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RAUL RYFF E MÁRIO LAGO As homenagens da BETINHO O ex-Presidente Lula tira o chapéu para o

ABI a dois destacados militantes do progresso social criador do programa de combate à fome e à miséria
PÁGINAS 12, 13, 14, 18, 19, 20 E 21 PÁGINAS 30 E 31

Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa


Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

369
A GOSTO
2011

Um grande e minucioso inventário sobre a participação da imprensa alternativa nas lutas contra
a ditadura militar acaba de vir a público em São Paulo, mostrando o heroísmo com que
jornalistas e outros segmentos da sociedade civil sustentaram as idéias libertárias afinal vitoriosas.
PÁGINAS 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 E EDITORIAL NA PÁGINA 2

PÁGINAS 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12 E 13

LYGIA TELLES DESAFIOU A MORTE DA JUÍZA REVELA QUE O ESTADÃO SOB A ROLHA DA GRUPO GLOBO DEFINE SEUS
CENSURA DE BUZAID CRIME IGNORA LIMITES CENSURA HÁ DOIS ANOS PRINCÍPIOS EDITORIAIS
EX-INTEGRALISTA, ELE ASSUMIU O MINISTÉRIO A CORAGEM DE PATRÍCIA ACIOLI NAS SENTENÇAS O STF É CÚMPLICE DESSA GRAVE LESÃO À DISCUSSÃO INTERNA ELABORA NORMAS PARA
DA JUSTIÇA COM O PROPÓSITO DE VETAR TUDO. CONTRA O CRIME ORGANIZADO ARMOU O CARTA QUE ULISSES G UIMARÃES CHAMOU DE UM PADRÃO DE TÉCNICA JORNALÍSTICA E DE
MAS ELA DENUNCIOU AS TORTURAS. PÁGINA 10 BRAÇO DE SEUS ASSASSINOS . PÁGINA 28 "CONSTITUIÇÃO C IDADÃ ". PÁGINAS 26 E 27 POSTURA ÉTICA . P ÁGINAS 22 E 23
Editorial DESTAQUES DESTA EDIÇÃO
03 Especial - A imprensa que não perdeu a
capacidade de se indignar

A HISTÓRIA QUE FICA


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10 Resistência - Sem temer Buzaid, Lygia


denunciou a tortura no auge da ditadura Médici
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11 História - Memórias amargas, por Rodolfo Konder


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A PRESENTE EDIÇÃO DO Jornal da ABI cele- ponsabilidade pelo atraso do País em diferen- 16 Ressurreição - Renascente, o Pen Clube
reage à fragilidade da atividade de escritor
bra um dos momentos mais ricos da História da tes campos, entre os quais o aprofundamen- ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Imprensa no Brasil, o qual é também, parado- to de uma desigualdade social de que ainda 18 Centenário - Mário Lago: O homem que
não fugiu do tempo
xalmente, aquele em que a atividade jornalísti- não nos libertamos. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

ca mais dificuldades enfrentou nestes mais de 21 Mobilização - Luta anticorrupção vai às ruas
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dois séculos em que se editam periódicos entre É ESTIMULANTE ASSINALAR que, sob o pálio 22 Novidade - Globo abre o debate público
nós. Esse momento é o do surgimento e funci- das liberdades afinal restauradas, a valorização sobre o papel e a ética do jornalismo
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onamento da chamada imprensa alternativa, desse momento da nossa imprensa é promovi- 32 Renovação - A agência da infância é revista
produzida em condições extremamente adver- da com esmero e competência por importantes e ampliada
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sas, para a defesa de idéias que correspondiam instituições da sociedade civil, como o Institu- 35 Enigmas - Jornalista argentino está
ao melhor interesse nacional e à necessidade de to Vladimir Herzog, que, honrando a memória reescrevendo a História
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transformação do quadro de brutalidades e ini- desse mártir da luta libertária, promoveu o in- 38 Documentário - Roberto Marinho, num dvd
qüidades impostas ao País desde a deflagração ventário do que se fez nesse campo de contes- sem apologia nem censura
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do golpe militar de 1º de abril de 1964. tação da ditadura, através do levantamento e 40 Livros - A redescoberta de Mariátegui
edição de materiais preciosos, como os resul-
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SEÇÕES
DESPROVIDOS DE RECURSOS econômicos e tantes da realização do Projeto Resistir é Preciso, 0 A CONTECEU NA ABI
suportes materiais, os responsáveis por esse ex- que, como se verá na nossa principal matéria de 12 Os 100 anos de Raul Ryff, uma referência
traordinário fenômeno da vida política e cultu- capa, mostra os protagonistas da história da im- como exemplo de vida
ral do País, homens e mulheres de variada ori- prensa alternativa, clandestina e no exílio, no
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15 Pioneirismo de Nelson Werneck realçado


gem social e de diferentes concepções e vincu- período 1964-1979 (do golpe à Anistia), sua his- em ato marcado de emoção
lações políticas, filosóficas e religiosas, movidos tória, seus padecimentos, o fruto de sua atuação.
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16 Advogados da União aliam-se à ABI contra


pela ânsia de recuperação da liberdade que lhes a censura prévia
fora arrebatada, encontraram no meio social, a É IGUALMENTE RELEVANTE consignar que essa
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26 LIBERDADE DE IMPRENSA
despeito das condições adversas, o apoio neces- notável realização do Instituto Vladimir Her- A censura prévia ao Estadão fez dois anos
sário para assegurar a continuidade da resistência zog contou com o apoio de destacadas insti-
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DIREITOS HUMANOS
à ditadura e sua superação. tuições do Poder Público, como o Memorial da 28 Para o crime, agora vale tudo
Resistência de São Paulo, o Governo de São Paulo
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29 “É possível apurar já os crimes da ditadura”


NÃO FOI ESSE UM ESFORÇO comum. Sob o e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, e
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30 Lula tira o chapéu para Betinho


guante da repressão, suas violências, suas ame- o patrocínio da Petróleo Brasileiro S.A.-Petro- ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

VIDAS
aças, sob o cerco permanente em que era man- bras. Com sua saga, a imprensa alternativa con- 42 Abrahão, o prazer da narração
tida a cidadania, era preciso coragem, criati- tribuiu para que se produzisse essa mudança ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

43 Cláudio Melo e Sousa, o esteta da palavra


vidade, capacidade de articulação e cautelas radical: o Estado nacional perdeu seu caráter ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

em ações que o regime não tolerava. Suas vir- repressor e se tornou um instrumento podero- 44 Rodolfo Fernandes, o príncipe
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tudes cívicas desembocaram na materializa- so de apoio à luta pela construção de um Brasil 46 Procópio Mineiro, o jornalista que não se
ção daquilo que derrotaria a ditadura: a pala- melhor. É essa História que fica da presença da rendeu à Proconsult
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vra de denúncia de seus crimes, de sua res- imprensa alternativa na vida nacional. 47 Riomar, um mestre

Jornal da ABI
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Número 369 - Agosto de 2011 Mazola Froes de Castro, Germando de Oliveira Gonçalves, Ilma Martins da Silva, José
Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak
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Diretora de Jornalismo: Sylvia Moretzsohn
Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Conselheiros Suplentes 2009-2012
Edição de textos: Maurício Azêdo CONSELHO CONSULTIVO 2010-2013 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro
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André Gil, Conceição Ferreira, Guilherme Povill Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Raimundo Coelho
Vianna, Maria Ilka Azêdo, Ivan Vinhieri, Mário Luiz de CONSELHO FISCAL 2011-2012
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Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas Epelbaum. Carlos Felipe Meiga Santiago, Carlos João Di Paola, José Pereira da Silva
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O JORNAL DA ABI NÃO ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE L ÍNGUA PORTUGUESA, COMO ADMITE O D ECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008.

2 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


ESPECIAL

MONTAGEM FRANCISCO UCHA


A IMPRENSA QUE NÃO PERDEU
A CAPACIDADE DE SE INDIGNAR
Lançado pelo Instituto Vladimir Herzog, o projeto Resistir é Preciso
pretende resgatar a memória da imprensa alternativa, clandestina e no exílio,
do golpe à anistia. Uma história literalmente escrita com riscos,
em gráficas improvisadas e sob perseguição implacável do regime.
P OR M ARCOS S TEFANO

Abril de 1973. O clima no Brasil era de tensão metido. Os jornais foram proibidos de dar mais es- mostrei o desenho ao censor. Ele aprovou”, con-
total e a agitação política, uma das maiores desde clarecimentos sobre o assunto. Para alguns, até falar ta Elifas Andreato, então Diretor de Arte do jor-
que os militares tomaram o poder, nove anos an- sobre a missa celebrada em sua memória, na Ca- nal. O detalhe é que a prova revisada era em pre-
tes, instaurando a ditadura no País. No mês ante- tedral da Sé, pelo Arcebispo de São Paulo, Dom to e branco, mas, na hora da impressão, a gráfica
rior, o estudante de Geologia da Universidade de Paulo Evaristo Arns, e que contou com a presença colocaria uma cor a mais na capa. Quando pegou
São Paulo, Alexandre Vannuchi Leme, fora preso de mais de cinco mil pessoas, muitos artistas, lí- o jornal impresso na boca da máquina, o censor
pela Operação Bandeirantes por causa de sua mi- deres sindicais e estudantis que protestavam contra levou um susto: o manto de Dom Paulo Evaristo
litância na Ação Libertadora Nacional-ALN. E só o regime, era fora de questão. Arns aparecia justamente na cor que mais causa-
saiu do Doi-Codi morto. Primeiro, as autoridades Com o jornal Opinião não era diferente. Mas va arrepio aos militares: o vermelho.
disseram que o jovem fora atropelado por um ca- mesmo censurada, a publicação daria um jeito de “Ele se sentiu traído porque não sabia dessa
minhão, quando tentava fugir. Depois, que teria noticiar o que houve com a sempre usual criativi- cor a mais. Não adiantou explicar que o manto
se suicidado com uma lâmina em sua cela. dade. Para escapar dos vetos, os textos não cita- que os cardeais usam é vermelho. Ele mandou parar
Nenhuma das versões convenceu. A desconfi- vam o nome de Leme. E para a capa, nada melhor tudo. Queria apreender o jornal e me estapear”,
ança geral, quase certeza na verdade, era que ele do que a imagem do Cardeal, um símbolo de paz. completa Andreato, que teve de correr para não
morrera devido às bárbaras torturas a que fora sub- “Fiz a ilustração com os traços de Dom Paulo e apanhar do irado censor.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 3


ESPECIAL A IMPRENSA QUE NÃO PERDEU A CAPACIDADE DE SE INDIGNAR

FRANCISCO UCHA
A
história soa quase surreal, mas
é apenas uma entre muitas ou-
tras que fazem parte da coleção
Os Protagonistas desta História, Três apaixonados
formada por 12 dvds com os pela história
da imprensa
depoimentos de jornalistas que
clandestina e
fizeram a imprensa alternativa, clandesti- perseguida no
na e no exílio. Aquela que resistiu e comba- Brasil: Vladimir
teu a ditadura militar entre 1964 e 1979, do Sacchetta, Editor
golpe à anistia. Para conseguir o material, o de Pesquisa,
Instituto Vladmir Herzog selecionou e Ricardo Carvalho,
entrevistou 60 profissionais, a maior par- Editor de Conteúdo
te num período de três meses, no começo e José Luiz Del
deste ano. Nomes de peso como Raimun- Roio, Editor de
do Rodrigues Pereira, um dos idealizado- Contexto do
projeto Os
res dos jornais Opinião e Movimento; Omar
Protagonistas
de Barros Filho, o Matico, que junto com desta História.
Marcos Faerman, produziu Versus; os dese-
nhistas Laerte, com importante participa-
ção na imprensa sindical, Ziraldo, uma das
colunas do Pasquim; e Ana Arruda Callado,
Editora de O Sol, celebrizado nas bancas de ções como o jornal Unidade, do Sindica- Público do Estado de São Paulo e o Arqui- previamente entre 1972 e 1975; a revis-
revista pela música de Caetano Veloso. Ape- to dos Jornalistas de São Paulo, o Coojor- vo Público da Cidade do Rio de Janeiro. ta Veja só escapou em dois períodos: 1968
nas para ficar entre alguns deles. nal, primeira grande experiência de coo- As próximas etapas do projeto incluem a e 1976; a Tribuna da Imprensa não teve a
“É uma lista ampla, mas poderia tran- perativa de jornalistas no País, realizada publicação de livros, lançamento de um mesma sorte e conviveu com as proibi-
qüilamente ser três vezes maior. Só não no Rio Grande do Sul, e o próprio Jornal portal na internet, produção de documen- ções sem trégua durante dez anos. Reali-
foi porque, a princípio, tivemos que fazer da ABI. Infelizmente, na véspera de seu tários e realização de exposições. dade, a revista das grandes reportagens,
uma seleção por motivos óbvios de espa- depoimento, o Presidente Maurício Azêdo, “Uma contribuição necessária à verda- chegou a ter uma edição inteira apreen-
ço. Dessa forma, adotamos critérios para ativo participante de vários jornais clandes- de. Começamos a dá-la com o recorte nos dida por conta de uma pesquisa sobre
escolher os participantes, como abrangên- tinos e alternativos no período, ligou para jornalistas. Por quê? Porque eles foram sexualidade. Já o Jornal do Brasil aprendeu
cia mais nacional das publicações, títulos dizer que não poderia dar seu testemunho personagens centrais durante os anos a trabalhar com o eufemismo para retra-
mais importantes – e aí me refiro aos con- porque se recuperava de uma gripe muito mais difíceis da repressão. Sem eles, o tar o clima no País. Assim, ao lado da
teúdos publicados, longevidade e sucesso forte. Assim que possível, queremos tomar cerne da história, a imprensa alternativa, manchete sobre o AI-5 e da reportagem
com leitores –, e equilíbrio entre as diversas seu depoimento e divulgá-lo no portal do simplesmente não existiria. Diferente que se limitava a destacar a movimentação
correntes políticas, impulsionadoras de Instituto por causa da importância de sua das grandes empresas, os veículos meno- nos quartéis do Rio de Janeiro e a mobili-
grande parte dessa ação da imprensa”, biografia”, diz Carvalho. res não representavam consolidadas ins- zação das diversas polícias, um quadrinho
destaca Ricardo Carvalho, Editor de Con- Um dos alvos do Instituto Vladimir tituições”, completa Ivo Herzog. informava que, na véspera, fora o “Dia dos
teúdo da obra. Foi ele quem tomou os de- Herzog com a ação é tornar conhecidas as Cegos” e outro previa “tempo negro, com
poimentos, sempre ao lado do Editor de memórias de um tempo que muitos prefe- CLANDESTINA DE BERÇO temperatura sufocante e ar irrespirável”.
Contexto, José Luiz Del Roio, do Editor de riam esquecer. Tanto que se compromete Quando surgiu no Brasil, em 1808, a Segundo a previsão, o Brasil era varrido por
Pesquisa, Vladimir Sacchetta, e da histori- a enviar a íntegra dos depoimentos gratui- imprensa já era clandestina. Para confir- ventos fortes e a temperatura em Brasília
adora Juliana Sartori. Em alguns momen- tamente a quem pedir. Acompanhar horas mar isso, basta lembrar do Correio Brazi- seria máxima, com 38º C. Já nas Laranjei-
tos, o grupo também esteve acompanhado e horas de relatos de sofrimentos e abusos liense, que nasceu no exílio, impresso em ras, mínima. Apenas 5ºC.
pelo jornalista Carlos Azevedo, também pode ser difícil, mas pior é não ouvir e fingir Londres, e circulou por aqui contra a Verdade seja dita, esse tipo de atitude era
um personagem dessa história. que acontecimentos tão decisivos simples- vontade das autoridades. Não muito tem- exceção, e não norma. Por isso, muitos jor-
O que se assiste nos dvds é um conjun- mente não existiram. po depois, em 1822, João Soares Lisboa nalistas logo perceberam que já não teriam
to de depoimentos nostálgicos e chocan- “Começamos a recuperar essa memó- criou o Correio do Rio de Janeiro e usou a mais espaço nos veículos tradicionais.
tes. Relatos de pessoas que nunca tiveram ria no ano passado, quando lançamos em imprensa para defender pela primeira vez “Esses profissionais criticavam aquilo
a oportunidade de falar sobre o trabalho parceria com a Imprensa Oficial do Esta- a convocação de uma Constituinte bra- que chamavam de complacência da grande
que realizaram, sobre os riscos que corre- do de São Paulo a edição facsímile do jor- sileira. Com isso, teve também o privilé- imprensa para com a ditadura”, diz o pro-
ram, as muitas gráficas precárias, quando nal Ex-. Queremos dar a dimensão do que gio de ser o primeiro jornalista processa- fessor Bernardo Kucinski, que participou de
não totalmente improvisadas, que usaram foi a imprensa alternativa na ditadura e do por abusar da “liberdade” de impren- publicações como Opinião, Movimento, Em
para reproduzir suas publicações, a vida na continuamos juntando material. Se al- sa em terras nacionais. Tempo e é autor do livro Jornalistas e Revolu-
clandestinidade e a implacável persegui- guém tiver coleções particulares e quiser Apesar de conviverem com o fantasma cionários (Scritta Editorial). A saída para
ção das forças de repressão. Ainda assim, contribuir pode nos doar o material ou da censura desde aquela época e passarem fazerem oposição intransigente ao regime
é apenas uma parte do que foi gravado. A emprestar, para ser digitalizado e micro- por tempos complicados durante o Estado foi buscar novos rumos. Surgia assim a im-
íntegra dos testemunhos dá mais de 100 filmado”, informa Ivo Herzog, Diretor do Novo, nenhum período foi tão duro para os prensa que passou a ser conhecida como “al-
horas em vídeo em alta definição. De lon- instituto, deixando claro: os objetivos brasileiros quanto o da ditadura militar. ternativa”, “nanica”, “de leitor”, “indepen-
ge, o trabalho de maior fôlego já realizado são ainda maiores. Somente nos dez anos em que o AI-5 vigo- dente” ou “underground”. Os nomes são
sobre a imprensa alternativa brasileira. E A série de dvds Os Protagonistas desta rou, foram proibidos ou mutilados cerca de variados, mas em geral denotavam produ-
que não terminou ainda. História é apenas o primeiro dos vários 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, tos com formato menor, às vezes tablóide,
“Não conseguimos pegar todos os de- componentes de um projeto mais amplo, dezenas de programas de rádio e televisão, poucos recursos e muita coragem.
poimentos que queríamos e, por isso, as o Resistir é Preciso, que o Instituto Vladi- mais de uma centena de entrevistas, mais Mesmo convivendo com enormes di-
entrevistas prosseguem. Um dos exem- mir Herzog toca em parceria com outras de 500 letras de músicas, uma dúzia de si- ficuldades, que iam da falta de dinheiro e
plos é o núcleo que chamamos de Associ- entidades, como o Centro de Documen- nopses e numerosos capítulos de telenove- estrutura à perseguição, sem exagero foi
ação Brasileira de Imprensa, mais corpo- tação e Memória-Cedem, da Universida- las. Isso, segundo números oficiais, que po- o que de melhor aconteceu na imprensa
rativo e que reúne importantes publica- de Estadual Paulista-Unesp, o Arquivo dem estar bem aquém da realidade. brasileira dos anos 1970. Sem outros in-
Para os jornalistas, a situação não era di- teresses, esses jornais denunciavam siste-
ferente. De acordo com o levantamento Bra- maticamente as torturas e violações dos
sil: Nunca Mais, os artífices das notícias so- direitos humanos e faziam críticas ao mo-
freram 707 processos por terem atentado delo econômico, mesmo em tempos nos
contra a Lei de Segurança Nacional. Desses, quais todos louvavam o aparente sucesso
102 contêm, entre outros enunciados, incri- do “milagre”. Além de condenar o triunfa-
minação por militância política em organi- lismo que reverberava em outros órgãos
zações clandestinas, algumas envolvidas jornalísticos, os alternativos apontavam
com a luta armada, tentativas de derrubar o as brechas que, anos mais tarde, levariam
regime e construção do ideal socialista. Pelo o País à crise e à superinflação. Apesar de
menos 147 jornalistas foram criminalizados serem criticados pelo tom pedagógico e
pela Justiça Militar entre 1964 e 1979. dogmático, eles foram os únicos a perce-
Jornais clandestinos A censura atingia todos e nem os gran- ber os perigos do crescente endividamen-
publicados no exílio: raridades des veículos escapavam. O Estado de S. to externo, ainda em 1973, e o agravamen-
que ninguém podia guardar. Paulo e o Jornal da Tarde foram censurados to das mazelas sociais.

4 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


A REVELAÇÃO DE
PERSONAGENS IGNORADOS
As publicações alternativas também pela redemocratização. Não que estives-
foram as responsáveis por revelar aos se livre da censura. Pelo contrário, sua
brasileiros novos personagens, como primeira capa, sobre a morte de Vladi-
bóias-frias, líderes de movimentos po- mir Herzog, foi logo proibida. Também
pulares, trabalhistas e estudantis, além considerado uma publicação de frente
de trazer muita discussão. Bancado por ampla, o novo semanário era mais inci-
um empresário, Fernando Gasparian, sivo que Opinião, discutindo inclusive
produzido por jornalistas profissionais, a revolução brasileira. Mas não valori-
protagonizado por intelectuais e secre- zava tanto o lado estético. E quem sofria
tamente instruído pelo comitê central mais era a equipe comandada por Elifas
da Ação Popular-AP, chegou às bancas em Andreato, que precisava fazer novas
outubro de 1972 um dos representantes ilustrações e até capas em questão de
mais destacados dos alternativos: o se- minutos quando Brasília devolvia o
manário Opinião. material censurado em cima da hora de
“Não digo que foi um jornal de es- mandar tudo para a gráfica.
querda, mas de centro-esquerda. Capaz Não eram todos os alternativos que
de resistir, apontar para a democracia e se caracterizavam pelo discurso ideoló-
ser nacionalista”, diz o Editor Raimun- gico. Alguns eram marcados também
do Rodrigues Pereira, que já havia criado pelas críticas dos costumes e pela ruptu-
antes o Amanhã e passado com destaque ra cultural, investindo contra o autori-
pelas revistas Veja e Realidade, antes de as- tarismo e o moralismo das classes médi-
sumir o jornal. as. Foi com esses tons que surgiu o Pas-
Ao projeto Resistir é Preciso Pereira quim, em 1969. Com linguagem coloqui-
contou que, apesar da tensão, aquele foi al e muito humor, em pouco tempo o
um tempo de euforia. Quando saiu o pri- jornal se tornou um fenômeno, venden-
meiro número do Opinião, ele próprio do mais de 200 mil exemplares em ban-
fez questão de pegar um exemplar na grá- ca. A liderança era do cartunista Jaguar
fica e sair às ruas para sentir a reação po- e dos jornalistas Tarso de Castro e Sér-
pular. Logo de cara, descobriu que os gio Cabral, mas faziam parte da equipe
leitores tinham achado o jornal “o má- profissionais como Ziraldo, Henfil,
ximo”. Afinal, trazia o nome de Paulo Ivan Lessa e Paulo Francis. Time que
Francis na capa. Aliás, essa mistura de in- tinha no humor sua marca registrada. A
telectuais como Francis, Celso Furtado, única coisa sem graça eram as constan-
Antonio Candido e Fernando Henrique tes prisões de seus profissionais.
Cardoso, que colaboravam sempre com Numa delas, em novembro de 1970,
o jornal, e profissionais da imprensa foi a Redação inteira foi levada para trás das
um dos motivos do sucesso e começo da grades depois que o jornal publicou uma
queda do semanário. Gasparian queria sátira do quadro de Pedro Américo em
dar mais voz aos intelectuais. Pereira que Dom Pedro I aparece às margens do
queria um jornal feito por jornalistas. Ipiranga. O que teria irritado os milita-
Dessa forma veio a surgir outro impor- res era o balão em que o príncipe grita-
tante representante daquele período, va: “Eu quero mocotó!”, refrão de uma
Movimento. Já Opinião chegaria até abril música do maestro Erlon Chaves de
de 1977. No editorial de seu último nú- grande sucesso na época. O intuito, no
mero, 230, o jornal avisava que só vol- entanto, era acabar com o jornal nos dois
taria a circular livre da censura e que, se meses em que todos ficaram presos, o
as matérias censuradas fossem acrescen- que só não aconteceu porque Millôr
tadas às 5.796 páginas impressas, o jor- Fernandes, que escapara à prisão, com a
nal dobraria seu conteúdo, tendo produ- ajuda de Henfil, Chico Buarque, Antô-
zido 10.548 páginas. nio Callado, Rubem Fonseca, Odete
Movimento circulou entre 1975 e Lara e Gláuber Rocha, entre outros, evi-
1981 e foi considerado o jornal da luta taram. O Pasquim sobreviveu até 1991.

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ESPECIAL A IMPRENSA QUE NÃO PERDEU A CAPACIDADE DE SE INDIGNAR

País se encontra em meio às discussões sobre

A BUSCA DA MEMÓRIA CHEGA À ITÁLIA a formação de sua Comissão da Verdade, ór-


gão que já existe em outras 40 nações e que,
por aqui, deve ser responsável pela inves-
tigação da violação dos direitos humanos
Até bem pouco tempo o maior acervo destina o grande inimigo da Pátria. Para as tentativas frustradas, um acordo com o justamente durante a ditadura.
sobre a imprensa alternativa no Brasil es- sufocá-la e acabar de vez com suas publi- Cedem da Unesp permitiu que o precio- “Esse é o mal das transições pelo alto,
tava no Rio de Janeiro. O Arquivo da cações, além da censura prévia e da prisão so acervo voltasse ao Brasil. Agora, a Uni- negociadas e que permitem injustiças. O
Cidade do Rio de Janeiro conta com cer- de suas lideranças, lançaram mão de ou- versidade, que se tornou depositária de Brasil é uma nação que teve nas últimas
ca de 800 títulos e coleções parciais ou tros expedientes. Primeiro, combatendo tudo, conta com o patrocínio do Gover- décadas um crescimento exponencial de
completas. São jornais e revistas tanto de seus financiadores. Depois, promovendo no Federal e faz um minucioso processo sua população e, por causa disso, tem difi-
esquerda, como o Versus, quanto de direi- devassas fiscais nos veículos legalizados. de restauração, catalogação, digitalização, culdade em preservar sua memória ou
ta, como O Expresso, publicação financi- Por fim, sendo conivente com uma série nova microfilmagem e disponibiliza mesmo instalar a Comissão da Verdade.
ada por empresários paulistas nos anos de atentados a bancas de jornais, que fi- tudo para consulta de pesquisadores. Não Diferente de outras nações latinas, como
1970. Coleção herdada do antigo Centro zeram que os jornaleiros não mais quises- é pouca coisa. São mais de 2 mil títulos de o Uruguai, que há tempos tem seus 3 mi-
de Imprensa Alternativa, criado ainda na sem vender esse tipo de publicação. publicações, o maior acervo do gênero no lhões de habitantes e está conseguindo
década de 1980, e que sobreviveu até a en- O aperto do cerco também colocou em País. Nem todas são alternativas e muito passar a limpo sua História. Recentemen-
chentes. Ainda assim, de todos os perío- risco acervos como o do Instituto Astrojil- menos do período militar. Algumas da- te, seu Congresso anulou a Lei de Anistia
dos, o mais incompleto continua sendo o do Pereira, já naquele tempo um dos mais tam do final do século XIX. Por isso, a recíproca, que beneficiava também crimi-
mais significativo, que vai do golpe mili- completos centros de documentos da im- equipe do Instituto Vladimir Herzog nosos civis e militares da ditadura. Estamos
tar à anistia. prensa alternativa e clandestina. Com a aju- prefere chamá-los de “oprimidos”. Junto no caminho, mas é preciso incentivar a so-
“Naquele tempo, ser pego com mate- da do amigo Maurício Martins de Melo e com elas, uma infinidade de cartas, ma- ciedade e reabrir investigações, pois cor-
rial subversivo era certeza de prisão e tor- outros contatos no Brasil, Del Roio come- nuscritos, fotos, cartazes e materiais da pos e documentos continuam desapareci-
tura. Ninguém arriscava guardar ”, expli- çou a levar todo o material secretamente Internacional Comunista sobre o Brasil. dos”, opina Vladimir Sacchetta, Editor de
ca a Diretora Beatriz Kushnir. Dificulda- para o exterior. Mas onde deixá-lo? A prin- Dos tempos da ditadura militar, foi Pesquisa do Resistir é Preciso. “Quando fa-
de que não é só de sua instituição. A pró- cípio, a idéia era usar contatos para levar possível salvar cerca de 120 títulos. Mes- miliares recebem autorização para pesqui-
pria Biblioteca Nacional também tem pou- tudo para algum país comunista. No entan- mo assim, muita coisa se perdeu, princi- sar nos arquivos da ditadura, devemos co-
quíssimos exemplares. Como se estima to, o temor de futuras dificuldades para res- palmente publicações apreendidas ou memorar. Mas não esquecer de que, além
que pelo menos 150 títulos tenham sido gatar os arquivos fizeram que optassem por clandestinas. Com exceção de A Voz Ope- da autorização, eles devem ter uma ajuda
criados e fechados durante o regime mi- deixar as publicações na Europa Ocidental. rária, do PCB, e A Classe Operária, do PC de custo para passar o tempo que for neces-
litar, quando os dirigentes do Instituto E entre Milão e Amsterdã, a escolhida foi do B, o restante eram títulos de que rara- sário vasculhando documentos em Brasí-
Vladimir Herzog se reuniram na casa do a cidade italiana, onde funciona a Funda- mente saíam mais que uns poucos núme- lia”, completa.
jornalista Fernando Pacheco Jordão para ção Giangiacomo Feltrinelli, que passou a ros. Outro problema é que faltam núme- Outro dos objetivos do Resistir é Pre-
dar início ao projeto de recuperar a me- guardar o acervo. ros de algumas coleções. Mas reparar esses ciso é despertar a consciência da socieda-
mória daqueles tempos por meio dessa Em pouco tempo, mais material foi che- estragos é outro dos alvos do projeto Re- de para esses fatos. Assim, a série de víde-
imprensa e perceberam que estavam di- gando. Melo e Del Roio criaram o Arqui- sistir é Preciso. os dos Protagonistas desta História é um
ante de um dilema. vo Histórico do Movimento Operário “Estamos iniciando uma vasta pesqui- passo numa longa caminhada. O próxi-
“O fato de não termos esse material Brasileiro e o enriqueceram com os ma- sa nacional, em arquivos públicos e no mo produto a ser lançado, ainda no mês
foi decisivo para os 30 anos de atraso”, teriais que tinham em suas mãos e com material das forças gerais da repressão, de outubro, aniversário da morte de Vla-
aponta Ivo Herzog. A solução só foi en- outras coleções, como a do também mi- como o do Dops, por exemplo, para ten- dimir Herzog, é um livro em formato
contrada quando Sérgio Gomes, veterano litante comunista Roberto Morena. Ta- tar preencher o que falta. Também vamos tablóide, de 200 páginas, com as princi-
da imprensa trabalhista dos anos 1970, refa feita, literalmente, via Varig. Princi- iniciar uma campanha institucional para pais capas de jornais alternativos e clan-
apresentou ao grupo José Luiz Del Roio. pal companhia brasileira a operar vôos pedir às famílias dos militantes que doem destinos e devidas explicações sobre cada
Militante comunista e responsável pelo internacionais na época, era o meio pelo ou emprestem o que tiverem”, acrescen- uma. Ainda este ano, uma exposição deve
departamento de imprensa do Partidão na qual conseguiam transportar boa parte ta Del Roio. Uma missão difícil, mas não começar a percorrer os diversos Centros
década de 1960, Del Roio participou ati- dos impressos. impossível. Ainda mais para quem tem Culturais do Banco do Brasil, espalhados
vamente da criação da ALN. Já exilado, “Fazia amizade com funcionários da uma experiência de 34 anos na área. pelo País.
colaborou com a imprensa no Peru, no companhia na Itália e eles me indicavam Também já está programada a realiza-
Chile e, finalmente, na Itália, onde foi pilotos que tinham inclinações políticas UMA NOVA HISTÓRIA ção de dez documentários sobre a im-
radialista por duas décadas e chegou a ser mais à esquerda e que topassem nos ajudar Coincidência ou não, o fato é que o Re- prensa perseguida para a televisão, que
senador. Em meio a tantas atividades foi a coletar os materiais”, lembra Del Roio. sistir é Preciso é lançado em um momen- serão exibidos pela TV Brasil e pela Cul-
sua a iniciativa de montar uma verdadeira Em 1979, veio a anistia, mas Del Roio to que o Brasil tenta reescrever sua histó- tura. Aprovado pela Ancine, o projeto
operação de guerra para salvar os arquivos resolveu ficar mais tempo no Velho Mun- ria recente. Há forte pressão interna e ex- está em fase de captação de recursos. Por
da imprensa clandestina e alternativa do. Soltou cartas circulares e começou a terna para que a Presidente Dilma Rous- fim, outros livros devem sair. Um com a
brasileira durante os anos de chumbo. fazer campanhas públicas para que exila- seff revogue a parte da Lei da Anistia de reprodução de cartazes, folders e docu-
“Como atuei fazendo a ponte no exte- dos e outras pessoas que tivessem docu- 1979 que protege torturadores e autores de mentos que contam a denúncia dos cri-
rior para muitas organizações de esquerda mentos, cartazes e publicações brasilei- crimes como execuções, seqüestros e estu- mes da ditadura militar brasileira no ex-
brasileiras, era natural que recebesse suas ras ou feitas por brasileiros no exterior pros. Em outra frente, o Senado discute terior, resgatando as atividades de milha-
publicações. Não jogava nada fora e fui pudessem doá-las. Dois anos depois, mi- nova lei que trata do sigilo de documentos res de exilados e das redes que lhes davam
colecionando”, conta Del Roio. Em 1975, crofilmou tudo – procedimento que ga- oficiais. Modificações feitas na Câmara apoio em países como Estados Unidos,
após a crise provocada pela morte de Vla- rante uma vida útil de mais 500 anos aos dos Deputados impuseram um período Suécia, França e os da América Latina que
dimir Herzog nos porões da ditadura, papéis – e guardou uma cópia num cofre máximo de 50 anos para que um documen- não estavam debaixo dos coturnos mili-
apenas isso já não era suficiente. A partir forte. A ditadura se aproximava do fim, to possa permanecer em sigilo, prazo que tares. Prova de que, mesmo depois de mais
daí e até o fim da censura, os militares agonizava, mas ainda inspirava cuidados. muitos consideram excessivo. Diante de três décadas da anistia, ainda é preci-
elegeram a imprensa alternativa e clan- No fim dos anos 1990, depois de vári- desses debates, não dá para esquecer que o so lutar.

6 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


interessados. As matérias ocupavam

DEPOIMENTOS EMOCIONADOS F OTOS N IVALDO H ONÓRIO DA S ILVA


um quarto de página, para que o
jornal pudesse ser dobrado e lido no
ônibus. Uma criação fantástica do
Reynaldo Jardim e que contou com
um forte apoio: a música do Caetano
Todos os depoimentos colhidos para o projeto Resistir é Preciso foram carregados Veloso. Ele diz que foi coincidência
de emoção e relatam lembranças de luta e oposição a um regime que não tinha respei- falar sobre ‘o Sol nas bancas de
revista’, mas usamos a canção. Além
to pelo cidadão e pela diferença de idéias. A seguir alguns trechos: do mais, ele namorou e casou com
uma de nossas repórteres. Foi ali que
me tornei craque em dar títulos,
ZIRALDO ALVES PINTO acordo de suma importância com o Le fazendo as chamadas da primeira
PINTOR, CARICATURISTA, CHARGISTA, ESCRITOR, Monde. O material internacional nem página. E também em cobrar, mesmo
JORNALISTA, CARTAZISTA E TEATRÓLOGO. FOI UM sempre era tão importante, mas dava quando nossos repórteres iam às
DOS FUNDADORES DO PASQUIM. peso ao Opinião. Não queríamos ser manifestações e ficavam participando
“A tensão com os censores era vistos como um bando de garotos, só delas. Uma vez, houve uma rebelião
constante. Mandávamos três, quatro para tomar porrada da ditadura. Uma em Volta Redonda e os operários
números do Pasquim de uma vez vez, eu mesmo levei o jornal para a foram confinados. Disfarçado, um
para a Delegacia Política, com coisas sede da Polícia Federal. Quando voltei com o Eduardo Galeano e um olhar repórter conseguiu entrar. Mas só saiu
mais complicadas, na esperança de para pegá-lo, estava todo cortado. Não para a América Latina. Era o suficiente preso. Quando voltou, contou a saga,
que cortassem essas e deixassem dava para fazer nada com o que para fazer um jornal revolucionário mas não teve jeito. Precisávamos
passar o que de fato queríamos. Mas voltou. Eles não queriam evitar que que funcionaria como uma elipse, fechar e ele teve que escrever a
sempre procurávamos aliviar o clima. publicássemos algumas coisas. uma parábola. Falávamos da América matéria em 20 minutos.”
Certa vez, eram três professoras que Queriam destruir o projeto. O major, Latina, da morte de um índio no Peru,
nos censuravam. Estava na Itália e inclusive, aconselhou-me: “Desistam mas estávamos nos referindo
mandei um cartão para elas, com a e vão para a clandestinidade. Assim, também ao brasileiro. A repressão não
estátua David, do Michelangelo, de farão o que querem”. Não aceitei e fui incomodou por muito tempo, pois
costas, só aparecendo a bunda. buscar mais material na Redação para combatiam apenas ataques diretos.
“Mandei assim, porque se mandar de eles. Não iríamos disputar no campo Quando compreenderam nossa
frente, é capaz de vocês mandarem de jogo deles, onde não tínhamos estratégia, passaram a conspirar
cortar o pinto”, escrevi, brincando. qualquer chance.” DÁCIO NITRINI E MYLTAINHO abertamente contra o Versus.
Uma exceção foi um general-censor Tínhamos um amigo infiltrado na
que nos protegia. Ficava na praia e o RAIMUNDO RODRIGUES PEREIRA tinha convidado vários Chefes de Receita Federal e ele nos avisou para
Ivan Lessa levava o jornal para ele lá. EDITOR DA REVISTA MENSAL RETRATO DO BRASIL, Estado. Como era de praxe, uma que nos preparássemos: eles fariam
Só cortava piadas que não gostava. FOI UM DOS PRINCIPAIS NOMES DA IMPRENSA equipe vinha antes dos Estados uma devassa no jornal, procurando
“Essa, Ivan, vou censurar. Está uma ALTERNATIVA DURANTE A DITADURA MILITAR. Unidos, para checar todas as registros e livros contábeis. Disse que
bosta, sem graça. Vou mandar uma FUNDOU E EDITOU OPINIÃO E DEPOIS CRIOU E condições. E pegou o Ex- nas bancas. poderia segurar por 30 dias aquilo,
anedota que eu tenho para vocês. É DIRIGIU MOVIMENTO. Eu, o Sérgio e o Narciso Kalili fomos não mais. Bateu o pânico. Mas
bem melhor”, dizia ele. Hoje, dá para “Imprensa e democracia são presos por desrespeito a Chefe de produzimos os livros. Bem, eram
rir. Mas naquele tempo precisava ser inseparáveis. Não é possível ter um Estado de nação amiga, algo que nem exercícios de ficção contábil, mas tudo
corajoso. Mas não acho que fomos regime avançado socialmente sem existia na Lei de Segurança Nacional.” bem. Quando os agentes chegaram,
heróis. Era da natureza da profissão. pessoas bem informadas. Que ficaram surpresos. Mas na madrugada
Estávamos conscientes de que não participem de forma mais consciente. MYLTON SEVERIANO (MYLTAINHO) do mesmo dia que foram lá,
podíamos fazer apenas cartuns. Esse pensamento foi a mola TRABALHOU EM IMPORTANTES JORNAIS E REVISTAS desconhecidos invadiram e
Vivíamos um momento histórico. Até propulsora da criação dos jornais DE SÃO PAULO E EM EMISSORAS DE TELEVISÃO. depredaram nossa Redação. Deixaram THEREZINHA ZERBINI
hoje, conheço pessoas que se Opinião e Movimento. Opinião FEZ PARTE DA EQUIPE DOS ALTERNATIVOS O o recado, pichado na parede: ‘Fora ADVOGADA, FUNDOU O MOVIMENTO FEMININO
arrependem por passar esse período chegou a ser o segundo semanário BONDINHO E EX-, E ATUALMENTE ESCREVE UM comunistas’. E roubaram aqueles PELA ANISTIA E O JORNAL BRASIL MULHER PARA

sem tentar o enfrentamento.” do Brasil, concorrendo com a revista LIVRO SOBRE A REVISTA REALIDADE. livros. Tudo muito estranho. Até hoje SER O PORTA-VOZ DESSE MOVIMENTO.

Veja. Seu maior capital era humano. “Naquele tempo fizemos várias me pergunto se toda a aventura que “Não fui contra a luta feminista no
Tínhamos correspondentes publicações alternativas. O Grilo era vivemos foi sonho ou realidade.” jornal. Mas naquele momento, em
estrangeiros como o Paulo Francis e uma revistona em quadrinhos, que a causa era maior e precisávamos
intelectuais de peso como Fernando formato tablóide, que abriu espaço ANA ARRUDA CALLADO vencer um inimigo maior, a ditadura,
Henrique Cardoso, Celso Furtado e para os melhores artistas e cartunistas PRIMEIRA MULHER A OCUPAR O CARGO DE CHEFE precisávamos de união. Um povo
Antonio Cândido. Já Movimento da época. Um sonho, já que não DE REPORTAGEM EM UM GRANDE JORNAL DIÁRIO: O brigava para se libertar. Por isso,
surgiu a partir de uma frente muito tinham mais espaço na grande DIÁRIO CARIOCA. EM O SOL FOI EDITORA-CHEFE. usamos para o nome de um jornal,
ampla. E soube aproveitar muito bem imprensa. Já o Bondinho nasceu “Fazer uma escola, uma faculdade, Maria Quitéria. Queríamos provocar
as disputas pelo poder dentro do como revista de serviços, para ser com um jornal de verdade, que os milicos e eles não podiam fazer
meio militar. A dissidência da distribuída dentro das lojas do Pão de formasse jornalistas. Essa era a nada. Ela foi uma guerrilheira, mas das
repressão, aqueles que eram contra a Açúcar. Mas deu tão certo que, um proposta de O Sol. Quando tropas nacionais. Sabia que lidava com
candidatura do Figueiredo, começou a ano depois, ao fim do contrato, houve divulgamos essa idéia na Rádio gente poderosa. Em 1970, quando
nos passar informações, escândalos e uma assembléia com todo mundo Nacional, em 1967, houve muitos voltava de Campos do Jordão,
denúncias. Um absurdo. As duas que fazia a revista e a ala à esquerda estudantes universitários almoçava com meu marido, o General
publicações fizeram história e do grupo aprovou que fosse para as Euryclides Zerbini,
originaram muitas outras, como o Em bancas. Virou uma revista de cassado após o golpe,
Tempo, o Amanhã, a Hora do Povo. contracultura. Em toda essa trajetória, e com minha filha. As
Sobretudo o Movimento era muito o momento de maior emoção se deu forças de repressão
querido. Numa ocasião, a nata da depois da morte do Vladimir Herzog. entraram em casa de
MPB – Chico, Elis Regina e João Mas havia também muito medo, metralhadoras nas
Bosco, entre outros – fizeram um pavor até. Quando surgiu a notícia de mãos, para me levar.
TONICO FERREIRA show no Corinthians, em apoio à que faríamos reportagem investigando Meu marido chegou a
JORNALISTA DA TV GLOBO, COMEÇOU A CARREIRA publicação. Quando o jornal fechou, o que aconteceu, choveu voluntários discutir e questionar o
QUANDO ESTUDAVA ARQUITETURA, NA FACULDADE todo mundo chorou.” para ajudar, muitos de fora do nosso que era aquilo. O outro
DE ARQUITETURA E URBANISMO-FAU DA jornal. Mas ao sair a matéria, a reação oficial disse que eram
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. EM 1972, DÁCIO NITRINI foi outra: pais vinham pessoalmente coisas que não eram
TRABALHOU NA REVISTA REALIDADE; DEPOIS DIRETOR DE JORNALISMO DA TV GAZETA, cancelar a ficha de assinatura da do tempo dele. Acalmei
CRIOU OS JORNAIS OPINIÃO E MOVIMENTO. PARTICIPOU DAS PUBLICAÇÕES O GRILO E EX- E revista que os filhos haviam feito. os ânimos, convidando-
“Éramos um grupo de jornalistas aqui FOI O ORGANIZADOR DA COLEÇÃO FAC-SIMILAR DO Faziam questão não apenas de os para sentar em
em São Paulo, principalmente da JORNAL LANÇADA PELA IMPRENSA OFICIAL. cancelar, mas de pegar a ficha e nossa sala, tomar um
Editora Abril, que estava tentando “O Jornalivro surgiu como idéia do picotar. Tudo por causa do medo de cafezinho, comer
alguma coisa. Ganhávamos bem, mas Sérgio de Souza e era um livro serem associados com a subversão.” bolinhos e brincar com
não estávamos satisfeitos. Então, impresso como jornal. E melhor: o cachorro. Enquanto
começamos a nos reunir na casa do como dizia o slogan, a preço de OMAR DE BARROS FILHO (MATICO) isso, eu subi para me
Raimundo Pereira e fazer projetos. Um banana. Depois fizemos O Grilo e o JORNALISTA, CINEASTA E EDITOR DO SITE VIDA arrumar e acompanhá-
deles se chamou ‘Assunto’, já tínhamos Ex-. Foi aí que aconteceu um dos POLÍTICA. DIRIGIU, AO LADO DE MARCOS FAERMAN, los. Se fosse eu no
momentos inesquecíveis do jornal. O JORNAL VERSUS. lugar deles não teria
até boneco. Mas só deu certo
mesmo com a ponte que o Fernando Em janeiro de 1974, demos como “O Versus foi um jornal que nasceu deixado. Do jeito que
Gasparian, que estava em Londres, capa uma fotomontagem que da cabeça de um repórter. No fim de eu era meio louca,
fez com o pessoal lá de fora, como mostrava o Nixon vestido de 1974, começo de 1975, Marcos poderia ter tentado
Bernardo Kucinski. Conseguimos um presidiário. Geisel ia tomar posse e Faerman sai do Ex- e leva o contato alguma coisa.”

