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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS (ICHS)


DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA
DISCIPLINA: FILOSOFIA MODERNA II
DOCENTE: RENATO VALOIS CORDEIRO
DICENTE: JOÃO CARLOS P. SILVA – 201130012-4

“BREVE CONSIDERAÇÃO SOBRE O PROBLEMA DA TESE DA APRIORIDADE DO


ESPAÇO E DO TEMPO”

Seropédica, RJ

Setembro, 2013.
O professor Dr. Juan Bonaccini problematiza a relevância da tese kantiana da
aprioridade do espaço e do tempo (doravante, TA) enquanto condição necessária sobre a
qual se assentam os passos conceituais cardeais do Idealismo Transcendental, isto é, as teses
fundamentais de sua epistemologia: a tese da incognoscibilidade das coisas-em-si (TI),
“espinha dorsal do Idealismo transcendental”, justificada como consequência da tese da
não-espácio-temporalidade das coisas em si (TNET), tese essa, que, por sua vez, tem sua
validade demonstrativa assegurada pela tese da idealidade transcendental do espaço e do
tempo (TIT). Com efeito, todo o investimento argumentativo do professor Bonaccini tem seu
fim em realçar o caráter determinante da TIT com vistas a demarcar a compreensão kantiana
do estatuto do espaço e do tempo, ante as concepções inerentes a seu contexto filosófico, a
saber, a de Leibniz bem como a de Newton.
Nesse sentido, escreve o autor que, se a Leibniz, espaço e tempo concernem a
conceitos gerais relativos aos noûmenos1, expressando as relações que mantêm entre si, e a
Newton, coisas reais em si ou mesmo propriedades das mesmas, a Kant os referidos dados
são “transcendentalmente ideais”, o que implica assentir que são, nos termos do prof.
Bonaccini, “formas puras da intuição e condições subjetivas da nossa sensibilidade (TIT)”,
operando como “condições necessárias da possibilidade dos sentidos (externo e interno),
servindo por isso de fundamento a certos conhecimentos a priori”. Logo, é razoável inferir
que, à ótica do filósofo de Königsberg, espaço e tempo são condições inexcusáveis e
constitutivas de nosso modo de acessar e conhecer os objetos. Eis a conclusão da Exposição
Transcendental, inferida das respectivas teses defendidas na Exposição Metafísica do espaço
e do tempo.
Todavia, não aduzir evidências que tornem cogente seu argumento resultaria em
invalidar o próprio Idealismo Transcendental. Daí impõe-se a necessidade de uma análise
pormenorizada dos resultados da Exposição Metafísica do Espaço e do Tempo. Em suma, eis
as teses fundamentais constituintes da TIT: a da aprioridade (TA) seguida da singularidade
(TS). Passemos às definições operacionais de ambas.
Reza a tese da aprioridade que “espaço e tempo não são conceitos empíricos
concernentes a coisas reais nem suas propriedades (posição análoga à de Newton/ Clarke),
mas representações necessárias a priori;”. Se assim o for, tais representações se mostram
intuições puras a priori – por contraste com a concepção de serem “conceitos discursivos ou
universais acerca das relações entre as coisas (posição análoga à de Leibniz)” – tese da
singularidade. Tomadas assim, temos que a pedra de toque do argumento da Exposição
Metafísica reside na TA, dado que, se não, seria razoável concluir que, se a TS, tomada
exclusivamente, valer, as mencionadas intuições a priori poderiam ser abstraídas da
experiência ou dadas empiricamente, conclusão que, por si só, refutaria toda a TIT. Tal é a
justificativa de Bonaccini para um exame mais detido da TA, razão da “Breve Consideração”
aqui apreciada.
A TA pressupõe duas alegações, quais sejam: 1) a concessão de que o espaço-tempo
devem, necessariamente, ser pressupostos em toda a experiência sensitiva, não podendo,
portanto, ser “conceitos empíricos abstraídos da experiência” – alegação que, por si só, não é
suficiente para justificar a TA,

1
Termo, no léxico kantiano, correlato de “coisa-em-si”.

2
funcionando, no entender do prof. Bonaccini, como “o mero enunciado da TA a ser provado
em 2)” e 2) posto
que é possível representar espaço e tempo como que destituídos de qualquer coisa, mas não
podemos fazê-lo com relação a qualquer coisa que exista no espaço e no tempo, pode-se
afirmar que são “representações necessárias a priori” – o argumento propriamente dito.
Aqui emerge o problema da tese da aprioridade do espaço e do tempo: o argumento
formulado por Kant alude à “pretensa ‘anterioridade’ das representações sobre os objetos”.
Porém, basta assumir a necessidade subjetiva de nos representarmos para derivar o caráter
apodítico das mesmas?
As condições de definição de uma representação pura a priori são a) pureza, i.e.,
destituição de conteúdo empírico; b) universalidade e c) natureza formal. Para provar que
uma dada representação é apodítica deve-se demonstrar a satisfação das condições
mencionadas. De fato, para assegurar a validade da TA, deve-se provar a satisfação dos três
critérios, o que parece impossível, pois, do fato de alegarmos 1) e 2), segue-se apenas que
“certos seres temos uma necessidade empírica e subjetiva de experimentar as coisas ‘de
antemão’ no espaço e no tempo.”, o que viabiliza usar as mesmas alegações contra Kant:
pode-se conceder coerentemente que “se as coisas-em-si fossem espácio-temporais ou se o
espaço e o tempo fossem entes reais neles mesmos também poderíamos que pressupor o
espaço e o tempo de antemão para fazer a experiência de qualquer coisa e não poderíamos
nos representar fora do espaço e do tempo, ainda que pudéssemos mediante abstração
imaginar um espaço e um tempo em geral vazios”.
Conclui-se, com efeito, que a noção kantiana é somente alternativa em relação à de
Newton e Leibniz, mas não prova que a sua é mais plausível.

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BONACCINI, J.A. Breve consideração sobre o problema da tese da aprioridade do espaço e do tempo.
Revista Studia Kantiana, Porto Alegre, vol. 2, n. 1, p. 7-17, 2000.