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A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ORGANIZACIONAL E DO TRABALHO NO NORTE DO RIO GRANDE DO SUL

A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO
ORGANIZACIONAL E DO TRABALHO NO
NORTE DO RIO GRANDE DO SUL
The performance of work and organizational Psychologist in the northern Rio
Grande do Sul

PINHEIRO, L. R. S.
MARIO, C.
GIACOMINI, M.

Recebimento: 13/11/2011 - Aceite: 14/12/2012

RESUMO: O presente estudo tem como objetivo caracterizar  o perfil do


psicólogo organizacional e do trabalho quanto à sua formação e atuação na
região do norte do Rio Grande do Sul, identificando as dificuldades destes
profissionais e descrevendo o modelo de atuação na qual as suas práticas são
pautadas. Para consolidar esta pesquisa, utilizou-se como coleta de dados um
questionário, baseado no método quantitativo descritivo. Participaram desta
pesquisa 22 psicólogos que atuam na área da Psicologia Organizacional e do
Trabalho, contratados de acordo com a Consolidação das Leis do Trabalho.
Como resultado, percebeu-se que os profissionais consideram a sua formação
suficiente para a sua prática, descrevem sua prática como estratégica, porém
constata-se que a rotina diária contempla atividades que se referem ao modelo
operacional, como por exemplo, recrutamento e seleção. O pouco contato
com as questões decisórias foi sentido como uma das maiores dificuldades
desse profissional, o que corrobora com limitação de uma prática operacional.
Palavras-chave: Psicologia Organizacional e do Trabalho. Perfil do psicólogo.
Norte do RS.

ABSTRACT: The present study aims to characterize the profile of the or-


ganizational and work  psychologist as for their training and performance in
the northern region of Rio Grande do Sul, identifying and describing the pro-
fessional model of performance in which their practices are based. To con-
solidate this  research, a questionnaire, based on  descriptive  quantitative
method,was sused  as  for  data collection.  22  psychologists working  in the
area of ​​Work  and  Organizational Psychology, selected in accordance  with

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the Consolidation of Labor Laws took part in the research. As a result, it was


found that  professionals consider  their education suitable for  their practi-
ce, describing their practice as strategic, however, it was noticed that the daily
routine includes activities that relate to the operational model, such as recruit-
ment and selection. The little contact with decision-making issues was felt to
be a major difficulty of this professional, which confirms a limited operational
practice.
Keywords: Work and Organizational Psychology. Profile of the psychologist.
Northern RS.

quisa teve como objetivo caracterizar o perfil


do psicólogo organizacional e do trabalho
Os desafios da Psicologia na
quanto à sua formação e atuação na região
Organização do norte do Rio Grande do Sul. O estudo ob-
jetivou, ainda, identificar as dificuldades dos
No contexto atual, o mercado segue a lógi- profissionais da área e descrever o modelo
ca capitalista na qual o trabalho está pautado de atuação dos psicólogos organizacionais e
nos princípios de produtividade, eficiência e do trabalho. Sendo assim, justifica-se a im-
competitividade. É neste cenário que a psi- portância da presente pesquisa para avaliar
cologia se torna presente nas organizações, essa práxis, sugerindo estratégias a partir dos
tendo em vista que o principal diferencial das resultados e, além disso, contribuindo para a
organizações são as pessoas. evolução científica da área da POT.
Apesar das inúmeras mudanças ocorri-
das nos últimos séculos no que refere aos
vários contextos desde o econômico, o A evolução da Psicologia
social, o cultural e o tecnológico, pelo que Organizacional e do Trabalho -
passou a psicologia organizacional, a área POT
ainda está voltada para métodos tradicionais
como recrutamento, seleção e treinamento A POT é uma área da psicologia na
(PEREIRA; GOMES, 2009). Ainda é bas- qual o foco é o estudo do comportamento
tante conhecida por intervir no momento da humano nas relações de trabalho. Desde o
aparição dos sintomas, como em casos de seu nascimento, por volta do século XX, a
queda de produtividade, crescentes índices de área foi distinguida em três fases na qual
absenteísmo e rotatividade, desencadeamento as práticas e os interesses da psicologia nas
de doenças, desmotivação, insatisfação, etc. organizações tiveram modificações, sempre
(AZEVEDO; CRUZ, 2006). acompanhando o desenvolvimento indus-
Alguns autores (PEREIRA; GOMES, trial e econômico da sua época (ZANELLI,
2009; ZANELLI 2002) citam o insuficiente 2002). A primeira fase surge no período que
conhecimento da área da Psicologia Organi- o taylorismo está em alta com seu modelo
zacional e do trabalho (POT) nos cursos de rígido de padronização do trabalho, visando
formação, fazendo com que os profissionais a uma maior produtividade. A psicologia
que atuam nessa área sejam despreparados surge, nesse momento, atrelada aos interesses
para o mercado, seguindo um perfil de atua- das indústrias, instrumentalizando alguns
ção que não se pauta nas reais necessidades pressupostos do taylorismo (GOULART
das empresas. Neste sentido, a presente pes- et. al 1998). Os psicólogos, nesse período,

