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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ

Curso de Especialização em Saúde da Família e Comunidade

FÓRUM POPULAR E COMUNIDADE AMPLIADA DE PESQUISA: ESTRATÉGIAS DE


CONSTRUÇÃO DA PARTICIPAÇÃO POPULAR NAS COMUNIDADES BOA VISTA E
CASTELÃO.

Cláudio Ferreira do Nascimento

Fortaleza – Ceará
2009

CLÁUDIO FERREIRA DO NASCIMENTO

FÓRUM POPULAR E COMUNIDADE AMPLIADA DE PESQUISA: ESTRATÉGIAS DE


CONSTRUÇÃO DA PARTICIPAÇÃO POPULAR NAS COMUNIDADES BOA VISTA E
CASTELÃO.

Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Saúde
da Família e Comunidade da Universidade Estadual do Ceará em Parceria com o Sistema
Municipal Saúde Escola de Fortaleza, sob a orientação da Profa. Dra. Vera Lúcia Dantas.

FORTALEZA – CEARÁ
2009

CLÁUDIO FERREIRA DO NASCIMENTO

FÓRUM POPULAR E COMUNIDADE AMPLIADA DE PESQUISA: ESTRATÉGIAS DE


CONSTRUÇÃO DA PARTICIPAÇÃO POPULAR NAS COMUNIDADES BOA VISTA E
CASTELÃO.

Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Especialista, em Saúde
da Família e Comunidade da Universidade Estadual do Ceará em parceria com o Sistema
Municipal Saúde Escola de Fortaleza-CE.

Aprovada em: ____/___/_____

COMISSÃO EXAMINADORA

____________________________________
Profª.dra.
Orientadora

____________________________________
Profª. Ms.
Primeira Examinadora

_____________________________________
Profª.dra.
Segunda Examinadora

FORTALEZA – CEARÁ
2009

Este trabalho é dedicado de modo especial a duas mulheres especiais:


A minha companheira e esposa, Ana Eufrázio, que com seu espírito altivo e obstinado, sua
paciência amorosa e seu amor paciente, comigo divide há treze anos as tristezas e alegrias da vida
em comum. Com ela descobri o valor da sinceridade e a importância da ousadia, naveguei e
ancorei em seu porto seguro. Para mim a mais bela e forte das mulheres, afinal tem de suportar
cotidianamente o pesado fardo de tentar compreender os devaneios e insanidades de um sujeito
obtuso, impertinente e imerecidamente feliz.
A minha mãe, D. Maria Iracema que para mim sempre foi modelo de força, determinação e
coragem, um exemplo de mulher e acima de tudo, de ser humano digno e aquém devo boa parte
do espírito arredio e inquieto. É pelo seu amor incondicional e sua têmpera firme e resoluta que
ainda caminho.
È dedicado também à memória de três seres excepcionais, com a qual pude compreender o
caráter imperioso do espírito ético e da solidariedade na construção do ser humano. Ao meu
amigo, companheiro José Ferreira Lobão, para mim exemplo de ser humano digno, honesto e
generoso, que se foi, sem não antes deixar em meu peito as marcas indeléveis da dignidade e do
respeito ao próximo. E aos meus avós Manoel Henrique e D. Raimunda Ferreira, ele que para
mim sempre representou a bravura e a fortaleza do homem que enfrenta a dureza da vida com
destemor. Ela, espírito puro, pequenina no tamanho, mas portadora de gigantesco altruísmo,
sempre pronta a dar a mão a quem precisava e que me rasgou o coração com a faca afiada da
solidariedade.
Por fim, é dedicado ainda, aos meus companheiros de jornada desta Comunidade Ampliada de
Pesquisa, D. Lourdes, Seu Toinho, D. Socorro, Viviane, Seu Edson, Goreth e D. Lindalva. E a
todos aqueles que, como eles, dizem não quando a maioria diz sim. Que não pensam duas vezes
em corajosamente se sublevar contra toda forma de injustiça, opressão e miséria. Que não calam
diante da tirania absolutista das verdades técnico-científicas dos donos do poder. Que carregam a
radicalidade do desejo de transformação da realidade, não como espera passiva, mas como
esperança autêntica e fé inexorável. E acima de tudo àqueles que acreditam no oprimido como
protagonista da emancipação social.
AGRADECIMENTOS

À minha companheira Ana Eufrázio pela disposição em ouvir e contribuir com suas valiosas
sugestões.
À Profa. Vera Lucia Dantas, querida Verinha, que de forma atenciosa, gentil, sensível e
competente concedeu-me seus valiosos tempo e saberes e se dispôs a orientar-me na difícil, mas
gratificante tarefa de construção deste trabalho.
Aos professores e preceptores da Especialização em Saúde da Família e Comunidades, em
especial à professora Eugênia Gadelha por sua disposição imediata em colaborar com este
trabalho e ao professor “Tanta” pelas dicas e observações.
Às professoras Carmem Leitão Araújo e Lúcia Conde de Oliveira que gentilmente se dispuseram
a colaborar com seus conhecimentos e experiências para o exame e aperfeiçoamento deste
trabalho.
Aos companheiros de especialização pela possibilidade de troca de informações, percepções,
afetos e principalmente pela conjunção de esforços no sentido do avanço do caráter humanizador
da atenção à saúde e consequentemente da transformação da realidade de saúde da população do
município de Fortaleza.
“O homem é, a cada minuto, pleno de possibilidades não realizadas”.

Vigotski
RESUMO

As comunidades Boa Vista e Castelão estão inseridas no território de adscrição do Centro de


Saúde da Família Edmar Fujita e têm, segundo ponto de vistas de diversos atores locais , como
principal obstáculo ao processo de intervenção social, a dificuldade de mobilização à participação
popular. Com o objetivo de se construir coletivamente dispositivos e/ou estratégias que
potencializem a participação popular e, estimulem o protagonismo e a emancipação dos sujeitos,
foram organizados: o Fórum Popular local, responsável por desencadear reflexões sobre a história
da comunidade, situações-limite e potencialidades locais, e a Comunidade Ampliada de Pesquisa
estruturada a partir do grupo de trabalho do Fórum, e que através de eventos, tais como
seminários, oficinas de planejamento participativo, entre outros, criou as condições para a análise
e o planejamento de estratégias de intervenção e de constituição de grupo-sujeito capaz de
promover as reflexões e a sistematização de todo este processo formativo. Em termos
metodológicos, este trabalho utilizou-se da proposta da Comunidade Ampliada de Pesquisa,
dispositivo específico de pesquisa-ação, que de forma inovadora enfatiza o caráter pedagógico e
transformador do diálogo-confrontação entre os saberes do mundo acadêmico (técnico-científico)
e os saberes da mundo da vida (experiência), aplicada aqui à realidade das comunidades Boa
Vista e Castelão. Visando estimular o caratê dialógico-intersubjetivo das atividades do fórum e
da Comunidade Ampliada trabalhou-se a problematização a partir de temas geradores, propostos
pelos círculos de cultura, característicos do trabalho pedagógico de Paulo Freire. Como
instrumentos de coleta de dados foram utilizados a técnica de observação-participante dos
diversos encontros para reflexão-ação e ao final um roteiro de entrevista semi-estruturada, foi
aplicado aos participantes da Comunidade Ampliada de Pesquisa. A natureza complexa das
dificuldades de participação política das comunidades em situação de opressão social e política é
problema reconhecido por todos aqueles que apóiam as lutas das classes populares. As
dificuldades de mobilização comunitária foram percebidas em vários momentos desta pesquisa-
ação, mesmo naqueles em que a reflexão-ação se desenrolava sobre interesses diretos da
comunidade. Ficou aqui explícita, entretanto, a capacidade destas mesmas comunidades de
criarem alternativas ao que está posto, de construírem seu processo de singularização, de criarem
mecanismos de superação de seus problemas sociais e políticos.

Palavras-chave: Fórum Popular. Comunidade Ampliada de Pesquisa. Participação Popular.


ABSTRACT

The communities Boa Vista e Castelão are included in the territory of ascription of the Center for
Family Health Edmar Fujita and they have, second point of view of various local actors as the
main obstacle to the process of social intervention, the difficulty of mobilizing popular
participation and encourage the role and empowerment of individuals, were organized: The
Popular Forum local, responsible for triggering reflections on the history, extreme-situations and
possibilities, and the Extended Research Community built from the working group of the Forum,
and through events such as seminars, workshops, participatory planning, among others, created
the conditions for the analysis and planning intervention strategies and the formation of subject-
group can promote reflection and systematization of the entire training process.
Methodologically, this study used proposal of the Extended Research Community, the specific
device for action research in an innovative way that emphasizes the pedagogical and
transformative dialogue-confrontation between the knowledge of the academic world (scientific
technical) and knowledge of the life world (experience), here applied to the reality of
communities Boa Vista e Castelão. To foster the character of dialogue/intersubjective activities of
the Forum and the Extended Community worked to questioning from generating themes,
proposed by the circles of culture, characteristic of the pedagogical work of Paulo Freire. As
instruments of data collection were used the technique of participation observation of several
meetings for reflection and action and a roadmap to the end of semi-structured interview was
applied to the participants of Extended Research Community. The complex nature of the
difficulties of political participation of communities in situation of social oppression and political
problem is recognized by all those who support the struggle of classes. The difficulties of
community mobilization were seen at various times this action research, including those where
however, the capacity of these communities to the create alternatives to what is laid, the building
process of individualization of establishing mechanisms to overcome their social and political
problems.

Keywords: Popular Forum. Extended Research Community. Popular Participation.


Lista de Imagens

Imagem 1 – O Fórum Popular........................................................................................................50

Imagem 2 – O grupo-sujeito...........................................................................................................59

Imagem 3 – O ato-limite.................................................................................................................62

Imagem 4 – A Comunidade Ampliada de Pesquisa da Boa Vista/Castelão...................................63

Imagem 5 – O Círculo de Cultura..................................................................................................65

Imagem 6 – Sínteses......................................................................................................................76
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
1.1 Contextualização e justificativa 10
1.2 Objetivos 22

2. SAÚDE DA FAMÍLIA, SUS E O CONTEXTO DA PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA


2.1 O Sistema Único de Saúde e a participação da comunidade
23
2.2 A Estratégia da Saúde da Família e os caminhos da educação popular
28
2.3 A diversidade de olhares sobre participação popular 33
2.4 O contexto do CSF Edmar Fujita: uma problematização necessária 40

3. PERCURSOS METODOLÓGICOS
43
4. SÍNTESE DE UM CAMINHAR
4.1 O Fórum Popular 50
4.2 O Grupo-Sujeito 58
4.3 A Comunidade Ampliada de Pesquisa da Boa Vista e Castelão 62

5. CONCLUSÕES 77

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 81
APÊNDICES 85
1 INTRODUÇÃO

1.1 Contextualização e justificativa

Quando do meu ingresso na Estratégia de Saúde da Família do município de Fortaleza,


em agosto de 2006, senti um misto de felicidade e desânimo. Felicidade por voltar a trabalhar
perto de casa depois de dez anos de idas e vindas pelos municípios do interior do Ceará e
desânimo pela triste percepção de que as bases que mantinham o contexto desumanizado da
atenção à saúde permaneciam inalteradas. Apesar disto, esperava pela possibilidade de se
construírem condições de enfrentamento aos desafios impostos por este contexto. Imaginava que
esta espera seria tributária do processo de envolvimento, reflexão e atuação coletiva dos diversos
atores sociais participantes do processo de produção da saúde e que através dela se superaria as
contradições deste modelo de atenção à saúde.
Recordo que, apesar da sinalização do poder público de mudança de rumo da política
municipal de saúde, infelizmente, não se percebeu movimento concreto de ruptura paradigmática
com o arcaico, mas ainda hegemônico modelo de atenção de caráter fragmentado, biomédico,
individual, centrado na atividade clínica, nos grandes hospitais e de reconhecida ineficiência
resolutiva. Tal realidade era confirmada à época pela situação de abandono estrutural das
Unidades Básicas de Saúde e pelo baixo índice de cobertura das equipes de saúde da família. Mas
mais que isso, indicava a necessidade urgente de mudança, possivelmente possibilitada pela
concretização dos princípios estruturantes do Sistema Único de Saúde de modo a garantir atenção
universal, equânime, participativa e humanizada.
Acredito que o desafio de se garantir atenção à saúde à maioria marginalizada da
sociedade, longe de se resumir ao ato concreto de superar as deficiências de caráter infra-
estrutural, deve necessariamente envolver a possibilidade de transformação desta realidade sócio-
econômica que, cotidianamente, tem nos processos de assistência à saúde, espaço privilegiado de
reprodução de práticas autoritárias, de dominação e opressão.
A superação deste contexto exige o processo de atuação implicada do trabalhador de
saúde. Neste sentido, o contato aproximado com a árdua realidade local das comunidades Boa
Vista e Castelão, me fez perceber a indignidade da atuação do profissional/trabalhador de saúde
cujas relações se baseiem no hermetismo e distanciamento do contexto social. À medida que me
aproximei do rico universo de lutas destas comunidades, percebi que a responsabilidade pela
conquista da qualidade de vida era tarefa coletiva da qual o trabalhador não poderia
hipocritamente furtar-se. Supus que esta conquista dependia em grande medida de um processo
de construção da autonomia e do protagonismo dos sujeitos sociais das classes populares, através
do estímulo à participação popular na vida política, do fortalecimento do caráter democrático das
relações sociais e consequentemente da abertura à possibilidade de um processo de humanização
coletiva.
O bairro Boa Vista apresenta extensão territorial de 50,6 hectares equivalente a 0,16 % do
município de Fortaleza e é espaço de convivência de quase 5 mil moradores. O olhar hermético e
distante do mediador sobre o território revelará mitificadamente, que por se tratar de um território
ocupado em sua maioria por famílias em situação de risco social, deva ter seu complexo contexto,
reduzido à gama dos problemas sociais modernos relacionados à violência e às drogas. Bem
como, possa ter seu universo sanitário restrito, em grande medida, às doenças infecciosas e
parasitárias, comuns à rotina das famílias das classes populares brasileiras. O olhar aproximado
sobre a realidade local revela, entretanto, um cenário de grandiosa história de luta social.
“Até 1962 o bairro Boa Vista não tinha praticamente nada, era pouco povoado, as poucas moradia que
tinha quase todas eram de taipa, não tinha ônibus (só três vezes por dia), não tinha água potável, não tinha
comércio, escola, iluminação pública, posto de saúde enfim, não tinha nem calçamento. Após 1966 o bairro
começou a crescer de verdade, veio a rede Paulo Afonso e após a instalação da rede Paulo Afonso o bairro passou
a ter iluminação da rua Jose Messias Matos a avenida Alberto Craveiro, da Messias Matos descendo para o rio não
teríamos energia, pois éramos a classe pobre do bairro. Calçamento e asfalto nem pensar as ruas eram cheia de
matos, buracos e lama. A noite nossa era os vaga lumes e a lua. Ônibus só no Dias Macedo, água só comprando em
carroças. Mas na medida que o bairro foi se povoando foi começando a melhorar pois começara a abrirem mais
mercearias, começou passar um ônibus 3 vezes ao dia, foi aberta uma casa na fazenda uirapuru pelo senhor
Benedito Macedo para que a fundação J. Macedo começasse a dar aulas as criançadas do bairro, mais mesmo
assim a população passava por muita dificuldade pois não tinha transporte suficiente para ir ao centro não tinha
água potável e nada de conforto. Com a construção do Estádio Castelão o bairro começou a crescer cada vez mais
construiu-se até mesmo o Conjunto Esplanada, o Convento das Carmelitas, passamos a ter ônibus mais vezes, o
povo começou a se organizar em grupos discutindo as necessidades do bairro. Formou-se um grupo para fazer a
reivindicações necessárias, quando em 1980 formou-se a 1ª associação onde essa teve uma grande responsabilidade
de fazer com que o bairro fosse bem representado. Então fomos em busca do melhor que era iluminação pra todos
uma escola onde nossos filhos pudessem estudar de verdade, que foi o terreno dado pelo senhor Benedito Macedo
ao estado e então foi construída a escola prof. Maria Gonçalves.”(Dona Lourdes – ACS, Conselheira e liderança
local).

