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PORTUGAL, 19-74

A revolução portuguesa em I974 começou como uma revolta contra as guerras in-
termináveis para conservar as colônias africanas, que a ditadura sustentava já fazia
cinquenta anos. Os Estados Unidos temiam que os jovens oficiais rebeldes levassem
Portugal para o rumo comunista, mas o povo português ansiava em romper com déca-
das de isolamento autoimposto nas mãos da ditadura de diréita desde 1926 e rejeitava
uma guinada para a esÍera soviética. Em vez disso, Portugal tornou-se o primeiro país
europeu a fazer a transição da ditadura para a democracia como parte de ter acesso à
Comunidade Europeia.
Por boa parte do século XX, um só homem, Antonio salazar, governou portugal. Em
7926, quando foi nomeado ministro das Finanças, Salazar efetrvamente tornou-se o
chefe do regime ditatorial, exercendo vasta influência sobre o resto do governo, que
comandou formalmente de 1932 até 1968.
Salazar dirigia um regime fascista brando até onde seu assim chamado Estado Novo
permitia partidos políticos, promovia corporativismo na economia e reprimia brutalmen-
te políticos ou sindicalistas dissidentes. Seu regime nada tinha do populismo da ltália
fascista ou da Alemanha nazista, nem os comícios-monstros que até mesmo Franco
permitia na Espanha. Foi uma ditadura silenciosa, embora pudesse ser cruel com os
adversários, e sufocava a livre expressã0.
Portugal de Salazar alinhou-se com os Aliados na Segunda Guerra Mundial sem real-
mente combater a Alemanha nazista, de modo que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha
trataram o país favoravelmente após 1945. Como um baluarte contra a expansão do
comunismo, não só em casa mas também no extenso império português da África e em
lugares tão longínquos quanto ïmor Leste, o regime salazarista era um valioso senão
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novo aliado ocidental na Guerra Fria.0 arquipélago dos Açores fornecia aos Estados
Unidos uma base valiosa no meio do Atlântico.
Quando a idade o abateu, Salazar passou o poder em 1968 e morreu em 1970,
época em que seu regime estava visivelmente decadente. Seu sucessor, Marcelo Cae-
tano, não tinha carisma e era incapaz de satisfazer o descontentamento crescente com
o sistema.

cÍlroilns ÂFRrcÂÌrAs sE REBETÂM

Por volta de 1970, lnglaterra e França tinham dado independência a todas as suas
colônias, exceto umas poucas, enquanto Portugal continuava a governar territórios muito
maiores do que o seu próprio. A única parte do império português perdido sob a ditadura
foi a cidade portuária do encrave de Goa, que a índia tomou em 1961. O Portugal de
Salazar não podia lutar contra a índia, mas estava determinado a manter seu vasto im-
pério africano, Começando em fevereiro de 1961, o Movimento Popular pela Libertação
de Angola (MPLA) iniciou uma luta pela independência inspirada pelo fim do domínio
belga novizinho Congo, estabelecendo uma cadeia de rebeliões pelo país. Em setembro
de 1964, a Frelimo, o movimento marxista de libertação de Moçambique, iniciou uma
campanha de guerrilha contra o governo português.