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focam o indivíduo com o intuito de colocar No Brasil a POT tem suas origens por
as pessoas adequadas nos serviços adequados volta da década de vinte na prática de seleção
respectivamente, tendo uma ênfase especial e orientação de pessoas para trabalho em
nesse período para a criação e uso de testes ferrovias (BASTOS; GALVÃO-MARTINS,
psicométricos (SILVA; MERLO, 2007). 1990), crescendo de forma significativa na
Na segunda fase, os psicólogos deixaram década de trinta, juntamente com os postos
de estudar apenas os postos de trabalho e de trabalho que aumentaram nesse período.
começaram a contribuir nas discussões e Cabe ressaltar que, a regulamentação da
estruturas da organização. Segundo Iema psicologia como profissão ocorre no período
(1999, p.40) “o psicólogo organizacional em que o parque industrial brasileiro tem um
extrapolou o nível de análise do indivíduo enorme avanço, o que denotou a necessidade
como um ser isolado e passou a enxergar a de profissionais capacitados para trabalhar
organização como uma fonte de variáveis que com os recursos humanos que surgiam desse
deveriam ser consideradas no ajustamento do avanço industrial (SILVA; MERLO, 2007).
homem ao trabalho”. Percebe-se que o foco O cenário atual exige da POT uma visão
de atuação é expandido, mas a produtividade pluralista, compreensão multidisciplinar dos
ainda é o objetivo maior. eventos da empresa, capacidade de análise
A terceira fase focaliza, como ponto cen- e negociação entre os desejos da empresa
tral de estudo, a compreensão do trabalho e de seus colaboradores, visão do conjunto
humano em todos os seus significados e da organização, capacidade de trabalho em
manifestações, deixando de lado a obsessão equipe, além de conhecimento em mais de
pela produtividade, que as duas fases ante- uma área (IEMA, 1999). O termo POT é
riores apresentavam, e preocupando-se com utilizado, atualmente, para abranger as di-
uma compreensão do homem que trabalha versas atividades do psicólogo que atua nas
(GOULART; SAMPAIO, 1998). A POT au- organizações, desde as mais operacionais/
xilia a mostrar que o sucesso da organização tradicionais como o recrutamento e seleção,
depende enormemente de sua capacidade até as mais estratégicas como as tomadas de
humana. A partir daí, fazer com que o traba- decisões e intervenções na dinâmica da orga-
lhador tenha uma vida saudável, equilibrada nização. De acordo com Zanelli (2002, p. 25),
e com bem-estar, tornou-se essencial. Assim, a atuação deste profissional “traz a ideia tanto
criaram-se novas formas de gerir pessoas e a dos fatores contextuais imediatos do trabalho
psicologia amplia os seus objetivos no cam- quanto às características organizacionais que
po organizacional e do trabalho (BORGES; exercem influência sobre o comportamento
OLIVEIRA; MORAIS, 2005). do trabalhador.”
Destarte, essas fases não são delimitadas Sendo assim, há uma gama de atividades,
corretamente no tempo já que o surgimento que podem receber a contribuição do psicó-
de uma não significa o fim de outra, mas sim logo, tais como Recrutamento e Seleção de
uma ampliação ou exclusão de práticas na Pessoal, Aplicação de Testes Psicológicos,
área da POT. A mudança no âmbito de atu- Treinamento e Desenvolvimento, Avaliação
ação da psicologia acompanhou a mudança de Desempenho/ Potencial/ Perfomance,
das organizações, que necessitaram alterar Coaching, Atendimento aos colaboradores,
a visão não só da produtividade, mas, tam- Diagnóstico Organizacional, Programas de
bém, de seus recursos humanos (BASTOS; Qualidade, Análise de cargos e salários,
GALVÃO-MARTINS, 1990). Entrevista de Desligamento, Pesquisa de

