Você está na página 1de 57

Título original:

El reino de este mundo

Tradução:
João Olavo Saldanha

Apresentação de:
Otto Maria Carpeaux

Copyright © 1985 — Espólio de Alejo Carpentier, representado por


AGENCIA LITERÁRIA LATINOAMERICANA, Havana, Cuba

Direitos para a língua portuguesa adquiridos pela


EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.
Av. Beira Mar, 262 — Sala 802
20021-060 — Castelo — Rio de Janeiro — RJ
que se reserva a propriedade desta tradução

Para esta edição:


DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA, S.A.
Rua Argentina, 171 — 20921-380
Rio de Janeiro, RJ — Tel. 585 20 00 e
EDICIONES ALTAYA, S.A.

ISBN: 85-01-15484-9
Sumário

Nota dos Editores


Apresentação
Prefácio

Primeira Parte
As cabeças de cera
A poda
O que a mão encontrava
A contagem
De Profundis
As metamorfoses
A vestimenta do homem
O grande salto

Segunda Parte
A filha de Minos e Pasifaé
O grande Pacto
O chamado dos búzios
Dogón dentro da arca
Santiago de Cuba
A nave dos cães
São Transtorno

Terceira Parte
Os signos
Sans-Souci
O sacrifício dos touros
O emparedado
Crônica do dia 15 de agosto
Ultima Ratio Regum
A porta única

Quarta Parte
Noite das estátuas
A casa real
Os agrimensores
Agnus Dei
NOTA DOS EDITORES

SEM QUALQUER jactância, mas com muita alegria por ter cumprido um dever cultural, a EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA foi
pioneira no lançamento, há 20 anos, de importantes autores latino-americanos, numa coleção intitulada NOSSA AMÉRICA,
dirigida pelo poeta Thiago de Mello.
Ela não teve o êxito comercial que esperávamos, pois os leitores brasileiros somente anos depois começaram não apenas
a tomar consciência de sua inescapável e indispensável integração no complexo dos problemas e aspirações continentais, mas
a constatar que, nas décadas mais recentes, a literatura latino-americana se vem firmando universalmente como o celeiro de
grandes talentos criativos e inovadores.
Muitos dos autores que pela primeira vez publicamos no Brasil são hoje nomes consagrados em toda parte, tanto pela
crítica quanto pelos leitores, como é o caso de Alejo Carpentier, cujo extraordinário romance O REINO DESTE MUNDO
reeditamos agora.
Thiago de Mello, amigo pessoal do grande autor cubano, que faleceu em 1980, e constante paladino dos povos da
América Latina, escreveu novo texto para os complementos de capa; Otto Maria Carpeaux, o sábio europeu que o Brasil teve a
boa sorte de receber e adotar, já faleceu também. Em homenagem à sua imperecível memória, e como prêmio extra aos
leitores deste livro, reproduzimos sem alteração o texto da Apresentação (de Alejo Carpentier) que ele, a nosso pedido,
escreveu em 1966.
APRESENTAÇÃO

O CUBANO ALEJO CARPENTIER é um dos escritores latino-americanos mais famosos destes nossos tempos. É, ao lado do
guatemalteco Miguel Ángel Asturias e dos mexicanos Juan Rulfo e Carlos Fuentes, um dos grandes romancistas modernos
deste continente e já conquistou a atenção e a admiração do mundo inteiro, através das traduções de suas obras para o francês,
inglês, russo, italiano, alemão e outras línguas.
É expressão típica da mentalidade nacionalista e revolucionária da América Latina de hoje. No entanto, embora natural
de Havana onde nasceu em 1904, não é latino-americano de origem: é filho de pai francês e mãe russa e é homem de formação
europeia. Mas abraçou sua Cuba nativa com todo o amor de filho que volta a casa paterna. Repudiou seu passado de esteta
requintado. Colocou seu talento a serviço da causa do novo mundo, e conseguiu fazer ouvir a voz dessa causa no velho
continente. É um vencedor da vida. A única coisa que não conseguiu é esta: rebaixar sua arte para o nível do panfleto. Esse
revolucionário autêntico também é um grande artista.
Carpentier — o nome de família é francês, o prenome Alejo é russo, a língua é a espanhola e o coração é cubano é
homem de sete instrumentos. Estudou arquitetura. Já foi assistente teatral, na companhia de Louis Jouvet. De profissão, é
músico. Seus estudos de harmonia e contraponto no Conservatório de Paris deram como resultado uns bailados, música de
coro e para filmes (também é cineasta). Escreveu um livro importante sobre música cubana, abrindo aos europeus os ouvidos
para a arte original e bárbara de compositores como Estebán Salas, Amadeo Roldán e Alejandro García Caturla. Foi o
primeiro livro especificamente latino-americano de Alejo Carpentier.
Até então tinha vivido, em Paris, em companhia dos Aragon, Tzara, Éluard, Picasso e, sobretudo, dos surrealistas, à cuja
maneira chegara a escrever poesias e contos. Mas agora renegou esse seu passado. Voltou para Cuba, onde o surpreendeu a
crise.
Os pais de Carpentier, o francês e a russa, embora pessoas de inclinações artísticas, tinham-se fixado em Havana,
levados pela prosperidade açucareira. Mas a grande crise econômica de 1929 destruiu os fundamentos desse bem-estar
artificial. Foi então que despertou a consciência social, precariamente reprimida pela ditadura de Gerardo Machado. Cuba
mudou de mentalidade e o cubano repatriado Alejo Carpentier também passou pela crise de tomada de consciência, social e
nacional. Então nasceu, assim como no mesmo momento nos Estados Unidos do New Deal, uma nova literatura latino-
americana, da qual Alejo Carpentier estava destinado a ser um dos protagonistas.
Começou a escrever poesia negra, à maneira de Nicolás Guillén e Ramón Guirao. Participou de conspirações contra a
ditadura. Foi preso. Na prisão começou a escrever o romance social Écue-Yamba-Ó, que foi terminado e publicado em Madri,
onde Carpentier frequentava o círculo de García Lorca. Passou anos de exílio em Caracas, agora conspirando contra a
ditadura de Batista. Voltou para Cuba depois da vitória de Fidel Castro, sob cujo regime é hoje a personalidade cultural de
primeiro plano.
Personalidade de muitas facetas: homem de cultura europeia e americana, nacionalista latino-americano e revolucionário.
O choque de duas civilizações, dentro da alma de Carpentier e em seu ambiente, é o tema do romance Los Pasos Perdidos, ao
qual o escritor deve o primeiro sucesso internacional: é a história de uma expedição musicológica que, a serviço de um museu
nos Estados Unidos, procura colecionar instrumentos musicais folclóricos na região das fontes do Orinoco e descobre, lá, uma
civilização arcaica, bárbara, mágica.
A deterioração desse mundo primitivo pela moderna economia exploradora é o tema daquele romance Écue-Yamba-Ó,
romance social e naturalista da vida dos negros pobres nos slums de Havana e nas plantações de açúcar — pensar-se-ia em
nosso romance nordestino, se não fosse o estilo personalíssimo de Carpentier, barroco, metafórico, febril, uma linguagem
enriquecida por expressões dialetais e neologismos técnicos que lembra o caso do grande romancista italiano Carlo Emilio
Gadda.
Carpentier é escritor abundante. Por isso mesmo é o supremo objetivo do seu esforço artístico a concentração. É curta a
novela El Acoso, episódio meio autobiográfico de história das conspirações cubanas contra a ditadura de Gerardo Machado.
Agora, aquele choque de duas civilizações é simbolizado pela situação do revolucionário procurado pela polícia que se
esconde numa sala de concertos, durante uma execução da sinfonia Eroica de Beethoven.
A experiência revolucionária de Carpentier transforma o tema: o nacionalista latino-americano reconhece que as ideias
de libertação chegaram do velho mundo. É preciso estudar o impacto da Revolução Francesa sobre as populações
escravizadas do Caribe. Descrevendo-o em romances históricos que se passam no fim do século XVIII e no começo do século
XIX, Carpentier escreve, ao mesmo tempo, alegorias do impacto da outra revolução, de nossos dias, sobre aquelas populações,
ainda não libertadas. Os símbolos dessa libertação são, no romance histórico El Siglo de Luces, o Livro e a Guilhotina. A
esse ciclo de romances históricos pertence a presente obra: El Reino de Este Mundo. É a história de uma ditadura libertadora
dos pretos de Haiti, de um ditador-libertador como Toussaint L’Ouverture.
Carpentier conhece Haiti. Esteve lá como assistente teatral da companhia de Louis Jouvet que, em viagem pela América
Latina, deu representações naquela República de pretos de língua francesa. Seria do maior interesse comparar El Reino de
Este Mundo com obras parecidas da própria literatura haitiana, de Jacques Roumain ou Jacques Alexis. Mas, sendo quase
desconhecida no Brasil essa literatura, é mais reveladora para nós a comparação com Emperor Jones, de O’Neill. Como este,
Carpentier observa e destaca os traços grotescos e bárbaros da pitoresca e desoladora história haitiana. Mas em vez do
misticismo ou pseudomisticismo teatral do dramaturgo norte-americano, eleva-se a voz clara da consciência social e o que ela
nos diz, em El Reino de Este Mundo, permite determinar e definir a posição de Carpentier e dos seus contemporâneos como
Asturias, Rulfo, Fuentes, Rodríguez Monegal, Ernesto Sabato, Julio Ramón Ribeyro.
Depois de 1929, o romance social norte-americano foi, durante um momento histórico, a voz da consciência do mundo,
assim como o fora no século XIX a literatura russa. Hoje a literatura latino-americana assumiu esse papel.
Necessário é observar as diferenças. O romance social norte-americano dos anos de 1930, de Dreiser, Farrel, Caldwell,
Steinbeck, foi, assim como o romance latino-americano dos mesmos anos, neonaturalista. O estilo de um Carpentier, de um
Asturias, é barroco e moderno, abundante, febril e metafórico. Mas essa riqueza estilística não obscurece, antes intensifica a
clareza de consciência social e a grande piedade com a criatura torturada. El Reino de Este Mundo evoca irresistivelmente os
versos que, naquela mesma época, o grande poeta inglês Wordsworth dedicou ao desgraçado Toussaint L’Ouverture, “ the
most unhappy man of men”, consolando-o no seu calabouço e lembrando-lhe “os grandes aliados que lhe ficam: seus amigos
Exultação, Agonia, Amor e o invencível espírito humano”.
“... thou hast great allies, Thy friends are exultations, agonies, And love, and man’s unconquerable mind.”

OTTO MARIA CARPEAUX


PREFÁCIO

... Entender-se-á com isso de se transformarem em lobos que existe uma enfermidade à qual os médicos chamam mania lupina...

(DE “OS TRABALHOS DE PERSILES E SIGISMUNDA”)

EM FINS DE 1943 tive a sorte de visitar o reino de Henri Christophe — as ruínas, tão poéticas, de Sans-Souci; a grandeza
imponente da Cidadela La Ferrière, intacta apesar dos raios e dos terremotos — e de conhecer a ainda normanda Cidade do
Cabo, o Cap Français da antiga colônia, onde uma rua cercada por longuíssimos balcões conduz ao palácio de pedras brancas
habitado antigamente por Paulina Bonaparte. Depois de sentir o tão bem propalado sortilégio das terras do Haiti, de ter
encontrado as advertências mágicas pelas estradas de terra vermelha da Meseta Central, de ter ouvido os tambores de Petro e
Rada, fui tentado a aproximar aquela maravilhosa realidade recém-vivida à exaustiva pretensão de suscitar o maravilhoso que
caracterizou certa literatura europeia nestes últimos trinta anos. Aquele maravilhoso, revivido através dos velhos clichês da
Floresta de Brocelianda, dos Cavaleiros da Távola Redonda, do feiticeiro Merlin e do Ciclo do Rei Artur, O maravilhoso,
parcamente sugerido por ofícios e deformidades de personagens de feira. Não se cansam nunca os jovens poetas franceses dos
mostrengos e palhaços da fête foraine, dos quais Rimbaud já se despedira na sua Alquimia do Verbo ? O maravilhoso, obtido
com truques de prestidigitação, reunindo objetos sem finalidade alguma: a velha e embusteira história do encontro fortuito do
guarda-chuva e da máquina de costura em cima de uma mesa de dissecação, gerador das colheres de arminho; os caracóis no
táxi chuvoso; a cabeça de leão no pélvis da viúva, exibidos amiúde nas exposições surrealistas. Ou ainda, o maravilhoso em
literatura: o rei, da Julieta, de Sade; o supermacho, de Jarry, o monge, de Lewis, e o tétrico instrumental da novela negra
inglesa, com seus fantasmas, sacerdotes emparedados, licantropias e mãos cravadas na porta de um castelo.
Mas à força de suscitar o maravilhoso a todo transe, os taumaturgos tornaram-se burocratas. Invocado através de
fórmulas arquissabidas — que transformam certas pinturas num monótono armarinho de relógios derretidos, manequins de
costureira e vagos monumentos fálicos — o maravilhoso resulta apenas num guarda-chuva, numa lagosta, numa máquina de
costura, ou o que seja, sobre uma mesa de dissecação, no interior de um quarto triste ou num deserto de pedras. Aprender
códigos de memória é pobreza de imaginação, já dizia Unamuno. E hoje existem códigos para o fantástico, baseados no
princípio do burro devorado por um figo, proposto nos Cantos de Maldoror como suprema inversão da realidade, aos quais
devemos tantos “meninos ameaçados por rouxinóis” ou “cavalos devorando pássaros”, de André Masson. Entretanto, convém
observar que quando André Masson quis desenhar a selva da ilha da Martinica, com o incrível entrelaçamento de suas plantas
e a obscena promiscuidade de certas frutas, a maravilhosa verdade do tema devorou o pintor, deixando-o pouco menos que
impotente frente ao papel em branco. E foi preciso um pintor da América, o cubano Wilfredo Lam, para nos ensinar a magia da
vegetação tropical, a desenfreada Criação de Formas da nossa natureza — com todas suas metamorfoses e simbioses — em
quadros monumentais que ocupam hoje uma posição ímpar na pintura contemporânea. Ante a desconcertante pobreza de
imaginação de um Tanguy, por exemplo, que há vinte e cinco anos pinta as mesmas larvas pétreas sob o mesmo céu cinzento,
tenho ganas de repetir aquela frase que enchia de orgulho os surrealistas da primeira fornada: “Vous qui ne voyes pás, pensez
a ceux qui voient.” Ainda existem, porém, muitos adolescentes que encontram prazer em violentar cadáveres de mulheres
recém-mortas (Lautréamont), sem se darem conta do maravilhoso que seria violentá-las vivas. Acontece que muitos esquecem
— disfarçados de mágicos baratos — que o maravilhoso começa a sê-lo, de maneira inequívoca, quando surge de uma
inesperada alteração da realidade (o milagre), de uma revelação privilegiada da realidade, de um destaque incomum ou
singularmente favorecedor das inadvertidas riquezas da realidade, ou de uma ampliação das escalas e categorias da realidade,
percebidas com particular intensidade, em virtude de uma exaltação do espírito, que o conduz até um tipo de “estado limite”.
Antes de tudo, para sentir o maravilhoso é necessário ter fé. Aqueles que não acreditam em santos não se podem curar com
milagres de santos, como também não podem entrar de corpo, alma e posses no mundo de Amadis de Gaula ou de Tirante, o
Branco, aqueles que não são quixotescos. Prodigiosamente fidedignas resultavam certas frases de Rutilio, nos Trabalhos de
Persiles e Sigismunda, sobre homens que se transformavam em lobos, porque, na época de Cervantes, era crença geral
existirem pessoas atacadas pela mania lupina. E da mesma forma a viagem do personagem, desde Toscana até a Noruega,
sobre o manto de uma bruxa. Marco Polo admitia a existência de aves que voavam carregando elefantes nas garras, e Lutero
viu o Demônio de frente, em cuja cabeça atirou um tinteiro. Victor Hugo, tão explorado pelos colecionadores de livros sobre o
maravilhoso, acreditava em aparições, porque estava seguro de ter falado, em Guernesey, com o fantasma de Leopoldina. Para
Van Gogh, bastava ter fé no girassol para fixá-lo numa tela. Eis a razão por que o maravilhoso invocado sem fé — como o
fizeram os surrealistas durante tantos anos — nunca foi senão uma artimanha literária, tão aborrecida, ao prolongar-se
demasiadamente, quanto certa literatura onírica “arranjada” e certos elogios à loucura, tão comuns hoje em dia. Entretanto,
nem por isso vamos dar a razão a determinados partidários do regresso ao realismo — termo que adquire, então, um
significado gregariamente político — que não fazem senão substituir os truques de prestidigitação pelos lugares-comuns do
literato “arrolado”, ou pelo escatológico deleite de certos existencialistas. Mas é indubitável que pouco se pode dizer em
defesa dos poetas e artistas que louvam o sadismo sem praticá-lo, que admiram o supermacho por impotência; que invocam
espectros sem acreditar que respondam a seus cânticos; que fundam sociedades secretas, seitas literárias e grupos vagamente
filosóficos, com santos, senhas e misteriosas finalidades — nunca alcançadas — sem que sejam capazes de conceberem uma
mística válida ou de abandonarem hábitos mesquinhos para se atirarem de corpo e alma na fatalidade de uma crença.
Tudo isso ficou particularmente evidente durante minha permanência no Haiti, quando vivi em contato diário com aquilo
que poderíamos chamar de Realidade Maravilhosa. Pisava eu numa terra onde milhares de homens ansiosos pela liberdade
acreditaram nos poderes licantrópicos de Mackandal, a tal ponto, que essa fé produziu um milagre no dia da sua execução.
Conhecia já a história prodigiosa de Bouckman, o iniciado jamaicano. Tinha já estado na Cidadela La Ferrière, obra sem
antecedentes arquitetônicos, apenas vagamente anunciada nas Prisões Imaginárias, de Piranese. Tinha também respirado a
atmosfera criada por Henri Christophe, monarca de incrível tenacidade, muito mais surpreendente que todos os reis cruéis
inventados pelos surrealistas, muito chegados às tiranias imaginárias, embora nunca padecidas. A cada passo encontrava a
Realidade Maravilhosa. Pensava também que essa presença e vigência da Realidade Maravilhosa não era privilégio único do
Haiti, senão um patrimônio de toda a América, onde ainda não se concluiu, por exemplo, um inventário de cosmogonias.
Encontramos a Realidade Maravilhosa em cada passo das vidas dos homens que assinalaram as datas importantes da história
do Continente e que deixaram nomes ainda lembrados: desde aqueles que buscavam a Fonte da Juventude Eterna ou a Áurea
Cidade de Manoa, até os primeiros rebeldes, aqueles heróis modernos de nossas guerras de independência, de tão mitológica
atitude, como aquela Coronela Juana de Azurduy. Sempre me pareceu muito significativo que em 1780 um punhado de
espanhóis prudentes, embarcados em Angostura, ainda se lançassem em busca do Eldorado; e mais, que na época da
Revolução Francesa — Viva a Razão e o Ser Supremo! — Francisco Menéndez, de Santiago da Compostela, andasse pelas
terras da Patagônia buscando a Cidade Encantada dos Césares! Sintonizando outro aspecto da questão, veríamos, por exemplo,
que na Europa Ocidental o folclore de danças perdeu todo o seu caráter de magia e de evocação; e na América, por outro lado,
rara é a dança coletiva que não encerre um profundo sentido ritual, criando-se em torno deste, todo um processo iniciado:
assim, temos as festas de santos, em Cuba, e a prodigiosa versão dada pelos negros à festa de Corpus Christi, que pode ainda
ser vista no povoado de São Francisco de Yare, na Venezuela.
Em determinado momento, o herói (no canto sexto do Maldoror), perseguido por toda a polícia do mundo, escapa de um
“exército de agentes e espiões” adotando a aparência de diversos animais e fatendo uso de seu poder de transportar-se
instantaneamente para Pequim, Madri ou São Petersburgo. Isso é literatura maravilhosa na sua plenitude. Na América, porém,
onde nunca se escreveu nada semelhante, existiu um Mackandal, dotado desses mesmos poderes pela fé de seus
contemporâneos, que deu alento, com esse mesmo sortilégio, a uma das sublevações mais estranhas e dramáticas da História.
Maldoror — confessa o próprio Ducasse — não passava de um Rocambole poético, e dele não ficou mais que uma escola
literária de vida efêmera. De Mackandal, o americano, por outro lado, resta toda uma mitologia, acompanhada de mágicos
cânticos, conservados por uma aldeia inteira, e que ainda hoje são cantados nas cerimônias do Vodu. (Também é uma estranha
casualidade que Isidoro Ducasse, homem que possuía excepcional instinto do fantástico-poético, tivesse nascido na América e
que se jactasse tão enfaticamente, no final de um dos seus cantos, ser de Montevidéu). É evidente, pela virgindade da
paisagem, pela sua formação, pela ontologia, pela afortunada presença do índio e do negro, pela Revelação que constituiu seu
recente descobrimento, pelas fecundas mestiçagens que propiciou, que a América ainda está muito longe de ter esgotado seu
caudal de mitologias.
Sem que me propusesse sistematicamente, o texto que se segue responde a essa ordem de preocupações. Nele se narra
uma sucessão de fatos extraordinários, ocorridos na ilha de São Domingos, numa época determinada, que não alcança o
período de uma vida humana, deixando-se que o maravilhoso emane livremente de uma realidade estritamente seguida em
todos os seus detalhes. Porque é mister advertir que o relato que se segue foi estabelecido com base numa documentação
extremamente rigorosa, que respeita a verdade histórica dos fatos, dos nomes dos personagens — incluindo os secundários —
dos lugares e até das ruas, e que oculta também, sob sua aparente intemporalidade, um minucioso cotejo de datas e
cronologias. Entretanto — pela dramática singularidade dos acontecimentos, pela fantástica presença dos personagens que se
encontraram em determinado momento na encruzilhada mágica da Cidade do Cabo — tudo é maravilhoso, nessa história
impossível de situar na Europa, e que, todavia, é tão real como qualquer jeito exemplar daqueles consignados, para edificação
pedagógica, nos manuais escolares. Mas o que é a História da América senão toda uma crônica da Realidade Maravilhosa?

A. C.
PRIMEIRA PARTE
DEMÔNIO
Peço licença para entrar...
PROVIDÊNCIA
Quem és?
DEMÔNIO
O rei do Ocidente.
PROVIDÊNCIA
Já sei quem és, maldito. Entra!
(Entra agora)
DEMÔNIO
Oh tribunal bendito,
eterna Providência!
Aonde Colombo envias
para os meus sofrimentos renovar?
Não sabes que já muito tempo faz
aquelas são terras minhas?