Em um pronunciamento
de 1961, o presidente
Salazar fala sobre Goa,
uma colônia portuguesa
na costa ocidental
indiana, que a Índia
conquistou sem luta.
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Embora o general Spinola, com seu monóculo, fosse um herói popular como o adver-
sário de mais alta patente do velho regime e fosse proclamado presidente provisório, na
prática eram oficiais bem mais jovens que controlavam o novo regime emergente.
0 sucesso fulminante do golpe significava que todos os tipos de perguntas sobre
aspectos futuros mal tinham sido analisados. Que tipo de país seria Portugal agora que
a ditadura desabara? Seguiria os modelos da Europa Ocidental ou tenderia mais para
o Terceiro Mundo, como Cuba, por exemplo, optando por romper com as democracias
ocidentais que haviam hipocritamente apoiado a ditadura portuguesa como uma aliada
da OTAN?
Uma coisa estava clara não havia mais disposição de travar guerras coloniais.
-
Muito embora Spinola tivesse sido um implacável comandante antiguerrilha na África e
esperasse chegar a um acordo com os movimentos de libertação para pôrfim à guerra,
ele acatou a decisão de abandonar o império português na África em julho de 1974. O
desmantelamento da herança colonial de quatrocentos anos nos poucos meses seguin-
tes levou a uma fuga em massa de centenas de milhares de colonos, e até de uns poucos
colaboradores negros, de Angola e Moçambique,
De fato, Portugal teve um influxo numa base per capita cerca de cinco vezes maior
do que a migração em massa dos pieds noirs (colonos franceses vivendo na Argélia)
da Argélia para a França em 1962. Absorver este influxo acarretou enormes problemas
econômicos para Portugal após 1975; espantosamente, isto foi consumado apesar do
levante doméstico si mu ltâneo.
De muitas maneiras, a revolução contra o velho regime precedeu sintomas visíveis
de inquietação social e econômica. O aparelho repressivo do sistema de Salazar havia
mantido sob controle firme o operariado e o campesinato descontentes. Após a "revolu-
ção dos cravos" houve uma rápida escalada de greves.
A Junta, ou Conselho de Salvação Nacional, que foi formada para governar Portugal
depois de 25 de abril, constituía-se de sete oficiais e estava longe de ser conservadora.
Os militares sob este Conselho assumiram o controle de todas as decisões políticas. 0s
tribunais ficavam subordinados aos militares em casos onde era alegado crime "con-
trarrevolucionário". Na verdade, o grau de controle militar estendia-se muito além das
funções governantes normais, abarcando uma infinidade de questões
- até mesmo a
designação de um oficial do Exército para representar Portugal no Festival da Canção
da Eurovisionl
Confisco de terras, em especial no sul do país em 7974, despertou o espectro
da abolição da propriedade privada, Embora muitas ocupações de fazendas e fábri-
cas fossem talvez espontâneas e conduzidas pelo povo local contra empregadores
associados ao velho regime, os comunistas e alguns oficiais do Exército defendiam
DAS REVOLUçÕES I T79

abertamente um programa radical de nacionalização da terra e de muitas empresas


industriais e comerciais. Para alguns parecia que o programa associado com o governo
Allende no chile, antes do golpe lá ocorrido, pudesse ser, em vez disso, implementado
em Portugal.

PRtÍtcupAçÃÍl 0ctllEilïAt cÍlil 0 c0ÍilulilsMÍl

Quando o líder do Partido Comunista, Álvaro Cunhal, retornou do exílio na União


Soviética para assumir um ponto no governo provisório em maio de 7974, os aliados de
Portugal na OTAN se alarmaram. Os Estados Unidos estavam preocupados com que a
revolução levasse a uma tomada comunista de Portugal. 0 secretário de Estado Henry
Kissinger, abertamente, e a ClA, por trás da cena, manipularam todos os cordões dentro
da OTAN, da qual Portugal fora membro durante anos, para influenciar os acontecimen-
tos no país.
0s norte-americanos temiam que, depois de abril de r974, o governo português
fosse incapaz de evitar uma guinada para posições mais radicais. Kissinger disse acida-
mente a Mário Soares, o líder social-democrata: "Você é um Kerensky. Creio na sua sin-
ceridade, mas você está sendo ingênuo." Quando Soares replicou: "Claro que não quero
ser um Kerensky", Kissinger arrematou: "Nem Kerensky queria." (Aleksander Kerensky
foi o primeiro-ministro democrata de curta duração na Rússia antes de Lenin tomar o
poder em novembro de 1917.) Mas, na realidade, Soares estava vencendo em portugal.
Embora os comunistas e seus aliados tivessem usufruído de uma repentina valoriza-
ção após a queda da ditadura, muitos portugueses não queriam ir de um extremo a ou-
tro. Duas gerações de quase isolamento da Europa Ocidental significavam que a maioria
do povo ansiava por não perder a chance de maior integração com a Comunidade Econô-
mica Europeia (CEE), cuja prosperidade muitos tinham avaliado em primeira mão, quer
como supostos trabalhadores ou estudantes convidados em países da CEE, quer vendo
turistas da CEE em Portugal. Um grupo influente de intelectuais e de jovens militares
radicais poderia estar enrabichado pelo modelo soviético, mas o povo português comum
buscava melhorias em sua vida e direitos garantidos em países mais à mão.
O dinheiro americano e alemão ocidental, mais notavelmente dos social-democratas
da Alemanha Ocidental e dos seus sindicatos aliados (e menos publicamente da CIA), ia
para o partido de Soares e seus aliados. Descontentamento com o apoio alemão ociden-
tal a Soares foi um fator no incêndio da embaixada alemã em Lisboa e refletia a aliena-
ção crescente sentida por muitos portugueses que temiam que atividades esquerdistas
pudessem afastar o país das normas da Europa Ocidental.
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A CEilTR0-ES0UERDA GAilHA ÂS ErErçoES