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Clima, Programa de Qualidade de Vida no Região Norte do Rio Grande do Sul, que
Trabalho (QVT), Trabalhos de saúde mental possuem psicólogos, somando um total de
do trabalhador, Prevenção em acidentes de 23 profissionais. Destes, 22 responderam
trabalho, entre outros. o questionário. Os participantes receberam
Bastos e Galvão-Martins (1990) mencio- orientações de que o questionário seria
nam que, além do crescimento da atuação do impresso sem as informações do e-mail do
psicólogo dentro das organizações ser um participante da pesquisa para garantir o seu
processo lento, configura-se alvo constante anonimato.
de críticas, em sua maioria voltadas para o O questionário envolveu questões refe-
papel, tido como intermediário, das relações rentes aos dados pessoais como sexo, idade
sociais de exploração e discriminação. Con- e tempo de formação, se o profissional possui
tudo, observa-se hoje, uma década depois, algum tipo de especialização na área de tra-
que o papel do psicólogo organizacional foi balho ou noutras. Foi investigada, também,
muito ampliado e reconhecido. a percepção dos participantes quanto à for-
mação acadêmica, em relação à área da POT,
Apesar da POT ser o terceiro maior campo
bem como a área que mais lhe interessava
de atuação dos psicólogos, sendo ocupa-
no período de sua formação. Averiguou-se
do por cerca de um quarto dos psicólogos
porque o profissional trabalha na área da
(BASTOS; GONDIM, 2010), ficando atrás POT, há quanto tempo e se, além desta, atua
apenas da área clínica e da psicologia da em outra área da psicologia. Alguns dados
saúde (MERLO; SILVA, 2007) que são áreas sobre a empresa também foram questiona-
muito destacadas nos cursos de graduação e dos, como o número de funcionários, qual o
que acabam por ser a representação da psi- cargo que o profissional da psicologia ocupa
cologia, é possível observar que, apesar do na empresa, sua carga horária de trabalho e
crescimento que teve nos últimos anos, ainda quantos profissionais da psicologia trabalham
há certa escassez de estudos na área da POT, na instituição. A partir disso, o questionário
em especial em relação ao perfil dos psicó- buscou conhecer como os profissionais
logos organizacionais, formas de atuação e sentem-se na realização de sua função, quais
dificuldades encontradas por esses profissio- as atividades que realizam em escala de fre-
nais. Portanto, a realização desta pesquisa quência, quais os testes que utilizam, de que
torna-se válida por avaliar as práticas destes maneira entendem o seu fazer na empresa
profissionais, procurando delinear um perfil (se segue mais o modelo operacional ou
de atuação dos psicólogos dentro desta área. estratégico), os fatores que contribuem para
o estilo de atuação, como avaliam a abertura
dos gestores em relação à atuação do pro-
Materiais e métodos fissional psicólogo, quais são as principais
dificuldades encontradas na sua atuação e
Trata-se de um estudo quantitativo descri- como esse profissional age para manter-se
tivo, tendo como participantes 22 psicólogos atualizado na área da POT.
que atuam na área da POT na região Norte O período de coleta de dados foi de julho
do Rio Grande do Sul, contratados de acordo a setembro de 2010 e a análise dos dados
com a Consolidação das Leis do Trabalho foi feita através da estatística descritiva, que
(CLT). Os dados foram coletados através permite conhecer as características de distri-
de um questionário estruturado enviado via buição de dados, no período de setembro a
correio eletrônico a todas as empresas da dezembro de 2010.

