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Simpósio Nacional de Fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos Humanos de

Crianças e adolescentes.

MULHERES, CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E


FAMILIAR.

Catarina Decome Poker

A violência doméstica caracteriza-se por agressividade e coação, que


correspondem a ataques físicos, sexuais e psicológicos, bem como à coação econômica
que adultos usam contra os seus companheiros íntimos, crianças ou adolescentes
responsáveis, praticados, sobretudo pelo marido, companheiros, pais e padrastos.
(Andrade e Fonseca, 2007). No serviço de saúde pública há altas prevalências de
entradas por motivos de violência doméstica. Os episódios são repetitivos e costumam
progressivamente se tornarem mais graves. (Andrade e Fonseca, 2007).
O problema da violência doméstica constitui uma chaga social no nosso país
com histórico de colonização, além disso, este fenômeno social acaba por abarcar
questões culturais, ideológicas, históricas e econômicas. Ao falarmos de violência,
estaremos a falar de qualquer forma de uso intencional da força, coação ou intimidação
contra terceiro ou toda a forma de ação intencional que, de algum modo, lese os direitos
e necessidades dessa pessoa entendendo o problema como uma questão de direitos
humanos com origem na própria estrutura da sociedade” (Guerrero Caviedes, 2002).
Com eles não se questiona, igualmente, o modelo de família vigente, baseado na
desigualdade de poderes e com uma forte cota de autoritarismo.
Existem registros históricos de violência como fenômeno social, desde quando o
Brasil foi colonizado, pelo projeto de escravização dos índios, com o uso de métodos
punitivos e catequização jesuítica para por meio disso forçar os índios ao trabalho.
Sendo que entre as aldeias indígenas, do período colonial, não havia o hábito de aplicar
castigos físicos ás crianças, pois havia a crença de que elas eram uma nova vida de uma
alma antiga da aldeia, cabendo á todos os membros respeitarem seus antecessores e
educa-los através das repetições das tarefas e atividades entre o grupo. Após esse
período, outro marcador social da violência é por meio da escravização da população
negra, tendo seus povos dizimados em navios negreiros até o Brasil com a sua história,
pertences, familiares e tradições apagadas.
Com a chegada do século XVIII, e o advento do pensamento iluminista, havia a
crença de que somente homens eram donos da razão. Por isso deveriam ser

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considerados sujeitos de direitos e poderiam ocupar a polis, as discussões sobre a


economia e política. Passando para a referência de família, a violência passa a ser um
marcador de poder da estrutura da sociedade moderna, com o advento da família nuclear
baseada nos ideais burgueses, no qual os papéis sociais passam a serem divididos, de
modo a predicar a condição de provedor ao homem, os cuidados da vida doméstica e
educação dos filhos á mulher (Reis, 1984). Com a vida pública sendo e o acúmulo de
renda sendo condicionado ao papel masculino, a mulher e as crianças passam a serem
vulneráveis a uma cultura que prega a escala de poder e superioridade masculina, ou
seja, o patriarcado.
Do ponto de vista ideológico, entendendo a cultura como agente transmissor de
padrões de comportamentos o patriarcado consiste na crença de superioridade masculina
em detrimento da feminina. Essa conduta pode ser identificada por meio dos discursos
que marcam as diferenças de validação da construção social da identidade da mulher e
do homem. De modo que, essas atribuições sejam consequência da ordem de gênero
socialmente estabelecida, ordem essa que “determina uma hierarquia e um poder
distintos para ambos os sexos” (idem). Esta ordem hierárquica define uma posição de
subordinação da mulher relativamente ao homem, sendo que estes exercem o poder
sobre as mulheres de diferentes formas, entre as quais a violência se revela uma das
mais graves manifestações desse poder. Para Heleieth Saffioti (2002) a violência é
naturalizada para a mulher por meio da socialização, da cultura e das hierarquias
constituídas por meio dos estereótipos de gênero.
Ainda, em relação aos marcadores históricos, na década de 60, os movimentos
feministas, cujo objetivo é a luta pela igualdade e justiça social no reconhecimento da
mulher e suas potencialidades como cidadã tem efetivamente contribuído para
denunciar e modificar a ordem social que sustenta este tipo de crenças sobre a
superioridade masculina, assim como tornar visíveis as distintas formas de VSM (física,
sexual, psicológica, patrimonial...), contribuindo para relativizar a ideia de que ela
consistiria essencialmente ou exclusivamente na violência física. A partir da década de
80, com o projeto de democratização do país, começam os estudos de gênero e a se
pensar na garantia de direitos de mulheres e crianças.
Reforça-se, assim, a ideia de que, desde o início da sua conceptualização, o
problema da VSM foi configurado a partir “de um contexto estrutural de desigualdades
sociais e económicas, por referência às diversas discriminações que afetam a situação da