A história de luta da comunidade, como será visto, se estende por todas as dimensões da
vida social se revelando luta política em essência, ou seja, se estende das lutas materiais por
condições dignas de vida às de caráter imaterial/superestrutural por respeito aos seus valores e
sua produção cultural, incluído aí o enfrentamento às determinações do poder público municipal
que, segundo os moradores, “teima” em chamar o lugar onde vivem como Bairro Mata Galinha.
Esta relação subjetiva do sujeito com o lugar onde vive e luta, ou seja, seu território coaduna-se
com o conceito de território defendido por Milton Santos (2005), “É o uso do território, e não o
território em si mesmo, que faz dele objeto da análise social. (...). Seu entendimento é, pois,
fundamental para afastar o risco de alienação, o risco da perda do sentido da existência individual
e coletiva, o risco de renúncia ao futuro”.
Já o Bairro Castelão tem sua história ligada à construção do Estádio Plácido Aderaldo
Castelo, popularmente conhecido, como Castelão. Inaugurado em 11 de novembro de 1973, o
estádio Castelão é a principal praça esportiva do estado e principal fator de atração de
investimento público na infra-estrutura local. O bairro possui área de 178,10 hec onde convivem
5.319 moradores (segundo estimativa do IBGE para 2008).
Apesar dos bairros Boa Vista e Castelão e suas comunidades estarem descritos
separadamente com suas singularidades, para grande parte dos moradores, são na verdade um
único bairro, considerando sua contigüidade geográfica e seus percursos históricos que se
confundem. Na realidade dos gabinetes, entretanto apresentam-se divididos. Divididos
geograficamente pela desconsideração dos valores históricos e culturais locais pelo poder público
na determinação dos limites territoriais do município. Divididos economicamente pela sanha
especulativa do mercado imobiliário em específico e pela sanha de lucro dos mercados em geral,
e por fim divididos concretamente pela cultura de segregação social desta ordem econômica, que
cria os muros necessários para que os excluídos não tenham acesso aos benefícios estruturais das
políticas de desenvolvimento urbano.
Ao redor do Estádio Castelão e ao longo da Avenida Alberto Craveiro se instalaram os
atores de maior poder econômico, principalmente, depois da estruturação destas áreas “nobres”
pelo poder público (com a construção do estádio e a urbanização das áreas próximas, por
exemplo) e pela ação especulativa de valorização imobiliária do local. Em realidade, grande parte
da tal “estruturação” deu-se principalmente à custa da organização e luta da comunidade da Boa
Vista no sentido de exigir do poder público, condições de vida com um mínimo de dignidade. A
segregação geográfica e social entre a “Esplanada Castelão” e a comunidade da Boa Vista é
representativo de tal contexto.
A Esplanada Castelão representa a microrregião do bairro Castelão ocupada pelos atores
de maior poder econômico. Com suas casas de alvenaria, amplas e bem-estruturadas, residência
da classe média local, está espacialmente inserida na circunvizinhança da comunidade Boa Vista
caracterizada pelas casas simples às margens do Rio Cocó, expostas às enchentes dos períodos
chuvosos e de cheia do rio, muitas delas construídas de madeira e papelão, produto das
“ocupações” e, sobretudo do abandono e da exclusão social. È neste ambiente de extrema
contradição que convivem lado a lado a miséria e o luxo de uma comunidade ou de duas
comunidades que representam em pequenas dimensões as contradições de um país rico e injusto,
“globalmente” inserido numa ordem econômica desigual.
A compreensão de tais contradições, necessariamente depende, não só da percepção do
caráter complexo das relações de dominação e opressão social, mas principalmente, do solidário
envolvimento do trabalhador de saúde, enquanto trabalhador social, nos processos de luta em
defesa dos interesses das classes populares. No processo dialético da estrutura social, não pode
“ser o trabalhador social, como educador que é; um técnico friamente neutro. Silenciar sua opção
escondê-la no emaranhado de suas técnicas ou disfarçá-la com a proclamação de sua neutralidade
não significa ser neutro, mas, (...) trabalhar pela preservação do status quo”. (FREIRE, 1981, p.
32).
Depende ainda da compreensão da dimensão subjetiva do ato de cuidar da saúde/vida do
outro enquanto prática necessariamente dependente da construção de relações baseadas na
dialogicidade e intersubjetividade, revestidas neste instante, em ação solidária e humanizante.
Tais relações exigem o autêntico engajamento na luta pela transformação deste modelo de
sociedade que adoece e mata porquanto oprime e desumaniza.
O contexto de minha origem e história pessoal teve papel determinante nesta construção.
Apesar de ter nascido em município do interior do Estado do Ceará, cresci nas favelas do Castelo
Encantado e Serviluz, na periferia do município Fortaleza, comunidades que enfrentam e
convivem com problemas sociais semelhantes aos dos Bairros Boa Vista e Castelão. Acredito que
minha origem social, minha condição de negro e morador da favela, filho de operária sem estudo
formal e mãe solteira tenha facilitado a identificação contextual e possibilitado uma atuação
implicada com os sujeitos e o território. O convívio com o universo de dores idênticas e solidárias
dos meninos das classes populares, o medo da fome, do abandono e da exclusão, além de
determinantes na construção de minha personalidade, permitiram-me a aproximação e o diálogo
com sujeitos que sobrevivem e lutam contra tal realidade.
Todos esses fatores forjaram concepções pessoais caracterizadas pela irrefreável
indignação e revolta perante o quadro social desumanizante e desumanizador deste modelo de
sociedade, bem como pelo desejo utópico de transformação social e de superação desta realidade
de indignidade e injustiça. A adoção de uma compreensão crítica e de contraposição radical a
estes paradigmas societal e epistemológico, que Boaventura Santos conceitua como “paradigmas
da modernidade” (SANTOS, 1999) compõem a base ideológica que subsidia e estrutura a
construção desta pesquisa.
O contato com um ambiente acadêmico de profundas contradições reveladas durante meu
período de formação em Odontologia na Universidade Federal do Ceará de 1992 a 1996. O
entrechoque da realidade da periferia com o ambiente acadêmico de um curso superior com um
histórico de “elitismo”. A percepção dos interesses envolvidos no processo de formação do
trabalhador da saúde, da contradição revelada no fato de que apesar do caráter, do interesse e do
financiamento público do curso, em termos concretos, ele atendia, em grande medida, a interesses
individuais e de mercado e essencialmente visava formar / conformar consciências nos estreitos
limites do trabalho “mercantilizante”. As contradições percebidas durante o período de oito anos
em que trabalhei no serviço público do interior do Estado do Ceará, do contato aproximado com a
dureza da vida do homem do campo, das relações trabalhistas precarizadas e das condições de
vida precarizantes.
A possibilidade de abertura à reflexão conferida pelo processo de educação permanente
desenvolvida através desta Especialização em Saúde da Família e Comunidades, e com ela o
contato com as bases teóricas da Educação Popular, a possibilidade da apropriação dialógica de
formas de agir, pensar, sentir, a atenção à saúde, em uma dimensão ampliada, enquanto prática
social, condicionada pelo contexto histórico-social e aberta a superação a partir de suas
contradições, e enquanto ato de cuidar, no sentido necessariamente humanizador e solidário; a
possibilidade de construção do inédito-viável a partir da chegada de estudantes no CSF Edmar
Fujita, como as turmas do Curso de Odontologia da disciplina Estágio Extra Mural da UNIFOR
em 2008, que felizmente começaram a utilizar o território da UBS como campo de práticas e de
construção de saberes, e que com seus desejos de mudança e sonhos ajudaram a construir esta
pesquisa; e por fim, a percepção, adquirida neste caminhar epistemológico coletivo, de um desejo
autêntico de transformação da realidade social, de superação das situações-limite, presentes nas
falas dos componentes do grupo desta comunidade ampliada de pesquisa. Estes e outros fatores
acenderam, neste coletivo, o desejo de procurar conhecer e apropriar-se de temas, até hoje,
infelizmente tão pouco afeitos à prática social dos trabalhadores da saúde quanto à questão da
participação popular e comunitária, do protagonismo e da autonomia “possível” dos sujeitos, ou
como ressaltou Paulo Freire, do processo de intervenção no contexto dos “esfarrapados do
mundo” (FREIRE, 2005).
Pelo contexto histórico, acima afirmado, de um modelo de sociedade que nega aos mais
pobres a possibilidade de se afirmarem enquanto sujeitos, e que utiliza a opressão e a coisificação
como estratégia de dominação, necessária se faz a construção de alternativas de superação destas
contradições, exatamente por aquele que diretamente sente os efeitos desta conjuntura, ou seja, o
sujeito socialmente oprimido.
Contraditoriamente, a realidade das comunidades carentes, apesar de todas as agruras
citadas, dialetiza-se nos extremos de tristeza e alegria, humaniza-se no arranjo complexo de
carências e abundâncias extremadas. Tal paradoxo me faz recordar, com certa ironia, a
contraditória “miséria suburbana” da periferia, cenário de expressão dialética da privação
material, da solidariedade e fraternidade dos humildes, de injustiça e iniqüidade e de riqueza
subjetiva, compaixão e respeito ao próximo. Como resposta, do oprimido, ao preconceito e à
indignidade, uma cordialidade respeitosa e educada tão ausente na urbanidade da classe média.
No final, o predomínio da integridade humanística dos esfarrapados. Aqui mais uma vez, o
pensamento freireano é reafirmado, “aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos-
libertar a si e aos opressores. (...) Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será
suficientemente forte para libertar a ambos.” (FREIRE, 2005, p. 33).
Ainda trago em minha memória os sorrisos incontidos dos meninos que corriam nas ruas
das comunidades pobres em que cresci. Ruas que diferentemente do que comumente se afirma,
também confraternizam e educam. Tal percepção choca-se com a contraditoriedade do discurso
contemporâneo, que visa “expulsar” os pobres do cenário urbano, retirá-lo das ruas. Excluído
social e economicamente, agora, o objetivo de alguns setores de nossa sociedade parece ser,
excluí-lo fisicamente. Para estes setores, os pobres e suas demandas por justiça, representam hoje
ameaça concreta ao status quo, e os aparelhos repressivos estatais e os programas assistencialistas
governamentais não parecem conseguir garantir a “paz social” tão desejada. Como nos lembra
Pedro Demo (2000, p.27) “O sistema não teme pobre com fome, mas teme pobre que sabe
pensar”.
A percepção difundida de uma contemporaneidade dominada pelo medo e pela violência,
possivelmente seja conseqüência direta de uma realidade que se estruturou e cotidianamente se
justifica a partir da opressão e da exploração. Como nos lembra Paulo Freire (2005, p.32), “A luta
pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação, pela afirmação dos homens como
pessoas, (...) somente é possível porque a desumanização, (...), não é, (...), destino dado, mas
resultado de uma ‘ordem’ injusta que gera a violência dos opressores”.
A condição de “condenado da terra”, de “esfarrapado do mundo” a que foi jogado o
homem humilde do campo e da cidade, por este modelo de sociedade, através da construção de
instrumentos de dominação cultural e ideológica exigem a reflexão crítica. Os estereótipos do
oprimido socialmente incompetente, incapaz, marginal, violento e fatalista, politicamente apático,
dependente, conformista e preguiçoso, justificam a necessidade da práxis voltada para o
desvelamento de tais artimanhas. Entender como tais mecanismos atuam tão eficazmente no
sentido de aprisionar o ser humano a uma condição de “ser menos”, dilacerando sua infinita
possibilidade de “ser mais”. Entender por fim, como e porque o homem adoece e morre ao perder
sua capacidade de decidir seu destino, de sonhar, de lutar, de humanizar-se. Estes e outros
questionamentos existenciais se inserem como pano de fundo deste caminhar epistemológico.
Em termos práticos este trabalho visa atender a demanda social pela construção de
mecanismos de participação política da comunidade, de estruturação de espaços de construção de
autonomias possíveis, de discussão da realidade social local e da construção planejada de
propostas alternativas aos seus problemas. De forma concomitante, objetiva estimular a atuação
coletiva organizada nos espaços já instituídos pelo poder público, fortalecer o poder de atuação
dos movimentos sociais de base comunitária e, por fim, visa possibilitar a formulação de
estratégias com possibilidade de facilitar a transformação da realidade social.
Tal temática se justifica pela convicção pessoal de que além do impacto sobre as
dimensões bio-psico-sociais, e consequentemente sobre os processos de saúde-doença, a busca de
alternativas de emancipação representa mecanismo sustentador da própria condição humana, de
sua historicidade. Para Boaventura (1999, p.76), o projeto sócio-cultural da modernidade
“cumpriu algumas das suas promessas e até as cumpriu em excesso, e por isso mesmo
inviabilizou o cumprimento de todas as restantes”. São exatamente estes excessos e carências,
conseqüentes à superação e obsolência deste modelo, que perfazem a sensação atual de vazio ou
crise, mas que para o autor apresenta características típicas de uma transição de paradigmas.
Representa a ruptura da visão liberal de modernidade em direção a um modelo epistemológico e
societal pós-moderno. “O que é verdadeiramente característico do tempo presente, é que pela
primeira vez neste século, a crise de regulação social corre de par com a crise de emancipação
social” (SANTOS, 1999, p.35). Neste contexto de transição paradigmática, a discussão sobre
participação popular, objeto de estudo deste trabalho, enquanto mecanismo, estratégia,
dispositivo de construção da emancipação e do protagonismo dos sujeitos, se reveste de
insofismável importância.
Esta crise estabelece-se em um momento de refluxo do poder de atuação política da classe
trabalhadora e de aumento do controle ideológico das camadas populares. Em conseqüência do
avanço das políticas neoliberais, da hipertrofia do poder real (político e econômico) e simbólico
(cultural/ideológico) de setores da sociedade ligados à estrutura do mercado e do incremento da
produção capitalista (crescimento econômico) nas duas ultimas décadas do século XX. Paulo
Freire (1998 apud FIGUEIREDO, 2005) nos lembra que “necessária e urgente se fazem a união e
a rebelião das gentes contra a ameaça que nos atinge, a da negação de nós mesmos como seres
humanos submetidos à “fereza” da ética do mercado”.
Para a construção teórica desta pesquisa, foram utilizados trabalhos de autores que
trouxeram à tona a análise sistemática do contexto social moderno, a análise critica do modelo
econômico capitalista e suas relações de poder e dominação e a análise epistemológica de formas
de intervenção social capazes de estimular a mudança desta realidade. O pensamento crítico e
transformador de obras que enfatizam a inseparabilidade entre teoria e prática, reflexão crítica e
ação libertadora, para compreensão da realidade e transformação do homem e do mundo, tais
como: “Pedagogia do Oprimido”, “Pedagogia da Autonomia” e “Ação Cultural para a Liberdade”
do mestre Paulo Freire e “Pela mão de Alice – O social e o político na pós-modernidade” do
sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. A abertura epistemológica proporcionada por
“A pesquisa-ação” de René Barbier, “Cultura e democracia” da professora Marilena Chauí,
“Educação e conhecimento” do Professor Pedro Demo e “Um método para análise e co-gestão de
coletivos” do professor Gastão Wagner de Sousa Campos. Os valiosíssimos artigos sobre
controle social, educação popular e participação do Professor Victor Vincent Valla, além de
artigos diversos sobre participação popular de autores como, Eduardo Stotz, Luiz Cecílio, Maria
da Glória Gohn e sobre comunidade ampliada de pesquisa da profa. Maria Elizabeth Barros
alicerçaram este caminhar.
Ainda em 2007 os trabalhadores de saúde bucal junto com os agentes de saúde do CSF
Edmar Fujita tentaram realizar uma atividade de participação comunitária voltada para discussão
sobre os problemas de saúde bucal. Percebeu-se pelas dificuldades de mobilização comunitária
que existiam obstáculos ao processo integrativo entre comunidade e unidade de saúde, mesmo
quando havia abertura a discussão de aspectos estruturais e políticos dos serviços. Tal situação foi
geradora de percepções enviesadas e preconceituosas sobre o interesse e a capacidade de
iniciativa e atuação política da comunidade.
O Sistema Municipal de Saúde Escola (SMSE) ao efetivar a política municipal de
educação permanente como estruturante da organização e gestão do SUS municipal, possibilitou
as condições técnico-materiais para o engendramento de iniciativas voltadas para o contexto da
participação popular. Dentre elas, a Especialização em Saúde da Família e Comunidade teve
importância fundamental, pois proporcionou as bases teórico-metodológicas para os processos de
sistematização das ações e experiências voltadas para a participação popular, promovendo o
compartilhamento de saberes no território e consequentemente o estímulo ao desenvolvimento de
reflexões sobre o processo de participação comunitária pelos atores sociais locais.
Partindo deste contexto senti-me estimulado a perguntar “que mecanismos, dispositivos
e/ou estratégias poderiam ser construídos nas comunidades Boa Vista e Castelão de forma a
potencializar a participação popular, estimular o protagonismo e a emancipação dos
sujeitos?”.
Esta monografia se divide em tópicos aqui separados para facilidade de análise, mas que
se apresentam objetivamente inter-relacionados como a sistematização das reflexões e ações irá
demonstrar no corpo deste trabalho. No tópico 2, será feita a análise teórica da Estratégia de
Saúde da Família, do Sistema Único de Saúde e a relação destes com as estratégias de
participação comunitária. No mesmo será feita a problematização e a contextualização destas
questões em diálogo com a realidade local. No tópico 3 será realizada a abordagem conceitual do
tema participação popular através da revisão teórica e da contextualização com a história da
comunidade Boa Vista/Castelão. No tópico 4 será abordada a metodologia utilizada como
mecanismo de intervenção na realidade local, ou seja, se fará a abordagem conceitual dos temas
Fórum Popular e Comunidade Ampliada de Pesquisa. No tópico 5, serão analisados os resultados
objetivos e subjetivos deste trabalho, a sua problematização, a análise das categorias levantadas
pelo estudo e os diálogos das mesmas com a teoria. No tópico 6 serão realizados os comentários
finais e conclusões. Os tópicos 7 e 8 apresentarão respectivamente as referências bibliográficas
utilizadas e os anexos com rol de instrumentos utilizados nesta construção.

1.2 Objetivos

a) OBJETIVO GERAL:
Construir coletivamente, dispositivos e/ou estratégias nas comunidades Boa Vista e
Castelão que potencializem a participação popular e, estimulem o protagonismo e a emancipação
dos sujeitos.

b) OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
• Organizar o Fórum Popular local enquanto espaço coletivo de discussão e
definição de situações-limite na perspectiva de constituição de sujeitos nas comunidades Boa
Vista e Castelão;
• Promover com o grupo de trabalho / comunidade ampliada de pesquisa, eventos
tais como seminários, oficinas de planejamento participativo, entre outras, de modo a refletir e
planejar atos-limite, para as situações limite apontadas.
• Estruturar a Comunidade Ampliada de Pesquisa e constituir o grupo-sujeito para
proceder às reflexões e sistematização do processo.

2. SAÚDE DA FAMÍLIA, SUS E PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA.

2.1 O Sistema Único de Saúde e a participação comunitária


No Brasil, o processo de abertura democrática, após novo influxo autoritário representado
pelas mais de duas décadas de ditadura militar, gerou a expectativa de participação formal dos
sujeitos nos processos da vida política. Percebeu-se, contudo, que o contexto de participação
política da sociedade civil mostrou-se limitado pelos estreitos limites da democracia
representativa e pela possibilidade de participação popular restrita aos periódicos pleitos
eleitorais. Conforme Roncalli (2003, p.31) “O regime autoritário, instaurado após o golpe militar
de 1964, trouxe, como conseqüência imediata para as políticas de saúde no Brasil, um total
esvaziamento da participação da sociedade nos rumos da previdência”.
A reestruturação do modelo sanitário brasileiro, a partir da criação do SUS, teve como
antecedente histórico a VIII Conferência Nacional de Saúde que enfatizou o direito à saúde como
direito de cidadania. Este evento, que teve forte presença dos movimentos sociais de caráter
popular trouxe para o centro do debate o conceito ampliado de saúde, como a resultante “das
condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte,
emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde”. (RONCALLI,
2003, p.33).
Com as lutas do chamado Movimento de Reforma Sanitária e a posterior promulgação da
Constituição Federal de 1988, estabeleceu-se a base formal para a criação do Sistema Único de
Saúde (SUS), modelo de atenção voltado para a construção das bases estruturais do direito à
saúde como componente essencial do exercício da cidadania plena. Entretanto, para Roncalli
(2003, p.30) “A noção de cidadania regulada deu o tom para o estabelecimento das políticas
sociais no Brasil e, dentre estas, das políticas de saúde”.
A conquista formal do direito à saúde com a institucionalização do SUS gerou por um
lado expectativa de mudança da realidade da atenção à saúde e de avanços das políticas sociais
patrocinadas pelo Estado, e por outro, desconfiança em relação à sua concretização decorrente do
momento histórico de crise econômica e avanço do paradigma neoliberal de Estado mínimo. “É
nesse contexto contraditório que o Sistema Único de Saúde se inscreve, trazendo em si as
ambigüidades de se pretender universal, justo e democrático em plena crise mundial dos Estados
de proteção social” (PIRES e DEMO, 2006).
O caráter de modelo em construção justifica a necessidade de luta política contínua, dos
diversos movimentos sociais, em defesa do direito à saúde como direito de cidadania, através da
concretização de pressupostos estabelecidos pela legislação e pela efetivação dos princípios
doutrinários e organizativos do SUS. Como expressam Cunha e Cunha (1998) “o SUS significa
transformação e, por isso, processo político e prático de fazer das idéias a realidade concreta.”. É
importante registrar que tal luta se conflagra num país onde a cidadania é marcada pela forte
presença da tutela e submissão do povo aos ditames do Estado, embora com movimentos de
resistência significativos e influentes (PIRES e DEMO, 2006).
O SUS se estruturou formalmente tendo nos princípios da equidade, universalidade no
acesso aos serviços e integralidade da atenção substrato ideológico-doutrinário, e nos princípios
de descentralização político-administrativa com direção única em cada esfera de governo, gestão
regionalizada e hierarquizada e participação da comunidade na busca de efetivação do controle
social sua base organizativa. (RONCALLI, 2003).
A inter-relação dos princípios doutrinários e organizativos do SUS pode ser avaliada a
partir do pressuposto de que há a necessidade de se pensar o indivíduo inserido na comunidade e
a partir daí perceber que as ações de saúde não podem ser voltadas apenas para a assistência ou
mesmo para o próprio setor saúde. Com relação à participação popular há a necessidade de se
incorporar a idéia de cidadania ao contexto das ações integrais em saúde, no sentido de que
“nenhum cidadão possa ser considerado saudável sem que tenha seus direitos garantidos”
(ALBUQUERQUE e STOTZ, 2004).
Não menos importante é a necessidade de se perceber que a mudança do modelo de
atenção inapsiano, em termos concretos, não se efetivou, em grande medida, por ter abandonado
a necessidade de superação do grave fosso cultural existente entre serviços de saúde e população.
Tal situação fora prevista pelos grupos populares que contribuíram para a composição do ideário
do movimento da Reforma Sanitária, pois, para eles “o modelo biomédico que está na base do
processo de separação cultural entre serviços de saúde e população continuou intocado”,
afinal, a política de saúde desde então implementada continuou a manter este modelo como
pressuposto da atenção da saúde. (STOTZ, DAVID E UN, 2009).
Um dos grandes desafios à superação do modelo técnico-assistencial inampsiano reside na
dificuldade de efetivação da integralidade da atenção, afinal ela depende tanto de mudanças
culturais, através de mudanças no modo de atuar do trabalhador de saúde, pela implementação
integrada de ações de promoção, preventivas e curativas; quanto de mudanças sócio-políticas, já
que exigem a adoção do conceito ampliado de saúde como genuíno direito de cidadania e em
conseqüência, efetivamente inscrito na esfera política. Nesse contexto, o fortalecimento da
participação popular, enquanto mecanismo político de luta pela garantia de direitos, se
apresenta como estratégia basilar para a mudança estrutural da atenção à saúde.
A carta de Ottawa de 1986 se apresenta como referencial para o que acima se afirma, pois
para Albuquerque e Stotz (2004), ela “desloca para o âmbito da política a garantia da saúde,
destacando como fundamental a participação comunitária”.
Um dos maiores entraves ao processo de participação comunitária reside no fato de que
“grandes parcelas da população (camponeses e moradores urbanos favelados) não são
organizadas de modo a sustentar atividades políticas regulares”. Como conseqüência
frequentemente os interesses destes setores são expressos através de processos informais, ao
invés de formas públicas de pressão. No Brasil, a partir da segunda metade da década de oitenta,
os movimentos populares passaram a canalizar suas demandas para as comissões
interinstitucionais municipais de saúde, e depois, para os conselhos e as conferências de saúde.
Através desses canais participatórios, se apresentavam pública e formalmente as demandas dos
setores sociais recorrentemente excluídos dos processos decisórios. (CORTES, 2002).
A regulamentação do controle social no SUS, através da lei 8142 de 1990,
institucionalizou como foros de participação popular, os Conselhos e Conferências de Saúde,
como espaços formais de participação comunitária e de construção da co-gestão das políticas e
ações de saúde (BRASIL, 2009). Apesar da conquista do aparato legal, Valla (1998, p. 10) contra
argumenta que “os avanços legais, incluindo os dos Conselhos Municipais de Saúde, (...) não
têm levado a transformações efetivas na realidade dos serviços, a não ser em alguns casos
isolados”.

