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edra Filosofal

J.K. ROWLING
Ilustrado por JIM KAY
Tradução de Lia Wyler
capítulo um

O MENINO
QUE S OBREVIVEU

O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfenei-


ros, nº 4, se orgulhavam de dizer que
eram perfeitamente normais, muito bem,
um filhinho chamado Dudley, o Duda, e em
sua opinião não havia garoto melhor em ne-
nhum lugar do mundo.
obrigado. Eram as últimas pessoas no mundo Os Dursley tinham tudo que queriam,
que se esperaria que se metessem em alguma mas tinham também um segredo, e seu
coisa estranha ou misteriosa, porque sim- maior receio era que alguém o descobrisse.
plesmente não compactuavam com esse tipo Achavam que não iriam aguentar se alguém
de bobagem. descobrisse a existência dos Potter. A Sra.
O Sr. Dursley era diretor de uma firma Potter era irmã da Sra. Dursley, mas não se
chamada Grunnings, que fazia perfurações. viam havia muitos anos; na realidade a Sra.
Era um homem alto, corpulento, e quase Dursley fingia que não tinha irmã, por-
sem pescoço, embora tivesse enormes bigo- que esta e o marido imprestável eram o que
des. A Sra. Dursley era magra e loura e tinha havia de menos parecido possível com os
um pescoço quase duas vezes mais com- Dursley. Eles estremeciam só de pensar o que
prido que o normal, o que era muito útil os vizinhos iriam dizer se os Potter apare-
porque ela passava grande parte do tempo cessem na rua. Os Dursley sabiam que os
espichando-o por cima da cerca do jardim Potter tinham um filhinho, também, mas
para espiar os vizinhos. Os Dursley tinham nunca o tinham visto. O garoto era mais uma

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Harry Potter E A PEDRA FILOSOFAL

razão para manter os Potter a distância; eles Nenhum deles reparou em uma coruja par-
não queriam que Duda se misturasse com da que passou, batendo as asas, pela janela.
uma criança daquelas. Às oito e meia, o Sr. Dursley apanhou
Quando o Sr. e a Sra. Dursley acorda- a pasta, deu um beijinho no rosto da Sra.
ram na terça-feira monótona e cinzenta em Dursley e tentou dar um beijo de despedi-
que a nossa história começa, não havia nada da em Duda mas não conseguiu, porque na
no céu nublado lá fora sugerindo as coisas hora Duda estava tendo um acesso de raiva
estranhas e misteriosas que não tardariam e atirava o cereal nas paredes.
a acontecer por todo o país. O Sr. Dursley – Pestinha – disse rindo contrafeito o
cantarolava ao escolher a gravata mais sem Sr. Dursley ao sair de casa. Entrou no carro
graça do mundo para ir trabalhar e a Sra. e deu marcha à ré para sair do estaciona-
Dursley fofocava alegremente enquanto lu- mento do número quatro.
tava para encaixar um Duda aos berros na Foi na esquina da rua que ele notou o pri-
cadeirinha alta. meiro indício de que algo estranho ocorria –

