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Módulo 1 – Somos água desde sempre...

Apresentação ............................................................................................................................................................................................... 3

Objetivos ........................................................................................................................................................................................................ 5

Aula 1 – Planeta água: dos confins do universo à manutenção da vida na Terra .................................................... 6

1.1 O elemento água inunda o Universo e conecta mundos ................................................................................................. 6

1.2 O Planeta Azul: Terra, água, vida ..............................................................................................................................................10

1.3 Origens da água na Terra ............................................................................................................................................................11

1.4 Ciclo Hidrológico e serviços ecossistêmicos........................................................................................................................13

1.5 A Bacia hidrográfica em uma perspectiva ecossistêmica ...............................................................................................14

Aula 2 - No mesmo barco: presença e interferência humana ...........................................................................................19

2.1 Somos húmus, somos água, somos vida...............................................................................................................................19

2.2 Sem água não há vida, sabemos. E o contrário, haveria água na Terra sem a vida? ...........................................21

2.3 A reverência à água desde os primórdios das civilizações ............................................................................................24

2.4 Mãe Terra, teia da vida: Gaia e Pachamama.........................................................................................................................24

2.5 Noosfera: a esfera do pensamento humano .......................................................................................................................30

Aula 3 – Crise global da água e a transição para a sustentabilidade ...........................................................................32

3.1 O alerta está dado... .......................................................................................................................................................................36

3.2 A racionalidade que sustenta a insustentabilidade de um modelo............................................................................38

Aula 4 – Imaginário, sentido de pertencimento e cultura de cuidado com a água ..............................................40

4.1 A gestão territorial numa perspectiva de relação com a água .....................................................................................41

4.2 Água para além de recursos hídricos na construção simbólica da bacia hidrográfica .......................................42

4.3 A cultura do espaço e a laboriosa tessitura do pertencimento às territorialidades hídricas ............................42

4.4 A lógica das corporações e as discrepâncias socioambientais .....................................................................................44

4.5 Escala de valores e sabedoria: estamos no mesmo barco, as responsabilidades são comuns, porém
diferenciadas ...........................................................................................................................................................................................45

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Apresentação
Olá! Seja muito bem-vindo(a) ao curso Água e Educação Ambiental.
Antes de começarmos nossa caminhada, é importante analisarmos a forma como estruturamos o curso,
visando a uma aprendizagem produtiva.
Vamos lá?
O curso será composto por três módulos:
O Primeiro Módulo do curso destina-se a uma abordagem sistêmica e transdisciplinar da água no
Planeta, sua conexão com a vida e com o cosmo, incorporando aspectos existenciais relacionados à presença
humana, instigando reflexões acerca da interferência no ciclo hidrológico, no equilíbrio ecossistêmico e na
resiliência do meio ambiente.
Traz à tona algumas das implicações e dos desafios para a sustentação da vida nos territórios hídricos
e, por extensão, no globo terrestre, ressaltando questões relativas à crise global da água e sua incidência em
várias escalas.
Refletir sobre o papel da humanidade, da coletividade e de cada um de nós no Planeta Azul, assim
como no nosso pedaço, nos nossos espaços de identidade, de inserção territorial (bacia ou microbacia) e de
atuação pode ser uma chave importante para ampliar o olhar, ressignificar a vida e mudar atitudes na relação
com a água, com o território e com a sociedade.
O estímulo à percepção sistêmica da água no Planeta, nas perspectivas interdisciplinar e intercultural,
é um ponto de partida de um percurso de aprendizagem compatível com o desenvolvimento da Educação
Ambiental e da participação social na gestão de águas.
Para que seja possível a reflexão de que é necessária a coletividade no processo de se pensar a água
globalmente, apresentamos as aulas contidas neste módulo:
Aula 1 - Planeta água: dos confins do universo à manutenção da vida na terra.
Aula 2 - No mesmo barco: presença e interferência humana.
Aula 3 - A crise global da água e a transição para a sustentabilidade.
Aula 4 - Identidades, imaginário, sentido de pertencimento e cultura de cuidado com a água.

Educação ambiental e gestão de águas: aspectos legais, institucionais e integração de políticas


como resposta à crise socioambiental.
O Segundo Módulo busca estimular a percepção acerca do potencial da Educação Ambiental e da
complementaridade entre suas vertentes na qualificação dos processos dialógicos e participativos das políticas
hídricas, valorizando o seu papel no enfrentamento da crise socioambiental e na construção de uma governança
democrática e sustentável da água.
Também valoriza o imaginário e reconhece as várias formas de pensar o mundo, enfatizando a
importância do diálogo entre os diferentes saberes sobre a água, o ambiente, a sociedade e a própria vida, a
fim de superar as injustiças sociais e ambientais globais.
As aulas abaixo o ajudarão a enxergar a Educação Ambiental como resposta à realidade da crise
socioambiental. São elas:

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Aula 1 - Políticas Públicas de Educação Ambiental e de Recursos Hídricos/Água: interfaces e potência
de ação integrada.
Aula 2 - A Educação Ambiental como resposta à crise hídrica e ambiental e como estratégia de
construção de novos paradigmas.
Aula 3 - EA no plural: um caldeirão de possibilidades e complementaridades.
Aula 4 - Ecologia de saberes, abordagens, metodologias e arranjos participativos para a EA na gestão
de águas.
Aula 5 - Distintos olhares e saberes sobre as identidades e as múltiplas dimensões da água.

Educação Ambiental e participação social: itinerários para uma governança democrática e


sustentável da água.
Este Terceiro Módulo do curso traz à tona elementos sociopolíticos da Teoria Democrática e do
pensamento crítico que se vinculam à Educação Ambiental e podem potencializar a governança democrática e
sustentável da água, alinhando a atuação local, da microbacia às escalas mais amplas das territorialidades
hídricas.
Também são abordadas experiências exitosas de cuidado com a água, bem como importantes
referências estratégicas e metodológicas da Educação Ambiental, a fim de instrumentalizar os educandos para
a aplicabilidade nas políticas hídricas nos seus respectivos campos de atuação.
Assim, este módulo visa estimular a percepção acerca da dimensão pedagógica da participação e do
potencial da Educação Ambiental na qualificação dos processos dialógicos e participativos das políticas hídricas,
valorizando o seu papel no enfrentamento da crise ambiental e na promoção de uma governança democrática
e sustentável da água, enfatizando a importância da ação coletiva, da atuação em rede e da cooperação.
Para tal processo, você contará com as subdivisões a seguir, que estruturam o módulo a partir das
seguintes aulas:
Aula 1 - Dimensão pedagógica da participação e o potencial formativo da EA numa perspectiva
humanista e democratizante.
Aula 2 - A incidência da EA na qualidade da ação política e a relação indissociável entre Democracia e
Sustentabilidade no mundo contemporâneo.
Aula 3 - A água e as tensões socioambientais da sustentabilidade.
Aula 4 - Realidade hídrica e desafios da governança no Brasil.
Aula 5 - Cultura política, relações de poder e seus reflexos nas políticas hídricas.
Aula 6 - Governança da água: arranjos da Política de Recursos Hídricos como instâncias da democracia
participativa e espaços para o aprendizado social.
Aula 7 - Tecnocracia, democracia e os desafios do compartilhamento do poder.
Aula 8 - Do conflito à cooperação: articulação e engajamento para uma incidência mais efetiva no
cuidado com a água.
Aula 9 - Algumas experiências e referências metodológicas para a aprendizagem social e a cooperação.

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Muito bem! Agora que você já está por dentro de como é composto o nosso curso, ressaltarmos que o
objetivo geral é que você compreenda a interface e a atuação em Água e Educação Ambiental.
Desejamos ótimos estudos a você!

Olá! É uma satisfação imensa ter você aqui, na primeira etapa da nossa jornada.
Na Apresentação, vimos que este módulo tem como princípio a transdisciplinaridade da água no
Planeta, sua conexão com a vida e com o cosmo, incorporando aspectos existenciais relacionados à presença
humana.
Para tanto, você será instigado a realizar reflexões acerca da interferência no ciclo hidrológico, no
equilíbrio ecossistêmico e na resiliência do meio ambiente.
Mostraremos, então, os objetivos estabelecidos para o estudo do Módulo 1, a fim de que eles sirvam
como referência para sua aprendizagem.
Vamos conhecê-los?

Objetivos
Após o estudo deste módulo, esperamos que você seja capaz de:
Adquirir uma percepção sistêmica da água no Planeta, apontando e instigando reflexões sobre
a conexão da água com a vida e com a manutenção dos ecossistemas;
Analisar a presença humana, a interferência nos processos naturalmente estabelecidos e suas
implicações;
Perceber a crise global da água e a sua incidência em várias escalas;
Compreender a importância estratégica da água no alcance da sustentabilidade;
Identificar os territórios de água no Brasil (distribuição, balanço hídrico, recortes territoriais), as
identidades, o imaginário, os sentidos e escalas de pertencimento.

Muito bem! Após esta pequena contextualização, já podemos dar início à primeira aula.
Pronto(a) para começar?

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Aula 1 – Planeta água: dos confins do universo à manutenção da
vida na Terra

Compreender a água é compreender o cosmo, as maravilhas da natureza, e a própria vida.”


(Masaru Emoto em “As mensagens escondidas na Água”)

Para ajudá-lo(a) a entender mais profundamente a proposta da Aula 1 de nosso primeiro módulo, veja
o “De olho na onda”:

Assista à belíssima interpretação realizada pela cantora Maria Gadú da canção “Amor de índio”, composta
por Beto Guedes. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kS8iOUT1gIE
Atente-se para a letra e as lindas imagens contidas no vídeo.
Perceba que somos parte da natureza e interagimos com ela. O viver humano é similar ao viver do planeta,
com suas estações e fases. Isso demonstra a inter-relação do ser humano com o ambiente (natureza). “Tudo
que move é sagrado”!

1.1 O elemento água inunda o Universo e conecta mundos


A água é um elemento químico literalmente universal, cujas moléculas são formadas por dois átomos
de hidrogênio e um de oxigênio (fórmula: H2O), elementos que figuram entre os mais abundantes do Universo.
Presente não apenas em nosso Sistema Solar, mas em todo o cosmo, a água ocorre principalmente
sob as formas de gelo ou vapor, sendo encontrada em diversos corpos celestes como asteroides, meteoritos,
cometas, nuvens moleculares interestelares, estrelas e também em outros planetas do nosso sistema solar e
seus satélites.
De acordo com Ellen Stofan*, cientista-chefe da NASA, a presença da água no cosmo cria pontes entre
mundos que aparentemente não possuem relação entre si. Conforme a NASA:
* A cientista-chefe da Administração Nacional do Espaço e da Aeronáutica (NASA), Doutora Ellen Stofan, nasceu em 24 de fevereiro de
1961 e atende como a principal conselheira do administrador da NASA, Charles Bolden, nos programas de ciência, planejamento e
investimento da Agência. Anteriormente, atuava como vice-presidente da Proxemy Research em Laytonsville, Maryland, e como

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professora honorária no departamento de Ciências da Terra da Universidade de Londres. Disponível em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Ellen_Stofan

[...] o céu noturno pode estar cheio de exoplanetas* formados por processos similares aos do nosso mundo
natal, onde ondas suaves banham as praias de mares alienígenas”.
Disponível em: A Fascinante história da água no Sistema Solar e no Universo. Revista Galileu, 13/04/2015.
*Um exoplaneta (ou planeta extrassolar) é um planeta que orbita uma estrela que não seja o Sol e, dessa forma, pertence a um
sistema planetário distinto do nosso. Até 27 de fevereiro de 2016, havia 2.084 exoplanetas detectados. Disponível em:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Exoplaneta

Aqui bem perto, no nosso Sistema Solar, tudo indica que há água fluindo em abundância, ainda que
sob a forma de gelo. É o que acontece, por exemplo, nas luas de Saturno e de Júpiter. Os cientistas, inclusive,
não descartam a hipótese da existência de organismos vivos nesses gelados mares subterrâneos
interplanetários.

