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Daniel da Silva Pereira e Cunha

Bacharel na Faculdade dos Sagrados Cânones

ARTE FISIOGNÓMICA
Extraída de vários autores, e correcta
e aumentada, dedicada a sua Mãe
Daniel da Silva Pereira e Cunha
Bacharel na Faculdade dos Sagrados Cânones

ARTE FISIOGNÓMICA
Extraída de vários autores, e correcta
e aumentada, dedicada a sua Mãe

Coimbra, 1825 / Mafra, 2014


Na Tipografia da Rua dos Coutinhos, 1825
Com Licença
Editores: Manuel J. Gandra & Centro Ernesto Soares de Iconografia e
Simbólica-Cesdies
Tel.: 963075514
Email: manueljgandra@gmail.com

Título: ARTE FISIOGNÓMICA, extraída de vários autores, correcta e


aumentada
Autor: Daniel da Silva Pereira e Cunha

Copyright: © Manuel J. Gandra


O conteúdo deste folheto não pode ser reproduzido,
sem a prévia autorização por escrito do editor.

1ª edição, revista– 51 exemplares impressos


Também disponível em formato e-book.
Coligens in unam coronam gérmen floridum, quod
per librorum campos passim fuerat ante dispersum.

Cassiodoro, Livro das várias Epistolas, 25

ADVERTÊNCIA

O que me animou a publicar esta Colecção de regras


fisiognómicas, foi não ter achado uma só, que pela sua
disposição sistemática facilitasse o estudo desta Ciência. Além
disto ignoro, que haja alguma obra sobre esta matéria em
idioma português; e julguei útil juntar as regras fisiognómicas
espalhadas por vários Livros formando delas um sistema,
imitando assim a abelha, que procura no denso bosque aqui e
acolá a flor mimosa. Acrescentei algumas regras filhas da minha
experiência e reflexão, e dei as razões de muitas, que se não
acham em seus Autores. Advirto que será muito conveniente o
exame das análises de algumas figuras desenhadas em Lavater
Portatif e Lavater des Dames, porque este é o melhor meio de
combinar a teoria com a prática. Esta matéria merecia sem
dúvida mais hábil pena; todavia os motivos, que me obrigaram
a tomar empresa tão árdua para as minhas forças, foram
suficientemente poderosos, e por isso direi com Óvidio:

Da veniam secriptis, quórum non gloria nobis Causa, sed


utilitas oficiumque fuit.
CAPÍTULO I

Definição e utilidade da Fisiognomia

A palavra Fisiognomia compõem-se de duas gregas, a


saber Phisis (natureza) e Gnomos (regra). Pode definir-se uma
arte, que dá preceitos e regras para conhecer as faculdades e
inclinações naturais do homem pelos seus indícios exteriores e
particularmente pelas feições do rosto; isto é a arte, que ensina
a consignar as relações, que existem entre o físico do homem e o
seu carácter moral primevo.
Os Pitagóricos, se devemos dar crédito a Jâmblico, se
aproveitaram desta Ciência vantajosamente não admitindo na
sua escola senão aqueles, que eram aprovados pelos
Fisiognomistas, aos quais faziam educar com o maior cuidado.
A dissimulação das naturais inclinações de um indivíduo
aos olhos do bom Fisiognomista, é como um vapor subtil, que se
dissipa aos raios do sol; e não se ignora de quantos males é
origem a vil hipocrisia. A escolha razoável de um amigo e de
uma esposa quanto é importante! E quantas vezes se tomam por
amigos os homens mais indignos de um tão doce nome; e se
contraem vínculos indissolúveis, mais disgraçados pela falta
deste facto fisiognómico!
Esta Ciência ainda aos homens de más inclinações seria
útil. Sendo estes conhecidos, tomarão mais império sobre sua
má índole, e tanto mais difícil for a vitória, com tanto maiores
elogios devem ser premiados. Ela é também muito útil aos que
se entregam ao desenho. Un peintre, diz Diderot, qui n’est pas
phisionomiste, est une pauvre peintre. O historiador, sabendo
esta arte, sabe também fazer milhor pintura das pessoas, cuja
história escreve. O conhecimento exacto dos grandes homens
constitui uma parte essencial da história, porque sabendo nós o
carácter daqueles, cuja história lemos, com maior facilidade a
entendemos, e dela colhemos melhor lição. Salústio apresenta-
nos o retrato de Catilina, Mário e Sila; Tito Lívio o de Aníbal. Os
antigos Escritores foram a este respeito mais exactos que os
modernos, e é por isso que hoje, quem é versado na lição da
história antiga e moderna, conhece milhor o carácter dos
Gregos e Romanos, do que algum povo dos nossos dias conhece
os seus vizinhos.
O estudo desta Ciência faz contemplar a grande e
admirável harmonia, que reina em o Universo, e que é uma
prova nada equívoca de um Ente infinito em perfeições, cuja
existência é a base do sistema religioso.
Dulcia lector amas; sunt hace dulcíssima quoque Utile si
quaeris, nil legis utilius.

