamente
para seu membro.

– Continue, Lorenza.

A rouquidão na voz dele deixou-me mais excitada. Fechei os olhos, como para
criar mais coragem, e passei lentamente a língua sobre a cabeça lisa e grande
de seu pênis. Ele pareceu pulsar e crescer mais, me surpreendendo. Passei os
dedos sobre ele, sentindo como era duro e quente, todo seu comprimento. Ao
mesmo tempo, beijei a ponta com timidez, com medo de machucá-lo.

Ele não se moveu. Aproximei mais a boca, descendo a mão até seus testículos e
seus pelos negros, na base do pênis. Eu era cuidadosa, explorando-o
lentamente. Abri bem os lábios, deslizando-os sobre ele. A cabeça entrou toda
na minha boca, preenchendo-a.

Fiquei surpresa novamente por ele ser tão grande. Movi a língua, tentando
saboreá-lo melhor. Algo quente saiu dele e eu o engoli. Aquele gosto de homem,
meio salgado, excitou-me mais. Tentei chupá-lo, mas me engasguei um pouco e
parei, respirando irregularmente. Ele estava duro demais. Beijei-o com a boca
salivando, a língua lambendo a pequena abertura na cabeça por onde saía o
líquido grosso e quente dele, sentindo minha própria vagina ficar toda
molhada, latejando.

Explorei-o como consegui, querendo-o com volúpia, porém não conseguindo


chegar nem à metade dele, pois me sufocava. Contudo, não queria tirá-lo da
boca, que salivava mais e eu engolia com o gosto dele, chupando-o. Miguel
gemeu, agarrou meu cabelo e puxou-me para cima. Meus seios se espalmaram
em seu peito quando ele me abraçou e beijou na boca.

Gemi também, febril, colando-me nele, excitada demais. Bastava me roçar um


pouco no pênis contra meu ventre para gozar. Eu já ondulava, ansiosa e
tremendo. Ele me segurou um pouco, também respirando irregularmente, sem
o controle de antes.

– Fique quietinha. Vou pôr o preservativo e entrar em você antes que eu fiquei
louco.

Corei, mantendo-me quieta, mas ansiosa. Ele abriu a gaveta da mesinha de


cabeceira e rasgou um pacote de preservativo rapidamente. Um pouco
afastada, olhei atentamente enquanto ele cobria o pênis com a camisinha.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, Miguel me deitava na cama e abria meus
joelhos para os lados, deitando-se entre minhas pernas.

Assustei-me quando ele segurou o membro pela base e ajeitou-o na entrada do


meu sexo. A cabeça roçou meus lábios vaginais inchados e sensíveis, abrindo-
os lentamente. Ele olhava e eu também olhei, entre medrosa e ansiosa. Sabia
que ia doer, porém eu o queria furiosamente, como se dependesse daquilo para
viver.

A cabeça forçou passagem e minha carne se distendeu, colando-se a ele. Os


lábios rosados ficaram arregaçados, esticados, latejando. Miguel gemeu e
soltou a base do pênis. Acomodou-se melhor entre minhas coxas e me fitou
com olhos escuros, semicerrados, apoiando o peso do corpo nos cotovelos sobre
a cama. Ele não se moveu. Olhou para as pontas dos meus seios que roçavam
seu peito e depois para meus lábios entreabertos. Finalmente voltou aos meus
olhos.

– Quer que eu pare, Lorenza?

– Não. – Apesar de baixa, minha voz saiu firme. Abracei-o, tremendo. – Quero
você dentro de mim.

O olhar dele se tornou mais pesado, penetrante. Começou a penetrar


lentamente o pênis em mim. Arfei, sentindo meus músculos se distendendo ao
máximo para recebê-lo. Estava encharcada, mas mesmo assim era pequena
demais para ele. Minha carne latejava e se colava contra o pênis dele. Miguel
gemeu e soltou um palavrão.

– Como você é apertadinha... Posso sentir cada milímetro da sua pele grudada
em mim, Lorenza. Tão quente!

– Miguel, não pare... – Choraminguei.

– Nada nesse mundo me faria parar. – E foi mais fundo.


A dor veio naquela hora, queimando inesperadamente. Fiquei toda contraída e
soltei um grito rouco, que o fez se imobilizar. Eu tremia por inteiro. Miguel
franziu o cenho, obviamente sentindo a barreira. Não tirava os olhos de mim.

– Por isso me chupou como uma virgem. – Ele disse baixo.

Pensei em pedir que ele parasse. Queimava como ferro em brasa e meus olhos
se enchiam de lágrimas. Mas eu também o queria com um desespero
desconhecido. Assim apenas mordi os lábios, imóvel. Miguel não parou.
Segurou meu quadril com firmeza e mergulhou de uma vez dentro de mim.

Eu gritei e chorei de verdade, como se ele tivesse me rasgado ao meio. Estava


todo dentro de mim, enterrado até o fundo, colado ao meu canal esticado e
ardendo. Então ele ficou imóvel e me abraçou. Beijou de leve meus lábios.

– Quietinha, vai passar. – Falou suavemente. – Já acabou. Estou dentro de


você, Lorenza, como você queria. Como eu sempre quis. Agora relaxe. Relaxe.

– Está doendo. – Eu mal ousava me mexer, porém tremia incontrolavelmente.

– Vai passar. Fique calma. – Seus lábios saborearam os meus. Sua mão subiu,
acariciando meu seio. Ele não fez nenhum movimento brusco.

– Você é muito grande para mim. – Choraminguei, sem coragem, com medo até
de respirar. – Por favor, pare.

– Não posso, Lorenza. Estou quase explodindo dentro de você, com essa
bocetinha me apertando desse jeito.

– Miguel, está doendo. Por favor...

– Não vai doer mais. Agora será só prazer.

Beijou-me na boca e moveu-se. Eu arquejei, sem ter como fugir, firmemente


presa em seus braços, sendo penetrada por ele. Miguel ia de vagar,
carinhosamente, sem deixar de me beijar. Mas minha vagina parecia em
chamas e doía demais. Chorei contra a boca dele, enfiando as unhas em seus
ombros, fazendo o possível para não me mexer.

Ele não parou. Seu pênis começou a encontrar espaço para deslizar,
lentamente no início, mas alargando meus músculos aos poucos. Como estava
muito molhada, ele ia cada vez mais dentro de mim, saindo apenas um pouco e
deslizando novamente. Beijou meu pescoço, murmurou meu nome, lambeu
meus mamilos.

Quieta, comecei a sentir o desconforto passar. A ardência diminuía conforme


ele me abria mais, fazendo com que eu me acostumasse com ele, numa
penetração lenta e sensual. Meu corpo começou a reagir, consciente do prazer
que era sentir sua boca em meus seios. E o pênis que deslizava dentro de mim
espalhava sensações desconhecidas por minhas terminações nervosas, cada
vez mais intensas e narcotizantes.

– Isso, relaxe. Que delícia, Lorenza! Como você é gostosa!

Movi-me lentamente, recebendo sua língua na boca, da mesma forma que


recebia seu sexo no meu. A penetração se tornava mais e mais prazerosa.
Comecei a gemer e me abri mais, descontraindo as pernas, deixando-o ir e vir o
quanto quisesse dentro de mim. Ainda era muito apertado, contudo a dor se
tornava apenas um resquício frente ao prazer que me dominava.

Ergui o quadril e o senti bem fundo, enterrando-se todo, até a base do pênis.
Arfei, excitada, gostando daquilo, surpresa. Ele penetrou de novo. E de novo.
Acariciou meus seios, desgrudou a boca da minha e me fitou os olhos.

– Você agora é minha, Lorenza.

– Sim. – Murmurei, sabendo que era verdade. Acariciei-o, rodeando os quadris


dele com as pernas, maravilhada. – Sou sua.
– Diga de novo. – Miguel exigiu, indo mais fundo e rápido dentro de mim,
deixando-me arrebatada.

– Sou sua. Há seis anos sou sua. – Desabafei, inundada de tanto prazer,
agarrando-o. – Só você podia me tornar mulher, Miguel. Só você...

– Desgraçada... – Ele murmurou e me beijou ferozmente na boca.

Retribuí, alucinada. Eu estremecia cada vez que ele dava as estocadas


vigorosas em meu interior, empurrando meu útero, espalhando fogo em
minhas veias. O gozo veio arrebatador, quente, longo e me pegou desprevenida
com sua intensidade. Gritei desesperada, ondulando sob suas arremetidas,
tendo espasmos e convulsões descontroladas, nunca antes sentidas.

– Lorenza... Ah, porra!

Miguel gemeu alto, tendo um orgasmo, estremecendo dentro de mim,


enterrando-se fundo. Eu pensei que fosse morrer, tamanho prazer que me
dominou. Agarrei-o sofregamente, respirando em grandes espasmos e
continuamos a gozar longamente, juntos, até nossos corpos ondularem,
colados e satisfeitos. Tudo ficou subitamente em silêncio. Por um momento, ele
continuou bem fundo dentro de mim. Então rolou para o lado.

Fitei o teto, surpresa e dopada demais por meu prazer para conseguir pensar.
Mas senti falta do corpo dele. Naquele momento eu soube que estava perdida,
completamente perdida nas mãos daquele homem.
Capítulo 4

A leve camada de suor em meu corpo secava rápido devido ao ar condicionado.


O frio voltava lentamente, arrepiando minha pele. Fiquei imóvel, olhando o
teto. Estava completamente consciente de Miguel ao meu lado, assim como do
aro em volta do meu pescoço. E de minha vagina, que só agora eu percebia
estar dolorida. Aliás, todo meu corpo parecia diferente, agora que o conhecera.

Tive vontade de olhá-lo, sentir novamente o seu toque. Nem que fosse só para
me abraçar. Assim, criei coragem e virei de leve a cabeça, olhando para ele.
Miguel me fitou na mesma hora.

Meu coração disparou como um louco. Lembrei dos seus beijos, de suas
carícias e de tudo que ele me fizera sentir naquela noite. Surpresa, percebi que
o queria de novo. Que talvez nunca ficasse completamente satisfeita enquanto
ele estivesse tão perto de mim.

Sem pensar direito, ergui a mão para acariciar seu rosto. Ele me impediu,
segurando meu pulso com firmeza, antes que eu o tocasse. Contive a
respiração, vendo que ele me olhava com frieza.

– O que é, Lorenza? Quer mais uma sessão de sexo?

Fiquei vermelha e tentei puxar o braço, mas ele não deixou. Continuou a me
segurar com firmeza.

– Seu grosso... – Murmurei, com raiva.

– O que você quer, Lorenza?

– Nada! – por fim ele soltou meu pulso. Arrastei o corpo para longe dele,
tentando esconder que ele me magoara. – Conseguiu o que queria, Miguel. Por
que não me solta agora?
– Quem disse que eu consegui o que queria? – Sorriu cinicamente e seu olhar
percorreu meu corpo. – Quero muito mais. Tudo em seu devido tempo.

– Isso é loucura! Não pode me manter presa aqui, com essa maldita coleira!

– Posso. Por quê? Achou que bastaria me entregar sua virgindade, vir com
aquele papo de que me esperou seis anos e me teria nas mãos? Fazendo as
suas vontades?

Franzi o cenho, revoltada.

– Você está maluco! Se estou aqui, é porque você me obrigou! E não te


entreguei minha virgindade! Eu não tinha escolha.

– Escolheu ficar virgem, aos vinte três anos de idade. Onde você se escondia
não tinha homens?

– Não é da sua conta.

– Mas disse que se guardou para mim. Não é irônico? – ele riu, sem vontade,
sentando-se na cama sem deixar de me olhar. – Fugiu de mim há seis anos
para não me deixar deflorá-la e agora se guardou para mim.

– Esqueça o que eu disse! Nem conseguia pensar direito, eu... não te devo
satisfações.

– Eu quero saber e você vai dizer. Por que continuou virgem?

Senti-me cansada, dolorida, exausta emocionalmente. Mas sabia que ele não
me deixaria em paz.

– Porque não conheci ninguém por quem me apaixonasse.

Miguel ergueu uma sobrancelha.


– Entendo. Estava se guardando para o amor de sua vida. Meio fora de moda
nos dias atuais, não acha?

– Não sigo modas! Faço o que acho certo. É simples.

– Coitadinha. Acabei com os seus sonhos românticos de se casar de branco,


não é?

– Ele riu. Aproximou-se um pouco mais de mim. – E agora, o que vai fazer?

– Nada, Miguel. O que posso fazer se estou presa por um brutamontes que vai
me estuprar até cansar? – Indaguei, irritada.

– Não estuprei você. Mas não se preocupe. É uma possibilidade.

Ele estava sendo cínico, me provocando. Suspirei. Levei a mão até a argola em
meu pescoço.

– Preciso ir ao banheiro.

– Claro. Eu levarei você na coleira, como minha cadelinha.

Olhei-o com raiva.

– Seu filho da ... – Ele agarrou meu cabelo com força e puxou bruscamente
minha cabeça, que chacoalhou. Fiquei sem ar e sem voz. Em segundos meu
couro cabeludo ardia onde ele enroscava os dedos, mantendo minha cabeça
perto da dele.

– Termine essa frase, Lorenza. Dê-me o motivo que quero para mostrar a você o
quão bruto eu posso ser.

Eu arfei, segurando as mãos dele sobre o meu cabelo, onde doía. Meus olhos
encheram-se de lágrimas.
– Aqui eu mando e você obedece. Chega de insultos. Não está em uma colônia
de férias.

– Sei muito bem disso.

– Talvez precise saber de mais. – Soltou meu cabelo, me empurrando sobre o


travesseiro. Seu olhar era de desprezo. – Você pensa que é esperta. Que pode
me seduzir com essa boceta apertada, até me fazer esquecer que me enganou,
que fugiu com seu pai e rompeu o acordo. Só que eu nunca esqueço, Lorenza.
E cobro quem me deve até eu julgar que a dívida já foi paga. Você está longe de
pagar o que me deve.

Apesar de assustada, ergui o queixo.

– Eu não te devo nada.

– Deve. E pode se preparar. Não é uma virgindade que vai me fazer esquecer ou
tirá-la dessa coleira. Você é minha, até eu me cansar. – Levantou-se friamente.
– Agora vou te levar ao banheiro. Na coleira. Agradeça por não obrigá-la a ir de
joelhos, como a cadela que você é.

Fiquei quieta, me controlando para não chorar de raiva e humilhação. Meu


couro cabeludo doía, mas o pior era meu orgulho em farrapos.

Miguel pegou sua calça largada no chão e de lá tirou uma chave. Sem uma
palavra, aproximou-se do espaldar da cama e abriu o cadeado de lá. Soltou a
corrente do ferro e segurou a ponta. Olhou-me, irritado.

– Vamos logo, Lorenza.

Levantei-me, dolorida. Percebi algo molhado entre minhas pernas e corei ao ver
o sangue que escorria lentamente da minha vagina. Humilhada, pois ele
também viu e por minha situação, meus olhos encheram-se de lágrimas. Lutei
contra elas. Pus a mão entre as pernas e andei em direção ao banheiro, nua,
seguida por ele, que segurava a minha corrente. Não protestei quando ele
entrou no banheiro e ficou me olhando sentar no vaso.

Sentia-me muito cansada. Fora um dia exaustivo. E era apenas o começo.


Urinei e, apesar de arder um pouco, não doeu como imaginei. Sequei-me e
levantei, limpando o sangue. Joguei o papel no lixo. Olhei para ele, tentando
não perceber sua nudez ou masculinidade. O pior era que, apesar de tudo, ele
ainda mexia comigo.

– Preciso de um banho.

– Eu também.

Miguel foi para o boxe e abriu o jato quente do chuveiro. Deu-me passagem.
Sem alternativa, passei por ele e também entrei no boxe. Enfiei-me sob o jato
forte, sentindo a água gostosa sobre a cabeça. Fechei os olhos e fiquei ali por
um momento, esperando que o banho relaxasse meus músculos tensos.

Estava cansada até para pegar o sabonete. Por isso fiquei surpresa quando,
atrás de mim, Miguel segurou meus cabelos compridos e molhados, colocou-os
sobre um dos ombros e passou a ensaboar minhas costas. Mordi os lábios com
a sensação prazerosa e me mantive parada.

As mãos dele, grandes e firmes, massageavam os músculos endurecidos dos


meus ombros, soltando os nós. Os polegares rodeavam minhas omoplatas em
movimentos circulares, contínuos e deliciosos. Sentindo-me fraca, apoiei as
mãos na parede ladrilhada e abaixei um pouco a cabeça.

Queria ser orgulhosa e negar que ele mexia comigo, entretanto era impossível.
Era só Miguel me tocar para que meu corpo reagisse na hora, como se eu fosse
um ser sem vontade, totalmente dele. A raiva ainda estava dentro de mim, é
claro. Ele me humilhara e eu sabia que era só o começo. Era horrível a
sensação de impotência, de ser prisioneira de alguém, de ter privado o seu
direito de ir e vir. O homem que me dava tanto prazer era também o meu algoz.
Os dedos longos desceram massageando minhas costas, os polegares na linha
marcada da coluna, até minhas ancas. Ele ensaboou mais minha pele,
espalhando espuma, com as duas mãos abertas sobre os globos arredondados
da minha bunda. Contive o ar, excitando-me com suas carícias.

Abri bem os olhos, fitando o ladrilho branco à minha frente, quando ele abriu
meu bumbum com uma das mãos e com a outra, ensaboada, acariciava
levemente o vale entre elas. Seus dedos rodearam meu ânus sem força, com
delicadeza. Eu mal podia respirar.

Sua mão desceu mais, até meu sexo. Acariciou e ensaboou meus lábios
vaginais até que correntes de prazer começaram a correr por meu corpo e eu
passei a tremer sem controle. Logo ele me direcionava sob o jato de água e me
enxaguava.

Quando Miguel me virou, meus olhos estavam nublados e pesados. Eu nem


percebi que a ponta da corrente que ele soltara arrastava no chão. Ele sorriu e
me encostou na parede. Fitava meus olhos quando pegou o sabonete e
continuou a me ensaboar, bem perto, começando pelos ombros.

Ensaboou meus braços e depois os seios. Ali suas mãos ficaram, lentas,
espalmando-os, brincando com os mamilos, apertando-os. Meu coração
disparava e eu colava minhas costas no ladrilho, involuntariamente empinando
o peito para que ele tivesse total acesso aos meus seios.

Miguel disse baixo:

– Você tem seios lindos, Lorenza.

Eu não consegui dizer nada, já totalmente dopada pelo prazer. Ele sorriu e
continuou com a lenta tortura, ensaboando todo meu corpo devagar e
deliberadamente, até me deixar arfante, molhada, quente, louca por ele. Por
fim, acariciou cuidadosamente todo o meu sexo. Ele foi tão meticuloso que
minhas pernas se tornaram bambas e eu tremia e ondulava sob suas mãos,
delirando. Segurou minha cintura e praticamente me sustentou sob o jato forte
do chuveiro com um dos braços, quase encostando meu corpo no seu. Eu
apoiei as mãos em seu bíceps musculoso, fraca e excitada, olhando seu queixo
másculo a minha frente enquanto sua outra mão me enxaguava. Seus dedos
mergulharam entre meus pelos púbicos e lavaram, junto com a água, meu
clitóris já totalmente inchado. Não suportei e o segurei com mais força,
enfiando o rosto em seu pescoço, mordiscando-o ali enquanto eu gemia.

– Você é tão quente, Lorenza. Dá vontade de viver enfiado dentro dessa


bocetinha.

– Seu dedo deslizou fácil dentro de mim, toda encharcada. Estremeci por
inteiro, abraçando-o, oferecendo meu sexo em sua mão. Senti seu pênis duro
contra meu ventre e rocei-me nele. – Está dolorida?

– Sim, mas...

– Mas?

– Eu... não pare, Miguel...

– Você está me deixando excitado, Lorenza. Vai conseguir me aguentar de


novo?

– Seu dedo continuava indo e vindo dentro de minha vagina, deixando-me


louca, arquejante, movendo meus quadris. Meu sexo estava sim dolorido e o
seu pênis grande com certeza ia me machucar, mas eu o queria com tanto
desejo que nem me importava.

– Estou dolorida, mas quero você – murmurei.

– Merda.

Miguel tirou o dedo de dentro de mim e segurei seu pulso, reclamando. Ele riu,
me afastou um pouco e fitou-me os olhos.
– Você gosta de sexo, não é, Lorenza? Como conseguiu se manter virgem com
esse fogo todo? – olhei-o, sem saber o que dizer. Mas ele não esperava resposta.
Entregou-me o sabonete. – Sua vez de me ensaboar.

Peguei o sabonete, excitada.

Ele afastou-se do jato de água e eu o segui, olhando-o com cobiça. Espalhei


espuma por seu peito duro, acariciando com vontade seus músculos, seus
pelos, sentindo água na boca em tocá-lo e olhá-lo. Ele era maravilhoso, lindo,
gostoso. Minhas mãos o percorreram avidamente, ombros, braços, pescoço,
peito, barriga, quadris e pernas.

Adorei acariciar suas coxas musculosas, meus dedos cheios de espuma


deslizando por ele. Eu mordia os lábios e olhava cada pedaço do corpo dele,
com olhos pesados de desejo, meu corpo pegando fogo. Quando ensaboei seus
pelos púbicos, suas bolas e percorri com as duas mãos todo comprimento de
seu pênis, minhas pernas ficaram como gelatinas. Estava em tal estado de
excitação que bastaria ele encostar o dedo em meu clitóris para eu gozar.

Miguel foi até o jato de água e eu continuei com as carícias, agora o livrando da
espuma, mas aproveitando para tocá-lo da mesma forma. Ele também estava
excitado, com as pupilas dilatadas, um ar sério e cheio de luxúria no rosto.

Encostou-se no ladrilho e me puxou para seus braços, colando nossos corpos


nus e molhados, enfiando a língua quente em minha boca. Eu o agarrei,
beijando-o sofregamente, ficando nas pontas dos pés porque ele era bem mais
alto que eu. Rocei meu corpo no dele, gemendo, sentindo suas mãos em meu
bumbum me erguendo, para que eu esfregasse meu sexo no dele. Comecei a
gemer e estremecer. Ele me segurou com força, desgrudando os lábios, me
fitando dentro dos olhos.

– Calma. Não vai gozar agora.

– Mas... – protestei, ardendo, respirando irregularmente.


– Quero que goze na minha boca, Lorenza. E quero gozar na sua.

Minha vagina latejou. Murmurei:

– Disse que eu não sei, que eu...

– Que me chupou como uma virgem. – Miguel completou e fitou minha boca. –
Mas foi gostoso. Quero que me chupe de novo. Você aprende rápido.

– Sim. – Eu já sentia a boca molhada em antecipação.

Deslizei para baixo, até me ajoelhar à sua frente, no chão molhado. Olhei para
seu pênis tão grande e lindo, ansiosa. Miguel acariciou meu cabelo molhado e
disse baixo:

– Passe a língua no meu pau, Lorenza.

Minha vagina ficou toda molhada, como minha boca. Segurei-o pela base e
lambi a cabeça do seu membro, dura, porém com a pele lisa. Comecei a lambê-
lo como se o saboreasse, lentamente, todo ele. Miguel segurou meu cabelo com
as duas mãos, gemendo, ajudando os movimentos da minha cabeça.

– Que língua gostosa... Isso... Lambe o meu saco...

Eu me inebriava com ele, mantendo os olhos abertos, excitada em lambê-lo


todo daquele jeito. Segurava-o com as duas mãos, para melhor poder explorá-
lo. Voltei à ponta, passando a língua pela pequena abertura.

– Ah, Lorenza. – Miguel segurou firme minha cabeça. – Abra essa boquinha.
Assim.

Ele empurrou lentamente o pênis dentro de minha boca úmida. Eu a abri bem,
colando os lábios nele, sugando-o. Miguel gemeu novamente, movendo os
quadris para penetrar o pênis um pouco mais fundo, tão grande e grosso. Senti
a ponta quase na garganta e engasguei. Ele parou um pouco, até eu me
recuperar. Depois murmurou:

– Relaxe a garganta e prenda um pouco o ar. Quero sentir sua boquinha toda
no meu pau, Lorenza. Assim. Não vai doer.

Miguel continuou os movimentos de penetração, amparando minha cabeça,


indo mais e mais fundo. Comecei a entender como saboreá-lo sem engasgar.
Apoiei as mãos em suas coxas e enterrei mais a cabeça entre as suas pernas,
contendo o ar, sugando-o para dentro de mim. Chupei-o com mais firmeza,
sentindo-o na garganta, enchendo minha boca toda, percorrendo-o com a
língua. Eu salivava, muito excitada.

Percebi que eu o deixava louco, pois Miguel gemia e estremecia, sem largar
meu cabelo. E eu o devorava gostosamente, o máximo que eu conseguia, num
movimento contínuo e cada vez mais rápido.

– Caralho! – Miguel arfou alto, roucamente. – Que delícia! Como você chupa
gostoso! Vou acabar gozando nessa boquinha quente! Oh, Lorenza... Não
pare...

Eu não queria parar, adorando comê-lo daquele jeito, como se ele fosse todo
meu. Minha boca não o largava, indo e vindo nele, sentindo-o pulsar. Miguel
segurou bem firme minha cabeça e murmurou:

– Vou gozar na sua garganta, querida. Agora.

Ele ondulou contra meus lábios e língua e eu o suguei com força. Surpreendi-
me com o jato quente, forte e cremoso que ele despejou em minha garganta,
levemente salgado. Engoli-o na hora, sorvendo seu líquido, adorando seu gosto.
Nem por um momento tive repulsa ou pensei em tirá-lo dali. Pelo contrário,
aquilo me deixou louca e eu não perdi nem uma gota, engolindo tudo até ele
parar de estremecer e de gozar.
– Meu Deus... – Miguel gemeu, respirando irregularmente, tirando o pau da
minha boca.

Puxou-me para cima e me abraçou. Senti seu coração acelerado quando beijei
seu peito, excitada. Ele disse baixinho em meu ouvido:

– Você foi perfeita. Agora vou te dar tanto prazer quanto você me deu. Encoste
aqui.

Ansiosa, deixei que ele me encostasse na parede e olhei-o se ajoelhar à minha


frente. Segurou minha perna esquerda e a levantou, apoiando meu pé sobre
sua coxa, fitando minha vagina aberta na direção de sua boca. Arfei em
expectativa, sentindo-o segurar meu bumbum com as duas mãos e roçar a
ponta do nariz afilado em meus pelos, cheirando-me.

Gemi baixinho. Ele sorriu. E então lambeu lentamente meu clitóris. Minhas
pernas bambearam e eu enfiei os dedos entre seus cabelos negros, me
apoiando nele. Quando sua boca mergulhou em minha vagina, meu quadril
moveu-se loucamente de encontro a ela. Eu escaldava e tremia, já muito
excitada por tê-lo chupado, por continuar com o gosto dele na boca e agora por
senti-lo me lamber e sugar toda.

– Miguel, ai que gostoso! Não vou aguentar!

Uma de suas mãos desceu até minha vagina, acariciando e abrindo minha
carne inchada enquanto ele chupava meu clitóris. Enfiou lentamente um dedo
em mim e aí perdi o controle de vez. Contraí-me toda, rebolando em sua boca e
em seu dedo, murmurando o nome dele sem parar. O orgasmo veio fulminante,
arrebatador, fazendo-me gritar e ter espasmos convulsivamente. Gozei muito e
ele bebeu meu gozo, sem parar, segurando-me para que eu não caísse,
enterrando o dedo e a língua em mim até eu ficar mole, exausta, com os
membros pesados. Só então ele parou.
Ergueu o corpo musculoso, prendendo-me contra a parede, beijando minha
boca. Retribuí, langorosa, satisfeita, segurando seus ombros. Miguel sorriu do
meu estado, ele bem mais recuperado que eu. Lavou nossos sexos com
sabonete, nos enxaguou e depois me enxugou. Ele pôs uma toalha na cintura e
vestiu um grande roupão atoalhado em mim. Pegou a ponta da corrente e me
olhou. Eu estava cansada demais para me preocupar por ainda estar presa.

Sem dizer uma palavra, ele me pegou no colo. Abracei-o com satisfação,
bocejando, apoiando minha cabeça em seu ombro. Levou-me para o quarto
gelado e me deitou na cama. Encolhi-me de frio, olhando-o com as pálpebras
pesadas.

Miguel prendeu a corrente no ferro da cama e fechou o cadeado. Depois foi até
o guarda-roupa, pegou um grande e pesado edredom e me cobriu. Catou suas
roupas no chão.

– Boa noite, Lorenza.

– Você não vai dormir aqui? – perguntei baixinho, aquecida sob o tecido macio.
Ele fitou-me nos olhos, sério.

– Não. Meu quarto fica em frente. Qualquer coisa é só chamar.