Legenda: Lua de Júpiter.


Créditos: Alex Bernardini.

Nas imagens abaixo, registramos uma curiosidade: a incrível semelhança entre as formas naturais da
água em estado sólido (gelo) na superfície da Lua Europa de Júpiter (lado esquerdo) e os traçados das
“tesourinhas”* urbanas de Brasília** (lado direito), projetadas pelo arquiteto urbanista Lúcio Costa, que
desenhou o Plano Piloto da Capital Federal.
*Segundo Pires (2009), as tesourinhas brasilienses correspondem à “[...] interconexão entre os eixinhos, com forma de uma tesoura,
que dá acesso às superquadras”. Conforme os versos de Carla Duarte: “Lucio Costa deveria estar iluminado com áureas infantis ao
projetar as tesourinhas”.
**A cidade de Brasília-DF será a sede do 8º Fórum Mundial da Água, em março de 2018. O Fórum Mundial da Água é o maior evento
global sobre o tema. São esperados 30 mil representantes de mais de 100 países. Na opinião do senador Roberto Muniz (PP-BA), uma
das principais discussões do evento deve ser a crise hídrica que afeta o Brasil e diversas partes do mundo. Disponível em:
http://www12.senado.leg.br/noticias/audios/2016/12/brasilia-vai-sediar-8o-forum-mundial-da-agua-em-2018

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Legenda: Superfície da Lua Europa de Júpiter. Legenda: Tesourinhas de Brasília vistas do céu.
Créditos: Dr. Robert Pappalardo (NASA) / Youtube. Créditos: Bento Viana.

Um outro paralelo curioso pode ser traçado entre a Lua Europa de Júpiter e o fascinante Lago Vostok*,
localizado na Antártida, na área de influência de uma estação russa que compreende uma massa de água
subglacial com volume de aproximadamente 5 mil km3 de água doce, protegida da atmosfera por uma espessura
de 4 km de gelo antártico, onde cientistas encontraram milhares de micro-organismos vivos, alguns de formas
inimagináveis, que vivem sob alta pressão e na mais completa escuridão, sem nenhuma incidência de luz.
*O Lago Vostok é o maior dos, aproximadamente, 150 lagos sob a superfície do gelo continental da Antártida. Foi descoberto sob a estação russa
de mesmo nome.Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lago_Vostok

Encontramos muito mais complexidade do que se pensava. Realmente mostra a tenacidade da vida, e como
os organismos podem sobreviver em lugares onde, há um par de dezenas de anos, pensávamos que não
poderia existir nada.”
(Scott Rogers*)
Disponível em: Milhares de espécies vivem no mais extremo dos ambientes. Diário de Notícias, 08/07/2013.
*Scott Rogers é biólogo da Universidade Bowling Green State e liderou a análise laboratorial do material biológico encontrado no
Lago Vostok. Milhares de espécies vivem no mais extremo dos ambientes.

Legenda: Localização do Lago Vostok.


Créditos: Miguel Artime / Flickr.

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Nesse sentido, não se descarta a existência de micro-organismos vivos, portanto, de vida, em ambientes
aquáticos como os das luas de Júpiter e de Saturno, assim como de outros corpos celestes do Universo.
Sabemos agora da importância do Lago Vostok para o conhecimento do fato de que há, sim, a
possibilidade da existência de vida em outros cantos do Universo que não a nossa Terra. Que tal, então, nos
aprofundarmos mais na estrutura deste canto tão remoto quanto fascinante do planeta?
Vamos lá?

Legenda: O sistema subglacial do Lago Vostok


Créditos: adaptada de http://www.astropt.org/2012/02/09/cientistas-russos-atingem-a-superficie-do-lago-vostok/

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1.2 O Planeta Azul: Terra, água, vida

“A Terra é azul, como é maravilhosa, é incrível!”

(Yuri Gagarin*).
*A famosa frase do cosmonauta russo Yuri Gagarin expressa a perplexidade de quem, pela primeira vez, observou o nosso planeta do
espaço em um voo orbital a bordo da nave Vostok 1, no dia 12 de abril de 1961. O nome da apoteótica nave conduzida por Gagarin é
homenagem ao enigmático Lago Vostok da Antártida.

O azul observado por Gagarin, que virou notícia em todo o mundo, deve-se principalmente à interação
da luz solar com a atmosfera terrestre, cujo espectro de cor azulada é captado e refletido pelas extensas águas
dos oceanos que envolvem a superfície de nossa esfera planetária. Visto do espaço, fica mais fácil de entender
o quão aquático é o nosso planeta. Se fôssemos renomeá-lo após a imagem vista por Gagarin, talvez
pudéssemos chamá-lo de Planeta Água.
O nosso Planeta Água, justamente com essa denominação, recebeu uma belíssima homenagem de
um dos maiores ícones da Música Popular Brasileira da atualidade.

Assista à interpretação de “Planeta Água” de Guilherme Arantes e aproveite para refletir acerca desta
preciosidade que possuímos: A NOSSA ÁGUA!
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oPwnAq2xMUg

Após este momento de reflexão ocasionado pela junção da boa música e das lindas imagens
visualizadas, descubra em nosso “Mergulhando” as informações adicionais que separamos para você!

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É possível observar imagens orbitais do nosso Planeta azul, transmitidas ao vivo pela Estação Espacial
Internacional (EEI), em inglês International Space Station (ISS). A ISS completa 16 voltas por dia em torno
da Terra, em uma órbita baixa de aproximadamente 400 km de altitude e velocidade média de 27.600
km/h. Com seus primeiros componentes lançados em 1998, a Estação Espacial passou a ser tripulada a
partir do ano 2000. Em 2006, ela recebeu o primeiro astronauta brasileiro, Marcos César Pontes. As
imagens da Terra transmitidas em tempo real pela ISS podem ser acompanhadas nos links a seguir:
http://eol.jsc.nasa.gov/HDEV/ ou http://www.ustream.tv/channel/live-iss-stream

Fontes: NASA e Site Astronomia.

1.3 Origens da água na Terra


Formada há aproximadamente 4,5 bilhões de anos, a Terra acumulou água oriunda de moléculas que
vieram encapsuladas desde os confins do cosmos como ventos solares, chuvas de asteroides e meteoros, assim
como do seu próprio processo de sucessivos resfriamento e aquecimento, condensando vapor que se precipitou
na forma de chuva, formando os oceanos, tornando-se, assim, um planeta propício à vida.

O vídeo abaixo narra sobre as origens da água em nosso planeta, a partir do texto da professora Ewine van
Dishoeck, astroquímica do Observatório de Leiden, na Holanda.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pIgG2G3ojWw

Até onde o nosso conhecimento alcança, a Terra se tornou o único planeta do Universo no qual
sabemos que existe vida, ao menos a vida na forma em que a conhecemos. Única substância encontrada em
todos os três estados da matéria: líquido*, sólido** e gasoso***, a água é o elemento chave da propagação e
da evolução da vida no planeta. Estima-se que a vida surgiu nos oceanos cerca de 1 bilhão de anos após a
formação da Terra.
*Estado físico da água que caracteriza os oceanos, mares, lagos, rios, aquíferos e lençóis subterrâneos.
**Estado físico da água que caracteriza as geleiras.
***Estado físico da água que caracteriza a atmosfera, as nuvens e os “rios voadores”.

Esse amálgama de água em diferentes estados forma um complexo sistema como: a hidrosfera, que
se conecta com a atmosfera; a litosfera (a superfície do planeta e o subsolo) e a biosfera (ecossistemas),

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assegurando as condições para a existência da vida na Terra, além de contribuir para o equilíbrio climático, a
fertilização do solo e inúmeras outras funções essenciais.

Legenda: Superfície da Lua Europa de Júpiter. Legenda: Imagem 2 - Camadas da Terra


Créditos: adaptada de Créditos: adaptada de http://csjd-
http://www.imagui.com/a/imagenes-de-las-capas-de-la- a.blogspot.com.br/2013/03/sabendo-mais-atmosfera-litosfera-
tierra-para-ninos-iyEaoGzay e.html

Que tal se, agora que já entendemos um pouco do processo do surgimento da água em nosso planeta,
pararmos para analisar um pouco a respeito de como ocorre sua distribuição?
Vamos adiante!

Legenda: Distribuição da Água no Mundo


Créditos: adaptada de http://arquivos.ana.gov.br/institucional/sge/CEDOC/Catalogo/2007/ZMap_AAguaNoBrasilENoMundo.pdf

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1.4 Ciclo Hidrológico e serviços ecossistêmicos
O fluxo da água na hidrosfera em interação contínua com os demais subsistemas planetários
(atmosfera, litosfera, biosfera) estabelece uma dinâmica de trocas e renovação permanente chamada de Ciclo
Hidrológico.
A dinâmica da água no ciclo hidrológico engloba vários processos de transferência e circulação.
Precipitação: caracteriza-se pelas chuvas.
Infiltração: caracteriza-se pelo fluxo de água que se infiltra no solo e subsolo, alimentando os
lençóis e aquíferos subterrâneos.
Escoamento: caracteriza-se pela vertente do topo das bacias hidrográficas, geralmente em
direção aos oceanos.
Evaporação: caracteriza-se pelo deslocamento da superfície, no estado líquido, para a
atmosfera, transformando-se no estado gasoso.
Evapotranspiração: caracteriza-se pela evaporação da água absorvida pelas plantas.
Condensação: caracteriza-se pela transformação do vapor em água líquida.

Agora que já compreendemos os processos pelos quais passa a nossa água, atente-se para as dicas
que vêm por aí.

Assista ao vídeo da Agência Nacional de Águas (ANA) sobre o Ciclo Hidrológico.


Acesse: http://youtu.be/vW5-xrV3Bq4
Você também pode conferir uma e-Aula da Universidade de São Paulo (USP) sobre o Ciclo da Água, na qual é
mostrado, por exemplo, o tempo de trânsito do fluxo da água nas geleiras, nos aquíferos, nos rios e lagos etc.
Acesse: http://eaulas.usp.br/portal/video.action?idItem=399

A Hidrologia é a ciência que estuda o ciclo hidrológico. A Agência Nacional de Águas (ANA), em parceria com
a Fundação Parque Tecnológico da Itaipu Binacional (FPTI/ITAIPU), desenvolveu o Projeto: “Água,
conhecimento para a gestão”, o qual oferece 34 cursos de capacitação gratuitos nas modalidades
semipresencial e totalmente a distância. Um desses cursos é o de Hidrologia Básica, que possibilita a
compreensão sobre “[...] os fundamentos básicos do ciclo hidrológico, descrevendo as principais
características do monitoramento das variáveis de interesse, com vistas a melhor gestão dos recursos
hídricos”.

Confira em: https://www.aguaegestao.com.br/br/curso/367

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Todos esses processos do ciclo hidrológico, associados às demais dinâmicas biogeoquímicas do
planeta, principalmente dos ecossistemas, propiciam a geração de vários serviços ambientais e
ecossistêmicos, como a regulação do clima, a reciclagem de nutrientes, a diluição de efluentes, a produção de
energia, abastecimento humano e saneamento etc.

[...] a principal diferença entre serviços ambientais e serviços ecossistêmicos é que, no primeiro caso, os
benefícios gerados estão associados a ações de manejo do homem nos sistemas naturais ou
agroecossistemas; já os serviços ecossistêmicos refletem apenas os benefícios diretos e indiretos providos
pelo funcionamento dos ecossistemas, sem a interferência humana.”
(TÔSTO et al., 2012).