O Conselho de Saúde é órgão colegiado, deliberativo e permanente do Sistema Único de


Saúde em cada esfera de Governo, integrante da estrutura básica do Ministério da Saúde, da
Secretaria de Saúde dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, com composição,
organização e competência fixadas na Lei nº. 8.142/90. O Conselho de Saúde consubstancia a
participação da sociedade organizada na administração da Saúde, como Subsistema da
Seguridade Social, propiciando seu controle social. O Conselho de Saúde atua na formulação e
proposição de estratégias e no controle da execução das Políticas de Saúde, inclusive, nos seus
aspectos econômicos e financeiros (BRASIL, 2003).
Diferentemente do que acima está posto a legislação não conseguiu prover os Conselhos
de instrumentos eficazes para a efetivação de políticas ou ações de controle social, em
conseqüência, muito comumente os Conselhos não se consubstanciam em espaços dotados de
poder político (poder de controle/vigilância). O que se percebe é que “o tom vago e difuso em
que a proposta de participação popular aparece em textos oficiais, ao lado de sua frágil
normatização, tende a torná-la, como conseqüência, algo centralizado nas mãos dos técnicos e na
burocracia governamental” (VALLA, 1998).

Obviamente, tal contexto interessa a diversos setores voltados para a manutenção do


status quo, incluídos aí, desde setores governamentais, mesmo daqueles governos referidos como
"progressistas" ou "populares" como também a setores da sociedade civil organizada, como os
partidos políticos e sindicatos, interessados no fortalecimento dos processos de despolitização das
classes populares.

Grande parte dos conselhos de saúde no Brasil enfrenta dificuldades de estruturação deste
controle público em conseqüência da reduzida participação dos usuários e de representação de
setores da sociedade civil de caráter popular, ou seja, “aqueles preocupados com a construção
da cidadania, a melhoria da qualidade de vida e o controle desse processo pela sociedade civil
organizada e pelos cidadãos” (VALLA, 2009).

Neste contexto, está claro, que o processo de efetivação da participação popular nos
Conselhos de Saúde é interdependente da construção de espaços/tempos coletivos que objetivem
a participação política livre de sujeitos capazes de pensar e agir de forma autônoma ou, dotados
de “autonomias possíveis”. A participação popular, neste contexto, “significa uma força
social imprescindível para fazer sair do papel as conquistas e impulsionar as mudanças
necessárias”. (VALLA, 1998).

Pelo acima afirmado, percebe-se claramente, que a efetivação da participação popular


envolve, além destes constructos institucionalizados, a assunção pelo sujeito em situação de
opressão de seu protagonismo social, proporcionando condições para a análise de problemas, a
definição de prioridades, o estabelecimento de projetos, o planejamento de estratégias
alternativas, a intervenção sobre a realidade, o sonhar enfim. Pressupõe a atuação concreta dos
sujeitos na construção do processo político e de construção de si mesmos.
Observa-se assim que a efetiva participação popular necessita de arranjos outros além dos
garantidos por lei para ser concretizada; diversas situações e momentos podem ser criados,
enquanto dispositivos de participação, como rodas de conversa, reuniões e fóruns populares.
Claro está que a participação da sociedade civil não pode ser resumida à participação nos espaços
dos conselhos ou outros criados na esfera pública. Até para que haja qualificação, dessa
participação, ela deverá advir de estruturas participativas organizadas autonomamente na
sociedade civil. Para isto torna-se fundamental o chamado trabalho de base, no sentido de
“alimentar e fortalecer a representação coletiva nos colegiados da esfera pública”. Além
disso, é importante que “essa esfera pública não seja vista como um degrau superior, que surgiu
para eliminar ou superar formas e níveis de mobilização e organização que existiram na
sociedade brasileira”. (GOHN, 2004).
O contexto de participação comunitária nos processos de trabalho e na gestão do Sistema
Único de Saúde, infelizmente, mostra uma realidade bem diferente, como admite o próprio poder
público, por exemplo, na cartilha da Política Nacional de Humanização (PNH) sobre gestão
participativa,
“Quando se analisa o envolvimento dos trabalhadores de saúde e usuários no dia-a-dia
das unidades de atenção do SUS, percebe-se que a participação ainda é muito
pequena. Talvez porque lhes pareça que esta participação é difícil, complexa ou
impedida pelo excesso de burocracia do sistema de saúde.” (BRASIL, 2004).

A implementação pelo ministério da Saúde da PNH (HUMANIZASUS) em 2004, teve o


objetivo de qualificar a atenção e garantir a gestão compartilhada da saúde pelos três atores
envolvidos neste processo, no caso, trabalhador de saúde, usuário e gestor. (BRASIL, 2004).
O conceito de humanização tem por base a valorização dos diferentes sujeitos implicados
no processo de produção de saúde e deve ser norteado por valores como autonomia e
protagonismo dos sujeitos, a co-responsabilidade entre eles, os vínculos solidários e a
participação coletiva no processo de gestão. Visando intervir de modo transversal nas diversas
instâncias e ações do SUS de modo a consolidar redes, vínculos e a co-responsabilização entre
usuários, trabalhadores e gestores, a PNH foi instituída, afirmando que ao direcionar estratégias e
métodos de articulação de ações, saberes, práticas e sujeitos, podem-se efetivamente potencializar
a garantia de atenção integral, resolutiva e humanizada (BRASIL, 2006).
A Política Nacional de Humanização tem como princípios norteadores: a construção de
autonomia, capacidade de realização e protagonismo dos sujeitos e coletivos implicados na
rede do SUS e a responsabilidade conjunta desses sujeitos nas práticas de atenção e de
gestão.
Uma das propostas de concretização destes princípios deu-se a partir do estabelecimento
de um novo tipo de relação, de encontro e de diálogo crítico entre o pólo dos saberes e o pólo de
práticas desenvolvido no cotidiano de trabalho, chamada Comunidade Ampliada de Pesquisa
(CAP). (BRASIL, 2006).
Foi neste contexto, que se pretendeu construir, através da proposta formal da PNH, um
espaço/tempo coletivo no território da comunidade Boa Vista/Castelão que propiciasse a reflexão
coletiva sobre os entraves subjetivos e objetivos, teóricos e práticos à participação política
comunitária em suas lutas cotidianas por satisfação das necessidades de sobrevivência e de
superação desta realidade inóspita.

2.2 A Estratégia da Saúde da Família e os caminhos da educação popular

A Estratégia de Saúde da Família surgiu sob o caráter de programa governamental com a


denominação, ainda recorrentemente utilizada, de Programa Saúde da Família (PSF), como tal
teve início, em 1994, como um dos programas propostos pelo governo federal aos municípios
para implementar a atenção básica. O PSF teve como antecedente o PACS (Programa de Agentes
Comunitários de Saúde), lançado em 1991, e que já trabalhava a família como unidade de ação
programática. “Concebido como Programa dentro da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), o
PSF foi aos poucos, sendo tomado como prioritário dentro dos modelos propostos para atenção
básica e hoje se fala em Estratégia de Saúde da Família”. (RONCALLI, 2003, p. 45). De forma
crítica, Roncalli (2003, p. 45) enfatiza que “políticas assistenciais voltadas para grupos
vulneráveis e com baixa tecnologia coadunam com a lógica eficientista que vem sendo imposta
para a consecução de políticas sociais nos países de economia dependente”.
Para o discurso oficial, entretanto, a Estratégia de Saúde da Família se insere no contexto
do SUS como uma estratégia de reorientação do modelo assistencial, operacionalizada mediante a
implantação de equipes multiprofissionais em unidades básicas de saúde. Estas equipes são
responsáveis pelo acompanhamento de um número definido de famílias, adscritas em uma área
geográfica delimitada. As equipes atuam visando garantir a integralidade da atenção à saúde com
ações de promoção e manutenção da saúde, prevenção, recuperação e reabilitação de doenças e
agravos (BRASIL, 2009).
A Estratégia de Saúde da Família (ESF) mantém coerência com os princípios do SUS:
acessibilidade, resolubilidade, regionalização, hierarquização e participação popular; é o
componente do sistema responsável pela atenção primária à saúde e finalmente assim como o
próprio SUS, apresenta-se em processo de construção, a partir do aprofundamento de suas bases
conceituais e criação de uma nova práxis envolvendo todos os atores implicados na produção de
saúde (ANDRADE, BARRETO e FONSECA, 2004).
A Estratégia de Saúde da Família tem o objetivo de dinamizar e consolidar o SUS, como
modelo de organização da atenção à saúde, através da mudança das práticas convencionais de
assistência por um novo processo de trabalho, centrado na vigilância à saúde. (RONCALLI,
2003). Além disso, prioriza em suas bases teóricas a promoção da saúde sem desprezar a clínica,
ou seja, baseia-se no conceito ampliado de promoção e tem o coletivo como seu foco de atenção,
baseado no conceito de determinantes sociais do processo saúde-doença. (ANDRADE,
BARRETO e FONSECA, 2004).
A ESF se propõe a ampliar a abordagem sobre o processo saúde-doença ao território,
espaço social onde se estabelecem as relações sociais de produção e reprodução de sujeitos e
coletivos. Como afirmam Mendes e Donato (2003), “Sendo território uma construção, é produto
da dinâmica onde tensionam-se as forças sociais em jogo. Uma vez que essas tensões e conflitos
sociais são permanentes, o território nunca está pronto, mas sim em constante transformação”.
Neste contexto, enfatiza-se, a necessidade de se conhecer a história dos sujeitos, do território
onde estão inseridos e de como o território se insere na dinâmica da cidade.
Deve ser constante o processo de conhecimento e desvelamento da realidade onde atuam
as equipes de saúde tendo como objetivo a transformação social. Neste sentido a ESF “possibilita
a participação cotidiana dos cidadãos na gestão pública e no controle das condições que podem
interferir na sua saúde e da coletividade onde vivem e trabalham”. Como condição-meio deste
processo, Mendes e Donato (2003) defendem que seja “necessário, que os sujeitos se apoderem
do território, o que implica um processo de identificação com os diferentes lugares e as
particularidades históricas e políticas desses lugares, possibilitando assim uma participação mais
efetiva”. Constituído desta forma o território se expressa como espaço de aprendizado e conquista
de cidadania.
Para Boaventura, “sempre que o capitalismo teve de confrontar-se com suas endêmicas
crises de acumulação, fê-lo ampliando a mercadorização da vida, estendendo-a a novos bens e
serviços e a novas relações sociais”, (SANTOS, 1999, p.34 e 35). Os modelos de atenção à saúde,
enquanto produto de políticas sociais, são conformados à relação estabelecida entre Estado e
sociedade e dependem de forma intrínseca do modo e das relações de produção.
A reavaliação das bases científicas da medicina a partir do relatório Flexner, no inicio do
século XX, e a conseqüente redefinição do ensino e da prática médica a partir de princípios
tecnológicos, com base no conhecimento experimental, proveniente da pesquisa básica realizada
sobre a doença, reforçou o caráter individualista do modelo biomédico ainda dominante na
atenção à saúde no Brasil. O que se percebe é que o modelo flexneriano reforçou “a separação
entre individual e coletivo, privado e público, biológico e social, curativo e preventivo”. A
reflexão sobre o modelo de saúde pública ainda vigente deixa clara a percepção de que “as
referências paradigmáticas do movimento da saúde pública não expressam qualquer
contradição perante as bases positivistas da medicina flexneriana”. (PAIM e ALMEIDA
FILHO, 1998, p. 302 e 303).
A estruturação de bases teóricas capazes de sustentar uma nova prática da saúde pública
necessita, para Paim e Almeida Filho (1998, p.307), de profissionais com uma nova mentalidade,
com capacidade de cumprir diferentes papéis. Desde uma função histórico-política de “resgatar,
do próprio processo histórico de construção social da saúde, os conhecimentos, êxitos e fracassos
da humanidade em sua luta pela cidadania e bem-estar” até uma “função agregadora de valor
através da produção e gestão do conhecimento científico tecnológico”. Por fim, utilizando o
conhecimento como instrumento de denúncia e promoção da mobilização crescente da sociedade
na realização do seu potencial de saúde e exercício do direito de cidadania.
A Saúde Coletiva trouxe de forma relevante alguns pressupostos fundamentais para o
processo de superação do modelo biomédico, tais como: a necessária articulação social do setor
saúde, “A Saúde, enquanto estado vital, setor de produção e campo do saber, está articulada à
estrutura da sociedade através das suas instâncias econômica e político-ideológica, possuindo,
portanto, uma historicidade”; a necessidade de constituição das ações de saúde enquanto prática
social, “As ações de saúde (promoção, proteção, recuperação, reabilitação) constituem uma
prática social e trazem consigo as influências do relacionamento dos grupos sociais”; a
delimitação do seu objeto de estudo e ação “O objeto da Saúde Coletiva é construído nos limites
do biológico e do social e compreende a investigação dos determinantes da produção social das
doenças e da organização dos serviços de saúde e o estudo da historicidade do saber e das
práticas sobre os mesmos”; e os processos de produção de conhecimento “O conhecimento não se
dá pelo contato com a realidade, mas pela compreensão das suas leis e pelo comprometimento
com as forças capazes de transformá-la” (PAIM e ALMEIDA FILHO, 1998, p. 309).
A educação popular se insere no contexto da Saúde Coletiva e em específico na Estratégia
de Saúde da Família como um poderoso instrumento auxiliar na incorporação de novas
práticas, facilitando a inserção das equipes no território e principalmente estimulando a
implicação dos sujeitos. “Sua concepção teórica, valorizando o saber do outro, entendendo que o
conhecimento é um processo de construção coletiva, tem sido utilizada pelos serviços, visando
um novo entendimento das ações de saúde como ações educativas (ALBUQUERQUE e
STOTZ)”.
A educação popular garante uma mudança de perspectiva, de agires e discursos sobre o
processo formativo dos envolvidos na produção e gestão da saúde (trabalhadores e usuários),
gerando em conseqüência um novo olhar sobre os conceitos de gestão compartilhada e atenção
humanizada.
Pela valorização da ação dialógica, a educação popular “caminha para a superação das
formas existentes de opressão, [no sentido de] uma pedagogia emancipatória”, orientada no
sentido da interpretação da natureza complexa do homem em suas relação com o outro e com o
mundo, considerando que “todos se educam pelo diálogo, intersubjetivamente”. (MELO NETO,
2004).
A educação popular leva em consideração que a educação tem como objeto de estudo e
instrumento teórico e prático o saber, ou seja, o sentir / pensar / agir das pessoas, grupos,
categorias e classes sociais. Portanto, o saber inclui as dimensões intelectual, afetiva e prática e
não somente a produção e transmissão de conhecimentos e conteúdos, o conhecimento de teorias
e metodologias e a produção e circulação de informações, ou seja, a dimensão intelectual.
(SALES, 2001).
A base sobre a qual se justifica a Educação Popular é o fato de que o povo, no processo
de luta pela transformação social, precisa elaborar o seu próprio saber. O reconhecimento de
que estamos em presença de atividades de educação popular se dá quando, independentemente do
nome que levem se está vinculando a aquisição de um saber (que pode ser muito particular
ou específico) com um projeto social transformador. Neste sentido, se apresenta como técnica
privilegiada para atividade epistemológica da pesquisa-ação. A educação é popular quando,
enfrentando a distribuição desigual de saberes, incorpora um saber como ferramenta de
libertação nas mãos do povo. (VIEIRA, apud BRANDÃO, 1986 p.68).
A desqualificação dos saberes populares é usada como instrumento de dominação e
opressão e os mediadores (trabalhadores e técnicos da classe média) infelizmente, mesmo uma
parcela considerável daqueles engajados às causas populares, têm dificuldades em interpretar os
desejos e interesses das camadas oprimidas exatamente por não reconhecerem as dimensões do
saber popular e a complexidade do contexto de suas vidas.
È necessária a compreensão de que a não consideração dos sentidos, dos sentimentos e
dos modos de agir das pessoas tem péssimas implicações na prática educativa: estas práticas
desqualificam dimensões fundamentais das vidas das pessoas, o que do ponto de vista da
educação popular que se pretende, significa desqualificação e empobrecimento das pessoas: “não
se vivencia a participação ao se impor às pessoas e grupos alguns objetivos, conteúdos,
metodologia e formas de gestão que não têm ressonância e importância em sua vida”. Desta
forma se compromete a eficácia da atuação quando não se leva em conta a realidade subjetiva de
pessoas de quem se deseja estar junto ou a quem se pretende prestar um serviço. (SALES, 2001,
p. 112)
Para finalizar, é necessário que se afirme o compromisso político da educação popular
com as lutas populares por emancipação. Neste sentido, Stotz lembra que “Nas suas mais
diversas formas de expressão, a educação popular em saúde é também um compromisso
político com as classes populares, com a luta por condições de vida e de saúde, pela
cidadania e pelo controle social”. E lembra sua conexão direta com a participação popular, ao
afirmar que a educação popular “Está diretamente ligada à valorização e à construção da
participação popular. Tem uma perspectiva histórica, reconhecendo os pequenos passos e os
movimentos das forças sociais em busca do controle de seu próprio destino”. (STOTZ, 1994).
O processo de estruturação das equipes de saúde da família no município de Fortaleza,
iniciou-se em 2006, com a contratação através de concurso público de 850 trabalhadores,
médicos, dentistas e enfermeiros que se distribuiriam pelas 88 unidades e centros de saúde da
família da cidade. Fortaleza iniciava naquele instante uma nova etapa na atenção à saúde, visto
que a carência de mão-de-obra para a efetivação de atividades de assistência à saúde e
principalmente para cobertura das áreas adscritas às unidades era perceptível.
Segundo dados da SMS, um milhão e 600 mil pessoas, o equivalente a 70% da população
de Fortaleza, necessitam do SUS de maneira mais efetiva. Para cobrir 100% desse contingente,
seria necessário o trabalho de 460 equipes do PSF, com médicos, enfermeiros, auxiliares de
enfermagem e odontólogos, além de 2.700 agentes comunitários de saúde. A partir de 2006 o
município dobrou o índice de cobertura da estratégia, passando de 102 equipes de saúde da
família (15%) para algo em torno de 200 equipes.
É importante enfatizar que o processo de inserção das equipes de saúde no território
representa um momento crítico da estruturação dos serviços. No Centro de Saúde da Família
Edmar Fujita isto não foi diferente. Percebeu-se de inicio que apesar da novidade e do impacto da
presença de uma grande quantidade de novos trabalhadores na unidade, com novos desejos,
interesses e aspirações, da inter-relação tempo-espaço oportuna para novas possibilidades,
infelizmente prevaleceu o pilar da regulação.
Para os atores que já atuavam no processo de produção da saúde no território, a chegada
de novos atores foi recebida com um misto de esperança e desconfiança. Esperança de um
atendimento mais humanizado e desconfiança de que tudo permaneceria como estava, esperança
de avanço quantitativo na assistência e desconfiança de que de repente se avançasse também
qualitativamente, esperança de poder dividir o peso do atendimento da demanda e desconfiança
da possibilidade iminente do conflito pelo espaço usurpado. Neste contexto complexo em que
todos se envolveram trabalhadores da estratégia de saúde a família, usuários, trabalhadores da
unidade e gerência, prevaleceu o desejo de permanência, de conservação do status quo do modelo
de atenção médico-centrado, individualista e curativista.
Apesar do arcabouço teórico, aberto à mudança paradigmática, da estratégia de saúde da
família já ser conhecido por boa parte dos atores locais o que predominou foi o medo da
liberdade. Prova disso são as raríssimas discussões e reflexões na roda de co-gestão da unidade a
respeito deste modelo, seu caráter negador da autonomia dos usuários, do conhecimento e dos
valores populares, da ação contextualizada e crítica em relação à realidade objetiva dos grupos
em risco social, as possibilidades do poder terapêutico do poder.
Discute-se a necessidade de ampliação das ações de promoção e prevenção, contanto que
não interfira no atendimento clínico. Discute-se sobre acolhimento contanto que a demanda se
adeque às ofertas da unidade. Discute-se sobre a participação da comunidade na roda contanto
que se garanta a manutenção de um espaço técnico/profissional restrito. Prevalece o pilar da
regulação.
As questões levantadas mostram que estamos distantes de construir a integralidade da
atenção. A roda de co-gestão, aliás, me parece expressão indevidamente utilizada, visto que ainda
não conseguiu se estruturar enquanto espaço coletivo de deliberação e constituição de sujeitos,
longe de representar espaço de formação e democratização do ambiente de trabalho, no final das
contas serve principalmente como ambiente de repasse de informações.
Os problemas, entretanto não parecem se restringir aos trabalhadores e ao interior da
unidade de saúde. Percebe-se através do diálogo informal com atores locais que os movimentos
sociais comunitários não se sentem representados nos processos decisórios locais, o conselho
local de saúde apresenta dificuldades de estruturação por conta do desinteresse dos trabalhadores
e gestão pelas atividades de controle social e pela desconfiança dos usuários sobre sua efetividade
como espaço de deliberação ou mesmo de discussão dos problemas locais de saúde, as lideranças
comunitárias reclamam da falta de engajamento e compromisso dos moradores, os trabalhadores
reclamam e se sentem desanimados com a falta de “adesão” dos usuários às atividades de
educação em saúde, por fim, o que se percebe no complexo contexto das relações entre
trabalhadores, usuários e gestão local é uma dinâmica relacional que normalmente oscila da
indiferença ao paternalismo.
Este contexto nos obriga a problematizar questões tais como: de que forma os diversos
atores (trabalhadores, usuários e gestores) encaram este processo de inserção das equipes
no território de adscrição do CSF Edmar Fujita? Que mudanças foram percebidas na
qualidade da atenção do usuário dos serviços? Como estes atores encaram a contradição da
manutenção do modelo inapsiano de atenção no interior de um modelo que se propõe
transformador? Que mecanismos poderiam ser utilizados para superar a situação limite
“medo da liberdade”? Como favorecer os processos de participação efetiva dos movimentos
sociais locais? Como estimular a participação dos diversos atores nas atividades de controle
social? Como fortalecer o conselho local enquanto espaço de discussão e deliberação dos
problemas locais de saúde? Como estimular os processos de participação popular na
comunidade de modo a garantir a efetividade do trabalho de promoção da saúde? Como,
por fim, construir um ambiente dialógico que possibilite que os diversos interesses em jogo
possam ser postos à mesa de modo a constituir sujeitos? Estas são questões merecedoras de
reflexões futuras, e que este trabalho se propõe a tentar esclarecer, pelo menos, no que tange ao
seu objeto de estudo.

