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Patrícia Melo

INFERNO
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M486i
Melo, Patrícia, 1962-.
Inferno [recurso eletrônico] / Patrícia Melo. – Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2011. recurso digital

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Digital Editions ISBN 978-85-64126-61-9 (recurso eletrônico)

1. Romance brasileiro. 2. Livros eletrônicos. I. Título.


11-3207 CDD-869.93 CDU-821.134.3(81)-3
Para meu pai
A descida é fácil, as portas do inferno
estão abertas dia e noite.

VIRGÍLIO
Eneida, Livro VI
1

S ol, piolhos, trambiques, gente boa, trapos, moscas, televisão, agiotas, sol,
plástico, tempestades, diversos tipos de trastes, funk, sol, lixo e escroques
infestam o local. O garoto que sobe o morro é José Luís Reis, o Reizinho. Excluindo
Reizinho, ninguém ali é José, Luís, Pedro, Antônio, Joaquim, Maria, Sebastiana. São
Giseles, Alexis, Karinas, Washingtons, Christians, Vans, Daianas, Klebers e Eltons,
nomes retirados de novelas, programas de televisão, do jet set internacional, das
revistas de cabeleireiras e de produtos importados que invadem a favela.
Subindo. Ruas de terra batida. Onze anos, o garoto, Reizinho. Pipa nas mãos. Pés
descalços. Short laranja. Uma menina acena para a câmera do cinegrafista. É comum
se deparar com uma equipe telejornalística na favela. A garota diz que sabe sambar. E
sabe. Projeta o traseiro em direção à câmera, saracoteia, sensual. Dois magricelas, na
porta do bar do Onofre, ridicularizam a garota. Chupam manga. A gorda quer rebolar,
eles dizem, olha a gorda. Gargalham. Ela os chama de seus bostas bedelhudos e
continua a serpentear. Sorri para Reizinho. Os meninos perguntam para o cinegrafista
se podem cantar um rap. Podem. A manga é atirada longe. Montes de lixo. Comecem,
diz o cinegrafista. Urubus. Cachorros. Prefiro ser uma metamorfose/ uma metamorfose
ambulante/ prefiro ser/ do que viver nessa velha opinião/ ambulante/prefiro ser/ velha
opinião formada sobre tudo/ tudo/ metamorfose ambulante sobre/ sobre o que é o
amor/ ambulante/ sobre o que eu nem sei quem sou. Isso é Raul, afirma o
cinegrafista, e Reizinho segue, apressando o passo. Durante a caminhada morro
acima, domésticas sorriem para ele, passam, crianças, gente indo para o trabalho, oi
Reizinho, pedreiros, cumprimentam, crianças, cachorros, eletricistas, oi, acenam as
mãos, latem, cadelas, babás e digitadores, cachorros, encanadores, gigolôs, porteiros,
ladrões de carros, crianças, sorriem, moças nas janelas, manobristas, assaltantes,
costureiras, sorriem, traficantes de armas, o local é tumultuado, crianças, lamentos, é
barulhento, confuso, entulhado, sujo e colorido. Reizinho passa por tudo, dando atenção
especial para os cachorros que cruzam seu caminho.
Lá do alto, veem-se muitas parabólicas e telhas Eternit. Aviões voando baixo. Lixo.
Cachorro defecando no mato. Trens. Prédios de dois andares. Orelhões, filas. O vento
está forte. Reizinho se recosta no guarda-corpo do mirante e prepara a sua pipa.
Nunca entendeu por que os garotos do Berimbau empinavam papagaio por diversão.
Qual a beleza da pipa no céu? Nenhuma. As cores apenas. Bonito era ver urubu voar.
Se fosse brincar, escolhia outra coisa, enterrava uma chave no sofá de napa verde, um
traste velho que a patroa da mãe metera na casa deles, vrummm, simulava a ignição e
transportava passageiros elegantes do Hotel Nacional, vrum, Leblon, Copacabana,
Ipanema, Barra, shoppings, compras, vrum, avenida Atlântica, praias, perfumes,
mulheres de pernas cruzadas, lábios, vrum, sedas pretas, brancas, saltos altos, e se
cerrasse os olhos e, vruuum, acelerasse, o carro entrava numa avenida vazia, e tudo
passava por ele, vrum, o branco da areia do mar, o azul, o verde, o negro do mar,
corria, o cinza do céu, corria, ele desviava dos postes que entravam na sua frente,
vrum, desviava de sua casa, vrum, da mãe, de sua cama, desviando, das surras e
noites longas, vrum, vrum, e se acelerasse mais ainda, depois de muitas curvas,
encontrava no fim de um túnel, bloqueando o caminho, um homem alto, peito de
nadador profissional, oi, sou seu pai, dizia o homem, entrando no carro. Siga. Seguiam,
amigos. Sempre imaginava o pai branco, apesar de estar farto de ver nas duas únicas
fotos que roubara da mãe o pai preto, bem preto. Bonito, o pai. Justo, correto,
honesto, o pai, preto, não no sonho. Toda vez o pai lhe explicava que era mentira o que
diziam a seu respeito, as histórias de que saíra de casa para comprar cerveja, com um
vasilhame nas mãos, e nunca mais voltara. Calúnias nojentas. Cirrose era calúnia, os
porres, as surras, as amantes, calúnias e mais calúnias. Os encontros com o pai não
ocorriam apenas quando estava no sofá, dirigindo, mas também quando rolava na
cama, insone, e, vrum, era motorista de táxi. Mas não gostava de encontrar o pai
dessa forma. Melhor era quando o pai o esperava na porta de casa. Vamos ao
McDonald’s. Vamos ao cinema. Vamos comer pipoca. Vamos conhecer a Bahia.
Vamos caçar marimbondos. Era fácil ser proprietário de uma frota de marimbondos,
seguindo as instruções do pai: capturá-los em dias chuvosos, nas poças, arrancar-lhes
os ferrões, amarrá-los em linhas e vê-los voar, escravos. Outra coisa que o pai lhe
ensinou, nos sonhos, foi usar a vassoura como microfone e repetir palavras que se
falam na televisão, déficit, rentabilidade, mercado imobiliário, empréstimos bancários,
câmbio. As pessoas na televisão, quase todas, eram muito queridas pelo Reizinho. Mas
Reizinho não estava ali nos píncaros do morro do Berimbau para brincadeiras. Era um
observador profissional. E gostava de observar, não daquela forma, do alto, o conjunto,
toda a favela, os barracos, a multidão. Gostava dos detalhes. O pé de uma senhora,
no ônibus, os calos, as unhas sujas ou limpas, compridas, pintadas, estragadas por
micoses, os dedos saindo para fora das sandálias, os calcanhares, nunca soube
explicar por que as minúcias, as deformidades e as desproporções o atraíam tanto,
mulheres muito gordas, ou muito magras, muito pretas, cabelos muito crespos, Reizinho
não conseguia tirar os olhos de determinada espécie de feiura, as dobras das obesas
mórbidas, a expressão de bonomia dos mongoloides, as celulites nas praias, os suores
nos buços, os tetraplégicos, os estropiados, todos eles capturavam o olhar de Reizinho
da mesma maneira voraginosa que a beleza da Suzana, a vizinha. Você ainda vai
apanhar na rua, dizia Carolaine, a irmã mais velha, pare de olhar, não encare as
pessoas, ela dizia, quando estavam no ônibus, na praia, ou em qualquer lugar onde
houvesse muita gente. Mais tarde, quando ficou amigo do Leitor, soube que, na França,
as pessoas aproveitam o tempo de transporte para ler. Leitor considerava o hábito de
leitura dos europeus formidável. Imaginem, ler, ler o tempo todo. No metrô. Nos cafés.
Reizinho era incapaz de compreender tal atitude. Sempre acreditou que o mais
interessante do mundo eram os homens, as mulheres. Mais atraentes que os livros e as
paisagens. As mulheres. Sentia-se sempre desorientado espacialmente porque jamais
prestava atenção nas ruas, caminhos, placas, referências. Observava apenas as
pessoas. As mulheres. Os homens. As crianças. E os cachorros. E seu trabalho era
exatamente este, olhar. Os maconheiros eram os mais fáceis de ser reconhecidos,
tranquilos, displicentes, muito diferentes dos cocainômanos, estes sim tensos e só
menos apressados que os usuários de crack e drogas mais pesadas. Neguinho viciado
tem vida difícil, explicara-lhe Miltão, o líder do tráfico no morro do Berimbau e
namorado da Suzana, a vizinha linda de morrer, neguinho rouba, dizia Miltão, neguinho
vende qualquer traste que encontra em casa e corre para cá, para aliviar, é uma
verdadeira bosta, a vida do viciado. E se o vício for heroína, muito pior. Porque
neguinho sente uma sensação deliciosa de estar descendo a montanha-russa, na
primeira vez, e, depois, neguinho se droga para não ficar tremendo e suando e
cagando na cama. Uma merda. Todo esse blá-blá-blá, dizia Miltão, é só para passar o
meu recado: não se meta com drogas, pirralho. Nunca. Se você quer ser um traficante
de verdade, fique longe do crack, da erva, do pó e de tudo gostoso que vendemos
aqui.
Não tinha a menor importância se quem subia o morro era branco, preto, viciado,
jornalista, caridosa profissional ou bacana aventureiro, a ordem era simples e clara, os
traficantes deviam saber tudo a respeito de quem entrava na favela. Desconfiem de
todo mundo, dizia Miltão, até de turista que vem em bando, em jipes fretados, pagando
para ver esgoto e pobreza. Entrou, deve ser checado. E se neguinho não disser lé com
cré, advertia, neguinho se fode comigo. Havia um código orientando a movimentação
das pipas no céu. Quando crianças como Reizinho desapareciam subitamente dos
pontos de observação e as pipas sumiam do horizonte, os traficantes sabiam
exatamente como agir.
Naquela manhã, Reizinho se acomodou no mirante e depois de duas tediosas horas
de trabalho, vigiando a entrada da favela, o movimento, as vielas, as antenas, os
telhados, as pessoas, o Vintão, da associação dos moradores, Rosa Maria, a vadia,
Dedé e Preta, as lavadeiras, os compradores, o Negão, sentado na porta de seu
barraco, vendendo cocaína, os soldados, a mãe de Suzana chegando, Suzana saindo,
Suzana, Suzana, Suzana, cada dia mais bonita, as crianças correndo, Suzana e sua
gargalhada gostosa, Reizinho sentiu um sono profundo, Suzana, gargalhada, os olhos
do garoto se fechavam contra a sua vontade. Evitando dormir, retirou do bolso um
papel, cortou-o em duas partes iguais, quadriculou-os, enumerou fileiras e colunas, e
desenhou nelas destroyers, submarinos e caça-navios. Brincou de batalha-naval,
fazendo as vezes dos dois jogadores, um era ele mesmo, o outro, seu pai. E mesmo
tendo como adversário esse homem que tanto amava apesar de não conhecer, apesar
das coisas horríveis que a mãe dizia a respeito do pai, bêbado, vagabundo, canalha,
mulherengo, Reizinho não conseguia deixar de roubar, afundando rapidamente, um a
um, todos os navios de guerra do inimigo. Fez força para roubar para o outro eu, o eu-
pai, mas logo descobriu que há um eu imperativo dentro dos nossos eus, um eu
preocupado apenas com os próprios interesses, comodista, um eu que rouba, vence e
não percebe a chegada da polícia na favela.
Pa pa rá pa pa. Quando Reizinho ouviu os tiros, já era tarde. Não adiantava mais
sinalizar. Porra. Puxou a pipa, indeciso, devia voltar para casa? Embrenhava-se no
labirinto, correndo o risco de entrar no fogo cruzado? Acabou se metendo dentro da
caixa-d’água. Mergulhou a cabeça e veio à tona. Pa rá pa pa pa rá. Porra. Reizinho
ouvira dizer que alguns olheiros sabiam reconhecer as armas de combate apenas pelos
disparos, AR-15, Uzi, M-16, HK-47, armas que chegavam a dar quinze tiros por
segundo e pelas quais se pagavam até sete mil dólares, e que além de matar,
estilhaçavam o inimigo. Mas Reizinho não entendia nada de armas. Não naquele tempo.
Mergulhou novamente, escuridão. À tona, pa pa pa rá rá, escuridão, pa pa rá pa pa pa,
tudo isso foi muito rápido, o helicóptero se foi, o pior veio depois, um silêncio longo, um
nada, nem mesmo os cachorros latiam. Água até o nariz. É a pior parte, dizia Miltão,
não há nada pior na guerra do que o silêncio. Pode ser a trégua, há uma boa chance de
ser uma trégua, dizia o traficante, mas há uma chance igual de neguinho levar um tiro
na cabeça, do nada, tuf, e morrer. Mergulho. Porra. Silêncio, silêncio, silêncio. Nada
mais aconteceu. Reizinho não conseguiu sair da caixa-d’água nem quando teve certeza
de que a polícia havia se retirado. O que diria a Miltão? Como não vira os policiais? E a
mãe? Por que você está todo molhado, José Luís? A voz fria da mãe, olhar impassível,
onde você se meteu, José Luís? E taf, tap, fale, imbecil, a mãe gostava de lhe bater na
cara, no rosto, menino, fale logo, antes que eu te arrebente, e taf, e tap, menininho
idiota, eu vou te ensinar, taf, Reizinho sabia que depois da longa sequência de tabefes
a mãe sempre se acalmava e se aboletava diante da TV, era só por isso que ela o
espancava, para poder ficar em paz e ver as novelas sossegada. Qual a importância
de ele repetir o ano escolar? Quem se importava? Já não sabia ler? Escrever? Para
que mais serviria a escola? As surras não tinham nada a ver com isso, nem com o
Miltão, embora ela desfiasse o mesmo rosário todos os dias, se você se meter com o
Miltão, eu te mato, repetira essa frase tantas vezes, mato mesmo, com tanta ênfase,
que acabou lhe dando a ideia, e Reizinho foi ter com o Miltão para pedir emprego.
Ainda hoje se lembra perfeitamente de como tudo se arranjou. Foi logo depois de uma
surra. Pegou a pipa de um amigo e esperou Miltão aparecer na casa de Suzana. E
enquanto os dois se beijavam no portão, Reizinho corria de um lado para o outro, com
a pipa na mão. Miltão nem sequer olhou. Tampouco Suzana. Então Reizinho teve uma
ideia melhor. Parou diante do casal e começou a gritar e a rasgar a pipa, picou o
quadrado em pedacinhos, quebrou as varetas, jogou tudo no chão, gritando sempre.
Miltão gostou. Riu. Garoto maluco. Quer trabalhar para mim? Foi assim. Foi ideia da
mãe, afinal. Das surras da mãe, eu te mato, eu te mato, se você se meter com esses
bandidos. Paf. Depois das sovas, Reizinho sentia como se tivesse engolido um ovo de
tristeza, um ovo que entalava no esôfago, entre a garganta e o peito, taf, bate, ele
pensava, bate, pode bater, com o tempo o ovo se quebrou, tap, e Reizinho passou a
não sentir mais nada, nunca mais, tap, era só carne sendo socada, bate, ele pensava,
pode bater, não dói, porra.
A pipa está aqui, disseram. Uma voz familiar. Reizinho afundou a cabeça na água e
imediatamente foi içado pelos cabelos. Oi, sortudo, disse Bem Bolado, vamos nadar?
Bem Bolado tinha esse apelido porque sempre se encantava com equipamentos
eletrônicos, qualquer porcariazinha que apitasse ou acendesse era “bem bolado”,
liquidificador bem bolado, relógio bem bolado, revólver bem bolado, e logo Miltão
começou a chamá-lo de Negão Bem Bolado. Bem Bolado deu tantos caldos em
Reizinho, que o garoto desmaiou.
Quando acordou estava num quarto abafado, sem janela, um pôster do time do
Vasco da Gama pregado na parede. Os outros olheiros também estavam lá, Vavá,
Loriva, Bisnaga Velha e Luizão, todos sentados no chão, com suas roupas rotas e seus
olhões assustados. Vasco da Gama. Se um dia conhecesse o pai de verdade, ia
convidá-lo para assistir a um jogo do Vasco da Gama contra o Flamengo. A televisão
ligada. Jaú e Bem Bolado com os olhos pregados na tela. Novela. Gabi é uma bandida,
diziam os atores, ela é capaz de tudo. Como Gabi descobriu o segredo do cofre? Ela é
uma canalha. Estou com medo da Gabi, Ângela. Um capítulo inteiro dizendo isso, que
Gabi era uma bandida. Porra. Reizinho fechou os olhos, sua mãe também devia estar
assistindo à novela. Em todas as casas do morro, a televisão ligada, as vozes das
atrizes, músicas românticas, e depois os comerciais, compre isso, compre aquilo, as
músicas, os bumbuns, as cervejas, as promoções, os telejornais, as desgraças,
Reizinho sentiu um certo alívio com aquele som familiar, o áudio da TV sempre lhe dava
uma sensação de paz e família. Acordou, o neném?, perguntou-lhe Bem Bolado.
Miltão entrou, durante os comerciais. Desliga a TV, disse para o Jaú. Babacas, ele
falou, olhando para os meninos. Babacas cagões. Perdemos o Melão por causa de
cinco bostas fedidos babacas cagões. Tenho cinco bostas fedidos babacas cagões de
merda putos imbecis trabalhando para mim. Cinco bostas fedidos e cegos. Imbecis.
Venha aqui, ô otário. Imbecil. Só matando. Cagão. Você primeiro, Reizinho. Os outros
fazem fila. E eu achando que neguinho tinha futuro, você mesmo, Reizinho, pensei que
neguinho conectava lé com cré. Ele sempre dizia isso, o Miltão. Lé com cré. Babacas.
Vem cá, babaca. Reizinho se aproximou. Miltão tirou um revólver da cintura, encostou o
cano da arma na palma da mão do garoto e detonou.
2

P avão Pavãozinho, metralhadoras, escopetas e granadas, trinta homens. Ladeira


dos Abacates, quarenta homens, fuzis AR-15 e HK-47. Morro da Maria Penha,
líder Creudão, cinquenta homens, armamento importado. Morro da Baiana, noventa
homens, pistolas, escopetas, líder Feinho. Salvação e Tucano, dois morros, oitenta
homens, fuzis automáticos, líder Zé Boléu. Rato Molhado e Jacarezinho, cento e vinte
homens. Reizinho, na casa de Bidê, o secretário-geral da boca de fumo do morro do
Berimbau, aguardava ser atendido. Gostava de memorizar os nomes das favelas, com
seus líderes e suas armas e seus exércitos, andava sempre com um mapa do tráfico
no bolso, retirado de uma revista que a mãe trouxera da casa da patroa. Guerra no
Rio, era a manchete da capa, escrita com letras vermelhas imitando gotas de sangue.
A cidade em chamas. Tiroteios. Tanques militares. Fotos de meninos com o rosto
coberto por camisetas, e armas. Porra. Eles adoravam aquele tipo de foto, os
jornalistas. Já vira um fotógrafo pedir para um garoto do Miltão fazer pose, levanta a
arma, dissera o fotógrafo. Pistola calibre 9 mm. Reizinho sentado, as pernas
balançando, memorizando, Complexo do Alemão, catorze favelas. Líder? Sentia
dificuldade para decorar nomes. Dificuldade para ler. Complexo do Acari. Porra.
Números. Morro do Juramento.
Bidê falava no telefone, pés sobre a mesa, calção, sem camisa, ventilador ligado
bem diante de seu rosto, ri ri ri, sua risada soava artificial, ri ri, querem subir o morro,
é?, ele perguntou, sem demonstrar preocupação. Querem? Invadir é mole, ri ri ri, é fácil
descer o cacete, chutar porta de mané e prender cidadão, coisa de neném, ri ri ri, o
problema é depois, ri ri ri, essa é a questão, ri ri, vão querer? Sabe como é, meu nego,
isto aqui não tem saída. Dar o fora daqui é coisa para especialista. Ri ri ri. Rocinha,
Reizinho decorando, fuzis, ri ri ri, a risada de Bidê desviava a atenção do garoto, será
que esses caras não aprendem?, perguntou o secretário da boca. Uma risada feia,
esburacada. Quebrada. As pessoas não deviam rir tanto. Ele, Reizinho, não ria à toa.
Não ria. Porra. Não gostava de rir. Ri ri. Sobre a mesa uma submetralhadora Uzi
israelense, Bidê acariciava a arma, como se ela fosse uma gata. Vão levar, afirmou
Bidê no telefone, vão levar bala, meu nego, ri ri ri, bala. Merrrmo. Meu nego. Ponte do
fundo, decorando, volume de vendas cinquenta e oito quilos por mês. Ri ri.
Uma mocinha entrou, segurando uma sacola, Bidê fez sinal para que esperasse. Ri ri
ri. Ponte do fundo, cinquenta e oito quilos, chefe Denão, principais armas? Na favela,
todo mundo carrega uma sacola, pensou Reizinho. Os pontos de ônibus ficam cheios
de sacolas. E caminhar dentro dos ônibus, pior ainda, sacolas por toda parte, sacolas
de supermercados, de butiques grã-finas da Zona Sul, de lojas de equipamentos
eletrônicos, importadas, todos os tipos de sacola. Pobre não joga sacola fora. Casa
azul, falou Bidê, conta mais, nego, você está falando de onde, é seguro? Sei, nego.
Casa azul. Eles vão ver o que é casa de porta azul, nego.
A mocinha esperando, a sacola apoiada nos pés, sandálias de plástico. Reizinho
demorou para ver os hematomas no rosto da mulher. Muito mais barato, estava escrito
na sacola. O olho inchado, um corte na altura da sobrancelha.
Bidê desligou o telefone e sorriu. Ri ri. Pode falar, dona. Rapidamente, a moça
despejou todo o seu sofrimento no secretário, disse que não suportava mais aquela
situação, que o marido, o Waldeci, o Waldeci tinha passado dos limites. Waldeci
sempre batia nela quando bebia, mas nunca na frente das crianças, Waldeci era um
bom pai, ERA, ela falou, não é mais, desde que perdeu o emprego Waldeci parece um
cachorro louco, o Waldeci enxuga como uma esponja, e depois me bate, agora até na
frente das crianças, está vendo este roxo aqui? É Waldeci. Aqui? Waldeci. Na perna?
Tudo Waldeci. Ela não se importava que o marido quebrasse a casa, estava
acostumada, que quebre, o infeliz, que arrebente tudo, mas destruir os discos do
Roberto Carlos? A única coisa que eu tenho na vida são as músicas do Roberto.
Reizinho se sentiu mal por estar ali ouvindo as tragédias da moça, fixou os olhos no
papel que trazia nas mãos, morro do Dendê, ouviu Bidê orientá-la, Cidade de Deus, que
ela fosse embora, Nova Holanda, Para-Pedro, que não comentasse nada com o
marido, morro do Andaraí, eu garanto, disse Bidê, você não apanha mais.
Quando ficaram a sós, Bidê perguntou se Reizinho estava melhor, referindo-se ao
ferimento na mão, ainda enfaixada. Ri ri ri. Reizinho respondeu que sim. Isto aqui
parece hospital, ele disse. Ri ri. Toc toc toc, Bidê bateu com o nó do dedo na parede,
logo em seguida entrou Bidezinho, irmão de Bidê, ri ri ri, falei com o meganha, disse
Bidê, ri ri ri, Bidezinho escutou o que o irmão dizia, algum bostinha havia telefonado
para a polícia informando que uma casa de porta azul na favela receberia uma grande
carga de cocaína, riram, os dois, ri ri, risadas idênticas, ligaram, é? Casa azul? Diziam
que Bidê e Bidezinho eram gêmeos, mas Reizinho não conseguia ver semelhanças, só
as risadas eram iguais, ri ri ri, traga o salário do menino. E, num minuto, as notas
apareceram na mesa, está aqui, pode ir, e fica esperto. Ri ri ri. O telefone tocou, alô,
fala aí, Miltão, tem merda rolando na sexta.
Reizinho pegou as quatro notas de cinquenta e saiu. Sol forte. Era seu primeiro
salário. Rosa Maria, a vadia, passou por ele, oi, amor. Ela chamava todo mundo de
“meu amor”. Rebolando morro acima, Rosa Maria, saia justa, quadris largos. Quatro
notas de cinquenta nas mãos. O salário da mãe eram seis notas de cinquenta. Um
trabalho muito pior. A Alzira é uma burra, ele ouvira a patroa da mãe dizer, quando era
ainda muito pequeno e uma febre alta obrigara Alzira a levá-lo consigo para o trabalho.
Eu ensino, dizia dona Juliana para alguém na sala, uma amiga, que ouvia e se divertia,
eu ensino, mas não adianta, Alzira é a pessoa mais burra que já vi na minha vida, peça
para ela repetir a palavra “brócolis”. Peça para ela pôr uma mesa, veja o que ela faz
com os talheres. Aspargo é isparjo. Vou comprar isparjo, dona Juliana. E rúcula? Risos.
Isparjo é ótimo. Risos. Rúcula é rucum. Se dependo dessa infeliz, estou morta. Isparjo.
Uma burra completa. É bronca, é sonsa, é lerda, essa Alzira. Tanta humilhação por
apenas seis notas de cinquenta. Pensar em fatos como aquele acabava com o coração
de Reizinho. Porra. Reaja, Alzira. A mãe entrou na sala de dona Juliana e deu o troco,
a senhora acha que sou burra? Pois eu penso que a senhora é gorda e inútil, só
comendo rosquinha e tomando adoçante, se entupindo de chocolate e traindo o marido,
eu escuto as bobagens que a senhora diz no telefone, dona Juliana, sempre de
risadinhas com o seu Fernando, o professor de ginástica, sei bem dos encontros, e taf,
esse tabefe é para a senhora aprender a tratar bem os seres humanos. Essa foi a
atitude da mãe. A do sonho. Na realidade, a mãe não reagiu. Cravou os olhos na pia,
cheia de louça suja, e ouviu dona Juliana rir dela, uma “troncha”, uma “mocoronga”,
“párvoa” e outros adjetivos semelhantes. Talvez fosse por isso que o pai de Reizinho
abandonara a família. O pai era esperto. Inteligente. Duro. Gerente. Correto.
Comerciante. Impunha respeito. Há certos limites para tudo, ele dizia, nos sonhos. Na
verdade não fora exatamente no sonho, Reizinho vira na televisão um homem falando
de maneira enérgica, basta, há limites, há limites para tudo. E seu pai passou a dizer
daquela forma, nos sonhos. Basta. Chega. Limites. Para tudo. Quando o assunto era
humilhação, a mãe não respeitava nenhum limite. Descia até o inferno pelas seis notas
de cinquenta.
Dona Juliana era um tipo de mulher que Reizinho via muito no Leblon, e também nos
carros, nos faróis, dirigindo Monzas e Toyotas e Blazers e Suzukis, nem gordas, nem
magras, um tipo inflado, que sai pelas calças, transbordante, mulheres que fazem muita
dieta e ginástica, usam franjas e mechas no cabelo, pintam as unhas de dourado, são
mães zelosas e gritam com Alziras quando estão mal-humoradas. Reizinho, da sua
cama, separada por uma chapa de madeira compensada da cama de casal, onde a
mãe dormia com a irmã, ouvia as duas conversarem. Noites abafadas, chuvas. A voz
da mãe, segredando, lamuriante, não suporto, não aguento mais, minha filha, os gritos
na minha cabeça. Só porque eu manchei. Quebrei. Queimei. Estraguei. Não dei o
recado. Só porque eu esqueci. Só porque não sei. Seis notas de cinquenta. Os filhos
de dona Juliana, dois adolescentes. O menino era bom, o Otavinho. Quieto, entrava e
saía de casa sem ninguém perceber. A menina igualzinha à mãe, inflada e gritadora.
Marcelinha. Outra franja. Ai, ai. José Luís, descendo o morro, mãos nos bolsos, céu
azul, sentia nos dedos a textura das notas que levava consigo. Muito bom. Porra.
Crianças, cachorros. Bar do Onofre, samba no rádio. Ai, ai. O templo evangélico,
portas fechadas para sempre. Miltão expulsara o pastor. Neguinho meteu medo no
“meu cidadão”, neguinho se fodeu, explicara o traficante. Aqui, Deus tem que dar
desconto, e padre não pode pegar pesado. Temos negócios no morro. Trabalhamos e
ganhamos dinheiro. Essa coisa de pecado não pode me dar prejuízo, dizia Miltão.
Descendo, Reizinho. E pensando em muitas coisas. Dona Juliana gritando, como a mãe
suportava aquilo? Não adianta, meu bem, já ensinei essa mulher a fazer risoto de
bacalhau, salmão com alecrim, pato com laranja, mas ela cozinha como um macaco, o
que você quer que eu faça? Ai, ai. A mãe sempre chorando pelas humilhações que
sofria, reclamando para a Carolaine. E Reizinho ouvindo. Descendo. Aquelas coisas
faziam muito mal para o menino. Descontentamento. Vontade de deitar e dormir. Oi,
Reizinho, as pessoas gostavam dele, principalmente as senhoras que pediam favores,
pode carregar esta sacola para mim? Avisa o Créo que o caminhão do gás chegou.
Compre um maço de Hollywood sem filtro. Créo, o caminhão do gás chegou. Sem filtro,
por favor. Reizinho não tinha muito jeito para dizer não, fazia os favores enquanto
descia o morro, isso não lhe custava nada. Menino de ouro, diziam para sua mãe. Tão
bom, o José Luís.
No ponto de ônibus, tirou as notas do bolso, olhou, guardou. Um tênis novo, iria
comprar. Sempre quisera ter um tênis do tipo lasanha, andar e sentir o puf, puf, a
maciez. E se entregasse o salário para a mãe? Não. E também queria um boné escrito
Nike, preto. A mãe poderia trocar a TV. Ou comprar uma máquina de lavar. Quanto
custava uma máquina de lavar? Não. Quando estava entrando no ônibus, viu Suzana
chegar, de táxi. Ela sorriu, acenando, automática, como sempre, Suzana automática.
Reizinho achou bom que ela não esperasse um sorriso seu de volta, não sabia sorrir
daquela forma, oi, ficava sem graça, tchau.
No ônibus, não quis observar ninguém. Quatro notas, no bolso, sentia o contato
delas, crocantes, papel novo. Muito diferente do dinheiro de Alzira, dinheiro ensebado,
embolado. A mãe ganhara uma carteira de Suzana, no Natal, mas não deixara de lado
o costume de socar as notas nas mãos úmidas, notas aveludadas, fedidas. Reizinho
não gostava daquilo. Compraria uma camiseta colorida.
A cidade pela janela, indústrias, conjuntos habitacionais, depósitos, empresas,
terrenos, garagens, depósitos, demorou para aparecerem os prédios, prédios, prédios,
lojas, e o mar, mar, mar, muita gente correndo, bicicleta, patins, caminhadas, sorvete,
água de coco e saúde, Reizinho desceu no Leblon. Quatro notas. Parou em frente ao
prédio em que a mãe trabalhava, na General Artigas, olhou o porteiro. Nunca iria ser
porteiro. Vida besta. Sentados com a boca escancarada cheia de dentes, Raul estava
certo. Quem via Miltão andar pelo morro do Berimbau, sabia a diferença. E mesmo o
Bidê. Ri ri ri. Carros e relógios importados, mulheres, pulseiras de ouro, isso era bom,
mas não o melhor. Melhor era o jeito do Miltão. Havia de tudo dentro do barraco dele,
fale qualquer coisa, ouro, vídeo, dólares, tapetes importados, qualquer coisa, garantia-
lhe Suzana. Mas o que impressionava Reizinho era a maneira como Miltão olhava para
as pessoas. Bostejante. Eu mando. Eu faço. Eu sou. Dona Juliana ia ver só uma coisa,
no Berimbau.
Reizinho caminhou pelo calçadão, pensou em comprar um Chica Bon, desistiu. O
tênis. Desistiu. O boné. Desistiu. Andou para lá e para cá, não comprou nada, foi até o
calçadão, tanta gente na praia. Garotos jogando vôlei, um punhado de babás
conversando, bebês, vento agradável. O Rio de Janeiro era uma cidade bonita de
verdade.
Deitou na areia, o céu, mãos nos bolsos, bonita de verdade, segurando as notas de
cinquenta. Bem firme. E dormiu. Acordou atordoado, os carros, as motos, as pessoas
voltando para casa. Estava com fome, coisa rara. Nunca sentia fome.
Em casa, encontrou a mãe na beira do fogão. Estou fazendo feijão, ela disse,
sorrindo. Onde você estava? Tão triste, a mãe. Na vó. Feijão. Deitou na sua cama, a vó
está boa? Sentiu que ia dormir. A vó estava muito boa. Com esforço, levantou, pôs as
notas de cinquenta embaixo do travesseiro de Alzira. Voltou para a cama, queria
dormir.
3

T elevisão ligada. Água correndo pelo ralo da pia, louça suja, copos, as mãos
molhadas. Alzira estava sempre com as mãos úmidas. Não havia tempo para
enxugá-las. Secava, varria, molhava no balde, secava e lavava, pia, bidê, água, faxina,
as roupas para lavar, louças, secar e molhar, em casa, no trabalho, a mão sempre
mergulhada na água. Panela no fogo. As pontas dos dedos rugosas, avermelhadas.
Comprara um creme na farmácia, dinheiro gasto à toa, concluíra depois, a mão
continuava grossa, vermelha, mão cozida em água fria. Lavar a roupa, pendurar, havia
muitas coisas que Alzira queria fazer antes de se deitar. Ordem era muito importante.
Limpeza, sempre fora muito asseada. Arrumação. O lixo, que ficasse lá fora. Na rua.
Tirou a panela de pressão do fogo e a botou embaixo da torneira. Pfffffffff. Não tenho
dinheiro, dizia, mas sou limpa. Feijão bonito, cheiroso. Casa arrumada. Mão cozida.
Inchada. A pele do dorso das mãos era fina, como a de um bebê, mas a da palma
parecia um plástico velho. Jogou óleo na panela, alho picado, cebola em rodelas, folhas
de louro, refogou o feijão. Carolaine não sabia cozinhar. Ainda bem. Não seria
doméstica, Carolaine. Nem esposa de vagabundo. Trabalharia em escritório. Dr.
Rodrigo lhe arranjara um curso de computação. Grátis. Roupas sujas, levou todas para
o tanque. Carolaine, ensino fundamental completo, mais um curso de computação, a
menina era só motivo de orgulho, Alzira até amolecia a voz para falar com a filha, um
erro, na verdade, amolecer, devia ser mais dura com Carolaine, dizer-lhe que parasse
com aquela história de quero-ser-modelo. Menina boba. Todas as moças da favela
queriam ser loiras, modelos, apresentadoras de televisão. Sabe como são escolhidas
as apresentadoras de programas infantis, Carolaine? Pela bunda, minha filha. Esfregou
as roupas, bateu, torceu. Agora me diga, é certo isso, ser escolhida pela bunda, e não
pela capacidade? E mais, que Carolaine soubesse de uma vez por todas, Carolaine
não seria modelo. Conhecia a vida, as coisas simplesmente não acontecem para nós,
dizia. Foi até o portão, nunca vingavam, coisas boas, Carolaine não havia chegado do
curso de computação. Coisas ruins aconteciam a toda hora. Meninas estupradas.
Meninas grávidas. Meninas que se envolviam com os traficantes. A pior coisa do mundo
era ter uma moça em casa. Virgem. Varreu a sala, o banheiro. Um inferno, ser mulher.
Os homens, bando de animais. Pegou balde e rodo, passou pano úmido no chão.
Gostava daquele cheiro de limpeza. Catorze anos, se engravidar, dissera, rua. Pó que
não acabava mais. Não crio filho de ninguém. Rua mesmo. Quando não chove, mais pó
ainda. Ruas de terra. Faço tudo por você, Carolaine, arranjo curso de computação,
grátis, vou dar um jeito de comprar um computador, faço tudo, computador, espere,
você vai ter um, mas se engravidar, eu juro. Atravessou o quintal e entrou no banheiro.
Juro que me mato, se você engravidar. Pare, mãe, de falar assim, Carolaine
reclamava, pare de dizer que vou engravidar, mas eu me mato mesmo, afirmava Alzira.
Juro. E cobrava. Dava ordens. Que eles estudassem. Que não fizessem bobagem.
José Luís devia acabar a quarta série, pelo menos. Melhor não ter filhos, nunca. Só se
casasse com um homem bom. Ela se arrependia, sim. Amava os filhos, sim, mas não
era bom ter filhos. Melhor não ter. Nove e quinze. A aula de Carolaine terminava às
sete, dez minutos para chegar até o ponto, sete e dez, mais quarenta minutos no
ônibus, dez para as oito, meia hora de espera no ponto, oito e vinte, as contas sempre
deixavam Alzira aflita.
José Luís, a sua irmã está demorando, ela falou para o menino, que dormia de
roupa, o travesseiro sobre a cabeça. Nem se mexeu, o garoto. Sujo, não tomou banho,
menino largado. Você não quer comer, José Luís? Fiz feijão. Reizinho se virou para o
outro lado. Nem tirara os chinelos.
Carolaine chegou dez e quinze. Sabe que horas são? A menina beijou a mãe,
esparramou-se no sofá, dez e quinze, mãe, arrancou os sapatos, mãe, não vamos
brigar. Era fácil dobrar Alzira. O curso acabara tarde porque o professor repusera uma
aula. Estamos aprendendo a trabalhar com o Word. Sistema operacional. DOS.
Windows. Alzira gostava de ouvir essas palavras. É janela, em inglês, mãe, não adianta
explicar, a senhora não vai entender.
Comeram feijão em prato fundo, com colher, sentadas no sofá de napa verde, ao
lado da pia. Descalças, as duas. Carolaine fez limonada.
Depois do jantar, Alzira foi estender a roupa no varal da cerca, atrás da casa. Vento
bom, fresco. Tomara que não chovesse. Sempre pensava em estender uma esteira e
dormir ali, no calor. Nunca dormira. Jamais fazia as coisas que lhe agradavam. Tudo
devia ser planejado com antecedência, ordem, organização, e Alzira não conseguia
programar o lazer, ir à praia ou dormir no quintal numa noite de verão. Impossível. É
temperamento, pensava. Meu gênio é esse. No domingo, acordara atrasada, teria que
pegar ônibus, trabalhar e limpar toda a prata da dona Juliana, já havia saltado da cama,
aflita, quando se lembrou que era domingo. Não estava atrasada. Poderia ficar na
cama, dormir até mais tarde. Passar um café, tomar sem pressa, no sofá, ao lado da
filha. Ir à praia talvez. Poderia ficar no portão, jogando conversa fora com a mãe da
Suzana, a Dircinha. Foi à praia? Não. Ouviu rádio? Não. Trabalhou, fez faxina, passou
pano e lavou roupa o dia inteiro. Não conseguia ficar à toa. Sentia-se mal. Estava
sempre com um pano na mão, limpando. Temperamento.
Roupa estendida, louça lavada, casa limpa, feijão pronto para o outro dia, tudo certo.
Alzira tirou o vestido verde, botou uma camiseta limpa, escovou os dentes, no banheiro
lá fora, e se meteu na cama. Carolaine já estava dormindo. Sentiu cheiro de cigarro no
cabelo da menina e a cutucou. Carolaine, você está fumando? Mãe, para. Se estivesse
fumando, melhor confessar. Você não minta, Carolaine. Tá, mãe, chega. Não vou
alimentar vícios. Tá, mãe. Lembrou do Francisco, vício. Francisco desgraçado. Toda
vez que pensava nele, embora isso ocorresse com menor frequência nos últimos
tempos, ficava a murmurar, desgraçado, cretino, cafajeste. No início, era pior, filho da
puta, pensava. Não conseguia evitar os palavrões quando a imagem do marido lhe
vinha à mente. Os xingamentos brotavam na sua língua, como flores na primavera.
Agora era diferente. Nem havia mais ódio. Ódio seca, com o tempo, concluiu Alzira.
Durou três anos, a raiva. Depois apodreceu. Virou um nada. Filho da puta. Morreria
logo, por certo. Tomara mesmo que morresse logo. Ele e seu fígado podre. Que Deus
a desculpasse por desejar a morte de alguém. Que morresse duas vezes. Meu Deus,
tenho muita pena de ter pecado. Perdão. Três padres-nossos. Três ave-marias. Três
atos de contrição. Amém. O cansaço só chegava naquele momento. Dizia amém, e a
fadiga caía sobre ela, como um prédio que vira desmoronar no verão anterior, chovia
tanto, ploft, fez o prédio, de cima para baixo, o peso todo sobre Alzira, o cansaço,
todos os tijolos. As pernas doíam. Os braços latejavam. A cabeça pesada. Amanhã:
pagar a conta de luz. Pediria vale, amanhã. Amanhã, começaria pelos vidros da sala, a
dona Juliana dissera que estavam imundos, os vidros, há quantos meses, Alzira, você
não limpa essas janelas? Você é assim, Alzira, se não falo, vá limpar, você não limpa,
não tem iniciativa, use a cabeça, Alzira. Limpe. No início, Alzira ficava magoada com as
coisas que dona Juliana lhe dizia. Com álcool. Depois aprendeu. Esfregue bem. Dona
Juliana era daquele jeito mesmo. Desinfete, Alzira. Era a técnica da dona Juliana.
Maltratava os empregados e depois se arrependia. Quer experimentar, Alzira, esse
chocolatinho? Saia mais cedo hoje, Alzira. O que seria de mim sem você, Alzira?
Alzirinha, cheguei. Virou-se de bruços, na cama, rindo, Alzirinha, e foi então que sentiu.
Parecia dinheiro, pelo tato. Acendeu a luz. Era dinheiro. Quatro notas. Novas. Cutucou
Carolaine, foi você, Carolaine, que colocou este dinheiro aqui? Hã, resmungou a
menina, sonolenta. Hã? Este dinheiro, foi você? Hã, mãe, não, hã, que dinheiro?, mãe,
me deixa dormir.
Reizinho no campo aberto, sol, sentado na areia, via no horizonte uma tropa de
cavalos, fardas coloridas, a tropa caminhava em sua direção. Espadas. Há uma guerra
aqui, alguém havia lhe dito, e nós estamos perdendo. Temos cavalos, tanques,
soldados, bombas, e vamos perder. Reizinho não sabia onde estavam os vencedores,
apenas ouvia as vozes. Eles, os vencedores. Fardas, botões dourados, a tropa se
aproximando, a tropa inimiga, trotes, na areia, onde estão meus soldados? A tropa se
aproximava. Mais perto. O barulho dos cavalos. Vão me matar. Vão atirar. A guerra.
Cascos na areia. Sol. A voz da mãe, acorde, acorde, arrancou-o bruscamente do
sonho. Cascos. Sentou-se na cama, ainda sem entender o que ela queria. Havia
cavalos, ainda. O dinheiro. Quero saber deste dinheiro, ela disse, a mãe, este dinheiro
estava embaixo do meu travesseiro. Sonhei com cavalos, pensou o garoto. De quem é
este dinheiro? Onde você arranjou? É para a senhora, ele respondeu. Quem te deu?
Reizinho demorou para responder, precisou de alguns segundos para pensar, estou
trabalhando, ele disse. Talvez fosse uma boa ideia sugerir que a mãe comprasse uma
máquina de lavar ou um ferro de passar roupa, mas não disse nada. Para quem? Você
está trabalhando para quem? Reizinho viu nos olhos de Alzira. Porra. A mãe, antes de
surrá-lo, avisava pelos olhos. Para quem você está trabalhando, menino? Ele não
respondeu. Alzira pegou a mão do filho e arrancou a faixa de gaze encardida que
envolvia o ferimento. Você está metido com esses bandidos, José Luís? Observou a
ferida, eu sabia, ela disse. Eu sabia. Responda. Com esses traficantes? Eu me
matando para você ir na escola, garoto. Alzira havia prometido que não bateria mais no
filho, prometera para si mesma, mas aquilo era de matar, incontrolável, a mão se
levantou, com força, ninguém poderia detê-la, menino sonso, nem ela mesma, a dona
da mão, a mão ia sozinha, sabia o caminho, menino burro, e bateu, fala, menino, nem
precisava falar, e era bom que não falasse, agora, burrice não tem perdão, que
apanhasse, bater na cabeça, na bochecha, nem ia mais na escola, o burro, Miltão e
todos aqueles cafajestes que morriam aos vinte anos, taf, sentia uma vontade feroz de
machucar o menino, espancar, e batia, idiota, batia, e ele não reclamava, não dói? Tem
que apanhar para aprender.
Quando saiu de casa, com o dinheiro na mão, o garoto estava caído no chão, com
Carolaine chorando sobre ele.
Caminhou apressada pelas vielas, as pernas iam, sem nenhuma hesitação. O corpo
se sentia poderoso, cheio de força, Deus esteja comigo, ela pensava, e os pés
pisavam nas pedras, buracos, poças, subindo, as vielas vazias, maconheiros sentados
nas muretas, ela conhecia o cheiro de maconha, Rosa Maria saindo de casa, saia
prateada, está boa, santa? Prostituta, isso é jeito de cumprimentar? Santa. Nem
respondeu, santa, sou honesta, pensava, saia prateada, meu Deus, não permita que
meu filho José Luís vire um bandido, não permita que ele seja um vagabundo como o
pai. Puxara o pai. Sim. Pagaria duas vezes o mesmo preço? Subia as ruelas, a boca
amarga de ódio, seu Onofre fechando o bar, tudo certo, dona Alzira? Tudo estragado,
desabando, podre, mas não devemos sair por aí falando sobre o que acontece dentro
da nossa casa. Tudo em paz, seu Onofre.
Um rapaz armado tentou evitar que ela entrasse na boca de fumo. Vendiam cocaína
para os fregueses que chegavam. Algum problema, dona Alzira? Ela disse que queria
falar com Miltão. Pode falar, ele disse. Meu assunto é com Miltão. O rapaz andou
alguns metros e a entregou para outro soldado. É mãe do Reizinho, disse.
Alzira foi levada até um barraco perto de onde morava Preta, a amiga lavadeira. Os
soldados entraram, espere aqui. Aguardou mais de quinze minutos até que Bidê viesse
ter com ela, Bidê, satisfação, vamos entrando. A senhora é mãe do menino, não é?
Reizinho. Bom menino. Alzira não quis entrar. Queria apenas falar com o Miltão. Ele
está vindo, já foi avisado.
Miltão demorou meia hora para aparecer, acompanhado por sete soldados. Vamos
entrar, disse Miltão. Alzira preferia ficar lá fora. Aqui fora não converso. Entre.
Entraram. Sentaram. Miltão, disse Alzira, olhando para as próprias mãos, conheço
tua mãe e fui amiga de igreja do teu pai. Só então Alzira percebeu que havia sangue
nos seus dedos. Peguei muito você no colo. É em nome do falecido que venho fazer o
pedido. Seu pai. Em nome de Jesus. Pôs as notas de cinquenta sobre a mesa. Aqui
está. Deixa o meu menino fora disso.
4

F ígado de boi, três reais o quilo. Rabada, quatro e vinte. Patinho, seis. Músculo,
três reais. Ponta de agulha, três e cinquenta. O açougue do Zino ficava em frente
ao ponto de ônibus, de onde era possível ver uma placa gigante, amarela e vermelha,
com o desenho de uma vaca sorridente, o corpo dividido por linhas pontilhadas, acém,
pá, cachaço, todas as partes identificadas. Ao lado, a tabela de preços. Um caminhão-
frigorífico estacionou na calçada, dois homens saltaram, abriram as portas e
começaram a retirar as peças sangrentas, levando-as a seguir para o interior do
estabelecimento.
Havia sempre muito tumulto e barulho na entrada da favela, pela avenida Epitácio
Pessoa. Os carros eram obrigados a diminuir a marcha para não atropelar a multidão,
que se acotovelava nas estreitas calçadas de pedra e na única rua pavimentada do
morro. Não era preciso andar muito para obter qualquer tipo de produto ou serviço.
Além do açougue, havia caixa eletrônico, automecânica, várias butiques, farmácia, lojas
de material de construção, eletricistas, barracas de camelôs, academia de ginástica, a
maioria funcionando ilegalmente. Àquela hora, os ônibus descarregavam, no ponto final,
os moradores, que voltavam do trabalho.
Reizinho, sentado no banco do abrigo do ponto de ônibus, não olhava para ninguém.
Mirava, absorto, o açougue, e seu próprio colo, as carnes sangrentas, suas pernas
doloridas, braços, hematomas, não queria que notassem seu rosto inchado, os
ferimentos acima dos olhos. Ele, que sempre gostou de permanecer invisível na
multidão, para observar à vontade o que bem entendesse, era agora motivo de
curiosidade dos transeuntes. Odiava a maneira como o encaravam. Como se fosse um
furúnculo purulento, um mendigo dormindo no asfalto, um epilético tendo um ataque na
missa de domingo. Era assim que ele observava as pessoas? Indiscreto, metendo os
olhões na dor alheia? Nunca. Você e sua curiosidade, dizia Carolaine. Não. Reizinho
não era um observador vulgar, um curioso, possuía técnica, habilidade, sabia se fingir
de besta quando percebia que estava incomodando. Nessas situações, o garoto fixava
o olhar no além, como um idiota ou um pensador, e se concentrava na visão franjal,
registrando tudo. Você precisa aprender a lidar com a mãe, dissera Carolaine, depois
da surra. Corra quando ela for te bater. Corra. Por que você não corre? Não tem
pernas? O problema era que suas pernas simplesmente não funcionavam. Corra.
Atolavam-se no chão, empedradas. Fuja da mãe. Vou embora, dissera Reizinho. Porra.
Sentia-se paralisado durante as surras. Você está mesmo metido com o Miltão?,
perguntara a irmã. Quero encontrar meu pai, respondera o garoto. Quer um conselho?,
insistira a garota. Não conte tudo o que você faz para a mamãe. Ela é nervosa. Invente
umas mentirinhas. Faça como eu, ela disse. Minta. Você se lembra do pai?, quis saber
José Luís. Ah, caramba, por que você não para de me perguntar sobre o nosso pai?
Nosso pai é pequeno. Fraco. Baixote. Fora decepcionante ouvir a resposta da irmã.
Porra. O pai só poderia ser alto. Muito alto. Jamais o imaginara baixo. Muito alto.
Porra. Não era possível avaliar a estatura do pai nas fotografias que José Luís roubara
de Alzira, duas fotos mixurucas, festa de aniversário, o pai atrás da mesa, atrás das
pessoas, só o rosto, sério. Na outra foto, metade do pai fora cortada no
enquadramento. Mesmo assim, Reizinho o imaginava alto, musculoso, forte como um
lutador de boxe. E onde estava o pai? Quero morar com ele. Carolaine não sabia de
nada. Qual era a profissão dele? Vagabundo, respondera Carolaine. Corra. Pequeno e
fraco. Reizinho não acreditava na irmã. Corra, fuja, fraco, quando ela for te bater.
Pequeno, o pai. Carolaine não sabia de nada. Corra, suma de casa. Desapareça.
Suzana demorou para chegar na favela. Desceu do táxi, duas sacolas nos braços.
Reizinho deixou o abrigo e se apressou para ajudá-la. Sentiu-se acanhado quando a
moça segurou seu rosto entre as mãos, bondosa, perguntando o que acontecera.
Suzana, bonita, cabelos ondulados, calças justas, de boca larga, o umbigo de fora,
tamancos vermelhos, dezoito anos. Ela e Reizinho caminharam lentamente, o que
aconteceu? Sacolas pesadas. Quando era menor, Reizinho adorava ver televisão na
casa de Suzana, sessão da tarde, comer leite condensado, na lata, de colher, no sofá,
e muitas vezes, quando o garoto estava sendo espancado, Suzana invadia a casa de
Alzira, esbaforida, arrancava o garoto da mãe, levava-o para sua casa. A sua mãe, ela
disse, putz, a sua mãe é foda. E a Carolaine? Por que não faz nada, essa menina?
Na casa de Suzana, foram direto para o banheiro. Potes e vidros no armário acima
da pia, perfumes, cremes, batons, Suzana era vaidosa. Algodão, água oxigenada.
Feche os olhos, vou limpar. Vou falar com a sua mãe pela última vez, ela disse. Ela tem
que parar de bater em você. Cadê a Carolaine? Quero que você me faça um favor,
respondeu Reizinho. Quero que me leve no Miltão. Caramba, ela falou. Você é teimoso
demais.
Reizinho já tentara falar com Miltão. De manhã, andara toda a favela atrás do
traficante. Passara na casa dele, no escritório, aguardara durante duas horas, na
praça, ao lado do telefone público, na esperança de que ele aparecesse no bar do
Onofre. Naquela tarde, as ruas estavam agitadas. Homens do Miltão por toda parte,
com armamentos pesados. Pinte a sua porta de azul, dizia a voz no alto-falante da
praça. Peguem tinta aqui. Colabore. Tudo azul. Latas e latas de tinta sendo retiradas
do bar do Onofre. Não quer levar, Reizinho?
Antes de procurar Suzana, Reizinho conversara com o Bidê. Aceita um conselho?,
dissera-lhe o secretário. Não tem Miltão, nem meio Miltão, nem mané-Miltão, te manda.
Você está fora, dissera Bidê. Ri ri ri. Desapareça.
Agora, só Suzana podia socorrê-lo. Você vai, Suzana, você vai ou não vai me ajudar?

Naquela noite, Miltão preparara uma galinhada para festejar a fuga de três
companheiros da prisão estadual. E aí, Suzana? Dezessete soldados guardavam o
acesso ao local, oi, Suzana, diziam, sorriam ao vê-la passar com Reizinho a tiracolo.
Música. Na laje descoberta da escola, obra abandonada pelo governo, as pessoas
dançavam, e aí, brother, diziam, apertando-se as mãos, chega aqui, cara.
Suzana atravessou a quadra, Reizinho atrás, um cheiro de carne infestava o local,
metralhadoras Beretta, tomavam cerveja em lata, conversavam, fuzis coreanos,
comiam galinha, e aí, brother, quer cerveja?, Reizinho prestava atenção nas armas,
sem saber ainda reconhecê-las, Uzis, HKs-47, era preciso falar alto para ser ouvido,
quer beber o quê? Quero cerveja, disse Reizinho.
Suzana o deixou sentado na mureta que circundava o local e voltou trazendo um copo
de Fanta uva, você não pode beber álcool, ela disse, volto logo, fique aqui. Havia um
clima de euforia, Reizinho suspeitava que tramavam algo, eles, os traficantes, e isso o
deixava ainda mais infeliz, não se sentia parte daquilo, fora, corra, uma sensação ruim
no peito, corra, as palavras que lhe vinham à mente eram “cocô de cachorro”,
“pequeno”, “fraco” e “merdinha”. Na verdade, nunca se sentira membro daquele grupo,
nem mesmo quando era olheiro do bando. Não andava como eles. Não usava as
armas. Nem as gírias. Porra. Não conhecia os planos, nem participava dos
treinamentos. Você está fora, dissera Bidê. Te manda. Trocou o refrigerante por uma
cerveja e voltou para a mureta, sempre acompanhando a distância a movimentação de
Suzana.
Foi naquela noite que conheceu Leitor. O rapaz se aproximou, fumando, os dedos
sujos de nicotina, querendo saber se Reizinho havia prestado atenção nas portas dos
barracos. Não, não prestara atenção. Vai ser esta noite, ele disse. Apontou os três
recém-fugidos, as estrelas da festa. Armados. Eles nos apoiam, continuou o Leitor.
Nunca fico preocupado com esse tipo de problema, ele falou, acendendo outro cigarro.
Reizinho não compreendeu o que ele quis dizer com “esse tipo de problema”, nem com
todo o resto da conversa. Percebe a agitação?, perguntou Leitor. Sim, percebia, mas
passara o dia atordoado, a cabeça latejando, os braços, pernas, sentia dores no
abdômen, nas juntas, não conseguia pensar em nada. Não notara as portas azuis, e
nem sentia vontade de perguntar por que estavam distribuindo tinta no bar do Onofre.
Queria falar com Miltão, só isso. Queria que seu interlocutor evaporasse, o mais rápido
possível. Leitor não se importava nem um pouco em parecer indiscreto, olhava o
estrago no rosto de Reizinho como um comerciante interessado no produto, atento,
direto, só falta mesmo perguntar o preço, pensou Reizinho, contrariado.
Miltão, num dos cantos da quadra, conversava com os amigos. A mão na cintura de
Suzana. A ginga de Miltão, gesticulando, rindo, Suzana por duas vezes fez sinal para
que Reizinho esperasse. Calma, ela disse. Porra. Calma.
Leitor contou que lera numa revista que Clinton teve muito mais dificuldade para
dominar um bunker texano de visionários malucos do que para invadir o Haiti. Legal,
disse Reizinho, evitando encarar o Leitor, querendo sair dali, sem saber o que dizer,
por que aquela conversa mole sobre o Haiti? Nem sabia o que era o Haiti. O que queria
aquele homem que não parava de acender cigarros e jogar fumaça no ambiente?
Depois de alguns rodeios, Leitor perguntou quem fizera aquilo com ele. Quem bateu em
você? Reizinho não respondeu. Não deixe ninguém fazer isso, ele disse. Foi seu pai?
Reizinho fechou os olhos, num gesto de impaciência. Tudo bem, disse Leitor. Desculpe
se estou me metendo. Mas é que eu não tolero esse tipo de coisa. Quantos anos você
tem? Dez, imagino. Ninguém, seja lá quem for, seu pai, sua professora, o diabo,
ninguém pode fazer isso. Digo por experiência própria. Reizinho procurou Suzana, com
os olhos. Ela fez sinal. Calma. E sabe o que é pior?, continuou Leitor. A gente se
acostuma a apanhar, cara. Estou te dizendo. Daqui a pouco, você vai achar normal
levar porrada. É. Parece maluquice, mas é a pura verdade. No começo dói, mas depois
nem dor a gente sente mais. E se bobear, você vai até pensar que merece o castigo. É
verdade. E isso não é o mais nojento. O mais nojento é que o filho da puta que enfia a
mão na sua cara aprende a gostar também. Sim, senhor. É bom bater. Alivia a tensão
do sujeito, entendeu? Conheço essa merda. Vejo sempre você zanzando por aí, todo
fodido. Não é a primeira vez. Toda semana, para falar a verdade. Fico pensando quem
é o escroto que faz esse estrago. Aposto todo o dinheiro que tenho no bolso que é o
seu pai. É o seu pai? Vamos, pode falar. Não, respondeu Reizinho, com má vontade,
não é o meu pai. Leitor olhou em volta, pensando no que iria dizer. Silêncio. Tirou do
bolso um papel, escreveu um endereço, me procure, se precisar.
Miltão chegou logo depois, ele e Suzana, de mãos dadas. Suzana sussurrou algo no
ouvido do namorado e saiu. Muitos anos depois Reizinho ainda se lembraria daquela
noite, das coisas que Miltão lhe dissera, querendo parecer bom e justo, como um pai
dedicado, mas sendo apenas cruel e insensível como qualquer traficante do Rio de
Janeiro. Magro, franzino, com a cara cheia de hematomas, a mão furada, Reizinho
implorou para continuar no tráfico, disse a Miltão que não queria mais voltar para casa,
só faltou mesmo ajoelhar, porra, suplicou, que lhe desse um emprego, pelo amor de
Deus, porra, faria qualquer coisa, roubaria, a mãe que se danasse, não queria mais
voltar para casa, dormiria na rua se fosse preciso, não, não, não, era só isso que
Miltão dizia. O que ele faria, então? Que neguinho estudasse, respondeu Miltão.
Escola, não queria nada com a escola, porra. Fazia mais de seis meses que não
frequentava a terceira série do grupo escolar. Seis meses? Volte para a escola, disse
Miltão. Não entendia xongas do que a professora falava, porra. Miltão, por acaso, tinha
ido na escola? Ninguém queria saber de escola. Nem ele. Queria trabalhar. Mas não de
engraxate, nem de carregador em feira, nem de limpador de para-brisa, como sugeria
Miltão. Não queria. Impossível, respondeu Miltão, e você devia me agradecer. Não é
uma vida boa, a nossa. Quer morrer cedo? Quero, respondeu Reizinho, quero uma
arma, quero trabalhar. Miltão pôs a mão na cabeça do menino, paternal, sorriu, não vai
dar, ele disse. Porra. Reizinho experimentou uma sensação ruim, ódio, uma ferida
explodindo e criando buracos no seu corpo, espalhando-se em todas as direções,
pernas, braços, e principalmente na boca. E o meu dinheiro?, perguntou. O traficante
enfiou a mão no bolso, retirou um maço de notas, separou quatro de cinquenta. Não
conte para a sua mãe, ele falou, entregando-lhe o dinheiro.
No caminho de volta, Reizinho notou que a maioria dos barracos estava com as
portas pintadas de azul, como dissera Leitor. Encontrou a avó, Cândida, na varanda da
casa dela, pintando os batentes. Deram tinta, ela disse. Achei bom. Deixa que eu pinto,
vó. Posso dormir aqui?
5

C huva forte na madrugada. As luzes dos postes haviam sido quebradas durante a
tarde. Escuridão total. Só se viam, bem no topo da favela, alguns pontos de luz,
Miltão pensara em tudo.
Uma perua Chevrolet embicou na ladeira dos Papagaios, em frente ao açougue do
Zino, e subiu lentamente, forçando o motor. Logo em seguida, cento e vinte policiais,
com escudos, carros blindados e armas pesadas, surgiram do nada, como uma matilha
de cães da floresta, cercando o morro, bloqueando os acessos da favela.
Metralhadoras abriram o caminho. Os soldados avançaram, foram recebidos a bala
pelos homens do Miltão. José Bezerra, comandante responsável pela operação,
morreu logo nos primeiros minutos de combate, com o corpo estraçalhado por uma
granada. O motorista da Chevrolet foi espancado e teve sua perua destruída. O motor
foi desmontado, os bancos retirados para fora do carro, nada foi encontrado. A chuva
encharcava as ruelas, aumentava a lama, e isso foi bom para os traficantes. Os
soldados abriam fogo, invadiam barracos, acordavam famílias, estapeavam miseráveis
e chafurdavam na lama. Trinta pessoas foram presas, e todas elas, sem exceção,
soltas no dia seguinte, já que não havia nada que as ligasse ao tráfico. Histórias de
abusos, espancamentos, coronhadas, pauladas nas costas, porretadas, chutes e
choques elétricos, como a do motorista da Chevrolet, mecânico da Eletrônica Q-Joia,
eram ouvidas em todos os bares, orelhões, botecos, padarias, portões e varandas da
favela, como sempre ocorria, após as invasões. Crianças se divertiam brincando de
recolher projéteis no chão e nos rebocos dos casebres. Os policiais não localizaram o
“barraco de porta azul”, nem o carregamento de cinquenta quilos de cocaína que
chegaria numa Chevrolet, conforme a denúncia de um informante, que motivara a
invasão. Todas as portas, de todos os casebres, e todos os portões, para qualquer
lado que se olhasse, estavam pintados de azul. Podia-se notar, em alguns locais, a
pintura ainda fresca, e havia latas e broxas espalhadas em todas as ruelas do morro.
Neguinho estava perdido, contava Miltão, no dia seguinte, rindo muito, fácil, fácil, foi
fácil como arrancar doce de pivete, ele dizia. O mecânico receberia sua parte por ter
feito o trabalho direitinho, apanhar de bico calado. Bem Bolado agira de má-fé com o
rapaz, não explicando o plano totalmente, suba o morro com sua Chevrolet às quatro
horas, devagar, vá para sua casa. O rapaz tentara cair fora, mas traficantes não estão
acostumados a ouvir respostas negativas.
O grupo estava preparado para a invasão. Dias antes, um informante telefonara
dando o alerta. Pinta aquela merda de roxo, dissera Miltão, ao ser comunicado de que
a polícia invadiria um de seus pontos. Mude o depósito. Mude o dia. Mudem o carro.
Miltão mascava chiclete, limpava sua arma, menos preocupado com o ataque do que
com a existência de informantes da polícia. Polícia a gente vê. Atiramos e matamos. E
esses traidores? Alguém de dentro, alguém próximo, dando aos macacos detalhes do
carro que faria a entrega, o local do depósito. Isso o preocupava. Não era a primeira
vez que vazava informação. Vamos mudar nosso esquema, dizia Miltão. Estavam todos
na casa do traficante, uma terça-feira abafada, o céu escurecendo, trovejando. Leitor,
ao ouvir a conversa, propôs algo melhor. Leitor vivia dizendo que era preciso acabar
com aquela-palhaçada-de-criminalização-da-droga, não cansava de repetir para os
amigos trechos de um livro que acabara de ler sobre o assunto: maconha faz mal? E
boxe? E alpinismo? E correr de carro pela Lagoa? Por que não proíbem? Por que não
proíbem a obesidade, que mata milhões no mundo? Queremos que o cidadão não se
foda e liberamos o cigarro e o álcool. Isso faz tanto sentido quanto dar um 38
carregado para um suicida. Fumamos até morrer de câncer. Bebemos até morrer de
cirrose. Tabaco e álcool é que matam. Hipocrisia. Admito essa política lá nos Estados
Unidos, com aqueles puritanos todos, aqueles jecas de Ohio, que aos dezesseis anos
usam blusas onde se lê I love Jesus, mas aqui? Nossas filhas aprendem na televisão,
logo cedo, que o que vale neste mundo é cabelo loiro e bunda dura. Só isso. E não
podemos fumar maconha? Nem cheirar cocaína? É muita hipocrisia, ele dizia. Álcool
pode, tabaco pode. Podemos nos empanturrar com bolinhas para parar de comer,
bolinhas que nos fazem cagar o dia inteiro, e mais bolinhas, bolinhas para acordar,
dormir, somos viciados, como já foi dito, em TV, comida, sexo e lítio, mas maconha e
cocaína são proibidas porque viciam. Viciam? Ninguém lê as pesquisas, as
estatísticas? Idiotas. São burros. Não sou eu quem diz isso. São estudiosos
capacitados. Gente que sabe das coisas e publica livros sobre o assunto. Seremos a
próxima Cosa Nostra. Só isso.
Ninguém se importava com as teorias do Leitor, nem com os livros que ele lia e
citava sem parar, Miltão, Bidê e Bidezinho, Jaú, Bem Bolado, geralmente eles falavam
no telefone enquanto Leitor discursava, folheavam gibis, limpavam armas, soltavam
peidos, dormiam, roíam as unhas, ou então despejavam montes de bobagens nos
ouvidos do Leitor, quando legalizarem, diziam, vai ser assim, neguinho chega na
farmácia e compra um quilo da purinha, da marca Los Pablitos, com o desenho de uma
caveirinha, riam, achavam graça, Los Fodidos, La Bolívia, La Colômbia, Los
Cucarachos Blancos, riam, pouco se importavam se era legal ou não, Los Diegos, nem
entendiam, impostos, Los Juans, violência, os ignorantes se matam e nem entendem o
que acontece com os seus próprios rabos, pensava Leitor. Estava acostumado a ouvir
gozações, mas naquela tarde, quando sugeriu algo diferente, eles prestaram atenção.
A polícia vai entrar procurando o barraco de porta azul? É isso? Miltão, vamos mostrar
para eles. Escute, Miltão, eu leio muito a Bíblia, há uma passagem, escute. Sabem
quem é Moisés, não sabem? Sabiam mais ou menos. Amigo de Deus. Um santo? Deus
instruiu Moisés, disse Leitor, fez com que Moisés matasse um cordeiro, fez com que os
hebreus, com o sangue do animal, marcassem as portas de suas casas. Isso está na
Bíblia, ele disse. Os hebreus assim fizeram, e Deus matou, naquela noite, os
primogênitos das famílias dos egípcios. Não entendi picas, comentou Miltão, cuspindo o
chiclete. O problema eram as palavras, “hebreus” e “primogênitos”. Leitor explicou tudo
novamente. Vamos pintar todas as portas de todos os barracos de azul, e com isso
você vai estar dizendo, somos maiores, somos terríveis, somos indestrutíveis. Temos
nas nossas portas o sangue do cordeiro de Deus. Entendeu? Distribua tinta. Miltão
gostou da ideia, não pelos mesmos motivos que Leitor. Pintar tudo de azul? Legal!
Vamos foder. Neguinho vai se dar mal. Foi o que fizeram. Ri ri, Bidê também aprovou o
plano. Neguinho vai ver. Mantiveram nas conversas telefônicas o mesmo esquema,
embora os envolvidos na operação já soubessem da nova rota de descarregamento,
novo carro, novo dia.
Leitor se divertiu muito ao ouvir mais tarde que Miltão batizara a operação de
“Moisés na cambada”.
Na manhã seguinte, quando saiu para buscar as roupas na casa da mãe, Reizinho
sentiu a mesma agitação do dia anterior, Miltão está rindo até agora, alguém disse, no
bar do Onofre. Imagina a cara dos policiais. Imaginem. Tudo azul. Estava na Bíblia. E
quando começou a chover, então? Aquela pancada grossa, as botas patinando. Na
Bíblia. Ri ri ri, Bidê comprava cigarros. Tudo azul. É isso que dá. Só não falavam dos
mortos. Depois dos tiroteios, era comum escutar gritos de mães desesperadas. Os
pobres se empoleiravam nos muros, querendo notícias. Mas não se falou em mortos
naquele dia. Só feridos.
Ruas estreitas, sem pavimentação, esburacadas, poças, galinhas, carcaças de
automóvel, e, no céu, aviões voando baixo, aterrissando no Galeão. Gente magra.
Reizinho caminhando. Observando. Mulheres gordas. Na favela, os meninos são muito
magros e as adolescentes, gordotas. As mulheres são obesas e os homens ventrudos.
É a regra. Reizinho andava devagar, olhando, sentia-se cansado. Pintara os batentes
da casa da avó durante a madrugada, e como sobrara tinta, pintara também as janelas
e os pilares da varanda. Às três da manhã, ainda sem sono, pincelava os pneus do
quintal, usados como pé de uma mesa onde Cândida esticava os vestidos da escola,
em dias de sol, para bordá-los. E enquanto lambuzava tudo de azul, relembrava as
palavras de Miltão, irritava-se com elas. Volte para a escola. Não voltaria. Fizera um
trato com a avó, voltaria para a escola. Em troca, viveria com ela, ajudaria nos
bordados, na entrega das peças e compra dos materiais, lantejoulas, miçangas,
vidrilhos. Faria tudo. Bordaria. Não gargalharia na frente dos efeminados que
frequentavam a casa da avó, mag-ní-fi-co, um lu-xo, diziam os artistas que criavam as
fantasias, quero plumas, Cândida, quero dourado, quero volume, minha nega,
dimensões, cor, eles diziam, fazendo gestos com as mãos, e bocas, esse azul é
horrível, de-tes-tá-vel, fico doente, sem ar, só de ver esse azul triste, Cândida, triste, e
sentavam e gargalhavam e choravam, porque eram infelizes, os carnavalescos, ele me
deixou, Cândida, diziam, cochichando, dei isso, dei aquilo, fiz isso, fiz aquilo, e
choravam, afetados, estou arrasado, Cândida, Reizinho sempre escutando, arrasado,
minha nega, com vontade de rir dos comentários dos homens, das roupas que usavam,
cabelos pintados, patéticos, mas prometeu, a partir daquele dia, prometeu, não riria
mais. Não me importo se são bichas, são meus clientes, dizia Cândida. Reizinho seria
gentil com os clientes da avó, bordaria, cozinharia, faria café, limparia a sala, pegaria
as lantejoulas que se espalhavam pelo chão, faria tudo. Mas não voltaria para a escola.
Não gostava da escola. Sim, volto para a escola, dissera para a avó. Prometera. Até
três horas da manhã, pintando e pensando no Miltão. E na Suzana. Tão linda, a
Suzana. Os dentes brancos, sorrindo. Tudo azul. Quando deitou a cabeça no
travesseiro, o relógio digital marcava três horas e cinquenta e dois minutos. Pouco
depois começou o tiroteio. Ele e a avó, ouvindo os disparos, de mãos dadas. Chuva.
Depois, quando tudo estava silencioso, fizeram o que todos faziam nessas ocasiões,
abriram frestas, espiaram, penduraram-se nos portões e conversaram com os vizinhos.
Não dormiram mais. Agora entendi por que ofereceram tinta, disse a avó, quando foi
informada do que ocorrera. Negão esperto, esse Miltão. Cândida falava do traficante
num tom de admiração, e era esse tom, espalhado por toda a favela, tinta azul e tom
de admiração, era exatamente isso que envenenava o sangue do menino enquanto
caminhava pelas ruas na manhã seguinte. Reizinho se sentia indisposto, a insônia não
lhe causara nada, Miltão, sim, Miltão acabara com seu trabalho, e com seu futuro,
naquela tarde e nas seguintes, outubro, novembro, dezembro, não teria nada para
fazer, a não ser andar de lá para cá, vendo tudo, sem ideias. Não iria para a escola.
Ele vai para a escola, dissera a avó, quando Alzira aparecera, pela manhã, apavorada,
procurando o menino. Nem me avisou, mãe, nem me avisou que estava aqui. Ele não
dá a mínima, mãe. Não dormi um segundo, vou trabalhar o dia inteiro, sem ter pregado
o olho. Dez pessoas vão almoçar na dona Juliana. Aniversário da dona Juliana. E eu
sem dormir um minuto, mãe. A voz chorosa da mãe, ouvida do quarto, sabe o que é
duro, mãe? É duro você não poder rachar a cabeça de seu filho e meter lá dentro
coisas boas. Isso é que é duro. Furaram a mão dele, a senhora viu? Ainda bem, mãe,
que eu tenho a Carolaine. Tão diferentes, mãe. A Carolaine é boa. Estuda computação.
Esse vadio puxou o pai. Vagabundo como o pai. Eu olho para ele, mãe, e vejo aquele
canalha na minha frente. Inteirinho. Os olhos, iguaizinhos. A boca. Ai, mãe. É castigo.
Reizinho sabia que não havia ninguém em casa, escolhera um horário em que as
duas estavam fora, a mãe trabalhando, Carolaine no curso de computação. Andava
sem pressa, os ouvidos abertos. Todos impressionados com Miltão. Viu o que ele fez?
Pintou as casas. Matou um policial. Tudo azul. Viram os jornais? Morre mais um policial
na guerra do tráfico, era a manchete. Esta perna que aparece aqui na foto, é a minha,
Reizinho. Olha o meu sapato, viu? Olha a casa da Rosa Maria aqui, no jornal, alguém
disse. É a minha perna. O Miltão é o capeta, diziam. Miltão devia estar nas nuvens, ele
adorava quando as crianças corriam para fazer festa. Vejam os esgotos, vejam as
creches, vejam o que eu fiz. Homem vaidoso. Até Rosa Maria estava feliz com Miltão,
exibia o jornal para todos, com a foto de um menino favelado, a mão em concha, cheia
de projéteis. Atrás, um par de pernas, alguém sentado na sarjeta, o corpo fora cortado.
Era Rosa Maria. Vi quando bateram a foto. Até me entrevistaram. O que está escrito
aí, Reizinho? Leia para mim. Falam de mim? Reizinho não gostava de ler. Estou com
Miltão e não abro, dizia Rosa Maria, com o jornal na mão. Olha o meu sapato. Miltão
desfilaria mais tarde, Reizinho sabia. Para receber os elogios. Mas se alguém
reclamasse da falta de esgoto, da falta de creches, da bandidagem, Miltão explodia.
Fazemos o possível, e eles continuam reclamando. É o estilo de vida venha-a-nós-o-
vosso-reino, conhece o esquema? Querem casa, comida e roupa lavada. Faço o
possível. Se dá para melhorar, melhoramos. Veja lá as manilhas. Bocas de lobo.
Antigamente, a merda escorria por aí, livre. Olha o esgoto. Construímos esgoto.
Compramos cadernos para as crianças. Borrachas. Réguas. Creche, nós fizemos.
Morre alguém? Enterramos e pagamos tudo. Damos pensão para a viúva, se ela não
for uma vadia. E reclamam? Não gostam daqui. Que se mudem.
Reizinho se aproximou da casa, as janelas fechadas. A casa de Suzana também,
fechada. Suzana estava trabalhando como balconista numa loja de cosméticos. Cada
vez mais cheirosa. Carolaine no curso de computação. Todo mundo trabalhando,
menos ele. Miltão escroto. Cara escroto. Logo que fechou a porta da sala, ouviu o
barulho vindo do quarto, algo rangendo, gemendo, prendeu a respiração para não fazer
barulho, sempre que sentia medo, prendia a respiração, prendeu, pegou a faca na pia
e, zap, abriu a cortina do quarto da mãe. Carolaine estava nua na cama, de quatro.
Reizinho nem viu quem era o rapaz atrás dela, virou as costas e saiu. José Luís, gritou
a irmã. Na saída, o garoto pegou duas camisetas no varal, algumas meias, cuecas,
José Luís, Carolaine abriu a janela, vestindo uma roupa, quero falar com você, ela
disse. Reizinho bateu o portão e foi caminhando em direção à casa da avó. Pensou em
voltar e quebrar a cara do homem. Quem era aquele homem? Não voltou. Que se
danasse a irmã. Ameba. O tempo todo na frente do espelho, hipnotizada, dançando,
virando-se de costas, lado, frente, poses, batom, dançar, só isso. E agora dando o
rabo.
Um caminhão da prefeitura impedia o acesso à quadra esportiva. Reizinho passou
por baixo do caminhão, sentindo o calor que se desprendia do solo. Avistou dois
seguranças do Miltão, conversando. Óculos com lentes coloridas, som maneiro, nunca
teria aquelas coisas bacanas. Ei, me espere, gritava Carolaine, vindo atrás, descalça,
esbaforida. Reizinho parou, observou a irmã sair de sob o caminhão, exatamente como
ele fizera, minutos atrás. Uma mulher passou apressada, levando o filho no colo, brava,
a mulher. Você é pequeno e ainda não entende, ela disse, a irmã. O caminhão do gás
deu partida, e, durante alguns segundos, Reizinho não escutou uma palavra do que
Carolaine dizia. O que você falou? Ele é meu namorado, a gente vai casar. Sei. Casar.
Sol forte. É, casar. Ter filhos. Morar em outro lugar. Outro bairro. Ter carro. Ter
máquina de lavar. Ter uma vida decente. Ou você quer que eu vire empregada
doméstica, como a mãe? Quer? Quer que gritem comigo, me chamem de burra?
Aquele salário de merda. Quer que eu me foda? Sinto muito, José Luís. Não vou me
foder, como ela. Sol forte. Você quer minha opinião? Melhor o tráfico, melhor o Miltão.
Muito melhor. Isso mesmo, volte para o Miltão. Seja alguém. Ganhe uma metralhadora
e mostre para eles. Garotos chegando na boca, uma pequena fila, compradores,
aviões, disque-droga, rapidez no atendimento. Só queria te pedir uma coisa, ela disse.
Não conte nada para a mamãe.
Reizinho não respondeu. Virou as costas e foi andando, atravessou a quadra, quer
jogar, Reizinho? Não queria. Mais à frente, homens do Miltão, armados com pistolas
automáticas, recebiam os pedidos dos consumidores. Papelote, pedra ou fumo?,
perguntou um deles, quando Reizinho se aproximou. Tudo, ele disse. Bufunfa na mão,
dizia o soldado. Reizinho achou que os traficantes não teriam troco para nota de
cinquenta. Mas eles tinham. Temos até troco para dólar, disseram rindo, os traficantes.
6