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O MENINO QUE SOBREVIVEU

um gato lia um mapa. Por um instante o Sr. ao Sr. Dursley que se tratava provavelmente
Dursley não percebeu o que vira – em segui- de alguma promoção boba – essas pessoas
da, virou rapidamente a cabeça para dar estavam obviamente arrecadando alguma
uma segunda olhada. Havia um gato de lis- coisa... é, devia ser isto! O tráfego avançou
tras amarelas sentado na esquina da rua dos e alguns minutos depois o Sr. Dursley che-
Alfeneiros, mas não havia nenhum mapa gou ao estacionamento da Grunnings, o pen-
à vista. Em que estaria pensando naquela samento de volta às brocas.
hora? Devia ter sido um efeito da luz. Ele O Sr. Dursley sempre sentava de costas
piscou e arregalou os olhos para o gato. O ga- para a janela em seu escritório no nono an-
to o encarou. Enquanto virava a esquina dar. Se não o fizesse, talvez tivesse achado
e subia a rua, espiou o gato pelo espelho mais difícil se concentrar em brocas aque-
retrovisor. Ele agora estava lendo a placa que la manhã. Ele não viu as corujas que voavam
dizia rua dos Alfeneiros – não, estava olhan- velozes em plena luz do dia, embora as pes-
do a placa: gatos não podiam ler mapas nem soas na rua as vissem; elas apontavam e se
placas. O Sr. Dursley sacudiu a cabeça e tirou espantavam enquanto coruja atrás de coruja
o gato do pensamento. Durante o caminho passava no alto. A maioria jamais vira uma
para a cidade ele não pensou em mais nada coruja mesmo à noite. O Sr. Dursley, porém,
exceto no grande pedido de brocas que tinha teve uma manhã perfeitamente normal sem
esperanças de receber naquele dia. corujas. Gritou com cinco pessoas diferen-
Mas ao sair da cidade, as brocas foram tes. Deu vários telefonemas importantes
varridas de sua cabeça por outra coisa. Ao e gritou mais um pouco. Estava de excelente
parar no costumeiro engarrafamento mati- humor até a hora do almoço, quando pen-
nal, não pôde deixar de notar que havia uma sou em esticar as pernas e atravessar a rua
quantidade de gente estranhamente ves- para comprar um pãozinho doce na padaria
tida andando pelas ruas. Gente com capas defronte.
largas. O Sr. Dursley não tolerava gente que Esquecera completamente as pessoas de
andava com roupas ridículas – os trapos capas até passar por um grupo delas próximo
que se viam nos jovens! Imaginou que aqui- à padaria. Olhou-as com raiva ao passar. Não
lo fosse uma nova moda idiota. Tamborilou sabia o porquê, mas elas o deixavam nervoso.
os dedos no volante e seu olhar recaiu em um Essas cochichavam agitadas, também, mas
grupinho de excêntricos parados bem perto ele não viu nenhuma latinha de coleta. Foi ao
dele. Cochichavam excitados. O Sr. Dursley passar por elas, na volta, levando uma grande
se irritou ao ver que alguns deles nem eram rosca açucarada em um saco, que entreouviu
jovens; ora, aquele homem devia ser mais algumas palavras do que diziam.
velho do que ele, e usava uma capa verde-es- – ... Os Potter, é verdade, foi
meralda! Que petulância! Mas então ocorreu o que ouvi...

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– ... é, o filho deles, Harry...


O Sr. Dursley parou de repente. O medo
invadiu-o. Virou a cabeça para olhar as pes-
soas que cochichavam como se quisesse
dizer alguma coisa, mas pensou melhor.
Atravessou a rua depressa, correu para o
escritório, disse rispidamente à secretária
que não o incomodasse, agarrou o telefone
e quase terminara de discar o número de casa
quando mudou de ideia. Pôs o fone no gan-
cho e alisou os bigodes, pensando... não,
estava agindo como um idiota. Potter não era
um nome tão fora do comum assim. Tinha
certeza de que havia muita gente chamada
Potter com um filho chamado Harry. Pensan-
do bem, nem sequer tinha certeza de que o
sobrinho tivesse o nome de Harry. Jamais vira
o menino. Talvez fosse Ernesto. Ou Eduardo.
Não tinha sentido preocupar a Sra. Dursley,
ela sempre ficava tão perturbada à simples
menção da irmã. Não a culpava – se ele tives-
se uma irmã como aquela... mas, mesmo
assim, aquelas pessoas de capas... – Não precisa pedir desculpas, caro se-
Achou bem mais difícil se concentrar nas nhor, porque nada poderia me aborrecer
brocas aquela tarde e, quando deixou o edi- hoje! Alegre-se, porque Você-Sabe-Quem
fício às cinco horas, continuava tão preo- finalmente foi-se embora! Até trouxas como
cupado que deu um encontrão em alguém o senhor deviam estar comemorando um dia
parado ali à porta. tão feliz!
– Desculpe – murmurou, quando o velhi- E o velho abraçou o Sr. Dursley pela cin-
nho cambaleou e quase caiu. Levou alguns tura e se afastou.
segundos até o Sr. Dursley perceber que o O Sr. Dursley ficou pregado no chão. Fora
homem estava usando uma capa roxa. Não abraçado por um completo estranho. E tam-
parecia nada aborrecido por ter sido quase bém achava que fora chamado de trouxa,
jogado ao chão. Ao contrário, seu rosto se o que quer que isso quisesse dizer. Estava
abriu em um largo sorriso e ele disse numa abalado. Correu para o carro e partiu para
voz esganiçada que fez os passantes olharem: casa, esperando que estivesse imaginando