3. PARTICIPAÇÃO POPULAR

Participação popular é tema ainda novo dentro dos marcos teóricos das ciências da saúde
e conceitualmente controverso para as ciências sociais. O objeto participação popular enquanto
tema central do processo de controle social de políticas públicas teve sua importância
reconhecida em contexto histórico recente. Coincidiu com as discussões visando à formulação
dos aspectos técnicos e políticos do Sistema Nacional de Saúde, ou seja, sua emergência
enquanto marco teórico de importância sócio-política coincidiu com as lutas em defesa do
Sistema Único de Saúde, a partir do Movimento de Reforma Sanitária.
Para Valla (1998, p.09), “participação popular compreende as múltiplas ações que
diferentes forças sociais desenvolvem para influenciar a formulação, execução, fiscalização e
avaliação das políticas públicas e/ou serviços básicos na área social”, mas pode ter outros
sentidos, aliás, uma das características marcantes da discussão sobre participação é exatamente,
seu caráter ambíguo.
Consciente desta ambigüidade e com o intuito de tentar facilitar a compreensão sobre a
categoria participação aqui abordada torna-se necessário um esclarecimento prévio, “a literatura
sobre o tema tem tratado como participantes em potencial a comunidade, o consumidor, as
classes populares (participação popular), o cidadão e o usuário”. (CORTES, 2002). Este trabalho,
apesar de concretamente lidar com o usuário do sistema de saúde e em vários momentos abordar
a questão da participação deste na construção das políticas do setor, tem o objetivo de articular o
processo de atuação política do usuário, à discussão sobre a construção da emancipação das
classes populares e do protagonismo dos atores comunitários. Para tal fim, considera-se que há
participação quando o envolvido tomar parte no processo de decisão política, ou seja, quando
atua como sujeito e decide os rumos da vida em sociedade.
A referência a “classe popular” é específica à “grande parcela da população que, se não
tiver um trabalho diário remunerado, corre o risco de não satisfazer suas necessidades mínimas de
moradia e alimentação, mas que permanece muito distante de qualquer forma de realização
profissional ou familiar” (VALLA, 2009). Como será discutida mais adiante, a referência à
participação popular aqui abordada, também se insere no contexto da participação política destas
mesmas classes em suas lutas pela sobrevivência física e pela emancipação sócio-política.
Os conceitos de participação e protagonismo se inter-relacionam, visto que em essência a
categoria participação envolve um processo de vivência que imprime sentido e significado a um
grupo ou movimento social, tornando-o protagonista de sua história, desenvolvendo uma
consciência crítica desalienadora, agregando força sociopolítica a esse grupo ou ação coletiva, e
gerando novos valores e uma cultura política nova. A construção do protagonismo comunitário
envolve necessariamente o “empoderamento”, ou seja, exige a instauração de processos que
tenham a capacidade de gerar desenvolvimento auto-sustentável, com a mediação de agentes
externos - os novos educadores sociais – atores fundamentais na organização e no
desenvolvimento dos projetos. Uma característica recente deste processo é que ele tem “ocorrido,
predominantemente, sem articulações políticas mais amplas, principalmente com partidos
políticos ou sindicatos”. (GOHN, 2004).
Enquanto em fins da década de 70 predominava entre os movimentos sociais a idéia de
participação e organização da população civil do país no sentido da luta contra o regime militar,
tendo como eixo estruturante a idéia de autonomia. Nos anos oitenta, ocorreu um descentramento
do setor popular (movimento sindical e de bairro) como “sujeito social histórico” e o conseqüente
aparecimento de novos atores que trouxeram para arena política a discussão sobre o conceito de
cidadania. A incorporação ao discurso oficial e a resignificação do conceito cidadania nos anos
90 promoveram uma mudança nos mecanismos de atuação dos movimentos sociais, visto que, tal
conceito engloba a idéia de participação civil, de responsabilidade social dos cidadãos, por tratar-
se não apenas dos direitos, mas também de deveres, e consequentemente homogeneíza os atores.
(GOHN, 2004).
A variedade de movimentos sociais, principalmente do chamado terceiro setor e suas
respectivas formas de atuar, gera um “cenário contraditório, no qual convivem entidades que
buscam a mera integração dos excluídos por meio da participação comunitária em políticas
sociais exclusivamente compensatórias” representadas pelas entidades de perfil corporativo;
com “entidades, redes e fóruns sociais que buscam a transformação social por meio da mudança
do modelo de desenvolvimento que impera no País”. (GOHN, 2004)
Alguns pressupostos sustentadores do que é aqui defendido como participação, se
coadunam com o sistematizado por Gohn (2004), ou seja: a construção de uma sociedade
verdadeiramente democrática só será possível através “da participação dos indivíduos e
grupos sociais organizados”. A sociedade não será transformada apenas com a participação no
plano local, micro, mas “é a partir do plano micro que se dá o processo de mudança e
transformação na sociedade”. É exatamente no plano local, mais precisamente no espaço do
território, “que se concentram as energias e forças sociais da comunidade, constituindo o poder
local daquela região”; mas, além disso, é no local onde ocorrem as experiências, ele é a fonte
do que vem a ser designado capital social, “aquele que nasce e se alimenta da solidariedade
como valor humano. O local gera capital social quando gera autoconfiança nos indivíduos de
uma localidade, para que superem suas dificuldades”. Acima de tudo o capital social cria, “junto
com a solidariedade, coesão social, forças emancipatórias, fontes para mudanças e transformação
social”. Por fim, “é no território local que se localizam instituições importantes no cotidiano de
vida da população, como as escolas, os postos de saúde etc.”. È importante enfatizar, entretanto,
que o poder local de uma comunidade não existe a priori, necessita ser organizado, “adensado
em função de objetivos que respeitem as culturas e diversidades locais, que criem laços de
pertencimento e identidade sociocultural e política”.
A participação da sociedade civil na esfera pública - via conselhos e outras formas
institucionalizadas – deve se dar de forma “ativa e considerar a experiência de cada cidadão que
nela se insere e não tratá-los como corpos amorfos a serem enquadrados em estruturas prévias,
num modelo pragmatista” de modo a exigir que o Estado cumpra seu papel institucional. Ou seja,
propiciar educação, saúde e demais serviços sociais com qualidade, e para todos. (GOHN, 2004).
Valla citando Stotz (1998) chama atenção para a urgência de superar esta mera defesa do
papel do Estado em prover diretamente ou em regular a oferta privada (contratada ou autônoma)
de serviços. Segundo ele, “Para que tais serviços contemplem de fato as necessidades sociais das
populações, precisam levar em conta, obrigatoriamente, o que as pessoas pensam sobre seus
próprios problemas e que soluções espontaneamente buscam”.
Há a necessidade de se garantir, aos atores sociais das classes populares, o poder de
decisão sobre o que efetivamente deseja e lhe interessa, através do fortalecimento dos coletivos
formais e informais de participação política. Isso pode ser iniciado pelo resgate da história das
lutas comunitárias por conquista e efetivação de direitos sociais e políticos. Como tão bem
lembra o autor “A história nunca começa com o contato dos profissionais dos serviços com as
suas clientelas”. Para ele “há um passado que ainda vive, em sua virtualidade, no presente e está
referido às experiências acumuladas em uma gama amplamente diversificada de alternativas, bem
como às lutas moleculares ou coletivas que enraízam formas de pensar e agir”. E complementa
“É esta experiência que precisa ser resgatada pelos serviços, pelos profissionais, técnicos e
planejadores” (VALLA, 1998).
No contexto da crise de interpretação dos mediadores, algumas questões podem estar
diretamente implicadas como, por exemplo, as diferenças de concepção sobre o modo como as
classes populares “encaram a vida”. A superação deste obstáculo deve passar necessariamente
pela admissão por parte dos mediadores/profissionais de que “é bem provável que esses setores
da população tenham enorme lucidez sobre a sua situação social, o que pode significar também
que seja ilusória uma considerável melhoria de vida”. Nesse sentido, a “crença em melhorias e
numa solução mais efetiva pode apenas ser um desejo, embora importante, da classe média
comprometida”.
Para Valla (1998), “ainda que alguns mediadores sejam mais atenciosos e respeitosos
com as pessoas pobres da periferia, os muitos anos de uma educação classista e preconceituosa
faz com que o papel de ‘tutor’ predomine nas suas relações com esses grupos”.
A reflexão sobre participação política, para Chauí (1989, p.300), envolve necessariamente
a compreensão da categoria “opinião pública”. Segundo a autora, no contexto atual da indústria e
do marketing político, a opinião pública deixou de ser a “reflexão e ponderação em público”,
herança da antiga democracia grega, para tornar-se o “desabafo dos sem-poder captado pelo
mercado político para ser convertido em ‘demanda social’ e para ser trabalhado pelas
‘elites’ a fim de convertê-lo em mercadoria oferecida pelos partidos aos cidadãos”. Tal
situação significa que “a opinião propriamente dita é produzida pelos vendedores da mercadoria
política”, e consequentemente “produz a ilusão da participação”, ou seja, engendra o contexto
de “cidadãos isolados, privatizados e despolitizados imaginando que a expressão, em público, de
suas angústias, de seus medos, de seus desejos os converteriam em sujeitos políticos ativos”, ou
mais precisamente “como se o desabafo pudesse elidir a impotência sócio-política no exato
momento em que a deixa aparecer em público” .
Como paradoxalmente “o processo da despolitização só será eficaz se também produzir o
sentimento da participação (ainda que ilusória)”. Chauí (1989, p. 300-301) provoca, ao indagar
“se as contradições entre a ilusão de participar e a percepção efetiva da heteronomia crescente das
práticas sociais e das idéias políticas [de repente] não provocaria um movimento que fizesse
aparecer (...) os limites da ilusão e da heteronomia e pudesse introduzir o tema da autonomia”.
Para ela, os “movimentos sociais e populares que agem como contra-poderes sociais” poderiam
ser uma pista deste movimento.
Para Glória Gohn, movimentos sociais são “ações sociais coletivas de caráter sócio-
político e cultural que viabilizam distintas formas da população se organizar e expressar suas
demandas”. Podem ter caráter diversificado, mas quando assumem postura política progressista
“constituem e desenvolvem o chamado empowerment de atores da sociedade civil organizada à
medida que criam sujeitos sociais para atuação em rede”. Para a autora, os movimentos atuais
construíram um novo entendimento sobre autonomia; para eles, ter autonomia é “ter projetos e
pensar os interesses dos grupos envolvidos com autodeterminação; é ter planejamento estratégico
em termos de metas e programas; é ter a crítica, mas também a proposta de resolução para o
conflito”. A autora continua “é ser flexível para incorporar os que ainda não participam, mas têm
o desejo de participar, de mudar as coisas e os acontecimentos da forma como estão”. E finaliza,
“é priorizar a cidadania: construindo-a onde não existe, resgatando-a onde foi corrompida”.
(GOHN, 2003, p. 13-17)
Para Chauí, autonomia é a “capacidade interna para dar-se a si mesmo sua própria lei ou
regra e, nessa posição da lei-regra, pôr-se a si mesmo como sujeito”. E complementa, “a
autonomia não consiste, então, no poder para mudar o curso da história e sim na capacidade para,
compreendendo esse curso, transformar-lhe o percurso”. (CHAUÍ, 1989. p, 300-301).
A luta política em defesa da autonomia pressupõe: “a compreensão de que a forma
contemporânea da dominação e da exploração cristaliza-se na separação radical, em todas as
esferas da vida social, entre dirigentes e executantes”. Separação na qual, os primeiros “detêm a
decisão, a direção, o controle e as finalidades de uma prática, enquanto os segundos devem adotar
comportamentos prescritos (...) cujo modo de realização, sentido e fins lhes escapam
inteiramente”. Chauí complementa “essa heteronomia (...) é reforçada e naturalizada porque
encontra suporte na ideologia da competência, isto é, na crença de que o saber dos especialistas
enquanto saber legitima o exercício de autoridade”. Tal conjuntura ocorre sem que se leve em
conta que de um lado “a criação dos competentes só pode ser feita pela criação simultânea dos
incompetentes” e por outro lado “o vinculo entre saber e poder, tal como o conhecemos, é
resultado das instituições sociais criadas pelo capitalismo”. (CHAUÍ, 1989. p, 306).
Aqui recorremos mais uma vez a reflexão freireana, quando afirma que “um dos
elementos básicos na mediação opressores-oprimidos é a prescrição. Toda prescrição é a
imposição da opção de uma consciência à outra”, o autor finaliza afirmando, “por isto, o
comportamento dos oprimidos é um comportamento prescrito. Faz-se à base de pautas estranhas
à ele – as pautas dos opressores” (FREIRE, 2005, p. 36-37)
Há a necessidade de se refletir sobre até que ponto os mediadores estão contribuindo para
processo de culpabilização das classes populares e consequentemente estão fortalecendo os
processos de dominação e opressão. “Uma das justificativas para se culpar as vítimas é a
desqualificação do saber popular. Assim, o monopólio do saber técnico, seja médico ou de
outro tipo, põe em segundo plano o saber acumulado da população trabalhadora, ao lançar mão
da escolaridade como parâmetro da competência”. (VALLA, 1998).
Tal concepção aponta para a necessidade de se desvelar esta outra categoria, construída
ideologicamente pela sociedade capitalista. O discurso da “competência” é responsável pela
forma contemporânea de dominação, através da separação entre o controle técnico-científico do
processo de trabalho por um grupo de dirigentes competentes (concepção) e a execução do
trabalho pela maioria incompetente (realização) (CHAUÍ, 1989. p, 109). Para Chauí, o discurso
competente “se instala e se conserva graças a uma regra que poderia ser assim resumida: não é
qualquer um que pode dizer qualquer coisa a qualquer outro em qualquer ocasião e em
qualquer lugar”. E complementa “com esta regra, ele produz sua contraface: os incompetentes
sociais”. Incompetentes tolhidos na capacidade de construir seus destinos através da participação
política. Todavia, Chauí aponta um caminho “se procurarmos desvendar os mecanismos de
produção da incompetência social, teremos alguma possibilidade de desfazer internamente o
discurso da competência”. Complementa, “trata-se de contestar o uso privado da cultura, sua
condição de privilégio ‘natural’ dos bem dotados, a dissimulação da divisão social do trabalho
sob a imagem da diferença de talentos e de inteligências”. E finaliza “é a noção de competência
que torna possível a imagem da comunicação e da informação como espaço da opinião pública
(...) ao fazer do público espaço da opinião, essa imagem destrói a possibilidade de elevar o saber
a condição de coisa pública, isto é, de direito a sua produção por parte de todos”. (CHAUÍ, 1989,
p. 02).
Essa desqualificação do saber das classes populares é utilizada como instrumento de
dominação e tem seu contexto ampliado de forma a desqualificar os sujeitos destes saberes,
castrando a “vocação dos homens” de humanizarem-se (FREIRE, 2005). Daí que a
“desqualificação da classe trabalhadora também passa pela construção de uma imagem do bruto,
do carente, do nulo, afirmando, aliás, que família pobre é ‘igual à doença’”. Neste contexto,
estrutura-se o objetivo da dominação de “apagar as diversidades do interior das classes populares
e de infantilizar os mesmos trabalhadores”, para isso “chama-os de mentirosos quando alegam
problemas de saúde, de apáticos quando demonstram desinteresse na sala de aula, ou acusa-os de
não compreender os conselhos de prevenção”. (VALLA, 1998).
Tal condição gera dentro do processo educacional, enquanto troca de saberes, situações
ou idéias mitificadas, como o fato de que na “aceitação” de que “os saberes dos profissionais e da
população são iguais, esteja implícita a idéia de que o saber popular copia o dos profissionais”.
Gera ainda obstáculos muitas vezes intransponíveis à autenticidade do processo, como por
exemplo, o fato de que “se a referência para o saber é o profissional, tal postura dificulta a
chegada ao saber do outro”. Tal processo se dará possivelmente pela superação da incongruência
de nós oferecermos nosso saber, por pensarmos que “o da população é insuficiente e, portanto,
inferior, quando, na realidade, é apenas diferente”. Bem como, de certas artimanhas políticas,
como o fato de que, “embora haja profissionais preocupados com a necessidade de a
população se organizar e reivindicar seus direitos e serviços básicos de qualidade, na
realidade a tradição dominante no Brasil é o convite das autoridades para que a população
participe mais”, no sentido de cumprir obrigações que em verdade são do Estado. (VALLA,
1998).