LOPE DE VEGA
AS CABEÇAS DE CERA

ENTRE OS vinte garanhões transportados para o Cabo Francês pelo capitão do barco, que era intermediário de um criador
normando, Ti Noel escolhera sem vacilação aquele reprodutor grandalhão, de garupa redonda, bom para a remonta das éguas
que estavam parindo potros cada vez menores. Conhecedor da perícia do escravo em matéria de cavalos, Monsieur
Lenormand de Mezy, sem reconsiderar a escolha, pagara em sonantes luíses. Depois de fazer um freio de cordas, Ti Noel
gozava toda a largura do sólido animal de pelo mosqueado, sentindo nas coxas a saboeira de um suor que pronto transformar-
se-ia em espuma ácida sobre o espesso pelame percherão. Seguindo o amo, que cavalgava um alazão de patas mais finas,
atravessara o bairro do porto — com seus armazéns recendendo a salmoura, com suas lonas retesadas pela umidade e suas
bolachas duras de partir a soco — antes de sair na Calle Mayor, plena de tonalidades cambiantes naquela hora matinal, pelos
lenços quadriculados de cores vivas das empregadas negras que voltavam do mercado. A passagem da rica carruagem do
governador, toda enfeitada de contas douradas, arrancou ampla saudação a Monsieur Lenormand de Mezy. Em seguida, o amo
e o escravo amarraram os animais em frente à barbearia, que recebia a Gazeta de Leyde, para distração de seus fregueses
mais cultos.
Enquanto o amo fazia a barba, Ti Noel pôde contemplar a seu gosto as quatro cabeças de cera que adornavam a estante
da entrada. O ondulado das perucas enquadrava os semblantes imóveis, antes de se espalhar, num remanso de crespos cachos,
sobre um tapete encarnado. Aquelas cabeças pareciam tão reais — embora tão mortas, pela fixidez dos olhos — quanto a
cabeça falante que um charlatão de passagem pelo Cabo tinha trazido, anos atrás, para ajudá-lo a vender um elixir contra dor
de dente e reumatismo. Por graciosa casualidade, o açougue ao lado exibia cabeças de terneiro, esfoladas, com um raminho de
salsa sobre a língua, que também tinham o mesmo tom de cera, e estavam como que adormecidas entre rabos escarlates, patas
em gelatina e panelas de tripas à moda de Caen. Apenas um tabique de madeira separava os dois mostruários, e Ti Noel se
divertia pensando que ao lado das cabeças de terneiro descoradas, serviam-se, na toalha da mesma mesa, cabeças de brancos
senhores. Assim como se costuma guarnecer as aves com suas plumagens para apresentá-las aos comensais de um banquete,
um cozinheiro hábil e ogro adornara as cabeças de cera com suas melhores perucas. Não lhes faltava mais que uma orla de
folhas de alface ou de rabanetes cortados em flor. No mais, os potes de goma-arábica, os vidros de água de lavanda e as
caixas de talco, vizinhas às caçarolas de miúdos e às bandejas de rins, completavam, com singulares coincidências de frascos
e recipientes, aquele quadro de um abominável banquete.
Havia abundância de cabeças naquela manhã, já que, ao lado do açougue, o livreiro tinha pendurado num arame, com
prendedores de roupa, as últimas estampas recebidas de Paris. Em quatro delas, pelo menos, ostentava-se o rosto do rei de
França, moldurado de sóis, espadas e lauréis. Mas havia muitas outras cabeças emperucadas, provavelmente de altos
personagens da corte. Os guerreiros eram identificáveis pelas atitudes de quem vai partir para o ataque. Os magistrados, pela
carranca de meter medo. Os poetas de talento, porque sorriam, sobre duas plumas, encimando versos que nada diziam a Ti
Noel, já que os escravos não sabiam ler. Havia também gravuras em cores, de confecção mais ligeira, onde se podiam ver os
fogos de artifício dos festejos da tomada de alguma cidade; bailados com médicos armados de enormes seringas; uma partida
de cabra-cega num parque; jovens libertinos mergulhando a mão no decote de uma camareira; ou, a inevitável astúcia de um
apaixonado que, recostado na relva, descobre, arrebatado, os íntimos recessos da dama que se embala inocentemente num
balanço. Mas Ti Noel fora atraído naquele momento por uma gravura em cobre, última da série, que se diferenciava das
demais pelo assunto e pela confecção. Representava ela uma espécie de embaixador ou almirante francês sendo recebido por
um negro rodeado de leques de plumas e sentado sobre um trono adornado de figuras de macacos e lagartos.
— Que gente é essa? — perguntou atrevidamente ao livreiro, que acendia um comprido cachimbo de barro na soleira de
sua loja.
— É um rei do teu país.

Não teria sido necessária a confirmação daquilo que já pensara, porque o jovem escravo havia recordado, de pronto, aquelas
histórias que Mackandal cantava em salmos, na moenda de cana, naquelas horas em que o cavalo mais velho da fazenda de
Lenormand de Mezy fazia girar os cilindros. Com voz fingidamente cansada, para melhor preparar certos efeitos, o mandinga
referia-se a feitos que tinham ocorrido nos grandes reinos de Popo, de Arada, dos nagôs e dos fulas. Falava de grandes
migrações de povos inteiros, de guerras seculares, de prodigiosas batalhas nas quais os animais tinham ajudado os homens.
Conhecia a história de Adonhueso, do rei da Angola, do Rei Da, encarnação da serpente, o eterno princípio do retorno
infinito, o qual se divertia misticamente com uma rainha, a rainha do Arco-íris, senhora da água e de todos os partos. Mas
sobretudo era prolixo na narração das façanhas de Kankán Muza, o feroz Muza, construtor do invencível império dos
mandingas, cujos cavalos eram enfeitados com moedas de prata e caronas bordadas, e relinchavam mais alto que o fragor das
armas, levando o trovão na pele dos tambores suspensos ao cangote. Além disso, aqueles reis carregavam de lança, à frente de
suas hordas, invulneráveis pela ciência dos Preparadores, e só caíam feridos se de alguma maneira ofendessem as divindades
do Raio ou as divindades da Forja. Reis eram, reis de verdade, e não esses soberanos cobertos de cabelos alheios, que
jogavam a bula e só sabiam imitar os deuses nos palcos de seus teatros da corte, exibindo a perna amaricada ao compasso de
uma contradança. Esses soberanos brancos ouviam mais as sinfonias de suas rabecas, as arengas dos libelos, os mexericos de
suas favoritas e os cantos de seus pássaros de cordas, do que os estampidos dos canhões disparando sobre o contraforte da
meia-lua dos baluartes. Embora não tivesse cultura, Ti Noel tinha sido instruído nessas verdades pelo profundo saber de
Mackandal. Na África, o rei era guerreiro, caçador, juiz e sacerdote; seu sêmen precioso engrossava em centenas de ventres
uma vigorosa estirpe de heróis. Na França, na Espanha, no entanto, o rei enviava seus generais para o combate; era
incompetente para dirimir litígios e era repreendido por qualquer frade confessor. E quanto à virilidade, não ia além de gerar
um príncipe debiloide, incapaz de abater um veado sem a ajuda de seus batedores, a quem chamavam, com inconsciente
ironia, pelo nome de um peixe tão inofensivo e frívolo como o delfim. Além, no Grande Além, existiam príncipes rijos como a
bigorna, príncipes-leopardos, príncipes que conheciam a linguagem das árvores, príncipes que mandavam nos quatro pontos
cardeais, donos das nuvens, da semente, do bronze e do fogo.
Ti Noel ouviu a voz do amo, que saía da barbearia com o rosto branco pelo excesso de talco. Seu rosto agora se
assemelhava surpreendentemente às quatro caras de cera que se alinhavam na estante, sorrindo estupidamente. De passagem,
Monsieur Lenormand de Mezy comprou uma cabeça de terneiro no açougue, entregando-a ao escravo. Montado no reprodutor
já impaciente por pastar, Ti Noel apalpava aquele crânio branco e frio, pensando que deveria oferecer ao tato um contorno
parecido ao da calva que o amo ocultava embaixo da peruca. Entretanto, a rua agora estava cheia de gente. As senhoras que
saíam da missa das dez ocupavam agora o lugar das negras que antes voltavam do mercado. Uma mestiça, concubina de algum
funcionário enriquecido, fazia-se seguir por uma empregada de cor tão desmaiada quanto ela, e que levava o leque de folha de
palmeira, o breviário e o guarda-sol de borlas douradas. Numa esquina bailavam os fantoches de um teatro ambulante. Mais
adiante, um marinheiro oferecia às damas um macaquinho do Brasil, vestido à espanhola. Nas tabernas, desarrolhavam-se as
garrafas de vinho, refrescadas em barris cheios de sal e areia molhada. O Padre Cornejo, cura de Limonade, acabava de
chegar à igreja principal montado na sua mula cinzenta.
Monsieur Lenormand de Mezy e seu escravo saíram da cidade pelo caminho que seguia à beira-mar. Do alto da fortaleza
soaram canhonaços. La Courageuse, da Armada Real, acabava de aparecer no horizonte, de volta da Ilha de Tortuga. Na sua
borda, brancas nuvens de fumo faziam eco aos estampidos. Assaltado pelas recordações de seus tempos de oficial pobre, o
amo começou a assobiar uma marcha para flauta. Ti Noel, em contraponto, tatareou para si mesmo uma quadra marinheira,
muito cantada pelos tanoeiros do porto, na qual se mandava à merda o rei da Inglaterra. Disso estava seguro, embora a letra
não estivesse em créole. Por isso mesmo sabia. E de mais a mais, para ele era pouca coisa o rei da Inglaterra, como o da
França ou o da Espanha, que mandava na outra metade da ilha, e cujas mulheres — segundo afirmava Mackandal —
avermelhavam as faces com sangue de boi e enterravam fetos de criancinhas num convento cujos subterrâneos estavam cheios
de esqueletos rechaçados pelo verdadeiro Céu, onde não se queriam mortos ignorantes dos deuses verdadeiros.
A PODA

TI NOEL sentara em cima de uma gamela virada, deixando que o velho cavalo fizesse girar a moenda num passo que o hábito
fazia absolutamente regular. Mackandal agarrava os feixes de cana, enfiando-os pelas pontas, a empurrões, entre os cilindros
de ferro. Com os olhos sempre injetados, o tronco possante, a delgadíssima cintura, o mandinga exercia estranha fascinação
sobre Ti Noel. Corria fama que sua voz grave e surda tudo conseguia das negras. E que suas manhas de narrador,
caracterizando seus personagens com caretas horríveis, impunham silêncio aos homens, sobretudo quando recordava uma
viagem que fizera, anos atrás, como cativo, antes de ter sido vendido aos negreiros de Serra Leoa. O moço compreendia, ao
escutá-lo, que o Cabo Francês — com seus campanários, seus prédios de pedra talhada, suas casas normandas adornadas com
longos balcões cobertos — era bem pouca coisa em comparação às cidades da Guiné. Lá, as cúpulas de barro vermelho
assentavam sobre grandes fortalezas recortadas de ameias. Os mercados eram famosos muito além dos limites do deserto;
além dos povos sem terras. Naquela cidade, os artífices eram hábeis em temperar os metais, forjando espadas que cortavam
como navalhas sem pesar mais que uma pétala na mão do guerreiro. Rios caudalosos, nascidos no Céu, lambiam os pés dos
homens, e não era necessário trazer o sal do País do Sal. Em depósitos muito grandes, guardava-se o trigo, o sésamo, o milho,
e de reino a reino efetuavam-se trocas que alcançavam o azeite de oliva e os vinhos de Andaluzia. Sobre tetos de folhas de
palmeira dormiam os tambores gigantes, os tambores-mãe, que tinham os pés pintados de vermelho e semblantes humanos. As
chuvas obedeciam aos conjuros dos sábios, e nas festas da Circuncisão, quando as adolescentes dançavam com as coxas
laqueadas de sangue, golpeavam as lajes sonoras que produziam uma música parecida com a queda das grandes cascatas
represadas. Na cidade sagrada de Widah, rendia-se culto à Cobra, mística representação do eterno círculo, assim como
também aos deuses que governavam o reino vegetal, que surgiam, molhados e reluzentes, entre os juncais que aquietavam as
margens dos lagos salobros.
O cavalo, extenuado, tombou, sobre os joelhos. Escutou-se um urro tão dilacerante e prolongado, que foi ouvido nas
fazendas vizinhas, alvoroçando os pombais. Agarrada pelos cilindros que, de repente, giraram com inesperada rapidez, a mão
esquerda de Mackandal tinha ido junto com as canas, arrastando o braço até o ombro. No tacho de garapa ia aumentando uma
mancha de sangue. Pegando um facão, Ti Noel cortou as correias que sujeitavam o cavalo ao varão da moenda. Os escravos
do curtume invadiram o engenho, correndo atrás do amo. Também vinham chegando os trabalhadores do defumadouro de carne
e do secadouro de cacau. Mackandal puxava agora seu braço triturado, fazendo girar os cilindros em sentido contrário. Com a
mão direita tentava mover o cotovelo, o pulso, que haviam deixado de lhe obedecer. Com o olhar aturdido, parecia não
compreender o que lhe havia sucedido. Começaram a apertar-lhe um torniquete de cordas sobre as axilas, para conter a
hemorragia. O amo ordenou que se trouxesse a pedra de amolar para afiar o facão que seria utilizado na amputação.
O QUE A MÃO ENCONTRAVA

INÚTIL PARA trabalhos maiores, Mackandal foi designado para guardar o gado. Tirava as vacas dos estábulos antes de raiar o
dia, levando-as para a montanha, em cujos lados de sombra crescia um pasto compacto que conservava o orvalho até alta
manhã. Ao observar a lenta dispersão dos animais que pastavam mergulhados no trevo até o ventre, começara a despertar nele
um estranho interesse por certas plantas sempre desprezadas pelo gado. Recostado à sombra de uma algarobeira, apoiando-se
no cotovelo de seu braço inteiro, procurava com sua única mão, entre as ervas conhecidas, em busca de todos os produtos da
terra cuja existência tinha desdenhado até então. Descobria com surpresa a vida secreta de espécies singulares, afeiçoadas à
dissimulação, à confusão, à camuflagem, amigas dos pequenos seres couraçados que evitavam o caminho das formigas. A mão
colhia alpistes desconhecidos, cápsulas sulfurosas, pimentas minúsculas; cipoais que teciam redes entre as pedras; plantas
solitárias, de folhas peludas, que transpiravam à noite; sensitivas que se encolhiam ao mero som da voz humana; cápsulas que
estalavam ao meio-dia, fazendo o barulhinho de unha esmagando uma pulga; lianas rasteiras, que se entrelaçavam, longe do
Sul, formando úmidos emaranhados. Havia uma trepadeira que provocava ardências e outra que inchava a cabeça de quem
descansasse à sua sombra. Porém, agora, Mackandal estava mais interessado pelos cogumelos. Cogumelos que fediam a
caruncho, a redoma, a porão, a doença; que provocavam inchação nas orelhas, línguas-de-vaca e carnosidades rugosas; que se
cobriam de exsudações ou abriam seus guarda-sóis riscados sobre frios recônditos, morada de sapos que miravam ou
dormiam sem um piscar de olho. O mandinga desmanchava a polpa de um cogumelo entre os dedos, subindo-lhe às narinas um
cheiro de veneno. Em seguida fazia uma vaca farejar sua mão. Quando o animal afastava a cabeça, com olhar assustado,
respirando fundo, Mackandal procurava mais cogumelos da mesma espécie, guardando-os numa bolsa de couro cru que levava
pendente ao pescoço.
A pretexto de banhar os cavalos, Ti Noel costumava afastar-se da fazenda de Lenormand de Mezy durante longas horas,
para reunir-se ao maneta. Ambos então se encaminhavam até os confins do vale, onde o terreno era acidentado, e as encostas
dos morros eram escavadas por grutas profundas. Detinham-se na casa de uma velha que vivia só, embora recebesse visitas de
gente que vinha de muito longe. Vários sabres pendiam das paredes entre bandeiras encarnadas, pesadas lanças, ferraduras,
meteoritos e colheres enferrujadas, presas com arame em forma de cruz, para afugentar o Barão Samedi, o Barão Piquant, o
Barão La Croix e outros senhores dos cemitérios. Mackandal mostrava a Mamãe Loi as folhas, as ervas, os cogumelos e os
símplices que trazia na bolsa. Ela os examinava cuidadosamente, apertando e cheirando uns e jogando fora outros. Às vezes,
falavam de animais notáveis que tinham tido descendência humana. E também de homens que certos cânticos dotavam de
poderes licantrópicos. Sabia-se de mulheres violadas por grandes felinos, que tinham trocado durante a noite, a palavra pelo
rugido. Certa vez, Mamãe Loi emudeceu de maneira estranha justo quando ia chegando à melhor parte de um relato. E
obedecendo a uma ordem misteriosa, correu à cozinha, mergulhando os braços dentro de uma panela cheia de azeite fervendo.
Ti Noel observou que o seu rosto refletia a mais completa indiferença, e, o que era mais estranho: seus braços, quando ela os
retirou do azeite, não apresentavam nem bolhas nem sinais de queimadura, apesar do pavoroso chiado de fritura que se ouvira
pouco antes. Como Mackandal parecia aceitar o fato com a mais absoluta calma, Ti Noel fez um esforço para ocultar seu
assombro. E a conversa prosseguia calmamente entre o mandinga e a bruxa, com prolongadas pausas, quando ambos ficavam
com o olhar perdido ao longe.
Um dia pegaram um cão no cio, que pertencia às matilhas de Lenormand de Mezy. Enquanto Ti Noel montado sobre ele
sujeitava sua cabeça pelas orelhas, Mackandal esfregou-lhe no focinho uma pedra tingida de amarelo claro pelo sumo de um
cogumelo. O cão contraiu os músculos e seu corpo foi sacudido por violentas convulsões, caindo em seguida sobre o lombo,
com as patas retesadas e as presas de fora. Naquela tarde, ao regressar à fazenda, Mackandal deteve-se longo tempo
contemplando as moendas, os secadouros de cacau, de café, a anilaria, as forjas, as cisternas, os defumadouros de carne, e
disse:
— Chegou o momento.
No dia seguinte o chamaram em vão. O amo organizou uma batida, para mera edificação dos escravos, sem se dar muito
trabalho. Pouco valia um escravo com um braço a menos. De mais a mais, todo mandinga — era coisa sabida — ocultava um
fugitivo em potencial. Dizer mandinga era dizer desordeiro, revoltado e demônio. Por isso a gente desse reino era tão mal
cotada nos mercados de escravos. Todos sonhavam com a fuga para as montanhas. E além disso, com tantas propriedades
vizinhas, o maneta não iria muito longe. Quando fosse devolvido à fazenda, seria submetido a suplícios na frente do pessoal,
para servir de exemplo. Mas um maneta não é mais que um maneta. Teria sido uma tolice correr o risco de perder um par de
mastins de boa raça, caso Mackandal tivesse a ideia de fazê-los calar com um facão.
A CONTAGEM

TI NOEL estava profundamente deprimido pelo desaparecimento de Mackandal. Tivesse este proposto uma evasão, teria aceito
com júbilo a missão de servir ao mandinga. Pensava agora que o maneta o considerava muito pouca coisa para pô-lo a par de
seus projetos. Nas noites longas, quando o moço sofria com esse pensamento, levantava-se do pesebre do estábulo onde
dormia e abraçava, chorando, o pescoço do garanhão normando, afundando o rosto nas crinas mornas que cheiravam a cavalo
lavado. A partida de Mackandal levava com ele todo aquele mundo evocado em suas narrativas. Com ele se foram também
Kankán Muza, Adonhueso, os reis verdadeiros e o Arco-íris de Widah. Perdida a razão de viver, Ti Noel aborrecia-se nas
batucadas dominicais: vivia com seus animais, cujas orelhas e períneos mantinha sempre livres de carrapatos. E assim
transcorreu toda a estação das chuvas.
Um dia, quando as águas dos rios baixaram, Ti Noel encontrou a velha da montanha nas imediações das cavalariças. Ela
lhe trazia uma mensagem de Mackandal. Por isso, ao raiar do dia, o moço penetrou numa caverna de entrada estreita, cheia de
estalagmites que desciam até uma cova mais funda, coberta de morcegos suspensos pelas patas. O solo estava coberto por uma
espessa camada de folhas de palmeira que aprisionava utensílios de pedra e espinhas de peixe petrificadas. Ti Noel observou
que várias vasilhas de barro ocupavam o centro da cova e que delas emanava, naquela úmida penumbra, um cheiro acre e
pesado. Sobre folhas de cincho amontoavam-se couros de lagarto. Uma laje grande e várias pedras redondas e lisas tinham
sido utilizadas, sem dúvida alguma, num recente trabalho de maceração. Sobre um tronco aparado a fio de facão em todo seu
comprimento, estava um livro de contabilidade, roubado do caixa da fazenda, em cujas páginas se alinhavam grossos signos
traçados a carvão. Ti Noel não pôde deixar de pensar nas lojas que vendiam ervas e drogas no Cabo, com seus morteiros, suas
receitas guardadas nas estantes, seus potes de noz-vômica, de goma amarga e seus pacotes de raiz de malvaísco para curar as
gengivas. Faltavam apenas alguns escorpiões conservados em álcool, as rosas maceradas no azeite e o viveiro de
sanguessugas.
Mackandal emagrecera. Seus músculos moviam-se agora ao nível da ossamenta, esculpindo o tronco com pujantes
relevos. Seu semblante, que apresentava reflexos oliváceos à luz do lampião, demonstrava, porém, tranquila alegria. Tinha a
testa cingida por um lenço escarlate, enfeitado com fieiras de contas. O que mais assombrou Ti Noel foi a evidência de um
longo e paciente trabalho realizado pelo mandinga desde a noite de sua fuga. Dir-se-ia que tinha percorrido todas as fazendas
da Planície, uma a uma, tratando diretamente com todos os que nelas trabalhavam. Sabia, por exemplo, que na anilaria de
Dondón podia contar com Olain, o hortelão, com Romaine, a cozinheira dos barracões, e com o caolho Jean-Pierrot. Na
fazenda de Lenormand de Mezy, enviara mensagens aos três irmãos Pongué, aos congoleses recém-chegados, ao fula cambaio
e a Marinette, a mulata que em outros tempos havia dormido na cama do amo, antes de ser devolvida à lixívia, pela chegada
de certa Mademoiselle de la Martinière, desposada por procuração num convento do Havre, ao embarcar para a colônia.
Tinha também entrado em contato com os dois angoleses que trabalhavam além do Barrete do Bispo, cujas nádegas riscadas
conservavam as marcas do ferro em brasa, aplicado como castigo por um roubo de aguardente. Com caracteres que só ele era
capaz de decifrar, consignara em seu registro o nome do Feiticeiro de Millot, e até de condutores de bestas de carga, úteis
para cruzar as cordilheiras e estabelecer contato com o pessoal das margens do Artibonite.
Ti Noel ficou sabendo nesse dia o que o maneta esperava dele. Naquele domingo, quando voltava da missa, o amo soube
que as duas melhores vacas leiteiras da fazenda — aquelas de rabo branco, trazidas de Ruão — agonizavam sobre suas
bostas, babando fel pelos beiços. Ti Noel explicou ao amo que os animais vindos de outros países costumavam enganar-se nos
pastos que comiam, tomando às vezes por saborosas leguminosas certos renovos que lhes envenenavam o sangue.
DE PROFUNDIS

O VENENO SE espalhou pela Planície do Norte, invadindo os potreiros e os estábulos. Não se sabia como se introduzira entre
as gramas e as alfafas, entre os fardos de ferragem, e nem como alcançava as mangedouras. O fato é que as vacas, os bois, os
novilhos, os cavalos e as ovelhas morriam às centenas, cobrindo a comarca inteira com um infindável fedor de carniça. Nos
crepúsculos acendiam-se grandes fogueiras, que desprendiam uma fumaça baixa e gordurenta, antes de se extinguirem sobre
montões de caveiras negras, de costelas carbonizadas e de cascos embrasados pelas chamas. Os maiores entendidos em ervas
do Cabo buscavam em vão a folha, a resina, a seiva, provável portadora da calamidade. Os animais continuavam tombando,
com os ventres inchados, envoltos pelo zumbido das moscas varejeiras. Os telhados estavam cobertos de grandes aves negras,
de cabeça pelada, que esperavam a hora de caírem em cima e romperem os couros, estourando de inchados, com uma bicada
que liberaria novas podridões.
Logo se soube com espanto que o veneno entrara nas casas. Uma tarde quando merendava um bolo, o dono da fazenda
Coq-Chante caíra subitamente, sem ter sentido nada antes, arrastando consigo um relógio de parede, no qual estava dando
corda. Antes que a notícia se espalhasse pelas propriedades vizinhas, outros proprietários tinham sido fulminados pelo veneno
que espreitava, para atacar melhor, escondido nas bacias dos veladores, nas terrinas de sopa, nos vidros de remédio, no pão,
no vinho, nas frutas e no sal. Escutava-se agora constantemente o martelar dos ataúdes. Na curva de cada caminho aparecia um
enterro. Nas igrejas do Cabo não se cantavam senão missas pelos mortos, e as extrema-unções chegavam sempre muito tarde,
escoltadas por sinos distantes que dobravam por novas mortes. Os sacerdotes tiveram de abreviar o latim para atenderem a
todas as famílias enlutadas. E na Planície soavam, lúgubres, as mesmas orações fúnebres, o grande hino do terror. Porque o
terror emagrecia os rostos e apertava as gargantas. À sombra das cruzes de prata que iam e vinham pelas estradas, o veneno
verde, o veneno amarelo ou o veneno que não tingia a água, continuava rastejando, descendo pelas chaminés, infiltrando-se
pelas fendas das portas fechadas, como uma incontida trepadeira que buscasse as sombras para fazer dos corpos sombras
também. Prosseguiam os Misereres e os De Profundis em todas as horas, na sinistra antífona dos chantres.
Exasperados pelo medo, bêbedos de vinho por não se atreverem mais a provar a água dos poços, os colonos açoitavam
seus escravos, em busca de uma explicação. O veneno, porém, seguia dizimando famílias, acabando com as pessoas e com os
animais, sem que as rezas, os conselhos médicos, as promessas aos santos, as cantigas ineficientes de um marinheiro bretão,
necromante e curandeiro, conseguissem deter a marcha subterrânea da morte. Com pressa bem involuntária de ocupar a última
cova que restava no cemitério, Madame Lenormand de Mezy morreu no domingo de Pentecostes, pouco depois de provar uma
laranja particularmente bela que um ramo complacente colocara ao alcance de suas mãos. Foi decretado estado de sítio na
Planície. Todo aquele que andasse pelos campos ou pelas cercanias das casas depois do pôr do sol seria morto a tiros de
mosquetão sem aviso prévio. A guarnição do Cabo desfilara pelas estradas numa ridícula ameaça de morte ao inimigo
inatingível. Mas o veneno continuava alcançando as bocas pelos caminhos mais inesperados. Um dia, os oito membros da
família Du Periguy o encontraram num barril de sidra que eles mesmos tinham trazido, nos braços, da adega de um barco
recém-ancorado. A carniça havia tomado conta de toda a comarca.
Certa tarde em que o ameaçavam de meter-lhe uma carga de pólvora no traseiro, o fula cambaio acabou confessando. O
maneta Mackandal, ogã do ritual Rada, investido de poderes extraordinários, porque vários deuses maiores tinham baixado
nele, era o Senhor do Veneno. Dotado de suprema autoridade pelos Mandatários da Outra Costa, tinha proclamado a cruzada
de extermínio, eleito, como ele havia sido, para acabar com os brancos e criar um grande império de negros livres em São
Domingos. Milhares de escravos eram leais a ele. Já ninguém poderia deter a marcha do veneno. Essa revelação provocou na
fazenda uma tempestade de chicotadas. E tão logo a pólvora — botaram fogo de pura raiva — estraçalhara os intestinos do
negro falador, um mensageiro foi enviado ao Cabo. Naquela mesma tarde foram mobilizados todos os homens disponíveis
para dar caça a Mackandal. A Planície — exalando a carne podre, os cascos mal queimados e a pestilência dos vermes —
ressoava agora latidos e blasfêmias.
AS METAMORFOSES