Ele deu as costas e se afastou. Vi-o sair do quarto sentindo um misto de


decepção e abandono. Fechei os olhos cansados, pensando no que eu não daria
para que ele dormisse comigo, abraçado. Senti uma falta terrível dele, como se
já me pertencesse.
Capítulo 5

Acordei estranhamente relaxada na manhã seguinte. A cortina aberta revelava


o dia lindo lá fora, banhado pela luz do sol. Entretanto, o ar condicionado
ligado a noite toda deixava o quarto gelado e eu continuei encolhida sob o
edredom. Fiquei olhando para o céu azul através da vidraça, porém meus
pensamentos estavam todos voltados para o dia anterior. Nunca imaginara que
apenas um dia fosse o bastante para mudar minha vida daquele jeito.

Mal pisara no Brasil, eu fora pega em uma armadilha, drogada, presa na cama
onde eu passara boa parte da minha infância e adolescência. Uma armadilha
preparada por Miguel. Que me tornara mulher, me ensinara os prazeres do
sexo e era dono de tudo que tinha importância para mim: aquela casa, a minha
liberdade e o meu corpo. Se eu não fosse cuidadosa, ele tiraria muito mais.

Suspirei e fechei os olhos por um momento, lembrando de como ele era lindo e
viril; de seus beijos, suas carícias, sua boca, seu pênis dentro de mim. Arfei,
tremendo, sentindo um frio na boca do estômago. Admiti a mim mesma que
não via a hora de estar novamente com ele, de ouvir sua voz, tocá-lo, senti-lo
novamente em minha boca e em minha vagina, me penetrando daquele jeito...

O barulho da porta abrindo interrompeu meus pensamentos. Abri os olhos


rapidamente, com o coração acelerado, esperando vê-lo. Fiquei decepcionada
ao deparar-me com Amélia, a mulher alta e fria que me dopara no dia anterior.

– Bom dia, senhora. Vim ver se precisa de alguma coisa. – Ela parou na
entrada do quarto, fitando-me com seus indiferentes olhos escuros. Tive
vontade de xingá-la. Mas apenas sentei na cama e respondi com frieza:

– Ir ao banheiro.

– É claro. O senhor Montês pediu que a alertasse para não tentar nenhuma
besteira.
A casa está cercada de seguranças e eu trago um aparelho que dá choque no
bolso, para usar na senhora caso me dê trabalho.

– O quê? – Afastei o edredom, irritada. – Tem ordens para me agredir?

– Só se eu for agredida primeiro, senhora.

– Pare de me chamar de senhora, droga! Será que pode soltar essa porcaria
para eu ir ao banheiro?

Amélia não respondeu. Seu olhar era duro, ao se aproximar da cama e abrir o
cadeado do espaldar com uma chave que tirou e depois guardou no bolso da
calça jeans. Parecia me alertar para ficar longe. Segurou a ponta da corrente e
indicou a porta do banheiro.

– Senhora...

Olhei-a com raiva e me levantei, ajeitando o roupão no corpo. Andei até o


banheiro. Ela entrou comigo e eu me virei, cada vez mais irritada com aquele
cão de guarda:

– Vai ficar aqui me vendo cagar? Nem isso eu tenho o direito de fazer em
particular?

Ela cerrou os lábios com desprezo. Caminhou até o ferro do boxe, passou a
corrente por ele e prendeu com o cadeado.

– Assim a senhora poderá usar o vaso e o chuveiro. Não feche a porta, ou um


segurança virá pô-la abaixo. Estarei no quarto. Chame quando terminar.

Ela saiu e eu murmurei:

– Bruxa.
Fiz minha higiene matinal, escovei os dentes com uma das várias escovas
novas no armário, tomei banho lavando bem o meu cabelo. Depois me
enxuguei e vesti novamente o roupão e me penteei. Pronta, eu avisei:

– Já acabei.

Amélia voltou, cautelosa, talvez esperando que eu estivesse escondida para


pular em seu pescoço. Viu-me quieta, perto da pia. Sorri sem vontade. Ela
passou por mim sem desviar o olhar. Tirou novamente a chave do bolso, abriu
o cadeado, segurou a corrente.

– O senhor Montês permite que a senhora fique lá embaixo, na sala de estar, se


for de seu agrado. Tem televisão, livros, som e...

– Outro ferro para prender minha corrente. – Falei, voltando para o quarto. Ela
havia desligado o ar e aberto as janelas. O sol banhava a cama e iluminava
tudo.

– Exatamente. Deve estar com fome. Vou...

Virei-me e olhei-a dentro dos olhos.

– Como pode achar isso normal, Amélia? Um homem manter uma mulher em
uma coleira, presa, contra a sua vontade? Não sabe que isso é crime?

– Não me meto nos negócios do meu patrão.

– Negócios? Eu sou uma pessoa! Forçada a ficar aqui! Quando sair, vou direto
para a delegacia! E você vai para a cadeia junto com seu adorado patrão!

Amélia fez pouco caso das minhas ameaças e até sorriu, aumentando a rede de
rugas em volta de seus olhos.

– Seria muito difícil a senhora provar tais acusações. Sou testemunha de que
veio para cá por livre e espontânea vontade. E o senhor Montês é rico e
poderoso demais, sabe. Com muitos amigos importantes. Talvez a senhora é
que acabasse presa por calúnia.

– Vamos ver! – Exclamei com raiva, mas sabendo que ela estava certa. Respirei
fundo. – Cadê ele?

– Teve compromissos fora daqui. A senhora vai querer descer e tomar seu café
da manhã?

– Desde que você não me drogue novamente. – Senti-me uma criança boba,
fazendo birra sem que ninguém ligasse. Tive vontade de chorar novamente ao
sair do quarto, seguida por aquela mulher odiosa que segurava firmemente a
corrente que me prendia.

Contudo me controlei. Amélia mantinha uma distância segura de mim,


vigiando-me como um cão de guarda. Desci a escadaria pensando em um jeito
de fugir dali. Mas como? Conhecia a casa muito bem e segui para a sala de
estar. Lá era confortável, com estantes cheias de livros, TV enorme e fina em
uma das paredes, som de última geração e portas de correr abertas com vista
para o jardim e a piscina nos fundos da casa, de onde vinha uma brisa suave e
gostosa. Comecei a sentir calor com aquele roupão.

– Onde estão minhas roupas? Devia ter me vestido no quarto. Não peguei nem
meus chinelos.

– Vou providenciar. – Ela já prendia a corrente com cadeado em volta de uma


coluna romana no centro da sala, perto das portas. – Aqui a senhora terá
acesso a tudo e poderá sentar-se também no terraço.

– Obrigada, Amélia. Você é muito gentil. – Falei com ironia.

– O que gostaria de comer?


Dei de ombros. Sentia fome, mas a raiva me dava vontade de fazer jejum.
Talvez eu desmaiasse e Miguel fosse obrigado a me carregar para o hospital.
Balancei a cabeça pelo pensamento bobo. Eu nunca conseguiria ficar sem
comer.

– Café com leite, pão com queijo, frutas e água.

– Sim, senhora.

Amélia saiu. Caminhei descalça até as portas de correr e fiquei olhando o belo
jardim cheio de grama, flores, árvores centenárias. Tive vontade de sair
correndo por ele, subir nas árvores como eu fazia quando criança, sentar no
balanço sob a mangueira. E depois me jogar na piscina grande e nadar, como
eu fazia todo dia no riacho perto da minha casa em Portugal.

As lágrimas escorreram por meus olhos e só aí percebi que chorava. Enxuguei-


as rapidamente. Não queria me sentir daquele jeito, com pena de mim mesma,
arrasada.

Precisava ter calma, observar tudo, pensar em um jeito de sair dali. Eu


conhecia bem aquela casa, o melhor lugar para pular o muro, cantos para me
esconder. Só tinha que me livrar daquele maldito aro no pescoço.

E para onde eu iria? Tinha que planejar direito, pegar meus documentos,
passaporte e dinheiro. O melhor era voltar para Portugal. De onde eu nunca
devia ter saído.

Suspirei e fui sentar no sofá de couro.

Pensei em Miguel. Como ele podia mexer tanto comigo se era a causa dos meus
problemas? Por que eu sabia que me enganava quando dizia a mim mesma que
devia ter continuado em Portugal? Lá eu não tinha Miguel. E ali, apesar de
tudo, eu estava com ele. Era muito difícil admitir que era isso que eu desejava.
Que nada mudaria o fato de que nunca me senti tão completa antes com uma
pessoa como me sentia com ele. Todas aquelas emoções fortes, a atração
intensa, os sentimentos poderosos que só ele despertava.

Se ao menos ele me soltasse. Se me deixasse escolher, eu ficaria ali. Como sua


amante, mesmo que ele depois se cansasse de mim e não me quisesse mais.
Pelo menos por algum tempo eu seria feliz com ele. E depois sofreria como uma
condenada quando ele me dispensasse.

Só que eu era prisioneira. E aquilo era horrível. Sentia medo, raiva, rancor. Ele
me tinha nas mãos, como escrava e o pouco que eu conhecia dele provava que
era perigoso, capaz de ir às últimas consequências para conseguir o que
queria. Poderia fazer mil e uma coisas comigo, me machucar, me humilhar e eu
não teria para onde fugir. E nem ninguém para me ajudar.

Se eu conseguisse fugir, o perderia. Não olharia mais para ele, não faria amor,
não ouviria sua voz. Eu ainda não estava preparada para aquilo. Na verdade,
estava ansiosa para estar de novo com ele. Mas sabia que, naquele momento,
era minha melhor opção.

Fugir. Ou eu, acostumada com liberdade e alegria, me acabaria ali.

– Seu café, senhora.

Amélia depositou uma bandeja farta sobre a mesa do centro. Depois me


estendeu uma camisola curta de seda branca e chinelos de saltinho fino, que
pegara das minhas coisas. Olhei para os objetos que ela deixava sobre o sofá.

– Amélia, preciso de roupas de verdade. Calcinha, sutiã, jeans, camiseta,


sandálias.

– Eu conhecia aquela camisola curta e transparente, que eu usava para dormir


em dias de muito calor.
– O senhor Montês levou suas coisas para outro cômodo da casa e deixou
somente alguns itens, como esse, para a senhora.

– O quê? – Eu me levantei, revoltada. – Ele quer que eu viva por aí de camisola?

Mexeu nas minhas coisas? Como...

Entendi tudo. Fiquei furiosa.

– Compreendo. Ele sumiu com minha bolsa também, não é? Meu dinheiro,
meus documentos, tudo. Assim, se por acaso eu conseguir fugir, vou sair por aí
como uma piranha, sem calcinha e com esses malditos saltos que não me
deixam nem andar! –

Respirei fundo. Ri sem vontade para ela, que me encarava, impassível. – Sem
contar que é mais prático, não é? Quando ele quiser me foder, basta erguer a
camisola e pronto! Já está lá!

– Se precisar de algo, chame. Estarei na cozinha, preparando o almoço. Com


licença, senhora.

Sentei novamente, tremendo de raiva. Eu não suportaria aquilo. Se Miguel


pensava que me controlaria, estava muito enganado. Eu ia dar um jeito de
fugir, nem que saísse dali pelada e descalça. Apesar do calor, continuei de
roupão. Peguei a bandeja e ataquei o café da manhã. Precisaria de energia para
correr bastante.

Nada conseguiu me distrair naquela sala e eu tentei de tudo. É claro que


também não tinha telefone, caneta, computador ou nada que me servisse como
arma ou tentativa de abrir o cadeado. Nem o dia lindo conseguiu combater
minha impaciência e a raiva cada vez maior daquela argola em meu pescoço.

Na hora do almoço, Amélia me serviu ali. Eu nem falei com ela, tamanha a
irritação que eu sentia, a ponto de ter um ataque de nervos. Para ser justa, a
comida dela era deliciosa. Após ficar satisfeita, eu a chamei, tentando pelo
menos manter uma aparência calma.

– Preciso ir ao banheiro e escovar os dentes. Depois, prefiro continuar no


quarto.

Aqui está muito quente.

Ela lançou um olhar sobre a camisola que continuava sobre o sofá, mas não
disse nada. Tirou novamente a chave do bolso da frente da calça e soltou o
cadeado. Também sem dizer nada, segui na frente dela.

Preparei-me psicologicamente, mas sentindo minhas mãos tremerem pelo que


eu ia tentar fazer. Uma loucura, fruto do meu desespero, porém melhor do que
ficar quieta, enlouquecendo naquela prisão.

Chegamos à escada. Subi devagar, percebendo com o canto do olho que Amélia
estava uns quatro degraus atrás de mim. Meu coração batia loucamente
quando chegamos ao meio da escadaria. Uma voz gritou dentro de mim:
AGORA! Virei-me subitamente, o mais rápido que consegui, segurando a
corrente e puxando-a de supetão.

Surpresa, Amélia arregalou os olhos e, como eu esperava, não soltou a


corrente, sendo arrastada por ela. Enquanto ela se desequilibrava, desci
correndo e me atraquei com ela, gritando como uma louca, não querendo que
ela tivesse tempo de reagir. Nós duas caímos, emboladas, rolando escada
abaixo como duas bonecas de trapos. Bati com a cabeça e o cotovelo nos
degraus, machuquei o quadril, vi estrelas diante dos olhos, com dor por toda
parte. Contudo lutava para não me machucar muito e me manter consciente.

Com um baque surdo, chegamos ao chão brilhante de tábuas corridas aos pés
da escada, a corrente entre nossos corpos. Amélia gemeu, meio tonta. Com
adrenalina chegando a mil, me desvencilhei dela, sabendo que perderia tempo
procurando a chave em seu bolso. Levantei-me tropeçando, puxando a corrente
e segurando-a firme com uma das mãos. Eu precisava sair dali logo. Fugir.
Correr muito!

Virei-me, mas antes de dar o primeiro passo, a maldita mulher agarrou meu
tornozelo e puxou. Gritei ao cair de joelhos com força, meu roupão se abrindo,
a corrente se espalhando pelo chão. Chutei a mão dela descontroladamente,
sem conseguir parar de gritar, até me soltar. Peguei de novo a corrente,
levantei rápido e nem olhei para trás.

Mas a desgraçada também agarrou a corrente e puxou-a bruscamente, como


eu fizera na escada. Fiquei sem ar quando minha cabeça tombou para trás e o
aro apertou minha traqueia. Tossi, mas continuei a lutar. Puxamos a corrente
de um lado para outro e finalmente arranquei-a da mão dela. Tive vontade de
dar umas acorrentadas nela até deixá-la desacordada, porém não tive coragem.
Meio tonta, com a garganta queimando, tentei correr novamente. Escutei-a
gritar atrás de mim e, como um maldito cão de guarda treinado, ela pulou em
minhas costas.

Bati no chão com força, meu queixo abriu na ponta com a pancada e, sem
entender, gritei quando uma corrente elétrica percorreu meu corpo, num
choque rápido, porém intenso. Ainda tentei me arrastar, sentindo o sangue
pingar do meu queixo, o corpo em convulsões, mas logo outra corrente de
choque me deixou, por fim, paralisada. Amélia sussurrou no meu ouvido:

– Meu marido tem treinamento militar e me ensinou uns truques. Você não é
páreo para mim, menina.

Abri a boca para xingá-la, mas desmaiei antes disso.


Capítulo 6

Todo meu corpo doía e minha cabeça latejava. A garganta estava seca,
rascante, dolorida. Eu sentia frio e sede. Abri os olhos devagar, confusa.

Era fim de tarde e a luz natural ainda não deixará o quarto escurecer. O ar
condicionado, ligado de novo, causava o frio. Eu vestia apenas a camisola
branca, curta e fina, que Amélia me entregara naquela manhã. Amélia. Gemi
de dor e raiva ao lembrar tudo. A desgraçada me nocauteara. E lá estava eu
novamente naquela cama, presa pelo pescoço, machucada e vestindo a droga
daquela camisola.

Sentei na cama, tonta. Meu corpo formigava, ainda um pouco trêmulo pelos
choques que ela me dera. Meu pescoço doía, onde o aro fora puxado com força.
Levei a mão à ponta do queixo dolorido e percebi ali um pequeno curativo. A
safada ainda cuidara de mim.

Tentei desanuviar a cabeça e passei as mãos pelos cabelos despenteados,


morrendo de sede. Na mesinha ao lado da cama havia um jarro de plástico com
água e um copo também de plástico. Sorri sem vontade. Nada de vidro, pra eu
não quebrar e tentar me matar. Ou matar alguém. Despejei água no copo e
bebi sofregamente.

Minha garganta latejava com o movimento de engolir. Mas continuei em frente,


sedenta. Pus o copo no lugar. Recostei-me nos travesseiros amontoados no
espaldar da cama, com as costas e a cabeça sobre eles. Ajeitei a camisola que
mal chegava ao meio das coxas e estiquei as pernas. Fiquei quieta, sem ter o
que fazer.

Então era assim. Eu era uma fracassada, que não conseguira nem fugir de
uma mulher com o dobro da minha idade. Porém dura como uma rocha. E com
treinamento militar, lembrei. Agora, além de tudo, estava machucada e com o
orgulho no chão. E o pior: ainda presa.
Eu nem sentia mais vontade de chorar, tamanho o meu desânimo. Fiquei ali,
arrepiada de frio, quieta, cansada até para pensar. Os minutos se arrastaram.
A tarde foi se acabando e a noite chegando. Por fim a porta se abriu e eu saí
daquele marasmo quando Miguel entrou no quarto e acendeu a luz.

Ele estava mais lindo do que nunca num elegante terno cinzento, com gravata
em tons de azul. Seus olhos da cor do uísque brilhavam perigosamente e seus
cabelos negros estavam meio despenteados. Meu coração bateu forte ao vê-lo,
acelerando bruscamente em meu peito.

– Você está louca, Lorenza? – A voz dele saiu baixa, fria, fitando meu queixo
com curativo e meu pescoço, que parecia estar marcado pelo aro.

– Por tentar fugir? – Fiquei com raiva porque minha voz saiu trêmula. – Ou por
ficar aqui, presa como um animal?

– Vocês poderiam ter se machucado gravemente naquela escada. Até quebrado


o pescoço!

– Imagino que te daria um grande trabalho explicar tudo as autoridades, não


é?

– Não seja debochada. – Ele se aproximou, furioso.

Não me encolhi. Pelo contrário, encarei-o sem desviar o olhar.

– Você merece uma surra para deixar de ser idiota.

– Não sou idiota! Estou presa aqui, olhando para as paredes o dia inteiro, sem
poder fazer o que quero! – Gritei. – Espera que eu ache isso normal e aceite?
Mesmo com você escondendo minhas roupas e meus documentos, vou
continuar tentando sair daqui!

– Cale a boca, porra! Vai só se ferrar e se machucar se continuar assim!


– Problema meu!

Miguel inclinou-se para mim e agarrou um punhado do meu cabelo.

– Se já não estivesse toda arrebentada, eu mesmo me encarregaria de te dar


uma boa surra, Lorenza!

– E por que não dá? – Segurei a mão dele, me ajoelhando na cama, tentando
me soltar. – Você não é o chefão aqui? Não manda até na minha vida? Pode
fazer o que quiser comigo!

– É verdade. – Ele soltou meu cabelo. – Você é uma escrava aqui, Lorenza, sem
vontade e sem direito. E já que está me desafiando, vai ter a surra que merece.

A voz dele, calma, me deu mais medo que qualquer coisa. Senti a raiva ser
substituída pelo pavor, quando ele abriu o cinto da calça e o tirou num
movimento brusco. Engatinhei para trás na cama, tremendo como vara verde.

– Miguel, o que você vai fazer?

– Ensiná-la a não me provocar mais, Lorenza.

– Você vai me bater? – Não tirava os olhos dele, com muito medo. Encostei-me
no espaldar da cama, sabendo que não tinha para onde fugir. – Por favor, não
faça isso.

– Vou fazer. – Miguel ajoelhou-se na cama, com o cinto na mão, seu olhar
muito frio.

– Não! – Eu me encolhi, esperando que ele me espancasse a qualquer


momento. – Não, por favor. Juro que não tento mais fugir! Juro! Não!

Ele agarrou meu braço com força e eu gritei, me debatendo. Comecei a chorar e
suplicar. Nunca tinha apanhado na vida, nem de meus pais. O medo quase me
paralisou, mas esperneei, lutando enquanto ele me empurrava com força sobre
a cama, de bruços.

Antes que eu escapasse, ele estava atrás de mim, sentando sobre as minhas
pernas, prendendo-me contra o colchão e seu corpo. Tentei escapar, mas era
bem mais forte que eu. Miguel ergueu com força minha camisola, até a cintura,
expondo minhas nádegas nuas.

– Não, por favor, estou machucada, Miguel! Por favor! – Pus as mãos para trás,
tentando proteger minha bunda, evitar a surra. Eu soluçava e engasgava, fora
de mim. – Por favor, por favor!

– Eu devia usar meu cinto na sua bunda até você jurar que nunca mais vai me
desafiar, Lorenza! – Ele afastou minhas mãos com raiva.

– Prometo, não vou te desafiar! Por favor!

– Dessa vez não vou usar o cinto. – Parei de me debater, respirando


irregularmente, aliviada, engasgada de tanto medo. Meu cabelo estava todo
sobre o meu rosto, escondendo minha visão. Meus punhos cerravam-se sobre a
cama. Eu continuava de bruços, com a camisola erguida e ele sentado sobre
minhas pernas. – Mas vai tomar a surra, Lorenza. Porque não acredito em suas
palavras. E porque eu quero te castigar.

– Não. – Comecei a chorar baixinho.

– Sim. E é melhor ficar quietinha e aguentar. Quanto mais me enfrentar, mas


você vai apanhar. Entendeu bem?

Não respondi, fechando os olhos. A primeira palmada veio forte e inesperada,


pesada, queimando minha nádega esquerda. Gritei de dor e de surpresa. Tentei
fugir novamente. A segunda palmada foi bem pior, espalhando agulhadas de
dor por toda a região.
– Quieta!

Parei, sabendo que não tinha escapatória. E veio outra e outra. Apertei os
olhos, chorando baixinho. Minhas nádegas queimavam. E ele bateu de novo.

– Isso, bem obediente.

Ele não batia mais com tanta força, mas continuamente. Por fim parou e eu
ouvi sua respiração irregular. Pensei que tivesse acabado, porém continuei
imóvel, sem ousar me mexer. Então senti a mão dele de novo. Mas acariciando
um dos globos arredondados.

Fiquei muito nervosa quando ele abriu as duas nádegas e segurou-as assim.
Mordi os lábios. Mas então ele se moveu.

A língua úmida e dura rodeou meu ânus, numa lambida suave. Eu não
esperava aquilo, nem a onda de prazer que me percorreu como uma corrente
elétrica. Toda a região parecia incrivelmente sensível e quente após as
palmadas e aquelas lambidas úmidas, descendo do meu ânus até a vagina,
subindo de novo, eram como beber um copo d’água em um deserto escaldante.

Por que ele fazia aquilo comigo? Por que me deixava daquele jeito, entre o limite
da dor e do prazer, com ódio e amor, sofrendo e querendo mais?

Arfei contra o lençol, com raiva de mim mesma, mas sem conseguir resistir ao
prazer que me percorria. Senti que ele se erguia. Um de seus dedos meteu-se
no vale entre as nádegas e escorregou até meu sexo. Abriu de leve minha carne
molhada, penetrando minha vagina, molhando-o. Fez um firme movimento de
vai e vem dentro de mim e eu apertei bem os lábios para não gemer. Tirou o
dedo e rodeou novamente meu ânus, molhando-o com o líquido da minha
vagina. Com a outra mão, me deu uma leve palmada.
Gritei, assustada, nervosa entre a dor e o prazer. Miguel abriu de novo minha
bunda e continuou brincando no meu ânus. Forçou de leve a ponta do dedo
úmido e disse baixo:

– Tão apertado. Virgem. Quero esse cuzinho, Lorenza.

Apertei os lábios, medrosa, mas gostando. Meu ânus latejava e eu senti seu
dedo molhado conseguir abri-lo e entrar ali devagar, só um pouco. Queimou,
mas também foi muito prazeroso.

– Sente como ele puxa meu dedo pra dentro?

– Miguel...

– Está com medo?

– Sim.

– Sabe, Lorenza, algumas garotas adoram dar o cu. Depois que começam,
ficam viciadas nisso.

O dedo entrou um pouco mais e eu estremeci. Ele aproximou o rosto da minha


bunda e cuspiu no dedo. Com a saliva molhando-me, o dedo deslizou melhor.
Entrou até a metade.

– Você vai ser assim. Vai gostar de ter o meu pau dentro do seu cuzinho, como
gostou dele na boca e na boceta.

Só de imaginar aquele membro enorme em meu buraquinho, eu me assustei.


Ergui um pouco o tronco, olhando para trás entre os fios de cabelo no meu
rosto. Encontrei seu olhar.

– Não, Miguel, isso não. Por favor.


Suas pálpebras estavam pesadas. Ele continuava todo vestido, elegante no
terno, prendendo-me na cama. E seu dedo movendo-se em meu orifício,
espalhando um prazer indescritível.

– Tem certeza, Lorenza? – O dedo deslizou mais fundo. – Acho que você está
gostando.

– Estou. – Fui sincera, pois ele sentia meus tremores de excitação. – Mas só do
dedo. Você é grande demais.

– E você muito apertada. – Sem tirar o dedo, ele saiu de cima de mim e
ajoelhou-se na cama ao meu lado. Segurou minha mão e a pôs sobre seu pênis
completamente duro dentro da calça. Eu o acariciei na hora. O dedo foi todo
dentro de mim e eu arfei. – Mas agora não consigo mais parar, Lorenza. Você
tem que ser toda minha.

– Por favor. Ah! – Ele moveu o dedo, me alargando, tirando-o quase todo e me-
tendo de novo. Era gostoso demais. Agarrei seu pênis, ansiosa, movendo o
bumbum, arrebitando-o.

– Vou preparar você com gel lubrificante e ser cuidadoso. Depois você não vai
querer outra coisa. Não está gostoso?

– Sim, mas... vai doer.

– Um pouco. Depois será só prazer. Agora fique bem quietinha e abra a minha
calça, Lorenza. Quero comer sua bocetinha com o dedo no seu cu.

Ele era pornográfico, contudo eu não podia negar que aquilo me deixava louca.
Abri a calça dele e puxei-a para baixo com a cueca, adorando ver seu membro
lindo e grande. Arrastei-me até ele, ansiosa, segurando-o, abrindo os lábios.
Enfiei-o na boca cheia d’água, gemendo.
– Lorenza... – Miguel disse rouco, agarrando meu cabelo, afastando-o do meu
rosto.

Gemeu, olhando eu chupá-lo, enterrando-o até o fundo da garganta, movendo


minha cabeça para trás e para frente. – Sua putinha. Gosta disso, não é? Meu
Deus, você é gostosa demais! Vai me deixar viciado em você.

Eu já estava viciada nele. Gemi contra seu pau, enquanto ele metia e tirava o
dedo do meu ânus, agora sem nenhuma delicadeza. Ele me puxou mais para
perto, deitada de lado em forma fetal e abriu minha bunda, alargando-a com
seu dedo. Mantinha minha cabeça entre suas pernas, chupando-o, engolindo
seu líquido lubrificante.

– Safadinha. – Deu-me uma palmada na bunda. Eu quis gritar e me engasguei.


Tirei a boca dele e olhei-o.

– Não.

– Sim. Quero essa bunda bem vermelhinha. Agora não pare de chupar.

Ele deu outra palmada e um prazer estranho me dominou, misturado com a


dor. Desesperada, enfiei seu pau na boca e rebolei contra seu dedo. Ele gemeu
rouco. Deu mais uma palmada. Meteu o dedo mais fundo. Minha vagina
latejava, encharcada.

– Porra, você é muito gostosa!

Impaciente, tirou um preservativo do bolso e rasgou a embalagem com o dente.


Sentou-se na cama e eu fui junto, sem parar de chupá-lo.

– Pare, Lorenza, ou vou explodir na sua boca antes de entrar na sua boceta,
querida. – Eu o soltei, sem querer. Ele pôs rapidamente a camisinha e
terminou de se livrar das calças e da cueca com uma das mãos. Puxou-me
para cima dele, sem tirar o dedo de mim. – Sente-se sobre o meu pau com as
pernas abertas. Assim.

Eu montei nele, de frente, ajoelhando ao lado de seus quadris. Miguel segurou


o pênis, apontado para cima. Espalmei as mãos em sua barriga dura e encostei
a vagina aberta na ponta de seu membro. Esfreguei-me um pouco, excitada,
sentindo meus lábios vaginais gotejando, molhando-o.

Não consegui tirar os olhos de nossos sexos preparados, encaixados e fui


abaixando o quadril. Vi a cabeça do seu pau empurrar minha carne para
dentro, penetrando em mim, colando minha pele em volta dele. Entrou bem
apertado, devagar, mas sem doer.