No portal “O Eco”*, consta a informação de que a Avaliação Ecossistêmica do Milênio da ONU,


publicada em 2005, criou uma classificação para os serviços ambientais, dividindo-os da seguinte forma:
*Saiba mais sobre serviços ambientais e serviços ecossistêmicos acessando o site: http://www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/28158-o-que-
sao-servicos-ambientais/

Os Serviços de Provisão caracterizam os produtos obtidos dos ecossistemas. Exemplos:


alimentos, água doce, fibras, produtos químicos e madeira.
Os Serviços de Regulação são benefícios obtidos a partir de processos naturais que regulam
as condições ambientais. Exemplos: absorção de CO² pela fotossíntese das florestas; controle
do clima, polinização de plantas, controle de doenças e pragas.
Os Serviços Culturais são os benefícios intangíveis obtidos, de natureza recreativa,
educacional, religiosa ou estético-paisagística.
Os Serviços de Suporte contribuem para a produção de outros serviços ecossistêmicos:
ciclagem de nutrientes, formação do solo e dispersão de sementes.

1.5 A Bacia hidrográfica em uma perspectiva ecossistêmica


Pela dinâmica do ciclo hidrológico é possível perceber a complexidade de interações que o fluxo da
água estabelece, bem como os efeitos sinérgicos de qualquer intervenção nesse processo. Como vivemos
essencialmente na superfície terrestre, em uma condição de inegável interdependência em relação à água, ao
solo e aos ecossistemas, torna-se importante a compreensão do que vem a ser uma bacia hidrográfica.

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Legenda: Bacia Hidrográfica
Crédito: adaptada de http://santa-catarina-historia-geografia.blogspot.com.br/2015/09/as-aguas-de-santa-catarina.html

Estabelecida pela Lei de Águas* como sendo a unidade territorial para a gestão das águas, que, muitas
vezes, transcende as fronteiras político-administrativas dos municípios, dos estados e até dos países, a bacia
hidrográfica pode ser entendida como uma área da superfície terrestre delimitada a partir da dinâmica do ciclo
hidrológico pelo sistema interligado de escoamento da água que é drenada na superfície do solo.
*A Lei Federal nº 9.433/97, também conhecida como Lei de Águas, institui, dentre outras coisas, a Política Nacional de Recursos Hídricos. Para
mais informações, acesse: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9433.htm

A bacia hidrográfica é o espaço geográfico delimitado pelo respectivo divisor de águas cujo escoamento
superficial converge para seu interior sendo captado pela rede de drenagem que lhe concerne".
(Dicionário de Termos Técnicos - Agência Nacional de Águas).

A bacia hidrográfica é delimitada pelos pontos mais altos do relevo (divisores de águas) dos quais a
água das chuvas escorre para os pontos mais baixos formando cursos d’água secundários que desembocam
geralmente num rio principal.

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Legenda: Divisor de águas de bacias hidrográficas.
Crédito: adaptada de Zoneamento Ecológico Econômico do Distrito Federal – SEMA/DF.

Maria do Socorro Rodrigues (2006, p. 112, grifo nosso) chama atenção para a importância da
compreensão sistêmica da bacia hidrográfica, implicando em considerá-la como: “[...] uma unidade
integrada por água, solo, flora, fauna, formando uma totalidade não só de elementos naturais como
sociais e intimamente relacionados de forma dinâmica”.

Na perspectiva ecossistêmica, que valoriza as interações ecológicas no contexto de uma bacia


hidrográfica, Rodrigues (2006) ressalta as funções hidrológicas relevantes da vegetação na preservação e
recuperação dos mananciais, por exemplo:

[...] na contenção de ribanceiras, diminuição e filtração do escoamento superficial, servem de


barreiras para carreamento de sedimentos para o sistema fluvial, meio de interceptação e
absorção de radiação solar, controle e fluxo de vazão do rio”, contribuindo ainda para a “[...]
formação de microclimas, habitats, áreas de abrigo e reprodução, corredores de migração da
fauna terrestre e entrada de suprimento orgânico.

Rodrigues (2006) ainda destaca dados relevantes sobre a relação de manutenção da mata ciliar com
o solo, conforme Jorge (1969 apud BRANCO; ROCHA, 1977): “[...] em média um terreno de um hectare sem
vegetação perde 16 toneladas de solo por ano que é depositado no leito de riachos e rios. A mesma área com
mata ciliar deposita apenas 1 kg de sedimento por ano no leito do rio”.

Na gestão da bacia hidrográfica, para além das questões sociais, políticas e econômicas que serão
abordadas em tópicos posteriores, é fundamental dimensionar a importância não apenas das massas de águas
superficiais, mas também de sua interconexão com o solo, com os ecossistemas, com as águas subterrâneas

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(valorizando, por exemplo, as áreas de recarga de aquíferos), com a atmosfera e as suas correntes de águas (rios
voadores).

Em uma palestra TEDx*, o cientista Antonio Donato Nobre faz uma analogia da água da Terra com
o sangue no corpo humano. Nobre narra de maneira extremamente didática as interações indissociáveis,
sistêmicas e inteligentes entre o ciclo da água, as florestas, os ecossistemas e a atmosfera.
* TED é uma organização sem fins lucrativos dedicada ao lema “ideias que merecem ser compartilhadas”. Começou há 26 anos como uma
conferência na Califórnia, e, desde então, o TED tem crescido para apoiar ideias que mudam o mundo por meio de múltiplas iniciativas. Ficou
curioso(a) e interessado(a)? Acesse e descubra mais: http://www.tedxdantealighierischool.com.br/o-que-e-tedtedx/

Nobre (grifo nosso) diz que: “[...] a arquitetura do invisível (da natureza) humilha os melhores
arquitetos do mundo”. O cientista demonstra isso analisando a borboleta Morpho e seus cristais fotônicos
como exemplo de invisível competência tecnológica.

Nobre também alerta para o enorme risco que corremos no cenário de alterações climáticas.

Assista ao vídeo “Há um rio acima de nós”, palestra de Antonio Donato Nobre (TEDx Amazônia).
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=01jYiXbpnoE

Para entender um pouco mais sobre a relação entre água, atmosfera e clima, confira a seguir os
materiais que selecionamos para você. Bom proveito!

Assista ao vídeo “Rios Voadores”, de Gérard Moss.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GHNM7kAa4G8

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Legenda: Os Rios Voadores
Crédito: adaptada de http://www.petrobras.com/pt/magazine/post/navegar-no-ar.htm

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Agora que entendemos um pouco mais da água enquanto elemento universal, é chegada a hora de
trazer o assunto para a sua realidade.
Dessa forma, tendo em vista tudo que estudamos nesta aula, reflita criticamente sobre as perguntas a
seguir.

Que tipo de gestão de águas você acha mais efetiva:

a) Focada apenas na calha do rio principal da bacia; ou

b) Considerando a bacia como um todo integrado e sistêmico com as repercussões sinérgicas no solo, nos
ecossistemas e no clima?

Que tipo de gestão é mais comum na sua região?

Muito bem! Até agora, nós comentamos sobre a água no Planeta Terra, tocando em questões como o
ciclo, os serviços ecossistêmicos e a bacia hidrográfica.
Na próxima aula, comentaremos mais a respeito da importância da água para o ser humano, ou seja, a
presença e a interferência humana quando se trata da nossa água.
Então, até lá!

Aula 2 - No mesmo barco: presença e interferência humana


Olá! Seja bem-vindo(a) à Aula 2 de nosso primeiro módulo.
Antes de iniciarmos o assunto que será tratado nesta aula, que tal retomarmos um pouco sobre o que
foi visto na aula anterior e comentarmos sobre o que está por vir?
Vamos lá?
Na Aula 1 abordamos a água enquanto item universal para a manutenção dos ecossistemas.
Comentamos sobre sua origem, seu ciclo e seus recursos.
Agora, na Aula 2, trataremos da importância da água para a manutenção da vida, enfatizando para tal,
por exemplo, a própria composição do ser humano. Traremos aspectos histórico-culturais e comentaremos
sobre a água do ponto de vista de antigas civilizações.
Pronto(a) para iniciar? Então, bons estudos!

2.1 Somos húmus, somos água, somos vida


Essencial à vida, a água é um elemento dotado de especial significado para a presença humana neste
planeta azul, pois, ela a tudo conecta e envolve, interligando-nos com o sentido primordial de nossa existência.
Leonardo Boff (2009) recorda que a água está presente, inclusive, na palavra que nos define: “[...]
homem, que vem de húmus, terra fecunda, significa que nós somos parte e parcela da Terra”.

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A nossa corporeidade é essencialmente hídrica. Somos água ambulante, seres amalgamados pela água,
símbolo de fecundidade, fertilidade, renovação e purificação que a tudo permeia e rodeia, em indissociável
relação.
Presente nos oceanos, rios, lagos, geleiras, aquíferos e mesmo na atmosfera, a água envolve toda a
nossa morada planetária, nossa Gaia, Pachamama, Mãe Terra.

Mantenedora dos ecossistemas, elo de ligação entre o mundo físico e espiritual, entre a natureza e a
cultura, a água é também portadora de informação e representa elemento sagrado para povos e culturas.
De acordo com Vera Lessa Catalão (2006): “[...] no período de gestação dos seres, a água é o elemento
essencial que recebe e registra a inscrição multifacetada do código da vida”.

“[...] somos água desde sempre, somos iguais na água, pois somos 70% água, assim como as plantas e os
animais. Por isso, somos ‘irmãos’ com eles e com o conjunto da natureza como parte dela”.
(VARGAS, 2017).

O fluxo vivo das moléculas de água é uma manifestação da presença do cosmo em nosso organismo:

Legenda: Percentual de água no nosso corpo


Crédito: adaptada de http://www.lucema.com.br/curiosidade-a-agua-no-nosso-corpo/

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Legenda: Como a água beneficia o nosso organismo.
Crédito: adaptada de http://xunego.com/que-hace-el-agua-por-ti/

O fluxo das águas é inexorável, correr faz parte da sua natureza. Ela aceita ser tocada mas nunca detida.
Diante dos obstáculos ela os contorna e flui. [...] A água que corre e o tempo que passa são percebidos
como sinônimos do fluxo universal.
(CATALÃO, 2006)

