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NAIARA

- Faz duas semanas que eles não trazem a máquina de café quebrada. Como se não
bastasse não termos mais a maquina de suco há dois meses! Assim não dá... como
querem que trabalhemos direito se nem café tem? Não é mesmo, você não
concorda comigo?!
- É uma situa...
- E para comprar o Iphone novo ela tem, né?! Não é absurdo, não concorda?
- Sim, de fato, o caf...
- Ai, você não sabe! O Jonathan e eu fomos para a igreja ontem né, aí – risada
nervosa – uma mulher estranha se aproximou da gente e disse – outra risada
nervosa – “nossa vocês já marcaram casamento? Estão tão radiantes” – risada
absurdamente nervosa a ponto de vermelhar a cara e perder o fôlego – Imagina só
a cara que ele fez! Ai, eu num guento... ficou puto o resto do culto. Cheguei em casa
depois e contei para minha mãe e ela cascou o bico também, no jantar todo mundo
ficou zoando ele. Porque... tipo... já faz três anos já, né?! Toda vez que toco no
assunto ele desconversa – risada nervosa – mas você precisava ver a cara dele –
outra risada nervosa.
- Uhum, imagino.
- Assim, não quero me demorar muito para casar, né?! Sabe que namorei o Paulo
por 10 anos só para descobrir que era um traste.
- Ainda bem que não casou com ele, então.
- E a gente tinha tudo pronto; compramos a casa, estávamos mobiliando...
precisava ver que linda a pia que tinha colocado na cozinha... E o piso?! Piso frio!
Idiota. Ainda por cima usou meu nome para fazer um empréstimo e depois eu tive
que correr atrás disso.
- Namorou com ele 10 anos?
- Ah, mas ele era muito bonzinho, precisava ver! Era educado e me tratava como
uma princesa.
- Uhum.
- Até eu descobrir que tinha outra e que tinha usado meu nome no banco sem
minha autorização. E foi do nada! Ele terminou comigo do nada.
- Ele terminou com você?
- Sim... eu descobri tudo e ele que terminou comigo, ainda por cima, você acredita?
Absurdo, né?! Idiota.
- Mas porq...
- Mas com o Jonathan é diferente – risada nervosa – ele vai me pedir em casamento
e a gente vai mudar pro meu apartamento.
- Porque vocês não moram juntos antes?
- Acha, imagina! – cara de ofendida – você sabe que eu sou da igreja, né?
- Mas vocês já..?
- Ah sim, claro, mas morar juntos não antes do casamento não, né?!
- Uhum. Sabe, eu acho isso uma besteira.
- Mas é porque você não tem religião. Imagina... ficar falada na cidade depois...
- Falada na cidade?
- Sabe a Amanda?
- Uhum.
- Super rodada. A cidade toda sabe disso, ela já deu para todo mundo.
- Não sabia disso não.
- Você é daqui?
- Sou.
- Você não sai muito, é por isso.
- Mas mesmo que soubesse, não vejo problema.
- Ai, credo... é por isso que ela se casou às pressas, se não casasse agora não casaria
mais, não é mesmo?! Você não concorda?!
- Bom...
- A cidade toda sabe que ela é rodada.
Eu não sabia.
- Bom, mas se isso fosse um problema mesmo seria fácil de resolver... é só mudar
de cidade - rindo.
- E ir mudando de cidade e pegando todo mundo?
- Parece uma boa ideia, têm milhares de cidades ao redor do mundo para escolher -
risos de um lado, cara mortificada de outro.
- Nossa, não, imagina! Ainda bem que o Jonathan vai me pedir em casamento.
- Achei que ele evitasse o assunto.
- Ah, sim, mas é óbvio que ele vai, né?! Eu já comprei o meu apartamento, ele pode
se mudar para lá depois que nos casarmos.
- Uhum.
- Minha mãe me disse que ele não pediu ainda porque é muito novo.
- Quantos anos ele tem?
- Ele é nove anos mais novo que eu.
- Uhum.
- Mas isso não é muito!
- Eu não ach...
- São nove anos, mas ele é maduro para a idade dele!
- Ok, não acho que seja relev...
- Assim que ele terminar a faculdade tenho certeza que vai pedir minha mão. Não
vai ficar me enrolando igual o Paulo, né?! Precisava ver minha pia que linda... meu
pai pagou por tudo. E depois tive que vender a casa e dividir com aquele traste.