D ig dig, den den/ dig dig, don don/ dig den, dig don/ dig dig, den don, crianças
cantavam ao fundo, batendo palmas, enquanto Reizinho aguardava, na quadra
esportiva, sentado com as costas apoiadas num poste de luz. Sentia-se bem, dia
agradável, temperatura amena, sem sono, sem fome nem preguiça, pés sujos, o pai
não se importaria. O carro vermelho estacionou do outro lado da quadra, buzinou,
Reizinho correu, entrou, oi, pai, oi, filho, o que você quer fazer? Quero nadar. Foram
para um prédio no Leblon, veja, filho, temos playground, quer brincar? Piscina. Tchof na
água, pularam, nadaram, temos também salão de festas, temos jardins, e, bem perto,
praia.
Falaram sobre o Vasco, o pai, com a barriga para o sol, fumando, comendo
amendoim, bebendo cerveja, muitos jogadores machucados, como vamos ganhar?
Temos que ir para cima do adversário. Nadaram. Um time que bate, que vai em cima,
ele disse. Mergulharam. Temos que mudar a posição dos jogadores. Bater mais.
Aquele zagueiro. Atacar e marcar. Aquele meio-campista. Aquele técnico idiota. E
perdemos aquele zagueiro. Foi para o Botafogo. Mergulharam e nadaram. Tomaram
banho com sabonete Phebo, Reizinho adorava aquela marca, sempre havia Phebo no
lavabo da casa de dona Juliana, e flores secas, um aroma delicioso, adocicado, e
toalhas pequenas para as mãos dos visitantes, com rendas, papel higiênico macio.
Brincaram no playground. Playground e piscina eram justamente o sonho de Alzira.
Alzira na calçada, domingo, jornal velho na mão, encantada com as fotos e plantas dos
imóveis. Veja este, Carolaine. Veja só. Três dormitórios. Piscina. Playground. Salão de
festas. Joguei na loteria, ela dizia. Se ganhar, ah! Playground e salão de festas. Ah! E
piscina. E que se danassem todos no inferno, por que pensar neles, na mãe, nos
sonhos da mãe, piscina e playground, nos outros, no inferno, enquanto podia ficar com
o pai, almoçar em restaurante, qual restaurante você quer, filho? Comeram no Mar
Manso, mesa na calçada, pastel, bolinho de bacalhau e sorvete. O problema era a
fome, nunca sentia fome. Andaram sem pressa, brisa agradável. Festa na calçada.
Mulheres de top, correndo, patinando, rabos de cavalo, moças praticamente nuas, de
biquíni, areia no corpo, namoradas, garotas queimando banha, andando, passo
apressado, meninas, jogando vôlei, futebol, mulheres, frescobol, muito viço, bicicletas,
shorts, biquínis, sol, pernas, pés, pulseirinhas nos tornozelos, o pai também gostava de
admirar as mulheres na praia. O senhor precisa conhecer a Suzana, pai. Me chame de
você. Pai. Você. Eu. Senhor. A Suzana é sua namorada? É. Gostava de dizer “minha
namorada”. Senhor. Palavra bonita essa, “namorada”. Eu. “Noiva”, palavra sonsa.
Você. “Mulher” e “esposa”, horríveis. Senhor. “Patroa”, nunca chamaria sua namorada
de patroa. Mesmo depois de casados, Suzana seria a sua namorada. O pai falou sobre
uma mulher que trabalhava no escritório. Muito bonita. Datilógrafa. Secretária. Amor.
Telefonista. Quer sorvete? Prefiro água de coco. E de repente, um vento forte, flap, a
janela bateu, Reizinho abriu os olhos, viu o quarto da avó, Jesus Cristo na parede,
espinhos, levantou-se para fechar a janela, a cabeça zonza. Crianças brincavam lá fora,
perto do esgoto já arrebentado, batendo as mãos e cantando, Aiona iona ie/ ai mini
mini ma. Três horas no relógio, macarrão com chocolá, os dias eram assim, solventes,
cola de sapateiro, cheirinho da loló, tíner, crack, fechar os olhos, sentir aquela coisa
boa, bons pensamentos, deitado na cama da avó, quando ela saía para fazer compras,
ou esparramado na quadra, ou dentro dos carros abandonados, embaixo do sol forte,
onde quer que o deixassem em paz. Às vezes, quando a avó estava em casa,
bordando, Reizinho corria para o bar do Onofre. Mesa de bilhar, balcão azul ao fundo.
Acima, uma prateleira enfeitada com flores de plástico e a imagem da Nossa Senhora,
com um aviso: “A minha família é como a sua, gosta de respeito.” Mas a família de
Onofre nunca trabalhava no bar. Só Onofre. Oi, Reizinho, acenavam os passantes.
Cachorros. Escondia-se sempre que via a irmã Carolaine, apressada, a caminho do
ponto de ônibus, ou a mãe voltando do trabalho, sempre com a mesma blusa rosa
apertada, presente de dona Juliana. Viviam ganhando coisas de dona Juliana. Restos.
Leve para as crianças. Lixo. Vão gostar. Estes tênis que não servem mais. Estas
camisetas desbotadas. Estas botas furadas, que tal? Coisas que a mãe trazia para
casa, contente, claro que queremos. Precisamos. Só está um pouco apertado, qual o
problema? Vista isso. E não reclame. Agradeça a Deus. Aliás, seu desinteresse por
Deus surgira exatamente por causa dessa atitude da mãe, em toda situação adversa,
fome, falta de dinheiro, frio, miséria, que agradecessem a Deus, ela dizia. Porra.
Agradecessem a Deus pelo teto furado. Pelos sapatos fodidos. Pelas roupas rotas.
Pela falta de carne. Agradeça a Deus. Nunca agradecia. Jamais.
Rosa Maria ensolarada, saindo para a noite, arranjei um namorado gringo, Reizinho,
ele não fala nada em português, só alemão, e sabe que a gente se comunica? Entendo
tudo, Reizinho, é incrível como o homem foi feito para falar e compreender. Aquele
monte de erre, raus, rais, não compreendo as palavras, mas sei, sinto que ele está
falando uma coisa bonita, de amor, a gente se entende, Reizinho. Oi, Reizinho. Leitor
sempre com livros embaixo do braço, cigarro na mão, acompanhado de mulheres
fortes, o Leitor, Reizinho, vou te contar, já que você está aqui, vou te contar, o Leitor
gosta mesmo é de uma boa negona de oitenta quilos, contou Onofre. Uma gordona.
Você já entende dessas coisas, não é?, ele perguntava, com ar malicioso, fazendo
gestos obscenos para se referir à cópula. Hein? Já fez? Foder. Mulheres. Bocetinhas.
Xoxotas gostosas, hein? Molhadinhas. Hummmm. Chupar. O Leitor, Reizinho, adora
uma fila de banco, fila de hospital, INPS, essas filas. Fica lá, observando as
atendentes, as bancárias, as balconistas, e quando encontra aquela gordota, jovem
molenga, preta ou branca, a maioria preta, quando encontra aquela moça que nunca
arranjou namorado, aquela solitária que nunca viu um bom caralho, carente, o Leitor faz
a festa. Despeja as lorotas de amor em cima das mocinhas, e logo elas estão dentro
do barraco dele, fornicando. O Leitor, disse Onofre, abaixando-se na mesa, perto das
orelhas de Reizinho, o Leitor é um comedor de gordas. Parece que as gordas na cama
são uma coisa. Um negócio espetacular. Desaba o céu. Você acredita, Reizinho?
Trepam até em cima do fogão, ouvi dizer. Fogão aceso. Os vizinhos é que contam, o
Leitor não abre o bico. Filho da puta, o Leitor. Já dei até cerveja de graça, deixei o
sujeito bêbado que nem peru na véspera de Natal, e necas de pitibiriba, não falou uma
palavrinha sobre as negonas. Só gorda. Eu, comigo, gorda, comigo, só a patroa,
repetia Onofre. Meu negócio é bunda. Um bundão redondo para meter minha mão, isso
é que é bom. Mas tem que ser um bundão limpo. Bundão da Rosa Maria, fico longe.
Muito gringo fez parada ali. Cuido bem do meu cacete. Precisa ver, Zé Luís, a cara
delas, as gordas do Leitor, quando passam aqui de manhã, indo embora. Parece que
viram Jesus Cristo.
O assunto preferido de Onofre era esse. Bocetinhas. Molhadinhas. Bundonas
redondas. Peitos bem duros. Reizinho gostava dele. Era apaziguante queimar uma
pedra e ir para o Onofre, divertir-se. Certa vez, Onofre lhe dissera que o pai de
Reizinho era um bom homem. É mesmo? Sim, uma boa pessoa, seu pai. Reizinho o
enchera de perguntas, mas Onofre não sabia responder nada. Era alto? Era normal. O
que ele fazia? Não me lembro. Bebia muito? Não me lembro. Faz tempo que seu pai foi
embora. Desmemoriado, o Onofre. Bom ficar lá, no bar. Pai normal. Na verdade,
qualquer lugar era agradável, contanto que estivesse com crack na cabeça. Crack era
ruim, ele percebera depois de pouco tempo de uso, e ficar sem crack, um terror, e
crack todo dia, um verdadeiro inferno, e tudo podia piorar mais ainda, se estivesse sem
crack. Antes de se viciar, e depois que Miltão o dispensou do trabalho, sentia-se tão
arrasado, mas antes também de tudo isso, sempre, havia algo esburacado no seu
peito, um buraco enorme, vários, e ausências, uma tristeza difusa, acordava no meio da
noite, com pernas e braços doloridos das surras que levava da mãe, e para vencer a
insônia, imaginava seu corpo franzino sendo atropelado por um caminhão na avenida
Brasil. Crash. Morto no asfalto. No velório. A mãe chorando, desesperada. Onofre
chorando. A avó. Carolaine. Suzana. E quando chegavam todos no cemitério, essa era
a pior parte. Reizinho sempre detestou pensar que teria que ficar sozinho,
desintegrando-se, embaixo da terra, pó, pulava essa parte, vermes, voltava para o
velório, pó, foram muitas noites velando seu próprio corpo. Com as drogas, parte disso
acabou, Reizinho passou a experimentar uma nova sensação, quentura no peito, tudo
se encaixava dentro dele, crack, com harmonia, “chave na fechadura”, era aquilo
mesmo que já haviam dito, chave certa, fechadura certa, porta aberta. Crack. Ainda
acordava no meio da noite, desesperado, mas, quando se drogava, sentia uma espécie
de amor, o sol, a praia, pensava, a natureza, o sol, a fotossíntese, o jeito que as
plantas crescem, o mar, tudo é perfeito, a vida, muito bom, só mesmo o homem que é
uma merda, Miltão uma merda, cara escroto, acordava no meio da noite, e pensava
que Miltão não valia nada, não merecia Suzana, bandido porco, não merecia armas,
porra, prestígio, nada. Porco nojento. Nunca esqueceu a primeira vez que fumou
maconha, chegou na casa da avó, olhos congestionados, a boca seca, e aquela
sensação boa, ligou a TV, um dia, pensou, vou matar o Miltão. Vou ter meus homens.
Vou matar. Vou crescer. Viu muitas cores naquela tarde, sentiu que algo muito
importante estava para ser descoberto, uma verdade, um talento, um fato, foi até o
portão várias vezes, esperando, aguardando a virada, a mudança, o fato, até quando
viveria daquela maneira?
Cândida, os olhos sempre voltados para os brocados e babados, não percebia nada
do que se passava com o neto. O fim de ano se aproximava, e os preparativos para o
desfile eram a prioridade. Como foi a aula?, ela perguntava, sem tirar os olhos da
cabrocha, vestida de araucária, ou de pau-brasil, o tema da escola era a floresta
amazônica, mãe de todos, como foi a aula?, ela interrogava, quando José Luís chegava
para o almoço, depois de passar a manhã perambulando pelas ruas, fumando,
cheirando, o caderno nas mãos, ensebado, sem nenhuma palavra escrita, nada,
flanando, jogando bola de gude na quadra, ou dormindo embaixo de alguma sombra.
Reizinho gastava com drogas todo o dinheiro que ganhava nas ruas, limpando vidros no
farol, guardando carros na porta do cinema, ou simplesmente vendendo na feira as
jacas que despencavam no terreno da avó. Tudo o que entrava era rapidamente
transformado em droga. Deitar-se e na areia fofa da praia, maconhado, sonhar com o
pai, ser isso, ninguém, Suzana, aquilo, pensar. Porra. Gostava da desordem dos seus
pensamentos, o humor, a risada, e principalmente os sonhos. O pai. Porra. Cocaína
era diferente, sentia-se útil, executivo, competente, tinha ideias, animado, sentia-se
forte como cimento, ferro, sólido, carregando coisas que lhe davam, as caudas das
fantasias, isso, menino, Cândida, esse seu neto é um lu-xo, dizia o aderecista. Vá
comprar miçanga. José Luís fazia tudo o que lhe pediam. Nunca sentia cansaço, nem
sono, às vezes, o vazio dentro do peito aumentava, como aumentam os buracos depois
da chuva, lama, pedaços sendo comidos, levados pela água.
Na rua, os meninos lhe apresentavam outras coisas, aí, sangue-bom, tome elixir
paregórico, tome Demerol, bom, cara, tome Algarfan, Apetivit, uau, tome gotas Binelli.
Tome Cobavital, Periatim, Periavita. Cola de sapateiro, tíner, benzina, éter, tome crack.
Com uma embalagem de iogurte, improvisavam um cachimbo e fumavam. Na primeira
vez, Reizinho não sentiu nada. E mais crack. Na terceira vez, zupt, bateu, explodiu, o
mundo, em dois segundos, ficou suportável e cheio de cores brilhantes.
Foi a partir daquele dia que começaram os problemas de dinheiro. Vendeu o
liquidificador da avó para comprar crack. O crucifixo de prata. Duas toalhas Artex
novas. Camisetas. Um turbante verde-água da fantasia de vitória-régia da ala das
baianas. Uma de suas ocupações era vistoriar a casa à procura de qualquer coisa que
pudesse ser trocada por pedras de crack.
Numa tarde de desespero, viu, em cima do guarda-roupa, no meio das quinquilharias,
o troféu da Mangueira. Cândida morara na Mangueira, e durante quase dez anos
costurara para a escola de samba do morro.
Pegou o troféu e saiu apressado, com medo de encontrar a avó no caminho. Mal saiu
de casa, ouviu a voz familiar, oi, Reizinho, e aí, cara? Anda sumido. Pois é. Leitor
chegando, pegando no seu braço, Reizinho odiava que tocassem em seu corpo, nem
abraço, aperto de mão, beijo no rosto, qualquer tipo de contato incomodava, crack,
partia, e Leitor foi logo dizendo asneiras: “Eis, pois, a felicidade. Ela preenche a
capacidade de uma colherinha, a felicidade, com todos os seus êxtases, todas as suas
infantilidades.” O que era aquilo? Colheradas? Por que o Leitor sempre entabulava
conversas malucas sobre o Haiti, Clinton e agora colheradas de felicidade? Poesia,
explicou Leitor. Das boas. Meu poeta preferido, para falar a verdade. Você está
chapado? Reizinho não respondeu, foi andando, o troféu da Mangueira embaixo do
braço, Leitor atrás, o que você vai fazer com esse troféu? Nada. Troféu legal, deixa eu
ver. Reizinho detestava aquele tipo de comportamento, invasivo, Leitor analisou o
troféu, apalpando-o como se fosse cego, é, ele disse, grande Mangueira, vencedora, é
isso aí, de quem é o troféu? Meu. Seu não é, você nem tinha nascido quando a
Mangueira ganhou este troféu. Olha a data aqui. Reizinho pegou de volta a estátua, e
deu as costas, apertando o passo. Foda-se o Leitor, comedor de gordas. Que se
afunde nas banhas. Onde você está morando?, perguntou Leitor, acompanhando-o.
Venha cá, escute, garoto, você mudou, não é? Não te vejo mais surrado. Mudou. E,
agora, só te vejo chapado. Cara, você vai se foder, logo, logo. Estou sabendo.
Reizinho parou, os dois permaneceram alguns instantes frente a frente, Leitor
fumando, suado, despenteado. Qual é o problema? Você não é meu pai, disse
Reizinho. Sei, respondeu Leitor, sei disso. Sei muito bem. E se você me perguntar por
que estou aqui perdendo o meu precioso tempo com você, não vou saber responder.
Poderia estar lendo Machado de Assis. Cara, sai dessa. Faça alguma coisa. Eu devia
deixar que você se fodesse como todos os outros. Vejo você no meio dos pivetes,
meliantes, delinquentes, vagabundos, desocupados, você, no início, tinha alguma coisa,
um olhar inteligente, uma postura. Agora, com esse troféu na mão, é o próprio imbecil.
E você acha que as coisas vão parar por aqui mesmo. Mas não vão. É como aquela
música, você acha que já perdeu tudo, mas pode perder mais um pouco. E vai perder.
Eu não devia dizer nada. Vá. Vá perder o troféu. Cheire tudo. Pode ir.
Reizinho virou as costas e foi, conseguiu duas pedras pelo troféu. Não vale nem uma,
disse o fornecedor, é que você deu sorte, sangue-bom, me amarro na Mangueira, cara.
Puro suco. Legal.
Quando chegou em casa, a avó estava assistindo à novela. Vá tomar banho, ela
disse. Coloque uma roupa limpa. Senta aí, vamos jantar. Feijão no prato. Você gosta
de pimenta? Só o cheiro da comida embrulhava o estômago do menino. Jornal
Nacional. Estima-se que noventa pessoas estejam desaparecidas. Chuvas.
Desabamentos. O dólar, a inflação, pesquisa mostra que o brasileiro está assustado
com a violência. Cândida se levantou, desligou a TV. Filho, ela disse, sentando-se,
coma. Você precisa se alimentar. E escute o que sua avó vai dizer. O que você fez com
o meu troféu? Vendeu? Reizinho abaixou a cabeça. Não precisa responder, José Luís.
Você vendeu o troféu para comprar droga. Vendeu também o liquidificador, imagino. E
o crucifixo de prata que seu avô, o melhor pedreiro deste morro, que construiu esta
casa e a casa onde você nasceu, você vendeu o crucifixo que aquele santo homem me
deu. Você vendeu, e comprou drogas. Fui na sua escola hoje. Sei que você não
aparece lá. Nem sabiam quem você era. Abandonou faz tempo, me disseram. Está
bom o feijão? Hein? Sem fome, não é? Não quer mais?
A avó retirou os pratos. Nada hostil em seu comportamento, absolutamente nada,
sempre generosa, tranquila, alisando a cabeça do menino, fiz doce de goiaba também.
Quer? Reizinho estava com frio, tremendo. O feijão lhe fizera mal, o estômago
queimava. Deitou-se no sofá. Queria pedir desculpas para a avó. Iria reaver o troféu.
Sim, haveria uma maneira, filho, pegue suas coisinhas. Vou levar você para a sua mãe.
Reizinho demorou para entender o que estava acontecendo. Vó, ele disse, e começou
a chorar, pelo amor de Deus, vó, não faça isso, eu prometo parar, prometo estudar,
prometo, prometo, andava pela sala, pisando em fantasias, rápido como um cão
envenenado, sofrendo, tendo dores, não adianta, José Luís, vou levar você para a sua
mãe, é ela quem vai te educar, eu não, é ela, é ela, sou velha demais, pare, pare de
me abraçar, menino, levante, não ajoelhe, pare de chorar, me solte, Reizinho não
soltava, Cândida o empurrou com força, o menino rolou no chão, e, no chão, ele disse:
vó, eu odeio minha mãe. Não repita nunca mais isso na minha frente, José Luís.
Levante-se. Reizinho não conseguia se mover, sem forças, chorando. Era ódio mesmo
o que sentia. Só naquele momento percebeu. Raiva. Venha cá. A avó o ajudou a se
levantar. Levou-o para a cama. Não quero, vó, não quero voltar para a casa dela. Os
dois se abraçaram, Reizinho não parava de chorar. Vamos ver, garoto. Vamos ver
como você vai se comportar daqui para a frente.
7

C abrum. Nove horas da manhã. Céu negro, tempestade se armando. Sinal fechado.
Maria Emília, a caminho do cabeleireiro, foi assaltada por um menino que a
ameaçou com um caco de vidro. Minutos depois, Simone, secretária de uma
multinacional, passava batom, mirando-se no espelho retrovisor, quando um moleque
surgiu, ameaçador, caco de vidro na mão. Se gritar, vai para o beleléu. Ana, estudante
de direito, passe a bolsa, senhora, falou o garoto, passe a bolsa, madame, e calma.
Caco de vidro na mão. Amélia, cinquenta e quatro anos, no telefone, contava para o
filho como fora assaltada naquela manhã, eu não tinha nada na carteira, foi sorte, meu
filho. Só levou o relógio. A minha vontade, disse Simone, ainda comentando com a
amiga, no escritório, o assalto que sofrera, a minha vontade é pegar um menino desses
e bater, bater, dar uma surra, deixar o infeliz em carne viva. Isto é um assalto, disse o
menino para Angélica, dezoito anos, garota histérica, que acabara de chegar das férias
nos EUA. Caco de vidro na mão. Cheguei de Miami e, na primeira vez que ando de
carro, sou assaltada. Isto é Brasil, ela disse. Nenhuma das vítimas deu parte na polícia.
Reizinho trabalhava sozinho, embora sempre aparecessem pivetes propondo
parcerias. Nunca ajudavam, os garotos, e traziam riscos para as vítimas, já que,
diferentemente do Reizinho, só assaltavam depois de se drogarem. Para embalar,
diziam. No embalo. Como é, brother? Admiravam a competência de Reizinho, e o
convidavam para roubar toca-fitas, assaltar padarias e usuários de caixas eletrônicos.
Mas José Luís preferia assaltos em sinais, caco de vidro na mão, sem parceiros, sem
problemas, que rendiam o suficiente para comprar drogas e hambúrgueres.
Não era fácil. Impossível prever a reação das vítimas. Principalmente das mulheres.
No seu braço direito, havia uma cicatriz, em forma de meia-lua, deixada por uma
senhora impetuosa que lhe cravara os dentes, solte meu braço, madame, por favor,
madame, o sinal abriu, madame. Um sufoco. Outra vez, uma jovem prensou os dedos
dele no vidro elétrico. Orgulhava-se de jamais ter machucado uma pessoa. Desde a
primeira vez, Reizinho nunca deixou de sentir medo. O sinal fechava, e pronto, o sangue
corria gelado, caco de vidro no bolso, escolher a vítima. A maioria, mulheres, ficava
distraída no sinal, retocando a maquiagem, sintonizando o rádio, ou falando no telefone.
Houve uma moça que continuou usando o celular durante o assalto, Carlos, ela dizia,
Carlos, você é um filho da puta, isto é um assalto, ameaçou Reizinho, passe a carteira,
a mulher entregou a bolsa, como se aquilo fosse natural, Carlos, não me venha com
essa conversa mole, continuou, só quero o dinheiro, disse Reizinho, devolvendo tudo,
menos a carteira, Carlos, ela disse, engatando primeira e saindo, você é o maior
galinha do Rio de Janeiro.
Naquela quarta-feira, Reizinho chegou cedo na Venâncio Flores, uma rua do Leblon
que desemboca na praia. Era a primeira vez que assaltava naquele ponto. Dia ruim,
rendimento baixo. O sinal fechou, Reizinho se aproximou, caco de vidro no bolso, só
quando encostou no carro é que notou dona Juliana no volante, José Luís?, ela disse,
assustando-se. Ao lado dela havia um rapaz, forte, pele queimada, roupas de atleta.
Reizinho notou a mão do moço no joelho de dona Juliana. Oi, José Luís. A mão do
homem, rápida. O que você está fazendo aqui?, perguntou a mulher. Lavando vidros,
respondeu o garoto. Sem balde, sem esponja, a roupa limpa. Vai cair um toró, hein?
Pois é. Pausa. Sua irmã está boa? Sim, senhora. Olha lá o sinal, vai abrir, tchau.
Juliana engatou primeira, e seu carro acompanhou o fluxo, dobrando à direita na
avenida. Lavar vidro, disse Fernando, o professor de ginástica de Juliana, rindo, lavar
vidro com a chuva que vai cair. Essa é boa. É o filho da Alzira. Ele notou a sua mão na
minha perna, comentou Juliana, preocupada. É? Vá em frente, ele disse. Fiquei branca,
não estou branca, Nando? Estou gelada. Ele vai contar para a Alzira. Não esquenta,
bela. Gelada. Bela, era assim que Fernando chamava suas alunas. Estou tremendo.
Por ali, bela, vai devagar. Gelada. Barra da Tijuca, em frente. Antes de chegar em São
Conrado, Juliana embicou o carro num dos muitos motéis da região, enquanto Fernando
olhava para os lados, obedecendo às instruções paranoicas de Juliana, olha bem, não
tem ninguém nos seguindo? Presta atenção. Eu odeio motel. Vai, bela. Vou entrar. Não
acredito, Alzira, que ele estivesse lavando vidros, Juliana diria mais tarde para a
empregada. Diria, sim. Ele estava assaltando, tenho certeza. Diria mesmo. Se eu fosse
você, não diria nada, sugeriu Fernando, no motel. O melhor era fingir que nada
acontecera. Sem balde, sem esponja, não sei, talvez fosse melhor contar tudo para a
Alzira, dizer que o filho provavelmente estava ali para assaltar. Pense bem, Nando. E
se o menino fizesse um comentário maldoso? Alzira, com o depoimento do filho,
somaria dois e dois. Aliás, já devia estar somando. Andou dizendo coisas, a Alzira.
Insinuando. Tenho medo. Bela, vem cá, está tudo bem, disse Fernando, na cama,
Juliana nua, de bruços, preocupada. Nada disso vai acontecer, bela. Não diga nada a
Alzira, é melhor. Cigarro. Talvez o menino nem tenha percebido. O que ele viu, afinal?
Nada. Não viu nada. Mão nas costas, nas nádegas, mãos fortes de Fernando. Os dois
na cama. Adoro teu corpo, bela. Juliana tinha um temperamento obsessivo, teus seios,
adoro, transformava uma pequena possibilidade de catástrofe num pesadelo diário,
gosto do teu umbigo, alimentava seus temores, ininterruptamente, mesmo enquanto
Fernando cobria seu corpo, beijos, os pensamentos de Juliana eram um só, que tudo
estava por um fio, estragariam sua vida, destruiriam, acabariam com tudo. Mais tarde,
em casa, telefonaria para Alicinha, aos prantos. Ai, Alicinha. Antes de se envolver com
Fernando, a vida de Juliana era muito boa. Nem feliz, nem infeliz, Alice. Agora, minha
amiga, sou esta coisa aflita. Plugada. Era melhor antes. Não que seu casamento fosse
excelente, mas Rodrigo era um bom marido, sem paixão, mas bom, paz, uma coisa
gostosa, harmonia, nada de aventura na selva, dois filhos maravilhosos, vida tranquila,
paz, paz, paz, sabe o que é isso, Alicinha? Paz. Quero paz. Você acabou com a minha
vida, ela dizia para Fernando. Acabou. Quando estava longe dele, seu corpo se enchia
de tédio, as baboseiras que todos diziam, e ela própria, tanta bobagem, por que tanta
perda de tempo? Sempre tensa, insatisfeita, preocupada, esperando o telefone tocar.
Ela e Fernando ardendo, a cama pegando fogo, as mãos dele, mãos de homem. Não
vá se apaixonar, dizia Alicinha, desde o começo. Triste coisa, amar sem ser rico, já
dizia La Bruyère. Li isso em algum lugar, e é verdade. Coisa triste, Ju. Um homem puro
e pobre. Imagina, Ju, vocês vivendo das aulinhas dele? Adeus, terninhos. Adeus, New
York. Adeus, Paris. Londres. Índia. Tailândia. Juliana jamais pensava nesses termos.
Alicinha era uma idiota. Foda-se Paris. Fodam-se os terninhos. Nunca se preocupou
com o fato de Fernando não ter dinheiro. Fodam-se todos. Quando imaginava o futuro,
pensava nos dois andando tranquilos, em algum lugar, no calçadão, qualquer lugar, que
fosse em Itu, sem marido, Boituva, sem filhos, na China, sem hora para voltar para
casa. Fernando e Ju num restaurante. Apresentando-o para os amigos. Nando, lindo,
engraçado, saudável, sincero. As coisas adoráveis que ele dizia. Os anos em que
trabalhou como vendedor de Yakult. O colégio do estado. O sacrifício da família para
que ele cursasse a faculdade de educação física. Honesto. Trabalhador. Sincero. Mas
nem por isso deixara de foder a vida dela. Sim, foder. O tormento do amor. Não dormir
direito. Divagar. Chorar e padecer. Os estados eufóricos e as depressões. Sofrer.
Essa inquietude do amor, isso acaba comigo. Esperar os telefonemas, criar
oportunidades para ligar para o amante, a espera dos encontros, superar os fins de
semana, as noites longas. Onde estará Fernando? Sim, porque Fernando era bonito e
solteiro. E havia os sábados e os domingos, e todas as noites da semana, com todas
as mulheres disponíveis e liberais. Não era apenas nesse aspecto que Fernando
estragara sua vida. Aquela Ju disponível, tranquila, gargalhante, viva, irritada às vezes,
esperta, dando broncas pela casa, mais gorda, mais gulosa, simplesmente deixara de
existir. A nova Juliana era neurótica, tensa, frequentadora de motel, compradora de
lingerie, sem senso de humor e viciada em nicotina.
Vamos embora, ela disse, saindo da cama. Vem aqui, bela, ainda é cedo, não, ela
respondeu, vamos embora. Estou desesperada. Juliana queria chegar em casa antes
que Alzira fosse embora.

Cabrum. Céu negro. Depois do encontro com Juliana, Reizinho decidiu não assaltar
mais naquela manhã. Chovia. Tivera sorte. Cabrum. Vira certa vez na TV um filme
excelente, “apesar de ser preto e branco”, e jamais esquecera a cena da cigana, num
bar, lendo cartas, um homem embriagado se aproximando e pedindo que a cartomante
lesse seu futuro. Você já gastou seu futuro, ela respondia. Já gastou. Não há futuro.
Toda vez que ocorria algo de bom na vida de Reizinho, qualquer coisa que o fizesse
pensar em sorte, boa estrela, ventura, fosse lá o que fosse, jogo de cartas com a irmã,
dominó ou bilhar com Onofre, toda vez que vivia essa sensação de estar sendo
agraciado, abandonava o que estava fazendo. Nos assaltos, quando tudo corria bem,
sem gritos nem desespero, se roubasse uma corrente de ouro, algumas notas de dez,
pronto, já eram o suficiente. Mesmo que se sentisse seguro para continuar, não
prosseguia. Você já gastou sua cota de sorte, ele dizia com seus botões, e parava.
Sem futuro. Ao encontrar dona Juliana teve a mesma sensação. Poderia ter sido
flagrado e não foi. Tivera sorte. Cabrum. Chega, ele pensou. Relâmpago e trovão.
Reizinho foi caminhando pela Ataulfo de Paiva, gostava da chuva, raios, chega por hoje,
pensou, o céu negro, sempre sonhava em viajar de avião, conhecer a tempestade,
nuvens pesadas, escuras, entrar dentro delas, gostava de ver os raios, a água no
corpo, molhando, bom, a camiseta ensopada, os pés nas poças, bom, Reizinho
caminhava, sentindo-se bem. Nada para se preocupar. Tudo sob controle. Chuva. E
tivera sorte. Os maus tempos se foram, pensou. Depois da briga com a avó, prometera
que voltaria para a escola no ano seguinte, já estavam em outubro, ele dissera, não
demoraria muito. Ótimo, meu filho. Trabalharia como carregador, nas feiras da cidade.
Ajudaria a avó. Que bom, meu filho. Prometera também ficar longe das drogas. E
ficara. Chuva. Quantas quadras para o McDonald’s? Três. Duas semanas sem droga.
Sim. Andando. Dias difíceis aqueles. Sempre em pânico, com insônia, tremores.
Arrastava-se para qualquer parte, infeliz, nas feiras, assustado, dores no corpo,
empurrando carrinhos cheios de legumes, ouvindo broncas e sentindo náuseas com o
cheiro de peixe que tomava conta das ruas. Sem droga. Odiava feiras.
A cidade estava confusa naquela manhã, chuva, buzinas, carros freando, arrancando,
trânsito pesado nos cruzamentos. Reizinho parou no farol, ao lado de um engraxate.
Também engraxara sapatos, na praça Quinze. Horrível. Sem drogas e engraxando
sapatos, todos os dias. Ideia da avó. Vá engraxar sapatos. O proprietário das caixas
orientava o trabalho dos moleques, economizem graxa, dizia, sejam simpáticos com o
freguês e contem uma historinha triste se quiserem levar mais trocados. Depois de falar
com os engraxates e distribuir as caixas, o homem sentava a uma mesa de concreto,
embaixo das árvores, com os jornais que comprava na banca da esquina. Metódico,
botava o primeiro caderno diante dele, com tanto gosto, como se estivesse se
preparando para comer uma pizza. Dobrava o papel, ajeitava as bordas, nunca vi
gostar tanto de merda, pensava Reizinho. Porra. Coma o jornal. O sinal abriu, um carro
parou na faixa para pedestres. Olha a faixa, reclamou uma senhora para o motorista,
que fingiu não ouvir. Reizinho atravessou a rua, correndo, pensando no velho, dono das
caixas. Resmungava, o tempo todo, o velho, lendo em voz alta as notícias que o
aborreciam. Olha que desaforo, ele dizia. O salário destes vereadores. Cachorrada do
governo. Pouca-vergonha. E repetia as mesmas histórias, três, quatro vezes.
Cachorrada. Uns cachorros. Maus tempos aqueles. No fim do dia, Reizinho voltava para
casa, as mãos pretas, enfurecido, debilitado, e se a avó estivesse diante da televisão,
bordando, sentia uma infelicidade imensa, uma tristeza que começava no umbigo e
tomava conta de tudo. Pegue aquelas plumas, meu bem. As lantejoulas. Vem aqui,
conversar com a vó. Conte, meu bem. Como foi? Irritação constante, mordia os braços
na cama, sem sono.
A chuva diminuiu. Reizinho parou em frente à vitrine de um salão de beleza, viu as
propagandas. Cabelos marrons. Wella. O McDonald’s era logo ali. Não trocaria Suzana
por nenhuma daquelas mulheres nas fotos. Uma porcaria, a vida sem droga, continuou
a andar. Agora tudo estava bem. Tempos ruins, aqueles. Engraxar sapatos e
transpirar. Sofrer. Carregar. Tremer. O sofrimento acabara no dia em que, voltando
para casa, de ônibus, conheceu um rapaz, Fake era seu nome, óculos espelhados,
cabelos rapados, boné, ia ser Conan, meu nome, mas aí descobri que já existia um
Conan por aí, na vida. Quero ser único, brother. Sentados lado a lado, no ônibus, Fake
botou na cabeça de Reizinho o fone do walkman que trazia consigo, e uma música
encheu os ouvidos do garoto, Jorge sentou praça na cavalaria, é rap do bom, mano,
eu estou feliz porque também sou da sua companhia. Muita coisa boa, mano. Escuta
esse. Hard-core again, ele disse, sabe do que eles estão falando? Pólvora. Mundo
fashion. Assassinatos. Comportamento. Pó. Revolta. Política. O hip-hop me fez ver as
coisas. Entender. Consciência. Sei quem sou, mano, graças ao hip-hop. Sou preto. Sou
preto e quero minha parte. Vou ser um rapper famoso. Contrato com a Coca-Cola, me
aguarde. Dinheiro. Nós, os negões, somos poderosos. Vou ser rico. Fake levou
Reizinho para a rádio do morro. Sou o deejay da nossa rádio a cabo. Equipamentos
eletrônicos novinhos. Sou mano do Miltão. Na visão de Reizinho, aquele seria o único
defeito de Fake, a amizade com Miltão. É a irmandade negra, mano. É você quem
coloca as músicas no alto-falante da praça?, perguntou Reizinho. Fake, em pessoa. Eu
mesmo. Você gosta do som? Reizinho adorava. Do bar do Onofre sempre ouvia
aquelas músicas ritmadas, tum tum tum, e as letras, misturadas às drogas, nhe nhe nhe
nhe nhe no cérebro, eram puro veneno, sabia alguns trechos dos versos, eu sou o
verme que vai te curar, palavras, cachorro do sistema/ descer os morros e invadir a
cidade/ matar, as palavras, elas se misturavam na cabeça de Reizinho, não sinto mais
nada/ o revólver na sua cabeça/ no farol, os versos se misturavam na cabeça de
Reizinho, e, curioso, aquelas coisas, ditas daquela forma, faziam surgir no garoto a
vontade de ser aquilo, de pertencer ao grupo deles, dos pretos, de ser preto também.
Você é fosco, disse Fake. Pardacento. Tem muito mano da tua cor que diz que é
branco. Você é preto também. Seja preto. No estúdio, um barraco pintado de vermelho,
com pôsteres de artistas, negões americanos de óculos escuros e roupas
extravagantes, espalhados por toda parte, ouviram muito som. Foi naquele dia que
Reizinho voltou a fumar crack. Ficou amigo de Fake, passou a frequentar o estúdio
diariamente, Fake sempre lhe oferecia droga. Mais crack. Forneço também para o
pessoal da TV, ele disse. Crack. Os cameramen. Cabomen. Qualquer dia te levo para
ver uma filmagem de novela. Muito bom, crack. Cada mulher boa. Fake sempre
apresentava alguma droga, crack, cocaína, maconha, ele gostava de Reizinho.
Conheço os artistas. Crack é muito bom, ele disse. Não é bom? Pode fumar, Reizinho.
Fume. Cheire. Pode pegar. E me ajude a carregar estes discos. E cheire. E fume. E
escute esse som. Pode pegar. Nos dias seguintes, Reizinho não se sentiu à vontade
usando a droga do amigo. Decidiu que iria roubar. Feira, graxa, avó, adeus. Não seria
engraxate. Nem carregador. Que todos se danassem. Que tudo explodisse. Não foi
difícil começar a roubar. Difícil fora engraxar. Carregar carrinhos na feira. Suar.
Camelar. Roubar era fácil. Correntinha de ouro, calotas, relógio, os receptadores
compravam qualquer coisa.
Cabrum. Saldo daquele dia: um relógio e trocados. Se não fosse a dona Juliana, no
sinal, poderia ter feito mais. McDonald’s, finalmente. Reizinho entrou, as roupas
encharcadas, dona Juliana, quem diria. Fila, três pessoas na sua frente. Dona Juliana e
seu amante no sinal, só podia ser amante, o fortão. Já ouvira a mãe falar para
Carolaine. Um McLanche Feliz, por favor. Cheeseburger, sem picles, com ketchup e
batata frita, duas Cocas-Colas, e um Quarteirão com Queijo. Sabe, Carolaine, acho a
dona Juliana muito assanhada com o professor.
Reizinho dentro do ônibus, a caminho de casa, comendo sanduíche, a cidade lá fora,
o mar cheio de merda. Dizem. Poluíram tudo. Mar cinza, nos dias de chuva. Quando
saltou do ônibus, em frente ao açougue do Zino, a chuva havia parado. Estômago
cheio. Arrotar. Atravessou a quadra, pisou nas poças que se formaram no cimento,
crianças brincando. Na boca de fumo, comprou três pedras. Estava louco para fumar e
ouvir os crioulos cantando no estúdio do Fake, músicas que Reizinho adorava. Andando
e pensando. As pedras no bolso. Talvez, se Fake permitisse, Reizinho poderia
participar do grupo que Fake formaria. Compor raps. Mudar sua vida. Sentia isso muito
claramente, sua vida ia mudar. Algo ia acontecer. Sentia isso. Estava próxima, a
mudança. Havia até comentado isso com Fake. Mas o quê?, perguntou o amigo. O que
vai acontecer? Alguma coisa, disse Reizinho.
A porta do estúdio estava fechada com corrente e cadeado. Duas horas. Fake
atravessava as noites nos bailes funks, Dance Columba, Fantástica Black, e não era
fácil acordar no dia seguinte. Reizinho jogou bilhar com Onofre para matar o tempo.
Esperou. Sentou num dos banquinhos do balcão e ficou observando as pessoas
passando. Chuva novamente. Ele e Onofre. Bidê se espreguiçando, sem camisa, na
porta de sua casa. As mesmas pessoas. Coisas. A mesma vida de sempre. A mesma
bosta, disse Onofre, concordando. Ai, ai. A novidade foi Carolaine, que entrou,
cheirosa, acabara de tomar banho, oi, Zé Luís, estava te procurando. Sentaram,
beberam Coca-Cola. Conversaram. Ah, você está esperando o Fake. Conheço o Fake.
Carolaine também frequentava os bailes funks. De vez em quando. Eu e meu
namorado, ela disse, olhando para o irmão, dengosa. Frequentamos. Reizinho tentara ir
a um baile, mas por ser muito pequeno, não permitiram sua entrada. É muito bom, dizia
Carolaine. Lá dentro, é tudo escuro, as luzes piscam no teto, e quem gosta de dar
porrada se diverte. Não conta para a mãe. Não sou funkeira. Meu namorado é que
gosta. Meu noivo. Não conta para a mãe. Noivo. Você tem que ser rápido. Chutar,
socar, e rápido. Senão, te pegam. É legal. Dar porrada. Mas sabe, Reizinho, vim aqui
para te dizer, domingo é o seu aniversário. Reizinho nem se lembrava. Doze anos.
Maluquinho, esqueceu seu aniversário? A mãe vai fazer um bolo para você. Até parece,
disse Reizinho. O quê? Nada, ele respondeu. Esquece. Lá em casa, o bolo. Você vai,
não vai? Não sei, disse o menino. Poxa, Zé Luís, a mãe gosta tanto de você. Poxa. A
Suzana vai também. Poxa vida. Ela te preparou uma surpresa, a mãe. Surpresa?
Reizinho pensou logo no pai. Que surpresa? Não posso contar, respondeu a irmã. Você
vai gostar. O pai iria na casa de Alzira, só poderia ser essa a surpresa, pensou
Reizinho. Que horas? À noite, oito horas. Fechado. Então vou indo, disse a menina.
Quer mais Coca, Carolaine?, perguntou Onofre. Não, vou indo. E foi. Reizinho ficou na
porta do bar. Só poderia ser o pai, a surpresa. Três horas. A irmã descendo o morro.
Onofre ao lado dele. Andei notando, a Carolaine, ela não está engordando? Hein,
Reizinho? A Carolaine era tão magrinha. Está engordando, a Carolaine, notei. Reizinho
nem escutou o que Onofre dizia. Que surpresa a mãe lhe prepararia? Só podia ser o
pai.
8

G ritos e correria. Pedradas. Vidros se quebrando. Tiros. Mata. Pega. Crash.


Tome, cão. Fora daqui. Paus. Pedras. Reizinho acordou com o barulho lá fora,
pulou da cama e foi atrás da avó. Na rua, os moradores se empoleiravam nos portões
e muros, atiravam pedras e paus nos policiais que corriam, revólveres e granadas nas
mãos, com uma multidão de favelados nos seus calcanhares. Cândida, em cima de um
caixote de laranjas, segurava uma bacia de lavar arroz, cheia de pedras recolhidas no
quintal. Pegue jacas podres, Zé Luís.
Conforme os policiais desciam o morro, os moradores se juntavam à multidão que os
perseguia, mesmo quem não entendia exatamente o que se passava, como Reizinho,
unia-se ao grupo, excitado, gritando, atirando pedras, paus e xingando. Na avenida, a
massa revoltada incendiou uma viatura. Os policiais dispararam bombas de efeito
moral. Pessoas se jogavam no chão, apavoradas. É um drama, disse uma moradora,
mais tarde, quando chegaram os repórteres. Toda vez que a polícia sobe o morro atrás
dos traficantes, é uma guerra. Chegam batendo em todo mundo. Dando pancadas.
Deram uma coronhada no meu filho, disse outra, sorrindo para o fotógrafo. Ameaçaram
o Zino, o açougueiro. Coitado do Zino. Os jornalistas perguntavam sobre os fabricantes
de munição, motivo da invasão policial. Sei lá de munição, respondeu um rapaz. Sou
trabalhador, carteira assinada, levei uma coronhada na cabeça, só isso que eu sei, e
sei também que jogaram o Osvair no chão e pisaram no rosto dele. Logo o Osvair,
aquele santo.
Reizinho só voltou para casa quando os jornalistas foram embora. Na subida,
encontrou Fake saindo do Onofre. Esperou que o amigo lembrasse do aniversário,
havia dito, domingo é meu aniversário, mas Fake estava com pressa, vou resolver uma
parada, ele disse. Tchau. Onofre, ouvido colado no rádio de pilha, também não se
lembrou do aniversário.
Domingo, sol, Reizinho gostava de ver a maneira como as pessoas se vestiam aos
domingos. As melhores roupas. Mulheres indo para a missa, os melhores sapatos.
Banho tomado. As melhores intenções. Jovens e crianças a caminho da praia, lotando
ônibus. Menos Leitor. Sempre descabelado, o Leitor. Fumando Hollywood e
discursando sobre qualquer assunto. Hoje é meu aniversário, disse Reizinho. É
mesmo?, perguntou Leitor. Seu aniversário? Então, vamos para a minha casa, vou te
dar um presente.
O quarto alugado onde vivia Leitor era mínimo e sufocante, sem janela, os livros
espalhados por toda parte, empilhados no chão, em cima do fogão e da geladeira,
dentro da pia, em todos os lugares. Deixa eu ver, disse Leitor, remexendo na bagunça
à procura de um título especial. Um livro. Comecei a ler na sua idade. Reizinho se
arrependera de ter aceitado o convite, não leria o livro. Não pensara que o presente
seria um livro. Porra. Presente besta. Pensara em algo melhor. Escolher um livro, hum,
não é fácil, disse Leitor. Sim. Talvez eu ainda tenha. A ilha do tesouro. Aqui está. Você
vai gostar.
Reizinho pegou o volume, sem ânimo, a capa, as cores desbotadas, as páginas se
soltando, um livro aos pedaços. Quase em pó, pensou o menino. Porra. Leia a primeira
frase para mim, pediu Leitor. Nem morto. Não gostava de ler, era lerdo, e essa
sensação de estar enroscado nas palavras, amarrado nas letras, irritava-o. Foi sua
mãe que tirou você da escola?, perguntou Leitor. Foi ela, não foi? Suzana me falou
sobre a sua mãe. Assuntos pessoais, intimidade, Leitor estava sempre querendo
avançar demais, perguntar, sondar, fuçar, aquilo exasperava Reizinho. Quero te
mostrar uma coisa, disse o Leitor, levantando a camisa e exibindo várias cicatrizes
circulares ao redor do umbigo e no tórax. Sabe o que é isso? Meu pai. Há outras piores
nos pés e nas pernas. Se você acha que apanhou um bocado, posso te garantir,
apanhei mais. Conheço esse troço. Temos essa coisa, Reizinho. Nós dois. Logo que
me mudei para cá, observava você sentado no bar do Onofre, sem que ninguém me
contasse, eu sabia. Sou capaz de reconhecer imediatamente, só de ver a pessoa.
Doze anos de surras me deram um bom conhecimento de causa. Especializei-me nessa
merda. Eu tive sorte, me safei do pior. Sabe qual foi o meu segredo? Nunca senti
peninha de mim. Dozinha. Nunca. Não existem, na minha opinião, muitas coisas piores
que autopiedade. Fico me perguntando se você ainda pode se salvar.
Reizinho ouvia Leitor, sem olhá-lo. Porra. O livro nas mãos. Este assunto me
interessa, continuou o Leitor, leio muitos textos psiquiátricos. Há um estudo que
fizeram, olhe aqui, ele disse, mostrando um livro, este teste, é sobre drogas, mas
confirma minha teoria, pai vivo, pai desaparecido, pai ausente, um teste, falecido,
ausente, sempre ausente. Se você me respondesse três perguntinhas. É simples.
Preciso ir, disse Reizinho. Vá, Reizinho. Eu fazia como você. Exatamente como você.
Fingia que não era comigo. Virava as costas para mim. Demorei mais de dez anos para
perceber o que estou tentando te dizer hoje. Quem bate numa criança, seja quem for, é
um estúpido. É um merda. Eles são merda, não nós. Sabe o que eles fazem conosco?
Tiram o nosso amor. Matam nosso amor. E você só vai compreender isso quando
quiser amar de verdade. Amar uma mulher. Isso não tem conserto. Você não vai
conseguir amar nada. Nem um animal. Vai se sentir inferior, sempre. Um bicho.
Inadequado, sempre. Sobrando. Vai ser seco como pedaço de carvão. E dói. É uma
dor espiritual. Você não está entendendo picas, eu sei. Enquanto você não entende, por
favor, pare de fazer cagadas. Só isso. Caralho. O Fake, por que você se mete com
ele? Sabe quem é o Fake? Pensa que não te vejo saindo do estúdio do Fake? Você
acha que se drogar é bacana? Cocaína é para a ralé. Quem fuma maconha é bancário,
sujeitinho ordinário. Político. Deputado. Gente escrota. Gente burra, entende isso?
Quem cheira é chinfrim. Ontem eu te vi batendo carteira. Você vai se foder, cara.
Reizinho se levantou, não quero o livro, ele disse, saindo. Quando estava na porta,
ouviu Leitor desejar, feliz aniversário, perdedor.
Foi um dia difícil aquele. Sentia-se aflito, apressado. Perdedor. Vontade de resolver
as coisas, rapidamente. E não havia nada para ser resolvido. Matam nosso amor, que
era aquilo? Papo de boiola, porra. Tanta urgência, agonia, para que afinal? Nada havia
para ser feito. Nem escola, nem trabalho. Nada. Nem a avó queria ajuda nos bordados.
Reizinho passou o dia se enroscando nos pensamentos, remexendo-se, contraindo o
corpo na cama. Conhecer o pai aos doze anos, já imaginara tantas vezes o encontro
dos dois, mas, agora, seria diferente. Realidade. Os dois, juntos, sim, na sua festa de
aniversário. Carolaine fora clara, mamãe tem uma surpresa para você. O pai, só podia
ser essa, a surpresa. Pai. Não abraçaria o pai na frente dos outros. Porra. Aliás, não
abraçaria o pai. Não diria nada, enquanto houvesse pessoas ao redor, ouvindo. Queria
sair com ele por aí e conversar. Pena que não houvesse um jogo. O melhor seria
assistir ao jogo, em silêncio. Não conversar. Torcer. As conversas não serviam para
nada. Os choros, os gritos, as cobranças, acusações, jamais faria isso com o pai.
Falaria outras coisas. Talvez o pai trouxesse algum presente. Vira na TV a propaganda
de um vídeo com imagens de edifícios pegando fogo, de verdade, maremotos,
terremotos, tudo de verdade, pessoas sendo resgatadas no mar, outras boiando,
mortas, após um acidente de avião, um vídeo real, assustador, emocionante, disseram
na TV, gostaria que o pai lhe desse aquele vídeo de aniversário. Gente morrendo de
verdade.
Às seis horas, tomou banho, vestiu o short colorido que a avó lhe dera de presente, a
camiseta, e foi até o estúdio do Fake. O amigo funkeiro, naturalmente agitado, chamou
a atenção de Reizinho naquela tarde por estar mais inquieto do que o normal.
Esbarrava nas pilhas de discos, procurava a chave que já havia sido encontrada no
bolso. É excesso de trabalho, explicava. Hoje é meu aniversário, disse Reizinho. Seu
aniversário, Fake abraçou o amigo, desejando mais amor, mais saúde, mais paz, mais
drogas, mais Deus, mais funk, mais pai, mais dinheiro, mais tudo. Vamos no Onofre,
comemorar, ele disse. Parou na porta, não, vamos ficar. Tenho uma coisa para você.
Sim, um presente. Fake trancou a porta, com cadeado. Subiu numa cadeira, retirou do
alto da parede um pôster, este negão sensacional, ele disse, sabe quem é? Havia um
buraco na parede, atrás do pôster, Fake enfiou a mão lá dentro e retirou um pacote de
um quilo de cocaína. É seu?, perguntou Reizinho. Sim, estou fazendo uma transação,
respondeu Fake. Boca fechada. É treta minha. Não é puro. Já puseram muita porcaria,
disse Fake. Este negão é o fodão da música pop. A porta está fechada?, perguntou
Fake. Você trancou, respondeu Reizinho. Com uma colher, Fake separou uma
quantidade de pó e a ensacou numa embalagem plástica. Pegue aquele disco em cima
da mesa. É deste cara. Fake recolocou o pôster no local. O Gray me deu uma
entrevista que saiu no jornal sobre esse master, sensacional, brother, na época da
caverna esse negão “foderoso” já ouvia Kraftwerk e dizia coisas do tipo, “quero usar o
groove num troço eletrônico, uma gororoba que dê no funk”. Deu nisso. Simplesmente.
Esse som do caralho. Está gostando? Sem ele, você nem ia saber o que era rap. Já
cantou até com o James Brown, o safado.
Embaixo da mesa de som havia duas caixas amplificadoras, usadas nas festas do
morro. Fake abriu uma delas e retirou alguns vidros de bicarbonato de sódio, talco e
um saco com pó de mármore. Vamos fazer abracadabra, ele disse. Veja a porta, se
está trancada.
Todos os ingredientes foram misturados numa bacia de plástico, e, brum,
abracadabra, tenho agora dois quilos de pó. Enquanto cheiravam e embalavam a
droga, em pacotes pequenos, Fake relatava animado o seu encontro com Gray, que
era um amigo de um primo de um descobridor de rappers. Profissional. Gray vai me
abrir os canais. Não vou passar a vida aqui, ouvindo rap. Vou fazer rap. Criar. Quero
fazer um rap que fale de coisas pontudas, chifres, lamentos, paquidermes, gritos.
Naquele momento, Reizinho percebeu que não estava nos planos de Fake. Jamais seria
convidado para a banda. Minha mãe, imagina, disse Fake, minha mãe queria que eu
fosse meganha. Imagina, meganha. Um dia meu pai falou, polícia hoje, Creusa, polícia
é boa para matar e roubar. Sai dessa, Creusa. Quero que meu filho sirva o país, dizia
minha mãe. Ela é tontinha, minha mãe. Baiana ingênua, coitada. Não sabe nada, minha
mãe. Mas eu vou servir o país, conforme o desejo dela. Rap é uma coisa muito séria,
disse Fake. É um gesto político, brother, você mostra à galera a realidade das coisas.
Guerras. Você faz denúncia. Violência. Você critica. Lama. Mostra as feridas.
Desigualdade social. Isso é rap. Perdedor, por que Leitor dissera aquilo? Vou conhecer
meu pai, disse Reizinho, cortando o assunto. É mesmo? Legal. Pai é importante. Mãe é
mais, mas pai também é. Pai é menos. Sabe, José Luís, eu vou te contar uma coisa.
Pausa. Não vou, não. Amanhã eu te conto. Guarde esse pó, no bolso. É presente de
aniversário.

Na mesa, que fora arrastada para o centro do cômodo, havia um bolo com cobertura
de leite condensado e chocolate granulado, refrigerantes e copos plásticos. Alzira, de
banho tomado, beijou o filho, a Carolaine está se arrumando, ela disse abraçando
Cândida, que vinha logo atrás. Doze anos, como o tempo passa! Parabéns, filho.
Tome, ela disse, entregando um embrulho. Reizinho abriu, outro short. Que bom,
comentou Alzira, ao saber que a avó também o presenteara com um short, agora você
tem dois shorts. A surpresa é depois, ela disse, no ouvido do menino.
Suzana chegou logo em seguida. Não posso ficar, ela disse, vim te trazer isto. Era
um porta-retratos com uma foto de Suzana ainda menina, sete anos talvez, com
Reizinho no colo. Achei esta fotografia no meio das minhas coisas. Veja o seu tamanho.
Você devia ter seis meses. Eu trocava suas fraldas. E mais isso, outro presente, uma
camiseta com a língua dos Rolling Stones. Para você usar com suas namoradas.
Reizinho não gostou daquilo. Não havia namoradas. Porra. Agora, Carolaine e Suzana
conversavam no portão, Suzana contava algo, animada, agora, ele aprendeu, ela disse,
dei-lhe uma dura, não quero nem saber, ela dizia, comigo não, violão. Reizinho queria
ouvir mais, era sobre o Miltão? Mulherengo, comigo não, mas o barulho da TV se
sobrepunha às vozes, propagandas, homem galinha comigo não tem vez, o mágico que
desvendava os truques, a nova descoberta contra o câncer, eu disse a ele ou é assim
ou você está fora, o garoto americano que entrou na escola e matou onze amigos.
Suzana se foi, e Carolaine sentou ao lado dele. Ele vem?, perguntou Reizinho. Não, não
vem, ainda não contei nada para a mamãe, respondeu a garota, pensando que a
pergunta do irmão era sobre o seu namorado. Carolaine explicou, num tom de voz
quase inaudível, que seu namorado era casado. Com uma mulher horrível. Dois filhos.
Mas vai se separar. Ele me disse, vai se separar e nós vamos casar.
Mais dois vizinhos vieram para a festa, conhecidos da mãe, e também algumas
crianças que moravam por ali, nenhum amigo de José Luís, só queriam comer bolo, os
garotos. Nada disso importava. Dali a pouco, o pai entraria, Reizinho sentia seu
coração acelerado, o pai chegaria a qualquer instante.
A televisão ficou ligada até na hora do parabéns. Comeram bolo, beberam
refrigerante, Reizinho na porta, aguardando.
Depois que todos se foram, Alzira puxou o menino para a varanda e disse, num tom
cerimonioso: meu filho, estou muito feliz, muito mesmo. Aí vai a surpresa: arranjei um
emprego para você. De boy. No escritório do dr. Rodrigo. Por um bom tempo, Reizinho
ouviu a mãe falar, sem prestar atenção nas palavras. Via o rosto de Alzira, as rugas, a
papada no pescoço, a boca sem alguns dentes, os olhos, sem vida, a pele, sem viço.
Porra. Não poderia estar enganado. A surpresa não poderia ser aquela. Um emprego.
Boy. Jamais seria boy. Levar e trazer porcarias. E o meu pai?, ele perguntou,
interrompendo a explicação da mãe sobre as vantagens do tíquete-refeição e vale-
transporte. O seu pai? Sei lá do seu pai. Deve estar por aí, vagabundeando. Pensei
que ele viesse, disse Reizinho. Alzira riu de um modo estranho. Seu pai? Imagina. Na
minha casa? Por que ele viria? É meu aniversário, respondeu o menino. Ele nem deve
saber que é seu aniversário. Alzira riu novamente, um sorriso de escárnio, foi aquilo que
fez com que o menino reagisse. Não quero trabalhar com seu Rodrigo, ele falou. Alzira
se levantou, estava lá, novamente, a realidade diante dela, crua, o filho burro, menino
idiota, ouviu, mãe?, ela gritou. Eu me matando, e esse imbecil dizendo que não quer
trabalhar no escritório. Não quer ser boy? Sei, você prefere traficar drogas. Muito
melhor, mesmo. Assaltar. Matar. Vai. Você é burro ou o quê? Não percebe que eles
estão te dando uma chance? Sabe quem são os boys na empresa do seu Rodrigo?
Meninos que cursam a sexta série. Ele está te dando uma colher de chá. Você vai
aceitar o emprego, sim. Vai mesmo. E ai de você. Ai de você. Não vou, respondeu
Reizinho, interrompendo a mãe. Lembrou-se de Leitor. Perdedor. Alzira tomou a
resposta negativa como uma ofensa pessoal. Levantou a mão, o menino se abaixou,
pegando uma pedra. Eles são merda, não nós. Perdedor. Eles tiram o nosso amor.
Matam nosso amor. Ah, é? Você vai me jogar uma pedra?, perguntou a mãe,
arregalando os olhos. Não, ele disse. Vai, apedreja sua mãe. Seu idiota, imbecil, ela
gritou, entrando na casa para se atirar no colo da mãe, que via televisão. Você viu,
mãe? Por que você foi falar em surpresa?, perguntara Alzira para Carolaine no dia em
que a filha lhe contou como convencera Reizinho a aparecer na festa. Era só um bolo,
nem iria fazer nada, o menino não merecia, dissera Alzira. Bolo, apenas. Mas Carolaine
inventara aquilo, a surpresa, ele não viria, mãe, ela dissera, ele não gosta da nossa
casa. Aquilo, dito tão sem rodeios, não gosta da nossa casa, deixara-a arrasada,
destruída, e Alzira, sentindo-se culpada, decidira pedir um adiantamento aos patrões,
compraria algo para o menino, a tal surpresa, uma bola, um carrinho, queria tanto que o
filho a amasse, que consertassem tudo, de uma vez por todas, que esquecessem o
resto, que ele entendesse as dificuldades e agisse como Carolaine, colaborasse, era
tão difícil assim? Quantos anos ele tem?, perguntou Rodrigo, no café da manhã, depois
de ouvir o motivo pelo qual a empregada pedira um adiantamento. Doze. Melhor que
presente, Alzira. Manda seu filho no meu escritório, estamos precisando de um boy. Ele
é muito novo, dissera Juliana, que também tomava seu desjejum, doze anos, é muito
novo. É assim que se aprende, respondera Rodrigo. Trabalhando. Alzira ficara radiante.
E a partir daquele dia repetira milhões de vezes, a surpresa, a surpresa, inventando
para si uma mentira, que o filho iria trabalhar e se corrigir. Mas Deus lhe dera um burro.
Ele pegou uma pedra no chão, mãe, o meu filho, e ficou me olhando, a senhora
precisava ver. Ele ia me atirar aquela pedra.
Reizinho permaneceu sentado na varanda, ouvindo a Alzira praguejar e chorar na
sala, Cândida e Carolaine, a televisão, ele achou, mãe, que a surpresa fosse conhecer
o pai dele. Sabe qual é minha vontade? Que ele conheça aquele verme. Juro. Minha
vontade é essa.
Reizinho abriu o portão e foi caminhando pela rua. Perdedor. Não estava sentindo
nada, a tal da dor interna de que Leitor lhe falara. Não era aquilo. Dor. Havia um vão,
ali dentro, no seu corpo. Um espaço vazio, um furo. Porra. Vazando. Passou em frente
à casa de Suzana, José Luís, a mãe gritou. Vinha apressada, decidida, a bolsa
embaixo do braço, o rosto, vamos, era como se não houvesse nada humano naquele
rosto, ninguém, só nariz e boca e carne e ódio, vamos, ela disse, decidi, você quer
conhecer o seu pai, vamos, você vai conhecer seu pai.
Desceram até o ponto de ônibus, em frente ao açougue do Zino, em silêncio, a mãe
na frente, dizendo coisas para si mesma, e o menino atrás. Perdedor. No caminho, não
trocaram uma palavra. Alzira evitava olhar para o filho, enfiou o rosto na janela, o tempo
todo. Desceram no centro da cidade, perto da praça Argentina. Caminharam até o
viaduto, em silêncio. Venha. Alzira deu uma volta na região, procurando. Vamos. Vira o
ex-marido naquele mesmo local, fazia menos de dez dias, quando passara de ônibus, a
caminho do Hospital Santa Bárbara. O vagabundo. Depois de tantos anos. Bem diante
de seus olhos. A besta. E agora novamente, lá estava ele, o vagabundo. Inacreditável.
Barracos feitos com papelão, mendigos, sujeira. Está vendo aquele homem,
embrulhado no cobertor? Aquele homem sujo, bêbado? Vê? Ele está olhando para nós.
Aquele é seu pai, disse Alzira. Você queria tanto conhecer. Aí está. Seu pai.
9

U ma moça monocromática, cabelo e pele pálidos, descorados, os lábios,


sobrancelhas, olhos, a mesma cor desbotada em tudo, amarela, um tipo de
mulher que não era feia, nem bonita, miúda, muito séria e sem graça. Graça era seu
nome, nome infeliz, não havia nada em seus gestos e expressões, nenhum atrativo,
nenhuma graça, mas era uma pessoa boa e correta que tratava Reizinho com respeito
e cordialidade. Estes envelopes, ela disse, você leva ao correio. Os papéis, tire cópias.
Entregue esta passagem na rua Barão de Capanema, na casa da dona Beatriz. E, no
xerox, cuidado com a ordem dos papéis, eles embaralham tudo. E, ah, ia esquecendo,
passe na casa do dr. Rodrigo, ele esqueceu de pegar o celular.
Entrar e sair da Agência de Turismo Santorini não era fácil. Havia duas portas de
aço, pesadas, automáticas, uma de frente para a outra, que jamais se abriam
simultaneamente. Era necessário que uma estivesse fechada para que a outra fosse
liberada, e antes de passar por elas, a imagem do visitante era captada por uma
câmera acoplada ao teto do hall. Já fomos assaltados duas vezes, explicou Graça, no
primeiro dia de trabalho. Reizinho só tinha acesso a essa parte da agência. Nos fundos,
havia mais gente trabalhando, mais portas pesadas, mais câmeras, nosso escritório
tem vários departamentos, dissera Graça, turismo nacional e internacional, contas de
empresas, cada divisão cuida de algo específico, e não permitimos que nossos
funcionários circulem livremente pelos departamentos, para não congestionar o
ambiente.
Com certa frequência, Reizinho encontrava dr. Rodrigo entrando ou saindo da
empresa, terno e gravata, barbeado, simpático, sempre perguntando se Graça tratava
bem dele, sorrindo, que bom, ele dizia. Muito bom. Reizinho gostava especialmente da
hora do almoço, não pelos lanches dos botecos ao redor, jamais sentia fome, vendia
seus tíquetes-refeição e com o dinheiro comprava crack e Seven-Up, vendia também
qualquer coisa que pudesse ser trocada pela droga, um grampeador, um maço de
papel sulfite ou cartuchos de impressora. Os pequenos furtos no escritório, que
patrocinavam seu vício, não eram notados por Graça, e faziam do horário de almoço
um momento bom, ver pessoas, pipar, assistir ao futebol de meninas na praia, as
molengas, as babonas, todas com cara de otária, o técnico, um crioulo animado,
gritando, vamos, Patrícia, vamos, Renata, na bola, chuta para o gol, Renata, vai, não
chutavam, não corriam, Patrícia era uma sonsa, loiras com medo da bola, Reizinho se
divertia a valer assistindo às partidas.
Não era totalmente desagradável tomar ônibus para fazer as entregas, isso permitia
que Reizinho circulasse, visse pessoas, o que era infinitamente melhor que passar o dia
trancado entre quatro paredes, como Graça e a telefonista, Anete, que trabalhava num
cubículo mínimo, de Eucatex, uma caixa de sapato, equipada com uma mesa de PABX
e revistas de fofocas de TV.
Portanto, providenciar fotocópias, transmitir recados e fazer outros pequenos
serviços para uma agência de turismo não eram uma atividade totalmente insuportável
como o menino imaginara no início. Podia acelerar o ritmo, ganhar tempo, e, depois,
fumar e andar por aí, à vontade. Mas mesmo assim Reizinho não gostava de ser boy.
Todas as manhãs, quando se espremia nos ônibus repletos de porteiros e babás,
domésticas, secretárias, manicures, a caminho da Zona Sul, sentia um buraco dentro
do peito, amargura, e tudo isso só melhorava depois da primeira pipada matinal na
praça próxima à agência, shhhh, a poção mágica da força era aspirada através de um
cachimbo improvisado com embalagem de iogurte, pedras de crack, shhhh, queimando,
shhhh, eliminando na fumaça a substância poderosa, o néctar, a força. No escritório,
irritava-se, horários estabelecidos, cobranças, fez isso?, fez aquilo? Você esqueceu de
passar no Detran. Você sujou o envelope, lave as mãos. Você embaralhou os papéis.
As compras também o irritavam. Compre duas caixas de clipe médio. Mas estes são
grandes, pedi médio, volte e troque. Troque as pastas também, quero de elástico, você
não ouviu? José Luís, você é desatento. Mas você não falou em elástico, Graça. Dona
Graça. Falei, sim. Senhora, me chame de senhora. Já notei, você não escuta, José
Luís. O que Reizinho mais detestava era o que batizou de “a missa”, quando Graça
pregava as vantagens do boy que se esforça e é bom, do boy que faz isso e aquilo e
tem promoção, e, assim, vai galgando os degraus do sucesso. Graça sentia um certo
prazer com aquele sermão, dizer coisas como “ser alguém na vida”, “realizar-se”, “bem-
sucedido”, “camelei muito” e “é preciso batalhar” também acabava por torná-la mais
ativa no trabalho, mais eficiente, mais capaz. Progresso. Sucesso. Graça citava nomes,
contava casos, um rapazinho que contratamos, demorava três horas para ir ao correio,
mandamos embora, evidentemente. Despedido. Outro menino que entrou aqui como
você, mal sabendo escrever, e hoje é gerente da nossa empresa. O Adalberto.
Reizinho gostava do jeito como ela dizia “nossa empresa”, como se fosse sócia. Ria
disso, sozinho, no ônibus. Somos uma empresa de porte médio. Somos agressivos.
Acreditamos no seu potencial, ela dizia. Não devia acreditar, dizia Reizinho para Fake,
quando se encontravam. Vai se dar mal, a mulher. Não quero ser secretário, nem
diretor dos boys. Não faziam sentido algum as perspectivas de carreira apresentadas
diariamente por Graça. E havia ainda a desvantagem, naquele emprego, de ter a mãe
nos calcanhares. Dr. Rodrigo era especialista em esquecer o celular em casa, a pasta
preta, o carregador do telefone, a chave, e era sempre Reizinho quem ia buscar. E
então? Está gostando, filho? Alzira fizera milhões de vezes a mesma pergunta. Mas
você está gostando mesmo? A mãe metida no seu uniforme de doméstica, mãos
molhadas, lavando, a barriga na pia, satisfeita. Tem que aproveitar, José Luís. O dr.
Rodrigo é muito bom. Agrade ao dr. Rodrigo. Numa das vezes, dona Juliana entrou na
cozinha exatamente quando ele se despedia da mãe. Oi, José Luís. Estava mais
magra, a dona Juliana. Roupas de ginástica. Lançava-lhe olhares estranhos, a dona
Juliana. Outra vez, desceu o elevador com o professor de dona Juliana. Fortão, o
sujeito. Calor, hein, cara? Bom para zuretar, dissera o professor. Zuretar. Encontrara
também os filhos, os dois numa boa, vida mansa, sem preocupação. Bom nascer rico.
Reizinho ganhava salário-mínimo. Aquela merreca. Trabalhar oito horas por dia para
receber “aquele cocô mensal”, como dizia para Fake. Quando era olheiro, trabalhava
menos e recebia mais. Se fosse avião receberia mais ainda. Se fosse soldado de boca,
mais e mais. Quanto ganha um gerente de boca? Muito mais. E se tomasse conta do
morro, teria muito dinheiro. Se aumentasse seus pontos de venda, se aumentasse o
estoque de fuzis e metralhadoras, mais homens e granadas, cresceria, expandiria,
seria rico, porra, praticamente rico. Onze quilos de cocaína por mês, Miltão vendia.
Pouco. Miltão, cara escroto. Cheio de dinheiro. E mais Suzana. Reizinho o vira no
Onofre, falador, mostrando a arma que acabara de comprar. Óculos espelhados.
Babaca. Pente de noventa balas. Quanto o Miltão tira por mês, Fake? Era bom
conversar com Fake. Depois do trabalho, ia para o estúdio do amigo, ouvir rap, cheirar,
falar, Fake sempre tinha droga. Estou ampliando o meu esquema, dizia Fake,
mostrando os papelotes. Bico calado. Olha aqui. É o sistema abracadabra da operação
milagre dos peixes. Quanto você acha que o Miltão ganha, Fake? O Miltão, deixa eu
ver, snif, na base do, snif, sei lá, um montão, sniff, é bastante dinheiro. Miltão tem
caminhão, terrenos, snif, casas, aluguéis. Imita a sapa, Zé. Fake gostava quando
Reizinho imitava a Graça, é isso aí, a sapa, dizia Reizinho, ela parece uma sapa
branca, uma boa sapa. Olha, José Luís, ele dizia, imitando Graça, notei que sua leitura
deixa a desejar. Para crescer, vai ter que estudar, sniff, estudar e trabalhar. E ser fiel.
Sniff. E não se atrasar. E ser leal. E ser educado. E lavar as mãos. Só falta, dizia
Reizinho, só falta mesmo ela pedir para eu latir. Au au au. Gargalhavam os dois. Ela
deve achar que você, sendo preto e paraíba, está indo bem demais, disse Fake, rindo,
você é bom nisso, imitar, devia ser ator. Risos. Sniff. Não sou paraíba, afirmou
Reizinho. Risos. Mas é fosco, é favelado, dá no mesmo. Uma vez, contou Fake, eu
estava vendo um filme americano na TV, o personagem era brasileiro e se chamava
Pablito. Imagina. Um brasileiro com esse nome. Para os Estados Unidos, do Equador
para baixo, é tudo Pablito. É a mesma coisa, para Graça, você é favelado, preto e da
Paraíba. Aliás, isso dá um bom rap. Preto da Paraíba.
Reizinho pensava muito em dinheiro ultimamente. Desde que vira o pai, na noite do
seu aniversário, descalço, cobertor nos ombros, bêbado, embaixo do viaduto. Vá,
dissera Alzira, converse com ele. É seu pai. Vá lá e diga que você sempre quis
conhecer o seu pai. Não é isso que você tanto queria? Vá. Reizinho sentia seus pés
enterrados no chão, não conseguia tomar nenhuma iniciativa. Vê? É seu pai. Não.
Aquele homem reduzido a nada não era seu pai coisa nenhuma, era um homem
estranho, não pai, sujo, nada, porra, bêbado, um mendigo, é seu pai, sim, confirmara a
mãe, e esse bando de mendigos é a família dele, os vadios, bebem e dormem e sujam
a cidade, é só isso que fazem. Por que você acha, meu filho, que eu não queria que
você conhecesse seu pai? Isso não é pai. É seu pai, sim. Seu. Isso aí, essa coisa que
você está vendo, esse monte de trapo, esse lixo, é um cocô ambulante, um pedaço de
merda que não serve para porcaria nenhuma. É seu pai. Acabou com a minha vida,
esse homem. Você não sabe nem de um terço, Zé Luís. Os horrores que ele fez em
casa. Todo dia, chegava bêbado, e começava o meu tormento. Ficava com uma faca
atrás de mim, você no meu colo, um bebezinho. Uma vez, Zé Luís, nem vou contar, ela
disse, desistindo. Para quê? Vá lá. É seu pai. Não sinta pena, Zé Luís. Não se iluda.
Seu pai é um filho da puta.
Dias depois, em casa, pensando sobre aquele momento, Reizinho concluiu que fora o
cobertor que lhe dera uma ideia negativa do pai. Já vira muitos bêbados, sujos,
maltrapilhos como Francisco. Dezenas de vizinhos assim, no bar do Onofre, caindo pelo
morro. A diferença era o cobertor. Quando o pai levantava os braços, com a coberta
nos ombros, surgiam asas negras, um urubu enorme, um urubu cabeludo e
desequilibrado. Sentiu-se tão triste naquela noite. Voltaram para casa, os dois, ele e a
mãe, ela chorando no ônibus. Um choro reprimido, soluçante. Sentiu pena da mãe. Quis
abraçá-la, dizer alguma coisa, desculpa, porra, mas só o que conseguiu foi espremer o
nariz contra o vidro da janela e ficar ali, imóvel, ouvindo os soluços de Alzira.
Depois que começou a trabalhar na empresa do dr. Rodrigo, sempre que sobrava um
tempo, descia na praça Argentina à procura do pai. Observava-o a distância. Era
comum encontrá-lo dormindo debaixo do sol forte do meio-dia, os transeuntes
passando, os pés, as crostas de sujeira, os trapos, as feridas. De manhãzinha, via-o
ser tocado dos lugares, dos vãos, abrigos de lojas, marquises de bancos, policiais
chutando, fora daqui, vagabundo, fora. À tarde, bebendo, pedindo dinheiro. Se tivesse
dinheiro tiraria o pai da rua. Você pensa muito em dinheiro, dizia Fake, meu esquema,
mano, é arte. Snif. Só quero dinheiro para ajeitar as coisas. Quero ser artista. Não
estou a fim de ficar fugindo de polícia e nem de morrer com vinte anos. Todos se
fodem. Já vi muitos se foderem. Todos. Miltão vai se foder também. Está na glória e
amanhã, pumba, já era. Foi-se. Meu negócio é arte. Rap. Snif.
Esqueça a chatice. Vá para Paris. Você merece. Grécia, berço da cultura. London.
Itália. Macarrone. Já foi à Bahia? Não, nunca. Nem a São Paulo. Quando Reizinho mais
pensava em dinheiro era nos dias em que não havia muito trabalho e o menino era
obrigado a ficar sentado ao lado de Graça, vendo as propagandas na parede,
monumentos de Paris, ilhas, comidas, gente rindo e se divertindo, enquanto ele, ele e
Graça, ali, sem muito o que fazer. Por que não acabava logo com aquilo? Sentia uma
vontade enorme de dizer, Graça, estou fora, sair andando e não voltar mais. Nem sabia
por que voltava. Voltava por causa da avó. Emprego, emprego, a velha contava para
todos que o José Luís tinha um emprego fixo. Usava essa palavra, “fixo”, enfatizando-a.
Era boy, o José Luís. Grande bosta, o emprego. Sempre duro, sem dinheiro. Porra.
Normalmente Graça deixava sua carteira na gaveta do lado direito da mesa. Compre
um queijo-quente e suco de goiaba. Não, suco de melancia. A mão abrindo e fechando
a carteira, dinheiro, a carteira sendo colocada e retirada da gaveta, todos os dias, e
Reizinho sempre sem dinheiro, sempre vendo dinheiro, sem dinheiro, pensando em
dinheiro, querendo dinheiro, tome dez, tome vinte, você pode trocar este cheque para
mim? Notas de dez, cinquenta, aqui está o troco. Muito obrigada.
Reizinho não planejou nada. Foi num dia daqueles, um dia sem muito trabalho. Um
calor insuportável, o sistema de refrigeração enguiçado. Ele e Graça na sala, uma
vontade louca de fumar uma pedra, sair dali. Quando Graça entrou no banheiro, ele se
aproximou da mesa. Não ia roubar, não pensava em roubar, só ver. Pegar. Abriu a
gaveta, na carteira não tinha muito. Mas atrás, no fundo da gaveta, um maço com
notas novinhas. Contou. Oitocentos paus. Enfiou no bolso e saiu.
10

D ois quilos de músculo. Meio maço de cebolinha picada. Dois dentes de alho
socados. Duas cebolas em fatias. Colocar em pratos separados, nas quantias
certas, tomate, arroz lavado, a carne temperada. Alzira queria preparar todos os
ingredientes antes de começar a cozinhá-los, exatamente como via nos programas
culinários da TV, não era fácil, o telefone não a deixava em paz, seu Fernando ligara
várias vezes, limpe a carne, note que eu não deixo nadinha de gordura, dizia a
apresentadora, e dona Juliana com aquele mau humor, algo ruim estava por acontecer
naquela casa, via muito bem, e as facas de Alzira também não eram boas, tinha
ouvidos e escutava, aqueles dois, o professor e dona Juliana, ia dar merda, a melhor
coisa era imitar os três macaquinhos, aqueles que vira em algum lugar, boca, ouvidos e
olhos fechados, as facas não cortavam, nos programas de TV os alimentos eram
separados e organizados, não tinham corte, as facas, pimentões amarelos, pimentões
verdes, Alzira mal conseguia picar os legumes, gritavam seu nome a toda hora, onde
está minha saia preta, Alzira? Alzira, a campainha, oi, dr. Rodrigo, chegou cedo hoje,
dois cafés, Alzira, por favor, no escritório. Um fim de tarde confuso, não paravam de
pedir café com adoçante, Alzira cortava cenouras quando dona Juliana veio dizer, dr.
Rodrigo quer conversar com você, Alzira.
Na sala. Dr. Rodrigo no sofá, pernas cruzadas, é melhor você sentar, Alzira. Preferiu
ficar de pé, pano de prato nas mãos, pois não. Aconteceu uma coisa muito grave,
Alzira. Naquele momento, ela percebeu que nem era preciso que dr. Rodrigo lhe
contasse nada, ela sabia, esperava que isso acontecesse. Sim, pressentia, algo ruim,
algo terrível. Estivera o tempo todo esperando por aquilo. Era isso. A tragédia.
Roubou, seu filho. Vínhamos notando, desapareciam coisas do escritório, coisas
pequenas. Talvez já fosse ele. Não vou dar parte na polícia, porque é seu filho. Vou
pagar tudo, afirmou Alzira, faço questão. Ele vai devolver cada centavo.
Naquela noite, Alzira esperou José Luís na casa de Cândida, ficou na varanda,
andando de um lado para o outro, impaciente com o entra e sai de carnavalescos e
porta-estandartes, chovia muito, Alzira nem sentia a água no seu corpo, ia até o portão
e voltava, a roupa toda molhada, caminhava até o ponto de ônibus e voltava, passando
antes pelo Onofre, perguntando, alguém disse que Reizinho costumava frequentar o
barraco do Fake, ali, logo ali, bateu na porta, um rapazinho de brinco na orelha
apareceu, pois não, ele disse, música alta, sim, conheço Zé Luís, mas ele não veio aqui
hoje.
De madrugada, ao lado de Cândida, que não abandonava a máquina de costura, e
de Carolaine, Alzira aguardava ansiosa a chegada do filho. Ah, sim, ele ia ver. Calma,
mãe, dizia Carolaine, Alzira gritou com a menina, não me encha o saco, iria descer-lhe
a mão, sim, bater, ele ia ver, sova, aprenderia com surra, daria tanto naquele pivete,
tanto, sem-vergonha, tanto, parem de me olhar, vocês duas. Às vezes, na cama,
arrependia-se das surras que dava no filho, chegara a chorar em certas ocasiões
quando via no corpo frágil do garoto as manchas roxas, e, nesses momentos, sentia-se
uma mãe vencida, fracassada, mas agora não, rato, agora compreendia, isso mesmo,
surrara pouco o idiota, surrar, exatamente, bater, socar, minha vontade é pegar a
cabeça dele e dar na parede, mãe, até quebrar. A vergonha que sentira, seu filho
roubou, disseram, filho maldito, roubar, jamais, uma vergonha, humilhação, rato, ela,
Alzira, que tinha dificuldade até para aceitar algo que lhe era oferecido, parir um ladrão,
preferia ter parido um coxo, um débil mental, Deus, um retardado, a vida toda
trabalhando, limpando e esfregando a casa dos outros, passando dificuldades, nunca
pegara uma pera na geladeira das famílias, a vida toda assim, querendo e não
podendo, e agora, um pivete, um rato, um ladrão, ai, meu Deus.
Nos dias seguintes, Cândida, Carolaine, Suzana, andaram por toda a favela, ninguém
sabia de Reizinho. Não vimos, diziam. Não, não sabemos. Um magrelinho, de olhos
fundos? Não, não sei. Nenhuma notícia.
Na terça-feira, Leitor foi até a casa de Alzira, com Onofre, disposto a ajudar,
conheço seu filho, disse, falou das drogas, a senhora sabia que ele está se drogando?
Não, não, ela respondeu, confusa, sentindo as pernas fracas, você está errado, meu
filho não era viciado, ele não é viciado, corrigiu, sem tanta certeza, temerosa, morto,
sim, a ideia lhe ocorrera naquele momento, o filho poderia estar morto, agora, por
minha culpa, pensou, meu filho, e depois não disse mais nada, ouviu Leitor contar o que
sabia, o menino precisa de ajuda, ele afirmou, crack, sentia-se esmagada com tudo
aquilo, crack, destruída, como nunca notara nada de diferente no próprio filho? Leitor
aconselhou a família a ir até a décima sétima dar parte do desaparecimento, Alzira
estava tão desesperada, tão arrependida, se encontrasse o filho, prometera à Virgem
Maria, nunca mais tocaria um dedo nele, como não percebera? O terrível, ela disse
para Cândida enquanto aguardava ser atendida pelo delegado, o terrível, mãe, é que
nem posso perguntar onde foi que errei, eu sei onde errei, mãe, eu sei, ela dizia.
Quando o delegado as atendeu, Alzira só conseguia chorar, calma, dona, Abel, traga
um copo de água para a senhora aqui.
Reizinho não pensava em voltar para casa. Fazia quatro dias que vivia nas ruas,
andando, o dinheiro no bolso, largado nas praças e embaixo dos viadutos, fumando,
indo à praia, frequentando fliperamas, fumando, dormindo em qualquer lugar. Comprava
pedras aos montes, nunca consumira tanto quanto naqueles dias. Se demorava para
preparar o cachimbo, a sensação era horrível, sentia-se ameaçado por alguma coisa,
algo que entrava em seu corpo enchendo-o de medo, uma espécie de invasão que
ocorria, animais microscópicos, inimigos, espetavam sua pele, provocando medo e
coceira, e, às vezes, vontade de chorar e gritar. Dois sete, pensava em telefonar para
Fake, dois sete nove, no orelhão do Onofre, se conseguisse lembrar o número, queria
falar com Fake, talvez o amigo o ajudasse, nunca memorizava números, dois sete
cinco, se lhe dessem algum remédio, dois sete nove cinco, talvez lhe dessem algum
remédio para acabar com a invasão. Queria ver Cândida, deitar-se no colo da avó, mas
como, se os bichos não paravam de atacá-lo, se estava sempre vomitando e sofrendo
de diarreia? Não poderia voltar para a casa da avó. Porra. Não poderia ir para lugar
nenhum. Cagando. Nunca. Porra. Ficar. Vomitando. Dormir ali mesmo. Quando fechava
os olhos, as imagens boas de antigamente, as cores, não vinham, não conseguia mais
passear de carro com o pai, ir ao jogo do Vasco, comer hambúrguer, irritava-se com
isso, desde que o conhecera, nunca mais saíra com ele, fechava os olhos, o carro
vermelho surgia, buzinava, oi, pai, oi, filho, quem estava na direção era ele, o mendigo,
não o pai, cobertor nas costas, fedendo, bebendo pinga, com uma faca na mão, atrás
da mãe, Reizinho bebê, no colo de Alzira, e o urubu voando ao redor dos dois,
querendo matá-los, perdedor, e Reizinho se jogava do carro, acordava, corpo dolorido,
alguém chutando suas costas, fora, dizia a polícia, você não pode ficar aqui. Porra.
Reizinho estava na porta de um supermercado que abria, fora, as mocinhas que
trabalhavam no caixa chegando, um caminhão de refrigerantes estacionado, circulando,
começava o dia, porra, mais um dia. Enquanto tinha forças andava, de manhã sempre
havia alguma reserva, caminhava, entrava nos fliperamas, comprava fichas e passava o
tempo assim, em frente ao monitor, brincando de caçar leões, matar bandidos, acertar
alvos, explodir inimigos, o problema eram os alvos, não conseguia acertar, errava, os
leões fugiam, os bandidos, porra, e para piorar, o barulho que saía da máquina lhe
virava o estômago. Juntava-se aos mendigos e trombadinhas que apareciam no seu
caminho, sentia-se bem no meio deles, ia junto, caminhando com eles, ninguém se
importava, nem ele, ficava quieto, não gostava de falar, sentia uma nuvem escura
crescendo dentro do seu corpo, uma bola negra, que nascia na garganta e crescia,
imobilizando-lhe a língua.
Em duas ocasiões foi até a praça Argentina ver o pai. Sentou-se ao lado dele, num
banco, os dois, lado a lado, o pai bêbado, ele drogado, ficaram observando os camelôs
trabalhando, havia um vendedor engraçado, dizendo coisas, cantando, eles riram do
homem, cara maluco, disse o pai, levantando-se. Estava sem o cobertor naquele dia, e
Reizinho pôde ver como o pai era magro.

