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O delineamento de pesquisa qualitativa*

Jean-Pierre Deslauriers
Michele Kérisit

. Em várias disciplinas, o processo da pesquisa científica é nitidamente o mesmo


entan-
e?; pesquisadores aplicam, no conjunto, os mesmos princípios de ação. No
caminho seme-
to, se muitos
argumentam que quantitativos e qualitativos seguem
lhante, o debate nem por isso está encerrado entre os pesquisadores:
quantitativos
e qualitativos procedem da mesma ?a?ei!?? Ou,_?m
outras palavras, existe umde-
jfrieamento de pesquisa próprio à pesquisa qualitativa?
Quândo a pesquisa qualitativa retomm; ???--for-ça, no final dos anos 1960,
mas, principalmente, na metade dos anos 1970, seus partidários
pretendiam que
ela apresentasse características particulares; na opinião
de seus promotores mais
zelosos, a pesquisa qualitativa recorria a técnicas que a diferenciavam,
radicalmen-
te, da pesquisa quantitativa. Nesse período, era comum
opor os bons "qualitati-
vos" aos menos bons "quantitativos". Entretanto, passado esse período de defesa, e
após os pesquisadores qualitativos terem realizado alguns trabalhos
relevantes, pa-
receu que o procedimento geral de pesquisa que eles seguiam era sensivelmente o
mesmo que aquele percorrido pelos outros pesquisadores; o pesquisador se pro_-_
p(l.e_grna questão e colhe informações para
respondê-la; ele trataos dados, anali-
sa-os e tenta demonstrar como eles perm1tem responder ao seu problema
. inicial.
o7£a:ú:,·:-num delineamento de pesquisa qualitativa, encontram-se os elementos co-
. muns a todo projeto de
pesquisa.
Essa nuança não deve permitir pensar que tudo é do semelhante ao mesmo.
Efetivamente, a pesquisa qualitativa instaurou uma tradição própria, que evolui e
seme-
confere uma coloração particular ao seu delineamento; se a lógica de base é
lhante em toda pesquisa, o delineamento de pesquisa qualitativa tem aspectos e
um desenvolvimento que o distinguem. É bem verdade que as semelhanças
possi-
bilitam que os pesquisadores qualitativos estabeleçam um diálogo com os outros

* Este capitulo de recherche en sciences


se baseia em urn texto de M. Kérisit, La construction de l'objel
53 p. (preparado no âm-
humaines et la recherché qualitative, Universidade do Quebec em Hull, 1992,
Qualitativa).
bito do projeto especial do Conselho Quebequense da Pesquisa Social, sobre a Pesquisa

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pesquisadores, e também que as particularidades da pesquisa qualitativa ilustrem
sua contribuição ao desenvolvimento metodológico nas ciências sociais.
Este artigo apresenta as diferentes etapas do processo de pesquisa qualitativa e
fornece uma visão da totalidade daquilo que um delineamento de pesquisa qualita-
tiva deve conter. Todavia, é preciso especificar que a própria pesquisa qualitativa
se divide em várias correntes, cada uma tendo uma perspectiva própria, as quais
não serão aqui examinadas, uma vez que se dará prioridade ao procedimento geral
em pesquisa qualitativa, no qual diferentes correntes, sem dúvida, poderão se re-
conhecer.
Também nos interessaremos pelos diferentes elementos do delineamento de
pesquisa qualitativa, desde a construção do objeto, passando pela coleta de dados,
até a redação do relatório. No entanto, a lógica da apresentação não é a da ação;
neste caso, e por necessidade de causa, a apresentação dos diferentes elementos da
pesquisa qualitativa seguirá uma ordem linear que nem sempre é a encontrada na
própria prática da pesquisa.

O delineamento de pesquisa qualitativa


Como ocorre frequentemente nas ciências sociais, ninguém se entende quanto
aos termos, a tal ponto que "delineamento", "design", "plano de pesquisa", "proto-
colo de pesquisa", "projeto de pesquisa", e "modelo operatório", acabam desig-
nando a mesma coisa, quase com poucas nuanças. De uma forma geral, esses ter-
mos se referem ao documento no qual o pesquisador apresenta a pesquisa que ele
pretende r?alizar e o modo como ele procederá:
O plano de pesquisa consiste na organização das condições de coleta e
análise de dados, de modo a ter-se garantia, ao mesmo tempo, de sua
pertinência em função dos objetivos da pesquisa e da parcimónia dos
meios. O que significa dizer que os planos de pesquisa variam segun-
do os objetivos desta mesma pesquisa (SELL TIZ; WRIGHTSMAN;
COOK, 1977: 90).
Pode-se dar uma interpretação mais ampla ao termo delineamento de pesqui-
sa; além do aspecto metodológico, ele pode também compreender o problema de
pesquisa, a problemática que o inspirou, a estratégia de pesquisa e sua pertinência
(CONTANDRIOPOULOS et al., 1990: 15)
Vários fatores influem na escolha e elaboração do delineamento de pesquísa.A
pesquisa pode visar à exploração, à descrição, ou à verificação; ela pode ser realizada
em um meio que se presta à experimentação, ou, ao contrário, em um local que Q
·

pesquisador não pode controlar. O delineamento variará, portanto, não apenas em


função do objetivo da pesquisa, mas também segundo as possibilidades e os limites
-? nos quais esta se desenvolve. Nesse sentido, podem-se distinguir cinco delineamen-
tos principais, utilizados nas ciências sociais: o estudo de caso, a comparação multi-

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caso, a experimentação no campo, a experimentação em laboratório e a simulação
?mp.utador.(LESSART-HÉBERT; GOYETTE; BOUTIN, 1990: 163).
?elineamento de pesquisa também varia conforme a interação dos dados e
da análise, como o ilustra o esquema seguinte
1:

Dados

Quantitativos Qualitativos
Quantitativa II
Análise
Qualitativa Ill IV

A primeira célula indica que os dados quantitativos são analisados de modo


quantitativo. É o caso das sondagens com questões fechadas, em que as respostas são
submetidas ao tratamento estatístico. Na segunda, os dados qualitativos são analisa-
dos por meio de uma aparelhagem destinada à quantificação dos dados; pensamos,
aqui, na análise automática do discurso. A terceira célula poderia ser aquela da análi-
se crf.dca dos dados sobre os rendimentos; por exemplo, com o auxílio de um quadro
de análise qualitativo, o pesquisador reinterpreta os dados fornecidos pela Statistí-
que Canada, relacionando a questão da renda à do poder. Por fim, na quarta célula, o
pesquisador analisa dados qualitativos de modo qualitativo.
É nesse quarto caso que se situa a maioria dos delineamentos de pesquisa qua-
litativa. Com efeito, ainda que muitos tenham demonstrado a possibilidade de fa-
zer uma análise estatística dos dados resultantes, por exemplo, da observação par-
ticipante, a maioria dos pesquisadores qualitativos descartou esta possibilidade e
continua tratando os dados qualitativos de modo qualitativo. Certamente, há dife-
renças entre a análise progressiva dos casosda indução analítica, a comparação de
grupos da teoriz_açã? enraiza?''Í__rounded theor9 aprofundamento de um caso
da abordagem biografica ou do estudode caso; porem todos esses procedimentos
têm em comum uma estratégia semelhante.

Os temas privilegiados da pesquisa qualitativa


A pesquisa qualitativa não convém a todos os temas de pesquisa possíveis.
Dito isto, Marshall e Rossman enfatizam a utilidade e a superioridade metodológi-
ca da pesquisa qualitativa em determinadas situações, notadamente quando:

?_p_e5-9.??_;;ã?_pg?e ser realizada de modo experimental,_p_o_i:_:?z?:?£1:.áti??5-


ou éticas;

l. Este esquema me foi sugerido, há alguns anos, por Richard Lefrançois, da Universidade de Sher-
brooke.

129
• a pesquisa tem por objetivo aprofundar processos ou fenômenos complexos;
• a pesquisa comporta variáveis pertinentes, que não tenham ainda sido
deli.
mitadas;
• a pesquisa pretende explorar em que momento e onde os políticos, o
bom.
senso popular e a prática malogram;
• a pesquisa se refere a sociedades desconhecidas ou estruturas inovadoras;
• a pesquisa se refere aos processos organizacionais, suas ligaçôes informais
e
não estruturadas;
• a pesquisa se refere aos objetivos organizacionais reais, por oposição àqueles
que são pretendidos (MARSHALL & ROSSMAN, 1989: 46).
Em resumo, e para além dos argumentos de ordem metodológica, parece que a
pesquisa qualitativa se aplica melhor a certos tipos e temas de pesquisa. Examina-
remos alguns deles, nos parágrafos seguintes.