4. METODOLOGIA

Neste trabalho se utilizarão as bases teórico-metodológicas da comunidade ampliada de


pesquisa como uma modalidade de pesquisa-ação aplicada à realidade da comunidade Boa
Vista/Castelão. Assim, perseguindo a abertura de espaços de análise da realidade local, foram
criadas algumas estratégias que constituíram um programa de formação de diversos atores locais
que incluiu várias etapas, de forma que cada uma delas preparava as condições necessárias para o
desenvolvimento das subseqüentes. A primeira, que consideramos como o momento disparador
das discussões, e que destacamos aqui por razões metodológicas foi o Fórum Popular que teve o
objetivo de permitir os primeiros contatos entre os saberes populares e dos técnico-mediadores,
estimular o diálogo/reflexão e a ação sobre a realidade concreta a partir da análise dos problemas
e potencialidades locais pelo grupo de trabalho do Fórum e fortalecer o caráter democrático e
participativo dos coletivos comunitários.
A pesquisa-ação é uma abordagem, específica em ciências sociais, definida como uma
pesquisa na qual há um ação deliberada de transformação da realidade e que possui duplo
objetivo: transformar a realidade e produzir conhecimentos relativos a essas
transformações. (BARBIER, 2002).
Para Thiollent (1988, p. 15), uma pesquisa pode ser qualificada como pesquisa-ação
quando houver uma ação do tipo não trivial, ou seja, “uma ação problemática merecendo
investigação para ser elaborada e conduzida”, para o autor é necessário ainda que tal ação “seja
conduzida por pessoas ou grupos implicados no problema sob observação”.
Uma das principais características da pesquisa-ação está relacionada ao papel do
pesquisador ou dos pesquisadores na pesquisa e a relação entre as unidades de pesquisa. Para
Barbier (2002, p.14), “a pesquisa-ação obriga o pesquisador a implicar-se. Ele percebe que
está implicado pela estrutura social na qual está inserido e pelo jogo de desejos e de interesses de
outros”. O autor complementa afirmando que o pesquisador “também implica os outros por meio
de seu olhar e de sua ação singular no mundo. Ele compreende, então que as ciências humanas
são, essencialmente, ciências de interações entre sujeito e objeto de pesquisa”. E finaliza
afirmando que “o pesquisador realiza que sua própria vida social e afetiva está presente na sua
pesquisa sociológica e que o imprevisto está no coração de sua prática”.
Na pesquisa-ação os sujeitos-atores da pesquisa não são excluídos. Nela “o pesquisador
descobre que (...) não se trabalha sobre os outros, mas e sempre com os outros”. E mais, “ele não
apresenta sozinho seu relatório de pesquisa ao solicitante da pesquisa (...) sem antes o ter
apresentado ao seu grupo de pesquisa de campo, principal interessado. Quando possível, ele o
redige coletivamente” (BARBIER, 2002, p. 14-15).
Voltando ao papel do pesquisador, Barbier descreve o pesquisador em pesquisa-ação,
como “antes de tudo um sujeito autônomo e, mais ainda, um autor de sua prática e de seu
discurso”. Este processo de autorização, segundo o autor, “leva-o juntamente com outros a
formarem, na incompletude, um grupo-sujeito no qual interagem os conflitos e os imprevistos da
vida democrática” (BARBIER, 2002, p.19).
Com relação ao processo de pesquisa, em termos comparativos, a pesquisa-ação apresenta
vantagens nas cinco fases por que normalmente passa a pesquisa clássica. Ela não tem de
formular a priori hipóteses e preocupações teóricas ou de traduzi-las em conceitos operatórios
suscetíveis de serem medidos por instrumentos padronizados. Nela o pesquisador constata o
problema de pesquisa, não o provoca e seu papel consiste em ajudar a coletividade a determinar
todos os detalhes (...), por uma tomada de consciência dos atores do problema numa ação
coletiva. O pesquisador leva em consideração “as questões da coletividade inteira e não as de
uma amostra representativa” e seus instrumentos de pesquisa podem ser semelhantes, mas, em
geral são mais interativos e implicativos (discussões de grupo, desempenho de papéis, conversas
aprofundadas)”. Na pesquisa-ação “os dados são retransmitidos à coletividade, a fim de conhecer
sua percepção da realidade e de orientá-la de modo a permitir uma avaliação apropriada dos
problemas detectados”. Por fim, os dados de pesquisa “são o produto de discussões de grupo”,
desta forma, a análise e discussão impõe a comunicação dos resultados da investigação aos
membros nela envolvidos, objetivando a análise de suas reações”. No fim da pesquisa, “há
sempre discussão sobre os resultados e uma proposta de novas estratégias de ação”. (BARBIER,
2002, p.54-56).
A Comunidade Ampliada de Pesquisa foi dispositivo criado pelo médico Ivar Oddone e
sua equipe na Itália (1978-1982) e materializa a necessidade constatada de articular as formas de
cultura, de acumulação de patrimônios (saberes e valores) que existem no trabalho com as
disciplinas acadêmicas. Essa articulação, segundo Oddone (1986), sempre foi muito incipiente,
evidenciando uma “incultura” por parte do pesquisador e do trabalhador, evidencia tanto um
desconhecimento por parte dos pesquisadores com relação ao trabalho realizado em situações
específicas, quanto por parte dos trabalhadores no que se refere à produção científico-acadêmica.
(BARROS E OLIVEIRA, 2009). Conhecer as formas de cultura e patrimônios deve segundo essa
perspectiva, passar pelo conhecimento dos próprios trabalhadores que será então confrontado
com os saberes formais dos pesquisadores e vice-versa. A CAP, também chamada Comunidade
Científica Ampliada, seria então um instrumento privilegiado para o conhecimento do trabalho e
para provocar nele transformação.
Voltado para o estudo sobre as condições de trabalho e a produção de conhecimento por
quem executa, atua, produz valor, ou seja, o trabalhador, a CAP traz a discussão a respeito das
condições de trabalho a partir de certas categorias como a diferença entre trabalho prescrito e
efetivo. As prescrições são as regras que definem como o trabalho deve ser realizado. No entanto,
as situações cotidianas, os imprevistos nem sempre são definidos pelas prescrições. Para dar
conta da realidade complexa do trabalho, os trabalhadores são convocados a criar, a
improvisar ações, a construir o curso de suas ações, a pensar o melhor modo de trabalhar, a
maneira mais adequada de realizar o trabalho, de forma a atender os diversos contextos
específicos.
O caráter imanente do trabalhador enquanto gestor de suas ações é percebido a partir do
fato de que “a cada situação que se coloca, o trabalhador elabora estratégias que revelam a
inteligência que é própria de todo trabalho humano. Portanto, o trabalhador também é gestor e
produtor de saberes e novidades. Trabalhar é gerir. Gerir junto com os outros”.
A criação implica experimentação constante, maneiras diferentes de fazer. Assim, evita-se
fazer a tarefa de forma mecânica, em um processo de aprendizagem permanente, uma vez que se
questionam as prescrições e se constroem outros modos de trabalhar para dar conta de uma
situação nova e imprevisível.
Os projetos de pesquisa que se articulam a essa perspectiva consideram, portanto, que
para conhecer o trabalho desenvolvido pelos viventes humanos, coloca-se o desafio de conjugar
diferentes pesquisas, colocar em diálogo crítico os conhecimentos e análises científicas com
ações práticas concretas de mudanças. Essa seria uma estratégia para compreender-transformar as
condições de trabalho nos diferentes estabelecimentos, baseada no diálogo-confrontação entre
conhecimento científico e experiência dos trabalhadores. (ATHAYDE et al, 2003, p. 13-14).
Para Oddone (1986), surgia neste contexto uma forma original de pesquisa-ação em torno
do tema das mudanças das condições de vida e trabalho que chamou de “pesquisa não ritual”
porque alterava os métodos da pesquisa tradicional, uma vez que todos os atores se tornariam
co-autores da pesquisa, portadores de saberes específicos e, no caso dos trabalhadores, de
“saberes informais”, conforme denominavam a experiência. Ao invés de desprezar e/ou
desqualificar, exalta-se a iniciativa dos trabalhadores, fazendo um apelo à cultura da classe para
modificar o ambiente de trabalho, pois sem a participação dos trabalhadores o objetivo das
pesquisas empreendidas pelos especialistas poderia se reduzir aos interesses das empresas.
Assim, parte-se da perspectiva de que produzir cultura não significa somente fazer “descobertas
originais”, mas, também especialmente, difundir de modo crítico as invenções, socializá-las e
fazer com que se tornem base de ações vitais, elementos de coordenação de ordem moral e ética
(VICENTI, 1999).
Essa iniciativa poderia oferecer aos trabalhadores e pesquisadores uma forma de aprender
e utilizar a experiência acumulada nos centros de pesquisa e nos coletivos de trabalho para que
destes dois tipos de experiências emergisse uma experiência científica que priorizasse as
demandas das categorias profissionais e uma nova comunidade científica ampliada. O lugar do
especialista, possuidor da verdade, da única fala autorizada, foi questionado através da
Comunidade Ampliada de Pesquisa, apesar de que obviamente com isso não se estava negando
a importância do saber dos especialistas, uma vez que ninguém pode ser competente pelo outro,
no lugar do outro.
A experiência realizada permitiu, assim, definir três conceitos articulados, sobre os quais
o modelo operário italiano se institui que são: grupo operário homogêneo de produção,
validação consensual e não-delegação. O primeiro refere-se a um grupo de trabalhadores que
vivem conjuntamente a mesma experiência de trabalho. Portanto, são portadores não somente da
experiência bruta de seus membros, como também daqueles que já o deixaram e dos julgamentos
de valor que eles estabeleceram (VICENTI, 1999). A validação consensual refere-se ao
julgamento coletivo, pelo qual o grupo valida a experiência de cada trabalhador relativa às
condições de trabalho. A não-delegação exprime a recusa de delegar aos especialistas o
julgamento sobre a nocividade das condições de trabalho e a fixação dos padrões de nocividade.
Não se trata de desqualificar as análises dos especialistas, mas, acima de tudo, afirmar que a
interpretação dos resultados da pesquisa será aceita somente após a validação por parte do grupo
homogêneo. A historia da organização da classe trabalhadora, mais precisamente o “modelo
operário italiano de produção do conhecimento”, pode, portanto, nos oferecer pistas importantes
para as investigações sobre as atividades de trabalho. Esse paradigma está centrado na
valorização da experiência dos trabalhadores, busca pensar coletivamente o trabalho para
transformá-lo, uma vez que parte substancial da experiência dos trabalhadores, muitas vezes, lhe
escapa.
Conforme Oddone (1986), a mudança que se espera nesse processo não é mensurável,
uma vez que, dentre outros aspectos e, principalmente, objetiva-se operar transformações nos
processos de subjetivação. Ao se modificar as relações tradicionais entre técnicos e trabalhadores
sobre as definições dos modos de produção, deu-se início à problematização/desnaturalização da
divisão social do trabalho, da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual, e a busca da
produção coletiva de trabalhadores e técnicos. Torna-se necessário e possível um modo diferente
de fazer pesquisa.
Como percurso metodológico e como pesquisador inserido na prática a ser estudada,
lançarei mão da observação-participante. Segundo Schwartz e Schwartz, trata-se de um processo
na qual “o observador é parte do contexto sob observação, ao mesmo tempo modificando e sendo
modificado por este contexto” (SCHWARTZ e SCHWARTZ apud MINAYO, 2008, p. 273-274).
Como técnica de problematização estruturante deste trabalho, lançarei mão das técnicas
do círculo de cultura originada nos trabalhos do Movimento de Cultura Popular (MCP) da
Universidade Federal de Pernambuco, coordenado por Freire na década de 60. Valorizando o
conhecimento popular construído a partir do “seu fazer no mundo”. É reconhecida a cultura dos
excluídos, o que pressupõe a existência de uma cultura dominante. Esta última, por sua vez
determina valores e atitudes exteriores aos sentidos construídos por sua história, prática e vida.
Assim sendo, o Círculo de Cultura é o espaço da "Ação Cultural, através da qual se enfrenta,
culturalmente, a cultura dominante" (Freire, 1982, p.54).
O processo “freireano” ação-reflexão-ação é proposto como um modelo cíclico. Parte da
auto-reflexão – perguntas geradoras, da escuta – a partir das perguntas temáticas e da análise da
experiência, do diálogo - a partir da reflexão grupal, da análise de caso ou da realidade concreta,
da ação – como parte do planejamento de alternativas e soluções para a situação problema e da
síntese – que pressupõe a avaliação coletiva das alternativas e dos argumentos. Esses
pressupostos podem dar suporte para que educadores se engajem em um diálogo crítico,
utilizando múltiplos métodos e estratégias. Podem, sobretudo, auxiliar no desenvolvimento de
habilidades de negociação e outras habilidades também necessárias para o estabelecimento de
diálogo entre os diversos atores em relação.
Uma outra abordagem a ser utilizada será um roteiro de entrevistas, mais especificamente
entrevistas semi-estruturadas como instrumentos orientadores. Para Minayo (2008, p. 261) a
entrevista é “acima de tudo uma conversa a dois, ou entre vários interlocutores, realizada por
iniciativa do entrevistador, destinada a construir informações pertinentes [a] um objeto de
pesquisa” e que visa também a “abordagem pelo entrevistador, de temas igualmente pertinentes”
ao objeto. O roteiro semi-estruturado deve “desdobrar os vários indicadores considerados
essenciais e suficientes e m tópicos que contemplem a abrangência das informações esperadas”,
devem ainda induzir uma conversa a experiência e conter apenas alguns itens indispensáveis para
o delineamento do objeto (MINAYO, 2008, p.191).
Através da entrevista buscar-se-á coletar dados objetivos e subjetivos. Dessa forma
escolhi como entrevistados, os participantes do grupo-sujeito da comunidade ampliada de
pesquisa, oriundos do Fórum Popular local, formada por: uma agente comunitária, três lideranças
comunitárias, uma conselheira local de saúde e dois usuários.
Os dados serão analisados a partir da técnica de análise de conteúdo que, para Bardin
(1979, p.42), trata-se na realidade de “um conjunto de técnicas de análise de comunicação
visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das
mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de
produção/recepção destas mensagens” (BARDIN apud MINAYO, 2008, p.303).
Será realizada, ao final da pesquisa, a apresentação da análise dos dados ao conjunto dos
entrevistados de forma a ensejar a reflexão coletiva sobre o processo de construção de estratégias
de participação popular e de formação de sujeitos capazes de construir coletivamente a autonomia
possível.

5. SINTESE DE UM CAMINHAR
Apresentamos abaixo o que o pensamento freireano designa como síntese, ou seja,
instante do processo ação-reflexão-ação que pressupõe a avaliação coletiva das alternativas às
impertinências deste modelo de sociedade propostas pelo coletivo e dos argumentos utilizados
pelo mesmo para construírem sua pronúncia do mundo. Nas palavras do autor “De um lado,
incorporar-se ao povo na inspiração reivindicativa. De outro, problematizar o significado da
própria reivindicação”. (Freire, 2005, p.212)
5.1 O Fórum Popular

O Fórum Popular no contexto deste trabalho é concebido como um dispositivo de


participação política e como espaço coletivo que aponta para a constituição de sujeitos com
capacidade de análise e intervenção na realidade concreta. Representou o primeiro passo no
processo de construção de alternativas de participação popular das comunidades Boa Vista e
Castelão e serviu de base para a estruturação da Comunidade Ampliada de Pesquisa.
Ele se deu também como um desafio à turma do Estágio Extra-Mural II do Curso de
Odontologia da UNIFOR, que reafirmando a importância do território como efetivo campo de
formação, se dispôs a construir um espaço/tempo comunitário capaz de estimular o debate sobre
o contexto social e político local.
O Fórum Popular se propôs constituir o espaço coletivo onde se buscaria fortalecer os
processos democráticos de discussão e participação política da comunidade, estimulando a
reflexão sobre a realidade local, seus problemas e potencialidades a partir da práxis dos atores
locais, que histórico-social e culturalmente foram alijados de qualquer participação nas instâncias
formais de poder. Em suma, seria a tônica de um movimento inicial em busca de autonomias
possíveis.
“Não somos seres completamente autônomos, porque dependemos sempre dos outros
(os outros também nos constituem), não sendo viável historicamente autonomia
absoluta (destruiria, ademais, a autonomia dos outros). Mas podemos alargar
enormemente, indefinidamente, a autonomia, se soubermos pensar, conhecer, aprender”
(DEMO, 2005).