Sábado à noite. A embalagem do iogurte foi cortada com uma lâmina de barbear.
Reizinho, sentado no chão, pernas cruzadas, preparava um novo cachimbo. Mais à
frente, três garotos e uma menina observavam os carros estacionados, esse não tem,
diziam, nem esse, os babacas não deixam nada, riam, Reizinho só sabia o nome da
menina, Suzana, uma garota feia, magrela, seu nome é mesmo Suzana?, ele
perguntara quando fumaram juntos pela primeira vez, naquela tarde, meu nome é
Suzana, sim, tão feia aquela Suzana, tão diferente da verdadeira Suzana, a sua
Suzana, a Suzana das pantalonas e miniblusas, das mãos bonitas e cabelos cheirosos,
a Suzana que um dia o levou à praia, os dois sentados na areia, olhando o mar, o que
você vai ser quando crescer, Zé Luís? Vou ser motorista de caminhão. Quero viajar por
aí. E eu, dissera Suzana, quero ter uma butique de roupas. Apresentadora de TV. O
cachimbo não ficou bom, Reizinho pegou outra embalagem, cortou o dedo. Ai. Os
meninos agora observavam o toca-fitas de um Volkswagen estacionado. Reizinho
acendeu as pedras, chamou os garotos, crash, o vidro do carro foi quebrado, quer um
tapa?, Reizinho gritou, mostrando o cachimbo. Crack. Fumaça. Corre. Os meninos
fugiram, levando nas mãos o toca-fitas roubado, os quatro, shhh, Reizinho aspirou,
shhhhh, fodam-se, pensou, nunca recusavam, os fominhas, tragou novamente e sentiu a
força, ahhhhh, algo dentro dele, sorrindo, ou fora, Suzana, a verdadeira, sorrindo para
ele, a verdadeira Suzana, a sensação era essa, aspirava e sentia Suzana.
Quando levantou os olhos, a viatura já havia estacionado, policiais saltando, botas,
esses porras, esses porras, só matando. Duas armas apontadas na direção de
Reizinho. Chegaram chutando, gritando, dando tapas na orelha. Porra. Queriam saber
onde estava o toca-fitas. Esses porras, cadê os outros? José Luís nem conhecia os
pivetes, não sabia o nome deles. Só Suzana, eu conheço. Ah, não sabe. Tapa na
orelha. Merdinhas. Revistaram-no. Mais tapas. Pragas. Dentro do short do menino,
amarrados num saco plástico, quinhentos e trinta reais. Está ficando bom, isto aqui,
comentou um dos policiais. O dinheiro foi repartido entre eles. Sete pedras de crack.
Muito bom. Esses porras me enchem o saco, disse um dos policiais, guardando as
pedras no bolso. Vamos, coloquem o garoto no carro.
Às dez horas da noite, Reizinho entrava no pavilhão do Centro de Recolhimento de
Menores Tereza Guimarães Moraes, olhos injetados, agitado, o sangue gelado
correndo pelo corpo. Puseram-no em uma sala pequena, tiraram suas roupas,
revistaram-no, deram-lhe um par de chinelos e um pijama. Havia outros meninos na
cela, e aí, sangue-bom?, falavam baixo, a faca, diziam, treis-oitão, passar fumo,
Reizinho não se esforçou para escutar. Tentou fechar os olhos, mas sabia, não
conseguiria dormir.
Foram oito dias horríveis, só pensava em fumar, aflito, dando socos na parede,
tremendo, a gengiva sangrando, os funcionários gritando com ele, se você quer
confusão, podemos facilitar a sua vida. Vamos. Arrumem a cama. Dobrem os
cobertores, você aí, estou de olho em você. Você vai para a parede. De costas. De
manhã queriam que ele assistisse às aulas, você não pode ficar na cama, dizia uma
velhota, levante, vá escovar os dentes, inútil, assistentes sociais preenchiam fichas,
gritavam com ele, no almoço, fique sentado, proibimos facas, garfos, palitos, tudo o
que tenha ponta, em pé, todos, as histórias, a comida horrível, arroz nojento, roubei um
supermercado, matei um padeiro, assaltei um posto de gasolina, meu pai me ensinou a
bater carteira, e à noite, mais infelicidade, sentia uma tristeza tão grande no peito, junto
com outros meninos, vendo televisão, uma tristeza, uma vontade de morrer, queria
morrer, não voltar para casa, nem pai, nem Suzana, queria morrer de verdade.
Na segunda-feira, quando viu Cândida, a avó, diante do juiz de menores, assinando o
termo de responsabilidade, Reizinho se sentiu como um cachorro de rua. Voltaram para
casa de ônibus, de mãos dadas, rasparam seu cabelo, ela disse, mas até que você
ficou bonitinho.
Quando desceram, em frente ao açougue do Zino, Cândida contou que Alzira e
Carolaine o esperavam, a sua mãe quer muito que você volte para casa, meu filho, ela
quer te ajudar.
As duas o aguardavam no portão. Carolaine o abraçou, Reizinho notou seu rosto
cheio, Onofre tinha razão, Carolaine estava mais gordinha. Oi, filho, disse Alzira, os
olhos vermelhos, havia chorado. O cheiro acebolado da mãe. As mãos frias da mãe.
Tudo vai ficar bem, ela disse, abraçando-o com força.

Núcleo de Apoio e Terapia de Recuperação para Dependentes Químicos. Reuniões


semanais. Depoimentos impressionantes, crises de choro, lamentações. Comecei com
maconha. Comecei com crack. Com anfetamina. Quando descobri que meu filho se
drogava, o problema já era grave. Speedball é uma espécie de bomba atômica das
drogas, heroína e cocaína juntinhas, levando você diretamente para o topo do abismo.
Minha sensação era a de ficar caindo, durante horas. Os meus dentes queimavam.
Minha mãe, meu pai, as pessoas entravam em combustão, bem diante dos meus olhos.
Injetei na jugular. Ela fugiu do hospital, minha filha, para comprar droga. Vejam minhas
veias. Eu queria morrer. As reuniões eram semanais, e Alzira se sentia bem ao se
encontrar com pais e parentes de outros drogados. O importante é conversar. Explicar.
O diálogo. Coloque limites, mas lembre que repressão não resolve o assunto. Só o
amor resolve. Afeto. Compreensão. Seja amigo de seu filho. Dê apoio. Alzira tentara de
tudo. Às vezes, tinha a impressão de que o menino estava melhor, mas era só
impressão. José Luís não podia ficar sozinho um minuto. Quando o deixavam, pegava
qualquer coisa, rádio, panelas, qualquer coisa, e ia trocar por crack na boca de fumo.
Nunca voltava para casa, era preciso que saíssem à sua procura, estava sempre
jogado em algum canto. Outras vezes, os vizinhos, sabendo da situação, recolhiam-no
da rua, drogado, e o levavam para Alzira.
A ideia de procurar Miltão foi de Suzana. Ele, afinal, Alzira, controla aquele monte de
garotos. Os meninos respeitam Miltão. E além do mais, Alzira, você não tem muitas
opções.
Miltão recebeu Alzira na casa de Bidê, numa tarde de domingo, o céu armando uma
tempestade violenta. O rádio ligado, homens na porta fazendo segurança, nove homens
contou Alzira, desviando os olhos das armas. Dessa vez, o encontro foi diferente. A
mulher que meses atrás viera devolver o dinheiro que o filho recebera trabalhando para
os traficantes, não era a mesma que estava ali, pedindo socorro. Alzira estava mais
velha, mais cansada e, sobretudo, mais triste. O que a senhora quer que eu faça?,
perguntou Miltão, desligando o rádio. Fale com ele, respondeu Alzira. Explique que ele
vai morrer. Ele vai morrer, o meu filho. Posso falar, respondeu Miltão, mas não sei se
vai adiantar.
Reizinho estava na sala, vendo TV, quando Miltão entrou, com Suzana e a mãe. O
traficante fez sinal para que as duas os deixassem sozinhos. Conversaram, na verdade
só Miltão falou, José Luís ouviu, neguinho faz isso, neguinho faz aquilo, só na moral, ele
dizia, Zelão morreu, Branco ficou lelé, Reizinho ficou com vontade de rir, era ridículo
ouvir Miltão dizer que as drogas matavam. Mas matam, mané. Mané se fode. Eu não
uso bagulho. Reizinho sabia que Miltão gostava de pó, maconha, cheirava e fumava.
Você já me viu doidão por aí? Não, e nem vai ver. Eu vendo bagulho. É meu negócio.
Não fico envenenado. Desliga essa porra de TV, estou falando, mané. Reizinho
desligou a TV. Se neguinho quer morrer, continuou Miltão, estou cagando, mas, porra,
e tua mãe, cara? Você é pivete, não tem conhecimento da vida. Vim aqui te dizer isso.
A Suzana está preocupada. E sua mãe. Não vale cachorrar com os amigos. Eu paro,
disse Reizinho, paro de bagulhar, juro aqui mesmo que nunca mais fumo, nem cheiro,
nem nada, nunca mais, com uma condição. Qual?, perguntou Miltão. Volto a trabalhar
com você. Pirou, disse Miltão, rindo. Pirou total, o neguinho. Sua mãe, cara. Pirou. Sua
mãe, esqueceu? Neguinho me enche o saco, cara. Você me dá canseira. É minha
condição, disse o menino. Miltão coçou a cabeça, riu, e ao fazer isso, Reizinho notou a
arma, na cintura. Reizinho foi até a janela. Alzira conversava com Suzana. Mãe, ele
disse, vem cá.
Alzira entrou, desconfortável com a situação, aflita. Mãe, disse José Luís, a partir de
hoje eu trabalho com o Miltão. Nunca mais, na vida, a senhora vai me ver drogado.
Alzira suspirou, agoniada. O que mais poderia fazer?
11

E scadas e becos, descidas e subidas, escadas, choro de crianças por toda parte,
degraus, sobe e desce, vãos, muquifos, escadas, trapos nos varais, dobra à
direita, esquerda, desce para subir, sobe, degraus, desce, telhados e janelas, a cada
dia Reizinho percorria um trajeto diferente, aproveitando a caminhada em direção à
parte mais alta da favela, de onde observava a movimentação no morro para os
traficantes, para conhecer mais e mais o labirinto e as pessoas, aprender novos becos,
fugas, nomes, Vanessa, Cida, Jorjão, Washington, Dora, Edevaldo, Madeusa, Gisele,
Edicreia, gostava quando acenavam, oi, Reizinho, Fabiane, Lecilda, Wilmor, ou quando
percebia que ao virar ali saía aqui, neguinho tem que conhecer cada biboca, dizia
Miltão, cada buraco, seja um rato, esse é o conselho que dou para meus homens,
quanto mais rato, melhor, na hora de largar o dedo nos vermes, neguinho tem que ter
vantagem, e a vantagem é nossa, eles sabem entrar, atacar, mas sair, fugir, só nós
sabemos. Seja um rato.
Jamais deixava de passar em frente ao bar do Onofre para comprar cigarros e tomar
Seven-Up, oi, Reizinho, Onofre, rubicundo, os braços peludos sobre o balcão,
conversando e agradando as mulheres, contando piadas, oferecendo paçocas, é o meu
charme, dizia Onofre, as paçocas, ofereço paçoca de graça, mulher é séria até comer
o doce e se lambuzar, estou doido por uma dona, ai, Reizinho, uma digníssima senhora
que está destruindo o meu pau, ave, cruz, uma xoxota forte que agarra meu cacete,
ave, mãe, me esfola, me devora, caralho, como é bom foder, vida boa é foder, comer e
dormir, e eu aqui camelando, hein? E sabe do Leitor? Quem é a moça que anda
rosetando com ele? Uma grandalhona peituda e risonha? Por que o diabo não abre o
jogo comigo? Hein? Homem calado? Sempre desconfio de quem não gosta de falar.
Como vai sua irmã Carolaine, hein? Carolaine, tudo bem? Nada de novo com
Carolaine? Hein?
Lá de cima, Reizinho tinha uma boa visão do acesso principal, através do açougue de
Zino, onde, às segundas-feiras, homens descarregavam grandes peças sangrentas de
animais recém-abatidos. Via o morro todo, uma imensa massa cinza, sempre em
expansão, inacabada, cortada de todas as formas possíveis por pequenos caminhos,
ruelas, um labirinto de corredores e passagens, com poucas entradas e saídas.
Reizinho jamais se distraía, permanecia atento como um cachorro de guarda, aceso,
inquieto, nada de crack ou maconha, nem pó, éter, clorofórmio, tíner, nada, tudo aquilo
eram coisas passadas, decidira parar com as drogas e parara, sofrera, sim, mas havia
algo que o empurrava para a frente, determinação, empenho, decidira que nada o
desviaria, nada, os suores, os tremores, febres, Reizinho virava as costas para aquilo
que ardia dentro de seu corpo, ignorando vícios e vontades, se neguinho fumar, dissera
Miltão, neguinho vai se ver comigo, fodo teu cu, cara, eu fumo, eu cheiro, eu bebo,
porque não fico pancadão, tolero, não faço cagadas. Fumo para comer. Abre o apetite.
Não gosto de beber. Bebo para dormir. E cheiro para acordar.
Em dezembro, com a chuvarada, não havia trabalho pior no tráfico do que o de
olheiro. Molheiro, dizia Bidê. Função de molheiro é ficar molhado. Ri ri ri. Molhem. A
lama descia, os buracos se alargavam, as poças proliferavam, e, a cada chuva,
descobria-se que sempre era possível piorar um pouco mais.
Naquele dia, no final de seu turno, Reizinho recebeu a informação de que Miltão o
esperava na quadra em frente à construção abandonada de um grupo escolar.
Enquanto Reizinho descia, camiseta molhada, chinelos de dedo na lama, Rosa Maria, a
vadia, subia, sorrindo, maquiada, roupas novas, guarda-chuva, sapatos de verniz preto,
sabe o quê?, ela perguntou, alegre. Lembra do alemão? O turista? Vamos casar. Na
Alemanha. Rosa Maria seguiu contando, animada, que, na Alemanha, o governo era
obrigado a empregar todos os cidadãos, todos, as cidades eram limpas e organizadas,
o que era muito bom, Rosa Maria estava cansada de baderna, brasileiro é muito
desorganizado, “muito sem ideia básica”, brasileiro não tem objetivo. Sabia que foram
os alemães que inventaram a batata?
Chuta, eles gritavam na quadra, Miltão correndo, jogando pelada com os meninos,
gol, marca o baixinho, chuta, chuta, Reizinho se encostou no poste, observando, Miltão
notou a presença do garoto, levantou o braço e acenou, gol, Bidê e Bem Bolado
assistiam ao jogo, rindo, os meninos puxavam a camisa de Miltão, Miltão driblava,
corria, ágil, esperto, quando se deu conta, Reizinho torcia não apenas para o time de
Miltão, torcia exclusivamente para Miltão, gol, as palavras “nego-de-foder” e “traficante-
de-merda” e “bostinha-metido-a-besta” não vinham mais à sua cabeça quando pensava
em Miltão, gol, outras palavras surgiam quando o assunto era o traficante, palavras
mais positivas, “força”, “coragem”, “gol”, “liderança”, “colhões”, Reizinho admirava a
maneira como Miltão comandava a vida no morro, batendo e afagando, ameaçando e
facilitando, amedrontando e socorrendo. Miltão era leal aos homens que estavam
presos, soldados e gerentes de boca que haviam sido “capturados”. Vai para o
presídio, explicara Leitor certa noite, boa parte do bolo que ganhamos com drogas, é
isso, continuou, é isso que os jornais chamam de crime organizado. Você falou em
lealdade? É uma opinião. Lealdade e medo. Cagaço de que presidiários fujam e
resolvam estourar sua fuça. Por isso, quem quer continuar vivo, tem que colaborar com
os ferrados. Pelo menos por um tempo. Me diga, Reizinho. Você que é esperto, vê
alguma organização aqui? Somos peixes miúdos. Coisa pequena. Não há nada de
organizado aqui. Organizados são os hispânicos, os asiáticos, gente muito disciplinada
com esquemas internacionais, com métodos sensacionais de matar juízes e corromper
promotores e policiais. Sabe quais as armas desses caras? Energia nuclear. Sim,
senhor. Estou falando de plutônio e coisa parecida. Eles dominam tudo, prostituição,
lavagem de grana, sequestros, máquina de jogos, pornografia, furtos, falsificação e
agiotagem. Parece até que um desses comunistas chegou a ganhar uma escultura de
ouro maciço de um mafioso do Usbequistão. Isso é crime organizado.
Reizinho não compartilhava das ideias de Leitor. Mais que tudo neste mundo, gostava
de se imaginar como uma peça de uma engrenagem, uma esfera poderosa, um
sistema, uma força. E de pensar que havia muitas conexões. Hierarquia. Códigos e leis.
Soldados. Esquemas. Era bom saber que até os funcionários de postos de saúde
precisavam do seu aval para subir o morro nas campanhas sanitárias. Traficantes do
Rio disparam contra quartel, Tráfico movimenta quinhentos bilhões, Tráfico determina
luto na favela, os jornais falavam do seu mundo, nas manchetes, com destaque, Onofre
sempre lia as notícias para Reizinho. E havia também o estilo, dinheiro, Honda,
Mitsubishi, dólares, óculos espelhados, telefone celular, parabólicas, munição traçante,
noites de funk, churrascos, o jeito de andar, as gírias, Suzana, o respeito dos
moradores, Reizinho se impressionava com aquilo.
Vamos, disse Miltão depois do jogo. Já eram quase cinco horas da tarde, de sexta-
feira, quando entraram no Monza estacionado em frente ao açougue do Zino, Bem
Bolado, no volante, Miltão, na frente, José Luís e Bidê atrás. Logo que o carro deu
partida, Miltão disse a Reizinho que havia mandado roubar aquele veículo só por causa
da cor abóbora metálica. Gosto dessa cor. Reizinho se sentiu importante por Miltão lhe
contar algo, abóbora, procurou algo interessante para dizer, metálica, mas sucumbiu,
abóbora, não havia nada em sua cabeça, abóbora metálica, nenhuma resposta,
nenhuma ideia, sentiu-se um idiota, toda vez que estava perto de Miltão ficava sem
assunto, a cabeça vazia, nenhuma palavra, um idiota. Sorriu de volta, acanhado.
Abóbora.
Sempre sério, cuidando de sua vida, pouco falante, eram exatamente essas
qualidades que Miltão valorizava em Reizinho. Nunca faz perguntas. Sabe o quê? Gosto
desse garoto. Agora gosto. Não firula, não pede, não reclama, não embroma, não
enche o meu saco. Faz o trabalho dele, sério. É assim que tem que ser. Vamos batizar
o garoto. Você acha, Suzana, perguntava o traficante para a namorada, você acha que
posso confiar nesse pivete? Pode, ela respondia.
Chegaram na avenida Brasil, embaixo de chuva forte, Bem Bolado atento às saídas,
é mais na frente, dizia Miltão, toda vez que o motorista reduzia a marcha para visualizar
as placas, pode ir, é mais adiante, conheço o caminho. O trânsito estava pesado, muita
gente subindo a serra, fim de semana de sol, diziam no rádio, massa fria se deslocando
para o oceano, temperatura vinte e sete graus.
Havia um homem esperando por eles no último posto de gasolina, na saída do Rio,
um negro forte, Duque era seu nome. Entrou no carro, sorridente, falador. Duque sabia
imitar pessoas. Durante o trajeto, Miltão não parava de pedir, imita o Gringo, o Peroba,
o Marinho, o Preá, o Zoba, o Voutéir, o Ademilson, o Gambá. A cada imitação,
gargalhadas explodiam no Monza.

É por minha conta, falou Miltão para o grupo, quando entraram na Churrascaria
Brasinha. Explicou como funcionava o sistema de rodízio, você coloca as cartelas neste
treco, ele disse, referindo-se a um pequeno suporte de madeira. Vermelho é boi,
branco é frango, amarelo é linguiça, eles servem de tudo. Preto significa que você está
satisfeito. Miltão e seus amigos escolheram uma mesa perto da televisão, pediram
cerveja, comeram, beberam, Duque, zombador, sempre pilheriando e provocando risos.
No final do jantar, outro homem se juntou a eles, chamava-se Romeu e tinha um ar
inteligente, olhos espertos. Grande Romeu, brincava Miltão, a toda hora, batendo nas
costas do sujeito.
Pediram mais bebidas, foi uma noite animada. Reizinho se esforçava para
acompanhar a conversa, mas uma espécie de torpor o envolvia dos pés à cabeça, não
estava acostumado com tanta carne, muito álcool, o rosto quente, as pernas e braços
relaxados, as palavras que diziam, tudo rápido demais, sequestros, armas, carnes,
pistolas, Miltão e Bem Bolado bradavam, arrotavam, contavam casos, gritavam, e
Duque soltava peidos, macaqueando, arremedando, lembra daquele cara, que morreu,
o Pitanga? Imita o Pitanga. Não imito cadáver, respondeu Duque. Gargalhadas. Nem
veado. Vai que pega. Já pensou? Mais risadas. Só Romeu parecia não se divertir
muito. Um tipo cauteloso, observador, notou Reizinho. Não achava graça de nada,
porra, estranho.
Houve um momento emocionante, pelo menos para Reizinho, quando Miltão entregou
a Romeu um maço de notas, José Luís jamais vira tanto dinheiro. Só isso?, perguntou
Romeu. Já é muito, respondeu Miltão, puxando Romeu de lado. Os dois caminharam
até o balcão, conversando num tom baixo, amigáveis.
No caminho de volta, Miltão, indignado e colérico, xingava Romeu de todos os nomes
escabrosos que conhecia. Romeu, investigador policial, vendia armas e informações
para líderes do tráfico como Miltão. Mais um merdinha que quer arrancar pedaço. Filho
da puta desgraçado. Cuzão. Meus preços aumentaram, dissera Romeu. Aumentou o
preço, o puto, você ouviu isso, Bem Bolado? Cachorrão. E aquela conversa toda sobre
a carga que chegou na semana passada? Hein? Bem Bolado? Ouviu? Fica de olho
nesse cara. É coisa-ruim. Não vai levar nada. Puto fedorento. Viu o que ele queria me
vender? Aquela joça? Falei para o cão: meu irmão, isso aí não fura nem lata de
Nescau.
Vou ficar aqui, disse Duque, quando passaram de volta pelo posto onde ele fora
recolhido algumas horas antes. Bem Bolado não parou.
Reizinho se sentia bem, a bebida o deixara relaxado, seria bom, ele pensou, seria
bom se Duque imitasse outras pessoas, talvez isso alegrasse Miltão, talvez fosse
possível trazer de volta o clima descontraído do início da noite, imita o Onofre, ele
falou, no ouvido de Duque. Duque o olhou com desprezo, cala a boca, pivete. Não me
encha o saco.
Bem Bolado percorreu ainda uns dez quilômetros, antes de entrar à direita, numa rua
estreita, de terra. Andaram alguns minutos, agora em silêncio, só o barulho do motor.
Aonde vamos?, perguntou Duque. Sem resposta. O Monza estacionou na estrada
deserta, todos desceram do carro, só Duque permaneceu sentado, aguardando.
Miltão urinava ao ar livre, mirando o céu. Vem cá, garoto. Reizinho se aproximou,
constrangido. Quer mijar?, perguntou o traficante. José Luís olhou para o céu, não
havia nenhuma estrela, só escuridão. Está preparado?, perguntou Miltão. Preparado
para quê?, quis saber o menino. Para matar, respondeu o traficante, você vai matar
Duque.
Duque era informante da polícia, e isso fora revelado por Romeu, alguns dias antes.
Miltão fizera questão de levar Duque à churrascaria, temia que Romeu estivesse
cometendo um engano. Confusão nenhuma, é ele mesmo, confirmara Romeu, quando
ficara a sós com Miltão. Tenho certeza. Foi ele quem deu as coordenadas para a
invasão no barraco da embalagem.
Miltão explicou que ninguém era obrigado a nada. Iam matar Duque de qualquer jeito.
Furariam os olhos do traidor. Cortariam a língua dele. Ateariam fogo, depois. Era isso
que fariam. Mas Reizinho poderia dar um tiro na testa do homem e resolver o assunto
mais rapidamente. Era só um favor que estavam pedindo. Quando alguém pede um
favor, você pode prestar e pode não prestar. Você veio para isso. Para dizer sim ou
não. Você pode dizer, sim, posso matar esse sacana que traiu nossa galera. Pode
dizer, não, não quero sujar minhas mãos. Aqui, neguinho escolhe, disse Miltão.
Duque foi retirado do carro. Não fiz nada, ele repetia, juro por Deus, juro, juro. Só
tem escroto neste mundo, dizia Miltão, enquanto Bem Bolado e Bidê amarravam os pés
e as mãos do delator. Neguinho é um inútil, um bunda-suja, você vai lá, dá emprego
para ele, ajuda o fulano, e daí? O sujeito agradece? Retribui? Não, neguinho me fode,
entrega meu ponto de embalagem. Só isso. É mentira, repetia Duque, chorando, eu
juro, pelo amor de Deus, Nossa Senhora, eu juro, minha mãezinha, me perdoa. Coisa
que não suporto, disse Miltão, é quando o cagão começa esse lero-lero choramingas.
Duque, seu puto, seja homem.
Uma sensação de desconforto tomou conta de Reizinho quando Miltão colocou o
revólver nas suas mãos. Era a primeira vez que segurava uma arma. Sentiu o toque frio
do metal nos seus dedos. Não havia muito o que pensar. Eficácia. Matar um homem.
Sabia que isso aconteceria, só não imaginava que iria ser num dia em que seu
estômago estava tão cheio.
Reizinho mirou a cabeça de Duque e disparou. Errou o primeiro tiro. Foi só naquele
momento que o garoto olhou de verdade para a sua vítima. Os olhos gritavam, pedindo
penico. Porra. Os homens de Miltão pareciam se divertir com aquilo. Estreante é fogo,
disseram. O segundo disparo acertou na bochecha de Duque e fez um buraco do
tamanho de um tomate. Pronto. O negócio estava feito. Por alguns segundos, todos
ficaram em silêncio, ouvindo o som abafado dos soluços e engasgos da vítima, sangue
saindo pela boca e ouvidos.
Fibra, nervos de aço. Gostei, disse Miltão. Muito bom. Era assim que gostava de
avaliar o potencial de um novo membro do grupo, executando um traidor. Ótimo. Miltão
estava satisfeito. Está batizado, ele disse para o garoto, enquanto voltavam para o
carro. Gostei de ver.
12

E u matei um homem, fiéis. Aleluia. E não foi por vingança, discórdia, rancor ou
contenda. É triste dizer, esta é a parte que acaba comigo. Matei por dinheiro.
Aleluia, Deus é nosso pai.
Um senhor atarracado e musculoso, patético em suas expressões, relatava sua
tragédia para uma plateia de pobres, sofredores, velhos desamparados, enfermos
apoiados em muletas, viúvas, mães que perderam filhos, paralíticos em cadeiras de
rodas, mulheres abandonadas pelos maridos, jovens desempregados, ex-alcoólatras,
ex-prostitutas, todos moradores da favela, vestidos com suas melhores roupas.
Eu me lembro, senhores, continuou o pregador, eu me lembro que quando estava na
tocaia, aguardando o pobre coitado que iria assassinar a sangue-frio, Aleluia, o
desgraçado que nada de mau me fizera, eu vi, senhores, na tocaia, eu vi a imagem da
Nossa Senhora, Aleluia, vi, senhores, eu estava na varanda de uma casa simples, casa
de um trabalhador, vi aquela pequena estátua ali colocada para proteger a família,
como é comum em muitas casas que temos por aqui, vi, fiéis, a Virgem com seu filhinho
no colo, e imediatamente ouvi um choro de criança, um bebê, e naquele momento, fiéis,
eu, de revólver na mão, Aleluia, não percebi, senhores, que Deus me mandava um
sinal, colocando a Virgem diante de meus olhos, o choro do bebê, eu não via nada,
fiéis, não notava os sinais divinos, porque estava de braços dados com o demônio.
Alzira, sentada no último banco de madeira, com duas sacolas de plástico que
trouxera do trabalho nos seus pés, ouvia as palavras do orador, atenta. Ultimamente
andava se desviando do caminho de casa só para passar em frente ao templo
evangélico Rebanho do Puríssimo Amor do Nosso Senhor Jesus Cristo, recém-
inaugurado. O que lhe chamara a atenção, no início, fora a fachada revestida de cima a
baixo com lajotas marrons semelhantes às do banheiro de dona Juliana. Depois, nas
noites de vigília e nas festividades, começara a prestar atenção nas cantorias e
orações. Vira, diversas vezes, o pastor Walmir, que naquele momento ouvia comovido
até as lágrimas o testemunho de um convertido, andando nos arredores da igreja,
acompanhado de jovens. Sentia vontade de falar com ele, pedir ajuda. No entanto,
faltava-lhe ânimo. Naquele fim de tarde, voltando do trabalho, sem que tivesse
planejado nada, decidira entrar. Sentia-se tão bem ali. Lembrou dos tempos de moça,
quando ia com a mãe à igreja do Catumbi e cantava em voz alta os hinos religiosos.
Como era bom. Sentiu saudade daqueles domingos, cheios de sol, missas, roupas
limpas, domingos de verdade, com marido, frango na panela e macarrão, Alzira e seu
vestido de passear azul de bolas brancas, ela, o marido, as crianças no colo, indo para
a igreja, juntos. Não fazia tanto tempo assim. Como acreditava em Deus, Alzira,
naquela época. Francisco, o marido, era cobrador de ônibus. Homem bonito, o
Francisco, alegre, cheio de disposição para o trabalho, saía de casa, cedinho, pode me
esperar, mulher. Uma tarde, trouxera um colar de contas de vidro azuis para Alzira.
Aleluia. Por que tudo se acabara daquela forma? Quando Francisco começou a beber,
Alzira orava a Nossa Senhora Aparecida, fervorosa, ó Virgem Maria, abençoada sois, e
Francisco se tornou alcoólatra, perdeu emprego, vergonha, honra, ó Virgem, ouvi
minhas súplicas, rezara tanto, Alzira, gastara toda a fé que havia dentro do seu
coração. Vieram as surras, Aleluia, as ameaças, eu matei, eu matei, as amantes, a
separação, mas, àquela altura, Alzira já tinha abandonado suas preces. Não se
lembrava exatamente o momento em que desistira de Deus. Abandonara,
simplesmente. Esquecera Deus. Agora, ouvindo as palavras desesperadas daquele
homem, sentia-se pecadora por dizer, anos a fio, que Deus não a escutara. Fora ela
que deixara de orar, renunciara à Igreja. Talvez porque sentisse, naquela época, um
desconforto tão grande quando ia à missa, um mal-estar semelhante ao que
experimentava hoje quando entrava no carro de dona Juliana, ou quando servia a mesa
para os convidados do dr. Rodrigo. Mas, naquela igrejinha azulejada, Alzira estava
completamente à vontade. Para ela, o culto de alguma forma se parecia com as
reuniões da associação de apoio aos drogados. Havia fé, confiança e calor humano.
Quando ele me viu, senhores, a vítima, disse o pregador, ele pediu, humilde, que eu
não o matasse. Aleluia. Ai, como dói lembrar, senhores. Eu mirei. Ai, que triste. Eu
atirei, fiéis. E a esposa veio até a porta, senhores, com um bebezinho no colo,
igualzinha à Virgem, fiéis, gritando pelo marido, o bebê apavorado. Matei o pobre pai,
homem honesto, provedor daquela família. Por dinheiro. Matei, Aleluia, pequei, Aleluia.
Naquele momento, Glória!, as lamúrias tomaram conta do ambiente, o povaréu
chorando, de mãos dadas, gritando, Aleluia, evocando a Deus, todos de joelhos. As
cantorias começaram, e tudo aquilo, mesmo sendo as vozes parcialmente abafadas
pelo som que vinha da quadra de esportes, onde a escola de samba fazia seus ensaios
finais, elevou o coração de Alzira, fazendo com que ela sentisse que algo crescia no
seu espírito, Glória, Glória, eles cantavam.
Na saída, pensou em falar com o pastor Walmir. Chegou a dar alguns passos na
direção do homem, decidida, mas, de repente, notou suas roupas, não havia tomado
banho, suas mãos vermelhas e enrugadas de tanto mexer com água e detergente o dia
inteiro, seus cabelos fedendo a fritura, as sandálias sujas de lama. Não era vaidosa,
Alzira. Mas, sem banho, sentia-se indigna de conversar com aquele homem falante,
bem-vestido, sorridente, que olhava para ela, indo ao seu encontro, rodeado de fiéis,
era melhor ir embora. Quer falar comigo, minha filha?
Ao beijar a mão do pastor, ajoelhada, Alzira sentiu uma força irromper dentro de seu
corpo, desatou a chorar. Diga, minha filha, o que fere seu coração?
Alzira tremia, soluçando, as palavras não vinham, só lágrimas e soluços, e, no início,
nem ela mesma sabia dizer o que doía tanto, tudo era infelicidade e desespero. Quanta
aflição, minha filha, abra seu coração. Não era o trabalho que fazia Alzira chorar,
embora a patroa dona Juliana fosse temperamental, sim, gritava com ela, sua burra,
ela dizia, seu problema, Alzira, é burrice, mas logo depois Juliana se desculpava,
chorosa, arrependida, Alzira, estou tão estressada, minha vida, Alzira, ela falava,
querendo contar a verdadeira razão de seu tormento, o amante, Alzira, Fernando,
minha vida está uma confusão, Alzira já sabia de tudo mas se fingia de morta. Sabe o
que eu faria, mãe? Carolaine gostava de dar conselhos para Alzira. Daria um tapa na
cara dela, mãe. Juro mesmo. Burra? Tap, dava-lhe um tapão na orelha, esse tipinho ia
sair quicando. Que se dane, essa mulher, essa vaca. Não fale assim, Carolaine. Falo, é
uma vaca, sim, não gosto de ver a senhora sofrendo, mãe. A senhora é frouxa. Não se
tratava de frouxidão. A verdade era que os acessos de fúria de Juliana não a atingiam
mais, acostumara-se com os gritos, os maus humores, as grosserias, a falta de
respeito, era outro o motivo que fazia Alzira sofrer, algo maior, muito maior, mais
importante, mais sério, mais grave, algo que tirava seu sono, sua fome e sua vontade
de viver. O que é, minha filha? Deus está aqui para ajudar. Demorou ainda alguns
minutos para que ela conseguisse falar.
A camisa do meu filho, pastor, estava suja de sangue.
Walmir ajudou Alzira a se levantar, levou-a para uma sala, nos fundos da igreja,
ofereceu-lhe água. Calma. Quem é seu filho? Ele é da turma do Miltão? Conte tudo
direitinho. Que camisa é essa suja de sangue? Quem é seu filho?
Alzira sentou numa cadeira de plástico laranja, em frente à imagem de Cristo na cruz,
deixou que o pastor segurasse suas mãos. Não era fácil falar aquelas coisas. Aqueles
podres. Que o filho quase se matara de tanto se drogar e que agora trabalhava com os
traficantes. Que começara como olheiro e agora era avião, transportava drogas para lá
e para cá. Que o menino usava correntes no peito e roupas de bandido. Que falava
gírias estranhas e ganhava um bom dinheiro. Que ela não aceitava um tostão do filho, e
que infelizmente sua menina Carolaine não agia da mesma forma. E que tudo isso, por
pior que fosse, ela podia tolerar. Mas que, agora, ele cometera um crime, e embora
não tivesse certeza de nada, nem provas, sabia que fora algo terrível, porque era mãe,
e as mães sabem. Ele matara. Naquela noite, pastor, ele chegou em casa de
madrugada, tão atormentado, tremendo, entrou no banheiro, apressado, me evitando,
deixou o chuveiro ligado pensando que eu não escutaria, mas eu escutei, pastor. Ele
gemeu de um jeito estranho, não era um lamento, era um grunhido, um som horrível, ele
vomitou, pastor, vomitou, chorou, escutei tudo, com meu ouvido colado na porta do
banheiro. Saiu do banho com os olhos vermelhos, o rosto branco como uma
assombração, ligou a TV, só para me evitar. Preparei um leite quente para ele, conte
para sua mãe, eu disse, o que está acontecendo? Comi carne demais, ele respondeu.
No outro dia, quando fui lavar as roupas dele, notei, era sangue.
Alzira continuou chorando, nos braços do pastor, aceito tudo o que Deus me mandar,
padre, tudo, mágoa, doença, pobreza, solidão, morte, tudo, mas isso, um assassino,
matar um ser humano, meu filho, não aceito, pastor, não aceito de jeito nenhum. Não
aceito.
Já passava das oito quando Alzira deixou a igreja, sentindo-se mais aliviada. Havia
um cheiro bom de chuva no ar. Comprou pão no Onofre e subiu o morro, sem pressa.

Ao chegar em casa, Alzira encontrou Carolaine, em frente à televisão, descalça, uma


lata de leite condensado na mão. Oi, mãe, vai começar a novela. Beijou a menina,
tirando-lhe o doce, assim você não vai jantar. Ah, mãe, que chata! Nada estragava o
apetite de Carolaine. Era capaz de comer dois pratos de macarrão, mesmo depois de
ter devorado um pacote de bombons Sonho de Valsa, ou uma caixa de Bis. Viciara-se
em chocolate por culpa do irmão, que sempre trazia para casa pacotes de guloseimas.
Alzira ralhou com a menina porque ela não cozinhara feijão, nem lavara a louça da
tarde, tudo na pia, empilhado, panelas sujas, pratos, essas xícaras imundas,
Carolaine?, chamou, venha já lavar esta louça enquanto eu me troco. Estava cansada
demais para fazer tudo sozinha. Como foi o curso de computação? Sempre fazia as
mesmas perguntas para a filha. Aprendeu muita coisa? E Carolaine nunca lhe dava as
respostas que queria ouvir, respondia da maneira mais lacônica possível, interessada
apenas na novela, todas as noites eram assim, psssiu, mãe, o Alberto vai pegar a
Isadora beijando o Marcos.
Isadora está com o Marcos?, perguntou Alzira, já no quarto, trocando de roupa, mas
a Isadora não gosta do Carlos?
Ao se agachar para procurar os chinelos embaixo da cama, Alzira notou uma
pequena caixa, rente à parede. Era uma embalagem de algum produto. Vem ver, mãe,
o Alberto deu um tapa na cara da Isadora. O que aquilo estava fazendo ali? Abriu a
caixa, dentro havia dois vidros pequenos, um vazio, e outro com um líquido incolor.
Voltou para a sala, o que é isto, Carolaine?
A menina pulou do sofá, ágil, arrancou a caixa das mãos de Alzira, é um remédio
para espinhas, ela respondeu. Não mexa nas minhas coisas. Se fosse remédio não
estaria escondido, falou Alzira, me dê isso aqui. Foi preciso que Alzira usasse de certa
força para tomar de volta a caixa das mãos de Carolaine.
Alzira saiu pelo quintal, chamando Suzana. Leia isso para mim, ela disse, quando a
moça apareceu na cerca, toalha enrolada na cabeça. O que está escrito aqui? Suzana
pegou o produto. Olhou para Carolaine. Pergunte para a sua filha, ela respondeu. Estou
perguntando para você, Suzana. Leia para mim. Suzana suspirou, agoniada. Você vai
ter que contar, Carolaine.
O quê?, perguntou Alzira. O que ela vai ter que me contar, Suzana? Ai, meu pai,
vocês duas, o que estão escondendo? Carolaine correu de volta para casa, Alzira
atrás, fale, Carolaine, o que foi, filha?
A menina se jogou no sofá, abraçando uma almofada, fale, Carolaine, seja lá o que
for. Fale logo.
Estou grávida, disse Carolaine.
Ai, meu Deus, gritou Alzira, avançando sobre a menina, agarrando-a pelos cabelos,
eu sabia que isso ia acontecer, ai, meu pai, eu avisei, falei tanto, tanto, me solta, mãe,
pedia Carolaine, a senhora está me machucando, me solta, Alzira empurrou a menina
para o quintal, fora, fora daqui. Trancou a porta da cozinha, vai embora, ingrata, ela
gritava, chorando, fechando as janelas, abre, mãe, implorava a menina, abre a porta,
abre, não me deixa aqui sozinha, mãezinha, fora, replicava Alzira, fora, não vou criar
filho seu, eu trabalhando feito um cavalo, um cavalo, por que você fez isso comigo,
Carolaine?
Alzira sentou no sofá, chorando, atenta aos soluços da filha, lá fora. Você nem
completou quinze anos, ela gritava. Nem quinze, meu Deus.
Depois que se acalmou um pouco, Alzira trocou de roupa, pegou a bolsa, decidida.
Abriu a porta, Carolaine estava sentada no degrau da cozinha, a cabeça apoiada nas
mãos. Me leve até a casa dele, agora. O quê, mãe?, choramingava Carolaine, o que a
senhora quer? Larga de ser sonsa, quero falar com o pai dessa criança. Não, mãe, não
adianta. Você vai me levar agora na casa desse rapaz, agora, ou você nunca mais vai
pôr os pés aqui. Coloque sapatos.
No caminho, Alzira ajeitava as ideias em sua cabeça. Nem falaria com o rapaz.
Falaria logo com os pais dele. Sim, pensava Alzira, os pais teriam que se
responsabilizar. Afinal, sua filha era menor. Não fizeram o filho? Que casassem. Que
criassem o bebê. A criança teria um pai. Um nome. Casariam. E pronto.
Quando saltaram do ônibus, em Jacarepaguá, Carolaine ainda não havia conseguido
explicar nada para a mãe. Caminhava lentamente, com suas pernas gordas, o braço
roçando os peitos inchados, sem saber como convencer a mãe a voltar. Andaram duas
quadras, até chegarem numa vila de casas geminadas, é ali que ele mora. Uma casa
decente, disse Alzira. Pelo menos isso. Uma casa muito boa.
Nesse instante, um homem apareceu na varanda, acompanhado de dois meninos. É
ele, disse Carolaine. José Paulo.
Mulato, forte, mais de quarenta anos. Vem, Juninho, aqui com o papai, ele dizia. José
Paulo ajudava as crianças a entrar no banco de trás do fusca estacionado em frente à
casa, quando viu Carolaine e Alzira na calçada oposta, olhando para ele, paralisadas.
Foi um momento de desespero, os três se entreolhando, receosos, sem noção do que
ocorreria no minuto seguinte. Uma mulher, grávida, saiu apressada da casa, vamos,
amor, você pegou a fralda do Juninho? Peguei, ele disse. O que foi?, ela perguntou,
notando a presença das mulheres. Nada, ele respondeu. Nada. Vamos embora.
Entraram no fusca e partiram. Tudo muito rápido.
Um velho, disse Alzira, ainda abobalhada com a revelação.
Carolaine sentou na sarjeta, começou a chorar.
Um velho. E casado, meu Deus. Casado. Um velho safado, casado, com dois filhos.
Ele sabe da gravidez?, perguntou Alzira.
Sabe, respondeu a menina. Não fala mais comigo. Não adianta, mãe.
Ai, meu Deus. Dois filhos. Não vejo a hora de morrer para encontrar logo Jesus
Cristo, disse Alzira, ajudando a filha a se levantar. Vamos, menina.
Caminharam de mãos dadas até o ponto de ônibus, em silêncio.
13

P i pi pi, apitou o mestre de bateria. Coisa chata, ficar esperando, pensou Reizinho.
Desagradável, porra. José Luís detestava esperar. Mesmo ali, na quadra de
esportes, assistindo ao ensaio geral da escola de samba, com um copo de cerveja na
mão e mulheres praticamente nuas rebolando diante de seus olhos, Reizinho não
tolerava aguardar fosse quem fosse. Quando marcava um compromisso, era pontual.
Sempre. Não deixava ninguém esperando. Nunca. Já dissera milhões de vezes para
Fake que não se atrasasse, se fosse para embromar, melhor nem combinar nada. E
Fake não se corrigia. Na semana passada deixara Reizinho plantado quarenta minutos
em frente ao Frenesi, um salão de baile funk. Calma, brother, dissera Fake na ocasião,
relaxa, estou no clima de hip-hop latino, e mano já chega encarniçado. Nem parece
funkeiro. Teu problema, Zé Luís, é que você é meio branco. Teu lado branco te fodeu.
Para que tanta velocidade, diga?
Nem era mais a vontade de encontrar o amigo e se divertir na noite que o mantinha
na quadra de esportes, aguardando, impaciente. Agora, queria ver Fake só para dizer
o quanto estava exasperado, como era desagradável e enervante perder tempo
esperando, porra, perdera um bom programa na televisão, Máscara negra, um filme de
muita luta e porrada, poderia também ter ido à casa da Kelly, a garota que conhecera
no aniversário do Leitor. Minha mãe vai dar plantão no hospital hoje à noite, comentara
Kelly quando se encontraram no Onofre. E isso significava que os dois poderiam ficar
sozinhos na casa dela. Kelly nem era tão sensacional, peitos grandes, tagarela demais,
mas José Luís gostava daqueles encontros, estouravam pipoca e faziam sacanagens
no sofá até altas horas da madrugada. Seria um bom programa. Melhor do que ficar
ali, parado. Tudo por causa de Fake. Hoje à noite, Reizinho, dissera Fake, no estúdio,
vou te apresentar uma funkeira de arrepiar. Um mulherão. Um estouro.
Pi pi pi. Porra. A bateria, naquela noite, estava uma merda. Ninguém via aquilo? Não
sabiam o que era cadência, os cretinos, qual a razão do mestre de bateria apitar
daquela forma se ninguém se importava com nada? Como é que desfilariam na
Sapucaí, daquela forma? Toda a favela já cantava o samba-enredo, Esmeralda do
nosso planeta,/ és fonte esplêndida, és vida, és explosão da vida, Reizinho só
conseguira memorizar o refrão. Gostava de Carnaval, sentia até vontade de entrar na
bateria, mas não usaria aquelas roupas brilhantes que sua avó costurava para os
foliões, não sairia sambando bêbado como os outros, ainda mais sabendo que iam
perder. Perderiam. Todo ano perdiam e ficavam arrasados.
O que impressionava Reizinho, naquela noite, era a aparência de normalidade do
ensaio, o turista que entrasse ali e visse a tribuna de honra com os bicheiros e seus
seguranças, rodeado por negras de cabelo alisado e roupas minúsculas, pensaria que
tudo caminhava de vento em popa. E tudo ia muito mal. Dias antes, Reizinho visitara a
avó, no aniversário dela, quando lhe dera uma batedeira nova, e Cândida lhe pusera a
par das desgraças. Os bicheiros deram uma merreca, Zé Luís. Foi-se o tempo.
Acabou. Sem falar do Miltão. O traficante prometera, prometera, e ficara nisso mesmo,
promessas. Alzira costurava, lamentando-se. Para piorar, o carro alegórico do mico-
leão-dourado fora arrasado pela chuvarada do fim de semana. E Kiko, o carnavalesco,
descobrira que sofria de síndrome do pânico. Alguém sabia o que era aquilo?,
perguntara Cândida para as ajudantes ao redor. Medo de morrer, ela mesma
respondeu. Sim, inventam esse nome complicado para uma coisinha muito simples,
cagaço. Agora não eram mais só chiliques, o problema de Kiko. O homem suava e
estalava os olhos com medo de bater as botas. Daquele tamanho. Vê se penso em
morrer com essa quantidade de fantasia para costurar. Só o que me faltava! E sem
dinheiro. Essa é a questão, porque trabalhar, todo mundo trabalha, mas nós, nós
ganhamos uma mixaria para fazer o Carnaval, isso é amor, só amor, meu filho. Dou
minha vida para esta escola. Fale com o Miltão. Pi pi pi. Se na casa da avó o clima era
de derrota, ali na quadra esportiva, com turistas pagando dez reais para entrar e
sambar, o ambiente era de vitória e descontração. Bom era ver o puxador do samba,
um lixeiro, soltar seu vozeirão no microfone. Nem parecia aquele homenzinho
inexpressivo, sem graça, que durante a semana, em matéria de andar olhando para o
pé, não deixava ninguém para trás. Cantava sorrindo. Parecia até mais alto. E menos
franzino. Reizinho não aprovou as novas porta-bandeiras. Preferia Suzana. Suzana
desfraldava o pavilhão como uma dama, rodopiava, graciosa, fazia os passos
marcados, leve, ágil, linda Suzana. Mas Miltão proibira a namorada de desfilar naquele
ano. Havia boatos sobre eles, andavam brigando muito. Ciúmes, dissera Onofre. Não é
fácil segurar um mulherão daqueles. Suzana é muito gostosa. Com todo o respeito.
Uma potra. Não precisa me olhar desse jeito, Reizinho, é só um comentário. Beleza é
para ser admirada. José Luís sentia vontade de perguntar para o Leitor se aquilo era
verdade, os boatos. Leitor estava lá, fumando sem parar. Mas e se fosse? Que
diferença faria? Suzana o tratava sempre daquela forma, como se fossem mãe e filho.
Meu querido, ela dizia, abraçando-o. Você cresceu tanto. Nem parece o José Luís.
Miltão está te tratando bem? Hein? Qualquer coisa, me diga. Me conte tudo. Já falei
para Miltão, não quero ver você armado. Sem armas. Você é muito novo. Reizinho se
envergonhava quando Suzana se comportava daquela maneira na frente dos
traficantes. Não. Não perguntaria nada para o Leitor. Melhor nem saber. Além do mais,
Reizinho estava de saco cheio do Leitor e suas cagações de regras. Era só chegar
perto, e ele começava a despejar um discurso enorme. Não deixava ninguém falar.
Melhor ir embora, tentar dormir. Estava azedo naquele dia. E a culpa não era de Fake,
Leitor, nem de ninguém. Uma sensação estranha. Não fora boa ideia ir à casa de
Duque naquela tarde. Havia dias andava com o endereço do negro no bolso, desde que
o matara. Um barraco caindo aos pedaços, muito pior que o seu. Três filhos pequenos,
sujos, desgrenhados e famintos. A mulher resignada, estirando roupa no varal. E que
diabos ele tinha a ver com aquilo? Agora, porra, além do pai, porra, ia também se
preocupar com aquela lavadeira? Por que não esquecia? Sim, matara, e daí? Duque
era um traidor. Pi pi pi. Um traidor. E traidor, nós matamos, dizia Miltão. Quando
alguém entra nesse negócio, deve saber o seguinte, se trair, morre, é a lei, traiu,
morreu. Porra. Duas e vinte. Melhor ir para a cama.
Reizinho já estava deixando a quadra, quando avistou Fake, subindo, vamos para um
baile funk no Black Rose, ele disse, quer ir? Porra, Fake, só agora? Porra, você
combina e, porra, não aparece, porra, cara, cachorrada, porra!
Havia uma Kombi esperando por eles em frente ao ponto de ônibus. Reizinho sentou
no último banco, espremido, os mesmos caras de sempre, gritando, ua ua ua, ou ou ou,
um deles, o Japonês, não parava de mexer com quem passava na rua, Reizinho
também gostava de gritar no caminho, principalmente na entrada dos clubes, para
impressionar, chegar com presença, como dizia Fake, mas, naquela noite, achou tudo
sem graça, inclusive Black Rose. Nem bem entraram no salão, Fake sumiu no meio da
massa cantando do you love me?. Reizinho sentiu um desânimo, estava tão farto
daquilo, dos bailes, as bebedeiras, entrar na massa e avançar, recuar, dando socos e
cantando, tanta cretinice, por que viera, afinal?
Fake retornou com três adolescentes e dois funkeiros, hey, bro, a Jessica tem
jererê, alguém quer? Fake nem esperou a resposta, foi adiante, dançando, com o
grupo, em direção à porta da rua. Uma das moças permaneceu junto a Reizinho. Usava
uma camiseta branca, com um aplique de plástico, dois ursos amarelos de mãos
dadas. Seu nome era Marta. Magra, cabelos curtos, alguns centímetros mais alta que
José Luís.
Eu não fumo, ela disse.
Muito tempo depois, José Luís ainda se lembraria daquela noite, do impacto que a
chegada de Marta lhe causara. Em menos de um segundo, ele já havia desistido de ir
embora e mudado de humor. Já não se sentia deprimido, como no início da noite. Não
pensou mais em Duque, nem na esposa de Duque, nem nos filhos de Duque, nem em
Kelly, nem nos olhos vermelhos da mãe, que não parava de chorar desde que soubera
da gravidez de Carolaine. Ficaram, ele e Marta, lado a lado, observando a
movimentação das gangues, rindo um bocado com os socos e bofetões entre os
funkeiros, vez ou outra, ela comentava algo no ouvido dele, olha aquele troglodita! Viu o
tênis voar? Reizinho sentia o hálito mentolado de Marta em seu rosto, e isso lhe
provocava um calor que o arrepiava da cabeça aos pés. Estou com sede, ela disse,
vamos comprar alguma bebida, respondeu Reizinho, e na saída, atravessando a
multidão, abrindo caminho, eles se deram as mãos. Quando os dedos se entrelaçaram,
algo inédito se passou com Reizinho, sentiu-se invadido por uma sensação de euforia,
tantas meninas, ele pensou mais tarde na cama, conhecera tantas, a maioria
descartável, todas esquecíveis, por que apenas uma pessoa, no meio de tantas outras,
era capaz de provocar aquele ardor? Ele é forte, diria Marta, para as amigas, no dia
seguinte, e, meu Deus, como beija bem. Um beijador e tanto. Ai, ai, suspiraria Marta,
ansiosa para amar e adorar. Ela é linda. Ele tem olhos da cor do mar em dia de chuva.
Ela é bem-feita de corpo. Ele é engraçado. Ela é alta. Ai, que beijo!
Voltaram para o salão e ficaram o resto da noite de mãos dadas. Marta contou que
era a terceira vez que ia a um baile funk, mas que não gostava, preferia música lenta,
embora não soubesse dançar, meu corpo é duro, ela disse. Cursava a sétima série e
ajudava o pai nos negócios. O que seu pai faz? Comerciante, ela disse. E você? Eu sou
boy. Boy, ela riu. Metade dos meninos aqui é boy. Você gosta de funk? Gosto, ele
disse. E samba? Adoro. Eu também. Rap? Adoro. Rock. Quase adoro. Mais ou menos.
Ela era apaixonada por shows e músicas americanas, e morria de vontade de ir a um
programa de auditório, para ver os atores de perto. Ele era “vascaíno radical”, gostava
de ver luta de boxe na televisão, e era craque no skate. O skate não fora sua única
mentira, naquela noite. Reizinho falara muito de seu pai. De como eram amigos. Muito
amigos. Seu pai era gerente de uma empresa de transportes. Um bom cargo.
Separara-se da mãe e se casara com a secretária, a Rose. Muito bonita, a Rose. No
início, não gostava da madrasta, sabe como é, por causa da minha mãe. Um barato, a
Rose. Todo domingo almoçavam juntos. E, depois, iam andar de skate. Seu pai anda
de skate?, perguntou Marta. Sim, foi ele que me ensinou. Ganhei meu primeiro skate
aos cinco anos. O pai também jogava um bolão. Quase fora jogador profissional. Uma
figura, o pai, queria que ele e Carolaine fossem morar no Flamengo com eles, mas
Reizinho sentia pena de deixar a mãe sozinha. E, depois, estava bom assim, cada um
para o seu lado. Foi durante esse amontoado de mentiras que José Luís tentou. Não
sabia se ela permitiria. Estavam tão próximos, impossível evitar. Os lábios se tocaram,
suculentos, línguas doces por causa do refrigerante, beijaram-se tanto tempo, alheios
ao ritmo frenético do baile. Estavam bem na passagem que dava acesso às pistas de
dança, atrapalhando o movimento, algumas pessoas os empurravam, nem notavam.
Beijavam. O mundo que explodisse.
Foi durante esse beijo ardente que alguém começou a berrar no ouvido de Reizinho,
venha, depressa, o Fake foi preso. Japonês, que viera na Kombi com eles, puxava
José Luís pelo braço, afoito. Vá, disse Marta, eu te espero aqui. Não saia daqui, fique
aqui, ele gritava, afastando-se.
Lá fora, os seguranças do Black Rose tentavam desfazer a multidão de curiosos.
Circulando, vamos circular, diziam. Enquanto tentava atravessar a multidão, Reizinho
ouvia uma frase ou outra que diziam, a gente estava do outro lado, a polícia passou
numa ronda e viu aquele rapaz, na esquina, mocozeando alguma coisa. Esse cara está
sempre vendendo pó aqui, disse um dos seguranças para outro segurança. Bem feito.
Se fodeu. Com muita dificuldade, Reizinho conseguiu chegar até o camburão da polícia
estacionado em frente à entrada do Black Rose. Três garotos estavam sendo postos
na viatura. Fake era um deles. Avisa o Miltão, ele gritou, ao ver Reizinho sair do meio
da multidão. Avisa o Miltão.
Reizinho voltou para dentro do salão, atordoado, queria se despedir de Marta antes
de ir embora. Não acreditava que Fake tivesse feito aquela cagada. Fake não era
avião, como ele. Nem trouxa. Miltão não queria Fake trabalhando para ele, fazia tempo.
Deixava Fake cuidar da rádio, mas andava implicando com o garoto. Vivia fazendo
perguntas. E Fake sabia disso tudo. José Luís mesmo lhe contara, quando fora
promovido a avião. Miltão lhe dissera, sei que vocês são amigos. Fake está fora dessa,
dissera. Pelo menos por enquanto.
Marta não estava no local combinado. Não queria ir embora sem falar com ela. Não
tinha seu endereço, nada. Como se encontrariam novamente? Perguntou para duas
meninas que conversavam ali perto se tinham visto uma moça alta, com uma camiseta
de ursinhos. Elas riram. Não dá para ver nem a cara, disseram. Reizinho deu uma volta
no salão, atento, e depois aguardou alguns minutos diante da porta do banheiro
feminino. Nada.
Quando deixou o Black Rose, já amanhecia. Estava preocupado com Fake, triste,
uma angústia crescendo no peito. Diabos, por que ela sumira daquele jeito?
14

M il problemas na cabeça. Miltão desembrulhou uma bala Rin Tin Tin e a botou na
boca. Ainda não comera nada, o dia todo. Fake, traidor. Só problemas. E
Suzana. Suzana andava estranha ultimamente, aquele anel no dedo, o que é isso?,
perguntara Miltão, quando os dois estavam na cama, depois do sexo, mãos
entrelaçadas. Comprei, ela dissera. E, no outro dia, a versão já era outra, ganhei da
minha colega. Ganhara ou comprara? Uma briga sem fim, três semanas discutindo por
causa do anel. Colega, papo besta, como acreditar em uma conversa nojenta
daquelas? Não é fácil mentir para alguém que está atento como um cachorro. E a Rita?
E a Valéria? E a Cidoca? Pensa que não sei?, gritava Suzana, estou cansada de ouvir
por aí que você come todo mundo no Berimbau. Que mané-Rita, mané-Valéria? Não
muda de assunto, não, Suzana, neguinha ganhou anel e está se embananando toda
para explicar quem foi o xarope que deu, é, minha nega, desembucha logo. Cacete.
Problemas. Mas isso ele resolveria depois. Anel do caralho. Primeiro, os negócios.
Negão Bem Bolado acabara de mostrar o resultado da busca no estúdio do Fake:
trezentos gramas de cocaína escondidos num buraco na parede. No forro do velho sofá
do estúdio, foram encontrados vidros de bicarbonato de sódio, talco e pó de mármore.
Filho da puta. Miltão se lembrou de Arnóbio, o Nobre, antigo líder do morro do
Berimbau. Fora com ele que aprendera a falar “filho da puta” daquela forma, separando
bem as sílabas, fi-lho da pu-ta, com a voz rouca, rascante, a boca cheia de raiva e
nojo. Aquilo era contagioso. Dois dias com Nobre, e neguinho já estava falando “filho da
puta” igualzinho a ele. Era possível até mesmo saber se um camarada pertencia à
turma do Nobre só pela maneira como ele pronunciava “filho da puta”. Cinquenta,
sessenta homens, um batalhão inteiro falando “filho da puta” do mesmo modo. E
quando alguém virava as costas, Nobre já começava a chamá-lo de filho da puta
também, ainda que fosse um amigo, um aliado importante. Nobre era assim. Para ele,
que atualmente cumpria pena no Presídio Padre Moraes, todo mundo era filho da puta.
Logo que fora preso, Miltão costumava visitá-lo aos domingos, no pavilhão 7 do setor
C, para ouvir as suas orientações. Nobre possuía planos para aumentar os pontos de
venda, mas aquilo nunca ia adiante. O assunto era sempre o mesmo. Os filhos da puta.
A canalha. Os traidores. A corja. Todo domingo, Miltão ouvia a mesma lenga-lenga.
Naquela época, Nobre, condenado a cento e dezessete anos de prisão, consumia boa
parte do dinheiro enviado por Miltão comprando carcereiros, prostitutas, mordomias e
pagando advogados sacanas. Miltão cuidara pessoalmente da fuga do traficante,
gastara “uma fortuna” por causa dos caprichos de Nobre. Quero sair pela porta da
frente, dizia Nobre. Faço questão. E saiu, de fato. O problema era que Nobre não
“avaliava a realidade”, como dizia Bem Bolado. Ficara “dando sopa” na cidade,
passeando, sem a menor preocupação com a polícia. E fora preso. Um dinheirão
jogado no lixo.
O contato direto entre os dois traficantes acabara havia mais de um ano, quando
Miltão tivera sua ordem de prisão decretada por ter aparecido numa reportagem de TV
empunhando uma metralhadora e dando declarações vexatórias para a polícia carioca.
Na época, o governo estadual estudava a possibilidade de empreender uma “ação
saneadora” nas favelas, enviando aos morros tropas de elite das Forças Armadas. O
Rio de Janeiro está vivenciando uma guerra civil, diziam os partidários da ocupação
militar. E nossos inimigos têm poder de fogo de verdade, eles diziam, apresentando os
arsenais apreendidos em blitzes cada vez mais frequentes, vejam, Uru, fuzil HK-47, eles
estão preparados. A verdade é que estamos nas mãos da choldra. O Exército tem que
controlar as favelas. O problema no Rio, respondiam os que repudiavam a ideia de
invasão militar, não é o tráfico, nem a droga, é a desigualdade social. Quando se fala
em crime organizado, o foco deve ser o jogo do bicho, afirmava um político na
imprensa. Se a questão é acabar com o que apodrece o poder público e corrompe a
imprensa, nosso alvo é o jogo do bicho.
Os morros cariocas com seus jovens encapuzados e fortemente armados ilustravam
o debate sobre a intervenção do Exército na guerra contra as drogas, pauta obrigatória
de todas as revistas e jornais importantes do país. Vamos detonar, declarou Miltão
para um repórter de TV. A imagem de Miltão, com uma AR-15 nas mãos, fora editada
e glamourizada de tal forma, tão repetidamente, que Miltão virara o que Leitor chamava
de “o símbolo da palhaçada”. Para aumentar ainda mais o efeito da declaração, a
imagem do traficante fora vendida para dezenas de jornais e revistas, que a
reproduziram infinitamente, com manchetes alarmantes: Guerra!, declara o traficante,
Líder do morro do Berimbau desafia autoridades. O resultado de toda aquela confusão
era que agora Miltão não podia mais sair da favela como antigamente, sob o risco de
ser preso. E aquilo não fazia a menor diferença para o traficante. Seu mundo era
aquele lá, o resto do Rio de Janeiro que se danasse. Se era chato não poder circular
pela favela livremente durante o dia, à noite, o morro era seu. E quanto a não poder
mais visitar Nobre no presídio, a verdade era que Nobre já não era o mesmo. Perdera
força. E a prova disso era o episódio do Fake. Havia dois meses, Miltão mandara Bem
Bolado levar suas suspeitas até Nobre. Estava desconfiado do funkeiro. Andara ouvindo
coisas. A resposta de Nobre fora curta e grossa: Fake está limpo. Deixe-o em paz.
Agora que a traição de Fake estava comprovada, Miltão se martirizava por ter ouvido
os conselhos idiotas de Nobre. Só porque Nobre jogara futebol com Fake, a vida toda,
recusara-se a acreditar que o amigo era um filho da puta. Miltão estava farto daquilo.
Perdera a oportunidade de foder com Fake. Logo começariam a dizer por aí que era
frouxo. É assim que neguinho cai. Só problemas. E Suzana, ainda por cima. Só
problemas.

O prédio imenso, com dezenas de apartamentos minúsculos em cada andar, ficava


perto da Central do Brasil, no centro da cidade. Reizinho conhecia muito bem aquele
lugar. Transportava diariamente dezenas de papelotes para prostitutas, bancários,
cafetões, vadios, homossexuais e estudantes que moravam em bibocas daquele tipo.
Quitinetes do tamanho de um ovo, fedendo a miséria. Não havia um único grã-fino na
sua clientela. Reizinho ouvira milhões de histórias sobre a época em que
personalidades famosas, políticos e grã-finos consumiam cocaína em bandejas nas
festas e boates badaladas da cidade. Sentia não ter vivido naquela época. Só atendia
gente mequetrefe caindo pelas tabelas. E sem dinheiro, sempre querendo pagar
depois. Depois, amanhã.
Reizinho aguardava o elevador, impaciente, queria entregar a encomenda o mais
rápido possível e voltar para o morro, talvez Miltão já tivesse uma resposta. Miltão
prometera agir com presteza, falaria com seus informantes na polícia, veria exatamente
a situação de Fake, e então decidiria o que fazer. Sim, Fake era seu melhor amigo.
Queria ajudá-lo, acabar com aquele imbróglio. Nem passava por sua cabeça a ideia de
que Miltão não resolveria o problema. Subornariam os policiais. Todo mundo está à
venda, dizia Bidê, compramos delegados, investigadores, carcereiros, paguem os
putos. Embora dissesse para si mesmo que a situação do amigo era o motivo de seu
tormento, havia uma outra razão para aquela agonia toda. Queria estar com Fake o
quanto antes para lhe perguntar sobre Marta. Estava encantado com aquela moça.
Que delícia de menina! O simples fato de pronunciar este nome, Marta, inflamava seu
coração. Meu pai vai te ensinar a andar de skate, dissera-lhe na noite anterior. Vou
ficar com vergonha, ela respondera. Do meu pai? O homem é sensacional. Você vai
adorar meu pai. Os beijos lúbricos. Aqueles beijos não tinham nada a ver com os beijos
na Kelly. Sim, era bom passar a mão nos peitos de Kelly, rolar no chão, as sacanagens
todas, chata era a conversa, sou virgem, morro de medo de engravidar. José Luís
detestava quando Kelly falava daquela forma, aquele blá-blá-blá sobre neném e
gravidez e compromisso lembrava Carolaine e sua mãe, isso broxa a gente, dizia, coisa
chata, Kelly; é que eu morro de medo, ela respondia, morro de medo de engravidar.
Marta lhe agradara desde o início. Não fumava. Não bebia. Nem dizia bobagens. E
estudava. Alta, magra. Só não entendera por que ela não o esperara. Fake certamente
saberia onde encontrá-la. Iria lá. Hoje mesmo.
Apesar de não ter pregado olho durante toda a noite, Reizinho se sentia disposto,
alerta. Como o elevador estava demorando muito, decidiu subir os doze lances de
escada, correndo. Apertou a campainha do 1207. A porta se abriu, e um sujeito forte,
descabelado, trajando apenas cueca, apareceu, meio sonado. Reizinho não teria
reconhecido Fernando, o professor de ginástica de dona Juliana, patroa de sua mãe,
se o rapaz não tivesse ficado tão perplexo. Você, ele disse, que coincidência, você
aqui. Puxa vida. Não sabia. Reizinho perguntou se podiam conversar lá dentro. Não
gostava de fazer entregas em corredores, nem em praças, era precavido. Nunca
facilite a vida dos vermes, orientara Miltão. O bom avião é aquele que não cai, o que
anda com pouca mercadoria, faz a entrega entre quatro paredes e se manda. E era
assim que Reizinho agia. Você aqui, puxa vida, disse Fernando, mundo pequeno, claro,
vamos entrar. A sala estava cheia de copos espalhados, almofadas no chão, um
muquifo bem fedido, pensou Reizinho. Fernando falou alguma coisa do tipo esse-pó-
não-é-para-mim, Reizinho nem ouviu direito, estava preocupado apenas em pegar a
grana e se mandar rapidinho. Uma moça saiu do banheiro, enrolada numa toalha, e
entrou no quarto. Reizinho a reconheceu imediatamente. Alicinha, uma loira musculosa,
muito amiga de dona Juliana. São como irmãs, dizia Alzira. Uma não faz nada sem a
outra. Pelo jeito, não faziam mesmo. Fernando lhe entregou um cheque. Por favor, ele
pediu, não comente nada com Alzira. A Juliana, ele disse, e parou, procurando as
palavras, patético.
Reizinho concordou com tudo, queria apenas sair dali. Dez gramas de pó. E, no
bolso, um cheque de dona Juliana. Conhecia a assinatura. Na época em que trabalhava
para dr. Rodrigo fazia todos os pagamentos de dona Juliana. Era dela mesmo, o
cheque. E Alicinha. Caramba. Reizinho não se importava a mínima com aquela gente,
se fodiam, se traíam e cheiravam o pó com o dinheiro dos outros, qual o problema?
Cheque da dona Juliana. Gente escrota. Puta que o pariu. Pensou no tempo em que
trabalhava com dr. Rodrigo. Lembrou até do cheiro da colônia after shave que ele
usava. Um aroma de limão, que entrava na narina e grudava, durante dias. Gente
escrota.

Miltão só mandou chamar Reizinho no final da tarde, quando já tinha em mãos as


informações referentes a Clêmio dos Santos, vulgo Fake, que fora encaminhado para o
Centro de Reintegração do Menor São Francisco de Assis. Senta aí, Zé Luís. Você
veio aqui esta manhã, apavorado, me dizendo que o Fake estava preso, querendo
ajuda. Então escuta. Sabe por que ele foi preso? Porque carregava doze papelotes de
cocaína. De quem era essa cocaína? Minha. O puto me roubava.
Recipientes plásticos e materiais de embalagem estavam sobre a mesa. Está vendo
essa tralha toda? Tudo isso estava escondido, no estúdio. Que é meu. O estúdio é
meu. É minha aquela rádio comunitária. Eu pago neguinho, e neguinho me rouba. Do
caralho, isso. Negócio é o seguinte, Reizinho. Você vai me fazer um favor. Domingo é
dia de visita no São Francisco. Você vai lá e vai dizer o seguinte para aquele cretino: se
voltar aqui, morre. Só não mando matar lá dentro mesmo, porque aquele funkeiro de
merda é cupincha do Nobre. Se fosse outro, morria hoje mesmo. Diga a ele: só estou
esperando o puto entrar no meu morro. É isso, Reizinho. Já falei tudo. Estou notando
que neguinho quer abrir a boca, vou avisando: se quer defender o canalha, cale a boca.
E pode sair.

Já disse que não sei quem é essa Marta, Reizinho. Não conheço. Muda de assunto,
brother. Olha aí essa cambada na nossa frente. Esses pivetes. Assaltantes, todos. O
elemento anda de fralda e já assalta. É o crime da moda, brother, assalto. Todo mundo
é assaltante neste país.
Era domingo, os detentos recebiam a família no pátio do Centro de Reintegração do
Menor São Francisco de Assis. Reizinho e Fake, sentados lado a lado, protegiam-se do
sol, que refletia no chão acimentado, ofuscando-os. Fake estava perturbado com o que
Reizinho lhe contara sobre Miltão. Rira, no início, duvido que ele vá enfrentar Nobre,
dissera. Nobre vai me defender. Passados alguns minutos, já não pensava mais assim.
Você acha que vão mesmo me matar?, perguntou. Acho, respondeu Reizinho. Brother,
que fria. Juro por Deus, José Luís, não era meu aquele pó. Foi um cara que me pediu
para entregar, só isso, só entreguei. Fake se levantou, enérgico, dizendo que Reizinho
poderia ajudá-lo, tinham que reverter aquela situação, falariam com Nobre, com Leitor,
talvez, disse Fake, podemos fixar uma multa, pago uma grana para o Miltão, que tal?
Fake estava absolutamente certo de que aquilo poderia funcionar, sim, nós, os negros,
temos que criar um clube de camaradagem, é por isso que eu adoro os Estados
Unidos, lá os negros têm black power porque são unidos, não é ridículo matar um
brother por causa de dez papelotes? Doze, corrigiu José Luís, sim, dez, doze, é tudo a
mesma coisa. A questão é que você vem roubando há algum tempo, Fake, e o Miltão
sabe disso.
E se eu confessar?, perguntou Fake, aflito. Chego lá e digo, tudo bem, brother, errei,
roubei algumas vezes. Quanto?, perguntou Reizinho. Não sei exatamente, andei
pegando um pouco, lá na embalagem. Desde quando?, perguntou José Luís. Fake não
respondeu. De repente se deu conta da gravidade de sua situação. Miltão jamais o
perdoaria. Era um homem marcado. Fariam com ele o mesmo que fizeram com o Nói e
com Raimundo. Com Zecão. Iriam levá-lo para um terreno baldio e meteriam três balas
na sua cabeça. Eu só queria gravar minha fita-demo, Reizinho. Lembra do Ned, aquele
black que fez umas poesias inspirado na chacina do Fundão? Ele me arranjou um
produtor. É uma gravadora muito boa, que aceita produzir disco de iniciantes. Só que
eu tenho que pagar as despesas, entendeu? Eu sou um artista, fala isso para o Miltão.
Quando tiver a minha banda, famosa, faço show de graça para vocês, a vida toda. Que
cagada federal, brother. Como é que eu faço?
Na opinião de Reizinho, o melhor a fazer era deixar o tempo passar. Talvez Miltão se
acalmasse. Vou falar com ele. Promete, brother? Prometo. Você acha que vai
adiantar?
Quando finalmente esgotaram o assunto Miltão, Reizinho voltou a falar sobre Marta.
Que diabo de Marta é essa? Reizinho explicou novamente, ela estava com você na
quinta-feira. Marta? Não conheço nenhuma Marta, já disse. Claro que conhece, quando
vocês foram lá para fora, fumar, no Black Rose, ela decidiu ficar comigo. Sei lá que
Marta é essa. Não conheço nenhuma Marta. Você está me enchendo o saco, brother.
Reizinho saiu do Centro de Reintegração, decepcionado. Não havia dormido, ainda.
Passara sexta-feira e sábado no Black Rose, procurando por Marta. Ficara plantado no
mesmo lugar em que se conheceram, durante horas, e nada.

