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Correntes teóricas sobre o autismo infantil precoce

Sheila Abramovitch
Atualmente, o pensamento biológico dominante na psiquiatria considera o autismo infantil precoce um
transtorno cognitivo, sendo o tratamento comportamental sua terapêutica eleita. A idéia de que o autismo
concerne ou não à entrada do sujeito na linguagem, isto é, na ordem humana, foi totalmente abandonada por
esse pensamento. Entendido apenas como um transtorno mental orgânico, que surge logo na primeira
infância, o diagnóstico dc autismo inviabiliza a priori qualquer tentativa de entendimento subjetivo. As
pesquisas médicas procuram causas neurológicas, bioquímicas e genéticas, excluindo o que um dia foram
consideradas como causas psicodinâmicas ou relacionadas com os pais (Kanner 1943).
Essa concepção do autismo nos reenvia ao início do século XX, quando, à semelhança do modelo médico
vigente, a ciência, com base na paralisia geral progressiva (forma neurológica da sífilis), buscava encontrar a
lesão histopatológica responsável pela loucura humana (Bleuler 1929). A bem da “verdade”, a ciência, apesar
de inúmeros achados que não são tema deste trabalho ainda não encontrou a causa do autismo, deixando
— —,

cm aberto tanto a etiologia quanto as conseqüências do fenômeno psicopatológico do autismo.


O caminho percorrido para este estudo teve como ponto de partida o trabalho no Hospital-Dia do Setor de
Psiquiatria Infanto-Juvenil da Unidade Docente Assistencial de Psiquiatria, do HUPE-UERJ, no qual
atendemos crianças autistas. Em nosso percurso, procedemos à análise das bases conceituais das teorias de
alguns psicanalistas, assim como de suas pesquisas em andamento.
Constatamos que não há “o autismo”, mas sim a criança autista, a partir de uma relação específica com sua
mãe e da impossibilidade de uma teoria única que explique tantas particularidades; que a biografia de cada
um, enfim, deve ser considerada à luz de sua singularidade, e não como um quadro emoldurado e
predeterminado em uma cronologia.
Mas hoje é tempo de classificar, de agrupar sintomas em “desordens” ou “transtornos”. No campo da
psiquiatria, o DSM-IV e o CID-1O ampliam seus parâmetros, considerando o autismo um transtorno global
do desenvolvimento (TGD), incluindo casos de retardo mental e de doenças neurológicas associadas. Embora
de menor expressão, a psiquiatria francesa ainda mantém o autismo dentro dos critérios de diagnóstico para
psicoses infantis, distinguindo as psicoses de início precoce das da fase de latência.
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Infelizmente, não é mais tempo de se fazer clínica à beira dos leitos. Máximas como “a clínica é soberana” ou
“pensar a clínica como um lugar de experiência maior” viraram baldas. E preciso listar problemas e situações,
pois tudo deve estar previsto nos códigos e devidamente hierarquizado e catalogado. Assim, existem doenças,
e não doentes. Não há mais lugar para diferenças, e o que é subjetivo se esvai com o próprio tempo.
Obviamente, contudo, as classificações não dão conta de tudo a que se propõem. Com crianças autistas, isso
torna- se mais evidente. Cada criança autista é de um jeito: umas são delirantes, outras apáticas, brilhantes,
hiperativas ou agressivas. Elas não são agrupáveis em uma única categoria e o que se aplica a uma não serve
para todas.
O autismo como uma psicose
A hipótese que orientou esse trabalho foi a de que o autismo é uma psicose precocemente desencadeada,
porém distinta da esquizofrenia, porque tem características próprias, pertinentes a uma patologia que acomete
crianças muito pequenas. Pesquisamos os autores que pudessem contribuir com essa questão, e elegemos as
correntes kleiniana e lacaniana, aqui representadas por Frances Tustin, de um lado, e Colette Soler, Rosine e
Robert Lefort, Marie-Christine Laznik Penot e Pierre Bruno, do outro.
Buscamos os primeiros subsídios na vertente desenvolvimentista, com Frances Tustin, que pensa o autismo
como uma psicose diferente da esquizofrenia a partir de uma falha no relacionamento mãe-filho.
Para Tustin (1984), o autismo se define como um “estado centrado no próprio corpo, com o predomínio das
sensações, constituindo-se como o núcleo de si mesmo” (ibid.: 13). Ocorre, nesses termos, a exacerbação do
período situado antes do auto-erotismo freudiano, indicando-nos que o autismo se instala logo nos primeiros
dias de vida, quandd uma criança percebe de maneira traumática sua separação da mãe, entendida como uma
parte do seu próprio corpo. Assim, o autismo é uma psicose, já que a criança vive em uma realidade alienada
ao ambiente circundante, embora sem delírio ou alucinação. Em sua concepção não se trata de uma regressão,
mas de uma aberração, desenvolvida como resultado das experiências de separação traumática do corpo
materno (Tustin 1995).
A criança autista, a fim de proteger-se desse dano, promove o “encapsulamento”, desenvolvendo “formas” e
objetos autísticos para garantir a sobrevivência. Entretanto, a criança autista confusional, ou seja,
esquizofrênica, possui uma relação simbiótica com a mãe e tem medo de perder sua identidade, fixando-se
nos objetos confusionais. Tustin (1990) enfatiza a depressão materna na etiologia do autismo, relacionando-a
à falta de investimento ou a um desinvestimento por parte do outro cuidador.
Ela compreende, então, que é possível uma boa, lenta e gradual separação entre mães e filhos (1984),
acrescentando que a separação não é geográfica,