2.2 Sem água não há vida, sabemos. E o contrário, haveria água na Terra sem a
vida?
Ante o postulado já consagrado de que não há vida sem água, o cientista brasileiro Antônio Donato
Nobre (2012) lança uma paradoxal conjectura: haveria água no nosso planeta sem a vida? E ao buscar decifrar
tal inquietação, ele próprio acaba por assentir e explicar que a existência da fotossíntese e dos ecossistemas
combinados a outros fatores-chave, tais como o magnetismo, o equilíbrio favorável dos gases da atmosfera e a
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existência ímpar do granito (a Terra é o único planeta conhecido onde ele ocorre), são todos cruciais para que
a água presente na Terra não escape, não vá embora, não se desprenda do planeta para se perder pelos confins
do Universo.
A Terra tem um núcleo metálico, cujo centro sólido tem 1.500 quilômetros de diâmetro, uma bola
de ferro e níquel, um cristal gigante. Ao seu redor tem mais outro tanto de ferro e níquel no
estado líquido. Esse segundo componente gira em torno do primeiro, em uma rotação mais
rápida do que a da Terra - esse é o princípio do dínamo -, gerando um poderoso campo
magnético. Nem Vênus, nem Marte possuem esse tipo de campo magnético. As erosivas
partículas do vento solar, que bombardeiam a Terra em alta velocidade e com alta energia, seriam
responsáveis pela “erosão” da atmosfera, não fosse pelo campo magnético. Tais partículas
quando entram no campo magnético são desviadas da Terra como por efeito de um escudo
defletor. Uma ou outra vez, quando o vento solar chega a penetrar na atmosfera pelas regiões
polares, seu choque com os gases gera o show de luzes nas auroras. Se não existisse campo
magnético, o bombardeamento dissociaria a água, liberando o hidrogênio que, por ser muito
leve, se perderia para o espaço, porque o campo gravitacional da Terra não o seguraria sem sua
associação com o mais pesado oxigênio na água. Com a perda do hidrogênio, desapareceria a
água da Terra. Foi o que supostamente aconteceu em Vênus e em Marte. Assim, a peculiar
geologia da Terra é a nossa mãe. Se não fosse pelo campo magnético não haveria vida na Terra,
pois ele, entre outros efeitos, protegeu a permanência da água [...] Gelo e vapor, os dois extremos,
são condições fisicamente estáveis. Água líquida na superfície, entretanto, é uma condição
totalmente instável e transiente, como atesta a ausência de planetas conhecidos fora da Terra,
com água líquida na superfície. Como explicar, então, que por 4,4 bilhões de anos, desde o tempo
Hadeano, a Terra tenha mantido essas três fases da água em convivência pacífica, levando-se em
conta todas as glaciações e aquecimentos que ocorreram na sua história? A vida é um fenômeno
novo em termos cósmicos, e só ela tem capacidade de explicar esse fenômeno de estabilidade
da água líquida na Terra. [...] não existe uma explicação puramente geofísica, sem a dimensão
biológica, que possa elucidar essas mudanças espetaculares de concentração de gases na
atmosfera e, muito menos, explicar a estabilidade da água líquida na superfície do planeta. [...] a
biosfera tem coletivamente a mesma capacidade do corpo humano, de regular o clima através
de ajustes finos e reativos às perturbações nas concentrações de gases e outros efeitos. [...] o
único planeta conhecido que tem granito é a Terra. Os outros têm basalto e outras pedras pesadas
de origem magmática, mas granito é uma pedra diferenciada porque o silício e o alumínio nos
seus minerais são elementos leves. Uma massa leve forma assim a base dos continentes, que
então, como jangadas, flutuam na litosfera sobre o magma do manto superior. Se não fosse assim,
a cada 200, 300 milhões de anos, a circulação convectiva do magma no manto superior enterraria
todos os continentes, que seriam então derretidos inteiramente. Essa reciclagem dos continentes
somente não acontece por causa do granito. E segundo essa teoria, o granito só se forma porque
a Terra teve e tem oxigênio livre na atmosfera, e a única fonte de oxigênio conhecida, volumosa
o suficiente, é a fotossíntese das plantas e algas. Assim, a vida parece ter sido a responsável
também pelo surgimento e pela persistência dos continentes, o que permitiu a vida terrestre.”
(NOBRE, 2012, p. 190).

Nobre (2012) conclui, dessa maneira, que a conservação e a recuperação dos ecossistemas são
fundamentais para que tenhamos a água disponível na sua condição mais essencial, que é a de
mantenedora máxima da vida, dizendo que a biodiversidade é central para a regulação dos estados da água e
do clima.

De acordo com o imunologista francês Jacques Benveniste, “a água é capaz de guardar e veicular uma
informação molecular” (CATALÃO, 2006, p. 89).

Vários estudiosos preconizam que a água, elemento existente na mesma quantidade há bilhões de anos
na Terra, possui memória, sendo capaz de reter e veicular informações moleculares.

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Assista ao filme legendado do original , "Water has Memory“, do canal Oasis HD.
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=lcXaDgIXRTw

O cientista Antônio Donato Nobre (2012, p. 195, grifo nosso) ressalta que a acumulação de informação
e a organização da matéria são propriedades fundamentais da vida.

Essa espetacular capacidade de reter a informação fez com que um processo que foi
inventado há 3,8 bilhões de anos, a fotossíntese, continuasse a se repetir até o presente.
Com tantos cataclismos e intempéries, como nunca se perdeu essa informação? Outro exemplo
próximo: quando corremos e acaba o oxigênio nos músculos, formamos ácido lático, que
produzimos porque as nossas células nunca se esqueceram de outro processo menos eficiente, a
fermentação, a mesma que a levedura usa para produzir a cerveja, o vinho e o etanol. Antes do
advento do oxigênio livre, os micróbios faziam a fermentação. Assim que acaba o oxigênio, o
nosso organismo sabe fazer o mesmo, algo que era feito desde os primórdios do funcionamento
da Terra. Sendo a vida celular frágil e transiente, não deixa de ser extraordinária essa persistente
memória bioquímica de bilhões de anos.

Antes de adentrarmos o próximo item de nossa aula, que tal aproveitarmos o assunto sobre a memória
da água e analisarmos algumas questões?

É hora de refletir!

Pensando na evolução das espécies e nas especiais propriedades moleculares da água, você identifica
outros exemplos relacionados à memória bioquímica da vida na Terra?

Já imaginou o quão complexa é a Teia da Vida a partir dessa perspectiva?

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2.3 A reverência à água desde os primórdios das civilizações
Desde os primórdios das civilizações, as comunidades humanas, das aldeias e vilas até as megalópoles
de hoje, procuram se estabelecer próximas dos mananciais hídricos (rios, lagos, aquíferos etc.).
A reverência à água é, portanto, uma atitude ancestral dos povos em reconhecimento à sua
essencialidade para a vida. Para os indígenas, por exemplo, a água é considerada o “sangue da Terra”.

Tales de Mileto, um dos sete sábios da Grécia Antiga, já no ano 600 a.C. considerava a água como a
origem de todas as coisas. Ele e seus seguidores defendiam a existência de um “princípio único” para a
natureza primordial, afirmando que “o mundo evoluiu da água por processos naturais”, aproximadamente
2.460 anos antes de Charles Darwin.

Na Renascença, Leonardo da Vinci, considerado o maior gênio da história devido à multiplicidade de


talentos para as ciências e as artes, referia-se à água como “o veículo da natureza” (vetturale di natura), o
sangue do planeta, o nutriente de todos os seres vivos.

Fonte: Ciranda das Águas (DUALIBI, 2011).

Além da percepção acerca da indissociável relação entre água e vida, os povos originários e
civilizações antigas também intuíam a respeito da complexidade e da exuberância da vida na Terra,
considerando o sistema planetário como o nosso grande anfitrião, como a mãe de todos os seres.

2.4 Mãe Terra, teia da vida: Gaia e Pachamama


É muito importante que resgatemos a percepção ancestral do planeta como uma morada comum, ou
até mais do que isso, como um organismo vivo, pulsante, que é anfitrião e hospitaleiro, ou além, como uma
Mãe, Mãe Terra, Gaia, Pachamama, que nos acolhe e mantém como seus filhos, como integrantes de uma
extraordinária comunidade de vida da qual somos parte.

Na mitologia grega, Gaia era a deusa da Terra e mãe de todos os seres vivos. Para os povos andinos
da América do Sul, a Pachamama corresponde a uma visão sagrada da Terra, entendida como a grande diretora
e sustentadora da vida, símbolo da maternidade e da fertilidade (Mãe Terra).

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As novas constituições ecológicas da Bolívia (2009) e do Equador (2008), fundamentadas na cosmovisão
andina da Pachamama (Mãe Terra) e nos princípios do “Bem Viver”, da interculturalidade e da
plurinacionalidade, representam a vanguarda mundial em termos ecológicos, pois consideram a natureza
(a água, os animais, as florestas) não como mero objeto a ser explorado, mas como titular ou sujeito de
direitos, alicerçando um novo paradigma.

Leonardo Boff explica: “Nas tradições indígenas de Abya Yala, nome para o nosso Continente
Indioamericano, em vez de “viver melhor” se fala em “bem viver”. Essa categoria entrou nas
constituições da Bolívia e do Equador como o objetivo social a ser perseguido pelo Estado e por toda a
sociedade.

O “viver melhor” supõe uma ética do progresso ilimitado e nos incita a uma competição com os outros
para criar mais e mais condições para “viver melhor”. Entretanto, para que alguns pudessem “viver
melhor”, milhões e milhões têm e tiveram que “viver mal”. É a contradição capitalista. Contrariamente, o
“bem viver” visa a uma ética da suficiência para toda a comunidade e não apenas para o indivíduo. O
“bem viver” supõe uma visão holística e integradora do ser humano inserido na grande comunidade
terrenal que inclui, além do ser humano, o ar, a água, os solos, as montanhas, as árvores e os animais
(todos merecem existir e conviver conosco, constituindo a grande democracia comunitária e cósmica); é
estar em profunda comunhão com a Pachamama (Terra), com as energias do universo e com Deus”.

Fontes:

BOFF, L. O novo constitucionalismo ecológico na América Latina. 2013.

Disponível em: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/Constitucionalismo-ecologico-na-


America-Latina/3/27997

BOFF. L. O viver melhor ou o bem viver? 2009.

Disponível em: http://www.leonardoboff.com/site/vista/2009/mar27.htm

A percepção presente na cosmovisão dos povos originários e de antigas civilizações, no sentido de


que a Terra é um todo dinâmico maior do que apenas a soma das partes (as partes são interagentes com o
todo), tem encontrado aderência em estudos e hipóteses da ciência contemporânea.
A perspectiva holística, que entende a Terra como um complexo sistema biogeoquímico, emerge na
importante obra do cientista britânico James Lovelock*.
*Em seus estudos científicos sobre o comportamento sistêmico do nosso planeta, James Lovelock encontrou evidências que o permitiram sustentar
a hipótese de que a Terra é um superorganismo vivo, registrada em sua famosa obra “Gaia: um novo olhar sobre a vida na Terra”, de 1979.

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Para Lovelock, a Terra é (ARAIA, 2013): “[...] uma espécie de simbiose (uma associação biológica
favorável a todas as partes que a compõem) gigante entre todos os seres vivos e o meio mineral, um
superorganismo que se conserva no estado mais favorável possível à vida por meio de mecanismos de retroação,
ou seja, o efeito agindo sobre a causa.”

Na hipótese de James Lovelock, conforme explica a bióloga Paula Lauredo Moraes:


O planeta Terra é um imenso organismo vivo, capaz de obter energia para seu funcionamento,
regular seu clima e temperatura, eliminar seus detritos e combater suas próprias doenças, ou seja,
assim como os outros seres vivos, um organismo capaz de se autorregular. De acordo com a
hipótese, os organismos bióticos controlam os organismos abióticos, de forma que a Terra se
mantém em equilíbrio e em condições propícias de sustentar a vida. A hipótese Gaia sugere
também que os seres vivos são capazes de modificar o ambiente em que vivem, tornando-o mais
adequado para sua sobrevivência. Dessa forma, a Terra seria um planeta cuja vida controlaria a
manutenção da própria vida por meio de mecanismos de feedback e de interações diversas.

A teoria biogeoquímica de Lovelock pressupõe que a matéria viva existente na Terra modifica as
condições do planeta sendo capaz de adaptar o ambiente às suas necessidades (homeostase ecológica).

Agora que você entende a proposta da hipótese Gaia, de Lovelock, é hora de trazermos alguns
questionamentos a fim de que você possa pensar em sua própria realidade e refletir.
Vamos lá?

Você percebe alguma relação entre visão da bacia hidrográfica como um sistema biofísico indivisível
(ecossistemas aquáticos) e a Teoria Biogeoquímica (Hipótese Gaia) de James Lovelock, que considera o
nosso planeta azul como um superorganismo vivo?

A gestão da água em sua região leva em conta a relação de dependência mútua entre a água e os
ecossistemas?

Leonardo Boff (2009a) menciona a imagem capturada da Terra pelos astronautas como uma grande
descoberta ecológica para o mundo contemporâneo, pois vista do espaço não há distinção entre Terra e
humanidade, “é uma totalidade só”. Ele ressalta que “os povos originários já sabiam disso, mas nós havíamos
esquecido”.

Boff constata que a Terra, com sua imensa complexidade e biodiversidade, não é produto do trabalho
humano. “É essa verdade que nos dói, se realizou sem nós”, recordando que o ser humano apareceu no cenário
da Terra “quando 99,96% de tudo já estava pronto”.

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QUANDO VIER A PRIMAVERA

(fragmentos do poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa)

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Em uma palestra para servidores do Banco do Brasil, o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella
realiza uma instigante reflexão acerca de quem somos na escala da imensidão cósmica.