A vida nos meses seguintes foi isso, procurar Marta. Até quando fazia a entrega de
papelotes para os clientes habituais, Reizinho não perdia a esperança de encontrá-la,
num lugar qualquer. E quando sentava ao lado do pai na praça Argentina, o que era
cada vez mais frequente, não deixava de prestar atenção nos transeuntes. Um dia,
encontraria Marta. Era comum visitar Fake, contra a orientação de Miltão. Sabe do que
eu sinto falta?, dizia Fake. Não é do meu barraco, nem do hip-hop, nem de nada. Sinto
falta de poder andar sem rumo, por aí, mijar em qualquer lugar, olhando para o céu, é
disso que sinto falta. José Luís escutava o amigo falar sobre o governo, a sociedade, a
justiça, os sistemas não consertam picas, brother, aqui a gente só aprende a roubar,
trair, sacanear, foder, e mais nada. Escolinha boa, esta. Antes, Reizinho, eu era
inocente, hoje sei como puxar um carro, sei que a melhor maneira de escapar da
polícia, num assalto, é atirar numa velhinha que atravessa a rua ou num estudante no
ponto de ônibus, é assim que se cria tumulto para despistar a polícia, sei tudo. Reizinho
ouvia as lamentações pacientemente, só para poder perguntar mais uma vez: tem
certeza que você não conhece a Marta?
Embora se esforçasse sempre, mentalizando a imagem da garota antes de dormir,
só conseguiu sonhar com Marta uma única vez, no dia 17 de setembro. No meio do
sonho, delicioso, foi acordado pela mãe, gritando, agitada, vá buscar um táxi, tua irmã
vai parir. Naquela mesma noite nasceu o filho de Carolaine. Três quilos e duzentos
gramas, mulato, saudável, um garotão. José Luís ficou emocionado ao segurá-lo nos
braços. Como vai se chamar?, quis saber Alzira. Carolaine, deitada no leito do Miguel
Couto, de olhos fechados, não respondeu. Vai ser Alas, disse Alzira. Acho lindo esse
nome. Alas José Reis.
15

A las deu dois passos titubeantes e caiu. Vocês viram?, perguntou Suzana, que
brincava com o menino na cozinha da casa de Alzira. Está louco para andar, esse
guri. Fala, Alas: ma-dri-nha. Alzira passava fraldas, empilhando-as, em seguida, na
mesa de fórmica da cozinha. Alas, diz para a madrinha, quem é a Suzana? Dima,
balbuciou o menino. Suzana o encheu de beijos, vocês viram? Ele me chama de dima. É
a madrinha, não é, neném? Lindo. Tira estas fraldas daqui, Carolaine, pediu Alzira.
Carolaine, no sofá, lia entretida o suplemento de TV do jornal de domingo. Fofo.
Gostoso da madrinha. Carolaine, gritou Alzira, não está ouvindo? Estou lendo o que vai
acontecer na novela, mãe. A Isabel vai descobrir que André está com a Amélia. Escuta,
próximos capítulos: segunda-feira, Antônio Luís ouve Amélia dizer ao telefone que está
doente. Eunice implora para Rafael voltar para o estaleiro. Clarice no elevador sofre de
enjoo, e Marcos fica desconfiado. André ouve conversa de Isabel com Clarice sobre a
doença de Isabel. Terça-feira: Isabel segue André até a casa de Amélia. Antônio Luís
recebe carta de Isabel rompendo o noivado. Rafael impede Otávio de entrar na casa
do patriarca e diz que o magnata Pedro Albuquerque vai deserdá-lo. Henriette chega do
Japão, deixando a família Albuquerque com os nervos à flor da pele. Qual a graça de
saber os capítulos antes?, interrogou Alzira. A gente devia parar de acompanhar
novelas, isso sim, o pastor Walmir condena as novelas, a televisão só mostra o vício e
o pecado. Não foi o que o pastor disse, afirmou Carolaine, sem largar o jornal. Walmir
acha que quem assiste à TV o dia inteiro, acaba tentado pelo diabo. Não somos assim,
não passamos o dia grudadas na TV, assistimos à nossa novelinha, que mal há nisso?
Todo mundo vê novela, mãe, o Brasil inteiro. Até o dr. Rodrigo, concordou Alzira, rindo.
A das sete e a das oito. Aquele baita homem engole o jantar, apressado, só para se
postar diante da TV, o quanto antes. Carolaine continuou a ler o resumo da semana,
mas Alzira não prestava mais atenção. Sentia-se feliz em casa, passando roupa com o
ferro que dona Juliana lhe dera uma semana antes, ao comprar um novo. Sentia-se
tranquila, a televisão ligada, o estômago empanturrado de frango com macarrão e
Coca-Cola, Suzana brincando com Alas, tudo muito bem. Viviam de acordo com os
ensinamentos de Deus. E felizes. Com pouco dinheiro, mas com Cristo. E ditosas.
Alzira sofrera muito ultimamente, comera insosso e bebera salgado, mas agora era
feliz. Graças ao pastor. Sim, se hoje Alzira gozava paz na vida, devia isso ao pastor
Walmir. Fora ele quem lhe mostrara o caminho de Cristo. Cristo está ao seu lado, dizia
sempre. Dentro de você. Como pode ter passado tanto tempo sem Cristo? Tudo era
mais fácil, com Cristo por perto. Até o trabalho. Dona Juliana deixara de gritar pela
casa e de xingá-la de burra, macaca incompetente e troncha. Fora Cristo, a razão da
mudança. Logo depois que voltara para Cristo, Alzira encontrou, certa manhã, dona
Juliana chorando na sala por causa de uma briga pelo telefone com o seu Fernando.
Encorajada por Cristo, Alzira lhe disse de um fôlego só: a senhora vive em pecado e só
Cristo pode salvá-la. Pronto, foi o que bastou. A patroa, agora, tratava-a com respeito.
Muito obrigada, Alzira. Por favor, Alzira. Tome mais este troco, Alzira. Graças a Cristo.
E não era só no trabalho que as coisas caminhavam bem. Carolaine, que lhe dera
tantos problemas, mudara da água para o vinho. Rejeitara Alas no início, mas, agora,
tudo era diferente. Com Cristo. Graças ao pastor. Glória a Deus! Carolaine deixara de
lado a rebeldia. Religiosa, frequentava os cultos diariamente e acompanhava Walmir
em muitas atividades. Sua filha só precisa de orientação, dissera o pastor. Uma boa
menina. Uma ovelhinha. Extraordinário, o pastor. Sim, Carolaine não trabalhava, nem
estudava, mas quem ia cuidar de Alas? E o José Luís continuava em companhia do que
Alzira chamava de “bando de corja”. Coisa de Satanás, cão, rabudo, bode-preto, bruxo
do inferno, maligno. Mas ela não perdia as esperanças. Agora, que o pastor Walmir
frequentava sua casa, quem sabe? Ele conseguira fazer de Carolaine uma ovelha, por
que não levaria José Luís para o rebanho do bem? José Luís seria um bom servo de
Cristo. E a Kelly, também, outra ovelha. Alzira aprovava o namoro. Acho bom que o
André saiba da doença da Isabel, disse Carolaine. Depois, eles vão descobrir que o
diagnóstico é falso. Trocaram no laboratório. Vocês ouviram?, perguntou Suzana, o
Alas falou dima, de novo. Fala para a Suzana ver, fala. Dima. Alzira observava o neto
com amor. Dima. Esse menino, ela disse. Está na hora de dormir, vem, Alas, nenê vai
mimi. Di-ma. Mimi com a vovó. Suzana beijou Alas na bochecha muitas vezes, menino
lindo, ela disse, fofinho, amorzinho da dima, vou morrer de saudade de você. Que
história é essa, Suzana, vai viajar?, perguntou Alzira, desconfiada. Não, respondeu a
moça, com ar aparvalhado. Vocês duas, disse Alzira, pegando o menino no colo, vocês
duas pensam que sou tonta. Sou é muito viva.
Carolaine acompanhou Suzana até a cerca que separava os quintais. As amigas se
abraçaram, demoradamente. Estamos dando bandeira, comentou Carolaine. É
verdade, vou indo, despediu-se Suzana, olha só meus olhos, já estou chorando. Cuide
bem do Alas, Carolaine. Seja uma boa mãe. E bico calado, hein? As duas se
abraçaram mais uma vez. Carolaine esperou Suzana entrar e voltou para casa, ouvindo
o choro de Alas. Ai, como aquele pivete chorava. Não aguentava choro de criança.
Coisa irritante. Se arrependimento matasse... Menino chorão.

Querido Onofre, a Alemanha é um país organizado. Todos trabalham e têm saúde.


Há muitos velhos como você por aqui, nenhum tão feio, tão safado, nem tão mão de
vaca. A neve é branquinha, e o Heinrich me trata muito bem. Tenho um casaco de pele
de oncinha que custou seiscentos dólares. Eu sou muito feliz, Onofre. Só tenho
saudade de sol forte, feijão-preto e caipirinha. No resto, aqui tudo é melhor. O
supermercado da esquina da minha casa é a coisa mais linda do mundo. Vendem de
tudo. Até carro. Moro numa casa com três quartos. O único problema é a língua. Não
entendo picas, Onofre. Conte para todos os nossos amigos que a Rosa Maria é feliz.
(Conte para a sua mulher.) Beijos. Rosa Maria Schoffler.
O cartão havia sido postado na Alemanha, Berlim, e mostrava uma estação de esqui,
cheia de gente bonita e colorida. Onofre, depois de passar o fim de semana exibindo-o
para os fregueses, conversava com Suzana, que parara para comprar cigarros. Quem
será que escreveu este cartão para a Rosa Maria? Ela não sabia escrever, a Rosa
Maria. Ou sabia? Quem diria, hein? Rosa Maria casada com um fritz. Na verdade, não
me surpreendo. Esses fritz gostam mesmo é de uma mulatona com bunda grande.
Pudera. Você já viu algo mais desinteressante do que aquelas branquelas? Na
adolescência são lindas, as sardas, bochechas rosadas, mas depois dos trinta, tudo
baranga. Elas despencam, as brancas. Ficam quadradas. E vermelhas, como o Papai
Noel. Tudo mole. Um horror. E nossas negas são mais pedra. É, onde canta o sabiá. E
redondas. Tem sempre um punhado de fritz babando em Copacabana com nossas
pretas, não é verdade? Isso eu entendo. Mas não consigo compreender como é que
um estrangeiro rico se casa com uma prostituta rodada como a Rosa Maria, hein? E
dar casaco de pele e tudo? Você acha que existe casaco de pele de seiscentos
dólares? A Rosa Maria deve estar me sacaneando. Puta safada. O que há com você,
Suzana? Perdeu a língua? Aonde vai com tanta pressa? Cadê o Miltão?
Suzana pagou sua conta no Onofre e desceu apressada a rua de terra batida,
cuidadosa, não queria sujar seu sapato novo, presente de Zequinha Bigode. Na bolsa a
tiracolo, apenas dois vestidos, duas calcinhas e um sutiã. Era melhor assim, sem mala,
para não chamar a atenção de Miltão. Aqui, dissera Zequinha, você vai ter tudo. É só
pedir. Roupa, xampu, churrasco, celular, frescuras, videocassete, pode pedir. Você vai
ser a minha princesa. Zequinha não era como Miltão. Não havia termos de
comparação. Fino, educado, ensino médio completo. Conhecera Zequinha na festa de
aniversário de uma amiga no morro dos Marrecos. No início, não gostara dele,
atrevido, dois olhões gulosos, cheio de perguntas cretinas. Oi, lindeza, está sozinha?
Gosta de carne? Nem tchuns, contou Suzana para a amiga. E depois, nas semanas
seguintes, Zequinha não lhe dera paz, todo dia enviava um recado, pela amiga. Vá me
encontrar no Boi Gordo, sábado, oito horas. Nem morta, dizia Suzana. Convencido, o
que ele pensa? Mas quando Zequinha mandou entregar aquela correntinha de ouro,
com um coração onde estava escrito “Cleópatra Suzana, estou apaixonado”, aí, sim,
Suzana vidrou. Aquilo foi muito bom. Ótima ideia. E depois o anel de ouro. Gamei. Vinte
e quatro quilates, ele dissera. Você é muito cara, nega. Já gastei um dinheirão com
esta mulher, ele dizia. Homem quente. E na cama, uma festa. Incansável. Depois que
passara a dormir com Zequinha, só pensava em Miltão como “a foda automática”. Ligar
e foder. Zequinha, não. Só faltava rezar antes do sexo. Ajoelhava-se, maravilhado com
o corpo perfeito de Suzana, mulher linda, ele dizia. Você é a minha luz. Rainha.
Princesa. Deusa. Anjo, ele dizia. Sabe o que você vai fazer?, perguntava. Detonar a
Terceira Guerra Mundial, só isso, ele falava brincando, quando os dois estavam na
cama.
Os morros do Berimbau e dos Marrecos, na época do Nobre, viviam em combate,
disputando pontos de distribuição de drogas. Quando Nobre foi preso, Miltão e
Zequinha estabeleceram um acordo, dividindo o território. A diferença, disse Zequinha,
é que eu continuei crescendo, e Miltão ainda está naquela vidinha de traficantezinho de
meia-tigela. Na verdade, ele dizia, o problema do tráfico no Brasil é este, burrice pura.
Burrice não tem remédio. Burrice e progresso não combinam. O tráfico não vai para a
frente por causa dos traficantes, gente ignorante, fodidos estropiados que não têm
onde cair mortos. Zequinha Bigode, ao contrário da maioria dos líderes, não se metera
no tráfico porque era mais um pobre-diabo sem nada melhor para fazer. Era técnico em
eletrônica. Mas acontece, dizia, que não nascera para ser escravo do sistema. Nem
para passar fome. Não sou otário, dizia. Hoje, com quarenta e dois pontos de venda,
liderava o tráfico no morro dos Marrecos. Se se mantinha no comando era porque
possuía tino para o negócio. Sabia que investimento na mineiragem era certo e seguro.
A polícia levava uma “bolada semanal”, mas em compensação seus negócios
prosperavam. Gozava de uma vida confortável. Comprara uma casa boa, onde vivia
com as duas filhas adolescentes e a mãe. E no seu patrimônio constavam dois táxis,
quatro caminhões, três galpões, sete Kombis e dois terrenos grandes. Tudo no nome
das filhas, porque não era besta. Comigo, não tem perhaps, era o seu bordão. Agora,
depois de sete anos de viuvez, resolvera casar com Suzana. As filhas não aprovaram a
ideia no início, mas fazer o quê? O pai fora categórico: Suzana vem morar aqui e ponto
final. Não gostaram? Então, engulam.
Na descida do morro, Suzana encontrou alguns soldados de Miltão. Em frente ao
açougue do Zino, um carro a esperava. Ela entrou e partiu, sem olhar para trás. Vida
nova. Graças a Deus.

Sabe o que vai acontecer?, disse Onofre ao ser convidado para a festa de quinze
anos de José Luís. Vão casar você. Já compreendi a situação. É casamento mesmo.
Essa mãe da Kelly, a Yolanda, é assim. Mulher determinada. Ela decidiu que você era
marido para a Kelly, e pronto, você já está noivo. Onofre exagerava, não haveria
noivado, muito menos casamento, era apenas uma festa de aniversário. Mas na casa
dela?, perguntou Onofre. Conheço a Yolanda. Vão casar você, compreendi tudo. E me
diga uma coisa, vocês já estão... hein?, ele perguntava, malicioso, como ela é?, me
diga? Se a menina for como a mãe, caramba, a mãe, ouvi dizer, é um tremendo fodão.
Você está me saindo pior que o Leitor, qual o problema de falar, hein? Aliás, o Leitor
está comendo a Lalá. Deve ser algum tipo de promessa, comer a Lalá, não é? Mas e
você, safadão? Pensa que não vejo o jeito da Kelly ultimamente? Vocês dois sempre
enfiados naquela casa, sozinhos, hein? Vejo tudo. José Luís se irritava com a conversa
de Onofre. Velho enxerido. Sempre metendo o bedelho. Nem devia convidá-lo para a
festa. E se casasse com Kelly, qual o problema? Havia muito tinha perdido a esperança
de encontrar Marta. Cansara de varar a noite zanzando por bailes funks, e nada. Ainda
sonhava com Marta, seu coração ainda disparava toda vez que via uma garota alta e
magra de cabelos curtos cruzar seu caminho, mas e daí? Marta não existia. E não
havia ninguém melhor que Kelly na favela. Com treze, catorze anos, as meninas já
estavam mostrando a bunda e procurando encrenca, como dizia Leitor. E só se
interessavam por homens armados. Quanto mais pesada a arma, mais chance tinha o
sujeito. Os porteiros, os lixeiros, os ascensoristas, enfim, os normais honestos, dizia
Leitor, esses se fodem com o mulherio da favela. Kelly era séria. Gostava de Reizinho.
E desde que fizeram amor, pela primeira vez, na cama da mãe dela, Reizinho passou a
respeitá-la mais. Naquela noite, depois do sexo, os dois ficaram abraçados, um longo
tempo, quietos, o som ligado, Reizinho já estava quase dormindo quando sentiu algo
quente em seu peito, eram as lágrimas de Kelly. Agora sou sua, ela dissera. Fora
espetacular ouvir aquelas palavrinhas: sou sua, ter alguém. Era bom foder Kelly por
vários motivos, mas principalmente porque ela o amava. Te amo, te amo, te adoro,
dizia a todo momento. Foram juntos, pela primeira vez, no ginecologista. Antes do sexo,
José Luís sempre lhe perguntava, tomou a pílula? Temia que ela engravidasse, sentia-
se responsável por ela. E por Yolanda também. Mulher admirável. Era muito mais
agradável ficar com Yolanda e Kelly do que com Alzira e Carolaine. Yolanda o tratava
com respeito, carinho, e não o encarava de maneira recriminadora cada vez que ele
dava um presente ou se oferecia para pagar alguma conta. Muito diferente de Alzira.
Esse dinheiro, dizia Alzira, é do demônio. Não aceito.
O aniversário de quinze anos de Reizinho foi comemorado na varanda da casa de
Kelly, com churrasco, roda de samba e cerveja. Além da família, alguns amigos
estavam presentes, Leitor, Onofre, Negão Bem Bolado e Bidê. Reizinho, orgulhoso,
exibia o sobrinho Alas. A Alzira errou, dizia Cândida, a avó, esse menino, sendo bisneto
de quem é, devia se chamar Abre Alas. Alas não tem nada a ver com Carnaval,
respondeu Alzira. É nome estrangeiro. É como Carolaine. É inglês.
José Luís, embora tivesse convidado Miltão, não esperava que o traficante
aparecesse na festa. Primeiro porque Miltão, por segurança, evitava sair de casa antes
do anoitecer. E, depois, os dois, fazia algum tempo, mal se falavam.
Muitas coisas haviam mudado ultimamente. Com a repressão que vinha sofrendo e a
consequente queda das vendas, Miltão resolvera apoiar um grupo de sequestro, para
levantar dinheiro rápido. Emprestava armas, soldados e esconderijo, e ganhava
porcentagem nos lucros. Fora Romeu, investigador policial, quem incentivara o
traficante. José Luís estava presente quando começaram as primeiras negociações.
Defendo e provo que sequestro é um bom investimento, dissera Romeu, num dos
encontros. Se feito com inteligência. Se neguinho está falando dessa moda de
sequestrar padeiro, estou fora, não dá lucro, respondia Miltão. É lucro na certa,
garantia Romeu. Você monta uma base, uma estrutura, um sistema de coleta de
resgate, e pronto. Romeu nunca soube explicar como funcionaria o tal sistema de
coleta de resgate. Você está falando num caminhão de lixo, andando pela cidade e
recolhendo os sacos de dinheiro?, perguntava Leitor, rindo. Estou falando de
profissionalismo. O que ocorre, hoje em dia, é que o cidadão decide pela manhã fazer
um sequestro à tarde. Não pode. Tem que ter cérebro. Sequestro é uma atividade
altamente cerebral. Pense nisso, Miltão. Vamos ganhar dinheiro. É lucro na certa. Muito
dinheiro.
Depois do primeiro sequestro, Miltão mandou chamar José Luís para um “trabalho
menos cacete”. Você já é avião há muito tempo, ele disse. Está na hora de virar
soldado. Reizinho aguardava ansioso por aquele momento. Sempre sonhara em ser
soldado do tráfico. E, durante a conversa, percebeu que, na verdade, era tudo
engabelação, Miltão queria apenas escalá-lo para vigiar os esconderijos dos reféns.
Porra. Trabalho de cachorro. Pastor alemão. De jeito nenhum, respondera Reizinho.
Nem fodendo. Por que não?, quis saber o traficante. Porque não estou a fim, ele disse,
desafiador. Reizinho, desde pequeno, só possuía um objetivo na vida: ser traficante.
Queria trabalhar com droga, vender, embalar, transportar, negociar, ter lucro. Nunca
lhe passara pela cabeça ser puxador de carro, ladrão de banco, sequestrador. Jamais.
Neguinho está recusando a minha oferta? Estou, respondeu Reizinho. Passo adiante.
Tudo bem, afirmou Miltão, ótimo, quer ser avião, vai ser avião. Na boa.
Todos os meninos que entraram para o tráfico com Zé Luís já eram soldados,
andavam armados, alguns gerenciavam pontos de venda, setor de embalagem ou
depósitos. Menos Reizinho. Miltão o mantinha na mesma função fazia mais de um ano
só para castigá-lo. E o tratava com desprezo. Nos encontros, não o cumprimentava, e
para mandar recados, desembestava a falar sobre os cagões. Tem neguinho que se
caga todo, florzinha não pode pegar no berro. Tem que ser babá. Ou lixeiro. Cagão
aqui não tem vez, dizia toda vez que José Luís estava por perto.
Por esses motivos, Reizinho não esperava que Miltão aparecesse na sua festa de
quinze anos. Ao vê-lo entrar, de short de surfista, carregando uma sacola de plástico
colorida, José Luís se esforçou para ser simpático. Aí, cara. Valeu. Kelly, traga uma
cerveja aqui para o Miltão. E aí, nego? Apertaram as mãos, amigáveis, e ficaram
falando amenidades, enquanto Alzira servia bolo para os convidados, incomodada com
a presença do traficante. Que cara de pau! Explica para o pastor, Carolaine, explica
que eu não sabia que ele viria. O pastor até que tentou, por duas vezes, entabular uma
conversa com o traficante. Havia muito queria conhecê-lo. Mas Miltão, que já perdera
alguns homens para o templo do Rebanho do Puríssimo Amor do Nosso Senhor Jesus
Cristo, não podia nem ver a cara do pastor. Ficava de costas para ele, de propósito.
Sujeitinho que saia do meu caminho. Vou avisando. Onde é que a gente pode ter um
lero?, perguntou Miltão para Reizinho. José Luís o levou até o quarto de Kelly, fechou a
porta. Miltão abriu a sacola e retirou um fuzil automático leve roubado das Forças
Armadas. É meu presente de aniversário.
José Luís pegou a arma, analisando-a, admirado, feliz. Minha? Porra, Miltão. Legal.
Porra, nem sei o que dizer. Porra. Está na hora da gente resolver essa parada, disse
Miltão. Porra, tudo resolvido. Neguinho agora é soldado. Os dois apertaram as mãos,
olhando-se nos olhos.
Na quarta-feira à noite, vamos invadir o morro dos Marrecos, contou Miltão, certo de
que agora teria o apoio de José Luís. Você vai comandar cinco homens. Quero enfiar
uma granada no cu do Zequinha, ele disse. E a Suzana, vou trazer aquela vaca de
volta, nem que seja morta.

Rotineiramente, por volta das duas da manhã, o proprietário da Floricultura Pétalas


Brancas, voltando do trabalho, reduzia a marcha da sua Kombi para entrar na ruela que
dava acesso ao morro dos Marrecos. Naquela madrugada não foi diferente. O
motorista, voltando para casa, pensou que iria ser assaltado quando se viu bloqueado
por uma van, logo na saída da avenida Epitácio Pessoa. Dela saltaram vinte homens do
bando de Miltão, armados, com máscaras improvisadas. Depois de se amontoarem no
chão da Kombi, deram ordens para que o japonês entrasse no morro como de
costume. Sempre sob a mira de um revólver apontado para a sua cabeça, o motorista
entrou na favela, acenando amigavelmente para os soldados de Zequinha Bigode, que
trabalhavam no pé do morro.
Subiram lentamente. Quando o carro estacionou em frente ao orelhão, os rojões
pipocaram no céu. Alguém sinalizara a invasão da favela. Japonês filho da puta, gritou
Miltão, apertando o gatilho. A cabeça do motorista explodiu como uma garrafa nos
treinos de tiro ao alvo.
Ninguém soube explicar a sucessão de erros que ocorreu depois. Teoricamente
estavam preparados. Havia um plano de ataque, iriam se dividir em pequenos grupos,
avançariam por quatro caminhos diferentes até alcançar a casa de Zequinha Bigode.
Neguinho não tem que pensar, é dedo no gatilho, matando, matando, nosso negócio é
matar. Só não poderiam matar Suzana. Ninguém coloca a mão na Suzana. A Suzana
vai voltar para casa. Viva, ouviram? Miltão passara a tarde com os soldados, tentando
desenhar as ruas labirínticas do morro dos Marrecos, mas naquele momento, com os
tiros e explosões, os homens se dispersaram, sem orientação.
Na verdade, nem Miltão nem ninguém tinha noção do esquema de defesa de
Zequinha. Reizinho, que passara as duas madrugadas anteriores no campo de futebol,
com Bem Bolado, Jaú, Bidê e mais os dezoito soldados recrutados para a operação,
manuseando fuzis AR-15, M-16, HK-47 e aprendendo a usar granadas holandesas,
sentiu, logo nos primeiros minutos de combate,que não havia nenhuma chance de êxito.
Mal saltaram da Kombi, começou a fuzilaria. Jaú tombou a menos de cinco metros da
perua, antes mesmo de localizar a posição dos inimigos. A impressão de Reizinho era
de que as balas, revestidas de aço, vinham do céu. Ali mesmo, os soldados de Miltão
desistiram da guerra, e passaram a buscar, individualmente, proteção contra a
artilharia.
Reizinho se arrastou até um vão que havia entre a padaria e uma oficina mecânica, e
lá ficou o tempo todo. As balas ricocheteavam, quebrando vidros e fazendo estragos
nos barracos. Jaú, Jaú, alguém gritou. Só naquele momento, sentindo o zunir das balas
perto de sua cabeça, é que entendeu a posição de Leitor. Sou contra a invasão,
radicalmente contra, ele dissera. Temos menos homens que o morro dos Marrecos,
menos armas, e eles estão de sobreaviso. Miltão parecia não ouvir. Olhava para o
desenho das ruas, fumando um baseado, pensativo, cuspindo, vez ou outra, as fibras
do fumo que grudavam em sua língua. Neguinho vai se foder, ele dizia. As rajadas não
paravam, José Luís, protegido, não se arriscou a dar um único disparo, com medo de
ser localizado e fuzilado. Em nenhum momento pensou que sairia vivo do morro dos
Marrecos. Estava só, e a qualquer momento os soldados de Zequinha poderiam
executá-lo. Não sentiu medo. Sentiu apenas que era triste morrer antes de dizer ao seu
pai: sou seu filho. Antes de encontrar Marta e dizer que a amava e que cada vez que
pensava nela, era como se ocorresse um terremoto dentro do seu corpo.
O tiroteio durou duas horas. Depois, silêncio total. José Luís aguardou
pacientemente. Quando amanheceu, ele aproveitou a balbúrdia das crianças, indo para
a escola, e da massa de trabalhadores que deixava a favela para mais um dia de
trabalho, para escapar sem chamar atenção. Passou por três corpos até atingir o
asfalto. Estavam cobertos com jornais, mas pelos tênis os reconheceu. Todos do seu
bando.
16

D omingo de sol. Praia lotada. Carolaine e Kelly, sentadas perto da água,


construíam um castelo de areia para Alas.
Mate gelado, gritou o vendedor, carregando o isopor a tiracolo. Quem vai querer? O
vozerio vinha de todos os lados, gritos, conversas, risadas, choro de crianças,
ambulantes, o barulho das ondas nas pedras da praia do Pepino.
Era a primeira vez que Reizinho tinha um dia livre desde que começara a guerra,
havia um mês. Embolara a toalha na nuca, improvisando um travesseiro, e se deitara
com a barriga para cima, olhos fechados, sentindo o sol e pensando na vida. Era assim
que tomava decisões importantes, quieto, em silêncio, sem ouvir a opinião de ninguém.
Você é luz,! la ra la ra ra la la,! é sol,! meu desejo,! Iara ra ra ra, a moça ao lado, uma
mulata flácida, trajando um biquíni minúsculo, cantava um sucesso de rádio,
atrapalhando sua concentração. Impressionante como as pessoas não conseguem
calar a boca, pensou Reizinho. Falam o tempo todo. José Luís se irritava com a
incapacidade de Kelly e Carolaine para ficarem quietas por um minuto sequer. Porra. A
falação no ônibus a caminho da praia o deixara completamente zonzo. Só bobajada,
porra, a fulana, a sicrana, o pastor, a novela, emagrecer, minha mãe falou que, bunda
dura, desemprego, doméstica nem morta, celulite, neném, coisa chata! Era tão bom
permanecer em silêncio, matutando sobre isso e aquilo, observando. Por que você está
tão quieto?, perguntava Kelly. Como aquilo o exasperava! Até depois do sexo, Kelly
queria conversar, no que você está pensando, amor? Porra, Kelly. Amor. Mate gelado,
Coca-Cola, Guaraná, Fanta uva, anunciava o vendedor, na praia. Com grande esforço,
José Luís se abstraiu do barulho ao redor e se concentrou nas questões importantes.
O pai. O pai não lhe saía da ideia. Na última vez que o vira, na praça Argentina, perto
dos caminhoneiros, tivera a impressão de que Francisco o aguardava e, o que era mais
comovente ainda, se arrumara para o encontro. Reizinho se tomou de afeição ao vê-lo
de cabelo penteado, a camisa, amarfanhada e rota, dentro da calça. Dera-lhe um par
de tênis naquele dia. Francisco o calçou e gastou um bom tempo a admirá-lo. Depois
foram juntos para um boteco, almoçaram feijoada, o pai encantado com os tênis novos,
branquíssimos, marca americana. Agora eram amigos. Sentavam em algum canto da
praça, conversavam, Francisco reclamava com frequência dos delinquentes que viviam
por ali. Estão falando de mim, você notou? Acreditava que os meninos queriam
entregá-lo para a polícia. Gritava com eles, o que estão olhando, seus idiotas? Pivetes
fedorentos. Cheiradores de cola. Trombadinhas.
Não fora fácil a aproximação dos dois. Aquele rapazote metido a bonzinho,
aparecendo do nada, puxando conversa, quer o quê?, pensava Francisco, desconfiado.
Para os mendigos que viviam na praça, ele antes se referia a José Luís como o
panaca, o trouxa. Com o tempo, ficou amigo do rapaz, e agora até gostava dos
encontros. Aguardava-os impaciente, não apenas pelos cigarros, comida e cobertor
que José Luís lhe fornecia, mas principalmente porque se sentia bem com aquele
rapaz. Você é bom, dissera certa vez, quando o jovem lhe oferecera dinheiro. Como é
mesmo seu nome? Zé. Sempre esquecia o nome de José Luís. Um nome tão besta,
nunca me lembro. Embriagado, tornava-se insuportável. Ficava pegajoso e falava
coisas que Reizinho não compreendia. Ou agarrava um pedaço de pau e o ameaçava,
você é meganha, dizia, está aqui para me acusar. Quando isso ocorria, Reizinho voltava
para casa, frustrado, com vontade de desistir. Mas não desistia. Agora que a situação
financeira melhorara, pensava cada vez mais na possibilidade de o pai morar no
Berimbau. Alugaria um quarto para ele. Iria levá-lo aos Alcoólicos Anônimos. E
compraria uma Kombi para Francisco fazer frete. Ele não havia trabalhado anos como
cobrador? Pois então, agora dirigiria. E Carolaine ajudaria a cuidar do pai. Limpar a
casa, cozinhar, só por um tempo, até que as coisas se ajeitassem. Você pirou? Não
quero nem ver aquele traste, dissera Carolaine, quando o irmão tocara no assunto.
Para que serve aquele velho? Para azucrinar nossa vida. Infernizar. Nunca. Você não
pensa na nossa mãe? No desgosto que vai dar a ela? Não quero. Nem morta. De jeito
nenhum. E assunto encerrado.
Uma bola de frescobol caiu perto de José Luís, atirando-lhe um punhado de areia na
barriga. Pirralhos. Coisa chata. Levantou-se, viu Carolaine se aproximar, com o filho
nos braços. Segure o Alas um minuto, ela falou, vou telefonar para o pastor Walmir,
combinei de estar na igreja depois do almoço. Já volto.
Kelly acenou para ele, da água, sorridente. José Luís respondeu sem entusiasmo.
Sentia-se irritado ultimamente. Não era possível deitar e curtir a praia. Simplesmente
não conseguia. Sempre tenso, pensando coisas. Lembrou-se de Graça, a secretária de
dr. Rodrigo. Ela lhe contara que havia dias em que ficava tantas horas diante do
computador que, durante a noite, antes de dormir, por mais que evitasse não conseguia
deixar de digitar mentalmente as palavras de seu pensamento. Com Reizinho, durante a
guerra, ocorria algo semelhante. Quando se deitava, sentia que sua mão era uma
arma, e no escuro do quarto procurava os alvos, atirando e matando inimigos.
Alas começou a chamar pela avó. José Luís pegou um baldinho de areia para
entretê-lo. Nesse momento, Marta surgiu diante de seus olhos, dentro de um biquíni
azul e verde, toda bronzeada, cabelo molhado, José Luís?, ela falou, você lembra de
mim? Sou amiga do Fake. Reizinho se levantou, perplexo, largando Alas na toalha. Algo
dentro de seu corpo parecia querer explodir, os músculos do peito inflaram, Marta, ele
disse, porra, procurara tanto tempo por Marta, vasculhara cada salão de baile funk,
muito tempo se passara, porra, tantas perguntas a fazer, ali estava ela, finalmente,
Marta, pronta para responder, porra, continuava completamente doido por aquela
mulher, porra, e aí? Alas começou a chorar. Que bebê lindo, ela falou. Não é meu,
respondeu José Luís, com medo de que Marta chegasse a conclusões erradas. Era
urgente explicar que continuava livre, solteiro e desimpedido. Estava tão preocupado
em esclarecer de vez a situação que nem se importou com os berros da criança. Só se
inteirou do que ocorria quando ouviu a voz estridente de Kelly tomar conta de tudo,
José Luís, você está pisando na mãozinha do Alas, ela disse. Pisara mesmo. Porra,
nem vi. Kelly pegou Alas no colo, examinando os dedinhos. Desculpa. O choro de Alas
tumultuava a conversa. Gelo é bom, disse Marta. É, Zé, pega gelo, confirmou Kelly, vai
pegar gelo, anda, corre. Coitado do menino.
Zé Luís, perturbado, saiu atrás dos vendedores de refrigerante, não havia nenhum
por ali, fi-lhos da pu-ta. Olhava para os lados, aflito, gelo, estava totalmente atarantado
com o que ocorrera, Marta, lá estava ela, ajudando Kelly, onde você mora?,
perguntaria mais tarde. Gelo. Pegaria o telefone de Marta e a chamaria depois, quando
Kelly não estivesse presente. Colocar os pingos nos is. Eu amo você, diria. Amava
Marta, tinha absoluta certeza. Era amor. Nenhum vendedor por ali, impressionante, os
putos. Agora sumiam. Amor mesmo. Gelo. Caramba, Marta. Simplesmente aparecera,
de repente, bem diante de seus olhos. Linda. Porra. Gelo. José Luís deduziu que
ganharia tempo se fosse diretamente até alguma barraca de coco no calçadão, e foi o
que fez, correu, areia e asfalto queimando a planta de seus pés. Apanhou algumas
pedras de gelo, voltou, aflito, porra, de longe notou que Marta já não estava mais ali.
Alas ainda chorava no colo de Kelly quando José Luís se aproximou. Cadê a Marta?,
perguntou, entregando o gelo. Você machucou a mãozinha dele, veja. Reizinho olhava
ao redor como um cachorro de caça, procurando a presa. Judiação do neném, dizia
Kelly, vai sarar. Aonde foi aquela moça que estava aqui? De cabelos curtos. Segure o
gelo, Zé Luís. Ajude. Puta merda, Reizinho gritou, você não está ouvindo? Cadê a
Marta? Sei lá quem é Marta, respondeu Kelly irritada. E pare de gritar comigo. Tomara
que você não tenha quebrado o dedo do menino.
José Luís saiu pela praia como um rato envenenado, esquadrinhando cada metro
quadrado de areia, onde ela se metera? Foi até o calçadão, voltou, nada de Marta.
Novamente, as areias. Nada. Na água, areia, calçadão, nada. Areia, nada.
No ônibus, de volta para casa, com Alas no colo e Kelly melindrada, só conseguia
repetir “puta que pariu”, sem parar. Impressionante, o azar. Aquilo era marcação. Só
podia ser. Procurara tanto por Marta, e ela fora aparecer justo naquele dia. Puta que
pariu. Maldito domingo. Tinha que chorar, o pentelho, pensou, incomodando-se com o
peso da criança, que dormia satisfeito, nos seus braços. Menino mimado. Sem pai,
ainda por cima, o puto. Carolaine, alheia a tudo, empanturrava-se com milho cozido, no
banco de trás.
Kelly não falou uma única palavra no trajeto de volta. Desculpa, Kelly. É que essa
Marta me deve dinheiro, você não sabe como é difícil fazer as pessoas pagarem. Sei.
Kelly não estava disposta a perdoar. Na sua opinião, José Luís, desde que se tornara
soldado, andava muito metido a besta. Só porque possuía arma e as meninas olhavam
para ele, estava se achando o máximo. Grandes coisas. Falar daquela maneira, só
porque queria cobrar alguém? Tenha dó. Mal vira a tal da Marta. Havia, sim, lá uma
sonsa que só deixara Alas mais nervoso ainda. Nem prestara atenção nela. Vai
espicaçar? Pisotear no cadáver?, perguntou José Luís, agarrando-a no portão de casa.
Kelly sorriu, enternecida. Está desculpado.
Ao subir o morro, em direção à sua casa, Reizinho notou o helicóptero da polícia
sobrevoando a favela novamente. Não estava gostando nada daquilo. Péssimo sinal.

Noite trágica para os moradores do Berimbau, dizia a manchete de um dos jornais


mais importantes do Rio de Janeiro. A reportagem narrava o combate ocorrido durante
a madrugada, que matara cinco pessoas, todas pertencentes ao bando de Milton dos
Santos, conhecido como Miltão do Berimbau. Havia uma foto de José Antônio da Silva,
vulgo Zequinha Bigode, líder da invasão que deixara em pânico os moradores do
Berimbau.
O Brasil conhecia todos os detalhes das batalhas sangrentas por meio de artigos
como aqueles e das reportagens de TV, que divulgavam com destaque imagens de
corpos esquartejados, mutilados, carbonizados, cemitérios clandestinos e traficantes
em poses de herói, disparando suas metralhadoras para o alto.
Nas favelas, todos sabiam que o verdadeiro motivo da guerra era Suzana. Mas
ninguém se arriscava a dizer nada para os jornalistas. Quando entrevistados, os
moradores apoiavam seus líderes. Estamos com o Zequinha, diziam. O Zequinha, para
nós, é um homem de ouro, declarara uma entrevistada. Bom coração. Ele que paga os
remédios do meu rim. Eu gosto do Miltão, afirmara outra, porque ele faz tudo o que um
prefeito deveria fazer. As críticas, quando apareciam, não possuíam alvos. Estou
acostumada, comentou uma dona de casa, tem sempre cadáver espalhado por aí,
principalmente nos fins de semana.
Você vê na TV imagens do Irã, Israel, bombas explodindo, dissera Onofre a um
jornalista, pessoas incendiadas, crianças correndo pelas ruas, chorando,
desesperadas, garotos de dez anos armados até os dentes, gente sem braço,
mendigos por toda parte, sangue, fome, o capeta. Aqui é a mesma coisa. Temos o
nosso próprio Iraque, o nosso Saddam Hussein, os nossos árabes, a nossa merda
turca. Como é um ataque? Alugue um filme de guerra, tire as botas dos soldados, tire
os camuflados, tire os cabelos loiros, os olhos azuis, e pronto, é a nossa guerra. É
assim.
O que deixa a população boquiaberta, disse Leitor para José Luís numa das vezes
em que se encontraram no Onofre para beber cerveja e falar sobre a guerra, o que
deixa os cidadãos perplexos não é exatamente a guerra, mas o tiroteio entre as
autoridades. Parecem baratas tontas, é só ler o jornal. A repressão ao tráfico não é
função da prefeitura, declarara o secretário de Segurança. Isso é atribuição do governo
estadual, afirmara o ministro da Justiça. Vocês querem o quê?, perguntara um
delegado, em entrevista, estamos com os pés e mãos amarrados. Agora, com a
inviolabilidade domiciliar e o Estatuto do Menor, o nosso trabalho parece uma piada. Só
podemos ir atrás do traficante na casa dele com mandado de busca.
A verdade, continuou Leitor, a verdade é que não se discute o essencial, a
legalização da droga. Pense bem, Reizinho, não fosse essa lei de merda, tudo ia existir
da mesma maneira, o comerciante, o consumidor, só que nos moldes dos pegue e
pague, está compreendendo? Tipo farmácia, tudo numa boa, exibido nas prateleiras,
sem arma nem violência. Sim, porque, se a droga fosse liberada, e não sou eu quem
diz isso, mas um estudioso muito importante, ele diz que se a droga fosse liberada,
muitas mortes, muitos crimes não ocorreriam. Com a legalização, o preço das drogas
cairia, não haveria tanta demanda, isso é o que diz quem realmente entende do
assunto. Se não legalizam, engulam isso: vamos acabar iguaizinhos às máfias italianas.
A polícia quer subir aqui para acabar com o tráfico. Olha lá o helicóptero. Vão subir,
vão matar um montão, vão prender, e o que vai acontecer? Nada. Absolutamente nada.
Outros ocuparão nossos lugares. Por quê? Porque a droga é lucrativa, é bom negócio.
Sem falar que o Brasil poderia ser uma potência. A maconha pode tirar o Brasil da
merda, essa é a verdade. É muito mais barato plantar maconha do que feijão ou milho.
E diferentemente da cana-de-açúcar e da soja, pode render várias safras anuais. Não
falo de orelhada. Estudo muito. Vou te mostrar meus livros, Reizinho. Está tudo lá,
todas essas ideias.
A quadrilha de Miltão sofreu muitas baixas na invasão do morro dos Marrecos.
Perderam treze soldados. Além disso, uma quantidade enorme de armas desapareceu
do depósito, misteriosamente. Zequinha Bigode se apoderou de dois pontos de droga
que funcionavam na divisa dos morros, e passou a mandar recados abusados para
Miltão. Diga a “esse cidadão” que comigo não tem perhaps. Se ele já cansou de levar
bala, podemos parar. Mas se quiser continuar brigando, tem que mandar macho para
lutar. Não gosto de matar pivete, nem bundão.
Miltão culpava o pastor pelo fracasso, ainda que fosse desprezível o número de
soldados convertidos para a igreja Rebanho do Puríssimo Amor do Nosso Senhor
Jesus Cristo, oito apenas. Desde que Vivinho, um ex-mecânico que manejava as
metralhadoras com grande habilidade, viera comunicar que, a partir daquele instante,
só Jesus Cristo lhe daria ordens, Miltão passara a concentrar todo o seu ódio no
pastor. Drogando-se mais do que o habitual, e com os nervos à flor da pele, Miltão
exagerava cada vez que tocava no assunto, o pastor é uma besta quadrada, dizia, tudo
é pecado, Carnaval é pecado, foder é pecado, comer chocolate é pecado, droga é
pecado, mas dar dinheiro para pastor safado não é pecado. Foder com o pastor
também não. Fico sabendo de tudo. Neguinho está enchendo o bucho, estou vendo.
Neguinho quer me foder, quer tirar meus homens, vou avisando, se bobear, mando
explodir aquela merda. Fecho aquela joça, quero ver. Mando o patife plantar batata
com as negas dele, longe daqui. Tua mãe é bíblia, Zé Luís, avisa ela. Fecho aquela
merda.
As explosões de cólera de Miltão ocorriam por qualquer motivo. O traficante passara
a ser intolerante com seu bando, cometia injustiças com os amigos. Leitor era sua
maior vítima. Seus conselhos não interessavam mais a Miltão, que o considerava
agourento, cala a boca, ele dizia, toda vez que o amigo o alertava sobre qualquer
questão. Fecha essa matraca. Não diz bobagem. Não demorou muito para que Leitor,
humilhado, começasse a falar no “sucessor de Miltão”. Sempre em voz baixa, olhando
para os lados. Na maioria das vezes, seu interlocutor era Reizinho. Você é o único que
pode assumir o comando, dizia. Você tem liderança. É bravo. É inteligente. Sabe o que
quer. Com a guerra, Reizinho ganhara fama no morro. Fora ele quem matara
Branquelo, o braço direito de Zequinha Bigode. E o Capixaba Corcunda. Matara
também um pai de família, trinta e cinco anos, vítima de uma bala perdida. Mas isso
José Luís não sabia. Só sabia que estava cada vez mais poderoso, e entrevia a vida na
favela depois que assumisse a liderança. No entanto, não admitia essa possibilidade
para ninguém. Não quero ser líder, respondia para Leitor, toda vez que o assunto vinha
à tona. Agora que se tornara o homem de confiança de Miltão, o único a ter
ascendência sobre ele, não iria trair o amigo. Sim, Miltão era seu amigo. Confiava nele.
Não iria apunhalá-lo pelas costas. Nunca. Jamais. E se Miltão morresse? Sim, se Miltão
morresse, eram outros quinhentos. Mas matar Miltão, jamais. Nunca mais repita isso,
Leitor. Para o teu próprio bem.

Miltão abriu os olhos e sentiu sua cabeça latejar nas têmporas. Era como se o
barulho do helicóptero entrasse diretamente nas suas artérias e músculos, revirando-lhe
o estômago. A cena se repetia havia dois dias. A polícia queria invadir? Que
invadissem. Mas que acabassem logo com os voos barulhentos, as rondas no pé do
morro, viaturas, cães. Aquilo era enervante. Miltão preferia guerrear. Mil vezes.
Antes mesmo de botar os pés no chão, o traficante já empunhava sua metralhadora
de fabricação israelense. Foi até a janela, lá estavam os nove homens responsáveis
por sua segurança. Vislumbrou no céu a aeronave, sobrevoando os barracos. A
imagem dos policiais no interior do aparelho lhe ferveu o sangue. Fi-lhos da pu-ta. Justo
quando dormia um sono de pedra, conquistado à base de muitos cigarros de maconha,
os vermes vinham acordá-lo. Miltão sabia que sua situação era crítica. Já havia oito
mandados de prisão contra ele, quatro por tráfico de drogas, um por estupro, três por
homicídio. Queriam prendê-lo, a qualquer custo. A imprensa chamava Miltão de “um
dos maiores traficantes do Rio”. Está escrito isso aí?, perguntara para Onofre, que o
mantinha informado sobre tudo o que saía no jornal a seu respeito. Gostei disso. Muito
bom. Vou guardar esse jornal de lembrança, me dá aqui.
Depois de observar a movimentação do helicóptero por alguns minutos, Miltão voltou
para a cama, e só então viu a moça nua, dormindo, com a cabeça embaixo do
travesseiro. Não se lembrava do nome dela. Agora era assim. Geralmente despachava
as moças, logo depois do sexo. Quando neguinha começa o nhenhenhém, vou logo
dizendo, até logo, minha filha. É foder e ir embora, dizia para os amigos. Era a maneira
que encontrara para se vingar da ex-namorada, cujo nome evitava repetir. Referia-se a
ela como “a falecida”. A falecida vai se arrepender, dizia. A falecida vai querer voltar.
Vai implorar, a falecida, escreva aí, Onofre, e quando neguinha voltar, sabe o que vou
fazer? Picas. A falecida que se foda. Pensar em Suzana lhe fazia um mal imenso.
Aquela piranha.
Abriu a geladeira, pegou uma Coca-Cola. Acordou a moça, oferecendo-lhe a lata. Vai
para a escola, chuchu. Enfiou uma nota de cinquenta na mão dela. Agora adorava fazer
isso também, pagar as mulheres. Usar e pagar.
Depois que ficou sozinho, foi até o armário e se pôs a analisar suas armas: dois fuzis
M-16 com mira telescópica a laser, quatro carregadores, duas AR-15. Carregou o fuzil
com munição militar e retirou do canto direito da sala uma telha de cobertura. Dali
conseguia ter razoável visibilidade e boa posição de tiro. O helicóptero continuava a
ronda sobre o casario. Quando a aeronave fez um rasante, Miltão atirou. Ao vê-lo
disparando, seus soldados procuraram abrigo e começaram o tiroteio.
Foi uma cena espetacular. O helicóptero despencou do céu, e se espatifou no chão,
como uma bola de fogo. Nenhum dos policiais sobreviveu, deu depois no jornal.
Miltão comemorou a vitória o dia todo, bebendo e se drogando.
Nessa mesma madrugada, as duas entradas da favela foram ocupadas. Cento e
cinquenta soldados do Batalhão de Operações Especiais e do Batalhão de Choque da
PM, com seus cães farejadores e seus projéteis, subiram o morro, trocando tiros com
os traficantes. Helicópteros militares atacavam por cima, lançando granadas e abrindo
o caminho. Quando atingiram o alto da favela, a situação ficou mais difícil. Grupos de
soldados vasculhavam os barracos e interrogavam os moradores, mas ninguém queria
colaborar. Tudo o que conseguiram foi capturar Bidê e apreender dois quilos de
cocaína que estavam no barraco do secretário. Dois policiais se feriram, um
gravemente. Miltão conseguiu fugir.
Nos dias seguintes, setenta soldados da Polícia Militar permaneceram vigilantes no
pé do morro, para evitar novos conflitos entre as quadrilhas rivais. Foi esse episódio
que impôs um período de trégua na guerra entre Miltão e Zequinha Bigode. Agora, está
tudo bem, diziam os moradores. Acabaram os tiroteios.
Reizinho se mudou para a casa de Kelly e evitava sair, por cautela. Também não
havia o que fazer. Era preciso aguardar Miltão, e isso só ocorreria quando a polícia
desocupasse a favela.
Leitor o visitava quase todas as noites. O problema é que morreram muitos nesta
batalha, ele dizia. Mataram o Monga. O Beco. O Mangueira. É, ele dizia, estamos
morrendo. Estamos no impasse. Enquanto Miltão for nosso chefe, vai ser assim, só
morrer e acabar. Coloque isso na sua cabeça, Reizinho. Para continuar o tráfico aqui, o
Miltão tem que sair de cena. Você quer ou não o lugar dele?
Reizinho detestava aquela conversa. Porra. Quantas vezes vou ter que repetir,
Leitor?
17

A ntes de ser preso, eu era um deejay quase famoso, disse Fake. Eu tinha meus
admiradores. Quando aterrissava em alguma rave, com meus penduricalhos, meus
dreadlocks e meus óculos amarelos, era energia pura. Eu sabia levantar o ânimo da
moçada. Tem brother funkeiro que só quer saber de tum tum tum tum, é bate-estaca, e
pronto. Not me. Sou poético. Quando a galera detonava na pista, frenética, eu mudava
o ritmo, jazz-step, groove, música lenta. Meus bailes ficavam cheios de garotas da
Zona Sul, todas dentro da vibe. Cheguei até a sair no jornal. Um jornal aí. Então, essa
tal de Marta, se ela está dizendo que me conhece, que é minha amiga, pode ser isso,
ela sabe quem eu sou, está compreendendo? Uma fã, talvez.
Eram dez horas da noite de sábado, Fake e Reizinho vagavam pela Cinelândia,
chutando latas. Sempre que conversavam a respeito de Marta, Reizinho ficava com a
impressão de que o amigo lhe escondia algo. Eram as teorizações de Fake que o
intrigavam. Explicava demais, inventava muitos detalhes, fazia tudo parecer lógico,
verossímil, aceitável. Exatamente por isso, Reizinho desconfiava. A verdade nunca era
simples, daquela forma. Na maioria das vezes, era capenga, cheia de buracos. Ele
mesmo, em várias ocasiões, tivera que mentir um pouco para que a verdade soasse
menos mentirosa. Não entendo como um brother, continuou Fake, pode fissurar numa
girl que mal conhece. Não entendo. Love, para mim, é coisa que cresce devagarinho,
uma espécie de doença, que vai te contaminando aos poucos, primeiro o cacete,
depois sobe, o peito, a boca, e, por último, contamina as ideias, até que você vira um
babaca completo. O amor, para José Luís, ocorrera de maneira diferente. Caíra do
céu na sua cabeça, ploft, “dá-lhe Marta”, fora assim. Ainda conseguia lembrar do
sorriso dela, dentes lindos, os olhos espertos. E constantemente sentia, na sua boca, o
gosto de Marta. Que mulher.
Junto às grades do Passeio Público, Fake abriu a braguilha e urinou, olhando para o
céu. Ai, como é bom mijar em qualquer lugar. Desde que saíra da prisão, havia dois
dias, Fake só sabia dizer isso. Não sei o que me dá, Reizinho, mas fico com o
pensamento filosófico quando mijo por aí. Mijo e penso em papo sério, mijo assim,
refletindo. Coisa boa.
Atravessaram a rua para ver de perto a programação do Cine Odeon. Uma prostituta
passou por eles, apressada, toc, toc, toc, brigando com uma criança muito magra, que
a seguia, resignada. Não sou obrigada, ela dizia. Você não vai acabar comigo. Toc,
toc, toc, o salto do sapato. Reizinho as seguiu, com os olhos. Toc, toc, toc, não adianta
explicar. O cartaz do cinema mostrava uma loira sensual, com as mãos na cintura. Toc,
toc, toc. Glória, era o título. Dona invocada, comentou Fake, admirando a fotografia da
atriz. Que pernão, olha só. Toc, toc, toc. Fake continuou observando o cartaz,
embevecido. Cacilda, ele disse, um ano e meio sem entrar num cinema. Um ano e meio
sem ir a baile funk, sem comer feijão decente, um ano e meio de vida pura jogados no
lixo. Não me conformo. Cacilda. Vamos, Fake, disse-lhe o amigo.
Continuaram caminhando, chutando a mesma lata de Coca-Cola, Fake contando,
pela centésima vez, sobre a sua vida no Centro de Reintegração do Menor. Passava
quatro horas do dia tomando sol e o resto do tempo fazendo nada. “Absolutamente
nada.” Piorando o espírito. Fodendo o cérebro. Eu afundei muito. Saí de lá um lixo,
pronto para roubar, assaltar, estuprar e matar. E se você pensa que foram os detentos
que me ensinaram, fique sabendo, em termos de malandragem, aprendi muito mais
com os funcionários, os diretores, os vigias. São verdadeiros mestres, quando o
assunto é levar vantagem e esfolar o outro. Estão lá para o comércio. Tudo é
comércio. Comércio e vadiagem. Se o cara não está vendendo crack ou qualquer outra
bosta, está de papo para o ar. Havia um sujeito que a única coisa que ele fazia, o dia
todo, era soltar peidos. Saí de lá com esse aprendizado. A coisa mais fácil no mundo é
decair, aprender o negativo. Mas eu sou um negro porreta. Quero decolar. Fazer
sucesso. Eu sou artístico, brother. Meu negócio é o palco. É glitter. Vou lançar meu
CD, quero ser o rei do hip-hop no Brasil. Quero ser o Mr. Explosion.
No bar, bebendo cerveja, Fake insistiu para que Reizinho conversasse com Miltão
sobre sua volta para o morro do Berimbau. Derrapei, brother. Aquilo foi uma
escorregada, disse Fake. Mas, agora, é diferente. Tenho muitas ideias. Quero voltar
para o Berimbau, ele disse. Quero tomar conta da nossa rádio. Vou formar a galera
jovem do Miltão.
Fake estava morando na casa da mãe, Creusa, uma mulher ainda jovem, que vendia
cosméticos, de porta em porta. O problema é que ela casou com um bíblia, e não dá
mais para ficar lá. Meu Deus é este aqui, mostrou Fake, apontando o James Brown
estampado na sua camiseta. Meu Deus é o Mr. Dinamite. E o deus deles é aquele que
vive na cruz. Não dá. Não combinam. Você não imagina como é estranho, brother, tua
mãe casar com um marmanjo, o cara de repente é dono da sua casa, dá ordens, e te
olha como se você fosse do mal. Não dá. O Miltão tem que me receber.
Reizinho prometeu conversar com o traficante. Miltão era um sujeito imprevisível. Não
seria de todo impossível conseguir um perdão de sua parte. Não custava tentar.

Ele já foi solto?, perguntou Miltão, esticando mais uma grossa carreira de cocaína no
tampo de vidro. Já, respondeu Reizinho. Muito bom este pó, ele disse. Com o controle
remoto do CD player nas mãos, ele apertava replay toda vez que o pagode “Você vai
pagar por tudo”, do grupo Pagodança, chegava ao fim. Maneiro esse som. Fala.
Miltão, desde que voltara para o morro, havia duas semanas, praticamente não
dormia. A cada noite, refugiava-se em algum barraco diferente, em companhia de
garotas, para quem ele oferecia drogas e bebidas. Voluntarioso, irascível, divertia-se
apenas quando conseguia ficar sintonizado na faixa de rádio da corporação policial,
seus cagões, xingava, estrumes, bichonas enrustidas, vocês só vêm aqui para chupar
sangue, ele dizia, subam aqui agora, vêm, seus bostas. Subam.
Reizinho não gostava daquilo. Sentia-se mal quando era obrigado a presenciar
aquelas cenas. Miltão mudara muito nos últimos tempos, essa era a verdade. Alguns
dias após o seu retorno, o traficante oferecera um churrasco para os amigos,
mobilizando os soldados para a preparação da festa. Zino e mais dois outros
açougueiros foram obrigados a providenciar a carne, e a bebida ficou por conta de um
assalto numa distribuidora de bebidas na avenida Epitácio Pessoa.
No final da noite, Miltão insistia para que os convidados levassem para casa uma
caixa de cerveja. Embrulha para o cachorro, ele dizia, gargalhando. Foi uma noitada
barulhenta, com grande desperdício de munição. Miltão, com seus fuzis, atirava para o
alto, a todo momento, bota para foder!, ele gritava.
Quando a maioria dos convidados já tinha ido embora, Miltão, bêbado, levou
Bidezinho, irmão gêmeo de Bidê, que agora cumpria pena no Padre Moraes, para a
parte alta da favela. Sentaram no mirante e observaram a cidade, o Cristo iluminado.
Fumaram um baseado, riram e falaram bobagens, e, depois de tudo isso, Miltão
explodiu a cabeça de Bidezinho com uma submetralhadora Uzi. Reizinho, Leitor, todos
os gerentes do morro viram a cena. Agora, ele disse, será assim. Os inimigos, eu
mato.
No outro dia, a língua do traficante estava pregada na porta, com uma faca de
cozinha. Toda essa violência ocorreu porque havia boatos de que Nobre encomendara
a morte de Miltão. Uns diziam que Miltão se recusava a enviar dinheiro aos
companheiros presos no Padre Moraes e por isso seria morto. Outros diziam que
Miltão tinha os dias contados porque era “homem fraco”. O falatório não parava.
Comentavam-se inclusive os nomes dos possíveis sucessores, Zequinha Bigode ou
Paredão, do morro dos Marrecos. Era um zunzunzum diário, o Nal falou que, o Duda
ouviu dizer que, o Neco falou que, o Micuim anda dizendo, disseram, parece que, é o
que estão falando. Por esse motivo Miltão executara Bidezinho, para dar fim à boataria.
As únicas histórias que podiam circular eram as que o próprio Miltão passava
adiante. Quem falar com jornalista, morre. Quem falar com polícia, morre. Quem
bobear depois das dez da noite, morre. O próximo a morrer será o pastor. Miltão
andava às turras com os evangélicos. Aprendera a prece “Ave, Maria, cheia de graxa,
o porco é convosco”, tirada de algum livro de Leitor, e a repetia em voz alta toda vez
que cruzava com um religioso no seu caminho.
Alzira temia pela vida do pastor, ainda mais agora que Walmir era “quase um pai”
para Alas. Você não venha mais aqui, dissera a Walmir, no último domingo, melhor não
subir o morro. Esse Miltão é espírito maligno. Esse moço ainda vai acordar com chifres
e patas. Coisa-má. Mofento, porco-sujo. Sangue de Jesus é vida, ela repetia, para se
proteger das maldades de Miltão. Mas Walmir não temia o demônio. Ia à casa de
Alzira todo domingo, e às vezes durante a semana também, não raro passando bem
próximo dos homens de Miltão. Como se davam bem, Walmir e Carolaine, Alzira tinha
gosto de ver. Sempre planejando as obras de Cristo. Carolaine, ele garantira, tem o
dom da palavra. Poderá ser, no futuro, uma irmã oradora, se for persistente. Ovelha.
Carolaine adorara a ideia. Passara a ler a Bíblia, em voz alta, para a mãe. Sabe, mãe,
o Walmir me mostrou que eu tenho um dono. Sou secretária de Deus. Ovelha. Claro.
Alzira entendia perfeitamente as palavras da filha. Ela também se sentia da mesma
forma. Secretária de Jesus. Dona Juliana, agora que andava mais calma, dizia para as
amigas: esta é Alzira, nossa secretária. Secretária de Jesus, isso que ela era. Servia a
Jesus. Por isso se preocupava tanto com o pastor. Chegou inclusive a pedir ao filho
que conversasse com Miltão.
Não foi uma boa ideia. Miltão não gostou. É melhor você parar de pedir favores.
Neguinho está muito pidão.
Os moradores só saíam de casa para trabalhar. Os repórteres, quando subiam o
morro para entrevistar moradores, eram enxotados, com ameaças.
Agora temos lei do silêncio, toque de recolher, disse Leitor. E estamos cobrando
taxas dos comerciantes. Perguntei para o Miltão, qual a razão destas taxas? Sabe o
que ele me respondeu? Não encha o saco. É só isso que ele sabe falar. Vá tomar no
cu, filho da puta, vou te foder. É assim que ele me trata. As pessoas estão
apavoradas. Isso não vai dar cerro. Estamos próximos do fim. Qualquer dia, qualquer
bambambã dos morros ao lado sobe aqui com tropa e tudo, morreremos todos. Você
deve se preparar, Reizinho. Temos que ter um sucessor. Você. Eu já disse mil vezes.
Você.
Se, por um lado, Reizinho não se prontificava a discutir o assunto com Leitor, por
outro não pedia mais que “não dissesse bobagens”. Ouvia atento, pensativo, nervoso.
Reizinho, naquela noite, sentia-se mal por estar novamente diante de Miltão, pedindo
outro favor. Que permitisse a volta de Fake.
Você vai fazer o seguinte, respondeu Miltão. Você vai marcar um encontro com esse
pulha. E vai dar três balaços na cabeça dele. É isso. Faz tempo que eu quero matar
esse veado. E, agora, se manda. Vai, xô.
Reizinho andou pelas ruelas, sem rumo, observando os vira-latas famintos e
sarnentos que encontrava pelo caminho. Latidos. Até aquele momento não tinha
pensado seriamente nas ideias de Leitor. Seus sentimentos em relação ao traficante
sempre foram paradoxais, deslumbramento e aversão. Cachorros reviravam lixos,
faziam a ronda inútil, dormiam sob o sol quente, passa, disse Reizinho. Miltão era o
homem que lhe dera um tiro na mão e um ofício. Passa. O homem que matava os
inimigos de forma cruel e distribuía carne para os desempregados. Sem Miltão, talvez
Reizinho ainda carregasse no peito aquela sensação de ser um merda, um nada.
Passa. Crianças cercaram dois cachorros que copulavam, é a cadela do açougueiro,
diziam. Miltão lhe dera uma posição. Se hoje era um soldado respeitável, se pagava
suas contas, se comia bem e usava tênis importados, era graças ao traficante. Sim,
devia muito a Miltão. Mas, agora, era diferente. Ele estava pedindo a vida de Fake.
As coisas teriam que mudar no Berimbau. Leitor estava certo. Passa, cachorro.

“Onofre, velho safado, que tal a minha letra? Você não sabe como o progresso é
bonito. Na minha casa, tudo é automático. Micro-ondas, aquecimento, computador,
lava-louças, tudo embutido, branco, e funcionando. Nem acho ruim lavar, passar e
cozinhar para o Heinrich. O Brasil é muito atrasado. Até os pobres aqui são melhores.
Pobre aqui é turco. Mas você nem diz que é pobre (nem que é turco). Todos usam
casaco bom e moram em casas que fazem o seu barraco parecer pior do que ele
realmente é. E limpo. A limpeza é a melhor coisa da Alemanha. Não temos essa
baderna do Brasil, papel de bala e sorvete no chão. As ruas são tão limpas que você
pode comer nas calçadas. E os cachorros não cagam em qualquer lugar. Outra coisa
boa é estacionar o carro. Tem umas maquininhas na rua, você mete moedinha lá
dentro, e pronto, não tem guarda, nada. Esse é o lado bom. O lado ruim é que o metrô
fede bodum. Não entendo como um povo que venceu a guerra não vence o bodum. As
mulheres não raspam o sovaco. E o Heinrich viaja muito. Fico sempre sozinha. Não
consigo aprender alemão. O Heinrich contratou uma portuguesa, a dona Augusta, para
me dar aulas. É muito difícil. Acho mais simples fazer vaca tossir. Mês que vem vamos
para o Brasil. Avise aos amigos que Rosa Maria está chegando. Quero me entupir de
feijoada e pagode. Vou te levar de presente um canivete suíço. Um abraço da Rosa
Maria.”
Onofre estava emocionado com a carta que recebera de Rosa Maria. Lera-a
entusiasmado para Reizinho e Leitor, que comiam empadas, no balcão. Um canivete
suíço, vocês acreditam? Deve ser muito caro. Ai, Rosa Maria. Danada. Quanto será
que custa um canivete suíço? Onofre não se referia mais à amiga como “a vadia”.
Falava dela com orgulho, viu que ela tem professora particular? Dona Augusta. Aposto
que é dona Augusta quem escreve os cartões. Olha só. Uma letrinha redondinha, tão
caprichada. Comer no chão, será que é verdade? Esse fritz deve ser mesmo cheio da
grana. Estou feliz por Rosa Maria. Vejam vocês, neste mundo, com força de vontade,
qualquer um pode vencer. Ah, Onofre, respondeu Leitor rindo, chega de papo furado,
me deixa conversar com o Reizinho.
Onofre se afastou, foi ler a carta para outros clientes. Vou fazer uma festinha, sim, a
Rosa Maria merece. Canivete suíço. Comer no chão.
Reizinho e Leitor voltaram a conversar em voz baixa. Ontem, disse Leitor, ele chutou
a bunda do Tampinha. Juro. Um chutão. Imagina aquele pretão de dois metros levando
chute na bunda. Hein? Quanto tempo dura isso? Nossa questão é delicada. Você não
pode simplesmente dizer que não vai matar o Fake. Há muito tempo, houve um caso
terrível no Berimbau. Você ainda era um pivete quando o Giba se mudou para cá. Giba
era um rapaz de um metro e meio, inteligente como o diabo, que comia todas as moças
do Berimbau. Meio doidinho, feio para danar, mas tinha uma lábia fantástica. As
mulheres simplesmente caíam por ele. Um dia, uma menina apareceu morta num
terreno baldio perto do Onofre, estuprada, os olhos furados, uma coisa horrível. Tinha
treze anos, e tudo o que a gente sabia era que a garota andava doidinha atrás do Giba,
só levando fora. O Giba nunca quis nada com ela, não como neném, ele dizia. Mas o
morro inteiro acusou Giba quando a menina apareceu morta, foi um falatório dos
diabos, ainda mais porque, uma noite antes do crime, ela tinha ido no bilhar do Antônio
atrás dele. Aí vem a parte que te interessa. Veja bem, Miltão nem tinha certeza de
nada, tudo eram boatos, diz que diz. Mesmo assim, ele mandou chamar o Valinho,
irmão do Giba, e disse, você vai matar o Giba. Valinho se recusou. Miltão então matou
os dois, Giba e Valinho. O pior não foi isso. Dias depois descobriram o verdadeiro
assassino da menina. Era o vizinho dela, um pedreiro honesto, muito querido por aqui.
Só estou contando isso para te dizer o seguinte, o Miltão não aceita que alguém
desobedeça suas ordens. Mesmo alguém como você. A minha opinião é a seguinte.
Vamos armar. Eu te ajudo. Você tem o meu apoio.

Na segunda-feira, Reizinho se encontrou com Fake no mesmo bar da Cinelândia, às


nove horas da noite. Foi direto ao assunto, Miltão quer que eu te mate. Fake começou
a rir. Não acredito que aquele filho da puta ainda acha que devo alguma coisa depois
de ficar um ano e meio preso. Sim, ele acha, disse Reizinho. Você vai ter que sumir, e
sumir significa sumir mesmo. Desaparecer. Se puder, mude de cidade. Vá lá para o
Norte, Amazônia, suma. Enquanto o Miltão for dono do Berimbau, esqueça que este
lugar existe.
Leitor e Abigail, o Biga, estavam presentes no encontro. Tudo fora planejado. Dias
antes, Leitor procurara Miltão para dizer que suspeitava que José Luís não iria matar
Fake. Sugeriu que ele e Biga acompanhassem a execução. No início da conversa,
Miltão dissera que ele mesmo mataria Fake. Leitor concordara de chofre, sim, você
tem que matar esse pulha. Ótima ideia. Você mesmo. Só você. Se bem que ia doer
mais se ele fosse morto pelo amigo. Mas sua ideia é melhor. Você mesmo, em pessoa.
O líder matando a pulga. Vai ser um exemplo.
Ultimamente, era assim que Leitor conseguia mudar as opiniões de Miltão. Se
ninguém se opusesse ao que o traficante dizia, logo o homem afrouxava. Não vou sujar
minhas mãos com aquele escroto, respondera afinal, depois de fumar um baseado.
Matem o puto logo.
Naquela segunda-feira, quando voltaram para o Berimbau, tarde da noite, no carro
dirigido por Biga, Leitor foi prestar as contas. Metemos um monte de balas no infeliz,
contou para Miltão. Queimamos o corpo e jogamos o presunto perto do Fundão. Já
deve ter urubu fazendo a festa. Leitor possuía detalhes fantásticos, iria fazer Miltão
rolar de rir com a cena do choro de Fake. Estava preparado para contar uma história
cheia de detalhes cruéis. Nem fora preciso. Miltão não queria conversa, naquela noite.
Michele, quinze anos, de short e miniblusa, estava sentada no sofá, acabara de chegar.
O traficante só queria saber de despachar os marmanjos e ficar sozinho com ela.
18

Z zzzzzzzzzzzzzzzz, o aspirador de pó defeituoso emitia um som agudo, penetrante,


levando Alzira a uma espécie de transe diabólico. Depois de desligá-lo,
necessitava de alguns segundos para entender o que as pessoas ao redor lhe diziam.
Ouvia as palavras, notava os lábios articulando os sons, mas era como se tudo fosse
dito numa língua estrangeira. O meu café, Alzira, coloque o meu café na mesa, pediu
dr. Rodrigo, estou atrasado. Toda quinta era dia de faxina na casa de dona Juliana.
Alzira afastava os móveis, tirava os tapetes, desmontava a sala, e fazia tudo com
prazer, porque gostava de faxina. Enquanto limpava, pensava em Jesus, e isso dava
um grande sentido ao ato de esfregar e lavar. Se a sujeira fosse persistente, melhor
ainda, assim era o caminho dos céus, difícil, esfregar, esfregar, com fé, no final do dia,
com os braços e pernas doloridos, deitava-se na cama e sentia o coração cheio de
Cristo, um cansaço bom, de quem servira a Deus. O problema eram as interrupções.
Café, leite, mamão e pão com manteiga, aqui está o seu café. Dr. Rodrigo, pela
manhã, estava sempre correndo, apressado, gastava duas horas no banheiro, lendo
jornal e tomando banho, e depois começava a gritar pela casa, onde está minha
gravata marrom? Meu terno não voltou do tintureiro? E antes de o patrão começar as
broncas, Alzira já havia enfrentado o primeiro round, os meninos indo para o colégio,
Alzira, o meu pão de queijo, o meu suco de tangerina, o meu tênis vermelho, pega isso,
Alzira, água, vem cá, Alzira, vai lá no meu quarto e veja se eu esqueci a minha lapiseira.
Está aqui a lapiseira, Alzira. Achei. A faxina ficava espremida entre as outras
atividades, exatamente como a reza, na vida de certas ovelhas. E mesmo assim ela
gostava de faxinar, melhor que cozinhar. Enquanto cozinhava não conseguia pensar em
nada. Os legumes cortados, o filé grelhado de dona Juliana (sem um pingo de gordura,
Alzira), as batatas fritas de Marcelinha, o bife sangrento de dr. Rodrigo, a preparação
dos alimentos acabava com sua concentração. Mas limpar, não. Tchau, Alzira. Era
incrível como a sujeira se acumulava com rapidez. Na quinta passada limpara tudo, e
pronto, ali estava a poeira negra, mundo sujo, Alzira encharcava os panos com
amoníaco e esfregava o vidro, imaginando que cada mancha era um pecado. Coloque o
meu café, por favor, disse dona Juliana, entrando na sala, ainda de pijama.
Outra interrupção. Uma fatia de pão integral com ricota, meia xícara de leite com
adoçante e café, e montes de pílulas para celulite. O que adiantava tomar aquele
cafezinho de nada e depois se entupir de pão? Meu problema é o carboidrato, Alzira.
Fico ansiosa. Não ligo para doce, ela dizia. Mentira. Estava sempre arrancando
colheradas dos pratos dos outros. Emagrecendo e engordando, toda semana. Como
Carolaine. Se bem que Carolaine só engordava. Inclusive já perdera as calças
compradas depois do nascimento de Alas. Para que aquele barrigão todo? Tão nova, a
Carolaine. Sim, Alzira era gorda, mas, oras, a vida já estava no fim. Já casara, tivera
filhos, pronto. Para que emagrecer? Carolaine não, tão nova, e uma barriga daquelas.
Não podia. Tira este pão daqui, pelo amor de Deus, Alzira, disse Juliana, com o
telefone no ouvido. Não posso engordar. Alô, por favor, o Fernando? Pausa. Como?
Ele não foi trabalhar? Você deixa um recado que a Juliana telefonou? Sim, Juliana.
Alzira, mais pão. Você tirou o pão por quê, Alzira? Juliana desligou o telefone,
preocupada. O Fernando não telefonou? Não, não telefonara. Se ele ligar, diga que saí.
Não. Vou atender. Eu atendo, está bem, Alzira?
Juliana notara que Alzira andava de cara amarrada nos últimos dias. Talvez ela
tivesse ouvido o comentário maldoso de Rodrigo. Fale baixo, Rodrigo. Os amigos na
sala, e Rodrigo contando, a Alzira é a prova de que Deus, se existe, é um filho da puta:
Alzira é feia, pobre, burra e ignorante. Adoramos a Alzira, disseram. Mas ela é muito
burra. Tão burra que, outro dia, anotou um número de telefone assim: 5554477
333333333, querendo com isso escrever 35 24 27 93.
Sim, estava de má vontade, Alzira. Agora, dissera Juliana para a amiga Alicinha,
agora trato a Alzira como rainha. A Alzira sabe do Fernando. Ela me olha de um jeito,
Alicinha, vou te dizer uma coisa, tenho que mandar essa mulher embora. Rápido. Mas
se eu despedi-la, a troncha conta tudo para o Rodrigo. Tenho certeza. Esses dias ela
me pediu aumento. Dei no ato. Uma fortuna, o que estou pagando. Ju, querida,
respondia Alicinha, na minha opinião, a Alzira nem precisa falar nada sobre o seu caso
com o gatorade, você mesma se encarrega disso. Você dá cada bandeira, meu amor,
aquele dia, no almoço da Helena, eu contei, você falou sete vezes sobre a sua aula de
ginástica. Assim fica difícil; cale a sua boquinha, meu bem. Qual seria a reação de
Rodrigo se descobrisse? Logo Rodrigo, que vivia comentando o fato de fulano estar de
caso com a secretária. Secretária? Que horror, ele dizia, que coisa mais preguiçosa,
comer uma secretária. Comer um motorista. Comer uma assistente. Uma estagiária.
Que coisa mais classe média. Não havia nada pior, aos olhos de Rodrigo, do que
chamar alguém ou alguma coisa de classe média. Restaurante classe média. Sujeitinho
classe média. É bem classe média, ele falava. Cuidado com Rodrigo, querida. Não é
tonto. Bem, sim, ela precisava falar menos do Fernando, mas Fernando a enlouquecia.
Alice, ele deve estar com outra, eu sinto. Ele mudou. Será, Alice, que eu estou muito
caída? Hein? Punha-se na frente do espelho, levantando os peitos. Não tenho uma
única amiga que não tenha feito plástica. Olha aqui a celulite. Estou fazendo um
tratamento com ginco biloba. Tomo seis litros de água por dia, corro, faço musculação,
massagem, e olha o meu estado. Celulite é uma praga. É de família. Sabe, Alicinha,
fazer quarenta anos é a pior coisa que pode acontecer para uma mulher. É um baque.
Ter quarenta anos é uma espécie de doença. Eu minto agora. Digo que tenho trinta e
nove. Faz uma tremenda diferença. Não física. Os homens admitem sair com uma de
trinta e nove. Quarenta, nem pensar. Talvez Fernando tenha conhecido uma de vinte e
cinco. Será? Antes, Alice, ah, o que adiantava contar para Alice? Alice não se
importava nem um pouco. Alice era o que os americanos chamavam agora de “addicted
society”. O negócio dela é ir em festa, para falar quem foi convidado, quem saiu na
coluna social, quem é importante, quem tem dinheiro. Esses dias, comentou Juliana
com outra amiga, esses dias ela me disse, quero fazer no meu aniversário um
“ramalhete social”, leu isso em algum lugar e ficou repetindo, “ramalhete social”, que
cretina. Na verdade, Juliana não se sentia muito diferente de Alice, repetira ela mesma
várias vezes para outras amigas a expressão “ramalhete social”, achara interessante
aquilo, um buquê de pessoas, o problema era, bem, desde que a amiga começara a ter
aulas com Fernando, bem, nem era bom pensar. Será? Fernando sempre chegava da
casa de Alice com ar blasé. Você acha, Alice, que ele está com outra? Você não notou
nada? Nada. Nadinha. Psiu, fala baixo, a Alzira vem vindo. Viu que ela está mal-
humorada? Sempre de cara feia. É assim agora. Eu a apelidei de “miss buldogue”.
Alzira não estava aborrecida. Era a sua perna que não a deixava em paz. Logo acima
do tornozelo direito, surgira uma ferida. Notara havia uma semana. Passara mertiolate,
e nada. Não se machucara, tinha certeza. Talvez fosse uma picada. Mais café,
Alzirinha. Obrigada. Sempre muito educada, a dona Juliana. Pecadora educada. Isso
era bom, melhor do que ser uma pecadora sem educação. Vaidade era pecado.
Fornicar era pecado. Adultério era pecado. Gula era pecado. Alzira já tentara salvar a
patroa das garras do demônio. Oferecera-se para trazer o pastor Walmir para uma
conversa. Sou católica, respondera Juliana. Alzira entendia muito bem o significado
daquele tipo de resposta. Não estou nem aí com Deus, era isso, o catolicismo. O
problema era esse.
O interfone tocou. Alzira arrastou a perna doente até a cozinha para atendê-lo. Meu
nome é Fake, disse uma voz, do outro lado, sou amigo do seu filho, já estive aqui com
ele, há muito tempo, posso falar um minuto com a senhora? Lembrava-se dele. Sim,
pode subir. Outro bicho ruim do bando do Miltão. Não queria que dona Juliana o visse
na cozinha. Como vai, dona Alzira?, perguntou o rapaz, muito simpático, quando Alzira
abriu a porta. O que adiantava toda aquela educação se não estava com Cristo? O
diabo, quando chega, fala manso. Será que a senhora poderia entregar este envelope
para o Zé Luís? É importante. Muito importante. Não esqueça.
Alzira bateu a porta e sentou um pouco para descansar. Afinal, o que era aquela
ziquizira na perna?
O imóvel se localizava na parte mais baixa do Berimbau, atrás do açougue do Zino.
Um barraco de três por três, de piso acimentado, sem janela e coberto com folhas de
amianto. Não muito longe da porta, uma vala escura, onde corria o esgoto, aberto. Se
pintar fica muito bom, disse a proprietária. A mulher, apoiando o corpanzil no batente
da porta, não parava de listar as vantagens de viver no pé do morro. É perto do ponto
de ônibus, ela dizia. Na hora do tiroteio é fácil sair correndo. Vi na televisão, disse a
mulher, que agora nem lixeiros querem mais subir o morro, com medo de levar um
balaço na testa. O bom mesmo é morar aqui embaixo.
Reizinho queria algo mais no alto, perto da casa de Kelly, que lhe prometera ajudar a
cuidar de Francisco. Mas, pensando bem, não ter que enfrentar diariamente as ruas
íngremes era uma vantagem. Fechou negócio, pagando seis meses de aluguel
adiantado.
Reizinho subiu o morro pensando nas futuras providências. Oi, dona Zita, ele disse,
cumprimentando a senhora sentada na porta de casa, com uma criança no colo.
Compraria tinta, quando tivesse tempo, ele mesmo pintaria o local. Como vai, dona
Elza? No final do dia, crianças brincavam nas ruas, e as mulheres, nas janelas e
portões, de banho tomado, conversavam com os vizinhos, enquanto aguardavam a
chegada do marido ou dos filhos. Como vai? Uma cama, um fogão, uma televisão e
geladeira, só compraria o básico para o pai. Sim, e uma Kombi. Mas isso só depois
que Francisco abandonasse a bebida. Boa-noite, seu Pedro. Claro, ele largaria a
bebida, o pai, e faria fretes, havia sempre pessoas chegando, partindo, casando,
festas, mudanças, trabalho que não acabava nunca. Logo o pai poderia comprar outro
carro, e mais outro, trabalhariam juntos, formariam uma frota, teriam uma empresa.
Boa-noite, Reizinho. Pai empresário. Mãe doméstica. Poderiam também comprar táxis.
E contratar motoristas. Oi, Zé. O pai comandaria tudo. Teriam uma secretária. O
problema seria contar para a mãe. E Carolaine. Oi. Talvez, se pedisse ajuda para
Cândida, a avó. Cândida não era tão hostil em relação a Francisco. Sua mãe sempre
foi muito nervosa, ela dissera certa ocasião. Lembro de um dia que eu e seu avô
almoçamos na sua casa, você era bebê, a Carolaine, uma garotinha. Seu pai assistia à
TV, o almoço já estava na mesa, e só porque ele demorou um pouco, sua mãe fez um
escarcéu, uma coisa besta. Eu disse: Alzira, casamento não é assim. Homem não
gosta de ser tratado dessa forma. Ela não me ouviu. Deu no que deu. Bem feito,
pensou Reizinho.
Alguns moleques se aproximaram, barulhentos. Queriam uma bola nova para o grupo
escolar. Estamos sem jogar. Vou ver, respondeu Reizinho. Mostre a sua arma,
pediram, adoravam ver metralhadoras, as crianças do Berimbau. Miltão as habituara a
isso. Sempre distribuía balas Rin Tin Tin, o traficante, e as divertia, mostrando seu
arsenal. Não, respondeu José Luís. Chispa. É AR-15?, perguntaram. Sumam. Subindo.
Lucubrações. E o pai? O que diria a ele? Arranjei um lugar para o senhor morar. Não.
Talvez tivesse que contar toda a verdade. O senhor é o meu pai. Sou o José Luís, filho
da Alzira, irmão de Carolaine, neto de Cândida, morador do Berimbau. Sentia-se aflito
quando pensava nessa possibilidade. Era estranho chegar para o próprio pai e dizer,
sou o filho que você abandonou. “Abandono”, não gostava dessa palavra. Era o que
Alzira sempre dizia, aquele canalha abandonou vocês dois. Um pulha, o seu pai.
Mulherengo sem-vergonha. Pinguço nojento. Oi, dona Cida.
Quando entrou na casa de Kelly, a TV estava ligada na telenovela. Você, dizia o ator,
você é uma infeliz, uma neurótica, Gustavo fez bem em casar com Gilda, vou destruir
você. Kelly?, José Luís desligou o aparelho. Sentiu um cheiro bom na casa. Kelly,
cheguei.
Descascou uma banana e foi para o quarto. Kelly, de calcinha e sutiã, secava o
cabelo em frente ao espelho do guarda-roupa. Oi, Zé, sua mãe deixou isso para você,
ela disse, mostrando o envelope em cima da cômoda. Reizinho olhou as coxas nuas de
Kelly. Minha mãe? Pôs a arma sobre a cadeira perto da porta, abraçou Kelly por trás.
Hum. Vou ler para você, continuou Kelly, abrindo o envelope: “Zé, precisamos
conversar. É urgente. Me encontre hoje às nove e meia no McDonald’s do Fashion Mall.
Fake.”
O corpo de Kelly exalava um aroma de sabonete. Zé Luís, com o corpo, empurrou-a
para a cama. Beijos. Tira essa roupa, ela disse. O que será que o Fake quer com
você? José Luís não queria pensar no Fake nem em ninguém naquele momento. Tinha
algo melhor para fazer.