Eu o sentia em cada terminação nervosa da vagina que latejava e que o engolia


até a metade, até ele estar todo enterrado dentro de mim. Parecia ainda mais
apertado com seu dedo em meu ânus. E mais prazeroso.

Arfei, sem controle, afastando os cabelos do rosto e olhando-o. Era óbvio que
Miguel estava tão excitado quanto eu, seus olhos escurecendo e brilhando,
enquanto ele soltava o pênis e eu ficava um pouco parada, sentada sobre ele.

– É tão gostoso! – Murmurei e comecei a mover o quadril pra frente e pra trás.

Sentia-o todo, deslizando colado, abrindo meus músculos, empurrando meu


útero no fundo. Meu líquido grosso, melado, facilitava a penetração, fazendo-
me tremer e me mexer mais rápido. – Oh, Miguel!

Seu dedo penetrava-me, também molhado. Eu sentia o ânus latejar, se


contrair, assim como minha vagina. Fiquei louca quando ele me puxou para
deitar o tronco sobre ele, espalmando os seios em seu peito coberto ainda pelo
terno, e me beijou na boca deliciosamente. Sua mão livre desceu por minhas
costas e por meu bumbum, ainda com a carne sensível e quente das palmadas,
apertando-o.
Fiquei agitada, movendo mais e mais o quadril, levando minha vagina até o
meio de seu pênis e descendo-a de novo até o fim. Em meu ânus, ele
acompanhava meus movimentos, deixando-me mais louca. Meu clitóris roçava
seus pelos púbicos e mais líquido se desprendia de mim, aumentando o prazer.

Não aguentei muito daquela vez e gemi em sua boca, sugando sua língua,
ondulando sobre ele rapidamente, arrebatada por um orgasmo forte. Gozei
muito, sem parar, e ele me acompanhou. Engoli seus gemidos másculos com a
boca e as ondulações do seu pau com a vagina, devorando-o, amando-o, quase
chorando de tanto prazer.

Por fim, caí exausta sobre ele, com o rosto na curva de seu pescoço. Somente
nossas respirações, ainda entrecortadas, rompiam o silêncio do quarto. Gemi
baixinho quando ele tirou, devagar, o dedo de dentro de mim. Acariciou
lentamente minha bunda.

– Tudo bem? – Perguntou.

– Sim. – Respondi, langorosa.

Miguel rolou-me sobre a cama e retirou o pênis que me penetrava. Daquela vez
não quis que ele se afastasse logo e deitei de lado sobre ele, pondo a cabeça em
seu ombro e passando o braço sobre o seu peito.

– Preciso tomar banho, Lorenza.

– Eu sei. Fique só mais um pouquinho. – Bocejei e beijei seu ombro coberto


pelo paletó, que tinha um perfume delicioso. Sorri. – Você está muito sexy
assim, nu só da cintura para baixo.

– Eu não quis tirar o dedo de dentro de você para despir as mangas. – Miguel
roçou o queixo em meu cabelo.
– Foi bom assim. – Ergui um pouco a cabeça e olhei-o. Ele estava sério, mas
relaxado. – Miguel...

– O que é? – Seus olhos estavam bem claros, de um amarelo dourado. Eu


nunca vira olhos daquela cor. Eram lindos.

– Sei que não confia em mim. Mas por favor, pense no meu lado. Estou presa
aqui como um animal, sequestrada. Não suporto viver assim. Adoro quando
você me toca. Posso ser sua amante. Quero muito isso. Podemos nos encontrar
e...

– Você tem muito que aprender, Lorenza, mas é esperta. – Ele se desvencilhou
de mim e se sentou na cama, passando a mão pelo cabelo negro. Lançou-me
um olhar frio antes de se levantar, pegar a calça e começar a se vestir. – Está
tentando conseguir o que quer após me deixar satisfeito, relaxado. É
naturalmente sedutora, meu bem. Mas eu conheço bem as mulheres.

– Você não me conhece. – Sentei também, abaixando a camisola, sentindo


minha vagina ainda quente e cremosa, guardando a sensação de tê-lo. Não
deixei de olhá-lo. – Não sou dissimulada. Quero apenas conversar.

– Não quero ouvir sua conversa. – Miguel fechou o zíper e me olhou,


controlado.

– Os fatos são simples e imutáveis. Há seis anos, eu poderia até ter acreditado
em você. Era, aparentemente, inocente e pura demais. Entretanto fugiu com
seu pai, com o meu dinheiro, rompendo um acordo, enganando-me como
palhaço.

– Não fugimos com o seu dinheiro! Meu pai...

– Seu pai estava completamente falido. As empresas não valiam nada. Eu as


compraria por ninharia e ele ficaria completamente na miséria. Com o acordo,
ele pagou suas dívidas, seus empregados e ainda conseguiu refazer a vida de
vocês em Portugal, com o meu dinheiro.

– Um acordo desonesto, comprando a única filha dele!

– Ele poderia simplesmente dizer não. Mas quis se dar bem às minhas custas.
E conseguiu. Acreditei na honestidade dele e, posso garantir, isso é difícil de
acontecer.

– Como você... – Calei-me, quando algumas palavras anteriores dele fizeram


sentido para mim. Franzi o cenho. – Como sabe que estávamos em Portugal?

Ele sorriu com frieza, fechando o cinto e olhando-me.

– Isso é fácil. Vi no seu passaporte.

– Esqueci que está com meus documentos. Você nunca perguntou pelo meu
pai.

– Sei que ele morreu, há dois anos. Mandou um e-mail para sua prima, para
cá, avisando. Eu recebi. Não dava detalhes, mas soube que era questão de
tempo até você voltar.

– E eu não o decepcionei.

– Não. – Miguel afastou o punho do paletó e viu as horas em seu relógio de


ouro.

– Vou sair, Lorenza. Amélia virá cuidar de você. Sugiro que seja bem boazinha,
pois ela está irritada e tem meu aval para castigar você, se tentar atacá-la
novamente.
– Vai sair? Mas já é de noite!

– Não vou trabalhar. – Ergueu uma sobrancelha com cinismo. – Quer saber
aonde vou? Tenho um jantar marcado com uma bela modelo que conheci.

Fiquei quieta, olhando para ele, tentando disfarçar a onda sufocante de ciúme
e de raiva que me engolfou.

– Tomara que ela o envenene. – Não consegui me conter.

Miguel riu.

– Não se preocupe. Geralmente as mulheres gostam de mim e me tratam muito


bem. Pretendo ter uma noite bem agradável com ela.

– Aproveite, então. É bom ter liberdade, poder fazer as próprias escolhas. Ela
sabe que me mantém aqui como refém para suas orgias?

– Não, meu bem. Você é minha putinha particular.

– Odeio você! Ainda vai me pagar por tudo isso! – Comecei a tremer, furiosa,
corando.

– Joana parece ser bem moderna. Talvez ela goste de um ménage e eu a traga
aqui no final da noite. Assim, você não fica com ciúme e pode participar da
nossa festinha.

– Você é louco se pensa... – Calei-me, vendo que ele parecia se divertir.

– Se eu não estivesse atrasado, continuaria com nossa conversa tão agradável.


Mas o prazer me espera. Tenha bons sonhos, Lorenza.

Não respondi e nem olhei para ele. Mas depois que Miguel saiu, meus olhos
encheram-se de lágrimas e eu me deitei, furiosa, humilhada, me roendo de
tanto ciúme. Tive vontade de gritar e espernear. Porém acabei chorando
baixinho.
Capítulo 7

O dia seguinte foi uma tortura e a noite pior. Eu não podia mais sair do quarto
e Amélia me tratava como leprosa, levando-me ao banheiro e trazendo comida
sem tirar os olhos frios de cima de mim. Acho que se tivesse tentado qualquer
movimento brusco, ela me espancaria até quase morrer. Mas não tentei nada.

Só falei o necessário, comi pouco, fiquei remoendo minhas mágoas e raiva,


olhando para as paredes. Ela deixou alguns livros no quarto, uma TV e um
aparelho de som, contudo eu nem toquei neles, sem vontade, desanimada.

Não vi Miguel desde a noite anterior, quando ele saiu com sua modelo. Devia
estar se divertindo com ela, pois não apareceu naquela noite. Eu quase não
dormi, ansiosa, imaginando-o com a desconhecida, fazendo com ela o que fazia
comigo. E com raiva de mim mesma por me importar com aquele desgraçado,
que tinha um prazer perverso em me humilhar. Sua putinha particular. Eu
queria matá-lo!

Na outra manhã acordei desanimada. Depois de ter tomado banho e feito


minha higiene pessoal, fiquei deitada na cama sob o edredom, olhando o céu
pela janela. A depressão ameaçava me derrubar e nem quis comer. Amélia
trouxe e levou os pratos intocados. Passei o dia todo cochilando, tendo alguns
sonhos confusos, olhando para o nada. Pensei muito em meu pai e na vida
tranquila que ele me dera em Portugal. Eu ainda poderia estar lá, protegida.
Mas era tarde para lamentar.

A segunda noite chegou e um pouco da minha letargia passou. Fiquei ansiosa,


esperando Miguel chegar a qualquer momento. O pior é que eu sentia uma
falta absurda dele. Disse a mim mesma que era normal, pois além de Amélia,
era a única outra pessoa que eu via. Entretanto, eu sabia que o desejava
desesperadamente. E que estava a ponto de enlouquecer.
Ele não apareceu. Foi mais uma noite mal dormida. De manhã eu estava
exausta, cansada até para ir ao banheiro quando Amélia chegou. Tomei banho
e fiz minha higiene automaticamente. Vesti uma camisola azul, de seda, que
chegava até os joelhos.

Amélia prendeu a corrente na cama e foi abrir as janelas. Eu já ia me deitar


novamente quando risadas de mulher, vindas lá debaixo, chamaram minha
atenção. Amélia foi pegar a bandeja com café da manhã sobre um carrinho.
Depositava-a sobre a cama, quando perguntei:

– Quem está lá embaixo? – A corrente deixava que eu chegasse até a beira da


janela e me dirigi para lá.

– É uma convidada do senhor Montês. Está na casa desde ontem à noite. – Ela
respondeu com uma ponta de satisfação na voz.

Ignorei-a, olhando ansiosamente para baixo. Senti um baque no estômago ao


ver uma mulher de longos cabelos pretos sentada na beira da piscina, com os
pés balançando na água, rindo e dizendo algo para Miguel, que se erguia de
dentro d’água, todo molhado, apenas de sunga, e sentava-se ao lado dela.
Fiquei imóvel, fitando-os.

Ele parecia se divertir também, passando o braço em volta de sua cintura fina,
dizendo algo em seu ouvido. Ela riu alto novamente e abraçou-o pelo pescoço,
oferecida, beijando-o na boca. Engoli em seco, magoada, não aguentando ver
aquilo. Entrei logo e fechei a janela e as cortinas. Disse à Amélia:

– Não quero tomar café. Pode levar.

– Mas a senhora não comeu nada ontem. Fiz...

– Como se vocês se importassem se eu morresse de fome ou com qualquer


coisa que se refira a mim. – Respirei fundo. – Por favor, leve a bandeja e me
deixe sozinha.
Ela deu de ombros e obedeceu. Deitei na cama e não me cobri, pois o ar
condicionado estava desligado. Encolhi-me de lado e fechei os olhos. A imagem
dos dois lá embaixo não me deixou em paz, mas eu me recusei a chorar. No
entanto, a agonia, a raiva e a mágoa se revolviam dentro de mim. A sensação
de mal-estar era horrível, chegava a doer. Os minutos e as horas se
arrastaram. Eu nem percebi em que momento consegui, finalmente, dormir.

– Lorenza. – Acordei ouvindo meu nome baixinho, naquela voz máscula. Uma
mão grande tocava meu ombro. – Lorenza.

Abri os olhos, confusa. Estava suada no quarto abafado. Deitada de lado, vi


Miguel sentado à minha frente, na beira da cama. Ele estava magnífico, usando
apenas uma sunga de praia preta. Seus cabelos negros estavam úmidos e
despenteados, seus olhos pareciam ainda mais claros devido a sua pele
bronzeada pelo sol, seu peito musculoso estava muito próximo. Completamente
desperta, cheguei para trás na cama, fugindo do seu contato. Cerrei os dentes.
Eu não choraria na frente dele. Não mostraria como me sentia arrasada,
sozinha, morta de ciúme. Nem como eu o odiava mais do que tudo.

– O que você quer?

– Trouxe seu almoço. Amélia disse que você não está comendo direito.

– Obrigada. Pode deixar aí.

Não queria nem olhar para ele. Mas Miguel não parecia ter pressa. Ficou um
longo tempo me olhando. Por fim, disse:

– Você está horrível. Cheia de olheiras e pálida. Quer fazer greve de fome?

Não respondi. Olhava para o lençol, como se ele não existisse.

– Estou falando com você, Lorenza. Quer chamar minha atenção, é isso? Está
com ciúmes?
Ri, sem vontade e olhei-o com raiva.

– De você? Só se tem ciúmes de quem se gosta. Você pode fazer o que quiser,
não me importo. Só não estou com fome. Sabe, ficar dias amarrada em uma
cama me tira o apetite.

– Pare de besteira e coma. Ou eu mesmo me encarregarei de fazer a comida


descer por sua goela.

– Eu já disse que vou comer. Pode voltar para sua convidada e me deixar em
paz!

– Ia me virar, dar as costas para ele, porém Miguel segurou meu braço
firmemente, impedindo.

– Está com tanto ciúme assim?

– Não estou com ciúme! – Fiquei com raiva, pois ele sentia como eu estava
trêmula.

– Só estou cansada de ficar aqui sem fazer nada!

– Eu sei. – Seu olhar era penetrante. – Mas pretendo reverter isso. Venha cá.

– Pare, Miguel, eu não quero!

Mas ele já me puxava com força, me arrastando na cama para perto dele.

– Vá ficar com sua modelo e me deixe em paz!

– Joana está lá embaixo, descansando antes do almoço. Tenho tempo de


acabar um pouco com a sua monotonia.

Fiquei furiosa, engasgada de tanto ódio e tanto ciúme.

– Você é um canalha! Vou gritar e ela vai saber o que faz comigo!
– Acha que me importo? – Ele segurou meu braço com força e abaixou a sunga
com a outra mão. Já estava ereto. Depois pegou um preservativo na mesinha
de cabeceira. Parei de me debater. Falei com frieza:

– Você quer me torturar, não é? Fiquei sozinha por dois dias, quase
enlouquecendo. Aí você aparece e se aproveita do meu desespero.

– Pode ser. – Miguel deu de ombros. Pôs o preservativo e veio para cima de
mim.

Fiquei imóvel, recusando-me a reagir. Ele abriu minhas pernas e ajoelhou-se


entre elas. Deslizou as alças da minha camisola por meus braços, despindo
meus seios. Por fim, desceu a camisola por meu corpo e largou-a na cama.
Fitou com desejo meu corpo nu. Deitou-se sobre mim e mordiscou meu
mamilo.

Cerrei os dentes, quando o desejo percorreu meu corpo instantaneamente. Sua


boca era úmida e sua pele quente. A mão dele acariciou o outro seio, fazendo o
mamilo intumescer. A ponta de seu pênis encostava em meu púbis. O cheiro
que vinha dele era delicioso, másculo, misturado com uma colônia cara.

Chupou meu seio gostosamente, mordendo o mamilo, espalhando ondas


quentes e voluptuosas por meu corpo. Eu lutava para me manter quieta, sem
tocá-lo, com o rosto virado para o lado. Com um movimento de quadril, seu
pênis acomodou-se em minha entrada. Ele deu uma estocada profunda e me
penetrou, indo apertado e deslizante até o fundo. Mordi os lábios, tremendo.

Miguel apoiou-se nos cotovelos e começou a meter em mim, saindo quase todo
e entrando de novo, acomodando-se ao meu canal justo e apertado, enquanto
fitava meu rosto. Seu peito musculoso roçava meus seios enquanto ele me
penetrava.

– Como pode tentar fingir que não quer isso, quando seu corpo diz o contrário,
Lorenza? Está toda molhadinha, pronta pra mim.
Olhei-o com raiva, pois era verdade.

– Por que não me deixa em paz, Miguel?

– Porque quero estar aqui, dentro de você.

– Pode ficar dentro de sua modelo.

– Posso. – Ele penetrou-me mais fundo. Cerrei os dentes, com muito desejo e
muita raiva. Fitava-me dentro dos olhos, sem parar de se mover sensualmente
dentro de mim.

– Passei a madrugada fazendo isso, comendo Joana no quarto aqui em frente.


Ela é gostosa, quente, faz de tudo na cama. Uma mulher muito experiente.

– Não quero saber! – tentei empurrá-lo, furiosa, trêmula. Mas ele não deixou,
prendendo-me sobre a cama, aproveitando meus movimentos para me penetrar
com mais força.

– Só que, todo o tempo em que fiquei dentro dela, tive vontade de vir aqui e
comer você. Ninguém tem uma bocetinha assim, tão apertada e quente, tão
gulosa, Lorenza.

Está sempre encharcada, ansiosa, latejando, mesmo agora, sem ter sido
preparada. Estou viciado nela.

Eu não o olhei. Virei o rosto e fechei os olhos, com vontade de chorar. Ele não
podia fazer aquilo comigo, dizer aquelas coisas, me deixar feliz com migalhas
que me lançava. Só pensava nele daquele jeito, comendo a bela morena,
enquanto eu me remoía ali, sem conseguir dormir.

Era só sexo. Miguel devia ter prazer por me manter ali, como ele mesmo disse,
como sua putinha particular. E vingança. Ele me humilharia, faria tudo o que
quisesse comigo, e depois me mandaria embora sem olhar para trás. E o que
seria de mim? Meu Deus, o que seria de mim longe dele?
Não consegui raciocinar. Apesar de tudo, estava muito consciente dele dentro
de mim, de suas estocadas vigorosas, das mãos que se enfiavam sob meu corpo
e seguravam meu bumbum, mantendo-me numa posição meio erguida para ele
penetrar mais fundo. Começou a chupar novamente meus mamilos, um de
cada vez, sugando-os com força. Meu corpo reagia, independente da minha
vontade, ardente, escaldante.

Sentia seu pênis com perfeição, tão longo e grosso, abrindo-me toda e os sons
que produzia em contato com os líquidos quentes que eu soltava, fazendo-o
deslizar fundo, bem fundo. Foi minha perdição. Tentei conter o orgasmo, não
gritei, não disse o nome dele, mas ele veio intenso mesmo assim. Segurei o
corpo, porém minha vagina pareceu explodir. Latejou, se crispou sobre seu
pau, e eu me retesei toda. Meu ventre se contraiu.

O gozo espalhou-se, denso, quente, e tudo que fiz foi apertar os olhos e os
lábios para lutar, em vão, contra ele.

– Lorenza. Ah, Lorenza... – Miguel começou a gozar também, sentindo minha


vagina apertando-o, sugando-o. Esfregou a boca em meus seios e estremeceu
sobre mim, indo fundo, rápido, tenso.

Quando tudo acabou, continuei quieta, sem tocar nele e sem olhá-lo. Miguel
respirou fundo e saiu de dentro de mim. Escutei o barulho que ele fez ao tirar o
preservativo e levantar a sunga.

– Olhe para mim, Lorenza.

Eu não queria olhá-lo. Sentia-me estranhamente vazia, como se ele tirasse


todas as minhas forças. Só meus olhos ardiam, naquela maldita vontade de
chorar.

– Olhe para mim, Lorenza. – Ele repetiu e eu sabia que ele me obrigaria a fazer
aquilo, de qualquer jeito. Virei o rosto em sua direção e fitei seus olhos
castanhos claros. Ele estava de pé ao lado da cama. – Voltarei mais tarde.
Quero que coma tudo ou cumprirei minha ameaça, enfiando a comida por sua
garganta. Você entendeu? Eu me sentia muito fraca para enfrentá-lo.
Concordei com a cabeça. Miguel ficou me olhando, sem que eu pudesse saber
por sua expressão o que ele pensava. Por fim fitou meu corpo nu, estirado na
cama do jeito que ele deixara, até voltar aos meus olhos. Não falou mais nada,
saindo do quarto.

Fechei os olhos e fiquei assim. Só depois de muito tempo, ergui-me e puxei o


carrinho com a comida para perto da cama. Recostei-me nos travesseiros, pus
a bandeja no colo e comecei a comer a salada de frutos do mar. Estava fria,
porém deliciosa como sempre era a comida de Amélia. Meu estômago roncou e
só então percebi o quanto estava fraca e faminta. Comi tudo, conseguindo sair
do marasmo que me dominava.

Odiava ficar prostrada daquele modo. Mais recuperada, disse a mim mesma
que não cairia em depressão. Miguel poderia fazer qualquer coisa comigo, mas
eu continuaria a ser a mesma pessoa.

Tomei o suco e até raspei a taça com mousse. Satisfeita, pus a bandeja sobre o
carrinho e continuei ali sentada, nua e suada no quarto quente. Amélia me
encontrou daquele jeito ao entrar no quarto algum tempo depois. Acabei
sorrindo ao ver que ela ficou sem graça com minha nudez, pois era sempre fria
e controlada.

– Gostaria de ir ao banheiro, senhora?

– Claro, Amélia. – Senti vontade de provocá-la, entretanto me controlei. No


entanto, foi ela quem tirou o sorriso do meu rosto quando falou:

– O senhor Montês pediu que a senhora se depilasse totalmente, se é que me


entende.

Franzi o cenho. Ela explicou:


– Em suas partes íntimas. – Olhou para meu sexo e eu puxei logo a camisola
para cima do meu corpo.

– Ele está louco? – Senti meu rosto vermelho.

– Ordens dele, senhora. Que se depile totalmente. Tudo. – Frisou.

– Já entendi. Desgraçado... – Murmurei, ao me levantar.

Escovei os dentes, tomei um banho longo e, com raiva, sentei no vaso e raspei
todos os meus pelos pubianos. Minha vagina ficou totalmente lisa e rosada,
como de uma menina. Fiquei olhando-a, estranhando aquilo, sentindo-me mais
exposta do que nunca. Lavei-me bem e vesti o curto robe verde de seda. Amélia
veio até o banheiro e me acompanhou até o quarto. Havia ligado o ar
condicionado. Prendeu-me na cama e indagou:

– Deseja mais alguma coisa?

Eu ia dizer não, mas acabei perguntando:

– Miguel está em casa?

– Sim.

– E a acompanhante dele?

– Já foi, senhora.

– Obrigada. Não preciso de nada. – Só saber os planos que ele tinha para mim,
pensei, enquanto Amélia saía do quarto.
Capítulo 8

Estava ansiosa demais para ficar parada, olhando para as paredes. Assim,
liguei o aparelho de som, pus em uma rádio que só tocava música popular
brasileira de qualidade e fiquei sentada na poltrona, acompanhando a letra
baixinho. Tentava a todo custo relaxar, passar a tarde sem me remoer de um
lado para outro na cama e acabei me distraindo um pouco com as músicas e as
notícias.

A noite chegou e eu desliguei o som e me enfiei sobre o edredom, pois o quarto


já estava gelado. Tudo estava quieto e monótono, contudo eu sabia que não por
muito tempo. Miguel não mandaria eu me depilar à toa. Não sei quanto tempo
fiquei ali, até que Amélia voltou. Ele trazia duas sacolas.

Sentei-me na cama, desconfiada. Ela depositou as sacolas ao meu lado e foi


soltar a corrente na cama, dizendo:

– O senhor Montês mandou que a senhora tomasse banho, se perfumasse,


maquiasse e vestisse essas roupas. Ele a espera para jantar, no quarto dele.

Abri as sacolas. Uma possuía uma sandália preta delicada, sem alças, de salto
alto.

A outra, um espartilho preto e macio, transparente, com cinta-liga. E uma


meia calça que ia até o meio das coxas, onde havia um belo tecido rendado,
também preta. Sorri sem vontade.

– É isso que você chama de roupa, Amélia?

Ela não respondeu.

– Quer dizer que ele me quer toda arrumada como uma puta. Tudo bem. De
que me adianta reclamar, não é?
Levantei furiosa e levei tudo para o banheiro. Esperei Amélia prender a
corrente e sair. Tive vontade de rasgar aquele espartilho com os dentes, mas
lembrei de quando ele puxou o cinto para me dar uma surra. Se eu fizesse isso,
daquela vez não escaparia. Só me restava assumir o papel que ele me dera.

Tomei banho e escovei bem os cabelos compridos, olhando-me no espelho.


Meus olhos verdes brilhavam de raiva e eu estava corada. Entretanto não havia
nada que pudesse fazer.

Guardava meus objetos pessoais de higiene e beleza ali. Passei hidratante no


corpo e perfume atrás das orelhas. Se ele me queria como piranha, teria.
Contornei os olhos com delineador preto e deixei os cílios claros bem pesados,
curvos e bem pretos, com o rímel. Minhas faces ficaram mais coradas com o
blush nas maçãs do rosto. Um batom bem vermelho, quase cor de vinho,
deixou minha boca bem chamativa.

Meus olhos pareciam maiores e ainda mais verdes. As sardas não apareciam. A
maquiagem pesada me deixava com ar decadente, bem sexual. Eu parecia
outra pessoa. Pus as meias, a sandália e o espartilho. Não havia calcinha e
prendi as ligas nas meias rendadas. Olhei-me no espelho. Aquela não era eu.

Vi uma mulher alta e esguia, com cabelos compridos e aloirados, ondulados


nas pontas. Os olhos destacavam-se, delineados de preto. A boca parecia
maior, naquele vermelho sangue. O espartilho preto afinava ainda mais a
cintura, deixava os seios mais redondos, quase pulando para fora da renda
transparente. As pernas longas cobertas pelo fino tecido preto da meia,
chamava atenção para a pele exposta do alto das coxas e da vagina lisa,
pequena, com a racha do meio bem visível.

Não podia negar que eu estava linda. Mas me senti um lixo. Uma puta de
verdade. Tive vergonha de mim mesma, de sair dali exposta daquele jeito, com
a bunda e o sexo à mostra, para satisfazer as vontades de um homem cruel,
que me mantinha prisioneira. E o pior é que eu sabia que ele acabaria
dominando aquela raiva, a minha vontade e faria o que quisesse comigo. No
final das contas, eu estaria trêmula em seus braços, como uma cadela no cio.

– Estou pronta, Amélia.

Ela me olhou rapidamente. Soltou a corrente e me seguiu para o quarto.


Indicou a porta e falou:

– O quarto do senhor Montês fica em frente, senhora.

Abri a porta e saí para o corredor silencioso. Segurando com firmeza a


corrente, Amélia bateu na porta de madeira escura. Aguardou um pouco atrás
de mim.

Miguel abriu a porta. Usava um robe curto, de seda preta, um pouco aberto no
peito. Seus cabelos negros estavam bem penteados e um perfume delicioso se
desprendia dele. Seus olhos fixaram-se em meu rosto. Depois percorreram meu
corpo todo. Senti que pararam em minha vagina nua e lisa. Voltou até meus
olhos e estendeu a mão para Amélia.

– Você está dispensada por hoje, Amélia.

– Sim, senhor. – Ela entregou-lhe a ponta da corrente e se afastou


silenciosamente.

Miguel sorriu e deu-me passagem.

– Seja bem-vinda.

Não respondi. Passei por ele, dura e ereta, sentindo o olhar dele queimar atrás
de mim. Minha nuca se arrepiou.

Olhei em volta. Aquele quarto, que antes era de hóspede, havia sido totalmente
ampliado e reformado, ao contrário do resto da casa. Estava totalmente
diferente, masculino, decorado em madeira escura e pesada. A cama dominava
o ambiente, enorme, com certeza feita sob encomenda. Era de madeira, com
quatro colunas trabalhadas em cada canto, parecendo aquelas que se viam em
filmes épicos. Mas os lençóis de seda preta que a cobriam eram bem modernos.
E sensuais.

Ao lado da cama havia um carrinho com comida, as bandejas tampadas, um


balde com champanhe no gelo e duas taças finas e compridas. Perto, uma
pequena mesa com duas cadeiras, arrumada com toalha de linho, rosas
vermelhas e duas velas acesas. Pensei se ele fizera tudo aquilo na noite
anterior, com a sua modelo.

Ouvi-o trancar a porta atrás de mim e parei no centro do aposento. Miguel


passou ao meu lado, soltou a corrente e puxou uma cadeira para mim. Olhou-
me e sorriu:

– Sente-se, Lorenza.

Em silêncio, fui até a cadeira e me sentei. As janelas e cortinas estavam


fechadas e o ar ligado. A luz era difusa, suave, banhando o ambiente.

Não o olhei enquanto ele se sentava em frente, abria o champanhe e despejava


nas taças. Pôs uma à minha frente. Disse suavemente:

– Vamos brindar.