Palestra de Mario Sergio Cortella - Você sabe com quem está falando?
https://www.youtube.com/watch?v=0YGB5u2u8kA

De acordo com o cientista e cosmólogo estadunidense Carl Seagan (1934-1996): “Nós na Terra apenas
acabamos de despertar para o grande oceano de espaço e tempo do qual emergimos, somos o legado de 15
bilhões de anos de evolução cósmica”.

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Seagan bolou o Calendário Cósmico*, uma metodologia que facilita a compreensão da escala
temporal de nossa história cósmica, desde o Big Bang.
*O Calendário Cósmico pode ser baixado em pdf. Disponível em: http://blogs.agu.org/wildwildscience/files/2014/03/Cosmic-
Calendar_CONVERTED.pdf

O Calendário Cósmico - Carl Sagan.


https://www.youtube.com/watch?v=2YrM3it4RrU

ESTRELAS

Há estrelas brancas, azuis, verdes, vermelhas.

Há estrelas-peixes, estrelas-pianos, estrelas-meninas,

Estrelas-voadoras, estrelas-flores, estrelas-sabiás,

Há estrelas que veem, que ouvem,

Outras surdas e outras cegas.

Há muito mais estrelas que máquinas, burgueses e operários:

Quase que só há estrelas.

(Murilo Mendes)

Em fevereiro de 1990, quando estava próxima a Saturno, a sonda Voyager 1*, comandada pela NASA,
tirou uma sequência de fotos da Terra, mostrando-a como “pálido ponto azul” em meio a um raio solar, a uma
distância de 6,4 bilhões de quilômetros de distância. A fotografia inclusive inspirou Carl Seagan, que havia
sugerido o registro fotográfico ao escrever um livro com o mesmo título, “O Pálido Ponto Azul”, trazendo
importantes reflexões sobre a nossa relação com o cosmo.
*A Terra fotografada pela sonda Voyager, em 1990, é um minúsculo ponto no meio de um raio solar circulado em azul.

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Vinte e três anos depois, outra foto rara da Terra é tirada dos anéis de Saturno pela sonda Cassini.

Legenda: A Terra fotografada pela sonda Cassini em 2013.


Crédito: NASA / Hype Science.

Numa conferência proferida em 1996, Carl Seagan fez um discurso histórico sobre a imagem capturada pela
Voyager 1. Disponíveis em:
https://www.youtube.com/watch?v=tRjVDOgGJ8Y (legendado em português) ou
https://www.youtube.com/watch?v=4_tiv9v964k (narrado em português).

Seagan também alerta que temos uma escolha a fazer: “Podemos aumentar a vida e vir a conhecer o
universo que nos fez, ou podemos desperdiçar a nossa herança de 15 bilhões de anos em uma autodestruição
sem sentido”.

Conforme diz Leonardo Boff (2009a):


Nós surgimos a partir dos elementos terrestres e cósmicos que nos antecederam” e também que
“dependemos dos trilhões e quatrilhões de micro-organismos, de vírus e bactérias que estão
dentro de nós. A nossa sobrevivência e a garantia de nossa saúde dependem do equilíbrio dos
organismos vivos que são invisíveis, representam 80% de toda a vida, e compõem a vitalidade da
Terra e também a nossa.

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O cientista brasileiro Antônio Donato Nobre (2012, p. 186) descreve, de modo metafórico, o
desconhecido microcosmo que nos conforma: “Cada ser humano é como uma espetacular galáxia-ambulante
de sistemas celulares, e como tal ainda nos ignoramos”.

POEMA POPULAR ORIENTAL

(traduzido e difundido por Leonardo Boff in: Espírito Criador)

O Espírito dorme na pedra, sonha na flor, acorda no animal e sabe que está acordado no ser humano.

Segundo Araia (2013), o cientista James Lovelock considera que nós humanos somos o “sistema
nervoso” da Terra, por meio do qual ela toma consciência de si mesma.
Metaforicamente, Lovelock nos alerta: “Gaia, vocês sabem, é como uma avó que recolheu em sua casa
um bando de adolescentes demasiado indisciplinados e turbulentos. Ela poderá – talvez com a morte na alma
– trancar a porta e deixá-los do lado de fora.”

2.5 Noosfera: a esfera do pensamento humano


Essa concepção de que somos o “sistema pensante” do planeta numa escala evolutiva que engloba os
demais subsistemas planetários (litosfera, hidrosfera, atmosfera, biosfera) deu origem ao conceito da
Noosfera, ou seja, a esfera do pensamento humano.

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Legenda: Noosfera e os demais subsistemas planetários
Crédito: adaptada de http://ecologizar.blogspot.com.br/2016/04/tres-pierres-e-noosfera_29.html

Trata-se de uma esfera de informação e consciência que circunda o planeta, (além da atmosfera, da
hidrosfera, da pirosfera etc., esferas que se referem à matéria, e da biosfera, que remete à vida). A Noosfera
(do grego noos, consciência) é a esfera da consciência intuitiva. Trata-se do conjunto de energias mentais,
pensamentos, informações, geradas ou captadas desde o início da vida, e que constituem uma sutil
camada que circunda o planeta. As ações humanas têm poder crescente de influir sobre a matéria e a vida,
especialmente nesse período antropoceno da história, no qual a ação humana impacta fortemente na
dinâmica de transformações que acontecem no planeta. A noosfera é o campo da consciência, que influi
todos os demais campos – a pirosfera, a litosfera, a hidrosfera, a atmosfera, a biosfera. O
autoconhecimento, a reflexão sobre a consciência humana, tornaram-se fundamentais para orientar a
energia dessa consciência e a força das palavras e da comunicação humana em direção a ações amigáveis
para o meio ambiente.
(RIBEIRO, 2016, grifo nosso).

Num rápido vídeo de dois minutos e meio, Lala Deheinzelin comenta sobre a Gaia e a Noosfera. Ela
recorda que os seres mais primitivos não tinham sistema nervoso e que talvez, num processo evolutivo, nós
humanos desempenhemos a função de sistema nervoso do planeta.
Lala diz que nós produzimos, conectamos e distribuímos conhecimento e que podemos desenvolver
uma melhor capacidade coletiva de percepção, de sentir o planeta, as sociedades e de fazermos escolhas
diferentes, sintonizadas com a sustentabilidade da vida.

Vídeo de Lala Daheinzelin sobre a Teoria de Gaia e a Noosfera.


Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Kjs_LNbTrN8

“Antes mundo era pequeno


Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabólicamará.”

Quer ouvir a canção? Então, confira o link abaixo e aproveite!

31 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qSzKPuqLE1Q


Em meio à avalanche de informações que nos cercam em plena Era Digital, Vera Catalão detecta que
estamos perdendo a capacidade reflexiva, pois “esta se dissipa no tempo acelerado e sem pausas que marca o
ritmo da cultura de consumo e torna-se cada vez mais superficial, como uma ‘metáfora perfeita do leito raso
dos rios assoreados’ (apud CATALÃO e JACOBI, 2013, p. 96-99).
Ela alerta que precisamos recuperar e avançar na capacidade de reflexão, o que “demanda proximidade
e distanciamento, um sabor concreto e um saber de mediação”.
Catalão (2013, grifo nosso) suscita Edgar Morin, que defende uma “reforma de pensamento na
dimensão da noosfera, onde habitam ideias, imaginação, representação de mundo”, dizendo que nesta esfera,
“no plano das representações, dos processos imaginários e de simbolização” que podemos forjar as mudanças
e “criar um novo sentido para as águas que correm fora e dentro de nós”.

Caro(a) participante, chegamos ao final de mais uma aula!

Aqui, na Aula 2, o enfoque foi uma concepção da Terra enquanto organismo vivo, evidenciando a
importância da água para cada ser humano.
Na próxima aula, discutiremos sobre a influência humana no ciclo natural da água e sobre suas
consequências.
Até lá!

Aula 3 – Crise global da água e a transição para a sustentabilidade


Olá! Seja bem-vindo(a) à Aula 3 de nosso primeiro módulo.
Na aula anterior, apresentamos um panorama da importância da água para o ser humano. Agora,
discorreremos sobre a influência humana no ciclo natural da água, bem como suas consequências.
Desejamos a você um ótimo estudo!

A água escapa entre nossos dedos e, como a chama, perfura de inquietante estranheza as nossas certezas
estreladas.
(René Barbier)

A imagem do Planeta Azul revela a magnitude da presença da água na Terra e o quão precioso é o
nosso planeta por se encontrar todo entrelaçado por esse elemento vital, principalmente na sua raríssima forma
líquida.
32
A quantidade de água existente hoje na Terra é praticamente a mesma de centenas de milhões de anos
atrás. Entretanto, a interferência humana no seu ciclo natural repercute no fluxo, na dinâmica e também na forma
em que essa água se apresenta, inclusive em sua potabilidade (menos de 1% do total), que é a condição
essencial da qual mais necessitamos (água para beber).
A ilusão da abundância e o mito da inesgotabilidade dos recursos naturais podem gerar sérios
problemas. Pedro Arrojo (2012, p. 37) aponta um grande paradoxo, pois vivemos hoje uma crise global da água
e essa crise está instalada “exatamente no Planeta Água”.
Alguns dos vários sintomas e consequências da crise hídrica e ambiental, a qual produz efeitos
dramáticos para as populações, sobretudo para os mais vulneráveis social e economicamente, são:
A degradação sistemática e generalizada dos ecossistemas aquáticos;
A poluição dos mananciais superficiais e subterrâneos por falta de saneamento básico (esgoto
lançado in natura) e uso de agrotóxicos;
A erosão do solo e o assoreamento dos rios decorrentes do desmatamento, do avanço das
monoculturas agrícolas e da urbanização acelerada;
O aquecimento global.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 1 bilhão de pessoas não têm
acesso à água potável e cerca de 10 mil crianças com menos de 5 anos de idade morrem ao ano no mundo
por diarreia e doenças de veiculação hídrica.
De acordo com Arrojo (2010, p. 3), a crise global da água resulta da convergência de várias falhas, tais
como:
Sustentabilidade: Por contaminação e intervenções abusivas em rios, lagos e aquíferos,
construção de grandes obras hidráulicas e desflorestamento massivo.
Iniquidade e pobreza: Que dispara a vulnerabilidade das comunidades mais pobres diante da
quebra dos ecossistemas aquáticos.
Governança: Por problemas de corrupção e as pressões de privatização dos serviços de água e
saneamento.
Institucionalidade democrática global: Faz da água um espaço de confronto e dominação,
ao invés de um espaço de colaboração.

Numa leitura metafórica, Vera Catalão (2014) entende que: “[...] as águas são os olhos da terra”. Nesta
perspectiva, a escassez, a poluição e a degradação das águas são “o reflexo da turvação da consciência
contemporânea”.

Pedro Arrojo (2009, p. 35) identifica no espírito renascentista a ruptura com a cosmovisão ancestral da
“Mãe Natureza” (e da reverência à água como símbolo de fecundidade, essencial à vida), ao introduzir o
paradigma da “dominação da natureza” enunciado de maneira brutal por Francis Bacon (pai do empirismo
científico) ao afirmar que “a ciência há de tratar a natureza como faz o Santo Ofício da Inquisição com seus réus:
torturando-a até conseguir desvelar o último de seus segredos”.