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o Sr. Dursley. Continuava decidido a não


comentar nada com a esposa.
A Sra. Dursley tivera um dia normal e
agradável. Contou-lhe durante o jantar os
problemas da senhora do lado com a filha
e ainda que Duda aprendera uma palavra
nova (“Nunca”). O Sr. Dursley tentou agir
normalmente. Depois que Duda foi se dei-
tar, ele chegou à sala em tempo de ouvir
o último noticiário noturno.
“E, por último, os observadores de pássa-
ros em toda parte registraram que as coru-
jas do país se comportaram de forma muito
estranha hoje. Embora elas normalmente
cacem à noite e raramente apareçam à luz do
dia, centenas desses pássaros foram vistos
hoje voando em todas as direções desde o
alvorecer. Os especialistas não sabem expli-
car por que as corujas de repente mudaram
o seu padrão de sono.” O locutor se permitiu
um sorriso. “Muito misterioso. E agora, com
Jorge Mendes, o nosso boletim meteoroló-
coisas, o que nunca esperara que fizesse, gico. Vai haver mais tempestades de corujas
porque não aprovava a imaginação. hoje à noite, Jorge?”
Quando entrou no estacionamento do “Bom, Eduardo”, disse o meteorologista,
número quatro, a primeira coisa que viu – e “não sei lhe dizer, mas não foram só as coru-
isso não melhorou o seu estado de espírito – jas que se comportaram de modo estranho
foi o gato listrado que notara aquela manhã. hoje. Ouvintes de todo o país têm telefonado
Agora ele estava sentado no muro do jardim. para reclamar que em vez do aguaceiro que
Tinha certeza de que era o mesmo; as marcas prometi para ontem, eles têm tido chuvas
em volta dos olhos eram as mesmas. de estrelas! Talvez alguém ande festejando
– Chispa! – disse o Sr. Dursley em voz a noite das fogueiras uma semana mais cedo
alta. este ano! Mas posso prometer para hoje uma
O gato não se mexeu. Apenas lançou-lhe noite chuvosa.”
um olhar severo. Será que isto era um com- O Sr. Dursley ficou paralisado na poltro-
portamento normal para um gato?, pensou na. Estrelas cadentes em todo o país? Co-