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rio em seus estudos e pesquisas, apontando


para a formação do psicólogo como uma das
O profissional da POT no norte maiores dificuldades encontradas na atuação.
do Rio Grande do Sul Pereira e Gomes (2009) colocam a formação
como insuficiente, fazendo com que os for-
O presente estudo abrangeu todas as em- mandos não estejam preparados, de maneira
presas que possuem psicólogos contratados satisfatória, para o mercado de trabalho. Os
na região delimitada, que conta com 33 mu- cursos de psicologia, de acordo com Zanelli
nicípios. Dessas empresas, 91,67% respon- (1994 apud IEMA, 1999) preparam insatis-
deram o questionário. A partir desse levan- fatoriamente os seus alunos e os influenciam
tamento foi possível observar que 100% dos negativamente quanto à área organizacional,
profissionais são do sexo feminino, fato que enfatizando apenas a área clínica. Porém, a
se justifica pelo grande número de psicólogas formação em POT dos profissionais pesqui-
no mercado do trabalho. Segundo Rosemberg sados não foi elencada como insuficiente,
(1984) é reflexo da dicotomização do trabalho fornecendo assim uma base para a atuação,
quanto aos papéis sexuais, sendo a psicologia dado esse que se diferencia da maioria dos
vista como profissão feminina, pois à mulher estudos (IEMA, 1999; PEREIRA; GOMES,
é dado um papel mais expressivo (caracterís- 2009). Pode-se pensar que a característica
tica da psicologia) enquanto ao homem um dos cursos de graduação dos profissionais da
papel mais instrumental. Um estudo mais região esteja preparando-os para outras áreas
recente do Conselho Federal de Psicologia e não apenas com o enfoque clínico.
(2003, apud SILVA E MERLO, 2007) mostra Mesmo considerando a formação boa,
que a psicologia é uma profissão exercida em é possível observar que a maioria dos pro-
sua maioria por mulheres que correspondem fissionais pesquisados (77,27%) possui
a 92,2% dos profissionais da área. especialização na área da POT, sendo que
Quanto à faixa etária, 40,91% dos profis- desses, 35,29 % possuem mais de uma espe-
sionais pesquisados tem até 25 anos e fazem cialização, havendo uma maior concentração
parte da chamada geração Y que compreende na área da Gestão de Pessoas. Pereira (2009)
as pessoas que nasceram a partir de 1978 destaca que, ao entrar nas organizações, o
(VELOSO et al., 2008) e que se caracteriza psicólogo não consegue desempenhar todas
pelo contato com a tecnologia, estando sem- as suas atribuições, porque a formação aca-
pre em ação e realizando múltiplas atividades, dêmica foi carente de um aprofundamento
perfil esse que é procurado pelas organiza- em determinados conteúdos; com isso, o
ções, visto que são considerados profissionais profissional sente-se inseguro na sua atuação,
polivalentes (VASCONCELOS, et al., 2010). e há a necessidade de buscar maior especia-
Quanto ao tempo de formação, 45,45% dos lização após a conclusão do curso. Pode-se
psicólogos tem entre um e cinco anos de con- pensar que a continuidade nos estudos, dos
clusão do curso de psicologia e apenas uma participantes da pesquisa, após a graduação,
profissional (4,55%) tem mais de 10 anos de seja um dos fatores que influencia a visão da
formação. Quando questionadas sobre a qua- formação acadêmica como suficiente, já que
lidade da formação na graduação na área da a maior parte iniciou a especialização logo
POT, 77,27% classificam como boa; apenas após a conclusão da graduação.
uma profissional afirma que a formação na A maioria das profissionais relata que
área foi regular. Esse dado é muito relevante, sempre tiveram interesse em seguir a área
pois diversos autores observaram o contrá- da POT, sendo que, 86,36% tinham interesse