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ESPECIAL A IMPRENSA QUE NÃO PERDEU A CAPACIDADE DE SE INDIGNAR

RICARDO MARANHÃO chamado Lula ajudou-nos, já em 1977. reescrevia e repassava ao dirigente


PROFESSOR DE GASTRONOMIA NA UNIVERSIDADE Ele chamou o Laerte para fazer um para revisarem. Nunca soube onde
ANHEMBI-MORUMBI. FOI UM DOS FUNDADORES trabalho para o Sindicato dos era a gráfica. Mesmo assim, certa vez,
DO JORNAL ESTUDANTIL AMANHÃ. Metalúrgicos. Queria jornais diferentes, pedi documentos falsos para mim e
“Naquele tempo, ninguém entrevistava um para cada fábrica, com as toda a família. Eles iam a uma garagem
o Leonel Brizola. Mas nós, do Amanhã, necessidades específicas. Mas uma de ônibus, diziam que tinham perdido
resolvemos que faríamos. Eu e uma revista qualificada para todas. Quem documento na linha e o fiscal deixava
moça, foca do jornal, fomos disse que operários não são entrar na cabine e procurar à vontade. RUTH LEAL TEGON E MARCO ANTÔNIO MOURO
designados para a missão. Como não conscientes e politizados?” Aí era só encontrar alguém com o
tínhamos dinheiro, fomos de carona mesmo perfil e idade. Fiquei uns oito ponto de encontro, pontualmente? verde?’. Como dizer a eles que eram
até o Uruguai. Brizola estava isolado FRANKLIN DE SOUZA MARTINS anos com a família nessa Deixava para lá e ia embora.” os hematomas e sinais da tortura?”
num apartamento em Atlântida, JORNALISTA E SOCIÓLOGO, TRABALHOU NA REDE clandestinidade, fazendo jornais para
cidadezinha balneária perto de Colônia. GLOBO, BANDEIRANTES E FOI MINISTRO DA o PCdoB e outros.” MARIA AMÉLIA DE ALMEIDA TELES CRIMÉIA DE ALMEIDA
E vigiado pela Polícia Federal brasileira COMUNICAÇÃO SOCIAL DO GOVERNO LULA. (AMELINHA) DIRIGE UMA ORGANIZAÇÃO NÃO-GOVERNAMENTAL
e pela polícia uruguaia. Mas ninguém MILITOU EM ORGANIZAÇÕES COMO MR-8 E CESAR AUGUSTO TELES INTEGRANTE DA COMISSÃO DE FAMILIARES DE QUE SE DEDICA À BUSCA DE DESAPARECIDOS

mais estava com saco para aquilo. ALIANÇA LIBERTADORA NACIONAL-ALN E FOI MILITANTE DO PCDOB, COMANDOU A GRÁFICA MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS. AO LADO POLÍTICOS. FOI UMA DAS PRIMEIRAS MILITANTES DA

Todos estavam cheios daquela rotina e MENTOR DO SEQÜESTRO DO EMBAIXADOR NORTE- QUE IMPRIMIA A CLASSE OPERÁRIA, PRIMEIRO NO DO MARIDO, CÉSAR, E DA IRMÃ, CRIMÉIA, FOI PRESA GUERRILHA DO ARAGUAIA E MUDOU-SE PARA SÃO
a vigília estava meio bagunçada. Em AMERICANO CHARLES B. ELBRICK. RIO, DEPOIS EM SÃO PAULO. PRESO PELO DOI- NA DÉCADA DE 1970 POR CAUSA DE SUA INTENSA PAULO EM MISSÃO, PARA MORAR COM A IRMÃ
meio a um desses desencontros, “Fala-se muito no seqüestro do CODI, AO LADO DA MULHER E DA CUNHADA, FOI PARTICIPAÇÃO NA IMPRENSA COMUNISTA CLANDESTINA. AMELINHA E O CUNHADO CÉSAR, RESPONSÁVEIS
subimos até o apartamento. O homem embaixador norte-americano, mas CONDENADO A CINCO ANOS DE PRISÃO. “Não podíamos militar mais do que PELA GRÁFICA CLANDESTINA DO PCDOB. SEU

falava loucamente, coisa que não fazia penso que conseguimos também “Quem dava suporte às atividades da três anos em atividades de imprensa. FILHO, JOÃO, NASCEU NA PRISÃO.

há tempos. Ao lado dele, um ex- uma vitória contra a censura. Com a Guerrilha do Araguaia, no campo, era a Se não haveria prejuízo mental e físico. “Estava morando há pouco tempo em
deputado, cassado depois do golpe, leitura do manifesto, pela primeira vez cidade. Nós por exemplo, fazíamos A Por causa do estresse e pressão São Paulo. Recebi uma missão do
acompanhava tudo. De repente, a censura era quebrada, o primeiro Classe Operária e mantínhamos psicológica e de respirar tinner da tinta partido e saí do Araguaia para fazer
ouvimos três tiros lá fora. O ex- habeascorpus eficiente depois do AI-5. contato com o exterior. Tinha todos os em que eram impressos os jornais. contatos. Aí fomos presos pelos Doi-
deputado se jogou no chão e saiu O problema foi na hora de assinar o endereços na Europa, para os quais O César teve tuberculose por causa Codi. O policial me pegou pelos
levantando uma arma. Brizola manifesto. Que nome usar? Aí surgiu a mandava correspondência, na disso. Em 1972, quando ele recebia cabelos e começou a estapear meu
permaneceu sereno. E eu e a menina, idéia do MR-8, Movimento memória, para que não caíssem em alta do sanatório, os policiais nos rosto. Estava grávida de sete meses. Já
apavorados. De repente, um homem, Revolucionário 8 de Outubro, a data da mãos erradas. Todo cuidado era cercaram e começaram a gritar: na prisão, o médico oficial do Exército
cara de capanga, entra por uma porta morte de Che Guevara. Não éramos pouco. Ia entregar um pacote de ‘Terroristas! Terroristas!”. Fomos presos se recusou a fazer meu parto. Por
lateral, revólver em punho: “Matei o guevarianos, mas esse era o nome de jornal? Levava numa sacola, com frutas no Doi-Codi. Quando nossos filhos conta de tudo o que tinha passado,
Castelo Branco, matei o Castelo uma organização do Rio que fora em cima. Qualquer coisa, tinha ido à nos viram, perguntaram: ‘Mamãe, estava com problema e lhe disse que
Branco’. Brizola pediu para o homem desbaratada pela Polícia algum tempo feira. E se o contato não estivesse no porque você está azul e o papai, meu filho poderia morrer. O homem
se acalmar. Aí ele contou: ouviu no antes. Usar o nome era uma forma de
rádio a notícia de que o Presidente desmoralizar a Polícia Política, que se
tinha morrido num acidente e estava vangloriava de ter desarticulado o
comemorando. Em seguida, grupo. A ação foi bem sucedida, mas
participamos de um senhor churrasco
ali. A entrevista ficou sensacional, mas
nunca foi publicada. Quando voltamos,
o jornal foi fechado.”
nunca mais fui autorizado a entrar nos
Estados Unidos. Ano passado, estive
com o atual embaixador norte-
americano e ele se ofereceu para
O COMEÇO DA QUEDA DA DITADURA
arrumar as coisas. Mas disse que não Quando o Diretor de Jornalismo da TV Cultu-
aceitaria se fosse só para mim e não ra de São Paulo Vladimir Herzog, o Vlado, compa-
para os outros. Apesar de não poder, receu ao Doi-Codi, no dia 25 de outubro de 1975,
não quer dizer que não estive por lá. julgava que daria seu depoimento e seria liberado
Em 1976, estive em Nova York com em seguida. Mas isso não aconteceu. Depois de
um passaporte falso. Ia ter um
uma brutal sessão de espancamento, o jornalista
congresso do MR-8 no Brasil e eu
estava na Europa. Consegui uma não resistiu: morreu na prisão. Mesmo com enor-
passagem de Bruxelas para Lima, no mes contradições, os militares insistiram na ver-
Peru. Mas havia a conexão nos são de que Vlado se suicidara, enforcado com a pró-
Estados Unidos. Cheguei no aeroporto pria gravata. Foi o suficiente para gerar uma onda
e logo fui abordado por dois caras. de protestos da imprensa em todo o mundo, mo-
Achei que estivessem oferecendo táxi, vimento que impulsionou fortemente a abertura
hotel. Dispensei. Que nada, eram do brasileira, com o fim da censura e a aprovação da
FBI. Perguntaram para onde estava anistia. Mas toda essa mobilização só foi possível
indo, se tinha outros documentos. por conta da ação da imprensa alternativa no Brasil.
Gelei. Tentei humanizar a situação, tirar
Agora, três décadas depois, o projeto Resistir é Pre-
aquela aura de autoridade. Comecei a
SERGIO GOMES falar sobre mulheres. Aliás, ia para lá ciso ouviu jornalistas que viveram diretamente
JORNALISTA, MILITANTE E DIRIGENTE DO PCB, para encontrar com uma peruana aqueles dias de agitação e que contaram como a
TRABALHOU EM GRANDES JORNAIS E FUNDOU maravilhosa, Dolores, e esperava não tragédia foi enfrentada.
PUBLICAÇÕES COMO A PRENSA, O BALÃO E VOZ voltar. No final, eles me desejaram “Naquele tempo, eu morava em Ribeirão Pre-
DA UNIDADE. INTEGROU A EQUIPE QUE CRIOU A sorte e que, realmente, não voltasse to e ia a pé para o jornal. No caminho, havia uma
OBORÉ, EMPRESA QUE ORGANIZOU QUASE 300 mais, ficasse por lá. Fiquei nos Estados banca e eu passava nela para ‘lamber a cria’, quer
DEPARTAMENTOS DE IMPRENSA DE ENTIDADES Unidos por oito horas.” dizer, folhear o jornal do dia”, conta José Hamil-
SINDICAIS DOS TRABALHADORES.
ton Ribeiro. Mas nesse dia o que chamou a aten-
“Muita gente dizia que a imprensa CARLOS AZEVEDO ção do premiado jornalista foi a manchete estam-
JORNALISTA, TRABALHOU EM O ESTADO DE S.PAULO,
então Diretor de Cultura do Sindicato dos Jorna-
legal, como a feita pelos centros
QUATRO RODAS, REALIDADE E NO GLOBO RURAL. pada pela Folha da Tarde: Comunista se suicida na listas de São Paulo.
acadêmicos, não tinha valor. Só valia a
clandestina. Mas em 1972 fizemos um FEZ O JORNAL LIBERTAÇÃO, DA AP, A CLASSE prisão. “O Vlado tinha se suicidado na prisão? Não Como estopim do movimento e chamando
jornal-mural chamado A Ponte, que OPERÁRIA, DO PCDOB, MOVIMENTO E, JÁ podia acreditar naquilo. Liguei na hora para o Au- todos para as manifestações, o Sindicato lançou
reuniu 20 centros acadêmicos da Usp. LEGALIZADO, TRIBUNA DA LUTA OPERÁRIA, dálio Dantas e ele pediu que eu viesse para São uma edição especial do jornal Unidade, com a capa
A música era a trilha musical da nossa TAMBÉM COMUNISTA. ESTÁ LANÇANDO O LIVRO Paulo. Larguei tudo e viajei no mesmo dia. Era um toda preta, uma pequena ilustração embaixo, com
atividade política. No caso, o nome do JORNAL MOVIMENTO, UMA REPORTAGEM. tempo de agitação e todo mundo esperava para gri- o nome Vlado ao lado, e a chamada: Nosso medo,
jornal veio dos versos de uma música “A militância na Ação Popular não era tar, chorar, espernear”, lembra. nossa coragem, nossa fé.
do Maurício Tapajós e do Paulo Sérgio fácil. Lembro que fomos distribuir A morte foi divulgada num sábado. No domin- “Foi uma edição histórica. A grande imprensa
Pinheiro, Pesadelo: ‘Quando um muro jornais durante um 1º de Maio na go, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo rea- só deu a versão oficial, mas os jornais alternati-
separa, uma ponte une’. Mas nossa Praça da Sé e saí para buscar bolinha lizava uma assembléia informal, fazendo a pri- vos denunciaram a situação ao mundo. A ditadura
grande escola foi o movimento de gude e uns tacos com pregos.
meira denúncia das prisões arbitrárias que eram estava perdida, com sua farsa desmascarada e a po-
operário. No mesmo ano, a diretoria do Nunca se sabia quando teria
Sindicato dos Têxteis nos chamou para enfrentamento. Ao voltar já estava praticadas contra jornalistas e do assassinato de dridão aparecendo. Não tenho dúvida de que foi
fazer os materiais deles e lançar uma uma batalha e o palanque estava em Vlado. “Tudo isso era contrário à própria Lei de Se- o ponto alto de nossa luta”, afirma Audálio Dan-
publicação. Mas o que fazer? chamas. Fazer os jornais também não gurança Nacional. Foi uma convocação histórica. tas, Presidente do Sindicato na época.
Descobrimos que as mulheres liam era simples. As reuniões de pauta Recebemos muita colaboração espontânea e, a
fotonovelas e tentamos ilustrações. Os aconteciam em cemitérios, bares, partir dali, mesmo com receio, o movimento cres- SERVIÇO
www.resistirepreciso.org.br
homens não compreenderam. No fim, campos de futebol e andando, na rua. ceu e culminou com o culto ecumênico da Sé, o ato Para solicitar a íntegra de qualquer um dos
aprendemos a escrever com os Ali um dirigente passava o que a que marcou o começo da queda da ditadura”, recor- depoimentos, envie um e-mail para
ouvidos, aprendendo sem arrogância direção queria, Eu distribuía as pautas, da o também jornalista Fernando Pacheco Jordão, protagonistas@vladimirherzog.org
com a realidade deles. Um cara dava prazo, recebia de volta,

8 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


só respondeu: ‘Não tem importância. É

POR DENTRO DE MOVIMENTO


um comunista a menos.’ Foi terrível.”

MARCO ANTÔNIO MORO


ADVOGADO, FOI PRESO EM 1964, 1968 E 1970,
POR SUA MILITÂNCIA NO PCB. EXILADO NO CHILE,
COM A DERRUBADA DO PRESIDENTE SALVADOR
ALLENDE, FOI PARA BRUXELAS, BÉLGICA, COM OS
Livro de Carlos Azevedo resgata a trajetória do jornal Movimento, um dos mais importantes
FAMILIARES. EDITOU O CORREIO SINDICAL E veículos da imprensa brasileira nos anos 1970. O semanário sofreu nas mãos da censura, mas
AJUDOU A FUNDAR A VOZ DA UNIDADE.
tinha no jornalismo político independente sua estratégia de contestação da ditadura militar.
“Levávamos e trazíamos cartas da prisão.
Tudo escrito em um pequenino pedaço
de papel, com bico de pena e suco de P OR P AULO CHICO
limão. Quem pegasse acharia que o
papel estava em branco. Mas bastava
passar com ferro para o texto aparecer. NIVALDO HONÓRIO DA SILVA
Mesmo assim, para informar o pessoal Algumas das leis da Física bem que Pelo Conselho de Redação passaram
sobre as ações, dobrávamos os
podem ser aplicadas à política. Uma Aguinaldo Silva, Elifas Andreato, Ber-
papeizinhos e colávamos com durex.
Depois, levávamos embaixo da língua. Já
delas é a de que, para toda ação, há sem- nardo Kucinski, Fernando Peixoto,
nossos jornais cumpriam outra função: pre uma reação oposta e de igual inten- Murilo de Carvalho, além do Presiden-
não informar, mas orientar a militância.” sidade. A máxima de Isaac Newton te da ABI, Maurício Azêdo, entre ou-
ajuda a entender a trajetória do jornal tros. Entre os colaboradores, muitos se
RUTH LEAL TEGON Movimento que, lançado em pleno 1975, tornaram importantes personalidades
JORNALISTA. EXILOU-SE GRÁVIDA DO TERCEIRO FILHO tinha a clara missão de ser uma respos- políticas, como Fernando Pimentel,
NO CHILE E LÁ FICOU ATÉ A QUEDA DE ALLENDE.
ta contundente ao regime totalitário Aldo Rebelo, Tarso Genro, Candido
COM O GOLPE, EM SETEMBRO DE 1973, ABRIGOU-
instaurado no Brasil desde 1964. O Vaccarezza e Nilmario Miranda.
SE COM A FAMÍLIA NA EMBAIXADA DO PANAMÁ E DE
LÁ FOI PARA A BÉLGICA. NO BRASIL, AJUDOU A
papel dessa publicação, um dos símbo- Carlos Azevedo destaca ainda a equi-
FUNDAR O JORNAL VOZ DA UNIDADE, NO QUAL
los máximos da combativa imprensa pe fixa da publicação. “Um dos princi-
ATUOU COMO SECRETÁRIA DE REDAÇÃO. alternativa do País dos anos 1970, é pais construtores do jornal foi Raimun-
“No Chile, tínhamos um mimeógrafo, agora desvendado pelo livro Jornal do Rodrigues Pereira, formulador do
que guardávamos num quartinho da Movimento, Uma Reportagem. De Car- projeto e líder da turma. Um grande ta-
caldeira, adjacente a nosso los Azevedo e com reportagens de lento jornalístico, corajoso e ousado,
apartamento. Certo dia, uma vizinha, Marina Amaral e Natália Viana, a obra, de persistência tenaz. Houve o Sergio
que tinha um parente militar, avisou publicada pela Manifesto Editora, Mota, que veio a ser Ministro no Go-
que nossa rua seria passada em tem lançamento oficial em setembro. verno FHC. Ele foi o gênio administra-
revista. Havia denúncias de que ali “A proposta do jornal era fazer jor- tivo, o formulador do projeto de susten-
funcionava uma imprensa clandestina. nalismo político – com independência tação econômica da editora que fez o
Destruímos o material que estava em
e sem autocensura. A censura era pro- jornal, e a administrou do primeiro ao
casa, menos o mimeógrafo, e antes
do toque de queda – o recolher deles
blema da ditadura. Ele foi pesadamen- último dia. O Tonico Ferreira, repór-
– deixamos as crianças com vizinhos e te censurado ao longo de três anos, de ter da TV Globo, como jornalista res-
saímos, para não dormir em casa. 1975 a 1978, até que a censura recuou. ponsável, chegou a ser processado pela
Depois, descobrimos que a tal Movimento tinha um programa editori- Lei de Segurança Nacional; Duarte Pa-
imprensa clandestina era de outro al explícito, assumido desde o número checo Pereira, jornalista e militante po-
apartamento, vinculada ao Partido zero. Defendia as liberdades democrá- lítico, que deu contribuição na formu-
Socialista chileno.” ticas e o fim dos atos de exceção e atu- lação das idéias e propostas políticas do
ava em defesa dos direitos dos trabalha- Carlos Azevedo: “Movimento lançou a bandeira jornal, através de seus ‘Ensaios Popu-
FERNANDO MORAIS dores do campo e da cidade, dos interes- da Assembléia Nacional Constituinte e propôs a lares’; Chico Pinto, o ex-Deputado cas-
COMEÇOU CEDO NO JORNALISMO E PASSOU POR VEJA,
JORNAL DA TARDE, FOLHA DE S.PAULO, TV CULTURA
ses nacionais, contra a exploração do formação de uma ampla frente para unir todas as sado pela ditadura, que era o diretor da
E PORTAL IG. FOI DEPUTADO ESTADUAL POR OITO capital estrangeiro, e pregava a preser- forças políticas que se opunham à ditadura militar”. sucursal de Brasília. Ao lado destes,
ANOS E SECRETÁRIO DE CULTURA (1988 A 1991) E vação do meio ambiente e dos recursos mais de uma centena de jornalistas e
DE EDUCAÇÃO (1991 A 1993) DO ESTADO DE SÃO naturais. O jornal foi pioneiro em lançar a mais importantes eram feitas nas bancas intelectuais que se pode ver pelo expedi-
PAULO. SUAS BIOGRAFIAS, COMO OLGA E CHATÔ, E bandeira da Assembléia Nacional Constitu- de jornais, podendo chegar a 20 mil por ente, transcrito no livro.”
LIVROS-REPORTAGEM, COMO O RECÉM-LANÇADO OS inte, que transformou em campanha perma- edição. E havia a venda direta, feita maci- Não faltaram motivações profissionais
ÚLTIMOS SOLDADOS DA GUERRA FRIA, JÁ VENDERAM nente. Também desenvolveu a campanha çamente por estudantes e jovens trabalha- e pessoais para que Carlos Azevedo se de-
MAIS DE 2 MILHÕES DE EXEMPLARES.
pela Anistia geral e irrestrita e propôs a for- dores. Havia vendas especiais aproveitan- dicasse à produção do livro, que é acompa-
“Na Redação, tínhamos um censor mação de uma ampla frente democrática e do eventos como as reuniões da Sociedade nhado de um dvd onde estão gravadas to-
bastante jovem, com uns 35 ou 40 popular para unir todas as forças políticas Brasileira para o Progresso da Ciência. O das as 334 edições do jornal, além das edi-
anos. Claro, não era desculpa para dizer
do País que se opunham à ditadura militar”, Movimento foi muito prejudicado pela cen- ções especiais. “Sempre achei que fazia
que não sabia o que estava fazendo.
Na hora do fechamento, era colocada conta Carlos Azevedo. sura. Diversas edições, mesmo falta um registro da história do jornal, de
uma mesa para ele ficar vendo o O viés político da publica- censuradas, acabaram sendo sua trajetória e importância naquele mo-
material e o pessoal todo na correria. ção semanal era tão evidente apreendidas. Quando a censu- mento histórico. Cheguei a fazer um pro-
Foi numa dessas oportunidades que que até mesmo sua viabiliza- ra recuou, setores militares jeto para realizá-lo em 2003, mas proble-
um dos colegas começou a assobiar a ção econômica e sua sustenta- adotaram o terrorismo para mas pessoais me levaram a desistir. Em
Internacional Comunista. Logo, ção administrativa foram combater o jornal, bombarde- 2008, a Editora Manifesto obteve condi-
estávamos todos na mesma melodia. peculiares. Fatores sem os ando as bancas que o vendi- ções materiais pela Lei Rouanet e me con-
Só vimos quando o censor pediu quais dificilmente o jornal am, assim como outros jornais vidou para fazer o livro, junto com uma
licença para sair e ir ao banheiro ou teria conseguido seguir uma alternativos. Como o ponto pequena equipe. Durante a existência de
comer alguma coisa. Foi constrangedor.
linha tão contestadora. Movi- forte eram as vendas em ban- Movimento eu estava na clandestinidade
Para ele, naturalmente. Ainda assim,
não tanto quanto aquele que foi o
mento foi um caso raro de im- ca, foi um golpe brutal, que por pertencer à resistência à ditadura.
último ataque da ditadura contra a prensa independente, dirigi- precipitou seu fechamento”, Mesmo assim, consegui dar alguma cola-
liberdade de imprensa. Aconteceu da pelos próprios jornalistas contextualiza Carlos Azeve- boração como jornalista. Publiquei uma sé-
quando eu era deputado estadual, em que o faziam, sem a figura clás- do, jornalista com passagens rie de artigos, a maioria sob pseudônimos”,
1978. Costumo dizer que a ditadura era sica de um patrão-empresário. Escolheu-se por veículos como O Estado de S.Paulo, recorda o jornalista, para quem, mesmo que
herbívora na época, mas ainda mordia. o formato de uma empresa de sociedade Quatro Rodas, Caros Amigos e Realidade, e num País hoje liberto das amarras do auto-
Descobrimos que o Centro de anônima. E o jornal se concretizou por autor do livro Cicatrizes de Reportagem, ritarismo, faz falta a presença de publica-
Informações do Exército preparava um meio de uma mobilização feita em todo País, lançado pela Editora Papagaio em 2007. ções de perfil contestador.
ataque unificado entre órgãos como e a venda de ações a apoiadores, chegando Movimento foi um jornal sustentado “Sempre há espaço para publicações
Receita Federal, INPS e outras
ao número de 500 acionistas – entre jorna- pelo movimento democrático e popular independentes, que busquem informar o
instâncias de fiscalização para acabar de
vez com a imprensa alternativa. Era
listas, intelectuais, profissionais especiali- que se opunha à ditadura. Do Conselho leitor honestamente, dando condições à
uma forma de atacar sem parecer zados, professores e estudantes. Editorial fizeram parte nomes como Chi- sua formação como cidadão e participan-
censura. Divulgamos, denunciamos. “Movimento circulou de julho de 1975 a co Buarque, Fernando Henrique Cardoso, te consciente da sociedade. Só assim pode-
Todo mundo deu e tiveram que novembro de 1981. O jornal tinha em mé- Alencar Furtado, Edgar Mata Machado, remos ampliar a democracia no rumo de
suspender a vergonhosa operação.” dia cinco mil assinantes, mas suas vendas Hermilo Borba Filho e Orlando Villas Boas. uma sociedade mais justa”, sentencia.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 9


RESISTÊNCIA

Sem temer Buzaid, Lygia denunciou


a tortura no auge da ditadura Médici
Num dos capítulos do seu clássico As Meninas, a autora de Ciranda de Pedra reproduziu em 1973
o depoimento de uma das vítimas de sevícias nas masmorras do Doi-Codi de São Paulo.
Sem se intimidar com o currículo do Iniciou-se ali um cerimonial freqüente- enegrecidas devido às queimaduras elé- ríodo da ditadura militar, Doi-Codi. Devido
novo Ministro da Justiça, que pertencera mente repetido e que durava de três a tricas. à importância do assunto que Você tem re-
à cúpula da Ação Integralista Brasileira, seis horas cada sessão. Primeiro me per- E etecetera, etecetera. petido na sua bela revista, aproveito a oca-
movimento de caráter fascista de Plínio guntaram se eu pertencia a algum gru- Dobro a folha. Madre Alix me encara. sião para lhe enviar o meu romance As Me-
Salgado, e marcaria a sua passagem pelo po político. Neguei. Enrolaram então Os olhos cinzentos têm uma expressão ninas, que vai com o meu afetuoso abraço.
cargo com a oficialização da censura alguns fios em redor dos meus dedos, ini- afável. (a) Lygia, S. Paulo, 8.8.11.”
prévia a jornais, livros, criações musicais ciando-se a tortura elétrica: deram-me – Conheço isso, filha. Esse moço cha-
e filmes, a escritora Lygia choques inicialmente fra- ma-se Bernardo. Tenho estado muito
Fagundes Telles destacou- cos que foram se tornando com a mãe dele, fomos juntas
se na década de 1970 como cada vez mais fortes. De- falar com o Cardeal.”
uma das mais corajosas mi- pois, obrigaram-me a tirar a ...
litantes da resistência à di- roupa, fiquei nu e desprote- Lygia Fagundes Telles en-
tadura militar, embora sem gido. Primeiro me bateram caminhou ao Presidente da
alardear as posições que com as mãos e em seguida ABI exemplar de As Meni-
adotava. com cassetetes, principal- nas com as páginas 148 e 149
Foi Lygia quem primei- mente nas mãos. Molha- assinalando o texto transcri-
ro colocou numa obra de ram-me todo, para que os to e a seguinte mensagem
ficção a denúncia das tor- choques elétricos tivessem manuscrita:
turas cometidas durante o mais efeito. Pensei que fosse “Meu caro Maurício,
Governo Garrastazu Médi- então morrer. Mas resisti e Nas páginas 148 e 149 está
ci. Nas páginas 148 e resisti também às reproduzido um panfleto
149 de uma de suas
“CARREGARAM-ME surras que me abri- que recebi em casa no pe-
mais importantes EM SEGUIDA PARA A ram um talho fundo
obras, o romance As CHAMADA CAPELA: A em meu cotovelo.
Meninas, Lygia con- CÂMARA DE TORTURAS. Na ferida o sargento
cebeu um diálogo INICIOU-SE ALI Simões e o cabo Pas-
em que as duas in- sos enfiaram um fio.
terlocutoras discu-
UM CERIMONIAL Obrigaram-me a
tem espiritualidade, FREQÜENTEMENTE aplicar choques em
medo e violência, REPETIDO E QUE mim mesmo e em
tema que enseja esta DURAVA DE TRÊS A SEIS meus amigos. Para

FOLHAPRESS
intervenção de uma que eu não gritasse
HORAS CADA SESSÃO.”
delas, baseada num enfiaram um sapato
documento da vida real a que Lygia teve dentro da minha boca. Outras vezes,
acesso: panos fétidos. Após algumas horas, a ce-
(...) Mas já que a senhora falou em vi- rimônia atingiu seu ápice. Penduraram-
olência vou lhe mostrar uma – digo e pro- me no pau-de-arara: amarraram minhas
curo o depoimento que levei para mos- mãos diante dos joelhos, atrás dos quais
trar ao Pedro e esqueci. – Quero que ouça enfiaram uma vara, cujas pontas eram
o trecho do depoimento de um botâni- colocadas em mesas. Fiquei pairando no
co perante a Justiça, ele ousou distribuir ar. Enfiaram-me então um fio no reto e
panfletos numa fábrica. Foi preso e leva- fixaram outros fios na boca, nas orelhas
do à caserna policial, ouça aqui o que ele e mãos. Nos dias seguintes o processo se
diz, não vou ler tudo: Ali interrogaram- repetiu com maior duração e violência.
me durante cinco horas enquanto grita- Os tapas que me davam eram tão fortes
vam traidor da pátria, traidor! Nada me que julguei que tivessem me rompido os
foi dado para comer ou beber durante esse tímpanos, mal ouvia. Meus punhos es-
tempo. Carregaram-me em seguida para tavam ralados devido às algemas, minhas
a chamada capela: a câmara de torturas. mãos e partes genitais completamente
HISTÓRIA

Memórias

ARQUIVO PESSOAL
amargas
POR RODOLFO KONDER

Q uarenta anos atrás, no dia 1º de


abril de 1964, acordei sobressaltado.
Na televisão, a voz arrogante de
Flávio Cavalcante anunciava a vitória dos
golpistas e a fuga, de Brasília, do Presidente
João Goulart. Na tela, surgiam imagens de
lençóis brancos nas janelas de alguns prédios
da Zona Sul do Rio de Janeiro. Comemoravam

ARQUIVO JB
o fim do Governo Jango e o início de uma
prolongada ditadura militar.
As perseguições que se iniciaram a partir de
então não perturbaram a rotina das ruas –
pelo menos até 1967 a 1968 – mas eram reais.
Arrastaram muita gente, na penumbra.
Levaram parentes e amigos. Seqüestravam as
pessoas e, às vezes, faziam-nas imergir no
lodaçal insondável do “desaparecimento”.
À noite, casas e mentes eram invadidas,
enquanto os cães uivavam nos quintais e o
vento investia contra as sombras. A casa dos Conferência da OEA, no Hotel Glória, Da Argentina fui para o Peru.
meus pais foi ocupada. Prenderam minha mãe Aristélio Andrade, Milton Coelho, Maurício Mas acabei em Montreal no Canadá, onde
– doce e inofensiva mulher de 50 anos –, meu Azêdo e eu criamos uma comissão de trabalhei durante dois anos como “announcer
irmão e minha cunhada. Transformaram a jornalistas que preparou um texto com producer ”, na “Canadian Broadcasting
casa numa espécie de papel pega-mosca: denúncias contra o regime militar. Com a Corporation”. Participei de encontros
quem tocava a campainha caía na armadilha. ajuda de Lygia Sigaud e dos membros da internacionais, entrei para a Liga dos Direitos
Dirigente sindical na Petrobras, fui logo comissão, o texto foi distribuído dentro do Humanos, esquiei nas Lawrentian
procurado pelos agentes da repressão. E hotel, para o desespero da polícia política. Mountains. Depois, morei quase um ano em
cassado. Com a ajuda de Luís Carlos, Na esteira do AI-5, no final de 1968, Nova York, como correspondente do jornal
funcionário da empresa que eu jamais vira mudei-me para São Paulo, onde fui preso, em Versus, dirigido por Marcos Faerman.
antes, mas que me levou até a Embaixada do 1975. As torturas a que me submeteram, nos Após meu regresso ao Brasil, em outubro de
México, na Praia do Flamengo, escapei e parti porões do Doi-Codi, deixaram seqüelas que 1978, fui intimado a prestar depoimento na
para o primeiro exílio. Antes de embarcar, vivi até hoje não consigo avaliar com precisão. Polícia Federal. Durante três horas, fizeram-
uma experiência claustrofóbica, num Mas creio que o seu efeito mais perverso é me perguntas, na presença do meu advogado,
apartamento ocupado por mais de 60 pessoas uma sensação insuperável de isolamento, José Roberto Leal, e do Vice-Presidente do
que se odiavam e pareciam ratos de um sentimento de solidão que se instalou Sindicato dos Jornalistas, Fernando Moraes.
laboratório. para sempre. Mas o clima era de respeito. A abertura
No México de Lopes Mateus, conheci o No dia 1º de abril de 1976, doze anos depois política se esboçava.
lendário Lázaro Cardenas, visitei Acapulco, do golpe militar, a Segunda Auditoria de Hoje, posso dizer que estive na guerra.
estive em La Quebrada, para ver Guerra, em São Paulo, decretou minha prisão Estivemos todos, na verdade. Não
mergulhadores que pareciam pássaros, e preventiva. Autorizado a me defender em combatemos na Coréia, nem no Vietnã, nem
sobrevivi a um terremoto. Depois, desci pela liberdade, deixei de comparecer no Chade, nem na Croácia, mas estivemos na
Costa do Pacífico, com Osmildo Stafford e semanalmente ao gabinete do Delegado guerra. Na Guerra Fria. Durante vinte anos,
Humberto Pinheiro, até o Chile. Então, Sérgio Fleury – e me encontrava “em lugar enfrentamos o regime militar implantado no
Argentina e Uruguai. ignorado e não sabido” (SIC). Na verdade, eu Brasil em 1964 – quarenta anos atrás. Não
Vivi quase clandestinamente, após fugira para a Argentina, atravessando podemos esquecer, até porque os demônios do
regressar do primeiro exílio, pela fronteira clandestinamente a fronteira, em Foz do autoritarismo e da intolerância ainda nos
com o Uruguai, em Rivera e Santana do Iguaçu. Ao receber cartas e telefonemas de espreitam, na sombra.
Livramento. Consegui meu primeiro uma organização que se dizia “O Braço
emprego na Agência Reuter, com a ajuda de Armado da Repressão”, decidi sair do País para RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da
ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da
Luís Gazzaneo, em 1965. Na cobertura da um segundo exílio. Cidade de São Paulo.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 11


Aconteceu na ABI
HOMENAGEM Saturnino sublinhou também a admi-
ração que Raul Ryff nutria por João Gou-
lart: “Raul Ryff dizia que Jango era um de-

Os 100 anos de Raul Ryff, uma mocrata, que Jango gostava de ouvir o
trabalhador, de escutar o povo, de sentir e
atender o pensamento e a verdadeira von-
tade popular. Ele distinguia o Jango das

referência como exemplo de vida demais lideranças por esta característica


única e isto vinha de uma forma afetiva.”

A imagem de Jango
Amigo da família, o ex-Deputado Eduar-
Governador do Estado do Rio, jornalista e sócio da ABI, Marcello Alencar deu o tom da do Chuay assinalou o papel de Raul Ryff na
homenagem que a ABI prestou ao jornalista Raul Francisco Ryff por motivo do centenário de reconstrução da imagem de Jango:”Eu ja-
mais encontrei uma pessoa com a honra-
seu nascimento. “Ele foi uma referência nacional pelas características de fidelidade que demonstrou dez, a dignidade e a discrição de Raul Ryff.
ao longo da vida”, disse Marcello, que ratificou assim o título que a Casa deu ao ato em memória Comentava-se muito sobre o quanto Jan-
do ex-Secretário de Imprensa do Presidente João Goulart: Raul Ryff, O Companheiro Fiel. go era mal visto. Entre 1964 e 1978, e em
1982. Raul ajudou a recuperar a verdadei-
ra imagem de João Goulart. Ryff também
POR CLÁUDIA SOUZA uma referência neste momen- foi lembrado pelo seu carisma e pela dis-
to de tantas situações nega- posição em colaborar com os amigos.
Ex-Governador do Estado do Rio, jor- tivas no quadro político. Ve- “Ele sempre procurou ajudar as
nalista e sócio da ABI, Marcello Alencar mos em Ryff um símbolo pessoas para que elas progredis-
deu o tom da homenagem que a ABI pres- de seriedade e notável pre- sem. Ele gostava de ver as pesso-
tou ao jornalista Raul Francisco Ryff por sença nos acontecimen- as se desenvolvendo profissi-
motivo do centenário de seu nascimen- tos mais graves da nação. onalmente, tendo uma vida
to. “Ele foi uma referência nacional pelas Ele é uma referência nacio- mais digna”, disse Luiz Car-
características de fidelidade que demons- nal pelas características de los Ryff, filho do homena-
trou ao longo da vida”, disse Marcello, que fidelidade que demonstrou geado. Tito Ryff comple-
ratificou assim o título que a Casa deu ao ao longo da vida”. mentou: “Nosso pai nos en-
ato em memória do ex-Secretário de Im- A convivência íntima de sinou vários exemplos im-
prensa do Presidente João Goulart: Raul Raul Ryff com João Goulart foi portantes, um desses era o da
Ryff, O Companheiro Fiel. outro aspecto destacado por tolerância. Ele era um homem
O centenário de nascimento do jorna- Marcello Alencar: “Ele era o ho- que não procurava impor
lista Raul Ryff foi homenageado em even- mem, talvez, de maior confian- suas convicções a nin-
to especial realizado na noite de 24 de ça do Presidente Goulart. Seu guém. Ele as tinha firmes,
agosto na ABI, com a participação de pa- comportamento ético e sua pre- mas jamais procurou impô-
rentes, amigos e admiradores do ex-Secre- sença enobreciam os ambientes. las a outros ou fazer que elas
tário de Imprensa do Governo João Gou- Hoje é um dia justo com a memó- prevalecessem em qualquer

MUNIR AHMED
lart, que foi lembrado como companhei- ria deste homem, que merece debate ou discussão. Ele res-
ro leal e solidário e exemplo de lisura e estar no quadro dos grandes peitava a opinião dos outros,
seriedade. Formaram a mesa de honra da cidadãos brasileiros. Deixo ainda que não fosse exata-
cerimônia o Presidente da ABI, jornalista aqui a expressão de minha mente a sua”.
Maurício Azêdo, o ex-Governador Marce- saudade, e gostaria que vo-
llo Alencar, o ex-Senador Saturnino Braga, cês todos comungassem O xodó das mulheres
os filhos de Raul Ryff, Tito Bruno Bandei- desse meu sentimento”. Presente à cerimônia,
ra Ryff e Luiz Carlos Bandeira Ryff, a soci- o neto Luiz Antônio Ryff falou sobre a in-
óloga e ex-nora de Raul Ryff, Maysa Macha- Jango, um injustiçado fluência do avô em sua vida: “Tive a opor-
do, a viúva do ex-Presidente Jango, Maria Tito Ryff também comentou a relação tunidade, a honra e a felicidade de convi-
Thereza Goulart, e sua filha Denize Gou- do pai com o ex-Presidente João Goulart, ver com meu avô. Passei a adolescência
lart, o cineasta Silvio Tendler, Diretor do do- cuja relevância histórica, em sua opinião, ABI é motivo de especial satisfação e con- com ele. Fui morar com ele aos dez anos,
cumentário Jango, e o ex-Deputado Eduardo muitas vezes foi subestimada: “Não há tentamento. Celebramos a memória de e era uma relação completamente dife-
Chuay, amigo do homenageado. personalidade política e histórica mais in- Raul Ryff, que estaria fazendo hoje 100 rente. Sou o representante da terceira ge-
Na abertura da solenidade, após a exe- justiçada do que o ex-Presidente João Gou- anos se estivesse vivo. Gostaria que esta ração de jornalistas da família, que além
cução do Hino Nacional, o Presidente da lart. Está na hora de resgatarmos a sua celebração não fosse uma comemoração do papai Luiz Carlos, do tio Tito, tinha
ABI falou sobre a importância da home- memória. Gostei muito da frase que dá tí- em torno da pessoa ou dos valores, ou ex- também o tio Sérgio, que foi jornalista, ir-
nagem: “Gostaria de agradecer a honro- tulo a esta cerimônia: “o companheiro fiel”. clusivamente da pessoa ou da figura do mão mais velho do Tito e do Luiz Carlos
sa presença de todos os que estão aqui Raul Ryff foi amigo fiel de João Goulart Raul Ryff, mas que fosse para todos nós e que seguiu o Raul. Ele dava livros de
para aplaudir o jornalista extraordinário porque ele era fiel ao seu compromisso com uma forma de celebrar as conquistas que vários jornalistas para eu ler, dividia os jor-
que foi Raul Francisco Ryff, um modelo o povo, com as suas convicções e com os tivemos a duras penas, a conquista da nais todos os dias comigo, foi me guian-
de competência profissional, de clarivi- ideais de uma sociedade. O País deve mui- liberdade, a conquista da democracia.” do para o jornalismo. Quando ele teve um
dência política e, sobretudo, de coerência to aos seus jornalistas, à sua imprensa. Jor- enfarto pela primeira vez eu tinha 12
com as idéias que agasalhou desde a sua nalistas não só aqueles de esquerda que que- Gosto de ouvir o povo anos. No dia em que ele voltou ao Jornal
juventude no Rio Grande do Sul”. riam a transformação social do país, mas jor- O ex-Senador Saturnino Braga convi- do Brasil para rever os colegas, eu o acom-
nalistas liberais, conservadores, que assu- veu com Raul Ryff quando esteve à fren- panhei. Quando chegamos lá, foi aquele
“Símbolo de seriedade” miram as fronteiras da liberdade e da demo- te da Prefeitura do Rio de Janeiro: “Con- bafafá com as mulheres todas da Redação
O ex-Governador Marcello Alencar, cracia, para combater a ditadura que se im- vivi diretamente com Raul Ryff durante correndo na direção dele. ficou aquele mon-
que convidou Raul Ryff para o cargo de plantou neste País. Até hoje a ABI é com sua aqueles anos na Prefeitura. Todo fim de te de mulher beijando, agarrando, abraçan-
Secretário Extraordinário durante a sua história política e social um exemplo de ins- tarde ele vinha conversar comigo sobre as do. E eu pensei: “É isso que eu quero fazer na
primeira gestão na Prefeitura do Rio de tituição que serviu aos maiores ideais da notícias que deveria encaminhar à im- vida!” Vovô era uma pessoa extremamente
Janeiro, no início da década de 1980, de- nação brasileira”. prensa, e essa conversa sempre versava sedutora, muito querida pelas pessoas. Sou
clarou seu carinho ao ex-companheiro e “Ulisses Guimarães disse certa vez que sobre fatos e personagens da História do herdeiro desse carinho que o meu avô cons-
amigo: “Em 1982, Leonel Brizola me con- tinha nojo e ódio das ditaduras. Nós de- nosso País. Raul Ryff era da geração de meu truiu na vida dele. Enquanto há memória,
vocou para ocupar a Presidência do Ba- vemos ter ódio e nojo das ditaduras, por- pai, aprendi muito com sua retidão, sua a pessoa sobrevive.”
nerj. A minha primeira preocupação foi que não há valor mais supremo do que o ética, sua lealdade a seus princípios. Ele é O fotógrafo Evandro Teixeira, compa-
formar uma equipe e convidei Raul Ryff valor das liberdades, de modo que para absolutamente digno desta homenagem nheiro de Raul Ryff no Jornal do Brasil, des-
para ser meu Secretário. Este homem é nós o fato de esta solenidade ocorrer na que a ABI e todos nós estamos prestando”. creveu a longa amizade com o colega:

12 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


RENAN CASTRO

RENAN CASTRO
“A gente não pode esquecer o lado do Raul
absolutamente contador de histórias, sem-
pre resolvendo as situações mais dramáti-
cas com humor. Quando ele voltou do exí-
lio, desembarcou no Galeão e o seguraram
para prestar depoimento na Praça Mauá.
Chegando lá, o escrivão não podia tomar
o depoimento porque tinha esquecido os
óculos em casa, na Penha.
“Vai lá que eu te espero aqui”, disse Ryff
para ele.
Enquanto fazia hora, o Delegado co-
mentou com Ryff: “Doutor, o senhor não
Ao assumir a Prefeitura do Rio, Saturnino sabe o que fizeram com o nosso Flamengo
Braga convocou para Secretários Raul Ryff e neste período em que o senhor estava fora!”
seu filho, o economista Tito (à esquerda). Maysa Machado lamentou a ausência
de Raul Ryff: “Eu não fui apenas nora do
“Trabalhei durante muito tempo com ele, Raul, fui também companheira de militân-
era uma pessoa maravilhosa, era o mais cia, porque a visão que a gente tem é com-
querido da Redação, principalmente pletamente diferente de quem não se doa. Maria Thereza e sua filha Denise, ao lado de Maurício Azêdo: Ryff foi um amigo presente.
entre as mulheres. Na pesquisa, então, ele Nós vemos como as pessoas se entrelaçam
era louvado, aplaudidíssimo. Naquela épo- nessa necessidade contemporânea que te-
ca, o Governo dava ao jornalista o direito mos de respeitar alguém que tem uma vida
de adquirir um apartamento com uma as- pública. O Raul preenche esse vazio que
A emoção de Maria Thereza
sinatura do Presidente da República, e com existe na expectativa de cada um de nós.” e de Denise, filha de Jango
essa assinatura você tinha o privilégio de
comprar um apartamento sem entrar na A viúva do Presidente João Goulart, esposo em todos os momentos, uma gran-
fila da Caixa Econômica. E isso eu devo ao Maria Thereza Goulart, e sua filha De- de figura brasileira e um grande amigo”,
Raul Ryff, que um dia me disse: ‘Evandro, Um combatente do nise Goulart, que era uma menininha disse Maria Thereza.
quando o pai foi deposto e compelido a Denise recordou a dedicação e a so-
está na hora de você comprar o seu aparta-
mento. Faz uma carta que eu vou conver-
movimento sindical se exilar, também se revelaram felizes lidariedade de Raul Ryff: “Não foi só no
e emocionadas por participar da home- momento de Governo, mas também
sar com o Jango’. Uma semana depois eu es- Antes de encerrar o evento, o Presi- nagem a Ryff. Em e-mail aos organiza- nos momentos mais difíceis do exílio,
tava com o apartamento comprado. E isso dente da ABI sublinhou o papel de Raul dores do ato, Denise confessou que fi- Ryff era um amigo que esteve sempre
eu devo ao Jango, ao Ryff, especialmente. Ryff na imprensa e na política nacional: cou emocionada já ao receber o convi- presente e isso era um dos motivos pe-
Sinto saudades do Ryff, porque ele foi um “Gostaria de aduzir aos depoimentos po- te, pelo título dado à solenidade: Raul los quais meu pai sempre acreditou na-
dos maiores jornalistas com quem eu con- líticos e de caráter pessoal que foram fei- Ryff, O Companheiro Fiel. quela amizade. Eu também tive a hon-
vivi e trabalhei. Esta é a minha homena- tos algo estritamente profissional com “Com muita honra estou aqui neste ra e o privilégio de manter essa amiza-
gem ao Raul Ryff.” vinculação com a ABI e com o movimen- momento homenageando uma pessoa de depois que voltei ao Brasil. O Raul
to dos jornalistas no Rio de Janeiro e no que foi de grande importância na nos- sempre manteve contato conosco e
“Ele me tratou como gente” Brasil. Como lembrou o jornalista Osval- sa vida, que foi um grande amigo do meu com a família.”
A jornalista Leda Nagle também evo- do Maneschy em sua intervenção, houve
cou sua convivência com Raul Ryff no época em que Carlos Lacerda ia para a te-
início da carreira: “Conheci Raul Ryff no levisão e tinha como referência o comu- um grupo que reunia, entre outros, Sa- tido Comunista Brasileiro, e teve um pa-
nista Raul Francisco Ryff, um dos jorna- muel Wainer, Moacyr Werneck de Cas- pel fundamental na organização dos jor-
meu primeiro dia de estágio. Ele foi a pri-
listas mais atacados pelas suas convicções tro, Rubem Braga, além dos intelectuais nalistas, do ponto de vista de defesa pro-
meira pessoa a prestar atenção em mim, a
políticas, por sua filiação ideológica e ade- e artistas que transitavam no entorno, fissional, a partir dos anos 1930. O sindi-
falar comigo. Porque estagiário ninguém são ao Partido Comunista Brasileiro ain-
vê, e ele me tratou como gente, falou co- como Di Cavalcânti, que era presença cato mais antigo de jornalistas do Brasil
da nos anos 1930, em seu Estado, o Rio constante nas publicações da época, en- foi o do Rio de Janeiro, fundado ainda no
migo carinhosamente e me convidou para Grande do Sul.”
almoçar no primeiro dia. Era uma pessoa tre as quais a revista Diretrizes, que Samuel começo dos anos 1930, que tinha entre os
“Quando veio para o Rio de Janeiro. Wainer criou e foi o embrião de arrojado seus fundadores alguns nomes destacados
encantadora, me contou várias histórias Ryff vinculou-se ao grupo democrático de projeto de jornalismo que ele desenvol- da imprensa na época, como o iniciante
ao longo dessa convivência maravilhosa.” jornalistas da cidade, um grupo muito veria 20 anos depois através da criação do Evandro Lins e Silva, e o já reconhecida-
Silvio Tendler acentuou o aspecto bem- forte e também muito expressivo do jornal Última Hora.” mente talentoso Carlos Lacerda, entre
humorado da personalidade de Raul Ryff: ponto de vista profissional e intelectual, Maurício lembrou as dificuldades para outros. Ryff sobressaiu-se em termos de
os jornalistas que se declaravam comu- dedicação para atrair jornalistas para a
nistas: “Com o perfil ideológico com que criação da Federação Nacional dos Jorna-
ÁLBUM JOTABENIANO

desembarcou no Rio de Janeiro, Raul listas-Fenaj, de que participaram o cita-


Ryff sempre esteve na mira dos reacioná- do João Antônio Mesplé, Fernando Segis-
rios, dos conservadores e dos anticomu- mundo, que foi Presidente da ABI, Carlos
nistas, alguns dos quais babavam de ódio Alberto Costa Pinto, todos devotados à
contra os comunistas. Nessa época, o causa da organização dos jornalistas para
meio profissional dos jornalistas no Rio que eles não fossem presas fáceis da po-
de Janeiro, apesar desses que mencionei, lítica do patronato da grande imprensa e
sobretudo na grande imprensa, era mui- também da sufocação que poderiam so-
to fechado para quem era de esquerda ou frer na defesa de suas idéias.”
tinha idéias comunistas. Lembro que no O Presidente da ABI finalizou reafir-
meu começo de profissão, no final dos mando os valores de vida do jornalista:
anos 1950, nós sabíamos de cabeça que na “Entre outros motivos, esta homenagem
Redação do jornal O Globo só havia dois a Raul Ryff é realçada por esta sua parti-
comunistas: o jornalista Lucílio de Cas- cipação e, para honra da ABI, e como um
tro, que por uma das muitas contradições jornalista exemplar do ponto de vista da-
positivas do Roberto Marinho era Secre- quilo que nós pusemos neste banner:
tário de Redação do jornal, e João Antô- competência, desambição e sobretudo le-
nio Mesplé, que foi um dos mais atuan- aldade, porque foi muito difícil durante
tes militantes do movimento sindical dos mais de 25 anos as pessoas manterem a le-
jornalistas.” aldade às suas próprias idéias e aos seus
Ainda sobre a ligação de Raul Ryff com companheiros e contemporâneos. É esse
o Partido Comunista e o sindicalismo, Ryff que com muito orgulho a Associação
Maurício comentou: “Ryff vinculou-se Brasileira de Imprensa evoca e homena-
Xodó: Pausa para o cafezinho no Jornal do Brasil, sob o olhar de admiração da jornalista Rita Luz. desde então ao grupo de jornalistas do Par- geia neste ano de seu centenário.”

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 13


Aconteceu na ABI

Waldir Pires: Uma vida de trabalho,


Ryff tem de prisões e de exílios
assento na Raul Ryff nasceu em Berna, na Suíça, lado da mulher Beatriz Bandeira Ryff. O ceu João Goulart, responsável pela Pasta.
História em 8 de agosto de 1911, filho de pai su-
íço naturalizado brasileiro e de mãe bra-
casal se conheceu nas fileiras do Partido
Comunista, na década de 1930. “Fui pro-
Os dois se tornaram amigos e o jornalista
passou a assessorá-lo junto à imprensa.
Nas horas tormentosas que sileira. A família veio para o Brasil quan- curá-lo para levar uma palavra de ordem Com a eleição de Jango para a Vice-
precederam à queda do regime do Raul tinha oito meses de idade. do partido, ficamos amigos e acabamos Presidência da República na chapa de Jus-
constitucional, em 1° de abril de O primeiro contato de Ryff com o presos no mesmo dia”, recorda Beatriz. celino Kubitschek, Ryff assumiu o car-
1964, o Presidente João Goulart jornalismo foi ainda na adolescência, no Integrante do movimento Juventude go de Assessor de Imprensa de Jango.
contava no primeiro escalão do colégio jesuíta Ginásio Cruzeiro do Sul, Comunista e da ANL, Beatriz foi presa em Com a eleição deste à Presidência da Re-
Governo, em Brasília, com três leais em Porto Alegre, como colaborador do 1936, tendo dividido a cela com Olga pública, o jornalista passou a atuar na
e corajosos colaboradores: Darcy jornal escolar O Pindorama, que era diri- Benário, e em 1964. Do casamento com função de Secretário de Imprensa do
Ribeiro, Chefe do Gabinete Civil da gido pelo colega de escola Érico Veríssi- Ryff, que durou mais de cinco décadas, Governo, exercendo forte liderança para
Presidência da República, que mo, que veio a se tornar um dos maiores nasceram Vitor Sérgio Ryff, morto na a implementação do projeto das refor-
imaginava poder montar a nomes da literatura nacional. década de 1990, o economista e político mas de base.
resistência armada aos golpistas; Em 1935, aos 24 anos, Ryff fundou a Tito Bruno Ryff e o físico Luiz Carlos Em 1964, após a queda de Jango pela
Waldir Pires, Consultor-Geral da Aliança Nacional Libertadora(ANL), Ryff. O nome de Luís Carlos é uma home- ditadura militar, Ryff permaneceu es-
República, e Raul Francisco Ryff, juntamente com Dionélio Machado, nagem a Luís Carlos Prestes, e o de Tito condido no Brasil com a ajuda de amigos,
jornalista, Secretário de Imprensa Aparício Cora de Almeida, Agildo Bara- Bruno é uma dupla homenagem ao Ma- mas teve os direitos políticos cassados e
do Presidente. Derrotados, todos, à ta e João Antônio Mesplé. A entidade, rechal Tito, que unificou a Iugoslávia em se exilou na Iugoslávia e na França, onde
frente o Presidente deposto, vinculada ao Partido Comunista Brasilei- 1945, após a Segunda Guerra Mundial, e trabalhou como correspondente da Re-
tomaram o caminho do exílio. Eram ro (PCB) foi pontuada pelo viés naciona- a Giordano Bruno, filósofo italiano que vista Mundo Econômico, e para a tevê fran-
tempos "tumultuados e ricos de lista e antifascista. Em julho de 1935, a foi queimado na fogueira, em Roma, em cesa. Beatriz fez a cobertura jornalística
sonhos, objetivos e idéias", como ANL foi fechada pelo então Presidente 1600, durante a Inquisição. de desfiles de moda para uma agência de
relembra Waldir Pires nesta Getúlio Vargas e passou a atuar na clan- O casal exerceu a militância política notícias brasileira.
mensagem em que relatou sua destinidade. No final de 1935, Ryff se ao lado de grandes nomes como o líder De volta ao Brasil, em 1968, Ryff in-
dificuldade de vir ao Rio para o ato mudou para o Rio de Janeiro, onde foi revolucionário Carlos Marighela, os jor- gressou na Redação do Jornal do Brasil e
em homenagem a Ryff: preso sob a acusação de envolvimento na nalistas e escritores Eneida de Moraes e filiou-se ao MDB, partido de oposição ao
"A Maysa Machado, pedindo que insurreição armada de novembro de 1935, Álvaro Moreyra, sua mulher Eugênia, e Governo. Uma década depois, foi bene-
o leve, também, a Maurício Azêdo, organizada pelo PCB. Graciliano Ramos, que retratou a amiza- ficiado pela Lei da Anistia, promulgada
Presidente da ABI, Em 1936, Ryff foi deportado para o de com Beatriz e Raul Ryff no livro Me- em 1979, ano em que lançou o livro O
Muito grato pelo convite para a Rio Grande do Sul, onde permaneceu mórias do Cárcere. Fazendeiro Jango no Governo. No início da
reunião de amanhã, no auditório da preso por determinação de Filinto Mül- Após o exílio no Uruguai, a família década de 1980, a convite do então Pre-
ABI, em homenagem ao centenário ler, que chefiava a polícia política no retornou ao Brasil em 1938. Um ano de- feito Marcello Alencar, assumiu a Secre-
de Raul Ryff. Governo Vargas, e foi responsável pela pois, Ryff começou a trabalhar em Por- taria Extraordinária da Prefeitura do Rio
Infelizmente não tive condições, prisão da militante política Olga Bená- to Alegre, como redator do jornal Correio de Janeiro. Filado ao PDT, permaneceu
ontem, de mudar compromisso de rio, mulher do histórico revolucionário do Povo. Em 1951, foi transferido para a no mesmo cargo até 1987, já na gestão
hora e dia de palestra que terei de Luís Carlos Prestes. Em maio de 1937, sucursal carioca do jornal. Na cobertura do Prefeito Saturnino Braga.
fazer amanhã, aqui em Salvador. Ryff seguiu para o exílio no Uruguai, ao do Ministério do Trabalho, Ryff conhe- Ryff morreu em 1989.
Sinto enormemente.
Quero me solidarizar com a ABI
e com todos os que aí estão, amigos
e companheiros e com os filhos e a 1970. Morávamos na Urca. O casal e seus dos avós das crianças. Elegante, discreto,
família de Raul, pelo encontro de
memória que realizam no Um fã de dois filhos. No apartamento pequeno, de
sala, dois quartos, árvores e pássaros, além
num tom quase cerimonioso, ficava ali
conversando com os netos, e tomando o
centenário dessa grande figura
humana de cidadão brasileiro que Lupicínio do suave ranger do bondinho do Pão de
Açúcar, ainda, pintado de vermelho –
chá inglês, aroma de bergamota, que lhe
era servido com amor. Meu sogro era uma
foi Raul Ryff. subindo e descendo o morro – as cigarras pessoa encantadora. Reservado, porém
Abraço todos afetuosamente, cantavam, e enlouqueciam o despertar, solícito, de quando em quando um co-
P OR M AYSA M ACHADO
convivemos ao longo da vida tornando-o compulsivo, às cinco e meia mentário leve, irônico. A canção rodava
nos embates dos nossos tempos, Em dezembro de 2009, a ABI homena- da manhã. num LP, em suas 78 rpm. Sabia trechos da
tumultuados e ricos de sonhos, geou o centenário de Beatriz Ryff. A ce- Nesse trecho do bairro, incrustado en- letra, repetindo-os como quem filosofa:
objetivos e lutas. No Governo do rimônia foi organizada por parentes, ami- tre a Praia Vermelha e a enseada da Baía “O pensamento parece uma coisa à toa/
Presidente João Goulart e, depois, gos e admiradores da escritora, aplaudida de Guanabara, o asfalto ficava atapetado mas como é que a gente voa/ quando
no exílio, no Uruguai e na França. como símbolo de luta pelos direitos hu- por minúsculas flores amarelas, que os começa a pensar...” Assim, fiquei saben-
Guardo de Raul Ryff uma manos e pela garantia das liberdades de- garis, um pouco mais tarde, varriam e do de sua predileção pelas composições
lembrança de enorme apreço e mocráticas, autora dos livros Roteiro, Pro- colocavam na caçamba. Continua até do autor – Lupicínio Rodrigues – gaúcho,
admiração. Sua honradez pessoal, fissão de Fé, Antes que Seja Tarde e A Resis- hoje pacato, bucólico, um paraíso para como ele se sentia.
sua lealdade constante e tência – Anotações do Exílio em Belgrado. quem gosta de viver em tranqüilidade. Hoje, nesta data, se ainda entre nós es-
responsável, no cotidiano da vida A socióloga e militante política Maysa Um pouco mais adiante, a pracinha do tivesse, espalhando com habilidade e sa-
profissional, jornalista sério, Pinto Machado, ex-nora de Beatriz, foi Quadrado com seus barcos de pequeno bedoria tudo que descobriu e conheceu,
irrepreensível, e na atividade uma das organizadoras da homenagem a porte. Chama-se, de fato, Praça Cacilda havíamos de comemorar seus cem anos de
política, no dia-a-dia das ações Beatriz e também da cerimônia comemo- Becker. forma suave e bem humorada. Relembro
políticas, incapaz de leviandades e rativa ao centenário de Raul Ryff, ambas Em 1974, Caetano gravara Lupicínio, com saudade sua importante passagem
íntegro sempre, no compromisso de na ABI. A convivência com Raul Ryff foi a canção ecoava. “Felicidade foi-se embo- por minha vida. Repetiria o gesto e colo-
suas responsabilidades. tema de um artigo especial assinado por ra/ a saudade no meu peito inda mora/ É caria as músicas lindas, de seu composi-
Parabéns pela manifestação de Maysa, que tem teor a seguir. por isso que eu gosto lá de fora/ porque sei tor preferido para tocar, no CD. Quem
respeito à História contemporânea “A vida quase sempre, em meio às lem- que a falsidade não vigora...” A melodia sabe não o ouviria repetindo frases meló-
do Brasil onde tem assento Raul branças, oferece paisagens, sons, cheiros, nostálgica invadia nossas almas, em gran- dicas, enquanto ia sorvendo, no chimar-
Ryff, com dignidade absoluta. frases. Não são apenas sensações renovan- de parte, doídas pelo cotidiano sem liber- rão, goles de esperança? Compartilhan-
Muito cordialmente do momentos percorridos. São pequenas dades, de expressão, ir e vir, reunião. do causos e notícias dos bastidores polí-
(a) Waldir Pires." e sábias repetições. Corria a década de Algumas tardes, vinha nos visitar um ticos, da sofrida época.

14 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


Pioneirismo de Nelson Werneck
realçado em ato marcado de emoção
A ABI e entidades culturais do Rio festejam o centenário do historiador em
sessão marcada pela emoção de sua filha, a psicóloga social Olga Sodré.

Uma assistência numerosa e represen- Nos tempos da Une

RENAN CASTRO
tativa da área cultural do Rio participou Jorge Coutinho também assinalou a
no dia 22 de agosto do ato promovido Ao lado de Olga luta de Nelson Werneck Sodré pelo for-
pela ABI e uma série de instituições em Sodré, Jorge talecimento da cultura nacional: “Falan-
homenagem ao centenário de nascimen- Coutinho do sobre Sodré, eu retorno à Une, em
relembrou Nelson
to de Nelson Werneck Sodré. A cerimõ- 1959, 1960. Discutíamos muito sobre a
Werneck Sodré
nia teve um elemento especial de emo- (abaixo, quando cultura nacional, o cinema, a música. É
ção: a participação da psicóloga social jovem) e os importante estarmos aqui hoje unidos por
Olga Sodré, filha do homenageado, que tempos da Une: esse pensamento em prol de um Brasil
veio de Itu, interior de São Paulo, onde “Discutíamos melhor ”.
mora, para falar sobre a trajetória profis- cultura nacional”. Luiz Antônio Gerace da Rocha e Sil-
sional e o pensamento do pai. O evento va acentuou a importância da participa-
foi organizado pelo Sindicato dos Jorna- ção coletiva para a valorização da iden-
listas Profissionais do Município do Rio tidade cultural no País:
de Janeiro; Sindicato dos Artistas e Téc- “Para nós, este evento é uma oportu-
nicos em Espetáculos de Diversão do Es- nidade muito especial, já que o cinema
tado do Rio de Janeiro; Sindicato dos Tra- e, de certa maneira, a História, fica regis-
balhadores na Indústria Cinematográfi- trada através de seus protagonistas. Nós,
ca do Rio de Janeiro; Sindicato dos Músi- os coadjuvantes, também ajudamos a
cos Profissionais do Estado do Rio de Ja- construir o cinema. Somos cerca de 15
neiro e pelo Clube de Comunicação. lista foram duramente golpeados. Não mil trabalhadores no Brasil, sendo 8 mil
CENTRO DE ESTUDOS BRASILEIROS NWS

A mesa de honra do encontro reuniu preciso falar que ele foi preso, não podia sindicalizados. Atualmente, quando se
Olga Sodré; Jorge Coutinho, Presidente mais ensinar, mas aproveitou para escre- fala tanto em globalização, vale citar
do Sindicato dos Artistas e Técnicos em ver. Essa luta, que foi derrotada em 1964, aquela máxima do futebol “Quem não
Espetáculos de Diversão do Estado do Rio já vinha acontecendo nos bastidores des- faz leva”, o que significa que se nós não
de Janeiro; Miguel Walther Costa, Pre- de a década de 1930, com sucessivas ten- produzirmos ficaremos condenados ao
sidente do Sindicato dos Radialistas do tativas de golpes, que desaguaram no sui- consumo. Esta identidade nacional pre-
Rio de Janeiro; Luiz Antônio Gerace da cídio de Vargas, na tentativa de impedi- cisa ser fixada.”
Rocha e Silva, Presidente do Sindicato mento da posse do Juscelino Kubitschek, Antes do encerramento do encontro,
dos Trabalhadores da Indústria Cinema- na tentativa de impedir a posse de João os participantes da mesa e o público de-
tográfica do Rio de Janeiro; o jornalista Goulart. Nelson esteve presente em todas bateram as idéias de Nelson Werneck
Sergio Caldieri, 1º Secretário do Conse- essas lutas, pensando, participando, escre- Sodré e sua relevância na construção
lho Deliberativo da ABI, o ex-Deputado vendo sobre tudo isso.” histórica nacional. Os organizadores do
Eduardo Chuay, amigo de Nelson Wer- evento presentearam a platéia com
neck Sodré, e o jornalista Mário Augus- Uma visão pioneira exemplares do livro Desenvolvimento Bra-
to Jakobskind, membro da Comissão da Werneck iniciou a carreira na impren- sileiro e Luta pela Cultura Nacional, orga-
Defesa da Liberdade de Imprensa e Direi- sa em 1934 e inovou ao aliar o conheci- nizado por Olga Sodré, sobre a obra do
tos Humanos da ABI. mento histórico à prática do jornalismo: homenageado.
“Ele realizou uma coisa fantástica que
Cortina de silêncio os acadêmicos não entenderam, mas que Uma obra fecunda e eclética
Ao iniciar sua intervenção, Olga So- uma psicóloga social como eu entende, Nelson Werneck Sodré foi um pensa-
dré criticou o abandono da obra do pai, que é o entrelaçamento entre o jornalis- dor brasileiro que refletiu sobre a reali-
que ela atribui à valorização no ambiente tante combatermos a alienação brasileira mo e a História. A imprensa é considera- dade de seu tempo e analisou a formação
acadêmico de autores estrangeiros em e lembrarmos que até hoje nas nossas da não apenas como a fonte de informa- histórica da nossa sociedade, pelo ponto
detrimento de pensadores nacionais: universidades temos que ter a tiracolo ção, mas também como a representação de vista marxista, configurando um pen-
“Tenho falado muito na cortina de si- um autor estrangeiro para justificarmos e o testemunho de uma época. Então, samento crítico registrado como base
lêncio sobre a obra do Nelson Werneck uma tese, o que inclui muitas citações trabalhar a imprensa como ele trabalhou ideológica para um projeto revolucioná-
Sodré. Marcos Silva, professor titular de desses autores estrangeiros, sem nenhu- representa pioneirismo, inclusive cien- rio de nação.
Metodologia da História da Universida- ma reflexão.” tífico”, sublinhou Olga. É reconhecido como um dos maiores
de de São Paulo e Coordenador do Dici- Olga Sodré também destacou a atua- Outra importante contribuição de intelectuais brasileiros de todos os tem-
onário Nelson Werneck Sodré, comen- ção de Nelson Werneck Sodré na políti- Sodré, destacou Olga, foi o estudo sobre pos por sua trajetória de escritor, jorna-
tou em uma palestra no Museu Republi- ca e na defesa dos interesses nacionais: a comunicação social no Brasil: lista, professor e pesquisador da História
cano da Usp, em Itu, que o Nelson tinha “Nós vivemos em uma sociedade mol- “Ele refletiu sobre as transformações do Brasil. Nelson deixou uma obra sin-
sido completamente eliminado das bibli- dada pela pressão constante e incessante e foi um precursor do pensamento sobre gular – marcada pela linguagem conci-
ografias das universidades. Contou que ao consumo. As revoltas que aconteceram a comunicação no Brasil, denunciando sa e clareza das idéias – conduzida por
quando era estudante da Usp fez um em Londres são motivadas pelo consu- a massificação cultural implantada a par- um pensamento dialético e esclarecedor.
trabalho baseado na obra de Nelson. O mismo. Atrelar a vida humana a isto é um tir da padronização dos gostos, da utili- Publicou ainda inúmeros artigos e
professor achou uma maravilha e per- empobrecimento que só vai gerar violên- zação de filmes estrangeiros. Denunci- cerca de 60 livros, entre os quais História
guntou quem tinha sido a fonte. Quan- cia. É claro que o projeto de nação de ando o milagre econômico, o neolibera- da Imprensa no Brasil, História da Litera-
do ele disse o nome do historiador Nel- Nelson Werneck Sodré tinha sido derro- lismo, no papel de observador atento às tura Brasileira, História Militar do Brasil,
son Werneck Sodré, o professor se calou. tado, e ele poderia ter entregue a chutei- mudanças que estavam se implantando, Formação Histórica do Brasil e Capitalis-
Nós temos em Nelson Werneck Sodré ra, mas ficou aqui e produziu uma parte sempre com uma grande lucidez contra mo e Revolução Burguesa no Brasil.
um intelectual que representa um ícone de sua obra que é muito interessante, na a farsa do liberalismo. Já nos anos 1970
do pensamento brasileiro e uma luz nes- qual vai analisar essas transformações. Os Nelson apontou para a crise que está Informações sobre a vida e a obra de Nelson
Werneck Sodré podem ser consultadas no site
se momento atual. Por isso, seria impor- principais intérpretes do modelo naciona- acontecendo agora.” www.nws.itu.com.br.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 15


Aconteceu na ABI RESSURREIÇÃO

Advogados da União aliam-se Renascente, o


à ABI contra a censura prévia
A Unafe, a entidade deles, e a Casa vão ingressar no Supremo Tribunal Federal
Pen Clube reage
com uma ação de inconstitucionalidade de dispositivo da Lei Orgânica da
Advocacia-Geral da União que impõe a mordaça aos advogados públicos federais. à fragilidade da
P OR J OSÉ R EINALDO M ARQUES
atividade de escritor

RENAN CASTRO
A União dos Advogados Públicos
Federais da União-Unafe e a ABI vão-se
associar no ajuizamento de ação de
A Casa anuncia seus planos para recuperar o antigo prestígio,
declaração de inconstitucionalidade do
art. 28, inciso 3, da Lei Complementar com iniciativas como a retomada de seu Prêmio Literário, que
nº 73/93, que instituiu a Lei Orgânica já foi um dos mais importantes do País, e ações em defesa
da carreira. Por esse dispositivo, os da liberdade de criação e de expressão e dos direitos humanos.
advogados públicos federais ficam
sujeitos a uma espécie de mordaça,
pois só poderão manifestar-se por P OR J OSÉ R EINALDO M ARQUES

REPRODUÇÃO
qualquer meio de divulgação sobre
assunto pertinente às suas funções, No ano em que comemora 75 anos
salvo por ordem ou com autorização de fundação, completados no dia 25 de
do Advogado-Geral da União. abril, o Pen Clube do Brasil acaba de
O ajuizamento da argüição foi anunciar o lançamento da edição 2011
discutido pelo Diretor-Executivo da do seu Prêmio Literário, que será ofere-
Unafe, Luís Carlos Palácios, com o cido nas categorias Poesia, Ensaio e
Presidente da ABI. Maurício Azêdo,
Palácios: os membros da Unafe não Narrativa, e incluirá também literatu-
em encontro realizado na Casa no dia
podem ser tutelados previamente. ra infanto-juvenil. A cerimônia de
1° de agosto. Palácios explicou que a abertura foi realizada na sede da enti-
ação busca eliminar do ordenamento dade, na Praia do Flamengo, no dia 24
ação civil pública, para questionar
jurídico atual, que rege a função de de agosto, durante o encontro mensal
esses atos” — salientou Palácios. “Um
advogado público federal, “um dos “Amigos do Pen”, liderado pelo escri-
dispositivo jurídico como esse (inciso
dispositivo que cerceia a liberdade de tor Cláudio Aguiar, atual Presidente da
3) em pleno ano de 2011 é totalmente
expressão dos membros da Advocacia- Casa dos escritores brasileiros.
inconcebível”, asssinalou.
Geral da União-AGU”. Os vencedores em cada categoria irão
Palácios ressaltou que a iniciativa
O Diretor da Unafe classifica o receber uma escultura em metal, deno-
da Unafe vai trazer benefícios para a
inciso 3 do art. 28 da Lei minada “Pen”, criada pelo artista plásti-
população de maneira geral, inclusive
Complementar nº 73/93 como um co Cavani Rosas e uma dotação no valor
jornalistas e outros profissionais cuja
mecanismo de censura, porque, além de R$ 3 mil, além de certificado de parti-
matéria-prima é a informação. Um
dos impedimentos decorrentes do cipação. Na atual edição será permitida
dos objetivos da iniciativa é também
exercício de cargo público, ele proíbe excepcionalmente a inscrição de livros
fazer com que a Unafe fique
os membros efetivos da AGU de mais recentes publicados entre janeiro de
conhecida e conquiste o Cláudio de Souza: fundador e benemérito
“manifestar-se por qualquer meio de 2009 e 31 de dezembro de 2010. As edi- do Pen Clube do Brasil, foi o primeiro
reconhecimento da sociedade:
divulgação sobre assunto pertinente toras também poderão encaminhar obras Presidente da agremiação.
“Somente mediante a manifestação
às suas funções, salvo por ordem ou de seus autores. As inscrições encontram-
dos seus membros, que não podem ser
com autorização expressa do se abertas até o dia 30 de setembro.
tutelados previamente conforme a lei
Advogado-Geral da União”: Lançado pela primeira vez em 1938, canti Matos, que também é escritora”,
quer determinar, é que poderemos
“Há uma previsão no ordenamento dois anos após a fundação da agremi- disse Aguiar.
alcançar esse objetivo, por meio dos
jurídico vigente que representa uma ação, em 1936, o Prêmio Literário Pen
nossos erros e acertos, o que é normal
verdadeira censura prévia, já que um Clube do Brasil em pouco tempo tor- Os premiados: uma seleção
e fundamental no Estado Democrático
membro da Advocacia-Geral da União nou-se um dos mais prestigiados certa- Aguiar lamentou que, apesar da sua
de Direito”, disse Palácios.
pode ser obrigado ou impedido de mes literários do País. A sua revitaliza- importância e tradição, o Prêmio Lite-
O Diretor da Unafe informou que
falar sobre um assunto funcional ção foi recebida com muito entusias- rário tenha ficado adormecido por qua-
a ABI é a primeira entidade a ser
dependendo da manifestação do chefe mo pela categoria dos escritores. “É se uma década. Somente agora foram
procurada para se unir à iniciativa,
do órgão”, afirmou Palácios. uma iniciativa muito boa que contri- criadas condições para que fosse reto-
devido ao seu histórico de
Na opinião de Palácios, essa bui para o diálogo do Pen Clube com a mado, em uma nova versão, fazendo re-
notoriedade de lutas em defesa da
determinação é prejudicial ao sociedade”, disse a cronista, ensaísta, ferência inclusive ao elenco de premi-
liberdade de expressão:
interesse público, por dois motivos: poetisa e tradutora Luiza Lobo. ados nas edições anteriores.
“Iniciar esta ação com a parceria da
primeiro, porque fere a liberdade de Cláudio Aguiar falou ao Jornal da ABI Com entusiasmo, Aguiar diz que a
ABI nos dá uma robustez que
imprensa e de manifestação, que “são sobre o significado dos encontros dos lista de escritores que conquistaram o
fortalece sobremaneira a nossa
bens muito caros pelos quais a ABI “Amigos do Pen” (realizados desde 1937 Prêmio Literário Pen Clube do Brasil
iniciativa. Foi por isso que ela foi
vem brigando muito ao longo dos na última quarta-feira de cada mês) e da reúne um elenco extraordinário, “uma
escolhida”, disse o dirigente da Unafe,
seus cem anos de História”; segundo, importância do Prêmio Literário. Ele grande seleção da literatura brasileira”,
informando que a OAB também já
porque a visibilidade dos atos disse que as reuniões dos autores serão que inclui nomes consagrados e muitas
manifestou interesse em apoiar a ação.
administrativos é importante, pois aproveitadas para o anúncio de novida- revelações. Ele lembra que no passado
Essa é a terceira demanda judicial que
permite ao cidadão comum tomar des do interesse do quadro social: o prêmio não era um concurso para ini-
a Unafe submete ao Supremo Tribunal
ciência e também controlar os atos da “Nessas reuniões sempre procuramos ciantes, apenas os escritores mais co-
Federal. Uma delas contou com um
administração pública”: trazer uma novidade. Na vez anterior nhecidos podiam participar.
parecer elaborado sem ônus para a
“Só por meio da publicidade é que a anunciamos a chegada à Casa de uma Alguns desses autores foram lembra-
Unafe pelo renomado jurista e professor
população toma conhecimento do que escritora importante, que foi a Clarice dos pela jornalista e escritora Cecília
Celso Antônio Bandeira de Melo.
está sendo feito na máquina pública e, Lispector, que passou a integrar para Costa, Vice-Presidente do Pen Clube,
Fundada em 5 de junho de 2006 e
conseqüentemente, pode utilizar-se sempre a lista dos “Amigos do Pen” (ri- entre eles Guimarães Rosa e Brito Bro-
sediada em Brasília, a Unafe tem
dos meios constitucionais, como a sos), representada por uma escultura em ca. Outros escritores renomados tam-
atualmente cerca de 1.800 associados.
bronze da artista plástica Dirce Caval- bém foram contemplados com o Prê-

16 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


JOSÉ REINALDO
Cláudio Aguiar: É critor. Somos uma associação de escrito- vidado pela Academia Brasileira de Le-
necessário tomar as res integrada a uma rede. As nossas ques- tras, mas quis nos fazer uma visita para
decisões adequadas tões, a nossa bandeira e palavras de ordem tomar conhecimento das nossas propos-
para defender as obedecem a um contexto internacional”, tas e fortalecer o intercâmbio com a en-
finalidades do Pen
Clube como uma
declarou. tidade internacional. O então General
associação de classe Com um quadro social atualmente Lyra Tavares ficou inquieto querendo
dos escritores. com 250 associados, o principal objetivo saber por que o Ionesco fez questão de vir
do Pen Clube do Brasil, diz seu Presiden- ao Pen Clube brasileiro”, contou Cecília.
te, é quebrar o estigma de uma agremia-
ção que não consegue atrair novos auto- Ofício sem futuro
res para engrossar o quadro social. Ele O Brasil ainda está dando os primeiros
confessa que o estatuto da Casa é enges- passos para que o ofício de escritor seja
sado e acaba criando barreiras que dificul- considerado como uma atividade profis-
tam o acesso de novos sócios. Uma situ- sional, diz Aguiar. Ele recorda que o fun-
ação que difere totalmente do que acon- dador do Pen Clube do Brasil, antes da
tece em outros países. instalação do Estado Novo, em 1937, já
Nesse contexto Aguiar cita como tinha essa preocupação e preparou um
exemplo a Sérvia, ex-Iugoslávia, onde vai anteprojeto para a criação de uma espécie
ser realizado o congresso internacional de instituto de aposentadoria do escritor:
da entidade. A Sérvia tem uma população “Com o advento do Estado Novo o
de cerca de 4 milhões de habitantes e a projeto não pôde ir adiante. O Cláudio de
mio, como Antônio Callado, Dinah Sil- É essa mentalidade que o atual Presi- associação local conta com 1.000 sócios. Souza tinha um apoio muito grande den-
veira de Queirós, Josué Montello, Lygia dente do Pen Clube deseja mudar. Ele diz tro do Congresso, mas este acabou sendo
Fagundes Telles e Barbosa Lima Sobrinho, que a associação hoje não pode se dar ao Como um guarda-chuva desmantelado pela ditadura do Getúlio.
ex-Presidente da ABI. luxo de se perpetuar “como uma entida- Para atrair mais escritores, Aguiar disse Eu encontrei boletins da nossa associação
Barbosa Lima Sobrinho foi o segun- de pobre bancando uma riqueza que não que está sendo idealizada uma campanha em que ele lamenta que isso tenha ocorri-
do Presidente do Pen Clube do Brasil. Foi tem condições de sustentar ”. Ele cita que possa servir inclusive para que, inter- do. O Cláudio queria ter criado também
ele quem sucedeu ao fundador e grande exemplos de organizações como a Acade- namente, o grupo possa entender que os uma rádio para divulgar as idéias do Pen”,
benemérito Cláudio de Souza, que mor- mia Brasileira de Letras e o Instituto His- tempos estão mudados e que a associação contou Aguiar.
reu em 1954. Outras personalidades do tórico e Geográfico Brasileiro, que utili- precisa “tomar as decisões adequadas, para Aguiar lamenta que as idéias de Cláu-
mundo literário ligadas à ABI também fi- zam seus espaços para gerar receita. defender as suas finalidades como uma dio de Souza não tenham ido adiante e
zeram parte do quadro de associados do Cecília Costa diz que uma das marcas associação de classe dos escritores”. diz que a profissão de escritor no Brasil
Pen Club do Brasil, como Elmano Cruz da atual administração do Pen Clube do Na visão de Aguiar, o engessamento que “está fragilizada”:
e Celso Kelly, este último muito elogia- Brasil é a luta para resgatar a imagem de envolve o Pen Clube do Brasil poderá de- “Nos últimos anos tem havido um mo-
do por Aguiar: Casa do Escritor: saparecer na medida em que seja divulga- vimento no Congresso para reformular a
“O Celso Kelly foi um dos maiores “Começamos com a recuperação da do e mostrado à categoria que uma associ- lei do direito autoral, mas os escritores, por
Presidentes desta Casa como realizador. memória a partir da inauguração, este ano, ação de escritores tem finalidades especí- falta de uma liderança que pudesse repre-
Foi muito atuante. Ele herdou do Cláudio da nossa galeria, em homenagem aos anti- ficas. Ou seja, quanto mais a classe estiver sentá-los, foram derrotados em relação
de Souza um ambiente muito bem orga- gos presidentes. E continuamos com a sintonizada e consciente de que os proble- aos seus direitos relativos ao chamado con-
nizado e deu seqüência às atividades cul- idéia de que, assim como o fazem a ABL e mas que afetam os escritores são mundi- trato editorial, que eu classifico como leo-
turais, promoveu a publicação de boletins a ABI, o nosso papel é defender o escritor, ais, não se restringem aos autores brasilei- nino. É feito com letra miúda, com impo-
e a realização de um curso internacional, a liberdade de expressão e os direitos hu- ros, além de estarem acima de qualquer sições dos editores e nos obriga a aceitá-lo
com o apoio do então Vereador Raimun- manos, princípios que nos acompanham viés político, ideológico ou partidário: sem poder discutir as cláusulas. Muitas
do Magalhães Júnior”, lembrou Aguiar. desde a fundação do Pen Clube Internaci- “Respeitamos todas as correntes, tan- vezes fazendo concessões como a cessão de
Celso Kelly presidiu o Pen Clube do onal, em 1921, e nosso Pen Clube, em to é assim que o Pen Clube Internacional direitos para a terceira geração de empresá-
Brasil quando a sede da entidade ficava na 1936”, disse a Vice-Presidente. mantém essa linha de ação em países is- rios do setor editorial”, reclama Aguiar.
Avenida Nilo Peçanha, no Centro do Rio. Tanto o Presidente quanto a Vice-Pre- lâmicos e em outros de regimes fechados, Essas questões poderiam ser discutidas
Era um conjunto de sete salas com cerca sidente fazem questão de afirmar que a como Cuba. Há escritores cubanos liga- por meio de uma campanha para regula-
de 200 metros quadrados, além de um te- preservação da memória do Pen Clube do dos à rede oficial, dentro da ilha, e outros mentar a profissão de escritor, diz Agui-
atro, com 150 lugares, que mantinha uma Brasil é uma das principais metas da atu- filiados na sede em Miami”, informou. ar: “O Pen Clube poderia ocupar um espa-
agenda recheada de bons programas. O al diretoria: Diz Aguiar que o Pen Clube funciona ço nessa direção, assumindo uma parce-
espaço tinha sido residência do funda- “Uma das nossas preocupações é res- como um guarda-chuva que abriga todas as la de responsabilidade nessa questão, tor-
dor Cláudio de Souza e funcionou de 1954 taurar a memória da nossa instituição, correntes, sem que isso signifique algum nando-se porta-voz dos escritores, de-
até 1971, quando a instituição foi trans- pois uma entidade que se mantém viva tipo de acordo com os princípios mais fendendo os seus direitos com base nas
ferida para o atual endereço da Praia do aos 75 anos demonstra longevidade e, radicais em detrimento de outros: “Todos experiências bem-sucedidas realizadas
Flamengo. embora com os problemas de saúde nor- os grupos têm o direito à liberdade de em outros países.
mais da idade (risos), está sobrevivendo expressão, um tema muito discutível, mas Cláudio Aguiar espera que ainda na sua
Pobre não pode ostentar por meio de uma nova dinâmica em dois que para a nossa entidade é encarado como gestão possa contar com o apoio da cate-
Aguiar diz que no momento não está pontos fundamentais: nas questões cul- um princípio fundamental”. goria dos escritores para implementar
sendo cogitada a possibilidade de reto- turais e administrativas. Esses são os dois Cecília Costa compara o caminho tri- todas essas medidas, que, segundo ele,
mada do imóvel da Nilo Peçanha. Como pilares da nossa gestão, um não pode exis- lhado pelo Pen Clube com a trajetória de inclusive estariam em sintonia com as
os tempos mudaram, ele quer avaliar tir sem o outro, pois corremos o risco de outras entidades, como a ABI e o Institu- propostas da Unesco, uma vez que o Pen
com mais cuidado suas decisões nesse comprometer o nosso patrimônio, que é to Histórico e Geográfico Brasileiro, sem- Clube no âmbito internacional defende o
sentido, pois verificou que durante invejável”, afirmou Aguiar. pre atuando em defesa dos direitos huma- direito à cultura e à liberdade de expressão.
muito tempo os espaços da associação nos e “da palavra livre”. Ela cita como
foram utilizados com finalidades que Sérvia, um exemplo exemplo a decisão do Pen Internacional de A festa está marcada
não se afinavam com a proposta original Outra preocupação é o investimento manter uma política de acompanhamen- A entrega dos prêmios aos vencedo-
idealizada pelo fundador. no quadro social. Diz Aguiar que o Pen to e auxílio a escritores que estão presos. res de cada categoria será realizada no dia
Em 1945, quando Cláudio de Souza fez Clube do Brasil tem um histórico muito Ela lembrou também que o Pen Clube 12 de dezembro de 2011, no terraço do
a doação do prédio do Centro, foi um ges- curioso no que se refere aos sócios. Nos desempenhou um papel importante na Instituto Histórico e Geográfico Brasi-
to para ajudar a instituição a garantir a sua anos 1960, no período em que Celso Ke- Resistência Francesa, durante a Segunda leiro, durante a tradicional festa de con-
sustentabilidade: “O mesmo aconteceu lly era o dirigente, a associação contava Guerra Mundial: “O Ionesco era mem- fraternização de fim de ano do Pen Clu-
com o imóvel da Praia do Flamengo, mas com mais de 500 escritores associados. bro do Pen Clube na Romênia e partici- be do Brasil.
na realidade os espaços vinham sendo Há dez anos, quando Aguiar chegou ao pou como integrante da organização da O regulamento e a ficha de inscrição
subutilizados, servindo apenas para as Pen Clube, havia o mito de que este era Resistência na França. Ele esteve no Bra- poderão ser solicitados por e-mail ou di-
reuniões, com o Pen Clube contraindo uma entidade de culto às personalidades: sil, em 1973, durante a ditadura militar retamente na sede social, na Praia do
dívidas porque não soube explorar o patri- “Mas a nossa finalidade é outra, não é (1964-1985) e fez questão de visitar a sede Flamengo, 172 , 11º andar. O telefone para
mônio como receita”, disse Aguiar. uma Academia, nem um sindicato de es- da associação no Rio. Ele tinha sido con- contato é (21) 2556-0461.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 17


AMÉRICO VERMELHO/FOLHAPRESS

CENTENÁRIO

MÁRIO
O homem que não
LAGO
Há 100 anos nascia o criador de Amélia, um ator, autor,
compositor, escritor e militante político que recusou morrer.