As pesquisas descritivas e exploratórias

A pesquisa qualitativa tem sido, inúmeras vezes, utilizada para descrever uma si-
tuação social circunscrita (pesquisa descritiva), ou para explorar determinadas
questões (pesquisa exploratória), que, dificilmente, o pesquisador que recorre a mé-
todos quantitativos consegue abordar. Efetivamente, por seu caráter exemplar e Iu-
gaz, vários fenômenos sociais resistem à mensuração. Uma pesquisa qualitativa de
natureza_ exploratória possibilita familiarizar-se com as pessoas e suas preocupações.
Ela também pode servir para determinar os impasses e os bloqueios, capazes de en-
travar um projeto de pesquisa em grande escala. Uma pesquisa descritiva colocará
a questão dos mecanismos e dos atores (o "como" e o "o quê" dos fenômenos); por
meio da precisão dos detalhes, ela fornecerá informaçôes contextuais que poderão
servir de base para pesquisas explicativas mais desenvolvidas. Entretanto, ela é, a
maior parte do tempo, completa em si mesma, e não tem obrigatoriamente necessi-
dade de ser continuada por outros pesqui?adores, por meio de outras técnicas.

O estudo do cotidiano e do ordinário

O objetivo de uma pesquisa qualitativa pode ser o de dar conta das preocupa-
ções dos atores sociais, tais quais elas são vividas no cotidiano. A ênfase recai sobre
"toda a proximidade social, isto é, todos os lugares e momentos em que a relação
social toma forma em sua concretude, e não mais o que se poderia chamar de o so-
cial construído" (SOULET, 1987b: 14). O objeto de pesquisa se refere, então, à
"história social dos objetos mais ordinários da existência ordinária: [ ... ] todas essas
coisas tornadas tão comuns, portanto, tão evidentes, que ninguém presta atenção
a elas, a estrutura de um tribunal, o espaço de um museu, o acidente de trabalho, a
cabine de voto ... " (BOURDIEU & WACQUANT, 1992: 209).

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o cotidiano da sala de aula, o da cultura organizacional de uma empresa, o do
trabalho das mulheres ou dos homens, por exemplo, são os objetos privilegiados
lie uma abordagem qualitativa. Esse cotidiano constitui as "construções múltiplas
e efêmeras da vida de todos os dias, ou seja, a exuberãncia da vida cotidiana, cujo
aspecto heterogêneo não se deixa reduzir pela lógica formalizada do 'dever-ser'"
(SOULET, 1987b: 16). Graças a seus instrumentos, como a história de vida, a ob-
servação participante, ou a análise de conteúdo, a pesquisa qualitativa permite mais
particularmente estudar esses momentos privilegiados, dos quais emerge o sentido
de um fenômeno social.

estudo do
O ..--;---·· transitório
O pesquisador localiza no tempo e no espaço os momentos em que as estraté-
gias dos atores se evidenciam conjuntamente, e também reúne as perspectivas até
então manifestadas enquanto intenções individuais. Desde então, não são mais
apenas as regularidades que retêm a atenção, mas as crises que se estabelecem
como indícios reveladores do momento em que a ordem social antiga não existe
mais, e em que se opera a mudança social. Os fenõmenos da marginalidade, da mu-
dança, do inédito, da transição, não podem ser explicados pela regularidade, já que
eles assinalam uma ruptura com as normas dominantes: se eles têm como pano de
fundo a estrutura social de onde nascem, é geralmente impossível retirar uma am-
pla amostragem de caso, em razão da própria natureza da variável que torna im-
possível um recenseamento da população. Daí a importância de três elementos que
surgem constantemente nos estudos qualitativos: o contexto, a história (ou a dia?
· -- ·· --
c??-?d<1nça social. - · · · · -·

O estudo do sentido da ação

A pesquisa científica recusa se deixar levar pelo senso comum proposto pelos
atores sociais, e também recusa reduzir-se a uma ficção teórica que aniquilaria
o vivido desses atores. A construção teórica pode, contudo, ser o
fato do indiví-
duo-pesquisador, ou levar à contribuição os sujeitos da pesquisa, como é o caso na
pesquisa-açã?.:.? _pesquisa Ierninísta. Um dos objetos privilegiados da pesquisa
qualitativa é, portanto, o sentido que adquirem a ação da sociedade na vida e os
comportamentos dos indivíduos, assim como o sentido da ação individual quando
ela se traduz em ação coletiva.

Afirmar que a pesquisa qualitativa privilegia o vivido dos atores sociais não
significa, todavia, que ela se reduziria a uma descrição minuciosa de ações ou de
fenômenos observáveis. Nisso, pode-se dizer que o objeto por excelência da pes-
?ualitati.Y-a.é a ação interpretada, simul_taneamente, pelo pesquisador e pelos
?-?ª_P.esquisa; de onde a importãnci?_?ª _l?n_g?agem e das conceituações que
devell!_ci_a_i: _c;opta _tanto do objeto "vivido", como do objeto "analisado". 1
'\

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,- A avaliação das políticas

0
Há alguns anos, os pesquisadores descobriram as virtudes da abordagem qua.
litativa na pesquisa aval iativa; os trabalhos de Patton (1980, 1982, 1986, 1987) fi.
zeram escola e deram uma opção de escolha à abordagem qualitativa. Do mesmo
modo, redescobriam-se as vantagens da pesquisa qualitativa aplicada à análise das
políticas sociais ou organizacionais. Certamente, esse campo é bastante diversifi.
cado e abrange uma variedade de práticas; contudo, à medida que os trabalhos se
acumulam, delimita-se melhor o que caracteriza a pesquisa qualitativa sobre as po.
líticas sociais. Como o assinala Majchrzak:
Ainda que a pesquisa sobre as políticas possa apresentar diversas facetas, glo-
balmente várias particularidades a diferenciam dos outros tipos de pesquisa:
• ela tem um objeto multidimensional;
• ela é ele orientação empírico-indutiva;
• ela se reporta ao futuro, bem como ao passado;
• ela é sensível aos utilizadores elos resultados;
• ela reconhece explicitamente os valores que veicula (MAJCHRZAK, 1984: 18).
As características da pesquisa qualitativa fazem com que ela traga uma contribui-
ção substancial à pesquisa sobre as políticas sociais. Assinalemos, nesse sentido, sua
proximidade ao campo no qual se tomam as decisões e onde se vivenciam as reper-
cussões regionais, familiares e individuais das políticas sociais globais; sua capaci-
dade de considerar os diferentes aspectos ele um caso particular e relacioná-los ao
contexto geral; sua capacidade ele formular proposições ligadas à ação e à prática.
Essas vantagens fazem com que a pesquisa qualitativa seja cada vez mais utilizada,
quando se trata de analisar as políticas sociais e avaliar seus efeitos concretos.

O objeto de pesquisa
O objeto de pesquisa é, geralmente, definido como uma lacuna que é preciso
preencher: "Um problema ele pesquisa se concebe como uma separação conscien-
te, que se quer superar, entre o que nós sabemos,julgado insatisfatório, e o que nós
desejamos saber, julgado desejável" ( CHEVRIER, 1993: 50). Ele se insere, portan-
to, numa problemática do avanço elos conhecimentos: o pesquisador escolhe seu
objeto em função das faltas que ele detecta no corpus constituído elas ciências so-
ciais. No início, portanto, antes que o pesquisador passe à construção propriamen-
te dita de seu objeto de pesquisa, uma questão se impõe ao seu espírito. Ela pode
ser geral ou precisa, mais simples no início e mais complexa depois, mas ela não
tem a precisão que envolverá o objeto de pesquisa, no final. Em certos casos, a
questão permanece tal como foi proposta inicialmente, o pesquisador explorando
uma ou outra de suas facetas; em outros casos, a questão será totalmente transfor-
mada, no decorrer do processo. O certo é que em todos os tipos ele pesquisa, mas

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principalmente na pesquisa qualitativa, o objeto de pesquisa é, ao mesmo tempo,
um ponto de partida e um ponto de chegada.
A tradição da pesquisa qualitativa frequentemente insistiu no caráter pessoal
dos trabalhos. O envolvimento do pesquisador em seu objeto é, portanto, emocio-
nal e constituirta o ponto de partida. Assim; segundo Marshall e Rossman (1989:
iI?h.Íeto escolhido deve ser um objeto de preocupação ou de curiosidade. É,
então, importante que a questão epistemológica-da .relãçãó com o outro se insira na
psicologia individual do pesquisador ou em seu pertencimento a um grupo social
ao qual ele se vincula, ou que ele rejeita. O pesquisador construiria, portanto, seu
objeto a partir de uma r:de ?-in?es:::. que orientam sua escolha. Nessa via, Sil-
verman escreve:
Eu suspeito que as primeiras etapas da pesquisa se distanciam dema-
siado da lógica e da cronologia, como o atestam as comunicações
científicas. A maior parte da pesquisa está ligada ao acaso e a circuns-
tâncias concernentes ao próprio pesquisador, no contexto econõrni-
co, social e político, no qual ele atua (SILVERMAN, 1985: 4).
Essa perspectiva deve ser nuançada. Efetivamente, o projeto de pesquisa quali-
tativa não se elabora somente no silêncio do escritório do pesquisador, ou na exci-
tação do procedimento de campo; ele também se constrói nas agências do Estado -
sobretudo quando da instalação de programas de pesquisa, ou da apresentação de
pedidos de subvenção de pesquisa (SOULET, 1987a: 57). Comparando as estraté-
gias de pesquisas conduzidas pelos praticantes da ação social e aquelas dos centros
l!!!iversitários, Soulet mostra que o Objeto de pes9uisa é construído diferentemen-
te por uns e outros. Para os primeiros, "a realização de um processo de pesquisa
[ ... ) pressupõe como condição mínima o respeito à realidade. O objeto de pesquisa