DURANTE várias semanas, os soldados da guarnição do Cabo e as patrulhas formadas pelos colonos, contadores e feitores,
revistaram a comarca, arvoredo por arvoredo, barranca por barranca, juncal por juncal, sem achar o rastro de Mackandal. Por
outro lado, o veneno, sabida agora sua procedência, tinha detido a ofensiva, retornando às talhas que o maneta enterrara
nalgum lugar, transformando-se em espuma na grande noite dentro da terra, que noite de terra já era para tantas vidas. Os cães
e os homens voltavam dos montes ao entardecer, suando o cansaço e o despeito por todos os poros. Agora que a morte
recobrara seu ritmo normal, numa época do ano em que só a aceleravam certas intempéries de janeiro ou certas febres
peculiares originadas pelas chuvas, os colonos entregavam-se à aguardente e ao jogo, corrompidos por uma forçada
convivência com a soldadesca. Entre canções obscenas e trapaças, bolinando de passagem os seios das negras que traziam os
copos limpos, recordavam as façanhas de avôs que tinham tomado parte no saque de Cartagena das Índias, ou haviam
afundado as mãos no tesouro da Coroa espanhola quando Piet Hein, o perna de pau, levara a cabo em águas cubanas a
fabulosa façanha tão sonhada por todos os corsários durante séculos. Sobre mesas manchadas de vinho tinto, entre um lance e
outro de dados, propunham brindes a l’Esnambuc, a Bertrand d’Oregon, a Du Rausset e aos homens de cabelo no peito que
tinham estabelecido a colônia por sua conta e risco, fazendo leis para homens, sem nunca se deixarem intimidar pelos editais
publicados em Paris e nem pelas brandas convenções do Código Negro. Adormecidos embaixo dos bancos, os cães
descansavam das coleiras armadas de pontas. Conduzidas agora com grandes vagares, com sestas e merendas à sombra das
árvores, as batidas contra Mackandal iam diminuindo. Vários meses haviam passado sem que se soubesse nada do maneta.
Alguns acreditavam que tivesse se refugiado no centro do País, nas alturas nubladas da Grande Meseta, lá onde os negros
dançavam o fandango ao som das castanholas. Outros afirmavam que o ogã, transportado por uma escuna, estava agindo na
região de Jacmel, onde muitos homens que haviam morrido trabalhavam a terra enquanto não tivessem a oportunidade de
retornar à vida. Apesar disso, os escravos demonstravam um desafiante bom humor. Nunca tinham batido em seus tambores
com tanto ímpeto os encarregados de ritmar a pisadura do milho ou o corte da cana. De noite, em suas barracas e moradas, os
negros comunicavam uns aos outros as mais estranhas notícias: um lagarto verde se aquecera ao sol no teto do secadouro de
tabaco; alguém tinha visto voar, em pleno meio-dia, uma mariposa noturna; um enorme cão, de pelo eriçado, havia atravessado
a casa a toda brida, levando um pernil de veado; um pelicano se livrara dos piolhos — tão longe do mar! — ao sacudir as
asas no parreiral do pátio interno.

Todos sabiam que o lagarto verde, a mariposa noturna, o cachorro desconhecido e o incrível pelicano não eram senão simples
disfarces. Dotado do poder de transformar-se em animal de cascos, em ave, peixe ou inseto, Mackandal visitava
constantemente as fazendas da Planície para vigiar seus seguidores e saber se ainda confiavam no seu regresso. De
metamorfose em metamorfose, o maneta estava em toda parte; tinha recuperado sua integridade corporal sob a vestimenta de
animais. Com asas um dia, guelras no outro, galopando ou rastejando, era dono dos rios subterrâneos, das cavernas da costa,
da copa das árvores e reinava agora em toda a ilha. Seus poderes eram ilimitados. Tanto podia cobrir uma égua como
descansar ao frescor de uma cisterna; pousar nos raminhos de uma acácia ou enfiar-se pelo buraco da fechadura. Os cachorros
não latiam contra ele, e mudava de sombra segundo lhe convinha. Por obra sua, uma negra parira um menino com cara de
javali. De noite costumava aparecer pelas estradas na pele de um cabrito negro com brasas nos chifres. Um dia, daria o sinal
para a grande revolta, e os Senhores do Além, tendo à frente Damballah, o Amo das Estradas e o Ogum das Armas, trariam o
raio e o trovão para desencadear o ciclone que completaria a obra dos homens. Nesse grande momento — dizia Ti Noel — o
sangue dos brancos correria pelos arroios, onde os Loas, ébrios de júbilo, iriam bebê-lo de bruços, até encher os pulmões.
Quatro anos durou a ansiosa espera, sem que ouvidos atentos desesperassem de escutar, a qualquer momento, a voz dos
grandes búzios, que deveria soar na montanha para anunciar a todos que Mackandal encerrara seus ciclos de metamorfoses,
novamente assentado, possante e rijo, com testículos como pedras, sobre suas pernas de homem.
A VESTIMENTA DO HOMEM

DEPOIS DE ter instalado em sua casa, por certo tempo, a lavadeira Marinette, Monsieur Lenormand de Mezy, incitado pelo
pároco de Limonade, tornara a casar-se, agora com uma viúva rica, coxa e devota. Por esse motivo, quando sopraram os
primeiros ventos norte naquele mês de dezembro, as domésticas da casa, dirigidas pelo bastão da patroa, começaram a
colocar santos e pastores em torno de uma gruta feita de trapos, ainda cheirando a cola, que seria iluminada no Natal, sob a
aba do pórtico. Toussaint, o marceneiro, tinha esculpido em madeira uns reis magos grandes demais para o conjunto e que
nunca ficavam bem colocados, sobretudo por causa das incríveis córneas brancas de Baltazar — particularmente realçadas
pelo pincel — que pareciam destacar-se da madeira negra com tétricas acusações de afogado. Ti Noel e os demais escravos
da casa assistiam ao progresso dos preparativos do Natal, recordando que se aproximavam os dias dos presentes e das Missas
do Galo, quando, com as visitas e os convidados dos patrões, a disciplina relaxava um pouco, não sendo difícil arranjar na
cozinha uma orelha de porco, beber uma boca-cheia na torneira de um tonel de vinho, ou enfiar-se durante a noite no barracão
das angolesas, recém-compradas, que o amo pretendia acasalar, sob a proteção do sagrado sacramento cristão, logo depois
das festas. Mas desta vez Ti Noel sabia que não estaria presente quando acendessem as velas e brilhassem as imagens
douradas do presépio. Calculava estar longe nessa noite, escapando-se para uma batucada organizada pelos escravos da
fazenda Dufrené, que tinham recebido licença para festejar com uma malga de aguardente espanhola por cabeça o nascimento
do primeiro filho varão do amo.

Roulé, roulé, Congoa roulé!


Roulé, roulé, Congoa roulé!
A fort ti fille ya dansé congo ya-ya-ró!

Há mais de duas horas que os tambores troavam sob a luz das tochas e que as mulheres marcavam o compasso com os ombros,
sem cessar, como se estivessem lavando roupa, quando um estremecimento interrompeu por um instante a voz dos cantores.
Atrás do tambor-mãe erguia-se a figura humana de Mackandal. O mandinga Mackandal. Mackandal, o Homem. O Maneta. O
Restituído. O Acontecido. Ninguém o saudou, mas seu olhar encontrou todos os olhos. E as malgas de aguardente começaram a
correr, de mão em mão, até sua única mão, que trazia longa-sede. Ti Noel o revia pela primeira vez depois de suas
metamorfoses. Parecia ter ficado nele alguma coisa de suas permanências em misteriosos abrigos; alguma coisa das suas
sucessivas vestes de escamas, de pelos, de lanugem. Sua barba alongava-se em pontas felinas, e seus olhos deviam ter
esticado um pouco até as têmporas, como os olhos de certas aves cuja pele tivesse vestido. As mulheres passavam e tornavam
a passar em frente dele, requebrando o corpo ao ritmo da dança. Mas havia tanta expectativa no ambiente que, de repente, sem
prévia combinação, todas as vozes se uniram num yanvalú solene, tão frenético, que dominava os tambores. Ao cabo de uma
espera de quatro anos, o canto representava o quadro de infinitas misérias:

Yenvalo moin Papa!


Moin pas mangé q’m bambó
Yenvalou, Papá, yanvalou moin!
Ou vlai moin lavé chaudier;
Yenvalo moin?

Terei de seguir lavando as caldeiras? Terei de continuar comendo bambu? Como se saídas das entranhas, as perguntas
insistiam, adquirindo, em coro, o pungente gemer dos povos levados para o exílio a fim de construírem mausoléus, torres ou
intermináveis muralhas. Oh pai, oh meu pai, como é longo o caminho! Oh pai, oh meu pai, como é longo o padecer! E de tanto
se lamentar, Ti Noel esquecera que os brancos também têm ouvidos. E por isso, no pátio da mansão Dufrené, nesse mesmo
momento, carregavam de pólvora todos os mosquetões, trabucos e pistolas, que tinham sido baixados nas panóplias do salão.
E, pelo que pudesse acontecer depois, foi feita uma reserva de facas, estoques e cacetes, que ficariam sob os cuidados das
mulheres, já entregues às suas rezas e rogos pela captura do mandinga.
O GRANDE SALTO

NUMA SEGUNDA-FEIRA de janeiro, pouco antes do raiar do dia, todos os escravos da Planície do Norte começaram a entrar na
Cidade do Cabo. Conduzidos por seus amos e feitores montados a cavalo e escoltados por guardas com armamento de
campanha, os escravos iam lentamente enegrecendo a praça principal, onde as caixas militares redobravam com solene
compasso. Vários soldados amontoavam achas de lenha ao pé de um poste de quebracho, enquanto outros atiçavam o lume de
um braseiro. No átrio da igreja principal, junto ao governador, aos juízes e funcionários do rei, estavam as autoridades
eclesiásticas, instaladas em altas poltronas encarnadas, à sombra de um toldo fúnebre, armado sobre postes e travessas. Como
se fossem flores alegres que a brisa alvoroçasse sobre o parapeito das janelas, agitavam-se nos balcões finas sombrinhas. E
as damas de leques e luvas compridas charlavam aos gritos, umas com as outras, suas vozes deliciosamente alteradas pela
emoção do momento. Parecia até que a praça era um vasto teatro. Aquelas damas cujas janelas davam para a praça tinham
mandado preparar para seus convidados refrescos de limão e orchatas. Os negros, cada vez mais apertados e suarentos,
esperavam um espetáculo que havia sido organizado para eles: um espetáculo de gala para negros, cuja pompa custara o
sacrifício de todos os créditos necessários. Porque desta vez a lição seria dada com fogo e não com sangue, e certas
iluminações, acesas para que não fossem esquecidas, resultavam sumamente dispendiosas.
De repente, todos os leques se fecharam ao mesmo tempo. As caixas militares fizeram um grande silêncio. Com a cintura
cingida por um calção riscado, coberto de cordas e nós, lustroso de feridas recentes, Mackandal avançava em direção ao
centro da praça. Os amos examinavam com o olhar os rostos de seus escravos. Os negros, porém, demonstravam irritante
indiferença. Que sabiam os brancos das coisas dos negros? Em seus ciclos de metamorfoses Mackandal muitas vezes
penetrara no mundo secreto dos insetos, compensando-se da falta de um braço humano com a posse de vários membros, de
quatro carapaças ou de longas antenas. Tinha sido mosca, bruxa, cupim, tarântula, carneirinho-do-pau e até vaga-lume de
grandes luzes verdes. No momento decisivo, as cordas que atavam o mandinga, privados de um corpo para sujeitarem,
desenhariam durante um segundo o contorno de um homem etéreo, antes de resvalarem ao longo do poste. E Mackandal,
transformado em mosquito zumbidor, pousaria no próprio tricórnio do chefe das tropas, para gozar o desapontamento dos
brancos. Isso era o que os amos ignoravam; e haviam jogado fora tanto dinheiro organizando aquele espetáculo inútil, que
revelaria a sua impotência total para lutar contra um homem ungido pelos grandes Loas. Mackandal já estava amarrado com as
costas coladas ao poste de tortura. O verdugo tinha presa uma brasa nas tenazes. Repetindo um gesto que ensaiara na véspera
em frente ao espelho, o governador desembainhou o sabre e deu ordem para que se cumprisse a sentença. O fogo começou a
subir até o maneta, chamuscando-lhe as pernas. Nesse momento, Mackandal agitou o coto, que não tinham podido amarrar,
num gesto ameaçador, que nem por minguado era menos terrível, urrando conjuros desconhecidos e jogando o torso
violentamente para a frente. As cordas caíram, e o corpo do negro esticou-se no ar, voando sobre as cabeças, antes de
mergulhar nas ondas do negro mar de escravos. Um só grito ressoou na praça:
— Mackandal sauvé!
Seguiram-se a confusão e a balbúrdia. Os guardas lançaram-se a coronhadas sobre a negrada que urrava e que parecia já
não caber mais entre as casas e trepava agora em direção aos balcões. Chegou a tal ponto o estrépito, a gritaria, o tumulto da
multidão, que muito poucos viram que Mackandal, agarrado por dez soldados, era enfiado de cabeça no fogo, e que uma
labareda alimentada pelo cabelo em chamas abafava seu último grito. Quando os escravos se acalmaram, a fogueira ardia
normalmente, como qualquer fogueira de boa lenha, e a brisa do mar levantava uma boa fumaça na direção dos balcões onde
mais de uma senhora desmaiada voltava a si. Já não havia mais nada que ver.
Naquela tarde os escravos regressaram para as fazendas rindo durante todo o trajeto. Mackandal tinha cumprido sua
promessa, permanecendo no reino deste mundo. Uma vez mais os brancos eram batidos pelos Altos Poderes da Outra Costa. E
enquanto Monsieur Lenormand de Mezy, de touca de dormir, comentava com sua beata esposa a insensibilidade dos negros
ante o suplício de um semelhante — tirando disso certas considerações filosóficas sobre a desigualdade das raças humanas,
que pretendia desenvolver num discurso cheio de citações latinas — Ti Noel engravidou de gêmeos uma das criadas da
cozinha, cobrindo-a três vezes, dentro de um dos pesebres da cavalariça.
SEGUNDA PARTE
“... je lui dis qu’elle serait reine là-bas; qu’elle irait en palanquin; qu’une esclave serait attentive au moindre de ses mouvements pour exécuter
sa volonté; qu’elle se promènerait sous les orangers en fleur; que les serpents ne devraient lui faire aucune peur, attendu qu’il n’y en avait pas
dans les Antilles; que les sauvages n’étaient plus à craindre ; que ce n’était pas là que la broche était mise pour rôtir les gens; enfin j’achevais
mon discours en lui disant qu’elle serait bien jolie mise en créole.”

MADAME D’ABRANTÈS
A FILHA DE MINOS E PASIFAÉ

POUCO DEPOIS da morte da segunda esposa de Monsieur Lenormand de Mezy, Ti Noel teve a oportunidade de ir ao Cabo para
receber uns arreios de cerimônia encomendados em Paris. Durante aqueles anos a cidade tinha progredido assombrosamente.
Quase todas as casas eram de dois andares, com balcões de largos beirais em ângulo e altas portas em arco, ornados com
elegantes ferrolhos ou dobradiças trifólias. Aumentara o número de alfaiates, chapeleiros, cabeleireiros e vendedores de
plumas; numa loja vendiam violas e flautas, assim como partituras de contradanças e sonatas. O livreiro exibia o último
número da Gazette de Saint Domingue, impressa em papel fino, com suas páginas emolduradas por vinhetas e filetes duplos.
E para cúmulo do luxo, um teatro de drama e ópera tinha sido inaugurado na Rua Vandreuil. Essa prosperidade favorecia
muito particularmente à Rua dos Espanhóis, atraindo os forasteiros mais ricos para o albergue La Corona, que Henri
Christophe, o mestre-cuca, acabara de comprar de sua antiga patroa, Mademoiselle Monjeon. Os guisados do negro eram
elogiados pelo tempero no justo ponto — quando servia um freguês vindo de Paris — ou pela abundância de ingredientes nos
refogados de carne, quando queria satisfazer o apetite de um espanhol sisudo, daqueles que vinham do outro lado da ilha com
trajes tão fora de moda, que mais pareciam vestimentas de antigos piratas. Também era certo que Henri Christophe, que
desaparecia com seu gorro branco dentro da fumaça da cozinha, tinha um dom privilegiado para assar ao forno um pastel de
carne de tartaruga ou para condimentar uma pomba selvagem. E quando punha a mão na masseira, fazia massas dignas de um
rei, cujo perfume se sentia muito além da Rua dos Três Rostos.
Novamente só, Monsieur Lenormand de Mezy não tinha a menor consideração pela memória da falecida, fazendo-se
conduzir cada vez mais frequentemente ao teatro do Cabo, onde verdadeiras atrizes vindas de Paris cantavam áreas de Jean
Jacques Rousseau, ou mediam com nobreza trágicos alexandrinos, secando o suor ao marcar um hemistíquio. Um libelo
anônimo, em versos, flagelando certos viúvos, revelou a todo o mundo, naqueles dias, que um rico proprietário da Planície
costumava consolar suas noites na abundante beleza flamenga de certa Mademoiselle Floridor, má intérprete de papéis de
confidente, sempre relegada às partes inferiores, porém hábil nas artes do amor. Decidido por ela, no final de uma temporada,
o amo partira para Paris, inesperadamente, deixando a administração da fazenda nas mãos de um parente. Aconteceu então
algo muito surpreendente: ao cabo de poucos meses, uma crescente nostalgia do sol, de espaço, de abundância, de domínio, de
negras derrubadas nas bordas das azinhagas, revelaram-lhe que esse “regresso à França”, para o qual vinha trabalhando há
longos anos, já não era, para ele, a chave da felicidade. E depois de tanto maldizer a colônia, de tanto renegar seu clima, de
tanto criticar os modos rudes dos colonos de estirpe aventureira, regressava à fazenda, trazendo consigo a atriz, rechaçada
pelos teatros de Paris por causa de seu escasso talento dramático. E era por isso que aos domingos, duas magníficas
carruagens novamente adornavam a Planície, a caminho da igreja, com seus postilhões vestidos de libré de gala. Dominando a
berlinda de Mademoiselle Floridor — a cômica insistia em ser chamada pelo seu nome de teatro — inquietas no assento
traseiro, dez mulatas em anáguas azuis tagarelavam a todo pano, num grande rebuliço de fêmeas ao vento.
Vinte anos se passaram sobre tudo isso. Ti Noel tinha doze filhos com uma das cozinheiras. A fazenda florescia mais que
nunca, com suas estradas margeadas de ipecas, com suas parreiras já produzindo vinho agraz. Entretanto, com a idade,
Monsieur Lenormand de Mezy tornara-se um bêbedo, e era cheio de manias. Um erotismo constante o mantinha espreitando, a
toda hora, as escravas adolescentes, cujo cheiro o excitava. Cada vez gostava mais de impor castigos corporais aos homens,
sobretudo quando os surpreendia fornicando fora do matrimônio. Por seu lado, maltratada e picada pelo impaludismo, a
comediante vingava-se de seu fracasso artístico mandando chicotear por qualquer motivo as negras que lhe davam banho e
penteavam. Certas noites entregava-se à bebida. Não era raro então que fizesse levantar todo o pessoal, com a lua alta no céu,
para declamar para os escravos, entre arrotos de malvasia, aqueles grandes papéis que nunca pudera interpretar. Envolta no
seus véus de confidente, a tímida coadjuvante atacava com voz desmaiada os grandes trechos de bravura do repertório:

Mes crimes désormais ont comblé la mesure


Je respire à la fois l’ inceste el l’imposture
Mes homicides mains, promptes à me venger,
Dans le sang innocent brûlent de se plonger.

Estupefatos, sem entender nada, sabendo, porém, por certas palavras, que também em créole se referiam a faltas cujo castigo
ia de uma simples surra à decapitação, os negros terminaram por acreditar que aquela senhora devia ter cometido muitos
delitos em outros tempos e que, provavelmente, estava na colônia para escapar à Polícia de Paris, como tantas outras
prostitutas do Cabo, que tinham contas a ajustar na metrópole. A palavra “crime” era parecida, no jargão da ilha; todo mundo
sabia como se chamavam os juízes em francês; e, quanto a inferno com diabos vermelhos, bastava o que lhes dissera dele a
segunda esposa de Monsieur Lenormand de Mezy, feroz censora de toda concupiscência. Nada do que confessava aquela
mulher, vestida com uma bata branca, transparente à luz dos archotes, deveria ser muito edificante:
Minos, juge aux enfers tous les pâles humains.
Ah, combien frémira son ombre épouvantée,
Lorsqu’il verra sa fille a ses yeux présentée,
Contrainte d’avouer tant de forfaits divers,
Et des crimes peut-être inconnus aux enfers!