mas subjetiva (1994). Os lacanianos, na vertente estruturalista, comunicam o contrário, que não se trata de o
bebê separar-se da mãe, mas sim de alienar-se nos significantes dela (Outro primordial), para, então, separar-
se da cadeia significante ao qual ele próprio se alienou.
Colette Soler (1989a) também pensa o autismo como uma psicose distinta da esquizofrenia, mais
precisamente como um dos fenômenos encontrados na estrutura psicótica. Soler considera a não-existência de
um autismo puro, apontando para a pluralidade de formas clínicas e situando-o num dos extremos da estrutura
psicótica. Segundo ela, tendo como referência o mecanismo único da estrutura psicótica, a foraclusão do
Nome-do-Pai (NP), observamos efeitos diferenciados nas apresentações clínicas, sendo o autismo uma entre
elas.
Sua tese é de que a criança é portadora de uma doença da libido, com graus variados de investimento libidinal
dentro da mesma estrutura clínica. O autista, por não ser animado pela libido do Outro, permanece como “um
puro significado” (Soler 1989a) desse mesmo Outro. E um parar na entrada, na borda da operação de
alienação-separação (Lacan 1964).
Soler ainda propõe (1989b) a noção de foraclusão da simbolização primordial e indica a necessidade de
introdução da falta, para que o Nome-do- Pai aí se instale. Depreendemos que os autistas se colam em alguns
significantes, que ficam a repetir, ou escolhem um ou outro objeto e os fixam em estereotipias. Como o
Desejo da Mãe (DM) e o Nome-do-Pai estão ausentes, há uma impossibidade da criança autista ultrapassar
esse ponto.
Por sua vez, o casal Lefort (1990) pensa o autismo como a-estrutural, não no sentido de não haver nenhuma
estrutura, mas de ainda não ter uma estrutura definida, de não possuir a inscrição da falta, o que não o impede
de vir a desenvolver uma psicose paranóica ou uma debilidade. O sujeito autista se encontra na posição de
objeto, pois diante de um Outro absoluto e completo (A), a única posição possível é a de objeto. Como objeto,
o sujeito autista não pode falar nem olhar, pois isso contestaria a completude do Outro, causando seu
desaparecimento.
A semelhança dos Lefort, Laznik-Penot (1991) também não considera o autismo uma psicose, por ser um
fenômeno que ocorre antes do estádio do espelho. Ao estudar bebês com a síndrome de autismo, delimita o
hospitalismo em casa, à semelhança do hospitalismo de Spitz (1984). Laznik-Penot mostra que o “olhar
materno” é fundamental para sustentar a vida de uma criança, e lembra das mulheres que se encontram ao
lado de seus filhos, sem, no entanto, poderem olhá-los. Para ela, a existência de outras patologias que incidem
precocemente, como a depressão em bebês, reforça a possibilidade de saída do autismo por meio de uma
intervenção precoce, a partir da qual a criança retoma o seu desenvolvimento.
Por fim, Bruno (1991a) entende o autismo como uma psicose, e a aproxima da esquizofrenia. Tanto o autismo
quanto a esquizofrenia são determi

nados pela “não função do Desejo Materno” (1999), que os situa aquém do tempo lógico da alienação. O
autor sustenta a tese da ausência de nomeação, ou seja, de que nada vem nomear o lugar que essa criança
ocupa no desejo dos pais e propõe reservar o termo “autismo” para as psicoses muito precocemente
desencadeadas. Nesse sentido, a distinção fenomenológica existente entre as duas formas de psicose seria
determinada pelo momento de seu desencadeamento. Questionamos, então, por que há surtos tão precoces e
quais as particularidades inerentes a uma condição que acomete exclusiva- mente infans.
Um retorno à psiquiatria clássica
Procuramos buscar, portanto, elementos da história da psiquiatria que corroborassem nosso pressuposto. De
acordo com essa história, o autismo não é uma esquizofrenia precocemente desencadeada, porque o processo
esquizofrênico acomete o pensamento, as idéias. Retomando Kanner (1943), o primário no autismo é o afeto.
Quando Bleuler, em 1911, refere-se ao “grupo das esquizofrenias”, está de acordo com a existência de várias
formas clínicas, ou seja, com a impossibilidade de se delimitar uma forma única de esquizofrenia (simples,
hebefrênica, catatônica ou paranóide).
A esquizofrenia, então, é uma patologia que concerne ao pensamento, contrapondo-se ao autismo, que diz
respeito ao afeto, pois a presença de dois sistemas ideicos inconciliáveis é, segundo Bleuler (1929), o que
caracteriza a cisão da mente. Dessa maneira, podemos pensar a foraclusão do Nome- do-Pai desvelando-se em
momentos diferentes. O autismo, como entidade clínica independente da esquizofrenia, sustenta-se a partir do
fato de que, na faixa etária em que incide, inexiste organização das idéias. O fenômeno clínico difere: o
esquizofrênico se refugia em sus pensamentos, enquanto a criança autista ainda não construiu um sistema
cognitivo capaz de organizar esses mesmos pensamentos.
Um retorno a Freud
Quando Freud (1914) diz que, na esquizofrenia, a libido se retira dos objetos externos e se recolhe no eu, não
podemos repetir essa explicação para o autismo, pois nele a libido permanece retida, não se projetando nos
objetos do mundo; não há regressão tópica ao estádio do espelho. Se tomamos a vivência do corpo
despedaçado para o esquizofrênico, pensamos que um dia ele pode se constituir como um único pedaço,
mesmo que imaginariamente. Já o corpo do autista é fragmentado em partes, como o corpo da alimentação ou
da excreção, ou seja, o corpo das pulsões parciais não unificadas e que nem sequer chegaram a se constituir
como uma imagem que, ainda que inconsistente, pudesse entrar na cadeia da demanda.
Quanto à presença/ausência de um Outro no autismo, verificamos algumas possibilidades. O Outro existe, do
contrário a criança não precisaria se