– A quê? – Fitei-o.

– À sua beleza.

– Por que tudo isso?

– Não reclamou por ficar sozinha, olhando para as paredes? Estou sendo um
bom anfitrião. Pretendo agradá-la a noite toda. – Estava sendo cínico.
– Como agradou a modelo ontem? Não está cansado, precisando de uma boa
noite de sono? – Eu também podia ser cínica.

– Pelo contrário, estou muito bem disposto. E ansioso pela noite que teremos
pela frente. – Sorriu novamente, expondo os dentes perfeitos e a covinha no
rosto. Era bonito demais. – Agora podemos brindar?

Dei de ombros, tentando demonstrar indiferença. Mas peguei a taça. Meus


dedos tremiam de leve.

– A você, Lorenza.

Brindei, sem desviar os olhos dos dele. O champanhe desceu delicioso e


borbulhante por minha garganta. Ficamos em silêncio por um momento. Por
fim, ele depositou a taça na mesa e destampou as bandejas.

– Vamos jantar? Estou faminto.

Nós nos servimos. Havia várias opções, saladas, porém o prato principal era
uma tenra carne recheada e assada, que se desfazia na boca. Comi com
satisfação e ele também. Surpreendi-me quando ele perguntou:

– O que você fazia em Portugal, Lorenza?

Pensei em mentir, mas de que adiantaria? Eu não poderia fugir de novo para
lá. E depois que Miguel me deixasse sair dali, para quê fugir? Ele, com certeza,
até esqueceria que me conheceu um dia. Limpei a boca com guardanapo e
respondi:

– Eu vivia em uma pequena fazenda de videiras.

– Durante todo esse tempo?

– Sim.

– Estudou?
– Não. Meu pai sempre achou que você ia querer se vingar e poderia me achar
se eu me matriculasse em alguma faculdade.

– Otávio sempre foi um homem inteligente. Você administrou a fazenda após a


morte dele?

– Sim. Era um negócio pequeno, mas a fazenda é linda. E o pessoal de lá é


muito legal. Vendi para pessoas de confiança.

– Por que você voltou?

Tomei o resto do champanhe da taça. Miguel me fitava, recostado na cadeira.

– Senti saudade do Brasil e de Daniela.

– E de mim.

Ri, encarando-o.

– Esqueceu que saí daqui fugindo de você?

– Claro que não esqueci. Mas não passou por sua cabeça que poderia me
encontrar e que eu, com certeza, cobraria a dívida?

Não respondi de imediato, presa em seu olhar. Por fim falei a verdade:

– Eu pensei sobre isso. Mas como tudo aconteceu em São Paulo, há mais de
seis anos, achei que talvez você tivesse esquecido. Ou que nem saberia que eu
estava de volta. Nunca imaginei que fosse me prender aqui.

– E agora, Lorenza?

– Eu que pergunto: e agora? Por quanto tempo pretende me manter aqui?

– Já respondi a essa pergunta. – Miguel encheu novamente nossas taças,


calmamente.
– Até julgar que a dívida foi paga. E quanto tempo é isso?

– Difícil calcular. – Ele sorriu suavemente, com olhar penetrante. – Se você não
fosse tão gostosa, diria que pouco tempo. Uma mulher não costuma segurar
muito a minha atenção. Mas confesso que pretendo fazer ainda muita coisa
com você, Lorenza.

Eu senti um frio na boca do estômago, um pouco temerosa, um tanto excitada.


Bebi mais champanhe.

– Como o quê? – Consegui perguntar.

– Prefiro deixar as coisas acontecerem. Por enquanto, você continua aqui.

– E hoje?

– Hoje? Apenas diversão. Relaxe. Você vai gostar.

É claro que não consegui relaxar. Ainda mais quando acabamos de jantar e de
beber e ele se levantou, puxando minha cadeira. Fui obrigada a levantar. Ele
parou atrás de mim, muito próximo, me fazendo arrepiar com a sua respiração
perto do pescoço. Suas mãos acariciaram minhas nádegas nuas.

– Você tem uma bunda linda, Lorenza. Empinada e arredondada. Algum


homem já a tocou assim?

– Não. – Murmurei, com o coração acelerado.

– Nem com algum namoradinho?

– Não.

– Então, sou privilegiado. O primeiro em muitas coisas. – Mordiscou de leve o


lóbulo de minha orelha. Fiquei toda arrepiada. Seus dedos deslizaram entre as
nádegas, descendo até meus lábios vaginais. Tocou-os com as pontas, que se
molharam de imediato. – Está lisinha, como eu mandei. Não vejo a hora de ver
essa boceta depilada, rosada, engolindo minha língua. E meu pau.

Arfei, trêmula. Ele sorriu, sabendo o que fazia comigo. Segurou minha mão e
tirou os dedos de mim.

– Venha para a cama.

Eu o segui com as pernas bambas. Miguel prendeu a ponta da corrente em


uma das colunas da cama. Sentei no lençol preto de seda, gelado.

– Vá para o meio e recoste-se nos travesseiros, Lorenza.

Obedeci. Ele recostou-se do meu lado, olhando para meu corpo. Esperei,
ansiosa, que me tocasse. Mas apenas pegou um controle remoto e ligou a
grande tevê plana embutida na parede em frente. Logo um filme começou.

– Você vai gostar desse filme.

Eu estava excitada demais para prestar atenção em alguma coisa. Com o canto
dos olhos, fitei suas pernas longas, musculosas e cabeludas estendidas ao lado
das minhas.

Seu robe estava ligeiramente aberto na coxa e pensei no volume mais acima,
com uma vontade louca de abrir mais aquele robe e vê-lo completamente nu.
Mordi os lábios, voltando o olhar para a TV antes que ele percebesse como eu o
desejava. Minha vagina nua contraiu-se involuntariamente, molhada.

O filme começou e era francês. Uma bela mulher de cabelos castanhos


conversava com um homem, que parecia ser seu marido, e com duas crianças,
em volta de uma mesa. Não consegui prestar muita atenção. Beijou o homem,
que saiu para trabalhar, e depois levou os filhos à escola. Era rica, elegante,
num belo carro.
Eu me sentia impaciente. E se eu virasse e beijasse Miguel na boca? Não o
beijava há dois dias e desejava muito sentir sua língua e seu gosto. Por que ele
não me tocava? Estava ficando louca, tensa de tanta excitação.

A mulher dirigia agora por um lugar mais pobre, com muros pichados, entre
ruelas feias. Deixava o carro em uma delas, ao lado de uma casa pequena. Saía
meio nervosa e batia na porta olhando para os lados. Um homem alto, com
cabelos loiros até os ombros e apenas de bermuda a recebeu. Ela entrou
rapidamente na casa. Ia dizer algo, porém o homem já a encostava na porta e
beijava na boca. Prestei mais atenção, quando eles começaram a se acariciar,
despindo-se.

– É um filme pornô. – Falei, ao compreender.

– Já viu algum?

– Nunca.

Miguel não disse nada. Dali para frente, fiquei atenta. Eles se despiram, se
beijando e se tocando. Foram para o sofá e ela se ajoelhou entre as pernas dele,
chupando seu membro. Ele era grande, não tanto como Miguel, mas o
bastante. Fiquei surpresa quando a mulher enfiou-o todo na boca, até seus
lábios roçarem os pelos. Tocava as bolas dele, que dava estocadas em sua
boca. Senti a vagina latejar, mais molhada ainda. Não ousei fitar Miguel. Fiquei
quietinha, só olhando para a tela.

Ele a deitou, abriu sua vagina e a chupou. Tudo aparecia claramente, sua
língua entrando, ela arreganhada. E aí tudo se desenrolou. Logo ele a fodia, ela
com as pernas escancaradas, gemendo e gritando obscenidades. Ficou sobre
ela e depois de lado. Ela montou nele sobre o sofá e ele abriu sua bunda,
mostrando seu ânus e a penetração. Ela pediu o dedo ali. Ele meteu, como
Miguel fizera comigo.
Engoli em seco, com os olhos bem abertos. Ele tirou o dedo, cuspiu sobre ele,
meteu de novo. Logo enfiou mais um dedo. A mulher ficou louca, rebolando,
implorando para que ele comesse seu cu. Ele a pôs de quatro, abriu sua bunda
e lambeu seu ânus todo.

Ela pedia mais, mexendo-se, seus seios se balançando. E logo ele enfiava o
membro no buraquinho dela, arregaçando-o. O pau entrou todo. Com força, ele
a fodia e ela gritava.

– Está gostando, Lorenza?

Corei, entre envergonhada e excitada. Fiz que sim com a cabeça. Eles estavam
atracados no sofá quando a porta abriu e outro homem entrou na casa,
paralisado ao ver a cena. Era parecido com o primeiro, só que mais velho. A
garota quis se afastar, contudo seu amante a segurou com força e disse que
aquele era seu pai. O mais velho entrou, elogiando a moça, dizendo que tudo
que era do filho também era dele.

A mulher não quis, mas eles não ligaram. O pai já foi tirando a calça, enquanto
o filho se sentava no sofá e a puxava junto, de costas para ele, com seu
membro ainda dentro do ânus. Segurou suas pernas abertas e ela
choramingou que não queria, entretanto passou a mover os quadris e não
reclamou quando o mais velho se inclinou no sofá e meteu o pau em sua boca.
Ela o chupou enquanto ele apertava seus peitos e o filho comia o seu cu.

Eu sentia meu corpo formigando. Arfei quando Miguel apoiou a mão entre
minhas coxas, diretamente sobre minha vagina nua. Ele acariciou-a e
estremeci visivelmente, arrebatada. Seus dedos deslizaram na pele lisa até a
racha, por onde escorregaram. Eu estava toda melada e cremosa, fervendo. Um
dedo entrou em mim. Agarrei seu braço e abri as pernas que tremiam,
dobrando um pouco os joelhos. Gemi roucamente.
No filme, o mais velho saiu da boca da moça e abriu mais suas pernas. O outro
ficou imóvel em seu ânus, enquanto ele mirava o pau na vagina dela. Ela pedia
mais e ele deu, enterrando-se ali. Ela ficou presa entre os dois, sendo
penetrada por pai e filho em bura-cos diferentes, gritando, gemendo e
rebolando. O pai chamou-a de puta, dando alguns tapas na cara dela,
deixando-a mais louca ainda.

– Isso te excita, Lorenza? – Miguel murmurou em meu ouvido e sua língua


brincou em minha orelha. O dedo enterrou-se todo em minha vagina.

– Não... – Minha voz mal saiu.

– Mentirosa. Está pingando, quente como uma fornalha. – Ele me masturbava.


Virei um pouco a cabeça, para que ele lambesse melhor minha orelha. Segurei
sua mão entre as pernas e apoiei os pés na cama, erguendo um pouco os
quadris para que ele me penetrasse melhor. – Do que você gostou mais? Do
sexo anal ou da penetração dupla?

– Não sei...

– Sabe. Diga. Eu quero ouvir.

– De tudo. Do seu dedo. Da sua língua. – Virei o rosto para ele, transtornada de
desejo, toda trêmula, implorando. – Por favor, me beije, Miguel.

Ele se inclinou sobre mim. Beijou minha boca e eu a abri para receber sua
língua, retribuindo fogosa. Gemi alto, contra seus lábios, quando ele meteu o
indicador junto com o dedo do meio em minha vagina. Apertei as pernas contra
sua mão, movi loucamente os quadris e comecei a gozar. Ele deixou,
enterrando os dedos profundamente, engolindo meus gritos entrecortados,
sentindo como eu me contraía e latejava. Abracei-o com força, até os espasmos
diminuírem lentamente. Fiquei mole e langorosa sobre os travesseiros.
Miguel tirou os dedos com cuidado. Varreu o meu sexo com o olhar, inchado e
brilhando úmido. Desligou a televisão, deixando o controle de lado.

– Minha vontade é de me enterrar nessa bocetinha macia, Lorenza.

– Vem... – Murmurei, satisfeita, mas sabendo que ainda o queria. Aliás, eu


parecia desejá-lo cada vez mais. Ele sorriu e acariciou suavemente minha
vulva. Estremeci.

– Quero brincar um pouquinho com você.

Observei-o se levantar. Abriu uma gaveta da mesinha ao lado e deixou sobre


ela um pacote de preservativos. Pegou também um pequeno pote, que parecia
gel. Voltou para a cama. Olhou-me com luxúria.

– Deite-se de bruços.

– O que você vai fazer? – Fitei o pote em sua mão, um pouco temerosa.

– Preparar você.

Eu entendi. Deitei-me de bruços no meio da cama.

– Levante um pouco os quadris. Assim. – Ele pôs dois travesseiros sobre minha
pélvis, de forma que minha bunda ficou para o alto, bem mais levantada que o
resto do meu corpo, empinada para ele, que se posicionou atrás de mim. – Que
bunda linda!

Mordeu-a levemente e eu me contorci, afastando o cabelo do rosto, sentindo o


langor me abandonar aos poucos. Miguel mordiscava e beijava minha carne,
abrindo-a, dando lambidas em meu ânus. Gemi, ansiosa. Ele parou. Abriu o
pote e senti o gel gelado entre as nádegas. Com os dedos molhados, ele o
espalhava sobre o buraquinho.
– Fique quietinha. Vou deixar você bem lubrificada, bem abertinha. Pronta pra
me receber.

Eu tinha medo do seu membro enorme me penetrando no ânus. Entretanto, ao


mesmo tempo, estava ansiosa para experimentar, para ser sodomizada por ele
e senti-lo todo dentro de mim. Assim, fiquei quieta, deixando-o me molhar
toda. Miguel começou. Abriu de leve minhas nádegas com uma mão e com a
outra passou a me acariciar. O dedo circundou o orifício, forçando passagem. A
ponta entrou apertada, mas com certa facilidade devido ao líquido meio oleoso.
Enfiou até a metade e tirou. Enfiou de novo, mais fundo. E de novo, até o fim.

Resfoleguei, já totalmente desperta novamente. Ondas de excitação e de medo


percorreram meu corpo, porém procurei relaxar, não me contrair. O dedo
passou a me penetrar lentamente, até o fim. Saía e entrava de novo,
lubrificando bem o canal de dentro. Eu gemia baixinho, adorando a sensação.

– Boa menina. – Miguel tirou o dedo e abriu mais meu ânus. Forçou dois dedos
daquela vez, bem mais apertado. Ardeu e me encolhi um pouco. – Relaxe.

Os dedos entraram, deslizando, queimando, até o fim. Girou-os dentro de mim,


alargando-me, molhando-me toda. Saíram e voltaram. Mais fundo e mais forte.
Eu tremia toda. Sentia minha pele colada nele, se esgarçando, engolindo seus
dois dedos. A ardência foi passando.

– Tão apertadinha. Aguenta três dedos, Lorenza?

– Não.

– Aguenta, sim.

Miguel tirou. Enfiou três dedos no pote e juntou-os em meu orifício, forçando
passagem. Penetrou os três e senti como se algumas dobras se rompessem,
ardendo muito.
– Ai, está doendo.

– Vai passar. É só não fechar esse cuzinho. Relaxe.

Entraram muito apertados. Pararam no fundo e depois giraram, devagar,


espalhando bem o gel, abrindo-me toda. Eu já quase chorava, pedindo que ele
parasse, imaginando como seria quando seu pênis, bem maior, entrasse ali.
Mas me controlei, mordendo os lábios.

Ele moveu a mão para frente e para trás, aumentando a penetração. O ânus
parecia se acomodar, os músculos circundando-o, até que o prazer foi
aumentando, lento. Ainda ardia um pouco, mas se tornava tão gostoso que
empinei o bumbum, mais relaxada, facilitando a penetração. Os dedos
deslizavam até a última falange.

– Isso, meu bem. Rebole um pouco nos meus dedos.

Rebolei, contraindo e relaxando o ânus, engolindo-os.

– Porra, Lorenza. Tenho que te comer. Agora.

– Sim. – Eu estava adorando aquilo, alucinada.

– O que você quer?

– Seu pau, Miguel.

– Onde? Diga onde quer que eu meta meu pau, Lorenza.

– No meu cuzinho. Come o meu cuzinho, Miguel.

– Caralho de mulher gostosa! – Ele murmurou rouco, tirando os dedos de


dentro de mim. Pôs um preservativo rapidamente. – Vou passar gel no meu
pau, meu bem. Fique quietinha até entrar tudo e você se acostumar.
Miguel abriu minha bunda e ajeitou o pênis na entrada do meu orifício cheio
de lubrificante. Segurou o pênis e forçou a ponta. A cabeça grossa arregaçou-o,
entrando.

Arfei com a ardência, mas fiquei quieta, respirando irregularmente. Ele soltou o
pênis encaixado e se inclinou em cima de mim, apoiando as mãos na cama.
Empurrou o quadril contra minha bunda, enterrando-se no meio dela. Gritei
quando ele pareceu me rasgar e me penetrou colado, queimando, parecendo
que enfiava um ferro em brasa em mim.

– Não! Não!

Mas ele penetrou até o fundo. Só então parou, arfante, muito duro e excitado.

– Calma, meu amor. Fique quietinha e não se contraia desse jeito. É ainda
mais apertado agora dentro de você.

– Está doendo... – Choraminguei, tremendo.

– Vai passar. Relaxe. Deixa eu te comer devagarzinho, até você se acostumar.


Assim.

Miguel passou a se mover lentamente, porém a ardência não passou. Eu


chorava baixinho enquanto ele me alargava, com movimentos suaves, mas
mesmo assim dolorosos. O pau enterrava-se, saía um pouquinho e entrava de
novo. Meus músculos se distendiam. Eu não conseguia parar de me contrair e
de chorar. Ele meteu uma das mãos sob meu corpo, entre minhas pernas. Seus
dedos encontraram meu clitóris e o acariciaram lentamente. Seus lábios
deslizaram por minha nuca, em beijos suaves. Ele sussurrou:

– Você é a mulher mais linda e mais gostosa que eu já tive, Lorenza. E agora é
toda minha.
Miguel movia-se bem devagar, sem deixar de tocar meu clitóris inchado e liso,
sua boca em minha pele, mordiscando minha nuca. Eu me senti fraca,
entregue, dominada por ele. Seus dedos mergulhavam de leve em minha vagina
molhada, acariciando-a, espalhando prazer pelo meu corpo.

Gemi e murmurei o nome dele, arrebatada. Seu pênis agora deslizava em mim
sem o desconforto de antes, me fazendo acostumar com seu tamanho, com seu
volume que me preenchia toda. Sentindo que eu me entregava, me empinava
mais, ele penetrou fundo e mordeu meu ombro, seu corpo musculoso se
tornando completamente dono do meu.

– Isso, Lorenza. Toma o meu pau todo no seu cuzinho.

Agarrei o lençol com força entre os dedos, muito excitada, abrindo um pouco as
pernas, movendo meu quadril contra seu pênis e seus dedos. Eu tremia, mas
escaldava também, alucinada com a delícia que era tê-lo todo por trás, me
comendo cada vez com mais força, deixando-me louca por um prazer que era
mesclado com dor, que me levava à beira do precipício.

– Miguel, por favor... – Comecei a implorar, arfante, com lágrimas nos olhos.

Ele me agarrou com força e puxou-me, de modo que ergui um pouco o corpo e
fiquei de quatro, apoiada nos joelhos e nas mãos, meu cabelo longo caindo dos
dois lados do meu rosto.

– Empine essa bundinha e abra as pernas. – A voz dele era rouca e autoritária
e ele estava parado, enterrado fundo em meu ânus. Obedeci, sem conseguir
parar de tremer.

Seus dedos indicador e do meio acariciaram meus lábios vaginais cremosos,


abrindo-os, até que o dedo do meio me penetrou. Gritei, sentindo as lágrimas
descerem sem controle por meu rosto.

– Diga a quem você pertence, Lorenza.


– A você. Pertenço a você, Miguel... – Choraminguei.

– Você é toda minha. Sua boca, sua bocetinha, seu cuzinho. Seus seios. – A
mão esquerda dele foi até meus seios, abaixando um pouco o espartilho,
acariciando-os, apertando e torturando um mamilo de cada vez. Então ele
deslizou o pênis quase todo fora e meteu de novo. Repetiu, uma e outra vez,
enquanto o dedo fazia o mesmo processo na minha vulva. – Minha, Lorenza.

– Por favor... Ah! – Gritei, fora de mim, embargada por um prazer que ia além
do corpo, percorrendo meu interior, minha pele, minha alma. O orgasmo foi tão
intenso que ondulei sem controle, chorando, sentindo um líquido quente e
cremoso descer por minhas coxas, molhando os dedos dele, enquanto eu
murmurava palavras desconexas e o puxava para dentro de mim.

Miguel me segurou firme e me comeu duramente, seus gemidos roucos


percorrendo o quarto, seu corpo musculoso dominando o meu. E então gozou
fortemente, segurando firme meu seio e minha vagina enquanto só o seu pênis
ia fundo e bruto em meu interior.

Quando acabou, ele tirou lentamente os dedos molhados do meu sexo, me


fazendo estremecer. Segurou meu quadril e puxou suavemente o pênis ainda
ereto. Senti um misto de dor e resquício de prazer, exausta, arfante, quando
saiu de dentro de mim. Puxou-me para a cama e caímos de lado sobre ela, ele
atrás de mim, seu braço ao redor da minha cintura, sua respiração em minha
nuca.

O silêncio nos engolfou. Fiquei quieta, maravilhada demais pelo prazer


espetacular, meu corpo sem forças, dolorido e ao mesmo tempo saciado. A mão
dele subiu por minha barriga e fechou-se sobre um seio, acariciando-o de leve.
Esfregou o nariz afilado em minha orelha e murmurou:

– Você gostou?
Se eu tinha gostado? Eu estava ali prostrada, meu rosto ainda molhado de
lágrimas de puro prazer e ele perguntava se eu tinha gostado?

– Lorenza?

– Sim. Você sabe que sim.

– Quer mais?

– Meu Deus, você é insaciável?

Ele riu contra o meu pescoço e colou mais o corpo musculoso no meu.

– Vou passar a noite fodendo você, Lorenza. Não terá mais motivos para se
sentir entediada.

Fechei os olhos, sentindo um frio no estômago, meu corpo me surpreendendo


ao reagir as suas palavras. Aquele homem estava me deixando completamente
viciada nele.
Capítulo 9

Nós cochilamos na cama. Acordei com Miguel deslizando a mão por meu corpo,
seus lábios em meu pescoço, seu pênis ereto contra minha bunda. Fiquei
imóvel, sentindo todo cansaço ceder espaço à luxúria que já se espalhava
dentro de mim, me deixando alerta.

Ele me fez deitar de barriga para cima sobre a cama e eu o olhei. Estava nu,
despenteado, seu rosto másculo mais lindo do que nunca. Ajoelhou-se na cama
e começou a abrir meu espartilho, depois o soltou das meias e o largou no
chão. Segurou a renda da meia calça e deslizou-a por minha perna, uma de
cada vez, até me deixar completamente nua.

– Você ficou linda assim, com essa roupa preta e maquiada. Mas prefiro você
ao natural, só com as sardas cobrindo sua pele.

Miguel fitou meus olhos, segurando uma das meias de seda nas mãos. Minha
respiração já se tornava irregular, meu corpo se preparando para ele.

– Estenda seus braços juntos, à frente do corpo, Lorenza.

Obedeci, sem ousar recusar. Ele amarrou uma ponta da meia em meus pulsos,
um de cada vez e depois juntos, de maneira firme mais sem machucar.

– Erga os braços.

Então prendeu a outra ponta da meia no espaldar da cama, de modo que fiquei
presa com os braços juntos e para cima, com uma leve folga para descer os
cotovelos até o rosto e me virar. A coleira fina continuava em meu pescoço,
presa na corrente. Miguel vagueou o olhar penetrante por meu corpo, estendido
nu na cama.
– Está totalmente em minhas mãos, Lorenza. Posso deixá-la assim a noite toda,
abrir suas pernas e montar em você a hora em que eu quiser. Minha escrava
obediente.

– Fixou os olhos dourados nos meus. – Não vai dizer nada?

– O que posso dizer? Estou em suas mãos desde que me pôs nessa coleira.

– É verdade. Fique quietinha.

Ele se levantou da cama e foi ao banheiro. Testei puxar um pouco a meia de


seda, mas estava bem firme. Suspirei, ansiosa, pensando o que mais ele teria
planejado para mim. Sentia um misto de apreensão e desejo, que mexia
comigo, fazia um arrepio percorrer minha coluna.

Ouvi barulho de água do chuveiro e esperei, atenta. Miguel não teve pressa.
Retornou nu, com cabelo úmido, cheirando a sabonete, lindo de morrer. Trazia
nas mãos uma pequena maleta, que deixou sobre a mesinha de cabeceira.

– O que é isso?

Ele sorriu, mas não respondeu. Veio para a cama, abrindo minhas pernas e se
deitando entre elas. Senti o peso conhecido do seu corpo se acomodando no
meu, seu sexo contra meu ventre, seu peito em meus seios. E logo sua boca
estava na minha, num beijo gostoso, sensual.

Minha primeira reação foi a de abraçá-lo, mas meus braços ficaram presos
para o alto. Inclinei um pouco a cabeça e retribuí o beijo com desejo, reagindo
de imediato a ele, meu sangue já correndo rápido nas veias.

Seu gosto era delicioso, seu beijo bastava para despertar meu lado mais quente
e eu me embriaguei com ele. Foi o bastante para me excitar. Apoiei os pés na
cama e ergui um pouco o quadril, buscando um contato maior, ansiando por
ele. Sentia seu pênis pesado em meu ventre e procurava encaixá-lo em mim.
Miguel descolou os lábios dos meus e se afastou um pouco para me olhar.
Apoiou o peso do corpo num dos cotovelos e com o outro lado livre, acariciou
suavemente meu rosto.

– O que eu faço com você, Lorenza?

Fitei-o confusa, ainda inebriada por seu beijo, por ele estar tão colado em mim.

– Como assim?

– Não consigo parar de querer estar dentro de você. Parece um veneno no meu
sangue. Teria sido assim há seis anos, se você tivesse ido para a minha cama?

Seus olhos dourados estavam tempestuosos, como se admitir aquilo o irritasse


profundamente.

– Da minha parte, sim. – Murmurei. – Fiquei abalada por você assim que o vi.

A mão dele infiltrou-se entre meus cabelos, desceu pelo pescoço e segurou
firmemente minha nuca. Ficamos ali imóveis, apenas nos encarando, enquanto
uma energia pura, densa, quente, parecia nos envolver.

Tive plena consciência de como aquele homem se tornou importante para mim.

Não havia outro lugar no mundo que eu quisesse estar, a não ser ali. Ele
poderia me encoleirar, me prender na cama, me fazer sua prisioneira para
sempre. Ali, embaixo dele, sentindo seu cheiro, seu corpo forte, sua pele, era o
meu paraíso. O lugar que quis estar nos últimos seis anos.

Foi naquele momento que entendi que eu o amava. Independentemente de


quem ele era fora daquele quarto ou do que fizera me mantendo cativa ali, eu
era toda dele, de corpo e alma. Perceber finalmente aquilo fez com que eu
sentisse um medo absurdo dentro de mim, agora não mais o medo de ser
prisioneira, de me ver privada da minha liberdade. O medo era de me ver
privada dele, de ser mandada para longe de sua vida.
– Por favor, me beije. – Implorei, sentindo os olhos marejarem de lágrimas,
enquanto uma emoção indescritível se contorcia dentro de mim. – Por favor...

Miguel não tirou os olhos de mim, sério, como se pudesse ler minha alma.
Então colou os lábios macios nos meus e me beijou profundamente, com
volúpia, quase como se retribuísse a minha emoção, sua mão mantendo minha
cabeça imóvel para saborear minha boca à vontade.

Foi maravilhoso. Logo nossos corpos se moviam juntos, como se procurassem


instintivamente o contato mais íntimo que um homem e uma mulher poderiam
ter. E nossas línguas se enroscavam, se envolviam, trocando nossa essência,
tornando aquele momento eterno.

Miguel me largou de repente e se levantou, só o suficiente para pegar um


preservativo e colocá-lo às pressas. Logo ele estava de volta, abrindo e
segurando meus joelhos contra a cama, bem esparramados. E me penetrava
duramente, sem reservas, sem calma. Gritei rouca, pois estava muito molhada,
mas ele era enorme, grosso, e tirou meu ar.

Miguel não parou. Entrou todo, saiu apertado e meteu de novo. Passou a me
devorar com seu pênis volumoso, tão duro que parecia uma rocha, seu corpo
dominando o meu, seus olhos me ordenando que eu me entregasse.

Mas eu já era dele, já me rendia, já abria os lábios para receber sua língua.
Puxei com força a meia que prendia meus pulsos, louca para agarrá-lo, segurá-
lo todo contra mim. Choraminguei contra seus lábios, ao mesmo tempo que
estar ali presa me excitava, me fazia mais consciente da vontade que sentia de
tocar nele.