Diante de tantas imoralidades, os escravos da fazenda de Lenormand de Mezy seguiam reverenciando a Mackandal. Ti Noel
transmitia as narrativas do mandinga a seus filhos, ensinando-lhes cantigas muito simples que compusera em sua glória,
naquelas horas em que penteava e escovava os cavalos. Ademais, era bom recordar o maneta frequentemente, porque ele,
embora afastado destas terras por tarefas de importância, regressaria a elas quando menos se esperasse.
O GRANDE PACTO

OS TROVÕES pareciam romper-se numa avalancha sobre os penhascos do Morne Rouge, rolando prolongadamente pelo fundo
dos barrancos, quando os representantes dos escravos da Planície do Norte alcançaram a mata cerrada do Bois Caïman, sujos
de lodo até a cintura, trêmulos sob as camisas encharcadas. E para cúmulo, aquela chuva de agosto, que passava de tíbia a fria
conforme mudava o vento, aumentava cada vez mais desde que soara o toque de recolher para os escravos. Com as calças
coladas na virilha, Ti Noel cuidava de cobrir a cabeça embaixo de um saco de juta dobrado em forma de capuz. Apesar da
escuridão, era garantido que nenhum espião tivesse penetrado na reunião. O aviso havia sido dado à última hora por homens
de confiança. Embora se falasse em voz baixa, o rumor da conversação enchia todo o bosque, confundindo-se com o constante
chiado do aguaceiro caindo na folhagem das árvores.
Súbito, uma voz potente alçou-se no meio daquele congresso de sombras. Uma voz, cuja faculdade de passar sem
transição do registro grave ao agudo, dava uma estranha ênfase às palavras. Havia muito de evocação e de salmos naquele
discurso cheio de gritos e de inflexões coléricas. Era Bouckman, o jamaicano, quem falava dessa maneira. Embora o trovão
ensurdecesse frases inteiras, Ti Noel acreditou entender que algo havia ocorrido na França, e que uns senhores muito
influentes haviam declarado que se devia dar liberdade aos negros. Os ricos proprietários do Cabo, porém, que eram uns
monarquistas filhos da puta, negavam-se a obedecer. Chegando nesse ponto, Bouckman deixou cair a chuva sobre as árvores
durante alguns segundos, como para esperar por um raio que se lançara no mar. Então, passado o ruído do trovão, declarou
que um Pacto havia sido selado entre os iniciados daqui e os grandes Loas da África, para que a guerra fosse iniciada sob os
signos propícios. E das aclamações que agora retumbavam em torno brotou a admonição final:
— O Deus dos brancos ordena o crime. Nossos deuses pedem vingança. Eles guiarão nossos braços e nos darão ajuda.
Rebentem a imagem do Deus dos Brancos, que tem sede das nossas lágrimas; escutemos dentro de nós mesmos o apelo da
liberdade!
Os delegados tinham esquecido a chuva que lhes escorria pela barba até o ventre, endurecendo o couro dos cinturões.
Estourou um alarido em meio à tormenta. Junto a Bouckman, uma negra ossuda, de longos membros, dançava fazendo gestos
circulares com um facão ritual:

Fai Ogún, Fai Ogún, Fai Ogún, oh!


Damballah m’ap tiré canon!
Fai Ogún, Fai Ogún, Fai Ogún, oh!
Damballah m’ap tiré canon!

Ogum das armas, Ogum guerreiro, Ogum das forjas, Ogum Marechal, Ogum das lanças, Ogum-Xangô, Ogum-Kankanikã,
Ogum-Batala, Ogum-Panamá, Ogum-Bakulê, eram invocados agora pela sacerdotisa do Rada, em meio ao clamor das
sombras:

Ogún Badagrí,
General sanglant
Saizi z’orage
Ou scell’orage
Ou fait Kataonn z’ eclai?

O facão penetrou subitamente no ventre de um porco negro, que botou para fora, em três urros, as tripas e os pulmões. Então,
chamados pelos nomes de seus amos, já que não tinham mais sobrenome, os delegados desfilaram, um a um, para untarem os
lábios com o sangue espumoso do porco, recolhido numa enorme tigela de madeira. Em seguida, caíram de bruços sobre o
chão molhado. Ti Noel, como os demais, jurou que obedeceria sempre a Bouckman. O jamaicano abraçou então Jean François,
Biassou e Jeannot, que não voltariam mais para suas fazendas. O estado-maior da sublevação estava formado. O sinal seria
dado oito dias depois. Era muito provável que conseguissem a ajuda dos colonos espanhóis do outro lado da ilha, inimigos
irreconciliáveis dos franceses. Tendo em vista que seria necessário redigir uma proclamação, e ninguém sabia escrever,
pensou-se na flexível pena de ganso do Abade de La Haye, pároco de Dondón, sacerdote voltariano que dava mostras
inequívocas de simpatia pelos negros desde que tinha tido conhecimento da Declaração de Direitos do Homem.
Como a chuva houvesse transbordado os rios, Ti Noel teve de atravessar a nado a garganta verde para chegar na
cavalariça antes que o feitor despertasse. O Angelus o surpreendeu ao posto e cantando, enterrado até a cintura num montão de
esparto fresco, que cheirava a sol.
O CHAMADO DOS BÚZIOS

MONSIEUR LENORMAND de Mezy achava-se de péssimo humor desde sua última visita ao Cabo. O Governador Blanchelande,
monarquista como ele, estava muito contrariado com as incômodas divagações de utopistas idiotas que se apiedavam, em
Paris, do destino dos negros escravos. Oh, era muito fácil, no Café de La Regence, nas arcadas do Palais Royal, entre duas
partidas de faraó, sonhar com a igualdade dos homens de todas as raças. Ora, vendo as gravuras de vistas dos portos da
América, embelezadas pela rosa dos ventos e pelos tritões de bochechas inchadas; olhando quadros de mulatas indolentes, de
lavadeiras nuas, de sestas sob as bananeiras, gravadas por Abraham Brunias e exibidas na França entre versos de Du Parny e
a profissão de fé do vigário da Saboia — ora, era muito fácil imaginar São Domingos como um paraíso vegetal de Paulo e
Virgínia, onde os melões só não nasciam pendurados nos galhos das árvores apenas porque matariam os transeuntes ao caírem
de tão alto. Já em maio, a Assembleia Constituinte, integrada por uma chusma de liberais e enciclopedistas, tinha decidido
conceder direitos políticos aos negros filhos de escravos libertos. E agora, ante o fantasma da guerra civil, invocado pelos
proprietários, esses ideólogos à Estanislau de Wimpffen respondiam: “Pereçam as colônias antes que um princípio!”
Seriam dez horas da noite quando Monsieur Lenormand de Mezy, amargurado pelos seus pensamentos, saiu em direção
ao galpão de tabaco com vontade de violentar qualquer das adolescentes que a essa hora enrolavam as folhas de tabaco que
dariam depois para seus pais mascarem. Muito longe soou uma trompa feita de búzio. E o que agora resultava surpreendente
era que o lento mugido dessa concha era respondido por outros nas montanhas e nas selvas. E outros, rentes ao chão, mais para
os lados do mar, na direção das granjas de Millot. Era como se todas as conchas da costa, todos os moluscos indígenas, todos
os búzios que serviam para sujeitar as portas, todos os caracóis que jaziam, solitários e petrificados, no cume dos montes, se
pusessem a cantar em coro. Subitamente, mais outro búzio alçou sua voz no barracão principal da fazenda. Outros, mais
aflautados, responderam da anilaria, do secadouro de tabaco, do estábulo. Alarmado, Monsieur Lenormand de Mezy
escondeu-se atrás de uma moita de buganvília.
Todas as portas dos barracões caíram de uma só vez, derrubadas pelo lado de dentro. Armados de paus, os escravos
cercaram as casas dos feitores, apoderando-se das ferramentas. O contador, que aparecera com uma pistola na mão, foi o
primeiro a cair, com a garganta aberta de cima a baixo por uma colher de pedreiro. Depois de empaparem os braços no sangue
do branco, os negros correram para a vivenda principal, gritando que morressem os amos, o governador, o bom Deus e todos
os franceses do mundo! A maioria, impulsionada por instintos e apetites mais prementes, precipitou-se para a adega em busca
de bebida. A golpes de picareta destriparam os barris de escabeche. Com as tábuas abertas, os tonéis deixaram escapar o
vinho tinto aos borbotões, tingindo as saias das mulheres. Arrebatados entre gritos e empurrões, os garrafões de aguardente e
as garrafas de rum despedaçavam-se nas paredes. Rindo e brigando, os negros resvalavam numa saboeira formada por
orégãos esmigalhados, tomates temperados, azeitonas e ovas de arenque, que um filetezinho de azeite rançoso que caía de um
barril ia clareando, sobre o chão de tijolos. Um negro nu meteu-se numa barrica de banha de porco. Duas velhas brigavam, em
congolês, por uma panela de barro. Do teto pendiam presuntos e rabos de bacalhau. Sem se meter na multidão desenfreada, Ti
Noel grudou a boca, durante muito tempo e muitos goles, numa torneira de um barril de vinho espanhol. Depois, subiu ao
primeiro andar da vivenda, acompanhado por seus filhos maiores, pois fazia muito tempo já que sonhava violentar
Mademoiselle Floridor, que, nas suas noites de tragédia, exibia, sob a túnica ornada de lacinhos, um par de seios em nada
maltratados pelo irreparável ultraje dos anos.
DOGÓN DENTRO DA ARCA

AO CABO de dois dias de espera no fundo de um poço seco, que nem por ser pouco profundo era menos lúgubre, Monsieur
Lenormand de Mezy, pálido de medo e de fome, botou a cara, lentamente, sobre um canto do parapeito. Tudo estava em
silêncio. A horda tinha partido em direção ao Cabo, incendiando propriedades cujo nome se podia dizer localizando a base
das colunas de fumaça que se espalhavam pelo céu. Um pequeno paiol acabava de voar pelos ares lá para os lados da
Encruzilhada dos Padres. O amo aproximou-se da casa, passando ao lado do cadáver inchado do contador. Um fedor horrível
exalava dos canis queimados, porque ali os negros tinham saldado uma velha conta pendente, untando as portas de breu para
que não ficasse um animal vivo. Monsieur Lenormand de Mezy entrou em sua casa. Mademoiselle Floridor jazia, de pernas
abertas, sobre uma almofada, com uma foice cravada na barriga. Sua mão morta agarrava ainda um pé da cama, num gesto que
evocava cruelmente a atitude lasciva de uma cortesã adormecida duma gravura licenciosa que adornava a alcova, cujo título
era “O Sonho”. Monsieur Lenormand de Mezy, afogado em soluços, caiu ao seu lado. Em seguida, pegou um rosário e rezou
todas as orações que conhecia, sem esquecer aquela que lhe tinham ensinado em criança para curar as frieiras. E assim passou
vários dias, aterrado, sem se atrever a sair da casa abandonada, de portas abertas à própria ruína, até o dia em que um
emissário a cavalo sofreou o animal tão bruscamente sobre as lajes do pátio interno que a besta se foi de ventas contra uma
janela, levantando chispas ao resvalar. As notícias, dadas aos berros, arrancaram Monsieur Lenormand de Mezy do seu
estupor. A horda estava vencida. A cabeça do jamaicano Bouckman já se achava cheia de vermes, esverdeada e boquiaberta,
no mesmíssimo lugar onde se tinha transformado em cinza fétida a carne do maneta Mackandal. Estava sendo organizado o
extermínio total dos negros, mas, todavia, ainda restavam grupos armados que saqueavam as vivendas solitárias. Sem poder se
atrasar para sepultar o cadáver da esposa, Monsieur Lenormand de Mezy montou na garupa do cavalo do mensageiro, que
partiu em disparada, barriga rente ao chão, a caminho do Cabo. Ao longe soou uma descarga de fuzis. O mensageiro cravou as
esporas.
O amo chegou a tempo de impedir que Ti Noel e outros doze escravos, marcados pelo seu ferro, fossem degolados a
facão no pátio do quartel, onde os negros, amarrados de dois a dois, costas com costas, esperavam a morte na lâmina das
armas, pois era mais prudente economizar pólvora. Eram os únicos escravos que lhe restavam, e valiam, ao todo, pelo menos
seis mil e quinhentos pesos espanhóis no mercado de Havana. Monsieur Lenormand de Mezy clamou pelos mais terríveis
castigos corporais, mas pediu que adiassem a execução até que falasse com o Governador. Trêmulo pelo nervosismo, pela
insônia, pelo excesso de café, Monsieur Blanchelande andava de uma ponta à outra do seu gabinete, onde se via um retrato de
Luís XVI e Maria Antonieta com o Delfim. Era difícil tirar uma conclusão mais precisa do seu desordenado monólogo, onde os
insultos contra os filósofos se alternavam com citações de trechos agourentos de cartas suas enviadas a Paris, e às quais nem
sequer haviam respondido. A anarquia entronizara-se no mundo. Os negros tinham violentado quase todas as moças das
famílias distintas da Planície. Depois de terem rasgado tantas camisolas rendadas, de terem refocinhado sobre tantos lençóis
de linho, degolado tantos feitores, já não havia mais como contê-los. Monsieur Blanchelande era pelo extermínio total e
absoluto dos escravos, assim como também dos negros e mulatos livres. Todo aquele que tivesse sangue africano nas veias,
fosse ele uma quarta, uma terça, fosse mameluco, bastardo ou marabu, devia ser passado pelas armas. E que ninguém se
deixasse enganar pelos gritos de admiração lançados pelos escravos, quando se acendia, na Páscoa, a iluminação dos
presépios. Bem que tinha prevenido o Padre Labat, logo que chegou à ilha na sua primeira viagem: os negros comportavam-se
como filisteus, adorando Dogón dentro da Arca. O governador pronunciou então uma palavra que Monsieur Lenormand de
Mezy não tinha até então prestado a menor atenção: o Vaudoux. Recordava agora que, anos atrás, aquele rubicundo e
voluptuoso advogado do Cabo, que se chamava Moreau de Saint Mery, havia colhido alguns dados referentes às práticas
selvagens dos feiticeiros das montanhas, e anotara que alguns negros eram adoradores de cobras. Esse fato, que agora
recordava, o deixou inquieto. Compreendia então que um tambor podia significar, em certos casos, algo mais que uma simples
pele de cabrito esticada sobre um tronco oco. Tinham, pois, os escravos uma religião secreta que os encorajava e os mantinha
unidos nas suas rebeliões. Talvez que durante anos e anos, ali mesmo, a um palmo de sua cara, vinham observando as práticas
dessa religião, comunicando-se através dos tambores dos batuques, sem que ele suspeitasse! Mas acaso haveria de preocupar-
se uma pessoa culta com as crenças selvagens de gente que adorava uma serpente?
Profundamente deprimido pelo pessimismo do governador, Monsieur Lenormand de Mezy andou sem destino, até ao
anoitecer, pelas ruas da cidade. Contemplou demoradamente a cabeça de Bouckman, enchendo-a de insultos, até cansar de
repetir as mesmas grosserias. Esteve algum tempo na casa da gorda Louison, cujas pensionistas, vestidas de musselina branca
bem justa no corpo, abanavam os seios nus no pátio cheio de taiobas plantadas em potes de barro. Mas em todos os lugares o
ambiente estava pesado. Por isso se dirigiu à Rua dos Espanhóis, com vontade de beber na hospedaria La Corona. Ao ver a
casa fechada, lembrou que o cozinheiro Henri Christophe tinha deixado o negócio, pouco tempo antes, para vestir o uniforme
de artilheiro da colônia. E desde que levara consigo a coroa de latão dourado, que durante tanto tempo fora o emblema do
albergue, não restava no Cabo um lugar onde um cavalheiro pudesse comer com gosto. Um pouco reconfortado por um copo de
rum bebido num balcão qualquer, Monsieur Lenormand de Mezy pôs-se a conversar com o patrão de uma barca carvoeira,
atracada já há muitos meses, e que levantaria ferros novamente, rumo a Santiago de Cuba, assim que terminasse a calafetação.
SANTIAGO DE CUBA

A BARCA DOBRARA o cabo da Cidade do Cabo, e atrás ficava a cidade sempre ameaçada pelos negros, sabedores já do auxílio
armado oferecido pelos espanhóis e do calor com que certos jacobinos humanitários começavam a defender sua causa.
Enquanto Ti Noel e seus companheiros, encerrados no porão, suavam sobre os sacos de carvão, os passageiros de categoria,
reunidos na popa, respiravam a brisa fresca do Estreito dos Ventos. Viajava também uma cantora da nova companhia que
representava no Cabo, que estivera hospedada numa estalagem incendiada na noite da revolta e que só ficara com o vestido
que usava no papel de Dido Abandonada; um músico alsaciano que tinha conseguido salvar o seu clavicórdio, o qual, já
desafinado pela maresia, interrompia, às vezes, num trecho de uma sonata de Juan Federico Edelman, para ver um peixe
voador saltar sobre um bando de amêijoas amarelas. Completavam o número de passageiros da embarcação um marquês
monarquista, dois oficiais republicanos, uma rendeira e um padre italiano que salvara o ostensório da Igreja.
Na noite da sua chegada a Santiago, Monsieur Lenormand de Mezy foi diretamente ao Tívoli, o teatro de folhas de
palmeira construído recentemente pelos primeiros refugiados franceses, pois lhe repugnavam os armazéns cubanos, com seus
mata-moscas e seus burricos amarrados na entrada. Depois de tantas angústias, de tantos pavores, de tão grandes mudanças,
encontrou naquele café-concerto um ambiente reconfortador. As melhores mesas estavam ocupadas por velhos amigos seus,
proprietários, que, como ele, tinham fugido dos facões afiados no melaço. Porém, o mais estranho era que, embora arruinados,
despojados de suas fortunas, com meia família extraviada, as filhas convalescendo depois de violentadas pelos negros — o
que não era pouca coisa — os antigos colonos, longe de se lamentarem, estavam até rejuvenescidos. Enquanto uns, mais
previdentes, haviam conseguido tirar seu dinheiro de São Domingos e estabeleciam-se agora em Nova Orleans, ou
fomentavam novos cafezais em Cuba, outros — que nada tinham podido salvar — divertiam-se na desordem, em viver o dia
de hoje, na sua falta de obrigações, tratando, no momento, de encontrar o prazer em todas as coisas e em toda parte. O viúvo
descobria novamente as vantagens do celibato; a esposa respeitável entregava-se ao adultério com entusiasmos de inventara;
os militares divertiam-se por não terem de obedecer ao toque da alvorada; as senhoritas protestantes conheciam a atração do
cenário, exibindo-se com rouge e lunares no rosto. Todas as hierarquias burguesas da colônia tinham caído. O que mais
importava agora era tocar a trombeta, executar com elegância um trio de minueto ao oboé, ou até bater o triângulo no
compasso, tudo, para dar mais brilho à orquestra do Tívoli. Os notários de antes copiavam agora as partituras musicais, e os
coletores de impostos decoravam uma tela de pano de doze palmos, nela pintando vinte colunas salomônicas. Nas horas de
ensaio, quando toda Santiago dormia a sesta atrás de grades de madeira e portas tranqueadas, próximas às tarascas cobertas de
pó da última procissão de Corpus Christi, não era raro ouvir uma matrona, ontem famosa por sua devoção, cantando com
gestos lânguidos:

Sous ses lois l’amour veut qu’on jouisse,


D’un bonheur qui jamais ne finisse!…

Anunciavam agora um grande baile à fantasia, fantasia de pastores, já fora de moda em Paris, e para o qual colaboraram em
comum todos os baús salvos da pilhagem dos negros. Os camarins de folhas de palmeira real propiciavam deliciosos
encontros, enquanto algum marido barítono, muito compenetrado do seu papel, era retido em cena pela ária de bravura do
Desertor, de Monsigny. Pela primeira vez se ouvia em Santiago de Cuba músicas de passa-pé e contradança. As filhas dos
colonos, usando as últimas perucas do século, dançavam ao som de alegres minuetos, que já anunciavam a valsa. Um vento de
licenciosidade, de fantasia, de desordem, soprava na cidade. Os jovens cubanos começavam a copiar a moda dos emigrados,
deixando para os conselheiros municipais o uso das vestimentas espanholas, sempre tão fora de moda. Certas damas cubanas
tomavam aulas de urbanidade com as francesas, às escondidas de seus confessores, adestrando-se na arte de mostrar o pé para
exibir o primoroso sapato. À noite, quando assistia ao final do espetáculo, já com muitos copos a mais na cabeça, Monsieur
Lenormand de Mezy levantava-se, como os demais, para cantar — segundo o costume estabelecido pelos próprios refugiados
— o Hino a São Luís e a Marselhesa.
Ocioso, impossibilitado de ocupar o espírito com algum negócio, Monsieur Lenormand de Mezy começou a repartir o seu
tempo entre o baralho e a oração. Desfazia-se de seus escravos, um atrás do outro, para jogar o dinheiro em qualquer baiuca,
pagar as contas atrasadas no Tívoli, ou pegar uma negra daquelas que faziam a vida no porto com flores de nardo enfiadas na
carapinha. Mas vendo também que o espelho o envelhecia dia a dia, começava a temer o iminente chamado de Deus. Maçom
em outros tempos, desconfiava agora dos triângulos tão em moda. Por isso, acompanhado por Ti Noel, costumava passar
longas horas gemendo e rezando fervorosamente na catedral de Santiago. O negro, entretanto, dormia embaixo do retrato de um
bispo ou assistia ao ensaio de algum cântico, dirigido por um ancião gritador seco e arroxeado, a quem chamavam Dom
Estêvão Salas. Era realmente impossível compreender porque esse maestro de capela, que, todavia, todos pareciam respeitar,
empenhava-se tanto em obrigar os coristas a iniciar o cântico por turnos, cantando um grupo a estrofe que outro grupo já tinha
começado a cantar, resultando uma algazarra capaz de indignar a qualquer um. Mas aquilo era, sem dúvida, do agrado do
pertigueiro, personagem a quem Ti Noel atribuía grande autoridade eclesiástica, já que andava armado e usava calças como os
homens. Apesar das sinfonias desencontradas que Dom Estêvão Salas enriquecia com fagotes, trompas e os agudos dos
meninos do coro, o negro encontrava nas igrejas espanholas um calor de Vodu que nunca havia encontrado nos templos
sulpicianos do Cabo. O ouro do barroco, as cabeleiras humanas dos Cristos, o mistério dos confessionários primorosamente
trabalhados, o cão dos dominicanos, os dragões esmagados por santos pés, o porco de Santo Antão, a cor morena de São
Benedito, as Virgens Negras, os São Jorge, de borzeguins e gibão de ator de tragédia francesa, os instrumentos pastoris que
tocavam nas noites de Páscoa, tinham uma força envolvente e um poder de sedução — o fausto, os símbolos, as peculiaridades
e os signos — semelhantes àquele que emanava dos altares dos houmforts consagrados a Damballah, o Deus Serpente. Além
disso, São Tiago é Ogum Fai, o marechal das tormentas, e em conjura com ele tinham-se levantado os homens de Bouckman.
Por isso Ti Noel, à guisa de oração, amiúde recitava para ele um velho canto aprendido com Mackandal:

São Tiago, sou filho da guerra:


São Tiago,
Não vês que sou filho da guerra?
A NAVE DOS CÃES

CERTA MANHÃ o porto de Santiago se encheu de latidos. Acorrentados uns aos outros, furiosos e ameaçadores por trás das
focinheiras, procurando morder o guarda e morderem-se mutuamente, lançando-se contra as pessoas que olhavam atrás do
gradil das janelas, tentando morder sem poder morder, centenas de cachorros eram empurrados, a chicote, dentro do porão de
um veleiro. E chegavam outros cachorros, e outros mais, conduzidos pelos feitores dos sítios, por camponeses brancos e por
batedores de botas de cano alto. Ti Noel, que acabava de comprar um peixe por encomenda do amo, aproximou-se da estranha
embarcação, na qual continuavam a entrar mastins às dúzias, contados, de passagem, por um oficial francês, que movia
rapidamente as bolinhas de um ábaco.
— Para onde os levam? — gritou Ti Noel para um marinheiro mulato que desdobrava uma rede a fim de fechar uma
escotilha.
— Para comerem os negros! — gargalhou o outro, por cima dos latidos.
Essa resposta, dada em créole, foi uma revelação para Ti Noel. Largou a correr, ruas acima, até a catedral, em cujo átrio
costumavam ficar os outros negros franceses que aguardavam que seus amos saíssem da missa. Nem mais nem menos que a
família Dufrené — depois de perdida toda a esperança de conservar suas terras — tinha chegado a Santiago há três dias,
depois de abandonada a fazenda que ficara famosa pela captura de Mackandal. Os negros de Dufrené traziam grandes notícias
do Cabo.
Desde o momento do embarque, Paulina sentira-se um pouco rainha a bordo daquela fragata repleta de tropas que
navegava agora em direção às Antilhas, marcando no rangido dos cabos o compasso cadenciado de ondas de amplo regaço.
Seu amante, o ator Lafont, tinha familiarizado Paulina com os papéis de rainha, rugindo para ela os versos mais régios do
Bayaceto e do Mitríades. Muito esquecida, Paulina recordava Vagamente qualquer coisa do “ Helesponto branqueando sob
nossos remos”, que rimava bem com a espuma que ia deixando El Océano, de velas enfunadas sob o tremular das flâmulas. E
agora, cada mudança da brisa levava também vários alexandrinos. Depois de haver atrasado a partida de um exército inteiro
com seu inocente capricho de viajar de Paris a Brest numa liteira, tinha agora de pensar em coisas mais importantes. Em
canastras lacradas estavam guardados lenços vindos das ilhas Maurício, corpetes à pastora, saias de musselina riscada, que
iria estrear no primeiro dia de calor, pois estava bem instruída quanto à moda na colônia pela Duquesa de Abrantès. Em suma,
aquela viagem não estava tão aborrecida. A primeira missa rezada pelo capelão no alto do castelo da proa, depois do mau
tempo no golfo de Gasgonha, tinha reunido todos os oficiais em uniforme de gala em redor do General Leclerc, seu esposo.
Havia alguns de esplêndida aparência, e Paulina, boa conhecedora de homens, apesar de sua juventude, sentia-se
deliciosamente lisonjeada pelo crescente desejo acobertado pelas reverências e cuidados dos quais era objeto. Sabia que
quando as lanternas balançavam no alto dos mastros nas noites mais estreladas, nos porões, nos camarotes, nos castelos,
centenas de homens sonhavam com ela. Por esse motivo, gostava tanto de fingir que meditava, cada manhã, na proa da fragata,
junto à armação da vela grande do mastro de proa, deixando-se despentear pelo vento que lhe colava o vestido ao corpo,
revelando a soberba postura de seus seios.
Alguns dias depois de passar pelo canal das ilhas Açores e de contemplar à distância as brancas capelas das aldeias
portuguesas, Paulina descobriu que o mar se renovava. Enfeitava-se agora de cachos de uvas amarelas que derivavam em
direção ao este; de peixes-agulha que pareciam feitos de cristal verde; águas-vivas semelhantes a bexigas azuis, que
arrastavam longos fios encarnados; peixes ferozes, de dentes afiados, e calamares que pareciam véus de noiva de contornos
vaporosos. Mas já se sentia um calor que desabotoava os brilhantes oficiais, aos quais Leclerc, para poder fazer o mesmo,
permitia que andassem com os casacos abertos, de peito à mostra. Uma noite particularmente sufocante, Paulina abandonou
seu camarote, envolta numa camisola, e foi deitar-se sobre a coberta do castelo da popa, que tinha sido reservado para suas
longas sestas. Estranhas fosforescências davam ao mar reflexos verdes. Aumentava dia a dia um frescor que parecia descer
das estrelas. Ao raiar do dia, o vigia descobriu com grata inquietação a presença de uma mulher nua, dormindo sobre uma vela
dobrada, à sombra da bujarrona do mastro da ré. Acreditando que se tratava de uma camareira, esteve quase para deslizar até
ela por um cabo. Porém um gesto dela, anunciando o seu despertar, revelou ao vigia que contemplava o corpo de Paulina
Bonaparte. Ela esfregou os olhos, rindo como uma criança, toda arrepiada pela brisa matinal, e, acreditando-se protegida dos
olhares pelas lonas das velas que lhe ocultavam o resto da coberta esvaziou vários baldes de água doce sobre os ombros.
Daquela noite em diante dormiu sempre ao ar livre, e de tantos ficou conhecido seu generoso descuido que até o seco
Monsieur d’Esmenard, encarregado de organizar a polícia de São Domingos, chegou a sonhar acordado ante suas esplêndidas
formas, evocando em sua honra a Galateia dos gregos.
A vista da Cidade do Cabo e da Planície do Norte, com suas montanhas ao fundo um pouco difusas pela bruma úmida que
emanava das plantações de cana-de-açúcar, encantou Paulina, que tinha lido os amores de Paulo e Virgínia e conhecia uma
linda contradança antilhana, de ritmo estranho, publicada em Paris, na Rue du Saumon, cujo título era A Insular. Sentindo-se
um pouco ave-do-paraíso e um pouco pássaro-lira sob suas saias de musselina, Paulina descobria a delicadeza dos rebentos
novos, o sumo pardo do sapoti e a quantidade de folhas de palmeira que podiam ser usadas como leque. À noite, Leclerc lhe
falava, com o cenho franzido, da sublevação dos escravos, das dificuldades com os colonos monarquistas e das ameaças de
toda sorte. Prevendo maiores perigos, mandara comprar uma casa na ilha de Tortuga. Paulina, porém, não lhe prestava muita
atenção. Enternecia-se com a leitura da lacrimosa novela de Joseph Lavalée Um Negro como Poucos e gozava despreocupada
aquele luxo e aquela abundância que não conhecera em sua meninice, toda ela de figos secos, queijos de leite de cabra e
azeitonas rançosas. Morava numa grande casa de pedras brancas, rodeada de frondoso jardim, não muito longe da igreja
principal, onde mandara fazer uma piscina, revestida de azulejos, à sombra dos pés de tamarindo, na qual tomava banho nua.
Sua massagem, a princípio era aplicada por suas criadas francesas; imaginando, contudo, que as mãos de um homem seriam
bem mais vigorosas, contratou os serviços de Solimán, antigo empregado de uma casa de banhos, que além de cuidar de seu
corpo, friccionava-o com creme de amêndoas, depilava-o e polia-lhe as unhas dos pés. Quando Solimán lhe banhava o corpo,
Paulina sentia um prazer maligno ao roçar-se, dentro da água da piscina, nos rijos flancos daquele servidor que sabia
eternamente atormentado pelo desejo e que a olhava sempre de soslaio, com aquela falsa mansidão de cachorro exasperado
pelo chicote. Costumava Paulina bater-lhe com um ramo verde, sem machucá-lo, rindo de seus ares de fingida dor. Na
verdade, agradava-lhe a apaixonada solicitude que Solimán revelava para com tudo que se referia aos cuidados de sua beleza.
Por esse motivo, como recompensa de alguma incumbência cumprida com presteza, ou de um recado bem dado, permitia que o
negro, de joelhos, beijasse suas pernas, num gesto que Bernardino de Saint-Pierre teria interpretado como um símbolo da
nobre gratidão de uma alma simples para com os generosos esforços das personalidades ilustres.
E assim passava seu tempo entre sestas e bocejos, achando-se um pouco Virgínia, um pouco Atalá, embora às vezes,
quando Leclerc andava pelo Sul, buscasse consolo no ardor juvenil de algum guapo oficial. Uma tarde, porém, o cabeleireiro
francês que penteava seu cabelo, ajudado por quatro auxiliares negros, tombou ali mesmo, em frente dela, vomitando sangue
fétido e já meio coagulado. Com seu minúsculo corpo salpicado de prata, um horrível desmancha-prazeres começara a zumbir
no sonho tropical de Paulina Bonaparte.
SÃO TRANSTORNO

NA MANHÃ seguinte, instada por Leclerc, que acabava de atravessar vilarejos inteiros dizimados pela praga, Paulina fugiu
para Tortuga, seguida pelo negro Solimán e pelas criadas de quarto, carregadas de trouxas. Nos primeiros dias distraía-se
tomando banho numa enseada arenosa e folheando as memórias do cirurgião Alejandro Oliverio Oexmelin, que tão bem
conhecia os hábitos e as atrocidades dos corsários e bucaneiros da América, de cuja vida turbulenta ainda restavam na ilha as
ruínas de uma feia fortaleza. Punha-se a rir quando o espelho de sua alcova lhe revelava que sua pele, bronzeada pelo sol,
estava igual a de uma esplêndida mulata. Mas aquele descanso foi de curta duração. Uma tarde, Leclerc desembarcou no porto
de Tortuga presa de sinistros calafrios. O médico militar que o acompanhava providenciou para que lhe administrassem fortes
doses de ruibarbo.
Paulina estava apavorada. À sua mente retornavam imagens pouco precisas de uma epidemia de cólera em Ajaccio.
Lembrava os ataúdes que saíam sob os ombros de homens negros; as viúvas cobertas de negros véus que gritavam
desesperadas ao pé das figueiras; as filhas, vestidas de negro, que queriam se atirar na cova dos pais e eram levadas de
rastros para fora do cemitério. De repente, ficava angustiada, sentindo-se prisioneira, como se sentira muitas vezes na
infância. Nessas ocasiões, Tortuga — com sua terra ressequida, seus penhascos rochosos, seus desertos de cactos onde
cantavam as cigarras, seu mar sempre à vista — lembrava muito sua ilha natal. Mas não havia fuga possível. Atrás daquela
porta agonizava um homem que cometera a estupidez de trazer a morte escondida sob os bordados dourados de sua farda.
Convencida do fracasso dos médicos, Paulina passou a escutar os conselhos de Solimán, que recomendava uma defumação
preparada com incenso, anil e casca de limão, e orações que tinham poderes tão extraordinários como aquelas do Grande Juiz,
de São Jorge e de São Transtorno. Deixou que lavassem a casa com plantas aromáticas e restos de tabaco. Ajoelhou-se aos
pés do crucifixo de madeira escura, com aparatosa devoção de camponesa, gritando junto com o negro, ao final de cada
oração: “Malo, Presto, Pasto, Effacio, Amém”. De mais a mais, aqueles crânios, aqueles pregos cravados em cruz no tronco
de limoeiro, revolviam em seu sangue a origem corsa, muito mais próxima da viva cosmogonia do negro do que das mentiras
do Diretório, nas quais sabia agora não acreditar. E arrependia-se também de ter mofado tão amiúde das coisas santas, só para
acompanhar a moda. A agonia de Leclerc, aumentando seu medo, fez com que ela avançasse mais ainda ao encontro do mundo
de poderes que Solimán invocava em seus conjuros, agora o verdadeiro senhor da ilha, única proteção possível contra o
flagelo da outra margem, único médico provável em face da inutilidade das receitas prescritas. Para evitar que os invasores
malignos atravessassem o mar, o negro punha a vogar pequenos barcos, feitos da metade de um coco, todo enfeitado de fitas
tiradas da caixa de costura de Paulina, e que representavam tributos a Aguaçu, Senhor do Mar. Certa manhã, Paulina encontrou
na bagagem de Leclerc uma maquete de um barco de guerra. Correndo, levou-a para a praia para que Solimán acrescentasse às
suas oferendas aquela obra de arte. Era necessário defender-se da peste com todos os meios possíveis: promessas,
penitências, cilícios, jejuns e invocações a quem quisesse ouvir, se bem que às vezes o Falso Inimigo de sua infância
apertasse a pontinha da orelha peluda para ela. Subitamente Paulina começou a andar pela casa de maneira estranha, evitando
pisar na interseção das lajes, talhadas em quadrados — coisa sabida — por ímpia instigação dos franco-maçons, desejosos
que os homens pisassem na cruz em todas as horas do dia. Já não eram mais essências perfumadas e a refrescante água de
menta que Solimán derramava sobre seu peito, e sim unguentos de aguardente, sementes esmagadas, sumo gordurosos e sangue
de aves. Certa manhã, as camareiras francesas descobriram com espanto que o negro executava estranha dança em torno de
Paulina, ajoelhada no chão, com os cabelos soltos. Sem outra vestimenta exceto um lenço branco preso por um cinturão
cobrindo-lhe o sexo e com o pescoço adornado de colares azuis e vermelhos, Solimán saltava como um pássaro, brandindo um
facão enferrujado. Ambos lançavam longos gemidos, arrancados do fundo do peito, e que mais pareciam uivos de cão em noite
de lua. Um galo degolado ainda batia as asas sobre um rastilho de grãos de milho. Ao ver que uma das criadas contemplava a
cena, o negro furioso, fechou a porta a pontapé. Várias imagens de santos apareceram naquela tarde pendentes das vigas do
teto, de cabeça para baixo. Solimán não se separava de Paulina, dormindo em sua alcova, sobre uma almofada encarnada.
Com a morte de Leclerc, vitimado pelo Vômito Negro, Paulina esteve às portas da loucura. O trópico agora lhe parecia
abominável, com seus pacientes abutres instalados no telhado das casas onde alguém agonizava banhado em suor. Logo depois
de ter mandado colocar o cadáver do marido, vestido em uniforme de gala, dentro de um caixão de cedro, Paulina embarcou
apressadamente a bordo do Switshure, fraca, com acentuadas olheiras, o peito coberto de escapulários. Mas logo o vento este,
a sensação de que Paris crescia adiante da proa, a maresia que roía as argolas do ataúde, aliviaram o peso da sua dor. Numa
tarde em que o mar picado fazia ranger assustadoramente o madeirame da quilha, seus véus de luto enredaram-se nas esporas
de um jovem oficial, especialmente encarregado de guardar e prestar homenagem aos restos do General Leclerc. Na canastra
onde levava suas roupas de haitiana, já bem deterioradas, viajava também um amuleto de Papá Legba, trabalhado por Solimán,
e destinado a abrir para Paulina Bonaparte todos os caminhos que a conduziriam a Roma.
Com a partida de Paulina desapareceu o bom senso na colônia. Sob o governo de Rochambeau, os últimos proprietários da
Planície, perdida toda a esperança de retornarem ao bem-estar de antes, entregaram-se a uma orgia brutal, sem fim nem
tréguas. Ninguém fazia caso das horas, e nem as noites terminavam porque amanhecesse. Era necessário acabar com o vinho,
extenuar a carne, regressar do prazer antes que alguma catástrofe terminasse com a possibilidade de gozo. O governador
concedia favores em troca de mulheres. As senhoras do Cabo mofavam do edital do falecido Leclerc, que dispunha que “todas
as mulheres brancas que se prostituíssem com os negros fossem devolvidas à França, não importando sua condição social”.
Muitas fêmeas se entregaram ao hermafroditismo, exibindo-se nos bailes com mulatas a quem chamavam suas cocottes. As
filhas dos escravos eram violentadas em plena infância. Por esse caminho logo se chegou ao terror. Nos dias de festa,
Rochambeau fazia seus cães devorarem os negros, e quando suas presas não se decidiam a dilacerar um corpo humano na
presença de tantas personalidades ilustres vestidas de seda, feria-se a vítima à espada, para que o sangue jorrasse, bem
apetitoso. Calculando que com isso os negros se aquietassem, o governador mandou buscar em Cuba centenas e centenas de
mastins.
— On leur fera bouffer du noir!
No dia em que a nave avistada por Ti Noel entrou na enseada do Cabo, emparelhou com ela um veleiro que vinha da
Martinica, carregado de serpentes venenosas que o general queria soltar na Planície para que mordessem os camponeses que
viviam em casas isoladas e davam ajuda aos negros evadidos, escondidos nas montanhas. Mas as serpentes, criaturas de
Damballah, morreriam sem ter desovado, desaparecendo ao mesmo tempo que os últimos colonos do antigo regime. Os
Grandes Loas agora favoreciam as armas dos negros. Ganhava as batalhas quem tivesse deuses guerreiros para invocar.
Ogum Badagri guiava a carga de arma branca contra as últimas trincheiras da Deuza Razão. E, como em todos os
combates que realmente mereceram ser recordados — porque alguém detivera o Sol ou derrubara muralhas com uma trombeta
— lutaram, naqueles dias, homens que obstruíram com o peito nu as bocas dos canhões inimigos e homens que tiveram o poder
para afastar de seus corpos o chumbo dos fuzis. Foi quando então apareceram na Planície aqueles sacerdotes negros, sem
tonsura nem ordenação eclesiástica, chamados Padres da Savana. Para rezar em latim junto à enxerga de um agonizante eram
tão sábios quanto os padres franceses. E eram entendidos melhor porque quando recitavam o Padre-Nosso ou a Ave-Maria
sabiam dar ao texto inflexões semelhantes àquelas de outros hinos que todos conheciam. Finalmente, certos assuntos entre
vivos e mortos começaram a ser tratados em família.
TERCEIRA PARTE
“Em todas as partes se encontravam coroas reais, de ouro, entre as quais havia algumas tão grandes que mal se podia levantá-las do chão.”

KARL RITTER
testemunha do saque de Sans-Souci
OS SIGNOS

UM NEGRO, velho mas ainda firme sobre seus pés calejados e cheios de joanetes, abandonou a escuna recém-atracada no cais
de São Marcos. Muito longe, na direção do Norte, a crista das montanhas desenhava, num azul pouco mais carregado que o
azul do céu, um perfil conhecido. Sem esperar mais, Ti Noel agarrou um grosso bastão de pau-santo e saiu da cidade. Já iam
longe os dias em que um proprietário de Santiago, num lance de cartas, ganhara Ti Noel a Monsieur Lenormand de Mezy,
morto pouco depois na mais extrema miséria. Sob o jugo de seu amo cubano conhecera uma vida mais tolerável do que aquela
que os franceses da Planície do Norte impunham a seus escravos, tempos atrás. E assim, guardando durante anos e anos as
moedas que o amo lhe dava pelo Natal, conseguira juntar o suficiente para pagar a quantia exigida pelo patrão de um barco
pesqueiro pela viagem na coberta. Sim, porque embora marcado pelo ferro em brasa, Ti Noel era um homem livre. Vivia
agora numa terra onde a escravidão tinha sido abolida para sempre.
No seu primeiro dia de marcha alcançou as margens do Artibonite, deitando-se ao abrigo de uma árvore para dormir à
noite. Ao amanhecer recomeçou a caminhada, por uma estrada que se estendia entre bambuais e parreiras silvestres. O pessoal
que banhava os cavalos lhe gritava coisas que ele não entendia muito bem, e a que respondia a seu modo, dizendo aquilo que
lhe dava vontade. Além disso, Ti Noel nunca estava sozinho, embora andasse só. Há muito tempo aprendera a arte de falar
com as cadeiras, com as panelas, ou então com uma vaca, um violão ou com sua própria sombra. Mas, na curva de um caminho
estreito, as árvores e as plantas como que secavam, transformando-se em esqueletos de árvores e de plantas, sobre uma terra
que passara de vermelha e granulosa a pó, pó estéril de subterrâneo, de masmorra. Já não se avistavam mais os alvos
cemitérios com seus pequeninos sepulcros de gesso branco parecendo templos gregos do tamanho de uma casinha de cachorro.
Aqui os mortos eram enterrados à beira da estrada, numa planície silenciosa e hostil, invadida por cactos e acácias. Às vezes,
um teto de palha, abandonado sobre suas quatro estacas, revelava a fuga de seus moradores expulsos por mórbidos miasmas.
Toda a vegetação que ali crescia era cortante, armada de espinhos, de esporões e exsudava um leite maligno. As poucas
pessoas que cruzavam por Ti Noel não respondiam ao seu cumprimento, seguindo de cabeça baixa, olhar fixo no chão, como o
focinho de seus cães. De repente, o negro se deteve, respirando profundamente. Um cabrito enforcado pendia de uma árvore
coberta de espinhos. No chão, várias advertências: três pedras em semicírculo, com um raminho de oliveira quebrado,
formando uma ogiva, a modo de porta. Mais adiante, vários frangos pretos, pendurados por uma das patas, embalançavam, de
cabeça para baixo, ao longo de um galho gordurento. Por fim, terminados os signos, uma árvore particularmente maléfica, de
tronco eriçado de espinhos negros, achava-se rodeada de oferendas. Entre suas raízes tinham encaixado — retorcidas,
sarmentosas e fendidas — várias Muletas de Legba, o Senhor dos Caminhos. Ti Noel caiu de joelhos e deu graças aos Céus
por lhe concederem a graça de regressar à terra dos Grandes Pactos. Porque ele sabia — e o sabiam todos os negros franceses
de Santiago de Cuba — que o triunfo de Dessalines era fruto de uma tremenda preparação na qual tinham intervido Loco,
Petro, Ogum Ferraille, Brise-Pimba, Caplaou-Pimba, Mariette Brois-Cheche e todas as divindades da pólvora e do fogo,
baixando seu santo com tanta violência que certos homens possuídos haviam sido lançados ao ar ou jogados ao chão pelos
conjuros. Depois, amassaram sangue, pólvora, farinha de trigo e pó de café, até formar um fermento capaz de reviver os
antepassados, enquanto rugiam os tambores consagrados e cruzavam-se os ferros dos iniciados sobre uma fogueira. No ápice
da exaltação, um inspirado montara às costas de dois homens que relinchavam, entrelaçados em garboso perfil de centauro,
descendo a galope, em direção ao mar, aquele mar que além da noite, mais além de muitas noites, banhava as fronteiras do
mundo dos Altos Poderes.
SANS-SOUCI