CAPÍTULO II

A Fisiognomia não é uma Ciência quimérica e ilusória

Para provar o que eu intento, invocarei a natureza; os


mais incrédulos não puderam deixar de admitir esta prova,
porque um instinto natural os guia como ao resto dos homens.
A primeira vista de um indivíduo qualquer, que não
conhecemos, não deixa da qual umas vezes nos sentimos
inclinados para ele, outras vezes sentimos uma força interior,
que nos repele. Consultemos a íntima experiência, e veremos,
que esta voz secreta da natureza nunca nos ilude, porque,
porque ela é tão infalível, como o seu Autor. Mas não a
confundamos com as prevenções de um espírito preocupado, e
devemos saber que a beleza não é sempre o templo da virtude, e
que a disformidade é muitas vezes acompanhada das mais
sublimes qualidades.
As qualidades externas estão em relação com as internas.
Todas as Ciências naturais estão baseadas sobre este princípio.
O Naturalista pelo aspecto e exame do exterior dos minerais
decide da sua natureza, composição, e virtudes. O mesmo
acontece nos reinos vegetal e animal: à vista de uma planta
reconhece pela sua forma muitas qualidades, de que ela é
dotada: em todo o reino animal as formas exteriores estão em
relação com certas inclinações e disposições; e o homem estará
sujeito a esta Lei? Em tudo, o que ele tem de terrestre, deve ser
sujeito às Leis do Universo, e em tudo, o que pertence à vida
tomada em um sentido generalíssimo, deve estar sujeito às
normas, porque se governam os entes animados.
Como o desenvolvimento e a declinação do espírito
seguem as mudanças, que o corpo padece, é forçoso reconhecer,
que um vínculo invisível, mas real une o físico ao moral.
Porque se ousa duvidar da existência da Fisiognomia,
quando se vem todos os dias demonstrações da sua mesma
existência? Umas faces, para assim dizer escavadas, uma testa
enrugada, beiços pálidos e cerrados, dos quais jamais se viu
escapar um sorriso, olhos baixos para a terra, todas estas feições
podem elas caracterizar a alegria? Entremos nas prisões, onde
os delinquentes sofrem a pena do crime, e aí veremos
fisiognomias, que parecem pertencer exclusivamente ao vício. A
natureza em tudo é previdente; ela fez falar ao mesmo tempo a
testa, os olhos e as outras feições do homem para desmentir a
lingoa, quando não fosse fiel intérprete dos seus pensamentos.
Alguns existem, que negam a realidade desta Ciência; mas
que podem suas armas contra o instinto da natureza guiado
pela experiência? Existem muitas anedotas, que se podem ler
em Lavater, em prova da nossa asserção. Comparemos duas
pessoas, cujas notas características sejam opostas, e cujo
carácter natural conheçamos, veremos que este em geral é
também oposto. As nações em geral têm certas notas, que se
distinguem, e por isso um carácter que lhes é próprio. Em todas
as Nações, onde existem povos, que se conhecem pelo seu
aspecto, estes têm um carácter particular; e em todas as partes
onde existem castas, observam-se fenómenos semelhantes.
Finalmente naqueles indivíduos, que apresentam relações
assinaladas no seu carácter exterior, sempre existem certas
disposições comuns no carácter moral. Nas famílias é, que há
ocasião de se fazerem observações desta natureza.
Tudo é harmónico em o Universo e no homem, que é o
compêndio deste Universo: as suas feições não são feitas ao
acaso, e como elas estão em mútua dependência, nenhuma pode
ser sem expressão. Os que se têm distinguido na arte do
desenho têm reconhecido esta verdade. Lavater foi um destes
génios raros; uma inclinação dicidida o arrastou para o
desenho, e a ela deveu o desenvolvimento das suas primeiras
ideias sobre Fisiognomia. À força de desenhar figuras humanas,
de comparar, e analisar suas feições, chegou a notar e avaliar as
diferenças ainda muito delicadas, que as caracterizavam.
Empregou muitos anos em juntar os desenhos, que tinha feito,
comparou as figuras humanas de todas as condições; foi depois
eleito Pároco, e o seu emprego tendo-o posto em relação com
grande número de personagens mais ou menos singulares, fez
delas objecto de suas observações.
Por ventura achamos algum fundamento, para que nossas
almas em si tenham qualidades diversas nas perfeições? Não.
Logo não se pode duvidar da relação que o físico tem com o
moral.
Os mesmos antigos reconheceram as realidades desta
Ciência. O homem, dizia Aristóteles, não tem uma só inclinação,
que a natureza não tenha selado por sinal exterior e visível. Liv.
2, Phis., Cap. 1, Cícero no Liv. 1. das suas Tusculanas Cap. 33,
diz o mesmo.
Muitos se persuadem, que se não deve admitir como real
uma Ciência, que não podem explicar. Mas é certo, que existem
muitos fenómenos, cujas causas não podemos explicar. Assim
como todo o mundo conhece, que existe uma certa união entre a
alma e o corpo, mas não se sabe explicar a natureza íntima
desta união; assim também se conhece a existência de um
vínculo, que une o físico ao moral, mas ignora-se qual é a
natureza íntima destas relações. A pedra magnética atrai o aço,
e a agulha se volta constantemente para o pólo árctico; não se
conhece a razão deste fenómeno, e ignora-se em que consiste a
natureza íntima destas relações: logo devemos por isso duvidar
da sua existência?