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por esse contexto desde a sua formação e é a principal fonte de motivação, sendo o
dessas 73,68% pretendiam seguir unicamente desejo interno o maior impulsionador a seguir
a POT. Apenas 13,64% dos profissionais a carreira.
referem que não tinham interesse na área, A maioria das profissionais (40,91%) atua
sendo a clínica o contexto de interesse no em empresas com mais de 500 e menos de
período de formação. Entre as profissionais 1000 funcionários; as empresas são do ramo
que gostariam de seguir outra área além da metalúrgico, alimentício, têxtil, entre outros,
organizacional e do trabalho no período de sendo que 68,18% das empresas possuem ser-
formação (22,73%), o contexto clínico foi viço de estágio de POT. A maioria das pesqui-
o de maior interesse com 80% dessas par- sadas ocupa o cargo de psicóloga (27,27%)
ticipantes interessadas, fato que nos leva a e analista de Recursos Humanos (27,27%) e
pensar o quanto a psicologia tem na clínica apenas 13,64% ocupam o cargo de consultora
a sua representação de profissão. Atualmente, interna e 13,64% de gerentes de RH. Apesar
68,18% das psicólogas atuam exclusiva- disso, a maioria, 85%, considera a atuação da
mente na área da psicologia organizacional psicologia na empresa estratégica, por mais
e do trabalho; dentre as que atuam em mais que assuma um cargo operacional. Porém,
de uma área (31,82%), a clínica é a mais ao fazer a relação das atividades mais prati-
praticada. Frente a isso pode-se perceber cadas, observamos que há uma contradição,
que a área organizacional já não é mais a pois como mostra a figura 1, as atividades
preterida: o fato de 73% dos participantes mais realizadas pelas profissionais são o
desejarem, desde a faculdade, ser o foco de recrutamento e seleção, a aplicação de testes
psicológicos e o treinamento, atividades estas
atuação profissional, demonstra que a área
ligadas ao tripé operacional. As entrevistas
vem crescendo e ganhando prestígio dentro
de desligamento também fazem parte das
da própria psicologia.
atividades mais frequentes das pesquisadas.
Quanto ao tempo de experiência na área,
Nessa perspectiva algumas pesquisas cor-
percebe-se que a maioria atua entre 1 a 3
roboram com o resultado, apontando a atua-
anos (31,82%) e cinco a dez anos (31,82%),
ção do psicólogo como pouco diversificada,
sendo que 27,27% das profissionais atuam a tendo ainda no recrutamento e seleção a sua
menos de um ano na área. Quando questio- principal atividade. Na pesquisa de Pereira
nadas sobre o motivo que as leva trabalhar na (2009), 100% dos psicólogos entrevistados
área, 50% das participantes destaca o desejo em seu estudo, realizam atividades de se-
interno como fator impulsionador, 22,73% leção e recrutamento e 87% aplicam testes
coloca o desejo interno e a oferta de mercado e realizam treinamentos, práticas ligadas à
de trabalho como motivo para trabalhar na primeira fase da psicologia. Dessa forma
área e, 13,64% das pesquisadas, destacam a Zanelli (2002) afirma que o psicólogo, nas
oferta de mercado como o único motivo para organizações, está estritamente ligado a um
trabalhar na POT. A remuneração é lembrada, fazer operacional e técnico.
exclusivamente, por 4,55% das participantes. As atividades menos realizadas são coa-
Borges-Andrade (1990) observou, em seu ching, prevenção de acidentes, trabalho com
estudo, que a remuneração na área da POT é a saúde mental do trabalhador e análise de
mais adequada que nos demais contextos, o cargos e salários. A atividade que raramente
que motiva muitos profissionais a se manter é realizada é a atuação multidisciplinar na
na área. Contudo, o presente estudo demons- prevenção de acidentes de trabalho, e even-
tra que para esses profissionais o salário não tualmente aparece avaliação de desempenho,