Desenhos de bandeirinhas coloridas. “Grande arraial de Jesus Cristo. Festa junina do


Rebanho do Puríssimo Amor do Nosso Senhor Jesus Cristo. Dia 27, na praça esportiva
do Berimbau. Jogos, fogueira, quentão, e muita diversão. Não perca.” O cartaz, feito
com cartolina e caneta hidrocor, estava sendo colado no balcão do bar do Onofre pelo
pastor Walmir. Walmir relatava para o amigo as atividades que estavam sendo
preparadas, gincanas, corrida com ovo na colher, essa eu quero, disse Onofre. Vou
colocar minha velha na gincana também. Ela é boa nessas coisas. Vai ter corrida com
saco? Posso arranjar estopa, ele disse.
A festa seria realizada no domingo, e com o dinheiro arrecadado começariam a
construir uma creche na igreja Rebanho do Puríssimo Amor do Nosso Senhor Jesus
Cristo. Vou, sim, disse Onofre. E falando em dinheiro, o senhor não quer comprar uma
rifa de bicicleta? Estou vendendo. É para o churrasco que estou querendo oferecer
para a Rosa Maria. O senhor já sabe da Rosa Maria? Minha amiga alemã?
Nesse momento, Miltão, Leitor e mais dois soldados do bando entraram no bar. Oi,
gente boa, disse Onofre, constrangido pela situação. E aí? Cerveja na goela?
Walmir cumprimentou Miltão, respeitoso. Como vai o senhor?
Não fala comigo, respondeu Miltão. Não olha para mim, ouviu? Neguinho falso. Na
igreja me malha, ele disse para Leitor, que o levava para o fundo do bar, em direção à
sinuca. Calma, cara, ele dizia. Vamos jogar. Deixa barato. Miltão sabia que Walmir
andava condenando seus atos nos sermões da igreja. Sua própria mãe, que também
“era bíblia”, havia lhe contado. Ela, que sofria de pressão alta, passara mal após o
sermão de domingo. Você fez tudo aquilo, filho? Você matou um rapaz e cortou a
língua dele? Claro que é mentira, mãe. Tenho cara de cortador de língua? Hein? A
senhora, que me criou, acha isso? Seu filho que dá tudo o que a senhora precisa,
comida, panela, cobertor, sapato, casa, remédio, pense bem, seu filho sai por aí, hein,
fazendo essas coisas? O que mais ele disse, mãe?
Leitor não conseguiu segurar o traficante por muito tempo. Miltão voltou para o
balcão, enfurecido, falando alto, não estou gostando nada desse papo de quermesse e
de creche, ele disse. Não fui consultado. Não aprovei nada, está escutando, palhaço de
Deus?
Walmir o encarou, sem demonstrar medo. Comentou que tanto a ideia da quermesse
como a da creche haviam sido discutidas e aprovadas pelo Leitor. O Leitor não apita
nada, respondeu Miltão. O Leitor é um bunda-suja. Eu é que sou dono do pedaço, ele
disse.
Leitor abaixou a cabeça, constrangido. Não que alguém esperasse uma reação de
Leitor, mas vê-lo humilhado, de cabeça baixa, sem dizer uma palavra, causou um mal-
estar em todos.
Miltão, disse Onofre, querendo evitar confusão, hoje a cerveja é por conta da casa.
Não encha o saco, Onofre. Desde quando eu preciso de cerveja de graça?
Onofre, aflito, fez sinal para que Walmir saísse rápido. Olha aqui a cerveja. Quem viu
o jogo ontem?
Walmir já estava na porta, quando Miltão arrancou o cartaz da quermesse e o rasgou
em pedaços. Está resolvido, ele disse. Não tem quermesse. Nem creche. Palhaço.
A reação de Walmir surpreendeu a todos. Só me matando, ele disse. Vou fazer a
festa, Miltão. E vou construir a creche. Vou andar por aqui à vontade, mesmo que você
continue me ameaçando. O morro não é seu. O morro é de Deus.
Depois de falar tudo, Walmir virou as costas e saiu, sem se apressar.
Onofre foi obrigado a segurar Miltão para que o traficante não sacasse sua arma.
Aqui não, ele disse. No meu bar, não. Por favor, Miltão.
Quem ele pensa que é?, gritava Miltão. Neguinho abusado. Se fodeu, ele disse.
Agora ele se fodeu. Vai ver. Está fodido, esse piolho. Acabou.

Reizinho chegou adiantado para o encontro com Fake. Andou pelo shopping center,
sem rumo, observando as garotas que passeavam em grupos, risonhas, futricantes,
barriga de fora. Vez por outra parava diante de alguma vitrine. Tudo em promoção.
Porra.
Às nove e quinze foi para o McDonald’s, comprou uma Coca-Cola e aguardou,
sentado a uma das mesinhas. Ao seu lado, uma adolescente obesa devorara um Big
Mac numa velocidade impressionante. Porra. Essa come. Nunca deve ter visto um
caralho na vida, pensou José Luís, divertindo-se. Quando a garota se dirigiu ao balcão
e encomendou outro Big Mac, José Luís começou a rir sozinho. Porra, devia pesar
mais de cem quilos, a vadia. E comendo daquele jeito. E torta de banana, batata frita.
Celulite. Porra. Parecia a Carolaine.
Aí, brother, disse Fake, sentando-se na sua frente.
A conversa foi objetiva. Fake contou que agora vivia sob a proteção de Zequinha
Bigode. Um preto sensacional. Muito dever. Humano para caralho. E competente. Ele
quer levar um lero contigo, brother. E isso não tem nada a ver com tuas qualidades, Zé.
É a Suzana mesmo, tua fada madrinha, que está por trás de tudo. Suzana é uma
fodona no morro dos Marrecos. Manda e desmanda, a mulha. Sabe o que isso
significa? Chegou a tua vez, brother. Você está entendendo? Ser king, que tal? Hein?
Captou a ideia? É isso, brother. Se você não quer ser pau-mandado do Miltão o resto
da vida, pronto, chegou a hora. O homem está disposto a te ajudar. Quer marcar um
encontro. Que tal? Vai ficar mudo? Enguiçou? Decida, brother. O que eu digo para
eles?
19

O pai leva ao doutor/ a filha adoentada,/ não come, nem estuda,/ não dorme nem
quer nada, cantava o sanfoneiro contratado pelo pastor Walmir para animar a
quermesse. O palco, apesar de ter sido aprontado a toque de caixa, deixou a todos
encantados, com a decoração de bandeiras e tirinhas de papel colorido. Dois violeiros,
vestidos a caráter, impunham ritmo à festa. Mas o doutor nem examina,/ chamando o
pai de lado lhe diz logo em surdina,/ o mal é da idade, e para tal menina,/ não há um
só remédio em toda a medicina.
Doce de leite, pamonha, curau, pé de moleque, maria-mole, cocada, pastéis,
queijadinha, milho-verde, quentão, bolo de fubá, broa, pipoca, cuscuz, empada,
churrasquinho, croquete, havia todo tipo de quitute nas dezesseis barracas instaladas
na quadra esportiva do morro do Berimbau para a Festa de São João. Carolaine, muito
animada, trajando uma saia de chita colorida e chapéu de palha, andava de um lado
para outro, inspecionando o pessoal da igreja e cantarolando Ela só quer,/ só pensa
em namorar. Posso experimentar o pé de moleque? Croc. Muito bom. Sei muito bem o
que significa todo este apetite, pensou, alisando a barriga. Ela só quer,/ só pensa em
namorar. Sentia-se feliz como nunca. Croc croc croc. Fazia três dias que vivia em
função da festa. Não há um só remédio em toda a medicina. Nhac. Fora ela quem
coordenara toda a produção dos comes e bebes, coletando dinheiro e distribuindo
tarefas para as quarenta e sete ovelhas do rebanho de Cristo. Adoro doce de leite, ela
disse, enfiando um na boca, hum. Ela só quer. Hum, muito bom, hum. Trabalhão
coordenar tudo. Nem consegui assistir às minhas novelas, contou para Kelly, você sabe
se o Felipo Albuquerque beijou a Magda? Sim, respondeu Kelly, e a Tarsila despediu a
Irene. E mais: a Marcela Aragão foi expulsa do estaleiro. É mesmo?, perguntou
Carolaine, bem feito, a Marcela é uma cadela, olha minha boca suja, Walmir que não
me ouça, amém. Cadê o Reizinho?, perguntou. Ali, respondeu Kelly.
Reizinho conversava com Onofre e Leitor na barraca do quentão. Acenaram as
mãos. É Carolaine?, perguntou Leitor. Não a reconhecera. Carolaine estava muito
orgulhosa do irmão. Sem ele, a quermesse não teria se realizado. Fora Reizinho quem
conseguira acalmar Miltão. Na verdade, nem José Luís soube explicar como o tal
milagre ocorrera. Naquela noite, depois das súplicas da irmã, que aparecera na casa
de Kelly chorando, transtornada, José Luís foi falar com o traficante, sem muita
esperança de conseguir mudar a posição do líder. Miltão andava cheirando muito.
Drogado, não parava de humilhar seus soldados. Não está gostando? Dê o fora.
Neguinho que se foda, dizia. Neguinho leva um balaço no cu, se bobear. Não vá pedir
nada, orientara Leitor. Cuidado com ele. Ontem, esculachou o Biga só porque o coitado
esqueceu de colocar gasolina no carro dele. Que puto. Se ainda fosse um grande
homem, vá lá, mas, na verdade, Miltão é um xucro. Um porra de um pé-rapado. Nobre,
por exemplo, podia ser maluco, mas não atirava em helicóptero da polícia. Na época
dele ninguém era assaltado aqui no bairro. E não se pagava pedágio também. Quer
meu conselho? Manda o pastor fazer a festa e foda-se. Quero ver a reação do Miltão.
Vai colocar fogo? Não perca tempo com aquele bosta. Deixa ele se queimar com a
comunidade. O cretino não vai colaborar. Sabe por quê? Um dos grandes baratos do
Miltão hoje é ser escroto. É assim que ele se diverte, infernizando os outros.
Logo nos primeiros minutos de conversa com o traficante, antes mesmo que José
Luís defendesse a quermesse, Miltão adiantou que não era preciso “aporrinhar”. Liberei
a festa, ele disse, sem delongas. Fale para o padreco que ele pode fritar as pipocas de
Deus. Assim era Miltão. Imprevisível. Sem o meu irmão, dissera Carolaine para o
pastor, logo depois de saber das novidades, sem o Zé, essa sua briga ia ter graves
consequências. Não houve desavença, respondera Walmir. Foi ele que me agrediu.
Mesmo assim, meu amor, com briga ou sem briga, sem o Zé, meu bem, quermesse só
em sonho, você não conhece o Miltão. Carolaine, escute, Carolaine, preste atenção,
você ainda vai me chamar de “meu amor” na frente da sua mãe, alertara Walmir,
naquele dia. Ah, que se danassem todos, pensou a moça. Estava louca para contar
para o mundo que estava vidrada em Walmir. Ainda mais agora, que levava um filho
dele no ventre. E não engravidara de propósito. Pelo contrário, tentara evitar. Chegara
inclusive a consultar um ginecologista, que lhe prescrevera pílulas anticoncepcionais.
Mas sempre esquecia de tomá-las. Sim, sua cabeça não era boa para “essas coisas”.
Teria que contar para Walmir que engravidara. Uma coisa era certa: o neném seria
bom para resolver logo aquela situação. E se escutam você me chamando de “amor”,
Carolaine?, perguntara Walmir naquela noite. O que vão pensar? Não estou nem aí
com o que pensam de nós, ela respondeu. Eu me importo, Carolaine. Sou casado com
a Clotilde. Ai, caramba, a mesma ladainha de sempre, a Clotilde, minha esposa, sou
casado, sou pastor, o que Deus uniu, o homem não pode separar. Para o inferno, esse
nhenhenhém, pensava Carolaine. Além do mais, você prometeu largar a Clotilde.
Nunca, Carolaine, nunca. O que eu disse é que SE um dia a Clotilde morrer, de morte
natural, veja bem, morte natural, nós podemos nos casar. SE. Sou um pastor. SE. Um
pastor é um modelo. Um alicerce. Uma referência. Desde o início, era assim, sempre
as mesmas brigas. Carolaine se enfurecia quando Walmir começava a explicar a
importância do pastor para o rebanho. Sou o que vai na frente, criatura de Deus. Sou a
flecha. Sou o caminho. Às vezes, Carolaine passava dois, três dias sem falar com
Walmir, para puni-lo por ser casado. Não conhecia Clotilde. Walmir nunca trazia a
esposa para a igreja. Jamais permitira que Carolaine fosse até o bairro onde morava.
Não quero que você sofra, ele dizia. Para que conhecer Clotilde? Você é o meu amor,
Carolaine. Grandes coisas. Ama, mas não casa. Queria só ver a cara de Walmir
quando lhe contasse sobre o bebê. E Clotilde. Que nome. Clotilde é nome de tia
encalhada em novela das sete. Uma magrela alta, que sofre de prisão de ventre. Isso é
Clotilde, dizia às vezes, para irritá-lo. Deus ouve nossas palavras, Carolaine. E o que
Deus faz enquanto você me fode, de roupa e tudo, depois dos cultos? Deus fecha os
olhos? Ai, Carolaine, como você me martiriza, expondo meus pecados de forma tão
cruel. Carolaine gostava de torturá-lo, quando estava brava por causa de Clotilde.
Adorava se imaginar revelando para as ovelhas de Cristo, numa noite de sábado,
enquanto Walmir levava a esposa e os filhos para comer pizza, a forma como Walmir a
seduzira, na igreja. Havia um quartinho, lá no fundo, um escritório, com uma cama de
campanha. Fora lá. Meu Deus, ela contara para a amiga, Kelly, na cama, esse homem
nem parece um pastor. É um animal. Uau. Esquece de Deus completamente. Só Kelly
sabia do romance. Jurara não “dar com a língua nos dentes”. Mas já relatara tudo para
José Luís. Porra. A Carolaine é uma vaca, dissera o irmão. Adora fazer uma cagada,
aquela gorda. Porra. Puta que pariu. Mulher burra. Minha vontade é bater na Carolaine.
Jure, jure que você não vai brigar com ela, coitada. Porra. Brigar, ela que se foda,
porra. Kelly contara também para Yolanda, a mãe. O pastor e a Carolaine? Eu sabia.
Ele, com todos os botões da camisa abotoados, nunca me enganou. Conheço os
mulherengos. Têm aquele jeito compenetrado, sério, de homem de bem. Mas só
pensam no próprio pau. Comendo a menina. Coitada. Olha só. Sabia, Onofre?, dissera
Yolanda mais tarde para o amigo. Do Walmir com a Carolaine?
Uma quermesse superproduzida como aquela não ocorria havia muitos anos no
Berimbau. As crianças madrugaram na quadra, quando as barracas começaram a ser
montadas. Zanzavam frenéticas querendo ajudar os adultos.
Atenção, pessoal, quem quiser participar do bingo, as cartelas estão sendo vendidas
pelo seu Caju, perto do gol.
Oi, mãe, disse Carolaine para Alzira, que cuidava da barraca de canjica e curau, a
senhora viu o Walmir? Alas, com um bigode que Kelly lhe desenhara no rosto, calça
jeans, camisa xadrez e lenço no pescoço, brincava com uma panela vazia que a avó lhe
dera. Não sei. O Caju também está atrás dele. Quer as cartelas de bingo. Vou procurar
o Walmir, falou Carolaine.
No caminho até a igreja, Carolaine, contemplando o céu estrelado e a lua cheia,
sentiu um bem-estar tão grande, uma sensação de felicidade. Foi invadida pela certeza
de que aquele era o momento. Contaria lá mesmo, na igreja, sobre a gravidez. Claro,
não seria fácil, mas os dois juntos, com Cristo, enfrentariam a situação. Se fosse
preciso, ela mesma conversaria com Clotilde. Só não queria era contar para Alzira.
Alzira era tão escandalosa. Tão exagerada. Não suportaria novamente aqueles
esculachos, aqueles sermões sobre como-a-vida-é-difícil e como-os-homens-não-
valem-nada. Não.
Walmir? Carolaine, ao entrar na igreja, notou as cartelas de bingo caídas perto do
local de pregação. Walmir? As luzes do quarto dos fundos estavam acesas. Walmir?
Carolaine caminhou vagarosamente até a porta, que estava semicerrada. Ao
empurrá-la, viu o pastor na cama, de bruços. O travesseiro era uma poça de sangue. O
lado direito da cabeça simplesmente não estava mais ali, e havia pedaços de massa
encefálica até na parede.
Ai, Jesus Cristo, gritou Carolaine, ajoelhando-se ao lado do pastor. Não. Não faça
isso comigo. Não me deixe sozinha, Walmir.

Com um ovo na ponta da colher presa entre os dentes, homens e mulheres


caminhavam apressados em direção ao ponto de chegada, incentivados pelos gritos da
torcida, corre, corre. Crianças gargalhavam quando os ovos estalavam no chão, corre,
e os cachorros se apressavam para lamber as gemas antes que elas fossem
totalmente absorvidas pela terra.
Carolaine avançava com dificuldade em meio à multidão estagnada ao redor das
gincanas, das barracas e da fogueira, pedia licença, saiam da frente, dizia, chorando.
Venha ver, Carolaine, o Onofre correr como um sapo. Não escutava o que lhe
perguntavam, mal conseguia enxergar as pessoas na sua frente, era como se andasse
dentro da água, os movimentos lentos, a cabeça zonza, a imagem do amante morto,
Jesus, ela dizia, com vosso poder, não permita que ele morra, Jesus, não me
abandone grávida, mesmo que ficasse aleijado, o Walmir, tantã, mesmo sem cabeça
ela o queria de volta, Jesus Cristo, que é bom, justo e poderoso, não me deixe sem o
meu Walmir. Só estamos esperando as cartelas para iniciar o bingo, anunciou o
sanfoneiro.
Quando Carolaine subiu no palco, quase ninguém percebeu que suas roupas estavam
sujas de sangue. Ela retirou o microfone das mãos do cantor, sob o olhar curioso dos
moradores. Can-ta, can-ta, can-ta, começaram a gritar, batendo palmas. Mataram, ela
tentou dizer, a voz falhou. Mataram o pastor Walmir, ela falou na segunda tentativa,
entre soluços. Deram um tiro na cabeça dele. Soluços. Lá na igreja. Soluços.
No início, fez-se um grande silêncio. Quando o corpo da garota tombou inerte no
estrado de madeira, instalou-se a confusão. Foi o Miltão, alguém gritou. Os fiéis se
ajoelharam, chorando, gritando, rezando, pedindo justiça. Zino, o açougueiro, subiu no
palco. Atenção. Ninguém queria escutá-lo. Ouçam o açougueiro, disse o cantor do
grupo. Ouçam o que ele tem a dizer. Não vamos mais tolerar esse tipo de coisa na
nossa favela, disse Zino. Sabemos quem matou o nosso pastor. É, gritavam os
moradores, levantando os braços. Não podemos mais voltar para nossa casa e dormir
como se nada estivesse acontecendo. Foi o Miltão, gritavam os moradores. Vamos
fazer justiça. Sim, bradavam todos. Vingança. Justiça. O que este maluco está
propondo?, perguntou Biga, aflito com o tumulto. Se eu entendi bem, respondeu Leitor,
ele está repetindo o conselho de um juiz americano que li não sei onde e que gosto
muito: “Chegou a hora de irmos para nossas casas e pegarmos nosso bastão de
beisebol.”
Logo, homens, mulheres e crianças se armaram com pedaços de pau, facas e
pedras, e, como uma matilha, saíram pela favela à procura de Miltão. Vários grupos de
dez, vinte pessoas vasculhavam as diferentes ruelas tortuosas do morro, fazendo
barulho e chamando às janelas as poucas pessoas, na maioria velhos, que não tinham
ido à festa. Como ninguém sabia ao certo o endereço do traficante, vagavam errantes,
sem alvos. Cercaram e apedrejaram a casa da irmã de Miltão. Puseram fogo num
ponto de venda de drogas.
Miltão não foi encontrado em nenhum de seus esconderijos. Ninguém sabia dele.
Alguém disse que ele estava em Caxias. É mentira. Assassino.
Ao verem os moradores tomando conta das ruas, furiosos, incontroláveis, decididos,
Leitor, José Luís, Biga e mais alguns outros soldados que Leitor chamava de “primeiro
escalão de araque”, reuniram-se fora da favela, num posto de gasolina da avenida
Brasil, para discutir o assunto. Não há muito o que pensar, disse o Leitor. O cara está
fodido. Já vi muita coisa, por aí. Na guerra mais sangrenta da máfia, li isso num livro
sensacional, um capo estrangulou, queimou, decapitou, fuzilou, espancou, torturou,
dissolveu em ácido e assou em espeto vários juízes, jornalistas, chefes de polícia e
mais um monte de gente que entrou no caminho dele. Não acredito que havia padres na
lista. Não mesmo. Finito. É só isso que eu tenho a dizer. The end. Fine. Fim.

Quase tudo sobre a vida do pastor Walmir foi revelado no velório, realizado em sua
residência, na manhã do dia seguinte. Os fiéis se impressionaram inicialmente com a
casa no Catumbi, grande e luxuosa, e com os três carros na garagem. Não sabia que
ele era rico, comentou Alzira, observando o bar instalado no canto da sala, de mogno,
com garrafas de uísque escocês e copos de cristal, as bebidas expostas de maneira
impecável, exatamente como na casa de seu patrão. Olha o tapete, comentou no
ouvido de Carolaine, que beleza. Olha as cortinas de renda. Alzira, que já admirava
cegamente o pastor, teve uma sensação de acerto ao constatar que o seu mentor era
rico. Carolaine, sem prestar atenção nas palavras da mãe, tentava adivinhar, entre os
presentes, quem seria Clotilde. E os filhos? Onde estariam? Walmir lhe descrevera
uma menina graciosa de cachinhos e um menino gorducho de olhos espertos. As
crianças que estavam no velório eram feiosas, desengonçadas, cabelos crespos, como
o de Carolaine. Sem cachos. Sem olhos vivos. Só gente chorando, amuada, só luto e
tristeza. A cozinha é uma beleza, Alzira disse para Carolaine, depois de um breve
passeio pela casa. Vá ver. Um exaustor que chupa até nosso cabelo. Dona Juliana ia
adorar. Nem parecia rico, ela dizia a toda hora. O Walmirzinho. Adorava minha
macarronada. Tão simples. Como Moisés. Moisés era príncipe, sabia? Walmir é
parecido com Moisés, dizia para todos. Que será de nós, sem Moisés? Como
atravessaremos o mar Vermelho? Pense, Carolaine, que alma boa, que outro rico você
conhece que é amigo de Cristo como Walmir?
O esquife, no centro da sala, fora lacrado, para evitar que os amigos vissem o
estado deplorável do cadáver. A cabeça, comentou alguém, ficou “oca”. O cérebro fora
arrancado fora. Carolaine, preparada para conhecer a viúva, teve uma crise de
desespero ao cumprimentar Clotilde, uma senhora de oitenta e dois anos, apresentada
como “a mãe de Walmir”. A senhora tem o mesmo nome que a esposa do pastor,
comentou Carolaine, confusa, engasgando nas palavras. Não, Walmirzinho não era
casado, explicou a velha. Graças a Deus. Nem mulher, nem filhos para sofrer.
Carolaine se desvencilhou de Alzira e foi lá fora para chorar à vontade. Não era
casado. Walmir, canalha, ela dizia, mentiroso cretino, inventou uma esposa só para me
tapear, e soluçava, eu grávida, canalha, e ele solteiro. Nem mulher nem filhos para
sofrer. Sentiu-se tão desgraçada. Lembrou-se, sem saber por quê, de Walmir
corrigindo a maneira como ela pronunciava certas palavras, você diz “cunzinha”, o
correto é “cozinha”, você diz “ingual”, “enzame”, “inrita”, vamos corrigir. Em outras
ocasiões, ele pedira que ela ajeitasse o cabelo encarapitado. Passe um gel. Por que
você não alisa? A Clotilde alisou e ficou ótimo. Você vai com esse chinelo?, perguntara
no dia do aniversário do José Luís. Todo mundo na favela andava de Havaianas ou
Rider, por que a pergunta? E a maneira como ele a encarou, como se aquilo fosse feio,
como se ele fosse diferente de todos, com seu sapato preto de amarrar. Nem sabia
por que se lembrava daqueles episódios. Sentia-se pequena, traída, sem forças.
Chinelos. Por que Walmir não dissera simplesmente que não queria se casar? Solteiro.
E morto. Aconteça o que acontecer, ele dizia, estou do seu lado. Mentiroso. Cachinhos
e olhos espertos. Sentiu medo do futuro, de ficar sozinha. A barriga cresceria, nasceria
um bebê, e ela já conhecia aquela história, Alas lhe ensinara, engordar, parir, educar.
Ruim e triste. E então compreendeu que aquele talvez fosse o castigo de Deus. Pronto.
Aprendera. Acabara de saber que Deus não se importava com justiça. Mais uma vez,
quem ficaria com o bebê e as consequências de todos os pecados cometidos seria ela.
Canalha, ela repetia.
Na volta para a sala, com os olhos injetados e o nariz escorrendo, observou
atentamente duas mocinhas que choravam copiosamente em volta do caixão. Depois,
notou outra mulher, no sofá, o rosto lacrimoso apoiado nas mãos. Uma loira era
atendida na cozinha, pelos amigos. Não me conformo, ela dizia, entre soluços. E então
outras lembranças vieram à sua mente, de outras moças que o pastor ajudava, das
senhoras que ele recebia no mesmo quarto da igreja, onde ele e Carolaine faziam sexo,
quero ficar a sós com a dona Irene, com a dona Cláudia, ah, meu Deus, que burra, os
recados que ela anotava, avisa que a Tânia ligou, a Lúcia, do correio, que idiota,
sempre mulheres, muitas mulheres. E tudo se encaixou tão perfeitamente, não havia
agora nenhuma dúvida, sou uma idiota completa, pensou Carolaine, limpando os olhos.
De onde vinha aquela sua vocação para gravidez e infelicidade? A súbita revelação da
existência de inúmeras amantes não a afetou tanto quanto a notícia de que Walmir era
solteiro. Canalha.
No Cemitério São João Batista, Alzira fez questão de varar a multidão para ficar
perto do túmulo. Quero ver o caixão descer. Judiação, meu Deus. Morrer como um
bandido.
Fazia sol naquele dia. Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome.
As sombrinhas empunhadas pelo batalhão de fiéis tornavam o acesso à cova ainda
mais difícil. Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade. Estou grávida do
Walmir, disse Carolaine no ouvido da mãe, enquanto as religiosas puxavam a reza.
Alzira desmaiou. Mas ninguém notou. Várias mulheres desmaiaram durante o enterro.

Assim que as portas da caminhonete foram abertas pelos soldados do Miltão, um


cheiro forte de carne fresca infestou o local. No início, só as crianças se aproximaram
para saber do que se tratava. Frango de graça, explicou um dos homens. Brinde do
Miltão. Não precisa pagar. É pegar e levar. Frango grátis.
Miltão, que mandara roubar frangos num hipermercado da avenida Epitácio Pessoa,
para oferecer aos moradores, observava do alto do morro, com binóculos, a
movimentação. Na hora de comer neguinho cala a boca, olha lá, todo mundo pegando
frango. Gargalhou.
Leitor, que fora chamado para “um lero”, observava a cena em silêncio. O que você
acha?, perguntou Miltão, não foi uma boa ideia distribuir frango? Amanhã vou jogar
carne moída. Isso é só para neguinho que está cabreiro comigo perceber que eu
continuo o mesmo. Bíblias filhos da puta. Sou o Miltão, amigo da moçada. Sou o dono
do Berimbau. Leitor, que evitava despertar a desconfiança de Miltão, concordava com
tudo, muito bom. Excelente. Ótima ideia.
O comércio estava de luto, por causa de Walmir. Muitos moradores trajavam negro,
outros colocavam faixas pretas na janela de seus barracos.
Miltão, a todo momento, largava os binóculos e falava com uma garota, pelo
telefone. Chuchuzinho gostoso, e aí? Como vai esse umbiguinho? O traficante virava as
costas para os soldados e, num tom meloso, quase infantil, despejava toda a sua lábia
na mocinha. Hoje à noite. É? Chuchu. Gostosa. Para ele, não havia nenhum problema
na favela, além dos bíblias. Não percebia que perdera poder e corria risco. Mesmo
tendo ouvido alguém gritar assassino! quando estava entrando no bar do Onofre.
Mesmo lendo “Morra Miltão” na parede dos muros da escadaria. Mesmo vendo a
debandada dos soldados. Isso é veadagem dos bíblias. Estão contra mim porque sou
contra a exploração. Já falei para a minha mãe. Neguinho só quer dinheiro. Isso não
tem nada a ver com Deus, nem com Cristo. É comércio mesmo. Só falta o carnê. Fodo
esses caras, em dois dias. Já mandei o Agnaldo fazer uma lista desses pés-rapados
que perturbaram a minha família. Que culpa eu tenho se mataram o pastor? Não matei
o pastor. Infelizmente. Adoraria meter uma granada na boca daquele escroto. O
Onofre, aquele bunda-suja, veio com um papo de “você foi longe demais”. Furo o rabo
dele se ouvir essa baboseira de novo. Olha só, ele disse, pegando novamente os
binóculos. O frango acabou, ele disse, observando o caminhão, de binóculos. Viu?

Não muito longe dali, José Luís aguardava Fake, num ponto de ônibus. Reizinho lhe
telefonara logo pela manhã, marcando um encontro. Sim, chegara a hora de agir. Bem
que resistira. Quando Fake viera lhe falar sobre a ajuda de Zequinha Bigode, recusara.
Porra. Você pirou, comentara Leitor na ocasião. Sabe o que o Zequinha está te
propondo? Sociedade. Você vai ser dono desta merda. Desperdiçou sua grande
chance. Com Zequinha não existem duas vezes. Babau.
Mas Reizinho, embora não estivesse de acordo com as bobagens que Miltão vinha
fazendo, não queria ser um traidor. Não, dissera naquela noite para Fake. Estou fora.
Isso, respondera Fake, tem nome: burrice. Você está escolhendo se foder. Fake usara
todos os argumentos: Zequinha lhe contara, Miltão ia morrer de qualquer jeito, Nobre o
condenara. E quando um fodão desses marca o cara, brother, pronto, não tem talvez.
Qualquer noite dessas, alguém foge do Padre Moraes e vem visitar o Miltão. Vai ser
assim. Miltão na cama, fodendo uma guria. Puf. Na cabeça. Que fosse assim, oras.
Mas Reizinho não trairia Miltão. Miltão o tirara da lama. Fora Miltão que o recuperara,
que o afastara das drogas. Tudo o que possuía devia ao Miltão. Principalmente nos
últimos tempos, o traficante o remunerava muito bem.
Mas, depois da morte do pastor, Reizinho mudara de ideia. A própria Alzira lhe
pedira: faça alguma coisa. Ver Carolaine chorando daquele jeito fora horrível.
É isso aí, brother, disse Fake, saltando do ônibus. Vamos comer um pastel.
Foram até um boteco de esquina, pediram pastéis e Coca-Cola. José Luís disse que
queria se encontrar com Zequinha Bigode.
Estou gostando de ver, brother.
Fake foi até o orelhão, discou. Voltou confirmando o encontro. Hoje, às nove da
noite.
Negócio fechado.

José Luís já havia subido o morro dos Marrecos, várias vezes, sempre guerreando.
Como soldado, conhecia bem a entrada, e a ruela estreita que levava até a padaria
era, naquelas ocasiões, apenas mais um campo de batalha. Na guerra, o importante é
localizar o alvo, o inimigo, o abrigo, o melhor ângulo de ataque. Naquela noite, porém,
com céu estrelado e lua cheia, subindo numa missão de paz, o local lhe parecia
totalmente diferente, muito acolhedor e organizado. Orelhões em vários locais,
canaletes para o escoamento do esgoto, pontos de luz em toda a favela, e boas casas.
O que mais lhe agradou foi ver, em muitos locais, plaquinhas com os nomes das ruas.
Uma ideia muito boa. José Luís sabia que um dos problemas do favelado, na hora de
procurar emprego, era não ter endereço. Dessa forma, ficava melhor, rua da Paula,
número 5. E pronto. Foi ideia do Zequinha, explicou Fake, que subia o morro junto com
José Luís, cumprimentando algumas pessoas que passavam por eles. Desde que
assumira o comando da rádio local, o funkeiro já estava ficando conhecido pelos
moradores. Os soldados de Zequinha, espalhados por todo o trajeto, cumprimentavam-
no com simpatia. Aí, brother. O homem está esperando, diziam. Lá em cima. Não é
todo mundo que pode subir, explicou Fake. Aliás, ninguém. Só os tops. Suzana gosta
mesmo de você, cara.
A casa de Zequinha Bigode era uma fortaleza, estrategicamente situada no meio do
casario pobre da favela, que lhe dava proteção. Na porta, os dois visitantes passaram
por uma rigorosa inspeção dos seguranças. É sempre assim, explicou Fake. Mesmo os
amigos têm que ser revistados. Na sequência, os dois foram levados até a sala da
casa. Reizinho jamais imaginara tanto luxo. Porra. Piso de ardósia, tapetes coloridos,
mesas de centro com bibelôs, porra, sofás de veludo, gente fina, comentou José Luís
no ouvido de Fake. Miltão era mesmo um bosta. Porra. O que mais o impressionou foi
a quantidade de uísque importado sobre o bar. Mais de vinte. Um luxo. José Luís
ajeitou a camisa, a pomposidade do local fez com que ele se sentisse mal-ajambrado.
Porra. Toc toc toc, alguém descia a escada. José Luís evitou olhar para cima,
aguardou com as mãos cruzadas no colo, fitando um arranjo de flores artificiais sobre
uma mesa de tampo de mármore. Oi, ela disse. Reizinho olhou, atônito. Porra. Lá
estava ela, linda, de short, miniblusa e tamanquinho. Porra. Então é você que meu pai
está esperando?, perguntou Marta, sorrindo.
20

O negócio é o seguinte, disse Zequinha, categórico, você pode matar um


comerciante que te sacaneou, ou um vizinho que anda de mumunha com policial
safado; nem acho má ideia apagar uma dona linguaruda, se o que ela fala gera
prejuízos ou perda de pessoal. Ninguém aprova a matança, claro, mas nós, que
queremos ganhar dinheiro com comércio de drogas, não podemos ser tolerantes com
quem avança o sinal vermelho. Moralmente falando, aceito que determinados cidadãos
sejam eliminados, continuou Zequinha Bigode, cauteloso, sempre atento ao entra e sai
de sua filha na sala. Martinha, ele gritou, vá estudar no seu quarto, já mandei. Diante
dele, sentados no sofá de tecido vermelho aveludado, visivelmente constrangidos com o
luxo do ambiente, estavam Fake e José Luís. Onde eu estava?, perguntou Zequinha.
Ah, sim, vá lá, continuou, matar um puto, um traidor, um bosta, matamos, sem
problema. Agora, eliminar um pastor, isso são outros quinhentos. É extrapolar. É se
achar maior que Deus. O pastor é, digamos assim, o dublê de Cristo na Terra, não é
verdade? Na minha opinião, há pessoas que não se pode matar. Padres, por exemplo.
Padres e crianças. Não matamos. Isso é anarquia. Por isso, estou tranquilo. Vou ser
claríssimo: comigo não tem perhaps. Não traio. Odeio falsidade. Mas acontece que
estamos aqui reunidos para falar do destino do cachorro que assassinou o pastor do
Berimbau. Trair um zero é subtrair nada de picas. Porque, afinal de contas, Miltão
fodeu todo mundo. Fodeu os evangélicos. Fodeu meus negócios. Fodeu a comunidade.
Fodeu Nobre, que foi um excelente exterminador de tiras e um grande filho da puta
também. E tudo isso porque ele se acha o maioral.
A conversa foi longa, Zequinha adorava monologar. Sentia-se importante ao usar
expressões como “na minha opinião pessoal”, “particularmente falando” e “o xis da
questão”. O que há, Martinha?, já não falei para você parar com esse “transetê”?
Cacilda, não posso conversar em paz?
A garota se desculpou, alegando estar ali apenas para pegar os copos, a mando de
Suzana, que estava na cozinha, preparando alguns petiscos. Sei, sei, respondeu o pai,
zombando. Copos. De curiosidade, morreu um burro, minha filha. Pega logo a tralha e
se manda. Circulando, nega. Zequinha piscou para Fake e Zé Luís. Essa aí, Zequinha
mexericou, adora ouvir minhas conversas. Vive pedindo para trabalhar comigo. Pode?
Tem fibra, essa menina, comentou, orgulhoso. Faz aniversário na semana que vem.
Perguntei, filha, o que você quer de presente? Sabe o que a danada respondeu? Uma
pistola Glock. Pode? Os três riram. Quase perguntei: mas tem que ser equipada com
mira a laser também, ô paspalhona?
Reizinho se esforçava para não demonstrar interesse na garota, que entrava e saía
da sala a todo momento, sem pressa nenhuma, abrindo e fechando portas de armários,
lançando-lhe olhadelas. Fora impressão ou ela lhe fizera um sinal, indicando a porta do
fundo da sala? Confuso, pediu licença para ir ao banheiro. Por ali, disse Zequinha,
mostrando-lhe uma porta diametralmente oposta à apontada por Marta.
No lavabo revestido de lajotas brancas com desenho de flores em alto-relevo,
observou, no espelho de moldura dourada, seu rosto pálido. Sentia-se adrenérgico,
tenso, desde que vira Marta descer as escadas, de short azul, cabelo despenteado.
Porra. Fake não me contou que você viria também, ela dissera. Porra. Marta. Nem
tivera tempo para nada, queria perguntar, porra, falar com ela, combinar um encontro,
dizer tudo, eu te amo, sou louco por você desde aquele maldito dia no Black Rose, mas
de repente, porra, Suzana invadiu a sala, falante, escandalosa, Zé, meu querido, que
saudade, garoto, uau, você cresceu mesmo. Como está a Kelly? E o Alas? Reizinho
perdia as perguntas, confundia-se para respondê-las, só via Marta, no pé da escada,
as pernas de fora, tamanquinhos abertos, com os pés delicados à mostra. Estava tão
habituado a ver pés feiíssimos na favela, nos ônibus, nas praias, pés com joanetes,
calos e feridas, unhas grossas, infestadas de micoses, mesmo Kelly, que sempre fora
cuidadosa, possuía pés feios, grandes, o calcanhar e os dedos sempre saindo para
fora das sandálias, afinal, por que as mulheres pintavam as unhas dos pés? Marta não.
Seus pés eram tão lindos quanto o rosto, os dedos delicados, a pele lisa e fina,
saudável, as unhas curtas e limpas, porra, José Luís não conseguia deixar de admirá-
los. Kelly vai bem. Sim, o Alas. Os pés. Minha mãe ainda está na dona Juliana, tudo
igual. O Alas, sim. Para piorar tudo, Zequinha entrou na sala exatamente no momento
em que Marta se apressava para atender um telefonema. É um prazer receber em
casa um rapaz que foi praticamente criado pela minha esposa, ele dissera, solene.
Apertaram as mãos. José Luís não conseguia deixar de ouvir as palavras de Marta no
telefone. “Nove horas.” “Eu também.” “Tchau.”
Talvez, pensou José Luís, no banheiro, abrindo a torneira e jogando água fria no
rosto, talvez, do outro lado da linha, um namorado apaixonado fizesse uma declaração
de amor. Porra. Como Fake fora capaz de agir como um rato? Só podia ser, um
namorado, “eu também” fora a resposta para um “eu te amo”. Eu também te amo.
Porra. Agora, perdera totalmente a chance. Culpa do Fake. Talvez ela estivesse noiva.
Um casamento marcado.
Quando José Luís voltou para a sala, Suzana abria uma garrafa de cerveja. Para
refrescar as ideias, ela disse. Marta já não rondava mais o local, e Fake também não
estava por ali. Sabe, Zé, ela disse, oferecendo-lhe um copo, temos que fazer como os
políticos. Criar alianças. Suzana sentou ao lado do marido, deram-se as mãos. Onde
Fake se metera? Sou do Berimbau, ela disse, tenho muito interesse no que vamos
decidir hoje. Sim, afirmou Zequinha, ainda que Suzana more aqui, ela nasceu no
Berimbau, quero viver em paz com a terra da minha mulher. Os dois se olharam,
apaixonados. José Luís teve vontade de perguntar por Fake, incomodava-o a ideia de
que o amigo poderia estar metido em algum canto com Marta. Porra, só me faltava
essa. Por mim, garantiu Zequinha, esse assunto já estava resolvido, mas acontece que
o Miltão não para de criar problemas, o cachorro. Fake filho da puta. Nem posso visitar
minha mãe, confessou Suzana. Realmente, “o paredão” foi a gota d’água, disse
Zequinha, referindo-se ao arame farpado que Miltão mandara instalar na divisa dos
morros, para proibir moradores de transitarem livremente. Só com minha autorização,
decretara Miltão. Neguinho que invadir, leva bala.
Onde está o Fake?, perguntou Reizinho. Lá fora, respondeu Suzana, este assunto
não é para ele. Escute. Desde que a guerra começou, eu avisei: Miltão não deixa
passar as coisas, não esquece. É píssico. O cara cheira, fuma, toma umas e outras, e
fica minhocando uma maneira de foder as pessoas, ele ainda vai me matar, não
consigo nem dormir direito. Porra, só me faltava essa, Fake e Marta, juntos, porra.
Quando Zequinha sai de casa fico destrambelhada de medo, nem durmo, disse Suzana.
Mulher, reclamou Zequinha, não quero que o moço pense que temos medo do Miltão,
meu bem. Amor, me desculpe, mas é medo, sim, ela afirmou, o Zé é como se fosse
meu filho, posso falar. Medo daquele bosta, sim, senhor. Cagaço mesmo. Bandido,
fantasma, polícia, terremoto, nada me faz tremer. Agora, maluco me assusta. Miltão é
maluco. Fake filho da puta, porra, se ele tiver alguma coisa com a Marta, nem quero
pensar. Mato o cara. Todo dia ouço a mesma conversa mole, prosseguiu Suzana, o
Miltão está fodido, está sem soldado, sem dinheiro, mas, caramba, como dura, o
homem! Quantos já matamos nesta guerra? Só o Miltão não morre. Joguei sete
celulares fora e posso garantir, o escroto já sabe o número do que estou usando
agora. Atendo, e ele fica do outro lado da linha, só fungando. Antes ligava para
choramingar. Volta para mim, ele dizia. Que me perdoava. Que me amava. Claro que
ama, disse Zequinha, um mulherão destes, o cara não se conforma por ter perdido.
Não, Zequinha, isso não tem nada a ver com amor, respondeu Suzana. Tem a ver com
levar chute na bunda. O cara não aceita até hoje. Suzana, disse o marido, carinhoso,
fique tranquila, me deixa conversar um minuto com o Zé, por favor, meu anjo, tudo vai
dar certo, florzinha. Amoreco, benzão, era assim que eles se tratavam. Só quero pedir
um favor para vocês, ela disse, antes de deixar a sala: resolvam esta merda logo.
Acabem com isso.
O Fake é foda. Porra.

Eu explico, hey, para, brother, o que é isso?, perguntou Fake, defendendo-se dos
golpes que José Luís lhe desferia, enquanto desciam o morro dos Marrecos. Porra.
Você falou que não conhecia a Marta, afirmou José Luís, irritado, empurrando o amigo.
Eram quase dez da noite, as poucas pessoas que ainda transitavam pelas ruelas mal
iluminadas da favela, olhavam os rapazes, com curiosidade, sem saber se eles
brincavam ou brigavam de verdade. Mentiroso de uma figa, desembucha, Fake, porra.
Calma, brother, eu explico. Posso falar? Calma.
Fake admitiu que conhecera Marta na ocasião em que Zequinha o chamara para
pedir um favor. O brother estava gamadão, queria que eu entregasse um embrulho
para Suzana, na verdade, ele sabia que eu era “chegado” a uma amiga da Suzana,
você não conhece a mina, tive um love com ela. Porra, interrompeu José Luís, esse
papo está começando a feder, você era informante do Zequinha, é isso? Não avacalha,
brother. Não tem nada de caguetagem nesta história, nunca vazei xongas para o
Zequinha, tudo o que fiz foi levar uns presentinhos para Suzana e fim. Sou limpo. Meu
negócio é rap, é funk, é soul. Estou fora da guerra.
Na realidade, Fake trabalhava para Zequinha havia dois anos. Recebia um salário
generoso para manter o líder do morro dos Marrecos informado sobre as transações
importantes relacionadas ao tráfico de drogas no Berimbau. Nem durante o período em
que estivera preso, Fake deixara de trabalhar para Zequinha. Semanalmente passava
para o traficante as informações que Reizinho lhe trazia durante as visitas. Horas mais
tarde, Fake se arrependeria de não ter contado toda a verdade para o amigo. Sim, era
informante, traía Miltão, mas José Luís também não estava traindo? E Leitor? E Biga?
O próprio Miltão não traíra Nobre? E Nobre matara seu antecessor, Josué. E Josué
assassinara seu melhor amigo, o Janjão. Eram todos traidores. Naquele momento,
porém, enquanto desciam o morro, tal argumento não lhe ocorreu. Negou com tanta
convicção que José Luís acreditou na história. Falou sobre seu primeiro encontro com a
garota na casa de Zequinha, Marta estava ouvindo um som maneiro, conversamos em
sintonia, falamos de tecno trance, de house, de groove, tecno, acid tecno, foi assim, um
papo-cabeça, trocamos telefones, saímos algumas vezes, tudo na amizade, nunca
rolou nada, ela achava divertido ficar na minha mesa de som, no Fogosa, vendo o
pessoal bombar. Só que, um dia, o Zequinha me chamou, putaço da vida, fique longe
da Marta, ele disse. Não explicou, nem nada. Isso foi antes de vocês se conhecerem
no Black Rose. Brother, sou macaco velho, não quero ter problemas com o Zequinha.
Não quero e não vou. Por isso, calei minha boca quando você perguntou da Marta. Foi
isso, brother. E se quer um conselho, caia fora. É fria.
O resto da caminhada em direção ao ponto de ônibus foi feito em silêncio. José Luís
estava perplexo com tudo o que ocorrera. Havia tantas coisas importantes a serem
feitas, tantas coisas para organizar, porra, a conversa com Zequinha, tudo a ser
planejado, homens, armas, esquemas, e, no entanto, só conseguia pensar em Marta.
Porra.
Alguém buzinou, pedindo passagem. José Luís se afastou, liberando o caminho. Zé,
gritaram. Ele olhou, viu Marta descer de uma caminhonete Mitsubishi vermelha, dirigida
pela irmã mais velha, Priscila. Oi, ela falou, aproximando-se. Fake coçou a cabeça, eu
sabia, brother. Você esqueceu isto no sofá, disse Marta, colocando um pequeno
envelope nas mãos de José Luís. Tchau.
Mais tarde, trancado no banheiro da casa de Kelly, Reizinho teve dificuldade para
entender a letra de Marta: “Sábado, depois das onze da noite, vá à rua Nossa Senhora
da Paz, número 1203, apto. 709b. É importante. Beijos. Marta.”

Deixa que digam, que pensem, que falem,/ eu não estou fazendo nada, você
também, o disco rodando na vitrola, no volume máximo, as risadas, as conversas
animadas, o ambiente estava festivo, exatamente como sonhara Onofre, o organizador
da feijoada em homenagem a Rosa Maria. Mesas com toalhas descartáveis foram
colocadas em frente ao bar, e ali, ao redor das travessas fumegantes de feijão com
carne-seca, paio, pés e rabos-de-porco, estava reunido o que Onofre chamava de
“gente que realmente interessa”, Leitor, sambistas e porta-bandeiras da escola de
samba Unidos do Berimbau, alguns comerciantes, o presidente da associação do bairro
e antigas colegas de metiê de Rosa Maria.
Onofre não saía do lado da amiga desde que a vira descer do táxi, no fim da tarde
de sábado. Maravilhosa, a Rosa Maria. Está até mais branca, pensara Onofre. Vem
cá, velho safado. Abraçaram-se. Meu bode velho, como é que você foi capaz de ficar
ainda mais barrigudo, hein? Deve fazer um bocado de tempo que você não vê o pirulito
no banho. Gargalhadas. Mais abraços. Vamos subir, o pessoal está te esperando.
Havia um clima de contentamento, e também de prosperidade, com a chegada de
Rosa Maria. Diziam que ela era condessa, duquesa, embaixatriz, que estava casada
com um homem muito importante, um alemão rico, que lhe fazia todas as vontades.
Ninguém mais se lembrava de seu passado de prostituta. Olha os meus sapatos,
Onofre. Vou subir de Chanel. Francês. Quem é aquele ali, o Didi? Meu Deus, o Didi já
está com cara de bandido. Já se meteu com Miltão, aposto, Didi, vem cá, ela disse.
Não coloque a mão no meu tailleur, pirralho. Tome aqui. Uns trocados. É para guardar,
ouviu? Ai, ela dizia, olhando o casario pobre, as crianças miseráveis que a cercavam,
pedindo coisas, isto aqui não mudou nada, Onofre. A mesma merda de sempre.
Heinrich não viera para o Brasil por causa dos negócios na empresa. Era só isso que
Rosa Maria dizia a respeito do marido. Na verdade, não sabia muito mais, a
comunicação com Heinrich era muito difícil e, para piorar, Heinrich se irritava com a
lentidão da mulher em dominar a nova língua. Rosa Maria alegava estar se esforçando
ao máximo, tendo aulas quase diariamente, mas, na realidade, a professora Augusta,
uma portuguesa idosa e muito solitária, era quem realmente lucrava com as lições.
Além de ter ganho uma amiga generosa, que lhe ensinara a sambar e a preparar
rabada, seu português estava a cada dia mais fluente e mais rico. Vivia curiosa em
relação às novas gírias. Deixara de lado expressões como “boco-moco” e “prafrentex”,
e passara a falar “isso é maneiro”, “sou descolada”, “estou a fim” e “nota dez”. Quando
algo lhe agradava, fosse o que fosse, uma torta de maçã ou um carro luxuoso, ela
dizia, com seu forte sotaque português: isso é show.
É uma língua dura, Onofre, aliás, os alemães são duros, ninguém dá beijinho, abraço
em amigo, essa coisa de chamego não é com eles. O Heinrich, no começo, parecia um
pedaço de pau comigo. Não sabia nem fazer um cafuné, o pobrezinho. É educação.
Povo seco. E não gostam de preto, não, aqueles branquelos, já percebi. Vivem me
olhando de esguelha. Não estou nem aí. Quem inventou o alemão, Onofre, foi um
gênio. Sabe o que é verbo? Andar, comer, essas coisas? Pois é. Os alemães socam o
verbo lá no fim da frase, falam, falam, falam, e depois metem o verbo lá nos quintos
dos infernos. É até engraçado. Agora estou em dúvida, se é o verbo ou o sujeito que
eles colocam no final. Sabe o que é sujeito? Eu sou um sujeito, você é outro. Tu, nós,
eles. Preciso perguntar para a Augusta.
Rosa Maria se hospedara no Copacabana Queen. Sabe por quê, Onofre? Birra
daqueles porteiros bestas, que viviam me enxotando da calçada. Sabe, Onofre, um
deles me reconheceu. Era um bode velho como você, que vivia me espicaçando, no
tempo que eu rodava bolsinha. Eu não podia nem olhar para o hotel, eles não admitem
putas por lá. Aliás, em lugar nenhum. No mundo inteiro, Onofre, até na Alemanha, eles
não gostam de putas. Na “Yolanda”, me disseram, elas ficam em vitrines, um freezer
de supermercado com pedaços de carne para vender. Até chorei quando me contaram
essa história. Que humilhação. E logo na Europa. Se fosse no Ceará, eu entendia. Mas
voltando à vaca-fria, o porteiro bode velho do Copacabana Queen, quando me viu,
dondoca, na piscina, tomando drinque, requebrando de Chanel e tudo o mais, ficou com
cara de tacho. Primeiro não entendeu. Uma preta bacana, se dando bem na vida, isso
acaba com os caras, porque eles estão todos se fodendo, com salário de merda e um
futuro bem ruinzinho pela frente. O bode velho me olhou, olhou, demorou para tomar
coragem. Estou acompanhando o sucesso da senhora, ele disse, com cara de bunda.
E está doendo, meu nego? Está doendo muito, meu sucesso? Falei mesmo. Sabe,
Onofre, é muito bom ter casa boa, sapato bom, comida na geladeira, mas o melhor de
tudo é poder ver todo dia, quando acordo, a cara de bunda dos porteiros do
Copacabana Queen.
Durante a feijoada, Rosa Maria não parou de atender os moradores. Com exceção
de Leitor (que permaneceu atento à movimentação dos soldados de Miltão), todos
estavam ali para lhe pedir principalmente dinheiro, dinheiro para creche, para a escola
de samba, remédios, muletas, telhas, alimentos, calçados, cadeiras de rodas, dinheiro
para financiar construção de rede de esgoto, operações de varizes e catarata. Mas
apenas a escola de samba Unidos do Berimbau lucrou com Rosa Maria. Depois do
show, com vinte rapazes da bateria, uniformizados, e mulatas sambando, Rosa Maria,
já embriagada, comprometeu-se a fazer uma doação generosa.
Às onze da noite, quando todo mundo já tinha ido embora, Rosa Maria, sentada no
bar, descalça, massageando os pés, ainda conversava com Onofre. Pensava em levar
a filha de uma amiga para morar com ela na Alemanha. Lembra da Dadá? Pois é. A
filha dela. Vou levar. Ontem fui lá. A menina, se ficar aqui, vai ser prostituta, eu sei. Não
que ela queira. Mas a Dadá acha melhor ser prostituta do que doméstica. E, no fundo,
é verdade. Vê a Alzira, se acabando a vida toda, hein? Se fosse puta talvez sofresse
menos. Ou não. Sei lá. Mas eu gosto da menina. É uma mulatinha bonita, jeitosa.
Esperta como o diabo. Não quero que ela seja puta. E também estou precisando de
alguém para me ajudar em casa. Sabe, uma menina para lavar uma loucinha, fazer uma
faxina, pintar minhas unhas, sabe como é? Alemão, Onofre, não tem doméstica.
O momento mais emocionante da noite foi quando Rosa Maria retirou da bolsa
delicada um embrulho do tamanho de um maço de cigarros. Para você. Onofre,
emocionado a ponto de querer chorar, abriu o pacote. É o canivete suíço?, ele
perguntou, decepcionado com o tamanho do objeto. Achei que fosse maior, por ser
suíço, ele disse. Isso não é facão do Norte, Onofre. A vantagem é ser pequeno. Olha,
cabe no seu bolso. Onofre se animava conforme Rosa Maria lhe fazia as
demonstrações. Você pode palitar os dentes, cortar e lixar as unhas, desparafusar
parafusos, abrir garrafa de cerveja, sacar rolhas, espetar a barriga de pivete
assaltante, tudo com um único instrumento, que cabe na palma de sua mão. Os suíços
são econômicos assim?, perguntou Onofre. Os suíços, Onofre, inventaram o relógio
suíço, aquele que não se atrasa. Se bem que, para o Brasil, não adianta. Lá na
Europa, nove horas significam nove horas, e não nove e dez ou nove e meia, os caras
chegam na hora, o que é irritante, por sinal. O Heinrich tem um canivete igualzinho a
este.
De repente, depois de um barulho de explosão, a luz do bar foi cortada.
Rosa Maria, apavorada, jogou-se no chão. Ai, meu pai, ela gritou. Não me deixa
morrer antes de voltar para a Alemanha.

Reizinho, depois de detonar com explosivos o gerador de energia elétrica e cortar o


abastecimento de luz do morro do Berimbau, orientou seus trinta homens para que
subissem o morro procurando sempre a proteção dos barracos. Separou-os em grupos
de dez, assumindo o comando de um, e dando a Biga e Carlito a liderança dos outros.
A maioria dos soldados e das armas fora emprestada por Zequinha. Era um arsenal
sofisticado, proveniente da Coreia do Sul, Alemanha e dos Estados Unidos, armas
precisas e potentes e farta munição. Reizinho gastou dois dias inteiros com o
responsável pelo armamento do morro dos Marrecos para se familiarizar com o
equipamento. Os próprios soldados eram de melhor qualidade, constatou José Luís.
Claro que Zequinha lhe dera os melhores, Ratão, Zé Miguel, Louriva, Gato Preto e
Lagartixa, gente que estava no tráfico para ganhar dinheiro, profissionais, como dizia
Leitor. Os homens de Zequinha eram experientes, muitos deles com anos de prisão,
todos muito competentes no manejo do gatilho.
Leitor ajudara muito José Luís, nos dias que antecederam o ataque. Conversavam,
discutiam estratégias. Nos momentos de dúvida, Leitor lhe dava apoio moral. Claro que
você está tomando a atitude correta, dizia. Temos que acabar com esta guerra. Gastar
mais tempo matando e morrendo do que ganhando dinheiro é um péssimo sinal, já dizia
aquele mafioso importante. O fato é que o Miltão estava nos levando para a lama. Ele
gosta de guerrear, matar, criar confusão. E, sem paz, não há tráfico. Veja, não
podemos fazer nada, a polícia está sempre acampada aqui. Assim ficamos de mãos
amarradas, dizia Leitor. E, depois, Miltão vai morrer porque é otário. Se fosse um
sujeito razoável, já teria fugido. Mas Miltão não enxerga um palmo adiante do nariz.
Para ele, está tudo bem, tudo numa boa. Ainda ontem, ele me disse: só confio em dois
neguinhos: você e o Reizinho. Isso mostra que ele não tem competência para ser líder.
Só na tarde de sábado José Luís tomou conhecimento de que a invasão seria
naquela noite. Zequinha já avisara que ficasse de sobreaviso, que o ataque seria a
qualquer dia, no momento que considerasse mais oportuno. Era assim que Zequinha
agia, de surpresa, mesmo seus aliados detinham poucas informações sobre seus
movimentos. Fora Fake quem trouxera a notícia. Mas hoje, justo hoje?, perguntou José
Luís, preocupado com o encontro marcado com Marta para a noite de sábado. Ficou
perturbado com a ideia de que não se veriam, queria de qualquer forma se comunicar
com Marta. Chegou a pedir o telefone da casa de Zequinha para Fake. Brother, só vou
dizer duas palavrinhas: nem fodendo.
Naquela noite, enquanto subia o morro do Berimbau, enfrentando a fuzilaria, José
Luís só pensava em Marta. Esperara tanto por ela, não queria morrer sem ter
conhecido o amor. Gostava de pensar em Marta nestes termos, o verdadeiro amor.
Antes dela, não existira ninguém. Amor. Mesmo Kelly, que era tão amiga, tão boa,
generosa, honesta, companheira, não significava nada se comparada a Marta. O fato
de estar lutando ao lado de homens que o pai de sua amada escolhera a dedo para
apoiá-lo também lhe dava uma ideia de destino, uma certeza de que tudo fora tramado
para que, no final, ele e Marta se unissem e fossem felizes. Não morreria.
Foram três horas de combate. Seus homens avançavam rapidamente, alguns
conheciam bem o traçado das ruelas íngremes do morro do Berimbau.
Os soldados de Miltão se renderam quando as tropas de José Luís atingiram o alto
da favela. Não houve resistência. Só Miltão continuou atirando pela janela, de um dos
cômodos de seu barraco. Foi o próprio José Luís quem o matou, e isso não lhe deu
nenhum tipo de satisfação nem sensação de vitória, embora seus companheiros não
parassem de elogiar seu desempenho. José Luís manteve a tradição dos grandes
líderes do tráfico do Rio de Janeiro. Arrastou o corpo de Miltão até o bar do Onofre,
disparou sua metralhadora para o céu e comunicou que, a partir daquele momento, o
Berimbau estava sob seu comando.
Zequinha havia preparado tudo. Nem lhe passava pela cabeça a ideia de perder a
guerra. Seus homens ficaram a postos. Assim que José Luís sinalizou, caminhonetes
recolheram os cadáveres, para levá-los ao cemitério clandestino, na estrada do Jacaré.
Trinta soldados armados ocuparam estrategicamente a favela, protegendo os acessos,
a casa de Kelly, de Alzira, Cândida, e o barraco onde, teoricamente, José Luís
passaria aquela noite.
Ninguém celebrou a vitória. Na verdade, os moradores não compreendiam
exatamente o que se passava entre os traficantes. Dos velhos amigos, só Leitor estava
lá para cumprimentar José Luís. Foi também Leitor que, naquela noite, arranjou um
carro e o conduziu secretamente até a avenida Nossa Senhora da Paz. Eram quase
duas horas da manhã. Durante o trajeto, José Luís apertava no bolso o bilhete de
Marta, com o endereço de onde se encontrariam. Estava a caminho da felicidade,
pensava, com satisfação. Isto é, se a felicidade ainda estivesse lá, esperando.
21