CAPÍTULO III

Regras para o estudo desta Ciência

1. Para aprender com mais perfeição esta Ciência, é


necessário nascer Fisiognomista, assim como se diz, que o Poeta
nasce. = Sapientiae pater est usus, mater autem memória = Eis
aqui uma regra, que tem um distinto lugar na Fisiognomonia.
Quem a isto juntar o conhecimento da organização interior do
homem, terá dado um passo mui vantajoso.
2. Enganamo-nos algumas vezes; mas o erro tem sempre
o seu princípio na precipitação dos nossos juízos, ou em outra
causa semelhante.
3. Não se deve julgar das coisas pela aparência: é um
princípio de prudência e sabedoria. Mas não se deve tomar em
um sentido absoluto, porque tudo no mundo é aparência, e os
sentidos não nos dão certeza, senão depois de contemplar as
coisas debaixo de todos os aspectos. Não nos devemos portanto
contentar só com uma ou outra aparência, e sobre tudo com as
primeiras, que se apresentam.
4. É necessário, que se reúnam ou todas ou um grande
número. O conhecimento da expressão da totalidade ou
pluralidade das feições fornecerá uma soma maior de
probabilidades, do que só uma feição isolada. A reunião de
todas ou de um grande número nem sempre é possível, nem
sempre necessária.
5. Como as feições do homem estão em harmonia entre si,
por isso é necessário examinar as relações, que existem entre
estas feições; por exemplo a linguagem dos olhos deve ajudar a
decifrar a expressão da boca, da testa, etc., porque a natureza é
fiel às leis da harmonia. Já mais encontraremos uns olhos
tímidos com sinais característicos de coragem.
6. Da existência destas ou daquelas disposições, de tais ou
tais faculdades não se deve concluir, que o homem tenha
adquirido os talentos, e que se tenha sujeitado às paixões, para
que parece ser formado. Pode ser que certas circunstâncias não
tenham favorecido os impulsos da natureza; a vontade não
deixa de ter império sobre o homem, e nós também temos
faculdades e germes de paixões, cujo desenvolvimento levado ao
mais alto grau se exclui.
Tais são a ambição e o amor.
1. O carácter natural do homem não se pode mudar, nem
o espírito, porque seria necessário mudar a estructura interior e
o temperamento. Pode-se reprimir-se, mas não mudar-se; os
homens podem não se mostrar tais, quais são, mas não podem
tornar-se outros; a educação tem forças para fazer disfarçar a
natureza, mas não tem poderio para forjar sua total ruína.
Existem muitas feições, que se têm formado pla
impressão frequente e habitual de certas afeições da alma,
porque estas afeições marcam-se sobre o rosto, e quando se
tornam em hábito, devem aí deixar impressões duradouras; e
eisaqui como estas feições anunciam também o carácter; assim
por exemplo, a fisiognomia do homem mau e perverso
aparecerá constantemente coberta com um véu sombrio, que
oculta seus tenebrosos pensamentos.
A configuração natural das feições não exprime nem a
existência actual de alguma paixão, nem algum estado prezente
da alma, mas sim as nossas propensões e disposições naturais.
A alteração das feições por movimentos voluntários ou
involuntários faz conhecer o estado actual e transitório da nossa
alma, o que acontece por exemplo na ira. Uns fazem-se pálidos,
quando se iram; outros fazem-se vermelhos; e outros choram. A
ira dos primeiros é a que mais se deve temer, porque quando
não queremos, ou não nos podemos vingar de outro modo,
senão pelo semblante, gestos e palavras explicamos toda a força
da nossa comoção desde o seu princípio, donde nasce o rubor e
vermelhidão do rosto. Pelo contrário, os que se guardam para
maior vingança ficam tristes ou por causa da ofensa, que se lhes
fez, ou porque temem os males da sua empreendida vingança, o
que os torna à primeira vista pálidos e frios. A palidez
ordinariamente é sinal de má índole. Vemos também, que
aqueles, que facilmente choram, são propensos para amor e
comiseração. Além disto algumas vezes não nos podemos
vingar, e choramos. Podemos distinguir duas especes de ira;
uma é prontíssima, e se deixa ver logo no exterior; a outra não.
Os que têm muita bondade, são sujeitos à primeira, porque ela
não nasce então de um ódio profundo, mas da súbita aversão,
que os ocupou, e que não pode deixar de causar uma grande
comoção é momentânea, porque a força da súbita aversão não
continua. A outra espécie de ira não se deixa ver logo no
exterior, excepto talvez em fazer pálida a cor do rosto; mas a sua
força aumenta-se pouco a pouco pela agitação do sangue, que é
causada pelo fervoroso desejo da vingança, desejo este cada vez
mais confirmado.
Como o estado actual da alma se pode representar por
movimentos, pela maior parte sujeitos à vontade, segue-se, que
podemos fingir paixões, de que não estamos agitados imitando
estes movimentos. Mas a expressão, que resulta da configuração
das feições, não estando debaixo do império da vontade, sempre
é conforme à verdade.
Logo que uma nota ou feição principal é característica,
aquelas, que dependem dela, o são também. A razão desta regra
é, porque a natureza em tudo é regular, e por isso todas as
feições de uma fisiognomia concorrem a formar uma união
homogénea; por exemplo a um nariz, cujo dorso ou espinhaço é
largo, e as partes laterais paralelas, se deve associar uma testa
bem traçada, que promete qualidades superiores.
É necessário sobre tudo examinar a impressão, que
produz sobre nós a primeira vista e o primeiro aspecto de uma
pessoa, antes de analisar as suas feições, porque esta impressão,
como uma voz secreta da natureza não nos enganará. Mas não a
confundamos com as prevenções de um espírito preocupado.
O melhor meio de fazer grandes progressos no estudo da
arte Fisiognómica é comparar os extremos; isto é compare-se a
expressão de uma feição com a expressão de outra inteiramente
dissemelhante, e ver-se-á melhor a sua diferença. Isto mesmo é
um modo de aprender a dar o justo valor à expressão de cada
uma das feições. Foi a este meio, que Lavater deveu uma grande
parte dos seus conhecimentos fisiognómicos.
Algumas pessoas podem ter sua parecença, e com tudo o
seu carácter pode ser muito diferente. Fazendo-se reflexão, que
uma testa mais arredondada algumas vezes basta para mudar
um carácter, e que muitas vezes uma nota mais saliente
constitui o carácter distintivo de um homem, não causará
admiração esta nossa assersão. Além disto existem diversas
especes de semelhanças, e não se devem confundir. Veem-se
muitas vezes irmãos, cujo carácter é diferente, suas feições não
têm entre si alguma relação particular enquanto à forma, e
todavia existe sobre suas fisiognomias uma certa parecença,
uma certa aproximação, ou antes um ar de família, que se não
pode definir. Pelo contrário, em outros esta parecença e
semelhança é produzida por uma outra causa: tal colérico
parece-se com um outro, porque em ambos o hábito da cólera
tem modificado suas fisiognomias da mesma maneira; ainda
que naturalmente suas feições sejam muito dissemelhantes.
Se dois indivíduos se não distinguissem no físico, senão
por uma nota saliente, a diferença assinalada, que os
distinguisse no moral, seria a expressão desta nota ou feição.
Eisaqui um fecundo manancial, donde podemos colher o valor
de cada nota ou feição. A este meio pode adicionar-se outro: se
na conformidade física de um grande número de indivíduos se
visse uma nota ou feição bem distincta e comûa a todos, ainda
que aliás fossem bem diferentes; aquilo que houvesse de
comum no carácter destes indivíduos seria a expressão dessa
nota. Além disto muitas vezes uma nota mais saliente constitui
por si só o carácter distintivo de um homem. Tais são os
diferentes meios, pelos quais podemos chegar a decifrar o valor
e a expressão particular das feições.
Podemos dividir as fisiognomias em duas classes
principais: umas nos fazem impressão ao primeiro golpe de
vista, ou por feições tão salientes e tão fortemente
pronunciadas, que se não podem desprezar, ou por uma força
tão natural, que à primeira vista deixam ver a alma de um
homem; tais são estes caracteres negros, que trazem comsigo a
marca do crime e da baixeza, ou estas fisiognomias francas e
abertas, que ao seu primeiro aspecto nos inspiram confiança. A
segunda classe, que é a mais numerosa, pertencem estas
fisiognomias, cujas feições pouco salientes, não inculcando à
primeira vista algum carácter principal, exigem para assim
dizer um método analítico. A esta classe pertence a maior parte
das fisiognomias das mulheres, e aquelas que ordinariamente
acompanham a infância. Esta classe constitui sem duvida a
parte mais difícil da Arte Fisiognómica. Aqui couvem advertir,
que assim como existem fisiognomias, que logo ao seu primeiro
aspecto mostram e inculcam o que são; assim também existem
algumas, sobre as quais é impossível dar uma decizão com
certeza; o que a pratica mostrará.
Há instantes, em que o homem se mostra tal, qual é. Um
conflicto imprevisto, um momento de cólera, de piedade, ou de
ternura é suficiente algumas vezes para fazer julgar do seu
carácter. Mas guardemo-nos de confundir a expressão de certos
movimentos da alma. Algumas pessoas trazem pintadas no
rosto a nota habitual de um mau humor, e todavia o seu coração
não é mau.
Não nos devemos persuadir, que a expressão de certas
qualidades morais e de certos vícios, tais como a franqueza, a
probidade, a má-fé, a hipocrisia e outras semelhantes
qualidades desta natureza pertencem às partes sólidas: são os
músculos do rosto, que devemos consultar. Parece que estas
qualidades não são senão secundárias e relativas à educação,
que se têm recebido; e pelo contrário, o génio, a força de
espírito, a energia, a fraqueza e imbecilidade, que dependem da
forma das partes ossosas, são inatas e ingénitas no homem. Não
se fala aqui das alterações orgânicas do cérebro, consequências,
e resultados de alguma doença, ou da velhice.