Para Gastão Wagner (2000, p.47), o espaço coletivo se estrutura como “um arranjo
organizacional montado para estimular a produção/construção de sujeitos e de coletivos
organizados”. Neste sentido, refere-se a “espaços concretos (de lugar e tempo) destinados à
comunicação (escuta e circulação de informações sobre desejos, interesses e aspectos da
realidade), à elaboração (análise da escuta e das informações) e tomada de decisão (prioridades,
projetos e contratos)”. Gastão identifica quatro modalidades de espaço coletivo: os conselhos de
co-gestão, os colegiados de gestão, os dispositivos e o diálogo e tomada de decisão no cotidiano.
Segundo ele, “a combinação dessas distintas modalidades de espaço coletivo conformam
sistemas de gestão participativa”. (CAMPOS, 2000, p. 147).
O fórum popular da comunidade Boa Vista/Castelão tem atuado como um dispositivo de
participação comunitária cujo objetivo é deflagrar o processo de análise coletiva dos problemas e
potencialidades locais a partir do resgate da história local e assim tem buscado o fortalecimento
da co-gestão dos processos do mundo da vida potencializando espaços de reflexão-ação sobre a
realidade objetiva. Nesse sentido tem contribuído para a democratização do trabalho em saúde.
Democratização é aqui vista como processo necessariamente dependente da “práxis de
grupos sujeitos (no sentido dado por Sartre de oposição à ‘serialidade’ e Guattari como grupo
capaz de lidar, com certa autonomia, com os constrangimentos da história e do seu contexto) e
produtora de sujeitos”. Gastão Wagner Campos afirma que como produto social, a democracia
depende da “correlação de forças entre movimentos sociais e poderes instituídos”, da “capacidade
social de se construírem espaços de poder compartilhado” e da “intervenção deliberada de
sujeitos concretos”. Neste contexto, para o autor “democracia refere-se à possibilidade de
alteração dos esquemas de dominação, à produção de novos contratos e à construção de nova
hegemonia” (CAMPOS, 2000, p. 41).
Para Boaventura (1999, p.297) a forma representativa de democracia como modelo
exclusivo do paradigma dominante “significou um empobrecimento dramático do potencial
democrático que a modernidade trazia no seu projeto inicial”, sendo, portanto “necessário
reinventar esse potencial, o que pressupõe inaugurar dispositivos institucionais adequados a
transformar relações de poder em relações de autoridade partilhada”.
Para Chauí (1989, p.49), é fundamental a compreensão crítica do caráter ideologicamente
construído da categoria “competência”, “a elite está no poder, acredita-se, não só porque detém a
propriedade dos meios de produção e o aparelho do Estado, mas porque tem competência para
detê-los, isto é, porque detém o saber”.
As discussões durante a fase de planejamento do Fórum foram importantes e
evidenciavam, concomitantemente, o desejo e o medo do novo. A professora e os alunos de
Odontologia de inicio não entendiam perfeitamente que relação haveria entre atividades de
mobilização e discussão sobre problemas sociais com a formação das mesmas enquanto
“dentistas”. Houve inclusive a solicitação para que não se fizesse “somente” a discussão política,
mas se abrisse espaço também para atividades de educação em saúde, o que foi aceito contanto
que não se descaracterizasse o caráter de coletivo organizado para discutir, a história da
comunidade, problemas sociais e ações políticas locais. O receio de não comparecimento da
comunidade levou o grupo a pensar em atrativos, como a oferta de serviços e brindes, inclusive
com a sugestão de se usar um título diferente para a atividade como “dia D da comunidade”.
Tivemos muitas dúvidas com relação à organização e à metodologia da atividade e neste instante
o apoio de pessoas que trabalhavam a educação popular na gestão foi de fundamental
importância.
As atividades do Fórum foram realizadas em espaço institucional do território e tiveram a
participação de um número próximo a 200 (duzentas) pessoas, entre adultos e crianças.
O processo incluiu vivências de acolhimento e de resgate da história local, conduzido pela
Agente Comunitária de Saúde mais antiga da área de adscrição do CSF Edmar Fujita, que trazia
ao centro da roda momentos importantes da história da comunidade. Para esse resgate os
moradores lançaram mão de imagens fotográficas representativas dos vários momentos
históricos: as primeiras casas, as primeiras famílias, a enchente do rio Cocó na década de 70, a
luta pela posse da terra, as invasões e expulsões, os conflitos. Como provocação, levamos
algumas questões tais como: O porquê do nome bairro Boa Vista? Como surgiu? Quais as
características culturais e étnicas dos moradores? Qual a origem de sua gente (de onde
vieram)? Quais os aspectos culturais locais mais marcantes? Como surgiram os espaços
sociais locais?
A comunidade pôde então expressar suas percepções sobre a própria história, sua origem
e suas lutas. Dona M. L. S., moradora, trabalhadora da saúde, liderança política local traz em sua
fala a história de um povo que, fugindo à tradição messiânica da política brasileira construiu com
suas próprias mãos sua história e deu-lhe um sentido.

“Em 1960 o bairro Parque Boa Vista era um bairro praticamente despovoado as casas
eram muito distante de uma pra outra, comercio, só tinha duas mercearia, nós não
tínhamos água, luz, transporte coletivo, escolas e nem posto de saúde. Só tínhamos
muitas carnaúbas, já existia o Seminário Regional e o Convento das Irmãs Dorotéias
enquanto isso o bairro foi se povoando e como não tinha escola então foi montada a
Escolinha São José no Seminário Regional e os maiores estudavam na Escola Antonio
Dias Macedo.”

O resgate histórico se revelou instante primeiro de descrição das situações-limite


apresentadas pela comunidade. Para Freire (2005, p.104-105) situações limites são “dimensões
concretas e históricas de uma dada realidade. Dimensões desafiadoras dos homens”, nas quais os
mesmos incidem através dos seus atos limites.
“Daí começamos a lutar por água potável, transporte coletivo, iluminação pública,
calçamentos para todas as ruas etc. E graças às lutas comunitárias hoje nós temos
água, luz, escolas públicas particulares as ruas todas asfaltadas, temos vários
comércios e empresas, temos 3 creches, 6 templos evangélicos, 2 conventos com
igrejas católicas, uma delegacia que é modelo, um complexo de cidadania que inclui
posto de saúde, CRAS, creche e uma bela escola. Isso tudo foi fruto de uma grande luta
da associação”.

Este o instante da proclamação do ato limite. Segundo Freire (2005, p. 105) “atos limites
são aqueles que se dirigem a superação e a negação do dado, em lugar de implicarem sua
aceitação dócil e passiva”.

“Então começamos a discutir as necessidades da comunidade, principalmente as


maiores necessidades e resolveu-se ir à luta, que era em primeiro lugar, seria água,
luz, escola e ônibus. Ao passar a luz de Paulo Afonso dentro do bairro nós começamos
fazer passeata de lamparina, solicitando iluminação para todos, até que conseguimos.
A luta continuou por água e escola até que um dia através de muita briga conseguimos.
Porque antes nossas crianças estudavam no seminário regional que lá funcionava a
escolinha São José, depois se mudou para dentro da fazenda Uirapuru, Escolinha
Nossa Senhora de Fátima, até que conseguimos a Escola Profa. Maria Gonçalves
depois de muita briga. Daí não paramos mais de ir em busca de nossos benefícios
como saúde, segurança, ruas todas asfaltadas, cinco linhas de ônibus, 4 para o centro
e 1 terminal.”

No momento em que a percepção critica se instala, a partir da ação mesma do grupo,


percebe-se o desenvolvimento de um clima de esperança e confiança que os leva a se
empenharem na superação das situações limites. Para Freire (2005, p.105) esta superação, “não
existe fora das relações homens-mundo, somente pode verifica-se através da ação dos homens
sobre a realidade concreta em que se dão as situações limites”.
“Então nosso bairro cresceu muito, de acordo com a necessidade. Temos vários
comércios, inclusive fábrica. Temos muita ocupação, que não é moradia digna de se
morar, mas também tem muitas moradias dignas inclusive condomínio. Hoje nossa
maior luta é pelo saneamento básico é mudar o perfil das moradias de ocupação, a
urbanização do rio que antes o lazer e sobrevivência do bairro e hoje é totalmente
poluído. Outra luta da comunidade é resgatar o nome original do bairro que é Boa
Vista e não Mata Galinha e nem Castelão, pois Castelão é o estádio construído dentro
do bairro Boa Vista.”

Superadas as situações limites, com a transformação da realidade o grupo se prepara para


novas que surgirão, provocando outros atos limites. Este processo exige uma separação do
mundo, objetivando-o, separação de sua atividade de si mesmo, “ao terem o ponto de decisão de
sua atividade em si, em suas relações com o mundo e com os outros, os homens ultrapassam as
situações limites”. (FREIRE, 2005, p.104)
As principais situações-limite identificadas pelos grupos foram: violência, drogas,
precariedade do saneamento básico, moradias ruins, falta de emprego, dificuldade de
acesso à informação, políticas sociais insuficientes, transporte coletivo deficiente e mal
distribuído, enchentes, doenças, ausência de médico; deficiência e dificuldade de acesso ao
atendimento odontológico, entre vários outros citados com menor freqüência. Mais uma vez a
fala da moradora M.L.S. é emblemática desse olhar da comunidade sobre suas situações-limite:

“Boa Vista é um bairro que em vista de outros é pequeno. Mas apesar de minúsculo a
sua área de risco se torna mais do que de outros bairros. Só as margens do rio têm uma
população de 1600 famílias que geralmente são alagadas e também temos 3 ocupações
onde todos têm água potável e iluminação publica mais as moradias não são dignas de
se morar, pois a maioria é feita de taipa ou materiais aproveitáveis e não se tem fossas.
Mais nelas podemos contar com a violência e o trafico de drogas. Usuários e traficante
usa e repassa as droga na presença das crianças e muitas vezes usam as crianças como
avião e estas ocupações só uma tem ACS.”

Enquanto potencialidades da comunidade foram citadas o artesanato, crochê, as


rezadeiras, os grupos de oração e a igreja. Foi considerado como passível de ser trabalhado
pela comunidade e pelas equipes da unidade, situações-limite como o agendamento
odontológico, melhor utilização dos espaços sociais disponíveis, oferta e busca por cursos
profissionalizantes entre outras.
Um ponto importante a ser destacado neste instante refere-se à dificuldade dos
“profissionais/mediadores admitirem, nos contatos que desenvolvem com as classes populares, a
cultura popular como uma teoria imediata, isto é, um conhecimento acumulado e sistematizado,
que interpreta e explica a realidade”. A origem ideológica desta mitificação aparece representada
na “formação escolarizada da classe média”, infelizmente comum naqueles profissionais que
agem como mediadores entre os grupos populares e a sociedade e que freqüentemente “os leva a
ter dificuldade em aceitar o fato de que o conhecimento também é produzido pelas classes
populares”. È necessário o reconhecimento de que “os saberes da população são elaborados sobre
a experiência concreta, a partir das suas vivências, captadas de uma forma distinta daquela vivida
pelo profissional” (VALLA, 1998).
O problema condições de moradia foi trazido pela comunidade da Boa Vista durante o
Fórum Popular envolto em uma gama de problemas sociais e foi conduzido à condição de tema
gerador pelos pesquisadores populares desta comunidade ampliada de pesquisa e reflexivamente
posto como situação limite, passível de sofrer a ação do grupo como ato-limite.
Como resultado deste processo, criou-se, um grupo de trabalho, composto por 17
representantes da comunidade, engajados espontaneamente, visando à continuidade das
discussões iniciadas, o encaminhamento das demandas passíveis de serem resolvidas localmente
e o estabelecimento de estratégias para encaminhamento daquelas que precisam de ação
institucional de esferas estatais, bem como o fortalecimento do vínculo da comunidade com as
equipes de saúde. Nesse processo a roda de gestão da comunidade constituiu-se espaço de
encaminhamento desses atos-limite.
Trazendo a perspectiva do diálogo-confrontação entre os saberes acadêmicos e os saberes
da experiência defendido pela Comunidade Ampliada de Pesquisa foi realizada a sistematização
das percepções das alunas do curso de odontologia da UNIFOR a partir dos relatos individuais,
presentes em seus portifólios. Este inclusive, foi um dos instrumentos de avaliação processual das
atividades desenvolvidas durante o estágio no Centro de Saúde da Família Edmar Fujita. Os
relatos permitem perceber o grau de apropriação e/ou mudança da percepção da realidade das
comunidades periféricas da cidade de Fortaleza pelos mediadores/estudantes de um curso
superior da área de saúde, de uma universidade particular, de reconhecida predominância de
setores médios (classe média) da sociedade.

Nos relatos a perspectiva da superação do mito do desinteresse das classes populares pela
discussão dos seus problemas e pela tomada de decisões sobre seu destino,

“O fórum superou minhas expectativas quanto à participação e à quantidade de


pessoas / As pessoas se mostraram interessadas no assunto, em relatar as dificuldades
e as potencialidades da comunidade / O interesse da população nos motivou ainda
mais”;

A percepção da importância da formação dos vínculos com a comunidade para o trabalho


em saúde,

“Possibilitou ver de perto o comportamento da comunidade, seus anseios e


reclamações / Serviu para que os profissionais de saúde conhecessem as necessidades
da população relatadas pelos próprios moradores e pensassem em medidas e
programas de melhoria da qualidade de vida desta comunidade / Trouxe pontos
positivos para nosso crescimento como futuros profissionais da saúde pública e o
fortalecimento do vínculo da UBS com a comunidade / Nos ensinou a conviver com
outras pessoas, nos ajudou a superar desafios e sermos capazes de aumentar o vínculo
da população com a unidade de saúde”.
A centralidade da escuta, do diálogo, da implicação para o trabalho em saúde na estratégia
de saúde da família,

“Deu pra ver melhor como funciona uma atividade no PSF e da importância de
realizá-las, uma vez que a gente interage de forma ativa e direta com os usuários,
passa informações, ouve o que as pessoas têm a dizer, observa o grau de satisfação da
população e vê onde tem que melhorar /

A percepção da importância da participação popular como estímulo ao trabalho em equipe


e componente essencial da estratégia de saúde da família,

“Vi também a importância de trabalhar em equipe, uns ajudando aos outros e o


resultado foi o sucesso da atividade / O trabalho em grupo foi muito importante”.

O impacto da atividade coletiva sobre os aspectos subjetivos relacionados ao crescimento


pessoal e profissional,

“Contribuiu bastante para o engrandecimento e o amadurecimento profissional /


Momento de superação, na prática, das nossas dificuldades e limitações pessoais”.

A perspectiva da troca de saberes e de superação do caráter prescritivo da relação


profissional/paciente, técnico/ população, dirigente /subalterno,

“A comunidade pôde trocar experiências vividas, discutindo seus direitos para que
junto com os profissionais da unidade, buscassem a melhoria do serviço público de
saúde da sua localidade e com isso garantir um atendimento de qualidade à
população”.

A percepção da centralidade da participação popular como mecanismo instituinte dos


processos de fortalecimento do protagonismo e autonomia dos sujeitos,

“Interagir para as pessoas melhorarem sua auto-estima, para que sejam atores do
processo de saúde, do auto-cuidado, fazendo-os menos dependentes dos profissionais
de saúde”.
O processo de elaboração, participação, vivência e construção de práticas coletivas revela-
se de fundamental importância no processo de formação do trabalhador social, e funciona como
atividade dinamizadora do processo de construção do sujeito social, consciente de sua realidade
objetiva e da necessidade de emancipação humana, por tudo revela-se aqui, através das
percepções das alunas do Estágio Extra-Mural (EEM II), o impacto cultural sobre todos os
envolvidos nas práticas políticas construídas através da participação popular, reveladoras das
iniqüidades sociais e capazes, também, de funcionar como mecanismo dialético superador desta
realidade.

“No momento em que atores sociais tomam consciência das causas mais profundas dos
problemas de saúde e das relações sociais que os permeiam, podem apontar para a luta
social de forma mais conseqüente, ficando também mais comprometidos com a saúde
da comunidade. É nessa dicotomia que surgem as discussões sobre o apoio social.
Lideranças, profissionais e agentes comunitários de saúde estão diretamente envolvidos
nesse processo, estimulados a lutar pela saúde da comunidade e compelidos a buscar na
própria comunidade formas de resolver e minorar algumas questões de saúde que não
podem e nem devem esperar só pelo Estado”. (ALBUQUERQUE & STOTZ, 2004)

5.2 O grupo-sujeito

No segundo semestre de 2008 foram retomadas as atividades a partir dos


encaminhamentos levantados pela comunidade. Para isso, algumas atividades foram discutidas
com o intuito de se mobilizar o grupo de trabalho formado durante o Fórum, de modo, a se
refletir sobre as questões levantadas pelo coletivo comunitário acerca dos seus problemas sócio-
econômico, de suas potencialidades locais e acima de tudo da possibilidade concreta de
intervenção dos atores sociais na realidade local.
A proposta era mobilizar o grupo de trabalho numa perspectiva de se articular a formação
de um “grupo sujeito”, no sentido proposto por Guattari e Rolnik (1993). Um coletivo que tenha
a possibilidade de captar elementos da situação, construir suas referências teóricas e práticas, sem
ter que ficar na posição constante de dependência ao “poder global, a nível econômico, a nível do
saber, a nível técnico, a nível das segregações, dos tipos de prestígio que são difundidos”. Enfim,
que seja capaz de efetivar um processo de “singularização” através de sua “automodelação”. O
objetivo era que o grupo adquirisse “a liberdade de viver seus processos”, que passasse a ter a
capacidade de ler sua própria situação e aquilo que passa em torno dela.
Foi articulada então a realização de um seminário com o objetivo de garantir o
encaminhamento dos problemas apontados pelo fórum através da reflexão e atuação do grupo.
Para Thiollent (1988, p. 58), o “seminário” constitui a técnica principal de condução da
investigação e do conjunto do processo de pesquisa-ação, tendo o papel de “examinar, discutir e
tomar decisões acerca do processo de investigação”.
O Grupo de Trabalho constituiu-se sujeito coletivo responsável por intervir na realidade
objetiva de modo a transformá-la, tendo como ponto de partida, a compreensão de toda produção
histórico-social engendrada pela experiência do Fórum Popular. Ou seja, o pensar coletivo sobre
o processo histórico de formação da comunidade, as principais situações-limite enfrentadas por
seus moradores, as potencialidades comunitárias individuais e coletivas e por fim, os níveis
concretos de ação comunitária capazes de construir a categoria freireana dos inéditos-viáveis.
Além disso, o grupo sujeito seria a base sobre a qual se articularia a composição da
Comunidade Ampliada de Pesquisa, que teria ali seus primeiros passos dados e seria
desenvolvida em etapas subseqüentes.
Dos dezessete representantes da comunidade que se dispuseram a trabalhar e refletir sobre
os problemas colocados pelo fórum, apenas sete se engajaram efetivamente na formação do
grupo de trabalho, visando a estruturação do grupo sujeito.

Foram realizadas oficinas de planejamento participativo utilizando o MAPP como


técnica-modelo de reflexão das causas e conseqüências dos problemas comunitários. Para Matus
(1989) o planejamento é uma, “atividade de cunho nitidamente político”, no sentido da
constituição da política como um jogo e um conflito de estratégias que constituem e requerem um
esforço de planejamento com os recursos técnicos disponíveis, organizando informações,
hierarquizando e ordenando as ações, orientando as decisões. No planejamento participativo “o
ator que planeja é parte do processo social e político e está por este contido, ele é, ao mesmo
tempo, sujeito e objeto do planejamento”.

O MAPP (Método Altadir de Planificação Popular) se estrutura na análise de problemas,


na identificação de cenários, na visualização de outros atores sociais e na ênfase na análise
estratégica e, pelas suas características operativas, constitui-se no método de eleição para
planejamento no nível local. Visto favorecer o comprometimento da comunidade e de suas
lideranças com a análise e enfrentamento de seus problemas.

Os problemas diagnosticados e referidos pelo Fórum foram classificados quanto à


urgência, importância e capacidade de enfretamento do grupo. Cinco problemas receberam
classificação “alta” nos três quesitos, Violência, Condições das Moradias, Falta de Médicos,
Dificuldade no Acesso ao Dentista e Transporte Coletivo Deficiente, após nova rodada de
discussão, elegeu-se como prioritário, o problema “Condições Inadequadas das Moradias, a
partir dele foi construída a “Espinha de Peixe” identificando as causas e seus condicionantes e as
conseqüências e suas implicações na realidade sobre o problema “moradias ruins/indignas”, de
modo a aprofundar a discussão sobre o problema em foco.

Entre as causas referidas pelo grupo estão: as invasões (ocupações irregulares), as


enchentes, o desemprego, a falta de espaço no território, a falta de planejamento; como fator
condicionante da causa “invasões” foi colocado, pelo grupo, a questão das migrações do campo
para a cidade e das áreas centrais da cidade para a periferia. Dentre as conseqüências: as doenças,
o desrespeito à comunidade, a violência, a falta de saneamento e o problema ambiental (poluição
do Rio Cocó). Foram citadas como implicações das conseqüências elencadas: o preconceito
contra o pobre/favelados, as drogas e acúmulo de lixo.