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A atual disputa pelo controle e gestão da água, parte da crise ambiental, revela, também, a crise da
racionalidade instrumental hegemônica na ciência da sociedade moderno-colonial.
(PORTO-GONÇALVES, 2011, p. 150)

Embora nos deparemos com desafios importantes, como o crescimento populacional e uma
urbanização vertiginosa nas últimas décadas, Porto-Gonçalves (2011) contesta aqueles que dizem que os
principais problemas hídricos derivam do crescimento da população, ressaltando que a questão é mais complexa
e que o problema é maior.
O que de fato aumenta a pressão e gera desequilíbrio na utilização dos recursos hídricos é o
crescimento exponencial do consumo de populações com o nível de vida europeu e norte-americano,
indicando que a demanda por água supera em muito o crescimento demográfico.
Porto-Gonçalves (2011) toma como exemplo que, desde os anos de 1950, a população mundial cresceu
três vezes, enquanto que a demanda por água cresceu o dobro (seis vezes). Outro exemplo é que “no Canadá,
entre 1972 e 1991, enquanto a população cresceu 3%, o consumo de água cresceu 80%, segundo a ONU”.
O componente da urbanização é também central. Segundo Porto-Gonçalves (2011, p. 146-171), “um
habitante urbano consome em média três vezes mais água do que um habitante rural” e “as aglomerações
urbanas cada vez maiores exigem captação de água a distâncias cada vez maiores”.
Em decorrência disso, a gestão da água costuma centrar-se, tradicionalmente, na ampliação dos
sistemas de abastecimento, porém deixando de lado algo primordial, que é a preservação e conservação dos
mananciais e a recuperação hidroambiental das bacias hidrográficas. É fundamental, neste contexto, que as
estratégias de gestão hídrica valorizem o que se encontra a montante (acima) dos pontos de captação de água,
promovendo a proteção e recuperação de nascentes, áreas de recarga e demais áreas estratégicas para a oferta
de água boa.
A grave crise de escassez hídrica que eclodiu, por exemplo, na região Sudeste, especialmente em São
Paulo, nos últimos anos, revelou que se não houver floresta de pé, faltará água.
De acordo com Evanildo Hespanhol (2008), “a política de importar água de bacias cada vez mais
distantes para satisfazer o crescimento da demanda remonta a mais de dois mil anos”. Vem desde o Império
Romano, “resolvendo precariamente o problema de abastecimento de água em uma região, em detrimento
daquela que a fornece”.
Nesse sentido, Hespanhol (2008) defende o abandono de “princípios ortodoxos ultrapassados” e a
adoção de um novo paradigma para a gestão dos recursos hídricos nas áreas urbanas.

34
Esse novo paradigma deve basear-se na “conservação e reúso de água”, a fim de “minimizar os
custos e os impactos ambientais associados a novos projetos”.
Ele destaca a importância da conservação, que “deve ser promovida por
meio de programas de gestão adequada dademanda e de educação ambiental”.
Hespanhol também ressalta a importância do “reuso direcionado à gestão da oferta, buscando fontes
alternativas de suprimento, incluindo água recuperada, águas pluviais e água subterrânea, complementada
mediante a recarga artificial de aquíferos”.
De acordo com uma importante publicação conjunta do MEC e MMA (2008), organizada por Silvia
Czapski e que serviu de texto-base para a realização da Conferência Infanto-Juvenil de Meio ambiente, a
problemática que configura a crise hídrica e ambiental adquiriu envergadura a partir da Revolução Industrial
(século XVIII) e se intensificou a partir da II Guerra Mundial como “marco do rompimento da sociedade
industrial moderna com os ciclos originais da natureza, ultrapassando a capacidade regenerativa dos sistemas
naturais. [...] a partir desse momento, a escala de tempo mudou bruscamente, e as mudanças vêm ocorrendo no
intervalo de décadas, não mais de milênios”.
Nesse diagnóstico, a destruição da qualidade de vida planetária guarda estreita relação com a
“intervenção da tecnosfera, de tecnologias de produção e consumo desvinculadas de uma ética voltada para a
sustentabilidade socioambiental”.
Nelton Miguel Friedrich (2012, p. 56) entende que a principal matriz dessa grave crise corresponde ao:
“[...] pensamento que originou todo esse encaminhamento da nossa sociedade há quase 200 anos, de que a
natureza é uma máquina. Trata-se de uma visão mecanicista, imediatista, absolutamente reducionista, linear,
unidimensional”.

O que antes era celebrado como o Dia da Terra (22 de abril) passa a ser, a partir de 2009, o “Dia
Internacional da Mãe Terra”, estabelecido pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas
(ONU), por meio da Resolução N° 63/278, reconhecendo que “a Terra e seus ecossistemas são nosso
lugar, convencendo que, para se alcançar um justo equilíbrio entre as necessidades econômicas, sociais e
ambientais das gerações presentes e futuras, é necessário promover a harmonia com a natureza e a
Terra”, assim como que “a Mãe Terra é uma expressão comum utilizada para referir-se ao planeta Terra
em diversos países e regiões, o que demonstra a interdependência existente entre os seres humanos, as
demais espécies vivas e o planeta no qual todos habitamos”. A proposta foi levada à ONU pelo então
presidente da Bolívia, Evo Morales Ayma, que, em seu discurso na Assembleia Geral na qual foi aprovada
a proposta, disse o seguinte:

“Se o século XX é reconhecido como o século dos direitos humanos, individuais, sociais, econômicos,
políticos e culturais, o século XXI será reconhecido como o século dos direitos da Mãe Terra, dos animais,
das plantas, de todas as criaturas vivas e de todos os seres, cujos direitos também devem ser respeitados
e protegidos.”

Acesse e saiba mais:

Resolução n° 63/278 da ONU: http://www.gthidro.ufsc.br/arquivos/RESOLU%C3%87%C3%83O-ONU-63-


2009-CRIANDO-O-DIA-MUNDIAL-DA-M%C3%83E-TERRA.pdf

Web site do Dia Internacional da Mãe Terra: http://www.un.org/es/events/motherearthday/index.shtml


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Discurso de Evo Morales: http://www.humaniversidade.com.br/boletins/direitos_da_mae_terra.htm
3.1 O alerta está dado...

Se todos os seres humanos tivessem o nível de consumo dos habitantes mais ricos do planeta, a Terra só
poderia atender às necessidades de 600 milhões de pessoas. Afinal, os recursos não são inesgotáveis. Em
nome de uma confusão entre crescimento e desenvolvimento, a destruição sistemática dos meios naturais
prossegue sem trégua, tanto no Norte como no Sul. A pilhagem de todo tipo continua, infligida ao solo, à
água e à atmosfera. Desperdício energético, urbanização galopante, desmatamento tropical, contaminação
dos lençóis freáticos, dos oceanos e dos rios, enfraquecimento da camada de ozônio, chuva ácida, tudo isso
põe em risco o futuro da humanidade.”
(RAMONET, 2010, p. 6)

O indígena Ailton Krenak diz que, quando deixamos rastro, é um sinal de que não estamos em uma
relação sustentável com a natureza. “A Terra é a nossa mãe é uma expressão poética e todo mundo concorda
com ela, só que tem gente alugando a mãe, vendendo a mãe, esquartejando a mãe [...] esse saque da paisagem,
esse saque dos recursos da natureza, ele precisa ser equilibrado”, alerta Krenak.

Ailton Krenak aborda ideias para girar o mundo. Acesse e confira:


https://www.youtube.com/watch?v=f48HAu0bNPc

Amâncio Friaça (2009, p. 9) explica que, assim que saímos da estabilidade ambiental do Holoceno
(iniciado há 11,5 mil anos, desde o final da última era glacial) e entramos no período do Antropoceno (final do
século XVIII), “várias pressões relativas à presença do homem sobre a biosfera, como o emprego crescente dos
combustíveis fósseis e formas industrializadas de agricultura, estão erodindo a resiliência do Sistema Terra”.
Friaça (2009) diz que os limiares planetários estão fortemente acoplados e que transgredir um deles
perturba os demais, citando como um dos exemplos a interferência da exaustão do ciclo do fósforo nos
oceanos, decorrente da atividade minerária: “Hoje, a mineração extrai cerca de 20 milhões de toneladas de
fósforo por ano, mas a quantidade lançada nos oceanos é assustadora. Os números (em milhões de toneladas
por ano): cerca de 1 (pré-industrial), 8,5-9,5 (atual), 11 (limiar). Exceder esse limite causaria a redução da
concentração de oxigênio nos oceanos, e isso é tão grave que provocaria a extinção em massa da vida marinha”.

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Friaça (2009) ressalta que já excedemos três dos limiares planetários:
A mudança climática.
A perda da biodiversidade.
O ciclo do nitrogênio.

O autor afirma também que outros quatro limiares planetários serão ultrapassados se as atividades
humanas mantiverem o ritmo atual:
O ciclo do fósforo.
A acidificação dos oceanos.
O uso de água doce.
O uso do solo.

[...] a lógica do crescimento econômico a qualquer custo vem solapando o compromisso político de
construir um (outro) modelo de desenvolvimento socialmente justo, ambientalmente adequado e
economicamente sustentável.
(BORN, 2009, p. 5).

Pode-se observar que os autores citados exprimem uma percepção convergente sobre os sinais de
esgotamento desse modelo que se tornou hegemônico no mundo contemporâneo, tratando o meio ambiente
como uma externalidade, de modo a não inserir nos cálculos econômicos ordinários o custo da degradação
ambiental e das iniquidades sociais.
Um exemplo foi o estudo realizado em 1997 pelo economista Robert Costanza (apud LE MONDE
DIPLOMATIQUE, 2010, p. 12) e um grupo de cientistas, por meio do qual se demonstrou que o valor do capital
natural (serviços ecossistêmicos), estimado em 55 trilhões de reais por ano, é quase o dobro do Produto
Interno Bruto (PIB) mundial, da ordem de 29 trilhões de reais por ano.

A democracia de mercado escondeu a ideia de território nas vãs promessas de uma globalização perversa,
teologia neoliberal de onde se esfumam os sentidos da solidariedade e a diversidade. A ciência mecanicista
legitimou uma deslocalização do ser e a desterritorialização da vida e das culturas”.
(GALANO, 2011).
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Vídeo “A História das Coisas” - Versão Dublada.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MWUHurprTVA

Antes de continuarmos com o conteúdo de nossa Aula 3, é hora de analisarmos um pouco da realidade
que nos cerca. Baseados no que foi lido e internalizado até agora sobre o modelo produtivista e consumista,
vamos refletir!

Com base no texto e nos vídeos, ou mesmo em conversas com pessoas que vivem na mesma bacia
hidrográfica que você, é possível identificar aspectos do modelo utilitarista/produtivista e da racionalidade
instrumental presentes nas relações sociais e nas relações com o meio ambiente no seu espaço de
atuação? Quais?

De acordo com Enrique Leff (2007, p. 170), a questão ambiental evoca a necessidade de “introduzir
reformas democráticas no estado, de incorporar normas ecológicas ao processo econômico e de produzir novas
técnicas para controlar os efeitos contaminantes e dissolver as externalidades socioambientais geradas pela
lógica do capital”.

3.2 A racionalidade que sustenta a insustentabilidade de um modelo


Baseando-se no que afirmam os autores citados, pode-se constatar a existência de uma forma de
pensar predominantemente instrumental e utilitarista, que é capaz de sonegar outras percepções de mundo
e experiências de vida. Esse pensamento tende a transformar sujeitos em objetos, objetos em sujeitos,
coisificando as relações e mercantilizando a vida.
Se o desequilíbrio sensorial (entre razão e sensibilidade, por exemplo) pode produzir desequilíbrio
social e ambiental, é presumível que o oposto também pode ocorrer, ou seja, o equilíbrio sensorial produzir

38
equilíbrio socioambiental. Para que isso ocorra, é necessário reconhecer outras formas de percepção da
realidade, valorizar a sensibilidade, incluir o outro, o diferente, dar voz e vez aos sujeitos invisibilizados e ampliar
a compreensão do mundo.
Vimos que os seres viventes e o nosso planeta, inseridos num incomensurável cosmo, conectam-se por
ondas e fluxos, constituindo uma intrincada teia de relações: a teia da vida. Os problemas surgem e se
avolumam quando não compreendemos essas inter-relações, quando nos vemos separados disso tudo.
De acordo com Leonardo Boff (2009a), padecemos de uma ilusão da ruptura: “rompemos a
solidariedade planetária e cósmica. Em vez de nos colocarmos junto às coisas, nos colocamos acima delas, para
dominá-las”.