AO CABO de vários dias de marcha Ti Noel começou a reconhecer certos lugares. Pelo sabor da água sabia que tinha tomado
banho, não ali, porém um pouco mais abaixo, naquele arroio que serpenteava em direção à costa. Passou perto da caverna
onde Mackandal fizera macerar suas plantas venenosas. Cada vez mais impaciente, desceu pelo estreito vale de Dondón até
desembocar na Planície do Norte. Então seguiu pela orla do mar, tomando o rumo da antiga fazenda de Lenormand de Mezy.
Pelas três sumaúmas que formavam um triângulo compreendeu que tinha chegado. Mas não restava mais nada da fazenda:
nem a anilaria ou os secadouros, os estábulos e nem os defumadouros de carne. Da casa, restava uma chaminé de tijolos
coberta pela mesma trepadeira que longe da sombra o sol queimara. Dos armazéns, restavam algumas lajes encaixadas no
barro; da capela, o galo de ferro do cata-vento. Aqui e ali, pedaços de parede ainda erguidos, parecendo enormes letras
quebradas. Os pinheiros, as parreiras, as plantas trazidas da Europa, tinham desaparecido, assim como também a horta, onde,
em outros tempos, começavam a branquear os aspargos, a engrossar os corações das alcachofras, entre um tufo de menta e um
canteirinho de manjerona. A fazenda toda não passava de um charrascal atravessado pela estrada. Ti Noel sentou-se sobre
uma das pedras de esquina da antiga vivenda, agora uma pedra como outra qualquer para quem não recordasse tanto.
Conversava Ti Noel com as formigas, quando um ruído inesperado lhe chamou a atenção. Em direção a ele vinham, a trote
largo, vários ginetes, de uniformes resplandescentes, com jaquetas azuis cobertas de alamares e cordões dourados, as golas
bordadas de fios de ouro e prata, os galões cheios de franjas reluzentes, as calças de camurça com vistosas faixas, as
barretinas com penachos de plumas azul-celeste e as botas à hussardo. Habituado aos uniformes simples da colônia espanhola,
Ti Noel descobria de repente, com assombro, a pompa do estilo napoleônico que os homens de sua raça tinham elevado a um
grau de ostentação ainda ignorado pelos próprios generais do corso. Os oficiais passaram por ele como se cavalgassem numa
nuvem de pó dourado, afastando-se em direção a Millot. O velho, fascinado, seguiu o rastro deixado pelos cavalos na terra da
estrada.
Ao sair de um arvoredo, teve a impressão de que penetrava num suntuoso pomar. Todas as terras que circundavam o
povoado de Millot estavam cuidadosamente cultivadas como a horta de uma granja, com seus canais de rega formando
quadriláteros e com seus canteiros verdes de plantios recém-desabrochados. Muita gente trabalhava nesses campos, sob
vigilância de soldados armados de chicotes, que, de quando em vez, jogavam uma pedra nalgum preguiçoso. “Prisioneiros”,
pensou Ti Noel ao ver que os guardas eram negros e que os trabalhadores também eram negros, o que contrariava certas
noções que tinha adquirido em Santiago de Cuba, naquelas noites em que pudera assistir a alguma festa nos bosques, quando
batucavam os tambores nas Assembleias dos Negros Franceses. Mas agora, o velho estacara de súbito, maravilhado pelo
espetáculo mais inesperado, mais imponente que jamais vira em sua longa existência. Contra o fundo de montanhas estriadas
de roxo por gargantas profundas, erguia-se um palácio rosado, uma fortaleza de janelas arqueadas, como que flutuando no
espaço, sustentada pela base elevada de uma imponente escadaria de pedra. Em um dos lados estavam situados compridos
alpendres cobertos de telhas, que deveriam ser as dependências do palácio, os quartéis e as cavalariças. No outro lado, uma
construção circular, coroada por uma cúpula assentada sobre colunas brancas, da qual saíam vários sacerdotes de sobrepeliz.
À medida que se aproximava, Ti Noel descobria terraços, estátuas, arcadas, jardins, pérgulas, arroios artificiais e labirintos
de buxo aparado. Leões de bronze montavam guarda ao pé de pilastras maciças que sustentavam um grande sol de madeira
negra. Pelo pátio de honra iam e vinham, num intenso tráfego, militares vestidos de branco, jovens capitães de bicórneo,
aureolados de reflexos, batendo com ruído o sabre nas coxas. Uma janela aberta deixava ouvir uma orquestra de baile em
pleno ensaio. Às janelas do palácio assomavam senhoras coroadas de plumas, com o busto farto soerguido pelo talhe
demasiadamente alto dos vestidos em moda. No pátio, dois cocheiros de libré passavam a esponja em uma grande carruagem,
coberta de sóis em relevo, completamente dourada. Ao passar em frente à construção circular da qual tinham saído os
sacerdotes, Ti Noel reparou que se tratava de uma igreja, cheia de cortinas, dosséis e estandartes, que abrigava uma
gigantesca imagem da Imaculada Conceição.
Porém o que mais assombrava Ti Noel era a revelação de que esse mundo tão prodigioso, como nunca tinham visto os
governadores franceses do Cabo, era um mundo de negros. Porque negras eram aquelas formosas senhoras de nádegas firmes
que agora brincavam de roda em volta de uma fonte adornada de tritões; negros, aqueles dois ministros de meias brancas, que
desciam as escadarias de honra, com suas pastas de couro de bezerro embaixo do braço; negro, aquele cozinheiro, cujo gorro
tinha uma borla de arminho e que recebia um veado dos ombros de vários campônios conduzidos pelo chefe dos batedores;
negros, aqueles hussardos que trotavam no picadeiro; negro, aquele copeiro-chefe, de corrente de prata em volta do pescoço,
que contemplava, na companhia do chefe da falcoaria, os ensaios dos atores negros no teatro de verdura da cozinha; negros,
aqueles lacaios de peruca branca, cujos botões dourados eram contados pelo mordomo de jaqueta verde; negra, enfim, e bem
negra, era a Imaculada Conceição, erguida sobre o altarmor da capela, sorrindo com doçura para os músicos negros que
ensaiavam uma oração à Virgem. Ti Noel compreendeu que se encontrava em Sans-Souci, a residência predileta do Rei Henri
Christophe, o mesmo que tinha sido cozinheiro na Rua dos Espanhóis, dono do albergue La Carona, que hoje fundia moedas
com suas iniciais, sobre a orgulhosa divisa: “Deus, minha causa e minha espada.”
O velho recebeu tremenda paulada nas costas. Antes que pudesse protestar, uma guarda o conduzia a pontapés pelo
traseiro até um dos quartéis. Quando se viu encerrado numa cela, Ti Noel começou a gritar que conhecia pessoalmente Henri
Christophe e acreditava até que ele ainda estivesse casado com Maria Luísa Coidavid, sobrinha de uma rendeira liberta que
amiúde ia na residência de Lenormand de Mezy. Mas ninguém fez caso. À tarde o levaram, junto com outros presos, até o pé
do Barrete do Bispo, onde se via grande quantidade de material de construção. Entregaram-lhe um tijolo:
— Leva lá em cima! E volta para buscar outro!
— Estou muito velho.
Como resposta Ti Noel recebeu uma cacetada no crânio. Sem objetar mais nada, iniciou a subida da empinada montanha,
colocando-se numa grande fila de crianças, de moças grávidas, de mulheres e de velhos, que também levavam um tijolo na
mão. O velho olhou em direção a Millot. À tardinha o palácio parecia ainda mais rosado que antes. Junto ao busto de Paulina
Bonaparte, que antigamente adornara sua casa no Cabo, as princesinhas Atenais e Amatista, de vestidos cor-de-rosa enfeitados
com alamares, brincavam de argola. Um pouco além, o capelão da rainha — o único de pele clara em todo o cenário — lia
para o príncipe herdeiro as Vidas Paralelas, de Plutarco, sob o olhar condescendente de Henri Christophe, que passeava
seguido por seus ministros, pelo jardim da rainha. De passagem, Sua Majestade apanhava distraidamente uma rosa branca,
recém-desabrochada, entre os buxos aparados em forma de coroa e fênix, ao pé de uma alegoria de mármore.
O SACRIFÍCIO DOS TOUROS

NO ALTO do Barrete do Bispo, cercada de andaimes, erguia-se aquela segunda montanha — montanha sobre montanha — a
Cidadela La Ferrière. Uma prodigiosa geração de cogumelos vermelhos, como um denso e lustroso brocado, subia pelos
flancos da torre principal — depois de cobrir completamente os alicerces e os contrafortes — parecendo monstruoso polvo a
envolver a muralha de tijolo. Naquele colosso de tijolos cozidos, construído acima das nuvens, em tais proporções que suas
perspectivas desafiavam a vista mais habituada, submergiam túneis, corredores, caminhos secretos e chaminés. Vinda do alto,
das bombardeiras e dos respiradouros, uma luz de aquário, diáfana, verdosa, tingida por fetos que se uniam no próprio vácuo,
descia sobre uma bruma de umidade. As escadarias do Inferno comunicavam as três baterias principais com o paiol, com o
abrigo dos artilheiros, com as cozinhas, com as cisternas, com as forjas, com a fundição e com as masmorras. No centro do
pátio das armas, vários touros eram degolados, todos os dias, para amassar com seu sangue uma argamassa que faria a
fortaleza invulnerável. No lado que dava para o mar, dominando o vertiginoso panorama da Planície, os operários caiavam os
aposentos da Família Real, as dependências das mulheres, os refeitórios e os bilhares. Sobre eixos de carretas montados no
topo das muralhas apoiavam-se as pontes volantes que transportavam os tijolos e as pedras para os terraços da crista,
construídos entre dois abismos, um interno e outro externo, tão profundos que provocavam vertigens nos operários. Amiúde
um negro desaparecia no vácuo, levando consigo uma gamela de argamassa. Em seguida chegava outro, e ninguém mais
pensava naquele que caíra. Centenas de homens trabalhavam naquela imensa construção, sempre vigiados pelo chicote e pelo
fuzil, concluindo obras até então apenas imaginadas na arquitetura de sonho do Piranese. Içados por cordas pelas escarpas da
montanha, chegavam os primeiros canhões, logo montados em carretas de cedro, ao longo de salas abauladas, eternamente na
penumbra, cujas bombardeiras dominavam todas as passagens e desfiladeiros da região. Ali estavam Cipião, Aníbal, Amílcar,
bem lisos, de bronze quase dourado, ao lado de outros, fundidos depois de 89, e com a divisa ainda insegura de Liberdade,
Igualdade. Havia também um canhão espanhol, em cujo corpo estava gravada a melancólica inscrição: “Fiel mas infeliz!” E
vários outros de boca mais larga, mais elaborados, cunhados com a insígnia do Rei Sol, apregoando insolentemente sua
Ultima Ratio Regum.
Quando Ti Noel depositou seu tijolo ao pé da muralha era cerca de meia-noite. O trabalho, porém, continuava sob a luz
das fogueiras e archotes. Os homens dormiam pelos caminhos, sobre grandes blocos de pedra, apoiados em canhões caídos,
ou ao lado das mulas esfoladas de tanto caírem na subida. Esgotado pelo cansaço, o velho tombou num fosso embaixo da ponte
levadiça. Ao raiar da aurora o acordaram com uma chicotada. Em cima, bramiam os touros que seriam degolados às primeiras
luzes do dia. Novos andaimes tinham crescido à passagem das nuvens frias antes que a montanha inteira vibrasse com os
relinchos, os gritos, os toques de corneta, as chicotadas e o estalar de cordas inchadas pelo orvalho. Ti Noel começou a
descer em direção a Millot em busca de outro tijolo. Pelo caminho observou que por todos os lados da montanha subiam
compactas fileiras de mulheres, de crianças, de velhos, carregando cada um seu tijolo, para deixá-lo ao pé da fortaleza, que ia
sendo construída como um cupinzeiro, com aqueles grãos de barro cozido que subiam até ela, sem tréguas, com o sol ou com
chuva, de Páscoa a Páscoa. Em breve Ti Noel soube que aquilo durava há mais de doze anos e que toda a população do Norte
tinha sido mobilizada pela força para trabalhar naquela obra inverossímil. Toda tentativa de protesto fora silenciada com
sangue. Caminhando, caminhando, de cima para baixo e de baixo para cima, o negro começou a pensar que a orquestra de
câmara de Sans-Souci, o fausto dos uniformes, e as estátuas de brancas despidas, aquecidas ao sol sobre seus pedestais de
pedra ornada de laços, entre canteiros de buxo aparado, tudo isso custara uma escravidão tão abominável como aquela que
conhecera na fazenda de Monsieur Lenormand de Mezy. Pior ainda, pois era infinitamente mais doloroso receber uma paulada
de um negro, tão negro como nós; tão beiçudo e encarapinhado, com o nariz tão achatado como o nosso; tão igual, tão
malnascido, tão marcado a ferro, provavelmente, como nós. Era como se, no mesmo lar, os filhos batessem nos pais, o neto na
avó, as noras na mãe que cozinha. Ademais, antigamente, os colonos franceses evitavam matar seus escravos — a menos que
perdessem o controle — pois a morte de um escravo abria um rombo em suas bolsas. Enquanto que agora a morte de um negro
nada custava ao tesouro público. Havendo negras que parissem — e sempre havia e sempre haveria — nunca faltariam
trabalhadores para carregarem os tijolos até o cume da montanha do Barrete do Bispo.
Frequentemente o Rei Christophe subia à Cidadela, escoltado por seus oficiais a cavalo, para verificar os progressos da
obra. Baixo, muito forte, peito um pouco abaulado, nariz abatatado e com a barba sumida dentro da gola bordada da casaca, o
monarca percorria as baterias, as forjas e as oficinas, fazendo retinir as esporas no topo das intermináveis escadarias. No seu
bicórneo napoleônico abria-se o olho de ave da insígnia bicolor. Às vezes, com um simples gesto de seu chicote, ordenava a
morte de um preguiçoso surpreendido em plena folga, ou a execução de alguns peões demasiado vagarosos ao içar um bloco
de pedra talhada ao longo de uma encosta muito abrupta. E terminava sempre por mandar colocar uma poltrona no terraço
superior, que dava vista para o mar, na borda de um abismo que obrigava a fechar os olhos aos mais acostumados. Então, sem
nada que pudesse fazer sombra nem pesar sobre ele, por cima de tudo, erguido sobre sua própria sombra, media toda a
extensão de seu poder. Caso a França tentasse reconquistar a ilha, ele, Henri Christophe, “Deus, minha causa e minha
espada”, poderia resistir ali, sobre as nuvens, durante tantos anos quantos fossem necessários, com toda sua corte, seu
exército, seus capelães, seus músicos, seus pajens africanos e seus bufões. Quinze mil homens viveriam com ele, entre aquelas
paredes ciclópicas, sem carecerem de nada. Alçada a ponte levadiça da Porta Única, a Cidadela La Ferrière seria o próprio
país, com sua independência, seu monarca, suas finanças e sua pompa real. Porque embaixo, esquecendo os padecimentos que
custara sua construção, os negros da Planície levantariam os olhos para a fortaleza repleta de milho, de pólvora, de ferro, de
ouro, pensando que nela, mais alto que as aves, lá, onde a vida cá debaixo soaria remotamente através dos sinos e dos cantos
de galo, um rei, de sua mesma raça, esperaria junto do Céu, que é o mesmo em toda parte, que troassem os canhões de bronze
dos dez mil cavalos de Ogum. Para alguma coisa aquelas torres tinham crescido sobre o vasto gramido dos touros degolados,
dessangrados, com os testículos ao sol, por construtores conscientes do profundo significado do sacrifício, embora dissessem
aos ignorantes que se tratava de um simples progresso na técnica da alvenaria militar.
O EMPAREDADO

QUANDO OS trabalhos da Cidadela estavam prestes a terminar, e os operários especializados se fizeram mais necessários à
obra do que os carregadores de tijolos, a disciplina relaxou um pouco, e embora ainda fossem transportados morteiros e
columbinas até os altos penhascos da montanha, muitas mulheres puderam voltar às suas panelas, brancas de teias de aranha.
Entre aqueles que deixaram ir embora por serem menos úteis, estava Ti Noel, que escapou certa manhã, sem voltar a cabeça
para olhar a fortaleza, já sem andaimes no flanco da Bateria das Princesas Reais. As toras que agora rolavam, ladeira acima, à
força de alavancas, serviriam para assoalhar as dependências. Mas nada disso interessava mais a Ti Noel, que somente
ansiava por se instalar nas antigas terras de Lenormand de Mezy, para as quais regressava agora como a enguia retorna ao
lodo onde nasceu. De volta ao solar, sentindo-se um pouco proprietário daquela terra cujos acidentes só tinham um significado
para ele, começou a limpar, com o facão, aqui e ali, desimpedindo algumas ruínas. Dois pés de acácia, ao cair, trouxeram à
luz um pedaço de parede. Sob as folhas de uma aboboreira silvestre apareceram os ladrilhos azuis do refeitório da fazenda.
Cobrindo com folhas de palmeira a chaminé da antiga cozinha — já meio demolida — o negro ficou com uma alcova, na qual
entrava engatinhando, e que forrou com espigas de barba-de-índio, para descansar das pancadas recebidas nos caminhos do
Barrete do Bispo.
Ali viveu durante os ventos do inverno e as chuvas que se seguiram, e viu chegar o verão com a barriga inchada de tanto
comer frutas verdes, mangas aguadas, sem se atrever a sair pelas estradas, com medo da gente de Christophe que andava
buscando homens, quem sabe para construir algum novo palácio, talvez esse muito comentado, erguido às margens do
Artibonite, que tinha tantas janelas quanto os dias que somam um ano. Entretanto, como transcorressem vários meses sem
maiores novidades, Ti Noel, cansado da miséria, partiu para a Cidade do Cabo, andando sem se afastar do mar, pela vereda
— agora quase desaparecida — que seguira tantas vezes antigamente, atrás do amo, quando regressava para a fazenda
montado num cavalo novo, desses que mordem o freio e trotam com rangido de couro dobrado, cujo pescoço ainda conserva
as graciosas dobras do potro. E na cidade, um galho comprido com um gancho na ponta sempre encontra o que botar dentro do
saco que se leva ao ombro. Numa cidade sempre existem prostitutas de coração generoso que dão esmolas aos velhos; e
mercados com bandas de música, animais amestrados, bonecos que falam e cozinheiras que se divertem com quem não fala em
fome e aponta um copo de aguardente. Ti Noel sentia que um frio intenso lhe ia entrando pela medula dos ossos. Sentia muita
saudade daqueles frascos de antigamente — aqueles da adega da fazenda — quadrados, de vidro grosso, cheios de cascas,
ervas, de amoras e folhas de agrião maceradas em álcool, que irradiavam delicados matizes de perfume muito suave.
Ti Noel, porém, encontrou a cidade inteira à espera de uma morte. Parecia que todas as janelas e portas das casas, todas
as gelosias, todas as claraboias estivessem voltadas na direção da esquina do Arcebispado, numa expectativa de tal
intensidade que deformava as fachadas em caretas humanas. Os telhados esticavam suas abas, as esquinas aguçavam suas
arestas, e a umidade só desenhava ouvidos nas paredes. Na esquina do Arcebispado acabara de secar um retângulo de
cimento, dentro da própria muralha, deixando apenas uma pequena goteira aberta. Daquele buraco, negro como uma boca
desdentada, brotavam de repente gritos tão aterradores que punham toda a cidade a tremer de medo, fazendo as crianças
chorar. Quando os gritos começavam, as mulheres grávidas seguravam seus ventres assustadas, e alguns transeuntes
disparavam a correr sem nem terminarem o sinal da cruz. E prosseguiam na esquina do Arcebispado aqueles urros, aquela
gritaria sem sentido, até que a garganta já ensanguentada, se dilacerava em maldições tenebrosas, ameaças, profecias e
palavrões. Em seguida, ouvia-se um choro, um choro arrancado das profundezas da alma, como se fosse uma criancinha
choramingando com voz de velho, muito pior, mais intolerável ainda que a gritaria de antes. Por fim, as lágrimas
transformavam-se num estertor que ia morrendo numa lenta cadência de asmático até se perder num tênue suspiro. E isso se
repetia dia e noite, na esquina do Arcebispado. Ninguém dormia na cidade do Cabo. Ninguém se atrevia a passar nas ruas
vizinhas. Dentro das casas, nos quartos mais retirados, rezava-se em voz baixa, e ninguém teria a audácia sequer de comentar
o que estava acontecendo. Porque aquele capuchinho que estava emparedado na muralha do Arcebispado, sepultado vivo,
dentro de seu oratório de cimento, era Corneille Breille, Duque de Anse, confessor de Henri Christophe. Tinha sido
condenado a morrer ali, dentro da parede recém-rebocada, pelo crime de querer voltar para a França, conhecendo todos os
segredos do rei, todos os segredos da Cidadela, sobre cujas torres o raio já havia caído várias vezes. E podia a Rainha Maria
Luísa implorar em vão, abraçada às botas de seu esposo. Henri Christophe, que acabara de insultar São Pedro por ter
mandado nova tempestade sobre sua fortaleza, não ia assustar-se com as inúteis excomunhões de um capuchinho francês. E
ainda, para o caso de dúvida, Sans-Souci tinha novo favorito: um capelão espanhol, de chapéu comprido — tão dado à intriga
quanto a rezar a missa com sua bela voz de baixo — a quem todos chamavam Padre Juan de Dios. O astuto frade, cansado já
do feijão com carne-seca dos rudes espanhóis do outro lado da ilha, estava agora muito bem instalado na corte haitiana, onde
as senhoras o obsequiavam continuamente com frutas cristalizadas e vinhos de Portugal. Corria o rumor de que certas frases
suas, ditas muito despreocupadamente na presença de Henri Christophe, num dia em que este ensinava seus galgos a
avançarem à simples menção do rei da França, eram a causa da terrível desgraça de Corneille Breille.
Depois de uma semana de encerramento dentro da muralha, a voz do capuchinho emparedado tornara-se quase
imperceptível, morrendo num estertor mais adivinhado que propriamente ouvido. E a seguir, fora o silêncio, na esquina do
Arcebispado. Um silêncio demasiadamente prolongado, numa cidade que tinha deixado de crer no silêncio e que somente um
recém-nascido se atrevera a romper — com um vagido ignorante — fazendo retornar a vida à sua sonoridade habitual, como o
pregão dos vendedores, os adeuses, as conversas de comadres e as canções ao estender a roupa molhada ao sol. Foi somente
então que Ti Noel pode colocar alguma coisa dentro da sua sacola, tendo conseguido de um marinheiro bêbado a quantidade
de moedas suficiente para beber cinco copos de aguardente, um atrás do outro. Cambaleando à luz da Lua, tomou o caminho de
volta, recordando vagamente uma canção dos velhos tempos, que cantava sempre que regressava da cidade. Uma canção na
qual se diziam grosserias a um rei. E isso era importante: a um rei. E assim, insultando Henri Christophe, já cansado de
defecações imaginárias sobre sua coroa e sobre sua prosápia, achou a caminhada tão curta que quando se jogou sobre sua
enxerga de barba-de-índio chegou até a perguntar a si mesmo se tinha ido realmente à Cidade do Cabo.
CRÔNICA DO DIA 15 DE AGOSTO

QUASI PALMA exaltata sum in Cades, et quasi plantatio rosae in Jericho. Quasi oliva speciosa in campis, et quasi platanus
exaltata sum juxta aquam in plateis. Sicut cinnamonum et balsamum aromatizans odorem dedi: quasi myrrah electa dedi
suavitatem odoris.
Sem entender o latim pronunciado por Juan de Dios Gonzáles com suas inflexões de barítono de resultado sempre
garantido, a Rainha Maria Luísa percebia naquela manhã uma misteriosa harmonia entre o perfume do incenso e a fragrância
das laranjeiras de um jardim próximo com certas palavras da lição de liturgia que aludiam a perfumes conhecidos cujos nomes
estavam rotulados nos potes de porcelana do boticário de Sans-Souci. Henri Christophe, entretanto, não conseguia acompanhar
a missa com a devida atenção, pois sentia o coração opresso por inexplicável desassossego. Contra a opinião de todos,
ordenara que a missa da Assunção fosse cantada na igreja de Limonade, cujos mármores acizentados, de delicados veios,
davam uma deliciosa impressão de frescor, permitindo que se suasse um pouco menos sob as casacas abotoadas e sob o peso
das condecorações. Apesar disso, o rei sentia-se cercado por forças hostis. O povo, que à sua chegada o aclamara, estava
cheio de más intenções. Não esqueciam nunca suas colheitas perdidas, numa terra fértil, porque seus homens se achavam
ocupados na construção da Cidadela. Nalguma casa mais retirada — suspeitava ele — lá estaria uma imagem sua toda
espetada de alfinetes ou pendurada de cabeça para baixo com uma faca cravada no coração. Às vezes ouvia-se ao longe o
batuque dos tambores, que não estariam, provavelmente, pedindo a Deus que lhe desse longa vida. Entretanto, já começava o
ofertório.
— Assumpta est Maria, in caelum; gaudent Angeli, laudantes benedicunt Dominum, alleluia!
De repente, Juan de Dios Gonzáles começou a recuar em direção às poltronas reais, tropeçando desajeitadamente nos três
degraus de mármore. A rainha deixou cair o rosário. O rei levou a mão à empunhadura da espada. Em frente ao altar, de rosto
voltado para os fiéis, erguera-se outro sacerdote, como que nascido do próprio ar, com pedaços, de ombros e braços ainda
mal corporizados. Enquanto o rosto ia adquirindo firmeza e expressão, de sua boca sem lábios, sem dentes, negra como o
buraco de uma gateira, surgia uma voz tétrica, que vibrava na nave como um órgão a todo fole, fazendo tremer os vitrais nos
seus encaixes de chumbo.
— Absolve Domine, animas ominum fidelium defunctorum ab omni vinculo delictorum…
O nome de Corneille Breille ficou entalado na garganta de Christophe, deixando-o sem fala. Porque era o arcebispo
emparedado, que todos sabiam morto e apodrecendo, quem estava ali, em frente ao altar-mor, paramentado com toda sua
pompa clerical, clamando a Dies Irae. Quando, sob o trovão do redobre dos tímbales, soaram as palavras: Coget omnes ante
thronus, Juan de Dios Gonzáles caiu, gemendo, aos pés da rainha. Henri Christophe, com os olhos esbugalhados, resistiu até o
Rex tremendae majestatis. Nesse momento, um raio que só a ele ensurdeceu, caiu sobre a torre da igreja, fendendo de uma só
vez todos os sinos. Os chantres, os incensórios, o facistol, o púlpito, desapareceram da vista do rei que jazia estendido de
costas no chão, com os olhos fixos nas vigas do teto. E então, num grande salto, o espectro sentou-se numa dessas vigas,
exatamente onde Christophe pudesse vê-lo, com os braços e as pernas abertas em cruz, como para exibir completamente o
brecado sangrento. Em seus tímpanos avultava uma cadência que tanto podia ser o latejar de suas próprias veias como o ritmo
da batida dos tambores na montanha. Retirado da igreja nos braços de seus oficiais, o rei resmungava vagas maldições,
ameaçando de morte a todos os habitantes de Limonade se os galos cantassem. Enquanto recebia os primeiros cuidados de
Maria Luísa e das princesas, os camponeses, apavorados com o delírio do monarca, começaram a baixar galos e galinhas,
dentro de canastras, para as trevas de profundos poços, onde esqueceriam o cacarejo e as fanfarronadas. Os burros eram
tocados a pauladas morros abaixo, e os cavalos eram amordaçados para evitar um relincho mal interpretado.
Naquela tarde a pesada carruagem real entrou no pátio de honra de Sans-Souci a galope, puxada por seis cavalos. Com a
camisa aberta, levaram o rei para os seus aposentos. Caiu na cama como um saco cheio de correntes. Mais córnea que íris,
seus olhos exprimiam uma fúria inaudita, por não poder mover nem os braços e nem as pernas. Os médicos friccionaram-lhe o
corpo inerte com uma mistura de aguardente, pólvora e pimenta vermelha. Em todo o palácio, os medicamentos, as tisanas, os
sais e os unguentos exalavam seus odores pelos salões abafados, repletos de funcionários e cortesãos. As princesas Atenais e
Amatista choravam no regaço da preceptora norte-americana. A rainha, pouco preocupada com a etiqueta em tais momentos,
estava agachada num canto da antecâmara, vigiando um preparado de ervas que fervia sobre um fogareiro a carvão de lenha,
cujo reflexo de chama verdadeira dava estranho realismo ao colorido de um gobelino que adornava a parede, mostrando
Vênus nas forjas de Vulcano. Sua Majestade pediu um leque para avivar as chamas. Respirava-se mal naquele crepúsculo
sombrio há muito impaciente para tudo envolver. Não se sabia se realmente soavam os tambores nas montanhas. Porém, às
vezes, um ritmo vindo de alturas distantes se harmonizava singularmente com as Ave-Marias que as mulheres rezavam no
Salão de Honra, encontrando ressonâncias inconfessadas em mais de um coração.
ULTIMA RATIO REGUM