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pesquisa de clima, programa de Qualidade utilizados pelos profissionais para o processo


de Vida no Trabalho (Programa de QVT) e de seleção.
atendimento aos colaboradores.
Figura 2 - Testes Psicológicos utilizados pelos profissionais
Figura 1 - Freqüência das atividades realizadas.

Quanto à carga horária, 45,45% das pro-


fissionais têm carga horária de 40 horas se-
manais e apenas uma psicóloga faz 20 horas
semanais. Em estudo realizado por Silva e
Merlo (2007) destaca-se que os profissionais
da área da POT são os que têm maior carga
horária de trabalho, o que é elencado pelos
profissionais como fonte de sofrimento;
Apesar das atividades ligadas ao tripé
esses profissionais tem jornadas integrais o
operacional brotarem com mais frequência,
que dificulta na realização de outras ativida-
é possível observar que há a presença de
des, e os profissionais que possuem menor
atividades estratégicas na atuação desses
carga horária na empresa possuem outras
psicólogos na empresa, ainda que com menor
tarefas atuando como consultores ou na área
frequência, o que mostra que a psicologia
clínica, fato este corroborado pela presente
tem procurado abrir espaços para a sua
pesquisa, onde os profissionais que atuam em
atuação. Pereira e Gomes (2009) destacam
outra área além da POT têm, em sua grande
que a atuação do Psicólogo Organizacional
maioria (57,14%), a clínica como mais uma
só se expande quando, através do esforço fonte de renda.
pessoal, este procura a profissionalização,
caso contrário sua atividade fica restrita a Todas as profissionais relatam gostar do
recrutamento e seleção. Um estudo realizado trabalho que realizam, sendo que 85,71%
sentem-se reconhecidas no trabalho, 80,95%
por Borges, Oliveira e Morais (2005) ratifica
reconhecem a abertura dos gestores para a
que a grande maioria dos psicólogos ainda se
atuação da psicologia como boa e 19,05%
pauta nas práticas operacionais. Além disso,
elencam essa abertura como regular. Quando
concluem que as características do local
questionadas sobre as principais dificuldades
influenciam para inovações no trabalho do
encontradas na atuação, a mais lembrada diz
psicólogo, levando em consideração o estilo
respeito à falta de vivência administrativa
gerencial e as demandas da organização.
do psicólogo, seguido da resistência à mu-
Portanto, o desafio encontra-se em os psicó-
dança, da falta de infra-estrutura e do baixo
logos ampliarem o seu fazer nas empresas,
salário, como é possível observar na figura 3.
trabalhando a cultura organizacional.
Borges-Andrade (1990) encontrou aspectos
Os testes psicológicos são instrumentos semelhantes na qual a falta de vivência admi-
bastante utilizados para a seleção de pessoal. nistrativa também foi elencada como a maior
A figura 2 mostra quais os testes são mais dificuldade e o motivo de descontentamento