P OR C ELSO S ABADIN

A música, tanto a erudita quanto a paz se sentia seduzido mesmo pelas ar-
popular, e a poesia, sob forma de letras de tes, pela música, pelos palcos, pela inebri-
canções, sempre foram presença constan- ante noite repleta de atrações da então
te na casa de Antônio, da esposa Francis- capital federal.
ca Maria e do filho único, Mário. Não por
acaso, logo aos 15 anos o rapaz teve seu O COMPOSITOR
primeiro poema publicado. Mas na hora SE ARREPENDE
de escolher um curso superior o conser- Alforriado dos livros de Direito, não
vadorismo falou mais alto, e Mário in- demora para Mário se encantar com o
gressou na Faculdade de Direito da Uni- universo do teatro de revista carioca.
versidade do Rio de Janeiro, hoje Facul- Começa a escrever, a compor, a atuar, a
dade Nacional de Direito da Universida- viver o ambiente intensamente. Aos 24
de Federal do Rio de Janeiro. O eferves- anos, vê orgulhoso o primeiro disco gra-
cente ambiente universitário aguçou vado com uma composição sua: a mar-
ainda mais as tendências socialistas do chinha Menina, Eu Sei de uma Coisa,
jovem estudante, que logo se filiou ao música de Custódio Mesquita, letra de
Centro Acadêmico da escola (batizado Mário Lago e interpretação do xará
Cândido de Oliveira), associação de pro- Mário Reis. Décadas depois, no programa
funda sintonia com o PCB. Pelos seus Ensaio, da TV Cultura, o compositor
corredores, na mesma época, circulavam declarou publicamente a sua vergonha
Jorge Amado, Carlos Lacerda e Lamarti- e seu arrependimento por ter escrito
ne Babo, entre outros. versos dignos de um, palavras dele, “mi-
Do lado de fora, corriam os revolucio- serável dedo-duro”: “Menina eu sei de
nários anos 1930, com Getúlio Vargas to- uma coisa/ Que pode sua vida encrencar/
mando o poder a força. O conflito seria Se você não quer fazer camaradagem/me
inevitável: aos 21 anos Mário Lago “es- desculpe, mas eu vou espalhar”.
que poderia haver de comum entre um mili-

O
tréia” sua primeira prisão política. Mui- Mero erro de principiante. Pouco de-
tante comunista preso em quase todas as di- tas outras viriam, em ditaduras futuras. pois, em 1938, em nova parceria com
Mário sai quase que simultaneamente Custódio Mesquita, o letrista se “redi-
taduras brasileiras, o autor do samba Ai, que de duas “prisões”, a política e a acadêmi- miria” com o clássico Nada Além, imor-
ca: após concluir o curso de Direito, exer- talizado no vozeirão de Orlando Silva:
Saudades da Amélia e o Dr. Molina da novela ce a profissão de advogado por apenas “Nada além/ Nada além de uma ilusão/
O Clone? Tudo. Por mais incrível que possa parecer, o co- três penosos meses, período mais que Chega bem/Que é demais para o meu
suficiente para provar a si mesmo e à coração”.
munista, o sambista e o ator coexistiram na mesma pes- família que nada havia em comum en-
tre o mundo das leis e o de Mário. O ra-
soa: Mário Lago, cujo centenário de nascimento será lem-
brado no dia 26 de novembro próximo.
A música e a militância política faziam parte da his-
tória familiar de Mário Lago. Seu avô materno era o flau-
tista e anarquista italiano Giuseppe Croccia, e seu pai,
o piracicabano Antônio de Pádua Jovita Correia do Lago,
foi spalla (primeiro violino) da Orquestra do Teatro Mu-
Comunista de carteirinha, Mário Lago
nicipal do Rio de Janeiro, compositor popular nos anos sempre foi perseguido pelas ditaduras:
estes são os registros das prisões
1930 e 1940 e igualmente militante comunista. em1941 (esquerda) e em 1964.

18 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


Daniel Filho e Eugenio Kusnet, Mário
participou de 38 filmes brasileiros.
Em 1964, nova ditadura de direita
para o Brasil e, conseqüentemente,
nova prisão para Mário Lago. Escreve en-
tão seu segundo livro, 1º de Abril, sobre

fugiu do tempo fatos e personagens vividos e conheci-


dos durante o tempo que passou nos pre-
sídios da Ilha das Flores e Fernandes Vi-
ana. Nos anos 1970, o livro foi revisto, am-
pliado e relançado sob o título Reminis-
cências do Sol Quadrado.
Outros clássicos viriam depois, como tro brasileiro dos anos 1940, além de ser
as inesquecíveis Atire a Primeira Pedra, e co-autor de 29 peças, afora uma tradução UM ATOR GLOBAL
Ai que Saudades da Amélia, ambas em de Brecht, para a Ópera dos Três Vinténs. Em 1966, o ator da TV Globo Henri-
parceria com Ataulfo Alves. Estes suces- Tanto talento e disposição deveriam que Martins consegue finalmente reali-
sos colocariam definitivamente o nome obrigatoriamente escoar através do gran- zar um de seus velhos sonhos: convencer
de Mário Lago na história da música po- de veículo de comunicação de massa da- o até então irredutível Roberto Marinho
pular brasileira... e na histeria de feminis- quele Brasil dos anos 1940: o rádio. E para a contratar o comunista de carteirinha
tas que passaram a rotular a tal Amélia, isso era necessário deixar a capital paulista Mário Lago. Não foi tarefa fácil. Afinal,
aquela que “achava bonito não ter o que e regressar ao Rio, sede da Rádio Nacio- Mário havia visitado a União Soviética
comer” como o ápice da dominação ma- nal, a Meca da mídia brasileira da época. oito anos antes, convidado pela Rádio de
chista sobre a mulher subserviente. Sob Foi o que Mário fez. Chegou no lugar Moscou para ajudar na reestruturação
protestos ou não, o fato é que até os dias certo, no momento exato, e atuou em do programa Conversando com o Brasil,
todas as frentes radiofô- do qual participavam artistas e intelectu-
ais brasileiros. A emissora não via com
BOSCO/ACERVO ULTIMA HORA/FOLHAPRESS

nicas possíveis, escreven-


do, dirigindo e atuando bons olhos a presença “subversiva” de
em radioteatros e radio- Mário nos quadros da empresa, mas o Desenho publicado em setembro de
novelas. Seu vozeirão talento falou mais alto, mesmo porque a 1986 na Revista da Tevê, do jornal O
ditadura ainda não havia ingressado em Globo, quando Mário Lago interpretava
portentoso e sua dicção Antônio Villar na novela Roda de Fogo.
perfeita eram inconfun- sua fase mais feroz, aquela após o AI-5.
díveis. Assim como suas
idéias comunistas, que
fazia questão de difun-
dir, e que durante este
O dono da bola
P OEMA DE M ÁRIO LAGO
período lhe renderam
mais duas prisões, em Quando o Juca concordava, E quando alguém discordava...
1941 e 1946. a garotada tomava o Juca guardava a bola.
Em 1948 publica clan- conta da rua e armava Ninguém brigava com o Juca,
o campo de futebol. Juca era o dono da bola.
destinamente seu pri- Juca era o dono da bola,
meiro livro, O Povo Escre- Juca era o dono do jogo. Um dia, o Alfredinho achou
ve a História nas Paredes, Fazia o que bem entendia que aquilo era desaforo.
e quando alguém discutia Driblou o primeiro, driblou o segundo,
reunindo poemas sobre o driblou o terceiro, o quarto...
o Juca guardava a bola.
direito à terra e a defesa Ninguém brigava com o Juca, O Juca xingou a mãe dele.
dos trabalhadores. A in- Juca era o dono da bola. Ele meteu a mão no Juca
Em outubro de 1964 Mário Lago lança um livro com um nome trodução diz: “Muitos (a garotada ficou espantada).
provocativo, depois de preso pelo regime militar: 1° de Abril. Na hora de escolher o time, O Juca avançou pra ele,
dirão que estas poesias era o Juca quem primeiro dizia ele tornou a dar no Juca
falam em tom de comí- os meninos que queria (a garotada ficou animada)
de hoje não apenas Amélia como tam- cio. Concordo!”. No mesmo ano, troca a pro time dele. O Juca avançou outra vez.
bém Aurora (que fez em parceria com Rádio Nacional pela Mayrink Veiga, mas Se o capitão do outro time ele então jogou o Juca no chão
discordava, (a garotada foi toda em cima do Juca)
Roberto Roberti) são verdadeiras obriga- não troca jamais sua posição política. E as- o jogo nem começava,
toriedades em qualquer baile de carnaval sim experimenta a sua quarta prisão, em o Juca guardava a bola. Quando Alfredinho voltou pra casa
que se preza. 1949. Com a chegada da televisão no Bra- Ninguém brigava com o Juca, o pai estava se queixando
que o dinheiro que ganhava
Apesar de ter gravado mais de 200 sil, em 1950, migra rapidamente para o Juca era o dono da bola.
não chegava
músicas, Mário Lago é mais lembrado novo veículo, como aconteceu com a mai- A garotada corria pra alugar outra casa
pelo grande público pela sua igualmen- oria dos grandes talentos radiofônicos. de um lado para o outro. ao menos com mais um quarto
te extensa carreira de ator. Não por aca- Na tela pequena da pioneira Tupi, Dribla daqui, chuta pra lá, pra botar seus nove filhos;
passa para ali, cabeceia prá cá... para comprar mais comida,
so. O teatro também era uma das gran- encara as câmeras ao vivo, com a mes- Juca ficava sentado feijão pra seus nove filhos;
des paixões de Mário, que chegou a coes- ma desenvoltura de sempre. E na tela o tempo todo. Mas, na hora para comprar umas roupas
crever cinco espetáculos cômicos e de grande do cinema prossegue seu traba- de fazer gol, se mexia. pra vestir seus nove filhos;
revista, antes mesmo de completar 25 lho de argumentista, ator e roteirista Corria e gritava:
"Passa que quem faz gol sou eu". – Papai, por que o dinheiro
anos. Ele começou a investir mais seria- iniciado em 1939 com Banana da Terra, que você ganha não chega?
E se o outro não passava
mente na carreira de ator ao ingressar na dirigido por Ruy Costa. Histórico, este ou se chutava e marcava – É pouco.
companhia teatral do jornalista e escri- foi o primeiro filme em que Carmem o gol que o Juca esperava, – Por que é pouco?
tor carioca Joracy Camargo, considera- Miranda aparece vestida com o traje de o Juca guardava a bola. – Porque o patrão paga pouco.
Ninguém brigava com o Juca, – Papai, por que vocês
do o primeiro dramaturgo brasileiro a baiana que a consagrou internacional- não pedem mais ao patrão?
Juca era o dono da bola.
tratar em suas peças de assuntos relaci- mente. Sem preconceito de gênero, a – O patrão despede a gente,
onados à questão proletária. Mudou-se carreira cinematográfica de Mário Lago Todo gol que o outro time a gente fica sem pão.
depois para São Paulo, onde aprimorou inclui tanto chanchadas como Mulhe- fazia era anulado. – Por que o patrão despede?
Ou tinha sido com a mão – Porque ele é o dono das fábricas,
sua arte estudando teatro com Oduval- res, Cheguei!, de 1961, como o clássico ou impedido. Anulado. porque ele é dono das máquinas.
do Viana. Assalto ao Trem Pagador, de 1962, ou O Juca dava rasteira, – Papai, por que vocês não fazem com ele
mesmo o cinemanovista Terra em Tran- canelada, cabeçada, o mesmo que nós fizemos com o Juca?
A ERA DO RÁDIO CARIOCA se, de 1967. Dirigido por Carlos Manga aleijava a garotada – Quem é o Juca?
e o juiz não marcava nada. – Juca era o dono da bola.
Alto, esguio e elegante, Mário se tor- ou Gláuber Rocha, passando por Gusta- O tranco mais delicado – Que foi que vocês fizeram?
nou um dos mais famosos galãs do tea- vo Dahl, Joaquim Pedro de Andrade, dado no Juca era pênalti – Tomamos a bola dele.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 19


MANOEL PIRES/FOLHAPRESS

CENTENÁRIO MÁRIO LAGO, O HOMEM QUE NÃO FUGIU DO TEMPO

Na Globo, onde trabalhou de 1966 até


um ano antes de sua morte, em 2002, Mário Lago e sua esposa Zeli passeiam
Mário Lago participou de cerca de uma no Campo de Santana, no Rio de Janeiro,
centena (não é figura de linguagem, é com o primeiro filho, Antonio Henrique.
uma centena mesmo) de

ÁLBUM DE FAMÍLIA
novelas, minisséries, casos
especiais e episódios de seria-
dos como Shazan, Xerife e
Cia., Você Decide, Malu Mu-
lher e Armação Ilimitada,
entre outros.
Ainda nos anos 1970 lan-
ça dois volumes de memóri-
as: Na Rolança do Tempo,
abrangendo da infância até
os anos 1940, e Bagaço de
Beira Estrada, que narra dos
anos 1940 até 1964. Publicou
também Chico Nunes das Ala-
goa, uma pesquisa sobre o po-
eta popular Francisco Nunes Dois gigantes da música popular brasileira: Mário Lago e Adoniran Barbosa em
1977, quando participaram do primeiro programa Levanta Poeira, na TV Globo.
Brasil, que Mário realizou
durante as filmagens de São
Bernardo, de Leon Hirszman,
além do livro de contos No
Rabo da Noite e da coletânea
Meia Porção de Sarapatel, reu-
nindo casos, poesias, e peque-
“Tenho o gosto da palavra”
nas histórias.
Já em Manuscritos do He- “Eu nasci inconformado. Eu sou do leitor. Sei que não sou um escritor
róico Empregadinho de Bordel, Mário cria Seu último livro foi Segredos de Famí- vocacionalmente rebelde.” enxuto, mas tenho o gosto da palavra.
uma versão romanceada das aventuras lia, uma união de prosa, verso e fotogra- Ela é manga madura que deve ser bem
“Evidentemente cometi erros, sofri saboreada. “
do jornalista Henrique João Cordeiro fias feito especificamente para comemo-
dúvidas, mas sempre procedi de
Filho, seu cunhado, e sua fuga dos órgãos rar seus 80 anos de idade. Trata-se de uma acordo com a opção tomada. Acho “Eu sei de uma coisa: estou incurso em
da repressão. E em 16 Linhas Cravadas celebração feita ao lado da esposa, Zeli, que posso encarar de frente a vários artigos do código penal: ator,
faz um exercício de estilo ao escrever his- que conheceu numa manifestação polí- companheira, os filhos, os amigos, escritor, compositor, dramaturgo, vários
torietas que devem, obrigatoriamente, tica, e dos cinco filhos: Vanda, Antonio companheiros, colegas, gente que artigos do código penal. “
caber em 16 linhas impressas. O livro foi Henrique, Graça Maria, Luís Carlos (as- acredita em mim e me respeita.”
amplamente elogiado por Carlos Drum- sim batizado em homenagem a Luís Car- “Mantenho-me jovem porque sou
mond de Andrade. Chama a atenção los Prestes) e Mário Lago Filho, que atu- “Sou marxista comunista autônomo.” comunista. O comunismo sempre foi a
também a publicação, nos anos 1980, de almente coordena os eventos comemo- juventude do mundo. “
O Monstrinho Medonhento, única incur- rativos do seu centenário. “Eu não fico na calçada pra ver o
são do autor na literatura infantil. Mário Lago morreu em 30 de maio de desfile passar. Eu vou junto.” “A vida tem que ser feita lá no fundo.
Tem que ir até a pirosfera. Chegar até o
2002, aos noventa anos de idade. Nunca
“Tudo na vida é risível. É só você fundo do poço pra ver. Se, no fundo do
LEWI MORAES/FOLHAPRESS parou de compor, nunca parou de escre- prestar a atenção. As coisas têm poço, você continuar com paixão,
ver (deixou um livro inacabado, Meus sempre um lado debochado.” continua. Se não, procura outro poço.”
Tempos de Moleque), atuou na tv até o
penúltimo ano de sua vida, e nos “Eu estou diariamente levando a vida “Não fui guarda-livros da vida pra juntar
palcos até o último. Nunca deixou na flauta. Pra ela sentir que não me dever e haver. Eu vivi. Não fiz
a militância política – foi um dos amedronta. Porque o pior de tudo é contabilidade para anotar prejuízo e
“âncoras” da eleição de Lula à Presi- quando a vida sente que você tem lucro. Viver apenas já foi lucro.”
dência – e nunca saiu do Partido Co- medo dela.”
munista Brasileiro-PCB. “Até os 70 anos, você paga a conta.
O tema da morte o incomodava. Pen- “O Rio é vício realmente, você é Viveu mais além, é gorjeta pro garçom.
dependente dele. É a beleza... As Estou satisfeito de pagar a gorjeta pro
sava em chegar vivo aos 100 anos. Duran-
montanhas do Rio têm contorno de garçom.”
te uma entrevista, chegou a afirmar: mulher, uma mulher deitada. O Rio
“Fiz um acordo de coexistência pacífica de Janeiro é um orgasmo.” “Não foi vida jogada fora a que vivi.”
com o tempo; nem ele me perse-
gue, nem eu fujo dele. Um “Sou amarrado em partido-alto. Pra “Os caminhos da lembrança estão
dia, a gente se encontra.” mim, é a expressão mais legítima da cheios de vielas e transversais.
Talvez seja verdade. música popular brasileira.” Quando a gente menos espera, essas
Talvez, na verdade, Mário vielas e transversais despejam carga
Lago nunca tenha “Nós, os radialistas do Rio, fomos no que vinha servindo de pensamento
morrido. uma das grandes forças das lutas central.”
sindicais, a primeira categoria a
colocar na direção de uma empresa “Sou mais rabugento que o Jamelão e
– a Rádio Nacional – o presidente do mais preguiçoso do que Dorival
nosso sindicato de então. Por isso, Caymmi, de forma que não dá pé...”
quero homenagear a nós mesmos.“
Engajado, Mário “Quando deixarmos de ter esperança, é
Lago vestiu a camisa “Estava escrito nas estrelas! Se eu melhor apagar o arco-íris.”
pelas Diretas Já! e soubesse que era tão bom, teria
participou de comícios casado antes.” “O tempo não comprou passagem de
durante a histórica volta.”
campanha derrotada pelo “Não tenho estilo, tenho jeito de
Congresso Nacional. escrever. Quero pôr a mão no ombro “Tenho lembranças, e não saudades.”

20 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


ÁLBUM DE FAMÍLIA

MOBILIZAÇÃO

Luta anticorrupção vai às ruas


Entidades representativas da sociedade civil juntam-se a senadores para
organizar um movimento popular contra a roubalheira na coisa pública.
Lideranças parlamentares e represen- Combate à Corrupção a Casa pôde verifi- nheiro recebido em campanha e não de-
tantes de diversas entidades da socieda- car como a Controladoria-Geral da União clarado.
de civil, entre as quais a ABI, lançaram no e o Ministério Público promovem per- “Essa idéia é um tiro no pé. Isso vai fazer
dia 23 de agosto no Senado Federal, em manentemente a defesa dos recursos que o caixa 1 se torne o caixa 2. O que hoje
audiência pública, uma frente de “Ações públicos, infelizmente prejudicada pela é conhecido [no financiamento] de cam-
contra a Corrupção e a Impunidade no leniência do Poder Judiciário em julgar os panha vai ficar no caixa 2. Se proibírem vai
Mario Lago aos quatro anos.
País”, com o objetivo de deter o processo processos de corrupção e de agressão à ficar no caixa 2”, argumentou.
de assalto aos dinheiros públicos pelos moralidade e à lei. Como exemplo dessa
Cds e filme ocupantes de cargos na administração de
todos os níveis da Federação. A frente
leniência citou o episódio da censura pré-
via do jornal O Estado de S.Paulo imposta
Plenário representativo
Participaram da audiência pública, na
prevê a realização de manifestações de há dois anos por um juiz de Brasília, sem Comissão de Direitos Humanos e Partici-
marcarão o ruas e outros atos em que a população
possa expressar seu repúdio à corrupção.
que o Presidente do Supremo Tribunal
Federal e Presidente do Conselho Nacio-
pação Legislativa do Senado, o Presidente
do Conselho Federal da Ordem dos Advo-
centenário A convocação da audiência pública foi
formalizada em requerimento proposto
nal de Justiça, Ministro César Peluso, co-
mo é seu dever em razão desses dois car-
gados do Brasil, Ophir Cavalcante; o Mi-
nistro Chefe da Controladoria-Geral da
A produção de dois cds e de um pelo Senador Pedro Simon (PMDB-RS) e gos que ocupa, chame esse processo à cor- União, Jorge Hage Sobrinho (CGU); Dom
documentário de longa-metragem firmado por senadores de diferentes parti- reição e determine o seu julgamento, sem Raymundo Damasceno Assis, Presidente
servirá de comemoração, no último dos, como Paulo Paim (PT-RS), Cristovam se render às filigranas judiciais e jurídicas da Conferência Nacional dos Bispos do
Buarque (PDT-DF), Luiz Henrique (PMDB- que transformaram o caso numa verda- Brasil; Dom Manuel João Francisco, Pre-
trimestre deste ano, do centenário
SC), Ana Amélia (PP-RS), Eduardo Suplicy deira chicana. “Esse exemplo é da área de sidente do Conselho Nacional das Igrejas
de nascimento do famoso (PT-SP), Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), comunicação e constitui uma prova da Cristãs do Brasil-Conic; o Reitor José Ge-
compositor, ator e escritor. Randolfe Rodrigues (Psol-AP), Pedro Ta- lentidão com que o Poder Judiciário jul- raldo de Sousa Júnior.
O primeiro cd, Canções Inéditas e ques (PDT-MT), Marcelo Crivella (PRB- ga os casos de agressão até mesmo à Cons- A audiência, sob a presidência do Se-
Poemas Musicados, unirá o RJ) e Casildo Maldaner (PMDB-SC). tituição, que veda a censura política, ar- nador Paulo Paim, teve seguimento com a
centenário de Mário a novos Durante o encontro foram apresenta- tística e ideológica”, disse. formação de mesas para discussão de temas
parceiros, como Joyce, Arnaldo das várias sugestões em defesa da “limpe- O representante da ABI manifestou-se relacionados com o combate à corrupção,
Antunes, Frejat e Caetano Veloso, za da Administração pública” iniciada contra a proposta de redução dos cargos como Marlon Reis e Jovita José Rosa, re-
entre outros. O segundo, intitulado pela Presidente Dilma Rousseff, entre as comissionados da administração, feita pela presentantes do Movimento de Comba-
Folias do Lago, trará alguns dos quais a criação de uma comissão no Con- Transparência Brasil, porque “o partido te à Corrupção Eleitoral; Gabriel de Jesus
principais sucessos carnavalescos de gresso para a reunião e votação de todas que ganha a eleição tem o direito, indepen- Tedesco Wedy, Presidente da Associação
as matérias que permitam o combate à dentemente de quantitativo, de trazer dos Juízes Federais-Ajufe; Alexandre Ca-
Mário Lago revividos pelos músicos
corrupção, como o financiamento públi- para a administração os quadros afinados manho de Assis, Presidente da Associação
e intérpretes do Cordão do Boitatá, co de campanhas eleitorais, o reconheci- com seu projeto político”. Ele acrescentou: Nacional dos Procuradores da República-
um dos expoentes do atual mento da data de validade e vigência da “Entendemos que os partidos têm de ser va- ANPR; Henrique Nélson Calandra, Presi-
Carnaval carioca. Lei da Ficha Limpa, a revisão do proces- lorizados para construirmos uma demo- dente da Associação dos Magistrados do
Dedicado a esses clássicos eternos, so de elaboração da lei orçamentária, para cracia e uma forma de fazer isso é levá-los Brasil-AMB; César Bechara Nader Mattar
o cd trará ainda duas históricas maior controle das emendas individuais à gestão da coisa pública”. Júnior, Presidente da Associação Nacional
marchinhas inéditas: Meu Rio, Meu dos parlamentares, a redução dos cargos dos Membros do Ministério Público-Co-
Vício, única parceria de Mário com o em comissão na administração. “Um tiro no pé” namp; e Bolívar Steinmetz, Presidente da
compositor Braguinha, e Braço é A proposta de redução dos cargos em co- O Reitor da Universidade de Brasília- Associação Nacional dos Delegados de
Braço, primeiro hino do Cordão da missão partiu do Diretor-Executivo da or- UnB, José Geraldo de Sousa Júnior, pro- Polícia Federal-ADPF, além de Cláudio
Bola Preta, escrito em parceria com ganização não-governamental Transparên- pôs que os senadores realizem debate Abramo e Maurício Azêdo.
cia Brasil, Cláudio Weber Abramo, segundo sobre o tema no espaço da universidade,
Nelson Barbosa, cuja música
o qual o excesso de cargos em comissão per- para dialogar com outros segmentos. Eventos programados
original se perdeu, sendo a atual de mite o loteamento da administração públi- Cláudio Abramo argumentou também Antes do encerramento da sessão, o
autoria do mestre João Roberto ca entre os partidos, constituindo aquilo que que o financiamento público de campa- Senador Pedro Simon leu uma relação de
Kelly. O cd será lançado com um ele chamou de “usina de corrupção”. nha – um dos principais pontos da refor- eventos já programados da luta contra a
baile pré-carnavalesco na sede do ma política que tramita na Câmara – corrupção, entre os quais uma manifesta-
Cordão da Bola Preta no dia do Leniência do Judiciário “não é uma solução para o combate à cor- ção no dia 20 de setembro na Cinelândia,
aniversário do homenageado, 26 de O Presidente da ABI, Maurício Azêdo, rupção”. Na sua opinião, a proibição do no Rio de Janeiro, enquanto o Senador
novembro. declarou que em sua participação no financiamento privado vai provocar um Paulo Paim leu uma síntese das principais
Já o documentário Mário Lago – Conselho da Transparência Pública e do aumento do chamado caixa 2, que é o di- propostas expostas durante as discussões.
Homem do Século XX terá direção de
JOSÉ CRUZ/AGÊNCIA SENADO MÁRCIA KALUME/AGÊNCIA SENADO
Marco Abujamra e abordará os
principais personagens e momentos
da vida e da obra de Mário Lago.
Diferentes atores, atrizes, músicos, O Senador Pedro
políticos e personalidades viverão Simon formalizou a
audiência pública,
Mário Lago, e toda a trilha sonora
que teve a
do filme será de músicas do artista, presidência do
incluindo algumas inéditas. Senador Paulo
Mais informações podem ser Paim (esquerda):
obtidas no site Mário Lago 100 Anos sugestões para
limpeza da
– O Homem do Século XX - Memória
Administração
em Movimento (mariolago.com.br), pública.
onde estão disponíveis textos
biográficos, fotos, depoimentos,
frases e obras inéditas, como seu
último livro, Meus Tempos de
Moleque, que não chegou a ser
concluído.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 21


NOVIDADE

Globo abre o debate público sobre


o papel e a ética do jornalismo
O grupo divulgou os Princípios Editoriais que devem orientar a produção de informação em todos os seus veículos. Para especialistas,
o documento pode servir de modelo para outras empresas de comunicação e fomentar discussões com a sociedade sobre a mídia.

P OR V ERÔNICA C OUTO e todos os aspectos que tratam da inter-


net deixaram de merecer um capítulo es-
As Organizações Globo divulgaram, pecífico. As novas mídias já não precisam
em todos os veículos do grupo, inclusi- ser mencionadas à parte, vale para elas,
ve no horário nobre do Jornal Nacional, em termos de ética e procedimento, o
os seus “Princípios Editoriais”. É a primei- mesmo que para os demais veículos. Foi
ra vez que uma empresa jornalística o contexto das redes sociais, contudo,
brasileira torna públicos seus valores e que teria motivado a publicação dos
código de conduta, em uma plataforma Princípios Editoriais das Organizações
tão abrangente. O documento, lançado Globo, segundo a exposição de motivos
no dia 6 de agosto, inclui desde uma assinada pelos sócios – os irmãos Rober-
definição de jornalismo até a indicação to Irineu Marinho, João Roberto Mari-
de procedimentos práticos, por exemplo, nho e José Roberto Marinho.
para o tratamento da informação e para
as relações com as fontes. Jornalistas e Redes sociais
pesquisadores saudaram a iniciativa, que, A apresentação do texto destaca, an-
na opinião deles, deve provocar ações tes de tudo, a consolidação da Era Digi-
similares em outras empresas e estimu- tal e o que os irmãos Marinho chamam
lar o debate com a sociedade sobre a de “certa confusão entre o que é ou não
mídia. Entre as críticas, a principal é a jornalismo, quem é ou não jornalista,
ausência de ombudsman ou outras ins- como se deve ou não proceder quando se
tâncias para controle social da aplicação tem em mente produzir informação de
efetiva dos preceitos anunciados. qualidade”. Em entrevista por e-mail,
“Acho muito positivo que, pela pri- com respostas atribuídas à “equipe de
meira vez no Brasil, uma organização Princípios Editoriais das Organizações
empresarial da área de comunicação e jor- Globo”, a empresa afirma que “todos
nalismo tenha lançado seus princípios aqueles que desempenham o jornalismo
editoriais, válidos para todos os seus ve- profissionalmente devem expressar seus
ículos”, diz o coordenador de Jornalismo princípios, para diferenciar-se e pôr-se ao
da Puc-Rio, Leonel Azevedo de Aguiar. julgamento do público”.
“Os movimentos sociais organizados Fica claro, para os estudiosos, que as
devem tomar esses Princípios a sério. redes digitais entraram no campo da dispu-
Apresentam uma abordagem do jorna- ta política da mídia. “Há uma série de re-
lismo como bem público, o que contri- posicionamentos de forças, disputas de
bui para a democracia e para a sociedade.” espaço, de audiência, de atenção, de credi-
O documento, na opinião de Azevedo, bilidade”, observa o professor da UFSC.
funciona como instrumento de cobran- Para Christofoletti, a importância das re-
ça social e faz uma reflexão importante TV Brasil, em artigo publicado no site do especialmente no que diz respeito à des se tornará cada vez mais evidente, e os
sobre o papel do jornalismo em uma so- programa, mesmo apontando várias la- busca de isenção e diversidade. grandes grupos, como O Globo, deixam de
ciedade democrática. cunas, considerou a medida um “exercí- Os Princípios Editorais não se con- ter o protagonismo exclusivo na produção
O ineditismo no alcance e a ênfase na cio de auto-análise” a ser saudado e en- fundem com os “manuais de redação”, de informação. O resultado é a fragmen-
publicidade dada aos Princípios também tendido como “um passo inicial de um disponíveis em quase todas as grandes tação de audiência, com repercussão dire-
chamaram a atenção do pesquisador do salutar processo de transparência”. João Redações e que até podem, como no caso ta na alocação de recursos publicitários.
departamento de Jornalismo da Univer- Brant, integrante da Coordenação Exe- da Folha de S. Paulo, trazer algumas nor- Os Princípios Editoriais têm 28 pági-
sidade Federal de Santa Catarina (UFSC), cutiva do Coletivo Intervozes vai ainda mas de conduta. “Os manuais são feitos nas e cobrem, além da definição de jor-
Rogerio Christofoletti, um dos fundado- mais longe. Para ele, o conteúdo elabora- para jornalistas, não dialogam com o nalismo, uma seção dedicada aos atribu-
res da Rede Nacional dos Observatórios do pelas Organizações Globo pode até público”, explica Christofoletti. Os Prin- tos necessários a uma informação de
de Imprensa (Renoi). As Organizações servir de base para uma proposta futura cípios Editoriais das Organizações Glo- qualidade – “isenção, correção, agilida-
Globo, segundo ele, distin- de regulação pública das bo foram comunicados a leitores, ouvin- de”; outra, sobre como o jornalista deve
guem-se, nesse caso, por “Na ausência de comunicações. “Na au- tes, telespectadores – lidos na televisão, se comportar com fontes, público, colegas
serem a primeira do setor mecanismos de auto- sência de mecanismos de publicados nas páginas das revistas, dos e com o veículo onde trabalha; e, final-
a buscar o que ele chama auto-regulação ou de jornais e dos sites. Representam, então, mente, uma explicação sobre os valores
de uma “prestação de con- regulação ou de uma uma regulação geral, a um compromisso firmado com a socie- que o grupo considera “imperativos” para
tas” com sua audiência e regulação geral, a sua sua existência é um avan- dade. “Os manuais de redação dão uma o jornalismo.
seus leitores. “Isso é alta- ço na direção de um com- certa ordenação, tratam de detalhes da Para o pesquisador da UFSC, o docu-
mente positivo”, afirma.
existência é um promisso”, diz, advertin- técnica redacional, etc.”, compara o pro- mento está “em linha com os principais
“BBC, New York Times, avanço na direção de do que a opinião é pesso- fessor da Puc-Rio. “Nesse caso, é um con- cânones do próprio jornalismo”, afinado
Reuters, várias empresas um compromisso” al e não do Coletivo, ain- glomerado que está tornando claras suas com a escola norte-americana e os seus
jornalísticas têm docu- da em fase de análise do políticas editoriais, para a sociedade.” conceitos de objetividade. É significati-
mentos desse tipo fora do Brasil. Era mais documento. Nos Princípios, Brant en- Como já faz, por exemplo, a BBC, vo, diz Aguiar, da Puc-Rio, que o jorna-
do que momento de chutarem a bola para contra, por exemplo, diretrizes clássicas televisão pública do Reino Unido, que lismo tenha sido definido como uma
frente por aqui, para o jogo começar.” que também constam das normas sobre atualiza sua diretriz editorial a cada cin- forma de conhecimento da realidade
O jornalista Alberto Dines, que diri- conteúdo da Ofcom (a agência regulado- co anos, segundo o professor da UFSC. social. “É um dos entendimentos possí-
ge o Observatório da Imprensa, exibido na ra das comunicações no Reino Unido), Na edição mais recente, as redes sociais veis e bastante produtivo, do ponto de

22 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


“O bom jornalismo é
vista teórico e político. Significa reco- que o Estado é laico. Nada mais óbvio do Brant, do Intervozes, esse que consegue ser liberdades individuais e li-
nhecer que existem outras formas de que reafirmar esse princípio democráti- também enxerga contra- plural, atender a essas vre iniciativa, se tomados
conhecimento da realidade e que elas co.” Mas, além disso, ele explica que “es- dições. “Diz que os veícu- múltiplas fontes de em uma perspectiva abso-
disputam. Ou seja, que a própria questão tão dizendo também que os veículos de los vão buscar um corpo luta, afetam todo o código
do jornalismo é objeto de disputa.” comunicação não vão servir de instru- plural, representando o informação.” de Princípios. Não vejo
No campo teórico, explica Aguiar, esse mento para nenhuma guerra santa en- arco mais amplo de tendências da socie- ninguém defendendo nos veículos os direi-
enfrentamento opõe de um lado, pensado- tre grupos empresariais de comunica- dade. A Globo não tem isso. Não ofere- tos trabalhistas.” Christofoletti, da UFSC,
res como Adorno e Max Horkheimer, da ção”. O jornalista Alberto Dines discor- ce nenhum programa de debates na te- reconhece “que não há produção simbóli-
Escola de Frankfurt, da década de 1930, na da. Para ele, as Organizações Globo não levisão aberta, nem na área esportiva.” ca sem viés.” Para evitar o engajamento ou
Alemanha, ou dos anos 1940 e 1950 nos são laicas, favorecem determinados gru- Outro risco, para ele, está na apresenta- a parcialidade, ele diz que é preciso abrir o
Estados Unidos, e que enfatizavam a visão pos religiosos no espaço cedido a seus ção dos “valores” da empresa. Nos Prin- leque de pessoas envolvidas na produção e
do jornalismo como instrumento de do- colunistas e o documento tem impreci- cípios, as Organizações Globo descartam adotar a pluralidade como controle de qua-
minação ideológica e da manipulação da sões. “O documento, além de longo, é am- totalmente a existência de qualquer viés lidade. “É um movimento contraditório,
informação. E, de outro, a que aparente- bíguo: em alguns momentos defende – ideológico, político, mercadológico – como é a natureza do próprio jornalismo:
mente se filiam os Princípios da Globo, a princípios e valores, em outros se revela na informação de qualidade, aquela que embora combatamos o mito da imparcia-
Escola de Sociologia de Chicago, nos mes- indeciso em questões cruciais, inclusive tem isenção, correção e é dada com agi- lidade e da neutralidade, nós a buscamos.”
mos anos 1930, “que pensou o jornalismo no tocante à definição da sua própria ra- lidade. O Grupo aponta, contudo, mui- O documento declara que as ações que
não como mero meio de transmissão de in- zão de ser ”, escreveu. “A ‘breve definição tos valores que estão na base de sua atu- possam ameaçar esses valores “devem ser
formação, mas como forma de conheci- de jornalismo’ é imensa, imprecisa, anti- ação: a democracia, as liberdades indivi- retratadas com espírito isento e pluralis-
mento, ligado ao senso comum, mas que quada e maçante. Jornalismo é algo vivo, duais, a livre iniciativa, os direitos hu- ta, acolhendo-se amplamente o contradi-
nos dá um entendimento sobre a realida- eletrizante; se a sua definição não conse- manos, a república, o avanço da ciência tório, de acordo com os princípios aqui
de social e que torna o jornalista um me- gue ter os mesmos atributos algo está e a preservação da natureza. descritos, de modo a que o público possa
diador social”. E que procura a isenção por errado – na ontologia ou na formulação.” “Democracia é valor fundador, mas há concluir se há ou não riscos e como se
meio de procedimentos como dar espaço Para ele, falta, fundamentalmente, mais visões diferentes do que ela seja”, alerta posicionar diante deles”. Por e-mail, a
ao contraditório, submeter os textos a mais menções à pluralidade de opiniões. Brant. “Outros valores apontados, como equipe responsável pelos Princípios diz
de um leitor, compor um corpo editorial que há uma “preocupação muito grande
diversificado, etc. “Um ponto positivo”, diz em deixar claro para o público o que é
Brant, do Intervozes, “é que os Princípios notícia/informação e o que é comentário/
definem uma referência normativa para opinião nossa ou de terceiros.” Por isso,
avaliação dessa busca de objetividade”.