CAPÍTULO IV

Dos Temperamentos

A consideração dos diversos temperamentos é muito


importante no exame do carácter do homem. Nós trataremos só
do temperamento Colérico, Melancólico, Fleugmático, e
Sanguíneo, como mais principais. Eu chamo temperamento a
uma certa disposição ou certa aptitude dos órgãos do corpo, em
virtude da qual as funções se exercem mais ou menos bem, de
tal ou tal maneira na economia animal; cuja disposição ou
aptitude depende de muitas causas tanto intrínsecas, como
extrínsecas. Daqui já é fácil ver, que o temperamento do homem
não pode deixar de influir no seu carácter; porque a nossa alma
está de tal maneira unida ao corpo, que não pode ser
independente do modo, pelo qual este exerce suas funções.
Além disto o temperamento influi particularmente sobre a
fantazia; fazendo-a mais ou menos forte, mais ou menos viva; e
como a fantasia tem muita força sobre o entendimento; daqui
vem, que a diversidade dos temperamentos influe visivelmente
no entendimento.
Os indícios, que caracterizam o homem de um
temperamento Colérico, são sobrancelhas quase sempre
espessas, nariz pontiagudo, olhos sempre vivos, o globo dos
olhos à flor da testa, a pálpebra superior quase desaparecendo,
ventas largas sinal de uma respiração forte, testa coberta de
protuberâncias irregulares, pescoço quase sempre
extremamente curto, vazos sanguíneos muito aparentes, o
movimento do sangue muito dezembaraçado, o pulso apressado
e forte, e ligeireza nos movimentos, mas com certa gravidade. O
movimento do sangue nos coléricos sendo muito
desembaraçado, sua alma se satisfaz, como quem mora em uma
casa excelente; e por isso o seu carácter natural é esperança;
ambição, gravidade, e diligência; são também propensos para a
ira, porque o seu sangue facilmente se agita. Se é verdade, o que
os Medicos nos dizem, os coléricos têm bastante engenho; isto
é, são aptos para compreender, excogitar, e imaginar: a razão
disto, diz Hofman na sua Dissert. de temperamentis, é = quod
sanguinem subtilem, spirituosum, et talem, qui satis prompte
et vegete movetur, in corpore alunt; utpole ii rerum ideas,
quae fundamentum scientiarum sunt, facilime capiunt, rursus
inveniunt, casque combinare sciunt = Como o estilo depende
do engenho, juízo, e memória, e em consequência disto sabendo
nós o engenho, o juízo, e memória de qualquer é fácil
conjecturar o seu estilo; por isso podemos afirmar, que tendo os
coléricos juízo e muito engenho o seu estilo será figurado,
sublime, enfático, grande e arrebatado, e que reluz neles certa
força de dizer.
Olhos pouco saídos, e para assim dizer, metidos para
dentro, uma tez pálida, olhos sombrios, movimento vagaroso e
cansado, os vasos sanguíneos muito largos, o pulso forte, mas
vagaroso caracterizam o temperamento melancólico. A alma do
melancólico, como quem mora em uma casa arruinada teme
tudo, e por isso o carácter do homem, em quem domina um tal
temperamento, é tristeza, avareza, inveja, diligência, e
grosseria. Estes, que não digerem também os alimentos, e nos
quais as secreções ordinárias se fazem a custo, têm uma
imaginação triste; ainda que não são destituídos de juízo,
todavia este é ordinariamente confuso; têm pouco engenho,
mas sua memória é tenaz = Ili vero, qui melancho lici dicuntur,
ingenio carente t polent judicio, quia in ilis sanguinis motos
per cerebrum tardior est. = Eis aqui como se exprime Manuel
Alves nos seus Elementos de Filosofia. Como os melancólicos
têm pouco engenho, ainda que tenham algum juízo, por isso o
seu estilo ordinariamente é frio, desigual, e falto de sentenças e
pensamentos agudos. Neles se verifica o que diz Aristóteles =
memória magis valet hebes obtususque ingenio =. Os Médicos
dizem, que os melancólicos são os mais lascivos e os mais
amorosos: a lebre, que é o mais melancólico de todos os
animais, é também o mais lascivo. O amor do melancólico
participa do seu carácter; este amor toma as sombrias cores da
sua imaginação; o enthusiasmo e a exaltação o acompanham.
O temperamento fleugmático, que também se costuma
chamar linfático, serve mais de impedir os outros, do que de
determina-los para alguma propensão; isto é, poucas vezes é
dominante. Só a Holanda nos oferece temperamentos
fleugmáticos sem mistura. Uma tez branca, formas e contornos
arredondados e pouco angulosos, olhos azuis, mas privados de
vivacidade, cabelos quase sempre loiros, formas ossosas pouco
aparentes, olhos assaz distantes um do outro, sobrancelhas
ténues e delicadas, figura gorda, os vasos sanguíneos estreitos, e
o pulso forte anunciam de uma maneira nada equivoca o
temperamento fleugmático. A alma do fleugmático, como
apertada em uma estreita choupana, para tudo é frouxa e mui
vagarosa; Hauser na sua obra intitulada Elementos de Filosofia
dá a razão disto = Phlegma, diz ele, est substancia fluida,
maxime húmida, inodorata, insípida, ac prorsus iners…ubi
phlegma abundat, ibi elementa mimium dissociantur; inde
deducunt corporum inertiam; = por isso o seu carácter é
preguiça, incapacidade de virtudes ou vícios grandes, de paixões
muito fortes, e igualmente de um muito grande juízo ou
engenho, ainda que tenham bastante memória. Manuel Alves
no lugar acima citado diz = Qui fleugmatici nuncupantur,
memória abundant, sed parciori ingenio et judicio fruuntur;
quod gaudeant temperato cérebro, hoc est, Nec nimis húmido
et spirituoso sanguine repleto, ut in cholericis; nec nimis sicco,
ut in melancholicis. = A natureza parece ter formado o seu
corpo à custa do espírito, porque as funções do seu espírito e
mesmo as do corpo se executam com lentura [lentidão].
Observar-se-á frequentes vezes em os fleugmáticos mais
cordialidade que politica, mais franqueza que amabilidade, e
mais pertinácia que verdadeira energia. O seu coração é bom e
compassivo mas frio: são constantes em amor, porem mais por
hábito, do que por outro motivo. A preguiça, que regularmente
os acompanha, e os cuidados que exigiria uma nova conquista
contribuem bastante para isto. Em o fleugmático o amor tem
quase o carácter da amizade, e é uma paixão fria e pouco
enérgica. Julgam do amor e o sabem banir do seu coração, logo
que a razão lho aconselha. Uma pessoa deste temperamento não
dará a sua amizade, senão com muita circunspecção.
Rubor e vermelhão no rosto, agilidade, (porque onde há
mais sangue há também mais espíritos, que são a causa desta
agilidade, cuja abundância de sangue se conhece pela cor e
principalmente pela sua mudança mui repentina), uma
fisiognomia ordinariamente animada, e olhos sempre vivos são
indícios certos de um temperamento sanguíneo. Seus vasos nem
são muito largos nem muito estreitos, e o pulso nem é muito
forte nem muito apressado; e por isso a alma do sanguíneo, em
virtude do sossegado movimento do seu sangue, sempre está
alegre; donde vem, que o seu carácter é alegria, pouca
gravidade, precipitação, voluptuosidade, e prodigalidade,
porque as pessoas muito alegres gostam de coisas agradáveis e
de tudo o que é prazer, inconstância, volubilidade, inclinação à
ociosidade, mas engenho fértil. Como digerem bem os
alimentos, têm uma imaginação agradável, e seus sonhos são
ordinariamente aprásiveis. Hauser no lugar já citado diz. =
Sanguinii hahentur ingeniosi, sed excitali genii ob sanguinem,
quo abundant, calidiorem. = São afáveis, humanos, e têm uma
sensibilidade elevada ao mais alto grau: agitam-se facilmente,
pouca coisa os aflige, mas sobeja um só instante para os
consolar. Como as feições do seu rosto exprimem sempre seus
movimentos interiores, é difícil neles o fingimento e a
dissimulação. Não são vingativos, sua alma está sempre aberta
às doces emoções da piedade e da ternura. São amigos da
ordem, porque logo que vem tudo com ordem, a alma se felicita
do seu prazer. Como têm engenho fértil, o seu estilo será
floreado, claro, agradável, agudo, e poético. Entregam-se mais a
estudos deleitosos, porque a nossa alma fixa sempre a sua
atenção sobre aqueles objectos, que lhe causam maior
impressão. O amor domina neles poderosamente, mas são
inconstantes e volúveis. O homem de um tal temperamento
voará sempre de conquista em conquista.
Resta advertir, que não se acha um homem, que tenha um
só temperamento; mas sempre há um que domina. Em geral na
infância é dominante o fleugmático, na idade adulta o
sanguíneo, na viril o colérico, e na velhice o melancólico. A
natureza padece sua alteração nas diferentes épocas.