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na área da POT, bem como a resistência a e GOMES, 2009). Diante disso, pode-se
mudança. Porém, na pesquisa desse autor, a pensar que a POT vem sendo reconhecida
infra-estrutura e a remuneração não aparecem e a relevância do seu conhecimento sendo
como aspectos negativos ou como dificulda- ampliada nos cursos de graduação. Outro
des de atuação na área, mas ao contrário é fator que pode interferir no reconhecimento
citada como aspecto positivo. da graduação como suficiente se refere ao
aprofundamento nos estudos dos participan-
Figura 3 - Dificuldades encontradas na atuação do psicólo- tes por meio de especializações.
go Organizacional e do Trabalho
A partir das práticas elencadas por esses
profissionais, pode-se perceber que a POT
carrega consigo muito do seu passado, onde
surgiu com o intuito de colocar a pessoa ade-
quada no local adequado, através de testagens
e treinamentos. É por esse contexto histórico
que ainda hoje as tarefas praticadas com
maior frequência pelos profissionais estão
ligadas ao tripé operacional (recrutamento,
seleção, treinamento), cabendo aos outros
membros do RH as tarefas mais administra-
tivas. Desta maneira, observou-se, no estudo,
que embora os profissionais considerem a
sua prática estratégica, as atividades ligadas
Novamente podemos observar que a ao fazer operacional mostram-se como mais
formação acadêmica não é sentida como presentes na prática desses profissionais e a
dificuldade na atuação, bem como a aber- maior dificuldade encontrada por eles é a vi-
tura dos gestores e o reconhecimento das vência administrativa. Como ressalta Zanelli
intervenções da psicologia, o que nos leva a (2002), existe uma gama de atividades, que
pensar que a psicologia vem abrindo campo podem receber a contribuição do psicólogo,
de atuação dentro das empresas, sendo assim contudo, a maioria dos próprios psicólogos e
reconhecida no trabalho que realiza quanto também as empresas estão presos às práticas
à sua eficácia e importância. operacionais e técnicas.
As atividades exercidas com menor
freqüência, estão ligadas à terceira fase da
Considerações finais POT, voltadas para a saúde do trabalhador
e a compreensão do colaborador como um
A partir do estudo é, possível observar que ser integrado. Desta forma, percebe-se que a
os profissionais que atuam na POT na Região POT ainda está no caminho do crescimento,
Norte do Rio Grande do Sul, têm, em sua assimilando os novos modelos e necessida-
maioria, interesse por essa área de atuação des do mercado de trabalho, já que o capital
desde a sua formação, entrando no mercado humano é uma das maiores riquezas na
de trabalho logo após a formação e investin- atualidade.
do em especializações. Esses profissionais No momento, os profissionais elencam o
consideram a sua formação como suficiente desejo interno como impulsionador a seguir
para a atuação na área, fato que se distingue a profissão, sentindo-se reconhecidos no seu
de outros estudos (IEMA, 1999 e PEREIRA trabalho, percebendo abertura dos gestores

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para a atuação profissional e conseguindo cional sejam as mais praticadas pelas profis-
trabalhar de maneira multidisciplinar. Esse sionais, pode-se observar que há a presença
fato demonstra que as empresas reconhecem de atividades mais estratégicas e também
a importância e relevância do conhecimento um incômodo gerado pela falta de vivência
psicológico no âmbito das organizações. administrativa do psicólogo na empresa, o
Diante dos resultados obtidos, é possível que demonstra interesse e busca desses pro-
observar que a POT vem buscando abrir es- fissionais para uma maior integração do seu
paços para a sua atuação dentro das empresas. fazer com a expansão da sua atividade para
Embora as atividades ligadas ao fazer opera- além do recrutamento e seleção.

AUTORES

Leticia Ribeiro Souto Pinheiro - Psicóloga, Mestre em Psicologia pela Unisinos, Professora
do Curso de Psicologia da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões.
E-mail: leticia.rsp@terra.com.br
Chaiana Luciana Mario - Psicóloga pela Universidade Regional Integrada do Alto Urugruai
e das Missões. E-mail chaimario@yahoo.com.br
Marta Giacomini - Psicóloga pela Universidade Regional Integrada do Alto Urugruai e das
Missões. E-mail: marta_giacomini@yahoo.com.br

REFERÊNCIAS

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Leticia Ribeiro Souto Pinheiro - Chaiana Luciana Mario - Marta Giacomini

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