Ele me penetrou várias vezes, com seu pênis e sua língua. Manteve-me imóvel,
aberta, toda molhada e trêmula, suas mãos segurando firmemente meus
joelhos, seu corpo me devorando naquela cama.
O prazer me engolfou e eu me contraí, já preparada para o gozo. Ele sentiu e
então parou, todo enterrado dentro de mim, afastando a cabeça para trás para
me olhar.

– Não goze agora, Lorenza.

– Mas...

– Quietinha. Fique paradinha. – Moveu os quadris sensualmente, passando a


me comer devagar, deslizando dentro de mim. – Só vai gozar quando eu deixar.
Entendeu?

Mordi os lábios, desesperada. Estava muito gostoso e minha vagina latejava.

– Por favor. Não vou aguentar...

Ele sorriu, cruel, parecendo gostar de me ver naquele estado. Então me


castigou da pior forma possível, se afastando, saindo de dentro e de cima de
mim.

– Não, eu não vou gozar, Miguel.

Mas já era tarde. Ele me deixou ali, arfante, quente, a ponto de estourar de
prazer.

Tirou o preservativo, largou-o no chão e deitou-se nu ao meu lado, recostado


nos travesseiros altos. Pegou novamente o controle e ligou a tevê. Um outro
filme pornô passava e ele me ignorou, olhando para a tela e segurando seu
pênis ereto, que passou a acariciar com a mão fechada sobre ele.

Engoli em seco, sem conseguir tirar os olhos dele, do seu corpo, do seu pênis,
do seu rosto. Tive raiva daquela meia que não me deixava tocar nele e
praticamente implorei:

– Vou ficar quietinha.


Sem deixar de se masturbar, ele voltou os olhos ambarinos para mim. Um
sorriso lento curvava suavemente a sua boca.

– O que você quer, Lorenza?

– Que você faça amor comigo.

– Você ia gozar.

– Não vou. Juro que... Vou me controlar.

Miguel me avaliou devagar.

– Vamos ver.

Ele desligou a tevê, se inclinou para o lado e abriu a maleta sobre a mesinha.
Lá dentro tinha vários apetrechos e logo percebi que eram brinquedos sexuais.
Pegou dois e se voltou para mim.

– Se você me provar que vai controlar seu gozo, eu fodo você.

Fixei os objetos em suas mãos. Um era um pênis de borracha, imitando um


pênis de verdade e mediano, bem menor que o dele.

– O que é isso? – Perguntei num fio de voz, olhando para o outro objeto,
pequeno, como uma borboleta.

– É um vibrador de clitóris. Acha que pode não gozar com um desse no clitóris,
um pênis de borracha na vagina e chupando meu pau, Lorenza?

Fitei seu olhar lânguido, obsceno, sentindo meu corpo a ponto de explodir de
tanta volúpia. É claro que eu não aguentaria. Já estava a ponto de gozar só
com o olhar e as palavras dele, só de imaginar o que faria comigo. Mas menti:

– Sim.

Miguel sorriu.
– Abra as pernas e fique quietinha.

Ele foi meticuloso. Ajoelhou-se entre minhas pernas, sentou-se nos


calcanhares e levou o dedo indicador e o polegar até meu clitóris, rodeando-o
lentamente. Mordi os lábios e tentei me controlar ao máximo, embora um
langor delicioso se espalhasse do meu sexo para todo meu corpo.

Com a vagina depilada e as pernas abertas, foi fácil deixar o clitóris excitado
bem exposto. Com cuidado, ele prendeu a borboletinha nele. Esperei que
doesse ou incomodasse, porém apenas senti que estava ali. Na mão dele ficou
um pequeno controle, que ele deixou na cama ao seu lado.

Sem pressa, pôs uma camisinha no pênis de borracha e ajeitou-o na entrada


da minha vagina. Só então ergueu seus olhos brilhantes, licenciosos, para os
meus. Sua expressão era decadente, intensa e dura, quando começou a me
penetrar com o objeto mediano.

Por estar muito lubrificada e pelo tamanho do pênis, não foi difícil entrar. Senti
que me enchia, mas sem a loucura e a devassidão que o pênis verdadeiro de
Miguel causava em mim. Mesmo assim me excitou, principalmente porque era
ele que o manipulava e por seu olhar tão quente dominando o meu. Quando
entrou tudo, ele parou. Pegou o controle ao seu lado e saiu de entre as minhas
pernas. Foi de joelhos até o lado esquerdo, perto da minha cabeça. Ergueu-me
um pouco, até me deixar recostada nos travesseiros, dizendo com sua voz
macia e rouca:

– Você sabe o que eu quero, Lorenza.

Fitei seu pênis ereto e lindo, tão perto de mim. Ele se inclinou um pouco em
minha direção e eu abri os lábios, encontrando-o no meio do caminho,
enchendo minha boca com seu gosto, sua carne pesada, longa e dura. Suguei-
o até a garganta, com vontade.
Uma das mãos dele desceu por minha barriga e segurou a base do pênis de
borracha, que estava dentro de mim. Puxou-o um pouco e meteu-o de novo,
deslizando-o em minha vagina que latejava. Enquanto isso seu pênis deslizava
em minha boca.

Eu delirei, queimando, à beira de um prazer extremo, que percorria meu corpo


como um raio. Mal respirei, com medo de explodir ali, sem controle,
absolutamente devassada por ele. Mantive meu quadril imóvel, embora minhas
pernas estremecessem sem controle. Meus seios doíam, muito duros, os
mamilos sensíveis e intumescidos.

Chupei-o o máximo que consegui, alucinada por ele ser tão gostoso, apertando
os dedos das minhas mãos juntos, pois a vontade de tocar nele era
incontrolável.

– Que delícia, Lorenza. Quer mais?

Meus olhos subiram por seu corpo musculoso, viril, até seu rosto.
Encontraram seu olhar pesado, lascivo, enquanto ele continuava indo firme em
minha boca e movendo o pênis em meu sexo. Com a mão livre, ele apertou o
controle e eu estremeci por inteiro quando a borboleta começou a vibrar
mansamente em meu clitóris. Eu quase me engasguei, arregalei os olhos, fui à
loucura. Ele sorriu docemente e aumentou a velocidade da vibração, ao mesmo
tempo em que enfiava o pênis até o fundo em minha vagina.

Eu me perdi ali. Ondulei, tirei os quadris da cama, gritei contra sua carne dura
enterrada até minha garganta. O orgasmo veio fulminante, arrebatador,
contorcendo meu ventre. Espalhando lassidão e tremores por todo meu corpo,
o gozo me fez ver estrelas, me levou às alturas e despencar quando eu pensei
que não aguentaria mais tanto prazer.

Caí na cama exausta, maravilhada, confusa. A borboleta continuava a vibrar,


agora bem devagar, deixando-me agoniada, sem poder relaxar. Implorei com o
olhar que ele parasse, mas Miguel apenas largou o controle ligado sobre a
cama, deixou o pênis de borracha dentro de mim e segurou minha cabeça com
as duas mãos, firmemente, enquanto continuava a foder minha boca.

– O que vou fazer com você, Lorenza? Prometeu que não gozaria.

Eu não podia falar. Tentei me concentrar em fazê-lo gozar, ver se ele tirava
aquela falo da minha vagina e fazia aquela borboleta parar de me torturar. Eu
precisava desesperadamente de um descanso de todas aquelas emoções e
sentimentos intensos, arrebatada demais até para pensar.

Mas Miguel não teve pressa. Deslizou em minha boca com lentidão, sem deixar
de me olhar, como se provasse que eu era realmente dele, sua escrava, sua
para fazer o que quiser. Uma de suas mãos acariciava o meu cabelo, descia por
meu pescoço, percorria minha pele. Brincou com meu mamilo, beliscou-o,
continuando aquela tortura toda.

Lágrimas surgiram em meus olhos, enquanto aquela excitação continuava, os


espasmos em meu clitóris inchado espalhando adrenalina em meu sangue, me
fazendo ondular, reagir mesmo sem aguentar mais.

– Vai gozar de novo. Não era isso que você queria?

Ele segurou o pênis e tirou-o da minha boca.

– Por favor, pare. Não aguento mais! – Supliquei desesperada.

– Vai aguentar, Lorenza.

E logo puxava o pênis de borracha de dentro de mim. Rasgou outro envelope de


preservativo, protegeu-se e me virou de bruços na cama, sem delicadeza. Eu
continuava com os pulsos presos na cama e aquela maldita borboleta vibrando
em meu clitóris.

Miguel veio por trás, suas pernas entre as minhas, sua boca em minhas costas.
Abriu-me com os joelhos e deslizou o pênis grosso em meus lábios vaginais
cremosos e inchados. Logo me penetrava fundo, duro, com força. Gritei. Ele
aumentou a vibração da borboleta ao máximo em meu clitóris, agarrou meus
quadris, mordeu meu ombro e ordenou, enquanto me fodia sem pena:

– Agora você pode gozar.

Fui dominada por uma luxúria incontrolável. Comecei a dizer o nome dele em
murmúrios roucos, meu corpo alucinado, meu coração batendo loucamente em
meu peito. O orgasmo veio feroz e me arrebatou. Pensei que fosse morrer,
rodopiei, me estiquei, gritei. E ele gozou forte também, enterrando-se fundo em
mim, gemendo contra minha nuca.

Caí na cama, arrebatada, meu corpo fraco tendo espasmos devido à borboleta
ainda ligada e ao pênis dele que me enchia toda. Por fim, Miguel desligou a
borboleta e saiu de cima de mim. Fechei os olhos e desabei.

Ele me virou com cuidado, porém eu mal conseguia abrir os olhos. Tirou
delicadamente a borboleta do meu clitóris e começou a desamarrar a meia
calça de meus pulsos. Falou baixinho, perto do meu ouvido:

– Minha intenção era deixar você presa aqui até de manhã, para te foder a
madrugada toda. Mas vou deixar você descansar um pouco.

Depois de soltar meus braços, ele os acariciou e os desceu com cuidado.


Deixou a coleira no meu pescoço. Deitou ao meu lado, nos cobriu e me puxou
para seus braços. Beijou suavemente meu cabelo e caí quase que
automaticamente em um sono profundo.
Capítulo 10

Acordei de manhã sozinha na cama, nua e com o corpo todo dolorido, como se
tivesse tomado uma surra. Ouvi barulho no banheiro e me movi com cuidado,
sentando na cama, corando ao lembrar de tudo que tinha acontecido naquela
noite.

Olhei em volta, percebendo que o quarto estava limpo, sem o carrinho com a
comi-da do jantar e sem roupas espalhadas pelo chão. Eu dormira tão
pesadamente que nem ouvi quando possivelmente Amélia tirara tudo dali.
Naquele momento aquela mulher alta e fria veio do banheiro e me olhou.

– Senhora. Bom dia. Quer ir ao banheiro?

Esfreguei os olhos e me levantei nua, acenando que sim. Nem tinha mais
vergonha dela.

Amélia soltou a ponta da corrente, me seguiu até o banheiro enorme, todo de


mármore, com uma hidromassagem bem no meio. Prendeu a corrente no boxe
e saiu em silêncio. Depois do banho e da higiene, senti-me mais alerta e sem
tanta dor pelo corpo.

Mesmo assim meu ânus e minha vagina estavam levemente doloridos. Enrolei
o corpo em uma toalha branca e chamei Amélia, que veio logo e pegou a
corrente. Voltamos ao quarto e ela já tinha trocado os lençóis e refeito a cama.
Naquele momento a porta do quarto abriu e Miguel apareceu, olhando para
mim.

Senti um baque no peito só de vê-lo. Estava espetacular, descalço e sem


camisa, apenas uma calça branca de pijama, amarrada em seus quadris. Seu
corpo alto e musculoso tomava conta da porta. Seu cabelo negro estava
levemente despenteado e uma sombra escura de barba rodeava seus traços
másculos. Fiquei com água na boca com a visão maravilhosa e viril dele.
– Pode deixar comigo, Amélia.

– Claro, senhor. Posso servir o café agora?

– Sim. Já estamos descendo.

Esperei Amélia sair e indaguei:

– Estamos?

Ele se aproximou de mim. Senti o coração disparar, mas fiz o possível para
demonstrar uma calma que estava longe de sentir, não desviando o olhar até
que ele parou à minha frente.

– Bom dia, Lorenza.

– Bom dia.

– Eu ganho ao menos um beijo?

Eu mal ousava respirar, sem saber se ele brincava comigo. Miguel sorriu
suavemente, como se notasse minha desconfiança. Seu olhar desceu por meu
rosto até meus lábios. O desejo veio tão avassalador que quase gemi.
Surpreendendo-me, ele enfiou os dedos entre meus cabelos molhados, segurou
meu rosto e me beijou na boca.

Recebi seus lábios e sua língua, emocionada. Pus minhas mãos sobre as dele e
retribuí o beijo gostoso, totalmente envolvida por ele, minha alma enlevada por
sua presença, pelo simples fato dele estar ali comigo.

O beijo foi lento, quente e lânguido. Algo dentro de mim se contorceu, se


intensificou, me deixou tão abalada que tive vontade de agarrá-lo e nunca mais
soltá-lo. Em questão de segundos eu ficava na ponta dos pés e o abraçava pelo
pescoço, me colava nele, me entregava como se fosse morrer longe dele.
Gemi em protesto quando ele parou de me beijar e seus olhos lindos, entre o
mel e o ouro, pungentes, mergulharam nos meus. Uma emoção forte nos
envolveu e eu percebi que ela existia quase como uma força viva. E era tão
intensa que não vinha só de mim, mas nos cercava, nos ligava como energia
pura, além de nossos corpos.

Procurei em seu olhar se ele notava, se ele sentia. Miguel era muito bom em
não demonstrar, contudo seus olhos brilhavam tanto que tive certeza que ele
também estava ligado a mim por algo mais forte do que sexo. Tive medo de
acreditar, medo de me enganar. Por isso me calei e apenas senti.

Ele me soltou devagar. Quieta, não o agarrei novamente, embora fosse a minha
vontade. Seus dedos foram até a corrente fina em meu pescoço e a percorreram
sem pressa, até parar no pequeno encaixe de onde saía a corrente, que naquele
momento se arrastava até o chão.

Ele me olhou novamente, enquanto tirava um molho de chaves do bolso da


calça e soltava a coleira em meu pescoço. Imóvel, senti quando ele tirou a
coleira e a largou no chão junto com a corrente.

Não ousei me mexer, paralisada pelo significado daquilo. Eu estava livre. Sem
uma palavra, sem que eu pedisse, ele me soltou. A alegria não me invadiu. No
lugar dela, senti um medo atroz. O desespero veio lento, porém tão intenso que
meus joelhos quase se dobraram. Ele me mandava embora? Havia acabado?

– Miguel... – Murmurei como se pedisse que ele negasse, sem mesmo perceber.

– Você não usará mais essa coleira, Lorenza.

Engoli em seco, procurando me controlar. Por fim consegui perguntar:

– Estou livre? Acabou?

Seu olhar era agudo, afiado e fixo.


– Ainda não vou deixar você ir.

Mordi os lábios, o alívio me inundando. Não quis analisar ali aquela loucura,
como eu poderia preferir ser prisioneira dele do que ter minha vida de volta. Eu
só sabia que era assim.

– Não entendo.

– Ainda quero você, Lorenza. E você vai ficar.

– Mas a coleira...

– A casa está cercada de seguranças e muro eletrificado. Não tem internet. Os


únicos telefones são o meu, o de Amélia e o de Jonas, marido dela. Você não
terá acesso a eles. Não tem como você fugir.

– Eu já disse, Miguel. Posso ser sua amante. Só não quero ficar presa.

– Não confio em você. Quando eu julgar que já me pagou o que deve, vou te
soltar.

Mas não faça nenhuma besteira, Lorenza.

– Não vou fazer.

– Certo. Vamos descer e tomar café.

– Estou de toalha. Preciso de alguma roupa.

– Amélia disponibilizou algumas para você. Estão ali, em meu closet.

– E o meu quarto?

– Seu quarto agora é esse. Vai dormir comigo.

Senti uma pontada de alegria, mas fiz de tudo para não demonstrar. Saí do
quarto seguida por ele, usando um leve e curto vestido estampado e sandálias
rasteiras. Enquanto descíamos as escadas em silêncio, me dei conta que estava
muito feliz. Tomamos café da manhã em paz, conversando amenidades. Tudo
estava delicioso e ele parecia relaxado, sem a agressividade de antes. Fiquei
desejando ardentemente que aquilo não fosse um sonho, que não acabasse.

– Hoje vou ficar aqui, mas amanhã tenho que viajar para o Sul. Adiei demais os
negócios para estar aqui com você.

Eu o olhei rapidamente, perguntando logo:

– Quando você volta?

– Em um ou dois dias. – Miguel se recostou no espaldar da cadeira, largando o


guardanapo sobre a mesa. Estávamos sozinhos.

– E eu?

– Vai ficar aqui, esperando por mim. – Ele arrastou a cadeira para trás e se
levantou, estendendo-me a mão. – Vem, vamos aproveitar o dia.
Capítulo 11

Foi um sonho. Pela primeira vez, desde que cheguei, pude andar pela casa e
pelo terreno. Revi velhos cômodos, cantinhos da minha infância, árvores que
eu e Daniela subimos, locais que haviam marcado minha vida. Miguel ficou
comigo e quando vi eu contava para ele meus momentos ali, quando eu tirava
férias e ficava com meus avós, o quanto eu e Daniela brincávamos, nossos
sonhos, algumas das minhas lembranças mais doces.

Incrivelmente ele ouviu e até se divertiu. Conversamos como um casal normal,


aproveitando a presença um do outro, não como os rivais que fomos desde que
ele fez aquela proposta há seis anos.

Divaguei se as coisas seriam diferentes se ele não tivesse feito a proposta, mas
simplesmente me conquistado. Claro que tudo seria diferente. Entretanto, eu
não poderia supor nada. O tempo não voltava atrás.

Sentamos na varanda atrás da casa, em confortáveis poltronas acolchoadas,


protegidos do sol e cercados de plantas e flores em profusão. Encolhi as pernas
sob o corpo, relaxei e olhei para ele.

Miguel continuava apenas com a calça do pijama. Não pude deixar de admirar
seu peito nu, sua pele bronzeada, os músculos definidos, os pelos do seu peito.
Ele também me olhou e acabei perguntando:

– Isso é uma trégua?

– Talvez.

– E vai durar até quando?

– Depende de você, Lorenza.

Suspirei. Como ele mesmo havia dito, como eu poderia fugir dali? Aproveitei
que estava me dando atenção e tentei tirar mais coisas dele:
– Por que trouxe aquela mulher aqui?

– Por que eu não traria?

– Poderia ter se encontrado com ela em outro lugar. Queria que eu visse, que
eu soubesse.

Miguel sorriu devagar.

– Não quero que você pense, em momento algum, que é especial para mim.
Posso estar com você e com quantas mais eu quiser. Está aqui porque nunca
perdoei e esqueci que me enganou. Talvez esteja um pouco obcecado pelo
prazer que você me proporciona, Lorenza. Mas isso vai passar. E você terá sua
vida de volta.

Não demonstrei o quanto ele me magoou. No fundo, estava pensando que algo
mais do que físico estava ligando-o a mim. Mas suas palavras cruas tiveram o
poder de esmagar essa esperança.

– Não há necessidade de deixar você trancada naquele quarto, definhando.


Basta saber que está aqui e que é minha pelo tempo que eu definir.

Desviei o olhar, em silêncio. Ele também não disse mais nada. Tentei não dar
tanto valor ao que ele disse, pois o que importava era que estávamos ali e que
ao menos ele confiava um pouco mais em mim. Tínhamos muito pouco tempo
juntos e tudo foi intenso demais. Eu precisava me controlar, pensar, saber o
que realmente era melhor para mim. Talvez aquela viagem dele me desse a
oportunidade de pensar em tudo mais friamente. Não quis estragar aquele
tempo com ele. Assim, me esforcei para puxar outros assuntos:

– Você teve mesmo um caso com minha prima?

– Não diria que foi um caso. Alguns encontros.

– Você a usou.
Miguel deu de ombros, recostando-se na poltrona.

– Ela foi o meio mais eficaz de chegar a você, Lorenza. Mas valeu a pena. Como
disse antes, nós nos divertimos muito.

– Teve alguma mulher que significou mais para você do que algumas trepadas?

– Trepadas. Palavra estranha vinda de alguém que até poucos dias atrás era
virgem.

– Ele estava sendo cínico.

– Você está me tornando assim. Mas você não respondeu.

Miguel ficou um pouco mais frio.

– Não. Nenhuma mulher. Elas perdem o encanto depois que as fodo de todas
as maneiras possíveis. Algumas até antes.

– Como está fazendo comigo.

– Exatamente. Fique tranquila, Lorenza. Sua hora vai chegar.

Não caí nas provocações dele, embora suas palavras me abalassem. Miguel
continuou:

– Já imaginou o que vai fazer da sua vida quando sair daqui?

– Ainda não tive tempo de pensar em nada. Mas quando vim para o Brasil, era
para refazer minha vida aqui. Eu esperava fazer isso com Daniela. Agora não
sei. Ela é minha última parenta viva. – Mudei de assunto. – Você mora aqui no
Rio?

– Tenho casas em vários lugares. Mas fico mais entre Rio e São Paulo, onde
meus negócios se concentram.

– E sua família?
– Não quero falar de mim, Lorenza. – Ele cortou, frio – Aliás, acho que já
conversamos demais. Que tal assuntos mais interessantes, como sobre ontem
à noite?

Senti meu rosto arder, porém não desviei o olhar. O dele estava ligeiramente
mais escuro, licencioso.

– Gostou de ontem?

– Sim.

– Eu sei. Também gostei. Podemos subir e repetir.

Eu já sentia a excitação percorrer minha pele. Mas antes que pudesse dizer
qualquer coisa, nossa atenção foi desviada por um homem que se aproximou
de nós vindo pelo jardim. Era o único outro homem que vi ali, além de Miguel.

Era mulato, alto e musculoso. Devia ter pouco mais de cinquenta anos, sua
coluna era reta, sua cabeça raspada. Usava jeans e camisa azul. Parou a certa
distância e mal me olhou. Calculei que fosse o marido de Amélia, o ex-militar.

– O que foi, Jonas?

– Os seguranças estão tendo um pequeno problema lá fora, senhor Montês.

– Que problema?

Por um momento, Jonas fitou seus olhos escuros em mim, como se não
soubesse se podia falar na minha frente. Depois se virou para Miguel e
informou:

– É a sua mãe.

A expressão do rosto de Miguel tornou-se subitamente fria e fechada.

– Já disse o que fazer quando ela vier aqui.


– Eu sei. Mas ela está... fora de si. Disse que não sai sem falar com o senhor.

– Porra! – Ele se levantou furioso.

Fiquei impressionada, sem entender nada. A mãe dele não podia entrar em sua
casa? E por que ele estava daquele jeito? Talvez de algum modo ela o
ameaçasse, pois ele disse para mim:

– Vá para o quarto, Lorenza. Eu a encontro lá.

– Sim, eu...

– Agora.

Não ousei retrucar. Ele parecia realmente com muita raiva. Levantei e entrei na
casa, sob seu olhar implacável. Confusa e curiosa, fiquei dentro do quarto dele,
recostada nos travesseiros. Quem proibia a própria mãe de entrar em casa? O
que estaria acontecendo?

Miguel demorou muito. Levantei, andei de um lado para outro, liguei e


desliguei a televisão. Fiquei olhando lá fora pela janela, mas só dava para ver
os fundos da casa com a piscina e o jardim.

Já estava ansiosa demais, pensando em me arriscar e descer, quando a porta


se abriu e ele entrou. Aparentemente, estava calmo. Entretanto senti a raiva
que parecia emanar dele, deixava-o tenso, com olhar mais duro do que o
habitual. Ele se aproximou de mim já desamarrando o cadarço da calça,
descendo-a por seu quadril. Largou-a e chutou-a para o lado, ficando
completamente nu. Seus olhos claros estavam fervendo, soltando chispas, tão
furiosos que por um momento tive medo.

Miguel segurou meu braço e nem ousei perguntar nada. Em questão de


segundos ele me empurrava na cama e ordenava:

– Recoste-se nos travesseiros, sentada.


– Miguel.

– Fique quieta e obedeça, Lorenza.

Obedeci. Apesar de ficar dividida entre o medo e a excitação, eu senti


preocupação, pois era óbvio que algo o atormentava profundamente. Mas nem
tive tempo de pensar com clareza, pois ele já enfiava as mãos por baixo do meu
vestido e puxava a calcinha rosa por minhas pernas. Tomei um grande susto
quando ele segurou os dois lados do vestido e puxou-o com violência, fazendo
os botões da frente saltarem, abrindo-o todo.

– Miguel!

– Quero você agora, Lorenza. – Sua mão mergulhava entre as minhas pernas,
seus dedos penetrando em meus lábios vaginais lisos e macios. – Está pronta
para mim?

– Não. Eu... Ah!

Ele arreganhou minhas pernas para o lado e chupou deliciosamente minha


vagina, pegando-me de surpresa. Segurou minhas coxas e sua língua me
deixou completamente entregue em questão de segundos.

Foi tudo muito rápido. Nem vi como ele pôs um preservativo, mas logo montava
em mim e me penetrava sem nenhuma delicadeza ou cuidado. Eu gritei, pois
apesar de me excitar, ele era grande e foi bruto demais.

– Calma, fique quietinha. Deixe entrar tudo, Lorenza.

Ele me puxou mais para baixo. Moveu-se, acomodou-se sobre mim e então me
fodeu de novo, ganhando espaço, até estar todo dentro de mim.

– Isso, meu bem. Toma meu pau.


Arfei, sentindo o coração acelerar loucamente, minha vagina gotejar, sugando
seu pênis. Agarrei-o com força e me abri mais. Ele aproveitou para me comer
livremente, duro e rápido, sem se preocupar com nada além do fato de estar
dentro de mim o máximo possível.

– Oh, Miguel...

Com o peso do corpo apoiado nos cotovelos, ele me fodia e me olhava. Senti o
coração despencar, pois havia nele um desespero que nunca vi, uma carência
em seu olhar que me deixou confusa, louca para consolá-lo. Abracei-o com
braços e pernas, me movi para receber suas arremetidas, beijei-o no queixo, na
mandíbula, no rosto.

– Vem, querido, vem...

– Porra, Lorenza...

Beijei-o na boca, com doçura e paixão. Tentei confortá-lo com meu corpo,
afastar para longe os demônios que o dominavam, fazê-lo esquecer do mundo
em meus braços.

– Sou sua... Faça o que quiser comigo... – murmurei contra seus lábios.

– Não posso esperar mais.

– Vem, Miguel.

E ele veio. Meteu forte e estremeceu, gemendo, gozando, se contraindo sobre


mim. Olhei seu rosto contorcido de prazer, maravilhada e feliz, pois naquele
momento ele era todo meu, seus demônios momentaneamente esquecidos.

Ele caiu sobre meu corpo, beijou suavemente meu pescoço. Então rolou e se
deitou ao meu lado, de barriga para cima, um de seus braços sobre os olhos.
Assim ficou, imóvel, sem dizer uma palavra.
Eu ainda me sentia excitada, contudo me controlei. Fiquei olhando para ele,
sem saber o que havia acontecido, o porquê dele ter ficado tão descontrolado e
vulnerável. Por que me usou como válvula de escape? Claro, tinha algo a ver
com a mãe dele. Devia ser algo muito sério para deixá-lo daquele jeito.

– Miguel, você está bem? – Eu me arrisquei a perguntar.

Ele não respondeu de imediato. Lentamente afastou o braço do rosto e olhou


para mim. Estava sem qualquer resquício do desespero incubado que percebi
nele ao entrar no quarto. Até sorriu de maneira cínica, como costumava fazer.

– Muito bem. Foder você é muito bom, Lorenza. Dê-me só um minuto, não vou
deixar você na mão.

– Não estou cobrando nada. Foi bom. Você...

– Vou tomar um banho e volto logo. Aí poderemos continuar.

Observei enquanto ele se levantava e ia ao banheiro. Como se fugisse de mim.

Eu me encolhi na cama, tentando entender, chegar a uma conclusão. A única


coisa que tinha certeza era de que a mãe dele era uma presença conturbada
em sua vida, que tinha um grande poder sobre ele.
Capítulo 12

Não fizemos amor pelo resto do dia. Miguel disse que precisava resolver os
últimos preparativos da viagem e sumiu. Perguntei à Amélia se ele estava em
casa e ela disse que não. Só me restou ficar sozinha na casa enorme, que agora
estava livre para eu circular.