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rujas voando durante o dia? Gente misterio- Não disse mais nenhuma palavra sobre
sa usando capas por todo lado? E um cochi- o assunto a caminho do quarto onde foram
cho, um cochicho a respeito dos Potter... se deitar. Enquanto a Sra. Dursley estava no
A Sra. Dursley entrou na sala trazendo banheiro, o Sr. Dursley foi devagarinho até a
duas xícaras de chá. Não adiantava. Teria que janela e espiou o jardim da casa. O gato con-
lhe dizer alguma coisa. Pigarreou nervoso. tinuava lá. Observava o começo da rua dos
– Hum, hum, Petúnia, querida, você não Alfeneiros como se esperasse alguma coisa.
tem tido notícias de sua irmã, ultimamente? Estaria imaginando coisas? Será que tudo
Conforme esperava, a Sra. Dursley pare- isso teria ligação com os Potter? Se tinha...
ceu chocada e aborrecida. Afinal, normal- se transpirasse que eram aparentados com
mente fingiam que ela não tinha irmã... um casal de... bem ele achava que não aguen-
– Não – respondeu ela, seca. – Por quê? taria.
– Uma notícia engraçada – murmurou o Os Dursley se deitaram. A Sra. Dursley
Sr. Dursley. – Corujas... estrelas cadentes...
adormeceu logo, mas o Sr. Dursley conti-
e vi uma porção de gente de aparência estra-
nuou acordado, pensando no que acontecera.
nha na cidade hoje...
Seu último consolo antes de adormecer foi
– E daí? – cortou a Sra. Dursley.
pensar que mesmo que os Potter estivessem
– Bem, pensei... talvez... tivesse alguma
envolvidos, não havia razão para se apro-
ligação com... sabe... o pessoal dela.
ximarem dele e da Sra. Dursley. Os Potter
A Sra. Dursley bebericou o chá com os
sabiam muito bem o que pensavam deles
lábios contraídos. O Sr. Dursley ficou em
e de gente de sua laia... Não via como ele e
dúvida se teria coragem de lhe contar que
ouvira o nome “Potter”. Decidiu que não. Petúnia poderiam se envolver com nada que
Em vez disso, falou com a voz mais displi- estivesse acontecendo. O Sr. Dursley bocejou
cente que pôde: e se virou. Isso não poderia afetá-los...
– O filho deles... teria mais ou menos Como estava enganado.
a idade do Duda agora, não? O Sr. Dursley talvez estivesse mergu-
– Suponho que sim – respondeu a Sra. lhando em um sono inquieto, mas o gato no
Dursley, ainda seca. muro lá fora não mostrava sinais de sono.
– Como é mesmo o nome dele? Ernesto, Continuava sentado imóvel como uma está-
não é? tua, os olhos fixos na esquina mais distante
– Harry. Um nome feio e vulgar, se quer da rua dos Alfeneiros. E nem sequer estre-
saber minha opinião. meceu quando uma porta de carro bateu na
– Ah, é – disse o Sr. Dursley, sentindo um rua seguinte, nem mesmo quando duas co-
aperto horrível no coração. – É, concordo rujas mergulharam do alto. Na verdade, era
com você. quase meia-noite quando o gato se mexeu.