Da teoria à prática
Um manual para a EBC garante contar com comentaristas, cro-
nistas e colaboradores com pontos de vista
diferentes e contraditórios.
O caminho escolhido pelas Organiza- A empresa recebe sugestões para definir um padrão “O jornalismo moderno se dá como
ções Globo é o “correto”, afirma Aguiar. um espaço de luta em relação a esse proces-
que será adotado em todos os seus canais públicos.
“A questão é saber como passar dos prin- so de conhecimento da sociedade e a dis-
cípios à prática.” Esse foi o questionamen- Responsáveis por vários canais colaboradores da EBC criticarem, via puta pela sua hegemonia”, afirma Aguiar,
to mais recorrente feito à empresa, após públicos, entre eles a TV Brasil, a intranet. Finalmente, os comentários da Puc-Rio. Entre as várias forças que se en-
a divulgação dos Princípios Editoriais. Empresa Brasil de Comunicação-EBC internos e externos serão consolidados frentam na produção da informação, ele
Principalmente, devido à ausência de om- publicou na internet, em 16 de agosto, por um relator em um projeto final, aponta, além dos jornalistas e das empre-
budsman ou de outras instâncias para o dez dias depois do anúncio dos a ser submetido à Diretoria e, depois, sas jornalísticas, as fontes – sejam empre-
controle social do que está descrito no Princípios Editoriais das Organizações ao Conselho Curador. sas ou entidades do movimento social. “Há
papel. “A empresa precisa de um canal mais Globo, os conceitos fundamentais que Os princípios norteadores do interesses econômicos e sociais, de classe,
eficiente de crítica e ser tolerante a ela, vão orientar a empresa na produção Manual, que estão publicados na que entram em acordo com interesses de
aprender a ouvir mais a sociedade, descer do seu Manual de Jornalismo. A internet, citam a lei que criou a EBC classe de outras fontes de informação. Re-
do seu pedestal histórico e ser capaz de intenção é que a sociedade opine, (Lei 11.652/2008), a Constituição centemente, o professor lembra que um
debater publicamente com os setores orga- enviando contribuições por e-mail brasileira, o Código de Ética dos jornalista foi demitido, na Bahia, porque
nizados”, afirma o coordenador do Jorna- para o projeto final, previsto para Jornalistas Brasileiros, a Declaração fez denúncias acerca de um empreendi-
lismo da Puc-Rio. “A Globo se expõe de for- chegar ao Conselho Curador no final Universal dos Direitos Humanos e mento imobiliário. “Houve aí um óbvio
ma positiva”, diz Brant. “Mas precisa reco- de setembro. A partir daí, o controle a Declaração da Unesco sobre os conflito de forças. O jornalista se aliou a
nhecer que é um primeiríssimo passo, se a da aplicação efetiva dos seus preceitos Meios de Comunicação. “Todo uma força diferente daquela aliada da
própria emissora não tem um ombuds- éticos e normas de conduta poderá ser jornalismo é um serviço público, e empresa jornalística. Esse é um espaço o
man para receber reclamações.” feito pela sociedade por meio do como tal, é importante que seus tempo todo de disputa. O bom jornalismo
Na entrevista por e-mail, a equipe de Conselho, uma instância supervisora, princípios e seus compromissos é esse que consegue ser plural, atender a
Princípios Editoriais das Organizações e da Ouvidoria, que faz a mediação sejam conhecidos do público a quem essas múltiplas fontes de informação.”
Globo explica que os veículos do grupo entre público e diretoria. se dirige o serviço”, informou a Segundo a equipe das Organizações Glo-
devem estabelecer canais próprios de A elaboração do Manual começou equipe do Manual, por e-mail: bo, os Princípios já estavam contidos no
interação com o público, mas não deta- em abril, com a publicação de portaria “No caso da EBC, a existência de documento Princípios e Valores, que o
lha quais seriam eles. Nem há referência da Presidência criando um grupo de um manual normativo, que explicite grupo revisa periodicamente. “Formaliza-
à crítica externa. No máximo, a observa- trabalho encarregado de fazer o texto as diretrizes editoriais, é ainda mais mos os conceitos, normas e procedimentos
ções – positivas ou negativas – vindas de preliminar, a partir de debates internos importante. Estamos falando do da atividade jornalística nas Organizações
fora. “Não temos a figura do ombudsman, e pesquisas sobre outras experiências. jornalismo praticado pelos canais Globo em um esforço para dar mais trans-
mas todos os nossos veículos são orienta- São 20 participantes no grupo, públicos de comunicação, financiados parência ao nosso trabalho.” Se as diretri-
dos a ter estruturas e canais próprios para profissionais de todos os veículos da pelo Estado para aumentar a oferta de zes não são novas, a equipe da Globo admite
receber e processar observações, positivas empresa, coordenados pelo jornalista conteúdos e informação aos cidadãos. que a sociedade mudou. “Em um momen-
e negativas, vindas do público em geral, Antônio Achilis da Silva, ex-Presidente Dos canais públicos, a sociedade tem to em que a opinião pública ganha cada vez
incluindo os consumidores das informa- da TV Minas, membro da ABI Minas o direito de exigir toda transparência, mais força, seja no Brasil ou em outros pa-
ções, as fontes, os especialistas e os perso- Gerais e ex-Presidente da Associação isenção e apartidarismo, ou qualquer íses, consideramos essencial ter um códi-
nagens das reportagens.” Por enquanto, Brasileira das Emissoras Públicas, forma de comprometimento que não go que normatize e regulamente esta ati-
na falta de ombudsman, ouvidoria, ou si- Educativas e Culturais-Abepec. seja com o interesse de todos.” vidade. Entendemos que não deve ser uma
milar, Aguiar defende a discussão dos O texto gerado por esse grupo foi Para ler as diretrizes básicas da atividade corporativa, mas a profissão de
Princípios pelo movimento social, em encaminhado à Diretoria-Executiva EBC e enviar colaborações para o fé de cada grupo de comunicação.”
canais que já estejam abertos – Observa- há cerca de um mês, e nova portaria futuro Manual de Jornalismo da Os Princípios Editoriais das Organiza-
tório da Imprensa, Federação Nacional estabeleceu as futuras etapas do empresa basta acessar o site ções Globo estão disponíveis para con-
dos Jornalistas-Fenaj ou a ABI. trabalho. Agora, será definido um prazo (ebc.com.br) e clicar no banner sulta no G1, o portal de notícias da Glo-
Muito importante nos Princípios, diz para que os diretores avaliem e Manual de Jornalismo – Princípios e bo, no endereço g1.globo.com/principios-
o professor da Puc-Rio, foi as Organiza- façam emendas ao texto. Daí surgirá Conceitos, publicado com destaque na editoriais-das-organizacoes-globo.html
ções Globo terem marcado o caráter lai- um anteprojeto, aberto para todos os página inicial. que pode ser acessado no link publicado
co do jornalismo. “A Constituição diz em destaque na primeira página do site.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 23


Liberdade de imprensa

A censura prévia ao
Estadão fez dois anos
O Supremo nada faz contra a ilegalidade. Na condição de Presidente da Suprema Corte e do Conselho Nacional
de Justiça, o Ministro Cezar Peluzo deveria proceder à correição do processo contra o jornal e determinar
o seu julgamento imediato, para impor o respeito à Constituição violada pela Justiça de Brasília.
“É incrível que o Presidente do STF, rando as filigranas judiciais que marcam JUDITH BRITO o Judiciário a enquadrar as ações jornalís-
Ministro Cezar Peluso, até agora não te- a sua tramitação, transformando-o P RESIDENTE DA A SSOCIAÇÃO N ACIONAL DE JORNAIS ticas no crime comum. E aí cria-se um
nha se sentido na obrigação, como chefe numa chicana judiciária, e determinar o “É inacreditável e inaceitável essa si- mundo que conhecemos: um Judiciário
do Poder Judiciário, de determinar, por julgamento do recurso do Estadão, tan- tuação de um jornal estar há dois anos que judicializa a vida pública brasileira.”
dever de ofício, a correição desse proces- to para defender o interesse legítimo do proibido pela Justiça de publicar infor-
so e seu julgamento para restabeleci- jornal como para restabelecer a integri- mações sobre determinado assunto, FERNANDO LATTIMAN-WELTMAN
mento pleno da normalidade constitu- dade do texto constitucional, desrespei- quando a Constituição brasileira é abso- CIENTISTA POLÍTICO
cional há dois anos vítima de uma vio- tado pelo Juiz Dácio Vieira. lutamente clara no sentido de que é ve- “Vivemos um certo vácuo legislató-
lação inadmissível.” dado qualquer tipo de censura, sob qual- rio. O problema todo é que por um prin-
A cobrança foi feita pela ABI, através “É UM TRISTE MOMENTO quer argumento.” cípio claro da Constituição que impede
de seu Presidente, Maurício Azêdo, em EM QUE A JUSTIÇA RECUSA qualquer forma de censura; por outro
declaração ao suplemento especial publi- A DEMOCRACIA E SE ALIA OPHIR CAVALCANTE lado, existem argumentos que também
cado pelo jornal O Estado de S.Paulo, na AOS VELHOS CACOETES P RESIDENTE DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO B RASIL podem ser respaldados na Constituição
edição de domingo 31 de julho, em pro- DA DITADURA.” “Dois anos sem julgar e manter, sob e que podem garantir direito à privacida-
testo contra a manutenção da censura todos os aspectos, um jornal sob censu- de, além da questão do sigilo processual
prévia que lhe foi imposta há dois anos Além do Presidente da ABI, foram ra, demonstra, de um lado, o lamentável em determinados casos.”
pelo Juiz Dácio Vieira, do Tribunal de ouvidos nessa edição do Estadão: problema da morosidade da Justiça bra-
Justiça do Distrito Federal, atendendo a sileira; de outro, a incompreensão que PAULA MARTINS
solicitação do empresário Fernando Sar- MIRO TEIXEIRA ainda persiste sobre o papel fiscalizador DIRETORA DA ORGANIZAÇÃO NÃO-GOVERNAMENTAL ARTIGO 19
ney, filho do Presidente do Senado, Sena- DEPUTADO FEDERAL (PDT-RJ) dos meios de comunicação em uma so- “O sigilo judicial é, em princípio, uma
dor José Sarney (PMDB-AP). “Antes ficava claro que a censura aos ciedade livre.” justificativa legítima para restrição do
No entender da ABI, o Supremo Tri- cidadãos, ditada pela Polícia, era uma ofen- acesso e disseminação de determinadas
bunal Federal e o Conselho Nacional de siva do poder ditatorial. A censura a O CELSO SCHRÖDER informações. Quando se trata de assun-
Justiça, ao qual cabe zelar pela qualida- Estado de S. Paulo é um triste momento em PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS tos de relevante interesse público, impe-
de da chamada prestação jurisdicional, a que a Justiça recusa a democracia e se alia “A extinção da Lei de Imprensa autori- dir a publicação corresponde à prática de
eficácia dos serviços prestados ao povo aos velhos cacoetes da ditadura. Tudo aí se tária, do período da ditadura, mas sem censura, com a violação não apenas da
pelos órgãos do Poder Judiciário, deveri- mistura, ninguém pode ignorar o poder do deixar nada no lugar, criou um vazio ju- liberdade de imprensa, mas do direito à
am intervir nesse processo, desconside- Presidente Sarney.” rídico muito perigoso e que está levando informação de todos nós.”

Mais um caso de censura prévia, desta vez em Rondônia


Decisão de um juiz cível confirma que magistrados da O árbitro da verdade: ele verdade absoluta dos fatos que divulga. É
Na liminar que concedeu, Ribeiro da verdade que em alguns casos há a retifi-
primeira instância não conhecem a Constituição, não a respeitam Luz contesta que tenha promovido censura cação, mas o mal já foi feito com a divul-
e adotam decisões que agridem o texto constitucional. e cita um trecho de decisões anteriores que gação de matéria não idônea.”
adotou sobre a interferência do Judiciário A Engecom, que recorreu à Justiça em
POR CLÁUDIA SOUZA A decisão inconstitucional foi do Juiz no trabalho da imprensa de Rondônia: maio passado, pediu indenização por
José Jorge Ribeiro da Luz, da 5ª Vara Cível “Não se trata de coibir ou tentar coibir danos morais “por ter sofrido ofensas que
Mais uma decisão judicial confirma de Porto Velho, o qual determinou que “os os direitos de informações por parte da causaram prejuízos materiais e morais
o que a ABI vem sustentando há mais de réus se abstenham de divulgar quaisquer imprensa, quer seja escrita, televisada ou depois de o radialista afirmar sem subsí-
três anos: juízes da primeira instância informações que contenham os nomes dos até pelos meios de comunicação pela rede dio fático que a licitação da nova sede do
não conhecem a Constituição, ignoram autores, relativas a matérias ainda não mundial de comunicações via internet. Executivo possuía irregularidades”.
que seu texto proíbe qualquer forma de consideradas definitivas judicialmente”. Penso que o que se pode exigir é que todas
censura e não a respeitam. A mais recen- No caso de não cumprimento do despa- as informações levadas ao público consu- “O Juiz me amordaçou”
te manifestação dessa prática inconsti- cho, será punida com multa de R$ 3 mil midor sejam idôneas e devidamente di- O jornalista Arimar Souza de Sá, que
tucional ocorreu em Porto Velho, capi- cada informação divulgada sem acatamen- vulgadas após serem consideradas defini- pretende recorrer da decisão, diz que a
tal de Rondônia, onde um juiz cível to do estabelecido pelo Juiz Ribeiro da Luz. tivas e caso não o sejam, que contenham construtora estaria vencendo “o filé das
proibiu a Rádio Cultura FM de citar o Em declaração divulgada por seu Pre- a informação da precariedade delas. Infe- licitações” em Rondônia. “O Juiz me
nome da empresa Engecom Engenharia, sidente, jornalista Carlos Alencar, o Sin- lizmente não é o que ocorre com parte de amordaçou. Sinto-me aviltado no meu
relacionando-a com qualquer proble- dicato dos Jornalistas Profissionais de órgãos da imprensa em nosso País. Mas direito de comunicador ”, declarou.
ma na construção do Centro Político e Rondônia-Sinjor-RO condenou a censu- penso que é assim que deveria ocorrer. O O Diretor de Conteúdo da Rádio Cul-
Administrativo do Estado, o CPA, cujas ra prévia imposta à Rádio e definiu a deci- que vemos, em alguns casos, é que a mí- tura FM, Carlos Geovane, disse que se
obras foram paralisadas por suspeita de são do Juiz Ribeiro da Luz como uma ten- dia coloca informações ao público que em surpreendeu com a decisão. Ele informou
irregularidades. tativa de retorno ao período ditatorial. algumas ocasiões não correspondem à que o programa A Voz do Povo é indepen-

26 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


Cresce no Brasil o número
de jornalistas assassinados
Entre agosto de 2010 e julho passado foram mortos cinco profissionais, revela relatório da Associação Nacional
de Jornais-ANJ. Houve nove casos de censura imposta pelo Poder Judiciário, três deles pela Justiça Eleitoral.
Em relatório sobre a liberdade de ex-

PAULO LIEBERT/AE
pressão, cobrindo o período agosto de
2010-julho de 2011, apresentado no dia
16 de agosto em sua assembléia anual,
a Associação Nacional de Jornais-ANJ
registrou 34 eventos que representam
alguma restrição à liberdade de expres-
são. O relatório destaca o aumento do
número de assassinatos de jornalistas:
foram cinco no período, enquanto nos
dois anos anteriores foi registrado um
caso. No documento, a Associação afir-
ma que “é preocupante a quantidade de
eventos gerados a partir de iniciativas
JOSÉ MURILO DE CARVALHO do Poder Judiciário: dos 34 casos ocor-
HISTORIADOR E MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS ridos, nove corresponderam a censura
“É uma faca de dois gumes. De um lado, imposta por decisões judiciais, sendo
o ativismo do Judiciário pode cobrir vácuos três medidas restritivas determinadas
deixados pelo Legislativo. De outro lado, por juízes da Justiça Eleitoral”.
Ricardo
esse ativismo corre realmente o risco de, a No total, foram registrados cinco Gandour:
pretexto de defender direitos individuais, assassinatos, uma prisão, sete agressões, “Censura
acabar realmente prejudicando o coletivo. dois atentados, três casos de abusos não tem
No caso da censura à imprensa, a situação cometidos por autoridades, 12 casos de dose. O
claramente é uma restrição, sobretudo censura, uma ameaça de morte e duas único porto
seguro é a
quando a Justiça não é rápida.” decisões judiciais, além de uma mani- plenitude”
festação considerada hostil à imprensa
GREGORY MICHENER do então Presidente Luiz Inácio Lula da
CIENTISTA POLÍTICO CANADENSE Silva. Em comício em Campinas, SP, O evento foi promovido pelo Insti- te: na página da Casa Branca na inter-
“Um dos fundamentos de uma demo- em setembro de 2010, o ex-Presidente tuto Palavra Aberta, que reúne entida- net há uma lista com o nome dos servi-
cracia forte é a liberdade de imprensa. Pelo disse que “vamos derrotar alguns jor- des como a Associação Nacional de Jor- dores e o quanto recebem do Governo.
que sei sobre o caso “Estado”, havia base nais e revistas que se comportam como nais, a Associação Brasileira de Emisso-
factual para as denúncias. Acho (a censu- partido político”. ras de Rádio e Televisão-Abert e a Asso- Censura, com os Sarney
ra) um déficit democrático. O Judiciário No relatório também está registrada ciação Nacional de Editores de Revis- O Diretor de Conteúdo do jornal O
deveria proteger mais a imprensa e tomar a preocupação em ver aprovada uma lei tas-Aner. Um dos temas abordados foi Estado de S. Paulo, Ricardo Gandour, cri-
o lado do cidadão, não o lado do político.” garantindo o direito de qualquer cida- a internet. ticou a censura judicial, fazendo refe-
dão a ter acesso a informações produzi- A Secretária-Executiva da Secretaria rência à proibição, que já dura dois anos,
das por qualquer um dos três Poderes, em de Comunicação da Presidência da de que o Estadão publique notícias so-
todas as esferas da administração públi- República, Yole Mendonça, disse que a bre a Operação Boi Barrica, da Polícia
dente e de responsabilidade de Souza de ca. O projeto que a institui ainda não foi liberdade de imprensa é fundamental: Federal, que investigou o empresário
Sá, que compra o espaço. aprovado no Congresso por resistência “É um tema muito caro ao Governo Fe- Fernando Sarney, filho do Presidente do
Recentemente, o Juiz Ribeiro da Luz dos Senadores José Sarney (PMDB-AP) deral, que o entende como um dos pila- Senado, José Sarney (PMDB-AP). Gan-
determinou a penhora dos bens (compu- e Fernando Collor (PTB-AL), que tam- res da democracia plena”. dour afirmou que há quem não veja
tadores e outros equipamentos) de um bém já foram Presidentes da República. problema em haver no País “um pouqui-
site de notícias de Rondônia, decisão que Quem ganha quanto? nho” de censura, como forma de prote-
foi suspensa pelo Tribunal de Justiça. Ataques sem cerimônia O jornalista Fernando Rodrigues, ger setores da sociedade. Para ele, porém,
Mais cedo, durante a 6ª Conferência colunista do jornal Folha de S.Paulo e o raciocínio é “perigosíssimo”, pois po-
O protesto do Sinjor-RO Legislativa sobre Liberdade de Expres- Presidente da Associação Brasileira de deria levar à tolerância com “um pouqui-
O protesto do Sindicato foi formula- são, na Câmara dos Deputados, acadê- Jornalismo Investigativo-Abraji, disse nho de mentira ou de tortura”. “Não
do na seguinte declaração: micos, parlamentares, representantes que, no Brasil, a liberdade de expressão tem dose: o único porto seguro é a ple-
“O Sindicato dos Jornalistas Profissio- do Governo e jornalistas defenderam a não é encarada como princípio basilar nitude”, afirmou Gandour.
nais de Rondônia-Sinjor-RO, inconforma- liberdade de imprensa. O professor da da democracia. Ele citou a inexistência Os participantes lembraram a censu-
do com a censura aplicada ao jornalista Ari- Universidade de São Paulo Eugênio de uma lei ampla de acesso a informa- ra à exibição do filme Je vous salue,
mar Souza de Sá pelo Poder Judiciário des-
Bucci disse que existe no Brasil uma ções públicas – um projeto está em dis- Marie, de Jean-Luc Godard, proibido
te Estado, repudia, de forma veemente, tais
“mentalidade autoritária” que está por cussão no Senado – e a não divulgação em 1985 no Governo do então Presi-
práticas que tentam retroagir ao período
trás de iniciativas que tolhem a liberda- detalhada, pelos diferentes níveis de dente José Sarney. A advogada Taís
ditatorial. A função precípua da imprensa
de de expressão, entre elas a chamada Governo, dos valores que gastam com Gasparian, que patrocina causas do jor-
é informar, inclusive os desacertos da admi-
censura judicial, criticada por diversos publicidade. Para ele, “trata-se de uma nal Folha de S.Paulo, observou que tan-
nistração pública, especialmente quando
quem paga pelos desmandos é a sociedade. participantes da conferência. anomalia de países subdesenvolvidos”. to a censura judicial ao jornal O Esta-
Em nome da Diretoria deste Sindicato, “Na nossa cultura política, a brutalida- Rodrigues criticou também a falta do de S.Paulo, por conta da Operação Boi
nos solidarizamos com o colega, esperando de do Estado se manifesta na falta de ce- de transparência sobre os salários de ser- Barrica, quanto a proibição de exibição
que o Poder Judiciário reveja tal medida que rimônia com que as autoridades atacam vidores públicos. Ele fez referência aos do filme, tiveram origem na mesma
fere os princípios basilares da democracia. a imprensa. Essa mentalidade, além do supersalários, que são alvo de ação na família Sarney. Ela critica o Poder Judi-
Porto Velho, 4 de agosto de 2011. (a) monopólio da força, pretende ter o mo- Justiça e foram investigados pelo Tribu- ciário por ainda não ter derrubado a res-
Carlos Alencar, Presidente.” nopólio da opinião”, disse Bucci. “Faz nal de Contas da União. Disse Rodri- trição ao jornal, e sugerie que o mesmo
parte do dna da nossa cultura política.” gues que nos Estados Unidos é diferen- acione tribunais internacionais.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 27


Direitos humanos

Para o crime, agora vale tudo


A audácia dos bandidos passou a não ter limites, como demonstrou o atentado em que bandos fora-da-lei executaram
com 21 tiros a Juíza Patrícia Acioli, considerada uma magistrada de mão pesada, por não aceitar a versão de policiais
de que os fuzilamentos que cometem são conseqüência de atos de resistência à prisão.
POR CLÁUDIA SOUZA executaram a Juíza. O Presidente da As-

FREDERICO ROZARIO/AGÊNCIA O GLOBO


sociação dos Magistrados do Estado do
Um atentado brutal roubou a vida, na Rio-Amaerj, Antônio Siqueira, disse que
noite de 11 de agosto, da Juíza Patrícia Lo- a execução de Patrícia Acioli chocou a
rival Acioli, 47 anos, da 4ª Vara Criminal magistratura fluminense porque há mui-
de São Gonçalo, assassinada ao chegar de tos anos não se tem notícia de atentados
carro em seu condomínio em Piratininga, contra magistrados no Estado do Rio.
Região Oceânica de Niterói, antiga capi- Em nota à imprensa, o Presidente do
tal do Estado. Testemunhas contaram que Conselho Federal da Ordem dos Advoga-
Patrícia Acioli: sem
homens encapuzados que ocupavam dos do Brasil, Ophir Cavalcante, cobrou “a
escolta, mesmo
dois carros e duas motos efetuaram os imediata apuração dos autores e mandan-
constando em uma
disparos quando a Juíza ainda estava den- lista de doze tes do assassinato, uma barbaridade con-
tro do automóvel. pessoas marcadas tra um ser humano e, sobretudo, contra a
Peritos do Instituto de Criminalística para morrer. Justiça brasileira e o Estado de Direito”.
Carlos Éboli-ICCE realizaram na manhã
seguinte perícia no veículo, no qual foram
encontrados projéteis de calibres 40 e 45, Nem todos os Tribunais
próprios de armas privativas da Polícia e respondem à Corregedoria
das Forças Armadas. O Delegado titular da
Divisão de Homicídios, Felipe Ettore, afir- acerca de segurança
mou que houve uma emboscada seguida
Em entrevista coletiva concedida na sede
de execução e que a juíza foi morta com
21 tiros. Ao longo do dia, cerca de dez pes- do Conselho Nacional de Justiça, em Brasí-
soas prestaram depoimento na Delegacia, lia, no dia seguinte ao assassinato da Juíza
entre elas vizinhos da Juíza e o namora- Patrícia, a Corregedora Nacional de Justi-
do dela, Marcelo Poubel. ça, Ministra Eliana Calmon, disse que a Aju-
A Comissão de Direitos Humanos da fe chegou a dar uma declaração de que ha-
Câmara dos Deputados informou que vai via cerca de 40 magistrados que estavam
acompanhar as investigações sobre o as- ameaçados. “Eu já oficiei duas vezes à Asso-
sassinato. ciação dos Juízes Federais para que forne-
Titular da 4ª Vara Criminal de São íza. O Desembargador, que presidiu o Tri- O Presidente do Tribunal de Justiça, cesse à Corregedoria o nome desses magis-
Gonçalo desde 1999, a magistrada era a bunal de Justiça em 2009 e 2010, disse que Desembargador Manoel Alberto Rebelo trados ameaçados, para tomarmos as devi-
única que julgava processos de homicídio a escolta da juíza foi retirada em 2007, dos Santos, afirmou que admite a hipóte- das providências’, disse a Ministra.
e crimes correlatos na cidade, a segunda de quando ele ainda não presidia o Tribunal se de a Juíza ter sido assassinada por sua Informou a Ministra que pelo menos
maior população no Estado do Rio de Ja- de Justiça, a pedido da magistrada. atuação rigorosa contra grupos de extermí- 87 juízes trabalham sob ameaça de mor-
neiro. Ela era conhecida por sua atuação ri- nio formados por policiais militares. Ele te ou de agressões físicas no País:
gorosa contra grupos de extermínio que determinou que fossem lacrados o gabine- “Os dados do CNJ são parciais, porque,
agem em São Gonçalo e por dar celerida- te e as câmaras de segurança da 4ª Vara Cri- apesar de o Conselho ter enviado ofícios aos
de aos processos. Na lista de condenações No Brasil todo, há minal, que ficarão à disposição da Polícia
27 Tribunais de Justiça e aos cinco Tribunais
que ela impôs há casos contra milícias e 30 juízes ameaçados; para a apuração do crime, e afirmou que
Regionais Federais do País, nem todos res-
máfias dos combustíveis e dos transportes pretende criar uma comissão de juízes
alternativos.
sob risco há 500 criminais para assumir os processos da 4ª
ponderam à solicitação de informações so-
Horas antes de ser assassinada, Patrícia O Presidente da Associação de Juízes Vara Criminal de São Gonçalo que estavam bre ameaças a juízes. Há cerca de dois me-
Acioli havia decretado a prisão preventiva Federais do Brasil-Ajufe, Gabriel Wedy, sob a responsabilidade de Patrícia Acioli. ses o Conselho pediu aos Tribunais a adoção
dos policiais-militares Carlos Adílio Maciel informou que pelo menos 30 juízes O Procurador-Geral de Justiça do Esta- de práticas efetivas para garantir a seguran-
e Sammy dos Santos Quintanilha, do 7º federais comunicaram terem recebido do do Rio, Cláudio Lopes, designou o Gru- ça dos magistrados e solicitou também que
BPM (Alcântara), acusados de forjar um ameaças devido ao seu trabalho em 2010: po de Atuação Especial de Combate ao informassem, no prazo de 15 dias, se havia
“Os juízes federais não têm escolta, juízes ameaçados nas respectivas regiões. O
auto de resistência, ocorrido no dia 5 de Crime Organizado do Ministério Públi-
porque não há efetivo policial para isso. O
junho deste ano, no Complexo do Salguei- co-Gaeco para a investigação da morte da CNJ não faltou com o seu dever de estar ao
número de 30 do ano passado é apenas
ro, em São Gonçalo. uma amostra, pois todos os 500 juízes juíza. Outros três Promotores de Justiça lado da magistratura. Pedimos a todos os Tri-
Fontes da Polícia informaram que nos federais criminais estão potencialmente auxiliarão o grupo, analisando as linhas bunais que garantissem a segurança dos
últimos dez anos a Juíza Patrícia foi res- correndo risco. O dia em que o juiz tiver de investigação e levando em considera- magistrados, especialmente daqueles que
ponsável pela prisão de cerca de 60 polici- medo de julgar, ninguém mais vai dormir ção as pessoas que já foram condenadas trabalham nas Varas Criminais e nas Varas
ais ligados a milícias e a grupos de extermí- tranqüilo. Todo magistrado federal que ou julgadas pela Juíza e que teriam inte- de Execução Penal. No mesmo ofício, foram
nio. Seu nome constava em uma lista de processa e julga o crime organizado ou resse em sua morte. pedidos os dados sobre juízes ameaçados.”
doze pessoas marcadas para morrer. O do- narcotraficantes está potencialmente Em janeiro deste ano, Patrícia Acioli de-
sujeito a ser morto. O crime organizado Em resposta ao ofício, o Tribunal de Jus-
cumento foi encontrado com Wanderson cretou a prisão preventiva de seis policiais tiça do Rio de Janeiro respondeu, de acor-
hoje tem serviço de inteligência,
da Silva Tavares, o Gordinho, preso em ja- do 7º BPM, acusados de forjar um auto de
armamento igual ao do Exército. do com a Ministra, que havia 13 magistra-
neiro deste ano em Guarapari, no Espíri- resistência (morte em confronto com a
Precisamos ter a nossa polícia, vinculada dos com escolta porque foram ameaçados:
to Santo, acusado de chefiar uma milícia ao Poder Judiciário, para poder dar Polícia), em outubro do ano passado, em
sete desembargadores e seis juízes de pri-
em São Gonçalo. segurança aos juízes, às testemunhas e às São Gonçalo. Em setembro de 2010, ela ex-
O jornalista Humberto Nascimento, pediu os mandados de prisão de quatro meira instância:
pessoas que transitam nos tribunais.”
primo de Patrícia Acioli, disse que ela es- O Projeto de Lei Complementar nº 3 policiais militares acusados de participar “O nome da Juíza Patrícia Acioli não
tava sem escolta por determinação do ex- (PLC-3/2010), que está tramitando no de um grupo de extermínio que teria exe- constava da relação. Os Tribunais de Jus-
Presidente do Tribunal de Justiça, De- Congresso, prevê a criação de uma Polícia cutado 11 pessoas, em São Gonçalo. tiça de São Paulo e de Minas Gerais, por
sembargador Luiz Zveiter. Atual Presi- Judiciária para dar poder de polícia aos O Presidente da Seção de Niterói da Or- exemplo, não enviaram informações ao
dente do Tribunal Regional Eleitoral do agentes dos tribunais, porte de arma e dem dos Advogados do Brasil, Antônio José CNJ”, disse Eliana Calmon.
também atuação como agentes de escolta, Os ofícios foram enviados depois que
Estado do Rio, Zveiter negou que tenha Barbosa da Silva, pediu uma apuração ri-
informou o Presidente Gabriel Wedy.
determinado a retirada da escolta da ju- gorosa para se chegar aos criminosos que o CNJ criou um grupo de trabalho para

28 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


fazer um estudo sobre a segurança da

“É POSSÍVEL APURAR JÁ
magistratura. O grupo é formado por dois
juízes auxiliares da Corregedoria Nacio-
nal de Justiça, um policial federal e um
membro do Ministério Público.

O Maranhão preocupa
“Estamos tentando levantar informa-
ções sobre todos os aspectos relacionados
à segurança para sugerir o que será preci-
so fazer. Há, no Maranhão, 24 pedidos de
OS CRIMES DA DITADURA”
escolta e aperfeiçoamento de segurança
por ocorrência de assaltos, arrombamen- Entidades da sociedade civil lançam o Coletivo RJ Verdade, Memória e Justiça
tos e invasões a sedes dos Juízos nos úl- e sustentam que a apuração dos crimes da ditadura independe da criação
timos dois anos. A situação do Estado é
preocupante.” da Comissão Nacional da Verdade, antes mesmo da instituição desta.
De acordo com o CNJ, a Juíza Patrícia
foi alvo de quatro representações feitas Em declaração divulgada em ato pú- Sangue, de Ângela Patrícia Reininger, que Verdade e à Justiça e no fortalecimento
por advogados e envolvidos em processos blico realizado na Ordem dos Advogados mostra a vida, a obra e a atuação políti- da democracia.
que ela julgaria. Todas as representações, do Brasil-Seção do Estado do Rio de Ja- ca de Betinho e seus dois irmãos. O Coletivo RJ tem formulado obser-
por abuso de poder, foram arquivadas neiro, na noite de 15 de agosto, entida- A mesa de honra dos trabalhos, sob a vações críticas sobre alguns itens do pro-
porque não tinham fundamento. A Mi- des representativas da sociedade civil do presidência de Pedro Strozemberg, um dos jeto de lei da criação da Comissão Nacio-
nistra destacou que essas representações Rio lançaram o Coletivo RJ Verdade, Me- organizadores do Coletivo RJ, foi integra- nal da Verdade, atualmente tramitando
são comuns a todos os juízes que agem de mória e Justiça. Antes mesmo da criação da pelo Presidente da OAB-RJ, Wadih no Congresso, e considera a necessidade
forma mais rigorosa: da Comissão Nacional da Verdade, que é Damous; pelo Presidente da ABI, Maurí- de que se amplie esse debate com os mais
“Meses atrás, por exemplo, verificamos indispensável, é possível apurar desde já cio Azêdo; pela Assessora Especial da Se- variados setores da sociedade civil, situ-
que o PCC (sigla do Primeiro Comando da os crimes da ditadura militar, porque na cretaria Nacional de Direitos Humanos ação que o Estado ainda não se dispôs a
Capital, organização criminosa criada nos maioria dos casos “as informações dispo- da Presidência da República Nadine Bor- fazer. Isto possibilitará um processo in-
presídios do Estado de São Paulo) tinha níveis permitem o início das investiga- ges; pelos Deputados Chico Alencar (Psol- clusivo e co-responsável, permitindo
formulado na Corregedoria em relação a ções, processamento judicial e responsa- RJ) e Marcelo Freixo (Psol), pelo Secretá- reformulações neste Projeto de Lei.
uma juíza da Vara de Execuções Penais nada bilização dos agentes públicos e privados, rio de Direitos Humanos do Estado do Uma Comissão da Verdade deve ser
menos do que 46 representações. Os própri- não havendo necessidade de se aguardar Rio, Antônio Carlos Biscaia, e pelos re- independente e autônoma e buscar ga-
os bandidos fazem representações. E isso os resultados da Comissão Nacional da presentantes do Coletivo RJ, Ana Bur- rantir um processo transparente e parti-
nós já sabemos”, disse Eliana Calmon. Verdade”. sztyn Miranda, Pedro Strozemberg e Mau- cipativo. Pretende-se, desta forma, asse-
Contou a Ministra que uma juíza de Esse entendimento foi expresso na rice Politi. gurar que seus resultados sejam bem do-
Vara de Execuções Penais de Pernambuco declaração em que essas entidades for- Entre os presentes encontravam-se cumentados, esclarecedores sobre o ocor-
foi ameaçada de morte e pediu ao Tribu- malizaram o lançamento do Coletivo RJ inúmeros sócios da ABI, entre os quais rido no período e diretos na identifica-
nal de Justiça um carro blindado. O TJ Verdade, Memória e Justiça. A manifes- Modesto da Silveira, Ronaldo Aguinaga ção das responsabilidades pelos crimes de
colocou a juíza sob escolta, mas negou o tação foi aberta com a execução da can- e Paulo Gomes Neto, além da Presiden- Estado. Mais ainda, seu relatório final
pedido do carro blindado, com o argu- ção instrumental Guerra de Canudos, de te da Comissão de Direitos Humanos da deve ser amplamente difundido no País
mento de que não tinha recursos finan- Chico Mário, irmão de Betinho e Henfil, OAB-RJ, Margarida Pressburger, e do e formalmente encaminhado às autori-
ceiros para arcar com o gasto. A magistra- por seu filho Marcos de Souza, e com a Vice-Presidente do Instituto Luiz Carlos dades competentes.
da, então, fez o pedido ao CNJ. exibição de trecho do filme Três Irmãos de Prestes, Luiz Ragon. Para tanto, é preciso que se tenha aces-
“A juíza faz o mesmo trabalho que fa- so irrestrito a toda e qualquer documen-
zia a Patrícia Acioli. Ela julga causas que tação referente à última ditadura, e é es-
envolvem grupos de extermínio. A Corre- sencial que o País cumpra seus compro-
gedoria Nacional de Justiça providenciou
o carro, que já está à disposição do Tribu-
“É preciso esclarecer missos internacionais de respeito aos
Direitos Humanos.
nal de Justiça para ser utilizado por ela.” o que aconteceu” Enfatizamos ainda que o debate acer-
ca da Comissão da Verdade não exclui a
“Não ficará em vão” A declaração do Coletivo RJ foi lida participativa, e exige das autoridades necessidade de Justiça em seu âmbito
Eliana Calmon informou que o Presi- pelo Vice-Presidente da Comissão de competentes responsabilidade na formu- formal. Ambos os instrumentos podem
dente do CNJ, Ministro Cezar Peluso, Direitos Humanos da OAB-RJ, Marcelo lação de políticas públicas. acontecer concomitantemente, já que
acionou a Polícia Federal através do Mi- Chalréo, e tem o seguinte teor: Não podemos perder de vista que ain- na maioria dos crimes as informações
nistro da Justiça, José Eduardo Cardozo, “O Coletivo RJ Verdade, Memória e da ocorrem no País prisões arbitrárias, disponíveis permitem o início das inves-
para que as investigações sobre a morte da Justiça iniciou seus trabalhos em junho tortura sistemática, seqüestros, execu- tigações, processamento judicial e res-
Juíza Patrícia Acioli sejam rigorosas. de 2011 quando pessoas, grupos e organi- ções e desaparecimentos forçados, que ponsabilização dos agentes públicos e
“Está comprovado que o crime é de ex- zações da sociedade civil se uniram para vitimam a população em geral, e que são privados, não havendo necessidade de se
termínio. Não foi passional, não foi assal- discutir e promover atividades relaciona- práticas inaceitáveis, inadmissíveis em aguardar os resultados da Comissão Na-
to. A morte da Doutora Patrícia não ficará das ao reconhecimento do direito à Me- um Estado Democrático de Direito. Tor- cional da Verdade.
em vão. Acho que é um acontecimento que mória, à Verdade e à Justiça. Desta forma, na-se, então, urgente e necessário que as Concebendo a Memória, a Verdade e
vai despertar a magistratura como um todo, tendo como objetivo a consolidação des- políticas públicas incluam em suas pau- a Justiça como dimensões esclarecedoras
especialmente por parte dos Tribunais de ses direitos humanos e visando o perío- tas os Direitos Humanos, para que estes e reparatórias, interdependentes e com-
Justiça, para termos um pouco mais de cau- do da última ditadura no Brasil – de 1964 deixem de ser mero acessório retórico às plementares, o Coletivo RJ luta:
tela, de cuidado, na segurança dos magistra- a 1988 –, o Coletivo RJ vem se reunindo políticas de segurança pública. – Por uma Comissão da Verdade autô-
dos. Não se pode ter numa Vara de Execu- semanalmente para debater e formular Para reduzir os danos sociais, é preciso noma e independente;
ções tão forte, onde existem grupos muito possíveis contribuições para a consolida- que se esclareça definitivamente o que – Pela abertura de todos os acervos
audaciosos, perigosos, um único juiz. Isso ção da democracia na construção do “Nun- aconteceu no período da ditadura militar, documentais produzidos naquele perío-
tem de ser diluído por alguns juízes. Tanto ca Mais” no Brasil. se reconheçam publicamente os crimes do e contra qualquer instrumento que
que já foram designados três juízes para Por conhecer a importância da repara- cometidos por agentes do Estado e cola- promova o ‘sigilo eterno’;
substituir a juíza morta. O Ministério Pú- ção integral aos homens e mulheres que boradores, se identifiquem e se responsa- – Pelo cumprimento integral da sen-
blico já toma cuidados como esses. De- foram presos, torturados, banidos, exila- bilizem individualmente seus autores. tença da Corte Interamericana de Direi-
núncias mais difíceis, que envolvem pes- dos e aos que tiveram familiares executa- É neste sentido que valorizamos a tos Humanos no caso da Guerrilha do
soas mais perigosas, são assinadas por di- dos e desaparecidos pela repressão mili- proposta de instalação da primeira Co- Araguaia;
versos procuradores da República ou pro- tar, entendemos que esta é uma causa do missão da Verdade no Brasil, entenden- – Pelo resgate da Memória e da Verda-
motores. Quando se concentra a responsa- presente, que diz respeito, sobretudo, a do que esse instrumento poderá ser de de sobre a história da resistência à dita-
bilidade em um único juiz, o risco é maior”, toda a sociedade brasileira. Demanda, por importância fundamental no processo dura 1964-88.
ressaltou a Ministra. isso, uma resposta efetiva, democrática e de conquista do direito à Memória, à Rio de Janeiro, 15 de agosto de 2011.”

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 29


Direitos humanos

Lula tira o chapéu para Betinho


Convidado especial de uma série de eventos programados e abertos em sessão fechada para convidados pela Caixa Econômica Federal para celebrar
os 30 anos de criação do Ibase, o ex-Presidente exaltou a atuação de Betinho, que “conseguiu nacionalizar um problema dos anônimos deste País”.

POR CLÁUDIA SOUZA num problema político. E aí foi impor- estão e quais são as faces da exclusão e da O Ibase organiza-se atualmente em
tante o papel do Betinho, que conseguiu pobreza extrema do Brasil? Cabe a nós quatro núcleos programáticos responsá-
Fundado em 1981 pelo sociólogo He- nacionalizar um problema dos anônimos trazer isto para o debate público. A apos- veis pela gestão direta dos seguintes pro-
bert de Souza, o Betinho, o Instituto Bra- deste País. Fizemos várias reuniões com ta na democracia é um processo no qual jetos: Cidades e Territórios; Democrati-
sileiro de Análises Sociais e Econômicas- o Ibase para organizar o Fórum Social o conflito é construtivo. Há muito a se zação do Estado e da Economia; Diálogo
Ibase celebrou seus 30 anos com um gran- Mundial.” fazer, pois a desigualdade é extrema, 1% dos Povos e Alternativas Democráticas à
de evento na Caixa Cultural Almirante Após a conferência, Lula visitou a ex- do País controla a metade do território. Globalização; e Emancipação Social e
Barroso, no Centro do Rio, o qual incluiu posição Betinho e o Ibase, que estará aber- Isso é escandaloso”. Políticas Públicas. As linhas de trabalho
um ciclo de conferências sobre cidadania ta ao público até o dia 18 de setembro. Pre- são: Alternativas ao Desenvolvimento e
e suas vertentes, uma mostra de filmes sente à cerimônia, o Presidente dos Cor- Seis princípios Criação de Novos Paradigmas; Comba-
com temática política e a exposição foto- reios, Wagner Pinheiro, homenageou a O Ibase foi fundado com o propósito de te ao Racismo e ao Patriarcalismo; Direi-
gráfica Betinho e o Ibase. O ex-Presidente trajetória do Ibase com o lançamento de lutar pela democracia e a cidadania ativa. tos Humanos; Estratégias de Comunica-
Luiz Inácio Lula da Silva abriu os feste- um carimbo comemorativo com a ima- As iniciativas são regidas por seis grandes ção; Estratégias de Gestão e Sustentabi-
jos na noite do dia 9 de agosto em soleni- gem de Betinho. princípios: liberdade, igualdade, solidari- lidade Política e Financeira; e Fórum So-
dade fechada para convidados. Ele aplau- O Diretor-Geral do Ibase, o sociólo- edade, participação, diversidade e justiça cial Mundial.
diu o Ibase pelas iniciativas voltadas para go Cândido Grzybowski, disse que a or- socioambiental em âmbito global, como o Mais informações sobre a entidade po-
o fortalecimento da cidadania no País e ganização completa 30 anos de fundação Fórum Social Mundial, do qual o Ibase foi dem ser obtidas no site ibase.br, que está
sublinhou a luta de Betinho contra a fome ainda com o desafio de lutar contra a ex- um dos criadores; a campanha Pacto pela disponível também em inglês e espanhol
e a miséria: clusão social de cerca de 16 milhões de Cidadania – Favela é Cidade, e o desenvol- e é constantemente atualizado. Além dis-
“Eu sabia que a fome era um problema brasileiros: “Quem são essas pessoas? vimento do Alternex, primeiro provedor so, o Ibase está presente nas principais
social que tinha que ser transformado Qual é a sua voz, a sua identidade, onde de internet no Brasil. redes sociais, como o Facebook e YouTube.

A opção pela democracia está no dna do Ibase


Em artigo especial publicado no site do Ibase, Cândido Grzybowski fala sobre os 30 anos da entidade e os desafios para os próximos anos.

O Instituto Brasileiro de Análises Soci- bases democráticas para a disputa, ainda muitos gestores de políticas governamen- isto, pelo contrário, estão na frente da
ais e Econômicas-Ibase, neste 2011, comple- frustrantes em muitos aspectos. tais, legisladores, juízes, empresas. luta contra este tipo de práticas.
ta 30 anos. Curta história em termos de so- Mas quanta coisa mudou, além de nos- Para começar, é fundamental estabele- Uma tal generalização acabou pondo
ciedade, mas muito para a geração que fun- so próprio sonho e horizonte! cer que a condição de existência de orga- em questão organizações de cidadania ati-
dou o Ibase. A opção pela demo- nizações de cidadania ativa é a total au- va voltadas à promoção dos direitos e da
O Ibase foi imagina- cracia está no dna do tonomia, tanto em relação ao Estado, cidadania, à radicalização da democracia,
do no exílio por Beti- Ibase, como de todas as como a empresas, a partidos e a igrejas, de denúncia da globalização conduzida
nho e companheiros e organizações co-irmãs. em relação a este ou aquele sujeito cole- por grandes corporações e clamando por
fundado após a Anis- Não vou lembrar aqui tivo, por mais forte que seja. “outros mundos possíveis”, de pressão
tia. Na verdade, ele é as memoráveis jorna- Aliás, uma opção preferencial de tais política para mudar de rumo diante da imi-
uma entre tantas orga- das democráticas, das organizações são os excluídos e os sem nência da destruição ambiental, ela como
nizações de cidadania Diretas Já até hoje, que identidade e voz, bem como o combate ao nova forma de injustiça social e, mais, de
ativa que se gestaram contaram com a contri- machismo, ao racismo e à homofobia. Elas destruição da natureza e da própria vida.
na luta contra a dita- buição estratégica des- se definem e buscam ser simplesmente or- Segundo dados do IBGE, seriam mais de
dura e pela democrati- tas pequenas organiza- ganizações cidadãs. Tais organizações fun- 350 mil organizações, considerando todos
zação. São, por isso, ções. Afinal, elas não cionam como pequenas pulgas, quase in- os tipos de organizações não-lucrativas. Aí
um pedacinho da His- prestam serviços, não visíveis, pois seu papel fundamental é in- dentro, organizações de cidadania ativa não
tória recente do Brasil. dão assistência aos des- comodar e fazer as coisas andarem, como chegam a 1 mil (menos de 0,35% do total),
O Ibase é sonho e pro- validos no sentido tra- a mordida de pulga, apesar de sua peque- das quais umas 350 são formalmente mem-
jeto compartilhado por dicional, não são orga- nez, incomodar e fazer até um elefante se bros da Abong-Associação Brasileira de
muitos desde o nasci- nizações de consulto- coçar. Por não agir em benefício próprio, Organizações Não-Governamentais.
mento, no começo dos ria, nem acadêmicas, seja de uma facção ou igreja, seja de um O momento é de pausa, reflexão e re-
80 do século passado. A não pertencem a parti- grupo social, mas pelo interesse público e visão de rumos futuros. É o que o Ibase
fundação de tais orga- Betinho foi tema de uma belíssima capa dos, não são estatais, comum da cidadania, são organizações que propõe com o Mês Ibase 30 Anos. Avali-
nizações pelos anisti- de Veja, em dezembro de 1993. muito menos privadas, em rede cumprem um fundamental papel emos juntos se uma organização como o
ados, que então volta- não visam lucro, não de vigilância e radicalização da democra- Ibase, que se constituiu em torno de ex-
vam ao Brasil, marcou uma mudança de são religiosas. São simplesmente organiza- cia. Sua referência são direitos e não pri- tensa rede, do local ao mundial, irradian-
estratégia deles na luta pelo grande sonho ções de cidadania ativa. Defendem causas vilégios, espaço e bem público e não o do para fora questões de cidadania e de-
de igualdade e justiça social – um dos de cidadania com argumentos éticos e fun- interesse privado individual ou de um mocracia do Brasil e trazendo para den-
grandes princípios éticos mobilizadores damentados, sua legitimidade. São organi- grupo social, democratização – no senti- tro questões da cidadania planetária para
dos últimos três séculos –, deixando de zações onde a razão de ser não é um inte- do de gestão por todos do bem comum – e a sociedade civil brasileira, tem um papel
lado a idéia de conquista do Estado e apos- resse privado ou de um grupo, mas a cau- não a estatização ou a privatização. estratégico diante dos desafios de hoje.
tando na construção de uma sociedade ci- sa da cidadania e da democracia, do local No Brasil dos últimos anos, criou-se Afinal, nascido numa onda de cidada-
vil democrática entre nós. Significava, ao mundial, inspirando-se nos grandes uma criminalização genérica das organi- nia, 30 anos atrás, inspirado no legado do
por isto, a sintonia fina dos exilados com princípios e valores da igualdade, liberda- zações não-governamentais. São ongs Betinho, um de seus fundadores, o Ibase
o que se passava no interior do Brasil. de, diversidade, solidariedade e participa- tanto entidades fantasmas de mulher de ainda é estrategicamente importante?
No final dos anos 1970 e início dos ção, fundantes da própria democracia prefeito, entidades de deputados para Para a necessária nova onda democra-
anos 1980 se gestou uma grande revolução como Betinho escreveu tantas vezes. manter cativas suas bases sociais e mui- tizadora, que ensaia emergir entre nós,
democrática no Brasil – ou alguém duvi- Vale a pena se debruçar na intrigante tas organizações oportunistas criadas uni- com sua demanda de democracia mais
da que tenha sido? – com a emergência de questão sobre o que significam organiza- camente para acesso a recursos públicos radical, mais inclusiva, ao mesmo tempo
novos sujeitos políticos, da entranha da ções de cidadania ativa, como o Ibase, para (na falta de regulamentação adequada, que redefinindo os termos do desenvol-
própria sociedade, demandando direitos, a sociedade brasileira e mundial hoje. Uma este conjunto cresceu exponencialmente vimento brasileiro – sem exclusão soci-
justiça e participação, além da Anistia e do tal reflexão é oportuna nos 30 anos do nos últimos anos), como organizações de al e sem destruição ambiental –, que Ibase
fim da ditadura. A ditadura acabou e temos Ibase, pois se refere a muitas organizações, cidadania ativa que nada têm a ver com é necessário?”