"Não somos a imagem de Deus.


Somos apenas a sua autocrítica“
(Millôr Fernandes)

Enrique Leff (2007, p. 257) diz que em meio à crise que demarca os limites da racionalidade econômica,
emerge também, simultaneamente, uma nova racionalidade: a racionalidade ambiental, na qual ocorre “o
pensamento da complexidade como resposta ao projeto epistemológico positivista uniformizador do
conhecimento e homogeneizador do mundo”.
A racionalidade ambiental se constrói desconstruindo a racionalidade capitalista dominante em
todos os campos da vida social. Neste sentido, não só é necessário analisar as contradições e
oposições entre ambas as racionalidades, como também as estratégias para construir uma nova
economia baseada na equidade e sustentabilidade; de uma nova ordem global capaz de
integrar as economias autogestionárias das comunidades e permitir que construam seus
próprios estilos de desenvolvimento a partir de uma gestão participativa e democrática de
seus recursos ambientais. (LEFF, 2007, p. 178, grifo nosso).

Leonardo Boff (2009b) diz que “todas as mudanças importantes na história começam nas mentes, nos
sonhos e na consciência das pessoas. Daí nascem ações eficazes. E das ações eficazes nascem novos
pensamentos e novos níveis de consciência. Para mudar, precisamos querer e definir um certo caminho e
direção”.

“O mundo não vai superar sua crise atual usando o mesmo pensamento que criou essa situação”
(Albert Einstein)

Caro(a) participante(a), escolhemos dois pequenos videoanimações, “Homem” e “Hope”, que fazem
referência aos caminhos e descaminhos trilhados pela humanidade e sua relação com a vida e com o ambiente.
Assista e depois reflita sobre eles e o conteúdo trabalhado nesta aula.
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O vídeo “Homem” está disponível neste link: https://www.youtube.com/watch?v=WfGMYdalClU
E o vídeo “Hope” encontra-se disponível neste link: https://www.youtube.com/watch?v=Wdp3a4QwdUs

Na sua percepção, é a Terra que pertence ao homem, estando aqui apenas para que a exploremos em
função de nossas necessidades e nossos desejos, ou somos nós que pertencemos à Terra?

Pensando nisso, no conteúdo da aula e nas mensagens dos vídeos que você assistiu, como você avalia a
aventura humana na Terra? Estamos no rumo certo? Algo precisa mudar? O quê? Como?

Ótimo! Finalizamos mais uma etapa.


Nesta aula, discorremos e refletimos muito acerca da influência humana no ciclo natural da água, bem
como suas consequências em relação, principalmente, à globalização e à lógica de crescimento econômico a
qualquer custo.
Na próxima e última aula do Módulo 1, ressaltaremos a importância de se ressignificar a gestão dos
recursos hídricos numa perspectiva mais ampla de relação com a água, incluindo os saberes tradicionais.
Até lá!

Aula 4 – Imaginário, sentido de pertencimento e cultura de


cuidado com a água
Olá! Seja bem-vindo(a) à última aula de nosso primeiro módulo.
Como tem sido feito nas aulas anteriores, vamos agora, antes de iniciar a Aula 4, relembrar o que foi
visto por você anteriormente.
Na Aula 3 comentamos sobre a influência humana no ciclo natural da água e sobre as consequências
da globalização e do crescimento econômico.
A partir de agora, na Aula 4, ressaltaremos a importância de se ressignificar a gestão dos recursos
hídricos numa perspectiva mais ampla de relação com a água, destacando seu valor.

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Esperamos que aproveite imensamente esta aula, que finaliza o Módulo 1 do curso.
Bons estudos!

4.1 A gestão territorial numa perspectiva de relação com a água

Enquanto meu pai, meu avô, meus primos, olham aquela montanha e veem o humor da montanha e veem
se ela está triste, feliz ou ameaçadora, e fazem cerimônia para a montanha, cantam para ela, cantam para o
rio [...], o cientista olha o rio e calcula quantos megawatts ele vai produzir construindo uma hidrelétrica,
uma barragem [...]. Ali não tem música, a montanha, não tem humor, e o rio não tem nome. É tudo coisa.
Fonte: Ailton Krenak. Disponível em: http://saudedomeio.com.br/para-os-krenak-o-rio-doce-e-considerado-
um-avo-sabio/

Em meio aos dilemas e impasses da necessária transição do velho paradigma da produção e do


consumo a qualquer custo para o novo paradigma da sustentabilidade ambiental, da justiça social e da
democracia, torna-se um imperativo o reconhecimento de outros valores e percepções que extrapolam a
racionalidade instrumental hegemônica, bem como o reconhecimento e a inclusão dos sujeitos (muitos dos
quais ainda invisibilizados) que os representam.
Nesse sentido, é preciso ressignificar a gestão dos recursos hídricos numa perspectiva mais ampla de
relação com a água, reconhecendo as múltiplas visões, valores e saberes a ela associados, inclusive os saberes
tradicionais, populares e ancestrais.
Ramón Vargas (2007) defende que “a mudança (de paradigmas), para ser duradoura, tem que ser
cultural. A gestão de água e a tecnologia de água vêm depois da cultura da água”.
A sustentabilidade da sociedade de consumo alimenta-se da fragmentação interna dos sujeitos
e da consequente perda de autonomia. Essa subjetividade maquínica, produzida externamente,
retroalimenta-se da fragilidade de autoconhecimento e consciência crítica dos seus membros. O
saber e o poder estão fora de nós e são exercidos por forças anônimas infiltradas na nossa vida
cotidiana. Naturaliza-se a cultura e desnaturaliza-se a natureza. Enquanto transitarmos somente
no âmbito das externalidades, apartados dos processos interiores que processam e reverberam
as aprendizagens, será impossível reverter o modelo civilizatório predador de gente, natureza e
cultura. (CATALÃO; JACOBI, 2013, p. 98)

Vera Catalão evoca a centralidade dos processos formativos e o potencial de aprendizagem a partir da
água (matriz ecopedagógica) na transição de paradigmas. Ela argumenta sobre a necessidade de valorizar os
processos de formação que conectam o ser humano com as suas bases territoriais, biológicas e socioculturais,
a fim de sair dos impasses, superar as tensões da sustentabilidade e contribuir para a construção de novas
perspectivas de coexistência: “Mudar os padrões de consumo implica mudança de valores e por isso apostamos
em processos educativos que provoquem simultaneamente mudanças no plano da externalidade e da
subjetividade humana e que mobilizem a descoberta do enraizamento dos seres humanos nas suas bases
biológica e sociocultural” (CATALÃO, 2009, p. 48).

41
É preciso evocar o sentido do pertencimento à espécie, ao grupo social e ao tecido da vida.
O ser humano vive de forma trágica seu duplo pertencimento entre natureza e cultura. Para sair
do impasse é preciso saber obedecer e guiar as forças da vida, mas isto demanda criar espaço
para o tempo circular da contemplação e da reflexão. O tempo linear da cultura do consumo
torna mais rasa a consciência dos acontecimentos, como uma intrigante metáfora do
assoreamento que torna mais raso o leito dos rios. [...] A banalização da vida é o lado mais
perverso da cultura do consumo. (CATALÃO, 2009, p. 48, grifo nosso)

4.2 Água para além de recursos hídricos na construção simbólica da bacia


hidrográfica
Embora reconheça a importância da dimensão econômica da água enquanto insumo para o processo
produtivo, quando é tratada como recurso hídrico, Leonardo Boff (2003) ressalta o valor ecológico,
antropológico e simbólico da água, advogando que ela engloba as duas coisas, ou seja, “ela é bem da natureza
e recurso hídrico, mas nessa ordem, primeiro como bem da natureza e só a partir daí recurso hídrico”. E
sentencia: “reduzir a água a recurso hídrico é empobrecer a água”.
Assim, pensar a bacia hidrográfica como uma célula ou como uma unidade viva de Gaia, do
grande organismo que é a Terra, pode ser uma maneira mais efetiva de promover uma cultura de cuidado
com a água. Entender os ecossistemas, muito mais do que mero usuários, mas sobretudo provedores de água,
incrementa a atitude de cuidado com a água no contexto da gestão integrada e sustentável.
A água tem que ser pensada enquanto território, isto é, enquanto inscrição da sociedade
na natureza com todas as suas contradições implicadas no processo de apropriação da
natureza pelos homens e mulheres por meio das relações sociais e de poder. O ciclo da água
não é externo à sociedade, ele a contém com todas as suas contradições. Assim, a crise
ambiental, vista a partir da água, também revela o caráter de crise da sociedade, assim
como de suas formas de conhecimento. (PORTO-GONÇALVES, 2011, grifo nosso).

Rosana Garjulli (2009, p. 65) diz que no contexto hídrico é importante que o território esteja em
conformidade com a ideia de lugar, “isto é, como um espaço vivido, base de uma sociabilidade comum”, para
dar coesão social e política aos atores nele inseridos.
As identidades sociais e as áreas de atuação das instituições seguem lógicas próprias de recorte
territorial que, embora muitas vezes englobem vários municípios, dificilmente correspondem aos
limites de uma bacia hidrográfica”, pois no geral “a diversidade de atores que estão trabalhando
na sua gestão possui percepções espaciais calcadas em outras referências territoriais. (GARJULLI,
2009, p. 65).

Nesse sentido, Garjulli (grifo nosso) detecta que “a maioria dos comitês dá pouca importância ao
aspecto da construção simbólica da bacia” e que, portanto, essa construção simbólica é fundamental para a
necessária construção da bacia enquanto referência territorial e sua compatibilização com outras unidades e
percepções já existentes.

4.3 A cultura do espaço e a laboriosa tessitura do pertencimento às


territorialidades hídricas
Luiz Antônio Ferraro Júnior (2007) argumenta que ”um mesmo espaço é palco de vários territórios, são
territorialidades em controvérsia, que expressam diferenças de poder, de perspectiva, de desejo e de projeto.

42
[...] O território é uma cultura do espaço, uma imaginação social aplicada”. Ele defende que “o fundamental é
que o recorte territorial possa fazer sentido para as pessoas que nele estão circunscritas”.
É importante compreender que um espaço nunca possui uma mesma história. “Cada ser vive uma
história única no espaço, decodifica e vive fatos distintos” (FERRARO JÚNIOR, 2007). A realização de
mapeamentos, diagnósticos e intervenções participativas no contexto de uma bacia hidrográfica é, portanto,
fundamental para a construção simbólica e, sobretudo, para fortalecer as identidades e o sentido de
pertencimento às territorialidades hídricas.
Principalmente nos comitês de bacia hidrográfica, que são a base organizacional mais enraizada da
Política de Recursos Hídricos, a temática da água, desde a sua dimensão biofísica, adquire o relevo de fio
condutor a partir do qual são evocadas as dinâmicas de ocupação territorial, os repertórios e narrativas de
natureza social, política, econômica, ambiental e cultural, transcendendo fronteiras político-administrativas e
evidenciando os limites e horizontes de possibilidades da governança hídrica na transformação de realidades
em diferentes escalas (PAULA JÚNIOR, 2013).
Segundo Sá, “o enraizamento físico e biológico do sujeito humano é uma referência necessária
na construção da ideia de pertencimento do sujeito vivo às suas pré-condições de vida, ou seja, a nossa
autocompreensão humana como coexistentes em um cosmo e em um oikos” (2005, p. 249, grifo nosso).
Uma das noções mais relevantes para a compreensão da crise socioambiental que vivemos hoje
é a noção de pessoa humana. A ideologia individualista da cultura industrial capitalista moderna
construiu uma representação da pessoa humana como um ser mecânico, desenraizado e
desligado e ignora tudo que não esteja direta e imediatamente vinculado ao seu próprio interesse
e bem-estar. Esta visão particularista e fragmentada do ser humano tem sido amplamente
apontada não somente como uma das causas, mas como principal obstáculo para a superação
da incapacidade política de reverter os riscos ambientais e a exclusão social. [...] Dessa forma,
forjam-se pessoas dependentes de relações artificiais de vida (principalmente no meio urbano,
mas não apenas aí), comandadas por mecanismos centralizadores cujo modo de operação
desconhecem. Diz-se, então, que os humanos perderam a capacidade de pertencimento. As
ideologias contemporâneas sobre o desenvolvimento econômico ancoram-se numa crença
irracional que inverte radicalmente a afirmação do sábio chefe indígena Seattle, ou seja, elas
parecem acreditar que ‘nada que acontecer à Terra afetará os filhos da Terra’. Trata-se, realmente
de uma representação idealizada sobre os poderes milagrosos da tecnociência, como se esta
fosse um instrumento neutro, desvinculado das intenções emanadas do projeto de sociedade
dominante, e como se fosse possível deter o avassalador processo de globalização da
pobreza sem reverter o não menos avassalador processo de concentração da riqueza. Esta
crença cultural na eficácia milagrosa de um conhecimento puramente instrumental é
produzida e reproduz o desenraizamento dos humanos de seu solo biológico e planetário,
oculta a complexidade da vida e desliga o humano de seus vínculos intrínsecos com a ordem
cósmica. (SÁ, 2005, p. 247-248, grifo nosso).