é, neste sentido, assimilado ao objeto-problema e se assemelha a um dado empíri-


co que convém descrever tão fielmente quanto possível" (p. 56). O objeto se apre-
senta, então, sob o ângulo da investigação profissional. Ao contrário, "os centros
universitários e, sobretudo, as associações de pesquisa particularizam o objeto
como um espaço de trabalho. Ambos reconhecem nele o momento em que se re-
presenta a sua identidade em relação à imposição, real ou imaginária, que o co-·
manditário faz considerar" (p. 56).
·

Haveria, portanto, dois 1!1:0_dos de conceber e de construir o objeto de pesquisa: ! -


par??? é e_reciso conhecer paiã-rri.ôd1ficar; para Outros, é-preciso conhecerpara,
conhecer melhor. A pesquisa qualitativa pode superar essa divergência, associan-
?Õs praticantes da ação social e aos membros dos movimentos sociais. Na
tradição da pesquisa-ação, por exemplo, os praticantes estão estreitamente asso-
ciados aos projetos de pesquisa, quando não são eles próprios -que os iniciam, em
suas instituições. Esse ponto de vista é ainda mais evidente na pesquisa feminista,
que, aliás, geralmente se calca na pesquisa qualitativa. Para Smith (1987), UI!!?.-?
ciologia verdadeiramente feminista não transformaria os sujeitos que ela pesquisa
e?objetos"' mas conservaria, em seus· procedimentos analíticos, a presençado
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sujeito como ator. Não importa que o objeto de pesquisa derive de um interesse
pessoal do pesquisador, ou que ele resulte de acidentes biográficos, ou que ele pro.
venha de um movimento crítico que tenta encontrar seu lugar num embate social
ou político, ou ainda, que ele se situe na junção de interesses das redes (políticas
econômicas e sociais) que envolvem o pesquisador, esse objeto será, primordial'.
mente, um objeto negociado, que depende, ao mesmo tempo, de circunstãncias
particulares e de fatores estruturais.

A revisão bibliográfica e a construção de um objeto


construção do objeto de pesquisa na pesquisa qualitativa é, muito frequente-
A
mente, considerada como um dos critérios básicos de sua originalidade, não pelo
fato de que a pesquisa qualitativa proceda de modo radicalmente diferente do das
outras metodologias de pesquisa, mas sim, porque a ênfase recai sobre aspectos
que lhe são particulares. Assim, o objeto da pesquisa qualitativa se constrói pro-
gressivamente, em ligação com o campo, a partir da interação dos dados coletados
iJ ·
?i.?i?ea:e?1:::??;/;!e?!::?:?!:?::â?i?:;:t?:p:t?i:???:?:??:t;:?:r:?:ur::
B visão bibliográfica na pesquisa qualitativa não visa tanto à operacionalização d?s
·:?'
conceitos que possibilitam dar início à pesquisa (GRINNELL & WILLIAMS, 1990),
como à delimitação progressiva do objeto.
É possível construir um objeto de pesquisa de forma puramente empírica, base-
ando-se unicamente nos dados do campo? A resposta é usualmente negativa: é pre-
ciso ler o que os outros escreveram antes de nós; de certa forma, subir sobre seus
·ombros para conseguir ver mais além, um pouco como o pretendiam fazer os mo-
dernos românticos, em sua disputa contra os clássicos antigos. Essa prática se funda
sobre uma concepção do conhecimento considerado como cumulativo, segundo
a qual o progresso de um serve de ponto de partida para o outro. Seguindo uma tal
perspectiva, o pesquisador se dedica geralmente a fazer uma pesquisa bibliográfica
revisada e exaustiva. No âmbito de uma abordagem hipotético-dedutiva, trata-se,
então, de produzir um modelo teórico, e em seguida, uma hipótese, verificando seu
fundamento segundo variáveis definidas, tudo isso antes que se inicie a investigação.
Nesse contexto, a revisão bibliográfica é a modalidade por excelência da construção
do objeto. Uma outra opção constitui em ler o menos possível, e, às vezes, absoluta-
mente nada. Nessa estratégia mais aberta e influenciada pela antropologia é preciso
colocar-se à escuta, com atenção ao campo, questionando-se total e primordialmen-
te sobre os dados dos quais emergirá o objeto de pesquisa.
Ainda que as práticas variem muito, indo da ausência de revisão bibliográfica à
revisão mais minuciosa, os pesquisadores qualitativos adotaram uma posição es-
tratégica. Em primeiro lugar, é preciso ler para se informar; ninguém sofre de ex-
cesso de saber. Quanto mais o pesquisador tiver um conhecimento aprofundado
sobre seu tema, mais ele estará apto a construir seu objeto e a delimitar uma amos-

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tra pertinente. Entretanto, a pesquisa qualitativa confere à revisão um matiz que
lhe é próprio; o pesquisador qualitativo hesita em nela confiar total e cegamente,
pais a experiência prova que a literatura científica pode permanecer surpreenden-
temente muda sobre assuntos, contudo, evidentes. De_ss_?-?C>_fi:tO_ de vista, _a revisão
b?tca, longe decontribuír para eliminar vieses, pode,
çá-los: um pesquisador muito dependente literatura
os ao con?rário, refor- 1

da torna-se dependente dos,


0iífrõspesquisadores e pode chegar aos mesmos impasses.
Bs;· é a razão pela qual os _pesquisadpres qualitativos adotaram uma atitude
flexível sobre essa questão. Em.primeiro lugar, a maio?ia deles faz uma revisão da
literatura científica pertinente: é preciso ler o que se escreveu sobre o tema e son-
J?domínios teóricos que podem esclarecer a questão. EÍn seguída-eles seem-
penham em adquirir os conhecimentos topológicos; ç_Q_nhecer·a históría do meio
sõeiãlpêsquisado, sua estrutura, sua ideologia. for firrl/ eles realizam algumas en-
trevistas com os informantes a par da questão; i?-a-caru'p;; possibilita ao pesquisa-
d?q?irir um conhecimento mais próximo sobre seu tema e também dar uma
orientação mais precisa à sua pesquisa. Por exemplo, a velhice é vivida diferente-
mente, conforme o sexo: os pesquisadores que se contentam com os dados gerais
correm o risco de passar à margem do problema. Assim, algumas entrevistas no
campo permitem explicitar diferenças que a literatura sequer menciona. Em resu-
mo, se é importante conhecer, não é necessário conhecer tudo. Como o recomen-
da um veterano da pesquisa qualitativa: "Utilizem a revisão bibliográfica, mas não
se tornem dependentes dela" (BECKER, 1986: 149).

Como a pesquisa qualitativa se ancora na dialética das representações, ações e


interpretações dos atores sociais em relação ao seu meio, será usual que o pesqui-
sador se refira a textos que não pertencem ao corpus científico próprio ao seu do-
mínio de investigação. Dado que uma pesquisa qualitativa requer um contato dire-
to com o fenómeno pesquisado, seu objeto se constrói não apenas a partir de um
corpus, por vezes restrito, de relatórios de pesquisas cujos resultados são verifica-
dos e confirmados, mas também a partir de um conjunto de textos que tecem como
uma teia de ressonâncias em torno do objeto. Realizar uma pesquisa qualitativa so-
bre determinadas problemáticas dos guetos negros das grandes cidades america-
nas, sem conhecer os romances de Toni Morrison 2, significa privar-se de uma fonte
de informação, lacuna esta que impede um conhecimento íntimo de seu tema - o
que constitui a marca da pesquisa qualitativa.