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Um homem apareceu na esquina que o únicas luzes acesas na rua toda eram dois
gato estivera vigiando. Apareceu tão súbita e pontinhos minúsculos ao longe – os olhos do
silenciosamente que se poderia pensar que gato que o vigiava. Se alguém espiasse pela
tivesse saído do chão. O rabo do gato mexeu janela agora, até a Sra. Dursley, de olhos de
ligeiramente e seus olhos se estreitaram. contas, não conseguiria ver nada que estava
Ninguém jamais vislumbrara nada pare- acontecendo na calçada. Dumbledore tornou
cido com este homem na rua dos Alfeneiros. a guardar o “apagueiro” na capa e saiu cami-
Era alto, magro e muito velho, a julgar pelo nhando pela rua em direção ao número qua-
prateado dos seus cabelos e de sua barba, tro, onde se sentou no muro ao lado do gato.
suficientemente longos para prender no Não olhou para o bicho, mas, passado algum
cinto. Usava vestes longas, uma capa púr- tempo, dirigiu-se a ele.
pura que arrastava pelo chão e botas com – Imaginei encontrar a senhora aqui,
saltos altos e fivelas. Seus olhos azuis eram Profa. Minerva McGonagall.
claros, luminosos e cintilantes por trás dos E virou-se para sorrir para o gato, mas
óculos em meia-lua e o nariz muito compri- este desaparecera. Em vez dele, viu-se sor-
do e torto, como se o tivesse quebrado pelo rindo para uma mulher de aspecto severo
menos duas vezes. O nome dele era Alvo que usava óculos de lentes quadradas exa-
Dumbledore. tamente do formato das marcas que o gato
Alvo Dumbledore não parecia ter cons- tinha em volta dos olhos. Ela, também,
ciência de que acabara de pisar numa rua usava uma capa esmeralda. Trazia os cabelos
onde tudo, desde o seu nome às suas botas, negros presos num coque apertado. E pare-
era malvisto. Estava ocupado apalpando a cia decididamente irritada.
capa, procurando alguma coisa. Mas parecia – Como soube que era eu? – perguntou.
ter consciência de que estava sendo vigia- – Minha cara professora, nunca vi um ga-
do, porque ergueu a cabeça de repente para to se sentar tão duro.
o gato, que continuava a fitá-lo da outra – O senhor estaria duro se tivesse passa-
ponta da rua. Por algum motivo, a visão do do o dia todo sentado em um muro de pedra
gato pareceu diverti-lo. Deu uma risadinha – respondeu a Profa. Minerva.
e murmurou: “Eu devia ter imaginado.” – O dia todo? Quando podia estar come-
Encontrou o que procurava no bolso inte- morando? Devo ter passado por mais de dez
rior da capa. Parecia um isqueiro de prata. festas e banquetes a caminho daqui.
Abriu-o, ergueu-o no ar e o acendeu. O lam- A professora fungou aborrecida.
pião de rua mais próximo apagou-se com – Ah, sim, vi que todos estão comemo-
um estalido seco. Ele o acendeu de novo – rando – disse impaciente. – Era de espe-
o lampião seguinte piscou e apagou, doze rar que fossem um pouco mais cautelosos,
vezes ele acionou o “apagueiro”, até que as mas não, até os trouxas notaram que alguma

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coisa estava acontecendo. Deu no telejornal. mento pedia sorvetes de limão. – Mesmo
– Ela indicou com a cabeça a sala às escuras que Você-Sabe-Quem tenha ido embora.
dos Dursley. – Eu ouvi... bandos de coru- – Minha cara professora, com certeza
jas... estrelas cadentes... Ora, eles não são uma pessoa sensata como a senhora pode
completamente idiotas. Não podiam deixar chamá-lo pelo nome. Toda essa bobagem
de notar alguma coisa. Estrelas cadentes em de Você-Sabe-Quem, há onze anos venho
Kent, aposto que foi coisa do Dédalo Diggle. tentando convencer as pessoas a chamá-lo
pelo nome que recebeu: Voldemort. – A pro-
Ele nunca teve muito juízo.
fessora franziu o rosto, mas Dumbledore,
– Você não pode culpá-los – ponderou
que estava separando dois sorvetes de limão,
Dumbledore educadamente. – Temos tido
pareceu não reparar. – Tudo fica tão confu-
muito pouco o que comemorar nos últimos
so quando todos não param de dizer “Você-
onze anos. Sabe-Quem”. Nunca vi nenhuma razão para
– Sei disso – retrucou a professora mal- ter medo de dizer o nome de Voldemort.
humorada. – Mas não é razão para perder- – Sei que não vê – disse a professora
mos a cabeça. As pessoas estão sendo com- parecendo meio exasperada, meio admira-
pletamente descuidadas, saem às ruas em da. – Mas você é diferente. Todo o mundo
plena luz do dia, sem nem ao menos vestir sabe que é o único de quem Você-Sabe... ah,
roupas de trouxa, e espalham boatos. está bem, de quem Voldemort tem medo.
De esguelha, lançou um olhar atento a – Isto é um elogio – disse Dumbledore
Dumbledore, como se esperasse que ele dis- calmamente. – Voldemort tinha poderes que
sesse alguma coisa, mas ele continuou cala- nunca tive.
do, por isso ela recomeçou: – Só porque você é muito... bem... nobre
– Ia ser uma graça se, no próprio dia em para usá-los.
– É uma sorte estar escuro. Nunca mais
que Você-Sabe-Quem parece ter finalmen-
corei assim desde que Madame Pomfrey me
te ido embora, os trouxas descobrissem a
disse que gostava dos meus abafadores de
nossa existência. Suponho que ele realmen-
orelhas novos.
te tenha ido embora, não é, Dumbledore?
A Profa. Minerva lançou um olhar severo
– Parece que não há dúvida. Temos muito a Dumbledore e disse:
o que agradecer. Aceita um sorvete de limão? – As corujas não são nada comparadas
– Um o quê? aos boatos que correm. Sabe o que todos
– Um sorvete de limão. É uma espécie de estão dizendo? Por que ele foi embora? Que
doce dos trouxas de que sempre gostei muito. foi que finalmente o deteve?
– Não, obrigada – disse a Profa. Minerva Aparentemente a Profa. Minerva che-
com frieza, como se não achasse que o mo- gara ao ponto que estava ansiosa para dis-