NO DOMINGO seguinte, ao pôr do sol, Henri Christophe teve a impressão de que seus joelhos e seus braços, ainda
intumescidos, responderiam a um grande esforço de sua vontade. Virando-se pesadamente para sair da cama, deixou cair os
pés no chão, permanecendo ainda, dobrado na cintura, meio recostado sobre o leito. Seu lacaio Solimán ajudou-o a vestir-se.
Pôde então o rei andar até a janela, com passos medidos, como um grande autômato. Chamadas pelo servidor, a rainha e as
princesas entraram silenciosamente no aposento, colocando-se num canto escuro, embaixo do retrato equestre de Sua
Majestade. Elas sabiam que estavam bebendo muito em Haut-le-Cap e que nas esquinas, cozinheiras suarentas, tamborilando
sobre as mesas com suas escumadeiras e colheres, serviam, em grandes caldeirões, sopa e carne-seca. Aos gritos e risadas,
dançavam numa ruela os lenços de uma festa.
O rei respirava o ar da tarde que aos poucos aliviava aquele peso que lhe oprimia o peito. A noite surgia agora na
encosta das montanhas sombreando o contorno das árvores e dos labirintos. De repente, Christophe reparou que os músicos da
capela real atravessavam o pátio levando seus instrumentos, cada um acompanhado por sua deformação profissional. O
harpista estava curvado, como um corcunda, pelo peso da harpa; aquele outro, tão magro, parecia grávido, com um bombo
pendente dos ombros; outro se abraçava ao bombardino. Encerrava a fileira um anão quase oculto pelo pavilhão de um porta-
campanas, e a cada passo tilintavam todas as suas sinetas. O rei começava a achar estranho que àquela hora seus músicos
saíssem assim, em direção à montanha, como se fossem dar um concerto ao pé de alguma sumaúma solitária, quando rufaram
ao mesmo tempo oito caixas militares. Estava na hora de render a guarda. Sua Majestade ficou observando cuidadosamente
seus granadeiros para verificar se durante sua enfermidade observavam a rígida disciplina à qual ele os tinha habituado.
Subitamente, porém, a mão do monarca se alçou num gesto de colérica surpresa. As caixas abandonavam o toque regulamentar
por outro, um compasso de três batidas distintas, produzidas não mais pelas baquetas, mas pelos dedos que batucavam sobre o
couro.
— Estão tocando o manducumán! — gritou Christophe atirando o bicórneo no chão.
Nesse instante, a guarda rompeu as fileiras atravessando em desordem o pátio de honra. Oficiais correram com os sabres
desembainhados. Das janelas dos quartéis desprendiam-se pencas de homens, com as túnicas abertas e as calças por cima das
botas. Dispararam tiros para o ar. Um porta-bandeira estraçalhou um estandarte de coroas e delfins do regimento do Príncipe
Real. No meio da confusão, um pelotão de Cavalaria Ligeira abandonou o Palácio a todo galope, seguido por uma carroça
fechada, puxada por mulas, carregada de arreios e armaduras. Era uma debandada geral de uniformes, sempre incitada pelas
caixas militares, golpeadas com os punhos. Um soldado impaludado, surpreendido pelo motim, saiu da enfermaria envolto
num lençol, ajustando a fivela da correia da barretina. Ao passar por baixo da janela de Christophe, fez um gesto obsceno e
fugiu, a toda pressa. Depois, foi a calma do entardecer, ouvindo-se ao longe o queixume de um pavão real. O rei virou o rosto.
Nas trevas do aposento, a Rainha Maria Luísa e as princesas Atenais e Amatista choravam. Agora se sabia porque tinham
bebido tanto naquele dia em Haut-le-Cap.
Christophe começou a andar pelo seu palácio, apoiando-se nos corrimões, nas cortinas e no espaldar das cadeiras. A
ausência dos cortesãos, dos lacaios, dos guardas, dava uma horrível impressão de vazio aos corredores e dependências. As
paredes pareciam mais altas, e as lajes mais largas. O Salão dos Espelhos não refletia mais que a figura do rei, multiplicada
até o infinito de seus cristais mais longínquos. E depois aquele zumbido, aquele roçar, aqueles grilos no forro do teto, que
nunca se havia escutado antes e que agora, com suas pausas e intermitências, davam ao silêncio toda uma escala de
profundidade. As velas derretiam-se lentamente nos candelabros. Uma mariposa noturna voava em círculos na Sala do
Conselho. Os insetos, depois de se atirarem contra a guarnição dourada das janelas, caíam no chão, aqui e ali, com o
inconfundível estalido das carapaças dos escaravelhos voadores. No grande salão de recepção, com suas janelas abertas
sobre as duas fachadas, Christophe, ao caminhar, ouvia o som cavo de suas próprias botas, aumentando a impressão de
absoluta solidão. Desceu por uma porta de serviço para a cozinha, onde o fogo morria sob as grelhas sem carne. Perto de uma
mesa de trinchar, várias garrafas de vinho vazias estavam caídas no chão. Tinham levado as réstias de alho, que se achavam
penduradas na parede da chaminé, e as fileiras de cogumelos dión-dión e os presuntos, postos ali para defumar. O palácio
estava deserto, entregue à noite sem lua. E a quem quisesse tomá-lo, pois haviam levado até os cães de caça. Henri Christophe
retornou ao andar que ocupava. A escadaria branca parecia sinistramente fria e lúgubre à luz baça dos lustres. Um morcego
entrou pela claraboia da cúpula, dando voltas, desnorteado, sob o ouro velho do forro do teto. O rei apoiou-se na balaustrada,
buscando a solidez do mármore.
Lá embaixo, sentados no último degrau da escadaria de honra, cinco moços negros voltaram para ele seus rostos
ansiosos. Naquele instante Christophe sentiu que os amava. Eram os bobos da corte: Delivrance, Valentín, La Couronne, John
e Bien Aimé, os africanos que o rei comprara de um mercador de escravos para devolver-lhes a liberdade e para que
aprendessem o lindo ofício de pajem. Christophe mantivera-se sempre à margem da mística africanista dos primeiros
caudilhos da independência haitiana, tentando dar à sua corte um aspecto europeu. Mas agora que estava só, que seus duques,
barões, generais e ministros o tinham atraiçoado, os únicos que permaneciam leais eram aqueles cinco africanos, aqueles
cinco moços congoleses, fulas ou mandingas, que aguardavam sentados como cães fiéis, com as nádegas assentadas no
mármore frio da escadaria, na Ultima Ratio Regum, que já não se podia mais impor pela voz dos canhões. Christophe
contemplou demoradamente seus pajens; fez-lhes um gesto de carinho, ao qual responderam com uma triste reverência, e
encaminhou-se para a sala do trono.
Deteve-se em frente ao dossel que ostentava suas armas. Dois leões coroados sustentavam um brasão, o emblema do
Fênix Coroado, com a divisa: “De minhas cinzas renascerei. ” Em volta de uma bandeira pregueada, a frase: “Deus, minha
causa e minha espada”. Christophe abriu um cofre pesado, oculto pelas borlas da tapeçaria, e tirou um punhado de moedas de
prata, cunhadas com suas iniciais. Depois, atirou ao chão, uma após a outra, várias coroas de ouro maciço, de vários
tamanhos. Uma delas alcançou a porta, rolando escadaria abaixo, com um estrépito que ressoou em todo o palácio. O rei
sentou-se no trono contemplando as velas amarelas de um candelabro, já completamente derretidas e prestes a se apagarem.
Maquinalmente, recitou o texto que encabeçava todos os atos públicos de seu governo: “Henri, pela graça de Deus e a Lei
Constitucional do Estado, Rei do Haiti, Soberano das Ilhas de Tortuga, Gonave e outras adjacentes, Destruidor da Tirania,
Regenerador e Benfeitor da Nação Haitiana, Criador de Suas Instituições Morais, Políticas e Bélicas, Primeiro Monarca
Coroado do Novo Mundo, Defensor da Fé, Fundador da Ordem Real e Militar de Saint-Henri, a todos presentes e por chegar
saúdo...”. Súbito, Christophe lembrou-se da Cidadela de La Ferrière, de sua fortaleza construída lá em cima, sobre as nuvens.
Mas nesse momento retumbaram os tambores dentro da noite. Chamando-se uns aos outros, respondendo-se de montanha
em montanha, subindo pelas praias, saindo das cavernas, correndo sob as árvores, descendo pelas ravinas e pelos leitos dos
rios, troavam os tambores radas, os tambores congoleses, os Tambores dos Grandes Pactos, todos os tambores do Vodu. Era
uma vasta percussão que avançava em torno de Sans-Souci, apertando o cerco. Um horizonte de trovões que se acercava. Uma
tormenta cujo centro era, naquele instante, um trono, sem arautos, sem maceiros. O rei voltou ao seu quarto e à sua janela. Já
tinham começado a incendiar suas hortas, suas granjas e seus canaviais. Agora, adiante dos tambores corria o fogo, saltando
de casa em casa, de cultivo em cultivo. As chamas invadiram o armazém de cereais, lançando lascas de madeira
incandescentes no depósito de ferragem. O vento norte levantava as palhas de milho em chamas, aproximando-as cada vez
mais do palácio sobre cujos terraços já caíam cinzas ardentes.
Henri Christophe tornou a pensar na Cidadela. Ultima Ratio Regum. Mas aquela fortaleza, única no mundo, era
demasiadamente grande para um homem só, e o monarca nunca pensara que um dia pudesse ficar só. O sangue dos touros que
aquelas paredes tinham bebido era um recurso infalível contra os brancos. Mas esse sangue jamais fora dirigido contra os
negros, que aos gritos — já bem perto — à frente das chamas em marcha, invocavam esses mesmos poderes para os quais
foram oferecidos os sacrifícios de sangue. Christophe, o reformador, quisera ignorar o Vodu, formando, à chicotada, uma casta
de senhores católicos. E agora compreendia que os verdadeiros traidores da sua causa, naquela noite, foram São Pedro com
sua chave, os capuchinhos de São Francisco, o negro São Benedito, a Virgem do semblante escuro com o manto azul, e os
Evangelistas, cujos livros fizera beijar em cada juramento de fidelidade. E todos os mártires para os quais mandava acender
velas com treze moedas de ouro. Depois de lançar uma mirada de ira sobre a cúpula branca da capela repleta de imagens que
lhe voltavam as costas, de signos que se tinham passado para o lado do inimigo, o rei pediu roupa limpa e perfumes. Fez sair
as princesas e vestia sua roupa de cerimônia mais imponente, cingindo em diagonal sobre o peito a larga faixa bicolor,
insígnia de sua investidura, prendendo-a na empunhadura da espada. Os tambores estavam já tão próximos que pareciam
percutir ali mesmo, atrás das grades das janelas que davam para o pátio de honra, ao pé da grande escadaria de pedra. Nesse
momento pegaram fogo os espelhos do palácio, as molduras de vidro, as molduras de cristal, o cristal dos copos e das
lanternas, os vasos, o nácar dos consolos. As chamas estavam em todas as partes sem que se pudesse saber quais eram
verdadeiras e quais eram seus reflexos. Todos os espelhos de Sans-Souci ardiam ao mesmo tempo. O edifício todo
desaparecera nesse fogo frio, que penetrava dentro da noite, transformando cada parede num poço de chamas encrespadas.
Quase não se ouviu o disparo, porque os tambores batiam já muito perto. A mão de Christophe soltou a arma. Tinha a
fronte aberta. O corpo ainda se levantou, ficando suspenso, como se pretendesse dar um passo, antes de cair, cara contra o
chão, com todas as suas condecorações. Os pajens surgiram no umbral da sala. O rei morria, de bruços em seu próprio sangue.
A PORTA ÚNICA

OS PAJENS africanos saíram correndo a toda pressa por uma porta traseira que dava para a montanha, levando aos ombros, à
moda primitiva, um varapau aparado a facão, do qual pendia uma rede esticada, cujo tecido rasgado deixava passar as esporas
do monarca. Atrás deles, olhando para trás assustadas, tropeçando na escuridão com as raízes dos flomboyants, vinham as
princesas Atenais e Amatista — calçadas para menor estorvo com as sandálias de suas criadas — e a rainha, que jogara fora
os sapatos logo ao quebrar o primeiro salto nas pedras do caminho. Solimán, o lacaio do rei, que antigamente fora massagista
de Paulina Bonaparte, vinha por último, com um fuzil a tiracolo e um podão na mão. À medida que penetravam na escuridão
das matas do alto da montanha, o incêndio abaixo parecia mais denso, mais compactas as chamas, embora já se extinguissem
nos limites dos pátios do palácio. Entretanto, num dos lados de Millot, o fogo incendiara os fardos de alfafa das cavalariças.
De longe se ouviam os relinchos que mais pareciam urros de crianças torturadas, quando uma parede de tábuas caía inteira
num redemoinho de fagulhas incandescentes, deixando passar um cavalo enlouquecido, com as crinas e os rabos chamuscados.
De repente, uma multidão de luzes começou a correr dentro do palácio. Era um baile de tochas que ia da cozinha ao sótão,
filtrando-se pelas janelas abertas, subindo as balaustradas superiores, correndo pelas goteiras, como se uma incrível nuvem de
pirilampos tivesse invadido os andares superiores. A pilhagem havia começado. Os pajens estugaram o passo, sabendo que
isso deteria por algum tempo os amotinados. Solimán travou o ferrolho do fuzil, colocando a culatra em baixo do sovaco.
Os fugitivos chegaram às imediações da Cidadela La Ferrière quase ao raiar do dia. A marcha era agora mais fatigante
por causa das encostas mais empinadas e da quantidade de canhões que jaziam no estreito caminho, sem terem chegado às suas
carretas, e que ali permaneceriam para sempre, até se desmancharem em ferrugem. No mar, já clareava o dia para os lados da
Ilha de Tortuga, quando as correntes da ponte levadiça correram com sinistro ruído sobre as pedras. Lentamente foram abertos
os batentes engastados da Porta Única. E o cadáver de Henri Christophe entrou em seu Escurial, botas à frente, sempre envolto
na rede transportada pelos pajens negros. Subiram com ele, escadas acima, cada vez mais pesado, encharcado pelas gotas
frias que caíam das falsas abóbadas. O toque da alvorada rompeu ao amanhecer, sendo respondido em todos os extremos da
fortaleza. Completamente coberta de cogumelos encarnados, ainda escura, a Cidadela emergia — cor de sangue nos altos e
ferrugenta na base — das nuvens cinzentas engrossadas pelos incêndios na Planície.
No meio do pátio das armas os fugitivos narravam sua grande desgraça ao governador da fortaleza. Logo em seguida, a
notícia baixou pelos respiradouros, pelos túneis e corredores, até as câmaras e dependências da fortaleza. Soldados
começaram a aparecer por todos os lados, empurrados por novos uniformes que saíam das escadas, desertando as baterias,
descendo das torres de vigia, abandonando os postos. Uma gritaria de júbilo ecoou no pátio da torre principal: os presos,
liberados por seus guardas, saíam dos calabouços, subindo com alegria desafiadora até o pátio onde se encontrava a família
real. Cada vez mais acossados pela multidão, os pajens de toucas desfeitas, a rainha descalça, as princesas timidamente
defendidas das mãos insolentes por Solimán, foram retrocedendo em direção a um montão de argamassa fresca destinada aos
trabalhos ainda não concluídos, no qual estavam cravadas várias pás recém-abandonadas pelos pedreiros. Vendo que a
situação se tornava difícil de controlar, o governador deu ordem que evacuassem o pátio. Seu comando provocou uma
gargalhada geral. Um preso, tão esfarrapado que o sexo lhe aparecia por fora do calção, esticou o dedo em direção ao
pescoço da rainha:
— Na terra dos brancos, quando morre um chefe, corta-se a cabeça da sua mulher.
O governador, compreendendo que o exemplo dado quase há trinta anos pelos idealistas da Revolução Francesa ainda se
achava presente à memória de seus homens, acreditou que tudo estava perdido. Mas nesse exato momento, o rumor de que a
companhia do corpo da guarda tinha escapado, rápida e dissimuladamente, ladeiras abaixo, mudou subitamente o desenrolar
dos acontecimentos. Correndo, os homens atropelavam-se pelas escadas e pelos túneis, a fim de chegarem primeiro à Grande
Porta da Cidadela. Aos pulos, resvalando, caindo, rolando, lançaram-se pelos estreitos caminhos da montanha, procurando
atalhos para chegarem o quanto antes a Sans-Souci. O exército de Henri Christophe dispersara-se numa avalancha. Pela
primeira vez a imensa construção ficou deserta, adquirindo, no vasto silêncio de seus salões, uma fúnebre solenidade de
sepultura real.
O governador entreabriu a rede para contemplar o rosto de Sua Majestade. Com uma cutilada cortou um dedo mínimo do
cadáver entregando-o à rainha, que o guardou no decote, sentindo-o descer pelo ventre com gélidas contorções de verme.
Depois, obedecendo a uma ordem, os pajens colocaram o cadáver sobre o montão de argamassa, no qual este começou a
afundar lentamente, de costas, como se fosse puxado por mãos viscosas. O cadáver ficara um pouco arqueado na subida, por
ter sido colocado na rede ainda morno. Por isso, desapareceram primeiro seu ventre e suas coxas. Os braços e as botas
continuaram flutuando, indecisos, na movediça mistura cinzenta. Em seguida, só ficou de fora o rosto, apoiado pelas saliências
do bicórneo, atravessado de orelha a orelha. Temendo que a argamassa endurecesse sem ter absorvido completamente a
cabeça, o governador apoiou a mão na testa do rei para afundá-la mais rapidamente, num gesto de quem toma a temperatura a
um doente. Por fim, a argamassa cobriu os olhos de Henri Christophe, que prosseguia agora sua lenta viagem descendente, nas
entranhas de uma umidade que se fazia menos envolvente.
Por fim o cadáver se deteve, integrado na pedra que o aprisionava. Depois de ter escolhido sua própria morte, Henri
Christophe ignoraria a podridão de sua carne, confundido com a própria massa da fortaleza, inscrito dentro de sua arquitetura,
incorporado na maciça base dos contrafortes. A montanha do Barrete do Bispo, toda ela, transformara-se no mausoléu do
primeiro rei do Haiti.
QUARTA PARTE
Medo dessas visões eu tive, mas depois
que vi estas outras mais medo lhes tenho.