A teoria e os postulados na pesquisa qualitativa


Desde o início, é preciso definir o que se_??t???...P.º? teort: De um lado, há
o que Silverman (1985: 5) denomina um????ae ??-[(large-scale theo-

2. Mulher das Letras, americana, e Prêmio Nobel de Literatura (1993).

135
ry), que dá conta de fenômenos sociais, econômicos e políticos, permeando urna
sociedade determinada; esse gênero de teoria se confunde com uma explicação do
mundo, e mesmo, uma filosofia. De outro lado, existe uma teoria dita de alcance
restrito:(middle-range theory), que se pode definir como "um conjunto de postulá.
dos logicamente interligados, compreendendo um maior ou menor número de fa.
tos observados, e formando uma rede de generalizaçôes, da qual podem se derivar
explicaçôes para um certo número de fenômenos sociais" (GINGRAS, 1993: 115).
Os partidários da pesquisa qualitativa formularam uma crítica severa em rela-
ção à grande teoria: este gênero de explicação seria muito amplo para ser verificado
empiricamente, bem como muito distante das situaçôes particulares para ser de al-
guma utilidade aos pesquisadores qualitativos. Ao ser possível decompor essa teo-
ria em partes verificáveis, prossegue-se dando prioridade à totalidade, de modo
que as pesquisas subsequentes correm o risco de ser somente valorizaçôes do mo-
delo teórico. Para contrabalançar essa tendência, a pesquisa qualitativa põe ênfase
nos atores e no contato direto com o campo de pesquisa; paralelamente, ela recor-
re, sobretudo, à teoria de alcance restrito. Isso não significa que a pesquisa qualita-
tiva recuse, de imediato, a grande teoria e a macrossociologia, nem que ela seja in-
sensível às dimensôes estruturais; ao contrário, ela possibilita mostrar como as
marcas da estrutura social se encontram nas situaçôes mais circunscritas e mais
·

particulares. No entanto, a pesquisa qualitativa não visa, usualmente, à elaboração


de uma teoria de grande envergadura para explicar a estrutura social.
,_

A teoria antecedente

É possível empreender uma pesquisa sem nenhum a priori teórico e basean-


do-se unicamente na indução para produzir a teoria? Ainda que pesquisadores
qualitativos atribuam uma menor importância às noçôes teóricas para apoiar suas
pesquisas, autores como Deutscher ( 1984) colocam a justo título a impossibili-
dade de o pesquisador abstrair de seus conhecimentos anteriores e das teorias pre-
cedentes que informam suas leituras; por seu próprio ofício, o pesquisador não
pode fazer tábula rasa de seu passado. Contudo, esses pesquisadores qualitativos
fazem um uso particular da teoria. Em geral, na corrente da teoria emergente, eles
se interessam mais pela exploração e construção de novas teorias, do que por sua
verificação; o campo de pesquisa os atrai mais do que a teoria construída. Ora, aos
olhos de vários membros da comunidade científica, essa atitude atesta urn viés an-
titeórico. Se uma tal asserção pode ter um certo fundamento, ela não corresponde,
certamente, à opinião geral dos pesquisadores qualitativos, que reconhecem, de
imediato, o amparo teórico de qualquer pesquisa, mesmo qualitativa. O fato é que
não se deve confundir a crítica da teoria preestabelecida com a recusa de qualquer
teoria que possa orientar a pesquisa. Desse ponto de vista, Strauss e Corbin fazem
coro com a tendência geral em pesquisa qualitativa', quando eles escrevem:
O pesquisador se refere a diversos documentos, antes de realizar a
pesquisa, tanto para ter uma ideia, quanto para basear seus trabalhos.

136
Os textos são também úteis durante a pesquisa, auxiliando-a a progre-
dir. Em resumo, ao longo de toda a pesquisa, é preciso continuar revi-
sando o conjunto da documentação (e não somente dos trabalhos téc-
nicos) e alternar leitura e análise dos dados. O pesquisador consulta,
portanto, todos os tipos de documentos em cada uma das etapas da
pesquisa. No entanto, deve-se lembrar que as categorias e suas rela-
ções devem ser constantemente confrontadas aos dados. Assim, é pos-
sível recorrer a todos os textos considerados pertinentes, com a con-
dição de não se tornar cativo de nenhum deles (STRAUSS & CORBIN,
1990: 56).
Em resumo, a pesquisa qualitativa geralmente evita tomar como ponto de par-
tida uma teoria simplificadora, da qual a realidade se tornaria escrava: a teoria é
vista como um mapa marítimo, e não como uma via férrea. Logo, ninguém se sur- I

preenderá que a base teórica da pesquisa qualitativa nem sempre tenha o refina- I

menta formal da pesquisa hipotético-dedutiva, ainda que os questionamentos teó-


ricos possam ser igualmente/??d?:?;ta?sC.:
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da. Tradicionalmente, o pesquisador inicia seu trabalho, ampliando seus conceitos
e-formulando suas hipóteses; ele privilegia as hipóteses causais, que explicarão a
variação das variáveis delimitadas pelo quadro teórico. Finda essa operação, opes-
quisador vai a campo, para verificar seus pressupostos. Na pesquisa qualitativa,
trata-se de postulados, mais do que de relações de causa e efeito. Deve-se dizer que
é raro que as proposições iniciais sejam formuladas tão claramente quanto napes-
quisa quantitativa ou experimental: muito geralmente, elas são, primeiro, enuncia-
das na perspectiva das questões iniciais, e mesmo das intuições a verificar; porém,
elas podem ser formuladas, de modo preciso, antes do começo da pesquisa.
Os postulados na pesquisa qualitativa não são hipóteses da mesma ordem que
aquelas emitidas numa pesquisa de tipo hipotético-dedutivo, e que orquestram a
operacionalização do procedimento de pesquisa. Assim como a teoria se elabora
progressivamente, as questões se tornam precisas, e os postulados tomam forma à
medida que os dados são analisados; na pesquisa qualitativa, o postulado não pro-
vém apenas do ·conhecimento teórico do pesquisador, mas também e, sobretudo,
de sua sensibilidade aos dados que colhe, e de seu conhecimento íntimo do meio
que pesquisa. À medida que progride o trabalho simultâneo de coleta de informa-
ções e de análise, o objeto de pesquisa vai se especificando e as questões se tornam
mais seletivas: o funil se restringe e possibilita-se ao pesquisador formular uma ex-
plicação provisória que será gradualmente consolidada. Seus postulados se tor-
narão, simultaneamente, exclusivos (eliminando os elementos de informação que

137
não fazem parte de uma mesma categoria) e inclusivos (englobando todos os ele-
mentos de informação que devem fazer parte de uma categoria determinada), as-
sim como mais detalhados. É comum que os postulados mais interessantes apare.
çam mais tarde, durante a coleta dos dados, com a condição de que o pesquisador
trabalhe seus dados, manipule-os, conheça-os, analise-os, e combine trabalho prá-
tico de coleta-tratamento-análise dos dados e reflexão teórica.
Se o postulado não tem necessariamente a mesma precisão na pesquisa qualitati-
va, como no modelo hipotético-dedutivo, isso não significa que todas as proposições
sejam válidas: pode-se distinguir uma boa proposição de uma ruim, por sua capaci-
dade de organizar os dados e de explicar a situação pesquisada (BECKER, 1970: 23).
Um bom postulado "caminha": ele é eficaz, dá conta das informações, e possibilita
compreender e agir. Ele ganha espaço, gradualmente, na teoria produzida.
Nem todas as pesquisas qualitativas visam verificar postulados, mesmo que
elas se proponham questões iniciais: muito frequentemente, seu objetivo consiste
em reconstituir o desenvolvimento dos processos sociais, ou em descrever a totali-
dade de um meio social e seus componentes. Pode até ocorrer que questões gerais
sirvam de postulados; consequentemente, o delineamento de pesquisa conterá
proposições sem a precisão habitual - a qual, aliás, não é sempre necessária (sobre
isso, é bom lembrar que, em geral, os conhecimentos úteis têm sido produzidos
nas ciências sociais, ainda que os pesquisadores tivessem por objetivo último ape-
nas compreender e explicar um fenómeno determinado, e não predizê-lo). Em
i contrapartida, quando a pesquisa qualitativa tem a finalidade de verificar uma teo-
ria, ela pode, então, apresentar hipóteses de tão grande precisão, quanto as que ca-
racterizam ? modelo hipotético-dedutivo.

A amostra
Contrariamente ao que certos pesquisadores pensam, a pesquisa qualitativa
também recorre à amostra, que será, mais frequentemente, detipo não probabilís-
tico. Essa amostra não se constitui ao acaso, mas sim em função de característicàs
precisas, que o pesquisador pretende analisar. Vários tipos de amostras são possí-
veis, tais como: a amostra acidental, a intencional, a por cotas, a típica, a de volun-
tários, ou a amostra em "cascata", também chamada de "bola de neve" (MA YER
&: OUELLET, 1991: 386). Patton (1980: 105) acrescenta a amostra de casos des-
viantes, típicos, críticos, politicamente importantes, ou tão simplesmente as mais
acessíveis.
A amostragem não probabilística, ou teórica, não é uma estratégia à qual se re-
corre quando não se pode estabelecer a probabilidade. Ao contrário, inúmeros fe-
nómenos não podem ser pesquisados de outra maneira, sendo a amostra teórica,
em geral, a única apropriada. Nas pesquisas realizadas no meio natural, tratando
de temas tais como os que foram mencionados no início do presente artigo, certos
fenómenos só podem ser compreendidos por uma análise acurada, conforme o