Mas quando eu mudar para o meu apartamento vou colocar o piso frio que tinha na
minha casa.
- Mas porque você não se mudou ainda? O apartamento não é seu?
- É sim, eu comprei há pouco tempo, mas morando em casa minha mãe consegue
me ajudar, né?! Imagina! Não tenho tempo para lavar e passar a roupa não, muito
menos cozinhar. Sem contar que em casa não preciso pagar nenhuma conta, meu
pai não deixa, ele fala que é para eu guardar o dinheiro para o meu casamento.
- E você já está guardando? Não seria melhor esperar o Jonathan pedir?
- Que guardando que nada... Estou enrolada com o cartão, a gente sai para comer
todo final de semana e eu sempre tenho que pagar a conta porque você sabe, né?!,
vida de estudante.
- Uhum.
- Ai, amiga, queria tanto cortar o cabelo, está quase na cintura já.
Não sou sua amiga.
- Por que não corta?
- O Jonathan não gosta, ele vai brigar comigo se cortar.
- Mas o cabelo é seu, não?!
- Não é assim... quando você começar a namorar você vai ver.
- Acredito que não.
- Vai ver sim... e se ele te falar que quer que se depile de um certo jeito ou que faça
as unhas toda semana, você vai falar o que?
- Vou mandar ele para o inferno – rindo.
- Ai, credo, é por isso que está sozinha.
Não é por isso não.
- Pelo menos não vou ficar mal falada na cidade toda, não é mesmo?
- Nossa... nossa – engole o riso - olha ali, olha ali, mas disfarça. Olha que horrível
que a bunda dela fica quando coloca calça legging. Tem gente que não tem
desconfiômetro mesmo! Não é verdade, você não concorda comigo? – silêncio
– Oi Amanda, boa tarde.
- Oi amiga! Tudo bem? Como passou de feriado? ... A que ótimo! Eu descansei
bastante também. Amiga você não sabe! Ontem fui na igreja com o Jonathan né ... -
risada nervosa - ...
Sai de fininho, entra na sua sala. Silêncio. Até o cheiro de mofo aqui dentro traz paz.
Sussurros transpassando a parede de gesso fina... Daí eu contei para a minha mãe,
né?...Cadê o fone de ouvido? Só faltava ter esquecido. Ta aqui. Liga o PC. Que demora
dos infernos... Não, porque já faz três anos já, né?!... Play. ♪ I’d rather be, I’d rather

be, I’d rather be with an animal ♫.


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O café realmente faz falta. Passos no corredor, voz masculina madura, abafada.
- Sabe o que é, senhora? Caiu um grãozinho de nada no filtro interno da caixa de
água, por isso que não tava saindo o cafezinho. Até eu descobrir isso foi ó, uma
eternidade.
- Imagina seu Antonio, eu entendo. Mas, ainda bem que deu para arrumar, não é
mesmo? Obrigada por ter trazido a máquina, vou emitir o boleto pelo seu serviço.
Café. Se eu sair lá fora agora ela vai começar a falar de novo. Por que a maldita da
máquina tinha que ficar do lado do balcão? Talvez se for rapidinho ela não vai me
ver. Não tem como, só apertar o botão da máquina e a empresa inteira vai ouvir que
tem alguém pegando um expresso. Negócio barulhento. Eu vou. Não, espera. Posso
esperar um pouco. Mas agora, bem no meio da tarde, cairia bem. Eu vou. Qualquer
coisa invento que tenho algo urgente para fazer na minha sala.
Assim que a avistou levantou de onde estava e deu a volta na recepção inteira até
chegar na bancada onde ficava a máquina.
- Nossa amiga, você viu que sem vergonha? Ainda ficou dando desculpa pela
demora... certeza que é vagabundo. E eu achando que a Miranda é que não tinha
mandado consertar. Mesmo assim, qual a necessidade de comprar o celular mais
caro agora, sabendo que a empresa não anda bem? Aff. A máquina estava com ele
todo esse tempo. Velho safado. O que ele ficou fazendo na casa dele? Coçando?
- Talvez tenha sido difícil achar o problema mesmo.
- Certeza que não. Até eu tinha percebido mais rápido. Certeza. Absurdo não é
mesmo? Você não concorda comigo?