CAPÍTULO V

Regras especiais da Fisiognomia

1.Faça-se tirar da parte a mais saliente do osso da testa até


à raiz dos dentes do queixo superior uma linha, que venha
cortar uma outra traçada horizontalmente sobre a face, desde a
raiz do nariz até à extremidade inferior da orelha; estas duas
linhas formarão um ângulo, a que chamaremos ângulo facial. à
proporção que o ângulo facial se torna mais agudo, a
inteligência e perfeição do homem diminui segundo a mesma
proporção. Os negros, que são muito inferiores nas faculdades
intelectuais aos Europeus, têm o ângulo facial muito mais
agudo, do que estes. O ângulo facial do cão é mais aberto que o
de um carneiro; e os peixes, que de todos os animais são os que
têm menor instinto, são também aqueles, cujo ângulo facial é
mais agudo.
2. Quanto mais as três divisões da cara, isto é a testa,
nariz, e parte inferior são iguais, tanto mais se pode contar com
exactidão do espírito e regularidade de carácter. Uma cara, da
qual a parte inferior ou aquela do meio é igual em longura às
outras duas juntas, anuncia estupidez. Um perfil belo sempre
supõe a analogia de um carácter distinto; mas encontram-se mil
perfis, que não sendo belos podem ser acompanhados de um
carácter superior.
3. Cabeça grande com uma pequena testa triangular,
indica espírito destituído de senso. O mandaril, que é uma
espece de macaco e um esboço de homem tem a cabeça muito
grande, talvez por isto não tenha um instinto ainda maior. A
cabeça do recém-nascido é mais grossa em proporção, que o
resto do seu corpo, e esta desproporção não desaparece, senão
depois da primeira idade, isto é da infância. Quando é muito
pequena indica fraqueza e inépcia. Não deve ser muito
arredondada, nem muito alongada. Quanto mais regular é,
tanto mais perfeita.
4. A parte superior da cabeça muito elevada é um sinal
característico do calculador. Um tal sinal indica que o homem
poderá ser bom Geometra, ainda que não seja bom Poeta.
5. Occiput ou nuca comprida, ou com avidade denota um
espírito fraco, e algumas vezes teimoso. A qui se pode aplicar
este princípio geral = Toda a concavidade notável denota a
fraqueza do órgão, que aí corresponde. =
6. Pela forma da testa e sua capacidade é, que se pode
medir seguramente a inteligência do homem: esta parte tem
sem dúvida grande relação com o entendimento. O
conhecimento destas relações obrigou Verneo a dizer =
Verosimile est animam eo loco esse, ubi actionessuas, nimirum
sensum et inteligentiam manifestat. =
7. Uma testa docemente arqueada e não oferecendo
ângulo algum indica doçura, e algumas vezes um carácter
destituído de energia; a experiência tem ensinado, que esta
regra não é falível, com tanto que se faça bem a sua combinação.
8. Enrugada e com regos anuncia desordem de paixões e
agitação da alma. Larga e lisa é sinal de paz, porque uma testa
serena não pode pertencer senão ao sossego, paz e
tranquilidade da alma.
9. Rugas só na parte superior de testa são indício de
admiração, e de um ar espantado, que se inclina algumas vezes
para a patetice, porque estas são, para assim me explicar, umas
feições filhas da impressão frequente e habitual de certas
afeições da alma.
10. Rugas perpendiculares denotam grande energia e
aplicação. Mas quando são cortadas por outras significam um
carácter teimoso e algumas vezes colérico.
11. Uma testa enrugada obliquamente indica um carácter
suspeitoso, e falto de espírito.
12. Quando é cheia de nós e protuberâncias irregulares
caracteriza o temperamento colérico.
13. Logo que se encontram rugas horizontais na reunião
da testa com o nariz, deve-se esperar um carácter duro e
insensível. Até em alguns animais brutos se verifica esta regra.
14. Regos profundos e perpendiculares entre as duas
sobrancelhas andão sempre acompanhados de muito espírito;
com tanto que o carácter não seja contrabalançado por outros
sinais contraditórios.
15. Uma testa larga, lisa, regularmente abobadada ou
arqueada com a veia frontal aparecendo distintamente no meio
promete talentos extraordinários.
16. Quando porém a testa forma uma perpendicular
completa dos cabelos às sobrancelhas designa uma falta total de
espírito.
17. Se é perpendicular, mas abobadada para o cimo, faz
esperar um espírito profundo, reflectido, e frio.
18. Arredondada e prominente, como a da maior parte dos
meninos, denota fraqueza de espírito. Se é muito proeminente
indica estupidez. A infância apresenta, ordinariamente, uma
testa arredondada e prominente; mas à proporção que as
faculdades intelectuais se desenvolvem, e que a energia se
manifesta, desaparece esta prominência.
19. Arredondada para o cimo, um pouco saída, e descendo
em linha recta promete um espírito irritável, coração de gelo;
muitas vezes uma tal testa caracteriza o melancólico, e algumas
vezes é indício de juízo.
20. Estreita denota ordinariamente um espírito indocil.
21. Inclinada para traz faz esperar um carácter fogoso e de
pouca reflexão, principalmente se o osso dos olhos não é bem
saído.
22. Muita alta anuncia um natural caprichoso.
23. Osso dos olhos saído e bem distinto promete aptidão
para os trabalhos de espírito.
24. Sobrancelhas ténues e delicadas são um sinal infalível
de fleugma.
25. Se são horizontais anunciam um carácter viril e
vigoroso. Quando são em parte horizontais e em parte
arqueadas, deve-se esperar energia e ingenuidade.
26. Postas muito para cima denotam quase sempre um
espírito incapaz de reflexão. Quanto mais se aproximam dos
olhos, mais o carácter se torna sólido e reflectido.
27. Grande distância de uma sobrancelha à outra designa
uma percepção fácil, espírito sossegado e tranquilo. Quando se
cortam e são angulosas denotam um espírito criador.
28. Umas sobrancelhas, para assim dizer, rudes e
desordenadas são indício de grande vivacidade. Quando são
espessas, compactas, e como tiradas ao cordel, espera-se um
juízo sólido, razão recta e assente.
29. Sobrancelhas fuscas e escuras são emblema de força.
Quando são brancas indicam um natural frio.
30. Os olhos indicam e exprimem particularmente os
sentimentos do coração, e os movimentos da alma. Não há
paixão, que os olhos não revelem. = Taciti oculi fatentur
arcana. =
31. Olhos azuis pertencem ao fleugmático; algumas vezes
indicam fraqueza e moleza. Se são negros exprimem energia,
têm força, expressão e vivacidade, ainda que não exprimem
tanta doçura. Esverdiados, ordinariamente denotam um
temperamento colérico; mas então as pálpebras são vermelhas,
distinctas e chanfradas. A experiência mostra a verdade desta
regra.
32. Agudos do lado do nariz prometem espírito e finura.
33. Olhos, cuja pálpebra superior corta diametralmente a
pupila anunciam finura e astúcia.
34. Olhos pequenos quase constantemente indicam um
carácter fino, espirituoso e sagaz. Grandes anunciam doçura e
bondade. Os animais, cujos olhos são notáveis pela sua
grandeza, se distinguem pela sua doçura; tais são os carneiros; o
contrário acontece no gato.
35. Quando a ultima linha da pálpebra superior forma um
semicírculo perfeito, temos um sinal de bom natural, e de muita
delicadeza misturada algumas vezes com sua timidez.
36. Olhos largos deixando ver muito branco acima da
pupila, ordinariamente fracos, pisados, e engraçados anunciam