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O MENINO QUE SOBREVIVEU

cutir, a verdadeira razão pela qual estivera pessoas que matou... não conseguiu matar
esperando o dia todo em cima de um muro um garotinho? É simplesmente espanto-
frio e duro, porque nem como gato nem so... de tudo que poderia detê-lo... mas, por
como mulher ela fixara antes um olhar tão Deus, como foi que Harry sobreviveu?
penetrante em Dumbledore como agora. – Só podemos imaginar – disse Dum-
Era óbvio que seja o que fosse que “todos” bledore. – Talvez nunca cheguemos a saber.
estavam dizendo, ela não iria acreditar até A Profa. Minerva pegou um lenço de
que Dumbledore confirmasse ser verdade. renda e secou com delicadeza os olhos por
Dumbledore, porém, estava escolhendo mais baixo das lentes dos óculos. Dumbledore deu
um sorvete de limão e não respondeu. uma grande fungada ao mesmo tempo que
– O que estão dizendo – continuou ela – tirava o relógio de ouro do bolso e o exami-
é que a noite passada Voldemort apareceu nava. Era um relógio muito estranho. Tinha
em Godric’s Hollow. Foi procurar os Potter. doze ponteiros mas nenhum número; em
O boato é que Lílian e Tiago Potter estão... vez deles, pequenos planetas giravam à volta.
estão... que estão... mortos. Mas devia fazer sentido para Dumbledore,
Dumbledore fez que sim com a cabeça. porque ele o repôs no bolso e disse:
A Profa. Minerva perdeu o fôlego. – Hagrid está atrasado. A propósito, foi ele
– Lílian e Tiago... Não posso acreditar... que lhe disse que eu estaria aqui, suponho.
Não quero acreditar... Ah, Alvo. – Foi. E suponho que você não vá me di-
Dumbledore estendeu a mão e deu-lhe zer por que está aqui e não em outro lugar.
um tapinha no ombro. – Vim trazer Harry para o tio e a tia. Eles
– Eu sei... eu sei... – disse deprimido. são a única família que lhe resta.
A voz da Profa. Minerva tremeu ao pros- – Você não quer dizer, você não pode
seguir: estar se referindo às pessoas que moram
– E não é só isso. Estão dizendo que ele aqui?! – exclamou a Profa. Minerva, pulan-
tentou matar o filho dos Potter, Harry. Mas... do de pé e apontando para o número quatro.
não conseguiu. Não conseguiu matar o garo- – Dumbledore, você não pode. Estive obser-
tinho. Ninguém sabe o porquê nem como, vando a família o dia todo. Você não poderia
mas estão dizendo que na hora que não pôde encontrar duas pessoas menos parecidas
matar Harry Potter, por alguma razão, o po- conosco. E têm um filho, vi-o dando chutes
der de Voldemort desapareceu, e é por isso na mãe até a rua, berrando porque queria
que ele foi embora. balas. Harry Potter vir morar aqui!
Dumbledore concordou com a cabeça, – É o melhor lugar para ele – disse
sério. Dumbledore com firmeza. – Os tios poderão
– É... é verdade? – gaguejou a professo- lhe explicar tudo quando ele for mais velho,
ra. – Depois de tudo o que ele fez... todas as escrevi-lhes uma carta.