L . casei Shirota. Lactobacilos vivos, leite fermentado Yakult. Dan-Up, com polpa de
fruta. Danoninho, sabores abacaxi, coco e morango. Bebida Láctea Parmalat,
iogurte natural batido, garrafa 1000 ml. Queijo pasteurizado Polenguinho. Farinha
Láctea. Toddynho com vitaminas. Tanjal, agite antes de usar. Requeijão cremoso
Poços de Caldas. Cobertura Top Cream, caramelo. Marshmallow. Kibon, sorvete
Napolitano. Suco de laranja integral, 100% natural, pronto para beber. Leite
achocolatado Arisco. Maionese light. Pão de forma Wickbold. José Luís, diante da
geladeira aberta, passava os olhos nos produtos industrializados que abarrotavam as
prateleiras. Adorava aquilo. Sua preferência era pelos iogurtes. Ainda se lembrava da
primeira vez que vira um pote de Danone, havia muitos anos. Alzira trabalhava como
faxineira na casa de uma bailarina, Renata era seu nome, uma mulher bonita, saudável.
A geladeira de Renata vivia cheia de cosméticos, frutas, queijos e iogurtes. José Luís
ficara encantado com a embalagem do Danone de morango, cor-de-rosa, a tampa
metálica com o desenho da fruta, pode comer, dissera Renata ao flagrá-lo diante da
geladeira. Mas Alzira arrancara o pote das mãos do menino, não, ela respondera, ele
não quer, e mais tarde, quando Renata não estava mais presente, paf, dera-lhe um
tapa no rosto, isso, dissera Alzira, é para você aprender a não mexer nas coisas dos
outros. Desde aquele dia, o Danoninho passou a ser uma espécie de alimento de
categoria superior, como eram também as peras, a carne, o leite condensado e o
creme de leite, produtos que a mãe jamais comprava no supermercado. Alzira, quando
ia às compras, parecia ter medo das gôndolas coloridas, fugia das bolachas doces,
vitaminadas, dos leites maltados, dos chocolates em pó, dos granulados para
brigadeiro, dos bolos Pullman e das sopas de letrinhas que apareciam nas
propagandas de TV. Só adquiria o básico, arroz, feijão, óleo, farinha e macarrão, isso é
coisa de rico, respondia para Carolaine, quando a menina lhe pedia que comprasse
algo.
Agora que era líder do morro do Berimbau, José Luís mantinha a novíssima geladeira
de seu escritório, um galpão situado no topo da favela, cheia de guloseimas, apesar de
consumir apenas os iogurtes. Todo o resto era devorado pelo seu braço direito, Fake,
brother, olha minha barriga, e por seus homens de confiança, Lobo, Negaço, Mário
Paula Rodrigues, o Paula, Cachaça e Leitor. Desde que comecei a trabalhar no
“esquema” (esquema era a maneira como agora eles se referiam ao tráfico), só estou
engordando, dizia Negaço, que lamentava apenas não poder mais fumar maconha,
como nos velhos tempos, para “sentir larica e atacar a geladeira”. Os homens de José
Luís eram proibidos de consumir drogas. Fazem mal à saúde, dizia Leitor.
Fake era o secretário particular de José Luís. Atendia telefonemas, contratava
soldados, fazia pagamentos e agendava seus encontros secretos com a nova
namorada, Marta, filha de Zequinha Bigode. Na verdade, Reizinho, ao montar sua
“equipe básica”, ficara temeroso em relação ao amigo, afinal todos desconfiavam que
Fake trabalhara como informante de Zequinha, e seu comportamento, no que dizia
respeito à ética dos traficantes, nunca fora exemplar. Leitor fora contra a inclusão de
Fake, mas José Luís achava que seria mais fácil controlar o amigo se ele estivesse por
perto. Você vai ficar na zona do agrião, dissera para Fake. E se bobear, porra, cara,
eu mesmo, porra, pessoalmente, te fodo de verdade, cara.
Fake continuava usando dreadlocks, óculos espalhafatosos, piercings e glitter, mas já
não acalentava mais o sonho de gravar uma fita-demo e fazer sucesso. Agora era um
homem de negócios. Business, ele repetia, a todo momento. Money. Vamos lavar a
égua. Abandonara os bailes funks, mas não perdera o hábito de ouvir James Brown
(“I’m black and I’m proud”), nem de falar horas seguidas sobre o trance, o acid tecno e
outros sons psicodélicos. Contagiara os companheiros, Negaço já cantarolava trechos
de “A cor da pele”, e Leitor achava graça quando algum deles começava a regurgitar
as ideias publicadas nos fanzines que viviam espalhados no escritório, com frases
como: “Rap não é música, é movimento.”
Naquela manhã, José Luís abriu um iogurte, sabor coco. Sentou-se na sua cadeira e
fez sinal para que Fake mandasse entrar o “próximo reclamante”. Já atendera vários
moradores naquele dia. A maioria das mulheres era doméstica, como sua mãe.
Chegavam cheirando a sabonete, com suas roupas limpas e seus rostos sofridos, e
José Luís, por mais que se esforçasse, não conseguia evitar de se concentrar apenas
no que havia de mais terrível em cada pessoa, caspa, varizes, micoses, feridas e
manchas escuras na pele, porra, os pés, as unhas estragadas, porra, quebradas,
pintadas grosseiramente, porra, o esmalte sempre velho e descascado, vermelho,
rosa, branco, e todas elas reclamando das mesmas coisas, ameaças,
desmoronamentos, abandonos, maus-tratos, porra, rixas, injúrias, conflitos, e
principalmente dos roubos. Levaram minha bacia de lavar roupa, diziam, uma toalha de
banho, um saco de batatas, uma calota, uma enxada, um vasilhame, uma sandália.
O caso mais grave daquele dia fora o da Maria das Dores. Pago gás, luz, prestação
do Ponto Frio, tudo em dia, dissera a mulher, pago água, INPS, creche da menina,
pago sem atrasar, mas, agora, estou desempregada, como é que vou dar conta do
aluguel? E o homem é uma peste, ela dizia, referindo-se a Valdo, o gerente da
imobiliária, me ameaça todo dia, que vai me bater, que vai levar meu fogão, vê se
pode, levar fogão. É justo, levarem o nosso fogão?
José Luís pediu a seus homens que trouxessem Valdo até o escritório. Valdo
trabalhara no tráfico na época de Miltão e fora convertido pela igreja Rebanho do
Puríssimo Amor do Nosso Senhor Jesus Cristo. Agora trabalhava como “cobrador de
aluguel” de uma das três imobiliárias do local. Sua fama de “homem ruim” era muito
maior do que no tempo em que andava armado, matando inimigos de Miltão.
Em menos de dez minutos, Valdo estava diante de José Luís, cheio de argumentos.
Esse povo, esses pedreiros, esses porteiros e babás, essas domésticas, esse povo de
hoje em dia está cheio de veadagem, a verdade é essa, qualquer merdinha, a patroa
dá um grito, ou reclama da gororoba, e pronto, essas aí já saem do emprego e eu é
que me fodo. Porque jabá com jerimum sempre tem em panela de paraíba, isso não
falta. Mas aluguel eles não pagam. O barraco é uma porcaria, dizia Das Dores, está
afundando, aquela bosta. A senhora está mentindo, dona Das Dores. A mulher riu.
Essa é boa, respondeu Das Dores, agora sou “dona”, ainda ontem eu era “sua vaca” e
“sua caloteira”.
Quanto a dona Das Dores está devendo para o senhor?, perguntou José Luís. Dois
aluguéis, respondeu o homem. Muito bem. Está aqui, disse o traficante, entregando-lhe
um bolo de dinheiro. E, a partir de agora, Das Dores só volta a pagar quando estiver
empregada. Avise o pessoal da imobiliária. Estamos conversados? E a senhora, dona
Das Dores, começa a procurar trabalho hoje mesmo.
Os problemas da comunidade eram assim solucionados, sem discussão, e, dessa
forma, ladrões paravam de roubar, maridos paravam de espancar, exploradores
paravam de explorar, e Zino, o açougueiro, parava de vender carne estragada.
O ritual se repetia toda segunda-feira. Antes mesmo de chegar no escritório, já havia
fila de moradores esperando para fazer a sua reclamação. A ideia fora de Leitor.
Precisamos amparar o morador do morro, dissera, quando José Luís tomou o poder.
Só há uma maneira da polícia não encher o nosso saco. Fazemos o serviço sujo para
eles. Vigiamos, fazemos a lei, damos porrada, justiça, matamos os safados, instalamos
a ordem. Em português bem claro, temos que resolver os problemas dos moradores,
nós mesmos. Ou melhor, VOCÊ, José Luís. Você tem que cuidar desses fodidos. E
nem pense em fazer nas coxas. Abra seu ouvido e deixe que eles joguem merda em
cima de você. E quando o seu saco estiver a ponto de estourar, lembre-se daquelas
histórias que eu te li, daquele barão da cocaína que possuía um zoológico particular na
casa dele. Ou daquele italiano que presenteou um amigo com uma banheira de ouro
maciço. E pense também que este trabalho de escravo que estamos fazendo, o de
distribuição da droga, é um degrau para a etapa seguinte. Mas isso é outra história.
Fora também de Leitor a ideia de preparar um grupo especialmente para roubo de
carros, como forma de levantar dinheiro para o tráfico. Agora o espírito é outro, dizia
nos treinamentos, esqueçam o que vocês aprenderam com Miltão. Não somos
assassinos, ladrões, criminosos. Não somos filhos da puta. Somos negociantes. Isto
aqui é comércio, ele dizia, a todo momento. Por isso, ninguém vai matar, nem estuprar.
Zequinha Bigode emprestava as armas, para os assaltos, e ficava com trinta por
cento dos lucros. No futuro, dizia Leitor, teremos nossas próprias armas e o nosso
próprio esquema. Mas, por enquanto, vamos fazer como o esquartejador. Vamos por
partes.
Um ex-policial receptava os carros roubados, pagando seus fornecedores de acordo
com a “tabela do mercado”: novecentos por marcas nacionais do ano e o dobro pelos
importados. Com o dinheiro, José Luís comprava a cocaína e a maconha que
abasteciam as catorze bocas de fumo conquistadas.
Naquela manhã, José Luís, enquanto aguardava a entrada de mais um morador,
pensava, com certo orgulho, que a vida na favela já não era mais a mesma. Porra. A
comunidade recebera com tranquilidade a morte de Miltão. Na manhã seguinte,
soldados de José Luís lavaram o muro da creche, onde havia manchas de sangue das
execuções, e tentaram, dentro do possível, apagar os vestígios do combate. No balcão
de Onofre, alguém colara um recorte com a notícia da morte de Miltão. Acerto de
contas, era o título da manchete. Bem feito, diziam os amigos de José Luís. Morreu
tarde. Tudo ia bem, só Fake estava demorando, e porra, o que há, Fake? Caralho, que
demora, porra, disse José Luís, olhando para o relógio. Onze e quinze. Já estava
atrasado para o encontro com Leitor. Levantou-se para pegar mais um iogurte na
geladeira. Não receberia mais ninguém naquele dia, decidiu, no exato momento em que
a porta do escritório se abriu e Fake entrou, acompanhado de Alzira.
Era a primeira vez que mãe e filho se encontravam desde que José Luís assumira o
comando do tráfico no Berimbau.
Meu santo Expedito, orara Alzira, naquela manhã, ajoelhada diante da cama, santo
das ovelhas sem esperanças, atenda o meu pedido: que meu filho não seja um bom
chefe para os bandidos. Que ele seja expulso do tráfico hoje, vivo. Alzira vinha sofrendo
muitos desapontamentos ultimamente. Como da banda podre, dizia para dona Juliana,
enquanto a patroa tomava café da manhã. Pasto. A vantagem disso tudo é que, quando
o fim do mundo chegar, desculpa o palavreado, não vou, como eles dizem por aí, cagar
nem mijar fogo durante mil anos. Já paguei tudo, graças a Deus. Camelei. Olha a ferida
crescendo. Parece uma flor na primavera. Cada dia maior. Olha aqui seu cafezinho. É a
ziquizira. É a Carolaine grávida. Olha aqui sua bolacha de regime.
Ainda não tivera coragem de contar para dona Juliana que seu filho, aquele menino
que fora boy na empresa de dr. Rodrigo, e que roubara dinheiro do escritório, era
agora o maior bandido do morro do Berimbau. Sentia muita vergonha do filho.
Adoçante, tudo aqui, mais alguma coisa? Como jerumba, dona Juliana, desde que
mataram meu pastor. É triste a vida sem pastor. A ovelha precisa do pastor, dizia.
Alzira já não sentia mais raiva de Walmir por ter engravidado Carolaine, acreditava nas
histórias que a menina lhe contava, de que os dois iriam se casar, brevemente. Vê que
azar, dona Juliana? Sofro mesmo. Morrer, justo antes do casamento. E essa ziquizira
na perna, para me atazanar.
Tudo o que diziam ser bom para a cura, Alzira já tentara, cobrira a lesão com borra
de café, açúcar, pasta de folhas de babosa, muitos tipos de pomadas, mas a chaga só
fazia crescer. Você tem que ir ao médico, dissera a patroa. E larga esse balde. Larga
essa escada. Vá embora mais cedo hoje, descansa, Alzira. Juliana, na verdade,
pensava numa forma de se ver livre da velha empregada. Incomodava-a a maneira
como ela tratava Fernando, sempre gentil, sorridente, “no melhor estilo sei-de-tudo”.
Você não imagina a cara de felicidade de Alzira quando chego em casa e ela vem me
dizer: o seu Fernando telefonou. (Aliás, ele não me telefona há oito dias. Sabia,
Alicinha? Oito dias.) Parece até que o amante é dela. Isso faz sentido, respondeu
Alicinha, rindo. Aquele gatorade!, hum, quem não quer? Ora, vá se foder, querida, e tira
esse chocolate da minha frente, por favor, por que sempre servem essas porcarias
suíças na sua casa, Alicinha? Olha como engordei.
Alzira nem desconfiava que a patroa lhe preparava o bote. Estava ocupada demais,
sofrendo, para perceber alguma coisa. E embora dissesse que a úlcera na perna era
seu mal, o que de fato a atormentava era pensar que seu filho era líder do tráfico no
morro do Berimbau. Conhecia histórias terríveis, contadas na igreja por bandidos que
se converteram. E todos eles haviam chamado a atenção para os perigos do Satanás,
tome esta geladeira nova, tome cem reais, tome uma casa boa, tome carne moída
todo dia, e, depois, vinha ele mesmo, em pessoa, Lúcifer, o bruxo, cobrar a dívida.
Alzira decidira não aceitar nada do que o filho vinha lhe oferecendo. Já não aceitava
antes, “agora, aceito menos ainda”, dizia para Jesus Cristo, enquanto lavava roupas, ou
esfregava o chão. Lamentava que Carolaine não seguisse seu conselho. A filha não era
mais o que Alzira chamava de “ovelha de Cristo”. Não lia a Bíblia, não rezava, e nem
sofria mais por estarem fechadas as portas da igreja Rebanho do Puríssimo Amor do
Nosso Senhor Jesus Cristo. Parece uma coelha, pensava Alzira, sempre passeando em
shopping center, com as pernas de fora, grudada na Suzana, outra mulher de bandido,
e Kelly junto. Salvai-as do pecado, senhor.
Naquela manhã, Alzira saíra para o trabalho, atrasada. Perto do ponto de ônibus,
notara uma Kombi estacionada. Não fora o carro que chamara sua atenção. Quem era
aquele homem, sem camisa, coçando a barriga? Seria possível? Não. De jeito nenhum.
Nunca. Deus misericordioso, é ele mesmo. Sim, era Francisco. O canalha. Cafajeste.
Cachorro. E de Kombi, ainda por cima. Quem lhe dera o carro?
Agora, diante do filho, Alzira queria explicações. Sim, era verdade. Francisco estava
vivendo no Berimbau, explicou José Luís. Sim, fora ele mesmo quem trouxera o pai
para a favela. Dera-lhe a Kombi, para que pudesse trabalhar com frete. Com vocês?,
perguntou Alzira. Não, mãe, ele vai trabalhar por conta própria, explicou José Luís.
Alzira, embasbacada diante do filho, sentiu que seu corpo se esgotava. Pensou em
perguntar por que o filho lhe fizera aquilo, mas, de repente, se deu conta de que não
importava o motivo. Nada importava. Não queria saber. Que se danassem, os dois. Ao
diabo, chega. Porque ele é meu pai, teria respondido José Luís, com a mesma
simplicidade com que contara toda a verdade para Francisco, havia um mês, no dia da
mudança. Francisco, ao ver o barraco, sem se achar merecedor daquilo tudo, e sem
entender por que o rapaz se preocupava tanto com ele, ficara desconfiado. Não tenho
dinheiro, dissera. Não faço trabalho sujo. Sou seu filho, respondera Reizinho. Não
trocaram mais nenhuma palavra. Francisco entrou na sua nova casa, e ficou deitado,
olhando para o teto de zinco e as paredes sólidas, enquanto José Luís subia o morro,
carregando sua nova metralhadora.
José Luís levara o pai aos Alcoólicos Anônimos. Acompanhara de perto sua luta para
abandonar o vício. Vira-o admirar Carolaine, de longe, sem coragem de abordá-la.
Vira-o pegar Alas no colo, emocionado. E agora sua mãe estava ali, dizendo coisas
desagradáveis, Francisco abandonou você e Carolaine, porra, mãe, escuta, não escuto
nada, Zé, aquele cachorro lazarento acabou com minha vida, e você, José Luís, você,
você deve estar maconhado, fumando maconha e usando essas porcarias, só se for
isso, porque um filho com a cabeça no lugar não daria esse desgosto para a mãe.
Porra, mãe, gritou José Luís, descontrolado, escuta o que eu vou dizer, porra.
Alzira se levantou com dificuldade, os olhos cheios de lágrimas. Não vou escutar
nada, ela respondeu. José Luís se apressou para ajudá-la. Não me toque, ela falou,
você está cheio de pecado. Não vou escutar nada. Nada me interessa. Nada mesmo.
Fique com seu pai. Fique com as drogas. Os bandidos. Você não gosta da sua mãe,
ela disse, antes de sair.
José Luís pensou em chacoalhar Alzira e gritar com ela, porra, dizer que não havia
nada de mau em ajudar o pai, porra, conviver com o pai, proteger o pai, amar o pai,
mas era como se seu próprio corpo não acatasse suas ordens, porra, permaneceu
estático em sua cadeira giratória, vendo Alzira se afastar, lenta, pesada, mancando em
direção à porta. A voz dela, aguda, entrara como uma bala na sua carne, você não
gosta da sua mãe, ela dissera. Porra. Um tiro. Não amar a própria mãe. Uma sensação
ruim no peito, de descontentamento. Porra. Você não ama a sua mãe, ela dissera. A
verdade estava ali, visível e palpável como a sua nova AR-15, capaz de disparar até
oitocentos tiros por minuto. Era duro admitir, mas a verdade era aquela mesmo. Muito
triste não amar a própria mãe.
Cachorros vira-latas recolhidos nas ruas, famintos e sarnentos, desprotegidos, e
também os de raça, comprados em canis, fortes, ferozes, temíveis, filhos de
campeões, cachorros de porte, José Luís vivia cercado por cachorros, toda vez que
descia o morro, a matilha o acompanhava, uma espécie de corte, os cães agitados,
cercando o soberano, e outros cães, das casas, assistiam ao cortejo, ao lado dos
moradores, que como os cachorros também bajulavam e cumprimentavam o novo líder,
um verdadeiro espetáculo, dizia Leitor, orgulhoso do amigo. Você criou um novo estilo,
dizia. Estilo “cachorrada”, batizara Negaço, entre gargalhadas. Só não tenho poodle,
explicava José Luís para os companheiros, não posso ver um poodle sem sentir
vontade de dar um chutão no cu dele.
Naquele dia, ao descer o morro com seus cachorros, oi, Anderson, para se encontrar
com Leitor, oi, Gisele, José Luís se sentia satisfeito, disposto, apesar da chateação da
mãe, oi, Christian, estava feliz de verdade, e aquilo não tinha nada a ver com poder, oi,
Danilei, nem com fama, oi, Kleber, nem com armas, oi, oi, aquilo tinha uma explicação
simples e boa demais: Marta. Farmácia Saúde de Ferro. Já passara um mês desde o
primeiro encontro romântico dos dois, Reizinho ainda se lembrava de cada detalhe. Oi,
dona Cida. Fotos três por quatro, na hora. Fora num apartamento em Copacabana,
emprestado por uma amiga de Marta. Hidráulica Guimarães. Oi, seu Vado. Mecânica
Viagem Azul. Quer ver uma coisa?, perguntara Marta, enfiando um chiclete Ping Pong
na boca. Ploc, ploc, ploc, ela fazia bolas enormes com a goma de mascar, uma atrás
da outra, com muita rapidez. Ninguém é melhor nisso que eu, dissera a garota, ploc, e
era verdade, porra, Marta fazia aquilo muito bem, e linda, porra, bolas, ploc, uma atrás
da outra, ploc, ploc. Ficaram sem jeito no início, sem assunto, José Luís não se sentia
competente nessas questões, começar uma história, conversar, o que foi?, ela
perguntou, rindo, o que há de errado com minhas pernas? Tire o tênis, pediu José Luís,
e ela ficou descalça, você tem os pés mais lindos do mundo, ele disse. Você acha?
Acho. Então por que você não beija meus pés?, ela perguntou, e foi exatamente o que
José Luís fez, beijou, e foi subindo, as pernas, e então ela o puxou para o sofá,
beijaram-se na boca, longamente, foram muitos beijos, juras, antes de começar o que
mais tarde Marta chamaria de “aquela fodelança”. Quem era aquela gorda que estava
com você na praia?, perguntou Marta quando José Luís botava a roupa para ir embora.
Não deixou que ele falasse sobre Kelly. Ploc. Não me interessa a raça dela, disse
Marta. Sou ciumenta, vou avisando. E só namoro se for para valer. Se você quiser me
ver de novo, diga àquela gorda que está tudo acabado entre vocês. Ploc. Acabou tudo.
Hoje, repetiu Marta, caput na gorda. E mais uma coisa, meu pai não pode saber de nós
dois. Ploc.
Você não precisava me contar que está apaixonado, esse foi o único comentário de
Kelly quando José Luís terminou o namoro. Fora muito triste a conversa dos dois, Kelly
sentada no degrau da cozinha, descalça, tentando enxugar as lágrimas antes que elas
descessem pelas faces. Sensacional, a Kelly. E Yolanda também. As duas.
Maravilhosas. Porra. Sentia um carinho tão grande pelas duas, faria qualquer coisa
para que elas não sofressem, pagaria as contas, porra, do que você precisa, Yolanda?
Tome este dinheiro extra. Tome bife. Tome um celular. Tome um carro roubado. Kelly
vai arranjar um bom namorado, dissera para Yolanda. Nenhum igual a você, respondera
a mulher. Você queria o quê?, perguntou Marta, na cama, deitada nua sobre o
namorado. Você é o bambambã do Berimbau. Ploc. O líder. O dono. A gorda não ia
ser besta de se encrencar com você. Não tem nada de sensacional nisso. Aliás, mulher
sensacional é coisa que ainda não conheci na vida. O que mais tem é escrota. José
Luís não queria brigar com Marta. Mas a verdade é que havia muitas mulheres
sensacionais no mundo, e Kelly era uma delas. Depois de terminado o romance, José
Luís continuou morando por mais cinco dias na casa de Yolanda, sendo muito bem
tratado. Yolanda ajudara o traficante a encontrar e a alugar uma nova casa. E fora
Yolanda também quem comprara os móveis e ajeitara tudo. E Kelly cuidava do pai dele
diariamente, levando-lhe comida e lavando-lhe a roupa. Por todos esses motivos, José
Luís não gostava quando Marta chamava Kelly e Yolanda de “aquelas sirigaitas”. A
mãe é uma cafetina, imagina, permitir que a filha durma com o namorado! Mas estava
tão apaixonado por Marta, que relevava tudo aquilo, ria dos ciúmes de Marta e fingia
achar graça dos apelidos terríveis que a namorada botava em Kelly, a gorda, o saco
de batata, a Virgem Maria do Berimbau, a boazinha do pedaço, a deprimida ambulante,
e quanto mais se amavam, mais aumentava seu amor, porra, estava sempre faminto de
Marta, era uma espécie de vício, de fome, de urgência, duas horas longe dela, e já não
conseguia mais fazer nada. Porra. Tira essa roupa e deita aqui comigo, ela dizia,
quando José Luís chegava no apartamento em Copacabana, onde os dois se
encontravam quase diariamente. Venha. Diga que você é meu. Sou seu. Diga que você
nunca mais vai foder mulher nenhuma. Nunca, jamais, eu prometo.
Vou falar com Zequinha, dizia José Luís. De jeito nenhum, respondia Marta, você vai
estragar tudo. José Luís demorou para entender que o poderoso traficante do morro
dos Marrecos não o aceitaria como genro. Afinal, Zequinha o tratava com reverência. É
um talento o garoto, dizia para Suzana. É gente fina. E não quer aparecer em jornal.
Cara, batuta, nota dez, esse menino. Sem perhaps. Gostei demais desse moço, dizia a
todo momento. Chamava-o para discutir os negócios. José Luís também estava muito
satisfeito com Zequinha. Achava muito importante tudo o que ele dizia. É um crânio, o
Zequinha. Muito experiente. O cara é foda. Adorava quando era convidado para
almoçar na casa de Marta, sentia-se feliz e importante na mesa, comendo a famosa
feijoada de Suzana, a namorada tão pertinho, ainda que não pudesse ficar a sós com
ela, só de estar ali, junto da família de Zequinha, julgando-se parte daquilo, já era
formidável. Talvez, dizia para Marta, talvez seu pai aceite o nosso namoro um dia. Mas,
num almoço de domingo, José Luís compreendeu tudo. Quero que minhas filhas se
casem com cidadãos respeitáveis, dissera Zequinha, advogados, engenheiros,
dentistas, pediatras. Tem que ter diploma, ele dizia. Aqui no morro, só tem pobre ou
traficante. A Priscila fala inglês como americana. Marta é uma fera em contabilidade.
Sou trouxa de entregar minhas filhas para essa raça de ignorantes, esses pés-rapados,
esses fuleiros de merda? Não mesmo. E não tem esse papo de amor, já decretei. Com
amor, sem amor, vai casar é com advogado. Querido, não fale assim, repreendeu
Suzana. Minha deusa, minha dona, mulher mais linda do mundo, anjo da minha vida,
estou expondo minhas ideias. Sou assim. Comigo não tem perhaps.
José Luís ainda pensava em Marta quando ouviu Leitor gritar seu nome e acenar de
um carro estacionado em frente ao açougue do Zino. José Luís falou com o açougueiro
antes de entrar no veículo. Pediu que entregasse dois quilos de filé mignon na casa de
Yolanda e mais dois na casa da sua mãe.

O japonês estava em dúvida, falou Negaço, não sabia que nome colocar no filho. Aí o
escrevente disse: sugiro Kleber, Washington, Anderson. O japonês respondeu: gostei
do primeiro. Kleber?, perguntou o escrivão. Não, respondeu o japonês. Sugiro. Bota aí
Sugiro Kamanachi. Gargalhadas. Tem mais uma, continuou Negaço, que adorava
contar piadas. É a do preto de poveta. Proveta, corrigiu Leitor. Uns cientistas,
continuou Negaço, queriam fazer um preto de laboratório. Tentaram de tudo, e nada.
Não vingava. Sabe qual a conclusão dos caras? Preto só nasce fodido. Mais
gargalhadas. Essa é velha, disse Paula. E você, sendo quase azul-marinho, comentou
Fake, não devia ficar contando piada de preto. Sou preto fodido, disse Negaço, rindo,
tem que ter foda mesmo, caralho e boceta, só assim nasce um pretão porreta.
José Luís fez sinal para o garçom do bar Sete de Espadas, onde estavam reunidos,
e pediu mais bebida para o grupo. Os “encontros de cúpula”, conforme dizia Leitor,
eram sempre agradáveis. Sempre em algum bar da redondeza, abastecido com
torresmo, bolo de aipim, carne-seca e cerveja, o grupo de José Luís resolvia os
assuntos mais urgentes. Mas, naquele dia, não havia nada para discutir. Por isso,
deixaram Negaço contar piadas à vontade, falaram da última atuação do Vasco, riram,
vociferaram, até que Murilo, o policial que esperavam, chegou, trazendo a informação
que José Luís aguardava havia uma semana: sim, era verdade que o filho do dono da
cadeia de supermercados era refém de um grupo de sequestradores na favela do
Berimbau. Isso é coisa do Romeu, dissera Leitor, dias atrás, quando ouvira o falatório.
E digo mais, ele está fazendo isso para foder com a gente. O puto era cupincha do
Miltão. Daqui a pouco, tem meganha no pedaço. E vem meganha, e vem mineira, e aí
começa a guerra de novo. Corta esse troço pela raiz, recomendara Leitor. Reizinho já
mandara um recado para Romeu. Pelo jeito, disse o policial, não adiantou nada. Estão
mesmo lá, garantiu o informante, que não sabia, no entanto, precisar a localização do
cativeiro. Só sei que é perto da caixa-d’água.
José Luís não quis esperar anoitecer. Ordenou que vinte soldados perscrutassem
cada metro quadrado no Berimbau naquela tarde mesmo. Vasculhem tudo. Virem de
pernas para o ar. Quero encontrar esse cativeiro. Hoje.
Os soldados se espalharam pelo morro, o pau vai comer, estamos avisando, eles
diziam, com suas armas ameaçadoras, enquanto revistavam os barracos dos
moradores. Vai sobrar para todo mundo. Se alguém estiver mocozeando informação,
ameaçava Paula, vai se foder feio.
Foi uma velha lavadeira quem entregou o cativeiro: pensei que fosse coisa do José
Luís, ela disse. Por isso fiquei quieta. Estão aí faz dias, mas é gente boa, não
incomoda ninguém. Ficam aí dentro, quietinhos, assistindo à TV.
Às seis horas da tarde, o esconderijo dos sequestradores foi cercado. José Luís e
Leitor foram chamados às pressas, quando os sequestradores já estavam rendidos.
Dentro do barraco, num quartinho sem janela, imundo e fétido, José Luís encontrou o
refém. Era um rapaz com menos de vinte anos talvez, mãos e pés amarrados, cabeça
coberta com um capuz. Leitor sentiu ânsia de vômito ao entrar no local. Caralho, ele
disse, esse Romeu é mesmo um ser humano. Gostei do estilo dele. José Luís soltou os
nós que amarravam as pernas do refém, ajudou-o a se levantar, e mandou Negaço
soltá-lo perto de algum posto na avenida Brasil.
Olha só a comida que davam para o coitado, disse Leitor, pegando no chão um prato
com um feijão endurecido, onde uma barata jazia morta. Alguém está servido?
Paula trouxe os três homens que cuidavam da vítima, “os anjinhos”, brincou. Este
aqui, ele disse, referindo-se ao mais alto deles, um loirinho, que não tirava os olhos do
chão, este aqui, me contaram, quando acabava a novelinha dele e não tinha mais nada
para fazer, se divertia apavorando o sequestrado. Enfiava o revólver na fuça dele e
contava até três. Fingia que ia apertar o gatilho. Olha só.
É verdade?, perguntou José Luís, aproximando-se do moço.
Ele não respondeu.
José Luís mirou na cabeça do sequestrador e atirou. A parede detrás se encheu de
sangue.
Avisa ao Romeu, ele falou para os outros dois rapazes atônitos, que não quero mais
saber de sequestros aqui no Berimbau.
Quando já estavam indo embora, pediu que Paula providenciasse um carro. Vou para
Copacabana, ele disse.
22

N ome: Everaldo dos Santos, o Vivico. Líder do pavilhão 5. Assassinou Mário Silva e
assumiu o morro da Saudade. Preso no dia 7 de abril. Nome: Zezinho Caolho,
durante três anos liderou o comércio das drogas das favelas da Formiga e Boca
Pequena. Sete homicídios. Preso em maio, no hospital, quando se recuperava de uma
cirurgia no apêndice. Substituído por Geraldo Zacarias de Assis, vulgo Bife de Chapa.
Cremaldo Moreira, o Crê, especialidade: execução de policiais. A lista dos traficantes
encarcerados no Presídio Padre Moraes era grande, e José Luís fez questão de
conhecer o nome dos líderes antes de se encontrar com Nobre, antigo chefe do morro
do Berimbau.
A visita fora planejada havia algum tempo, por sugestão do Leitor. José Luís enviara
Fake, amigo de Nobre, ao Presídio Padre Moraes, na semana anterior, propondo o
encontro. Essa história de Comando Vermelho, dissera Leitor, é como Papai Noel,
existe para quem acredita. E quem acredita, espalha por aí que pertence a essa
confraria de criminosos, o que faz o maior sentido. Principalmente se você está preso e
quer continuar vendendo cinquenta quilos por mês de cocaína e controlando sessenta
homens do seu exército. Você diz: sou do cv, ninguém sabe exatamente o que é o cv,
se ele existe ou não, qual o poder de fogo dessa “organização”, e essa ignorância a
respeito do assunto também ajuda muito, mete medo. Afinal, com quem estamos nos
metendo? O Comando Vermelho está aqui, eles dizem, dentro do presídio, estamos aí
fora, estamos por toda parte, e podemos entrar na sua casa também. Quem não fica
com medo? Tratem bem nossas esposas, eles dizem, cuidem de nossos filhos, paguem
nossas fianças, nosso supermercado, nosso aluguel, financiem nossas fugas. Claro,
você pode dar as costas para esses caras, e tudo ficar numa boa. Mas há também a
possibilidade de você aparecer morto por aí, e todos dirão, inclusive a imprensa, que
sua morte foi um “acerto de contas do Comando Vermelho”, muito embora ninguém
consiga explicar o que é o cv. Não sejamos otários a ponto de esperar desses caras
um discurso, uma estrutura, uma organização. É um bando de marginais, só isso. Outro
dia o Paula me contou, todo empolgado, que já havia visto carteirinha do cv. Bafo.
Imagina os membros da Yakuza, aqueles fodões que exploram puteiros e têm um
esquema gigantesco de tráfico de escravas brancas no mundo inteiro, exibindo
carteirinha por aí, nome: Yakisoba-Sei-Lá-O-Quê, membro da Yakuza, função: gerente
do setor de heroína, que tal? No Brasil, as pessoas adoram inventar. Até o Paula me
vem com essa história. Mas, enfim, voltando ao assunto, o que eu quero dizer é que
não nos interessa se existe ou não o Comando Vermelho, se o Nobre está ou não
nessa turma. O que nos interessa é que precisamos ter boas relações dentro do
Presídio Padre Moraes. Inclusive porque, no futuro, um de nós pode ir para lá. Melhor
então acertar as bases.
José Luís seguia cegamente as orientações de Leitor. Na verdade, nada era feito
sem seu aval ou opinião. Reizinho admirava suas ideias, sua erudição. Gostava de
frequentar a casa de Leitor, livros por toda parte, você leu mesmo tudo isso?,
perguntava. Duzentas páginas por dia, no mínimo, garantia Leitor, que aproveitava
todas as oportunidades para falar sobre seu assunto favorito, a descriminalização da
droga. Já disseram tanta bobagem a respeito do assunto, comentava. Disseram, por
exemplo, que um homem que consome haxixe pode sair matando qualquer pessoa que
lhe diga bom-dia. Isso é até engraçado. A maconha, salvo raras exceções, consegue,
no máximo, transformar o indivíduo num repolho. Não fumo maconha, sou contra,
agora, se o cidadão quer ter o direito de ser um saco de bosta, qual o problema? Por
que proibir? Este livro aqui diz que bilhões de dólares são perdidos anualmente com
crimes que os viciados cometem apenas para levantar o dinheiro que sustenta seus
vícios. E a previsão que ele faz do futuro é terrível, a tendência é piorar, ele diz, quanto
mais drogas usamos, mais crimes cometemos. Dados impressionantes. E quanto a
essa história que a legalização da droga pode estimular o consumo, isso é tudo
conversa para boi dormir, ele diz. Este especialista aqui, uma fera, continuou Leitor
mostrando trechos anotados com caneta vermelha, esta fera diz que a legalização
pode controlar o uso. E, de lambuja, diminuir a criminalidade. Eu estudo. Leio muito. A
legalização é a única saída. É só vantagem, principalmente para nós. E o melhor
argumento a favor da legalização é aquilo que já disseram, nós temos que pagar de
qualquer jeito. Gastamos os tufos com a polícia. Por que então não legalizar e pagar
impostos para o governo, como fez a indústria do tabaco?
O que realmente agradava José Luís era sair por aí, depois daquelas conversas,
repetindo palavras como “estratégia”, “legalizar” ou expressões como “indústria da
corrupção”, “cartel do crime”, que faziam grande sucesso, especialmente com
Zequinha. Só era desagradável quando Leitor, estando por perto em alguma dessas
ocasiões, comportava-se como um professor zeloso e o corrigia na frente dos outros,
porra, me deixa falar, porra, estou falando, cacete. Ou então quando destrambelhava a
fazer perguntas, como é isso?, perguntava a todo momento, você se alimenta só de
porcarias, Danoninhos, como é isso? Explica melhor essa ideia, como é isso?
Leitor sempre demonstrava grande interesse pelas pessoas, e dessa forma
conquistara todo mundo, principalmente as amigas mais íntimas de José Luís, Marta o
adorava, Kelly e Yolanda também. Mas a maior de todas as admiradoras era
Carolaine. Grávida de quatro meses, vivia atrás de Leitor. Qualquer problema ou dúvida
que surgisse, ia ter com ele. Como é inteligente, dizia. E sabe usar a internet. Vou levar
este bolo de fubá para o Leitor. Alzira não aprovava a amizade. Tenho a impressão,
Jesus, que é esse moço gordo de óculos que está afastando Carolaine do Senhor, ela
dizia nas orações. Não tenho mais tanta certeza assim de que Deus está do nosso
lado, falara Carolaine no último domingo. Virgem Maria, não diga besteiras, menina.
Fora Leitor quem preparara José Luís para o encontro com Nobre. Diga isto e aquilo,
não prometa nada, mostre firmeza. Olhe nos olhos dele.
Sentado ao lado de José Luís, em meio aos presos que recebiam visitas dos
familiares, Nobre não manifestou muito interesse na conversa, enquanto o assunto girou
em torno do tráfico. Fez poucas perguntas e se mostrou lacônico nas respostas. Agora,
fazia parte de uma comissão cujo objetivo era tornar a cadeia “um espaço humano”,
conforme suas próprias palavras. Quando discorria sobre suas novas atividades,
aumentava o tom de voz, e até sua postura física era outra, mais ereta e vigorosa.
Tudo aqui está mais limpo, temos grupos de limpeza agora, fazemos o rodízio da
latrina, das celas, do pátio, tudo está melhor. Sabia que gastamos uma média de trinta
quilos de arroz por dia?
Só no final da conversa, José Luís fez a proposta, uma ajuda mensal, que seria
enviada por meio do Fake. Nobre coçou a cabeça. Você está me dizendo que quer me
dar dinheiro? Isso é bom, ele falou rindo. O pessoal vai gostar. Fala mais.

Clique. A tampa da mala metálica foi aberta, revelando uma grande quantidade de
armas, submetralhadoras, fuzis, escopetas, de várias marcas e diferentes calibres.
Esta aqui é o seguinte, atravessa até parede de caixa-forte. Preço: quinze mil dólares.
Uma das poucas diferenças desse fuzil com o Sig-Sauer está no preço, é mixaria, cinco
mil dólares. Quanto custa este aqui?, perguntou José Luís. Novecentos e cinquenta
tiros por segundo, três mil dólares, respondeu Isório, o contrabandista, que já estava
na terceira dose do uísque oferecido por Zequinha.
A maior parte do material oferecido por Isório era comprada nos Estados Unidos. De
lá, com notas falsas, as armas eram remetidas para o Brasil, junto com vários tipos de
mercadorias eletrônicas. Havia o que Isório chamava de “esquema especial de
liberação da carga”, um esquema que envolvia muita gente, cada um fazendo a sua
parte, e a parte de Isório era levar o armamento até os morros e conseguir o melhor
preço por ele. Algumas armas, ele comprava, a preço de banana, de quadrilhas que
roubavam das Forças Armadas. Inclusive trouxera para Zequinha vinte granadas
ofensivas M3 e M4, não vai querer, Zequinha? Uma pechincha. Era a primeira vez que
negociava com José Luís, mas as referências que tivera, por parte do líder do morro
dos Marrecos, não poderiam ser melhores: anote isto, Isório, em um ano, esse garoto
será um de seus maiores compradores, afirmara no telefone.
Zequinha, sentado ao lado de José Luís, mostrava-se grande entendedor de armas.
Essa é a nova Glock?, perguntou. O contrabandista fez sinal afirmativo com a cabeça.
Veja o acabamento. Os americanos são doidos por essa arma, segure a bicha, Zé,
seiscentos e vinte gramas, isso gruda na sua mão como uma gata com medo de água,
completou Isório. Incrível, o que esses caras são capazes de fazer quando o assunto é
tecnologia para matar.
José Luís examinava com atenção um fuzil HK-47, ele está gostando é da arma do
papa, comentou Isório. Papa? Zequinha riu. Tentaram matar o papa João Paulo II com
uma dessas aí, explicou.
Passaram boa parte da manhã analisando a mercadoria. José Luís já conhecia bem
as armas, mas aquela era a primeira vez que comprava uma remessa para os seus
soldados. Desde a morte do Miltão, vivia uma situação de precariedade, precisando
sempre recorrer ao Zequinha, que emprestava o armamento para as operações
especiais, cobrando aluguel, evidentemente. Arma é o seguinte, você tem que, todo
mês, comprar um pouquinho. É investimento. Ninguém perde dinheiro com armas, dizia.
José Luís comprou três fuzis e duas submetralhadoras, e Zequinha ficou com a última
versão da pistola Glock.
Depois que Isório foi embora, Suzana os chamou para a mesa. Venham almoçar.
Arroz, feijão, purê de batatas, salsicha e couve, eu adoro essa comida, disse
Zequinha, servindo-se. Suzana, minha deusa, passa o ketchup, ponho ketchup em tudo,
ele disse. José Luís, durante todo o tempo que permaneceu na sala de jantar, não
parou de olhar para a escada da casa, esperando que Marta descesse a qualquer
momento. Ketchup no macarrão, no arroz, no feijão, se bobear, até meu sorvete leva
ketchup. Àquela hora Marta já deveria ter voltado da escola. Não gosto de comida
boiola, dizia Zequinha, estrogonofe, suflê, pizza à Califórnia, essas veadagens, não
suporto. Quando começam a inventar muito, não gosto. Gosto de picanha, isso gosto.
Minha paixão, o que foi?, perguntou Zequinha para Suzana. Não vai comer nada? Estou
sem fome, respondeu Suzana. Sem fome? Não sei o que é isso, continuou Zequinha,
ficar sem fome na hora do almoço. Eu tenho fome na hora do almoço e na hora do
jantar, coincidência, não é? Passa o azeite, flor da minha existência. Você devia comer
essa salsicha, minha Cleópatra, salsicha faz bem para o cérebro, ouvi dizer.
José Luís pensou se não haveria, mais tarde, uma maneira de escapar de Zequinha
e subir para o quarto da namorada. lmaginou-a na cama, de calcinha e sem sutiã, como
na noite de sexta-feira, quando ela mentiu ao pai que viajaria no fim de semana com
uma amiga e apareceu na casa de José Luís, de short jeans, blazer de couro e óculos
ray-ban, cheguei para ficar, ela disse, mostrando sua mochila nas costas. Vê o que tem
aqui, ela disse, despejando o conteúdo da bolsa na cama: chaves, duas calcinhas
limpas, escova de dentes e, surpresa: dois ingressos para o show do Zeca Pagodinho,
ela disse e começou a cantar descobri que/ te amo demais la ra ra, e a dançar, dançar
pela sala, puxando José Luís pelo braço. Pela primeira vez, o casal passou dois dias e
duas noites inteiros juntos, dormindo na mesma cama, almoçando e jantando, um
paraíso, porra, até na hora de fazer xixi os dois iam juntos para o banheiro, ela sentava
no vaso, e ele ficava na porta, ouvindo-a falar, maravilha, foderam tanto, porra, Marta
inventou de desenhar cruzinhas na cabeceira da cama com a ponta de um grampo cada
vez que eles se amavam, porra, perderam inclusive o show do Zeca Pagodinho. O que
mais José Luís gostava de lembrar era de Marta mostrando as nádegas para ele, duas
bolas redondas, definidas, me diga a verdade, você acha minha bunda bonita? Meu
Deus. Sua bunda é mais bonita que lua cheia. Lembrou de Onofre perguntando: é
verdade o que andam dizendo por aí, sobre você e a filha do Zequinha? Ah, bom,
pensei que você tivesse pirado. Que bom que é mentira. Ainda bem. Magrela sem
graça, a Marta, parece uma sem-terra. Aquilo pesa, no máximo, cinquenta quilos, sou
bom nessas coisas. E a bunda então? Falo sempre para as moças que vêm aqui e não
querem comer a minha empada: mulher pode perder tudo, menos a bunda. Mulher sem
bunda é como goiabada sem queijo. Que graça tem?
Mas, para José Luís, Onofre não entendia nada de bundas. Estava doido de amor
por Marta, e pensava em aproveitar o almoço com o sogro e botar as cartas na mesa,
logo de uma vez, por que não? Quero casar com a Marta, diria, assim mesmo, na lata.
Você prefere churrasco ou macarronada?, perguntou Zequinha, pela terceira vez. O
moço não está escutando bem, Suzana. Desculpa, respondeu José Luís, churrasco,
desculpa. Talvez fosse este o momento ideal, pensou José Luís, dizer a verdade, quero
casar, ter uma família com Marta. Como vão as meninas?, perguntou de chofre,
interrompendo a história que Zequinha começara a contar sobre uma viagem ao Sul do
país. Por quê?, respondeu Zequinha, encarando-o de maneira acintosa. Meu bem,
disse Suzana, que pergunta! Ele quer saber das meninas. Amor, deixa comigo, sem
perhaps, o. k.? Diga, Reizinho, por que você pergunta sobre as minhas filhas? Por
perguntar, respondeu o rapaz, empalidecendo. Fez-se um silêncio na mesa. Educação,
Zequinha, disse Suzana, o Reizinho é muito educado, só isso. Ah, bom, minha deusa,
se é por educação, muito bom, eu também sou muito educado, falando nisso, como vai
a senhora sua mãe? Bem, respondeu José Luís. Mande lembranças para a senhora
sua mãe. Parece que ela anda sofrendo com a morte do pastor. Sim, disse José Luís,
perturbado com o que acabara de ocorrer. Uma pena terem matado o pastor, ele
disse. O Miltão era mesmo de foder.
Depois do almoço, Zequinha se ofereceu para acompanhar o amigo até “o paredão”.
Era dessa forma que os moradores da região se referiam à zona limítrofe das favelas,
embora não houvesse mais a cerca separando os dois morros. Vou pegar minha
carteira, espera aí. Assim que saiu da sala, Suzana se aproximou. O Zequinha não é
besta, ela disse, vi muito bem o seu olhão na escada. Tome a sua linha. Olha lá.
No trajeto, Zequinha colocou nas mãos de José Luís a Glock que acabara de
comprar. É sua, presente de amigo. Porra, para mim? Obrigado. Seu pai ali, ele contou
para Marta mais tarde, me dando uma arma daquelas, porra, foi sensacional. Que
estranho, comentou a namorada, meu pai é tão pão-duro, ele não pediu nada em
troca? Não, respondeu José Luís. Nadinha.
Mas, na verdade, Zequinha pedira: quero invadir o morro do Sambacuim. São mais
oito bocas, se vencermos. Que tal? Posso contar com seu apoio?
Negócio fechado, respondera José Luís.

Resolvido, disse a voz do outro lado da linha, pode avançar. José Luís desligou o
celular e fez sinal para seus homens. Se olhasse para trás, veria os fundos de um
quartel do Exército, e isso não preocupava o bando de José Luís. A polícia jamais
entrava espontaneamente numa guerra de traficantes, muito menos sem ter
informações prévias sobre os líderes e os armamentos utilizados pelos bandidos.
A invasão não foi tão fácil como esperava Zequinha, mas também não foi dificílima,
como contaram depois Paula e outros soldados para os amigos íntimos, no churrasco
da vitória. Naquela tarde, o líder do Sambacuim fora executado num parque de
diversões na Baixada Fluminense. Zequinha armara a emboscada, preparei a ratoeira,
dizia no churrasco, cheio de vaidade, preparei a ratoeira e o ratão veio com fome de
queijo. A participação de José Luís na guerra fora invadir o morro à noite e acabar com
a guarda do traficante. Quando o grupo tem unidade, explicara Zequinha, como no caso
do pessoal do Sambacuim, não basta a cabeça do líder. Nesse caso, digo por
experiência própria, o esquema é metralhadora giratória. Não tem perhaps.
Os detalhes da invasão foram acertados antes, entre Zequinha e Leitor. Leitor ficara
indignado com a postura de José Luís em relação aos lucros da operação, não entendo
o que você quer dizer com “não negociei isso”, comentara Leitor, se são oito bocas de
fumo, com quantas ficamos? José Luís respondera que aquilo era apenas um detalhe
da questão. Minúcia. Leitor rira. Fake, ele dissera, telefone para o Zequinha e avisa
que estou indo lá acertar “os detalhes da questão”.
A conversa com o traficante não fora fácil, Zequinha era um tipo muito simpático,
mas quando o assunto era dinheiro, ficava nervoso. Eu só pedi uma ajuda, e vocês
querem arrancar a minha pele, cacilda. Que falta de espírito de solidariedade. Quero
ajuda e não sócios. Dei muita força para vocês. Acordou-se que dos oito pontos a
serem conquistados, dois ficariam com José Luís, e os custos da operação seriam
cobertos pela equipe de Zequinha. Suzana, dissera Zequinha, depois de despachar
Leitor, vou ter problema com esse fulano. Sinto no ar. Não vou me dar bem com esse
sujeito.
A invasão foi rápida, os inimigos só recuavam, galgaram apavorados o cocuruto do
morro, mas lá em cima houve um enfrentamento de verdade, com granadas rolando
pelas ruas esburacadas. Mas não adiantou nada, gabou-se Negaço mais tarde. Em
menos de duas horas, acabamos com os filhos da puta.
O único episódio desagradável fora o tiro no braço de um dos soldados de José
Luís, Valtinho, detonado pelo próprio Negaço. Falei: espera o sinal, quando o celular
tocar você atravessa que eu te dou cobertura, contou Negaço. Só que não dei sinal
nenhum, tinha muita granada caindo na nossa direção. De repente, vejo um neguinho
tentando chegar para o nosso lado, atirei mesmo, cara. Mandei bala. Era o Valtinho,
cacete. Mas só fiquei sabendo dessa merda quando liguei para o Valtinho, ele me
atendeu me xingando, pare de atirar, ele disse.
Esse episódio animou o churrasco da noite, oferecido na casa de Zequinha, na
varanda dos fundos. Valtinho, depois de ser medicado na própria favela, bebeu cerveja
e riu das piadas de Negaço.
Em comemorações como aquela, Zequinha proibia as filhas e até mesmo Suzana de
circular pela casa. Marta observava a movimentação, através da persiana de sua
janela. Assim que avistou José Luís chegando, telefonou-lhe no celular. Suba aqui para
o meu quarto, ela disse. Agora.
José Luís, na primeira oportunidade, entrou na casa, subiu as escadas, atento para
não ser flagrado. No corredor, uma porta se abriu, ploc, Marta o puxou para dentro do
quarto. Ploc, o senhor pode me explicar o que é isto?
Era um extrato bancário, um certificado de depósito em nome de Yolanda Moreira,
mãe da Kelly. Quinhentos reais. Ploc. Achei esta merda na sua carteira, que ficou na
minha bolsa, disse Marta, irritada. Ploc. Pode ir desembuchando.
José Luís sentou na cama, seria difícil Marta entender o que ocorrera. Ploc. Fora
Carolaine, sua irmã, que lhe contara. Ploc. Tudo começara com um comentário besta
de José Luís, quero ter um filho, dissera, numa conversa à toa com a irmã. Você já
quase teve, respondera Carolaine. Porra, o que você está dizendo, garota? Carolaine
tentara mudar de assunto, mas acabara contando a verdade, que Kelly, na ocasião do
rompimento do namoro, estava grávida, fizera um aborto, quase morrera. E não contou
nada, Zé, porque não queria te chatear. Fora horrível ouvir aquela história, José Luís se
sentiu tão culpado, e ao mesmo tempo tão aliviado, grato à Kelly, que mulher
extraordinária, que pessoa fantástica, a Kelly, porra. Fala logo, Zé, gritava Marta. Ploc.
Estou esperando. Ela fez um aborto, disse José Luís, titubeante, e a frase provocou
uma explosão de fúria em Marta, ela mal ouvia o que o namorado tentava lhe explicar,
seu puto, seu escroto, você engravidou aquela baleia? Deixa eu explicar, amor, porra,
Marta jogou o abajur na cabeça de José Luís, chutou as pernas dele, arranhou os
braços, José Luís implorando para que ela se acalmasse, vão ouvir, ele dizia, tentando
controlá-la, mas Marta estava indomável, empurrou o namorado para fora do quarto,
bateu a porta, suma da minha vida, ela gritou, chorando. Marta, porra, abre esta porta.
Foi nesse momento que Zequinha apareceu no topo da escada. O que você está
fazendo aqui?, perguntou. Porra, ele respondeu, estou procurando o banheiro.
Zequinha coçou a cabeça. Puta que pariu. Não estava gostando nada daquilo. Nada
mesmo. Assim, não ia dar certo. Tomara que eu esteja errado, pensou, suspirando.
Venha, ele disse, o banheiro fica lá embaixo.
23

T um chic tum chic tum chic tum, no bar do Onofre, nas ruelas, chic tum, nas vias de
acesso ou na parte superior do morro, de qualquer ponto da favela, chic tum tum,
ouvia-se a bateria da escola de samba Unidos do Berimbau, que naquela noite de
quarta-feira, chic tum, tum tum, a dois dias do início do Carnaval, recebia, com todas
as honras, o seu novo padrinho, José Luís Reis. Pi pi pi pi pi, o breque. Calça branca,
camiseta do time do Vasco, José Luís entrou na quadra de esportes, acompanhado por
seus homens de confiança e os inseparáveis vira-latas Pirosca, Tutu, Jaboti e Guliver.
Mais gordo, mais alto, mais falante, e principalmente mais confiante, sorrindo,
sambando, acenando para os convidados, José Luís não guardava nenhuma
semelhança com o adolescente tímido que assumira o poder seis meses antes. Com
quase dezessete anos, era um líder, no sentido literal do termo. E aí, rapaz?,
cumprimentou Kiko, o carnavalesco, apertando-lhe a mão. Kiko fizera questão de estar
na quadra, para receber o amigo. Sim, depois de tantas discussões, agora finalmente
podia dizer que eram amigos. É o mundo que roda, é o mundo da bola, que rola,
cantava o puxador do samba, com seu vozeirão impressionante. José Luís, todos os
anos, comovia-se ao ver como o Carnaval transformava aquele homem. De março a
dezembro, observava-o percorrer as ruas do morro, dentro do uniforme de zuarte dos
carregadores de lixo da prefeitura, cabisbaixo, sem nenhuma energia. Mas na época do
Carnaval, puxando o samba, o homem era a própria felicidade. É Pelé, é Garrincha, é
Tostão, futebol fora o tema escolhido para o samba-enredo. José Luís recebera a
notícia com muito entusiasmo, e imediatamente mandara Leitor avisar aos
organizadores que queria colaborar. Estamos aceitando dinheiro, respondera Kiko, por
intermédio de Cândida, avó de José Luís, costureira da escola. O cara não entendeu o
espírito da coisa, vó. Diga a ele para vir jantar aqui em casa, amanhã.
Naquela época, “o espírito da coisa”, para José Luís, era magnanimamente
representado pelo homem que, segundo lhe informara Leitor, reinventou a máfia. Desde
que Leitor lhe contara a história de Lucky Luciano, José Luís mudara totalmente de
atitude. Não queria ser simplesmente mais um líder de morro do tráfico. Reizinho
ambicionava receber o título de “o maior comerciante de drogas da América do Sul”.
Essa revista, dissera Leitor, mostrando-lhe o desenho do mafioso que ilustrava a
matéria, essa revista fala sobre os magnatas do nosso século. Lucky, estou lendo, é o
homem que deu uma nova imagem à máfia, mais moderna, mais dinâmica. O cara
começou como garoto de rua, e virou um grande nome da economia internacional. Foi
ele que fez com que a máfia se transformasse numa máquina de fazer dinheiro. Eram
tempos difíceis, aqueles, continuou Leitor. A luta pelo poder não tinha trégua, tiroteio
logo no café da manhã, sabe como é? Lucky, espertíssimo, sabia que a violência era
um grande mal para os negócios. Naquela época, todo mundo achava que o Al Capone
era o tal, o fodão, mas, para Lucky, Al Capone era só um bandido violento e
improdutivo. Tipo Miltão, sabe como é? Sabe o que ele fez? Assassinou seu próprio
chefe, e passou a tomar conta dos negócios, com métodos não violentos.
José Luís ficara impressionado com as semelhanças entre sua trajetória pessoal e a
do grande mafioso Salvatore Lucania: ele também fora um garoto de rua, e também
matara o seu chefe, para acabar com a violência. E tudo o que vinha fazendo
ultimamente era exatamente o que Salvatore fizera na sua época áurea, conforme
Leitor havia lhe contado: botar ordem na casa. Agora, por sugestão de Leitor, toda a
equipe “estrutural” do tráfico usava celulares. Na “produção” (um barracão onde os
rapazes se dividiam, alguns fazendo a adição de pó de mármore e talco à cocaína,
outros separando e pesando e embalando a droga), tudo era informatizado. O usuário
mandava e-mails com pedidos codificados, e a droga era entregue em domicílio. É o
começo de algo muito novo, dizia Leitor. Já foi dito que o capitalismo sempre começa
com o empreendimento de um contraventor, esses doidos que extraem minérios e
constroem ferrovias, e depois acabam sendo o pilar da economia do país. É mais ou
menos o que vai acontecer com a gente, no futuro. “A gente” quem, cara-pálida?,
perguntou Zequinha, que naquele dia estava presente e ouviu as teorias de Leitor. Isso
é um tremendo papo furado. Se legalizarem a droga, quem vai se dar bem é uma
Souza Cruz da vida, meu filho. Sai dessa. Não tem perhaps. O Zequinha tem uma visão
muito estreita, dissera Leitor, mais tarde, para José Luís. Não sabe ver o futuro. O
Zequinha desconsidera, por exemplo, que o Brasil é o maior canal de escoamento de
cocaína do mundo. Isso, o ignorante do Zequinha não sabe. Reizinho abraçara
completamente aquela ideologia. Nas reuniões, as palavras que mais se ouviam eram
“profissionalizar”, “ampliar”, “estruturar”, fico até tonto, comentava Negaço, com tanta
palavra difícil. Não entendo picas desse treco. Essa “discutissão” toda me deixa zureta.
O assunto predileto de José Luís era o progresso do Berimbau. Tempo de paz, ele
repetia a todo momento, muito embora seu grupo não deixasse de invadir bocas de
fumo e matar líderes vulneráveis. Há cinco meses que ninguém é morto na favela. Não
matamos mais nossas esposas, avaliava, orgulhoso, não espancamos nossos filhos,
não roubamos o balde nem o bujão de gás de nossos vizinhos, não brigamos no bar do
Onofre. Por quê? Porque nós, negociantes do tráfico, estamos aqui para progredir.
Tempo de paz. Sim, é verdade que havia algumas brigas, bobagens, o Francisco, pai
de José Luís, atropelara o gato da dona Crecilda, bobagem, um nada, e a mulher, só
por causa disso, começara a dizer que Francisco era um bêbado. Alguém aqui viu meu
pai bêbado? Hein, Onofre? Ninguém vira. Então. Tudo certo. Manda a dona Crecilda
fechar a matraca.
Portanto, para José Luís, tudo corria muitíssimo bem, mais que bem, ótimo, inclusive
na vida pessoal, seu romance com Marta estava cada vez melhor, mais que ótimo,
excelente, tudo ia de vento em popa, e a palavra de ordem era organizar. E o jantar
com Kiko fora exatamente para expor essa sua ideia. Organização. Progresso. Futuro.
Expansão. Mas Kiko, responsável havia doze anos pelo Carnaval do Berimbau, queria
apenas dinheiro dos traficantes, pois o que ganhava dos bicheiros não era suficiente.
Não admitiria nenhum tipo de intervenção, e José Luís pensava basicamente nisso,
intervir. Não temos dinheiro, argumentara José Luís, orientado por Leitor. O que posso
fazer por você, dissera, é “estruturar o Carnaval”. Você não sabe os milagres que a
organização pode fazer. José Luís ficara impressionado quando, dias antes, Leitor lhe
contara que não havia reaproveitamento de material nos desfiles. Fica tudo
abandonado aí pela favela, perto do campo de futebol, e, depois, jogam as tralhas no
lixo. Leitor, pedira o traficante, durante o jantar, explica para o Kiko nossa ideia. Dias
depois, Kiko já tinha incorporado toda aquela conversa sobre reciclagem de materiais e
reaproveitamento de alegorias, esculturas e adereços.
A verdade é que o carnavalesco se encantou com José Luís, e isso não surpreendeu
ninguém, afinal, toda a população estava fascinada pelo novo líder, e quem não estava
satisfeito, já se resignara, aceitando-o como o dono do Berimbau, o “meu morro”, como
José Luís costumava se referir à favela. José Luís era educado, respeitador,
atencioso. “Faz muito pelos pobres”, diziam. Arrumou o meu telhado. Pagou os
remédios do meu filho. Me deu um pneu novinho. Já está construindo uma escola, lá em
cima. Embora a iniciativa de construir uma escola perto do novo quartel-general do
tráfico se explicasse mais pela necessidade de usar as crianças, como escudo, no
caso de invasão policial do que para atender às exigências dos habitantes, de fato,
José Luís vinha introduzindo algumas melhorias no Berimbau. Ao redor da sua casa, já
haviam canalizado o esgoto. A-do-ro o Reizinho, dizia Kiko. Amo, de paixão. O Reizinho
é o que menos me dá dinheiro, admito, em compensação, é o que mais me dá apoio
moral.
O diálogo com José Luís só ficou difícil quando Kiko lhe contou que haveria um carro
para homenagear Oscar Cox. Que é isso? Cox, Reizinho, é o introdutor do futebol no
Rio de Janeiro, respondeu Kiko. É mesmo?, que legal, disse o traficante, pensei que o
futebol tivesse nascido aqui. Não, respondeu Kiko, que pesquisava os temas com
tremendo rigor, os chineses jogavam bola antes mesmo de Jesus Cristo nascer. Jura?,
que coisa, disse José Luís, esse Cox, então, era chinês? Não, Cox estudou na Europa,
e foi ele que ajudou a fundar o Fluminense também. O quê?, perguntou José Luís
indignado. Sim, o primeiro grande time carioca. Foi aí que começou a confusão.
Vascaíno doentio, José Luís vetou a homenagem a Cox. O Fluminense é uma bosta de
time, dizia, não vou permitir isso. Nem pensar. Mas é a história, argumentava Kiko,
afetado, a história com agá maiúsculo, não podemos passar por cima dos fatos. Foda-
se a história, o Cox dançou, dizia, sem chance, porra. Foi Leitor quem resolveu tal
impasse. Já foi dito, Kiko, ele contou, que quem fez a redenção do negro no futebol foi
o Vasco. O Vasco acabou com o preconceito de cor no futebol, sabia? Por que não
fazemos então a ala das baianas, representando a torcida do Vasco? Que tal,
Reizinho? Temos Cox e Vasco, que tal? Nesses termos, José Luís concordava,
contanto que o Vasco viesse na frente do tal do Cox.
O fato é que José Luís se tornou uma espécie de dono do Carnaval do Berimbau.
Qualquer problema que tivessem, iam até a casa dele (as casas, já que José Luís, a
exemplo dos moradores que ganhavam dinheiro no Berimbau, passara a comprar os
barracos contíguos ao seu, aumentando sua moradia) para discutir. O Reizinho é que
sabe, dizia Kiko, falem com Reizinho, e o traficante se envolvia em todas as questões,
até na escolha do local onde Cândida compraria lantejoulas e miçangas. Marta é que
sabe desses detalhes, ele costumava responder. Sempre que podia, metia Marta nos
negócios, embora a namorada não soubesse absolutamente nada de Carnaval. Sim,
mas ela vai fazer administração de empresa, argumentava José Luís, orgulhoso.
Gol, a galera grita, se agita, gol, é gol, cantava o puxador, animando o pessoal.
Reizinho, disse Kelly, interrompendo a conversa com Kiko, que bom ver você aqui. E foi
exatamente quando estavam se abraçando, ele e Kelly, que Zequinha chegou, com
Suzana e as filhas Marta e Priscila. E foi também, naquele momento, sem que nada
tivesse sido planejado, que Fake se meteu entre eles e perguntou se todos sabiam da
novidade, Reizinho e Kelly vão se casar, ele disse. É mesmo?, perguntou Zequinha.
Coisa boa. Excelente, parabéns, disse Suzana abraçando Kelly. José Luís não
conseguiu dizer uma palavra, olhava para Marta, aflito, ploc, vamos dar um rolê, ela
disse para a Priscila, tchau, pai, ploc. E sumiu. As pessoas continuaram parabenizando
o casal, desde que encontrei esta deusa, gabava-se Zequinha se referindo a Suzana,
esta luz, este diamante lapidado, minha vida ficou um paraíso. E ficaram todos
felicitando José Luís, dizendo por um bom tempo coisas sobre casar e ter filhos,
caramba, Fake, ele comentou depois, quando se afastaram dos amigos, que papo
idiota é esse? Cala a boca e faz cara de noivo, brother, respondeu Fake, estou
salvando a sua pele, Zequinha veio conversar comigo, está cabreiro, você e Marta
estão dando muita bandeira, o que há com vocês? Querem se foder, é isso? Que
roupa é essa?, perguntou José Luís, só então se dando conta da calça de pregas de
Fake. É nova, respondeu o amigo, vaidoso, gostou, brother? Estou até me amarrando
em terno. Business. José Luís lembrou das calças de dr. Rodrigo, o mesmo tipo de
calça, duas pregas de cada lado, fofas, porra, estou puto, porra, cadê a Marta?, ele
perguntou, olhando ao redor para localizar a namorada. Brother, só vou dizer o
seguinte, o Zequinha é um tipo de pessoa que já fez de tudo com os inimigos dele, e
posso garantir, é sempre de surpresa. Olha lá ele sorrindo, continuou Fake, apontando
o traficante do outro lado da quadra, cerveja na mão, dá um smile para o homem. Zé
Luís abriu um sorriso. A Marta deve estar putíssima, disse Zé Luís, discando para o
celular da namorada. Meu telefone está fora do ar, dizia a mensagem gravada, deixe
seu recado depois do sinal. Caixa postal, porra.
Tum chic tum chic tum chic tum, nesse momento, houve um burburinho, chamem uma
ambulância, alguém gritou. Carolaine que, apesar de estar no nono mês de gravidez,
sambara a noite toda sem parar, passava mal. Sentou-se no chão da quadra, suando,
chama minha mãe, ela pediu para Suzana.
Foram necessários quatro homens fortes para botá-la sentada num banco de
automóvel que servia de sofá na quadra esportiva.
Fake foi providenciar um carro, e José Luís permaneceu ao lado da irmã, acalmando-
a. Carolaine não parava de chamar pela mãe, choramingando. Não tinha medo de
morrer no parto, nem de o bebê nascer defeituoso. Chorava ao pensar como seriam as
coisas, o futuro, as mudanças. Estava tão boa a sua vida, ultimamente. Zé Luís lhe
dava tudo, roupas, alimentos, até uma TV nova, catorze polegadas, ela ganhara. Com
controle remoto e tudo. Saía todas as tardes, andava por aí, batendo pernas, visitava
Leitor, Suzana, ou então se metia na casa da avó, Cândida, só para ver as cabrochas
experimentando fantasias. Abandonara os cursos, as chatices todas, e agora colocara
até uma mocinha para ajudar na limpeza da casa, a ideia fora de José Luís.
Sensacional não ter que limpar a casa. E Alzira nem sabia disso, a empregada só
aparecia quando Alzira estava no trabalho. Uma beleza, ter empregada para cozinhar o
feijão, lavar o chão e a louça suja, as roupas, graças a esse privilégio Carolaine podia
se dedicar ao seu programa favorito, ver TV, principalmente nos dias muito quentes.
Ligava a televisão e o ventilador, jogava-se no sofá, com um pacote de bolachas com
recheio de chocolate, e assistia a filmes e reprises de novelas até adormecer. Alas, na
creche, a casa tranquila, Carolaine não se lembrava de ter tido, em outro momento de
sua vida, tanta tranquilidade e paz. E agora, como seria? Amamentar, trocar fraldas,
acordar à noite para cuidar da criança. Se vira, Carolaine, não tenho mais idade para
criar filho, dissera Alzira. Quem ficaria com o bebê, quando ela fosse aos bailes com
Leitor? Do Alas, Alzira se encarregava, mas a mãe já a prevenira milhões de vezes de
que não seria babá de nenhum outro neto. Chega. Acabou a mamata. Durante os nove
meses da gravidez, principalmente depois da morte do pastor, Carolaine adotou uma
maneira simples de encarar a gravidez, ignorando-a por completo. Simplesmente não
pensava no assunto. Mal olhava para a barriga. Quando Alzira começava a reclamar,
saía de casa, desprezava, esquecia. Mas, agora, como seria?
Chame a mãe, ela pediu novamente para José Luís, quando estavam a caminho do
hospital.

Vamos demonstrar agora, disse o apresentador de TV, como a assassina


premeditou cada detalhe do crime, na noite em que visitou o amante alegando que tinha
perdido a chave de casa.
Alzira, sentada na poltrona do quarto de dona Juliana, assistia à TV ao lado da
patroa, que agora parecia mais calma. Vou fazer mais leite para a senhora, disse
Alzira, levantando-se. Não, Alzira, obrigada, respondeu Juliana, estou bem, fique aqui.
Na noite do crime, dizia o apresentador, na noite do crime, a assassina deixou o
trabalho às dezoito horas.
Alzira gostava daquele tipo de programa, aquilo era bom para lembrar a todos que o
demônio estava ali. No nosso mundo. Não como imaginava, quando criança, chifres,
metade homem, metade bicho, era pior até, o diabo, todinho homem, da cabeça aos
pés, sem nenhum sinal para nos advertir, normal mesmo, caminhando entre nós,
falando, trabalhando, coisando, tudo normal. Dona Juliana, dias antes, lera-lhe uma
notícia que saíra no jornal, com a declaração do papa, o diabo foi derrotado, dissera o
papa, e agora a verdade estava ali, diante das duas. O papa errou. O demônio
continuava na luta. Caminhando na multidão, anônimo. Pensou em dizer isso para dona
Juliana, mas desistiu, ela parecia mais calma, parara finalmente de chorar, por que
falar do diabo?
Dr. Rodrigo estava em São Paulo, a trabalho, e os filhos Marcelinha e Otávio
também viajavam, de férias, Marcelinha na Disney e Otávio fazendo um curso em
Londres. Foram dias tranquilos, aqueles, dona Juliana sempre de dieta, um grelhadinho
com salada, a casa arrumada, tudo fácil. Até a sua ferida na perna melhorara um
pouco. Não fechara, mas parara de abrir. Viu como melhorou?, perguntara para dona
Juliana. Não me mostra, Alzira, detesto ver coisa podre. Naquela tarde, tudo estava
tranquilo, Alzira já estava mudando de roupa para ir embora, deixara uma salada de
rúcula com figo na geladeira para a dona Juliana, a casa estava com aquele cheiro bom
de limpeza, um cheiro de coisa honesta e correta, que acalmava Alzira, de tão bom,
enfim, já estava de saída, quando, de repente, a patroa entrou pela porta da cozinha,
chorando, e se atirou nos braços de Alzira, gemendo, soluçando, por Cristo, dona
Juliana, o que aconteceu? Juliana, quando conseguia dizer algo, era sempre a mesma
coisa: uma coisa horrível, Alzira, horrível, ela repetia, sufocada pelas lágrimas. Foi com
Marcelinha? Não, não, chorava Juliana, sem se explicar direito, não é nada disso.
Então, o que foi, mulher de Deus?, perguntou Alzira, aflita.
Juliana não contou o que ocorrera, falar sobre aquele assunto era por demais
humilhante, nem para aquela pobre mulher analfabeta Juliana conseguiria dizer o que
vira com seus próprios olhos, um horror, Fernando e Alice, sua melhor amiga, na cama,
fora horrível. E tudo começara tão bem, um dia lindo, almoçara com Lila, que acabara
de chegar de Paris, riram muito, Juliana se sentia disposta, alegre, na volta para casa,
no seu carro, ouvindo música, o mar verde-oliva, tudo maravilhoso, e, de repente, veio-
lhe a ideia de fazer uma surpresa para Fernando. Parou numa delicatessen, comprou
baguete, queijo camembert e champanhe de pêssego, oh, foi horrível. A porta de
Fernando estava destrancada, a sala bagunçada, e na poltrona, uma bolsa de mulher,
bolsa linda, de bom gosto, e, oh, horrível, por que não dera meia-volta naquele
momento? Em matéria de acabar com tudo, ela diria no dia seguinte para o psiquiatra,
sou alguma coisa próxima do espetacular. Essa é a minha especialidade, destruir
coisas. Acabar com tudo. Eu sabia que ia me foder, e assim mesmo fui entrando, abri a
porta do quarto do Fernando. Foi horrível. O corpo perfeito do amante, suas costas
musculosas, cobrindo Alicinha. Horrível. Juliana descera os andares todos de escada,
aquela fora a pior parte. Não esperava nada de Fernando. Mas Alicinha, sim, imaginava
que Alicinha, sua melhor amiga, viria atrás, enrolada no lençol, até nua, ela viria. Pediria
desculpas, chorariam, juntas, talvez. Aquela vaca. Traidora. Juliana até desacelerou
seu passo, para dar à amiga a chance de encontrá-la, na escada, destruída. Mas nem
Fernando nem Alicinha vieram atrás. E durante os cinco minutos que ficou soluçando no
seu carro, estacionado próximo ao edifício de Fernando, nenhum dos dois saiu na
janela.
Agora, finalmente, depois de chorar tudo o que era capaz, sentia-se mais calma.
Rodrigo, o marido, telefonara havia pouco de São Paulo, por que você está triste, meu
bem? O que aconteceu? Estou com saudade das crianças, ela respondera. Meu amor,
amanhã estarei aí, fique tranquila. Vamos jantar naquele restaurante que você adora.
Sentia-se tão grata pelo fato de Alzira ter ficado com ela, não conseguiria passar a
noite sozinha. E Alzira também não achara ruim pernoitar na casa da patroa. A não ser
por Alas, não tinha muita vontade de voltar para casa. Irritava-a profundamente cruzar
com o ex-marido por lá, o bandido, numa boa, de Kombi, achando-se o tal. Não
tolerava aquilo. Queria ignorar Francisco, mas, diabos, estava sempre procurando-o
com os olhos, querendo vê-lo, e quando se trombavam na rua, meu Deus, perdoai-me,
como era ruim sentir aquele ódio no coração, um ódio poderoso, faminto, que crescia e
só queria crescer mais ainda, era o ódio que mandava em sua cabeça e pernas,
obrigando-a a mudar de caminho, só para ver Francisco, e detestá-lo, era só isso que
fazia ultimamente, abominar Francisco, mal conseguia rezar, estava sempre
praguejando contra o verme, o canalha, o imbecil, o idiota, o covarde, bêbado, arre.
Às onze e quinze da noite, quando o telefone tocou, Alzira dormitava com a cabeça
apoiada no braço da cadeira do quarto de dona Juliana. Nasceu seu segundo neto,
disse Suzana, do outro lado da linha.
Alzira perguntou se Carolaine estava bem. Sim, tudo bem, é homem, dizia Suzana,
animada, um bebê, lindo. Vai se chamar Júnior. Júnior Reis.
Alzira desligou o telefone e voltou para o quarto, sentindo uma tristeza no peito. Mais
um filho. Coitada da Carolaine.
24

“M eu querido bode velho barrigudo, sabe aquela nevinha que a gente vê na televisão,
branquinha, fofa e gostosa? É péssima, meu nego. Andar na neve, fazer boneco
de neve, só é bom na TV ou em cartão-postal. Acabo de chegar da rua, vinte e cinco
graus abaixo de zero! Francamente, Onofre, prefiro aquele solzão de rachar. Tiritei
como boi em matadouro. A neve se acumula, derrete, é uma merda andar nas calçadas
empaçocadas de lama escura e gelada, hoje, inclusive, beijei o chão, e esparramei
meus tomates na sujeira.
“Às cinco horas, o povo começa a se encharcar com cerveja preta nos botecos, e
nove da noite não tem uma alma viva nas ruas, todo mundo dormindo bêbado, aqui
nesta cidade. Ninguém sai de casa. Se vão para a rua, é correndo, compram a linguiça
do dia, e pronto. O pior de tudo é a cor do céu, Onofre. Das dez da manhã até quatro
da tarde é a mesma coisa, aquele nublê total, tudo cinza. Isso começa em outubro e só
acaba em março. Vou te confessar, bodão, aquela Rosa Maria superalegre já não dá
mais tanta risada.
“Se bem que estou feliz, a Jenifer, filha da Dadá, chegou faz duas semanas, veio
morar comigo e com o Heinrich. Um doce de menina. E muito esperta, já está falando
gutentag. O Heinrich gostou dela. Pelo menos não fico mais tão sozinha. (Ela é que
andou meio triste, na semana passada. Todo mundo da Unidos da Berimbau queria que
ela fosse a nova porta-bandeira da escola, sabia? E passar o Carnaval aqui, tiritando...
)
“Acabei de comer a última caixa de paçoca que você me mandou. Da próxima vez,
mande aquela do coraçãozinho vermelho, é a melhor. Você pode mandar também uma
goiabada? Estou esperando. Abraço na cambada. E para você uma beijoca da Rosa
Maria.”
Você acha, perguntou Onofre, depois de ler a carta para Negaço, você acha que a
Rosa Maria vai convidar outras pessoas para ir para a Alemanha? Vai, sim, comentou
Negaço, com um copo de Tubaína na mão, sempre atento à movimentação dos
transeuntes, vai convidar você, ouvi dizer. Sabe aquela piada, continuou o traficante, do
cara que leva um murro no olho e diz para o fortão que bateu: isso não vai ficar assim.
Aí, o que deu o soco responde: não mesmo, vai ficar roxo e inchar. É a mesma coisa, a
situação da Rosa Maria. Vai inchar e ficar roxo. Do que você está falando?, perguntou
Onofre, irritado, coisa besta, até parece que você não sabe levar uma ideia, estou aqui
comentando um assunto, e vem você com uma piada velha que não tem nada a ver
com nada. Negaço riu, estou sabendo, ele disse, daqui a pouco você saca o seu
canivete sueco e destrambelha a falar da Rosa Maria. Suíço, corrigiu Onofre, meu
canivete é suíço.
Onofre olhou para o cartão-postal, com a foto de Berlim coberta de neve, quanto
será, ele perguntou, quanto será que custa uma passagem para a Alemanha?
Negaço agora olhava atento para os garotos que jogavam bola na entrada principal
da favela. Alguém lhe fez um sinal. Estou indo, ele disse.
Que está acontecendo, Negaço? Por que está todo mundo agitado, hoje?

Marta abriu o frigobar do Motel Serenade e pegou uma barra de chocolate. Voltou
para a cama, deitando-se aninhada nos braços de José Luís. Que horas são?, ele
perguntou. Cinco e quinze, ela respondeu. Continua aquilo, ele pediu, eu estava
gostando. Você dormiu, disse Marta. Não dormi nada. Então diz sobre o que eu estava
falando? Você estava falando, respondeu José Luís, que o homem explode. Mais ou
menos, explicou Marta, eu estava falando da diferença entre o gozo da mulher e o gozo
do homem, o homem explode, e a mulher é explodida. Explodi você?, perguntou José
Luís alisando a barriga de Marta. Beijos. Era verdade, José Luís admitia. Explodia.
Alguma coisa detonava dentro dele durante o sexo, e, antes da explosão, uma força
poderosa ia se concentrando num lugar qualquer de seu corpo, e, de repente, aquilo
era potência pura, irrompendo, atravessando as vísceras, cortando-o de cima a baixo,
como uma flecha, porra, como era bom. A boca de Marta estava com gosto de
chocolate, ela sempre tinha um hálito delicioso de chicletes de canela e hortelã que
comprava aos montes e deixava na bolsa e no console do carro, sou viciada em
chiclete, ela dizia, ploc, e a culpa é sua, se você não me beijasse tanto, eu mascaria,
ploc, menos. Para mim, Marta disse, é assim, quando o seu pau entra no meu corpo, é
como se fosse uma faca, parece que existe uma bola lá dentro, uma espécie de céu
que, de repente, plof, a faca estoura, ploc.
Como era bom ficar com Marta em paz, pensava José Luís, e melhor ainda quando
ela conseguia compreender, pelo menos por alguns instantes, que não havia nada entre
Kelly e ele, não havia possibilidade de ter nada, sinto tanto interesse por Kelly, dizia
José Luís, quanto por uma bacia de plástico, a Kelly não me interessa, não quero saber
de mulher nenhuma. Mas ela gosta de você, respondia Marta, a gorda está sempre
cheia de esperança. E daí?, perguntava José Luís. E daí? Ela é zero, é nada. Sim, Zé,
mas acontece que desde que o Fake inventou essa patacoada de casamento, a gorda
me olha com cara de estou-por-cima-da-carne-seca, não gosto disso. Ela só quer
ajudar, argumentou José Luís. Vagabunda. Folgada. Tem celulite até no braço, a
gorda. Você devia achar bom a Kelly ser minha amiga, dizia José Luís, sinal que eu sou
um cara legal. Ploc, papo furado, aquela gorda que se cuide comigo, acabo com ela.
Ploc.
Marta possuía uma grande curiosidade em relação aos negócios. Estava sempre
perguntando, querendo saber, dando opiniões sobre este e aquele assunto, ploc, tenho
jeito para a coisa. Houve uma situação em que José Luís teve uma carga de cocaína
roubada por policiais que obtiveram, por meio de escuta telefônica, informações do
local de entrega. Fora de Marta a ideia de preparar a operação-fantasma através do
telefone grampeado. Dessa forma, o bando de José Luís matou os três policiais
envolvidos no roubo. Em outra situação, quando José Luís refletia sobre a melhor
maneira de levar armas de um morro para o outro, para aluguel, Marta apareceu com
uma reportagem de jornal que falava sobre a utilização de caminhões de lixo para
transporte de armas e droga. Porra, muito bom. Na verdade a ideia fora péssima.
Como a polícia já fora alertada, os caminhões de coleta de lixo estavam passando por
blitze, e, assim, José Luís perdeu uma pequena parte do seu arsenal. Mas o resultado
negativo da operação não afetou em nada a imagem de Marta. Um gênio, essa menina,
porra. Não é que ela tem mesmo jeito para a coisa, Leitor? Leitor também concordava,
principalmente porque Marta o apoiava quando o assunto era estabelecer um contato
direto com o fornecedor, sem a intermediação do Zequinha. Meu pai precisa entender
que vocês cresceram, ela dizia.
Depois que se amavam, os dois ficavam nus na cama, conversando sobre negócios.
Ultimamente Marta se preocupava com a madrasta. Ela me olha de um jeito estranho,
aquela mulher. Sabe, Zé, ela é muito ambiciosa. Essa ideia que você faz da Suzana,
mãezona amiga, comigo não cola. Ela manobra meu pai. Uma vaca. E, agora, toda
hora vem me dizer, juízo, juízo, quem ela pensa que é?
Estavam exatamente conversando sobre isso, quando o celular de José Luís
começou a tocar. Estou aí em dez minutos, ele disse, depois de ser avisado pelo
Negaço de que “o artista” havia chegado.
Marta ficou encantada quando soube que José Luís iria se encontrar com um homem
que fazia propagandas. Propagandas de verdade, de televisão. Um publicitário, então,
ela afirmou. Sim, publicitário, repetiu José Luís saboreando a nova palavra. Que
propagandas ele fez? José Luís não soube responder.
Só sabia o que Negaço havia lhe contado, fora o amigo quem marcara o encontro
dos dois. Dias atrás, Negaço fora procurado por um velho conhecido, Dunga, um
produtor de televisão, que sempre se abastecia de cocaína no morro. Dunga pedira
que Negaço apresentasse o publicitário americano Rick Molzer para José Luís. Rick
viera ao Brasil para fazer uma propaganda de refrigerante e queria usar a favela como
cenário de seu filme. O gringo só quer sua bênção, dissera Negaço. Leitor fora contra.
O que vamos ganhar com isso? Não vale o risco. Daqui a pouco sai no jornal. Sou
contra.
José Luís ficara muito envaidecido com aquele pedido para ouvir as advertências de
Leitor. Alguém tão importante querendo conhecê-lo, um americano, pedindo permissão.
Propagandas de televisão. Porra. Orientado por Zequinha, Reizinho evitava falar com
jornalistas. É estratégia, dizia Zequinha. Fama, no nosso caso, só serve para aumentar
as encrencas, dizia o pai da Marta. Mas, agora, a situação era outra. Tratava-se de um
americano, um artista.
Havia uma semana que todos aguardavam com ansiedade o tal encontro. Houve uma
ameaça de cancelamento, por parte de Rick Molzer, mas felizmente tudo se ajeitou na
agenda do publicitário.
Posso ir?, pediu Marta. Não adiantou implorar, ploc, ajoelhar no chão, imitar macaca,
como sempre fazia quando queria que José Luís gargalhasse. Ele riu à beça e disse
não. Deixou-a num táxi e foi embora para o Berimbau sozinho, pilotando sua
motocicleta de 1200 cilindradas.

Rick Molzer, sentado confortavelmente numa poltrona de veludo cor de vinho, com
um copo de Coca-Cola nas mãos, conversava com Fake e Leitor, por meio do produtor
Dunga, que traduzia com dificuldade suas perguntas e as respostas dos traficantes. O
rapaz, com seus cabelos aloirados curtíssimos, usando uma camiseta Hering branca
para fora da calça jeans vermelha, era, para Fake, uma grande decepção. Haviam
falado tanto no homem, o americano, o artista, Fake imaginara outra pessoa. Vestira-
se com tanto esmero para a ocasião, calça bege, camisa social do mesmo tom,
sapatos e cinto cor de café, riram tanto dele, os amigos, Negaço chegara a dizer “o
brother está ficando branco”, não que Fake se importasse com esse tipo de
“comentário ignorante”, são burros, dizia para Leitor, eu quero é progredir, não posso
trabalhar com droga e andar por aí como árvore de Natal. Sou preto e tenho orgulho de
ser preto. O que tem a ver a roupa que uso com a minha cor? Mas, enfim, arrumara-se
todo, até cortara o cabelo para receber o tal americano, e então o bacana aparece
com a calça até meio suja, um tênis vagabundo, não era Nike, nem Reebok, Adidas,
nada, um sujeito branco como um trabalhador de escritório, sem nenhum bronzeadinho,
nada, que conversa era aquela? Para ser branco daquele jeito, só não tendo iate, diria
Fake mais tarde, rindo. Na minha opinião, diria Leitor, depois, enquanto levava José
Luís para o encontro “realmente importante” que aconteceria naquele dia, na minha
opinião, esse americano é um boiola.
Quantas pessoas vivem hoje no Berimbau?, perguntou Rick Molzer. É mesmo? Tudo
isso? Quase a população de uma cidade no interior dos Estados Unidos. A conversa
chocha se esticou até a chegada de José Luís, com uma hora de atraso, e a entrada
do líder do tráfico do Berimbau, na visão de Rick Molzer, foi espetacular. Capacete na
mão, metralhadora acoplada ao corpo, embaixo da jaqueta jeans, rindo, dando ordens,
natural, divertido, poderia até entrar no comercial, ele diria depois para o diretor de
arte.
Foram duas horas de conversa.
Adoro a favela carioca, ele disse para José Luís. Vocês têm soluções muito criativas.
Vocês usam materiais fantásticos. Adorei as cortinas de plástico do bar do Onofre.
Adorei as antenas por toda parte. José Luís não entendia bem o que ele queria dizer
com aquilo, gostar daquelas coisas tão banais, antenas, plásticos, por acaso não
haveria antenas como aquelas nos Estados Unidos? Traduz isso, Dunga, quero saber.
Sim, temos antenas, respondeu Rick, rindo, mas nada semelhante ao que vocês têm
aqui, esta explosão de cores, esta festa visual, isso é absolutamente pós-moderno. E é
por isso que estou aqui. Quero algo novo para os meus clientes. Apresentar a moçada
em show de rock bebendo refrigerante é falta de criatividade. Vamos mostrar uma
morena bonita, dia de verão, no meio de uma favela, suada, sensual, de repente, ela
para, exausta, e puf, num toque de mágica, surge na sua mão uma garrafa de
refrigerante, que ela bebe com prazer. Depois, a morena olha para a câmera e diz: isto
é que é vida!, traduziu Dunga, correndo para acompanhar o inglês do americano.
José Luís considerou a ideia excelente. Isto é que é vida! Poderia sugerir duas boas
“locações” (para usar a palavra que Dunga repetira várias vezes), a da quitanda, onde
as paredes das casas estavam todas pintadas de azul, e a da oficina do Maurinho,
cheia de carro incrementado. Mas o que eu quero mostrar, retrucou Rick, é a favela em
si, é a cor, o movimento, eu adoro favela. Isso é Rio. É Brasil. Favela, para mim, é o
que há. É o próprio Brasil. Não quero nada bonitinho, digo, pintado de azul. Quero a
própria realidade vibrante.
A conversa seguiu depois por outros caminhos. José Luís, apesar dos sinais de
Leitor, falou sobre o tráfico, a relação importante de sua equipe com a comunidade,
mas Rick Molzer não se interessou muito pelo assunto. Fez algumas perguntas, você
não tem medo de morrer? Já foi preso? Ferido? Qual sua arma preferida?, não
prestando muita atenção nas respostas, por culpa do péssimo inglês do Dunga, que
demorava para “encontrar as palavras”.
Para José Luís, o encontro fora mais que bom. Jamais vira alguém “falar inglês
assim”, e aquilo lhe parecera algo formidável. Fora do comum, porra. Fala para ele,
Dunga, que o meu trabalho aqui é fundamental para a comunidade. Embora Rick não
reagisse efusivamente às informações sobre o tráfico, José Luís se sentiu muito
importante naquele momento, como se estivesse sendo filmado, riu, passou a mão no
cabelo, fez trejeitos, sempre buscando um efeito. Quis que o americano gostasse dele.
Uma campanha legal, a do Rick, disse ao Leitor, depois. Uma bosta, na minha opinião,
respondeu Leitor. Coisa idiota, mostrar pobreza. Viu como ele olhava para a gente?
Muito burro, aquele cara. Cada pergunta burra, disse Leitor. E quando ele quis saber
sobre nossas sandálias de plástico, hein? Puta merda. Vocês, brasileiros, gostam
disso, ele falou. Na verdade, ele não quis dizer vocês, brasileiros, e sim, vocês, os
pobres. Vocês do Terceiro Mundo. Vocês, os fodidos, usam sandálias ordinárias. Por
que será, hein? Burro, o gringo. Ele pensa que somos uma coisa diferente, uma outra
coisa. Agora os americanos deram para gostar de pobre. Pobre, preto e veado e muita
culpa, é isso que está na moda para esses caras. Imbecil. Ah, porra, comentou José
Luís, sem dar atenção aos comentários virulentos de Leitor. Poderia ter falado da
creche, porra. Esquecera. Você acha, perguntou Leitor, que aquele americano está
realmente interessado na tua conversa? O homem está aqui para vender refrigerante,
Reizinho, trata-se de mais um vendedor. Você sabia que, por exemplo, se ele fosse
fazer a propaganda num estúdio, teria que construir um monte de geringonça, pagar
profissionais, gastar um dinheirão? Muito esperta a ideia de usar a favela. Conheço
essa história. Baratinho. Você devia ter cobrado mais. José Luís nem ouvia as
bobagens de Leitor. Porra. Esquecera também de falar da nova igreja que estava
sendo construída. Era uma surpresa para a mãe, ele poderia ter dito, as pessoas
precisam de apoio, e a igreja é um apoio. Repetiu “a igreja é um apoio”, tentando
memorizar a frase para a próxima ocasião. Poderiam ter conversado mais, mas Leitor
havia marcado para aquela noite uma reunião muito importante. Uma pena.