Fiquei lá fora, de biquíni, tomando banho de piscina e me bronzeando um


pouco. Em nenhum momento pensei em fugir, pois sabia que seria em vão. Eu
nem tinha vontade de tentar. Era horrível admitir, mas eu queria ficar ali com
Miguel. Almocei sozinha. Amélia me servia, fria como sempre, e eu a ignorava.

Sentia-me só, com vontade de ir pra rua, andar, ver gente, conversar. O que
ainda me acalentava era saber que Miguel estaria ali, mas e quando ele
viajasse? O que eu faria naquela casa enorme? Iria me distrair com aquele
bloco de gelo que era Amélia?

Estava dividida, sem saber como minha vida foi tomar um rumo daquele,
suspensa e dependente da vontade de um homem volúvel e complicado. Ainda
me preocupava pelo modo que ele ficou naquela manhã, a curiosidade criando
diversas possibilidades em minha mente sobre o relacionamento dele com a
mãe. E seu pai? Estaria vivo? Também lhe causaria aquele desespero?

Passei uma tarde relativamente tranquila, dentro das escolhas que eu tinha.
Estava dentro da piscina, cansada após ter dado várias braçadas, quando
Amélia veio perguntar se eu queria alguma coisa.

– Traga uma cerveja gelada e dois copos. – Disse Miguel, que acabava de
chegar.

– Sim, senhor. – Amélia se retirou.

Nós nos olhamos, eu de biquíni e molhada dentro da água, ele de pé, vestido de
jeans e blusa preta, deixando uma pasta e sua carteira sobre uma mesinha
branca. Seus cabelos negros estavam revoltos e eu me perguntei se toda vez
que o visse pensaria a mesma coisa, o quanto ele era lindo.

– Gosta de cerveja?

Miguel se acomodou em uma das cadeiras de madeira em volta da mesa,


recostando-se com displicência e esticando as pernas longas na frente do
corpo. Não havia nada em sua expressão que sugerisse o descontrole daquela
manhã.

– Não costumo beber muito, mas gosto.

– Ótimo. Então, venha aqui.

Nadei até a escada da piscina e subi, já me encaminhando para uma das


cadeiras em que estavam a toalha e meu vestido. Miguel segurou minha mão.

– Fique assim, Lorenza.

Senti seus olhos audazes descendo lentamente por meu corpo molhado,
coberto apenas pelo biquíni preto. Quando seu olhar encontrou o meu, estava
escurecido, com desejo. Ele puxou-me suavemente para seu lado, perguntando
com voz aveludada:

– Sentiu minha falta?

– Sim.

Miguel se surpreendeu com a resposta e ergueu uma das sobrancelhas


grossas. Sorriu de leve:

– Agora é sim?

– O que você esperava? Ficar sozinha é pior.


Ele riu. Em instantes me colocava sentada de lado em seu colo, apoiando um
braço em minhas coxas e outro em volta da minha cintura.

– Vou te molhar todo!

– Parece bom. – Ele murmurou, roçando o nariz em meu ombro. Sua mão
acariciou lentamente a pele arrepiada da minha coxa. – Também senti sua
falta.

– Mentiroso.

Ele não retrucou e eu já me sentia feliz com suas palavras, por estar ali no colo
dele.

Virei o rosto para olhá-lo, pensando como uma pessoa poderia se apaixonar tão
violentamente por outra que mal conhecia. Eu não sabia praticamente nada
sobre ele e mesmo assim aquilo não importava para meus sentimentos.

– A cerveja, senhor. – Amélia apareceu, depositando uma bandeja sobre a


mesa, onde tinha duas tulipas, um balde com gelo e algumas garrafinhas de
cerveja importada.

– Mais alguma coisa? Talvez uns petiscos?

– Que tal uma música? O que você quer ouvir, Lorenza?

– Eu? Roberto Carlos.

– Roberto Carlos? – O sorriso dele se ampliou. – Você não para de me


surpreender?

– Por quê?

– Na sua idade, pensei que gostaria de algo mais moderno.

– Não. Adoro Roberto Carlos. Você tem aqui?


– Sim. Ponha o som ambiente, Amélia, por favor. Roberto Carlos.

– Sim, senhor. – E ela se afastou.

– Que outras músicas do tempo dos seus pais você gosta?

– Gosto de vários tipos de música. Mas quando estava em Portugal eu gostava


de ouvir bons artistas brasileiros, pois matava um pouco a saudade que sentia
daqui.

Nós nos olhávamos nos olhos, quando ele falou:

– Vocês não precisavam ter fugido. Era só seu pai dizer não, Lorenza.

– Eu sei. Acho que você tem razão. Mas você também não precisava daquela
proposta. Por que a fez?

– Gosto de ter o controle sobre as coisas. Não queria ter ninguém me acusando
depois de corromper menores, afinal você tinha dezessete anos e eu vinte e
oito. Foi um dos poucos erros que me dei ao luxo de cometer. Em geral sou
muito desconfiado.

– Já percebi.

Miguel largou minha coxa para abrir a cerveja e despejar nos dois copos.
Entregou-me um e bateu de leve sua tulipa na minha.

– Hoje você faz o brinde.

– Ao nosso tempo juntos. – Falei.

– Ao nosso tempo juntos.

A cerveja estava deliciosa, bem gelada. Em Portugal, quando eu bebia algo


alcoólico era vinho.

– O que você fez durante a tarde?


– Nada. Fiquei aqui.

– Está mais bronzeada. Seus olhos mais verdes. Sabe o quanto é bonita?

– Não ligo muito pra isso. Mas você... Deve tirar proveito de sua aparência. As
mulheres devem se jogar aos seus pés.

– Não tenho do que reclamar. O dinheiro ajuda, também.

– Com sua aparência, poderia ser um mendigo e as mulheres pulariam em seu


colo.

Miguel riu, ajeitando-me mais em seu colo, fazendo-me sentir seu membro
semiereto dentro do jeans, pressionando a carne macia do meu bumbum.

– Ah, é? E que parte você gosta mais?

Fiquei subitamente corada, o que o divertiu ainda mais.

– Diga, Lorenza.

– Não sei. Você é muito bonito.

– Agora vai ter que falar. Escolha uma.

Passei meus olhos sobre seu rosto, seus olhos penetrantes e lindos, seu corpo
másculo, suas mãos de dedos longos, fortes.

– Seu pênis. – Falei baixinho, embora nem eu soubesse ao certo se era aquilo.
Eu o adorava por inteiro, cada pedaço dele. Mas seu pênis me impressionava
tanto, que foi o que mais veio à minha mente. – E seus olhos.

– Bom saber. – Segurou meu queixo e beijou de leve meus lábios. – Sabe o que
mais gosto em você?

– Não, mas posso imaginar.


– Suas sardas, sua boca, seus seios. E sua bocetinha. Não necessariamente
nessa ordem.

Sorrimos e naquele momento começou uma música do Roberto Carlos que eu


adorava. Não se afaste de mim. Tomei um gole da cerveja e cantei baixinho a
letra, enquanto Miguel tomava sua cerveja e me observava:

“Eu pensei que pudesse ficar sem você

Mas não posso

Pois viver sem você, meu amor,

É difícil demais

Eu deixei minha porta entreaberta

Você chegou sem me avisar

Não se afaste de mim, oh, não.

Eu pensei que com tanta experiência

Eu soubesse tudo

Mas você me ensinou que no amor

Não importa quem sabe mais

E que o tempo entre nós não existe

Por tudo que esse amor nos traz

Não se afaste de mim, oh, não...”

– Adoro essa música.

– É a que você mais gosta?


– Não. As que eu mais gosto são: “Às vezes penso”, “Você” e “De tanto amor.”

– Músicas para pessoas românticas. Por isso se guardou tanto tempo, não é?
Por romantismo.

– Sempre quis viver um amor como das músicas dele. Inesquecível, intenso. –
Não completei que aquilo acontecia naquele momento.

– Sofridos, com dor de cotovelo. – Ele completou.

– Você é cínico demais.

– Experiente. Vivido. Quando for mais velha, vai me dar razão.

– Até parece que você já se apaixonou e sofreu.

– Não preciso disso. Agora chega desse assunto. Quer mais cerveja?

– Por enquanto, não.

– Deixe o copo aí na mesa e vem me beijar, Lorenza.

Senti um frio no estômago. Pus nossos copos vazios na mesa e virei para ele.
Miguel já foi enfiando os dedos entre meus cabelos e inclinando a cabeça,
puxando-me para ele.

Saboreamos os lábios um do outro, gelados, com gosto de cerveja. Como


sempre, o beijo foi delicioso, me deixou viva, alerta e excitada. Eu me encostei
nele, sentindo sua blusa e sua calça que eu molhava com meu corpo. Espalmei
as mãos nos músculos do seu peito, sobre o tecido úmido, acariciando-o. O
desejo nos engolfou, como um barril de pólvora que só precisava de uma
fagulha.

Miguel desceu a mão por meu seio, afastando o biquíni para o lado para
esfregar a palma contra o mamilo duro. Depois fechou a mão grande sobre ele,
afagando a carne redonda, massageando-o suavemente.
Eu segurei sua cabeça entre as mãos e beijei-o com tanta emoção e tanta
volúpia, que algo dentro de mim pareceu se romper, deixou-me embargada,
muito sensível a tudo que se referia a ele.

Miguel despiu o outro seio, acariciando-o também. Passava a mão pelos dois,
deixando-me arfante, excitada, depois escorregava a mão por minha barriga e
baixava um pouco a calcinha, seus dedos penetrando nela, tocando
suavemente meu clitóris. Fiquei completamente mole e abandonada em seus
braços. Ele espalhou beijos em meu rosto, meu cabelo, meu pescoço.
Murmurou, após morder levemente minha orelha:

– Não consigo manter as mãos longes de você, Lorenza. Hoje nem consegui me
concentrar nos negócios, só pensando que você estava aqui, ardente e macia,
esperando por mim.

Suas palavras me excitaram ainda mais. Acariciei seus cabelos, seu peito, seu
rosto.

Beijamo-nos de novo e seu dedo do meio penetrou minha vagina já úmida,


pronta para ele. Foi até o fundo e parou, espalmando a mão toda sobre meu
sexo, sentindo-o latejar contra seu dedo. Sob a minha bunda, ele estava
completamente ereto. Nós ardíamos, fundidos. Comecei a me mover, ansiosa,
querendo senti-lo mais, buscando-o.

Para meu desespero, ele parou de me beijar e tirou o dedo de dentro de mim.
Logo me colocava de pé ao seu lado e segurava minha calcinha, descendo-a por
minhas pernas, largando-a no chão. Soltou os laços do sutiã, até que fiquei
completamente nua.

Suas mãos desceram por meus quadris, enquanto ele fitava meu corpo com os
olhos claros cheios de desejo. Fitou meus olhos e desencostou da cadeira para
despir a blusa sobre a cabeça. Sem deixar de me encarar, abriu o jeans, desceu
o zíper. Despiu a calça junto com a cueca, até ficar nu. Eu tremia ao lado dele,
sem conseguir deixar de olhá-lo.

Miguel pegou a carteira sobre a mesa, tirou dela um preservativo e deixou


ambos em cima da mesinha. Só então segurou minha cintura com as duas
mãos e me aproximou mais dele. Seus lábios saborearam lentamente a pele
ainda úmida da minha barriga, em beijos suaves.

Enfiei os dedos em seus cabelos. Ele me segurou com firmeza e me fez sentar
de frente para ele em seu colo, sobre suas coxas. Meus lábios vaginais
encostaram-se nos testículos dele, logo abaixo do seu pênis ereto, que caía
sobre a sua barriga. Não consegui parar de olhar para seu membro, ainda mais
quando ele me fez mover o quadril suavemente sobre ele.

– Deslize sua bocetinha sobre meu pau, Lorenza.

Eu respirava irregularmente. Ainda com os dedos enterrados em seu cabelo,


movi mais os quadris, esfregando minha vagina ao longo do comprimento dele,
sentindo sua dureza, ansiando por ele. Uma de suas mãos desceu entre nossos
corpos, brincando delicadamente com meu clitóris. Gemi rouca, jogando a
cabeça para trás, rebolando sobre ele, fechando os olhos.

– Quer meu pau dentro de você, Lorenza?

– Sim...

– Pegue o preservativo e ponha em mim.

Abri os olhos, lânguida e excitada. Fiz o que ele mandou, cobrindo seu pênis
com a camisinha como o vi fazer várias vezes.

– Segure e me ponha dentro de você.

Porra, eu tremia. Segurei a base de seu pênis com uma das mãos, com a outra
me amparei em seu ombro. Ergui o quadril, ajeitei-me sobre a cabeça do seu
membro e forcei para baixo devagar. Ele me abriu e começou a entrar todo,
bem agarrado em mim.

– Miguel... – Murmurei, estremecendo toda enquanto eu o metia inteiro dentro


de mim, até senti-lo no mais fundo do meu ventre. Não suportei mais aquela
tortura. Comecei a me mover sobre ele, ansiosa, de maneira rápida e cheia de
luxúria. Minha pele se arrepiava, minha respiração saía entrecortada.

Ele acariciou meus seios, ergueu-os até a boca e passou a chupar um mamilo
com força. Joguei novamente a cabeça para trás, alucinada, na ponta dos pés
para poder mover livremente meus quadris para cima e para baixo, devorando-
o, gemendo. Miguel chupou outro mamilo. Então deu uma palmada forte em
uma das minhas nádegas, me assustando e excitando ao mesmo tempo.

– Ai! – Gritei, rouca, gotejando contra seu pênis.

Ele passou a me dar palmadas, sem parar de mordiscar meus mamilos,


deixando-os muito duros, enquanto eu o montava sem reservas, já fora de
controle, fora de mim mesma.

Não tive como segurar o orgasmo, que veio avassalador. Ondulei e


choraminguei, e ele bateu na minha bunda com mais firmeza, deixando-me no
limite entre dor e prazer, até que caí mole e satisfeita em seus braços.

– Quer descansar, Lorenza?

– Só... só um segundo...

– Não. Saia e sente-se de costas para mim. Quero que se debruce na mesa e
continue engolindo meu pau.

Obedeci, meio tonta, olhando-o. Tirei-o de dentro de mim, montei-o de costas e


me segurei na mesa em frente. Miguel enterrou os dedos em meus quadris,
ajeitou o pênis contra minha vagina e me fez descer sobre ele. Inclinei-me sobre
a mesa, quase deitando o tronco sobre ela, apoiando as pontas dos pés no
chão. Estava mole, satisfeita, mas ainda muito molhada. Passei a mover meus
quadris, enterrando-o em mim, tirando quase tudo e metendo de novo.

– Isso, meu bem. Não pare de massagear meu pau com essa bocetinha.

E voltou a dar palmadas em minha bunda, fortes o bastante para deixá-la


vermelha e queimando, porém não o suficiente para machucar. Quando ele se
enterrava em mim, batia em uma nádega. Eu subia e quando descia de novo,
era a vez de espancar a outra.

– Por favor, pare... – Comecei a suplicar, porque sentia meu corpo esticado,
ardendo, desperto além do limite.

– Não, Lorenza. Não vou parar.

– Ah!

– Mais rápido. Assim, deixe-me sentir você toda molhadinha.

Era incrível, mas eu me excitava de novo, sem qualquer controle. Meu traseiro
queimava, espalhava sensações narcotizantes dentro de mim. Meu canal
latejava, dolorido da fricção constante de seu membro grande.

Miguel parou de me bater e se levantou, me segurando com firmeza contra a


mesa, erguendo meus quadris. Fodeu-me violentamente, sem pena, sua pele
esfregando minha bunda que ardia, seu pênis empurrando fundo o meu útero,
encontrando um ponto dentro de mim que me deixou alucinada. Comecei a
gozar de novo, contraindo meus músculos, puxando-o para dentro.

– Porra, Lorenza!

E ele gozou também, firme e duro, seus gemidos roucos mesclando-se com os
meus. Quando acabou, caiu sentado para trás e me puxou para seu colo de
lado, abraçando-me. Pus a cabeça em seu ombro, respirando irregularmente,
completamente satisfeita. Ficamos alguns minutos em silêncio. Ele acariciava
meu cabelo, displicente, quando consegui perguntar:

– É sempre assim, quando as pessoas fazem amor?

– Não.

Eu me acomodei nos braços dele, já pensando o que seria de mim quando ele
viajasse. Eu deixaria de viver.
Capítulo 13

Eu havia prometido a ele que não faria nenhuma besteira, mas já era o
segundo dia que Miguel estava viajando e eu achava que ia enlouquecer
naquela casa. Minha vontade era tentar escalar o muro, eletrificado ou não.
Ver pessoas além de Amélia, trabalhar, me ocupar, me sentir útil. Nada me
distraía, nem livros, música ou televisão. Enjoei de ficar na piscina. Andei de
um lado pro outro, fiquei deitada, perguntei a Amélia se eu podia fazer algo na
casa ou na cozinha, porém ela me expulsou friamente, como se eu estivesse
querendo roubar seu emprego.

Sentia uma saudade absurda de Miguel. Não conseguia comer nem dormir
direito. No fim do segundo dia, fiquei quase todo o tempo no quarto, só
pensando nele. E me dei conta de como nossa relação era doentia, pois eu
continuava privada da minha vida, dependendo das escolhas que ele fazia para
mim. Por mais que eu o amasse, não suportaria muito tempo mais assim.
Sempre fui dinâmica, trabalhei, gostei de sair e me divertir. Como poderia
permanecer enclausurada ali como uma puta particular, uma escrava sem vida
própria?

Amélia insistiu para que eu comesse. Por fim levou o jantar embora e me
deixou em paz. Passei a noite dormindo e acordando, até que de manhã estava
cansada, como se não tivesse feito nada mais do que ficar deitada.

O terceiro dia sem Miguel foi pior. Ele havia dito um ou dois dias, mas era o
terceiro e minha paciência havia acabado. Fiquei perambulando, fui até o
portão da frente e vi os seguranças, que me ignoraram. Voltei para casa,
pensando em um meio de escapar ou eu ia enlouquecer. Entretanto não havia
nada que eu pudesse fazer. Sentei na sala, já angustiada, quando Amélia se
aproximou.

– A senhora vai almoçar na sala?


– Não quero almoçar.

– Mas ontem...

– Não quero almoçar, Amélia! Será que escutou agora?

Só percebi que eu gritava quando ela me olhou com cara feia. Saiu de perto de
mim como se estivesse a ponto de me dar uma surra. E eu bem que gostaria de
uma briga, mesmo que eu apanhasse como da última vez. Pelo menos eu
estaria me distraindo com alguma coisa.

Estava tão descontrolada que enfiei o rosto nas mãos e comecei a chorar. De
raiva, de saudade, de desespero. Eu não podia continuar daquele jeito, naquela
semivida.

– Lorenza?

Assustei-me com a voz de Miguel e levantei do sofá de um pulo, olhando-o com


lágrimas embaçando minha visão. Ele estava parado, olhando fixamente para
mim, parecendo um pouco chocado. Deixou uma pequena maleta no chão e
veio em minha direção.

– O que aconteceu?

– Não aguento mais ficar aqui! – Desabafei, sentindo que mais lágrimas se
acumulavam e desciam, sem controle. Sentia-me nervosa, dividida entre a
alegria quase sufocante de vê-lo e o estresse dos últimos dias, enfurnada ali. –
Você falou um dia ou dois!

Fiquei três dias sozinha! Não tenho o que fazer, ninguém pra conversar, não...

– Xiiii... Calma. – Miguel segurou meus braços e me abraçou com força. Eu o


agarrei com desespero, chorando sem parar. – Calma, Lorenza.
Fiquei lá nos braços dele, enquanto ele acariciava meu cabelo, até que o choro
foi passando e eu me senti mais aliviada. Então, Miguel me fez sentar no sofá e
se sentou ao meu lado. Segurou meu queixo e fitou meus olhos inchados.

– Durante muito tempo odiei você e o seu pai. Jurei que o dia em que eu
pusesse as mãos em você, faria pagar tudo o que me devia com juros. Posso ser
implacável, Lorenza. Mas agora, não me sinto mais assim. Não quero ver você
desse jeito.

– É horrível ficar sozinha. Não fazer nada. Eu gosto de trabalhar, de conversar,


de...

– Eu sei. Acabou. Considere sua dívida comigo paga. Você está livre.

Foi como se eu tivesse levado um soco. Olhei-o boquiaberta, sentindo o medo


se infiltrar em meus ossos. Acabou. A palavra repetiu-se em minha mente. E aí
a liberdade ganhou o contorno de uma nova prisão. Uma prisão sem Miguel.

– Está me mandando embora? – murmurei.

– Não. Estou dizendo que você está livre, Lorenza. A coleira acabou. Todas as
coleiras. Pode sair daqui a hora em que você quiser.

A expressão dele era inescrutável. Seus olhos dourados estavam intensos, até
mesmo preocupados.

– Você não me quer mais? – Consegui perguntar. – Enjoou de mim como disse
que aconteceria?

Seus dedos deslizaram do meu queixo para meu rosto. Seu olhar percorreu
meus traços, parou um pouco em minha boca, subiram até meus olhos.

– Já era para eu ter enjoado. Mas tentei adiantar tudo o que eu podia nessa
viagem para vir para cá e ter mais tempo com você.
Meus olhos se encheram de lágrimas novamente, mas agora de alívio.

– Você quer que eu fique ou que eu vá embora?

– Quero que você fique. Eu não sei por quanto tempo. Já disse que não me
envolvo seriamente com ninguém. Não quero que crie ilusões.

– Eu quero ficar.

Abracei-o, mais feliz do que ousava sonhar. Não quis pensar se era temporário
ou não. O que importava era que eu ficaria ali com ele e ao mesmo tempo não
seria mais prisioneira. Agarrei-me àquela nova esperança com unhas e dentes.
Talvez ainda houvesse uma chance para nós.

– Trouxe um presente para você. Jonas está estacionando o carro e vai trazer
logo as sacolas.

– Presente? – Afastei-me um pouco para olhá-lo.

– Eu já havia pensado sobre o nosso caso durante essa viagem e decidido


deixar você livre. Comprei um vestido de noite, sapatos e acessórios para você
sair comigo hoje à noite.

– Sério? – Eu sorri.

– Sério. Quer sair para jantar fora e dançar?

– Quero. Quero muito! Obrigada. – Eu me joguei nos braços dele e beijei-o na


boca com paixão. Ele retribuiu da mesma maneira.

Ficamos no sofá entre beijos e afagos, matando a saudade, nos entendendo


melhor do que nunca. É claro que o desejo nos engolfou. Sem uma palavra,
fomos juntos para o quarto. Daquela vez quase não perdemos tempo com
preliminares. Despimos um ao outro com pressa, nos beijando e acariciando.
Caímos na cama e logo ele me penetrava e nós suávamos e gemíamos juntos,
arfantes, lascivos. Mal dava para saber onde começava um e terminava o outro.
E foi assim que gozamos, rápido, saudosos e juntos.

Somente mais tarde Miguel me deu os presentes. O vestido era maravilhoso,


longo, negro, com finas alças que se entrelaçavam várias vezes nas costas. As
sandálias eram lindas e de um delicado tom dourado, combinando com a
bolsinha. Contudo, o que mais me deixou impressionada foram os “acessórios”
aos quais ele se referiu: um par de brincos e um colar de ouro com uma
esmeralda solitária.

– Para mim?

– Sim. Combinam com seus olhos.

Estávamos na cama, ainda nus, os presentes espalhados a nossa volta.

– Não posso aceitar. É muito caro.

– São seus, Lorenza.

– Não. Você me pôs em uma coleira porque meu pai o enganou em relação a
dinheiro. E agora me dá um presente desses?

– Eu quero dar o presente. Seu pai, como você bem disse, me enganou. É muito
diferente.

– Eu ficaria mais à vontade se não envolvêssemos mais dinheiro em nosso


relacionamento.

– É um presente e não aceito recusa. Agora vá se preparar. Ou não quer sair de


casa?

– Obrigada. – Capitulei, no fundo muito feliz. Tudo aquilo provava que ele
pensou mesmo em mim durante a viagem. E que queria passar uma borracha
sobre o que meu pai e eu fizemos. – E o resto das minhas coisas? Meus
documentos e roupas?

– Amélia vai trazer tudo.

Eu olhei para ele, ainda nu, recostado sentado nos travesseiros, seus cabelos
negros caindo despenteados sobre sua testa. Seus ombros eram muito largos,
seu peito marcado por músculos, seus braços musculosos. Tive vontade de
lambê-lo todo, sem entender como aquele desejo aumentava cada vez mais,
como a vontade de estar com ele se tornava insuportável.

Eu o amava de uma maneira que nunca julguei capaz, sem reservas, com cada
parte de mim. O desespero que senti longe dele foi só uma prova do quanto
minha vida seria miserável quando ele não quisesse mais ficar comigo. Eu não
suportaria.

– O que foi, Lorenza?

– Eu só estava pensando. – Fechei delicadamente a caixa de veludo com as


joias, fitando seus olhos. – Acho que devo um pedido de desculpas a você.
Sempre o vi como o vilão da história, mas tinha razão quando disse que meu
pai não deveria ter feito um acordo com você que não pensava em cumprir. Ele
devia ter dito não à sua proposta e arcado com as consequências da falência.
Fomos errados.

– Tudo bem, Lorenza. Mas não vou pedir desculpas por ter posto uma coleira
em você.

– Imaginei que não. – Acabei sorrindo, pois até aquele lado duro e autoritário
dele me encantava, me fazia sentir que pertencia a ele. – Como já contei, meu
pai investiu parte do dinheiro em uma pequena fazenda em Portugal e eu a
vendi, antes de vir para cá. O dinheiro está praticamente intocado. Vou
entregar a você, como parte de pagamento pelo que meu pai te deve.
– Não quero esse dinheiro.

– Mas...

– Não preciso desse dinheiro, Lorenza. O que mais me revoltou em toda essa
história, foi ter sido enganado. Dificilmente confio em uma pessoa, porém seu
pai usou sua fama de honestidade e me enganou direitinho. E eu queria muito
você. Não consegui esquecer esse desejo durante esses seis anos. Mas tudo se
resolveu. Você está aqui e se tornou minha.

O olhar dele era intenso, penetrante e quente. Prendi o ar, sem conseguir
controlar a ânsia que sentia por ele. Até meu pensamento se embaralhava, pois
o corpo dele me distraía, algo nele me atraía terrivelmente. Minha vontade era
beijá-lo de novo, demonstrar meu amor com meu corpo. Meus olhos não se
controlavam, desciam por suas pernas musculosas e cabeludas, paravam em
seu sexo que mesmo sem ereção era grande e lindo, subiam pelos músculos de
sua barriga dura.

Miguel também me olhava. Eu estava sentada na ponta da cama, nua, meus


cabelos caindo em cachos pelo peito e pelas costas. Seu olhar percorria minha
pele, escurecendo, enquanto o desejo se tornava quase uma força viva ali, a
ponto de causar arrepios em minha coluna.

Ele segurou meu braço. Puxou-me entre suas pernas e parei arfante, de joelhos
na cama, meus seios na altura de seu rosto. As mãos dele afagaram os dois
seios, afastando para trás dos meus ombros os cabelos que os cobriam. Depois
seus dedos desceram contornando minha barriga, meus quadris, acariciando
lentamente minhas pernas. Fiquei muito quieta, só minha respiração
entrecortada demonstrando o quanto estava afetada.

– Diga que você ainda é minha, Lorenza.

– Sou sua, Miguel. Vou ser sua pelo tempo que você quiser.
As pupilas dele se dilataram. Era claro o desejo e a posse em seus traços
duros. Eu me senti toda dele naquele momento, dominada e arrebatada.

Miguel entreabriu os lábios e fechou-os sobre um mamilo, beijando-o


suavemente e então sugando-o, doce, lento. Arfei, ainda sem me mover, meus
braços caídos ao lado do corpo. Mas por dentro eu parecia correr uma
maratona, meu coração disparava, meus pulmões ardiam, minhas células
entravam em ebulição. Mordi os lábios para não gemer, enquanto a sucção do
mamilo se tornava mais forte, mais dura, fazendo meu ventre se contorcer.

Ele soltou o bico molhado e empinado e chupou o outro. Seus dedos subiam
pela parte detrás dos meus joelhos, entre minhas coxas, até minha bunda.
Cada lugar que ele percorria queimava, acendia, se tornava vivo.

Continuei ali, submissa de joelhos entre as pernas dele, deixando que fizesse o
que queria comigo. Meus olhos não o deixavam, percorrendo seus traços, suas
sobrancelhas negras e grossas que se franziam, seus cílios espessos
sombreando seu olhar, seu nariz afilado encostando em minha pele, seus
lábios fechados em volta do meu mamilo.

Minha vagina latejava, completamente molhada. Meus seios estavam duros,


inchados, com os bicos completamente intumescidos. Eu havia virado uma
massa pura de sensações, sem razão, toda dele.