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– Uma carta? – repetiu a professora com lua. – Isto seria o bastante para virar a ca-
a voz fraca, sentando-se novamente no beça de qualquer menino. Famoso antes
muro. – Francamente, Dumbledore, você mesmo de saber andar e falar! Famoso por
acha que pode explicar tudo isso em uma alguma coisa que ele nem vai se lembrar!
carta? Essas pessoas jamais vão entendê-lo! Você não vê que ele estará muito melhor
Ele vai ser famoso, uma lenda. Eu não me se crescer longe de tudo isso até que tenha
surpreenderia se o dia de hoje ficasse co- capacidade de compreender?
nhecido no futuro como o dia de Harry Potter. A professora abriu a boca, mudou de
Vão escrever livros sobre Harry. Todas as ideia, engoliu em seco e então disse:
crianças no nosso mundo vão conhecer o no- – É, é, você está certo, é claro. Mas como é
me dele! que o garoto vai chegar aqui, Dumbledore? –
– Exatamente – disse Dumbledore, olhan- Ela olhou para a capa dele de repente como se
do muito sério por cima dos óculos de meia- lhe ocorresse que talvez escondesse Harry ali.
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– Hagrid vai trazê-lo. samente da moto ao falar. – O jovem Sirius


– Você acha que é sensato confiar a Hagrid me emprestou. Trouxe ele, professor.
uma tarefa importante como esta? – Não teve nenhum problema?
– Eu confiaria a Hagrid minha vida – res- – Não, senhor. A casa ficou quase des-
pondeu Dumbledore. truída, mas consegui tirá-lo inteiro antes
– Não estou dizendo que ele não tenha que os trouxas invadissem o lugar. Ele dor-
o coração no lugar – concedeu a professora miu quando estávamos sobrevoando Bristol.
de má vontade –, mas você não pode fingir Dumbledore e a Profa. Minerva curva-
que ele é cuidadoso. Que tem uma tendência ram-se para o embrulho de cobertores. Den-
a... que foi isso? tro, apenas visível, havia um menino, que
Um ronco discreto quebrara o silêncio da dormia a sono solto. Sob uma mecha de
rua. Foi aumentando cada vez mais enquan- cabelos muito negros caída sobre a testa eles
to eles olhavam para cima e para baixo da viram um corte curioso, tinha a forma de
rua à procura de um sinal de farol de carro; um raio.
o ronco se transformou num trovão quando – Foi aí que...? – sussurrou a professora.
os dois olharam para o céu – e uma enor- – Foi – confirmou Dumbledore. – Ficará
me motocicleta caiu do ar e parou na rua com a cicatriz para sempre.
diante deles. – Será que você não poderia dar um jeito,
Se a motocicleta era enorme, não era Dumbledore?
nada comparada ao homem que a montava – Mesmo que pudesse, eu não o faria. As
de lado. Ele era quase duas vezes mais alto cicatrizes podem vir a ser úteis. Tenho uma
do que um homem normal e pelo menos acima do joelho esquerdo que é um mapa
cinco vezes mais largo. Parecia simplesmen- perfeito do metrô de Londres. Bem, me dê
te grande demais para existir e tão selvagem ele aqui, Hagrid, é melhor acabarmos logo
– emaranhados de barba e cabelos negros com isso.
longos e grossos escondiam a maior parte Dumbledore recebeu Harry nos braços
do seu rosto, as mãos tinham o tamanho de e virou-se para a casa dos Dursley.
uma lata de lixo e os pés calçados com botas – Será que eu podia... podia me despedir
de couro pareciam filhotes de golfinhos. Em dele, professor? – perguntou Hagrid.
seus braços imensos e musculosos ele segu- Ele curvou a enorme cabeça descabelada
rava um embrulho de cobertores. para Harry e lhe deu o que deve ter sido um
– Hagrid! – exclamou Dumbledore, pare- beijo muito áspero e peludo. Depois, sem
cendo aliviado. – Finalmente. E onde foi que aviso, Hagrid soltou um uivo como o de um
arranjou a moto? cachorro ferido.
– Pedi emprestada, Prof. Dumbledore – – Psiu! – sibilou a Profa. Minerva. – você
respondeu o gigante, desmontando cuidado- vai acordar os trouxas!