138
permitem o estudo de caso, a monografia, a observação participante, a história de
vida- Nesses casos, a amostra não probabilística continua sendo a mais eficaz, se-
não a única possível. Por outro lado, a amostragem teórica tem sua lógica específi-
ca e suas próprias finalidades.
Se a regularidade e a dimensão da amostra probabilística nos possibilitam co- f
nhecer aspectos gerais da realidade social, o caráter exemplar e único da amostra\
não probabilística nos dá acesso a um conhecimento detalhado e circunstancial da \
vida social. É, pois, em relação aos resultados que ela acarreta, bem como à sua
pertinência, que a amostra não probabilística se justifica.
\
A coleta dos dados
Na tradição da pesquisa qualitativa, Zelditch (1969: 9) propõe dois gr?ndes
critérios para julgar a validade dos instrumentos de coleta de dados. Óprimeiro )se

p?
refere à capacidade dos instrumentos de trazer as informações desejadis:-A maior
tempo, os pesquisadores qualitativos escolh?? -?s -i-nstrumeiilos que lhes
fornecerão o máximo de informações sobre o tema de pesquisa. O outro critério a í
eficácia d?s i!1_s_!E_umentosi sua utilização é rentável, no que se refere ao tempo re-
?do, ªº custo: eTãcessibilidade permitida e possível? ... ---""-.,
Marshall e Rossman (1989: 75) acrescentam um terceiro crité.!!.Q,_.Q...da.étirn·.
Como a pesquisa qualitativa se faz no campo de pesquisá, é necessário respeitar as
características do meio social. Um levantamento bibliográfico sobre a temática da
negociação na pesquisa qualitativa revela que, muito frequentemente, o pesquisa-
dor se preocupa, desde o início, com a tomada de contato e com a gestão dos pa-
péis, no campo de pesquisa. A resistência das pessoas ou dos grupos que serão pes-
quisados, a escolha dos informantes, as reações psicológicas a determinadas situa-
ções e os papéis que pode desempenhar o pesquisador no campo, são percebidos
como muitas das realidades com as quais é preciso compor. Essa negociação in situ
faz parte das estratégias de pesquisa que possibilitam uma coleta de dados mais
ampla, mais honesta, mais aprofundada. Qn1,._? re(er_ida_p.?gociação se arti_c\.!la_?
U;!!ª-C!!!.?t?<?.9:e ?ti_<:a_:_será que o pesquisador tem o direito de intervir ho calllp.Q?
No caso de uma observação participante, será que ele deve tomar parte de todos os
atos, mesmo repreensíveis, do grupo social no qual ele vive? É moral que o pesqui-
sador dissimule o verdadeiro motivo de sua presença? Quais são os limites da con-
fidência na coleta de relatos de vida? Os meios utilizados respeitam a vida privada
das pessoas e dos grupos pesquisados? Eles podem medir as consequências de sua
participação na pesquisa? O próprio pesquisador está em posição de avaliar os ris- :

cos que os participantes podem correr; e o que ele faz para eliminá-los? Por exem-
pio, a publicação de um relatório de pesquisa extremamente rigoroso, sobre um
\

grupo comunitário que se encontra numa situação difícil, arrisca desestabilizar


este grupo, e mesmo minar seu moral, e imobilizá-lo. Em uma perspectiva de mu-}
j'

dança social, será que isso vale a pena? i


139
Essa implicação do pesquisador no vivido das pessoas, graças às quais ele ob-
tém um conhecimento, adquire um valor epistemológico na medida em que o sa,
ber do pesquisador e o saber do grupo no qual ele é absorvido fecundam-se mutua- ,

mente. Há, assim, reciprocidade de um saber que se constrói no interior de uma


prática de ofício, e não de modo artificial. Marshall e Rossman recomendam que
0
pesquisador, que deve seu saber aos sujeitos que ele pesquisou, invente formas de
recompensar os atores sociais que lhe permitiram estender seus conhecimentos:
"O pesquisador é devedor do meio social e precisa encontrar
maneiras de agrade-
cer a ele: consagrar-lhe tempo, fazer comentários, convidar as pessoas para um
café, cumprimentá-las, ajudá-las, ou comunicar-lhes qualquer traço de avaliação
adequada" (MARSHALL & ROSSMAN, 1989: 69).
Geralmente, para a coleta das informações, a pesquisa qualitativa recorre à ob-
servação participante e à entrevista. Estas técnicas básicas se completam com 0
questionário, a fotografia, os documentos audiovisuais (filme, vídeo), a observa-
ção dos lugares públicos, a história de vida, a análise de conteúdo. Desejando viva-
mente recolher o máximo de informações pertinentes, os pesquisadores combi-
nam, usualmente, várias dessas técnicas.

A análise dos dados


A etapa da análise consiste em encon_tra? urnisentído para os dados coletados.e
em demonstrar como eles respondem ao problema de pesquisa que o pesquisador
formulou progressivamente. Por isso, a análise ocupa um lugar de primeiro plano
em toda pesquisa, mas, principalmente, na pesquisa qualitativa. Pode-se mesmo
dizer que a renovação que a pesquisa qualitativa conheceu no decorrer dos últimos
anos se deve aos progressos realizados na análise dos dados, a qual constituía o
ponto fraco do procedimento qualitativo. Nesse sentido, a teorização enraizada
(GLASER & STRAUSS, 1967: GLASER, 1978) exerceu, certamente, uma larga in-
fluência. Brevemente resumida, a abordagem qualitativa da análise seria caracteri-
zada pela elaboração de uma teoria baseada sobre um processo de indução e sobre
a abertura aos dados. Uma vez definido o campo de pesquisa, o pesquisador orga-
niza seus dados com a ajuda de um quadro descritivo e interpretativo bastante am-
plo, à luz de conceitos topológicos apoiados sobre elementos estruturais e proces-
sos específicos ao fenómeno pesquisado.
O delineamento de pesquisa qualitativa não pode prever com precisão os re-
sultados que a análise qualitativa produzirá; entretanto, espera-se encontrar, em
um delineamento de pesquisa, uma descrição do procedimento de análise que o
pesquisador pretende seguir. Se o problema de pesquisa baliza a coleta de dados e
os resultados possíveis, ocorre que categorias surpreendentes se imponham
e que
o objeto de pesquisa se transforme radicalmente, durante as etapas de coleta dos
dados e de análise. Nesse caso, "o problema central poderá ser reformulado du ran-

140
tea pesquisa, se ele não mais corresponder à realidade observada" (CHEVRIER?
1993: 69).

A revisão
bibliográfica e a análise

Dada a importância das interpretações na pesquisa qualitativa, a revisão bi-


bliográfica leva o pesquisador a escolher uma fundamentação teórica. Durante as
etapas de coleta e análise de dados, a leitura facilitará o desenvolvimento do pro-
cesso analítico:
A revisão bibliográfica[ ... ] ajuda a formular uma explicação tanto du-
rante a coleta dos dados, como em sua análise, permitindo esclarecer e
avaliar os dados, assim como estabelecer as ligações entre os dados,
em diferentes momentos. À medida que progride a teorização enraiza-
da, a revisão bibliográfica fornece as construções teóricas, categorias e
propriedades que servem para organizar os dados e descobrir novas
relações entre a teoria e o mundo real (MARSHALL & ROSSMAN,
1989: 41).
A leitura de obras teóricas fornece os conceitos e as metáforas graças aos quais.
pode-se interpretar um dado opaco. O uso de metáforas retiradas dos textos científi-
cos, da literatura, ou do meio social, é, sem dúvida, um dos procedimentos mais "se-
cretos" e mais fecundos que podem auxiliar o pesquisador a realizar a contento uma
análise, bem como a construir seu objeto de pesquisa. A imagem, a comparação im-
plícita, a analogia, determinam esse momento de intuição que faz com que o objeto
mude repentinamente de lugar, ou apareça sob um outro enfoque. Geralmente pas-
sando desapercebido no relatório de pesquisa, ou no artigo científico, o raciocínio
analógico e metafórico permite estabelecer relações entre os conceitos e entre os ca-
sos particulares. Assim sendo, a revisão bibliográfica nas ciências sociais qualitativas
não pode evitar uma reflexão sobre a natureza sociopolítica das metáforas emprega-
das, principalmente sobre o seu conteúdo sexista. Como o aponta Harding: "Os his-
toriadores da ciência chamaram nossa atenção para a presença persistente de metá-
foras sexistas no pensamento oficial e oficioso dos cientistas, desde a emergência da
ciência moderna até os nossos dias" (HARDING, 1986: 233).
A revisão bibliográfica também revela homologias estruturais entre campos de
pesquisa diferentes. Bourdieu oferece uma opção de escolha ao pensamento ho-
mológico na análise:
Este modo de pensamento se realiza de forma inteiramente lógica, no
e pelo recurso ao método comparativo, que permite pensar, de modo
relacional, um caso particular constituído em caso particular do pos-
sível, apoiando-se nas homologias estruturais entre os campos dife-
rentes (o campo do poder universitário e o campo do poder religioso,
por meio da homologia das relações professor/intelectual e bispo/teó-
logo), ou dos diferentes estados do mesmo campo (o campo religioso
da Idade Média e hoje) (BOURDIEU & WACQUANT, 1992: 205).