o temperamento fleugmático: se porém são cheios de fogo,
denotam um temperamento sanguíneo, e uma espécie de
homens, que inquietos e destituídos de uma energia reflectida
não obram senão por capricho.
37. Quando são distantes um do outro mais que a largura
de um olho, anunciam um espírito fraco, e algumas vezes uma
constituição física, que promete longos dias. Os mais fortes dos
animais têm os olhos assim dispostos.
38. Olhos sombrios e baixos para a terra exprimem
melancolia. Negros, cintilantes, e cheios de fogo, indicam um
homem colérico e fogoso. A águia, que é nos ares entre as aves,
o que o Leão é sobre a terra entre os quadrúpedes, é um dos
animais, que tem os olhos mais cintilantes, e sabe-se que o seu
carácter é naturalmente duro e feroz, e que tem um
temperamento muito sujeito à cólera.
39.Logo que os olhos vistos ao perfil parecem quase ao
nível como o nariz, sem todavia serem salientes, anunciam
sempre uma organização fraca, e algumas vezes uma espécie de
imbecilidade.
40. Olhos postos obliquamente, e inclinados para o nariz
formando ângulos muito agudos nas suas extremidades, ainda
que não indicam vivacidade, são sinais de prudência, e doçura.
Os Chineses tendo os olhos assim dispostos podem servir de
exemplo e confirmar esta regra.
41. O nariz é de pouca expressão; mas pela sua forma e
posição respectiva às outras partes do rosto oferece caracteres
certos.
42. Um nariz aquilino anuncia um carácter imperioso, e
paixões ardentes. Cf. a regra 49.
43. Um nariz, cujo dorso ou espinhaço é largo, promete
qualidades superiores.
44. Quando as partes laterais e inferiores são móveis e
bem soltas, indica propensão para a sensualidade.
45. Curvo na base exprime um carácter nascido para
mandar, firme em seus projectos, e ardente em os levar ao fim.
46. Ventas pequenas são indício de timidez.
47. Nariz pontiagudo pertence ao colérico. Inflexão ligeira
na sua extremidade indica finura. Se inclina consideravelmente
para a boca é muitas vezes indício certo de um espírito frio e
reservado; outras vezes caracteriza o avaro, mas então é curvo
na base.
48. Nariz de uma forma irregular, côncavo no meio, e
cujos contornos são angulosos é sinal de um espírito grosseiro.
O mesmo se deve dizer de um nariz muito distante da boca,
levantado, e para assim dizer, que retrocede.
49. À proporção que se aumenta a cavidade notável no
dorso do nariz, diminui segundo a mesma proporção o
desenvolvimento das faculdades intelectuais. O nariz do negro
nos oferece ocasião de fazer a aplicação deste princípio. O nariz
do infante Europeu apresenta uma cavidade notável, à medida
que suas faculdades se desenvolvem, e que sua energia se
manifesta, o dorso do nariz perde esta cavidade, e muitas vezes
até constitui, o que se chama nariz aquilino. Pelo contrário, o
nariz do negro fica sempre côncavo.
50. A boca exprime quase sempre o estado interior da
alma, e é a feição mais expressiva.
51. Uma boca, cuja fenda é direita, beiços pequenos,
cerrados, unidos e muito bem pronunciados, e distintos, com
uma barba e nariz pontiagudo caracteriza o avaro.
52. Uma boca, cujos beiços são pequenos, cerrados, a
fenda direita, mas com as extremidades levantadas, é indício de
amor-próprio, que tem degenerado em afectação.
53. Beiço inferior saído para fora indica bondade natural
fria.
54. Boca contraída, sem que apareçam os beiços, promete
um espírito aplicado, amigo da ordem e do asseio.
55. Grande distância da boca ao nariz anuncia sua falta de
prudência, ou antes precipitação.
56. Beiços grossos, espessos, e carnosos são indício de
sensualidade, preguiça, e sempre caracterizam o fleugmático.
57. Beiços grandes, distintos e bem proporcionados são
sinal de um carácter incompatível com a falsidade, maldade e
baixeza, mas inclinado à voluptuosidade.
58. Barba avançada, sacada para fora; e prominente
denota sempre energia. Todos os animais, à excepção do
homem carecem de barba. A anatomia comparada nos fornece
luzes preciosas sobre a sua expressão fisiognómica. Em os
animais, que mais se aproximam do homem, a queixada inferior
assas desenvolvida, forma uma espécie de barba; e à medida
que se apartam do homem, esta parte torna-se cada vez mais
insensível, até que desaparece. A barba do homem, que parece
indicar a sua força da alma, é mais pronunciada, que a da
mulher, que ordinariamente é arredondada, e para assim dizer
recolhida. Não deve pois causar espanto às pessoas, que
concebem a harmonia, que deve reinar em o Universo, que a
maior ou menor saída da barba indica um grau de energia
maior ou menor.
59. Pontiaguda denota algumas vezes astúcia. Logo que se
associa a olhos pequenos designa sua falta de sinceridade. Logo
que sua forma é angular anuncia espírito sensato, e coração
benfazejo.
60. Uma barba chata anuncia um temperamento frio. Se é
mole, carnosa, e com barbela indica sensualidade; pequena
timidez; redonda com uma covinha bondade; incisão forte no
meio carácter algumas vezes judicioso e resoluto.
61. Faces carnosas denotam muitas vezes um apetite
sensual; com um profundamento triangular são infalível sinal
de inveja, e ciúme; com regos grosseiros, indicam rudeza, e
brutalidade.
62. Cabelos curtos, negros, crespos, e rudes supõem um
carácter irritável, e muitas vezes falto de sensibilidade. Louros,
e macios denotam quase sempre o contrário. Diferença notável
na cor dos cabelos à das sobrancelhas deve inspirar
desconfiança.
63. Cabelos duros, negros, crespos, e densos indicam
algumas vezes lascívia, e sensualidade. As aves, que têm mais
penas, amam mais perdidamente suas fêmeas; os homens, que
são mais cabeludos são mais amorosos: Tableau de l’Amour
conjugal, Part. 2, Cap. 7, Art. 1. Algumas vezes denotam pouco
espírito; mas assiduidade, e amor da ordem.
64. Negros, e delgados em uma cabeça meia calva, cuja
testa é elevada e bem abobadada prometem juízo são e claro.
Louros anunciam um temperamento delicado: ruivos ou
pessoas sumamente boas, ou sumamente más.
65. Pescoço comprido, e alongado indica um carácter
lento, e vagaroso. Curto e grosso, principalmente se as veias são
muito aparentes, anuncia o homem colérico. Bem
proporcionado promete solidez de carácter. Com uma espécie
de papo caracteriza a ignorância crassa, e a estupidez.
66. Orelhas chatas, e sem forma pertencem a um homem
sem génio: Se são muito arredondadas a um homem ordinário:
Pequenas e delgadas são sinal de um espírito fino e delicado.
67. Ombros largos, que se não elevam em ponta, são sinal
de força, e de saúde, principalmente quando andam
acompanhados de um nariz grande, que algumas vezes é sinal
de robustez, e coragem. É por isto que Heliogabalo, segundo
refere Lampridio, escolhia para a guerra os Soldados, que
tinham o nariz muito grande, afim de resistir mais fortemente
aos inimigos. Cf. Tableau de l’Amour conjugal, Part. 1, Cap. 2,
Art. 2.
68. Peito largo, quadrado, nem muito convexo supõem
ombros bem constituídos. Chato ou cavo denota fraqueza de
temperamento.
69. Barriga grande, e proeminente indica sensualidade, e
preguiça. Em geral um temperamento seco indica espírito e
finura: Um temperamento sobrecarregado de gordura indica o
contrário, isto é, falta de espírito e finura. Um temperamento
delicado anda acompanhado de muita timidez.
CAPÍTULO VI