Foi proposta a realização de um ato limite de cunho político-educativo, e realizado a


divisão de tarefas dentro do grupo de trabalho. Os representantes da comunidade assumiram a
responsabilidade pela mobilização dos moradores.

Tais atividades culminaram no ato público: “Caminhada pelo Direito à Moradia e


Ambiente Saudáveis da comunidade Boa Vista/Castelão” que percorreu as ruas do bairro Boa
Vista, chamando as pessoas da comunidade a participar, refletir e reivindicar sobre o direito dos
moradores de acesso à moradia digna, e chamando a atenção para o cuidado com a preservação
do rio Cocó, principalmente na questão da necessidade de acondicionamento do lixo domiciliar e
de preservação da vegetação e do solo às margens do rio.

O ato público, apesar do visível impacto simbólico em todos os que participaram,


principalmente nas lideranças comunitárias, na concepção do grupo sujeito, não conseguiu atrair
um número de pessoas condizente com a dimensão do problema. Os representantes da
comunidade no grupo associaram o problema da mobilização comunitária às dificuldades de
participação política da comunidade, tema que será utilizado para análise e reflexão desta
Comunidade Ampliada de Pesquisa e que será abordado a seguir. Tal situação apresenta
pertinácia ao que Barbier afirma “ora, é somente durante o processo de pesquisa que o verdadeiro
objeto (a necessidade, o pedido, os problemas) emerge, e que os participantes são capazes de
apreendê-lo progressivamente, de nomeá-lo e de compreendê-lo” (BARBIER, 2002, p.51).

5.3 A comunidade ampliada de pesquisa da Boa Vista

Foram retomadas as atividades do grupo, a partir da reflexão sobre a situação-limite


colocada pelo grupo, ou seja, a necessidade de reflexão sobre a questão da participação política
da comunidade nas lutas cotidianas em defesa dos interesses locais. O grupo manteve a
composição original que participara da maioria das reuniões do seminário anterior sobre
planejamento participativo e do ato-limite “caminhada pela moradia digna”. Ou seja, três
lideranças comunitárias, uma agentes comunitária de saúde, duas usuárias do CSF Edmar Fujita e
uma conselheira local de saúde, que na realidade também é agente comunitária e liderança local,
mas que aqui representou o ponto de vista de um ator do controle social, visto ser além de
conselheira local, conselheira municipal de saúde. Neste momento, a meta de desenvolver a
Comunidade Ampliada de Pesquisa como mecanismo/instrumento de reflexão sobre participação
popular, por sua estrutura baseada no encontro e no diálogo crítico entre o pólo dos saberes e o
pólo de práticas desenvolvidos no cotidiano de trabalho, na aliança/conflito entre os saberes
formais/técnicos dos trabalhadores/especialistas e os saberes informais/empíricos da comunidade,
se revelou conciso com os objetivos do grupo.

O primeiro encontro teve o duplo propósito de trazer para o grupo experiências outras de
atuação coletiva existentes na comunidade e reavivar a iniciativa do grupo a partir da reflexão
sobre suas dificuldades. Para tanto foi apresentado um vídeo produzido pelo grupo de fotografia
Vista Boa em Boa Vista que traz o contexto atual da realidade do bairro ao mesmo tempo em que
abre espaço para o resgate da história da comunidade a partir da fala de seus atores sociais mais
antigos. A experiência serviu para que estes atores sociais se vissem refletidos no contexto da
história da comunidade, afinal dois dos atores sociais que aparecem no vídeo são protagonistas
desta Comunidade Ampliada de Pesquisa. Proporcionou ainda a possibilidade primeira de
“objetivação” da realidade concreta da comunidade pelo grupo da comunidade ampliada que
seria aprofundada nos encontros posteriores.

No segundo encontro realizou-se um seminário de reflexão utilizando o método do círculo


de cultura, criado e desenvolvido pelo educador Paulo Freire, com o objetivo de aprofundar a
questão da participação realizando coletivamente a problematização sobre o tema. Foram
convidados a participar deste momento, profissionais de saúde componentes da Residência
Multiprofissional em Saúde da Família. Em seguida foi realizada a reconstituição da caminhada
do grupo através da apresentação de fotografias das atividades realizadas durante o fórum e das
reuniões e ato-limite do grupo de trabalho.
Os integrantes do grupo em círculo foram chamados para, a partir de imagens (fotografias
e recortes de revista) dispostas aleatoriamente no centro da roda, trazer para reflexão as palavras
geradoras. Para tanto foi solicitado que a partir das imagens fosse registrado em tarjetas palavras
capazes de codificar/representar a imagem escolhida. Os participantes foram chamados, em
seguida, a descodificar as imagens, exprimindo questões subjetivas e objetivas para as escolhas,
as relações das imagens com suas vidas e a vida da comunidade. As palavras foram
posteriormente conformadas em formato de mandala de modo a que o grupo pudesse refletir
sobre a totalidade expressa pela reflexão coletiva.
Em seguida foi realizada a divisão da comunidade ampliada em três subgrupos para
problematização do tema participação popular a partir de algumas questões geradoras. (anexo
8.1)
Com o intuito de aprofundar as análises coletivas sobre o objeto participação popular foi
proposta a realização de entrevistas individuais ou em duplas, a critério do grupo, dispostas sob a
forma de roteiro semi-estruturado, contendo 10 (dez) perguntas e divididas de acordo com os
papéis sociais. Foram 07 (sete) os entrevistados, sendo, como já dito anteriormente, três
lideranças comunitárias, uma agentes comunitária de saúde, uma conselheira local de saúde e
duas usuárias do CSF Edmar Fujita. (anexo 8.2)
A categoria classe social apresentou-se de forma expressiva nas falas do grupo e é trazida
desde o primeiro instante no próprio relato histórico feito ainda durante o fórum popular. Tal
percepção é assim expressa pelo grupo, entretanto torna-se necessário que o esforço de
compreender as condições e experiências de vida, e também a ação política da população, seja
acompanhado de maior clareza das suas representações e visões de mundo. Caso contrário corre-
se o risco de procurar uma suposta identidade, consciência de classe e organização que, na
realidade, é uma fantasia criada por nós, já que há várias subdivisões, na cidade e no campo, entre
as classes populares no Brasil. (VALLA, 1998)
“Assim a população passava por muita dificuldade, pois não tinha transporte suficiente
para ir ao centro não tinha água potável e nada de conforto”; “pois éramos a classe pobre do
bairro”; “tive uma infância pobre” (M. L. S. - conselheira). / “na minha profissão, você vai
morrer pobre!”; “eu era pobre, mas era uma menina feliz!”. (M. G. - liderança)

A relação da posição social com as condições estruturais é expressa como,


“Eu andava na beirada desse rio e via muita criança chorar, um choro de criança que
pedia socorro”; “O pessoal saía daqui pra pegar água lá no Dias Macêdo, não tinha água, não
tinha luz”; “na época não tinha nada” (A. N. - liderança). / “uma das melhores ruas do bairro
era só lama”. (M. S. – usuária) / “à noite, nossa iluminação era os vagalumes e a lua” (M. L. S.
- conselheira).

A análise de tal categoria se liga diretamente aos conceitos de conflito social ou luta de
classes, ambos fundamentais para a teoria marxista explicativa da história e por esta considerada
os verdadeiros motores da história. A percepção de luta, de conflito é homogeneamente expressa
pelo grupo, mas de forma velada, envolta na trama ideológica que torna o inimigo invisível.
Percebe-se a divisão, mas não a oposição/antagonismo entre as classes, que é base estrutural
deste modelo de sociedade. Estes conceitos são perceptíveis em todas as falas, em expressões
como,
“Isso tudo foi fruto de uma grande luta da associação”; “brigando por educação, água e
etc.” (M. L. S. – conselheira) / “mostrar para as pessoas a verdadeira potencialidade da
comunidade através da luta”; “a luta do posto de saúde com a comunidade da Boa Vista”
(expressões retiradas do circulo de cultura); “nada caiu do céu, tudo foi uma luta comunitária”;
“eu ainda luto porque sou teimoso” / “sem luta não vinha nada”, “comecei minha luta
comunitária como presidente de associação”; “esse pessoal que tá na beirada do rio, não
nasceu caído como feijão não, foi luta mesmo, foi briga mesmo” (A. N. - liderança) / “a Boa
Vista é uma comunidade que luta muito” (M. L. – usuária) / “através de lutas comunitárias foi
conquistado posto de saúde, escola, delegacia, sinal, CRAS e etc.” (V. S. - ACS).
Para Chauí, (1989. p, 20). “O social histórico é o social constituído pela divisão em
classes e fundado pela luta de classes”. É essa divisão entre as classes que faz com que a
sociedade seja, em todas as esferas, atravessada por conflitos e por antagonismos que expressam
a existência de contradições constitutivas do próprio social.
“O meu trabalho mesmo não é com filho de ‘papaizim’ não, os filhos de ‘papaizim’ se
acolhem, misturam com a gente porque eles vêem o tratamento que a gente vem dando” (A. N. -
liderança).

A separação entre Estado e Sociedade Civil, fruto dos processos abstratos de separação do
mundo político e econômico, do poder e das relações sociais de produção, instituído pela
estrutura ideológica burguesa, se presta, a ocultar a divisão e a luta entre as classes sociais. Tal
construção ideológica leva a percepção mitificada de uma sociedade civil unificada e homogênea.
A figura do Estado (poder público) representa a construção ideológica responsável por ocultar
estas contradições. Ao aparecer socialmente como um poder uno, indiviso, localizado e visível, o
Estado “pode ocultar a realidade do social, na medida em que o poder estatal oferece a
representação de uma sociedade, de direito, homogênea, indivisa, idêntica a si mesma, ainda que
de fato esteja dividida” . (CHAUÍ, 1989. p, 20). Tal função, até a revolução burguesa de 1789
pertenceu à igreja/religião, em conseqüência se percebe, ainda hoje, um imbricamento entre as
concepções de lei (forma concreta do ente abstrato Estado) e Deus,

“É lei, hoje, a comunidade sair da beirada do rio, é lei a Boa Vista ser um bairro de
elite, portanto é coisa de Deus” (A. N. - liderança) / “Deus não criou o homem para ser senhor
de si!” (M. G. - liderança).

Para Boaventura, “as classes são um fator de primeira importância na explicação dos
processos sociais”, mas contrariando as teorias fundadas no reducionismo econômico das teorias
marxistas, principalmente do materialismo histórico ortodoxo, é “errôneo reduzir a identificação,
formação e estruturação das classes à estrutura econômica da sociedade. As classes são uma
forma de poder e todo poder é político”. Neste momento de transição paradigmática cada vez
mais os fenômenos mais importantes são simultaneamente econômicos, políticos e sociais, sem
que seja fácil “destrinçar estas diferentes dimensões”. Nos países periféricos “as formas de
opressão e dominação assentes na raça, na etnia, na religião e no sexo afirmaram-se pelo menos
tão importantes quanto às assentes nas classes”. Para o autor “o valor explicativo das classes
depende das constelações de diferentes formas de poder nas práticas sociais concretas. (...) a
constelação desse poderes é política”. (SANTOS, 1999, p. 37-41).

A responsabilização dos cidadãos em arenas públicas, através de parcerias nas políticas


sociais governamentais, por um lado representou um ganho, visto ter significado o
reconhecimento de novos atores em cena. De outro, entretanto, representou “um risco, com o
qual as lideranças progressistas da sociedade civil devem estar alerta: o de assumirem o papel que
deve ser exercido pelo poder público estatal, pois para tal ele é eleito, ou indicado, e os cidadãos
pagam impostos”. (GOHN, 2004).
“Nossa luta é por melhorias, contra o poder público, pois pagamos impostos” (M. L. S. –
conselheira).

A categoria empírica liderança, aliás, está presente em praticamente todos os discursos e


apresenta-se como será visto normalmente ligada à categoria poder.
Para alguns, a liderança apresenta-se como fator de agregação e união da comunidade,
“Por ele ser liderança e estar sempre presente ajuda na formação dos grupos” (V. S. -
ACS) / “outras lideranças, começaram a luta e elas foram despertando o desejo de alguém que
viu que ‘sem luta não vinha nada’” (A. N. - liderança) / “a comunidade fortalecida proporciona
o fortalecimento da liderança” (F. E. - liderança).

Como indivíduo dotado de grande respeitabilidade/poder junto à comunidade,


“O usuário do posto, antes de ir ao posto, ele passa antes na liderança, conversa
primeiro com seus lideres, pra ter orientação, isso é maravilhoso, isso é importante, a
participação da liderança, isso traz conhecimento, e melhora” (A. N. – liderança). “A Boa Vista
tem um conselho de anciãos que contam a história de trás pra frente e quando o ‘bicho vai
pegar’ os novinhos aqui correm, reúnem e tomam os conselhos (M. G. - liderança)”.
Há a percepção clara nas falas, da presença de um conflito interno entre as lideranças e
que a primeira vista parece ser um dos grandes desafios aos processos de participação popular da
comunidade, de um lado lideranças tradicionais, reconhecidas pelo histórico das lutas pela
organização da comunidade e pela conquista da infra-estrutura local,

“Formou-se um grupo para fazer a reivindicações necessárias, (...) em 1980 formou-se a


1ª associação (...) então começamos a discutir as necessidades da comunidade, principalmente
as maiores necessidades e resolveu-se ir à luta, que era em primeiro lugar, seria água, luz,
escola e ônibus”. / “E graças às lutas comunitárias hoje nós temos água, luz, escolas públicas
particulares as ruas todas asfaltadas, temos vários comércios e empresas, temos 3 creches, 6
templos evangélicos, 2 conventos com igrejas católicas, uma delegacia que é modelo, um
complexo de cidadania que inclui posto de saúde, CRAS, creche e uma bela escola. Isso tudo foi
fruto de uma grande luta da associação”. (M. L. S. – conselheira) / “a Boa Vista tá (...) um céu,
mas nada caiu do céu, tudo foi uma luta comunitária, foi feita passeata por água, por luz, por
comida e daqui pra frente nós vamos fazer passeata, assim como fizemos pela saúde, pelo que
for necessário” (A. N. – liderança).

De outro, novas lideranças que lutam por reconhecimento e por espaço de atuação, o
conflito é perceptível nas falas,
“Pra mim a liderança é aquela que sente necessidade de estar fundando, criando, e não
[de] estar avançando em cima do que ela criou (...), se a gente começa a ficar, ficar, ficar, a
coisa fica com a minha cara, fica minha, é meu, é meu, daqui a pouco é meu e pronto”; “A nível
de organização comunitária, a nível de associação, me parece que eles têm medo de prestar a
devida informação, eu acho que eles têm medo de deixar de ser assistencialista porque eles têm
medo de perder a liderança”; “Eu também fui influente nessa questão da conquista do posto,
nas passeatas, nas negociações”; “foram vocês mesmos que legitimaram os terrenos da fazenda
com a Kolping, o poder da fazenda com a igreja, vocês legitimaram vocês ‘antigos’(...) quem
legitimou foram as lideranças daqui”; “eu não cheguei aqui nas [passeatas das] lamparinas” “
são as referências que estão sem sentido”(M. G. - liderança).

Percebe-se ainda um conflito de concepções sobre o papel da liderança,


“Liderança comunitária é você não ter nada e o pessoal lhe ouvir, não precisa você
oferecer cesta básica” (A. N. – liderança) / “o intuito da liderança que se preza é discutir os
problemas da comunidade e cobrar que seja feito, embora que seja feito por políticos, porque
a gente precisa muitas vezes do político até pra abrir certo canal de negociação” (M. L. S. –
conselheira) / “a liderança deve fazer a coisa crescer e voar, buscar outro lugar pra ajudar a
crescer, pra mim liderança é isso”; “Eu não gosto de executar, mas de habilidade de dizer
‘tem que fazer e eu arranjar as peças certas pra fazer a coisa andar’(...) eu queria tá sempre
no comando, dizendo é assim, assim, faz!, tu pode!, constrói!, eu quero assim!, tal e tal (...) eu
era a cabeça, mas eu não gosto de fazer” (M. G. - liderança).

Importante a retomada do pensamento freireano, para quem “não é possível à liderança


tomar os oprimidos como meros fazedores ou executores de suas determinações” (FREIRE,
2005, p. 142), que a liderança negue ao oprimido a possibilidade da reflexão sobre seu próprio
fazer. Nestas condições, o que ocorre é que oprimido tendo a ilusão de que atua, na atuação da
liderança, continua manipulado por quem, por sua natureza, não poderia fazê-lo. Ao impor sua
palavra a eles, torna-a falsa, de caráter dominador.
Há, pelo contrário, a necessidade da dialogicidade entre a liderança e as massas
oprimidas, para que no processo de busca de sua libertação, reconheçam o caminho da
superação verdadeira da contradição em que se encontram, como um dos pólos da situação
concreta de opressão. (FREIRE 2005, p.144)

Com relação à importância da liderança nos processos de participação, houve um aparente


tom consensual,
“O líder comunitário que não vê a participação popular como critério de capacitação e
de crescimento dele mesmo, por que se ele desenvolve um bom trabalho ele é visto pelos
órgãos competentes, e se ele afasta o povo do conhecimento, tanto é cego ele como o seu
povo” (A. N. – liderança) / “a participação ativa da comunidade é o principal para a atuação
da liderança” (F. E. - liderança).

Há uma percepção homogênea de que os trabalhadores de saúde não se envolvem nas


questões sociais da comunidade,
“Eu não acho que os trabalhadores se envolvam nas questões sociais da comunidade”
(V. S. - ACS) / “era para se envolverem” (M. S. – usuária) / “deveria ser obrigação o
profissional se envolver com os movimentos, para que assim fizesse um atendimento mais
humanizado, procurando soluções para os problemas.” (M. L. S. – conselheira) / “hoje, o
médico de saúde da família, eu acredito que (...) se ele ficar calado no consultório dele, com
medo de enfrentar a calamidade da favela, ele não vai ter êxito não, porque vai ser sempre um
médico ‘vip’” (A. N. – liderança) / “seria bom que os profissionais se envolvessem mais” (F. E. -
liderança). “Não, pelo ato da obrigação, porque vêem como ato da obrigação, não vêem como
aquela coisa (...) interior, porque é novo, tem que executar, tem que se envolver, participar, é
uma coisa nova que está sendo imposta por uma secretaria, pelo governo federal, aí eu tenho
que fazer porque se eu não fizer, eu posso perder meu emprego” (M. G. - liderança).

Talvez aí esteja uma das explicações para a desconfiança da comunidade das


intervenções do trabalhador de saúde no território, visto como um representante do Estado contra
qual luta, um invasor ao invés de um aliado. Para Vincent Valla (1998), “embora muitos
profissionais sejam sinceros na sua intenção de colaborar com uma participação mais efetiva, e de
acordo com os interesses populares, a população os identifica como atrelados às propostas das
autoridades das quais ela, em geral, descrê”. A partir dessa percepção, o autor sentencia, “daí a
sua aparente falta de interesse em ‘participar’”.
“Não vão pensar que se mexerem com a gente, não vão trazer um doutor Cláudio da
Cidade dos funcionários pra cá, é, os ‘intelectuais’ hoje estão querendo vir pra cá”; “o seu
superior mandou que você fizesse esse conhecimento” (A. N. – liderança) / “os trabalhadores
são muito ‘donos da história’, (...) eles se apropriam muito da história achando que a História é
deles, e não admitem que a História é de todos e eles passaram por ela também” (M. G. -
liderança).