-141
Uma revisão bibliográfica na pesquisa qualitativa não se limitará, portanto, a
um campo de conhecimentos particular, mas será gradualmente ampliada em ou-
tros domínios, fecundando o primeiro. Esse procedimento exige do pesquisador
não apenas um aprofundamento de seu campo de investigação, mas também um
conhecimento dos campos conexos. A passagem do caso particular ao caso gm!,
tanto definido sob a relação de métodos comparativos, ou em função de um conhe-
cimento dos contextos, requer que os dados colhidos sejam contextualizados -no
interior de um conjunto teórico mais amplo. A questão da interpretação dos câm-
pos disciplinares constitui uma dimensão essencial em uma reflexão sobre a pes-
quisa qualitativa.
Em última análise, a revisão bibliográfica desempenha, na análise qualitativa,
um papel, ao mesmo tempo, estratégico e teórico.

A teoria produzida

Geralmente, o objetivo da análise dos dados é produzir uma teoria. Contudo,


nem todas as pesquisas têm suficiente envergadura para produzir uma teoria; além
disso, a maioria se contenta em propor conceitos que, diga-se de passagem, confir-
mam o valor de um trabalho teórico. Desse ponto de vista, a análise qualitativa
pode se articular em torno de conceitos já definidos na literatura científica e que o
pesquisador considera para as necessidades de sua pesquisa. Contudo, .ajnaior
parte do tempo, cpesquísador qualitativo formula novos conceitos, ou atribui um
serifiâonovo aos amigos, ou toma conceitos de seus informantes, inclusiveem lin-
guagem corrente. Como um dos traços característicos da pesquisa qualitativa con-
siste em vincular-se à interpretação que os atores sociais fazem dos fenômenos que
se inscrevem em seu meio, aspecto particularmente crítico para a antropologia cul-
tural, decorrem daí resultados em que os conceitos específicos dos sujeitos da pes-
quisa se combinam aos do pesquisador. No entanto, nem todos esses conceitos
apresentam o mesmo grau de abstração, do mesmo modo que eles não aparecem
na análise, no mesmo momento. A esse respeito, Geertz retoma uma definição pro-
posta pelo psicanalista Heinz Kohut, que distingue entre os conceitos extraídos da
experiência imediata (experience-near concepts), e aqueles que estão mais distantes
dela (experience-distance concepts).
Um conceito extraído da experiência é, grosso modo, um conceito
que um indivíduo - um paciente, um sujeito, ou, no caso da pesquisa,
um informante - utiliza, ele mesmo, espontânea e naturalmente, para
definir o que ele ou seus pares veem, sentem, pensam, imaginam, etc.;
um conceito que ele pode compreender rapidamente, quando outros
o utilizam. Um conceito distante da experiência é um conceito que os
diferentes especialistas - um psicanalista, um pesquisador, um etnó-
grafo, ou mesmo um padre, ou um ideólogo - empregam num senti-
do científico, filosófico, ou prático (GEERTZ, 1983: 57).

142
Esses dois tipos de conceitos representam, de certa forma, os dois polos da
compreensão. Num caso, o conceito é de tal modo imbricado na vida do informan-
te e em sua
situação particular, que ele é, por vezes, incompreensível fora de seu
contexto. Na outra extremidade, o conceito é bastante geral e se aplica a tantas si-
tuações diferentes, que ele não pode explicar convenientemente a situação concre-
"O confinamento aos conceitos
ta pesquisada. Geertz descreve bem esse dilema:
extraídos da experiência deixa o pesquisador imerso no imediato e afundado no
cotidiano. O conceito distante da experiência deixa-o enredado nas abstrações e
sufocado no jargão" (GEERTZ, 1983: 57). A!fil:?fatdQ_pesquisador qualüativo._.ÇQ!}.:-
s?..?irn, em interpretar os conceitos provenientes do campo de pesquisa, para
dar::lh.es uma forma que se inscreve, ela própria, na tradição científica. Este pacien-
te_!Plbalho de construção passa pelo estabelecimento da relação entre o detalhe co-
tidiano, e mesmo banal, e a estrutura global que lhe confere um sentido.
En:tre esses dois polos se situa o conceito operatório (sensitizing concept), pro-
posto por Blumer (1954). Trata-se aqui de uma espécie de categoria provisória, in-
dicando em qual direção olhar, sem fixar definitivamente o real. Também denomi-
nado "conceito local" (GLASER & STRAUSS, 1967: 45), ele possibilita ao pesqui-
sador formar categorias provisórias, durarve a coleta dos dados. Situado entre o
senso comum e o trabalho científico, esse conceito permite classificar os dados e
tomá-los inteligíveis. Todavia, é preciso evitar fazer um mau uso desse gênero de
conceito, conforme Blumer o indicava cautelosamente:
O maior defeito no emprego desse conceito operatório, e também o
mais difundido, é de considerá-lo como adquirido, e de se contentar
com o elemento de plausibilidade que ele apresenta. Nessas circuns-
tâncias, esse conceito nâo é mais do que um vago estereótipo, tornan-
do-se meramente um meio para ordenar ou organizar os dados empí-
ricos (BLUMER, 1954: 9).
Por sua vez, Patton (1980: 306-309) recomenda a utilização de "tipologias in-
dígenas" e de tipologias construídas pelo pesquisador-analista. Assim, um estudo
semântico da linguagem dos participantes da pesquisa permite revelar uma semio-
logia do discurso "indígena". Paralelamente, o pesquisador verifica distinções fei-
tas pelos atores sociais, que não encobrem as categorias científicas. Da comparação
entre as duas, resultaria a significação dos fenômenos, criando uma ponte entre a
interpretação dos sujeitos sobre um fenômeno e a interpretação que dele constrói
o pesquisador-observador. A tradição na qual se insere o pesquisador e também a
sua prática de trabalho teórico deveriam possibilitar-lhe ir além dos conceitos de
seus informantes; desse modo, ele poderia reinterpretar sua experiência e situá-la
num contexto que lhe confere uma outra dimensão. Todavia, como o pesquisador
não tem o monopólio da criação do conhecimento, ocorre frequentemente que ele
seja incapaz de levar sua análise mais adiante do que seus interlocutores podem
fazê-lo. Não é nenhum drama: a democracia também é isso.

143
Para concluir essa parte sobre a análise dos dados e a teoria produzida, diga-
mos que a pesquisa qualitativa ficou muito mais próxima da teoria de alcance res-
trito. Primeiramente, como o havíamos visto, o pesquisador se refere a esse tipo de
teoria para esclarecer o seu problema de pesquisa: de um lado, ela orienta o tema
que o pesquisador escolheu dentro de uma problemática que delimitará as frontei-
ras do objeto; e, de outro lado, ela confere à definição de objeto uma filiação disci-
plinar ou teórica, permitindo que Ô pesquisador exponha seus preconceitos quan-
to ao seu objeto (MARSHALL & ROSSMAN, 1989: 33). No fim, a teoria produzida
resulta da' confrontação dos dados ernptricosjcorn uma diversidade de campos teó-
ricos. Est; -teor-ia propõe, ent.10: caregorias?analíticàs1e um esquema explicativo;das
inter-relações dos fatos observados, além de permitir cünceituâr-ncivamente ?am-
po de investigação, deslocando as fronteiras do objeto.

O relatório
A produção do conhecimento passa pela redação de um texto, que todos aque-
les que se interessam pela problemática explorada poderão consultar. Essa
etapa
da transformação do conhecido para alguns (of pesquisadores) em conhecido para
todos tem também uma importância decisiva. Esse momento da preparação do re-
latório de pesquisa é, atualmente, objeto de vivos debates nas disciplinas tradicio-
nalmente mais inclinadas a adotar uma metodologia qualitativa, em particular, a
antropologia.
A fim de proteger-se da possível reprovação por subversão da verdade, graças
ao trabalho de reconstrução, os pesquisadores usualmente adotam uma estratégia
de transparência na redação do relatório, tal como a descrevem Marshall e Ross-
man (1989: 148):
f • a coleta dos dados e os métodos empregados são explicitados;
• os dados são utilizados para documentar as
construções teóricas;
• os resultados negativos são expostos e levados em
consideração;
' ·'
•1 os vieses são examinados, incluindo os
interesses pessoais, profissionais, po-
líticos, bem como os vieses teóricos e as suposições;
• as estratégias de coleta dos dados e de análise
são reveladas;
• as decisões tomadas no campo, e que influíram
nas estratégias de pesquisa ou
no objeto de pesquisa, são documentadas;
• as hipóteses contrárias são apresentadas e
analisadas;
• o caráter confidencial das informações
é preservado;
• a sinceridade dos participantes é estabelecida;
• a significação teórica e a generalização dos
resultados são explicitadas.