defender de suas ameaças. A criança autista se encontra dentro da cultura, da linguagem, embora permaneça
fora do discurso (Soler 1989a). O autista se recusa a se alienar no Outro. O esquizofrênico, mesmo criança,
pode ter problemas quanto à alienação, porém chega mais perto dela, conseguindo empurrar sua questão um
pouco mais além.
Deparamo-nos, portanto, com um ser paradoxal, pois se de um lado se comporta como se o Outro ainda não
cxistisse, de outro, defende-se de suas ameaças e faz de tudo para mantê-lo com sua reclusão. Endereça-lhe
sua recusa, pois ele é insuficiente para sustentá-lo; ao mesmo tempo, contudo, tem pavor de se confrontar com
sua incompletude.
Nesses termos, o que está ausente no autismo? Uma boa separação (Tustin), a simbolização primordial
(Soler), a estrutura (Lefort), o “não olhar” materno (Laznik-Penot) e a nomeação do desejo do qual o filho
surgiu (Bruno).
Para Tustin, também existe o Outro no autismo: é o outro cuidador, geralmente a mãe, que fracassou em
promover uma “boa” separação do filho. Para Laznik-Penot e para os Lefort, o Outro é inacessível e para
Soler e Bruno, o grande Outro não-barrado da psicose (A).
Tustin acredita na existência de uma dupla mãe-filho perfeita, capaz de produzir uma separação não
traumatizante, o que para os lacanianos é impossível, pois é precisamente do desencontro, da decepção da
criança com o seio materno, que nasce o psiquismo.
Alguns achados
Encontramos em nosso estudo uma ressalva: a de que os Lefort e LaznikPenot estudaram lactentes, ao passo
que Soler e Bruno estudaram pré-escolares, ou seja, são dois grupos com formas de apresentação diferentes.
Tustin considerou autistas os encapsulados, já Soler e Bruno abriram o leque para os hiperativos e delirantes.
Os autistas confusionais (esquizofrênicos) de Tustin são os que mais se aproximam da hipótese de Bruno e,
nesse caso, podemos pensar em uma esquizofrenia precocemente desencadeada.
De todo modo, o autismo é, por excelência, a psicose que acomete a primeira infância; é um dos fenômenos
encontrados na estrutura psicótica e paradigma das psicoses de tenra idade, cuja recusa ao Outro é o elemento
preponderante e no qual a pobreza do eixo imaginário é contrastante com outros fenômenos psicóticos.
Psicanalistas de diferentes correntes teóricas mantêm o debate em aberto. O autismo é uma psicose,
precocemente desencadeada, porém distinta da esquizofrenia, e pelo menos dois problemas se impõem na
tentativa de maiores esclarecimentos sobre o diagnóstico de autismo:
1) Como entender a evolução do autismo? Pensamos a psicose como uma estrutura clínica, emergindo por
surtos e apresentando-se ora como autismo, ora como esquizofrenia, ora como paranóia.

2) A inexistência de um padrão clínico, em razão da ampla faixa de expressão da síndrome. As crianças


autistas apresentam subtipos clínicos, desde
leves traços autísticos até a síndrome completa (tipo concha).
No autismo, em suma, as crianças são precocemente excluídas do processo de crescimento. Não se pode
concordar com explicações ou classificações que não considerem a subjetividade da criança. Mesmo que ela
não fale, falamos dela. A intuição genial de Leo Kanner foi ter reparado que o amor, o dom e a abnegação
devem ser legitimados, porque, sem isso, o amor é uma intrusão e o alimento, um veneno (Devroede 1993).
Para aceder à condição de sujeito desejante, é necessário que o reconhecimento simbólico por parte do Outro
que cuida da criança a retire da posição de objeto.

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Psicanálise e psiquiatria: controvérsias e convergências