30 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


‘‘L
utar contra a violência é gravada por Elis Regina, que se tornou

GLOBO
MARIZILDA CRUPPE-AGÊNCIA O
O poder de
uma forma de lutar con- uma marca da campanha pela anistia.
tra a miséria, a indiferen- “Meu Brasil / Que sonha com a volta do
ça, a solidão e com um País irmão do Henfil / De tanta gente que
rico e um povo pobre.” partiu” pedia a composição. Um sonho
Herbert José de Souza ou Betinho, que se tornou realidade com a volta de

uma utopia
como o Brasil inteiro o conheceu, era um Betinho, em 1979. Sem perder tempo,
orador de primeira, desses que jamais logo começou a se articular e, dois anos
usam slides, gráficos, textos auxiliares ou depois, fundou o Ibase, ao lado dos eco-
transparências, mas são capazes de pren- nomistas e companheiros de exílio Car-
der a atenção do público por horas e, no los Afonso e Marcos Arruda. Falava-se
final, levam-no às lágrimas. Talento que em fiscalizar os governos e propor polí-
dispensava a preparação de discursos an- ticas afirmativas. Mas o grande propósi-
tecipadamente e por escrito. Organiza- to era mesmo o de lutar pela democracia
va as idéias a caminho de sua palestra e
Herbert José de Souza, o Betinho, ajudou não só a colocar e pela cidadania.
precisava de apenas um copo de água e mais comida na mesa do brasileiro: incorporou ao dicionário “Enquanto se desenvolvem as ações
um microfone para cunhar as mais elo- termos como “justiça social”, “reforma agrária” e “ética na política”. de caráter estrutural, enfrentar situações
qüentes frases. Ainda assim, por mais de emergência com medidas de emergên-
marcante que tenha sido sua oratória, o cia é inevitável. A grande questão é trans-
que não pode ser esquecido é a causa à formar a emergência em uma ação que
qual ela servia, o trabalho em que o soci- atinja quem necessita, com mecanismos
ólogo empenhou sua vida e seu exemplo, públicos, sem paternalismo e exploração
que finalmente tornou termos como “fo- política”, defendia ele.
me”, “cidadão”, “desigualdade”, “empre- Meta que continuaria a ser buscada
go” e “terra” reais para os brasileiros. nos anos seguintes também em outras
Por mais destaque que tenha recebido, frentes. Em 1990, o movimento Terra e
a campanha Ação da Cidadania contra a Democracia, liderado por Betinho, reu-
Fome, a Miséria e pela Vida foi apenas niu milhares de pessoas no Aterro do
uma entre tantas empreitadas suas. An- Flamengo, no Rio de Janeiro, para buscar
tes disso, o homem que muitos conside- a democratização também da terra. A for-
ravam apenas mais um sonhador já tinha ça da mobilização popular seria sentida
fundado o Instituto Brasileiro de Análi- novamente três anos mais tarde. Em 11
ses Sociais e Econômicas-Ibase, em um de fevereiro de 1993, o Presidente Itamar
tempo em que nem se falava ainda em Franco anunciou o programa de comba-
terceiro setor e trabalho social. Também te à fome e convidou o sociólogo para
foi um dos articuladores da luta pela re- coordenar o Conselho Nacional de Segu-
forma agrária, ajudou a criar a Associa- rança Alimentar.
ção Brasileira Interdisciplinar de Aids Betinho não aceitou. Alegou limita-
(Abia) e fez parte do Movimento pela ções físicas, conseqüências da contami-
Ética na Política, que culminou com o nação pelo HIV, o causador da Aids, con-
impeachment do então Presidente Fer- tra o qual lutava pelo menos desde 1985
nando Collor de Mello. Uma história e que foi contraído em uma de suas tan-
que celebrou a vida e mostrou o poder de tas transfusões de sangue no tratamento
uma utopia do possível. da hemofilia. Em 1988, ele já havia per-
Curioso que um dos maiores defenso- dido Henfil e Chico Mário. Agora, luta-
res da vida no Brasil nos últimos tempos va pela própria vida. Mesmo assim, acei-
já tenha nascido ameaçado pela morte. tou ser consultor do Conselho. Era o su-
Mineiro de Bocaiúva, Betinho nasceu ficiente para ocasionar uma das maio-
em 3 de novembro de 1935. Foi o quar- res mobilizações populares de todos os
to filho de uma família de oito irmãos, tempos contra a fome. No período de
entre os quais o cartunista Henfil e o um ano, 25 milhões de pessoas contri-
músico Chico Mário, que com ele com- buíram com doações. Outros 2,8 mi-
partilhavam o drama da hemofilia, her- lhões se engajaram diretamente na cam-
dada da mãe. Mais importante do que as panha, colocando a mão na massa nos
aulas na escola, às quais faltava muito comitês da Ação da Cidadania que sur-
por conta da saúde precária, foi a experi- giam por todos os cantos. Seja em escri-
ência de ter crescido entre uma peniten- tórios, seja em favelas.
ciária e uma funerária que começou a lhe Em meio a tudo isso, Betinho “come-
moldar a sensibilidade humana. Por con- morava a vida todas as manhãs”, como
ta do trabalho do pai, funcionário de um ele mesmo dizia. Ao ser indicado ao Prê-
presídio, conheceu a agrura dos cativos P OR M ARCOS S TEFANO mio Nobel da Paz de 1994, ressaltou que
e aprendeu a lidar melhor com a realida- a grande vantagem de concorrer era que
de da morte. isso o obrigava a estar vivo para a cerimô-
A militância política começou na ado- com o analfabetismo num curto espaço lende, como assessor na Oficina de Pla- nia de premiação, em dezembro daque-
lescência, sob a influência dos padres do- de tempo. Em seguida, na Superinten- nificação da Presidência da República- le ano. Não ganhou o prêmio, mas con-
minicanos, que o levaram para a Juven- dência de Reforma Agrária. Odeplan. Em dois anos, novo golpe, fim tinuou na batalha. Até o dia 9 de agosto
tude Católica, em Belo Horizonte. Na A luta pelas causas sociais foi mo- de outro sonho e quase de sua vida. O de 1997, quando faleceu em sua casa, no
Universidade Federal de Minas Gerais, mentaneamente interrompida pelo sociólogo só escapou das forças de Pino- bairro de Botafogo, no Rio. Em seu quar-
onde cursou Sociologia, foi um dos fun- combate à ditadura militar instaurada chet porque encontrou refúgio na Em- to, com vista para o Corcovado e para
dadores da Ação Popular (AP) e se tornou com o golpe de 1964. Inicialmente, Be- baixada panamenha. De lá, partiu para o várias favelas, morreu como desejava:
defensor do socialismo. Depois da forma- tinho foi para o Uruguai, onde passou Canadá e para o México. com serenidade e ao lado de sua segun-
tura, em 1962, engajou-se na luta pelas sete meses. Voltou ao Brasil para partici- da esposa, Maria Nakano, dos filhos
reformas de base do Governo João Gou- par da resistência e foi trabalhar como Bêbado e equilibrista Daniel e Henrique e de sua família.
lart, trabalhando primeiro no Ministério operário na cidade de Mauá, na Grande Ao todo foram oito anos no exílio. Quanto ao legado deixado por ele, este
da Educação e Cultura, dedicando-se ao São Paulo. Sem muito êxito e com o re- Antes de voltar, porém, Betinho passaria permanece vivo desde o dia em que suas
ambicioso Programa Nacional de Alfa- crudescimento político, partiu nova- a ser conhecido como “o irmão do Hen- utopias começaram a se tornar realidade.
betização (PNA) que, inspirado nas pro- mente para o exílio em 1971. No Chile, fil”, por conta da música O Bêbado e a Graças a elas, milhões de brasileiros pu-
postas de Paulo Freire, pretendia acabar participou do Governo de Salvador Al- Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, deram se sentir menos desamparados.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 31


RENOVAÇÃO

P OR P AULO CHICO

Há quem mude de nome simples-


mente por não gostar da escolha de batis-
mo feita pelos pais. Outros mudam a as-
sinatura em função da numerologia. Em
alguns desses casos, porém, tais altera-
ções na certidão não são meramente cos-
méticas, mas repletas de sentido. Repre-
sentam algo como um renascimento. A
ampliação de uma proposta. Este é o caso
da Andi (Agência de Notícias dos Direi-
tos da Infância). Criada formalmente em
1993, mas atuando de maneira voluntá-
ria desde 1990, a entidade é uma organi-
zação da sociedade civil, sem fins de lu-
cro e apartidária, que articula ações ino-
vadoras em mídia voltadas para o desen-
volvimento. Recentemente, em mar-
ço deste ano, foi rebatizada e
passou a se chamar Andi-
Comunicação e Direitos.
“Nós formalizamos
esta mudança agora, mas
ela é resultado de um pro-
cesso longo de reflexão que
envolveu debates não só
junto à própria equipe
da Andi, como tam-
bém com membros
de nossa Assembléia
de Sócios e do Conselho Diretivo, além
de consultas a jornalistas e a lideranças
do movimento social. Em síntese, o que
se deu foi uma atualização da missão e
das nossas linhas de atuação, reconhe-
cendo avanços que, na prática, já vinham
ocorrendo ao longo dos últimos anos”,
explica Veet Vivarta, Secretário-Executi-
A agência da infância
é revista e ampliada
vo da entidade.
A Andi nasceu com o objetivo de con-
tribuir para que os temas relacionados aos
direitos de crianças e adolescentes ga-
nhassem o merecido espaço na esfera
pública de debates. Para isso, desenvolveu Perto de completar duas décadas de atuação, a Agência de Notícias dos Direitos da
uma série de metodologias de apoio ao
trabalho da imprensa, segundo três ver- Infância muda de nome e acrescenta os temas da Inclusão e Sustentabilidade e das
tentes principais: mobilização das Reda-
ções em relação a questões de interesse
Políticas Públicas de Comunicação à sua linha de estudos e atuação social.
público; monitoramento e análise da co-
bertura e capacitação de jornalistas para Na prática, a mudança da razão soci- Há, segundo estatísticas oficiais, vários
uma abordagem mais qualificada dos al significa que, além de seu foco inicial indicadores relevantes e que merecem
temas com os quais atua. – voltado para as questões da Infância e ser comemorados. Dois exemplos são o
“Os resultados extremamente positi- Juventude – a entidade passa a dedicar- fato de que hoje o Brasil tem 97,6% das
vos alcançados terminaram chamando a se de forma sistemática a duas outras li- crianças de 7 a 14 anos na escola, e a taxa
atenção de entidades de outras áreas da nhas de estudo: a de Inclusão e Susten- de mortalidade infantil caiu para 22,5/
agenda social. Desde o início da década tabilidade, que cobre todas as outras te- 1000 em 2009 contra os 46,9/1000 veri-
passada nós começamos a aplicar nossas máticas da agenda sócio-ambiental, e a de ficados em 1990. Contudo, afirma Veet,
ferramentas de monitoramento e análise Políticas Públicas de Comunicação. ainda há muito o que zelar quando o
a diversos outros campos. Estudos avali- “Nesse último aspecto, nossa decisão tema em debate são os direitos de crian-
ando a cobertura da mídia sobre o perfil levou em conta que o Brasil está viven- ças e adolescentes.
do usuário de drogas, sobre investimen- do um momento relevante no que diz “Basta registrar, por exemplo, que os
to social privado e responsabilidade social respeito à atualização de seu marco re- 2,4% de crianças fora da escola represen-
empresarial, sobre ciência, tecnologia e gulatório e das políticas para as comuni- tam nada menos que 660 mil indivídu-
inovação, questões de gênero, o direito cações. Na verdade, também já vínhamos os, entre os quais estão sobre-representa-
das pessoas com deficiência, mudanças fazendo isso há alguns anos. Em 2006 lan- Há avanços a registrar: dos os grupos tradicionalmente vítimas
climáticas... Ficou claro para nós que a so- çamos um estudo detalhado de como 50 da exclusão: indígenas e afro-descenden-
em quase 20 anos,
ciedade brasileira, de forma ampla, pas- diários de todas as regiões do País cobri- tes, meninos e meninas com algum tipo
sava a pensar a comunicação como fator am as temáticas relacionadas às políticas
a escolarização de de deficiência, moradores do Semi-Ári-
estratégico para os direitos humanos e de comunicação. Logo em seguida parti- crianças chegou a 97,6% do e da Região Amazônica. Quanto à
para um modelo inclusivo de desenvol- cipamos ativamente da mobilização em Nas quase duas décadas de atuação da mortalidade infantil, a média nacional de
vimento. Ao mesmo tempo, nos parecia torno da nova ferramenta de Classifica- Andi, a boa notícia é que as políticas 22,5/1000 esconde os extremos vividos
que a Andi, como organização pioneira, ção Indicativa de conteúdos audiovisu- públicas que procuram promover os di- por Estados como o Rio Grande do Sul
tinha um importante papel a cumprir di- ais, estabelecida pelo Ministério da Jus- reitos da infância e da adolescência avan- (com 12,7/1000) e Alagoas (46,4/1000).
ante do novo cenário”, conta Veet. tiça”, explicou o Secretário-Executivo. çaram de forma considerável no Brasil. Mas a lista de problemas é bem mais

32 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


ampla: a qualidade da educação pública liar os processos de formulação e imple- Os estudantes de mos que os estudantes de Jornalismo per-
continua sendo um enorme desafio, a mentação dos programas se torna cada Jornalismo precisam maneçam quatro anos nas salas de aula
exploração sexual está longe de ser eli- vez mais estratégico. E dar conta desse conhecer a fundo sem lhes dar a oportunidade de entende-
minada, temos dificuldades graves em novo quadro exige não apenas capacita- rem mais a fundo as dinâmicas que terão
lidar com as questões da deficiência e do ção continuada para o quadro de repór-
a dinâmica social que cobrir no mundo real.”
racismo. Também os indicadores relacio- teres e editores, mas também garantir pri- O jornalismo – para o bem ou para o É para interferir positivamente neste
nados ao homicídio de adolescentes e oridade para essas temáticas na linha mal – é feito por jornalistas. Portanto, boa processo de formação que a Andi desen-
jovens no Brasil estão entre os mais altos editorial do veículo – e isso realmente parte das deficiências na prática da pro- volve, há cinco anos, o programa InFor-
do mundo.” ainda não é uma realidade”, lamenta Veet fissão origina-se na formação dos profis- mação, que busca contribuir para o tra-
Se tais problemas constituem uma Vivarta. sionais, nos bancos escolares. “De manei- tamento dessas questões no âmbito das
verdadeira vergonha nacional, quais ti- Para ele, um exemplo recente dessa ra geral, as faculdades de Jornalismo pre- instituições de ensino superior. A entida-
pos de contribuição a imprensa pode dar limitação está na cobertura recebida pelo param muito mal o futuro profissional de colabora hoje com várias faculdades
para sua resolução? Em relação à cober- lançamento do programa Brasil sem para cobrir os desafios que dizem respei- de Comunicação que já identificaram
tura da mídia impressa brasileira sobre Miséria. Se, por um lado, é certo que o to à agenda social e ambiental do País. O este problema, entre as quais as da Uni-
essas temáticas, a Andi tem dados inte- Governo de Dilma Rousseff precisava de Ministério da Educação já desenvolveu versidade de São Paulo, da Universidade
ressantes, registrando avanços expressi- uma agenda positiva para tentar desviar uma proposta de atualização desse cur- Federal do Rio de Janeiro e da Universi-
vos em termos de quantidade e também o foco das denúncias em torno do ex- rículo – neste momento o texto espera dade de Brasília. Nesta parceria, oferece
quanto à qualidade. A realidade de exclu- Ministro Antonio Palocci, por outro o avaliação do Conselho Nacional de Edu- regularmente um curso online para jor-
são que segue atingindo milhões de cri- programa estava sendo articulado havia cação. É kafkiano: temos um País histo- nalistas e estudantes de Comunicação
anças e adolescentes não está ausente das seis meses para ocupar a posição de prin- ricamente reconhecido pelos níveis ab- com foco no orçamento público, para
pautas – especialmente da mídia impres- cipal política do País em relação à desi- surdos de desigualdade social e pelas di- facilitar uma cobertura mais qualifica-
sa. Há denúncias importantes sendo tra- gualdade social – e apostando em uma ficuldades em encontrar um modelo sus- da nesse aspecto tão crucial para a efeti-
zidas à tona pela imprensa e, além disso, meta absolutamente ambiciosa. Além tentável de desenvolvimento, mas faze- vidade de qualquer política pública.
são alimentados debates em torno das disso, o Brasil sem Miséria chegava com
possíveis soluções para os principais de- a missão de dar continuidade às iniciati-

TAINÁ FROTA
safios do País. vas do Bolsa Família e programas associ-
“Por outro lado, as Redações não têm ados, todos reconhecidos internacional-
se preparado adequadamente para acom- mente. “Portanto”, afirma Veet, “ao ig-
panhar um cenário que se torna mais norar a necessidade de um debate apro-
complexo em função precisamente dos fundado sobre o novo programa, descar-
avanços conseguidos pelo País ao longo tando-o rapidamente como uma tática
das últimas duas décadas. Na medida em governista para tentar driblar a crise
que as políticas públicas com foco na política que se apresentava, a mídia bra-
agenda social passam a dar resultado, o sileira jogou fora o bebê junto com a
papel da imprensa em acompanhar e ava- água da banheira.”

Uma instituição criada para servir ao dever


dos jornalistas de informar com qualidade
A Andi foi criada por jornalistas para biliza materiais de aprofundamento
servir aos jornalistas. Com sede em Bra- sobre determinados assuntos, aponta
sília, conta com a atuação de cerca de 30 fontes de informação que podem contri-
colaboradores e se mantém com o apoio buir para uma maior pluralidade no pro-
financeiro e/ou técnico de entidades e cesso de construção da notícia.
empresas como Unicef, Unesco, Organi- “Creio que a grande conquista da Andi,
zação Internacional do Trabalho, Funda- ao longo de sua história, tenha sido con-
Vivarta: A mudança é resultado de um longo processo de reflexão que culminou com a atualização
ção Ford, Save the Children, Petrobras, tribuir decisivamente para que a socieda- da missão e das linhas de atuação da Andi, reconhecendo avanços que já vinham ocorrendo.
Secretaria de Direitos Humanos e Insti- de brasileira passasse a entender a comu-
tuto Camargo Correa, entre outros. Sua nicação como ferramenta estratégica nos
missão sempre esteve focada em contri- processos de consolidação democrática e de comunicação. Nessa leitura em pers- muitos diários de outras regiões expan-
buir para que a mídia possa exercer de desenvolvimento inclusivo. Quando pectiva, é fundamental também desta- dindo sua cobertura e ganhando posições
forma eficiente o seu papel na constru- surgiu a entidade, esta idéia era vista, no car os muitos avanços na cobertura das de destaque neste ranking. A evolução da
ção de um debate plural sobre as questões mínimo, como exótica pelos atores do temáticas dos direitos da infância e ado- imprensa brasileira gera interesse para
mais relevantes da agenda social brasilei- movimento social – e, por muitos veícu- lescência pela imprensa do País”, analisa além de nossas fronteiras, tendo sido um
ra – isso tanto no sentido de oferecer in- los, como uma tentativa de ingerência na Veet Vivarta. elemento central na decisão de se criar,
formação qualificada para a população autonomia e independência dos meios O Secretário da Andi destaca a contri- em 2003, a Rede Andi América Latina,
quanto no de garantir visibilidade para buição dada pela imprensa à agenda dos atualmente presente em 12 países.
os temas de interesse público, além da direitos da infância e adolescência. Um Duas ações da Andi, em especial, cha-
sempre fundamental fiscalização do exemplo está no crescimento de mais de mam a atenção justamente por darem
poder público em relação às políticas e 1.000% no número de notícias publicadas visibilidade às produções que se dedicam
aos programas voltados para essas áreas. a cada ano pelos 50 diários monitorados, às causas defendidas pela entidade: o Jor-
Na medida em que foi se consolidan- nas diversas regiões do País. Em 1996, a nalista Amigo da Criança e o Concurso
do como referência junto aos veículos de Andi computou ao redor de 10.500 notí- Tim Lopes de Jornalismo Investigativo. O
comunicação para o acesso a insumos cias sobre os direitos da criança e do ado- primeiro nasceu com o objetivo de reco-
qualificados sobre as temáticas da infân- lescente. Ao longo de 2009, os dados ultra- nhecer publicamente os profissionais
cia e da adolescência, a Andi passou tam- passaram o patamar de 160 mil textos. que se destacavam por uma cobertura
bém a diversificar os tipos de serviços Outro ponto relevante é que nos pri- mais regular ou de maior qualidade so-
que são oferecidos aos jornalistas. Hoje meiros anos de análise os jornais do eixo bre as temáticas relacionadas aos direitos
mantém um diálogo muito próximo Rio-São Paulo predominavam na lista da infância e da adolescência. Surgiu em
com as Redações. Por um lado, atende a dos que mais publicavam sobre estas 1997 e já reconheceu 364 profissionais
demandas que vêm dos repórteres que já questões. A partir do ano 2000 – e isto de todas as regiões do Brasil e dos mais di-
estão desenvolvendo pautas. Por outro, coincide com a criação da Rede Andi versos tipos de veículos. A idéia é ofere-
Publicado em espanhol e disponível na
adota uma abordagem mais pró-ativa: internet, o livro Pediodismo de Investigación Brasil, que hoje reúne organizações atu- cer a eles acesso regular a informações di-
busca as Redações para sugerir temas tem 162 páginas e ajuda a explicar o ando articuladamente em nove Estados ferenciadas, a viagens a campo e a cursos
capazes de gerar boas histórias, disponi- impacto do Concurso Tim Lopes. – esse cenário começa a mudar, com de capacitação.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 33


RENOVAÇÃO A AGÊNCIA DA INFÂNCIA É REVISTA E AMPLIADA

“Já o Concurso Tim Lopes surge da idéia considerada um bem público e que con- adequada dos crescentes recursos digitais. Para ela, a mudança do nome da enti-
de que é possível incentivar a mídia a tribui para a tomada de decisões de mai- “Parte do problema deriva do fato de que dade reflete seu amadurecimento e tam-
contribuir de maneira mais articulada or impacto pelos diversos atores e seg- o Brasil e a maioria de seus vizinhos, até bém o do País, em busca de garantir os
para o enfrentamento de um tema espe- mentos sociais.” muito recentemente, estiveram sob o jugo direitos humanos a todos os brasileiros
cífico, de grande importância para os di- Um segundo ponto de relevância des- de regimes militares, nos quais a liberdade e brasileiras. “Levamos, para o nome, o
reitos humanos no Brasil – nesse caso, a tacado pelo Secretário é apoiar a necessi- de expressão era totalmente cerceada. O que já estava acontecendo na prática, pois
violência sexual contra crianças e adoles- dade dos jornalistas e dos grupos de co- atraso na atualização dos marcos legais e os movimentos sociais, as ongs e os seto-
centes. Lamentavelmente, apesar de es- municação por ferramentas que permi- das políticas públicas para o setor de mídia res governamentais que trabalham com
forços importantes empreendidos tanto tam não só a avaliação de sua produção, acaba impactando fortemente nossos pro- temas relacionados aos direitos de mu-
no campo governamental quanto no da mas que também orientem iniciativas de cessos de consolidação democrática. Nos lheres, índios, negros, gays, nos procura-
sociedade civil e da cooperação internaci- aprimoramento da cobertura. Uma ter- últimos meses, a própria imprensa vem vam pedindo apoio. E nós, embora sobre-
onal, ainda temos aí situação de extrema ceira motivação, segue Veet Vivarta, está apontando algumas das distorções do sis- carregados, nunca nos furtamos da nossa
gravidade, que se manifesta de formas em proporcionar um diagnóstico acura- tema brasileiro, como a falta de um órgão obrigação de contribuir para tornar o
muito perversas: turismo com fins sexu- do para que os atores ligados à agenda so- regulador independente para a área de Brasil um País mais justo para todos, em
ais, exploração sexual nas estradas e no cial e ambiental – sejam eles do setor go- comunicação e a posse de empresas de especial para crianças e adolescentes. Mas
entorno das grandes obras, tráfico de cri- vernamental ou não – possam entender comunicação por políticos que exercem tudo o que afeta a família e a sociedade
anças e adolescentes, uso da internet para melhor os limites e méritos da cobertu- cargos no executivo e no legislativo.” também afeta as crianças. Então, coloca-
o assédio... E eventos do porte da Copa do ra sobre um determinado tema, se prepa- mos nossa experiência e as ferramentas
Mundo e das Olimpíadas trazem novos rando para contribuir de maneira mais que desenvolvemos ao longo dos anos a
complicadores a esse cenário”, avalia. efetiva, enquanto fontes de informação, Muito já feito. E ainda serviço dos mais diferentes movimentos
para o processo de construção da notícia. sociais.”
Na raiz de todo este processo – e de boa
mais por fazer Âmbar considera que muitos são os
Uma análise crítica do parte das mazelas da mídia nacional – Uma das fundadoras da Andi, a jorna- avanços que devem ser creditados à atu-
estão as contradições da organização lista Âmbar de Barros relembra o contex- ação da Andi. “Hoje temos mais denún-
modelo brasileiro política dos meios de comunicação no to de sua criação, no início da década de cias, mais espaço para o tema, para as
Desde sua fundação, a Andi tem de- País. Como pensar numa imprensa mais 1990. “Várias coisas me motivaram neste matérias de educação, sabemos mais e em
senvolvido um trabalho de acompanha- democrática e plural sem que sejam dis- sentido. O nascimento dos meus filhos, maior profundidade sobre a necessidade
mento analítico e crítico sobre a mídia. cutidos pontos históricos, como os crité- e o contato com as reportagens do meu de garantirmos educação de qualidade
Na prática, qual a importância desse rios de concessão de canais de rádio e tv? então marido, Gilberto Dimenstein, tam- para todos. Exigimos vacinas, pré-natal,
olhar ‘externo’ sobre a imprensa e em que Esse é, na verdade, um dos tópicos mais bém fundador da Andi. Elas traziam de- medicamentos. Sabemos da importância
medida isso contribui para o aprimora- importantes do debate atual sobre co- núncias de assassinato de meninos em da amamentação, da prevenção, acom-
mento da prática jornalística? municação no Brasil. Ao que tudo indi- situação de rua, e a exploração sexual de panhamos melhor a votação de temas so-
“Considero que esse tipo de trabalho, ca, o País avança para o resgate daquilo meninas. Também o Movimento Nacio- ciais relevantes. Enfim, definitivamen-
com perfil de ‘observatório de mídia’, é que um documento recente do Progra- nal de Meninos e Meninas de Rua, com te, o tema dos direitos conquistou outro
fundamental por, pelo menos, três aspec- ma das Nações Unidas para o Desenvol- que trabalhei, o contato com o Unicef, a patamar. A mídia cobre mais e melhor
tos. Em primeiro lugar, o fato de operar- vimento-Pnud e da Organização dos ausência total dos temas relacionados a aquilo que realmente interessa para a
mos essas análises aprofundadas e siste- Estados Americanos-OEA, intitulado direitos de crianças e jovens na mídia de qualidade de vida das pessoas. Mas, é cla-
máticas tem como objetivo oferecer in- Nuestra Democracia, aponta como um então, que cobria estes assuntos na edi- ro, isto não basta. Ainda temos muito o
sumos para o debate sobre o desempenho dos principais déficits democráticos da toria de polícia e não de política. Fazer que caminhar. E o papel da mídia – de
da imprensa brasileira enquanto prove- região: a ausência de um marco regula- parte do movimento pela aprovação do Es- cobrança, de apontar caminhos, de fazer
dora de informação relevante para soci- tório saudável para o campo das comu- tatuto da Criança e do Adolescente tam- denúncias e de mostrar o que dá certo –
edade – ou seja, informação que pode ser nicações, bem como discutir a utilização bém foi fundamental.” é fundamental para avançarmos.”

DIVULGAÇÃO
ORGANIZAÇÃO

Críticos de
cinema em toque
de reunir
Durante a realização do Festival de
Cinema de Paulínia, São Paulo, em
julho passsado, os críticos de cinema
finalmente concretizaram antigo sonho:
criar uma associação representativa de
âmbito nacional. Após várias reuniões
preparatórias, 38 profissionais
reunidos na primeira assembléia-geral
da nova entidade oficializaram a
criação da Associação Brasileira de
Críticos de Cinema-Abraccine.
“Trata-se de uma iniciativa
histórica, pois esta é a primeira A primeira diretoria da Abraccine para o biênio 2011/2012: de pé, da esquerda para a direita, Marco Antonio Moreira Carvalho, Luiz Joaquim,
entidade nacional a reunir os críticos Neusa Barbosa, Marcos Santuário e João Nunes. Sentados, Paulo Henrique Silva, João Sampaio, Luiz Zanin, Ivonete Pinto e Marcelo Miranda.
de cinema do Brasil”, informa Luiz
Zanin Oricchio, crítico de cinema do nacional. Ela nasce com o objetivo de A primeira diretoria eleita traz Marcelo Miranda, 2º Tesoureiro, MG.
jornal O Estado de S. Paulo, eleito o reunir e congregar os profissionais da críticos de oito Estados e é composta Conselho Fiscal – Titulares::
primeiro presidente da Abraccine para crítica cinematográfica em todo o País, pelos seguintes nomes: Luiz Zanin Carlos Heli de Almeida, RJ; Marco
o biênio 2011/2012. promovendo as diversas formas de Oricchio, Presidente, SP; Ivonete Antônio Carvalho,PA; Luiz Joaquim
Existem há vários anos algumas pensamento crítico, reflexão e debate Pinto, Vice-Presidente, RS; João Nunes, da Silva Júnior, PE; Suplentes:
poucas entidades de críticos com sobre o Cinema. A ênfase consiste em Secretário-Geral, Campinas, SP; João Marcos Santuário, RS; Neusa
representatividade estadual, mas a contribuir para a elevação da análise Sampaio, Secretário, BA; Paulo Barbosa, SP; Carlos Eduardo
Abraccine é a pioneira com abrangência crítica cinematográfica no Brasil. Henrique Silva, 1º Tesoureiro, MG; Lourenço Jorge, PR.

34 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


ENIGMAS

‘‘H

FOTO MARCOS STEFANO. MONTAGEM DE ARTE FRANCISCO UCHA


itler não morreu?” “Fugiu
num submarino?” “Foi para a
Argentina?” Carlos De Nápo-
li já perdeu a conta de quan-
tas vezes lhe fizeram essas
perguntas nos últimos anos. Oficialmen-
te, diz-se que na tarde do dia 30 de abril
de 1945 Adolf Hitler teria se despedido
das pessoas mais próximas e se trancado
com Eva Braun, a mulher com quem se
casou na véspera, em seus aposentos. O
clima transpirava tensão no bunker er-
guido seis metros abaixo da Chancelaria
do Terceiro Reich, em Berlim, capital da
Alemanha, onde o Führer e seus mais pró-
ximos escudeiros estavam abrigados nos
últimos cem dias. Por volta das 15h50min,
o barulho de um tiro ecoou pelo ambien-
te. Quando os soldados conseguiram
abrir a porta, encontraram o corpo de Hi-
tler estirado no chão. Morto com um tiro
na cabeça e uma pistola nas mãos. Ao lado,
Eva também jazia sem vida após ter inge-
rido uma cápsula de cianureto dada pelo
companheiro. Não houve tempo para
mais nada. Bombardeado pelos soviéti-
cos, o local teve que ser abandonado às
pressas. Poucos dias depois, a KGB teria
chegado. Lá encontrou os corpos de Josef
Goebbels, de sua esposa Magda e de seus
filhos, de Hitler e de Eva Braun.
Um relato convincente, não fossem as
muitas discrepâncias e contradições apre-
sentadas por quem teria presenciado al-
gum destes momentos. E também se, em
2009, os principais troféus de guerra que
os russos ainda guardavam como sendo de
Hitler – parte da arcada dentária e um
fragmento do crânio – não se mostrassem
provas falsas. Com tudo isso, teorias como
a de que o líder nazista não morreu na
Alemanha, mas fugiu para a Espanha,
Japão ou mesmo Patagônia argentina
deixaram de ser “conspiração” ou “deva-
neio” para se tornarem ainda mais críveis
do que a própria idéia do suicídio.
“Não sei se Hitler fugiu para a Argenti-
na. Sou uma pessoa que trabalha com his-
tória e com provas. Não há cadáveres, tes-
temunhas ou fatos incontroversos. Certo
mesmo é que muitos criminosos nazistas
conhecidos fugiram para a América do Sul
com o fim da guerra. Submarinos chegaram
a Mar Del Plata. Quem estava neles ainda
permanece um mistério”, diz De Nápoli.
Jornalista, historiador e escritor, há mais
de 30 anos ele divide seu tempo entre
negócios agropecuários e investigações. Já
colaborou como assessor histórico na pro-
dução de documentários para o canal
pago History Channel e lançou diversos

Jornalista argentino está


livros sobre os mais inquietantes temas.
O último, Ultramar Sul (Civilização Bra-
sileira), conta a história daquela que teria
sido a última operação secreta do Tercei-
ro Reich: a fuga submarina de dirigentes

reescrevendo a História
nazistas para a Argentina. Nesse caminho,
o ataque e o afundamento do cruzador bra-
sileiro Bahia, um incidente que a Marinha,
décadas depois, ainda prefere tratar como
um acidente provocado por uma sucessão
de imperícias de seus tripulantes.
Em entrevista exclusiva ao Jornal da
ABI, o escritor argentino falou sobre esses Também escritor e empresário, que financia suas pesquisas com a receita de seus negócios agropecuários,
polêmicos assuntos e quais interesses es- CARLOS DE NÁPOLI desvenda a nebulosa fuga de submarinos nazistas para a Argentina no fim da Segunda Guerra,
tariam em jogo para repetir mentiras até
virarem verdades ao longo do tempo. Tam- o afundamento do cruzador brasileiro Bahia em águas da América do Sul, os últimos dias de Hitler e da cúpula do nazismo,
bém analisou o atual momento do jorna- a fuga de Josef Mengele para países sul-americanos, incluído o Brasil, o colaboracionismo do Governo Perón com os
lismo investigativo latino-americano e a nazistas. De quebra, fala sobre as tumultuadas relações entre a grande mídia argentina e o Governo Christina Kirchner.
tensão que atravessa a imprensa argentina
em sua relação com o Governo Christina P OR M ARCOS S TEFANO
Kirchner. T RADUÇÃO DE C INTIA TUNES

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 35


ENIGMAS JORNALISTA ARGENTINO ESTÁ REESCREVENDO A HISTÓRIA

“A operação Ultramar Sul foi concebi- perseguição feita por outro navio, o torpe- das em sites na internet. Alguns dos mais xo do solo onde funcionava a Chancela-
da para permitir a fuga de Hitler e de al- deiro Babitonga, aos U-Bootes com a guer- recentes dizem respeito a Josef Menge- ria. Primeiro, acharam os cadáveres dos fi-
tos oficiais para a Argentina. Não saiu ra já terminada, confirma a incursão des- le, o médico que fazia experimentos com lhos de Goebbels. Depois, do próprio casal
totalmente como planejada, mas aqueles ses submarinos em águas brasileiras, ao seres humanos em Auschwitz e que rece- Goebbels. Por fim, carbonizados, os de Hi-
que escaparam atravessaram o Atlântico final da guerra. E documentos a que tive- beu o apelido de “anjo da morte”. Na tler e Braun. Os restos mortais teriam sido
com o conhecimento e a autorização das mos acesso, como a manifestação de pesar Alemanha, seu pai era dono de uma das incinerados em 1970 pelos soviéticos, só
nações Aliadas”, diz De Nápoli. que o Presidente Getúlio Vargas enviou aos maiores fábricas de maquinaria agrícola restando o suposto crânio do Führer. Uma
familiares das vítimas, deixam claro que do país. Também foi sócio de um impor- história que se mostrou bastante fantasi-
JORNAL DA ABI – ULTRAMAR SUL REVELA A FUGA o Bahia foi atacado. tante laboratório farmacêutico. Quando osa e perdeu muita credibilidade ao longo
SUBMARINA DE DIRIGENTES NAZISTAS PARA AAR- Mengele deixa a Alemanha, passa suas do tempo.
GENTINA E, NESSA JORNADA, O AFUNDAMENTO DO JORNAL DA ABI – POR QUE ESSE ACOBERTAMEN- ações a sócios e testas-de-ferro. Ao chegar
CRUZADOR BAHIA. HÁ ALGUMA EVIDÊNCIA DE QUE TO? E DEPOIS, POR QUE TANTO SEGREDO E DURAN- a Argentina, ele traz consigo uma rique- JORNAL DA ABI – POR QUE VOCÊ ACHA QUE PER-
ADOLF HITLER ESTAVA NESSA OPERAÇÃO? TE TANTO TEMPO? za avaliada em cem milhões de dólares. E DEU CREDIBILIDADE?
Carlos De Nápoli – Não acredito que De Nápoli - A operação ficou encober- usa os mesmos esquemas, com sócios la- De Nápoli - Bem, começando por suas
Hitler e seus próximos conseguiram cru- ta pelos Aliados porque era necessário ranjas e testas-de-ferro. Sabemos disso fontes. O principal responsável por sua po-
zar o Atlântico anônimos em apertados deixar claro que a guerra já havia termina- por causa de Estatutos de Conformação pularização foi um livro escrito pelo major
submarinos U-Boote. Mas não podemos do. Todos tinham horror somente em pen- de Sociedades, aos quais tivemos acesso. e historiador britânico Hugh Trevor-Ro-
afirmar com toda certeza que ele morreu sar na figura de Hitler, quanto mais suspei- Porém, aqui no Brasil Mengele viveu em per, em 1947: Os Últimos Dias de Hitler. A
em Berlim. Ou negar que essa última tar que ele e outros altos oficiais nazistas um bairro bastante humilde, na periferia história desse livro é bastante nebulosa.
operação secreta do Terceiro Reich foi estivessem vivos e que poderiam voltar. de São Paulo. Como explicar isso, senão Com a rendição alemã, Stálin expressava
concebida justamente para que o Führer Para a imagem dos países Aliados era fun- porque tinha muitos problemas com seu a qualquer um que quisesse escutá-lo suas
e outros altos oficiais nazistas pudessem damental a vitória total, como o foi quan- nome e que o impediam de ter acesso ao veementes suspeitas de que Churchill te-
escapar. De que se trata a Ultramar Sul? do chegaram primeiro na Lua. Na prática, dinheiro? Basta lembrar que, em 1960, um ria facilitado a fuga de Hitler e que o líder
Quando a Segunda Guerra Mundial ter- as coisas eram diferentes. A Segunda comando do Mossad, o serviço secreto nazista poderia estar na Espanha, no Japão
minou, um comboio de submarinos ale- Guerra já havia terminado. Hitler já não israelense, seqüestrou Adolf Eichmann, ou até na Argentina. Claro, com isso, que-
mães partiu da Noruega com destino à era mais o inimigo. A briga voltava a ser principal executor da “solução final”, o ria persuadir os Aliados a continuarem uni-
Argentina, mais especificamente à Pata- contra a União Soviética, que era comu- extermínio de milhões de judeus em cam- dos na luta contra o Japão e, depois, deses-
gônia. Sabemos de pelo menos seis que nista e só tinha se fortalecido. Para os pos de morte, e o levou para Jerusalém, tabilizá-los. Mas como não havia provas
fizeram esse trajeto, levando nazistas e Estados Unidos, um desafio muito mais onde foi julgado e enforcado. Depois dis- para contradizê-lo, o primeiro-ministro da
seus aliados. Nessa fuga, deixaram um importante do que a guerra contra a Ale- so, Mengele foge para o Paraguai e, de lá, Inglaterra mandou urdir um relato “cala-
rastro de sangue, afundando cinco navi- manha. O alvo é Stálin e há uma intensa para o Brasil, onde morre em 1979. a-boca”. Trevor-Roper foi impedido de en-
os e matando mais de 400 pessoas. Entre disputa por armas, territórios e conheci- trevistar os principais colaboradores de Hi-
essas embarcações, uma corveta em águas mentos de guerra, principalmente dos JORNAL DA ABI – É NOTÓRIO, E UM POUCO EM- tler, que estavam detidos pelos soviéticos.
norte-americanas e depois o cruzador alemães. Assim, torna-se importante ne- BARAÇOSO, QUE O GOVERNO PERÓN FOI O GRAN- Assim, redigiu seu informe com base num
Bahia, na maior tragédia naval da Histó- gociar com os nazistas. Diferentemente DE APOIADOR DO EIXO NA AMÉRICA DO SUL. QUAN- único depoimento de importância. É bom
ria brasileira. Conseguimos depoimentos do que alguns pensam, para os britânicos TOS CRIMINOSOS NAZISTAS TERIAM VINDO AO PAÍS lembrar que, quase quatro décadas depois,
de testemunhas e documentos, alguns se- também. Quando foi derrotado em Sta- POR CONTA DESSA POLÍTICA? em 1983, o mesmo autor certificou a auten-
cretos, que confirmam tudo isso. Um dos lingrado, Hitler não somente não conse- De Nápoli - Cerca de cinco mil pesso- ticidade de uns diários íntimos de Hitler,
submarinos, por exemplo, entregou-se ao guiu ter acesso às grandes jazidas de pe- as. As relações de Juan Domingo Perón e num episódio que acabou sendo a maior
chegar à costa de Mar Del Plata. Outros tróleo do Cáucaso. Viu a Wehrmacht ficar de parte dos oficiais das Forças Armadas fraude cometida contra os veículos de im-
dois continuaram sua viagem até o Sul, à beira da paralisia e contemplar o Exército argentinas com o nazifascismo começam prensa em toda a história.
diante de centenas de testemunhas. Um Vermelho avançar de forma incontrolável. ainda nos anos 1930. Os militares acre-
mês depois, outro submarino se entregou. Winston Churchill também tinha essa pre- ditavam na vitória do Eixo e sonhavam JORNAL DA ABI – MAS ESSA VERSÃO NÃO FOI
No litoral, há evidências de submarinos ocupação. Internamente precisava con- construir um bloco sul-americano lidera- KGB, O SERVIÇO SE-
CONFIRMADA PELA PRÓPRIA
afundados, verdadeiros sarcófagos no trolar as tendências socialistas daquilo que do pela Argentina e aliados do Terceiro CRETO SOVIÉTICO?
fundo do mar. Quem estava neles? Quem chamava de “populacho” inglês. No plano Reich. Se fosse preciso, organizando gol- De Nápoli - Sim, os registros abertos
desembarcou nas praias de Miramar ou externo, evitar que a União Soviética con- pes de estado em outros países. Por outro em 1992 confirmaram essa versão. Mas
Mar Del Sur poucas horas antes da rendi- trolasse todo o Continente. E reconheceu lado, os nazistas viam a Patagônia e Bari- é bom esclarecer que as tais testemunhas
ção? Em Londres e Washington, os mari- isso em A Segunda Guerra Mundial, obra loche como ótimos lugares de refúgio. A da incineração dos cadáveres deram de-
nheiros que estavam a bordo dos subma- pela qual ganhou o Prêmio Nobel de Lite- relação era tão estreita que somente um clarações bastante discrepantes da His-
rinos que se entregaram foram submeti- ratura, em 1957. mês antes do suposto suicídio de Hitler a tória. Mas o que a fez perder a credibilidade
dos a extenuantes interrogatórios. Mas Argentina declarou guerra à Alemanha. Foi foi a descoberta, em setembro de 2009, de
estes relatórios foram considerados como JORNAL DA ABI – PARECE UM ABSURDO QUE SOA um esquema enorme, que também envol- que o tal crânio que seria o de Hitler era,
top secret. No caso britânico, uma classi- QUASE COMO “INJUSTO”. veu o Vaticano e até a Cruz Vermelha. Mas na verdade, de uma mulher entre 20 e 40
ficação mantida há 75 anos. Qual seria o De Nápoli - Sim, mas foi a política da épo- é necessário entender que não foi somente anos. Não poderia ser de Braun, pois nunca
teor inconfessável que os faria encobrir ca. Várias das grandes empresas alemãs para a Argentina que os nazistas fugiram. houve qualquer rumor de que ela houves-
esses documentos há tanto tempo e jus- encontram-se nas mãos de descendentes Perón tentava trazer ao país cientistas, mas se disparado o tal tiro. Mas não foi a par-
tificar isso como “razão de Estado”? de nazistas. Um dos mais importantes la- a maioria ia para outras nações, como Es- tir dos suicídios que esses relatos soam es-
boratórios do país é controlado pela neta tados Unidos e União Soviética. tranhos. Dizer que Hitler passou todos
JORNAL DA ABI – ATRAVESSAR UM OCEANO TÃO de Magda Behrend, mulher de Josef Goe- aqueles meses decisivos em Berlim provoca
BEM PATRULHADO AO FINAL DA GUERRA SEM O bbels. Por que suas riquezas não foram con- JORNAL DA ABI – ADOLF HITLER SE SUICIDOU dúvidas. Ele odiava a cidade e a evitou por
CONHECIMENTO DOS ESTADOS UNIDOS E DA IN- fiscadas? Porque as potências Ocidentais EM BERLIM, EM 1945, OU TAMBÉM FUGIU PARA A toda a vida.
GLATERRA TAMBÉM PARECE UM POUCO DIFÍCIL. precisavam do apoio alemão para conter ARGENTINA?
De Nápoli - Até impossível, eu diria. O a União Soviética. Hoje, a luta dos historia- De Nápoli - Há defensores para as duas JORNAL DA ABI – NÃO SERIA NATURAL ELE ESTAR
que revela que houve consentimento do dores é por acabar com mitos e estabelecer teorias. Como disse, acho difícil, por cau- NA SEDE DO PODER, DE ONDE PUDESSE COMANDAR
almirantado britânico e norte-americano, essas verdades. Mas é muito difícil lutar sa das evidências, ele ter vindo para a OS DESTINOS DO PAÍS?
além de cumplicidade da Marinha argen- contra a História oficial, estabelecida como Argentina. Mas a versão mais aceita de De Nápoli - De forma alguma. Conside-
tina, que encobriu o fato. Mesmo no Bra- dogma ao longo de 60 ou 70 anos. seu suicídio também é bastante discutí- rava que na cidade havia comunistas e não
sil, contra todas as evidências de que o vel. Duvido de muita coisa porque sou um gostava daquele lugar. Esteve poucas vezes
Bahia foi torpedeado, o afundamento do JORNAL DA ABI – COM TANTO SEGREDO, NÃO DEVE historiador e não tenho nenhuma prova. por lá. Em Berlim funcionava um palácio,
cruzador ainda é tratado como acidente. TER SIDO FÁCIL ESCREVER ULTRAMAR SUL. COMO Nunca apareceu o cadáver. A versão mais mas seguramente Hitler pisou poucas
Resultado de uma série de negligências e FOI O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO LIVRO? divulgada diz que em 30 de abril de 1945 vezes nele. Sua residência oficial ficava em
sandices, que teriam feito com que um De Nápoli - Eu e Juan Salinas gastamos ele se trancou em seus aposentos com Eva Obersalzberg, na Bavária, cidade bastan-
tripulante desconhecido do próprio cruza- mais ou menos um ano e meio no proces- Braun, a mulher com quem se casou na te próxima a Munique e à fronteira com
dor disparasse contra o paiol que armaze- so de confecção do livro. Mas a obra é véspera. Depois de ouvir um tiro, os sol- a Áustria. Mas nos últimos tempos ele não
nava, na popa, as cargas de profundidade, resultado de mais de 30 anos de pesquisas. dados entraram no local e encontraram esteve na cidade e, sim, próximo a Ber-
supostamente imunes aos disparos de ar- E continua sendo ampliada em estudos, o líder morto, caído no chão com um tiro chtesgaden, mais precisamente na monta-
mas de fogo. Uma versão que ofende a entrevistas e viagens pela América do Sul na cabeça e uma pistola nas mãos. A nha de Kehlstein. Ali funcionava o fantás-
memória do comandante Garcia D’Ávila e pela Europa. Tenho documentos inédi- mulher também estava morta. Tinha tico Ninho da Águia, uma fortaleza esca-
e seus homens, que não morreram por tos sobre a presença nazista na Argenti- tomado cianureto. Quando ficaram sa- vada na rocha. Hoje, há um museu no lo-
serem incapazes e incompetentes, mas por na, coisas que nunca foram publicadas e bendo do ocorrido, os soviéticos revista- cal. É como se fizessem uma enorme mo-
causa de um ataque pérfido e traiçoeiro. A deverão virar outras obras ou ser divulga- ram o bunker, em Berlim, seis metros abai- radia, cheia de túneis, dentro do Pão de