144
O relatório deve permitir que outros pesquisadores retomem a pesquisa, de
rnodo a detectar suas falhas, ou reconsiderar os resultados obtidos; além de dever
possibilitar uma reconstrução do objeto pelo leitor, conforme sua leitu?a. Paralela-
mente, o pesquisador aposta que sua argumentação convencerá o leitor. Para Sou-
"a racionalização do processo de produção da pesquisa estrutura o
let (1987a: 44),
documento, a ponto de tornar a maioria das partes enumeradas inevitável". Intro-
dução e conclusão são justamente os momentos mais importantes dessa racionali-
zação do processo de produção da pesquisa. Se, como o vimos, a construção do ob-
jeto se faz progressivamente, as convenções do texto, por outro lado, impõem ao
pesquisador apresentar, desde o início, um objeto já construído, sobreposto de es-
colhas teóricas e metodológicas, que foram feitas no decorrer da pesquisa, sem te-
rem sido previstas.
A introdução propõe uma lógica reconstituída da pesquisa e requer, por vezes,
1 ·

longos desenvolvimentos que, de certa forma, dão o tom e a justificativa da pesquisa


(SOULET, 1987a: 44). Do mesmo modo, a conclusão, assim como as seções sobre a
metodologia empregada, o levantamento bibliográfico, a formulação de postulados e
a análisedos dados, seguida de uma interpretação dos resultados, encerram momen-
tos constitutivos de uma pesquisa qualitativa, dissociando-os conforme modalida-
des e uma lógica convencionais. A cronologia do processo é subvertida por uma ló-
gica de Iormulaçãortíujo objetivo seria expor a problemática pesquisada. A preocu-
pação com a clareza e a objetividade domina, então, a formulação, separada da abun-
dância do real e das contradições percebidas, ou reais, do campo de pesquisa.
Essa prática de redação da pesquisa foi, entretanto, questionada: para alguns, o
referido relatório não dá realmente conta do verdadeiro desenvolvimento da pes-
quisa, dos problemas encontrados, do papel do pesquisador e de suas emoções e
hesitações, e da prática de seu ofício, que são muitas das formas de entrada na aná-
lise e no texto. Esse tipo de relatório oculta o trabalho de criação e reconstrução da
realidade. A estratégia-de-transparência na formulação dos resultados e também do
desenvolvimento da pesquisa eliminaria as zonas escuras, em que se ocultam, ao
mesmo tempo, o mito, a ideologia, o poder e o desejo (do pesquisador, ou do lei-
tor). Se a pesquisa for realmente baseada no cotidiano e na experiência das rela-
ções sociais, o objeto de pesquisa da abordagem qualitativa jamais será neutro.
A explicitação desse circuito das interpretações é fundamental para o projeto
qualitativo. Expor as práticas sociais segundo uma linguagem ou uma retórica que
pressupõe que se possa descrever objetivamente a realidade de um grupo social é,
para Banhes, "dissimular uma realidade, que, mesmo sendo aquela na qual se vive,
não o é menos historicamente determinada" (BARTHES, 1959: 11). É faz-er crer
que a palavra se cola à coisa, e que o produto formulado se constitui como real.
Esse realismo dominante nas ciências sociais (mainstream reaiism, segundo a de-
nominação de Rabinow (1986]), nega a intervenção do autor no texto; a realidade
é dada e a conclusão do relatório de pesquisa dá um desfecho que encerra a aventu-

145
ra da pesquisa. Esse realismo dominante foi novamente questionado, na pesquisa
qualitativa, pela antropologia -certamente mais tocada pelos acasos da linguagelU,
em virtude do desenraizamento que ela se impõe, mas também pelo feminismo (cf.
particularmente a obra de LAURENTIS, 1987), pela crítica pós-estruturalista e
pós-moderna. Há alguns anos, a pesquisa de tipo etnográfica, principalmente na
antropologia, vem tendendo a abolir as fronteiras entre produção científica e pro-
dução artística. O etnólogo se torna autor, e não fotógrafo:
Num paradigma discursivo, mais do que visual, as metáforas domi-
nantes na etnografia se distanciam do olho que observa e se deslo-
'
cam para a expressão do gesto e da palavra. A voz do redator domina
e situa a análise e o objetivo; renuncia-se ao distanciamento critico
(CLIFFORD, 1986: 12).
Urn relatório desse tipo é, geralmente, mais próximo do ensaio .!!!:!....ITI-ª-!lÍsta do
que do artigo científico (DENZIN, 1989: 134). A presença do autoré aí diretamen-
te expressada, com a ajuda do "eu" ou da anedota. Esse relatório valoriza um estilo
·
'ª próprio ao autor que vê seu trabalho de redação corno urn trabalho de criação lite-
rária (BECKER, 1986: 105). Em tal prática da pesquisa, a redação do objeto é colo-
,_·. \
cada no centro de sua construção. Não é mais somente questão de fazer ver o fenõ.
mr .no social corno se aí estivéssemos, mas sim, de descrever a relação do pesquisa-
dor com o ator social pesquisado, seja por urna exposição do diálogo que se estabe-
lece entre eles, seja por urna escrita que se aproxima do romance ou da poesia.
1
Urna tal concepção acarreta um grande número de obras que tornam por objeto
uma reflexão histórica sobre o modo corno os etnógrafos do passado formaram
1

nossa visão do exótico, ou do Outro (FABIAN, 1983; MARCUS & FISCHER,


1986). Esse retorno sobre si e sua disciplina é, em nossa opinião, urna das caracte-
rísticas mais evidentes da mudança do objeto na antropologia contemporânea.
Essa "observação do observador", através de urna reformulação do projeto
etnográfico, é fortemente criticada por Bourdieu, que considera esse procedimen-
to como suicida:
[Trata-se, primordialmente, de um] modismo entre alguns antropó-
logos americanos [ ... ], que, tendo aparentemente esgotado os char-
mes do trabalho de "campo", põem-se a falar mais de si mesmos, do
que de seu objeto de estudo. Quando ela se torna um fim em si mes-
mo, essa espécie de denúncia falsamente radical da escrita etnográfica
como "poética e política" [. .. abre caminho para uma forma de relati-
]

vismo niilista muito pouco velado, que, eu o receio [. .. ],situa-seno


exato oposto de uma ciência social verdadeiramente reflexiva (BOUR-
DIEU & WACQUANT, 1992: 52).
As posições estão, portanto, definidas. Cabe também observar que a maioria
dos relatórios, na abordagem qualitativa, conforma-se ao modelo convencional
descrito precedentemente, com tudo o que isso comporta de reformulação a poste-
riori do objeto de pesquisa, e, portanto, de reconstrução. No entanto, o debate está
longe de estar encerrado. ·

146
A especificidade do delineamento de pesquisa qualitativa
A pesquisa qualitativa teria urna forma própria de elaborar um delineamento
de pesquisa? Eis que voltamos à questão do início, à qual é preciso agora respon- ,

der. ?m?_qµ? o delineam_ento de p?squisa qualitativa se articula em torno de ,'


axiomas, postulados, e de uma prática, que fazem com que a pesquisa qualitativa
lugar quelhe é próprio, bem como produzir resultados
.

pÕs?a pr?eE-ª??ocüpãrum
qütsômen!e ela consegue produzir. Aí estão alguns elementos que podem ser
aprêsrntados corno sendo especificidades da pesquisa qualitativa; eles foram exa-
minados ao longo de todo o texto, mas nós os retomamos, aqui, para resumir nos-
so ponto de vista.

A natureza dos dados

Um dos aspectos da pesquisa qualitativa consiste em analisar os dados qualita-


tivos. Estes dados se apresentam corno resistentes à conformação estatística. São os
dados da experiência, as representações, as definições da situação, as opiniões, as
palavras, o sentido da ação e dos fenômenos. Ainda que eles escapem à padroniza-
ção, estabelecida, é ainda assim importante que as ciências sociais possam anali-
sá-los,já que eles descrevem uma grande parte da vida social; negligenciá-los é pri-
var-se de um conhecimento essencial.

p contato com o campo

Uma outra característica da pesquisa qualitativa é o contato com o campo.


Essa renovação tem sua origem na insatisfação 'experimentada por muitos pes-
quisadores frente aos limites de uma ciência social baseando-se exclusiva-
mente nos métodos experimentais e adotando a epistemologia correspondente
como base de conhecimento do real. O histórico da evolução da abordagem quali-
tativa (LAPERRIERE, 1982; PIRES, 1982; KURTZ, 1984: HAMMERSLEY, 1989)
nos ensina que a antropologia já havia explicitado os métodos de observação de
campo; além disso, a Escola de Chicago, dos anos 1920, havia igualmente estabele-
cido os princípios de uma abordagem que privilegiava o contato direto com os gru-
pos sociais que o sociólogo se dispunha a pesquisar. A corrente contemporânea da
pesquisa qualitativa reata com essa posição, concedendo maior espaço ao campo
de pesquisa, aos autores, aos movimentos sociais. Essa articulação pesquisador-
meio-praticantes concilia, geralmente, a prática dos pesquisadores com o que ela
comporta de contradições, e de disputas de poder ou de influência. No entanto, o
reconhecimento dos cidadãos como fonte de conhecimentos e depositários de um
poder tem repercussões no desenvolvimento de uma pesquisa qualitativa.
A bem dizer, apenas o contato com o campo não basta para caracterizar apes-
quisa qualitativa. Efetivamente, muitas pesquisas empíricas se valem desse proce-

147
dimento. De sua parte, a pesquisa qualitativa enfatiza o campo, não apenas como
reservatório de dados, mas também como uma fonte de novas questões. O pesqui-
sador qualitativo não vai a campo somente para encontrar respostas para-suas per-
guntas; mas também para descobrir questões, surpreendentes sob alguns aspectos,
mas, geralmente, mais pertinentes e mais adequadas do que aquelas que ele se co.
locava no início. Além disso, a própria logística da abordagem qualitativa (cam.
po de pesquisa, observação participante, entrevistas não dirigidas, relatos de vida)
obriga o pesquisador a um contato direto com o vivido e as representações das pes-
soas que ele pesquisa.