Miguel parou de chupar o mamilo, segurou meus quadris e ordenou:

– Fique em pé na cama, segure na cabeceira e abra as pernas. Quero chupar


você.

Estremeci, agoniada, cheia de luxúria. Mordi os lábios e fiz como ele falou.
Apoiei um pé de cada lado do seu quadril e fui mais para frente, segurando
firme a cabeceira de madeira da cama. Ele segurou firmemente minha bunda e
puxou meu quadril até seu rosto, de modo que minha vagina quase encostou
em sua boca. Eu a deixava depilada, toda lisa e nua para ele.
Quando sua língua me lambeu, eu gemi alto e estremeci da cabeça aos pés.
Minhas pernas bambearam. A sensação quente e intensa espalhou-se da
minha vagina para o ventre, os membros, o corpo todo. Senti-me fraca,
cremosa, a ponto de desfalecer. E ele me torturou com aquela língua úmida,
sugando meu prazer, lambendo os lábios rosados, chupando meu clitóris sem
dó. Eu ondulei os quadris, já a ponto de gozar, parecendo estalar sob seus
cuidados.

– Oh, Miguel... Por favor...

Eu nem sabia o que implorava. Mais? Gozar? Ter seu pênis dentro de mim? Eu
só sabia que estava louca, agoniada, totalmente dominada por ele. E que havia
perdido o controle de mim mesma.

– Vem aqui, gatinha. Não vai gozar agora.

Miguel me pegou e deitou na cama. Enquanto ele pegava um preservativo na


mesinha de cabeceira, eu me levantei e fui até ele, excitada demais para
esperar. Abracei-o pela cintura, beijei e mordisquei seu peito, ataquei-o com
volúpia. Segurei seu pênis ereto e enfiei a cabeça entre suas pernas, esfomeada
por ele. Meti-o na boca o quanto consegui, chupei-o com adoração, excitando-
me mais com seu gosto e sua textura.

– Ah, Lorenza! – Ele segurou meu cabelo, deixou que eu o saboreasse


gostosamente, chupando-o todo, sugando-o até a garganta. – Isso, gatinha.
Lambe o meu pau. Porra!

Ficou a ponto de gozar, pois me puxou. Pôs logo o preservativo e já foi me


beijando na boca, me fazendo deitar e se deitando comigo. Ficamos de lado na
cama, um de frente para o outro. Ele segurou minha perna com firmeza e
levantou-a, colocando-a sobre seu quadril. Colou-se a mim, sua língua em
minha boca, seu peito em meus seios, seu ventre colado ao meu. Seu pênis
duro meteu-se entre minhas pernas, deslizou entre os lábios vaginais cremosos
e com um movimento brusco ele me penetrou, me encheu com seu pau
enorme, incrivelmente duro. Seus dedos enterraram-se na carne macia de uma
das nádegas e ele me segurou firme, passando a me foder duramente.

Agarrei-o, meus dedos em seus cabelos densos, minha boca perdida na dele.
Nossos corpos estavam perfeitamente encaixados, suados, arfantes. Ele saía e
entrava em mim, me obrigava a recebê-lo todo até o fundo, e aí recomeçava, em
uma dança erótica e sensual.

Eu não queria que acabasse, pois estava delicioso demais. Contudo meu corpo
tinha vontade própria, se esticava, voava e então explodia em um orgasmo
alucinante, enquanto eu enroscava minha perna em sua cintura e o puxava
mais para dentro de mim, latejando em volta dele. Miguel também gozou,
gemendo rouco em minha boca. Foi espetacular. Mesmo depois que acabou,
continuamos colados, nos beijando lentamente.
Capítulo 14

Dentro do enorme e luxuoso carro preto importado, com vidros escuros, eu


seguia no banco de trás ao lado de Miguel. Jonas dirigia pelas ruas do Leblon,
beirando o mar, seguindo para o restaurante onde jantaríamos.

Eu estava muito feliz, quase eufórica. Pois agora era livre, tinha minha vida de
volta, mas principalmente porque estava ali com Miguel. Toda hora lançava
olhares a ele, que parecia tranquilo, olhando pela janela. Estava lindíssimo
com uma camisa azul-escuro, calça e blazer pretos, seus cabelos negros
penteados, a barba feita.

Eu usava seus presentes, inclusive as joias. Tinha prendido o cabelo em um


coque simples e me maquiado suavemente. Sentia-me bonita, sensual, feliz
além da conta. E muito satisfeita.

Foi uma noite perfeita. Chegamos ao luxuoso restaurante de cobertura,


exclusivo, com pista dançante e sentamos em uma mesa perto da parede toda
envidraçada, com vista para a cidade lá embaixo. Tomamos champanhe e
saboreamos uma comida deliciosa com salmão, preparada por um chef francês.
Tudo regado a uma conversa tranquila, leve e aconchegante.

Um pianista tocava uma música linda e romântica do James Taylor e nós


dançamos coladinhos, seus dedos em minhas costas nuas, seus lábios em meu
cabelo. Eu o sentia, o cheirava, inebriada, completamente apaixonada. Rezava
para que aquele momento nunca acabasse, para que ele jamais me mandasse
embora, para que algum milagre acontecesse e ele pudesse me amar como eu o
amava.

Começou outra música, chamada Memory, que eu adorava e ouvia muito em


um CD que eu tinha do Richard Clayderman. Continuamos a dançar, o mundo
esquecido, nosso mundo particular só composto por nós dois. Foi maravilhoso,
inesquecível, um daqueles momentos que ficam na memória mesmo depois de
muitos anos passados. Voltamos para casa bem tarde, satisfeitos, com uma
comunhão diferente no nosso relacionamento.

Pensei que talvez Miguel fosse dormir logo, pois chegou de viagem naquele dia
e havia feito amor comigo duas vezes. Entretanto ele me despiu, me deixou só
com o colar e os brincos de esmeralda e me possuiu sobre os lençóis de seda de
sua cama, lentamente, sem pressa. Era insaciável e eu também, pois o queria o
tempo todo. Aquele desejo latente parecia só crescer, cada vez mais profundo e
intenso.

Fizemos amor em várias posições, até ficarmos suados, nossas peles deslizando
uma na outra, nossa respiração arfante. Seus olhos lindos não saíram dos
meus, me vendo gozar enquanto seu pênis ia fundo e duro dentro de mim. E
continuou a me torturar, esticando meu prazer, saboreando a delícia que era
estar preenchida por ele. Só então gozou.

Dormi em seus braços, na noite mais perfeita da minha vida. Os dois dias que
se seguiram foram um paraíso. Miguel passou comigo, saímos muito, fomos ao
cinema, ao teatro, andamos pela praia de Ipanema, almoçamos fora. E fizemos
amor, muitas vezes.

Mesmo agora, que não havia mais aquela agressividade do início, ele não era
delicado ou manso. Continuava a me dominar na cama, me pegava duramente,
me obrigava a fazer o que ele queria, como se fosse meu dono, meu senhor. Era
dominante e feroz na cama, era pornográfico, mas tudo aquilo me dava um
prazer extremo, alucinante. Eu estava completamente de quatro por ele.

Começamos a nos conhecer melhor, a conversar, a discutir sobre vários


assuntos. A única coisa que ele não falava era de si mesmo. Deixou claro que
não gostava de falar de seu passado ou de sua família. Foi um assunto que
aprendi a não tocar, para não vê-lo fechado ou irritado, embora eu desejasse
ardentemente saber mais sobre ele. Dizia a mim mesma que se
continuássemos juntos daquele jeito, aos poucos ele confiaria mais em mim e
falaria.

No terceiro dia depois que ele voltara de viagem, teve que retornar aos seus
negócios. Uma das filiais de sua empresa ficava no Rio e ele passava o dia lá,
mas avisava que logo teria que dar um pulo em São Paulo. Deixou um dos
carros da casa à minha disposição e tudo mais que eu quisesse.

Aceitei o carro emprestado e passei a procurar trabalho e um apartamento,


quando ele saía para trabalhar. Queria continuar morando com ele na casa que
havia sido dos meus avós, porém tinha medo que a qualquer momento ele
enjoasse de mim. Eu ficaria sozinha, sem ter para onde ir. Não falei a ele o que
eu ia fazer na rua. Após alguns dias, consegui duas entrevistas de emprego e
contei a ele enquanto jantávamos na sala de jantar, sozinhos.

– Posso arrumar um emprego para você. Em minha firma ou de um conhecido.

Com um salário bem melhor do que você vai ganhar em uma dessas duas.

– Eu sei. Mas não preciso de muito.

Miguel tomou um gole do seu vinho, me observando.

– É besteira recusar uma boa oferta de emprego.

– Não quero envolver qualquer questão de dinheiro entre a gente. Já basta o


dinheiro da fazenda que vendi em Portugal e que você não quer aceitar.

– Já disse que esse dinheiro é seu.

– Com ele vou procurar um apartamento, comprar uns móveis, me aguentar


por um tempo. Sou grata por sua generosidade, mas está tudo bem. O trabalho
eu consigo sozinha.

– Está procurando um apartamento?


Seu olhar era sério, penetrante. Eu me ajeitei na cadeira, disfarcei um pouco,
mexi na comida do prato com a ponta do garfo. Só então o fitei e respondi:

– Não posso ficar aqui o resto da vida, sendo sustentada por você, Miguel.

– Pensei que gostasse daqui.

– Eu gosto! É um lugar maravilhoso, cheio de lembranças e você mora aqui.


Mas preciso ter algo meu.

– Fique aqui. É a casa de seus avós. Vou dar para você.

Arregalei os olhos.

– O quê?

– Tenho outras casas, Lorenza.

– Não! Nem pensar!

– Por que não? – Ele acabou sorrindo.

– Olha, Miguel, vamos deixar uma coisa bem clara: eu aceitei continuar com o
dinheiro da fazenda e agradeço muito. Com ele posso recomeçar minha vida.
Mas chega. Se eu aceitar mais coisas de você, vou me sentir mal. Não sou
interesseira, não quero seu dinheiro. Vamos continuar assim, sem arranjar
problemas. Por favor.

– Tudo bem. Mas a oferta continua de pé. Se quiser essa casa ou um emprego,
eu dou pra você.

Acabei sorrindo e brinquei:

– Assim vou ficar mal acostumada! Você me pôs numa coleira e agora me
oferece uma mansão!
– Procure o apartamento, se quiser. Mas não saia daqui por enquanto. Quero
você aqui, Lorenza.

A intensidade na voz dele me arrepiou. Nós nos olhamos e tive vontade de dizer
que o que eu mais queria era ficar ali com ele para sempre. Mas me calei.
Como explicar que aquele apartamento era só um resguardo caso ele enjoasse
de mim e não me quisesse mais? Eu precisava me cuidar, pois convivia
diariamente com medo que a promessa dele de que seu interesse por uma
mulher sempre acabava se cumprisse. Tentava me preparar para aquilo, mas
só aquela ideia era o bastante para me desesperar.

– Tudo bem. – Concordei baixinho.

À noite ficamos deitados na cama, vendo um filme que reprisava na tevê,


chamado “Em algum lugar do passado.” Eu nunca tinha visto aquele filme e
me debulhei em lágrimas, extremamente emocionada com o amor incondicional
dos dois personagens, tão imenso que atravessou o tempo. O desespero do
personagem masculino, no final, quando se viu privado da mulher que amava,
me fez chorar sem parar.

Tudo no filme era lindo, a história, os atores, a música e a paisagem. Miguel


achou engraçado o modo que fiquei, brincou comigo, enxugou minhas
lágrimas. Porém mesmo depois que o filme acabou, fiquei sentindo bem no
fundo de mim uma opressão no peito, imaginando se eu também morreria de
amor se um dia ele me deixasse. A sensação de desespero e saudade
antecipada era tão real que eu o agarrei e beijei, implorando a Deus que nunca
se concretizasse.
Capítulo 15

Três dias depois fiz uma entrevista de emprego em uma grande empresa de
turismo no Catete, para uma vaga de recepcionista. Como eu falava inglês
fluentemente e um pouco de espanhol, minha entrevista correu muito bem e a
mulher dos recursos humanos me garantiu que logo entraria em contato
comigo.

Saí de lá toda feliz, pensando em pegar o celular e ligar para Miguel. Mas tive
medo de incomodá-lo no trabalho ou em alguma reunião. Mais tarde eu falaria
com ele. Era quase hora do almoço e estava faminta. Entrei em um pequeno e
aconchegante restaurante ali perto da empresa de turismo e me acomodei em
uma mesa, perto da janela. Um garçom veio e me entregou o cardápio.
Sorrindo, agradeci e o abri, pensando que se Miguel estivesse ali minha
felicidade estaria completa.

– Olá. Posso falar com você?

Ergui os olhos para a mulher que se dirigia a mim e estava parada à minha
frente. Era a mulher mais linda que já vi na vida. Era impossível não notar de
imediato sua beleza, pois era realmente impressionante.

Ela devia ter entre quarenta e cinquenta anos, mas sua pele bronzeada era
lisa, macia, perfeita. Alta e esguia, usava um vestido extremamente elegante,
azul-marinho, reto até os joelhos, com um fino cinto vermelho marcando sua
cintura. Seus cabelos eram de um preto retinto, lisos e presos na nuca,
expondo seus traços finos, a estrutura óssea de seu rosto perfeita. Os olhos
eram grandes, negros e amendoados. Era mesmo muito bonita. Senti-me
estranhamente abalada por seu olhar profundo, que parecia perfurar o meu.
Por fim consegui indagar:

– Quer falar comigo?

– Sim. Desculpe incomodá-la, mas é importante. – sua voz era rouca e macia.
– Nós nos conhecemos?

– Não. – Ela me estendeu a mão esguia, onde apenas um anel de brilhantes se


destacava – Maria Montês.

Fiquei imóvel por um momento, quando ouvi o sobrenome. Seus cabelos


negros, sua beleza espetacular, o formato do nariz afilado se tornaram
extremamente familiares, como os de Miguel. Era a mãe dele.

– Lorenza de Moraes Prado. – Falei, ainda surpresa, apertando a mão dela.

Lembrei que Miguel não a deixou entrar em sua casa e do modo que ele ficou
depois, totalmente descontrolado. Senti que não devia falar com ela, que
deveria ser leal a ele mesmo sem saber qual era o problema entre os dois.
Entretanto não sabia ao certo como agir.

– Como a senhora me conhece?

– Vi você saindo da casa do meu filho e a segui. Preciso conversar com você.

– A senhora me desculpe, mas prefiro não me envolver entre...

– Por favor, Lorenza. É só um minuto. Por favor. – A vulnerabilidade em sua voz


e o desespero em seu olhar me amoleceram. Indecisa, fiquei sem saber como
agir, mas ela insistiu. – Por favor. Serei breve.

– Sente-se.

– Obrigada.

Maria Montês sentou-se com elegância. Era extremamente feminina e


naturalmente charmosa. Pude ver de quem Miguel puxara seu encanto.
Naquele momento o garçom se aproximou perguntando se queríamos alguma
coisa e Maria falou:

– Vinho. Você me acompanha em uma taça, Lorenza?


– Sim.

Deixei que ela escolhesse, sem conseguir tirar os olhos dela. Estava muito
curiosa, porém ao mesmo tempo incomodada, pensando o que Miguel diria de
tudo aquilo. Quando o garçom se afastou, ela fixou seus olhos em mim e
percebi que eram realmente negros, não castanho-escuro como da maioria das
pessoas.

– Eu sempre tento falar com meu filho, mas ele não me recebe. Às vezes fico em
meu carro, fora da casa dele só para vê-lo passar e matar a saudade. Vi você
algumas vezes e hoje criei coragem para vir conversar com você.

A tristeza que emanava dela me comoveu.

Mas me mantive em silêncio.

– Percebi que você era especial, pois nunca o vi morar com uma mulher. E ele
parece feliz. Antes de tudo, tenho que agradecer a você por isso.

– Senhora...

– Por favor, me chame de Maria.

– Maria, eu acho que não é uma boa ideia conversarmos. Não sei bem o que
aconteceu, mas...

– Miguel não tem culpa de nada. Eu sou a errada e o magoei. Mas me


arrependi. Tudo que peço é um meio de chegar a ele e pedir perdão. É meu
filho único, Lorenza. Não temos mais parentes, somente um ao outro. Não
aguento mais viver com o desprezo dele.

– Será que se insistir, se continuar falando com ele...

– Como? Ele nem olha para mim!


Recostei-me na cadeira, sem saber o que dizer. O garçom veio com as duas
taças de vinho, nos entregou e se afastou com uma leve mesura.

– Algumas coisas que fiz são imperdoáveis. Não posso contar tudo, pois não sei
se Miguel gostaria e não quero irritá-lo ainda mais. Aceito toda a culpa. Só
preciso de uma oportunidade para pedir perdão. Por favor, Lorenza, me ajude!

Ela se inclinou para frente e segurou minha mão, seu olhar suplicante me
fazendo vacilar.

– Como eu posso ajudá-la?

– Converse com ele. Peça para ele me ouvir nem que seja só por um minuto. É
tudo que preciso!

Fitei sua mão bonita, bem tratada, segurando a minha. Notei pequenas
manchas na pele, da idade. Por mais que ela fosse linda e parecesse mais nova,
aquelas manchas demonstravam que a idade passava para ela. O tempo
também passava. Será que Miguel se arrependeria um dia, por não tê-la
escutado?

– Maria, meu relacionamento com ele é recente. Somente agora está deixando
de ser conturbado, mesmo assim ele não me conta coisas particulares nem fala
da senhora. Não tenho o poder de fazê-lo mudar de ideia.

– Você tem, Lorenza. Você é diferente das outras, ele gosta de você. Ou não
estaria com você todo esse tempo, dividindo o mesmo teto. Pelo menos tente.
Converse com ele.

– Olha, não posso prometer nada. Mas vou tentar.

– Obrigada. – Aliviada, Maria soltou minha mão e se recostou na cadeira.


Tomou um gole do seu vinho e sorriu para mim. – Não sei como posso
agradecer.
– Acho que não vai adiantar muito. De qualquer forma, se a senhora quer
mesmo falar com ele, não desista. É a única mãe que ele tem. Em algum
momento vai ouvi-la.

– É o que mais quero. Sabe, eu temo morrer sem o perdão dele.

– Há quanto tempo estão sem se falar?

– Muito tempo. No início, eu insisti muito. Até que o afastei mais. Deixei o
tempo passar, para ver se a raiva dele abrandava, mas não adiantou. Porém
nunca desisti. É que ele tem um gênio muito forte. Não perdoa nunca!

Também tomei um gole do meu vinho, pensando que ele havia me perdoado.
Eu não estava mais em uma coleira, sendo prisioneira dele. Eu dormia em sua
cama, comia em sua mesa, era a mulher para quem ele voltava no final do dia.
Ele me ofereceu emprego e a mansão dos meus avós. Eu podia afirmar
categoricamente que Miguel perdoava sim, mas não ousei expressar minha
opinião. Não sabia até que ponto o problema entre eles era sério, porém devia
ser, ou ele não desprezaria a mãe daquele jeito.

– A senhora quer almoçar comigo?

– Não posso. Já tomei muito do seu tempo. Lorenza, obrigada por me ouvir e
por intervir a meu favor. Serei eternamente grata.

– Não precisa. Vou tentar, não garanto nada.

– Já é mais do que mereço. – Ela fez menção de pegar dinheiro na bolsa para
pagar o vinho.

– Por favor, deixe comigo.

– Obrigada, querida. – Ela sorriu serenamente e se levantou. Estendeu-me a


mão e eu a apertei. – Espero que você seja muito feliz.
– Obrigada. A senhora também.

Ela acenou graciosamente com a cabeça, ajeitou a bolsa no ombro e se afastou


em um andar elegante, meio sensual. Pensei que ela não falou que queria que
eu fosse feliz com Miguel, somente feliz. Mas logo afastei aquele pensamento,
preocupada em como contaria tudo aquilo para ele.
Capítulo 16

Passei o resto do dia ansiosa, até esquecendo a alegria anterior que eu sentira
pelo aparente sucesso na entrevista de emprego. Agora eu só pensava em como
abordaria com ele o assunto de sua mãe.

Após tomar banho, à noite, sentei na beira da cama para pentear o cabelo,
usando apenas um robe branco e curto. Miguel entrou no quarto, maravilhoso
em um terno escuro, sua gravata de seda cor de vinho se destacando contra a
camisa branca. Sorriu ao me ver e se aproximou já desfazendo o nó da gravata.

– Oi. – Ele se inclinou para beijar suavemente meus lábios. – Que bela visão em
minha cama.

Meu coração disparou e a alegria me envolveu na hora. Acariciei de leve seu


rosto e ele se sentou na poltrona em frente, tirando a gravata e largando-a a
seu lado. Perguntou, passeando o olhar por meu rosto:

– Como foi a entrevista?

– Ótima. Acho que vão me chamar.

– Não era para você estar mais feliz? Aconteceu alguma coisa?

Mordi os lábios, sabendo que devia falar logo para ele ou continuaria
atormentada.

O problema era arranjar coragem.

– Lorenza?

– Tenho que falar uma coisa, mas tenho certeza que você não vai gostar.

– Diga.
Fitei seus olhos cor de mel, ligeiramente semicerrados. Respirei fundo e disse
rapidamente:

– Quando saí da entrevista, fui almoçar em um restaurante e sua mãe veio


falar comigo.

Ele não se moveu. Seus olhos continuaram fixos nos meus. Contudo algo
mudou. Pude sentir uma energia ruim, pesada, parecendo nos envolver. Tentei
explicar:

– Eu não queria me meter, Miguel. Ela insistiu, pediu que apenas a ajudasse a
ter uma oportunidade de pedir perdão a você, de conversar. Não tive coragem
de...

– O que ela te contou? – Sua voz era extremamente fria. Seu olhar gelado me
arrepiou.

– Nada. Só queria que eu falasse com você que ela precisa pedir perdão e...

– Você a ouviu. Almoçou com ela?

– Não.

– Aquele dia em que ela veio aqui, eu não a deixei entrar. Você sabia disso. E
mesmo assim a ouviu, conversou com ela.

– Mas...

– Está aqui fazendo o que ela pediu. Intervindo a favor dela.

– Miguel, não é isso. – Larguei o pente na cama e o olhei implorante. – Ela é


sua mãe. E parecia tão desesperada! Não tive coragem de ser grosseira!

Ele se levantou, correndo os dedos entre os cabelos. A fúria era óbvia em seus
movimentos contidos, no modo como me olhou, como se me acusasse de algo.
– Você não deveria dar ouvidos ao que ela tinha a dizer. Sua lealdade tinha que
ser comigo. O que você queria, Lorenza? Descobrir os segredos sujos de
família? Ter algo para usar contra mim quando lhe conviesse?

– Meu Deus, não! – Eu me ergui rapidamente, desesperada. Fui até ele, mas
Miguel fez um gesto com a mão para que eu parasse, seu olhar de raiva e
desprezo me imobilizando. – Juro que não quis te magoar! Eu fiquei com pena
dela! Pensei que...

– Pena? – Ele riu sem vontade. – Sabe quem é aquela mulher? Sabe do que ela
é capaz? Guarde sua pena para si mesma!

– Por favor, Miguel, me perdoe. Não pensei que o deixaria assim! Não toco mais
nesse assunto. Se ela chegar perto de mim...

– Sabe o que eu acho, Lorenza? Que sempre tive razão quando só fodi com as
mulheres. É isso que dá deixar uma perto demais. – Sua fúria me deu medo.
Não que ele me machucasse fisicamente, mas da mágoa e da raiva em seu
olhar. – É melhor cada um seguir o seu caminho. Não quero você se metendo
em minha vida, ficando de conluio com aquela mulher contra mim!

– Não! Não estou contra você! – Estava tão desesperada que me aproximei dele
rapidamente, implorando com os olhos cheios de lágrimas. – Estou do seu lado!
Sempre! Não faça isso. Preciso de você! Peço perdão! Faço o que você quiser,
mas...

Miguel deu-me as costas. Quando vi que ele sairia do quarto, me deixaria,


entrei em pânico. Abracei-o fortemente por trás, chorando.

– Por favor, me escute! Por favor! Eu te amo! Não posso viver sem você.
– Lorenza, me solte.

– Não! Vou morrer se você me deixar! Miguel, eu faço o que você quiser! Eu...

Ele se virou bruscamente, agarrando meus dois pulsos com força, seus olhos
parecendo pegar fogo.

– Você me ama, Lorenza? Ama o quê? O homem rico que quis comprar você do
seu pai? Ou o dominador que deixou você presa em uma coleira? Você me
conhece?

– Conheço! – Gritei fora de mim, mal enxergando-o entre as lágrimas. –


Conheço o homem que me ensinou o que é prazer! Que me beija e me abraça
de noite! Que me fez a mulher mais feliz do mundo! Amo você! Sei que me
avisou que acabaria, mas se eu não tivesse falado com sua mãe, você não me
mandaria embora!

– Eu só adiaria o inevitável.

Ele largou meus pulsos. Mas não o deixei escapar. Abracei-o com força,
esfregando o rosto molhado em sua camisa, sem vergonha de implorar:

– Não posso ir. Não posso deixar você.

– Então eu vou.

– Não! Não me castigue desse jeito. Já perdi perdão. Eu te amo tanto!

– Escute uma coisa, Lorenza. – Miguel me segurou com força pelos ombros e
me afastou, fitando meus olhos. Nunca o vi tão furioso. – Você não sabe nada
de mim. Você não me ama.

– Eu amo! Amo muito!

– Mas eu não posso te amar. Não posso amar mulher nenhuma. Quer saber
porquê? Pergunte à amiguinha que você fez hoje! Ela vai explicar direitinho!
– Ela não é minha amiga! Não quero saber dela! Não quero saber de nada!

– Mas eu vou te contar. Não posso amar outra mulher, pois amo minha mãe.
Nenhuma mulher pode se comparar a ela. Nenhuma pode ter o meu amor. Ela
me estragou para as outras.

Fiquei imóvel, mergulhada nos olhos dele, chocada pelo que eu estava ouvindo.
Não podia ser aquilo. Eu deveria estar entendendo errado. Miguel sorriu de
leve, friamente. Ele me soltou, mas não se afastou.

– É isso, Lorenza. Gostou de saber? Quer que eu conte todos os detalhes sujos?

– Não, eu... Você quer dizer...

– Sim. Eu e ela fomos amantes. Por muito tempo.

Senti um baque na boca do estômago. Mas me mantive firme, sem ousar


vacilar na frente dele. Era isso que ele queria, me chocar, me fazer sair
correndo.

– Por quê?

– Por quê? – Ele se esticou, deu um passo atrás, passou novamente a mão pelo
cabelo. Estava nervoso, embora procurasse disfarçar. – Uma boa pergunta.

– Era o que você queria?

– Era. Eu a amo até hoje, com loucura. Ela avisou que eu não poderia viver
sem ela, que ninguém me amaria como ela me amava e que eu não conseguiria
amar ninguém. Acertou em cheio.

– Ela é sua mãe, você deve amá-la. Mas eu o amo mais do que ela, Miguel.
Sabe por quê? – Olhei-o sem vacilar. – Porque o que eu sinto não é para
magoar você. Porque ela lhe fez mal, ou você a receberia hoje em dia. Você pôs
fim em tudo, não é? E ela não quer deixar. Agora entendo. E continuo amando
você do mesmo jeito.

Miguel respirou fundo e de repente parecia muito cansado.

– Não quero mais falar desse assunto.

– Tudo bem. Mas por favor, me dê uma chance. Não me mande embora. Pense
um pouco, se acalme. Só peço isso.

Seus olhos dourados ficaram nos meus um bom tempo. Por fim ele disse baixo:

– Você ainda quer uma chance? Depois de tudo o que eu disse?

– Nada disso importa, Miguel. Eu continuo amando você do mesmo jeito.

– Preciso de um tempo.

– Tá. Mas me deixe ficar com você.

– Depois a gente conversa com calma.

Quando ele se virou, eu o deixei ir. Ao menos ele não me mandara embora de
imediato. Eu ainda tinha uma chance.

Mas foi só ele sair do quarto para eu cair de joelhos no chão, desesperada,
chorando sem controle. Sentia um misto de alívio, medo, choque, enquanto me
dobrava ao meio e meu corpo se sacudia com os soluços.

Nunca imaginei algo assim. Era pior do que tudo que já ouvi. Mãe e filho
amantes. E ele a amava, ele ainda a queria e lutava contra esse sentimento. Já
era alguma coisa. Significava que ele queria se livrar daquela relação
incestuosa, queria se ver livre dela.

Não quis pensar muito naquilo, pois o que mais me apavorou foi a
possibilidade real de perdê-lo. E eu não estava preparada para aquilo. Pensei
que fosse morrer. Nunca senti uma dor tão grande e devoradora na vida.
Quando consegui me controlar mais, me levantei e fui lavar o rosto. Pus uma
roupa, sandálias e quando senti que estava mais ou menos bem, saí do quarto.
Encontrei Amélia lá embaixo, passando para os fundos da casa.

