Você está na página 1de 3

UM MITO PARA A FOBIA

Por: Carlos Bein, Psicólogo (CRP. 06/58135-4)


carlosbein@uol.com.br
Do site: http://mentehumana.com.br/carlosbein/artigo1.htm

A fobia é uma neurose e, na psicologia junguiana, a neurose tem uma função


de reorganização psíquica. A neurose "é uma tentativa de auto-cura, bem como
qualquer doença física também o é (...); é uma tentativa do sistema psíquico
auto-regulador de restaurar o equilíbrio, que em nada difere da função dos
sonhos, sendo apenas mais drástica e pressionadora" (Jung, CW 18/1, § 157).
Se os arquétipos são os componentes universais da psique, podemos dizer que
neles está (ou que eles geram) esse potencial auto-regulador. Neste sentido,
James Hillman utiliza-se de uma citação de Jung a fim de considerar a
psicopatologia na sua dimensão arquetípica para "reconhecer os próprios
Deuses como patologizados, a infirmitas do arquétipo" (Hillman, 1997, p.11):
"Os deuses tornam-se doenças; Zeus não mais governa o Olimpo, mas, antes, o
plexo solar, e produz curiosos espécimes para o consultório médico" (Jung
apud Hillman, 1997, p. 69).
Daí Hillman conclui que a doença, enquanto arquetípica, é universal e
necessária: "Ao pressupor que o necessário é o que ocorre entre os Deuses,
isto é, que os mitos descrevem padrões necessários, concluímos que as suas
patologizações são necessárias, assim como as nossas são necessárias à
mimese das deles. Uma vez que a infirmitas deles é essencial para a sua
configuração plena, segue-se que nossas patologias são necessárias à nossa
completude" (Hillman, 1997, pp. 12-13).
Conseqüentemente, podemos considerar que o sintoma fóbico tem um motivo para
se fazer presente, e este motivo será, em última análise, a completude da
pessoa que dele padece, ou seja, a individuação. Em outras palavras, esse
potencial auto-regulador do arquétipo (acima indicado) opera através da
própria fobia (similia similibus curantur).
Decorre do anterior que "os mitos e suas figuras podem ser examinados como
padrões de patologia" (Hillman, 1995, p. 69).
Tratar-se-ia então de encontrar um mito que expresse o padrão universal da
fobia. Não achei nenhum material entre os autores junguianos consultados que
relacionasse diretamente a fobia com um mito. Estive, então, pesquisando
diversos livros de mitologia à procura de um tal mito. Nesta pesquisa,
deparei-me com o deus grego Fobos e, tendo a palavra portuguesa "fobia" sua
origem etimológica no nome desse deus, achei interessante aprofundar-me no
estudo desse personagem.

Fobos é filho de Ares e Afrodite. Junto com o seu irmão Deimos, ele
acompanhava seu pai, deus da guerra, no campo de batalha. Na breve pesquisa
bibliográfica realizada, Fobos é traduzido por Medo (De Souza Brandão, 1989;
Kerenyi, 1994; Lefevre, 1976) e também por Receio (Commelin, 1941). Ambas
palavras, quase sinônimas, expressam o aspecto de temor indissociável da
fobia, e ambas podem ser entendidas como a causa da conduta de esquiva, que
é própria da fobia. Este último ficando registrado na seguinte citação:
"Filho de Marte e Vênus. Personificação do Medo: acompanhava seu pai nos
campos de batalha, incitando os combatentes a fugir". (Lefevre, 1976).
Acontece que, segundo os autores consultados, não existe um mito próprio
para Fobos; talvez existiu e, no transcorrer dos séculos, foi esquecido.
Será que o fato deste mito existir e ser conhecido nos ajudaria a
compreender melhor os transtornos fóbicos? Ou talvez o nome de fobia foi
dado simplesmente pelo fato da pessoa fóbica sentir medo e fugir perante o
estímulo fóbico, como se este estivesse acompanhado por Fobos? Será que isto
é suficiente para expressar o padrão da fobia?

Nos resta ainda uma terceira opção, que seria a de entender Fobos em função
do encontro amoroso entre Ares e Afrodite, do qual dão conta diferentes
autores clássicos. Esta figura poderia estar então expressando um possível
resultado do encontro entre Ares e Afrodite, amor e guerra, masculino e
feminino... Certamente, isso poderia fazer algum sentido em alguns casos
atendidos na clínica. Ainda assim, eu não ousaria afirmar que este mito
esteja expressando o padrão universal da fobia. Ficaria para futuras
pesquisas ver a possibilidade de generalizá-lo para todos os casos de fobia.
Por não ser assim, espero que o leitor possa ao menos se distrair com a
história que vai lhe ser contada.