O caráter repetitivo do processo de pesquisa qualitativa

A flexibilidade das regras concernentes à realização do projeto é uma das parti-


cularidades da pesquisa qualitativa. Enquanto a abordagem hipotético-dedutiva
coloca como primordial a definição do objeto de pesquisa, e o delineamento se
constitui como um instrumental técnico para delimitá-lo, a pesquisa qualitativa
apresenta um caráter repetitivo e retroativo: nele se encontra a simultaneidade da
coleta dos dados, da análise (codificação e categorização, conceituação) e da elabo-
ração do problema de pesquisa, que alguns denominaram como modelo de adapta-
ção contínua. Essa retroação não é a característica enraizada da pesquisa qualitati-
va e a observação seguinte descreve bem a experiência usual dos pesquisadores:
"Segundo a experiência dos especialistas em ciências sociais, estamos raramente,
ou nunca, diante de uma série de procedimentos automaticamente consecutivos,
no decorrer dos quais uma etapa da pesquisa deveria estar inteiramente terminada
antes que a seguinte se iniciasse" (SELLTIZ; WRIGHTSMAN; COOK, 1977: 13).
'No entanto, a particularidade da pesquisa qualitativa é a de que ela se liga a esse ca-
ráter retroativo e repetitivo do processo de pesquisa e o inclui em sua metodologia.
\
i

Para empregar uma analogia, a pesquisa tradicional se assemelharia à música


europeia, em que o compositor apresenta um tema sobre o qual ele tece, ao inven-
tar variações melódicas. A pesquisa qualitativa se compararia preferencialmente ao
jazz, em que o músico, a partir de uma linha melódica comportando um conjunto
de acordes determinados, lança-se numa improvisação trazendo seu toque pes-
soal. Certamente, o músico não pode se permitir tudo, pois ele permanece, de
qualquer modo, limitado pelos acordes que apoiam seu tema, mas ele dispõe, en-
tretanto, de uma grande margem de manobra. O delineamento de pesquisa é, por-
tanto, a parte escrita da pesquisa, sobre a qual o pesquisador qualitativo se baseará,
à semelhança do músico de jazz, que se infunde dos acordes do tema. No entanto,
paralelamente, haverá espaço para acomodações e improvisação.

A revisão bibliográfica

Na pesquisa qualitativa, a revisão bibliográfica não se limita à etapa inicial,


mas desempenha um papel importante ao longo de toda a pesquisa. O pesquisador

148
continuará suas leituras, em função do movimento de seu objeto, e explorará este
ouaquele caminho, para, ao mesmo tempo, delimitar categorias provisórias de
análise e atribuir-se pistas de interpretação. A definição progressiva do objeto
de pesquisa, bem como a simultaneidade da coleta dos dados e da análise, levam o
pesquisa?or qualitativo a r_edi?ir,. usu?l_mente, a _problemática de sua pesquisa no
final! Assim sendo, a revisao bibliografica evolui ao longo de toda a pesquisa.
Para o pesquisador qualitativo, a revisão bibliográfica permanece sendo um ins-
trumento ao qual ele não pretende se subordinar: sem negligenciá-lo, nem ig-
norar suas vantagens, o pesquisador qualitativo recorre a ele para construir seu
objeto e elucidar a análise dos dados, tentando manter um equilíbrio entre o traba-
lho empírico e o trabalho teórico.

A construção progressiva do objeto de pesquisa

O objeto de pesquisa se elabora à medida que a coleta dos dados e a análise se


realizam. Na pesquisa qualitativa, a construção do objeto de pesquisa se faz pro-
gressivamente, o pesquisador focalizando sua atenção no objeto e delimitando gra-
dualmente os contornos de seu problema. Isso porque o pesquisador qualitativo
tenderá a construir seu objeto em contato com o campo e com os dados que ele co-
letará. De modo mais geral, o pesquisador se colocará, primeiramente, questões
gerais que ele transformará em objeto mais específico, à medida que ele avançar
em seus trabalhos. O processo da coleta dos dados e da análise obriga o pesquisa-
dor a vasculhar sistematicamente o campo de investigação para construir seu obje-
to. Esse movimento de vai e vem ritma a cronologia do ato de pesquisa e constitui
uma das principais características da pesquisa qualitativa.

Os postulados

Numa abordagem hipotético-dedutiva, a-ênfase recai sobre a necessidade de for-


mular uma hipótese que será preciso testar. O objeto e o problema de pesquisa são,
portanto, elaborados desde o início, a partir de um corpus preexistente de pesquisas
que se deve examinar, para aí encontrar lacunas, Para empregar uma metáfora, a
construção do objeto de pesquisa é, assim, vista como uma pedra que, colocada em
bom lugar, fortificará o delineamento. Ocorre o inverso para a pesquisa qualitativa:
em primeiro lugar, as hipóteses são geralmente substituídas por postulados indican-
do mais uma tendência do que uma relação de causa e efeito; em segundo lugar, os
postulados são abertos, menos predeterminados, e podem surgir a qualquer mo-
mento da pesquisa, os mais interessantes aparecendo, aliás, durante o processo.

Conclusão
A proximidade entre os atores sociais e o pesquisador, na pesquisa qualitativa,
acarretou a possibilidade de considerar estes mesmos atores como objetos defini-

149
dos por um conjunto de propriedades que o pesquisador pode fazer variar à vonta-
de. Ao buscar descrever o "jogo da vida real" (ERICKSON, 1986: 163), sob uma
perspectiva holística e interpretativa, o pesquisador qualitativo busca o real ?rn
função de uma problemática relacional que se insere em um contexto determina.
do. Segundo Pou part, "nesse tipo de pesquisa, o campo de estudo não é pré-esn-j.
turado, nem operacionalizado de antemão. O pesquisador deve se render às condi-
ções particulares do campo e estar atento às dimensões que possam se revelar per-
tinentes" (POUPART, 1981: 46).
Contudo, a pesquisa qualitativa não se constrói unicamente a partir do que é
dado, como o pretende um empirismo radical: autores (SILVERMAN, 1985; SO-
LUET, 1987a; GUBRIUM & SILVERMAN, 1989) mostraram que a construção do
objeto era, de fato, uma escolha política. Essa dimensão política da pesquisa, quali-
tativa ou quantitativa coloca a questão do papel do pesquisador no mundo social e
reconsidera a distinção fato-valor, ciência-ideologia, teoria-prática. Partindo das
análises de Foucault sobre as relações entre o saber e o poder, Gubrium e Silver-
man (1989) afirmam que toda pesquisa é, antes de tudo, uma prática discursiva
que baseia poder e saber em locais apropriados, nos quais as disciplinas (científi-
cas) se confundem com a disciplina (moral). A construção do objeto não recai so-
bre uma realidade do mundo social problematizado por seus atores (seja qual for a
posição que eles ocupem), nem sobre uma intenção individual do pesquisador, ou
de um grupo de pesquisadores, mas sim, sobre um conjunto de práticas discursi-
vas, que, "ainda que não sejam nem verdadeiras, nem falsas, em si mesmas, produ-
zem um efeito de verdade" (p. 8). Essas problemáticas são sustentadas, mais espe-
cialmente, por dois ramos da pesquisa nas ciências sociais, que adotam mais fre-
quentemente (porém nem sempre) uma abordagem qualitativa: a pesquisa-ação e
a pesquisa feminista.
A abordagem qualitativa nasciências sociais compõe seus objetos num ní-
vel local, por uma espécie d? bricolagem criadora, segundo a expressão de
Levi-Strauss. O objeto da pesquisa é construído tanto a partir dos dados "colhidos,
explorados, traduzidos e reconstituídos" (MORVAN, 1989: 95), que o pesquisa-
dor trata por meio de um instrumento metodológico e teórico, quanto a partir de
campos disciplinares que se constituem sociologicamente (o reconhecimento das
disciplinas é questão de poder), através de uma corporação de ofício em negocia-
ção com os pares, com o mundo social ao qual a pesquisa se refere, e com as insti-
tuições que possibilitam a sua prática. Desde então, os enfoques de uma reílexão
sobre a preparação do delineamento de pesquisa qualitativa não passam mais uni-
camente pelo polo metodológico, mas também por um polo político, que define a
pertinência das escolhas do objeto e das técnicas, e que avalia as repercussões que
tais escolhas determinam sobre todos os atores da pesquisa.

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