- É...
- Sabe, estou tão feliz! Consegui convencer meu pai a comprar um carro novo para
mim. Eu vou pagar ele, lógico, a não ser que ele se esqueça... – rindo.
- Nossa, olha a hora! Preciso voltar a trabalhar naquela planilha, senão não termino
hoje. Licença.
- Que foi? Você está estranha.
- Não é nada não, não dormi direito a noite.
- Você tem problema para dormir, né?!
- Na verdade não.
- Dá para perceber. Está sempre de mal humor.
Haha
- Na verdade não.
- Você é muito quieta, me conte mais sobre você.
- Bom, hum, não gosto de falar muito de mim, mas, bom, eu estou querendo passar
minhas férias na Argentina com minha melhor amiga.
- Sério? Nossa que bacana. Quando vocês vão?
- Em julho.
- Mas não vai ter dado o tempo das suas férias ainda.
- Sim, vou conversar com a Miranda sobre isso
- Nossa, não acho que ela vai concordar não. Imagina, tirar férias no meio do ano
assim... E pra quê ir lá? Nunca pensei em sair do país, sabe? Pra quê?
- Você não tem vontade de conhecer outros lugares? De morar em outra cidade?
- Imagina! Longe dos meus pais, nem pensar... daí vou ter que paga minhas contas –
ri.
- É uma boa experiência, faz a gente olhar o mundo de forma diferente, conhecer
coisas novas.
- Só se for para arranjar um marido gringo – risada histérica. Mas não vou precisar
mais disso porque vou casar em breve.
- E depois?
- E depois o quê?
- Depois que casar... parece ser esse o grande objetivo.
- Depois vêm os filhos, os filhos crescem, vêm os netos, os netos crescem...
- Acho que você vai precisar colocar um tapete no tal do piso frio, com esse monte
de criança engatinhando por lá...
- Ah... mas até as crianças nascerem meu marido já vai ter comprado uma casa
maior para gente.
- Seu marido ou seu pai?
- Meu marido, claro, mas acho que meu pai pode ajudar no começo, sabe?! Ele vai
ter acabado de terminar a faculdade, né?! Não vai achar um emprego bom logo de
cara, né?! Se Deus quiser vou conseguir mudar para um bairro melhorzinho.
- É. Bom, licença preciso voltar para minha sala, o Excel me espera.
Entra na sala. Café já frio. Fone de ouvido. Play. ♪ I’d rather be, I’d rather be, I’d
rather be with an animal ♫.
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Inserir nomes. Inserir valores. SOMA. Qual a porcentagem de pagantes desse mês?
Que tédio. É temporário. Mas já faz tempo. Era para ser temporário. Vai ser
temporário. Mais cinco minutos, já está na hora de bater o ponto e de fechar as
portas.
- Todo mundo pegou suas coisas? Vou ativar o alarme.
- Já sim. Pela ultima vez.
- Sabe? Já faz mais de um ano que vocês está aqui, geralmente ninguém dura muito
tempo nessa posição.
- Eu me pergunto o porquê.
- Isso é um bom sinal. Eu comecei assim! Fiquei um ano e depois outro, e depois
outro. Já faz sete anos já.
- Não cansou ainda?
- Não, não. É fácil né?! O ruim seria ter que trabalhar na minha profissão.
- Por que você não exerce sua profissão?
- Ai, dá muito trabalho ser fonoaudióloga... e a maioria dos pacientes são velhos.
Odeio velhos.
- Entendi. Sete anos, né?
- Sete anos. O tempo voa... você vai ver. Quanto mais você fica, mais fica difícil sair
depois.
- Concordo. Mas não pretendo continuar por muito tempo.
- Por quê?
- Vou pedir as contas amanhã de manhã.
- Por quê? – surpresa.
- Porque eu quero exercer minha profissão.
- Entendi, nossa que pena, né?! Mas do jeito que as coisas andam eu ficaria com
medo de sair, e se não conseguir mais nada? Como vai fazer?
- Viver às custas do meu pai? Estou pensando em arrumar marido também. O que
você acha? – silêncio. Amanda, parada há alguns metros de nós, ri. Tchau Naiara.
Que Deus nos abençoe, né?!
Põe o fone de ouvido.
Naiara diz mais alguma coisa, mas dessa vez não escuta nada.

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