CALDERÓN
NOITE DAS ESTÁTUAS

DEDILHANDO, com retinir de braceletes e miçangas, o teclado de um pianoforte recém-adquirido, Mademoiselle Atenais
acompanhava sua irmã Amatista, cuja voz um pouco áspera enriquecia de lânguidos transportes uma ária do Tancredo, de
Rossini. Usando um vestido inteiriço, branco, a cabeça envolta num lenço amarrado conforme o costume no Haiti, a Rainha
Maria Luísa bordava um tapete para o convento de Pisa, aborrecida com um gato que brincava com os novelos de linha. Desde
os trágicos dias da execução do delfim Victor, desde a partida de Port-au-Prince, providenciada por comerciantes ingleses,
antigos fornecedores da Família Real, as princesas conheciam pela primeira vez na Europa um verão de verdade. Roma vivia
de portas abertas sob um sol que rebrilhava em todos os mármores, dissipando o odor dos monges e fazendo gritar seus
pregões os vendedores de refresco. Os mil sinos da cidade repicavam com langor fora do comum, sob um céu sem nuvens, que
lembrava a Planície em janeiro. Enfim, cobertas de suor, felizes, vibrando novamente ao calor, Atenais e Amatista, descalças
no lajeado, as saias soltas, passavam os dias jogando dados, preparando limonadas, remexendo a estante dos romances em
moda, cujas capas, em estilo novo, eram adornadas com gravuras em cobre que mostravam cemitérios à meia-noite, lagos da
Escócia, sílfides em volta de um jovem caçador e donzelas que depositavam uma carta de amor dentro de uma cavidade oca
de um velho carvalho.
Também Solimán se sentia feliz naquela Roma estival. Quando apareceu pelas ruelas populares — úmidas de roupas
estendidas, sujas de repolhos, de restos de comida e borra de café — promovera verdadeiro alvoroço. Os lazzaroni mais
cegos com o golpe abriram os olhos para melhor verem o negro, deixando em suspenso os mandolins e os realejos. Outros
mendigos agitavam furiosamente seus cotos, mostrando todo um patrimônio de chagas e misérias, como se o negro fosse algum
embaixador de além-mar. Os garotos o seguiam agora por todos os lugares, chamando-o de Rei Baltazar e formando bandinhas
de flautas de taquara e berimbaus. Ofereciam-lhe copos de vinho nas tabernas. À sua passagem, os comerciantes saíam de suas
lojas, oferecendo-lhe um tomate ou um punhado de nozes. Fazia muito tempo que um perfil de homem, um negro verdadeiro,
não se destacava sobre uma fachada de Flamínio Ponzio ou um pórtico de Antonio Labacco. Por isso, pediam que lhes
contasse sua história, história que Solimán floreava com as maiores mentiras, fazendo-se passar por sobrinho de Henri
Christophe, que escapara milagrosamente à carnificina do Cabo, na noite em que o pelotão de execução teve de liquidar a
baioneta um dos filhos naturais do monarca, porque várias descargas de fuzil não conseguiram derrubá-lo. Os simplórios que
o escutavam não tinham uma ideia muito precisa do lugar onde haviam ocorrido esses feitos. Alguns pensavam em
Madagascar, na Pérsia ou na terra dos bérberes. Quando suava, sempre havia alguém que quisesse passar-lhe um lenço no
rosto para ver se largava tinta. Uma tarde o levaram, por brincadeira, a um daqueles teatros pequenos e fétidos onde se
cantavam óperas bufas. Ao terminar a música, final de uma peça de italianos na Argélia, empurraram Solimán para o palco.
Sua entrada imprevista causou tal alvoroço na plateia que o empresário da companhia o convidou a repetir a cena sempre que
lhe desse vontade. Agora, para cúmulo da boa sorte, era amante de uma das criadas que serviam no Palácio Borguese, uma
piamontesa reforçada que não gostava de homens de feições delicadas. Nos dias muito quentes, Solimán costumava dormir
longas sestas na relva do Fórum, onde sempre pastavam rebanhos de ovelhas. As ruínas projetavam acolhedora sombra sobre
o abundante pasto, e não era raro, cavando a terra, encontrar uma orelha de mármore, um adorno de pedra ou uma moeda
oxidada. Aquele lugar era escolhido às vezes por uma prostituta da rua para exercer seu ofício com algum seminarista. Mas
era visitado principalmente por pessoas estudiosas — clérigos de guarda-chuvas verdes, ingleses de mãos delicadas — que
frequentemente ficavam extasiadas ante uma coluna partida, tomando notas de claudicantes inscrições. À tardinha, o negro
entrava pela escada de serviço do Palácio Borguese e punha-se a beber garrafas de vinho em companhia da piamontesa. De
mais a mais, com os patrões ausentes, reinava a maior desordem na mansão. As lanternas da entrada estavam manchadas pelas
moscas, as librés todas sujas, os cocheiros sempre bêbedos, a carruagem precisando de verniz, e sabia-se que eram tantas as
teias de aranha na biblioteca que ninguém se atrevia a entrar ali, há muitos anos, para não sentir os abomináveis insetos
correrem pela nuca ou ficarem presos no corpinho. Não fora um jovem abade, sobrinho do príncipe, que morava num dos
aposentos superiores, a criadagem já estaria instalada nos aposentos do primeiro andar, dormindo nas antigas camas dos
cardeais.
Uma noite em que Solimán e a piamontesa tinham ficado a sós na cozinha — pelo adiantado da hora — o negro, bem
bêbedo, quis aventurar-se além das dependências destinadas aos empregados. Depois de seguirem por um longo corredor,
saíram num imenso pátio de mármore, azulado pela luz da Lua. Duas colunatas, sobrepostas, enquadravam o pátio, projetando,
à meia altura na parede, o contorno dos capiteis. Levantando e abaixando a lanterna — dessas utilizadas para andar na rua à
noite — a piamontesa foi revelando a Solimán um mundo de estátuas que povoavam uma das galerias laterais. Eram todas
estátuas de mulheres nuas, embora quase sempre cobertas por véus que uma brisa imaginária colocava onde a decência
reclamasse. Havia também muitos animais, pois algumas dessas senhoras aninhavam cisnes nos braços, ou enlaçavam o
pescoço de um touro, ou saltavam ao lado de galgos esguios, ou fugiam de homens com chifres na cabeça e patas de cabra, que
deveriam ter algum parentesco com o Diabo. Era um mundo todo branco, frio, imóvel, cujas sombras, porém, se animavam e
cresciam à luz da lanterna, como se todas aquelas criaturas, de olhos cheios de trevas, que olhavam sem ver, girassem em
torno dos visitantes da meia-noite. Com aquele dom que têm os bêbados de ver coisas com o rabo dos olhos, Solimán
acreditou que tivesse visto uma das estátuas abaixar um pouco o braço. Um tanto inquieto, arrastou a piamontesa para uma
escadaria que conduzia aos andares superiores. Agora eram as pinturas que pareciam saltar da parede, ganhando vida. De
repente, parecia que um jovem sorridente alçava uma cortina; um adolescente, coroado com um ramo de parreira, levava aos
lábios um flautim silencioso, ou selava a própria boca com o dedo indicador. Depois de atravessar uma galeria adornada de
espelhos sobre cujas molduras tinham pintado a óleo várias flores, a camareira, fazendo um gesto maroto, abriu uma estreita
porta de nogueira, abaixando a lanterna.
No fundo daquele pequeno gabinete havia somente uma estátua, de uma mulher completamente despida, recostada ao
leito, e que parecia oferecer uma maçã. Tentando recuperar-se da embriaguez do vinho, Solimán aproximou-se da estátua com
passos inseguros. A surpresa dissipara um pouco os vapores do vinho. Ele conhecia aquele rosto; e também o corpo, o corpo
todo lhe recordava alguém. Apalpou o mármore ansiosamente, o olfato e a vista auxiliando o fato, sentindo os seios. Passou a
palma da mão em torno do ventre, detendo o dedo mínimo no lugar do umbigo. Acariciou a suave reentrância dos rins como se
fosse revirar a estátua. Seus dedos buscaram a polpa das ancas, a maciez da barriga da perna, a firmeza dos peitos. Aquele
percorrer de mãos lhe refrescara a memória, trazendo imagens de lugares distantes. Ele conhecera em outros tempos aquele
contato. Com o mesmo movimento circular tinha aliviado a dor desse tornozelo que uma torção imobilizara. A matéria era
diferente, mas as formas eram as mesmas. Recordava agora as noites de medo, na Ilha de Tortuga, quando um general francês
agonizava atrás de uma porta fechada. Recordava aquela que fazia cocar sua cabeça para dormir. E, de repente, impulsionado
por uma imperiosa recordação física, Solimán começou a imitar os movimentos do massagista, apalpando ao longo dos
músculos, das saliências dos tendões, friccionando as costas de dentro para fora, tenteando os peitorais com o polegar,
percutindo aqui e ali. Mas, subitamente, a frialdade do mármore prendeu-lhe os pulsos como tenazes mortais. Um grito o
estrangulou, deixando-o imobilizado. O vinho lhe subiu à cabeça. Aquela estátua, tingida de amarelo pela luz da lanterna, era
o cadáver de Paulina Bonaparte. Um cadáver enrijecido há pouco, que há pouco palpitava, cujos olhos há pouco tinham vida,
um cadáver que talvez ainda fosse possível restituir à vida. Com um urro terrível, como se estivessem dilacerando seu peito, o
negro começou a clamar, a invocar, a chamar aos gritos na vastidão do Palácio Borguese. Seu aspecto tornara-se tão
selvagem, e tanto bateu com o taco das botas no chão, fazendo retumbar como um tambor a capela que ficava embaixo, que a
piamontesa, apavorada, fugiu escadas abaixo, deixando Solimán cara a cara com a Vênus de Canova.
O pátio ficou cheio de candeias e lanternas. Acordados pela voz que ressoava tão terrivelmente no segundo andar, os
lacaios e os cocheiros saíam de seus quartos em mangas de camisa, segurando as calças. A aldrava do portão ressoou com
eco, dando passagem aos gendarmes da ronda, que entraram em fila, seguidos de vários vizinhos alarmados. Ao ver os
espelhos cheios de luzes, o negro virou-se bruscamente. Aquelas luzes, aquelas pessoas aglomeradas no pátio entre as brancas
estátuas de mármore, a nítida silhueta dos bicórneos, os uniformes refletindo os bordados, a fria curvatura de um sabre
desembainhado, tudo isso lhe recordou, com um calafrio, num segundo, a noite de morte de Henri Christophe. Solimán
desencaixou uma janela com uma cadeirada e pulou para a rua. Os primeiros toques das matinas o encontraram tremendo de
febre — pois tinha contraído o impaludismo dos Pântanos Pontinos — invocando Papá Legba, para que abrisse seu caminho
de volta a São Domingos. Sentia na mão uma insuportável sensação de pesadelo. Parecia-lhe que tinha caído em transe sobre
o gesso de uma sepultura, como lá acontecia com certos inspirados, ao mesmo tempo temidos e reverenciados pelos
camponeses, porque se entendiam melhor do que ninguém com os Senhores dos Cemitérios. De nada adiantou que a Rainha
Maria Luísa tentasse acalmá-lo com um chá de ervas amargas, daquelas que recebia do Cabo, via Londres, por especial favor
do Presidente Boyer. Solimán sentia frio. Uma neblina inesperada umedecia os mármores de Roma. O verão esmorecia a cada
hora que passava. Procurando aliviar o criado, as princesas mandaram buscar o Dr. Antommarchi, que tinha sido médico de
Napoleão em Santa Helena, a quem alguns atribuíam grandes méritos profissionais, sobretudo como homeopata. As pílulas
receitadas, porém, não saíram da caixa. Virado de costas para todos, choramingando contra a parede de papel verde pintado
de flores, Solimán tentava alcançar um deus que se encontrava no distante Dahomey, nalguma umbrosa encruzilhada, com o
pênis encarnado descansando sobre uma muleta, que para isso levava consigo:

Papa Legba, l’ouvri barrié-a pou moin, agó yé,


Papa Legha, ouvri barrié-a pou moin, pou moin, passé.
A CASA REAL

TI NOEL fora um dos que tinham iniciado o saque ao palácio de Sans-Souci. Por isso mobiliara de tão estranha maneira a
antiga vivenda de Lenormand de Mezy. Esta, continuava sem um telhado possível pela falta de dois pontos de apoio onde
assentar uma viga ou uma travessa comprida. O facão do velho, porém, liberava outras pedras sem par, fazendo aparecer
pedaços dos alicerces, um peitoril de janela, três degraus, um pedaço de parede que ainda mostrava presa ao tijolo a parte
superior da cornija do antigo refeitório em estilo normando. Na noite em que a Planície fervilhara de homens, mulheres e
crianças que levavam à cabeça relógios de pêndulo, cadeiras, dosséis, girândolas, genuflexórios, lâmpadas e bacias, Ti Noel
tinha regressado várias vezes a Sans-Souci. Assim possuía uma mesa de Boulle em frente à chaminé coberta de palha que lhe
servia de alcova, indevassável agora, protegida por um biombo de Coromandel decorado com personagens já desbotados
sobre um fundo de ouro velho. Um peixe-lua embalsamado, presente da Real Sociedade Científica de Londres ao Príncipe
Victor, jazia sobre as últimas lajes do chão — quebradas pelas raízes e pelas ervas — ao lado de uma caixinha de música e
de um garrafão, cujo grosso vidro verde aprisionava borbulhas das cores do arco-íris. Também levara consigo uma boneca
vestida de pastora, uma poltrona com sua almofada atapetada e três volumes da Grande Enciclopédia, sobre os quais
costumava sentar-se para chupar cana-de-açúcar.
Porém o que fazia o velho mais feliz era a posse de uma casaca de Christophe, de seda verde, com punhos rendados de
cor salmão, que exibia a toda hora, realçando seu régio aspecto com um chapéu de palha trançada, achatado e dobrado em
forma de bicórneo, no qual colocava uma flor encarnada à guisa de insígnia. Podia-se vê-lo, às tardes, entre seus móveis
plantados ao ar livre, brincando com uma boneca que abria e fechava os olhos, ou dando corda na sua caixinha de música, que
repetia de sol a sol o mesmo ländler alemão. Ti Noel agora falava constantemente. Falava no meio dos caminhos, abrindo os
braços; falava com as lavadeiras, ajoelhadas, de seios nus, nos arroios arenosos; falava com as crianças que brincavam de
roda. Mas, sobretudo, falava quando sentava atrás de sua mesa, empunhando um galho de goiabeira, à guisa de cetro. À sua
mente retornavam confusas reminiscências das coisas contadas pelo maneta Mackandal, há tantos anos, que já não sabia dizer
quando havia sido. Naqueles dias começava a ter a certeza de que tinha uma missão a cumprir, embora nenhuma advertência,
nenhum sinal, tivesse lhe revelado a natureza dessa missão. Em todo o caso seria algo de grande, algo digno dos direitos
adquiridos por quem vivera tantos anos neste mundo e que fizera nascer, deste e do outro lado do mar, tantos filhos sem
memória, preocupados tão-somente com seus próprios filhos. E era evidente, ademais, que ia se viver grandes momentos.
Logo que Ti Noel aparecia pelos caminhos, as mulheres agitavam seus lenços claros, em sinal de reverência, como as palmas
que num domingo festejaram Jesus. Quando passava em frente a uma choupana, as velhas o convidavam a sentar, trazendo-lhe
um pouco de rum bem clarinho numa xícara, ou um charuto recém-enrolado. Levaram Ti Noel a uma batucada, e lá baixara
nele o rei da Angola, que pronunciou longo discurso cheio de profecias e promessas. Em seguida, nasceram rebanhos em suas
terras. Porque aquelas reses que pastavam entre suas ruínas eram, sem dúvida, presentes de seus súditos. Instalado em sua
poltrona, a casaca entreaberta, bem assentado o chapéu de palha e cocando lentamente a barriga, Ti Noel ditava ordens ao
vento. Mas, eram editais de um governo tranquilo, já que nenhuma tirania de Brancos ou de Negros parecia ameaçar sua
liberdade. O velho ia colocando coisas lindas nos espaços existentes entre os restos de paredes, nomeando qualquer
transeunte ministro, qualquer cortador de pasto general, outorgando baronatos, presenteando grinaldas, abençoando meninas,
impondo flores por serviços prestados. Assim nasceram a Ordem da Acácia, a Ordem do Cipó do Natal, a Ordem do Mar
Pacífico, a Ordem do Galã da Noite. Porém aquela que todos pediam era a Ordem do Girassol, a mais vistosa. E como o meio
lajeado que lhe servia de Sala de Audiências era muito apropriado para dançar, seu palácio costumava ficar repleto de
camponeses que traziam suas flautas de bambu, seus chachás e seus tambores. Encaixavam os archotes de lenha nas forquilhas,
e Ti Noel, mais orgulhoso que nunca na sua casaca verde, presidia a festa, sentado entre um Padre da Savana, representando a
igreja dos homens livres, e um velho veterano, daqueles que tinham derrotado Rochambeau em Vertières e que conservava seu
uniforme de campanha para as grandes solenidades, com seus azuis desbotados e seus vermelhos já da cor de morango, por
causa das chuvaradas que entravam em sua casa.
OS AGRIMENSORES

CERTA MANHÃ, porem, apareceram os agrimensores. É necessário ter visto os agrimensores em plena atividade para
compreender melhor o espanto que pode causar a presença desses seres que parecem insetos trabalhando. Os agrimensores
que tinham descido na Planície, vindos da longínqua Port-au-Prince, além das serras cobertas de nuvens, eram homens
calados, de pele muito clara, vestidos — era preciso reconhecer — de maneira bastante comum, e que desenrolavam longas
fitas sobre o solo, fincavam estacas, carregavam chumbadas, olhavam através de certos tubos e por qualquer motivo se
eriçavam de réguas e esquadros. Quando Ti Noel percebeu que esses personagens iam e vinham através de seus domínios,
falou-lhes com energia. Mas os agrimensores não lhe fizeram caso. Andavam de cá para lá, insolentemente, medindo tudo e
anotando coisas em seus livros cinzentos com grossos lápis de carpinteiro. O velho verificou com terror que falavam o idioma
dos franceses, aquela língua já esquecida por ele desde os tempos em que Lenormand de Mezy apostara sua posse num jogo de
cartas em Santiago de Cuba. Tratando-os de filhos de uma cadela, Ti Noel os intimou a retirarem-se, gritando de tal maneira
que um dos agrimensores terminou por agarrá-lo pelo cangote, tirando-o do campo de visão de sua objetiva com um forte
reguaço na barriga. O velho escondeu-se dentro da sua chaminé, só botando a cabeça por trás do biombo de Coromandel para
ladrar palavrões. No dia seguinte, porém, andando pela Planície em busca de alguma coisa para comer, observou que os
agrimensores estavam em toda parte e que uns mulatos a cavalo, usando camisas de colarinho aberto, cintos de seda e botas
militares, dirigiam a demarcação e os trabalhos de imensas lavouras, executados por centenas de negros sob guarda constante.
Muitos camponeses, montados em seus burricos, carregando galinhas e porcos, abandonavam suas choupanas, entre os gritos e
as lágrimas das mulheres, para refugiarem-se nas montanhas. Ti Noel soube por um fugitivo que as tarefas agrícolas eram
agora obrigatórias e que o chicote estava na mão dos Mulatos Republicanos, os novos donos da Planície do Norte.
Mackandal não previra o trabalho obrigatório. Tampouco Bouckman, o jamaicano. Isso de mulatos era novidade que não
poderia ter imaginado nem José Antônio Aponte, decapitado pelo Marquês de Someruelos, cuja rebelião era história
conhecida por Ti Noel desde seus dias de escravidão em Cuba. Seguramente que nem Henri Christophe teria suspeitado que as
terras de São Domingos iriam patrocinar essa aristocracia perplexa e cheia de dúvidas, essa casta de mestiços, que agora se
apoderava das antigas fazendas, dos privilégios e da autoridade. O velho levantou os olhos velados em direção à Cidadela de
La Ferrière, mas sua vista já não alcançava tão longe. A palavra de Henri Christophe se transformara em pedra e já não
morava entre nós. De sua pessoa prodigiosa só restava, em Roma, um dedo que flutuava num frasco de cristal de rocha cheio
de água vulnerária. E para melhor seguir aquele exemplo, a Rainha Maria Luísa, depois de levar suas filhas às águas de
Carlsbad, dispusera em testamento que seu pé direito fosse conservado em álcool pelos capuchinhos de Pisa, em uma capela
que fora construída graças à sua munificência. Por mais que pensasse, Ti Noel não via uma maneira de ajudar seus súditos,
novamente de cabeça baixa sob o chicote de alguém. O velho começava a desesperar ante esse infindável renovar de cadeias,
esse renascer de grilhões, essa proliferação de misérias, que os mais resignados terminavam por aceitar como prova da
inutilidade de qualquer rebeldia. Ti Noel temia que também a ele fizessem trabalhar na lavoura apesar de sua idade. E a
lembrança de Mackandal voltou a impor-se à sua memória. Já que a pele do homem, costumava trazer tanta calamidade, mais
valia livrar-se dela por algum tempo, acompanhando os acontecimentos na Planície sob uma aparência que chamasse menos a
atenção. Tomada essa decisão, Ti Noel surpreendeu-se da facilidade em transformar-se em animal quando se tinha poderes
para isso. Como prova, trepou numa árvore — quis ser uma ave — e num instante foi ave. Olhou para os agrimensores do alto
de um galho, bicando a polpa violácea de um caimito. No dia seguinte quis ser garanhão e foi garanhão. Teve, porém, de fugir
apressadamente de um mulato que queria pegá-lo a laço para castrá-lo com uma faca de cozinha. Como abelha, logo se cansou
da monótona geometria da colmeia de cera. Transformado em formiga — má ideia sua — foi obrigado a carregar pesadas
cargas, por intermináveis caminhos, sob a vigilância de uns cabeçudos que muito lhe recordavam os feitores de Lenormand de
Mezy, os guardas de Christophe e os mulatos de agora. Às vezes, os cascos de um cavalo destroçavam uma coluna de
trabalhadores matando centenas de formigas. Terminado o incidente, os cabeçudos voltavam a colocar em ordem a fileira, o
caminho era restabelecido, e tudo prosseguia como antes, no mais penoso vaivém. Como Ti Noel era um disfarçado, que de
modo algum se considerava solidário à Espécie, refugiou-se, sozinho, embaixo de sua mesa, que foi, àquela noite, seu abrigo
contra uma chuvinha persistente que espalhou pelos campos um palhento aroma de esparto molhado.
AGNUS DEI

O DIA SERIA quente, com nuvens baixas. Mal começava a evaporar-se o orvalho da noite nas teias de aranha, quando um
grande alvoroço baixou dos céus sobre as terras de Ti Noel. Correndo e tropeçando ao caírem, chegavam os gansos da antiga
criação da Sans-Souci — salvos da pilhagem porque os negros não gostavam de sua carne — e que tinham vivido à vontade,
durante todo esse tempo, nos vales da montanha. O velho os acolheu com grandes demonstrações de afeto, feliz com a visita,
pois conhecia como poucos a inteligência e a alegria dos gansos, já que observara a vida exemplar dessas aves quando
Monsieur Lenormand de Mezy tentara, antigamente, uma aclimatação ingrata. Como não eram criaturas afeitas ao calor, as
fêmeas punham somente cinco ovos cada dois anos. Essa postura, porém, dava motivo a uma série de ritos cujo cerimonial era
transmitido de geração em geração. Os preâmbulos nupciais realizavam-se nas margens pouco profundas e em presença de
todo o clã de gansas e gansos. Um jovem macho unia-se à sua companheira para toda a vida, cobrindo-a sob um coro de
grasnidos de júbilo, acompanhado por uma coreografia giratória em torno da fêmea, patadas e complicados arabescos com o
pescoço. Em seguida, todo o clã procedia à acomodação do ninho. Durante a incubação, a desposada era protegida pelos
machos, alerta durante a noite, embora colocassem o olho redondo embaixo das asas. Quando um perigo ameaçava os
desajeitados filhotes, cobertos de pelugem cor de canário, o ganso mais velho dirigia as cargas de peito e bico, que não
vacilavam ante um mastim, um cavaleiro ou uma carroça. Os gansos eram gente de ordem, de princípios e bem organizados, e
não admitiam a submissão a indivíduos da mesma espécie. O princípio de autoridade personificado pelo Ganso Chefe era
apenas o necessário para manter o clã em ordem, à maneira do rei ou do capataz das antigas assembleias africanas. Cansado já
de licantropias azaradas, Ti Noel fez uso de seus poderes extraordinários a fim de se transformar em ganso e conviver com as
aves que tinham-se estabelecido em seus domínios.
Mas quando quis ocupar um lugar no clã, viu-se hostilizado, ao lado do potreiro, por longos pescoços armados de bicos
bordados de dentes, que o mantinham à distância, erguendo-se uma muralha de plumas brancas em torno das fêmeas
indiferentes. Ti Noel tratou então de ser discreto, de não impor demasiadamente sua presença e de aprovar o que os outros
diziam. Só encontrou desprezo e encolher de asas. De nada adiantou que revelasse às fêmeas o esconderijo de certos agriões
de raízes muito tenras. Os rabos cinzentos agitavam-se com desgosto, e os olhos amarelos miravam com altiva desconfiança
— o que era reiterado pelo olho que ficava do outro lado da cabeça. O clã manifestava-se agora como uma comunidade
aristocrática fechada a qualquer indivíduo de outra casta. O Ganso Chefe de Sans-Souci não queria o menor contato com o
Ganso Chefe de Dondón. Se acaso se encontrassem frente à frente, teria rebentado uma guerra. Ti Noel compreendeu então que
embora insistisse durante anos, jamais teria acesso às funções e ritos do clã. Deram a entender claramente a Ti Noel que não
lhe bastava ser ganso para que acreditasse que todos os gansos fossem iguais. Nenhum ganso conhecido havia cantado no
bailado do dia de suas núpcias. Ninguém entre os vivos o tinha visto nascer. Ti Noel apresentava-se ante quatro gloriosas
gerações sem o menor documento de limpeza de seu sangue. Em suma, era um pária.
Ti Noel compreendeu vagamente que aquele repúdio dos gansos era um castigo por sua covardia. Mackandal disfarçara-
se de animal, durante anos, para servir aos homens, e não para abandoná-los. Naquele momento, de volta à sua condição
humana, o velho teve um supremo instante de lucidez. Viveu, no espaço de tempo de uma batida de coração, os momentos
capitais de sua vida. Via de novo os heróis que lhe tinham revelado a força e a prosperidade de seus longínquos antepassados
africanos, fazendo-o acreditar num futuro melhor. Sentiu-se velho, velho de séculos incontáveis. Um cansaço cósmico, de
planeta que o tempo fizera deserto de pedras, caía sobre seus ombros descarnados por tantos golpes, suores e revoltas. Ti
Noel gastara sua herança, e apesar de ter chegado à extrema miséria, deixava a mesma herança recebida. Era um corpo de
carne já vivida. E compreendia, agora, que o homem nunca sabe por quem sofre e espera. Sofre, espera e trabalha para
pessoas que nunca conhecerá e que, por sua vez, sofrerão e esperarão e trabalharão por outros que também não serão felizes,
pois o homem deseja sempre uma felicidade muito além da porção que lhe foi outorgada. Mas a grandeza do homem consiste
precisamente em querer melhorar a si mesmo, a impor-se Tarefas. No Reino dos Céus não há grandeza a conquistar, pois lá
toda a hierarquia já está estabelecida, a incógnita solucionada, o viver sem fim, a impossibilidade do sacrifico, do repouso,
do deleite. Por isso, esmagado pelos sofrimentos e pelas Tarefas, belo na sua miséria, capaz de amar em meio às calamidades,
o homem poderá encontrar sua grandeza, sua máxima medida, no Reino deste Mundo.
Ti Noel subiu sobre sua mesa, castigando o móvel com seus pés calejados. Para os lados da Cidade do Cabo o céu
estava negro, de um negror de fumaça de incêndio, como naquela noite em que tinham cantado todos os búzios da montanha e
da costa. O velho lançou seu grito de guerra aos novos senhores, dando ordem a seus súditos que atacassem as obras
insolentes dos mulatos investidos no poder. E naquele instante um poderoso vento verde, vindo do oceano, caiu sobre a
Planície do Norte, enfiando-se pelo vale de Dondón, rugindo furiosamente. E enquanto no alto do Barrete do Bispo bramiam
os touros degolados, a poltrona, o biombo, os volumes da Grande Enciclopédia, a caixinha de música, a boneca e o peixe-lua
voaram pelos ares de um só golpe, do desmoronamento das últimas ruínas da antiga fazenda. Todas as árvores reclinaram as
copas na direção do Sul, desgarrando suas raízes da terra. Durante toda a noite, o mar, transformado em chuva, deixou rastros
de sal nos flancos das montanhas.
E desde então ninguém mais soube de Ti Noel e nem de sua casaca de seda verde, com punhos rendados, cor de salmão
salvo talvez aquele abutre molhado que esperava o Sol com as asas abertas: cruz de penas que terminou por encolher-se e
mergulhar nas profundezas do Bois Caïman.

Caracas, 16 de março de 1948


Digitalizado por
Renato Sant’Ana
em dezembro de 2007.

Você também pode gostar