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Harry Potter E A PEDRA FILOSOFAL

– Des-des-desculpe – soluçou Hagrid, olhos da Profa. Minerva piscaram louca-


puxando um enorme lenço sujo e escon- mente e a luz cintilante que sempre brilha-
dendo a cara nele. – Mas nã-nã-não consigo va nos olhos de Dumbledore parecia ter-se
suportar, Lílian e Tiago mortos, e o coitadi- extinguido.
nho do Harry ter de viver com os trouxas... – Bem – disse Dumbledore finalmente –,
– É, é, é muito triste, mas controle-se, acabou-se. Não temos mais nada a fazer aqui.
Hagrid, ou vão nos descobrir – sussur- Já podemos nos reunir aos outros para co-
rou a professora, dando uma palmadinha memorar.
desajeitada no braço de Hagrid enquanto – É – disse Hagrid com a voz muito abafa-
Dumbledore saltava a mureta de pedra e se da. – Vou devolver a moto de Sirius. Boa-noite,
dirigia à porta da frente. Depositou Harry Profa. Minerva, Professor Dumbledore...
devagarinho no batente, tirou uma carta da Enxugando os olhos na manga da jaqueta,
capa, meteu-a entre os cobertores do meni- Hagrid montou na moto e acionou o motor
no e, em seguida, voltou para a companhia com um pontapé; com um rugido ela levan-
dos dois. Durante um minuto inteiro os três tou voo e desapareceu na noite.
ficaram parados olhando para o embrulhi- – Nos veremos em breve, espero, Profa.
nho; os ombros de Hagrid sacudiram, os Minerva – falou Dumbledore, com um aceno
O MENINO QUE SOBREVIVEU

da cabeça. A Profa. Minerva assoou o nariz mundo em que alguém esperaria que acon-
em resposta. tecessem coisas espantosas. Harry Potter vi-
Dumbledore se virou e desceu a rua. Na rou-se dentro dos cobertores sem acordar.
esquina parou e puxou o “apagueiro”. Deu Sua mãozinha agarrou a carta ao lado, mas ele
um clique e doze esferas de luz voltaram aos continuou a dormir, sem saber que era espe-
lampiões de modo que a rua dos Alfeneiros cial, sem saber que era famoso, sem saber
de repente iluminou-se com uma claridade que iria acordar dentro de poucas horas com
laranja e ele divisou o gato listrado se esqui- o grito da Sra. Dursley ao abrir a porta da
vando pela outra ponta da rua. Mal dava para frente para pôr as garrafas de leite do lado de
enxergar o embrulhinho de cobertores no fora, nem que passaria as próximas sema-
batente do número quatro. nas levando cutucadas e beliscões do primo
– Boa sorte, Harry – murmurou ele. Girou Duda... ele não podia saber que, neste mesmo
nos calcanhares e, com um movimento da instante, havia pessoas se reunindo em se-
capa, desapareceu. gredo em todo o país que erguiam os copos
Uma brisa arrepiou as cercas bem cuida- e diziam com vozes abafadas:
das da rua dos Alfeneiros, silenciosas e quie- – A Harry Potter: o menino que sobre-
tas sob o negror do céu, o último lugar do viveu!