Fisiognomias Nacionais; sua existência e origem

As feições características, que distinguem os indivíduos da


espécie humana podem dividir-se em duas classes; umas
exprimem um carácter comum a uma Nação inteira, e a sua
reunião constitui o que se pode chamar – uma Fisiognomia
Nacional - : as outras devem-se considerar como secundárias, e
indicam o carácter particular de cada individuo. Temos tratado
destas feições secundárias; Resta falar das Fisiognomias
Nacionais. A sua existência é conhecida à primeira vista pelo
homem o menos exercitado. Consulte cada um a sua
experiência, e veja o que esta lhe ensina. Ela pode ser
considerada como um monumento histórico. Assim a História
nos ensina, que todas as Nações têm um carácter, que lhes é
próprio. Há duas maneiras de explicar a origem do carácter, ou
antes das Fisiognomias Nacionais, a saber: por causas morais e
por causas físicas. Eu chamo causas morais tudo o que pode
operar sobre o espírito, e afeiçoá-lo a certos hábitos; que excita,
reprime, ou dirige suas paixões; que inspira vileza, ou coragem,
como são a educação, a Religião, a natureza do governo, suas
máximas e princípios, as revoluções, que ele tem sofrido, etc.
Por causas físicas entendo eu o ar, que se respira; o clima, que
se habita; e em uma palavra tudo o que influe em o
temperamento. Da influência das causas morais, e da força da
imitação e do hábito a experiência sempre constante não
consente que se duvide. O mesmo podemos afirmar a respeito
das causas físicas. Nós vemos, que elas influem poderosamente
sobre todos os animaes, e que aqueles mesmos, que podem
viver em todos os climas, não chegam em toda a parte à sua
perfeição: assim por exemplo a Espanha é nomeada pelos
cavalos ligeiros, e vigorosos.
Todas as raças degeneram, logo que se transplantam, e
perdem as qualidades, que tinham no seu clima natal; e deveria
o homem só ser exceptuado desta lei geral? Não deve ele estar
sujeito às leis, por que se governam os entes animados? A
matéria ígnea espargida sobre o globo, influi sobre os vegetais e
animais, e visivelmente sobre as faculdades físicas do homem.
Ora as faculdades morais do homem poderão elas não se sentir
da alteração das suas faculdades físicas? É tal a natureza das
relações, que existem entre o corpo do homem e o seu espírito,
que as afeições de um devem necessariamente comunicar-se ao
outro. Alterando-se o mecanismo natural do homem, alteram-
se suas faculdades morais. Nós mesmos, que vivemos nos
climas temperados, não experimentamos no meio dos calores
excessivos do estio uma espécie de languidez e frouxidão, que
tem para assim dizer nossa memória adormecida? Não nos
parece, que um véu se estende sobre nossas ideias, e que uma
força externa comprime toda a nossa inteligência? O ar, que se
respira, é uma espécie de alimento contínuo dos viventes,
bebem nele, e temam esta ou aquela qualidade de humores, que
inclinam já para esta, já para aquela paixão.

CAPÍTULO VII

Regras sobre o carácter Nacional

A mistura das diferentes raças da espécie humana, e as


suas relações, devem enfraquecer necessariamente a expressão
do carácter nacional, mas não o extinguem facilmente. Os
outros animais confirmam também esta regra. Quanto mais os
homens se aproximam pelos laços do sangue e da sociedade,
mais se parecem na linguagem, modo de viver, costumes,
hábitos, e em fim pela conformação das partes exteriores. As
pessoas das diversas províncias do mesmo Reino, dão lugar à
observação desta regra. é este o motivo, porque se conhece uma
grande semelhança entre as Nações, que têm relações de
comercio e amizade; Sua forma se assemelha de algum modo
pela influência do clima, pela força da imitação e do hábito.
O carácter nacional antigamente era mais forte; porque à
medida, que as raças se confundem, desaparecem as diferenças,
que as raças se confundem, desaparecem as diferenças, que as
caracterizavam. Antigamente cada nação vivia mais
concentrada, havião menos viagens, e ligações políticas de uns
povos para com os outros; os Embaixadores ordinários e
residentes eram desconhecidos, as navegações mais raras, e
pouco comércio externo.
As causas morais e físicas, que modificam tão
visivelmente o carácter dos homens, têm muito menos império
sobre o carácter das mulheres. Esta observação não é destinada
a mostrar a energia de um sexo nascido para agradar; ela prova
só, que um carácter pouco enérgico toma a tintura dos
costumes, que o cercam, de uma maneira proporcionada à sua
fraqueza. Tudo é regular na natureza. As faculdades morais dos
infantes oferecem em todas as nações um fenómeno
semelhante.
Em geral pode-se notar sua diferença entre o carácter dos
homens, e o carácter das mulheres. Nestas tudo é mais
arredondado, as formas são para assim dizer mais doces, e as
feições mais finas. O homem tem força e majestade, a mulher
tem graças e beleza; doçura e sensibilidade constituem o seu
dote natural.
Quanto mais as notas dos dois sexos se confundem, tanto
mais o seu carácter é semelhante; a mulher toma qualidades e
animo varonil, e o homem torna-se efeminado.
Pode-se medir o estado da civilização ou barbaridade de
um povo pela natureza da sua conduta para com o belo sexo.
Quanto um povo mais civilisado está, mais favorece o sexo
fraco, e lhe mostra estas atenções, que indicam uma verdadeira
delicadeza. A história nos ensina, que quanto mais bárbaro é
um povo, mais a condição das mulheres aí é deplorável. Os
Romanos, quando viviam na infância da sua civilização, nos
deram disto uma prova; e à proporção, que se aumentou a sua
civilização, a sua conduta foi favorável para com as mulheres. A
razão, porque as gentes mais civilisadas são as que tratam
melhor o belo sexo, é porque as gentes delicadas são aquelas,
que a cada idéa ou a cada gosto juntam bastantes gostos
acessórios. Pelo contrário, as pessoas grosseiras não têm senão
uma sensação, sua alma não sabe compor nem decompor, e
nem junta, nem tira coisa alguma ao que a natureza dá.
As pessoas mais bem feitas e proporcionadas são,
geralmente falando, as mais corajosas e fortes. O Autor da
Grandeza e decadência dos Romanos, no Cap. 22, falando dos
Árabes diz, que eram os homens de melhor figura, que se tem
visto no mundo e também os mais fortes e corajosos. Severo e
Maximino os empregaram no seu serviço com muita vantagem,
e os Godos não lhes puderam resistir. Os grandes comedores de
carnes são em geral mais cruéis; é bem conhecida por isso a
crueldade da nação Inglesa. Os Gauros, que se abstêm
severamente de toda a carne, são os mais doces de todos os
homens. Todos os Selvagens são cruéis, e esta crueldade deve-se
em grande parte ao seu alimento. Eles vão à guerra como à caça.
Pitágoras, segundo refere Plutarco, se abstinha de comer carne.
Os homens, que têm coração mais sensível, não podem tirar a
vida a um pobre animal sem defeza, e seus olhos não podem
suportar morte alguma sem horror.
São duas as causas, que aceleram ou retardam o
desenvolvimento da inteligência de um homem, ou de uma
Nação, que excitam, reprimem, ou dirigem suas paixões, e que
lhe inspiram vileza ou coragem. Umas denominam-se causas
físicas, outras causas morais. é difícil determinar com precisão
os graus de actividade de cada uma destas forças; mas pode
dizer-se em geral, que as causas físicas têm sempre maior grau
de poder em uma sociedade pouco civilizada.
A influência do clima é muito forte nos climas
extremamente quentes, ou extremamentes frios, mas pouco
sensível nos temperados; porque nestes o calor natural anda
ordinariamente em equilíbrio com o calor da atmosfera. Se há
alguma diferença, ela é pouco sensível, se não na sua
intensidade, ao menos nos seus efeitos. Mas não é só a situação
de um país em relação ao Sol, que pode determinar o clima; o
que o constitui é um grau constante de calor ou frio na
atmosfera; e este efeito depende de outras muitas causas, como
da extensão do continente, etc.
Nos climas muito caracterizados, isto é nos muito quentes
ou muito frios, o desenvolvimento das faculdades morais, é
como prezo por uma força secreta. Aqui se verifica a máxima
geral = que os extremos se tocam = Estas causas alterando da
mesma maneira o mecanismo natural do homem, não podem
deixar de produzir o mesmo efeito. A extrema frouxidão e
relaxação das fibras, a inactividade dos fluidos, a demora de
todas as acções animais tocam o homem excessivamente nos
climas muito quentes; ele cai em uma espécie de
adormecimento e de estupidez. Nos países muito frios a tensão
das fibras, o jogo violento dos fluídos, a contracção dos vasos
sanguíneos, um sangue mais espesso devem produzir o mesmo
efeito. As leis em uma tal qualidade de países devem ter muita
energia.
Nos climas temperados a natureza acelera o
desenvolvimento das faculdades. Em um tal país, o Legislador
não terá necessidade, senão de destruir alguns obstáculos, para
fazer nascer este movimento político, que dá vida à sociedade.