Quando o assunto era venda de cocaína por atacado, nenhum nome no Rio de
Janeiro era mais forte que o de Zé Gavião. Quem o via sentado na poltrona de sua
casa luxuosa, sossegado, fala mansa, com um copo de uísque na mão, não poderia
imaginar seu dinamismo no trabalho. Jamais recebia pequenos compradores, e embora
José Luís aumentasse seus pedidos a cada nova encomenda, para Gavião ele era
apenas mais um “pirralho do pó”. Recebeu-o porque se tratava de um amigo de
Zequinha, e também porque “o menino não dava paz, não cansava de insistir”.
Até aquele momento, Zequinha sempre intermediara as compras do líder do
Berimbau, e o contrariava notar que José Luís buscava sua independência. Hoje quer
negociar a droga, dizia. Amanhã é meu inimigo. Teria evitado se pudesse, mas não
estava em condições de negar nada para José Luís. Semanas antes, Reizinho havia
executado dois rapazes que andavam perturbando os negócios no morro dos
Marrecos. Antes mesmo que Zequinha pudesse agradecer, seu parceiro já apresentava
“a cobrança”, que era exatamente um aval para estabelecer contato direto com o
Gavião. Não estou gostando, Suzana, dissera Zequinha. Isso tem nome, é botar para
escanteio, minha deusa. É o famoso “chega para lá”, Cleópatra.
Como é que você aplica o seu dinheiro?, perguntou Gavião, logo que José Luís
começou a falar em “margens de lucro”. Imóveis e terra, isso é que é bom
investimento, na minha opinião. José Luís não estava muito interessado nos conselhos
financeiros do fornecedor. Se fosse para falar de dinheiro, gostaria de perguntar como
eram as cidades de Tabatinga e Leticia, na Amazônia, que funcionavam como
entrepostos de distribuição das drogas dos cartéis de Cali e Medellín. Adoraria saber
se seu faturamento mensal era mesmo tão alto, como diziam no morro. Mas a pauta da
reunião era outra. José Luís estava ali para conseguir um preço melhor para a droga
que comercializava. Prometeu aumentar as vendas rapidamente. Abaixar o preço, não
abaixo, respondeu Gavião. Pelo menos por enquanto. Aumente seu poder de bala, e eu
penso no assunto. No momento, só o que posso fazer, considerando os seus laços com
o Zequinha, que é meu chapa de fé, é facilitar o pagamento, divido em algumas vezes,
com todos os riscos que isso representa.
José Luís saiu de lá satisfeito. Havia ainda um assunto complicado para ser resolvido
nos próximos dias. Não queria mais pagar porcentagens do lucro para Zequinha.
Concordava com Leitor. Já haviam dado muito dinheiro para Zequinha. Ainda que o
homem fosse seu futuro sogro, agora, o lema seria outro. Amigos, amigos. Negócios à
parte.

Você quer beber alguma coisa?, perguntou Zequinha Bigode para Fake, servindo-se
de uísque. Fake pediu um caubói, uísque bom como esse, ele disse, não precisa de
gelo.
Sentaram um diante do outro, cada um com sua bebida. A televisão permaneceu
ligada, sem som, com imagens de um programa de auditório. Você sabe, Fake, essa
história de lealdade, como eu ia dizendo, é muito importante. Porque, no nosso
negócio, o que se vê são vigaristas e escrotos. Claro, não estou falando de mim, nem
de você, afinal, como você bem lembra, quando o Miltão quis acabar com tua vida, eu
te dei abrigo e proteção, aqui no meu morro. Fiz até mais por você. Se formos analisar
detalhadamente, foi por sua causa que matei o pastor.
Fake se surpreendeu com a revelação. Não sabia que fora Zequinha o autor do
crime. Você acha que o Miltão seria burro a ponto de matar um pastor, logo depois de
ter feito um montão de ameaças? Claro que não. O Miltão podia ser maluco, mas não
era idiota. Fui eu mesmo. E nem vou dizer que sofri muito, porque, você sabe, não
aguento esses bíblias. Me enchem o saco, esses putos. Miltão é que estava certo em
chutar a bunda deles. Pastor, quando chega aqui no meu morro, vou logo dizendo, meu
filho, se não beijar minha mão, não tem conversa.
E Zequinha contou os detalhes do assassinato do pastor, como seus soldados
prepararam a emboscada na igreja, e como Walmir morrera “pedindo arrego”. Matei o
pastor por tua causa, continuou Zequinha. Você estava propondo a tal aliança, e essa
era a única forma do Reizinho assumir o Berimbau. Então, a questão central é esta,
lealdade. Sempre fui leal com você. E você, vamos admitir, nem era uma grande coisa
naquele tempo. Hoje estou te vendo assim, alinhado, camisa combinando com a calça,
mas, naquele tempo, você era só um crioulo cheio de trança na cabeça que gostava de
rap, só isso, protegido pelo Nobre, que sempre foi doido por esse tipo de música.
Estou exagerando? Pois então. Eu sou leal, e comigo não tem perhaps.
Sou leal e fico sabendo que o Reizinho está lá, de trelelé com o Gavião. Veja bem.
Chato isso, não é? Mas tudo bem, admito. Negócios. O que não admito, Fake, é essa
boataria sobre a Marta e o Reizinho. Isso me mata. Você me garantiu que ele ia se
casar com a tal da Kelly, não vejo nada de casamento acontecendo. A Marta mente, a
Marta some, a Marta inventa história, e eu não sou burro. Então, vou te falar. Quero
saber a verdade. O Reizinho está de teretetê com a Marta?
Fake olhava para o copo de uísque que tinha nas mãos, evitava encarar Zequinha.
Como é que você prefere, Fake: falar levando grana ou levando porrada? Pode
escolher. Estou aqui, só esperando.
25

F estival de Pinga. Sábado, dia 20. Batucada. Alegria. Não perca. O cartaz em folha
de cartolina, ilustrado com um desenho de uma garrafa vermelha, fora pendurado
na parede do bar do Onofre, ao lado da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Se
alguém perguntasse, Onofre não saberia explicar que tipo de festival era aquele, na
verdade, tirando o cartaz, comentou o Leitor, não há nada de novo nisto aqui. Puro
logro, zombou Zino, o açougueiro. De fato, as várias marcas de cachaça expostas no
balcão eram as mesmas que estavam rotineiramente à venda, o mesmo preço, tudo
igual. E a música?, perguntou Onofre, não conta? Onofre pedira para os sambistas da
Unidos do Berimbau fazerem um batuque, ofereceu aos clientes a primeira dose de
graça, oras, explicara, é isto o festival.
Das mesas colocadas do lado de fora do bar, era possível observar boa parte da
favela, a avenida Epitácio Pessoa, congestionada, o ponto de ônibus e as inúmeras
tendas comerciais que agora lá se armavam, onde se vendiam lembranças do Rio de
Janeiro, cigarros, sapatos, fitas de música, camisetas, carne-seca, bacias plásticas,
ovos, bonecas e todo tipo de bugiganga. No fim da tarde, era agradável ficar ali, vendo
os moradores chegar do trabalho, as crianças, de banho tomado, brincando diante das
casas e, com a pinga, tudo isso se tornava mais agradável ainda, especialmente
naqueles dias de céu claro, quando o pôr do sol era um verdadeiro espetáculo.
Estava tudo pronto para ser uma noite divertida, e foi horrível, contou Onofre depois
para Maria, sua esposa. José Luís tivera uma reação violenta ao encontrar o pai
embriagado no balcão. O que meu pai está fazendo aqui? Quase respondi, mamando,
Zé. Só que não sou besta, calei a minha boca. Dia sim, dia não, o velho enche a cara e
ainda na hora de pagar começa a gritar, sou filho do homem, vai querer encrencar?
Pior ainda, cansei de ver Francisco completamente zureta pegar aquela Kombi e sair
por aí cometendo barbaridades no trânsito. O Zino me contou que o velho não sabe o
significado de sinal vermelho. Vara todos. E, na avenida Brasil, o homem parece um
rato envenenado. Ninguém tem coragem de falar nada para o Reizinho, sabe como é.
De fato, José Luís era muito preocupado e atencioso com o pai. Durante mais de
dois meses o acompanhara nas reuniões dos Alcoólicos Anônimos, incentivando-o a
deixar a bebida, quantos dias, pai?, perguntava a cada encontro com Francisco.
Dezesseis dias sem beber, respondia o homem. Dezessete. Dezenove. Vinte dias?
Porra, vamos comemorar com Coca-Cola. Vamos comemorar com pastel da feira. O
importante, diziam nas reuniões, é não beber hoje, cada dia sem beber é uma vitória, e
José Luís gostava de festejar as conquistas com o pai.
Semanas antes, comprara uma roupa nova para Francisco, ajudara-o a tomar banho,
levara-o ao barbeiro, e quando o pai estava praticamente irreconhecível com seu novo
visual, contara a novidade: você vai conhecer minha namorada. Havia tempos Marta
queria ser apresentada a Francisco. Seu pai ainda é casado com aquela secretária?
Ploc. José Luís tinha inventado tantas histórias fabulosas sobre Francisco, criara na
imaginação de Marta um homem tão excepcional, que para consertar, só mentindo
mais ainda, na verdade, dissera José Luís, meu pai foi despedido da empresa, fizeram
uma sacanagem com ele, na empresa, porra, ploc, é mesmo? A secretária que fez a
sujeira, inclusive. Uma puta, a mulher, porra, melhor você nem tocar nesse assunto,
orientara José Luís. Pai, essa é a Marta. Ploc. Francisco quase agradecia a José Luís
quando era chamado de pai, sentiu-se tão bem ali, pai, meu filho, ele disse, que moça
linda, tinha tanto orgulho do filho, um vencedor, o meu filho, disse para Marta, você tem
muita sorte, menina.
Às vezes, José Luís levava o neto Alas para brincar com o avô, e, nesses momentos,
Francisco desatava a chorar, porra, pai, para com isso. Toda vez que eu trago o
menino o senhor fica assim, porra. Mas é que Francisco se lembrava de Carolaine, tão
linda, a filha, será, Zé, que ela um dia vai falar comigo? Cada vez que encontrava com
a filha, na rua, sentia uma tristeza no peito, vai ver, pensava, que é por isso que não
consigo parar de beber. Vou parar. Sim, andava bebendo. Todo dia. E jurando que não
bebia. Nem um gole, José Luís. Nadinha. E, de fato, queria parar. Quero e vou. Esta é
a última, dizia, antes de se embriagar. Se Carolaine ao menos o cumprimentasse, seria
mais fácil. Agora, tinha a impressão de ver Alzira por todo lado. Bom-dia, Alzira, disse
certa vez. O demônio quando vem, ela respondeu, vem disfarçado. Arre.
Quando estava de saída, carregando Francisco, nas costas, José Luís gritou com
Onofre, você está proibido de vender bebida para o meu pai, ele disse, proibido.
Aquele não fora o único episódio desagradável da noite. Reizinho já tinha voltado da
casa de Francisco, nem estava mais tão bravo com Onofre, quando Negaço chegou
apavorado, contando que Lobo e Valtinho estavam presos num camburão, num posto
da avenida Brasil. Foi treta, disse Negaço. Só podia ser. A gente tinha acabado de sair
daqui, com entrega para os pontos do Sambacuim, e, de repente, os vermes fecharam
a gente, gritaram: todo mundo para fora, e desceram metendo bronca e acontecendo.
Negaço contou que os policias foram direto ao ponto. Quinhentos no bolso, disseram, e
está tudo resolvido.
Vamos pagar, disse Leitor. Pagamos, concordou José Luís, mas esses caras vão
aprender. Não acho bom, continuou Leitor, criar confusão em cima do caso, são
apenas mais uns filhos da puta querendo grana, pagamos e assunto encerrado.
Quinze minutos depois, estavam todos no carro, Fake na direção, Negaço dando as
coordenadas, vira à direita, esquerda agora. José Luís permaneceu em silêncio durante
todo o trajeto. Dá um tempo, ele disse para Negaço, quando o rapaz tentou contar uma
piada.
Quando chegaram ao local, Fake deu sinal de luz, reduzindo a marcha. Negaço
desceu, levando o dinheiro.
José Luís, no banco da frente, olhava os policiais conversando. Lobo e Valtinho
foram retirados da viatura, tudo num clima amigável. Riram todos de uma piada que
Negaço contou. Os policiais acenaram, antes de entrar no veículo e partir.
Emparelha, pediu José Luís quando todos estavam dentro do automóvel. Leitor
tentou dizer algo, mas José Luís não ouvia ninguém, emparelha, porra.
Quando os carros estavam lado a lado, José Luís atirou uma granada, que entrou
pela janela do motorista da viatura. Fake arrancou, a toda a velocidade. Segundos
depois, ouviram a explosão, e fugiram mal conseguindo olhar o fogo que consumia os
policiais.

Há algo errado no paraíso, cantava o cantor no walkman de Marta, é muito mais


que contradição,/ sou eu caindo no precipício, Marta tirou o aparelho, pulou da cama,
você passando num avião, cantarolou, onze e vinte da noite, sentia-se completamente
sem sono e faminta.
A caixa de bombons sobre a cômoda estava vazia, e nas gavetas de sua
escrivaninha só restavam alguns chicletes de hortelã.
De camiseta e calcinha, desceu as escadas e foi para a cozinha. Pegou a tostadeira
embaixo da pia, preparou um sanduíche de queijo com tomate e presunto, exatamente
igual ao que seu pai costumava lhe preparar, quando era criança. Sentada à mesa,
sozinha, saboreou com prazer o sanduíche, enquanto folheava sem muito interesse a
revista sobre cirurgia plástica que Priscila esquecera em seu quarto. Fotos de antes e
depois da operação. Antes, nádegas caídas e cheias de celulite, depois, hum, até que
melhorou. Priscila queria fazer lipo nos culotes, pedira a cirurgia de presente de
aniversário. É, ficava bom, realmente.
Acordada ainda?, perguntou Suzana, entrando na cozinha de penhoar. Marta não
tirou os olhos da revista. Hã-hã. Impressionante como Suzana conseguia ser chata,
pensou Marta. Não podia sentar em nenhum lugar da casa, sem que a madrasta
surgisse com seu famoso papo furado. Não coloque os pés no sofá. Lave a louça
depois. O seu quarto está uma bagunça. Arrume as almofadas que você jogou no chão.
Uma chata. Mandando em tudo na casa, no pai, na cozinha, monopolizando o banheiro,
era tão bom quando viviam sem aquela fulana, somente os quatro, ela, o pai, Priscila e
a avó, tão bom, permaneciam na mesa, depois do almoço, conversando, o pai era tão
dedicado, tão amoroso, domingo iam juntos à praia ou ao cinema, à churrascaria, fazia
quanto tempo que não iam a uma churrascaria? Trilhões de anos. Agora Zequinha só
saía com Suzana, queremos namorar um pouco, dizia, vamos, essência de dama-da-
noite, flor de baunilha, deusa da minha vida. Aliás, Suzana nunca deixava o pai
conversar com elas, e até a avó concordava com isso, Suzana fica com ciúmes,
explicara a avó. Mulher xarope. Quero ter três filhos com seu pai, dissera Suzana. Três
homens, porque aqui já tem mulher demais. Filha da puta. Marta jogara uma praga,
essa vaca, dissera para José Luís, não vai engravidar. E não é que vinha funcionando,
a mandinga? Ela já está até falando em fazer tratamento para emprenhar. Falei para o
seu pai, disse Suzana, que é uma loucura o que a Priscila está pedindo, lipoaspiração é
muito perigoso. Mostre os dentes, estava escrito na revista. Nojentas, aquelas fotos de
bocas escancaradas com dentes falsos. Concorra a um tratamento odontológico
moderno. A Priscila é muito nova, continuou Suzana, você não acha? Marta possuía
uma técnica excelente para fugir das “lições de vida” de Suzana, simplesmente ligava o
hã-hã automático, revista na mão, folheando, o preço da vaidade, nariz, seis mil para
arrebitar, rosto, lifting, oito mil. Suzana não percebia, continuava falando, tenho uma
amiga, ela disse, que morreu numa mesa de cirurgia, Marta já tinha ouvido aquela
conversa mil vezes, mas Suzana era assim, fico pensando, disse Marta certa vez para
José Luís, como é que funciona a cabeça de uma mulher píssica como ela. Será que
ela é gagá, não sabe que já contou o caso, ou será que ela pensa assim, já contei, mas
eles que se fodam, eles que me aguentem. Só pode ser isso. Ela é nova para ser
gagá. Parece piada, antes de sair para o cabeleireiro, ela fica andando pela casa,
atormentando todo mundo, vou para o cabeleireiro, estou com o celular ligado. Vê se
não dorme muito tarde, finalizou Suzana, amanhã você tem que acordar cedo. Estilo
mãe, debochava Marta. Ela não é minha mãe, dizia para José Luís.
Depois que Suzana deixou a cozinha, Marta ainda descascou uma tangerina e
comeu.
Quando subia as escadas, ouviu vozes vindo do quarto da frente, onde o pai botara
um DVD. Achou que Zequinha e Suzana estivessem brigando. Desceu os degraus, na
ponta dos pés, e se aproximou da porta. Amanhã à noite, ouviu alguém dizer, ele vai ao
jogo do Vasco, talvez seja uma boa. De quem era aquela voz? Não estou a fim de
matar um batalhão, disse Zequinha, tem que ser num lugar mais calmo. Mas ele vai de
carro, disse aquela voz, que Marta tinha impressão de conhecer. No estacionamento,
pode ser uma boa oportunidade. Geralmente ele vai ao jogo sem segurança. É isso aí,
brother.
Marta reconheceu, era Fake. Ficou mais alguns segundos ouvindo a conversa, e
estremeceu da cabeça aos pés quando compreendeu do que se tratava. Estavam
falando em matar José Luís. Fake estava passando informações de José Luís para seu
pai. Só não quero estar junto, continuou Fake.
Marta subiu as escadas apressada, entrou no quarto, vestiu uma calça jeans,
preparou uma mochila com poucas peças de roupa, o walkman, alguns CDs, chicletes,
e perdeu alguns minutos pensando na melhor maneira de driblar os seguranças que
ficavam de guarda a noite toda.
Antes de sair, fez uma ligação do seu celular, pedindo para José Luís encontrá-la em
Copacabana, na casa da amiga manicure. Em uma hora, ela disse. É muito importante.

Não, disse Rick Molzer, não valeu. Traduz, Dunga, depressa. Borrifa água no rosto
dela, ele pediu para a maquiadora. Eram duas horas da tarde, e a mocinha que
participava das filmagens não parecia se irritar com os exageros de Rick Molzer,
traduzidos porcamente e a toque de caixa pelo produtor Dunga. É a vantagem de
trabalhar com iniciantes, dissera Rick, na hora de escalar o casting. Não enchem o
saco. Profissional e figurantes só sabem reivindicar cachê e lanchinho. Action, ele
gritou. Ação, secundou Dunga. A comunicação no set não era fácil, todos tinham que
gritar por causa do barulho dos ônibus que passavam a uma pequena distância. Além
disso, a tradução simultânea de Dunga agitava o ambiente. Vamos, ele dizia para a
atriz, andando, mulher, sensual, rebola, isso, câmera dois, isso, Karina, agora para,
você está com sede, ele dizia, mostra isso para o consumidor, sede, mentaliza na
sede. Agora olha para suas mãos, pimba. Surgiu uma garrafa nas suas mãos, mágica,
isso, sorria, você foi salva pelo refrigerante. Agora bebe, isso.
Carolaine, sentada ao lado de Leitor, numa cadeira próxima ao monitor de vídeo,
estava extasiada. Que coisa bonita. Que trabalho maravilhoso. Que gente interessante.
E tudo em inglês, ainda por cima. Era aquilo que tinha vontade de fazer. Ser atriz.
Nunca imaginara que produzir um comercial fosse tão trabalhoso. Sabia, pelas revistas
de fofocas, que as atrizes passavam horas no estúdio, mas supunha que isso não era
cansativo para as estrelas, a Paula Mendonça da novela Doce vingança, por exemplo,
só tinha que beijar o André Vilares (que homem lindo!), todo capítulo era aquilo, beijos
e mais beijos no André, os dois na praia, de mãos dadas, andando de moto, e rolando
na areia, será que alguém com um trabalho assim pode se cansar?
Toda a rua fora bloqueada para a filmagem, e os moradores se apinhavam nas
janelas e portas das casas para ver a moça do refrigerante. Isso dava a Carolaine uma
sensação de importância, afinal, ali estava ela, entre os artistas, e Rick Molzer sempre
lhe dirigia alguma palavra, está gostando, Carolaine?, traduzia Dunga. Veja aqui no
monitor. Vou refazer este take. Ação. E Leitor, ao seu lado, ia explicando tudo, como
entendia de televisão, Leitor. Não sabia, disse Carolaine, que vinha tudo escrito no
papel. Deram-se as mãos. Tudinho, garantiu Leitor, eles fazem o roteiro com a fala de
cada um, por exemplo, eles escrevem, moça bonita desce a ladeira, com sede, e
depois ela diz: isto é que é vida. Você acha essa moça bonita?, perguntou Carolaine,
beliscando a perna do Leitor. Os dois riram. Não é feia, ele respondeu, mas não é meu
tipo, muito magra. Carolaine adorou a resposta. Emagrecera apenas três quilos depois
do nascimento de Júnior, e, bem, eu também acho que magreza demais não é bom.
Au, au, au, Leitor e Carolaine estavam de mãos dadas quando José Luís chegou com
os cachorros, foi um tumulto no set, os animais tomaram conta da rua, corta, corta,
ordenou Rick Molzer, fazendo festa para José Luís. Queria te agradecer, o pessoal
está adorando, traduziu Dunga. Este país é sensacional. Que povo maravilhoso. Muito
obrigado mesmo. José Luís não queria conversa com o americano, naquela tarde.
Aflito, desconcentrado, fez sinal para Leitor se aproximar.
Pronto, pensou Leitor, já entendi tudo, preparou-se para falar a respeito de
Carolaine, gosto muito dela, diria, a gente realmente está saindo, sabe como é, rolou
uma química entre nós, e se você não se incomodar, quero ficar com ela numa boa,
veja bem, estamos nos conhecendo, entende?
O Zequinha quer me matar, disse José Luís, de supetão, assim que se afastaram do
set. José Luís lhe contou tudo, o encontro com Marta na noite anterior em
Copacabana, a conversa que ela ouvira na casa do pai, o plano de Zequinha de
assassiná-lo na saída do jogo do Vasco, no Maraca, e a traição de Fake. Marta está
comigo agora, contou José Luís, não vai mais voltar para a casa do pai. Vamos casar.
Cacete, disse Leitor. Cacete. Que história.
O que José Luís queria do amigo era que ele fosse naquela mesma hora falar com
Zequinha, em missão de paz. Explica para ele, dizia José Luís, explica que eu amo a
Marta, sou louco por ela. Vamos fingir que não sabemos de nada, que a Marta não
escutou nada, vamos agir normalmente. Você vai lá e diz: a situação é esta, os dois
vão se casar, querem fazer tudo direitinho, véu, grinalda e o escambau. Você não
compreende, argumentou Leitor, que nada disso vai adiantar? Cala a boca e ouve,
Leitor. Você vai lá e vai dizer que queremos a bênção dele. Topo até pagar alguma
coisa, se ele quiser. Não sei se sou a pessoa indicada para falar com o Zequinha,
insistiu Leitor, ele não vai muito com a minha cara. Porra, não posso mandar o troncho
do Negaço, é você que vai, porra. E Fake?, perguntou Leitor, o que fazemos com o
judas?
Resolva o problema do Zequinha, respondeu José Luís. Deixa o Fake comigo.

Oi, brother, disse Fake, entrando no carro de José Luís. Onde vamos? O encontro
fora marcado quinze minutos antes, pelo telefone. Está chegando um bagulho bom, um
esquema paralelo que não tem nada a ver com o Gavião, explicou José Luís, vamos
buscar. Só nós dois?, perguntou Fake, mirando-se no espelho do quebra-sol, isso não
é dar muita moleza? O Zequinha está no lance, respondeu José Luís. Fake não teve
nenhuma reação ao ouvir o nome de Zequinha, continuou ajeitando o cabelo e falando
bobagens, ligou o rádio, não estava com o menor complexo de culpa, pensou José
Luís, entregara o amigo e estava ali, porra, numa boa, porra, esses putos desses
bostas ingratos não dão o menor valor para nada, porra. Leitor dissera tudo: isso é a
maior falta de consideração. Fake não parava de falar sobre uma nova maneira de tirar
as tatuagens do corpo fazendo uma operação a laser, José Luís só ouvia algumas
palavras, radical, monte de lixo, cansei do meu visual, estou em outra, algo o impedia
de conversar normalmente, tinha vontade de xingar Fake, dar porradas, bater, chutar,
porra. Lembrou-se do tempo em que conhecera Fake, rap, funk, o tempo todo, todas
as tardes uma beleza de vida, os dois se drogavam, e vagavam por aí, andavam pelos
bailes, a música era o que havia de melhor na vida deles, chegaram até a pensar em
montar uma banda. Pensando melhor, admitiu José Luís, não foi nada bom, porra.
Aliás, pensou, foi a maior época bosta da minha vida. Fake nunca concordara em incluí-
lo na banda de rap, falava sempre na “minha banda”, “a minha fita-demo”, “a minha
galera”. Claro, porra, José Luís se lembrava perfeitamente de como se sentia excluído
dos planos de Fake, Fake, ele perguntou de supetão, lembra quando você queria ter
uma banda de rap? O que eu ia fazer na sua banda? Fake riu. Nunca pensei que você
quisesse participar, respondeu Fake, rindo, por que você está querendo saber isso?
Porra, nem percebeu, porra. Nada, disse José Luís, eu só estava pensando naqueles
tempos. Bons tempos, respondeu Fake, mudando a estação de rádio, mas hoje é
melhor, e sabe por que que melhorou? Temos money, brother. Mufunfa. E puta que
pariu, como é bom ter dinheiro, não é verdade? Olha o meu relógio. Olha meu sapato
novo. Olha o meu cinto. Olha a marca da minha camisa. Valho um dinheirão, só de
roupa. Riu. Nem percebeu, pensou José Luís. Porra.
O sol já havia se posto quando José Luís estacionou o carro na estação de
transferência de lixo do Caju. Dois caminhões deixavam o local. Vem de bonde?,
perguntou Fake, querendo saber se a droga chegaria ali nos caminhões da prefeitura.
Vem, disse José Luís saltando do carro. Não me diga agora que vamos ter que fuçar
nesse monte de merda?, perguntou Fake saltando do carro e andando com cuidado
para não sujar a calça nova.
Ficaram lado a lado, observando as montanhas de lixo mais à frente.
Sabe, disse José Luís, infelizmente as coisas estão uma bosta, Fake. Do que você
está falando, brother? Naquele momento, José Luís perdeu a vontade de falar. Dar um
sermão, você fez isso, fez aquilo, só de pensar nas próprias palavras, desanimou.
José Luís, anos mais tarde, ainda se lembraria da atitude de Fake, não se ajoelhe,
ele ordenou, com raiva, eu te arrebento os miolos aqui mesmo, cara. Levanta e corre.
Porra. Fake implorava, brother, não faça isso, estou limpo, cara. Corre, eu avisei.
Fake correu, olhando para trás, José Luís ainda esperou alguns segundos antes de
começar a atirar. Três disparos. No quarto, Fake caiu.
Reizinho caminhou alguns metros, segurou o braço de Fake para ver a pulsação.
Nada. Porra.
26

S im, o pessoal é mato-grossense, disse Gavião, no telefone. Gavião se fechara no


escritório, mas falava tão alto, que Leitor, aguardando-o na sala ao lado,
compreendeu que se tratava de um carregamento de drogas vindo da Bolívia. O
curioso era que o traficante, por mais que tentasse se comunicar por meio de códigos,
não conseguia evitar alguns deslizes esdrúxulos como “os tênis são mesmo puros?”, ou
“catorze quilos de tênis não é para qualquer um”. Até um investigador de quinta
categoria que escutasse a conversa saberia que se tratava de cocaína, pensou Leitor.
Gavião desligou o telefone, e entrou na sala vestindo um robe acetinado verde-
musgo, oi, Marilza, ele disse para a mocinha que também o aguardava no sofá,
encolhida como um bicho assustado. Leitor mal olhara para a garota, franzina, pálida,
sem graça. Não é bonita, minha manicure?, comentou Gavião, sentando-se no sofá e
pondo sua mão sobre a coxa de Marilza. E então?, qual é o problema? Leitor ficou
constrangido de comentar o assunto na presença da manicure. Desembucha, disse
Gavião, a Marilza é um túmulo, não é, Marilza?
Enquanto relatava o drama de José Luís e Marta, Leitor teve a impressão de que
Gavião estava sem cueca por baixo do robe, e que abria as pernas de propósito, para
que a manicure visse seu pênis. A moça, tímida, encolhia-se cada vez mais para lixar
as unhas do traficante. Posso tentar, disse Gavião, mas vou adiantando que o caso é
muito sério. Sabe por quê? O Zequinha tem fixação por diploma universitário. Inclusive
tentou comprar um, fiquei sabendo, de engenheiro. Gargalhou. Para o Zequinha,
existem dois tipos de cidadão: os que foram e os que não foram para a faculdade. O
cara fica até abobalhado quando vê diploma pendurado na parede. Faz uns dez anos
que eu ouço a mesma ladainha, minha filha vai se casar com um advogado. Acho até
graça nessa história de advogado. Ele só conhece advogado de porta de cadeia, uns
fulanos bem chinfrins, mortos de fome, e, no entanto, trata aqueles bostas como se
fossem alguma coisa. Fazer o quê? Cada um com sua mania. Diga ao Reizinho que não
prometo nada. Mas vou tentar.
A missão foi um fracasso. Casar com a minha filha?, respondeu Zequinha,
completamente indignado, o que aquele tipozinho pensa que é? Aquele cocô de cabrito.
Aquele piolho. Aquele estrume de vaca. Até agora, eu só estava pensando em dar um
tiro na testa dele, só isso, Gavião, mas, pelo jeito, vou ter mesmo é que furar os olhos
do puto, arrancar a cabeça dele, vou mesmo, vou moer a língua daquele ingrato. A
Marta, coitada, cair nas mãos daquele ignorante de pai e mãe, o “calhordo” vai morrer.
Flor da minha vida, ele dizia, cada vez que Suzana tentava intervir a favor de José
Luís, margarida da minha existência, faça um favor para o seu rei, não se meta nesta
história, anjinho cor-de-rosa. Pode pedir qualquer coisa aqui para o seu santinho, peça,
deusa do amor, bebezinho do pai, peça dinheiro, caprichinhos, frescurinhas, tudo o que
quiser, mas não venha falar naquele bosta, meu bem.
Vinte homens faziam a proteção de José Luís. Foram dias tensos, mas Reizinho e
Marta não reclamaram de ter que ficar trancados em casa, totalmente sozinhos. Eu
pensava em ir para um lugar assim na nossa lua de mel, ela dizia, mostrando uma
revista com a foto de um casal de artistas de TV esquiando na neve, roupas
coloridíssimas, ou assim, ela dizia, virando a página, ploc, uma dupla sertaneja dentro
de um buggy brincando nas dunas das praias de Natal, Disneylândia seria o máximo,
ploc, mas admito, está gostoso aqui, ela dizia. Passavam uma parte enorme do tempo
na cama, falando bobagens, rindo, fazendo amor, você me ama de verdade? Amo. Não
vai me trocar por outra mais bonita? Nunca. E se for uma loira deslumbrante, de olhos
verdes, um metro e oitenta? Fodam-se as loiras, respondia José Luís. Você jurou, ela
dizia. Jurou e jurei.
E quando ficavam com fome, iam os dois para a cozinha, porra, Marta preparava um
macarrão sensacional, a receita é simples, ploc, um abridor de latas, um Pomarola,
queijo ralado, e pronto. Brincavam com os cachorros, comiam bolo de chocolate com
Coca-Cola, viam televisão, falavam dos filhos que teriam, a primeira vai se chamar
Tifany, acho esse nome lindo, dizia Marta. E ela vai usar roupas da moda, minissaias,
tamanquinhos, nada de renda e babado, você vai ver, ploc, vou ser uma supermãe, e
também não vou morrer cedo, como a minha mãe, ploc, vou ver nossas filhas
crescerem, ploc, casarem, ploc, e quero ser avó, também.
O que mais agradava José Luís, na nova vida, era acordar e ver o lar funcionando,
Marta tomando conta de tudo, dos cachorros, reinando, dando ordens, a casa já não
era a mesma, não que estivesse mais organizada ou melhor, era outra casa, mais
confortável, agradável, cheirosa, uma casa com mulher, dizia Leitor, é sempre um
palácio. Fiz uma lista de compras, dizia Marta, providencie tudo para mim, Negaço:
vassoura, sapólio Radium, Chokito, Danoninho e pizza semipronta. Varra a sala,
Zenaide. Vamos mudar estes móveis daqui, Leitor. Vou trocar todas as cortinas, me
ajudem a subir na escada. Era comum Marta ligar o som, botar um biquíni e fazer
faxina na casa, cantarolando e dançando, sou ótima em limpeza, ela dizia, não há
nenhuma negona aqui na favela que esfregue o chão melhor que eu. Olha meu muque,
gostou?
Houve, nesses dias de “prisão”, uma noite muito especial. Foi quando Rick Molzer, o
americano, acompanhado de seu tradutor Dunga, procurou José Luís para mostrar o
filme que rodara na favela. Na verdade, o que levara Rick ao morro novamente fora a
qualidade do pó apresentado por Dunga. Nunca consumi droga tão poderosa.
Absolutamente fantástica. Você cheira e parece que é o dono da Microsoft, o poder
bate ali, na mente, sabe como é? Adoro o Brasil. Muito bom, o pó brasileiro. Pena que
vou embora amanhã. Parto para a Guatemala, amanhã. E depois gravo no deserto da
Austrália.
José Luís se empolgou com o comercial, viu-o oito vezes num volume altíssimo, muito
bom, dizia, entusiasmado, a música é ótima, de quem é a música? É nosso jingle,
respondeu Molzer, traduzido por Dunga. Você fez essa música?, perguntou José Luís,
sem entender. Não, o pessoal da produtora. José Luís quis saber se poderia comprar
um CD com aquela música. Não, respondeu Rick, mas eu arranjo para você.
De fato, José Luís adorou o comercial, a imagem da moça que descia a favela,
rebolante, a música alegre e ritmada, tudo era muito bom, mas o que realmente deu um
colorido especial à noite foi poder se mostrar para Marta, porra, Marta assistir a tudo
aquilo, ele com Rick Molzer, conversando animadamente, amigos, Rick Molzer, o
estrangeiro, agradecendo-lhe, dizendo o quanto o morro era cinematográfico,
contando-lhe sobre seus projetos futuros, o comercial de cartão de crédito que faria no
Haiti, mais um uisquinho, Rick? Acabei me especializando em cenários exóticos, disse
Molzer. Só faço publicidade que envolva esse conceito. Quando eles querem alguma
coisa diferente, sou o primeiro nome em que pensam. Já filmei na Bósnia, na Amazônia,
África, Índia. Conheço o mundo inteiro. E garanto, pó igual a esse, nunca vi.
Sensacional esse pó. Tem mais aí?
José Luís olhava para Marta, porra, aqueles olhões grudados nele, porra, sorrindo,
apaixonada, Haiti, agências americanas, propagandas, cigarros, martínis, inglês, eu
estava louco para o Rick ir embora, louco para foder com você, ele diria depois na
cama, enquanto se amavam, ai, como é bom, porra, foder uma mulher gostosa como
você.
Os dois não se separavam. Até mesmo quando José Luís despachava com Leitor,
Marta ficava por perto, participando de tudo, dando opiniões, principalmente quando o
assunto era seu pai.
Zequinha, por mais que tentasse, não conseguia chegar perto de José Luís, mas, em
compensação, dava-lhe muita dor de cabeça.
Numa quarta-feira pela manhã, a polícia, alertada por uma denúncia anônima, deu
uma batida na favela, à procura de um depósito de armas do bando de José Luís. Não
temos dúvida de que foi Zequinha, comentara Leitor, que possuía amigos na polícia.
Mas José Luís havia agido mais rápido e mudado todos os pontos estratégicos do
tráfico, por segurança.
Também naquela semana, o túnel de acesso à Nova Barra foi fechado duas vezes
para assalto, e Zequinha também estava por trás. Dessa forma, ele conseguiu o que
queria, chamar a atenção da imprensa e botar a polícia dentro do Berimbau. Não
vamos assistir a essa palhaçada de braços cruzados, declarara o prefeito.
De um dia para o outro, José Luís, que jamais aparecera nos jornais, transformou-se
num nome conhecido. Alguns jornalistas começaram a circular no local, em busca de
informação, e muitas matérias foram publicadas: Publicitário americano pede bênção a
Reizinho do Pó para filmar na favela. Os artigos, além de cheios de erros,
principalmente no que dizia respeito aos lucros do comércio de drogas, mostrava um
traficante violento e pouco popular. Porra, que merda, dizia José Luís, enquanto Leitor
lia as matérias. Não falaram nada da creche? Hein? E do sistema de esgoto?
O que mais inquietou José Luís foi a declaração do Paulo Fernando, diretor da
Divisão de Repressão a Entorpecentes, já temos um plano de captura, dissera o
delegado. É só questão de tempo. Porra. Zequinha está complicando as coisas.
Você não vai fazer nada contra o meu pai, Zé, dizia Marta. Nem pensar. Você nem
tem certeza se foi ele que fez isso. Não foi meu pai. Prometa, Zé.
À noite, quando estavam na cama, lado a lado, de olhos abertos, depois de terem se
divertido, Marta perguntava se não seria melhor voltar para casa. Não, dizia José Luís,
você não volta, seu lugar é aqui. José Luís, embora ciente dos perigos que corria, nem
pensava em viver sem Marta. Sentia-se feliz, casado, porra, o que vamos fazer com
Zequinha?, perguntava para Leitor, preocupado.
No fundo, dizia Leitor, o problema não é a Marta. Faz tempo que ele suspeita que
vocês estão juntos. O problema, na cabeça do Zequinha, é a nossa independência. A
história da porcentagem, ele nunca engoliu aquilo. O cara vê nosso esquema se
ampliando, vê a gente crescendo, fica doido.
A única maneira, sugeriu Marta, da gente resolver essa parada, é esta: vou ligar para
o meu pai. Filha, disse Zequinha, no telefone, eu amo muito você, e a nossa casa está
muito triste sem a sua presença. Estamos sofrendo, todos, sua avó, Priscila, Suzana,
eu. Volta para nossa casa, não faça o seu pai sofrer. Foram sete conversas longas, e,
na última, Zequinha percebeu que não havia muito o que fazer. Sua filha não voltaria
jamais. Fala para o Reizinho me encontrar na Churrascaria Boiada, na rua da Pitanga,
hoje, às nove da noite, ele disse. Prometa, pai, que você, clique, Zequinha desligou o
telefone antes mesmo de ouvir as súplicas da filha.
Você tem duas opções, orientou Leitor: pode negociar, ou matar o cara e tomar o
morro dos Marrecos.
José Luís estava disposto a entrar num acordo. Mesmo que perdesse dinheiro. Dou
até cinco bocas, se ele quiser. Dez, se isso resolver o assunto de uma vez por todas.
Posso até pensar em voltar a pagar alguma porcentagem, que tal? Topo uma
sociedade.
Você tem que chegar impondo condições, afirmou Leitor, se o cara notar que
estamos querendo evitar uma guerra, pronto, nos fodemos em copas. Vá e complique
as coisas, diga: isso não dá, aquilo não dá, e aí, quando o cara estiver bem insatisfeito,
fazemos uma proposta, no início bem merreca. Oferecemos um ponto só. Vamos
devagar.
Durante a tarde de sábado, Leitor preparou os homens que fariam a segurança de
José Luís e mandou Negaço ir para a Churrascaria Boiada às três da tarde, com mais
dois soldados, me avisa tudo o que estiver acontecendo, ele pediu.
Às nove horas da noite, em ponto, o carro que levava José Luís estacionou em frente
ao restaurante. Minutos antes, Marta botara no seu peito a medalha de são Jorge, leva
isso, ela disse, era da minha mãe.
Poucas mesas estavam ocupadas no local. José Luís, sempre junto de Leitor e mais
dois soldados, sentou-se no canto do restaurante, de onde conseguia ver a entrada. A
televisão estava ligada, jogo de futebol, Palmeiras e São Paulo. Permaneceram
atentos, vez por outra um deles comentava algum lance do jogo. É fria, disse José
Luís, depois de quinze minutos de espera. Nunca vi o Zequinha se atrasar para nada.
Na saída da churrascaria, tudo aparentava estar tranquilo. Negaço fez sinal,
garantindo cobertura.
Quando entravam no carro, começou o tiroteio. Vou morrer, pensou José Luís se
atirando no chão.

A água oxigenada se espalhou pela ferida da perna de Alzira, deixando a lesão


esbranquiçada. Carolaine, pela força do hábito, fazia o curativo na perna da mãe quase
automaticamente, aplicava as pomadas e botava as gazes sem tirar os olhos da novela
das oito. Ernesto abandonara Rita no altar no último capítulo. Quero só ver a cara dele
quando souber que Rita era a filha bastarda do magnata Pedro Henrique, podre de
rico. Ai, filha, cuidado, olha onde você está enfiando o esparadrapo. A Rita vai herdar
as indústrias do pai, mãe, eu li no jornal. É mesmo? Bem feito para o Ernesto, ele só
pensa em dinheiro. E Ana Paula vai flagrar o Roberto com a Teresa no cinema. Quem?
Alzira não acompanhava direito a telenovela, sempre dormia durante parte dos
capítulos. Roberto foi tirar satisfação com a Teresa, lembra? No capítulo anterior. Tudo
por causa das ações da “fábrica de tecelagem”, mãe. Alzira não respondeu. Havia
cochilado novamente. Alzira gostava de dormir em frente à TV, dava-lhe uma sensação
boa, de que ainda era cedo e restava bastante tempo livre. O sono também era melhor
ali no sofá, às vezes abria os olhos e via os casais se beijando, brigando, propaganda
de margarina, mulheres tão bonitas, e dormia de novo, acordava, dormia, até notar que
a televisão fora desligada e Carolaine não estava mais ali, nem Alas, nem Júnior, tudo
quieto e em silêncio, só então Alzira ia para a cama. E a cada manhã, ao acordar
sonolenta, sentindo a perna latejar, prometia para si mesma que, naquela noite,
dormiria cedo. Mesmo naquelas semanas em que dona Juliana, a patroa, viajara com o
marido e os meninos, e quase não havia trabalho, ainda assim Alzira se cansava
demais.
O que está acontecendo, Carolaine?, perguntou Alzira, acordando de repente e
vendo Heloísa beijar Henrique. O Henrique não está noivo da Elisa? Psiu, mãe, escuta.
Carolaine pusera o celular no colo, esperando que Leitor telefonasse a qualquer
momento. Iam se encontrar na casa dele naquela noite. Alzira daria mamadeira para
Júnior, caso ele acordasse durante a madrugada, e Alas já estava dormindo. Não fora
difícil convencer a mãe. Alzira, logo nos primeiros dias de vida de Júnior, assumira os
cuidados com o bebê. A Carolaine não sabe dar banho no menino, ela dizia. A
Carolaine não sabe trocar fralda. Não é assim, deixa que eu faço. E, aos poucos, Alzira
passou a cuidar de Júnior da mesma maneira que cuidara de Alas, fazendo tudo,
mesmo sentindo dores lancinantes na perna. A senhora não pode carregar peso, nem
fazer muito esforço, dissera o médico. Essa ferida, dona Alzira, só vai melhorar se a
senhora fizer repouso. Úlcera varicosa. Alzira, a cada consulta, prometia levar a sério
as orientações médicas.
Quando o telefone tocou, Carolaine atendeu, feliz, alô, Carolaine, aqui é Negaço.
Alzira observou a expressão da filha mudar subitamente. Onde?, ela dizia. Perto da
caixa-d’água? Enquanto corria pela casa, botando o sapato e procurando a bolsa,
explicava para a mãe que Leitor havia sido atingido num tiroteio. Volte aqui, Carolaine,
me explica isso direito, disse Alzira, na porta, vendo a filha deixar a casa, apressada.
Ele vai morrer?, perguntou Carolaine, minutos depois, num ambulatório improvisado
pelos traficantes. Quando havia feridos, um médico era levado para o barraco e fazia o
que era possível para evitar que a vítima fosse encaminhada ao hospital. Leitor fora o
único a ser atingido no tiroteio com os homens de Zequinha. Só queriam ele, disse
Negaço, eu estava sem proteção, as costas livrinhas, o negócio era mesmo o Leitor.
Passaram o resto da noite aguardando. Vez por outra, José Luís entrava no quarto,
aflito, querendo pressionar o médico. Ele perdeu muito sangue, explicou o doutor. Era
grave a situação do Leitor.

De manhãzinha, quando José Luís voltou para casa, encontrou Marta acordada, no
quarto, os olhos injetados de tanto chorar. Com o controle remoto na mão, ela
continuou a fazer um zapping pelos canais, sem prestar atenção nos filmes que
estavam sendo exibidos.
José Luís desligou a TV, deitou-se ao lado dela, deram-se as mãos e permaneceram
em silêncio, olhando para o teto. Marta já sabia de Leitor, José Luís mesmo havia
telefonado para contar, algumas horas antes.
Eu não queria que isso acontecesse, ela disse, com a voz embargada. Agora você
vai matar meu pai, não vai?
José Luís pensou em dizer que ele queria muito que as coisas fossem diferentes,
porra, que pudesse agir de outra maneira, porra, que fosse livre para perdoar, que não
precisasse matar Fake, porra, mas aquilo não tinha nada a ver com amizade, eles eram
traficantes, porra, havia muito dinheiro na jogada, porra, e muito perigo também,
morriam pessoas, matavam os traidores, os delatores, morriam todos, porra, matara
Fake, seu melhor amigo. Porra. Os esquemas, conforme o próprio Leitor estava
acostumado a dizer, tinham que ser seriíssimos.
Antes de se trancar no banheiro, só o que conseguiu dizer para Marta foi que, agora,
um dos dois, ele ou Zequinha, teria que morrer.
Embaixo do chuveiro, enquanto esfregava as manchas de sangue no seu braço, ouvia
os soluços de Marta, no quarto. A água avermelhada escorria por suas pernas e
empoçava ao redor dos seus pés. Por mais que tentasse, não conseguia deixar de
lembrar de Leitor, na rua, após o tiroteio, estou fodido, dissera Leitor. E no carro,
enquanto Negaço avisava o médico de que alguém iria buscá-lo para uma emergência,
Leitor, com a cabeça no colo de José Luís, dissera que não estava sentindo as pernas.
Porra. Que merda.

Naquela época, José Luís se considerava tarimbado quando o assunto era invadir
morros, e devia isso a Zequinha. Fora o pai de Marta quem lhe ensinara a formar uma
equipe, selecionar armas e munição, estudar o inimigo. Não há nada melhor que a
surpresa, dissera Zequinha. Você deve sempre procurar a melhor maneira de pegar o
adversário com as calças na mão.
Por isso, a invasão do morro dos Marrecos, ao contrário do que todos esperavam,
aconteceu em plena luz do dia, quando as famílias se reuniam para o almoço de
domingo.
Os acessos à favela foram ocupados por quarenta e cinco homens, liderados por
José Luís, e a ordem era entrar fazendo muito barulho. A artilharia foi tão pesada, que
a própria população pediu socorro para o décimo quinto batalhão da PM. O morro foi
cercado, mas o comandante da operação não liberou a invasão, com medo de que civis
fossem mortos no combate.
Zequinha foi morto na sala de sua casa, diante da televisão, com vinte e sete tiros na
região do abdômen e na cabeça.
Havia muitas histórias sobre os momentos finais do líder do morro dos Marrecos, e
todas elas foram exaustivamente contadas no enterro de Zequinha. Que ele se deixara
matar, que antes de morrer reagira e assassinara três, oito, dez homens de José Luís,
que fora a própria Marta que armara a emboscada para o pai. Alguns moradores
juravam ter visto a cabeça de Zequinha fincada numa cerca, em frente à padaria.
Não era verdade que José Luís tinha decapitado seu inimigo. Naquele domingo, logo
após a execução de Zequinha, houve um momento em que as duas quadrilhas inimigas
deixaram de guerrear para discutir o que fazer com a polícia que, no pé do morro,
ameaçava subir. Reizinho explicou a situação para o braço direito de Zequinha, Osvair,
o Vavá. Eu é que mando neste troço, agora. Podem engolir isso, porra, com saliva ou
com bala. Aceito todo mundo que quiser ficar no meu bando. Mas só aceito agora,
porra. Ou entra agora, ou nunca mais. A nova aliança estava feita. O tiroteiro
recomeçou e a polícia não conseguiu invadir.
Quando escureceu, José Luís furou o cerco policial, usando ruelas labirínticas que
desembocavam no Berimbau. Muita gente foi presa naquele dia, quando a polícia
finalmente conseguiu entrar no morro dos Marrecos, mas o grupo de Reizinho não
sofreu nenhuma baixa. Dez homens de sua confiança permaneceram no local,
garantindo a ocupação.
Na volta, José Luís pensou em procurar Kelly e Yolanda, sentia falta delas, mas
achou melhor ir para casa. Eu quero muito que você fique, ele disse para Marta, logo
que entrou na sala. Mas você pode ir embora, se quiser. Acabei de matar o seu pai.
27

A paisagem era magnífica. Dali se via o mar refletindo as luzes da ponte Rio–Niterói,
os aviões decolando e aterrissando no aeroporto internacional. Não consigo nem
falar, disse Alzira, diante da igreja Fortuna de Deus, cujas portas se abriam naquela
noite. Era seu quadragésimo sétimo aniversário, e José Luís havia acabado de buscá-la
em casa. É seu presente, mãe, ele dissera, e Alzira chorara, emocionada. José Luís,
ela disse, você fez a obra, agora, abra seu coração, aceite Jesus. José Luís também
estava contente, mas os exageros da mãe o incomodavam, e o aborrecia
especialmente ela querer abraçá-lo, beijá-lo, não gostava daquilo.
Mãe e filho entraram no culto de mãos dadas e ocuparam o primeiro banco da igreja,
onde Kelly os aguardava, junto com Yolanda, Onofre, Cândida e os amigos mais
próximos. A Alzira está parecendo uma noiva, comentou Onofre, bem-humorado, no
ouvido de Yolanda.
O galpão, cuja construção consumira muito mais dinheiro do que José Luís estava
disposto a gastar com a igreja, possuía capacidade para abrigar quatrocentos fiéis.
Naquela noite, não havia sequer um único banco vazio. Estavam ali não apenas os
moradores do Berimbau, mas também muitas pessoas do morro dos Marrecos.
A liturgia “incendiária” do pastor Ângelo, responsável pela cerimônia inaugural da
igreja Fortuna de Deus, não guardava a menor semelhança com os rituais do pastor
Walmir. Ângelo fizera questão de convidar os funkeiros do morro para ajudá-lo nos
hinos de louvor, aproveitara todas as melodias, vamos mudar as letras, dissera, nosso
negócio é Deus e amor no coração. O funk vinha sendo fundamental para o sucesso
dos seus cultos em outras paróquias. Fazia os fiéis darem pulinhos e levantarem as
mãos, baterem os pés, e isso, mais as “sovas no demônio”, e mais a sua experiência
de sofredor nos anos que trabalhara como gari, engraxate e vendedor de limões o
transformavam num eficaz tocador de rebanho.
Havia um clima de confraternização, naquela noite. Embora Reizinho tivesse feito
algumas advertências, Ângelo não se sentia pressionado pelos traficantes. Uma mão
lava a outra, dissera José Luís semanas antes, quando estava escolhendo o pastor que
tomaria conta da igreja. Vamos entrar num acordo. Você não se faz de bedelhudo, não
fala mal do esquema, porra, nem exagera na lista dos pecados, e, em troca, ganha
grana e proteção.
Eu quis, disse o pastor, neste nosso primeiro encontro, provar, não para os fiéis,
porque esses não precisam de garantias, eu quis demonstrar para os relutantes, para
os que ainda não abraçaram Cristo, que Deus existe. O que vocês verão agora,
irmãos, é a prova da existência do todo-poderoso, do maioral, de Deus Pai Nosso
Senhor.
Ângelo fez um sinal, e os funkeiros, equipados com guitarra, bateria e teclado
eletrônicos, tocaram uma música parecida com as que se usam em programas de
auditório, antes de anunciar a próxima atração. Ele vem vindo, irmãos, gritava o pastor,
apontando para a porta e direcionando assim o olhar da plateia.
A entrada de Leitor, numa cadeira de rodas empurrada por Carolaine, foi
espetacular.
Enquanto Leitor era levado em direção ao altar, a multidão, emocionada, chorava,
aplaudia e cantava o hino de graças ado, ado, ado, meu Deus, muito obrigado. José
Luís procurava descobrir Marta nos bancos de trás, mas ela não estava lá. Agora que
também era líder do morro dos Marrecos, queria que os moradores os vissem juntos,
você tem que ir, Marta, dissera, enquanto se arrumava, antes de buscar Alzira.
Deitada, na cama, sem tirar os olhos da TV, ela nem respondera, embora tivesse tido
vontade de gritar que fora sozinha ao enterro de seu próprio pai, e também à missa de
sétimo dia, ploc, e que seu coração era pura tristeza, e portanto não iria a porcaria de
inauguração de igreja nenhuma, ploc. Marta, dissera José Luís, no dia do funeral de
Zequinha, me explica, como é que posso aparecer no cemitério? Sem chance. E não
pense que não estou sofrendo, porra, dói para cachorro, não chore, porra. Marta nem
escutara direito, tivera vontade de responder, foda-se, você mata meu pai e depois
vem dizer que sofre porque eu estou chorando? Foda-se. Ploc. Assassino, ela dizia,
entre soluços, o rosto enfiado no travesseiro. Telefonava diariamente para a irmã
Priscila, confusa, como eu posso continuar vivendo aqui? Mas se Priscila ou qualquer
outra pessoa acusasse José Luís, Marta o defendia, ele não tem culpa de nada, dizia.
Marta não conseguia esquecer o que ocorrera no velório de seu pai. Ajoelhada ao
lado do caixão, vira Suzana se aproximar e lhe dizer, primeiro num tom baixo e, depois,
gritando, histérica, que a culpa era toda de Marta, que se Marta não fosse tão egoísta,
tão mimada, nada daquilo teria acontecido. Cala a boca, respondia Marta, nenhuma
delas se calava, acusaram-se mutuamente com fúria, e depois se engalfinharam, e
deram muito trabalho para as pessoas que estavam ao redor, tentando separá-las.
Nesse mesmo dia, Marta pediu que José Luís tomasse as providências, queria Suzana
fora da casa de seu pai, e longe do Berimbau.
O que a magoara fora a reação displicente de José Luís. Não fizera absolutamente
nada para evitar que Suzana se instalasse numa casa não muito longe da deles,
embora estivesse ciente de que a escrota, a vagabunda, ploc, já estava conversando
com advogados, tentando arrancar dinheiro da sua família. E também sabia por que
José Luís agira daquela forma. Estava muito ocupado, fazendo sucesso, para pensar
nos outros, ploc. Graças ao pai dela, sim, ploc, já que “o grosso da grana” vinha do
morro dos Marrecos. No mesmo dia em que Suzana se mudou para o Berimbau, José
Luís recebia uma homenagem do pessoal da escola de samba. De calça vermelha e
óculos da moda, todo metido, cagando regras, ploc. Ela se lembrava perfeitamente,
fora na semana seguinte à missa de sétimo dia de seu pai. Ploc. Marta estava
“morrendo de tristeza”, e tudo teria sido diferente se José Luís tivesse apenas
expulsado Suzana de lá. Só isso. Ploc, mas não, agora não posso falar, respondera
José Luís, com um frasco de Yakult na mão. Estamos numa reunião, meu amor.
Desde a morte de Zequinha, José Luís se tornara inacessível. Sempre no telefone,
gritando, ocupado, intratável. Agora não dá, Marta, ele dizia, estamos expulsando o
presidente da Associação dos Moradores do Morro dos Marrecos, porra. Dava
desgosto sair na rua, ploc. José Luís recrutara, com a ajuda de Gavião, sessenta
homens armados, que passaram a controlar, ininterruptamente, todos os pontos de
acesso aos morros. Não havia quem não fosse parado e revistado. Os carros foram
proibidos de circular pelas ruas que davam no interior das favelas. O comércio local
não conseguia repor suas mercadorias, já que nem os veículos de carga estavam
autorizados a subir o morro. Medidas de precaução, dizia José Luís.
Gavião, que durante anos fora o grande amigo de seu pai, não saía da casa de José
Luís. Você tem que dominar completamente o tráfico, e é importante usar a força até
as coisas se acalmarem. Domine tudo e mate quantos forem necessários. O Zequinha
é que fornecia drogas para o Presídio Padre Moraes. Era ele também quem armava
esquemas de fugas, você vai ter que assumir tudo isso, Reizinho. Nem lhe dera os
pêsames, o Gavião. Marta, meu bem, você pode nos deixar a sós?, dizia José Luís,
controlando-se para não demonstrar sua irritação. Mas ela só chora, reclamava para
Kelly, vez por outra, quando passava na casa da amiga para tomar um café. O que ela
queria que eu fizesse? Esperasse o pai dela me matar? Chora o dia inteiro, não
responde às minhas perguntas, porra, e reclama, a cara sempre amarrotada,
chorando, não aguento mais, porra. Foi ela que tomou a decisão de ir morar comigo.
Sei que tenho que ter paciência, é o pai dela, sei de tudo, porra, mas não dá para ela
parar de chorar pelo menos, porra, sei lá, porra, que bosta. Me irrita. Porra.
O Leitor vai estar lá, dissera José Luís, naquela noite, numa última tentativa de
convencer Marta a ir à inauguração da igreja. E daí? Foda-se o Leitor, pensara Marta.
Preferia que ele tivesse morrido no lugar de seu pai.
Este homem, continuou o pastor, referindo-se ao Leitor, é a prova de que Deus
existe. Ao lado de Ângelo, muitos quilos mais magro, Leitor permanecia no altar, alheio
ao que ocorria, como se nada compreendesse. Sim, ele é a prova de que Deus existe.
Sabe quantos tiros levou este homem? Treze, amados. É inacreditável a vida,
cochichou Onofre no ouvido de Yolanda, um dia, o homem é um crânio, manda e
desmanda. No outro, está cagando em fralda descartável. Treze tiros, fiéis, continuou o
pastor. Sendo que uma bala ainda está alojada na sua cabeça. Com a quantidade de
sangue que este homem perdeu, só mesmo um milagre para salvá-lo. E aqui está o
milagre. O Leitor não pode mais andar. É tetraplégico. Não consegue falar, nem
escrever. Talvez nem entenda o que estamos falando sobre ele.
Estou achando, comentou Negaço com Lobo, que esse pastor está tirando uma do
Leitor.
Mas o milagre da vida está aqui, disse o pastor, comovendo a plateia. Leitor está
vivo, e a vida é o grande milagre de Deus. Deus quis que Leitor ficasse entre nós.
Carolaine não parava de chorar. Não que estivesse emocionada. Pensava no que
teria que fazer no dia seguinte, procurar uma clínica de aborto e resolver aquilo o mais
rápido possível. E se morresse? José Luís não pensara nessa hipótese. Ouvira dizer
que Madeusa morrera num aborto. E a prima da Dirce também. Arrependera-se de ter
contado para seu irmão sobre a gravidez. Esperava o apoio de José Luís, o que você
está me dizendo?, perguntara o irmão, exaltado, você engravidou do Leitor?, é isso?
Você é a mulher mais burra que já vi na minha vida, e não vai ter esse filho merda
nenhuma. Porra. Vai abortar. E cala a boca, não me interessa o que você quer dizer,
engravidar de um repolho, porra. Burra. Aquilo a magoara mais que tudo, chamar o
Leitor de repolho, logo Leitor, que quase morrera por José Luís. Carolaine, aqui está o
dinheiro. Vai num desses carniceiros e resolve o assunto logo, porra. E não adianta
chorar, nem chiar, acabou, você não vai ter mais filho. Mulher xucra. Porra.
Alzira, embora visse a filha chorando no altar e Leitor numa cadeira de rodas, não
prestava atenção nas palavras do pastor, tão encantada estava com tudo o que
acontecera, o filho, imagina, dar de presente uma igreja, obrigada, meu Deus. E que
igreja linda. Já ouvira comentários sobre a sua construção, mas jamais conseguira
forças para subir no alto do morro. Tudo era muito bonito, limpo, organizado. O altar,
tão branco. Obrigada, ela disse, no ouvido de José Luís, sentindo seu coração se
encher de amor pelo filho.
Aquele era um dia especial, pensou Alzira, lembrando-se da gentileza da patroa, hoje
mesmo, contara para Carolaine, hoje mesmo ela me dispensou, só porque era meu
aniversário. Outra pessoa, dissera Alzira uma infinidade de vezes para Carolaine. Outra
mulher. Mais calma, mais educada. Muito melhor.
Juliana voltara da Europa havia dez dias. Lendo os jornais que se acumularam
durante a viagem, encontrou algo que lhe chamou a atenção: Líder do tráfico decreta
toque de recolher no morro dos Marrecos, estava escrito na manchete de uma das
edições. Reconheceu imediatamente a foto que ilustrava a matéria. Rodrigo, ela disse
para o marido, no banheiro, mostrando-lhe o jornal, este aqui não é o filho da Alzira?
Rodrigo, deixando de lado o barbeador, observou a fotografia, curioso, sim, é ele,
respondeu. Líder do tráfico dos Marrecos. E do Berimbau. Que horror. Temos que
mandar essa mulher embora, Rodrigo. E rápido.
Juliana viajara para Paris, para “salvar seu casamento”, conforme confessara para a
atual amiga mais íntima, Helena, e voltara decidida a mudar de vida. Personal trainer
nunca mais, Helena. Você lembra como era o Fernando? O jeca falava “mindingo”,
“trabalhei na firma”, “a nível de educação física”, um brega. Lição número um, meu
bem: como disse não sei que escritor, as pessoas se vingam muito bem dos favores
que lhes prestamos. Agora sou outra, quero o clássico, sabe como é? Academia de
dondoca, com aquela música barulhenta, a mulherada malhando de collant enfiado na
bunda. É isso. Chega de personal. Nunca mais quero ter nada personal. Estou como
aquele slogan das águas Caxambu, que meu pai adorava: “Chega de experiência. Beba
Caxambu.”
Entre as muitas mudanças que faria, a mais urgente era despedir Alzira. Não dá,
Helena, para conviver com uma pessoa que sabe de tudo, e te olha com dois olhões
acusadores. A impressão que tenho é que, a qualquer momento, ela pode começar a
me chantagear. Quero um carro, um fogão novo, quero um apartamentozinho. Tipo
Primo Basílio, compreendeu? Sabe o que ela me disse quando cheguei? O seu
Fernando não telefonou. E eu nem havia perguntado nada. O que me deixa nervosa é
que agora não posso nem mais dar uma bronquinha à vontade, chamar a atenção,
reclamar do jantar ou da limpeza, o que não seria problema se Alzira fosse uma boa
empregada. Mas acontece que Alzira é a pessoa mais troncha que eu conheci na minha
vida. Esses dias, estávamos falando sobre São Paulo, ela me contou sobre uma
colega, uma excelente cozinheira que está vivendo lá, e eu, por absoluta falta de
assunto, perguntei se a tal amiga vivia na zona norte ou na zona sul. Na norte, ela
respondeu, com aquela cara de quem não sabe o que está falando. Aí eu perguntei,
mas você tem certeza? Ela respondeu, a zona norte não fica do lado da zona sul? É,
meu bem. Pode rir. O Rodrigo diz que devíamos ceder o cérebro da Alzira para alguma
universidade. Vou despedir, rapidinho.
Juliana de fato dispensaria Alzira naquele mesmo mês, se não tivesse se deparado
com aquela notícia sobre José Luís. O que vamos fazer, Rodrigo?
Alheia a tudo o que ocorria, Alzira só tinha elogios para a patroa. Pegue isso, pegue
aquilo, você não sabe fazer nada, Alzira, nunca mais ouvira dona Juliana lhe dizer
coisas desagradáveis. Obrigada, você é um anjo. Anjo, agora era assim, Alzirinha.
Você não imagina como Paris é linda, Alzira. Trouxe isso para você, ela dissera, dando-
lhe uma sacolinha com vários vidros minúsculos de perfume, onde se lia “Not for sale”.
Alzira, comentara Juliana, naquela manhã, enquanto tomava seu desjejum, a sua
perna está mais inchada. Não está, Rodrigo?, olha como inchou. É. Está muito feia a
sua perna. É muito perigoso, Alzira. Já imaginou se dá uma gangrena? Hein? Ter que
amputar? Sabe de uma coisa, Alzira, vem cá. Tome esse dinheiro. Vá até o médico. E
não precisa mais voltar para trabalhar hoje. Isso mesmo. Folga. Você merece. Até
amanhã, Alzira.
Mesmo antes de viajar, dona Juliana já mudara de atitude, o que só reforçava a
teoria de Alzira de que dona Juliana não era ruim por natureza, e sim vítima do cão-
tinhoso.
E era exatamente sobre o demônio que o pastor falava agora. Vamos combater o
demônio, juntos. Oremos.
E Alzira orou, fervorosa. Sentia-se muito bem ali, na igreja. Já sofrera muito. Sim,
merecia agora uma vida melhor.
28

L i num livro genial, contou o advogado que minutos antes abrira a porta do
apartamento em Copacabana para Gavião e José Luís, li que, para os russos, até
a Polônia é maravilhosa. Aquilo virou uma coisa de louco. Sabe o que é ter duas
Amazônias, verdadeiras piscinas de diamantes, mais titânio, plutônio, o escambau, e
vender tudo a preço de banana? Sem falar das ogivas nucleares, armamentos incríveis,
tudo dando sopa, quem queria, era só chegar e levar. Os russos são melhores que nós
em matéria de foder o próprio país. Disseram que eles têm até um Departamento de
Combate a Desfalques. Imagina.
Gavião, enquanto ouvia, observava o fogo consumir uma pequena quantidade de
cocaína colocada sobre uma folha de papel-alumínio. A droga, aos poucos, adquiria
uma cor amarronzada. Muito bom, disse Gavião para o advogado, que não parava de
falar nas inúmeras possibilidades de enriquecer na Rússia. Mais outras três amostras
de cocaína foram carbonizadas, e apenas uma deixou Gavião em dúvida. Ele pediu que
o advogado lhe trouxesse um novo papelote e jogou o seu conteúdo num copo de água,
para verificar seu grau de solubilidade.
Ficaram ainda um bom tempo ali, os três, conversando amenidades. Contrariando as
expectativas de José Luís, não falaram, em nenhum momento, sobre remessas da
droga, qualidade, transporte, preço, nada. Era a primeira vez que José Luís
acompanhava o amigo num encontro como aquele. Pouco antes, Gavião telefonara,
dizendo estar próximo do Berimbau. Quero que você veja um apartamento em frente à
favela, ele disse. Um ótimo negócio, você tem que comprar. Estou passando aí.
Quando estavam a caminho para o tal imóvel, Gavião comunicou que surgira um
imprevisto, tenho que ir até Copacabana, você vem comigo?
Eram compradores como José Luís que permitiam a Gavião manter o privilégio de
distribuir praticamente sozinho toda a droga que chegava ao Rio de Janeiro. Vendia-lhe
vinte quilos por final de semana e, graças a esquemas daquele tipo, recebia tratamento
bastante privilegiado dos atacadistas colombianos, como o advogado que os recebia
naquela tarde.
Apesar da amizade, José Luís pouco sabia sobre as operações de Gavião. No início,
achava que ele era um elo de ligação entre alguma autoridade, um político importante
ou alguém do jogo do bicho e o cartel boliviano. E talvez até fosse, mas tudo mudava
tão rapidamente, quando José Luís imaginava estar começando a entender o esquema,
não havia mais esquema nenhum, novos nomes surgiam, outros desapareciam, não se
comprava mais a droga refinada, e sim a pasta de coca, ou vice-versa, os laboratórios
de refino não eram mais os de Mato Grosso, mas os de São Paulo ou Cascavel, o
segredo, dizia Gavião, é mudar o segredo. Era comum vê-lo no telefone tratando de
preço de acetona, éter e querosene, ou falando com pilotos de avião sobre tambores e
galões. Eram também frequentes conversas sobre a chegada de carros em Ponta
Porã. Nomes de cidades como Miami e Amsterdã eram muito citados nessas
conversas, e sempre havia alguém com apelido de coronel, general, deputado ou coisa
parecida. Havia também muitas, muitas mulheres, as mulas, que traziam pequenas
quantidades dos laboratórios da Bolívia. Minhas meninas, como dizia Gavião.
Gavião falava dos cartéis de Cali e Medellín de maneira muito semelhante àquela
como Alzira falava de Deus, e tudo isso levava José Luís a compreender cada vez mais
o que Leitor quisera dizer um dia com “somos peixes miúdos”. Agora, que era dono do
Berimbau, do morro dos Marrecos e de mais doze bocas de fumo, só pensava em
grandes esquemas. A lista de seus bens crescia rapidamente. Apartamento dúplex no
Edifício Mon Amour, na Barra. Quatro salas comerciais no centro de Curitiba. Dois
lotes no bairro de Inhangá, Niterói. Gavião era seu mentor nas negociações. Compre
isso. Venda aquilo. Alugue. Transfira para o nome de Marta. A verdade é que sua vida
mudara muito, seu nome não saía dos jornais, quase toda semana publicavam matérias
sobre suas atividades com manchetes do tipo: O maior traficante do Rio de Janeiro,
Tropa militar humilhada por soldados de Reizinho, Delegado Almeida promete tomar
morro dos Marrecos. Sinto-me insultado pessoalmente, declarara o delegado Almeida,
quando abro os jornais e vejo esse elemento desclassificado, esse assassino perigoso
falando como se fosse um Robin Hood. Vocês, jornalistas, ajudam a romantizar a vida
desses canalhas. É o fim da picada.
A imprensa falava muito em “estratégias eficientes para acabar com o tráfico”, e
José Luís estava sempre ilustrando esse tipo de reportagem. Mas ao contrário do que
ocorrera no passado, agora José Luís gostava de estar em evidência.
Apesar de não poder mais andar por aí sem seguranças, José Luís só via vantagens
na fama, gostava de ser amado e temido pelas crianças e mulheres da favela, gostava
da agitação que se criava quando passeava pelas ruas com seus cachorros bem
nutridos, gostava de dar esporro nos seus homens, gargalhar, gritar, xingar as
pessoas, tomar porres e acordar na hora que bem entendesse, trabalhar ou não, fazer
compras em supermercados sem olhar o preço dos produtos e dormir com todas as
garotas bonitas que cruzassem o seu caminho. Gostava também de andar de botas,
comprara uma porção de pares, algumas com espora no tacão, que riscavam todo o
assoalho de sua casa.
Depois de passar por Copacabana, Gavião o levou para conhecer a cobertura que
um amigo corretor lhe oferecera. O proprietário está enforcado, explicou Gavião, mas
isso não é o melhor. O melhor está aqui, ele disse, levando-o para a cozinha. Era
possível ver quase toda a favela, ainda que fosse necessário abaixar um pouco a
cabeça. José Luís nunca tinha reparado no emaranhado de fios elétricos, decorrência
das instalações clandestinas, em frente ao açougue do Zino. Uma zorra. É perfeito,
comentou Gavião, observando a vista. É como se você estivesse lá dentro.
Não seria má ideia se mudar para aquele local. Hoje em dia, dizia o corretor que os
acompanhava, a favela faz parte da paisagem do Rio de Janeiro. Temos clientes
estrangeiros que vêm para temporadas e nos pedem vista para favela. À noite, esta é
minha opinião pessoal, elas ficam até que interessantes, aquele monte de luzinhas
brilhando, é diferente, ele dizia. E os favelados, pela minha experiência, são pessoas
muito civilizadas. Você pode calar a boca, disse Gavião para o corretor, ninguém aqui
precisa ser convencido.
Três quartos, uma suíte, sala de tábua corrida, os materiais eram muito parecidos
com os que José Luís usara na sua casa.
Compro ou não compro?, perguntou depois para Leitor, ao chegar no escritório. José
Luís mantivera o hábito de falar com o amigo, que vez por outra emitia uma espécie de
mugido, porra, Leitor, como vou entender isso aí? Você parece uma vaca. Hein? É sim
ou não? Pisca, Leitor. A técnica da “piscagem” era infalível, garantia José Luís, feliz por
ter sido o seu inventor. Semanas antes, quando estudava estratégias para invadir um
ponto de droga, expusera minuciosamente seu plano para o amigo, pisque o olho,
dissera, se você concorda com isso. E Leitor piscara. Porra, olha só, Negaço, esse é o
repolho mais inteligente do Brasil. Era comum ouvi-lo se referir a Leitor dessa maneira,
repolho, e não havia nenhuma maldade ou ironia, pelo contrário, era um apelido
carinhoso, porra, Repolho, o que é que eu devo fazer? Compro ou não um avião?
Quanto custa um Cessna 310? Fala, Repolho. Quanto um piloto cobra para trazer uma
carga? Hein? Cem mil? Duzentos? Pisca, Leitor. Vale a pena? Percebe o que estou
pensando? Estou pensando em Tabatinga e Leticia, Repolho. Vale a pena? Hein?, ele
perguntava, referindo-se às cidades onde era possível comprar cocaína colombiana por
atacado. Bons tempos aqueles, dizia José Luís, em que você podia falar.
Havia algumas semanas que Carolaine não cuidava mais de Leitor. Agora, com a
gravidez entrando nos cinco meses e tendo gasto em bobagens todo o dinheiro que o
irmão lhe dera para o aborto, Carolaine passara a odiar “o aleijado”. Como é que eu
pude, Kelly, dormir com aquele trem gordo, fedendo a cigarro e cagando em fraldas?
Esses dias, Kelly, eu estava lá, imagina, lavando a bunda daquele homão pesado,
pensei, o quê?, eu grávida, fodida, e aqui, limpando merda? Chega. Estou fora.
Agora, quem cuidava do Leitor, era Onofre. Cuidar era modo de dizer, Onofre o
tirava da cama, pela manhã, enfiava-o embaixo do chuveiro, botava-lhe um fraldão
limpo, e depois o metia de novo, vestido e penteado, na cadeira de rodas, sempre
reclamando da mulher, Maria, “aquela peidadora infeliz”, nunca vi, Leitor, a patroa
parece uma que só sabe reclamar, puta merda, olha lá, ele dizia, empurrando a cadeira
de rodas, a caminho do quartel-general de José Luís, aquela mocinha, está vendo?
Tanta belezinha neste mundo, ele dizia, apontando as babás e domésticas que desciam
o morro, a caminho do trabalho, umas mimosuras, e o que eu sempre fico pensando,
Leitor, é como que essas coisinhas lindas que Deus fez podem se transformar numa
Maria igual à minha.
Muitas vezes, quando José Luís estava muito ocupado, ou fora da favela, Leitor
ficava esquecido na cozinha, ou em qualquer ponto da casa, durante horas. Marta o
ignorava por completo. Tirem ele da minha frente, ela dissera certa vez, ao bater seu
dedo mindinho nas engrenagens da cadeira de rodas.
Era comum ver José Luís, de madrugada, passear com Leitor pelos becos e ruelas,
e depois levá-lo até sua casa. Não sei se é uma boa sair do Berimbau, disse naquela
tarde, para Leitor, depois de visitar o apartamento. Você é que vai me dizer. Vamos lá
agora. Negaço, Cachaça, me arrumem um carro.
Quando estavam saindo, um dos garotos do tráfico veio entregar um bilhete de
Suzana: “Me encontre na casa da Kelly, às oito da noite.”
O que será que ela quer, Leitor? Aposto que é dinheiro.

“Meu querido Papai Noel, aqui está tudo ótimo, você nem imagina como a filha da
Dadá está feliz, nem parece mais aquela menina sonsa. Ela e Heinrich só conversam
em alemão. Aliás, o Heinrich adora a menina. Até aprendeu a sambar com ela.
“No mais, tudo igual. Meu alemão piorou muito, depois que a Jenifer chegou. Despedi
a Augusta, a minha professora (mas agora é minha amiga, não sai de casa), e Heinrich
não se incomoda da Jenifer traduzir as coisas que eu digo.
“Ontem levei um susto quando me pesei. Engordei dez quilos. Acho que é o frio. Pare
de me mandar paçocas. Não entro mais em roupa nenhuma.
“É isso. Beijos na macacada. Rosa Maria.”
Ela adora paçoca, disse Onofre para Alzira, que abria uma garrafa de vinho barato
com o saca-rolha que Rosa Maria mandara de presente. A dona Juliana tem um
igualzinho a este, é muito bom, explicou Alzira. Você é boa mesmo em saca-rolha,
afirmou Onofre, empolgando-se ao ver a amiga extrair a rolha da garrafa com tanta
facilidade. Eu já tinha perguntado para um montão de gente, ninguém sabia usar este
treco. É o melhor que tem, garantiu Alzira, que havia sido chamada para tal missão
quando passava diante do bar, a caminho de casa.
Onofre serviu uma empada para Alzira, mostrou várias fotos que Rosa Maria enviara,
Rosa Maria na frente da casa coberta de neve, Rosa Maria em frente a uma igreja,
cuja torre fora destruída pela guerra, isto eu não entendi direito, disse Onofre,
mostrando a foto de Rosa Maria ao lado de um muro, ela falou que o muro caiu, não
sei que muro é esse. Havia fotos mais recentes, Jenifer no meio de Rosa Maria e
Heinrich, num parque de diversões, como é bonita essa menina, comentou Alzira.
Sempre foi, afirmou Onofre, e se tivesse permanecido no Brasil, seria a melhor porta-
bandeira do Rio de Janeiro.
Os dois estavam entretidos, olhando as fotos, quando ouviram um barulho de freada
e batida. Pronto, disse Onofre, vendo a Kombi de Francisco enfiada na árvore onde
José Luís mandara pregar uma tabuleta: “Proibido amarrar animais.” Até que enfim ele
conseguiu bater.
Francisco saiu da Kombi, cambaleante. Está bêbado como uma porta, disse Onofre
para Alzira. Olha lá, Alzira, o homem, não sabe nem para que lado vai. Os dois riram.
Alzira acabou de tomar seu refrigerante, satisfeita, a Kombi ficara toda amassada.
Bem feito.
Aquela não fora a única coisa boa do dia. Naquela tarde, Juliana mandara chamá-la e
dissera, andei pensando, Alzira, você não pode mais trabalhar com essa sua perna.
Somos muito gratos por tudo o que fez por nós. E aqui está a sua recompensa. Um
cheque com trinta e seis salários. Você pode ficar três anos sem trabalhar. Para você
cuidar da sua saúde.
Agora, saciada, o estômago cheio de guloseimas que Onofre lhe oferecera, Alzira
voltava para casa com o cheque na bolsa. Carolaine também ficou feliz quando soube
da novidade. O banco ainda está aberto, mãe, vamos depositar esse dinheiro.
E foi exatamente o que fizeram. Carolaine sugeriu que a conta ficasse em seu nome,
afinal, a mãe era analfabeta, não sabia operar com um cartão magnético. Seria ótimo,
pensou Carolaine. Principalmente depois da briga que tivera com o irmão, naquela
manhã. Fora mais uma vez lhe pedir dinheiro, iria fazer o aborto, mas não era fácil
tapear José Luís. Gaguejou um pouco, e pronto, foi o suficiente para que José Luís
entendesse toda a situação. Você não fez o aborto, não é, Carolaine? Não, não fizera.
Comprara CDs, dois tênis, e todas aquelas roupas, alguns ursinhos de pelúcia, mas
não contou nada disso para o irmão, começou a chorar, você não sabe, Zé, como é
difícil fazer um aborto, explicou que muitas mulheres morriam por isso, chega,
interrompeu José Luís. Você é mesmo muito burra. Burra para caralho. Dinheiro meu,
nunca mais, Carolaine. A fonte secou. Agora, se vira.
Carolaine implorara, mas não houvera jeito. Agora estava naquela situação, tendo
que esconder a barriga. Pelo menos era gorda, e isso facilitava as coisas. A gordura
escondia tudo, essa era a vantagem de ser obesa. Talvez ainda conseguisse um
médico que fizesse o aborto. Havia sempre um carniceiro de plantão. Talvez ela
pudesse pegar uma parte do dinheiro de Alzira. Vamos abrir a conta no meu nome,
mãe, é melhor. Larga de ser besta, Carolaine. Tira o seu cavalo da chuva. Quero a
conta no meu nome, disse Alzira para o gerente.