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mulher e a sua posição na sociedade (pobreza, analfabetismo, discriminação laboral,


etc)”
Para a Declaração das Nações Unidas (1993), constitui violência contra as
mulheres “todo o ato de violência baseado na pertença ao sexo feminino que tenha ou
possa ter como resultado o dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico da mulher”.
A VSM assume, assim, diversas formas, incluindo a violência física, emocional e
psicológica, social e económica, sexual; a violação e o tráfico de mulheres e raparigas, a
prostituição forçada; a violência em situações de conflito armado, os homicídios por
motivos de honra, o infanticídio feminino, a mutilação genital feminina e outras práticas
e tradições prejudiciais para as mulheres. Embora, a proposta inicial desta mesa seja
abordar a violência doméstica, os atos de violência podem ser entendidos tanto no
espaço privado quando público.
Estas definições colocam claramente a VD como um dos casos particulares no
domínio mais alargado da VSM, onde vários outros fenómenos que vitimam as
mulheres estão compreendidos. De notar que nos cenários acima descritos de VSM se
encontram integrados quer crimes de natureza extraordinária e mais conjuntural (como
os vários tipos de agressões sobre as mulheres em cenário de conflito armado, por
exemplo), quer crimes que beneficiam de um suporte nas crenças e tradições
culturalmente enraizadas e que apresentam, por isso mesmo, um caráter mais estrutural,
até pela longevidade que apresentam no curso da História, como são o caso da VD e da
discriminação social ou laboral da mulher.
Do ponto de vista quantitativo, os dados são alarmantes sendo: No Brasil de
cada 100 mulheres, 15 já sofreram ou estão sofrendo algum tipo de violência; quanto a
gestantes, 4% a 25% são vítimas de violência doméstica (Bankoff et al, 2007). Segundo
a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de assassinatos chega a 4,8 para
cada 100 mil mulheres. Entre as garotas jovens, de acordo com a pesquisa realizada pelo
Instituto Avon em parceria com o Data folha três em cinco jovens brasileiras já
sofreram violência em relacionamentos.
Uma mulher morre vítima de feminicídio a cada uma hora e meia, como
apontou, em 2013, o estudo Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil, do
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ainda quanto ás questões
econômicas, o salário mensal médio recebido pelas mulheres foi 20% menor que o dos
homens ao longo de 2009, de acordo com pesquisa realizada pelo IBGE (2011).

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Comparado com outros países, o Brasil é o sétimo maior em número de homicídios de


mulheres, de acordo com o mapa da violência.
“Segundo o Conselho da Europa, a violência contra as mulheres no espaço
doméstico é a maior causa de morte e invalidez entre mulheres dos 16 aos 44 anos,
ultrapassando o cancro, acidentes de viação e até a guerra. Este dado internacional
sugere que semanalmente morrem mais de cinco mulheres por razões direta e
indiretamente relacionadas com atos de violência doméstica”.
Para além destes dados, a maior parte dos abusadores não apresenta
psicopatologia relevante nem problemas de alcoolismo ou de toxicodependência. A
ideia da psicopatologia como causa do comportamento violento está generalizada entre
cidadãos e profissionais de diferentes áreas. No entanto, estudos internacionais
demonstram que apenas 5 a 10% dos perpetradores de VD/VC terão algum tipo de
psicopatologia/perturbação mental associada. É correto dizer que o uso de álcool/drogas
pode ser, em certas ocasiões, facilitador ou desencadeador de situações de VD/VC, mas
é incorreto achar que a VD/ VC só ocorre sob efeito destas substâncias ou por causa
delas.
Saliente-se, a este respeito, que a vitimação da mulher encerra também o risco de
vitimação da criança, na medida em que estamos perante o risco acrescido de maus
tratos sobre mulheres grávidas e a possibilidade de lesões sobre o feto; perante o risco
acrescido de as crianças cujas mães são vítimas de VD serem também vítimas do
mesmo tipo de crime, praticado pelo agressor (estima-se existirem maus tratos sobre
crianças em 33 a 77% das famílias em que existem maus tratos cometidos sobre
adultos); perante o risco acrescido de mulheres vítimas de violência conjugal continuada
se tornarem agressoras dos seus filhos; e perante o facto de a exposição a um contexto
de VD ser uma forma de vitimação indireta sobre as crianças, dela resultando dano
traumático independentemente da existência de violência direta sobre a mesma
(Committee on Child Abuse and Neglect, 1998; Secretaria Sectorial de la Mujer e de la
Juventud, 2000; Sani, 2002 a,b; Manita, 2004). Este processo ocorre, porque do ponto
de vista da construção da sociedade, pensamos por meio da subordinação de idade – o
que confere a ciência ocidental uma posição adultocêntrica, vinculando em muitos
casos, a condição de ser criança ao ideal de vida selvagem (Rosemberg, 1996).
Postos esses dados não podem esquecer que, ao contrário do que é
frequentemente afirmado (ou, se calhar, frequentemente esquecido...), a VD atravessa

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todas as culturas, sociedades e classes. Vítimas e agressores são provenientes de


qualquer estrato socioeconómico – esta é uma questão política. É difícil aceitar a ideia
de que estes padrões de violência continuada possam ser exercidos por indivíduos
normais (e, contudo, são-no) e, além disso, aceitar que um indivíduo “igual a nós” pode
ser um agressor é ter de aceitar que “um de nós” [eu próprio, o/a companheiro/a,
pai/mãe, familiar, amigo/a, colega, pode, afinal, ser também um/a agressor/a].
Acresce ainda destacar que, não obstante ocorrerem fenómenos de “transmissão
intergeracional da violência”, a maioria das crianças abusadas não se torna
abusadora/agressora e apenas uma minoria dos agressores foi alguma vez vítima no
passado (Manita, 2004). A VD é resultado de um comportamento deliberado, através do
qual um agente procura controlar outro, negando-lhe a liberdade a que tem direito.

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