36 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


tava do outro lado, o Clarín tinha apoio
Dois oficiais do Governo. Toda essa confusão existe
nazistas
porque as coisas não são feitas às claras,
envolvidos na
de modo mais transparente. Os dois lados
Ultramar Sul:
Karl Dönitz precisam se expor de forma mais clara.
(ao lado)
substituiu Hitler e deu início à Operação; JORNAL DA ABI – O SENHOR TAMBÉM DISSE QUE
Heinz Schäffer é o principal suspeito ESTÁ TRABALHANDO AGORA EM UM DOCUMENTÁ-
de ter afundado o Cruzador Bahia. RIO PARA A TELEVISÃO. PODE FALAR UM POUCO MAIS
SOBRE ESSE PROJETO?
De Nápoli - Recentemente, estreou um
Açúcar. Lugar estratégico, que dava extre- documentário que produzi, mas focali-
ma proteção e que facilitava uma fuga. zando a hipótese da fuga de Hitler. Ago-
ra, estou preparando outro, sobre o nau-
JORNAL DA ABI – ALÉM DE ESCREVER LIVROS, O frágio do cruzador Bahia. Será uma pro-
SENHOR JÁ FOI JORNALISTA.
NÃO PENSA EM DI- dução cara. Queremos ir ao local e descer
VULGAR AS NOVAS DESCOBERTAS NA FORMA DE com um minissubmarino equipado com
REPORTAGENS EM JORNAIS E REVISTAS? diversas câmeras para mostrar como está
De Nápoli - Escrevi para algumas das o navio e tentar encontrar as avarias, de
principais publicações argentinas, como a repente, os locais no casco em que os
revista Caras y Caretas e os jornais Clarín torpedos o atingiram. Reconstituir essa
e La Nación, mas hoje não tenho mais tem- história não será fácil e custará milhões
po. Sou produtor agropecuário, especialis- de dólares. Temos de fechar acordos co-
ta em biocombustíveis e viajo o mundo re- merciais e ter empresas apoiando para que
alizando investigações para livros e docu- seja uma produção bem feita, com efeitos
mentários, atividade que me realiza e uma especiais e reconstituição à altura. Estou
grande paixão da minha vida. O principal com 61 anos e acredito que seja minha
motivo de não escrever mais para periódi- última grande produção.
cos é a falta de tempo. Sempre me pedem
matérias, artigos, tanto na Argentina quan- JORNAL DA ABI – ESTÁ TRABALHANDO EM AL-
to na Espanha e na Alemanha, mas recuso. GUM NOVO LIVRO?
Para fazê-los teria de parar uma semana e in- De Nápoli - Em alguns. Mas o que está
terromper outra produção custosa. Como mais avançado é sobre Richard Walther
historiador e jornalista, continuo o traba- Darré, que foi Ministro da Alimentação
lho investigativo, mas agora para essas pro- e da Agricultura do Reich, entre 1933 e
duções maiores, que demandam tempo. E COM REPORTAGENS INVESTIGATIVAS. O FUTURO DESSE jornal e tenta aprovar uma lei que garan- 1942. Nascido na Argentina, em 1895, ele
nisso a tecnologia me ajudou demais. Pela TIPO DE JORNALISMO PODE ESTAR AÍ? te o controle estatal da empresa. O nível foi cedo para a Alemanha, onde se tornou
internet consigo acompanhar e adminis- De Nápoli - Não tenho dúvidas de que de discussão tem baixado demais. Auto- o principal ideólogo das idéias raciais de
trar minhas fazendas mesmo à distância. é uma excelente porta que se abre cada vez ridades acusam os jornais de ter forçado Hitler. Foi uma espécie de “pai” do Holo-
Não posso descuidar dessa parte, pois faço mais para o trabalho investigativo. Mas a antiga proprietária, a família Graiver, a causto, a principal voz a dizer que era pre-
as viagens muitas vezes com recursos pró- acho que depende do trabalho e da sua assinar a venda da empresa. Também es- ciso salvar a pureza da raça ariana nórdica
prios. Mas não é apenas dessa maneira que complexidade, pois jornais e revistas ain- taria fomentando protestos de sindicalis- e que todos os demais deveriam ser mor-
a internet mudou a forma de se fazer jor- da continuam o espaço do jornalismo in- tas para atrapalhar a distribuição dos tos. Nesse processo, transforma-se também
nalismo invesgativo na área de História. vestigativo por excelência. Em trabalhos periódicos. É uma situação tensa, compli- num dos mentores da SS, a força de elite do
mais complexos, como esses assuntos de cada. E os veículos reclamam, com razão, nazismo. Darré orquestrou a formação da
JORNAL DA ABI – QUAIS OUTRAS MUDANÇAS ELA cunho histórico, o problema maior é a ur- de um aumento desproporcional do con- Oficina Principal para a Raça e o Reassen-
TROUXE? gência, o valor pago e o espaço que podem trole do Estado sobre a imprensa. tamento, a RUCHA, que passou a impor
De Nápoli - Agora, é muito mais fácil te dar. Uma página? No máximo duas? É as características que os candidatos à SS
estabelecer redes de contatos e encontrar pouco. Mas vários assuntos podem ser pu- JORNAL DA ABI – A LIBERDADE DE IMPRENSA ESTÁ deveriam ter para fazer parte da força. Na
fontes. Na maioria das vezes, as pessoas blicados em partes, numa série. Assim, foi EM RISCO? genealogia da pessoa não poderia haver
mesmo te procuram, o que aumenta de- feito o melhor do jornalismo investigati- De Nápoli - Continua existindo liber- qualquer mistura com sangue não-germâ-
mais as possibilidades de investigação. Por vo argentino. Como a repressão bárbara dade de imprensa. Mas quem não está nico. Para se casar com os escolhidos, as
isso, sempre deixo um e-mail meu dispo- contra os apoiadores de Perón, deposto em alinhado com o Governo sofre duras re- mulheres também teriam de ser puras e
nível. Pessoas que conheceram alguém ou 1955. Numa noite de junho de 1956, 12 ho- presálias. O ex-Presidente Néstor Kirch- não podiam ter enfermidades transmis-
sabem de alguma coisa lêem os livros e en- mens que nada sabiam a respeito do assun- ner, que até sua morte em outubro passa- síveis ou defeitos. Todas essas regras aca-
tram em contato comigo. Antes, se alguém to foram surpreendidos enquanto acom- do mandava e desmandava na adminis- bam criando o principal corpo armado do
de outro país queria fazer isso, precisava panhavam uma luta de boxe pelo rádio. De tração da mulher, iniciou uma campanha Führer, o Estandarte Adolf Hitler, com os
mandar uma carta. Gastava-se um tempo madrugada, acabaram brutalmente fuzi- para convencer a opinião pública de que melhores artilheiros e as tropas de elite
absurdo e havia pouco retorno. Agora, o lados. Esse abuso foi denunciado pelo jor- a dona do Clárin, Ernestina Herrera de mais bem preparadas e com maiores privi-
feedback é imediato. Muita gente apenas nalista Rodolfo Walsh, no livro Operação Noble, estava por trás do seqüestro de légios. Em 1942, Darré tem uma suposta
elogia o trabalho, lembra que tudo “é como Massacre (publicado no Brasil pela Com- bebês durante a ditadura. Dois de seus divergência por conta da diminuição das
o avô sempre contava”. Mas outros dão in- panhia das Letras). A obra foi lançada em filhos adotivos, inclusive, seriam filhos cotas de ração nos campos de trabalho.
formações valiosas. Há algum tempo, um 1957, mas a história foi contada antes, biológicos de casais torturados e assassi- Aproveitando que estaria enfermo, pede
ex-sócio de Mengele me escreveu. Travei numa série em veículos menores da im- nados pelo regime militar. Só que exames demissão. Na verdade, o que mostro no
contato com ele e, dessa maneira, conse- prensa. É um dos picos do jornalismo in- de dna desmentiram essas acusações. Já livro é que todo esse jogo não passou de
gui reconstituir de forma mais detalhada vestigativo, talvez em sua fase áurea, na seus aliados ganham novas concessões e encenação. Ele havia recebido ordens de
os negócios e a trajetória do médico na Argentina. financiamentos, fortalecendo a estrutura Hitler para começar a preparar o projeto
Argentina e no Paraguai. Inclusive, como governamental de comunicação. Tanto de fuga para a Argentina. O homem pos-
se deu todo o processo de divórcio com JORNAL DA ABI – DESDE O ANO PASSADO A GRANDE jornais quanto canais de tv críticos ao suía campos e estâncias gigantescas no país.
uma de suas esposas na Alemanha, Irene IMPRENSA DA ARGENTINA ENFRENTA UMA BATA- Governo são perseguidos. Profissionais Nesses lugares, localizados principalmen-
Schoenbein. Quando você se dedica a LHA CONTRA O GOVERNO KIRCHNER. NO CENTRO enfrentam problemas de escutas telefô- te em Córdoba e Bariloche, os nazistas en-
qualquer tipo de investigação, seja histó- DESSA BATALHA ESTÁ UMA FÁBRICA DE PAPEL-JOR- nicas, muitos sofrem campanhas de difa- contraram um abrigo seguro. Nesse livro,
rica, econômica ou política, precisa de NAL. COMO ESTÁ A QUESTÃO? mação para perderem a credibilidade, há ainda pretendo desvendar algumas das
tempo. Tempo para montar uma rede de De Nápoli -É uma queda de braço entre cortes de publicidade oficial, piquetes de ligações obscuras e associações que o na-
contatos. A internet ampliou o alcance o Governo de Cristina Kirchner e os dois sindicatos aliados do Governo nas portas zismo mantinha com poderosos. Poucos
dessa rede. Hoje, tenho diversos contatos maiores jornais da Argentina, o Clarín e das gráficas para impedir que exemplares sabem, mas quem desenhou o uniforme
no Uruguai, na Espanha, na Alemanha e o La Nación. Os dois juntos têm a maior das publicações saiam das oficinas e inves- negro das SS, ainda em 1929, foi a empre-
nos Estados Unidos, com quem troco in- parte das ações da Papel Prensa, que pro- tigações sem justificativa da Afip, a Re- sa de Hugo Boss, famosa hoje por suas mar-
formações constantemente. duz 76% do papel-jornal consumido no ceita Federal de lá. A situação é muito cas de perfumes e de roupa de alto nível.
país. Kirchner diz que os veículos usam tensa e diversos jornalistas diminuem o Naquela época, o próprio Boss havia se
JORNAL DA ABI – NOS ÚLTIMOS TEMPOS, CADA esse poder para conceder a si próprios tom com medo de perder o emprego. associado a Hitler e se tornado um de seus
VEZ MAIS JORNALISTAS ESTÃO LANÇANDO LIVROS maiores descontos na compra de papel- Nessa história não há santo. Quando es- colaboradores.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 37


DOCUMENTÁRIO

FOTOS: DIVULGAÇÃO

Roberto Marinho teve que assumir a direção de O Globo inesperadamente e passou a ter contato com todas as etapas de produção do jornal, incluindo a linotipo, nos anos 1930.

Roberto Marinho, num dvd sem apologia nem censura


A série criada por Fernando Barbosa Lima e Rozane Braga mostra em 85 minutos os momentos
mais expressivos da vida e da obra do criador do maior império de comunicação do País.

POR C ELSO S ABADIN Mostra também os históricos emba-


tes políticos que ele manteve com Getú-
Depois de Barbosa Lima Sobrinho, lio Vargas, Leonel Brizola e Carlos Lacer-
Tancredo Neves, José Sarney, Ziraldo, da, além, evidentemente, de analisar o pi-
Darcy Ribeiro e Sérgio Cabral, a FBL Cri- oneirismo e a forte atuação de Marinho
ação e Produção lança agora um docu- no comando da Rede Globo, sem deixar
mentário de longa metragem sobre o em- de lado temas polêmicos, como o comen-
presário e jornalista Roberto Marinho. tado acordo com o grupo Time-Life para
Intitulado Roberto Marinho, o Senhor do a implantação da TV Globo, suas relações
Seu Tempo, trata-se do sétimo volume da com os governos militares, a omissão no
coleção Os Grandes Brasileiros, série de movimento Diretas Já e a famosa edição
dvds que homenageia e documenta a tendenciosa do Jornal Nacional para o
trajetória e as obras de nomes importan- debate entre Collor e Lula no final da
tes da vida nacional. Com 85 minutos de campanha eleitoral de 1989.
duração, o dvd alcança satisfatório nível A vida pessoal de Roberto Marinho,
de isenção, sem concessões a qualquer morto em 2003, também faz parte do
forma de apologia do retratado, nem a registro. Imagens inéditas mostram seu
ataques inspirados por considerações de mordomo Edgar Peixoto, comandando
ordem política. um tour pela casa que Marinho morava
O documentário procura registrar, em Cosme Velho, exibindo detalhes do
em detalhes, a trajetória deste que foi (e quarto do empresário/jornalista, suas
de certa maneira ainda é) um dos nomes obras de arte, seu fardão da Academia
mais instigantes da História da mídia bra- Brasileira de Letras e seus objetos pessoais,
sileira, tanto pelo seu empreendedoris- que continuam intactos, como foram
No dvd, extras com um tour pela casa do Cosme Velho, onde Roberto Marinho morava.
mo, como pelos desafetos que conquis- deixados no momento de sua morte.
tou durante as décadas que esteve à fren- As paixões de Roberto Marinho tam-
te do maior conglomerado de comunica- bém estão no documentário: além de sua raro, em que o próprio Roberto Marinho O lançamento do dvd deu-se no dia 8
ção do País. O filme aborda a história de história de amor com Lily Marinho, são narra, emocionado, a morte do pai. de agosto em ato no Palácio da Cidade,
Roberto Marinho desde o início de sua mostradas a sua admiração pelos cavalos, Depoimentos de personalidades polí- sede da Prefeitura do Rio, com a presen-
vida profissional, quando assume o jor- o Cassino da Urca e a boemia. O filme ticas (Brizola, Sarney, Fernando Henri- ça do Governador do Estado Sérgio Ca-
nal O Globo apenas três semanas após a traz depoimentos inéditos dos filhos Ro- que Cardoso, Lula) e saborosas histórias bral, do Prefeito Eduardo Paes e de inú-
sua fundação, em virtude da morte do berto Irineu, João Roberto e José Roberto de bastidores ajudam a compor este per- meros membros da Academia Brasileira
pai, Irineu Marinho. Marinho, além de trechos de um vídeo fil audiovisual sobre o homem e o mito. de Letras, de que Marinho foi membro.

38 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


Brasil, país sem memória. Ainda?
FOTOS: DIVULGAÇÃO
Durante décadas nos acostumamos
com o jargão de que “o Brasil é um país
sem memória”. E talvez, durante estas
mesmas décadas, esta idéia tivesse sido
realmente a expressão da verdade. Porém,
muita coisa mudou e continua mudan-
do, principalmente graças a uma recém-
descoberta vocação cinematográfica
brasileira de produzir documentários
sobre personalidades marcantes da nos-
sa cultura.
Apenas num primeiro e superficial
levantamento, nomes como Caetano Ve-
loso, Wilson Simonal, Ademir da Guia,
Cartola, Henfil e seus irmãos, Maria
Betânia, Humberto Teixeira, José Lins do
Rego, Dorival Caymmi, Carlos Drum-
mond de Andrade, Chacrinha, Gláuber
Rocha, Jânio Quadros, Paulo Francis e nhamos medo de que a importância dele
tantos outros foram documentados em se diluísse ao longo dos anos, e resolve-
Sergio Cabral, ao lado de Martinho da Vila durante gravação de seu documentário, e Ziraldo,
produções recentes que, em maior ou mos fazer então um documentário”,
imitando seu personagem maluquinho: o espírito carioca e o jeito mineiro presentes na coleção.
menor escala, chegaram às nossas telas de conta Rozane. “A idéia evoluiu para dei-
cinema. xar um legado às próximas gerações,
A coleção de dvds Os Grandes Brasi- Roberto Marinho, O Senhor do Seu Tempo. dos nomes foi feita através de uma pes- mostrar às nossas crianças quem foram
leiros, desenvolvida pela FBL Criação e Como se percebe, a série não segue quisa qualitativa que a empresa Sample os nossos heróis”.
Produção, se insere neste esforço de tirar nenhuma orientação política ou partidá- Estudos Mercadológicos realizou com Bem recebida, a iniciativa que nasceu
do País a pecha de “desmemoriado”. O ria. Afinal, que coleção com este viés formadores de opinião”. da necessidade de um registro históri-
objetivo “é resgatar a memória nacional colocaria, lado a lado, nomes como Ziral- A produção da série começou em co-familiar ganhou vulto e já tem pro-
através de documentários”, afirma Roza- do e José Sarney? Rozane Braga explica 2000, com a morte do jornalista, histo- gramados os próximos documentários
ne Braga, fundadora da produtora ao lado que “os homenageados são de diferentes riador e advogado Barbosa Lima Sobri- da coleção: Cândido Portinari e Fernan-
de Fernando Barbosa Lima, seu marido, esferas da vida brasileira, e a curadoria nho, pai de Fernando Barbosa Lima. “Tí- do Henrique Cardoso.
falecido em 2008.
Não são filmes que passaram no cine-
ma, tampouco encontrados na videolo-
cadora da esquina, mas todos os títulos Os primeiros sete brasileiros
foram distribuídos gratuitamente para
universidades, bibliotecas e centros cul- BARBOSA LIMA ZIRALDO
SOBRINHO CIDADÃO DO BRASIL O ETERNO MENINO MALUQUINHO
turais. Até o momento, foram sete: Bar-
O documentário traz material inédi- Produzido em 2007, aproveitando a
bosa Lima Sobrinho, Cidadão do Brasil; to e depoimentos com personalidades da comemoração dos 75 anos de Ziraldo e
Tancredo Neves, Mensageiro da Liberdade; imprensa e da política. Foram editadas dos 25 do Menino Maluquinho. Tem
Ziraldo, O Eterno Menino Maluquinho; também mais de 30 horas de gravações, narração do ator José Mayer e 90 minu-
Darcy Ribeiro, O Guerreiro Sonhador; Ser- entre depoimentos, entrevistas e parti- tos de duração. É dividido em três par-
gio Cabral, A Cara do Rio; José Sarney, Um cipações em programas de tv. O dvd é di- tes: Memórias, narradas pelo próprio es-
Nome na História; e o recém-lançado vidido em quatro partes: O Século de Bar- critor e desenhista; Cronobiografia, com
bosa Lima Sobrinho, relacionando sua depoimentos de amigos; e Releituras,
vida com os acontecimentos da época; sobre as adaptações de sua obra no te-
Depoimentos; A Avenida, sobre o carna- atro, no cinema e na tv.
val de 1999, que homenageou o jorna-
lista; e O Centro de Cidadania Barbosa DARCY RIBEIRO
Lima Sobrinho, da Uerj. Com duas horas O GUERREIRO SONHADOR
de duração, o filme é apresentado por Narrado pela atriz Cássia Kiss, o docu-
Fernanda Montenegro. mentário aborda Darcy Ribeiro em suas
diversas facetas, como intelectual, antro-
TANCREDO NEVES pólogo, professor, educador, político, es- ROBERTO MARINHO
MENSAGEIRO DA LIBERDADE critor e nacionalista apaixonado pelo Bra- O SENHOR DO SEU TEMPO
Enfoca a trajetória política de Tan- sil. Com destaque para duas sequências Uma das personalidades mais emble-
credo, desde sua atuação como vereador históricas filmadas e narradas pelo pró- máticas do jornalismo brasileiro tem aqui
em São João Del Rey, até sua eleição in- prio Darcy nos anos 1940 e 1950, onde ele sua vida e sua carreira documentadas sob
direta como o primeiro Presidente civil registra raros rituais da cultura indígena. vários ângulos. Desde o início, no jornal
pós militar. Traz imagens e depoimen- O Globo, lançado por seu pai três semanas
tos inéditos e está dividido em duas par- SERGIO CABRAL antes de morrer; os embates políticos com
tes: A Vida Política de Tancredo Neves; e A CARA DO RIO Getúlio Vargas, Brizola e Carlos Lacerda;
Depoimentos de parentes e amigos. 90 mi- Jornalista, escritor, músico, vascaíno, a abertura da Rádio e da TV Globo; o caso
nutos de duração. sambista, boêmio e, acima de tudo, cari- Time Life; a relação cordial com os gover-
oca, Sergio Cabral é registrado com bom nos militares; os cavalos, o Cassino da
JOSÉ SARNEY humor e irreverência neste documentá- Urca. Imagens inéditas mostram o mordo-
UM NOME NA HISTÓRIA rio apresentado pela atriz Débora Nasci- mo Edgar Peixoto conduzindo uma visita
Documentação da carreira política e mento e pelo compositor Haroldo Cos- pela casa e objetos pessoais de Marinho.
intelectual de Sarney, desde a eleição para ta. Enfoca desde sua infância, em Casca- O dvd traz também dois extras: Casa
o governo do Maranhão, aos 35 anos, pas- dura, até sua carreira como produtor mu- do Cosme Velho, sobre o lar do jornalista e
sando pela posse como Presidente, após sical, passando pelo Jornal do Brasil, Pas- empresário. E Roberto Marinho em 5 Episó-
Darcy Ribeiro foi documentado em suas
a morte de Tancredo, a Constituição de quim e pela sua militância política que o dios, com cinco histórias curiosas e diver-
diversas faces: do antropólogo ao educador, do
escritor ao político, um apaixonado pelo Brasil.
1988 e o Plano Cruzado. levou à prisão, durante a ditadura militar. tidas envolvendo o biografado.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 39


FOTOS: DIVULGAÇÃO

LIVROS

A redescoberta
de Mariátegui
Mais de oitenta anos após o seu aparecimento no país
de origem, é lançado no Brasil um conjunto de estudos
do filósofo e revolucionário peruano José Carlos Mariátegui.
P OR Y URI M ARTINS FONTES

cante à impotência do Homem moder- tornar-se-ia a base do Estado contempo-


no, inserido na estrutura cultural bur- râneo. Em defesa desta tese, expõe sua
guesa-cristã. concepção sobre o comunismo primitivo
Quando regressa a Lima, Mariátegui em que viviam os incas, povo “discipli-
já se declarava comunista; suas idéias fo- nado e simples”, e que dispunha de
ram acusadas de europeizadas por nacio- “bem-estar material”.
nalistas, ao que ele contesta: “Fiz na Seu marxismo dito heterodoxo – ta-
Europa o melhor de minha aprendiza- chado de irracionalista por socialistas
gem e acredito que não há salvação para ainda atados ao espírito positivista típi-
a Indo-América sem a ciência e o pensa- co dos tempos – foi um dos primeiros que
mento europeus ou ocidentais”. Partici- acusou a necessidade de que o Homem
pa então da fundação do Partido Socialis- desenvolvesse todas as faces de seu ser: a

A
obra do filósofo e revolucionário erudição, e sem deixar de ter como prin- ta Peruano – para o qual não elege a de- racional e a irracional; a intelectual e a
peruano José Carlos Mariátegui cípio a comunicação com as massas, con- nominação comunista, devido à apropri- sentimental; a sensual e a criativa. Exer-
– um dos principais expoentes jugou sua vida de militante com refle- ação do termo na época por uma linha cendo sua ampla capacidade de visão
da filosofia contemporânea na xões acerca de como tornar viável o ca- moscovita que se burocratizava. desde os alicerces do materialismo-histó-
América –, somente neste novo século minho da mais nobre e saudável utopia Para o autor, a teoria marxista sobre as rico, e sem cair nas vias anárquicas de um
vem ocupando nos meios editorial e aca- comunista. Segundo ele, a “faculdade de revoluções nacionais não pode ser obs- ecletismo diletante, soube absorver as
dêmico o espaço de posteridade que sua pensar a História” identifica-se com a truída por uma visão estagnada e pré- essências conceituais que havia de liber-
densidade e pertinência lhe designaram. “faculdade de fazê-la e criá-la”, e deve ser estabelecida – mas é antes um método tárias em pensadores proscritos pela es-
Com delicado estilo analítico e clareza valorizado aquele “capaz de traduzir em interpretativo e uma prática de vida que querda ortodoxa, agregando à sua contri-
expositiva, o autor constrói um texto pon- atos” o que até então “não pôde ser senão devem ser construídos segundo a reali- buição ético-ontológica – categorias
derado e sempre regado por detalhadas idéia”. E de fato, o tempo histórico con- dade de cada país. Refuta assim, a leitu- fundamentais ao ideal do materialismo-
fontes – no qual mesmo críticas agudas firmaria a pertinência de suas idéias – e ra européia de revolucionários ortodoxos histórico – auscultando desde as idéias
sabem ser colocadas de maneira gentil. diversos movimentos sociais americanos defensores do etapismo, que enxergam de Nietzsche às de Georges Sorel e Freud,
Elaborados especialmente nos anos da atualidade manifestam sua influên- no capital um papel civilizador: “não dentre vários outros nomes centrais ao
1920, seus escritos percorrem temas his- cia, desde o MST e a Via Campesina, às existe no Peru, como jamais existiu, uma contemporaneismo.
tóricos, filosóficos e artísticos, dentre guerrilhas do Túpac Amaru, Sendero burguesia, com sentido nacional”. En-
outros, manejando com precisão a ferra- Luminoso, Farc e Exército Zapatista. tende que é preciso que se desenvolva Ensaios por uma filosofia da práxis
menta dialética materialista para desven- uma perspectiva revolucionária com Nos artigos selecionados para o livro
dar desde a História de seu país, inserida O marxismo, um método raízes nas próprias tradições e culturas Polêmica Revolucionária e Outros Escritos,
em um contexto latino-americano peri- Trabalhando como jornalista, nos anos populares. Tal posição foi vista como Mariátegui se atém às questões filosófi-
férico, até aspectos da geopolítica mun- 1920 Mariátegui se aproxima do movi- afronta não apenas pelos socialistas orto- cas e políticas mais prementes do contur-
dial. Sem ter buscado com imensos tra- mento operário, enfrentando a classe doxos, como pelos revisionistas da Alian- bado momento em que viveu, quando
tados aventurar-se a formular alguma dirigente limenha e apoiando greves. O ça Popular Revolucionária Americana – por um lado, as potências capitalistas
solução abstrata para todo o sempre da então presidente peruano, casado com movimento reformista influente no haviam levado a Humanidade a conhe-
Humanidade, este marxista de efetiva uma parente sua, impõe-lhe o exílio. Ele Peru. O marxismo latino-americano, cer uma das piores carnificinas da Histó-
práxis – cuja vida teórica e prática foram segue para a Europa e elege a Itália para como analisa Michael Löwy (em O ria – a I Guerra –, enquanto por outro a
inerentes – aliou seu faro de jornalista e viver a maior parte do tempo – país em marxismo na América Latina), estava Revolução Soviética apontava uma pos-
viajante à solidez do cientista humano, que “desposaria algumas idéias e uma então polarizado entre duas atitudes sibilidade de fuga daquele sistema que
para investigar aspectos essenciais que mulher”. Aí, vê de perto a ascensão do extremistas: os ortodoxos, que queriam ele percebia como ilógico e imoral.
tornassem possível transcender nossa fascismo, no que entende ser uma respos- submeter o particular ao universal; e os Sua técnica de dissecar experiências da
sociedade decaída e subjugada pela violên- ta do grande capital a uma crise social revisionistas, que superestimavam as discussão socialista e equívocos dos revi-
cia do capital. Conforme afirma: “Meu profunda – a expressão de uma classe especificidades locais em prejuízo da uni- sionistas, ou ainda de iluminar persona-
pensamento e minha vida constituem dominante que já não se sente protegi- versalidade da teoria de Marx. gens importantes no jogo dos poderes e
uma única coisa, um único processo”. da por suas instituições precariamente Já Mariátegui entendia que o comu- idéias, no entanto não se limita a um
Seus ensaios tratam de diversos pro- democráticas. Neste período se forma nismo na América não poderia ser uma abstracionismo esquerdista, ou a uma
blemas da época – qual um vaga-lume como ideólogo do comunismo, travan- cópia européia, mas sim uma “criação emotiva história política – mas é antes
insistente a prover de fagulhas as noites do também contato com a psicanálise e heróica”, onde a comunidade campone- uma plataforma tática de onde ele se
sem lua do pós-Guerra em que via o a filosofia intuitiva de Nietzsche – assun- sa autóctone, essencialmente solidária ergue para enxergar o porvir humano
Homem se perder. Com originalidade e to que o interessa especialmente no to- em suas relações sociais tradicionais, naquele instável pós-Guerra, em que um

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capitalismo feroz demonstrava sua inca- comunismo daquele início de século. O
pacidade de oferecer ao Homem uma idealismo e a fé racional de Mariátegui
solução de paz duradoura, em meio às – à semelhança dos também tidos como
ambições contrapostas de nações impe- heterodoxos, Gramsci e Caio Prado – o
rialistas dispostas a obter máximas van- levariam em rumo distinto do evoluci-
tagens. É assim que o jornalista e histo- onismo tímido da II Internacional. Na
riador, ao propor uma direção aos rumos obra destes três pensadores, apesar das
da ciência e da história, afirma-se tam- distintas realidades históricas vividas,
bém como filósofo. nota-se a mesma característica ensaísti-
Diante de seu discurso eloqüente e ca ou experimental, a denotar seu cará-
cativante, esta tradução buscou preser- ter jornalístico e militante de interven-
var o estilo do autor e da época, mantendo ção na opinião pública.
a contundência de suas repetições, seus Em seu duro embate contra o revisi-
ritmos de pontuação e sua escolha de onismo – que a partir de críticas ao soci-
termos que, sem serem prolixos, são eru- alismo burocrático predominante na
ditos, exigindo conceituação precisa. Europa Ocidental quer negar ou superar
Deste modo, pretendeu-se falsear o me- o marxismo –, Mariátegui envereda pela
nos possível a mensagem e poder de per- discussão da moderna psicanálise, que Mariátegui, em 1929, ao lado de sua esposa, Anna Chiappe. Abaixo, ilustração de Karl Marx, de
suasão dos textos originais – cujo tom vinha sendo usada como arma por pre- David Alfaro Siqueiros, utilizada na capa da edição peruana de 1964 do livro Defensa del Marxismo.
beira mesmo o poético. tensos reformadores. É o caso do princi-
Abre esta edição Defesa do marxismo – pal personagem atacado em sua defesa desenvolvimento científico de origem
polêmica revolucionária, seu principal marxista, o “derrotista” Henri de Man – ocidental (tradição intelectual européia),
livro sobre temas filosóficos, no qual “reformista desenganado” pela medíocre com o desenvolvimento comunitário
esboça pontos de vista fundamentais experiência do socialismo na Bélgica. fraterno oriental² (típico dos indígenas),
acerca do marxismo – e que ora ganha Para Mariátegui, sua crítica não é origi- no intuito de conceber uma perspectiva
sua primeira versão em português, mais nal e nem cabe ao marxismo de fato – comunista autêntica. Para tanto, realiza
de oitenta anos depois de escrito. Na heróico e revolucionário –, mas serve análises históricas, econômicas, socioan-
obra, elaborada entre 1928 e 1929 – últi- sim ao próprio “reformismo” do ambi- tropológicas, literárias e pedagógicas,
mos anos de estabilização capitalista ente em que o belga se situa – o “ambi- demonstrando erudição científica e ar-
antes da grande crise econômica – pode- ente medíocre e passivo” do sindicato e tística que pode ser observada em vários
se perceber um pensador cujos conheci- da socialdemocracia de seu país. Em sen- dos ensaios da publicação. Assim, de
mentos sobre as principais teorias que ao tido inverso, o peruano mostra como as modo a oferecer ao leitor um panorama
lado da filosofia da práxis¹ de Marx e contribuições de Freud e da psicologia didático sobre o conhecimento do autor
Engels fundaram o mundo contemporâ- contemporânea são convergentes e úteis a respeito de idéias que o cercavam – fa-
neo, despontam em meio à ortodoxia do ao materialismo-histórico, concluindo cilitando a fluidez da leitura –, confec-
cionou-se o Índice Onomástico que com-
põe esta edição.
Como Mariátegui sugere relativamen-
te a muitos de seus escritos, os ensaios que
Escrita apaixonada, elaborou foram intervenções ativistas,
apaixonadas, constituindo-se em germes

empenhada com sangue que a “interpretação econômica da His-


de livros mais orgânicos que desejaria
desenvolver mais tarde. À revelia de qual-
quer enquadramento ideológico ou acadê-
Com uma abordagem abrangente, como a prática daquele que apenas tória não passa de uma psicanálise gene- mico, declara que seu trabalho se desen-
os conceitos mariateguianos abalaram percebe a necessidade de superar o que ralizada do espírito social e político”. volve “segundo a observação de Nietzs-
o conservador marxismo mecanicista do é obsoleto, sem colocar a mão na massa Os quatro títulos seguintes da presen- che, que não apreciava o autor envolvido
início do século XX – motivo pelo qual e “destruí-lo”. te coletânea foram selecionados dentre na produção intencional e deliberada de
sua obra foi tachada de “ensaística” e Nesta questão, percebe-se, além de aqueles que vieram a público em castelha- um livro, mas sim aquele cujos pensa-
“romântica” pela crítica socialista da Nietzsche, clara influência do sindica- no sob o nome de La Escena Contemporá- mentos formavam um livro de forma
época. À primeira destas críticas ele res- lista Georges Sorel – tido por Mariáte- nea [A cena contemporânea], nos quais o espontânea”. No calor da luta, escreve por
ponderia ressaltando o valor da escri- gui como um dos mais vigorosos con- autor foca com destreza psicológica figu- amor, atua movido pela fé na causa revo-
ta apaixonada, revolucionária, empe- tinuadores de Marx. Em Defesa do ras e aspectos da realidade internacional lucionária – sentimento que acredita ser
nhada com sangue – e foi deste modo, Marxismo, idéias de Sorel são convoca- – analisando-os segundo a dialética mate- a grande contribuição dos povos indíge-
paralelo à sua vida prática, que se con- das em diversos momentos. Distin- rialista, inseridos no contexto histórico. nas à Revolução. Contudo, sua vida abre-
cretizou sua ação teórica. Há em sua guindo o que é essencial à teoria mar- São “impressões – como ele as define – por viada antes dos 36 anos não lhe permiti-
obra filosófica ensaística um sentido di- xista daquilo que lhe é apenas contin- demais fragmentadas” para se pretende- ria ampliar e sistematizar em teses sua
dático e ativo – um pensamento in- gente, o revolucionário francês (em rem uma explicação da época, mas que produção ensaística – vítima de uma in-
quieto que não se basta na abstração. Reflexões sobre a violência), em meio a contêm “um esboço ou ensaio de inter- fecção na perna, derivada de um golpe que
Como ele mesmo analisaria, suas vá- um pálido período de parlamentaris- pretação dessa época e de seus tormento- recebera quando jovem, morre em 1930.
rias viagens – com os obstáculos diári- mo socialdemocrata, esclarece a fun- sos problemas”. A seleção de artigos, à
os que naturalmente o novo sempre ção histórica da violência – incorporan- semelhança da edição peruana, foi dividi- 1
. “Filosofia da práxis”, assim como “materialismo-
acarreta – contribuíram para essa for- do o irracionalismo filosófico ao ma- da segundo os seguintes temas: Crise da histórico”, é designação da filosofia marxista. Em
Filosofia da práxis, o filósofo mexicano Sanchez
mação, não apenas ampla, mas prática. terialismo-histórico. Mariátegui, em democracia, Crise do socialismo, Fatos e Vázquez define a práxis como uma “teoria condicionada
Diante da segunda crítica, a raciona- consonância com Sorel, defende que idéias da Revolução Russa e A mensagem historicamente e fundamentada cientificamente” –
atentando à necessidade de que o pensamento una a
lista, Mariátegui defenderia a impor- a revolução “desgraçadamente” não do Oriente. Já os dois últimos escritos vêm teoria à prática, que seja totalizante, transformador, que
tância da utopia numa existência mais pode ser feita com “jejuns”: “Os revo- a ilustrar seu espírito engajado, atento a transponha as especialidades que reduzem o indivíduo
contemporâneo, permitindo ao Homem desenvolver
plena, postando-se contra o niilismo lucionários de todas as latitudes de- tensões que pulsam em seu entorno social com plenitude suas potências psíquicas e físicas.
cansado do burguês cético, pusilânime vem escolher entre sofrer a violência – no caso, o advento de ainda confusas 2
. Mariátegui usa o termo oriental como sendo o não-

e desprovido de sonhos, que só valori- ou usá-la”. Se não se deseja que o “es- idéias feministas ao Peru, bem como suas ocidental – os outros, os diferentes.

za o que pode possuir, sugar de imedi- pírito e a inteligência estejam às or- teses como líder socialista a traduzir o
ato e controlar, acovardando-se dian- dens da força” – afirma –, “há que se marxismo ao contexto peruano, expostas YURI MARTINS FONTES é filósofo, jornalista, tradutor
e pesquisador da Universidade de São Paulo. É o
te de quaisquer enfrentamentos com pôr a força às ordens da inteligência no programa de seu partido. responsável pela organização e tradução do livro

o desconhecido – o que Nietzsche vê e do espírito”. Uma questão que lhe é recorrente é a Defesa do Marxismo – Polêmica Revolucionária e
Outros Escritos, de José Carlos Mariátegui
de como articular de modo dialético o (Boitempo Editorial).