Homero (1), Ovídio (2) e Hesíodo (3) denunciaram os amores de Ares e


Afrodite (ou Marte e Vênus, nas versões latinas). Estes deuses se
apaixonaram um pelo outro e tinham seus encontros secretos no palácio de
Hefesto, marido de Afrodite. Ninguém sabia disso, e Ares colocou Alectrion,
seu favorito, como sentinela; mas, tendo este adormecido, Febo, o Sol, rival
de Ares frente à bela deusa, reconheceu os culpados e foi prevenir Hefesto.
O feio esposo de Afrodite, o ferreiro, "o mais engenhoso de todos os filhos
do céu" (Homero apud De Souza Brandão, p.45), construiu uma rede invisível
onde aprisionou sua esposa em adultério flagrante com Ares, deixando-os
expostos por vários dias ao riso e, por assim dizer, ao desejo dos demais
deuses. Assim, quando Hermes é questionado por Apolo, em gargalhadas, se
gostaria de estar preso à rede ao lado de Afrodite, respondeu-lhe: "Se eu
pudesse, deixar-me-ia de bom grado acorrentar com correntes três vezes mais
fortes! E todos vós, deuses e deusas, poderíeis vir e olhar para mim - tão
alegremente me deitaria eu ao lado da áurea Afrodite" (Kerenyi, p. 68-69).
Posídon suplicou a Hefesto que libertasse Ares e ele o fez, de má vontade.
Ares castigou Alectrion transformando-o em galo, que, desde então, procura
reparar seu erro, anunciando com o canto o nascimento do astro do dia.

O encontro entre Ares e Afrodite expressa uma polaridade simbólica entre


Ares, deus da guerra, fator masculino, ativo, auto-afirmativo, dinâmico e
tudo o que pudermos pensar em relação a isso, e Afrodite, deusa do amor,
fator feminino, receptivo, passivo, acolhedor, não auto-afirmativo, mas
reconhecedor do outro. Não é de se estranhar que não se trate de uma relação
permanente, assentada, mas um encontro bem tumultuado, visto que se trata de
uma expressão bem extremada desta polaridade. O contato entre dois pólos tão
extremos produz uma grande tensão, mas, ao mesmo tempo e em proporção direta
a essa tensão, há uma enorme possibilidade de fertilização.

Desses encontros esporádicos nasceram três filhos. Podemos facilmente


entender que tamanho conflito engendrasse os já mencionados Fobos (o medo) e
Deimos (o terror). Mas houve também uma filha, Hermione ou Harmonia, "a que
une" (Kerenyi, p.67); igualmente, segundo algumas versões, o próprio Eros (o
Amor) e Ânteros (a resposta ao amor) foram filhos de essa união (Cícero, De
Natura Deorum, em Kerenyi, p.67). Há, portanto, uma possibilidade de
entendimento e integração entre os opostos representados por Ares e
Afrodite. Em outras palavras, se a fobia é fruto de um encontro conflituoso
entre determinados aspectos do masculino e do feminino, talvez exista também
a possibilidade de harmonia entre eles; talvez, portanto, seja possível
transformar a fobia em um encontro harmônico entre dois aspectos
conflituosos da pessoa. Lembremo-nos da opinião de Jung (acima citada),
segundo a qual "a neurose é uma tentativa de auto-cura e de restaurar o
equilíbrio psíquico" (Idem). Se nesta citação trocássemos a palavra
"equilíbrio" por "harmonia", em nada mudaria o seu sentido.
Deste modo, pode fazer sentido olhar para a fobia como uma doença que abre a
possibilidade à pessoa que dela padece de contatar com diferentes
manifestações do masculino e do feminino, assim como a de trocar em harmonia
o conflito existente entre elas. Podemos voltar a Hillman para concluir este
capítulo: "(...) é principalmente através dos ferimentos na vida humana que
os deuses entram (e não através de eventos pronunciadamente sagrados ou
místicos), porque a patologia é a maneira mais palpável de testemunhar os
poderes que estão além do controle do ego e mesmo da insuficiência da
perspectiva egóica". (Hillman, 1997, p. 71).
Notas:
(1) - A Odisséia, segundo Kerenyi, 1994 e Commelin, 1941.
(2) - Commelin, 1941.
(3) - Kerenyi - 1994.

-----------------------------------------------------------------
Bibliografia:
Commelin, P. (1941) Nova mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: F.
Briguet & Cia. Editores.
Hillman, James. (1995) Psicologia Arquetípica. 9ª ed. São Paulo: Cultrix.
_____________ (1997) Encarando os Deuses. 12ª ed. São Paulo:
Cultrix/Pensamento.
Jung, C.G. (1999) Fundamentos de Psicologia Analítica - Obras Completas de
Jung, Volume XVIII/1. Petrópolis: Vozes.
Kerenyi, Karl. (1998) Os deuses gregos. 10ª ed. São Paulo: Cultrix.
Lefevre, Silvia; Simões, Maria Isabel; Alvarenga, José Roberto. (1976)
Dicionário de mitologia greco-romana. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural.
Souza Brandço; Junito De. (1989) Mitologia grega - vol. II. 3ª
ed.Petrópolis: Vozes. p. 40.