Um dos grandes obstáculos ao processo de resgate histórico e consequentemente de


intervenção implicada dos mediadores nas comunidades reside na dificuldade de diálogo entre os
atores sociais das comunidades e os mediadores. “Na realidade, essa discussão – que não é nova
no campo da educação popular – trata das dificuldades de profissionais e políticos interpretarem
as classes subalternas”. Neste ponto é impossível discordar da percepção de que “a crise de
interpretação é nossa, assim como também [o] é o enfoque da idéia de iniciativa”. Este
cenário gera a mitificação de que “muitos profissionais trabalham com a idéia de que iniciativa é
parte da tradição dos mediadores, e que a população falha neste aspecto, fazendo com que ela
seja vista como passiva e apática”. (VALLA, 1998). Percebeu-se nas falas que os saberes
populares apesar de vistos como representativos para a comunidade, não são valorizados ou
reconhecidos,
“Acho que são válidos porque vê resultados, porque não são formalizados, não se tornam
técnicos”; “não estão sendo incluídos por nenhum técnico, eles não admitem os saberes
populares” (M. G. - liderança) / “o conhecimento da comunidade referente ao que eles têm hoje
precisa ser aprimorado” (F. E. - liderança) / “acho que não existe um estimulo ao saber
popular” (A. N. – liderança) / “acredito que são poucos, pelos profissionais são muito pouco,
eles não procuram conhecer quais são os potenciais que tem dentro da comunidade, e aí falta
estimulo dos próprios funcionários” (M. L. S. – conselheira) / “no caso das doenças de verdade,
tem que ser profissional. As pessoas são orientadas a só confiarem no trabalho do profissional”.

De acordo com Valla (1998), vários estudiosos vêem diversas contradições nas relações
entre profissionais e classes populares, ainda que o profissional seja um mediador aliado. Os
profissionais costumam ter dificuldade em interpretar a fala e o fazer das classes populares de
maneira apropriada. Para o autor, a dificuldade dos mediadores (profissionais, técnicos, políticos)
de compreender o que os membros das chamadas classes subalternas estão lhes dizendo se
relaciona “mais com a postura do que com questões técnicas”. Relaciona-se com a dificuldade em
aceitar que pessoas humildes, pobres, moradoras da periferia sejam capazes de produzir
conhecimento, que sejam capazes de organizar e sistematizar pensamentos a respeito da
sociedade, fazer uma interpretação capaz de contribuir para a avaliação dos mediadores sobre a
mesma sociedade. Em relação à contribuição para o fortalecimento da participação popular na
comunidade por parte de trabalhadores, gestão, lideranças e conselheiros as falas expressam a
sensação de abandono, esquecimento, desinteresse,
“Os trabalhadores não estão se envolvendo, somente alguns e muito pouco, (...) porque
se eles participassem mais talvez incentivasse mais a participação da comunidade naquele
movimento”; “Tanto da prefeitura como da regional eu estou achando ‘zero’, ainda tem um
pouco de participação da gestão local, (...) a gerência se envolve mais nos problemas de
saúde”;” eu acho que é no conselho, o melhor espaço para discutir os problemas de saúde e ir
em busca das soluções”; “deveria ter mais a presença do profissional, que não é muito
freqüente a não ser quando tem interesse próprio, e não se preocupa em refletir os problemas de
saúde da comunidade”. (M. L. S. – conselheira) / “ele [o trabalhador] pouco se envolve no
social referente ao diálogo com a comunidade, mas de suma importante seria que se integrasse,
se envolvesse junto a associações e conselhos, para desenvolver maior trabalho na questão de
saúde comunitária” (F. E. - liderança) / “a comunidade não participa do conselho porque não
foram chamados”; “o conselho não tem ido até a comunidade saber seus problemas”; “a
comunidade não sabe nem o que é conselho de saúde” (M. L. – usuária).

Os desafios e potencialidades à participação foram expostos pelo grupo e revelaram


novamente os conflitos internos,
“Praticar novas diretrizes, novos temas com reciclagem e partir para a execução do
plano, de formação das lideranças, de lutar contra o paternalismo e o assistencialismo, contra o
medo da perda do poder, contra o medo de passar o poder” (M. G. – liderança) / “precisa maior
compromisso de todos os envolvidos”; “utilização do espaço da associação, conselho,
segurança e saúde” (F. E. - liderança) / “ incentivo, hoje dentro do nosso bairro os nossos
princípios estão desaparecendo, o mais idoso vai falar ele não tem vez e voz pois a juventude
com os seus idealismos [não permite]; “ a desunião”; “as potencialidades são a crença em
Deus, a história de luta da comunidade e as entidades que são forças mas estão divididas” (A.
N. – liderança) / “ser persistente e perseverante, fazendo uma maior divulgação” (M. L. S. –
conselheira) / “a comunidade acreditou em promessas não cumpridas”; “hoje se tornou uma
comunidade acomodada, que não acredita mais em nada”; “as lideranças perderam o moral, o
poder” (M. L. – usuária).

Neste ponto, importante trazer a categoria poder que nas falas da comunidade se inter-
relaciona com as noções de liderança e/ou poder público (Estado). Para Boaventura (1999, p.
125-127), nas sociedades capitalistas são perceptíveis quatro tempos/espaços estruturais de
produção de poder que se articulam de maneira específica. Cada um com sua unidade de prática
social, forma institucional, mecanismo de poder, forma de direito e modo de racionalidade. São
eles: o espaço doméstico constituído pelas relações sociais entre o homem e a mulher e entre
ambos (ou qualquer deles) e os filhos. Nele, os sexos e as gerações são as unidades de prática
social, a forma institucional é o casamento, a família, o parentesco; o mecanismo de poder é o
patriarcado normatizado pelo direito doméstico, ou seja, as normas partilhadas ou impostas que
regulam as relações familiares; e o modo de racionalidade operado pela maximização do afeto. O
espaço da produção constituído pelas relações do processo de trabalho tem como unidade de
prática a classe social já abordada acima, institucionalizada na fábrica ou empresa, cujo
mecanismo de poder é a exploração, a juridicidade é baseada no direito da produção (código da
fábrica, regulamento da empresa) e a racionalidade centrada na maximização do lucro. O espaço
da cidadania é constituído pelas relações da esfera pública entre o cidadão e o Estado, a unidade
da prática é o indivíduo e a forma institucional é o Estado, neste espaço o mecanismo de poder é
a dominação, normatizada pelo direito territorial (o direito oficial estatal) e racionalizada pela
maximização da lealdade. Por último, o espaço da mundialidade é constituído pelas relações
econômicas internacionais e pelos Estados nacionais, sua unidade de prática social a nação,
institucionalizado nas agências, acordos e contratos internacionais. Seu mecanismo de poder é a
troca desigual, a forma de juridicidade é o direito sistêmico (normas muitas vezes não escritas e
não expressas que regulam as relações desiguais entre os Estados e entre empresas no plano
internacional) e o modo de racionalidade é a maximização da eficácia. Para o autor esta
concepção permite mostrar que a natureza política do poder não é atributo exclusivo de
determinada forma de poder, mas antes o efeito global da combinação entre as diferentes formas
de poder. No espaço comunitário se interrelacionam os espaços familiar (doméstico), do trabalho,
da cidadania na conformação das relações sociais no território, conforme as falas,
“Eles [os primeiros moradores] me tinham como neta”; “então nós somos uma família”
(M. G. - liderança) / “não, mas eu vou falar com ele, ele também foi meu garoto, e cheguei pra
esse cidadão [traficante], e dei uma dura mesmo”; “uma das minhas maiores tristezas é quando
eu chego à beira do campo com material esportivo, que vou dar para os meus meninos trocarem
de roupa” (A. N. – liderança).

Por fim, a percepção da comunidade ampliada sobre o fórum popular revelou-se positiva
para o grupo, como se percebe nas falas,
“Achei muito bom o Fórum, eu vi que houve expressão da comunidade” (V. S. - ACS) /
“serviu pra arranjar mais conhecimento, ganhar mais amizade, mais capacidade” (M. L. –
usuária) / “eu acho importante porque além da troca de conhecimento, nós também passamos a
conhecer os anseios da comunidade e suas potencialidades”; “o fórum e o grupo são
importantes mobilizando, chamando para o processo de discussão”. (M. L. S. – conselheira) /
“aquele fórum nos abriu a idéia de nos interessar, eu da minha parte fiquei interessado e cada
dia que eu participo eu tenho mais conhecimento, eu posso dizer que sou um homem de
conhecimento popular” (A. N. – liderança) / “serviu de experiência, conhecimento e [para]
desenvolver um trabalho de aproximação com a comunidade” (F. E. - liderança) / “é show,
porque é ver a mistura, é instigar o povo, (...) é jogar suas necessidades em discussão e fazer
com que eles [próprios] decidam” (M. G. - liderança).

Bem como a certeza das conquistas através do processo de participação popular, as falas
fazem referência tanto às conquistas materiais (a maioria), quanto às subjetivas/simbólicas,
“Mesmo sem apoio das autoridades as lutas da comunidade conseguiram respeito e
valorização” (M. S. – usuária) / “o Complexo da Cidadania, a ‘saúde’, a delegacia, as escolas e
creches, os cursos profissionalizantes” (M. L. – usuária) / “foram inúmeras as conquistas que
não dá nem pra descrever e, já houve uma grande participação, tanto que hoje tudo que tem de
‘bom’ foi luta e conquista da comunidade” (M. L. S. – conselheira) / “moradia, escola, creche,
posto de saúde, centro social, calçamento, água, luz” (F. E. - liderança).

Para finalizar, o registro de algumas expressões de medo, angústia e ansiedade, pela


possibilidade da comunidade ser despejada, expulsa de seu território por conta do evento
esportivo da Copa do Mundo, que como toda política pública de estímulo ao mercado turístico
deve necessariamente “esconder” as mazelas sociais, concretamente representadas na condição
indigna de sobrevivência do indivíduo pobre. Nesse sentido, retomamos o pensamento freireano,
para salientar, “quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado, para entender o
significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da
opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação?”. (FREIRE,
2005, p. 34).
Tais percepções trazem a interrelação das diversas categorias apresentadas, mas, além
disso, a denúncia, a súplica,
“Querem pegar a Boa Vista hoje e jogar lá na rampa do lixo, mas estão enchendo de
‘gringo’ aqui dentro da fazenda, que é terra nossa”; “nós estamos sendo jogados no lixo, mas
aqui está cheio de gringo” “estão jogando nossas raízes, arrancando”; “cada vez que a Boa
Vista se manifestava pelos seus ideais, quantas vezes eu não vi criança chorando com sede aqui,
água passando dentro do nosso bairro e nós sem direito à água” (A. N. – liderança) / “essa
fazenda não vai ficar assim não, deixa melhorar tudo aqui, pra ver se não vão construir prédios
aí dentro” (M. L. S. – conselheira).
Como proposta de encaminhamento das reflexões foi agendado um novo encontro, desta
feita com os trabalhadores da unidade de saúde, durante a roda de co-gestão, para a construção de
um novo fórum popular.
Como etapa final deste trabalho foi feita apresentação de todo o material epistemológico
produzido pela comunidade, para sua análise e reflexão final, visando o fechamento do relatório
final e a apresentação do mesmo à comissão científica avaliadora desta especialização. O
objetivo, já explicitado anteriormente, era garantir aos participantes/co-autores desta obra o
empoderamento de sua produção científica, a consciência da possibilidade da autoralidade e a
certeza da capacidade de reflexão-ação/práxis dos sujeitos das classes oprimidas sobre esta
realidade social que o esmaga, desumanizando-o.

6. CONCLUSÕES

O processo de participação política das comunidades em situação de opressão social e


política é problema reconhecido por todos os autores aqui citados e, creio eu, por todos aqueles
que apóiam as lutas das classes populares. As dificuldades de mobilização comunitária, mesmo
quando a luta se desenrolava sobre interesses diretos da comunidade, como os da moradia aqui
exemplificados, foram claramente percebidos em todos os instantes desta experiência social.
Mesmo uma comunidade como a Boa Vista/Castelão que, como foi visto, apresenta rica história
de lutas apresenta obstáculos que a primeira vista parecem intransponíveis. Ao mesmo tempo
ficou aqui explícita, a capacidade destas mesmas comunidades de criarem alternativas ao que está
posto, de criar mecanismos de superação de seus problemas sociais e políticos. Neste sentido as
técnicas da educação popular se apresentam como mecanismos com fantástico poder de
mobilização das forças transformadoras da sociedade, principalmente por trazer explícito em sua
estrutura, como exigência conceitual, a emergência do oprimido como agente central da
transformação social.
O fórum popular da comunidade Boa Vista/Castelão utilizou-se das técnicas de educação
popular para estimular a reflexão coletiva sobre problemas sociais, alçada aqui a condição de
situação limite, e ao mesmo tempo, das potencialidades comunitárias. Para o senso comum,
inclusive de boa parte dos mediadores engajados, as comunidades pobres, em situação de risco
social, são espaços permeados somente de problemas e nesta condição, como se diz, é muitas das
vezes mais cômodo não “mexer no vespeiro” até para não se criar falsas expectativas, afinal, isto
é problema do Estado e de suas políticas públicas. Esta condição é construída ideologicamente e
utilizada como mecanismo de “invasão cultural” das classes opressoras, de modo que, o sujeito
oprimido “acredita” que ele realmente é um “problema social” e somente como tal pode ser
percebido.
No mesmo sentido a comunidade ampliada de pesquisa utilizou-se das técnicas de
educação popular para problematizar o tema gerador participação popular, como situação limite
percebida pelo grupo no seu processo de reflexão-ação social.
Por meio desta experiência, a comunidade pôde despertar para a necessidade de
construção de espaços coletivos com a potencialidade de constituição de sujeitos e coletivos com
capacidade de análise e intervenção na realidade concreta. Espaços de debate, discussão e
formulação de políticas.. Espaços, enfim, capazes de construírem coletivamente, alternativas para
o enfrentamento e superação de situações-limite, mas, sobretudo com capacidade de estimular,
através da prática efetiva da co-gestão, o exercício do poder dos sujeitos e coletivos enquanto
prática pedagógica, terapêutica e, sobretudo libertadora.
Certas percepções aqui devem ser destacadas, percepções que o discurso ideológico
dominante tenta desqualificar, ou até, suprimir ou negar, como a riqueza existencial dos sujeitos
das classes socialmente oprimidas, seus saberes acumulados e adquiridos na experiência, teoria
concreta e imediata forjada no contato direto com a realidade. A percepção e compreensão sobre
uma vida tão dependente do “jeitinho”, da “ginga”, da “malandragem”, ou seja, marcadamente
dependente de saberes construídos a partir da experiência, baseados na ação individual e coletiva
visando a construção de mecanismos de luta pela sobrevivência, diretamente dependentes de sua
história e sua cultura, fundadas na carência material e na abundância afetiva. Saberes autênticos e
esquecidos propositadamente, não reconhecidos socialmente, ideologicamente desconstruídos,
desvalorizados e desvalorizadores de seus possuidores. Esta condição de desvalorização do
oprimido e de sua cultura alarga o fosso social, distancia ainda mais os pobres dos centros de
decisão e poder, obstaculiza a efetivação de políticas públicas de caráter autenticamente popular,
justifica e fortalece o caráter opressor e dominador deste modelo de sociedade.
O sentido de “comunidade”, no caso dos moradores da Boa Vista é fruto exatamente de
sua história, de sua luta política por direitos sociais básicos negados, luta por reconhecimento e
por respeito, por dignidade e justiça. O orgulho pelas conquistas se entrelaça com a percepção das
muitas dificuldades a serem enfrentadas.
A realidade de desigualdade, injustiça e opressão desta comunidade, comum à maioria das
comunidades periféricas das grandes cidades, propiciou as condições necessárias para que, a
partir de minha “imersão” na realidade objetiva local, se construísse este processo de “emersão”
coletiva dos sujeitos envolvidos nesta comunidade ampliada de pesquisa.
Percebeu-se ao final um ânimo renovado pela possibilidade de retomada pela comunidade
de um protagonismo social há algum tempo esquecido, visto que, era demanda das lideranças
comunitárias locais a necessidade de mobilização popular em defesa de diversos direitos sociais
historicamente negados. A “Caminhada pelo Direito à Moradia e Ambiente Saudáveis da
comunidade Boa Vista/Castelão” representou para muitas das antigas lideranças comunitárias a
possibilidade de reinserção da comunidade no contexto das lutas políticas por justiça social e pelo
protagonismo comunitário no processo de transformação social e política.
Estas comunidades, ou melhor, esta comunidade, sofre hoje em dia a “aflição” de habitar
a circunvizinhança do estádio Castelão e de se ver ameaçada de “expulsão” do território, por
conta da recente escolha de Fortaleza como uma das capitais sub-sedes da Copa do Mundo de
2014. Obviamente, a ameaça que refiro é feita exatamente contra os setores mais pobres da
comunidade, aqueles que habitam as margens do rio e que, historicamente esquecidos pelo poder
público, agora se vêem obrigados a sair de seus lares para dar passagem ao “progresso”
urbanístico decorrente do evento esportivo. A reflexão sobre este contexto nos obriga a certos
questionamentos, como até que ponto, a ameaça, o medo, a ansiedade pelo risco de perda
concreta dos laços afetivos e sociais desta comunidade afetam sua qualidade de vida, ou
seja, sua saúde? De que forma estes eventos são expressos pelos indivíduos e percebidos
pelos trabalhadores de saúde? Será que o sistema de saúde em geral e os trabalhadores de
saúde em específico estão atentos à influência dos fatores sociais sobre a saúde dos
indivíduos? Habituados por formação/deformação a atuarem sobre a doença expressa nos corpos
físicos, aonde chegarão os trabalhadores com seus limitados mecanismos de atuação ante a
natureza complexa dos problemas sociais/de saúde enfrentados pelas comunidades
socialmente oprimidas? Essas são questões merecedoras de trabalho reflexivo específico e que
epistemologicamente aqui não serão tratadas diretamente. Fica, entretanto, a proposta de
problematização de questões que pelo caráter histórico-político, e não apenas epistemológico, a
que este trabalho se propõe, não poderiam ser esquecidas.

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8. ANEXOS
8.1 CIRCULO DE CULTURA
O que é participação? Que situações na comunidade poderiam ser modificadas com
a participação? Que desafios/dificuldades são percebidas pra enfrentá-las? Quais as
percepções sobre os movimentos desencadeados pelo fórum e outras iniciativas? Que outros
movimentos desencadear? Que sonhos /desejos de mudança poderão ser gerados com esses
movimentos?
8.2 ENTREVISTAS
Roteiro:
1) Como foi sua trajetória até aqui? 2) Que questões sobre a organização e a história
da comunidade você considera importantes? 3) Qual a importância do fortalecimento da
participação popular? 4) Qual sua percepção/Como tem se dado o envolvimento dos
profissionais de saúde com os movimentos e organizações comunitárias? 5) Qual tem sido
efetivamente a contribuição dos diversos atores locais para o fortalecimento da participação
popular? 6) As reuniões do conselho local de saúde têm contribuído para a compreensão
dos problemas de saúde do território? 7) Qual sua percepção/Que conhecimentos ou
saberes da comunidade estão sendo incluídos ou estimulados pelos profissionais desta
unidade de saúde? Como tem sido esse processo? 8) Para você qual a importância do
fórum popular da comunidade e de estar participando desse grupo? 9)Que desafios você
aponta a serem superados para fortalecer a participação popular na saúde? Que
potencialidades podem ser utilizadas para isto? 10) Quais as conquistas da comunidade em
seus processos de participação?