– Amélia, sabe onde está Miguel?

– Ele saiu com Jonas.

– Obrigada.

Não consegui jantar nem me concentrar mais em nada, esperando por ele na
varanda. Já passava das onze horas da noite quando vi o carro chegando e
estacionando. Jonas saiu, bateu a porta e se dirigiu à lateral da casa.

– Jonas!

Ele parou e me olhou.

– Onde está Miguel?

– Ele voltou para São Paulo, senhora. Acabou de embarcar.

O desespero me engolfou de novo.

– Deixou algum recado para mim?

– Não.

– Obrigada.

Ele se afastou. Voltei como um robô para a varanda e me sentei na ponta da


cadeira, meu pensamento a mil por hora. O que aquilo significava? Ele me
deixou de vez? Ou foi para longe para pensar com mais calma? Eu nem
conseguia mais pensar. Só fiquei ali, com um medo atroz me remoendo,
sentindo-me completamente vazia sem ele.
Capítulo 17

Eu fiquei no inferno por dois dias. Miguel não deu notícias e não atendeu meus
telefonemas. Não comi, não dormi, não vivi. Perambulei pela casa, arrasada,
chorando, esperando. Fui chamada para me apresentar na empresa de
turismo, porém disse que estava doente e não fui. E estava mesmo doente, de
amor e desespero.

Não podia pensar em Maria Montês que me enchia de ódio. Como ela pudera
me pedir para intervir a seu favor, sabendo que era para tirá-lo de mim, que
era para continuar naquela relação doentia com o próprio filho? Cada vez eu
me convencia mais de que ela armou tudo para fazê-lo se enfurecer comigo,
como havia acontecido. Era um jeito de me tirar da jogada.

Na noite do segundo dia, fiquei na cama, cochilando, olhando para as paredes,


apavorada com medo que Miguel não voltasse mais. Lembrei-me do filme Em
algum lugar do passado e me senti como o personagem no final, morrendo de
saudade e de amor.

De madrugada, me recostei nos travesseiros, quase sentada, e deixei uma luz


suave acesa. Fiquei olhando para o nada, despenteada, sentindo-me fraca,
mais sozinha do que já me senti na vida. E foi assim que Miguel me encontrou,
quando entrou no quarto e parou na porta. Por um momento pensei que fosse
imaginação minha, fruto do meu desejo de vê-lo. Mas então nossos olhares se
encontraram e senti como se levasse uma sacudida. Só então voltei à vida, meu
coração bateu rápido, meu corpo se aqueceu.

Minha primeira reação foi a de levantar e correr para ele. Entretanto me


controlei a tempo, com medo de afastá-lo de novo. Assim, fiquei quietinha,
apenas olhando-o, enquanto ele terminava de fechar a porta e entrava devagar.
Eu me embebedei com sua presença. Apesar de continuar lindo e estar
elegante com calças escuras e camisa azul clara, ele parecia um pouco abatido.
Enchi-me de amor e ternura, e de vontade de abraçá-lo bem forte.

– Pensei que estivesse dormindo. – Sua voz saiu fria. Parou perto de uma mesa
de canto, largou suas chaves, celular e carteira. Não se dirigiu à cama, onde eu
continuava imóvel, acompanhando-o só com o olhar. Andou até a poltrona e se
sentou. Então seus olhos dourados encontraram os meus.

Senti as lágrimas subindo, mas me controlei ao máximo.

Falei rouca:

– Não consegui dormir. Você está bem?

Miguel não respondeu. Ficou só me olhando.

Segurei o lençol com força, muito nervosa. Tinha medo que ele me informasse
que realmente havia acabado. Eu não aguentaria.

– Senti sua falta, Lorenza.

Não acreditei em meus ouvidos. Então soltei o ar e senti as lágrimas descendo


livremente por meu rosto. Chutei com força o lençol para o lado e corri para
ele, me jogando em seu colo sem cuidado, abraçando-o com força, beijando
todo o rosto dele com desespero.

– Pensei que eu fosse morrer sem você, Miguel. – Sussurrei, passando as mãos
por seu cabelo, seu rosto, seus ombros, beijando em todo lugar que eu via,
agarrando-o. Miguel me segurou firme e me beijou na boca. Nós fundimos
nossa língua em uma dança louca de saudade, desespero e reencontro. Depois
de um beijo longo, gostoso, nós nos abraçamos e me enrosquei em seu colo,
com a cabeça em seu ombro.

– Vou contar tudo, Lorenza. Mesmo que deixe você chocada.


– Não vou ficar chocada. Nada do que disser vai diminuir o que sinto por você.

Ele suspirou, como se não acreditasse. Então começou a falar:

– Meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Ataque cardíaco fulminante.
Minha mãe ficou arrasada, quase morreu com ele. Mas tinha a mim, a cópia de
seu amado e falecido marido. Eu era seu único filho, a única pessoa que ela
tinha no mundo. Acho que ali começou sua obsessão comigo.

Acariciei seu peito ternamente. A voz dele saía impessoal, como se apenas
narrasse um fato. Porém eu via a veia em seu pescoço latejando, demonstrando
sua agitação interior.

– Eu passei a ser o centro do seu mundo. Não saía sem mim, não me deixava
muito tempo longe de sua vista, me beijava e abraçava toda hora. Eu era
completamente louco por ela, por seu cheiro, sua pele, seu carinho. Quanto
mais eu crescia, mas nos tornávamos unidos. Eu não percebia que havia algo
errado em nosso relacionamento. Achava normal, mesmo quando ela me
acariciava ou beijava muito. Ou quando pedia que eu a tocasse, cada vez mais
intimamente. Eu adorava aqueles momentos. Só ficava longe dela quando ia
para o colégio de meninos. Mas quando voltava, as carícias continuavam. Eu
dormia em sua cama e ela dizia o tempo todo que eu era lindo e que era o seu
amor.

Miguel se calou e respirou fundo.

– Nunca contei isso a ninguém, Lorenza.

– Por quê? Talvez alguém pudesse ter ajudado você, quem sabe um psicólogo.

– É uma coisa muito íntima. Acho que moldou o homem que me tornei. De
qualquer forma, quero contar tudo para você.

– Estou aqui. Vou ouvir o que quiser contar.


– Ela me ensinou a beijar na boca, a fazer sexo oral nela, a tocar em seus
lugares prediletos. Antes dos meus dez anos ela fazia sexo oral em mim. Hoje
se fala muito em pedofilia e pensamos logo em meninas sendo seduzidas e
estupradas por homens mais velhos. Até mesmo meninos violentados por
homens. Quase não se fala do estrago que uma mulher mais velha,
principalmente uma parenta, pode fazer com a cabeça de um garoto.

Meus olhos encheram-se de lágrimas novamente.

Eu odiei aquela mulher com todas as minhas forças.

– Era toda hora. Meu pênis ainda era pequeno e ela me mandava penetrá-la.
Fiquei viciado. Cresci fazendo de tudo com ela, tornando-me totalmente
dependente dela. Eu era seu único amante e ela dizia que era nosso segredo.
Então aquilo passou a me incomodar. Quando percebi que o nome que se dava
era incesto, que as religiões condenavam, que a sociedade excluía e que
nenhum dos meus outros amigos se relacionavam assim com suas mães,
comecei a ver com outros olhos. Quanto mais crescia, mais me convencia de
que era errado. E comecei a me afastar dela. Eu tentava, mas não resistia e
acabava sucumbindo. Vivia dividido entre o desejo e o amor que sentia por ela
e a repulsa de mim mesmo e do que fazíamos. Na adolescência tentei arranjar
namoradas, ela tinha ciúme, infernizava minha vida. E eu não conseguia
gostar de ninguém, voltava sempre para ela. Isso se tornou um círculo vicioso.
Passei a amá-la e odiá-la com a mesma intensidade. Ela implorava que
ficássemos juntos, que ninguém precisaria saber de nada.

Ele parou.

Eu continuei a acariciá-lo, arrasada pelo que ele contava. Aquela mulher só


podia ser louca. Como alguém abusava assim do filho? Como ela podia insistir,
sabendo como ele se sentia?
– Aos dezessete anos eu passei a lutar com mais afinco contra ela. Era um
inferno, uma tortura, mas consegui. Aos dezoito me tornei independente e
recebi a herança que meu pai deixou pra mim. Saí de casa, mudei de estado,
porém ela não se conformou.

Muitas coisas aconteceram. Ela ia atrás de mim, me seduzia, fazia ameaças,


tudo que você pode imaginar. No começo tive recaídas, mas aprendi a lidar com
ela. Tive muitas mulheres. Não me apaixonei por nenhuma, pois era
apaixonado por minha mãe. Uma loucura! Uma doença!

– Não da sua parte. – Afastei a cabeça para olhar para ele. – Você foi vítima. Ela
devia ter cuidado de você. Era adulta. Eu vi o quanto é linda e como pode
convencer uma pessoa, Miguel. E começou a abusar de você quando era uma
criança!

– Sei de tudo isso. Tive muito tempo para analisar o que aconteceu. Mas nada
diminui a culpa que sinto pelas vezes em que, já adulto, eu não resisti a ela.

– Há quanto tempo vocês não têm nada íntimo?

– Mais de catorze anos.

Fiquei surpresa e feliz.

Era mais do que eu imaginava.

– Ela nunca aceitou. Tentou se matar duas vezes e da última quase conseguiu.
Tomou tantos medicamentos que ficou em coma e seus dois rins pararam de
funcionar.

Felizmente um deles ficou bom, contudo o outro parou de vez. Nada disso me
fez voltar para ela. Vou mentir se disser que não a amo, que não a desejo. Ela
se infiltrou demais dentro de mim. Mas continuo lutando.
– Meu Deus, Miguel. Peço perdão por ter falado com ela. Se ao menos eu
imaginasse. . .

– Você não teve culpa. Ela tentou usar você, como sempre faz com as pessoas.
E tentou me usar também, para que eu odiasse você. Sabe por que, Lorenza?

Balancei a cabeça negativamente.

Ele olhava fundo em meus olhos.

– Porque ela deve ter percebido que com você é diferente. Você foi a única
mulher que conseguiu afastar minha mãe do meu pensamento. A cada dia que
passa você ocupa um lugar maior na minha vida e o dela diminui. Pensei que
fosse sufocar de tanto enlevo, tanto amor e tanta alegria. Tive medo de
acreditar. Tive esperança de que fosse realmente verdade.

– Quero que fique comigo, pois senti muito a sua falta. Porque quando penso
em uma mulher, é só em você. Não sei direito o que é isso. Eu me acostumei
tanto com a falta que sentia dela, que as outras mulheres apenas passaram na
minha vida. Mas agora só consigo desejar você.

– Hoje me sinto a mulher mais feliz do mundo. – Falei emocionada, chorando


de novo, mas agora de uma alegria estonteante. – Pensei que fosse morrer,
como aquele homem do filme Em algum lugar do passado. Eu amo você. E vou
fazer de tudo pra te fazer feliz.

Nós nos beijamos na boca com amor. Só então ousei acreditar que o que
tínhamos poderia dar certo, que todos os problemas poderiam se resolver se
ficássemos juntos. Acho que tudo aquilo tinha nos exaurido tanto que pela
primeira vez dormimos juntos, abraçados, sem fazer amor.
Capítulo 18

Nos dias seguintes senti que Miguel estava mais fechado e observador, como se
não soubesse bem como se comportar comigo agora que havia me contado uma
parte tão importante de sua vida. Ou talvez por ter admitido que gostava de
mim.

Tentei não pressioná-lo e ser paciente. Seguia minha vida, fazia novas
entrevistas de emprego, esperava ardentemente que ele pudesse voltar de sua
empresa para poder ficar com ele, conversar, abraçar, beijar e fazer amor. Nós
nos devorávamos na cama, cada vez mais ligados, viciados um no outro.

Na sexta-feira saímos de novo e dessa vez ele me levou em uma boate badalada
e cara de um amigo. Bebemos, dançamos música animada na pista cheia de
luzes e de gente, nos beijamos sem parar. Eu ri e me diverti muito. O amigo
dele, dono da boate, estava lá e veio cumprimentar Miguel em nossa mesa.

Era um homem atraente e loiro de trinta e poucos anos, que trazia uma mulher
pendurada em cada braço. As duas eram lindas, tipo modelos, com vestidos
curtos e cabelão. Deram-nos sorrisos e lançaram olhares gulosos para Miguel.

– Como sempre, você tem um gosto impecável, Miguel. – Sorriu Augusto Leal,
após ser apresentado a mim e se inclinar para me beijar no rosto. – Seja bem-
vinda, querida. Está gostando?

– Adorando. – Retribuí o sorriso. – É tudo perfeito!

– Pode ficar melhor. – Seu olhar era safado ao descer por meu corpo, antes de
se voltar para Miguel, envolver as duas moças pela cintura e falar. – Mais tarde
farei uma festinha particular. Podem se juntar a nós.

– Não, obrigado, Augusto. – Miguel sorriu, mas continuou com o braço ao redor
do meu corpo.
– Tem certeza?

– Absoluta.

– Entendo sua possessividade. – Augusto analisou-me com o olhar. – Mas se


mudar de ideia sabe onde me encontrar, amigo.

– Pode deixar.

Depois que eles se despediram e se afastaram, virei para Miguel e perguntei:

– Eu entendi bem? Ele nos convidava para uma orgia?

– Entendeu muito bem. – Seu olhar era divertido.

– Já fez isso?

– Claro. Um homem na minha posição acaba tendo muitas opções de


divertimento, Lorenza.

Fiquei um pouco chocada, mas também curiosa.

– Já transou com mais de uma mulher ao mesmo tempo?

– Sim.

– Com homens? – Prendi o ar.

– Não. – Ele acabou rindo. – Gosto um pouco demais de mulheres.

– E você já dividiu uma mulher com Augusto?

– Já, Lorenza.

– Mas hoje...

– Ninguém, além de mim, vai encostar em você. Tenha sempre isso em mente,
senão quiser me ver realmente furioso.
Olhei-o, satisfeita com sua posse, seu ciúme. Beijei seu queixo firme e
murmurei:

– Como posso sequer olhar para outro homem com você ao meu lado? Isso
nunca vai acontecer.

Voltamos para casa de madrugada. Eu estava um pouco tonta de tanto vinho e


só pensava em tomar um banho para clarear as ideias. Mas mal entramos no
quarto, Miguel me encostou na porta e começou a me beijar possessivamente
na boca. Eu o agarrei e beijei da mesma maneira, muito excitada.

Ele foi bruto. Rasgou minha calcinha. Abriu a própria calça e pôs o membro
para fora, já completamente duro. Tirou um preservativo do bolso, colocou-o
com pressa, enquanto sua outra mão abaixava as alças do meu vestido e ele
chupava meu mamilo. Gemi alto, agarrando seus cabelos, puxando sua cabeça
para meus seios, me esfregando nele.

– Porra, Lorenza. Preciso foder você. – disse rouco, segurando-me pela parte de
trás das coxas, erguendo-me toda aberta, metendo-se entre elas. Com um
movimento brusco, penetrou-me bem apertado, fazendo faltar ar em meus
pulmões, enquanto passava a me comer quase com fúria. Eu o segurei firme,
cruzei minhas pernas em sua cintura, movi meus quadris para acomodá-lo.

– Oh, que gostosa... – Ele me fodia brutamente, passava a chupar o outro


mamilo, socava forte dentro de mim. Então ergueu a cabeça e quase encostou o
nariz no meu, olhando dentro dos meus olhos, exigindo. – Diga, Lorenza.

– O quê? – Muito excitada, rebolei sob suas arremetidas. – Que sou


completamente sua? Que amo você?

– Porra! – E ele me beijou na boca, possessivo, meu dono, meu homem.

Quase gozei, pois estava gostoso demais.


– Nem pensar. Estamos apenas começando, gatinha. – E para meu desespero,
ele me soltou, saiu de dentro de mim e me fez pôr os pés no chão.

– Miguel...

– Vá para a cama e fique nua. Eu já venho.

Com pernas trêmulas, fiz o que ele disse, começando a me despir. Deitei nua
na cama, minha pele ardente, meu sexo latejante. Ele voltou com a maleta do
outro dia, que continha apetrechos sexuais. Meu ventre se contorceu em
expectativa.

Miguel se despiu, fitando-me com um sorriso pornográfico. Mordi os lábios,


olhando seu corpo apaixonadamente, desfrutando da visão espetacular que ele
me proporcionava.

Já estava pronto, ainda com o preservativo. Quando veio para a cama. Segurou
meus tornozelos e abriu-os bem, seu olhar acariciando minha vulva úmida e
inchada por suas estocadas anteriores. Apoiei os cotovelos na cama e fiquei
com as pernas bem abertas, olhando o que ele faria comigo.

– Linda. – Miguel abriu a maleta na cama e olhei curiosa, na expectativa. Muita


coisa ali eu não sabia o que era. Mas outras, dava para imaginar.

– São seus brinquedos? – perguntei baixinho.

– Não, são seus. Quero que se divirta bastante com eles.

Ele pegou o mesmo pênis de borracha do outro dia e mais um, pouco maior.
Revestiu calmamente os dois com camisinhas. Fiquei olhando-os e por fim
murmurei:

– Miguel...
– Você vai gostar, gatinha. Fique assim, quietinha, com as pernas abertas. E
não goze até eu mandar.

Era impossível ficar quieta. Eu já tremia sem parar, enquanto ele ajoelhava-se
entre minhas pernas, apoiava as mãos na cama ao lado de meus quadris e
começava a lamber minha vagina. Sua língua era dura, úmida e quente. Joguei
a cabeça para trás e arfei, meus cabelos caindo na cama, meus olhos
fechando-se involuntariamente de prazer.

Ele me lambeu toda, sensualmente. Em meus lábios vaginais, meu clitóris, por
dentro, sugando os líquidos que eu soltava, deixando-me completamente
excitada. E então, enquanto eu arfava e gemia sob sua boca, senti o pênis de
borracha começar a penetrar minha vagina, lentamente.

Os tremores de luxúria pura percorreram meu corpo e mordi os lábios para


não gritar. E Miguel me torturou assim, sua boca sugando meu clitóris, sua
mão empurrando e tirando o pênis de dentro de mim, deixando-me
encharcada, latejante, trêmula. Pensei que fosse explodir em um orgasmo, mas
então ele puxou o pênis e parou de me chupar.

Ergui a cabeça lentamente, lânguida, pesada, procurando-o com o olhar. Ele


tinha um tubo de lubrificante na mão e já voltava a fazer sexo oral em mim,
enquanto seu dedo molhado brincava com meu ânus. Sabendo o que me
esperava, senti o corpo reagir, já esticado de antecipação.

– Ai! Não vou aguentar... – Murmurei, enquanto ele penetrava lentamente o


dedo em meu ânus.

– Vai. Se você gozar, vou te castigar.

Aquilo só serviu para me excitar mais. Choraminguei e ele sorriu contra meu
clitóris, voltando a chupá-lo, metendo o dedo em mim. Eu lutava contra o
prazer, tentava não me mover, não respirar, não me entregar. E ele continuou,
agora com dois dedos, me alargando, me lubrificando bem.
– Por favor, Miguel. Por favor, pare de me chupar um pouco. Não vou aguentar!
Estou muito perto...

– Só um pequeno descanso. – Eroticamente, ele tirou os dedos e ergueu o


tronco, seus olhos escurecidos de lascívia. Mas a ideia de descanso dele era
diferente, pois pegou o outro pênis de borracha, passou lubrificante nele e
falou. – Fique quietinha. Vou preparar você para mim.

Nem que eu quisesse eu poderia me mexer. Continuei aberta, apoiada nos


cotovelos, fitando-o com olhos arregalados. Sem pressa, ele segurou o pênis
pela base, ajeitou-o em meu ânus e, sem tirar os olhos do que fazia, começou a
penetrá-lo com cuidado.

Perdi o ar e a voz. Tremi, arquejei. E aquele objeto me abriu aos poucos, entrou
lentamente, num misto de incômodo e prazer absoluto. Ele tirava e empurrava
mais, até que entrou tudo. Miguel parou um pouco, subiu o olhar quente por
meu corpo, fitou meus olhos. Sem uma palavra, segurou seu pau com a mão
livre e começou a se masturbar, enquanto iniciava a penetração lenta em meu
ânus.

Fiquei muito excitada, sem poder tirar os olhos dele. Amor, paixão, luxúria,
admiração, tudo me bombardeou naquele momento, prostrando-me perante
ele, deixando-me muito consciente de que meus sentimentos eram profundos e
eternos. Nada, nunca, me faria deixar de amá-lo, de desejá-lo.

– Está gostoso, Lorenza?

– Delicioso. Você vai me enlouquecer!

– Bom. Eu já estou louco por você.

Falou aquilo com firmeza, seus olhos nos meus. Fiquei nocauteada,
desamparada, atacada por sentimentos que pareciam me sufocar. Lágrimas de
enlevo vieram aos meus olhos, porém fiz de tudo para não derramá-las.
Miguel deixou o pênis de borracha bem agasalhado em meu ânus, então
deitou-se sobre mim, entre minhas pernas abertas, segurando seu pau na
entrada da minha vagina.

– Quer meu pau em sua bocetinha, enquanto está com outro no cuzinho,
Lorenza? Acha que aguenta?

– Sim. – Supliquei, num fio de voz. – Por favor.

– Toma, gatinha. Meu pau é todo seu. – E meteu-o lentamente em mim, me


abrindo bem com o membro enorme, seus braços enfiando-se por baixo das
minhas costas, me segurando com firmeza, seu olhar dentro do meu.

– Ai! Ah...

Arfei alto, sentindo como ficava muito mais apertado, parecendo impossível que
ele pudesse entrar sendo já tão grande e com meu ânus preenchido. Mas ele
entrou, deixando-me senti-lo em cada canto, esticando meus músculos ao
máximo.

– Quer mais?

– Eu... Ah...

E ele penetrou mais, muito duro, muito grosso.

Eu tremia, eu gemia e arfava. Buscava ar, mas só encontrava tesão. As


lágrimas desceram por meus olhos, eu pensei que não fosse aguentar tanta
pressão. E então ele entrou todo e se moveu, metendo aos poucos, fundo, me
mantendo cativa entre seus braços, se deliciando com minha vagina que o
apertava, que latejava sem controle. Beijou de leve meus lábios. Seus olhos
dourados, tão lindos e únicos, fixaram-se nos meus. Penetrava-me lentamente,
quando falou rouco:
– Você nunca será de outro homem, Lorenza. Seu corpo é todo meu. Sua alma
é minha. Seu amor é meu.

– Sim... – Murmurei, amando-o com todo meu ser, olhando-o enlevada.

– Eu te amo.

Arregalei os olhos, como se tivesse levado um soco. O olhar direto e firme dele
demonstrava que aquilo era único, especial, coisa que talvez ele só tivesse
falado para uma mulher em sua vida, aquela que abusou dele. Mas agora dizia
para mim. Enquanto seu corpo adentrava o meu, seu olhar fazia o mesmo. E
agora mais uma coisa nos ligava: o amor.

– Você me faz a mulher mais feliz do mundo. Eu te amo. – Sussurrei, sentindo


as lágrimas voltarem, completamente entregue e apaixonada. Completamente
realizada.

– Diga de novo. – Ele ordenou, passando a me comer mais duramente, sua mão
subindo e segurando meu rosto, seu olhar dominador e terno ao mesmo tempo.

– Eu te amo, Miguel. Meu Deus, como eu te amo!

E nos beijamos na boca, nossos corpos em uma dança louca, nossas almas
unidas. Seu pênis me devorou e então gemi, fora de mim, delirando, enquanto
ele me acompanhava, e nós nos tornávamos apenas um. Quando tudo acabou,
Miguel me acariciou e saiu de mim com delicadeza. Gemi, enquanto ele tirava o
pênis de borracha e ia ao banheiro se livrar dos preservativos. Voltou, tirou a
maleta da cama e se deitou ao meu lado, nós dois nus e saciados. Ficamos um
de frente para o outro, nos olhando.

– É verdade? – Murmurei.

– É.
– E... E ela?

– Já tinha tirado aquela mulher da minha vida fisicamente. Agora você me


ajudou a tirá-la de dentro de mim. Não posso esquecer uma hora para outra
tudo o que aconteceu. Mas vou aprender a conviver com isso.

– Vou te ajudar. Vou estar sempre com você.

– Eu sei. Vi seu desespero quando fui embora. Vi como você estava quando
voltei. E vejo amor quando você me olha, quando você se entrega.

Miguel acariciou suavemente meu rosto.

Eu estava muda, emocionada.

– Sou difícil, Lorenza. Vou querer você por inteiro. Toda pra mim.

– Isso você já tem.

– Vou querer sempre mais.

– E eu também.

Beijamo-nos com amor, com paixão, com ternura. Abracei-o com força e
agradeci. Não queria mais nada daquela vida. Eu era completamente feliz.
Epílogo

Eu estava sentada na minha cadeira predileta, larga e estofada, que ficava nos
fundos da casa que havia sido dos meus avós. Ali eu estava cercada de
sombras e flores, muitas das quais eu mesma plantei. Sempre gostei de plantas
e jardinagem se tornou meu passatempo preferido.

Nós tínhamos casas em vários lugares, até um apartamento em Paris.


Entretanto era ali que passei a maior parte da minha vida, o lugar onde fui
mais feliz. Casei com Miguel naquele jardim, criei nossos três filhos correndo
ali e era ali que eu estava agora, observando feliz enquanto minha neta caçula
corria pelo quintal com seu cachorrinho.

– Essa menina não para! – Exclamou minha filha Alice, de trinta e dois anos,
mãe da garotinha em questão. Estava sentada confortavelmente ao meu lado,
usando short e camiseta. Era alta, morena e muito bonita. De todos os nossos
filhos, era a única que saiu com os olhos dourados do pai.

Seu marido estava perto da churrasqueira, tomando cerveja e conversando com


meus outros dois filhos, João Inácio e Pedro. João era o mais velho, com trinta
e nove anos. Pedro era o do meio, com trinta e seis. Quando tivemos dois
meninos, Miguel quis tentar uma menina. Alice foi seu xodó desde o início,
mimada além da conta. Felizmente eu estava lá para equilibrar as coisas. No
final, ela cresceu uma garota maravilhosa.

Estávamos completando quarenta anos de casamento, mas não quisemos


festa. Só nossos filhos e netos ali, em um churrasco familiar, na nossa casa.
Dentro da piscina, meus outros netos riam e brincavam. João tinha os gêmeos
Marcus e Antônio, de treze anos. Pedro tinha só meninas, Clara, Laura e Olívia,
de doze, nove e sete anos. Alice tinha só Catarina, de quatro anos, que corria
atrás do cachorrinho.
Eu os amava com loucura, todos eles. Pensei como a vida foi boa para mim,
como fui e era muito feliz. É claro que tínhamos problemas, como todo mundo.
Agora mesmo João enfrentava um divórcio complicado e estava arrasado. Pedro
tinha tido leucemia, quando pequeno. Felizmente ficou curado. Mas estávamos
sempre juntos, unidos pelo amor.

Miguel veio de dentro de casa, trazendo uma bola para entregar à Catarina,
que não parava de pedir para brincar de futebol com ele. Rapidamente ela
esqueceu o cachorrinho e correu eufórica para brincar com o avô.

Eu o olhei enlevada. Aos setenta e quatro anos, ele continuava lindo. Seus
cabelos densos estavam quase que completamente brancos, ele estava mais
robusto, porém continuava másculo, forte, com aqueles olhos dourados que
eram os meus prediletos no mundo.

Eu sempre tive certeza de que o amaria pelo resto da vida. Enfrentamos juntos
todos os problemas, nunca nos separamos. No início, sua mãe bem que tentou.
Ela se desesperou quando viu que realmente ficamos juntos, quando nos
casamos. Fez ameaças, disse que se mataria, tentou de tudo. Nós a ignoramos.
Por fim, ela morreu sozinha, em um hospital. Entretanto Miguel a perdoou
antes de morrer. Visitou-a, mas ela continuava obcecada por ele. Morreu sem
admitir seu erro, dizendo que o amava, que ele não amaria mais ninguém.

Mas ele me amou. Muito. Amou os filhos e os netos. Refez sua vida e deixou o
passado para trás. O cachorrinho correu entre as pernas de Miguel e de
Catarina, fazendo-os rir. Olhei para a coleira no pescoço dele e murmurei:

– E pensar que tudo começou com uma coleira.

– O que, mamãe?

Alice se virou para mim.

– Nada. – Sorri.
Quando olhei de novo para Miguel, ele olhava para mim e sorria.

Fitei seus olhos dourados com amor e sorri de volta.

O que mais uma pessoa poderia querer da vida?

FIM