CAPÍTULO VIII

Carácter das principais Nações da Europa

A comparação das diferenças, que caracterizam as


diversas nações, têm fornecido ideias luminosas sobre a
influência da civilização e natureza dos governos na moral dos
povos: por isso transcreveremos aqui o carácter das principais
nações da Europa; assim como também porque este
conhecimento facilita o estudo desta Ciência.

FRANÇA

Os Franceses cercados por diversos povos participam do


diferente carácter das nações, que os cercam: portanto é difícil
determinar o seu carácter nacional. Nas extremidades da
França a fisiognomia, toma o carácter das nações limítrofes; em
Baiona se encontram fisiognomias Espanholas, assaz
caracterizadas; em Provença se encontram fisiognomias
Italianas. O equilíbrio que resulta desta feliz mistura, e
combinação de faculdades diversas, os torna igualmente
próprios ao estudo de todas as ciências. Inconstancia, graça,
sociabilidade, e um humor alegre, a que chamam viveza de
espírito, forma em geral o seu carácter. O carácter das
Francesas igualmente apresenta formas tão variadas, que se
pode dizer que ele é rebelde à análise. Costuma-se-lhe notar
uma inconstância extrema enquanto às modas, à escolha de
seus prazeres e divertimentos. Em geral o seu temperamento é
sanguíneo = bilioso.

INGLATERRA

Nos Ingleses domina visivelmente o temperamento


sanguíneo, e esta é a causa, porque a sua cor é muito bela; seus
olhos são vivos e animados, e a sua fisiognomia anuncia energia
e paixões mui vivas. Preservando nos projectos, que uma vez
formou, se impacienta e enfada com os seus obstáculos.
Repreende-se a sua crueldade. O Inglês mostra em todas as suas
acções uma cara sombria; mas quando está alegre, sua alegria é
pendente. Sua testa caracteriza o homem, que pensa, e de
reflexão. O temperamento das Inglesas em geral é sanguíneo,
bilioso junto com uma tintura de fleugma; sua tez é branca e seu
talhe esbelto. Não tem esta vivacidade, que distingue a
Francesa, mas tem em recompensa uma sensibilidade profunda
ainda que pouco dilatada; preenchem com exactidão seus
deveres domésticos, são filhas submissas, esposas fiéis, e mais
caritativas, juntando a estas virtudes domésticas os belos dons
de espírito. Algumas feições parecem caracterizar o génio
poético; e a longura do seu pescoço anda a par de um carácter
indolente.

ESPANHA

A testa do Espanhol é elevada e arredondada, suas


sobrancelhas espessas, e em geral sua figura é seca e magra, e o
seu rosto alongado. Uma certa gravidade o caracteriza; ele se
torna ainda mais grave pelo fogo, que exprimem seus olhos. O
seu carácter pouco flexível não se sujeita senão dificilmente às
circunstâncias. Uma preguiça, e inércia tanto moral como física
o caracteriza, o que se atribui em grande parte ao excessivo
calor do clima, e a outras causas morais; reflecte pouco, porque
a reflexão é um trabalho do espírito, e ele detesta toda a espece
de trabalho. Têm singularmente desprezado as artes mecânicas
satisfeitos de viver; como viviam seus pais. Seu temperamento é
seco e em virtude do calor do clima são muito amorosos. As
Espanholas antes apaixonadas, que ternas são assaz constantes
em amor; mas desgraçado daquele, que as abandona faltando
aos votos de um amor eterno: a paixão, que as dominava, muda
de carácter, troca-se em furor e vingança, e logo se deixa ver sua
detestação. Seus olhos são negros e vivos, e os cabelos da
mesma cor. A Espanhola se não tem muita declicadeza, tem
uma certa grandeza da alma, e sabe sustentar o peso da
desgraça com firmeza.

ALEMANHA

A fisiognomia do Alemão anuncia doçura, paciência e um


espírito, que tudo sofre a sangue frio. Invariavel nos seus
desígnios prosegue o seu caminho pelo meio dos espinhos, que
o cercam. Sua alegria é temperada assim como a expressão da
sua dor. A vasta memória, que promete a sua larga testa, o torna
próprio aos estudos e serviços, que exigem muita memória, por
exemplo para fazer uma compilação etc. Suas fábricas em todo o
género provam o seu engenho e aplicação. Os olhos das Alemãs
são ordinariamente azuis, os cabelos louros, e a sua voz doce.
Bastantes entre elas possuem o conhecimento de muitas
línguas, cantam com gosto, e são boas músicas; debaixo de um
ar de negligência ocultam um carácter muito laborioso. São
antes ternas, que apaixonadas, e se são enganadas por um
algum pérfido amante, choram, gemem em silêncio, e levam até
à sepultura o pesar de ter amado um inconstante. O seu
temperamento é fleugmático mais ou menos misturado com o
bilioso ou melancólico. As virtudes domésticas distinguem as
Alemãs de todas as mulheres da Europa.

RÚSSIA

Os Russos não oferecem feições assaz vivas, para que se


possam descrever com exactidão; sua fisiognomia foge para
assim dizer à análise, e é mais fácil perceber-se, que descrever-
se. Basta dizer que são fortes e robustos e por isso bons
Soldados, e que são notáveis pela muita confiança, que têm no
seu Príncipe, ao que talvez se deva atribuir a revolução tão
repentina e pasmosa, que Pedro I causou nos costumes desta
Nação. As Damas Russas têm bastante espírito e são amáveis,
mas encontra-se raras vezes entre elas este espírito de ordem e
economia tão necessário à mediocridade, e que caracteriza as
Alemãs. São mais próprias para fazer os encantos de uma
sociedade, do que para o governo de sua casa. Elas brilham
principalmente em falar bem diversas línguas; e algumas têm
mostrado uma coragem, que parece pertencer exclusivamente
ao sexo varonil.
ITÁLIA

A fisiognomia do Italiano é aquela, que se aparta menos


das justas proporções: Seu ângulo facial é bem aberto, sua testa
perpendicular; o nariz um pouco arqueado. Uma extraordinária
mobilidade nas suas acções caracteriza o Italiano. Eles são
espirituosos, e finos políticos; mas acusam-nos de dissimulação
e inveja. A Italiana é susceptível de paixões violentas, mas sabe-
as encobrir com arte. Elas brilham na arte de agradar, e são
excelentes músicas. O amor da vingança as caracteriza, mas
fecham o seu ódio e furor no fundo do coração, e esperam uma
ocasião propícia. Se uma Italiana possui os atractivos, que
fazem uma bela, faltam-lhes estas graças e ternura, que indicam
uma verdadeira delicadeza.

HOLANDA

O temperamento fleugmático domina visivelmente nos


Holandeses, talvez em virtude da sua atmosfera composta de
constantes nevoeiros, e porque vivem em uma região alagadiça
e sobremaneira baixa. A sua fisiognomia anda a par de um
homem, que não se afasta do fim, a que se propôs, e que sabe
vencer todos os obstáculos à força de paciência; ela não anuncia
um guerreiro nem um poeta, mas convém a um bom
comerciante, a homem tranquilo sem ambição, mas económico.
O carácter das Holandesas não difere do das Alemãs, senão por
uma fleugma mais pronunciada. Só a Holanda nos oferece
temperamentos fleugmáticos sem mistura. As Holandesas têm
todas as virtudes domésticas, que caracterizam as Alemãs, mas
sua sensibilidade é menos viva; e seu espírito menos cultivado.

Omito a descrição dos Portugueses: talvez por isso seja


criticado, por esta ser a minha Nação; mas por esse mesmo
motivo é que assim obro. Sou Português, e falo a Portugueses.