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 41


REPRODUÇÃO
Vidas

Abrahão, o prazer da narração


paixão pelo esporte falou mais alto. Em

ABRIL
CARLOS NAMBA/DEDOC/EDITORA
1950, ano em que os ânimos esportivos do
País ferviam com a realização da Copa do
Mundo em território nacional, ele arru-
mou a mala e mudou-se para a capital
paulista, com o sonho de narrar futebol.
Foi recusado nas Rádios Cultura e Pirati-
ninga, entre várias outras, mas finalmen-
te aceito na Cruzeiro do Sul.
Paralelamente ao rádio e ao futebol,
Walter Abrahão começa a desenvolver
também interesse pelas leis e pela justi-
ça, e aos 23 anos ingressa na Faculdade de
Direito do Largo São Francisco. Quatro
anos mais tarde, exatamente no ano em
que o Brasil se sagraria campeão mundi-
al de futebol pela primeira vez, torna-se
então Dr. Walter, advogado. Mas sem
abandonar o esporte.
Da Cruzeiro do Sul Walter passou para “Ele”, segundo Walter Abrahão.
a Rádio Tupi, onde conheceu Aurélio Cam-
pos, então diretor de Esportes das Associa-
das de São Paulo, que percebendo o estilo O jornalista esportivo Milton Neves
diferenciado do narrador logo o levou à TV atribui também a Walter a criação da esco-
Tupi. Ao contrário da maioria dos locuto- lha do melhor jogador em campo, que,
res da época, a narração de Walter era sere- eleito pelos próprios membros da equipe
na e – convenhamos – bem mais realista de transmissão do jogo, recebia seu prêmio
que aquelas narrações épicas e heróicas da ainda no gramado, antes mesmo de descer
antiga escola, que transformavam qualquer para o vestiário. O “troféu” era um rádio
arremesso lateral num ato da Ilíada. Ele para automóvel da marca Motorádio, ofer-
conversava com o espectador em tom só- tado pelo patrocinador e entregue pelo
brio, sem gritar; mesmo sem ser efetiva- repórter de campo Eli Coimbra. A expres-
mente um comentarista, tecia aqui e ali ob- são “ganhar o Motorádio”, na época, pas-
servações inteligentes sobre a partida. sou a ser sinônimo de jogar bem, de se
Mauro Beting, comentarista esportivo destacar numa partida, ou mesmo na vida.
da Rádio Bandeirantes, classifica Walter Lembro particularmente de uma par-
de “simpático sem ser acrítico; amável tida entre Santos e Portuguesa, perdida
sem ser ácido”; “Até quando chamava al- em algum lugar dos anos 1970, na qual
guém de ‘gordo’, era de um jeito suave, di- Pelé fez um gol tão bonito que Walter
vertido.” “Com ele, aprendi a criticar sem Abrahão gritou entusiasmado para o seu
atacar, a defender pontos de vista sem fe- repórter: “Eli, entra em campo agora e dá
rir os dos outros”, diz Mauro Beting. o Motorádio pra ele!”.
Em 1963, Walter criou o que chamou de As inovações de Walter Abrahão não se
“bilance”, ou seja, a repetição de jogadas restringiram apenas ao futebol. “Foi ele
importantes da partida quase que imedi- quem sugeriu que o vôlei deveria deixar de
atamente após a sua realização, graças à ter a chamada ‘vantagem’, que deixava o
inovação da recém-chegada tecnologia do jogo lento, para ter pontos corridos”, conta
videoteipe. Somente três anos depois a o jornalista Paulo Gustavo Pereira.
novidade foi incorporada pela televisão Porém, entre as criações de Walter, há
WALTER ABRAHÃO EM 1974. britânica, durante a realização da Copa do uma que Juca Kfouri considera a mais ge-
Mundo na Inglaterra. Para o mundo, o nial: “Sua melhor sacada foi a de não fa-
Criativo, sóbrio, ele enriqueceu as transmissões “bilance” foi rebatizado como replay. lar o nome do Pelé, referindo-se apenas a
“O tom da narração de Abrahão era ‘Ele’, quando o Rei pegava na bola”, afirmou
esportivas com inovações que, pela adequação ameno, não havia gritaria, nenhum sinal Kfouri ao Jornal da ABI. Era uma espécie de
e bom gosto, foram adotadas por outros profissionais. de histeria”, observa Antero Greco, co- respeito quase religioso. Nas transmissões
mentarista esportivo do jornal O Estado de de Walter, Pelé era simplesmente “Ele”,
P OR C ELSO S ABADIN S. Paulo e da ESPN. “E era quente, convida- como um Deus da Bíblia esportiva.
tivo, emocionava quase tanto quanto as A Copa de 1970, no México, foi um
“Daqui a pouco chega o leiteiro e a veis momentos esportivos aqueles nem transmissões de rádio com Fiori Gigliot- marco histórico não somente para o fute-
gente ainda vai estar aqui narrando esta tão inesquecíveis assim. ti, Pedro Luiz, Darci Ribeiro e, mais tarde, bol, como também para as transmissões
cobrança de pênaltis.” O comentário, Nascido em Piraju, interior paulista, Joseval Peixoto”. esportivas brasileiras. Estávamos vivendo
entre irritado e irônico, foi disparado em 5 de janeiro de 1931, Walter gostava Greco considera Walter Abrahão um a pré-história dos satélites de comunica-
pelo narrador esportivo Walter Abrahão, de brincar de locutor desde criança, de seus maiores ídolos na crônica espor- ções, que operavam o milagre de mostrar
durante uma decisão qualquer, de um jogo quando “narrava” as próprias partidas de tiva: “Por causa dele também eu era me- um evento, ao vivo, simultaneamente para
qualquer, cujas cobranças alternadas de futebol de botão que disputava com os tido a irradiar futebol desde criança, nas todo o Brasil, fato absolutamente impen-
penalidades máximas se prolongavam amigos. Apaixonado pelo ofício, narrou peladas de rua ou em batalhas memorá- sável poucos anos antes. O País montou
noite adentro. Não me lembro quais eram seu primeiro jogo profissional já aos 16 veis de jogos de botão”, conclui. então um pool de narradores esportivos que
os times, muito menos o que eles estavam anos de idade, na Rádio Difusora Noro- Walter também criou e popularizou a se revezavam para transmitir as partidas
decidindo, mas me lembro do comentá- este de Promissão. Trabalhou também na expressão “oxo”, neologismo que lembra do Brasil, um a cada tempo de jogo. É como
rio de Walter. Era uma época em que o Lins Rádio Clube, mas seu cuidadoso pai, “chocho”, para informar que o jogo esta- se fosse, nos dias de hoje, por exemplo,
leiteiro ainda entregava leite nas casas. o comerciante José Abrahão, não acredi- va empatado sem gols. No placar, o zero Luciano do Valle narrando o primeiro tem-
Assim era Walter Abrahão, falecido no tava que locutor esportivo pudesse ser a zero, marcado como “0 X 0”, formava o po de um jogo e Galvão Bueno narrando o
dia 8 de agosto, narrador de extrema ha- uma profissão promissora e fez Walter tal “oxo” que São Paulo inteira aprendeu segundo tempo da mesma partida. No con-
bilidade verbal que tinha o poder de, entre estudar Contabilidade. Para agradar à fa- a curtir (ainda não estávamos na era das fronto seguinte, Milton Leite dividiria o
outras coisas, transformar em memorá- mília, Walter concluiu o curso, mas a transmissões nacionais). trabalho com Sílvio Luiz, e assim por dian-

42 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


FABIO SEIXO/FOLHAPRESS
te. Por mais estranho que possa parecer, foi te elogio, assim entendi. Afinal, quem reco-
exatamente isso que aconteceu naquele mendava era um dos maiores profissionais
distante 1970. Claro que Walter Abrahão da tevê brasileira”, conta.
estava lá, e imortalizou sua voz junto A atuação de Walter Abrahão como
com as imagens daquela seleção inesque- advogado (na qual, dizem, jamais cobra-
cível comandada por... “Ele”. va dos colegas de profissão) e o prestígio
O narrador esportivo Jota Júnior, hoje popular que alcançou na carreira de jor-
no SporTV, atribui a Walter grande parte nalista esportivo abriram seus caminhos
do sucesso de sua carreira: “Quando eu ain- para a carreira política. Eleito vereador de
da estava dividido entre rádio e televisão, São Paulo, em 1988, exerceu dois manda-
Walter me aconselhou a ficar apenas na tv, tos e chegou posteriormente à Presidên-
dizendo que eu me daria muito bem com o cia do Tribunal de Contas do Município,
veículo. Além de um conselho, foi um for- cargo que ocupou de 1997 a 2001.

Entre os profissionais,
uma unanimidade
“Sou de uma geração que, no começo com transmissão de Walter Abrahão. Ele
dos anos 1960, se encantou com as nar- sempre foi um apaixonado pelo esporte.
rações de Walter Abrahão e Raul Tabaja-
ra, para ficar em dois speakers (sempre
achei pomposa essa designação) que ale-
Sua forma séria e divertida de narrar uma
partida de futebol, ou basquete ou vôlei,
demonstrava que ele gostava de tudo
Cláudio Melo e Sousa,
gravam as tardes de domingo. Não tinha aquilo que movia as pessoas para um gi-
noção, na época, mas o estilo deles foi
marcante. Abrahão tinha linguagem mais
soltinha, usava expressões diferentes
násio de esportes, um campo de futebol
ou mesmo uma piscina olímpica. Se tivés-
semos mais dessa paixão nas transmissões
o esteta da palavra
como o oxo, para designar o placar de 0 x esportivas de hoje, daria gosto de assistir Leitor dos clássicos e admirador espe- tres, entre os cronistas do cotidiano), num
0 em suas transmissões na TV Tupi. tv. Walter Abrahão deixa saudades com cialmente de Eça de Queirós, sobre o qual, jantar inesquecível no antigo e saudoso
Quando havia uma defesa mais espetacu- certeza.” agora no fim da vida, pretendia escrever Florentino’s. Restaurante que, na época
lar, ele ressaltava que o goleiro posou para PAULO GUSTAVO PEREIRA, um livro, além de outro acerca de seu em que Cláudio editou o Esporte do Globo,
as objetivas do Diário da Noite, ou lasca- Diretor de Conteúdo do NFK amigo Carlos Lacerda, jornalista e Gover- se tornou uma espécie de nosso quartel-
va um “tá gorrrrdo, senhores”, ao se refe- nador do antigo Estado da Guanabara, general. Fechávamos o jornal e seguíamos
rir a um jogador acima do peso. Sem con- “De suas criações falam mais do oxo e Cláudio Melo e Sousa era um esteta da para o final do Leblon, onde encontráva-
tar que achava o máximo quando Pelé bilance, embora eu considere que sua palavra, um fascinado pelo texto bem es- mos amigos, jogávamos conversa fora e
pegava na bola e, em vez de dizer o nome melhor sacada tenha sido a de não falar crito, enxuto e repassado de emoção, co- avaliávamos erros e acertos da última
do Rei, simplesmente falava: “Ele!”. Taba- o nome do Pelé, e se referir apenas a Ele, mo aconselhou um dia ao seu jovem ami- edição e planejávamos as futuras.
jara era mais clássico e era um doce ouvi- quando o Rei pegava na bola.” go Renato Maurício Prado, seu compa- Tudo em conversas que eram, inva-
lo na TV Record, ao lado do professor Fla- JUCA KFOURI, comentarista nheiro e discípulo na Editoria de Esportes riavelmente, experiências encantado-
vio Iazetti e de Paulo Planet Buarque. esportivo da Folha de S. Paulo de O Globo nos anos 1970. ras. Extremamente culto e bem vivido,
O tom da narração de Abrahão (assim Companheiro de Armando Noguei- seu papo ia muito além do futebol ou do
como o de Tabajara) era ameno, não ha- “Meu primeiro contato pessoal com ra no apogeu do Jornal do Brasil e de próprio esporte. Falava, com igualmente
via gritaria, nenhum sinal de histeria. E Walter Abrahão foi em 1978, numa ex- Nélson Rodrigues em O Globo, Cláudio propriedade, de jornalismo, da obra te-
era quente, convidativo, dava emoção cursão da Seleção Brasileira à Europa. Eu trabalhou na TV Rio, na TV Globo, na atral de Shakespeare, da arte existente
quase tanto quanto as transmissões de rá- trabalhava na época para a Rádio/TV Ga- revista Fatos & Fotos e no diário Extra, numa tourada, de mitologia grega, de po-
dio com Fiori Gigliotti, Pedro Luiz, Dar- zeta. Nessa viagem Walter foi muito aten- veículos em que foi editor, cronista e lítica (fora grande amigo de Carlos Lacer-
ci Ribeiro e, mais tarde, Joseval Peixoto. cioso comigo, procurando passar um pou- eventualmente repórter de pautas espe- da) e até de prosas e versos.
Walter Abrahão é um dos meus ídolos co de sua experiência. Aliás, Walter tinha ciais. No Extra, sua colaboração como Sim, era, de fato, um poeta, autor de
na crônica esportiva. Por causa dele tam- essa característica, a da simplicidade e de colunista esportivo estendeu-se de 1998 três livros do gênero (O Domador de Ca-
bém eu era metido a irradiar futebol, nas sempre ajudar os profissionais em início a 2006. Paralelamente à atividade de valos, Corpo e Alma e O Passageiro do Tem-
peladas de rua, em batalhas memoráveis de carreira. jornalista, exerceu a partir de 1990 a fun- po). Na minha opinião, porém, suas mai-
de jogos de botão ou mesmo quando ia à Com o passar dos anos, tive vários con- ção da Assessor da Presidência da Rede ores poesias foram impressas nas colunas
padaria ao lado de casa, a Vila Flor. Eu pe- tatos com ele, em estádios e eventos so- Globo de Televisão. Pôde então convi- em que retratava, com inspirada leveza
gava um microfone com fio que um dos ciais. Quando eu ainda estava dividido ver mais de perto com o jornalista Ro- e acurado rigor, musas, heróis e vilões das
garçons tinha, ligava na tomada e solta- entre rádio e televisão, com as narrações, berto Marinho, o que lhe permitiu atu- quadras, das piscinas e dos campos. Foi
va a voz. Até que um dia, liguei o bichinho Walter me aconselhou a ficar apenas na ar, com segurança, como principal depo- com Cláudio, aliás, que aprendi a impor-
com uma mão e não me dei conta de que, tv, dizendo que eu me daria muito bem com ente no dvd Roberto Marinho – O Senhor tância de um vocabulário farto e de um
com a outra, apoiava na pia de inox. Le- o veículo. Além de um conselho, foi um do Seu Tempo, de Rozane Braga. Por trá- texto emocionante: – Você escreve direi-
vei um choque que me derrubou no chão! forte elogio, assim entendi. Afinal, quem re- gica coincidência, o dvd foi lançado em to, mas tem que evitar as repetições. Hoje
Mas não deixei de narrar o lance de gol, comendava era um dos maiores profissio- 8 de agosto em concorrida sessão na em dia, está-se utilizando, no máximo,
nem a vocação para o jornalismo. Porque nais da tevê brasileira. sede da Prefeitura do Rio, cinco dias 500 palavras – me disse, certa vez, sem
eu sabia que meus ídolos Walter Abrahão, Faço questão de ressaltar o lado huma- antes do passamento de Cláudio, ocor- rodeios quando lhe perguntei se gostara
Raul Tabajara, os repórteres Tom Barbosa, no de Walter. Simples, humilde, carinho- rido no dia 13 no Hospital Copa d’Or, da reportagem que eu acabara de redigir.
Eli Coimbra e Silvio Luiz (sim, esse mes- so no relacionamento com as pessoas.” em Copacabana, no qual ele estava in- “Somos contadores de histórias. E
mo) também levavam choques, com seus JOTA JÚNIOR, narrador do SporTV ternado desde janeiro, com leucemia. história sem emoção não presta”, ensi-
tijolões (os microfones portáteis), e não Cláudio, de 76 anos, era casado com Lei- nou, quando lhe entreguei uma crôni-
perdiam o rebolado.” “Walter Abrahão foi o pai do replay, o la Abrantes e pai de Pedro Eduardo, de 49 ca fria de um jogo ruim. “Até as peladas
ANTERO GRECO, comentarista esportivo bilance. Criou vários bordões para as trans- anos, e de Eduardo, 47, filhos de seu primei- têm alma. E é preciso escrever sobre elas
de O Estado de S.Paulo e da ESPN missões e até para a Tupi. Mas era o prazer ro casamento, e de Eduarda, de 11 anos. com sentimento. Nem que seja o de
de narrar que fazia a diferença. Dele e de Em sua primeira coluna em O Globo revolta pela pobreza do espetáculo”,
“Conheci Walter na Tupi em 1974, quan- outros poucos mitos. Walter era de uma após o falecimento do amigo, o jorna- resumiu, de forma brilhante.
do comecei a trabalhar na Redação da rádio. simpatia no ar tanto quanto era como pes- lista Renato Maurício Prado falou das Graças ao Cláudio, passei também a
Foi ele quem sugeriu que o vôlei deveria soa fora dele. Simpático sem ser acrítico; atividades profissionais de Cláudio, editar e, após me tornar seu assistente,
deixar de ter a chamada ‘vantagem’, que amável sem ser ácido. Até quando chama- seus hábitos, suas relações com os ami- acabei substituindo-o quando, casado
tornava o jogo lento, para ter pontos cor- va alguém de “gordo”era de um jeito suave, gos. O texto, publicado no caderno Es- com uma linda milionária, pediu demis-
ridos, idéia que ele colocou em prática num divertido. Aprendi muito com ele. Voz mar- portes, página 3, no dia 13 de agosto, e são, ‘para aproveitar a vida’.
amistoso entre Santo André e Santos, en- cante, é daquelas pessoas que me ensinaram que apresenta um perfil, diz num dos Assim era ele. E se algo me consola
tão duas equipes poderosas de vôlei mascu- a ser o que sou como jornalista.” seus trechos mais comoventes: neste momento é saber que soube viver
lino. Eu tive o prazer e a honra de ver este MAURO BETING, comentarista esportivo “Graças a ele tive ventura de sentar à com intensidade o prazer dos seus 76
jogo acontecer no Ginásio do Palmeiras, da Rádio Bandeirantes mesa com Rubem Braga (mestre dos mes- anos. Descansa em paz, amigo.”

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 43


Vidas
MARCO ANTÔNIO TEIXEIRA/AGÊNCIA O GLOBO

P OR C ELSO S ABADIN

P or mais que fosse uma


tragédia anunciada, a
morte do Diretor de
Redação do jornal O
Globo, Rodolfo Fernandes, em 27 de
agosto, comoveu profundamente os
profissionais ligados à comunicação
Durante o velório realizado no
Memorial do Carmo, no Caju, a
maciça presença de alguns dos nomes
mais importantes do jornalismo, da
política e da cultura brasileiras não
deixava dúvidas sobre a importância
de Rodolfo. Lá estiveram
carreira e sua vida. E foi exatamente
na Tribuna que Rodolfo Fernandes se
iniciou no jornalismo, logo aos 16
anos de idade. Não permaneceu,
porém, por muito tempo no Rio de
Janeiro. Preferiu trocar a cidade natal
pela capital federal, onde passou a
quadro). Pelo contrário, era um
homem cuja voz de comando se
situava na firmeza e na elegância de
seus atos e decisões. Primou sempre
pelas possibilidades humanísticas da
profissão, fazendo da solidariedade e
do bom humor duas de suas
de uma forma geral e ao jornalismo personalidades como o ex-Governador acompanhar de perto o agitado principais bandeiras.
em particular. Não só pela sua de São Paulo José Serra; o Deputado momento político do Brasil da Tanto pela sua “linhagem” de
juventude, 49 anos, como federal Miro Teixeira; os Senadores abertura democrática, durante os família de jornalistas, como pela sua
principalmente pelo profissionalismo Aécio Neves e Lindbergh Farias; o efervescentes anos 1980. Em Brasília, postura sempre serena, Rodolfo
e pela retidão de caráter que sempre Vice-Governador do Rio, Luiz trabalhou na Última Hora, Jornal de Fernandes também era chamado de
demonstrou em sua breve porém Fernando Pezão; o Prefeito Eduardo Brasília e na sucursal do Jornal do Príncipe.
marcante carreira. Paes; o Ministro de Assuntos Brasil. Atuou também na Folha de S. No dia 27 de agosto, um sábado, o
Fazia mais de dois anos que Estratégicos, Moreira Franco; o Paulo, na qual participou do projeto de Governador Sérgio Cabral decretou
Rodolfo lutava contra uma esclerose antropólogo Roberto DaMatta, a atriz modernização do jornal, comandado luto oficial de três dias e se
lateral amiotrófica, avassaladora e Sílvia Buarque, além de inúmeros por Octávio Frias Filho. comprometeu a dar o nome de
incontrolável doença degenerativa, jornalistas. Entre eles, Luis Fernando Em 1989, aos 27 anos, transfere-se Rodolfo a uma escola estadual em
mas ele não se rendeu até o último Veríssimo, Merval Pereira, Zuenir para a sucursal de Brasília de O Globo, homenagem ao jornalista que não
minuto. Internado na Clínica São Ventura, Míriam Leitão e o Vice- onde foi Coordenador de Política até chegou a ver, no dia seguinte, o seu
Vicente, no Rio de Janeiro, Rodolfo Presidente das Organizações Globo, chegar a Chefe de Redação. Em 2000, querido Flamengo enfrentar o Vasco
apresentava nas últimas semanas João Roberto Marinho. decide regressar ao Rio. Torna-se da Gama. Mas o time da Gávea
fortes sinais de insuficiência Rodolfo Fernandes carregava o dna Editor de Política, e logo no ano homenageou o jornalista, entrando
respiratória, e mesmo assim do jornalismo. Ele era sobrinho de seguinte assume a Direção de em campo de luto e respeitando um
permaneceu trabalhando na Redação Millôr Fernandes e filho do também Redação de O Globo, cargo que ocupa minuto de silêncio antes da partida.
de O Globo até dois dias antes de sua jornalista Hélio Fernandes, até sua morte. Rodolfo Fernandes deixou esposa, a
morte. Nem a perda de parte dos ironicamente o proprietário da É voz corrente entre seus colegas economista Maria Sílvia Bastos
movimentos o abalou: munido de um Tribuna da Imprensa, um dos jornais que Rodolfo era a antítese da imagem Marques, e dois filhos, Felipe e Letícia,
computador adaptado, continuava a que mais combateu as Organizações estereotipada que muitos fazem do do primeiro casamento, com Sandra
comandar sua Redação. Globo, onde Rodolfo encerrou sua jornalista estressado e agressivo (leia Fernandes.

44 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


“Não era um chefe, muito cedo a postos próximo. Na última

BETO OLIVEIRA/AGÊNCIA CAMARA


destacados, como é o semana, aumentou o
caso da direção de ritmo dos e-mails,

era um amigo” Jornalismo e de


Redação do Globo. Do
ponto de vista pessoal,
como que numa
despedida. As lágrimas
são poucas para lhe
era um ser adorável, agradecer o convívio e
“O destino não o deixou completar que merecia estima e a lição. No exercício do

FRANCISCO UCHA
nem 50 anos. Ele nasceu jornalista, foi alta consideração pelas jornalismo, era de uma
jornalista a vida toda, assim como foi suas virtudes. É com impessoalidade muito
Flamengo desde que começou a ir ao extremo pesar que a rigorosa e exemplar.”
Maracanã comigo. Vimos juntos duas comunidade jornalística MIRO TEIXEIRA,
Copas do Mundo, na Itália e na França. recebe essa notícia. É Deputado Federal e
Ele era uma pessoa extraordinária. realmente doloroso membro do Conselho
Tanto que todos os seus colegas me saber que ele se foi tão Consultivo da ABI,
disseram: não era um chefe, era um cedo.” MAURÍCIO AZÊDO, em O Globo
amigo.” HÉLIO FERNANDES, pai de Presidente da ABI, em O Globo.
Rodolfo, em O Globo. “Sempre falei que não queria escrever
“Conheci poucas pessoas com uma aura em jornal grande. Quando, afinal,
“Eu e meus irmãos sempre vimos no como a de Rodolfo. Sempre alegre, procurei reunir motivos para me
Rodolfo um jornalista de um talento educado, gentil e, ao mesmo tempo, convencer a aceitar o convite de O
imenso, curioso, competente, criativo, sempre muito rigoroso com a Globo, poder atender a um desejo de
incansável e ético. Essas características responsabilidade do jornalista. Ficamos Rodolfo pesou muito. Ele era um
ficaram bastante evidentes nos últimos amigos durante a Constituinte, em grande cara. Sinto saudades das vezes
dez anos, quando comandou a Redação Brasília, quando fui deputado, em em que conversei com ele. Rodolfo
do Globo, conseguindo manter muito 1986, mas eu já o conhecia antes, do comandou esse grande jornal com
vivo o caráter que sempre marcou o Rio. Na campanha das Diretas, lembro- firme equilíbrio e com o brilho que
jornal: não perder o espírito carioca, me dele, muito mocinho, ao lado do seu histórico exigia.“ CAETANO VELOSO,
estar absolutamente ligado à Cidade e Hélio Fernandes: Ele foi jornalista a vida toda. Doutor Tancredo” ROBERTO D’ÁVILA, em O Globo
ao Estado, mas com uma enorme jornalista e apresentador, em O Globo
influência nacional. À parte isso, foi “O Flamengo perde um ilustre
sempre um prazer tê-lo como e, entre outros, Luiz Antônio Novaes, no “Foi um dos chefes mais justos com torcedor, amante do futebol, e o
colaborador, pela pessoa adorável que comando da Redação.“ MÁRCIO CHAER, quem já trabalhei. Nos dez anos em jornalismo, um profissional que
era: sereno, amigo e bem-humorado. editor da revista Consultor Jurídico que fui editor do Segundo Caderno, sempre exerceu a profissão com
Nos dois últimos anos, apesar das sempre que ficava na dúvida em como excelência.” PATRÍCIA AMORIM,
imensas dificuldades que a doença lhe “Morreu um santo da minha profissão tratar determinado assunto, perceber Presidente do Flamengo, em O Globo
impôs, fez questão absoluta de no sentido cristão de quem que lado tinha razão, questões éticas,
trabalhar até o último dia. Desse desempenha uma obra admirável em problemas de relacionamento entre os “Era uma pessoa de quem se gostava
exemplo, e tenho certeza de que falo vida. Perdi um irmão. Conheci poucos repórteres, o melhor era sempre imediatamente, pela gentileza com que
em nome de todos os colegas do com tão elevado sentimento de consultar o Rodolfo. Ele nunca errava.” tratava a todos, de maneira igual. Um
Globo, também não vamos nos amizade e generosidade, que distribuía ARTUR XEXÉO, colunista de O Globo jornalista que honrou a sua profissão.”
esquecer.” JOÃO ROBERTO MARINHO, igualmente para reis e plebeus.” em O Globo RICARDO TEIXEIRA, Presidente da
Vice-Presidente das Organizações Globo, ANCELMO GOIS, colunista de O Globo, Confederação Brasileira de Futebol-CBF,
em O Globo. em Consultor Jurídico. “Tivemos um contato mais estreito na em nota oficial
Copa do Mundo da Alemanha, e foi um
“O Rodolfo foi um dos melhores chefes “O Rodolfo é a maior referência convívio espetacular. O estilo de chefia “Rodolfo foi ascendendo na hierarquia
que já tive. Tudo isso com a maior jornalística que eu tenho. Eu costumava dele era mais de um companheiro que do jornal e mantendo sempre a
ternura, com o maior rigor, a maior dizer que o Rodolfo era minha fonte, de um chefe, sempre discreto, calmo, mesma postura, sua serenidade e
exigência. E com aquela sempre recorria a ele. uma pessoa admirável em todos os tranqüilidade, a cada cargo com maior
FRANCISCO UCHA

elegância dele. Mostrou Apesar de sermos de sentidos.” LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO, poder e prestígio. Sequer alterava a
pra gente uma lição de mídias diferentes, a em O Globo voz e a maneira de falar com as
jornalismo, que para gente se encontrava pessoas. Era uma pessoa muito doce,
liderar uma Redação não muito. Eu discutia mais “Rodolfo era um príncipe. No jornalismo mas também muito respeitada pelos
precisa dar soco na com ele as coisas que e na amizade. Leal, veraz e perspicaz, seus colegas, pelos políticos; enfim,
mesa, não precisa dar ia fazer na carreira, no dava gosto vê-lo comandando a uma pessoa que nos deixa
grito. Nunca se ouviu trabalho. É uma das Redação, do mesmo modo como era absurdamente jovem.”
um grito. Mas também pessoas que mais prazeroso estar com ele em um bar ou SÉRGIO CABRAL, Governador do Estado
nunca abaixou a cabeça. sabem da minha vida. E num jantar de amigos. Manteve a do Rio de Janeiro, em O Globo
A comoção na Redação a gente tinha uma discreta ironia, o charme e o humor até
demonstra tudo isso. predileção por jogar o fim. Não faz tanto tempo, ainda “Com sua inteligência, seriedade e a
Era uma coisa bola: jogávamos em recebi e-mails escritos a busca constante pela
RENATOARAUJO/ABR

esperada, mas bateu Brasília, no Rio, nos golpes de olhar com o notícia completa e bem
como se fosse uma times que o Chico mesmo espírito alegre apurada, Rodolfo
surpresa. Está sendo (Buarque) montava.” com que o conheci há Fernandes marcou
um choque para todos HERALDO PEREIRA, 25 anos. Deixa época no jornalismo
nós. Uma perda para o jornalismo. Um repórter, comentarista de política e saudades e um vazio brasileiro à frente das
grande jornalista. E com apenas 49 apresentador da TV Globo, em O Globo. imenso.” FERNANDO mais importantes
anos.” ZUENIR VENTURA, em O Globo. HENRIQUE CARDOSO, ex- coberturas da História
“O Rodolfo cobria o Planalto, muito Presidente da República, recente do País.
“Rodolfo Fernandes aperfeiçoou no novo, e era considerado um prodígio no em O Globo. Lamento sua partida
Globo o que há de melhor no jornalismo. Tinha um diferencial, tão precoce, mas tenho
jornalismo brasileiro: o humanismo, a porque fazia as matérias sempre com “A morte inevitável para certeza de que ele
solidariedade e, sempre que possível, o mais sensibilidade, mais gostosas de todos lhe foi anunciada deixa seu exemplo às
bom humor. Não por acaso ele ler. JOÃO DOMINGOS, repórter de com prazo certo para novas gerações de
valorizou o trabalho de profissionais O Estado de S. Paulo, em O Globo. chegar. Não o jornalistas brasileiros.”
como Chico Caruso, Ancelmo Gois e intimidou. Parece que HELENA CHAGAS,
Chico Otávio. Não por acaso ele se fez “Essa é uma perda muito grave para o nesse breve tempo Ministra da Secretaria de
cercar de pessoas como Ascânio jornalismo porque Rodolfo era um nasceu outra vida, com fibra redobrada. Comunicação Social da Presidência da
Seleme, José Casado, Aluizio Maranhão profissional muito talentoso, ascendeu Também parece que percebeu o fim República em nota oficial

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011 45


Vidas

Procópio Mineiro, o jornalista Procópio,


que não se rendeu à Proconsult dignidade
acima de tudo
Foi a firmeza dele, à frente do Jornalismo da Rádio JB, que desmontou a fraude
que tentava arrebatar a vitória de Leonel Brizola para Governador do Rio em 1982. POR S IDNEY R EZENDE

A minha primeira oportunidade no


Além do seu fecundo trabalho à

ÁLBUM PESSOAL
jornalismo somente aconteceu por causa
frente da Redação da Rádio JB nos de um convite de minha colega de
anos 1980, o jornalista Procópio faculdade Ana de Ava Câmara. Ela
Mineiro ficou conhecido conseguiu uma janela na programação da
nacionalmente porque foi um dos Rádio Roquette-Pinto, no Rio de Janeiro.
responsáveis pela revelação do Gente da Terra, Terra da Gente dedicava
escândalo da Proconsult, nas eleições o seu editorial ao homem do campo.
Quando Leonel Brizola venceu a
para o Governo do Estado do Rio de
eleição de 1982, mudou toda a direção da
Janeiro em 1982, que quase tirou a emissora e fomos dispensados do nosso
vitória do então candidato Leonel de “breve estágio”. Eu era um estudante/
Moura Brizola. Procópio, que faleceu locutor sem expressão. Mas um
no dia 24 de julho de um acidente colaborador aplicado.
vascular-cerebral, também foi Diretor Quando o novo diretor assumiu é que
de Jornalismo da Rádio Roquette- Pinto soubemos que ali se pretendia fazer uma
programação mais fortemente jornalística.
em duas ocasiões e ultimamente
E, de fato, foi um sucesso. Da última
trabalhava como redator na Imprensa colocação no ranking, a nova grade
Oficial do Estado do Rio de Janeiro. escalou para o quinto lugar de audiência.
Ele foi sepultado no cemitério de Irajá O novo gestor chamava-se Procópio
no domingo 31 de julho. Mineiro, egresso, como seus demais
Natural de Pernambuco, Procópio companheiros, da respeitada Rádio Jornal
veio para o Rio de Janeiro com 12 anos do Brasil. Todos com intimidade na
“latinha”, expressão cunhada para os que
e desde então sempre morou em São Procópio Mineiro ao lado de Vanessa Rodrigues, a companheira dos últimos três anos.
sabiam falar no microfone.
João de Meriti, na Baixada Só para relembrar para os mais jovens,
Fluminense. Criador da revista
Ecologia e Desenvolvimento, vencedora
de diversos prêmios de reportagem, foi
“Com a firmeza de seu caráter, a Rádio JB era um exemplo de
credibilidade na comunicação do nosso
País. Com muita coragem, ela ajudou a
um dos fundadores na Imprensa
Oficial do Estado do Rio de Janeiro do
ele suportou a pressão” manter vivo na sociedade o sentimento
de que vale a pena lutar pela democracia.
Procópio Mineiro comandava a equipe
periódico D.O. de Notícias, existente A atuação de maior destaque de Pro- Sem a influência de Procópio, diz Pery
na Rádio JB durante a montagem da
até hoje. cópio Mineiro aconteceu quando era Cotta, a fraude naquelas eleições não apuração paralela que possibilitou
Sócio da ABI há 34 anos, Procópio Diretor de Jornalismo da Rádio JB e co- seria descoberta: desmascarar a tentativa de fraude que
foi autor de um dos mais belos textos mandou a equipe que desvendou a frau- “Tudo aquilo só foi possível porque o ficou conhecida como o escândalo da
em homenagem ao centenário da de nas eleições diretas para Governador Procópio bancou e suportou a pressão, Proconsult. Uma manobra fraudulenta que
Casa, publicado na revista O Prelo, da do Estado do Rio de Janeiro, em 1982, no graças à firmeza, ao caráter e ao espírito tinha a intenção de barrar Brizola e
Imprensa Oficial, em abril de 2008, e episódio conhecido como o “escândalo profissional que ele tinha, e em função conduzir ao poder o atual Ministro de
Dilma Rousseff, Moreira Franco.
transcrito na íntegra, por sua da Proconsult”. do espírito de uma equipe que ele mon-
Um dia toca o telefone da minha casa
excepcional qualidade, no Jornal da ABI. Pery Cotta, Presidente do Conselho tou”, destacou Pery Cotta. e do outro lado da linha, com a voz bem
Deliberativo da ABI e colega de Procópio calma, um homem se identificou antes da
Presença fundamental na Rádio JB na época, lembra de detalhes “Fiel às causas do frase direta: “Aqui é o Procópio, o novo
Beatriz Bissio, editora da revista daquela cobertura histórica: povo brasileiro” diretor da ‘Roquette’ e eu ouvi a Rádio nos
Cadernos de Terceiro Mundo, na qual “Montamos uma estrutura especial Luiz Erthal, companheiro de Procó- últimos meses e gostaria de saber se você
Procópio Mineiro também trabalhou para a cobertura, pois sabíamos que ha- pio na Imprensa Oficial do Estado do aceitaria o convite de trabalhar conosco?”.
Eu senti um aperto no coração e, ao
como editor, falou sobre o via um esquema de favorecimento às Rio de Janeiro desde o primeiro Gover-
mesmo tempo, uma felicidade
desaparecimento de seu antigo Organizações Globo. Então, tínhamos no Brizola no Estado do Rio de Janeiro incomensurável. Eu disse sim, sem
companheiro: que ter um esquema próprio. Botamos (1983-1987), elogiou as escolhas profis- pestanejar. Era o início de uma carreira em
“É uma perda irreparável, ele era repórteres em cada Zona Eleitoral, os sionais feitas pelo companheiro ao lon- que já se vão quase 30 anos. Eu tenho
um amigo muito querido, um braço- quais passavam os dados por telefone go da vida: orgulho muito grande de ter compartilhado
direito e sempre muito positivo. Foi para nossa central de apuração.” “Ele sempre fez as escolhas na vida a aqueles anos com uma das equipes mais
um brilhante jornalista, Conta Pery que na seqüência da apura- favor dos interesses do povo brasileiro. incríveis do jornalismo.
Pois bem. O querido Procópio Mineiro
extremamente culto e preocupado ção se percebeu a discrepância entre os Por sua atuação em 1982, teve que fazer
da Silva, que apostou naquele
com os rumos do Brasil e com o números oficiais que estavam sendo divul- uma escolha e optou pelo lado certo, o inexperiente jovem repórter, foi sepultado
aprofundamento da democracia. Aqui gados e os que foram apurados pela Rádio: que lhe custou caro, pois passou a ser per- no Cemitério de Irajá neste domingo (31/7),
ele foi uma presença fundamental. A “O Procópio teve uma enorme parti- seguido e nunca mais conseguiu um na Zona Norte do Rio de Janeiro, com
revista sempre teve a marca dele, cipação nesse esquema, e nós acabamos cargo de destaque no Jornalismo”, dis- apenas 65 anos de idade.
muito meticuloso como editor”, descobrindo essa fraude. Os outros veí- se Erthal, revelando que Procópio pre- A saudade é grande. Homem simples,
afirmou Beatriz. culos davam o resultado oficial que eram tendia publicar no ano que vem um digno, não colocou um centavo no bolso
além do seu salário de jornalista. Ele era
O Presidente da Imprensa Oficial os dados da Proconsult, e nós éramos pres- livro sobre os 30 anos do escândalo da
de uma dignidade a toda prova.
do Estado, Haroldo Zager, também sionados inclusive pelo Sistema de In- Proconsult. Sobre as qualidades do co- Poderíamos resumir seu caráter em duas
lamentou a morte de Procópio: formática do JB, que dizia que nós está- lega, ele acrescentou: palavras: pessoa honesta.
“Ele sempre foi um colaborador de vamos errados, mas ele (Procópio) foi “Foi um jornalista que não se rendeu,
primeira hora, um profissional de mão extraordinário no apoio e no crédito ao foi fiel até o fim da vida aos seus princí- Texto publicado no dia 2 de agosto no portal
cheia, tinha uma consciência plena e trabalho que estávamos fazendo”, con- pios, ao bom jornalismo e às causas a fa- SRZD, de Sidney Rezende (sidneyrezende.com),
disponível no endereço goo.gl/bUptk
um ótimo caráter”, lembrou Haroldo. tou o Presidente do Conselho da ABI. vor do povo brasileiro”, sintetizou Erthal.

46 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011


Riomar, um mestre
P OR V ERÔNICA C OUTO gre, de onde foi para o Rio – para O

GISELE TEIXEIRA
Globo, Gazeta Mercantil, Folha de S.
Chefe de Reportagem por vários anos Paulo, Jornal do Brasil. Foi correspon-
e de jornalistas de mais de uma geração, dente no Rio do Coojornal, projeto de
a quem formou, orientou, acolheu, Ri- jornal alternativo do Sul. Nos anos
omar Trindade foi embora. Morreu dia 25 1990, mudou-se para Brasília – traba-
de agosto, aos 66 anos, na sua casa, em lhando também na Gazeta Mercantil,
Copacabana, Rio de Janeiro. Deixa dois no Jornal do Brasil, em O Estado de S.
filhos, Renato e Marco, e muita saudade. Paulo e no Correio Braziliense. De volta
Era gaúcho de Santana do Livramento, ao Rio, já doente, trabalhou na Empre-
cidade do Rio Grande do Sul na frontei- sa Brasil de Comunicação-EBC.
ra com o Uruguai. Circunstância que O perfil de Riomar Trindade no Face-
explica um pouco, mas não totalmente, book recebeu dezenas de mensagens de
o modo veemente e bastante próprio de afeto, após a notícia da sua morte. Mui-
falar, em que se misturavam tangos, tos jornalistas o homenagearam em blo-
milongas, candombes. Era apaixonado gs e crônicas. O próprio Vicente Nunes
pelo jornalismo, obsessivo no cuidado (no Blogdovicente) registrou o “sentimen-
com a apuração e com o texto claro, lim- to de vazio” deixado pela perda do ami-
po. Fora da Redação, varava a noite com go. “Com ele, tive as melhores lições que
os amigos, lamentando erros, comemo- um profissional pode ter. Seu jeito de ser,
rando acertos, cantando. Quase sempre, de falar alto, muitas vezes enrolado, as-
antes de pedir a saideira, a inescapável sustava à primeira vista. Não à toa, tinha
Mano a Mano, de Carlos Gardel. Engaja- o apelido de ‘bagual’, que, no Rio Gran-
do no bom combate, implacável contra de do Sul, onde nasceu, significa ‘cavalo
o mau-caráter. “Para conhecer o sujeito, chucro, indomável’. Mas era somente
repare se ele manda as críticas por escri- uma defesa. Uma barreira que logo era
to e elogia por telefone – porque isso não quebrada por gestos de generosidade
se faz”, ensinou uma vez. incomuns. Muito do que conquistei nos
Paulo Totti, repórter especial do Valor meus quase 25 anos de carreira devo a
Econômico, era editor de política e nacio- ele, que me mostrou o jornalismo ético,
nal em O Globo, em 1976, quando o co- questionador, persistente, que não desis-
nheceu. “Apareceu uma matéria feita por te diante das dificuldades, desde que o
um repórter de geral, com um texto objetivo seja o de levar aos leitores as
muito bom, surpreendente, superior à melhores informações.”
média da reportagem que eu conhecia. Patrícia Cunegundes Guimarães, no
Quis saber quem era o cara. Ele falava de blog Zeromeia, também lembra o esti-
uma forma esquisita, mas conseguia se lo bagual, inflexível na defesa dos seus
expressar por escrito muito bem”. Fica- amigos e da sua equipe. “Em dezembro
ram amigos. “O tipo de amizade que, em de 2000, eu desembarquei em Brasília
jornalismo, é muito gostosa, porque para conhecer meus colegas de Reda-
surge no trabalho. Depois que a gente se ção na GZM [Gazeta Mercantil]. Voltei
torna amigo, fica com o respeito profis- Riomar descontraído nos tempos da “república dos cariocas”, na casa do Lago sul, em Brasília. para Fortaleza, para organizar a mudan-
sional pela pessoa.” ça, apavorada. Não entendi uma pala-
Com exceção de pequenos intervalos, vra do que aquele gaúcho dizia. ‘Se eu
praticamente por toda a década de 1980, como minhas matérias ficavam melho- bém estiveram lá Carlos de Lannoy e disser que não entendi o que ele falou,
os dois conviveram na Gazeta Mercantil. res do que as de outros repórteres até Cláudia Bensimon – os dois ficaram ali apanho.’ A primeira impressão se dis-
“Riomar era tremendamente rigoroso no mais experientes no setor.” No final de até o ano 2000. E quase todas as fontes sipou em pouco tempo. De bravo, só a
trabalho. Impunha-se pelo respeito pro- 1993, passaram três dias sem se falar. importantes de economia e política de voz. O coração molengo cuidava de to-
fissional, sem precisar recorrer à autori- Repórter de Economia, Vicente escapou Brasília devem ter visitado a “repúbli- dos nós como filhos. Era um chefe que
dade do posto. As pessoas o respeitavam no sorteio que escolheu quem ia passar ca” alguma vez. defendia a equipe, que se preocupava,
muito.” Especialmente, à frente da che- a virada do Ano-Novo acompanhando que ensinava.”
fia de Redação da sucursal, onde esteve Fernando Henrique Cardoso, então Mi- Indomável No artigo “Meu querido Riomar”, Jor-
a maior parte do tempo. “É uma posição nistro da Fazenda e candidatíssimo ao A casa de Brasília era grande, com ge Oliveira descreveu a chegada de Rio-
complicada, em que a pessoa se relacio- Planalto. Mas o chefe não facilitou. “Ele quatro suítes, piscina. Mas nem precisa- mar Trindade no Céu, carregando a
na para cima e para baixo. E ele a ocupa- soube do sorteio e não gostou: ‘quem va. Arthur Monteiro, na sua coluna na madrugada na sacola. O texto foi repro-
va com muita competência, sempre de- está chefiando o plantão sou eu, e quem agência ABC Digital, lembrou que foi duzido na internet por jornalistas de
fendendo as suas equipes.” vai fazer é o Vicente’. Fiquei muito bra- recebido em acomodações bem mais todos os cantos do País, entristecidos pela
Na década seguinte, anos 1990, o Edi- vo. Mas foi uma cobertura histórica, modestas. “Riomar Trindade me fez uma morte do repórter, chefe de reportagem,
tor de Economia do Correio Braziliense, importante, e ele tinha toda a razão.” que pouca gente faz. Acolheu-me por editor, amigo, dono das madrugadas de
Vicente Nunes, foi dos amigos que esti- Os dois vieram para Brasília no iní- uma semana em seu minúsculo aparta- Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília. A
veram mais próximos de Riomar. “Con- cio da década de 1990, Riomar para o Es- mento da Rua da Praia, quando eu não jornalista Cristina Chacel costumava
vivi com ele metade da minha vida, a tadão, Vicente para o Correio Brazilien- tinha onde ficar. Um colchão no chão da saudá-lo no restaurante Lamas, no Rio,
melhor fase dela”, diz. Conheceram-se se. E surgiu a “república dos cariocas”, sala era tudo de que eu precisava até ajei- cantando um trecho de um samba da
no Jornal do Brasil, em 1991. “Eu era casa no Lago Sul, onde moraram os dois tar as coisas. Aquele gesto de generosida- Portela, Lendas e Mistérios da Amazônia:
inseguro, cobria mercado financeiro. E (um gaúcho e o outro, paulista), ao lado de vou levar sempre comigo.” “A Lua apaixonada chorou tanto, que do
ele me dava todas as orientações: ouve tal dos jornalistas Rosane Oliveira, Paula Riomar começou a carreira na Pla- seu pranto nasceu o rio, o mar.” E o Rio-
pessoa, escolhe tal abordagem, destaca Santamaria, Daniela Schol. Com algu- téia, jornal de Santana do Livramento. mar sorria de orelha a orelha. Quem viu
um personagem. E era impressionante mas mudanças nos moradores – tam- Trabalhou na Zero Hora, de Porto Ale- esta cena não esquece.

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