Nas eleições parc a Assembleia Constituinte no aniversário da revolução, os comu-


nistas obtiveram apenas 1/B dos votos. 0 Partido Socialista Português ganhou 38% e o
Partido Social-Democrata obteve mais de 1/4 dos votos, dando à aliança centro-esquer-
da uma nítida maioria na Assembleia Constituinte. Quase 90% dos portugueses adultos
votaram, apesar da campanha feita por militares radicais para promover a abstenção
como um meio de impedir uma vitória dos moderados. O Manifesto das Forças Armadas
original à época da revolução comprometera o Exército a realizar eleições para uma
Assembleia Constituinte dentro de um ano. Embora elas caíssem no aniversário da re-
voluçã0, isto foi menos simbólico do que um sinal de que os radicais adiaram a votação
até a última data possível sem quebrar a promessa de realizá1a.
Apesar da alta afluência de eleitores e da vitória de centro-esquerda, os radicais de
esquerda não renunciaram às suas ambições revolucionárias. Cunhal, o líder do Partido
Comunista, declarou à imprensa: "Se vocês acham que o Partido Socialista, com seus
4O7o, e a Democracia Popular, com seus 27Y", constituem a maioria (...), vocês são
vítimas de um mal-entendido (...), as eleições pouco ou nada têm a ver com a dinâmica
de uma revolução." Cunhal chegou até a prometer: "Não haverá nenhum Parlamento
em Portugal."
A perspectiva do líder comunista era partilhada por alguns oficiais radicais do Exér-
cito, mas a escala do resultado da eleição e a derrota da esquerda levaram muitos ex-ra-
dicais a aceitar a legitimidade do parlamento recém-eleito, mesmo quando desafiados

Soldados do MFA
comemoram após a
tomada dos prédios
públicos e instalações de
rádio e TV, num golpe sem
denamamento de sangue,
26 de abril de 1974.
O LIVRO DE OURO DAS REVOLUçÕES I 181

pelo Conselho Revolucionário Militar. Um recuo tentado pela esquerda radical no outono
de 1975 desmoronou ignominiosamente, permitindo que Soares mudasse a política
econômica até mesmo mais afastada da nacionalização apoiada pelos comunistas. Na
eleição geral de abril de I976, a votação confirmou o resultado do ano anterior e os
comunistas ficaram confinados às margens da política parlamentar.
0utro obstáculo potencial à transição de Portugal para a democracia foi a vizinha
Espanha franquista. Alguns adeptos intransigentes de Salazar haviam esperado a inter-
venção da Espanha para reprimir a revolução portuguesa, mas o idoso ditador espanhol
nada Íez. Em setembro de 1975, provocadores supostamente da esquerda radical pu-
seram fogo na embaixada espanhola em Lisboa, depois que o premiê pró-comunista
coronel Vasco Gonçalves foi exonerado, mas a Espanha continuou passiva e o processo
democrático em Portugal prosseguiu.

A il0vA c0r{sTtTUtçÃ0 ltEilt0cRÁilcA

Soares usou a mudança no poder para promover uma nova constituição que procla-
masse os valores liberais clássicos em vez das questões sociais e econômicas exigidas
pela esquerda radical. Todavia, foi somente em 1982 que os direitos residuais do con-
selho militar para interferir na política foram abolidos, embora, na prática, o Exército
tivesse saído de cena anos antes.
Embora na ocasião parecesse que a revolução portuguesa pudesse levar a um desafio
radical as normas da democracia parlamentar e de economia de mercado da Europa gci-
dental, de fato, no início da década de 1980, portugal havia se tornado um modelo da
transição democrática para outros regimes ditatoriais, especialmente na América Latina.