Ferraro Junior et al. (2007, p. 13) pontuam que “a existência de territorialidades múltiplas, em disputa,
é condição para a democracia”, mas também mencionam que a ambientalização (pensar-agir no ambiente como
fonte original do saber, da cultura e da socialização) busca “a democratização e a autonomia da territorialização,
grupos sociais pensando seu lugar, como um todo, construindo seu caminho para sua perspectiva de qualidade
ambiental e de vida”.
A par disso, para que a gestão de águas adquira densidade e efetividade nos aspectos fundamentais
da sustentabilidade e da democracia, ela não poderá negligenciar a importância da coexistência entre distintos
atores, assim como a multiplicidade de visões e saberes existentes sobre a água num espaço comum.

43
4.4 A lógica das corporações e as discrepâncias socioambientais
Os três videodocumentários aqui sugeridos (Ouro Azul*, Água faz Dinheiro** e Fluxo***) explicitam
a discrepância e os conflitos decorrentes das múltiplas percepções, valores e interesses em jogo nas
territorialidades hídricas, que, em muitos casos, adquirem uma magnitude tal que extrapola a unidade das bacias
hidrográficas. As investidas de grandes corporações com o intuito de apropriação dos recursos hídricos tendem
a degradar os ecossistemas aquáticos e a sufocar o direito de acesso à água das comunidades, principalmente
quando o Estado não assume o compromisso elementar de reduzir assimetrias, promover direitos e de proteger
os mais vulneráveis e o meio ambiente. Sugerimos que clique nos nomes dos vídeos e assista ao menos a um
deles.
*O filme “Ouro Azul – Guerra pela Água do Mundo” aborda a cobiça e a investida das grandes corporações multinacionais pela apropriação da água.
Inspirado no livro "Ouro Azul", de Maude Barlow e Tony Clarke, o filme de Sam Bozzo venceu 6 prêmios nos Festivais Internacionais em 2009, tendo
sido premiado com o galardão de Melhor Documentário no Vancouver Internacional Film Festival, Melhor Documentário Ecológico no Newport
Beach Film Festival, Melhor Documentário no European Independent Film Festival e no Beloit International Film Festival e Melhor Documentário de
Ambiente no Tri-Media Film Festival e no Docufest Atlanta. Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=mQyoUDfhFVo
**Outro documentário emblemático que enfoca a questão da privatização da água é este: “Water Makes Money” ou “Água Faz Dinheiro”, que pode
ser assistido com legenda em português neste link: https://www.youtube.com/watch?v=S5NXSpPt1bc
***O documentário “Fluxo, por amor à água”, de 2008, também aborda a problemática da privatização da água, que se transformou em grande
negócio que prioriza os lucros em detrimento ao fornecimento de água limpa para as pessoas e da conservação hidroambiental das bacias. Contendo
entrevistas com cientistas e ativistas, o filme ganhou o Prêmio do Grande Júri no Festival de Cinema de Mumbai Internacional e o Prémio do Júri
para Melhor Documentário no Festival de Cinema das Nações Unidas. Acesse: https://youtu.be/rA-Kb7G3FI8

“A História da Água Engarrafada” trata da criação artificial de demanda e do consumo de água engarrafada.
Acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=KeKWbkL1hF4

Vídeo contendo a declaração do Presidente da Nestlé: "Água não é um direito humano básico” (a partir dos
2:17). Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=5a8qzsM9Kqg

44
Desde 2010, o acesso à água e ao saneamento passa a ser Direito Humano Universal. Em 2006, o
Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) reconhecia a água como o ponto fulcral da
interdependência humana, entendendo que a melhoria nas condições de acesso à água e ao saneamento
era fundamental para o cumprimento das metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM).
Em julho de 2010, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu, por meio
da Resolução n° 64/292, que o acesso à água potável e ao saneamento “é um direito humano essencial
para o pleno gozo da vida e de todos os direitos humanos”. Em junho de 2012, no mesmo sentido, a
Organização dos Estados Americanos (OEA), em sua 42ª Assembleia Geral realizada em Cochabamba,
Bolívia, reforçou, no contexto interamericano, o que foi estabelecido pela ONU dois anos antes.

Chegou o momento, após a aquisição de todas essas informações, de transferir o que foi visto para a
realidade na qual você se encontra.
Vamos refletir!

Que tipo de pensamento ou de visão predomina no processo de gestão de águas da sua bacia hidrográfica
ou do seu município?

As diferentes vozes da sociedade estão incluídas nesse processo?

4.5 Escala de valores e sabedoria: estamos no mesmo barco, as responsabilidades


são comuns, porém diferenciadas
A água é fator de reprodução material e simbólica das comunidades e dos povos do mundo. Os
desafios globais da humanidade estão incutidos nos processos locais de gestão dos recursos hídricos.
Ainda que em escalas distintas (microbacia, bacia, região hidrográfica, bacia transfronteiriça, países,
continentes, mundo), os compromissos são comuns. Estamos no mesmo barco, ou na mesma aventura cósmica,
interligados em nossa acolhedora nave azul (a Mãe Terra).
O enfrentamento das discrepâncias relacionadas à água e aos territórios hídricos demanda uma coesão
mínima e uma convergência necessária a partir do diálogo e da participação dos diversos atores envolvidos no
universo da gestão.
Se as responsabilidades são comuns, é fundamental perceber que elas também são diferenciadas
e essa diferenciação deve levar em conta a história de ocupação do território e de uso da água, as assimetrias

45
de poder, o modus operandi, as atitudes e demais requisitos que os próprios coletivos territoriais poderão
construir e pactuar para guiar a gestão da água no sentido da democracia e da sustentabilidade.
Embora reconhecendo a legitimidade de diferentes interesses específicos, na gestão pública da água
é necessário abertura e desprendimento para colocar o melhor interesse geral acima dos interesses particulares
(individuais ou corporativos). É também desejável a compatibilização entre diferentes projetos políticos no
sentido da pactuação em torno de propostas agregadoras.
A perspectiva intercultural de que fala Boaventura Sousa Santos (2009, grifo nosso), como sendo “o
exercício da percepção da incompletude intrínseca e da alteridade complementar”, amplia os horizontes
e também deve nutrir o ambiente em que se estabelece a política de águas.
Embora suscetível às inevitáveis nuances das múltiplas realidades, Pedro Arrojo (2009, p. 44) propõe
uma nova escala de valores baseada em quatro categorias éticas essenciais, a fim de forjar uma nova cultura
de cuidado com a água. São elas:
Água-vida: Funções básicas de sobrevivência, tanto dos seres humanos como dos demais seres
vivos, devem ter prioridade máxima, de forma que se assegure a sustentabilidade dos
ecossistemas e o acesso de todos a quotas básicas de águas de qualidade, como um direito
humano.
Água-cidadania: Atividades de interesse geral, como os serviços de abastecimento de água
potável e saneamento, devem situar-se num segundo nível de prioridade, no âmbito dos
direitos cidadãos, vinculados aos correspondentes deveres cidadãos.
Água-economia: Funções produtivas, acima do que se poderia considerar níveis de suficiência
para uma vida digna, devem ser reconhecidas num terceiro nível de prioridade, em conexão
com o direito de cada qual a melhorar seu nível de vida. É a categoria na qual se usa a maior
parte da água e na que se geram os problemas mais relevantes de escassez e contaminação.
Água-delito: Os usos produtivos ilegítimos, que, portanto, devem ser ilegais (descargas
contaminantes, extrações abusivas etc.), na medida em que lesam o interesse geral da
sociedade, devem ser evitados e perseguidos, aplicando-se com rigor a lei.

Inspirado em Edgar Morin, Leonardo Boff (2009) constata que o ser humano é simultaneamente sapiens
e demens, ou seja, que estamos sujeitos a agir de maneira sábia, com inteligência, harmonia e solidariedade,
mas também de maneira demente, excludente, criminosa. Ele assinala que “é a parte sã do ser humano, a parte
luminosa, que tem que curar a parte demente. Se nós não alimentarmos essa dimensão luminosa na construção
coletiva de uma sociabilidade, há o risco de que sejamos demasiadamente autodestrutivos”. Assim, Boff enfatiza
que o mais importante “é desenvolvermos sabedoria, caso decidamos, politicamente, sobreviver. Porque a
sobrevivência passa, hoje, por uma decisão política”.
Além de princípios, valores e práticas já experimentadas, a Educação Ambiental dispõe de estratégias,
metodologias e, inclusive, arranjos educadores e participativos que podem favorecer a implementação da
Política de Águas numa perspectiva democratizante (dialógica e participativa) e comprometida com a
sustentabilidade hidroambiental das bacias hidrográficas.

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Leia o texto “As qualidades sensíveis da água”, da Professora Vera Margarida Lessa Catalão – Universidade de
Brasília (UnB).

No texto que você acabou de ler, “As qualidades sensíveis da água”, a prof.ª Vera Catalão menciona a
seguinte frase de Pineau e Jobert, que comparam o curso de um rio com a existência humana: “Fazer sua
história de vida é o mesmo que criar o seu rio”. Com base nessa metáfora, bem como na problemática
tratada neste último tópico da Aula 4, reflita: como está o rio da sua história? E o rio do seu pedaço, do seu
lugar?

Antes de acabarmos, vamos revisar os objetivos do estudo, os quais foram traçados no começo do
módulo:
Adquirir uma percepção sistêmica da água no Planeta, apontando e instigando reflexões sobre
a conexão da água com a vida e com a manutenção dos ecossistemas;
Analisar a presença humana, a interferência nos processos naturalmente estabelecidos e suas
implicações;
Perceber a crise global da água e a sua incidência em várias escalas;
Compreender a importância estratégica da água no alcance da sustentabilidade;
Identificar os territórios de água no Brasil (distribuição, balanço hídrico, recortes territoriais), as
identidades, o imaginário, os sentidos e escalas de pertencimento.

Reflita sobre o alcance deles, levando em conta sua aprendizagem.


Muito bem!
Ao encerrarmos a Aula 4, concluímos também o primeiro módulo de nosso curso.
Que tal recapitularmos o que foi visto nesta parte final?
Nesta aula, houve o reconhecimento da bacia hidrográfica como um território em que há identidades
de atores sociais circunscritos, destacando-se o valor ecológico, antropológico e simbólico da água.
Na próxima etapa, a primeira aula do Módulo 2, traremos um cenário político da Educação Ambiental
e dos Recursos Hídricos, especialmente com relação às Políticas Nacionais.
Mas, antes de partir para o próximo passo, que tal resolver os exercícios sobre o que foi estudado no
Módulo 1 que foram preparados para você?
Então, boa sorte e até mais!

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