Namorado? Suzana nem poderia pensar naquilo, e foi isso que respondeu, quando
Kelly a bombardeou com perguntas sobre a nova vida. Fazia apenas dois meses que
Zequinha morrera, estava muito triste. Abro os olhos, de manhã, e a primeira coisa que
penso é que ele não existe mais. Não tenho vontade nem de sair da cama.
Abatida, muitos quilos mais magra e fumando sem parar, Suzana contou que, no dia
da morte de seu marido, os dois ficaram até tarde na cama. Levei café para ele, lemos
jornal, namoramos. Pena que eu não sabia que era uma despedida. Você não sabe,
Kelly, o que significa ser casada com um homem que te chama de minha deusa, rainha
da minha existência, flor do meu arco-íris, minha Cleópatra, um homem que só tem
elogios, que acha lindo qualquer porcaria que você faz, pronto, já estou chorando de
novo. É a pior coisa do mundo conhecer um homem assim. Depois disso, continuou
Suzana, não existe mais nada que possa interessar a uma mulher. Nada. Tudo é pouco,
depois disso. Ele era o melhor. O mais inteligente. O mais carinhoso. O mais
interessante. O mais engraçado. O mais generoso. E sabia que corria perigo. Contou
que tinha aberto uma conta no meu nome, se eu morrer, ele disse, deixe esta casa,
procure nosso advogado, está tudo ajeitado para você. E tudo aconteceu como ele
previu. Veja que merda.
Sim, era verdade que um tal de Denilson andava convidando-a para sair. Sim, ele era
um gerente de supermercado. Bonzinho. Honesto. Sei lá se ele é bonito, Kelly, não dou
a mínima. Estou seca, disse Suzana, dei todo o meu amor para o Zequinha, acabou,
não tem para mais ninguém, nunca mais.
Às oito horas da noite, elas ouviram os latidos dos cachorros que se aproximavam.
Era cada vez maior a matilha que circundava José Luís, qualquer cão que aparecesse
por lá, logo se metia no seu bando, e além disso José Luís também havia comprado
rottweilers, que andavam em coleiras, assustando os transeuntes.
José Luís imaginara que Suzana queria falar sobre dinheiro, o que seria justo, afinal,
ficara viúva. Tenho dinheiro suficiente, ela respondeu. Mandei você vir aqui por dois
motivos: primeiro quero que você saiba que nunca vou te perdoar por ter matado o meu
marido. Nunca. Se você hoje posa de bacana, é porque o Miltão e o Zequinha te
ajudaram. E nenhum dos dois iam com sua cara. Eu te protegi. E você me agradeceu,
matando o meu marido. Você é igualzinho a qualquer bandido que vende drogas, você é
péssimo, você é só isso, um merda a mais. Segunda coisa que eu tenho para te dizer:
não foi o Fake quem te entregou para o Zequinha.
Marta ficou confusa quando José Luís chegou em casa, ploc, de madrugada,
gritando, demorou para entender sobre o que ele falava, a noite em que ela fugira da
casa de Zequinha, lembra, ele perguntou, lembra que você me contou que o Fake
estava lá conversando com seu pai? Sim, ela se lembrava. Ploc. Você viu o Fake
naquela noite?, perguntou José Luís. Responde, porra. Não, não vira Fake, apenas
escutara sua voz, mas era ele, tinha certeza. Não foi o Fake que me traiu, gritava José
Luís pela casa, calma, Zé. Marta se lembrava vagamente de alguém falando “brother”
no escritório de seu pai, só podia ser o Fake, ploc, era o Fake, ela disse, eu conhecia
aquele jeito de falar “brother” a toda hora, era ele. Porra, gritava José Luís, todo
mundo nesta bosta de lugar fala “brother”, porra, Marta, como você foi fazer isso com
o meu melhor amigo?
Foi o Negaço que te traiu, contara Suzana na casa de Kelly, horas antes, aquele
escroto que hoje vive te paparicando, foi ele, dissera Suzana. Não sei se você sabe,
mas o Fake, antes de morrer, andava desconfiado do Negaço. E também não sei se
você sabe, mas o Negaço é chapa do Gavião. Ou funcionário. Olha só como você fica
nesta história. Toda noite, antes de dormir, continuara Suzana, penso no Fake. Me
disseram que ele foi encontrado no lixão. Morro de pena. E quando vejo você andando
por aí com o Negaço, o cara te fodendo e vocês dois juntos, amigos, eu gosto, eu digo,
bem feito, tem mesmo é que se foder. Agora, não pense que estou aqui te contando
isso porque sou sua amiga, porque quero te alertar sobre o perigo. Para mim, Zé, você
pode morrer na minha frente, juro, não estou nem aí. Quero que você se foda. Não te
conheço mais. Se estou te contando, é que eu quero que você sofra um pouco mais.
Você matou seu melhor amigo injustamente, e espero que se lembre disso todos os
minutos do que resta da sua vida miserável. É isso. Falei tudo. Tchau.
José Luís ficou sozinho alguns segundos, antes que Kelly entrasse na sala e o
encontrasse caído, o que foi?, perguntou Kelly. Meu Deus, levanta, José Luís abraçou
as pernas de Kelly com força, sentia-se tão desgraçado, levanta, Zé. Porra, ele dizia,
chorando, Kelly o ajudou a sentar no sofá, meu amor, ela disse, venha. E o consolou,
serviu-lhe café forte, acariciou-lhe os cabelos, e foi assim que começou tudo de novo,
os velhos tempos voltaram, ela diria, depois de terem feito amor no tapete da sala.
Mas não havia sido como ela imaginara. José Luís fumando, ausente, olhos fechados,
passei todo esse tempo esperando, ela disse, carinhosa. José Luís não parava de
pensar no Fake. Você não teve culpa, ela disse. Claro que tive. Mandaria construir uma
praça para Fake, uma estátua, sim, faria isso.
Por que você demorou tanto?, perguntou Marta quando ele entrou no quarto, horas
depois. E então ocorreu aquela discussão toda, você me traiu, ele gritava alto, porra,
você me obrigou a matar o meu melhor amigo. Marta no início tentou entender,
explicar, mas depois passou também a gritar e acusar, atirou objetos na parede, você
mata o meu pai, ela dizia, e vem me encher o saco? Vá se foder, cara.
José Luís se trancou no banheiro, plash, tudo se quebrando lá fora, porra, telefonou
para Cachaça, pelo celular, e mandou que cortassem a cabeça de Negaço. Depois,
tirou a roupa e ficou sentado, embaixo do chuveiro. Se não fosse Marta, Fake não
estaria morto. Porra. Cachorra.
29

O latido dos cães tumultuava o ambiente. Gravando, gritou Reizinho, com uma
câmera de vídeo nas mãos, as lentes focadas na tabela de preços do açougue
de Zino. Temos frango caipira, vivo e limpo. Fígado, promoção 2,90. Coração de
galinha, 3,00 o quilo. Asa, 2,50. Bucho de boi, 2,00.
A churrasqueira instalada na calçada, rente à parede do açougue, com os espetos
de carne fumegantes, foi cercada pelos cachorros inquietos de José Luís. Isso, afirmou
o traficante em off sobre a imagem da matilha, é veneno puro. Reizinho, que ganhara a
câmera de Gavião, numa negociação, divertia-se nos últimos dias gravando a favela.
Era aniversário de Zino, e José Luís decidira aparecer no açougue para cumprimentar o
amigo e “fazer uma chinfra”.
Recolhera depoimentos sensacionais no local, nenhum sobre o açougueiro. O Zé
Luís, para mim, declarara uma das moradoras, comendo um pedaço de bolo que a
mulher de Zino oferecia para quem chegava, para mim, o Zé Luís é um santo. No ano
que vem, declarou um carnavalesco, vamos arrebentar, graças ao Reizinho. Mas o
melhor fora a fala de Onofre, explicando que a história do Berimbau estava dividida em
duas partes, antes e depois de Reizinho. Sensacional. Antes e depois, nunca havia
pensado naqueles termos. Adorava ouvir elogios, as louvações sempre agiam no seu
corpo de maneira muito semelhante às drogas que tomava quando menino,
rapidamente se espalhavam pelo sangue, subiam para a cabeça, dando-lhe uma
sensação de dinamismo, alegria. Estimulavam-no tanto, os elogios, que passara a
encontrar Kelly com mais frequência, principalmente depois que voltara a morar
sozinho. Levava Kelly ou qualquer outra garota bonita da favela para dormir com ele, na
cobertura, ansioso para ouvi-las sussurrar coisas agradáveis em seu ouvido, homem
corajoso, homem forte, homem bom, homem engraçado, repetia Kelly, na cama.
Você está exagerando, dizia Marta, quando soube que José Luís tinha gravado
imagens no depósito de armas e no setor de embalagem de drogas. Que história é
essa de sair por aí registrando tudo? Para quê? Você está se achando tão bacanudo,
dissera Marta, tão fodão, você está tão mascarado, ploc, que nem percebe que essas
fitas ainda vão ser usadas no seu julgamento, e vão facilitar bastante o seu caminho
para a ilha Grande, ploc. Não enche, Marta, você não sabe picas. Você está fora. Ela
quer me ver por baixo, dizia para Kelly, quando os dois estavam na cama. Só azucrina,
a Marta.
A câmera enquadrou Zino, atrás do balcão, distribuindo pedaços de bolo do
aniversário para as senhoras que chegavam. Esse malandro que está rindo, o Zino,
continuou Reizinho, em off, esse puto, porra, assa carne podre e vende para nós. É
carne de qualidade, garantiu Zino, sorridente.
A filmadora foi colocada no balcão do açougue. Basta dizer, retrucou José Luís,
agora também de frente para a câmera, de blazer bege, óculos de sol ray-ban, tênis
novos e dois cordões de ouro no peito, basta dizer que a cor dessa carne, quando vai
para o espeto, é verde-azeitona. Risos. Fresquinha, falou Zino. Coma, na minha frente,
quero ver, Zino. Risos. Aproveita que é seu aniversário e mostra que você é honesto.
Porra, não falei? Está rindo para não comer, açougueiro safado. Os dois se
abraçaram, amo esse homem, disse José Luís, beijando Zino na testa.
Foi nesse momento agradável, todos rindo, despreocupados, ao redor de Zino, que
José Luís recebeu a ordem de prisão de três policiais à paisana, que estavam ali,
misturados à pequena multidão que comemorava o aniversário do açougueiro. Não
houve tempo para reagir, sacar a arma, nada, tudo foi tão rápido, tão besta, como diria
mais tarde José Luís para Marta, pelo telefone. Havia um bochincho no açougue, muita
gente entrando e saindo, comendo bolo, tudo numa boa, e de repente, porra, fui preso,
muito estranho.
Um episódio como aquele, naquelas circunstâncias, era inaceitável. Primeiro porque
José Luís não vivia mais no morro do Berimbau, desde que os jornais começaram a
dedicar suas primeiras páginas à investigação do narcotráfico no Brasil, havia um mês.
Reizinho havia se tornado o primeiro nome na lista dos traficantes a serem capturados.
Desde então, mudara-se sozinho para seu novo apartamento, a cobertura de um prédio
classe média alta, de frente para o Berimbau, comprado em nome da Marta, e de lá
comandava os negócios, evitando se expor. Já havia cinco mandados de prisão para
ele. Soubera, por intermédio de Gavião, que o governador aprovara mais um plano de
invasão na favela. É só por questões como essa, comentara Gavião, que ainda tolero
mineiragem. De vez em quando, vem informação boa. Olha só, ele disse, mostrando a
manchete do dia, Governador promete acabar com corrupção na polícia. Outra:
Secretário de Segurança afirma: a democracia está ameaçada pelo narcotráfico. Essa
é melhor, veja, Guerra ao tráfico. “Vamos adotar medidas drásticas”, declarara o
presidente, que propunha o envolvimento das Forças Armadas no combate às drogas.
Pode se preparar, os caras decidiram arrebentar. Agora é para valer.
Eu esperava, comentou José Luís com Marta, quando ela finalmente pôde visitá-lo,
no domingo, eu esperava que eles viessem para pegar a parte deles. Ou então, porra,
que chegassem com um batalhão, como de costume, aquela onda toda, porra,
jornalistas, de madrugada, aquela zona, blitz e o escambau, mas não foi assim. Fui
preso às onze da manhã, no açougue do Zino, por três policiais. Ridículo, porra.
Na viatura, enquanto era levado para a delegacia onde seria lavrado o auto de
prisão, José Luís tentou negociar, aumentou várias vezes o valor que estaria disposto a
pagar para que o assunto fosse encerrado como de costume. Se você não calar sua
boca, respondera um dos policiais, na viatura, vou registrar também a tentativa de
suborno. Veja só, ele comentou com o advogado, mais tarde, estou acostumado com
essa lenga-lenga de flagrante forjado, gasto muito dinheiro com isso, agora, tentativa
de suborno, porra, isso é novidade para mim. De onde vieram esses policiais?
Na primeira semana em que esteve preso, dedicou-se a analisar exaustivamente
cada minuto que antecedeu à prisão. Oi, Lucivan. Uma manhã tão agradável. Oi,
Máiquel. Seus seguranças haviam garantido que o ambiente estava calmo na favela.
Passeou tranquilo, com sua nova câmera, oi, Reginaldo, mostrando as benfeitorias que
realizara no Berimbau. A nova creche. Oi, dona Zilda. Céu azul, manhã fresca. Oi, seu
Paulo. Neste galpão, faço festa. Patrocino. Pago. Faço e aconteço. Recapeamento da
quadra esportiva, vejam. Oi, Lurdivan. Oi, neném. A todo instante, alguém vinha lhe
apertar a mão, agradecer. As crianças se misturavam com a matilha que o cercava,
seguiam todos, barulhentos, as donas de casa saindo na janela, oi, José Luís, para ver
o que estava acontecendo. Fazia parte do seu trabalho, aquele contato com a
comunidade. Era preciso, vez por outra, andar pelo bairro, distribuir roupas, carne,
bolachas, brinquedos, atenção, latas de óleo. Um líder, aprendera, só se mantinha no
poder com o apoio da comunidade. Por isso, agradava, pagava contas, resolvia
querelas e contratava shows de “mulher rebolenta para agradar à galera”. Sim, a ideia
de se expor daquela maneira não fora boa, deveria ter escutado Marta, mas também,
porra, impossível não circular pelo morro, era traficante, porra, líder, isso fazia parte de
seu trabalho. Além do mais, era aniversário do Zino. Como deixar de cumprimentar um
amigo tão leal quanto o Zino? Traição, porra.
José Luís fora recebido com respeito pelos presidiários. Possuía vários amigos
naquele pavilhão, sustentava as famílias de Agripino, Paulo Agulha e Rosbife. E
também a de Nobre, e por isso a sua transferência para uma cela mais confortável não
fora problemática, apesar de ter lhe custado dinheiro.
No início, acreditou que Nobre pudesse ajudá-lo na fuga. É um bolha, o Nobre, não
sabe nada, comentou depois com Marta. Gastei dinheiro à toa. E esse amigo do seu
pai, ele comentou, referindo-se ao advogado que Marta contratara para defendê-lo,
esse cara me irrita. Chegou aqui com uma conversa mole de que nenhum traficante fica
mais que trinta e oito dias na prisão se o processo não estiver concluído, como se isso
fosse uma vantagem para mim. Porra. Acho bom você esclarecer a situação para ele,
Marta. Não vou ficar aqui trinta e oito dias nem que a vaca tussa. Pode parar de gastar
dinheiro com esse trolha.
O fato novo, na prisão, para José Luís, foi a atitude de Marta. Os dois não viviam
juntos desde que ele fora viver na cobertura em frente ao Berimbau. Escuta, Marta,
dissera na ocasião, a situação está péssima, não posso ficar aqui, e nem posso te
levar comigo, melhor você esperar, dissera, é mais seguro. Marta não aceitou, esse
papo de “dar um tempo” é furadíssimo, ela respondera, você quer me despachar para
poder dormir com essas pirralhas de quinze anos, comigo não, violão. Não fora fácil
convencê-la, José Luís teve que lhe atribuir uma função “no esquema”. Agora que não
posso mais contar com o Leitor, insistira, você tem que ser meu braço direito, preciso
da sua ajuda, Marta. Só assim ela aceitara, ótimo, ploc, eu fico, mas não sou pau-
mandado nem capacho, tenho ideias e métodos próprios, o. k.? O. k., ele dissera. E
não pense que vou admitir vadias dormindo na nossa cobertura, afirmou Marta, estouro
aquela merda. Corto teu pau e arranco teu nariz.
Francamente, eu não achava, José Luís dissera certa vez para Leitor, antes da
prisão, não imaginava que casamento fosse isso, essa bosta. Não havia mais aquele
clima agradável entre os dois, aquelas farras, aquelas noites longas de amor, Marta
medindo o seu pênis com régua, nada disso, porra, só discussões, sempre por causa
de bobagens, ninharias, ela só fala de coisas chatas, só reclama, por que, Leitor, as
mulheres ficam chatas depois que casam? Até para foder tem que ter nhenhenhém.
Porra. Depois das reuniões com a cúpula Marta ficava ainda mais insuportável, você
me atropela, ela dizia, você me desautoriza, ploc, eu sou filha do Zequinha,
compreendeu? Não venha você falando alto comigo, ela dizia, como se eu fosse um
desses desdentados, esses desqualificados que você contrata para roubar carro, eu
tenho o ensino fundamental completo, tenho neurônio saindo pela orelha. José Luís
estava detestando aquilo tudo, ensino fundamental, porra, ela me irrita, dizia para o
Leitor. Por todos esses motivos, não imaginou que, naquela situação adversa, Marta
seria, conforme suas palavras, uma garota tão bacana. Adorou quando soube que ela
mandou assassinar um gerente que andara querendo “colocar as asinhas de fora”.
Adorou mais ainda a maneira como ela falou “para eles saberem que quem manda no
Berimbau é você”. O bom desempenho profissional da mulher não surpreendeu José
Luís. Sempre fora ótima, nesse aspecto, desde o início. A novidade era a maneira
carinhosa como ela passou a tratá-lo na prisão. Quero que você saiba, ela disse, numa
das visitas, apesar de tudo de ruim que aconteceu com a gente, sou sua mulher.
No último domingo de novembro, Marta levou para ele potes de Danoninho, Yakult,
latas de leite condensado, notícias da família, cartas dos amigos e bolo de fubá que
Alzira preparara. Estava agitada, naquela tarde. Tenho uma ótima notícia, ela disse.
Sabia que a Secretaria de Segurança distribuiu folhetos com fotos suas, oferecendo
trinta mil para quem desse informações a seu respeito? Trinta mil?, perguntou Reizinho,
só isso? Quanto ofereceram para o Chiclete? Sei lá do Chiclete, respondeu a
namorada. Ploc. O fato é que ninguém levou nadinha, continuou Marta, ploc, tirando da
bolsa uma fotografia. Esta é a boa notícia, ela disse, colocando a foto na mão de José
Luís. A princípio, ele não reconheceu a mulher caída sobre o lixão, com o rosto
deformado por hematomas. É Suzana, afirmou Marta. Foi ela que te entregou. Apenas
o pé direito estava calçado, as unhas pintadas de rosa-cintilante, um vestido amarelo
colado no corpo, Suzana sempre dizia que sua cor preferida era amarelo, lembrou José
Luís, observando os detalhes da fotografia, enquanto Marta contava como descobrira
que Denilson, o novo namorado de Suzana, era um cana, e não um gerente de
supermercado, ploc, como ela andara espalhando por lá, o cara era um meganha, um
escroto, ploc, que desapareceu da favela assim, pluft. No dia seguinte ao da sua
prisão, continuou Marta, passei em frente à casa dele e vi uma placa: “Aluga-se.”
Desconfiei. Falei com o Valdo, da imobiliária, e ele me contou que o Denilson pagou
três meses adiantado, escuta só, e, de repente, “precisou” se mudar. Muita
coincidência. Que gerente de supermercado faz isso? Fiquei em cima da Suzana.
Batatolina. Aquela vadia ajudou a te prender. Ploc. Armou tudo. Deu todas as
informações. Foi a equipe do Denilson que te pegou. E o que me deixou píssica foi que
ela não disse um ai quando foi levada para o lixão. O Cachaça tinha arrancado a infeliz
da cama, minutos antes. Quero despedir da minha mãe, ela pediu para o Cachaça, ou
seja, sabia que ia morrer. Quando chegou no lixão, falei um monte, você ainda tem uma
chance, expliquei. Confesse tudo, posso até te despachar para a Bahia, sugeri. E era
verdade. Não posso esquecer que ela, afinal, foi casada com meu pai. Sugeri que ela
devolvesse toda a grana da minha família, tudinho, eu perdoaria. Falei, você me conta a
verdade, e eu te deixo ir embora, com a roupa do corpo. Ela só me olhava, com aquela
cara de bunda, fazendo o tipo pode-atirar. Falei do Denilson, e ela muda. Nada. Aí eu
não aguentei. Caramba, como eu gostei de dar uns bofetes na cara dela. Sentei a mão,
que delícia. Pensei, ploc, pena que a minha irmã Priscila e a minha avó não estejam
aqui para bater também. Coisa boa que é espancar uma Suzana da vida. A Priscila ia
adorar. Bati mesmo, sem dó.
José Luís, com a foto nas mãos, lembrou-se de Suzana dançando com ele, uma
lembrança vaga, os dois rodando na sala da casa dela, um samba no aparelho de som,
Suzana sempre sambara bem. Lembrou também de Suzana defendendo-o de Alzira,
protegendo-o com o próprio corpo, num domingo em que a mãe pegou uma cinta para
lhe dar uma surra.
José Luís teve uma sensação ruim, fechou os olhos e sentiu um nada à sua volta,
tristeza, negrume. Ficou com pena de Marta. Fora insensível quando ela lhe pedira uma
atitude contra Suzana, logo depois da morte de Zequinha, porra, não fizera nada, e
agora, estavam ali, os dois, Suzana o traíra, sem falar do Zequinha, porra, matara
Zequinha, tanta merda, ele pensou, sentiu vontade de dormir e não pensar mais em
nada. Posso te dar um abraço?, perguntou Marta. Os dois se abraçaram, não como
costumavam fazer, no início, com urgência, dessa vez, aninharam-se carinhosamente,
cansados, saudosos, sinto tanto a sua falta, disse Marta, com voz de choro, está tudo
tão ruim sem você. José Luís teve vontade de pedir desculpas, mas não era bom nisso.
Ficaram abraçados, em silêncio, a foto de Suzana caída no chão.
Tem mais uma coisa que eu preciso falar, disse Marta, antes de ir embora. Não
quero que a Kelly venha te visitar mais. Ploc. Eu sei que você andou dormindo com ela.
É chato dizer, mas eu não queria ter que me meter com aquela gorda. Acabe com isso
logo.
Foi muito triste conversar com Kelly naquele mesmo dia, quando ela apareceu no
final do horário de visitas, com um bolo de laranja, sorridente, solícita. Você está
estranho, ela disse. E então José Luís explicou que não queria que ela o esperasse.
Que não valia a pena. Que ele era um homem casado, e que talvez não se livrasse tão
cedo da prisão. Que Kelly era jovem, merecia um cara melhor. Alguém que não tivesse
“aquela vida”. Tudo papo furado, contou Kelly mais tarde para Carolaine, chorando.
Homem casado, ele nem estava mais vivendo com a Marta. Tudo desculpa, porque ele
não me ama. Não gosta de mim. Carolaine, com uma lata de leite condensado aberta
na mão, e a televisão ligada na novela das oito, esforçava-se para prestar atenção na
história da Kelly. Homem é tudo igual, disse, repetindo o que Alzira lhe falara a vida
inteira. Homem não presta.

Um pênis curto e grosso, com uma pequena flecha saindo do orifício. Isso é que eu
chamo de esculacho bem-feito, disse Fuinha, ao dar os últimos retoques nas costas do
detento. O presidiário fora agarrado à força para receber a tatuagem, realizada com
alfinete de costura e tinta que sobrara da pintura do refeitório. Ficou caprichada, disse
Fuinha. Agora, nego, ele disse para o rapaz, que chegara naquela manhã, com os
carcereiros avisando a todos que se tratava de um estuprador de criança, agora, todo
mundo vai conhecer a tua raça. E se prepara. Fuinha tirou do pé direito a sandália
Havaiana e, plac, plac, bateu com força sobre a tatuagem. Isso é para fixar bem,
explicou para José Luís.
Fuinha, famoso assaltante de bancos, que dividia a cela com José Luís, se dizia o
“melhor tatuador do Rio de Janeiro”. Faço borboleta, Nossa Senhora, âncora, dragão
chinês, mas eu gosto mesmo é de meter um pintão nas costas de estuprador. Odeio
essa raça. Desde que cheguei aqui, pode conferir, todos eles têm um caralhaço nas
costas. Aviso mesmo, que é para eles serem bem enrabados e aprenderem. Posso
fazer o Jesus Cristo no seu peito, se você quiser. Não sou ladrão, respondeu José
Luís, para ficar fazendo propaganda de Jesus Cristo.
Naquela manhã, havia um clima de intranquilidade no pátio onde os detentos
tomavam banho de sol. É que mataram dois no pavilhão 4, contou Fuinha. É para
esvaziar cela. E anunciaram que vão matar mais esta noite. José Luís, sem camisa,
sentindo o sol forte no corpo, não queria conversar, vai dar um rolê, Fuinha, ele disse.
Fechou os olhos, lembrou da foto de Suzana, porra, por que diabos tinha que se sentir
culpado? Não matara Suzana. Porra. Foi naquele momento que um carcereiro se
aproximou, puxando conversa. José Luís nunca o vira por lá. Meu nome é Jonas, disse
o sujeito, o Nobre me falou da sua situação. Tenho um esquema para você, um
esquema muito bom, que custa uma bufunfa legal, mas te tira daqui rapidinho. Só
depende de você pagar. Falaram sobre números e, depois de alguns ajustes,
acertaram o valor. Agora você está numa boa, garantiu o carcereiro. Como vai ser?,
perguntou José Luís. Você vai saber, logo, logo. Mas antes me faça um favor. Bico
calado. Nem família, nem mulher, nem amigo, nem puta, nem vovozinha, ninguém deve
saber. Ou isso, ou eu caio fora. Estamos conversados.
30

P or favor, insira o cartão. Digite o seu código. Indique a operação desejada.


Carolaine já estava habituada a sacar dinheiro da conta da mãe no caixa
automático da rua Sete de Abril, a mais próxima da favela do Berimbau. Embora nunca
houvesse muita gente aguardando, as filas eram insuportáveis, demoradíssimas. Os
usuários, quase todos moradores da favela, motoristas, babás, domésticas,
balconistas, não sabiam operar com o cartão magnético, e custavam para sair do
caixa. A maioria se mostrava inibida, hesitante ou desconfiada diante da tecnologia,
muitos iam embora sem fazer o saque, outros tinham seus cartões engolidos, Carolaine
já vira de tudo enquanto aguardava, gente que batia na máquina, ou se assustava com
a voz que orientava as operações, uns tronchos, dizia Carolaine, irritada. Gente burra.
Para ela, tudo era muito simples. Ah, como era bom ter uma conta. Como era fácil a
vida moderna. Não lhe dava trabalho nenhum, apertava umas teclinhas, e pronto, o
dinheiro vinha, em notas de dez ou cinquenta, de acordo com suas necessidades. Os
amigos ficaram encantados com a festa que ela dera para comemorar o aniversário do
filho Alas, na quadra de esportes. Quinhentos balões do Walt Disney, pratinhos, copos,
toalha de mesa, tudo do Walt Disney. Ficara em dúvida quando fora escolher o motivo
da festa no supermercado Mundo Novo, havia tantas opções, Hércules, Tarzan, Branca
de Neve, acabou optando pela Pequena Sereia. Até nos convites aparecia a imagem da
mocinha com rabo de peixe, linda, loira, esperamos você na minha festinha. O que mais
agradou Carolaine foram as animadoras de minissaia e botas de cano alto, com
microfone na mão, vamos lá, pessoal, quem quer brinde? Aqui só ganha quem
participa. Vamos fazer um concurso do rebolê rebolá, criançada, todo mundo
rebolando, o melhor vai levar estas raquetes de pingue-pongue. Esta bola de futebol.
Este pacote de chicletes. Que delícia! Que festa! As crianças adoravam imitar as
artistas famosas, saracoteando o corpo ao som do pagode. Parecia um programa de
TV de verdade, desses de auditório, infantis, que Carolaine adorava. Todo o morro
estava lá. As pessoas vinham dizer: Carolaine, que festa linda, você deve ter tido um
trabalhão. Que trabalho pode ter uma pessoa que possui um cartão magnético? Não
fizera nada, absolutamente nada, a não ser sacar dinheiro da conta de Alzira repetidas
vezes. Adorava aquele cartão. Televisão, carro, rádio, moto, micro-ondas, freezer,
máquina de lavar, nada era melhor do que um simples cartão magnético. Mantinha-o na
sua bolsa, sempre à mão. Não fora fácil convencer a mãe a deixar que ela o usasse.
No início, Alzira fazia questão de sacar dinheiro pessoalmente na agência do Leblon.
Preferia o “banco agência”, como ela dizia, ao caixa eletrônico. Fico tonta naquela
“gabine”, explicava a ex-doméstica. Alzira aproveitava as filas para “criar amizade”,
conversava com os aposentados e office-boys, mostrava-lhes as fotos de seus netos,
que trazia na carteira, e se houvesse tempo, contava o drama da sua ferida na perna,
que desde que parara de trabalhar, dobrara de tamanho. Só não falava nada sobre
José Luís, pois a envergonhava o fato de o filho estar na prisão. Só uma menina, ela
respondia, quando lhe perguntavam sobre filhos.
Mas o certo é que Alzira trabalhara a vida toda, e agora, com tempo livre, até as
coisas mais banais, como ir ao banco ou pagar a conta de luz, pareciam-lhe novidades
prazerosas. Era muito bom sair na rua, andar, sem pressa, tagarelar em filas, ver as
mercadorias expostas nas bancas do comércio, botas, brinquedos, os camelôs, tudo
era divertido. Às vezes, num desses passeios, ou quando estava em casa, sentada no
sofá, fazendo crochê, vinha-lhe a voz de dona Juliana, na cabeça, gritando seu nome.
Lembrava-se exatamente da agitação que aquela voz lhe impunha, Alzira, onde está o
meu vestido de seda rosa-pastel? Apesar de tudo, gostava de dona Juliana. Coitada da
dona Juliana. Sempre querendo emagrecer. Se matava de tanto fazer ginástica com o
seu Fernando, mas estava sempre do mesmo jeito. Emagreci, Alzira? Você acha que
estou mais magra? O chato era quando dona Juliana recebia o demônio, sim, aquele
mau humor era o demônio, a mulher até rosnava pela casa, um furacão, gritando,
batendo portas, chorando no banheiro, coitada da dona Juliana. Pecadora infeliz. Alzira
só não gostava de lembrar das ocasiões em que as amigas da patroa se reuniam na
sala e se divertiam com as histórias que ela contava sobre Alzira, sempre num tom
baixo, mas perfeitamente audível, da cozinha. Nunca vi nada pior, dizia a ex-patroa. É
coisa de louco. É a mulher mais burra que conheci na minha vida. Esses dias, cheguei
aqui, e ela me disse: o dr. Rodrigo pediu para a senhora ligar para ele com ou sem
falta. Por que ela falava aquelas coisas, a dona Juliana? Sim, o demônio. O pastor
explicara que era o demônio que mudava o comportamento das pessoas, o demônio
entrava na cabeça do ser humano, no sangue, e operava as mudanças, Alzira sabia
tudo sobre o demônio. Gostava de pensar que fora capaz de tolerar tudo, as ofensas e
xingamentos do cão, porque afinal viera a recompensa, Deus vencera, e agora ela
possuía uma conta bancária, com cartão magnético, podia viver trinta e seis meses
sem trabalhar, só cuidando da sua saúde. A ferida, sim, latejava, purulenta, mas não
era nada se comparada à dor que sentia ao ver José Luís na prisão. O porco-sujo se
apossara do filho também. É boa a comida aqui?, perguntara quando fora visitar o filho.
Muito boa, respondera o José Luís. Ficaram sem conversar, Alzira suando dentro de
um vestido de poliéster, apertado, José Luís com a barba por fazer, sem assunto, os
dois. Que coisa triste, perder o filho para o maligno. Fora depois da visita ao presídio
que a ferida “desandou de vez”. Dobrara de tamanho, em uma semana, e o tornozelo
inchara tanto que nem era mais possível ver os ossos do pé, tudo era uma bola, com a
ferida cada vez maior. A partir de hoje, dissera Carolaine, a senhora não sai mais de
casa. Até essa ferida melhorar, eu cuido das contas, me dê o cartão. Finalmente Alzira
cedera, e Carolaine passara a dispor do dinheiro de acordo com suas necessidades.
Os extratos chegavam pelo correio, e Carolaine os rasgava, sem lê-los. Eram muito
complicados, os extratos. E, depois, Alzira não sabia ler, para que ela quereria ver os
extratos? O cartão trouxera muitas alegrias a Carolaine, e a maior delas fora a de não
depender mais de Marta. Não, era a resposta que sempre ouvia de Marta, quando lhe
pedia dinheiro. Não, não e não. Marta pagava todas as despesas da casa,
supermercado, açougue, farmácia, sinto muito, Carolaine, dinheiro vivo, o Zé não quer
que eu te dê, ela respondia. E tivera aquele dia chatíssimo, vem cá, Carolaine, você
precisa tomar um sincerão, minha nega. Cair na real. Você está dizendo que quer
comprar roupa? Brinquedo? Alisar o cabelo? Balagandã para o neném que vai nascer?
Simples. Vá trabalhar. Arranja um emprego. Se você quiser, trabalhe aqui comigo,
preciso mesmo de uma secretária. Trabalhar, pensou Carolaine, irritada. No sétimo
mês de gravidez? Odiava a Marta. Andando por aí, como se fosse a dona do morro.
Mandando e desmandando, e o que fizera com Leitor, então? Onofre lhe contara. Tira
isso da minha frente, teria dito Marta ao ver Leitor no setor da embalagem, certa
manhã. Não quero que ele fique aqui, ouvindo as minhas conversas, ela dissera. Mas
foi o José Luís que pediu para trazer o Leitor para cá, toda manhã, respondera Onofre.
Não somos hospital de aleijado, respondera Marta. Onofre contara outras coisas
também. Sempre desconfiei dessa sem-terra, dissera Onofre. Mulher magra demais,
eu desconfio, ele disse. Como é que o Reizinho podia trocar a Kelly pela Marta? A Kelly
era muito mais legal, mais companheira, a Kelly jamais lhe recusaria dinheiro. Mas
ninguém perdia por esperar. As falsas eram sempre desmascaradas nas novelas.
Como Isadora com aquela cara de santa. Como Laura pedindo perdão para Pedro.
Como Eneida com a história do carro quebrado. Todas falsas, enganando os homens.
Todas seriam desmascaradas antes do capítulo final. Por que seria diferente na vida
real? Marta também seria desmascarada. Ainda bem que não dependia mais dela para
nada, era independente, graças ao cartão de Alzira. Quando Carolaine queria sair com
as amigas, para dançar, era só passar no caixa automático, e pronto, tudo resolvido.
Ah, como a vida podia ser simples!

A cela estava vazia, quando Onofre entrou, empurrando Leitor. É realmente


impressionante, comentou Onofre, como é fácil molhar a mão de um policial, neste
país. Você deve gastar um montão de dinheiro com esses caras, imagino. Tudo o que
fiz para chegar até aqui, sem passar por nenhuma revista, nem ter que responder
qualquer tipo de pergunta, foi dizer seu nome. E então?, perguntou José Luís, ansioso.
Tudo certo, respondeu Onofre. Me ajude a colocar o Leitor em algum lugar, disse o
comerciante. Leitor foi retirado da cadeira de rodas e colocado na parte de baixo do
beliche onde José Luís dormia. Na sequência, Onofre forçou as laterais da cadeira de
rodas, retirando o assento de couro. No espaço que se abriu, havia vários maços de
notas de cem, embaladas em sacos de supermercado. Que tal?, perguntou Onofre
satisfeito. Sabe, esse método de piscagem que você inventou para o Leitor é uma
bosta. Criei uma coisa muito melhor. Agora é fácil a nossa comunicação. Se o Leitor
pisca uma vez significa a. Duas vezes, b, e assim por diante. Sistema alfabeto de
piscagem, ele disse, rindo. O problema é que demora à beça. Agora escuta esta: sabe
onde o Leitor guarda o dinheiro dele? Dentro do colchão. Até português tem conta em
banco, explica isso para ele, Reizinho. O cara vivia me dando aula do mundo moderno,
computador, o escambau, e guarda dinheiro em colchão? Tenha dó.
A ideia de pedir a ajuda de Leitor para levantar o dinheiro da fuga surgira duas
semanas antes. Pensara em falar com Marta, mas o próprio Jonas, que lhe vendera a
fuga, o orientara para que evitasse envolver a mulher. O problema das mulheres,
dissera Jonas, é que elas falam, não conseguem ficar quietas. E isso não tem nada a
ver com sacanagem. Mulher é assim mesmo. Nascida para falar. Você conta hoje,
amanhã o Berimbau inteiro vai estar sabendo. E isso pode até melar nosso esquema,
você sabe, não corremos risco. Fora por esse motivo que José Luís telefonara para o
bar do Onofre, pedindo que lhe levassem o Leitor, no domingo. O bicho parecia uma
criança, comentara Onofre, quando contei que você telefonou. No momento em que
ficaram a sós, José Luís fora direto ao ponto. Preste bastante atenção e me responda,
Leitor: você ainda tem aquele dinheiro guardado? Leitor piscou, confirmando. Ótimo.
Agora escuta: preciso de dez mil, você me arruma? Leitor piscou novamente. Muito
bom, porra. Valeu. Outra coisa: podemos confiar no Onofre? Leitor fechou e abriu os
olhos demoradamente. O que quer dizer isso, porra?, perguntou José Luís, é sim ou
não? Sim, piscou Leitor. Sim. Ótimo.
Agora, o dinheiro estava ali, disponível, graças aos amigos Onofre e Leitor, que
haviam sido sensacionais, porra. Vou devolver cada centavo, garantiu José Luís.
Tudo o que José Luís conseguiu fazer nos dias seguintes, depois de repassar o
dinheiro para Jonas, foi gastar seu tempo pensando na fuga. Ouvira histórias
espetaculares sobre fugas de presídios. Fugas através de túneis cavados durante
anos, fugas em helicópteros roubados de pilotos que ganhavam dinheiro oferecendo
voos panorâmicos para turistas, fugas em barcos a remo, em ambulâncias ou em
peruas de lavanderia. Mas nenhuma, na opinião de José Luís, era melhor do que
aquela em que o detento saía tranquilamente pela porta da frente. Escapar, andando
pela calçada, numa boa, livre. Coisa boa, porra. A primeira coisa que quero fazer
quando sair daqui é foder você, dissera para Marta, na sua última visita. Animal, ploc.
Foder o dia inteiro, até meu pau ficar todo esfolado, dissera José Luís. Ploc, é mesmo?
Pois então acho bom você me engravidar, quero ter um filho, estou naquela fase, ploc,
que não posso ver um carrinho de bebê, já fico babando. Você quer?, ela perguntara.
Quero tudo. Bundar. Ver televisão até de madrugada. Jogar conversa fora com Onofre.
Ir à praia. Fazer picas. Quero comer a feijoada da minha vó. E quero também sair na
nossa varanda e mijar, olhando o céu, dissera, lembrando-se de Fake. Que idiota,
respondera Marta, rindo. O Fake, dissera José Luís, e se calara depois, desistindo de
contar o resto da história. O que tem o Fake?, perguntara Marta. Nada. Fala, ploc,
quero saber. O Fake gostava de mijar na rua, explicara José Luís, num tom menos
entusiasmado. Ploc, que coisa. Ficaram em silêncio, algum tempo, de mãos dadas.
José Luís, às vezes, não conseguia deixar de pensar em Fake. Lembrava-se do
tempo em que eram amigos inseparáveis, os dois fumavam maconha e tinham acessos
de riso, ouviam música, porra, que merda. Dava-lhe um desgosto enorme lembrar de
Fake se ajoelhando no lixão. Não se ajoelhe, eu te arrebento os miolos aqui mesmo,
cara. Levanta e corre. Fake implorando, brother, não faça isso, estou limpo, cara. Fake
correndo, tropeçando, puf, puf, caindo morto. Não podia mais fechar os olhos, os
pensamentos o atacavam, e diferente de quando era garoto e capaz de permanecer
horas e horas fantasiando coisas deliciosas, passeios com o pai em lanchonetes
modernas, carros velozes, banhos de mar, agora, na cadeia, desenvolvera uma grande
capacidade de imaginar coisas ruins. Fake caindo morto. O helicóptero da fuga
explodindo no ar. Policiais invadindo sua casa, prendendo-o novamente. Tiros nas
costas. Morte instantânea. Fogo, tudo se acabando. Não conseguia parar de pensar
coisas ruins, a não ser que se ocupasse com algo, conversasse com os amigos de
cela, falasse alto, contasse histórias, jogasse futebol, mas tudo aquilo o deixava
completamente cansado, farto. Não aguento mais, dissera para Jonas. Quero ir
embora desta bosta, rápido.
Na quarta-feira, os presos foram liberados para o banho de sol mais cedo, por causa
das altas temperaturas dos últimos dias. Não havia nenhuma sombra, e os presidiários
botavam camisetas ou até mesmo shorts na cabeça, para se protegerem do sol de
dezembro. José Luís estava meio adormecido, quando dois policiais vieram buscá-lo
para depor na décima quarta delegacia, onde fora instaurado o inquérito policial. Era a
primeira vez que deixava o presídio. Não estou sabendo de nada, porra, quero avisar
meu advogado, pediu. Na saída, permitiram que ele desse um telefonema.
Parece, comentou o advogado, quando se encontraram no corredor da delegacia, a
caminho da sala do delegado, parece que existe uma outra denúncia contra você, estão
te acusando da morte do Miltão. Não sei o que esse delegado quer, talvez ele abra
outro inquérito. Pode ser também que ele inclua a nova denúncia no mesmo inquérito.
Ajeita sua camisa, ele disse, quando estavam entrando na sala onde o escrivão e o
delegado aguardavam para tomar a termo as declarações do traficante. Pode sentar,
disse o delegado, indicando a cadeira em frente. E foi então que tudo ocorreu. Nem
José Luís esperava que fosse tão fácil. Porra. Pensava ainda no que iria dizer, quando
quatro homens armados com metralhadoras invadiram a sala, ameaçando os policiais e
anunciando o resgate. Na sequência, mais cinco homens ocuparam o local,
desarmando os policiais. Todos foram levados para o banheiro e algemados.
José Luís saiu pela porta da frente, protegido pelo grupo. Pegou um táxi, sozinho, e
sumiu no trânsito.
31

V ocê está recebendo material de primeira. É leve e resiste até a tiro de


metralhadora, explicou o ex-PM, que abrira o porta-malas de seu Monza azul-
metálico para mostrar a Marta os coletes à prova de bala vindos especialmente de
Miami. Mas só vendo o pacote, ou leva tudo ou nada feito. Marta experimentou o
equipamento, que ficou grande demais em seu corpo miúdo. É que a moda é outra,
dona. A moda é não morrer, compreendeu? Tamanho único. E só temos preto também.
Marta não gostou do comentário. Ploc. Estava farta de piadinhas do tipo você-não-
entende-nada-porque-é-mulher. Ploc. Quando negociava drogas ou armas, quando se
reunia com seus homens ou líderes de outros morros, sempre havia alguém disposto a
fazer críticas maliciosas a seu respeito pelo fato de ser mulher. Nunca vi, dissera-lhe
um dos traficantes, mocinha bonita assim passeando por aí com fuzil israelense. Ploc.
Idiota. Mudara completamente seu visual e atitude por causa daquele tipo de
preconceito. Agora se vestia como um homem, calças militares, tênis, camisetas
largas, o cabelo curtíssimo e boné. Esforçava-se para falar como homem, andar como
homem, sou um cara justo, dizia nas negociações. Lidava com “essa gente” olhando-os
nos olhos, empedernida, ameaçadora, exatamente como fazia seu pai. Zequinha era
infinitamente superior àqueles pés-rapados, ploc, que apareciam na sua casa. Tratava-
os como seres desprezíveis. Você tem que colocar o sujeito no seu devido lugar, dizia
Zequinha. Sujeitinha. Ralé. Marta também se sentia superior àqueles “ignorantões”. Um
bando de bostas, dizia para Priscila, isso é o que eles são. Em qualquer lugar que
entrasse, era sempre a melhor. Muito melhor que qualquer líder que conhecera. Até
melhor que José Luís, mil vezes melhor. Ploc. Quando fora obrigada a assumir os
negócios, por causa da prisão de José Luís, encontrara uma total desorganização no
tráfico. Desperdício de dinheiro e burrice, isso era o que não faltava. Ploc. Me deixa ver
aquele outro colete, ela pediu. Ploc.
O que mais a irritava era perceber o quanto as pessoas haviam mudado em relação
a ela. No tempo em que era apenas a mulher de José Luís, tudo era muito diferente,
tudo fácil, simples, todo mundo adulando, ploc, e agora que era a dona do morro, ploc,
poderosa, sentia que não gostavam dela. Criticavam-na. Ploc. No tráfico só tem
analfabeto, gente burra, dizia para Priscila, sua irmã. E o problema todo é que eles não
toleram receber ordens de mulher. Só estão acostumados a lidar com mulher em duas
situações: na cozinha e na cama. Chego eu, ploc, sabida, esperta, eles não entendem
nada. Ficam desnorteados. Sim, ploc, talvez tivesse sido rude demais com as três
“pirralhas” amantes de José Luís. Mas ficara totalmente possessa ao descobrir que
José Luís pagava casa e comida para cada uma daquelas adolescentes
“Combriguentas”. Recebera uma carta anônima onde a “nojeira toda” fora revelada.
Marta desalojou as meninas, e raspou a cabeça das três, antes de enxotá-las do
morro. Durante três dias seguidos, não se falou em outra coisa no Berimbau. Mas o
que queriam que ela fizesse? Tolerar aquilo? Que chefe tolerante é respeitado? Não.
Agira corretamente. Arrependia-se de não ter espancado a mais preta de todas, aquela
que dissera: você não é a gostosa que está pensando. Filha da puta do inferno. Volte
aqui, ameaçara, e eu taco fogo nessa sua boceta de Bom Bril. Sem falar da Kelly, “a
monga”. Todos, na favela, preferiam Kelly a Marta. Morriam de pena da Kelly. A gorda,
sempre com cara de infeliz. Ploc. Coitada da Kelly, diziam. Marta odiava aquele lugar,
essa era a verdade. Ploc.
E então, moça, vai levar ou não?, perguntou o ex-PM, referindo-se aos coletes. Ploc,
estou pensando, respondeu Marta, irritada. Deveria ter se mudado para o morro dos
Marrecos, e de lá, da casa paterna, comandar o esquema. Mas em vez disso cometera
a “burrice” de trazer a irmã Priscila e a avó para morarem com ela no Berimbau. Ploc.
Não suportaria viver na casa do pai, ver as coisas dele espalhadas pela casa, objetos,
era muito triste. Ploc. Não gostam de mim, ela reclamava sempre, para Priscila. E
então, dona? Isto aqui é como o McDonald’s, tem que ser rapidinho, insistiu o
comerciante de armas. Ploc, o imbecil. Uma hora teria que matar um cara daqueles,
ploc, na frente de todo mundo. Coloque essa tralha no meu carro, pediu para Cachaça.
Quanto é que custa tudo isso?
Quando estavam na avenida Brasil, Cachaça no volante, Marta pediu para entrar no
primeiro posto de gasolina. Discou para Informações, quero o telefone do Disque-
Denúncia, por favor. Na sequência, telefonou e delatou o traficante de armas.
Assim ele aprende a tratar mulher direito, ela falou para Cachaça, quando entrou
novamente no carro. Cara besta.
O carro de Marta subiu lentamente as ruelas íngremes do morro do Berimbau, por
causa dos transeuntes. Muito antes de chegar em casa, antes mesmo de ver os
cachorros de José Luís diante da porta da cozinha “latindo felizes”, ela intuiu o motivo
de tanta agitação.
José Luís estava embaixo do chuveiro, quando Marta entrou no banheiro. Tira a
roupa e vem aqui, ele disse.

Essa feijoada, explicou Onofre, espetando os nacos de carne-seca, linguiças e


toucinhos mergulhados no feijão-preto, essa feijoada é a autêntica, eu mesmo cozinhei.
E o Leitor me ajudou, não é, Leitor? Leitor emitiu um som curioso, essa espécie de
relincho, explicou Onofre, é risada, agora ele ri assim. Laranja, couve, arroz, farofa de
ovo, aqui tudo é de primeira. Onofre estava muito satisfeito por ter preparado uma
“festança daquela” em apenas uma tarde. Várias mesas haviam sido colocadas na
quadra de esportes, aonde todos os moradores chegavam para cumprimentar o líder
recém-saído da prisão, que andava feliz entre os convidados, puxando Marta pelas
mãos. Ângelo, o pastor, era o mais animado de todos. Porque a nossa igreja, agora,
precisa fazer shows, até os católicos já sabem disso. A nova mística é ativa, ele disse.
Porra, do que ele está falando?, perguntou José Luís, rindo, no ouvido de Marta.
Shows, continuou o pastor, é simples, os cultos hoje têm que ter uma estrutura de
show, de espetáculo. Esse padre novo, que anda fazendo sucesso por aí, só veio
confirmar minha teoria de que hoje os fiéis querem outros tipos de liturgia, mais
sensoriais. Temos que colocar o pagode no nosso culto. O rap. O samba. Antes que os
outros comecem a fazer rap em latim. É dinheiro que você quer?, perguntou José Luís.
Não, não, não se trata de dinheiro, mas temos que popularizar nossas atividades.
Claro, para isso precisamos de dinheiro. Uma quantia razoável. Pensei em gravar um
cd com o hino “O rap de Jesus”. Você já ouviu? As crianças aqui só cantam esse rap.
José Luís odiava aquele tipo de pessoa, que insistia em conversar seriamente durante
as festas. Festa é para rir, porra. Beber. Comer. Porra. Diversão. Vamos, Marta,
vamos provar a feijoada. O pessoal da escola quer te mostrar o samba-enredo, disse
Cândida, tirando o neto das mãos de Marta. Marta tentou acompanhá-los, mas foi
sendo bloqueada pelo cordão de figurinistas, aderecistas, passistas, percussionistas e
mais outros tantos “lambe-cus que só estão aqui para arrancar dinheiro de José Luís”.
De repente, ela ficou sozinha, no meio da quadra, nem os gerentes, nem os
embaladores, os pivetes, ninguém lhe dava muita atenção, ninguém se comportava
como se ela fosse a líder do morro, sim, líder, ainda era a líder, ploc, o fato de José
Luís ter voltado não significava nada. Continuaria líder, e por direito, afinal, pertencera
ao Zequinha uma grande quantidade de bocas que hoje José Luís gerenciava. Teria
que acertar isso com José Luís. Dinheiro. Quem cuidaria do quê? Bostas. Ploc. Dividir
territórios. Passavam por Marta como se ela fosse uma daquelas putinhas que os
traficantes comem, oi, diziam, secamente, correndo logo para adular José Luís, ploc,
finalmente você está de volta, aí, cara, valeu, repetiam, agora, sim, agora o Berimbau
vai para a frente. Quem é ela/ Ale-Ale-Aleijadinho, o rei da arte mulata,/ Ale-Ale-
Aleijadinho, filho da escrava Isabel,/ é Antônio Francisco Lisboa,/ teu Brasil de arte e
ouro,/ Brasil perfeito tesouro, cantavam os sambistas. Marta se sentiu deslocada no
meio daquelas pessoas, suas costas estavam doloridas, ela e José Luís haviam feito
amor embaixo do chuveiro, José Luís a prensara contra a parede com força, e a
torneira a machucara bastante. Irritava-se ao pensar nisso, que ele a machucara. Sim,
e doía muito. Ploc. Lembrou-se do mal-estar que se criara na hora que estavam todos
na cozinha, Marta, José Luís, sua avó Noemi e Priscila, acho muito bom, porra, dissera
José Luís, que sua família more aqui. Priscila, a casa é sua, repetira diversas vezes.
Porra, só faltava essa, eu, seu marido, achar ruim que você traga a sua avó e irmã
para morarem com a gente. Eu seria um idiota, se não concordasse. Você devia ter me
dito antes, porra, numa boa. José Luís, por três vezes consecutivas, trocara o nome de
sua avó, dona Eva, dissera. Ema. Erci. Noemi, corrigira Marta, agastada. Ale-Ale-
Aleijadinho. Cara burro, ploc. Adoro a dona Noemi, porra, acho muito bom ter a minha
família morando junto comigo, dissera. Talvez fosse até bom trazer o meu pai, o que
vocês acham? Noemi e Priscila permaneceram caladas, e logo arranjaram um pretexto
para sair da mesa. Marta se sentiu muito constrangida, estivera por muito tempo
confusa em relação aos seus sentimentos, mas agora, ali, na festa, compreendera tudo
perfeitamente. Estava com raiva de José Luís. Eu, dissera Priscila, jamais vou perdoar
esse bosta por ter matado nosso pai. Você diz que ele é isso e aquilo, que ele não tem
culpa, pode até ser verdade, mas quando olho para a cara dele, só vejo um assassino,
falou Priscila. Você não avisou que ele voltaria para cá, comentara a avó. Estavam
cheias de razão, as duas. E por que demorara tanto para perceber aquilo? Durante
todo aquele tempo se esforçara para acreditar que amava José Luís, e talvez ainda o
amasse, sim, amava-o, era bom se deitar com ele na cama, mas Priscila estava
coberta de razão. Assassino. Mulherengo, sustentando três crioulas. Sim, amava-o,
mas havia sempre aquele ódio. Idiota. Pensa que é o tal, ploc. Até mesmo a maneira
como ele sambava era exasperante. Além do mais, José Luís poderia perfeitamente ter
agradecido a Marta pela dedicação, mas não, estava lá, sambando. Fazia quanto
tempo que não havia sequer uma invasão na favela? E por quê? Porque ela, Marta,
adotara uma outra política em relação à polícia, a política de gastar dinheiro de
verdade com os corruptos. Sim, porque aquilo que José Luís fazia no início, dar
trocados para uns bundas-sujas, não surtira efeito nenhum. Marta gastara muito
dinheiro, comprara as pessoas certas, delegados, chefes, e não “policialzinho
interessado em engordar o salário”. E José Luís, ainda que não soubesse das
novidades (nem que seus lucros haviam dobrado desde que ela asumira), devia lhe ser
muito grato. Muito. Mas não. Desde que chegara não dissera nenhuma vez obrigado.
Ale-Ale-Aleijadinho. Marta se sentiu feliz por ter tomado certas atitudes. O rei da arte
mulata. Abrira uma conta em seu nome, e não dissera nada a José Luís. Ale-Ale-
Aleijadinho. E também comprara dois terrenos em seu nome. Filho da escrava Isabel.
E nada dissera. Agira corretamente. E comprara também os novos aliados. Brasil
perfeito tesouro. Tudo vai dar certo. Seria a líder do Berimbau em muito menos tempo
do que aqueles bostas poderiam supor. Ploc.
Procura-se este macaco. O cartaz mostrava a foto de Denilson, e oferecia
recompensa para quem o entregasse aos traficantes. Vivo. Gostei da ideia, disse José
Luís depois de analisar o cartaz. Macaco. Riram. Olha aqui, Marta, ele disse, vamos
espalhar esse cartaz por todas as favelas, o que você acha? Ploc, é, legal, ela
respondeu. Mas não vai adiantar nada, Denilson não vive mais no Rio de Janeiro. Como
você sabe?, alguém perguntou, e Marta se irritou com aquilo, um zé-ninguém querendo
desafiá-la. Sei porque me informei. Foda-se, disse Cachaça. Pegamos o cara no Pará.
Na Bahia. Vai morrer, esse puto, não foi ele que armou tua prisão, Reizinho? Isso não é
simples assim, disse Marta, num tom áspero, irritada porque Leitor não tirava os olhos
de cima dela. E nem acho, Zé, que esse assunto deva ser discutido aqui, com estas
pessoas. Guerra com polícia é assunto muito sério. nós temos que resolver esse
assunto. Parece até que ela não quer pegar o Denilson, alguém disse, e Marta não
conseguiu identificar a voz. Ploc. Putos. Melhor não levar a conversa adiante. Vou
beber alguma coisa, ela disse para José Luís.
Você viu a cara de bunda da Marta?, perguntou Kelly, aproximando-se de Carolaine,
que estava sentada a uma mesa, devorando o segundo prato de feijoada. Não que
estivesse boa, a feijoada, nem sequer conseguia sentir o sabor das carnes. Quando
estava nervosa, comia compulsivamente. Passara o dia comendo, duas caixas de Bis,
uma lata de leite condensado, duas bacias de pipoca. Estava chocada com o que
ocorrera naquela tarde. Fora até o caixa automático para sacar dinheiro e ficara
horrorizada ao ler na tela do monitor: saldo insuficiente, o que era aquilo? Saldo
disponível, onze reais. Só podia estar quebrado, o caixa. Onze reais. Havia muito
dinheiro naquela conta, muito mais que onze reais, uma bolada de verdade. Dona
Juliana havia doado uma boa soma para que Alzira não trabalhasse durante anos. Muito
dinheiro. Sim, mas tudo foi sacado, explicou a gerente, mais tarde, quando ela foi até a
agência. Olha aqui seu extrato. Saque no dia 2. Saque no dia 3. No dia 4. Três saques
no dia 7. Mais dois saques no dia 9. Acabou. Carolaine não se conformou. Sim, gastara
um pouco de dinheiro com as compras de Natal, mas não era possível que o dinheiro
acabasse daquela maneira. Justo naquele dia, que sua mãe mandara comprar mais
remédios? Cadê meus remédios?, perguntara Alzira, na volta. Mãe, respondera, o José
Luís saiu da prisão. Vai ter uma festa hoje, para ele. Alzira se sentiu tão realizada,
soltaram ele? Que bom, foram as minhas preces. Deus venceu. Alzira não podia mais
andar, havia três dias que a ferida inchara demais, que pena que não vou na festa.
Será que ele vem me visitar, Carolaine? Hein? Talvez agora, depois de sofrer na
cadeia, José Luís finalmente se entregasse para Deus.
Ouvi dizer, continuou Kelly, sem se incomodar com o ar ausente de Carolaine, ouvi
dizer que a Dirce, a mãe de Suzana, tem algumas coisas para contar para o José Luís.
Estou achando muito estranha a cara da Marta. Será que eles brigaram?
A festa continuou por toda a noite, os amigos não deixaram José Luís um minuto
sequer. Todo mundo tinha algo para lhe dizer, perguntar, oferecer. Vou ler esta carta,
disse Onofre, e você me diz o que acha. Escute: “Onofre baleia, aí vai uma poesia que
escrevi com Augusta, inspirada num autor muito famoso, que a Augusta adora. (Eu já te
falei que a gente devia apresentar a Augusta para o Leitor?) É assim: ‘Os alemães e
suas cidadezinhas mimosas e casinhas perfeitas os alemães e suas alamedas floridas
ou cobertas de neve fofinha os alemães e suas botas os alemães e suas geleias e
supermercados e velhinhas e filhos loiros e olhos azuis enfim os alemães os alemães os
alemães e seus cus fedorentos.’ Um beijo. Rosa Maria.” Você entendeu isso, Zé?
Porra, José Luís riu bastante, cus fedorentos, isso é forte. Por que será que a Rosa
Maria está falando mal da Alemanha?, perguntou Onofre, desapontado. E que escritor
é esse com quem ela anda saindo? Muito estranho, ele disse. Famoso. Estou
preocupado. Quanto é que você acha que custa um telefonema para a Alemanha?
Quando quase todos os convidados tinham deixado a festa, Marta chamou José
Luís, alertando-o de que era melhor saírem antes que o dia raiasse. Eu te levo, ela
disse. Levar para onde?, perguntou José Luís. Para a cobertura, ela respondeu, ploc,
acho melhor você voltar para lá. Ou para um hotel. Vou ficar, disse José Luís, vou ficar
aqui mesmo. Aqui?, ploc. Mas a polícia toda do Rio está atrás de você. Ploc. Por isso
mesmo, aqui ninguém me pega, falou José Luís, beijando Marta. Vou ficar.
Onofre pediu que José Luís o ajudasse a levar Leitor para casa. O pneu direito desta
roda está uma porcaria, tem que ser no muque.
A noite estava fresca, agradável. Nos trechos mais íngremes, Onofre e José Luís
carregavam a cadeira, vamos comprar uma cadeira elétrica, disse José Luís. Elétrica,
Onofre não parava de rir, vamos eletrocutar o Leitor? Não adianta nada, cadeira
automática, nessa buraqueira toda, só mesmo uma cadeira anticapotante.
A porta do barraco estava aberta. Onofre e José Luís entraram com dificuldade,
precisamos alargar esta entrada, comentou José Luís. Montes de livros espalhados por
todo canto, um cheiro azedo. Ninguém limpa esta joça?, perguntou o traficante. Porra,
que bodum. Ninguém no Brasil é mais mão de vaca do que o Leitor, zombou Onofre.
Com o dinheiro que está aí no colchão dava para ter sete faxineiras por dia. Viu a
piscagem? Nós agora nos comunicamos muito bem, ele disse, referindo-se à maneira
como Leitor piscava os olhos. Ele quer te falar alguma coisa. Você vai entender agora
como é que funciona o alfabeto da piscagem. Pode falar, Leitor. Cada letra, uma
piscada, Reizinho, preste atenção. Pode começar. Leitor piscava depressa, calma,
Repolho, não sou calculadora eletrônica. Devagar. Pisca. 3, c, 21, u, cu, 9, i, cui, 4, 1,
4, 15, cuidado. Cuidado com o quê? 13, 1, 18, 20, 1. Marta. Cuidado com a Marta.
Foi isso que ele falou, disse Onofre, sem graça.
José Luís se agachou diante da cadeira. A Marta está me traindo, é isso? Porra,
pisca, se for isso. Leitor piscou. Porra. Não me faltava mais nada. É homem? Não, não
é. Ela está me traindo no esquema, é isso? Leitor confirmou. Caramba, Leitor, você vai
ter que me explicar, direitinho, tintim por tintim, pode começar a piscar.
32

F aço o que me der na telha, e homem nenhum manda em mim. Ele abriu os olhos e
viu Marta, ao seu lado, as pernas bronzeadas, short vermelho, e você vem comigo,
ela disse, estamos atrasados. Depressa. Eu estou no comando. Ploc. Eu. Há uma
reunião, agora, com Gavião, ela falou. Vamos fazer um negócio muito bom. Muito
dinheiro. Ri ri ri. De quem era aquela risada? Muito lucro para você. Ele tentou mover
os braços, mas era como se estivesse preso à cama, paralítico, as pernas não
respondiam, nem as mãos, os pensamentos confusos. Ploc, o que há com você?,
perguntou Marta. Ploc. Vai ficar aí, me olhando com essa cara de sonso? Levante-se.
Estou cansada de flaader giutar futr. Agora, a voz de Marta parecia pastosa, e não era
possível identificar exatamente a razão de sua ira. Você guartirmir furncal,
compreende? Mais ao fundo, perto da porta, Priscila e a avó observavam a cena, de
braços cruzados. Elas ficarem olhando o deixou irritado. Tentou explicar isso para
Marta, porra, não tinha nenhum problema elas morarem lá, comerem lá, viverem lá,
mas, porra, que parassem de olhar. Que saíssem dali. Porra. Queria dizer isso, mas a
voz também não saiu. Marta começou a rir, ploc, você está com medo, ela disse. É
isso. Medo de morrer, medo de mim, eu sei. Medo que eu meta um balaço na sua
cabeça. Só então ele notou o revólver na mão de Marta. Você vivia me dizendo que não
temia nada, ela continuou, mas agora, ploc, está aí, se cagando todo. Isto aqui, ela
falou, apontando a arma para a cabeça dele e disparando, é pelo meu pai. Ploc.
José Luís acordou do pesadelo, exatamente no momento do disparo, sentando
bruscamente no sofá, onde havia passado a noite.
Eram duas da tarde, e embora tudo estivesse fechado na casa do Leitor, o sol
entrava pelos buracos e frestas do telhado. Permaneceu mais alguns minutos
recostado no sofá, olhos fechados, ouvindo a gritaria das crianças na rua, enquanto
tentava organizar os pensamentos e decidir o que fazer. Leitor já havia saído. Quero
saber tudo tintim por tintim, dissera ao amigo na noite anterior, tudo o que você sabe
sobre Marta. Porra. Mas Leitor não sabia nada. E o tal método de piscagem inventado
por Onofre era uma “bosta completa”. Simplesmente enlouquecedor, concordara
Onofre. Fora preciso um tempo enorme para que Leitor dissesse apenas estas
palavrinhas: cuidado com a Marta. O que incomodou José Luís foi a conversa que ele
teve depois com Onofre. Veja bem, de concreto, dissera Onofre, ninguém tem nada
contra Marta. Em compensação, desconfiança é o que não falta. Ela e Gavião vivem de
teretetê. A gente conhece mulher ruim, só pela maneira que ela matraca no telefone.
Olha só a Marta no telefone, ele disse, adotando uma voz evasiva: é. Não. É. Sei. Vou.
Sim. Não. Muito estranho. Parece que está falando com amante. E, depois, o que ela
aprontou com aquelas suas menininhas, aquelas gracinhas que você comia, foi
sacanagem. Colocar as garotas na rua, humilhar daquela forma, deixar carecas, as
meninas. Sem um fio de cabelo. Desculpe a sinceridade, mas o problema da Marta é
ruindade pura. Vá chamar o Paula e o Cachaça, pediu o traficante. Eu não chamaria
ninguém, respondeu Onofre. É a minha opinião. A verdade é que não sabemos o que
se passa por aqui. Não sabemos mais quem é quem. O Cachaça também adotou o
jeito de Marta falar no telefone, é, não, é, sei, vou, sim, não, a gente escuta o homem
tagarelando e não consegue descobrir absolutamente nada. Nadíssima.
Ao tirar Leitor da cadeira de rodas para botá-lo na cama, Onofre notou um envelope
azul enfiado no assento, é isso que ele estava querendo dizer, comentou o
comerciante, abrindo o envelope. É para você, da Dirce, mãe de Suzana. Leia, pediu
José Luís. “Venha falar comigo por favor é urgente é segredo não quero morrer como
morreu minha filha não comente com a Marta. Endereço: rua Santa Clara, 254, apto. 7.
Dirce.” Só isso?, perguntou José Luís. Só, respondeu Onofre, agora entendo por que
Leitor estava tão agitado, ele queria te entregar esta carta.
José Luís relembrava os episódios da noite anterior. Lembrou-se da conversa dele e
de Marta, pouco antes de fugir da prisão. A primeira coisa que quero fazer quando sair
daqui é foder você, dissera, animado. Animal, ploc. Foder o dia inteiro, até meu pau
ficar todo esfolado, dissera José Luís. Ploc, é mesmo? Pois então acho bom você me
engravidar, quero ter um filho, estou naquela fase, ploc, que não posso ver um carrinho
de bebê, já fico babando. Você quer?, ela perguntara. Um filho. Como alguém pode
dizer isso, quero um filho seu, e depois te trair, assim, numa boa? Porra. Impossível.
Todos estavam contra Marta. O seu medo, quando Leitor falara em traição, fora de
que houvesse um homem na vida dela. Isso, sim, seria traição. Mas ela dissera, quero
um filho seu. Porra. A questão, no meu ponto de vista, dissera Onofre, é a seguinte:
Marta está ou não do seu lado? Se estiver, tudo bem. Mesmo roubando, tudo bem.
Pode roubar uns trocados, todos roubam. Se não estiver do seu lado, bem, aí é merda,
quem não está comigo, está contra mim, diz o ditado. Em outras palavras, você está
marcado e pode morrer a qualquer momento, inclusive agora, alguém entra aqui, e
pronto, foi-se. Não é assim que fazemos? Aliamos, matamos e traímos, tudo num
piscar de olhos? Essa é a grande questão, dissera Onofre. Tenho estado com você o
tempo todo, sempre apoiei a sua turma. Não quero ninguém do morro dos Marrecos
para estas bandas. Estou preocupado. Preocupadíssimo.
José Luís não gostou daquela baboseira toda, considerou “abusada” a atitude de
Onofre, atacar Marta, sua esposa, quem ele pensava que era? Sim, Onofre o ajudara
muito, graças a Onofre pudera armar sua fuga da prisão, isso era uma coisa, porra,
outra, completamente diferente, era Onofre começar a dizer, nós matamos e traímos,
nós isso e aquilo, porra, que idiotice era aquela? Onofre vendia empadas, só isso. E
Marta queria um filho seu. Porra.
O bilhete de Dirce estava no bolso da calça, José Luís o leu novamente. Não
comente com a Marta. Por quê? E se tudo aquilo fosse apenas um zero, um nada,
insignificâncias? Talvez Dirce quisesse apenas dinheiro. Era bem possível. Até onde se
lembrava, ela sempre vivera às custas de Suzana. Um filho, porra.
Quando saiu do barraco, um pivete veio lhe dizer que a Marta estava à sua procura.
Desceu as ruas, a boca seca. Teve uma sensação desagradável, tudo está errado,
pensou. Poderia ter voltado para casa, dormido com Marta. Nada havia mudado, afinal.
Parou na farmácia, procurou no bolso o papel que Carolaine lhe entregara na noite
anterior, com os nomes dos remédios de Alzira. Havia perdido. Porra.

Cristo proibia a vaidade, e por isso Alzira não era vaidosa. Nada de batom, brincos,
anéis, nenhum tipo de bijuteria, Alzira usava apenas um crucifixo de prata, que dona
Juliana lhe dera de Natal. Mas quando recebia visitas em casa, ou quando ia à missa,
gostava de trajar o vestido azul-marinho, de poliéster, que, apesar de quente, deixava-a
“bem-apessoada”. Gostava principalmente de estar de banho tomado, com os cabelos
molhados. Muitas vezes, antes de ir para a igreja, ao notar diante do espelho que sua
cabeleira encarapitada já havia secado, molhava-a novamente, na pia, pois somente
assim se sentia “arrumada para sair”. Limpeza, para Alzira, era tudo. Nada lhe dava
mais alegria do que sentir o cheiro da água sanitária, vindo das calçadas lavadas pelos
serventes dos prédios, quando andava cedinho pelo Leblon, na época em que
trabalhava. Adorava, depois de um dia de faxina, entrar no chuveiro e se lavar, esfregar
as unhas, vestir roupas limpas. Por isso ficou tão contrariada naquela tarde, ao receber
o filho, de surpresa. Pés no chão, o vestido velho molhado na barriga, a mão cheirando
a cebola, entra, ela disse. Se soubesse que José Luís viria, teria tomado banho. Teria
ao menos posto uma gaze para cobrir a ferida na perna, José Luís se impressionou
com o tamanho da lesão. Porra, mãe, cresceu muito. E dói, dissera Alzira, dói muito,
isso só para de me azucrinar quando Deus interfere, rezo, rezo, rezo, a dor passa
todinha. Jesus vai resolver isso, explicou.
O almoço foi barulhento por causa das crianças, José Luís praticamente não comeu
nada, passou todo o tempo fazendo aviãozinho para Júnior, e mostrando fotos dos
jogadores do Vasco para Alas, ensinando os nomes. Alzira aproveitou o momento em
que eles foram comprar sorvete e se meteu rápido no banheiro, ajeitou o cabelo com
água, quando José Luís voltou, estava “mais apresentável”. Ficaram na sala algum
tempo, Alzira contou de Carolaine, o nenê nasce antes do Natal. Vai se chamar Alex se
for homem, continuou Alzira. Você gosta de Alex? É o nome de um rapaz da novela. Eu
queria que fosse Moisés. Mas ela disse que Moisés é nome de velho.
Antes de ir embora, José Luís exibiu um maço de notas que pegara na casa de
Leitor, trouxe isso para a senhora, ele falou. Alzira não aceitou. Não precisamos, meu
filho. Estamos bem.
Não entendi, comentou Alzira, mais tarde, intrigada, quando Carolaine chegou do
médico, onde fora fazer os exames de pré-natal, não entendi por que José Luís veio
com aquela conversa. Ele sabe muito bem que Deus é contra aquele tipo de dinheiro,
não posso aceitar, dinheiro sujo, de tráfico. Mas Carolaine não ouviu as lucubrações da
mãe. Nada era capaz de tirar Carolaine do transe quando ela assistia às reprises das
telenovelas no Ver e rever. Principalmente agora que Vitória casaria com Henrique.
Saíra em disparada do posto de saúde só para não perder o último capítulo. Já vira
Vitória casar com Henrique uma vez e não perderia a reprise por nada do mundo. Pena
que as novelas nunca mostravam o depois. Seria muito bom ver o dia a dia deles, dos
artistas, Vitória e Henrique casadinhos. O que fariam num sábado à tarde? O que
comeriam na hora do almoço? Por que a televisão não fazia uma novela dessa forma,
mostrando a vida, os atores cuidando dos filhos, cozinhando, namorando. Sempre se
sentia um pouco deprimida quando as novelas terminavam, uma sensação de que as
coisas correriam prósperas, sem que pudesse participar de nenhuma forma. Mesmo
que tudo ficasse bem, nos capítulos finais, mesmo com Leleco e Vânia namorando,
Pedro e Valentina em Veneza, mesmo com o seu Alfredo desmemoriado, vivendo com
a filha, Carolaine se sentia triste no fim. Levantou-se do sofá, as crianças pedindo
coisas, cala a boca, Alas. Alas já era grande e continuava a bater em Júnior. E depois
que nascesse o outro, seria pior ainda. Ai, que preguiça. Onde o José Luís deixou o
dinheiro, mãe?
Alzira, ao ouvir a pergunta de Carolaine, compreendeu tudo o que ocorrera. Então
você pediu dinheiro para José Luís? Pediu? Claro que não, mãe, ele ofereceu, aceitei,
bolas. Você gastou todo o nosso dinheiro, continuou Alzira, indo para o quarto. Agora
sei por que o Zé veio com aquela conversa. Você esbanjou tudo. Me dá o cartão, vou
no banco, ela falou. Carolaine ainda tentou evitar, mas Alzira estava tão furiosa, me dá
o cartão, ela gritou. Se você gastou todo o meu dinheiro, sua desgraçada, eu acabo
com você. Eu te mato, Carolaine.
Alzira saiu de casa mancando, a perna estava muito inchada naquela tarde. Você não
pode andar com essa ferida assim, disse a filha, do portão. Ai, mãe, volta. Alzira nem
ouviu. Caramba. Agora é que as coisas iam ficar ruins.

Suzana de calça jeans, sorrindo, com Alas recém-nascido nos braços. Suzana e
Carolaine, de biquíni, na praia de Copacabana. Suzana sentada no colo do Miltão.
Suzana, ao lado de Zequinha, no ensaio da escola de samba do morro dos Marrecos.
Suzana e Alzira no batizado de Júnior. Suzana na festa de dez anos de José Luís,
diante do bolo de aniversário. Ela era simplesmente louca por você, Zé Luís, desde o
dia do seu nascimento, comentou Dirce. Foi Suzana quem ajudou sua mãe a dar o seu
primeiro banho. Alzira, às vezes, tinha que tocar minha filha de lá, Suzana só queria
saber de ficar com você no colo. Vai estragar o menino, reclamava Alzira. A Suzana te
amava de verdade.
Sentada no sofá da casa de uma amiga, onde vivia escondida desde o assassinato
de Suzana, Dirce mostrava as lembranças da filha e chorava. José Luís não
desgrudava os olhos da foto que ficara em suas mãos, ele abraçado à cintura de
Suzana, linda, num vestido vermelho, com babados no quadril. Lembrava-se daquele
dia tão perfeitamente que chegava a sentir uma dor no peito, uma tristeza imensa, fora
a própria Suzana quem preparara o bolo, os brigadeiros do seu aniversário de dez
anos, lembrava-se inclusive do momento em que a fotografia fora tirada, vá para perto
de Suzana, dissera a avó, Cândida, e aquilo enchera seu coração de felicidade. Ah,
Suzana, porra. Que merda.
Naquele dia, José Luís ficou sabendo que Suzana morrera porque sabia demais, e
que Dirce fora obrigada a deixar o morro, em virtude das ameaças de Marta.
Desapareça, dissera-lhe a traficante, desapareça antes que eu tenha que te
transformar num bolo de carne moída para os meus cachorros. Dirce contou ainda que
o policial Denilson, durante as investigações que culminaram na prisão de José Luís,
recebera total apoio de Marta, que fora inclusive responsável pela admissão de
Denilson na comunidade. E que também fora Marta quem instigara o policial a se
aproximar de Suzana para obter mais informações sobre o tráfico, alegando que a
moça havia sido amante de um líder do Berimbau e também do Zequinha, do morro dos
Marrecos. Ele chegou aqui dizendo que era gerente de supermercado, e todo mundo
acreditou, inclusive a Suzana, contou Dirce. E o problema é que, depois que você foi
preso, o homem já estava gamado na minha filha, e acabou abrindo o bico. Contou
tudo. Todos os detalhes. Foi a própria Marta quem alugou o barraco para ele se mudar
para o Berimbau. Veja só, a vagabunda. Isso aconteceu na época em que as duas
brigavam pelos bens do Zequinha. Suzana não pensou duas vezes, foi logo enfiando o
dedo na fuça da Marta, disse que visitaria você na prisão e contaria toda “a sujeirada”.
Foi por isso que Marta matou minha filha. Você pode não acreditar em uma única
palavra, mas a Marta é a maior filha da puta que existe na face da Terra. Uma boa
puta, essa Marta. O Denilson desconfiava que ela já tinha até contratado gente de
dentro do presídio para te matar, Reizinho.
A história não ocorrera exatamente da maneira como Dirce apresentou, mas, de fato,
fora Marta quem levara Denilson para a favela. A ideia, no entanto, não fora sua.
Denilson era antigo parceiro de Romeu, investigador policial, sócio de Miltão, afastado
dos negócios logo depois de José Luís ter se tornado líder do morro. Pouco tempo
após a morte de Zequinha, Denilson procurou Marta. Eu era amigo do seu pai, ele
falou, desde o tempo do Onça, quando seu pai era biscateiro. Fizemos muitos negócios
juntos. Vou te dizer o que vai acontecer com o José Luís: nós vamos acabar com a
raça dele. Pensei que você quisesse aproveitar a oportunidade para acertar as contas
pela morte de seu pai. Talvez você queira armar os seus esquemas, me disseram que
você é boa nisso. Da minha parte, seria muito bom para a minha carreira, se eu
pegasse o Reizinho. A minha promoção lá dentro depende desse tipo de serviço, sabe
como é? Podemos trabalhar nesse sentido. Juntos. Marta, na época, não pensava em
matar José Luís, queria apenas que ele fosse preso, queria mostrar que ele não era
tão grande quanto pensava, ploc, que era vulnerável, mas depois, com a prisão de
José Luís, as coisas foram ficando piores, ploc, e ela também foi tomando “gosto pelo
esquema”, e ganhando dinheiro, e também seus sentimentos em relação a José Luís
ficaram mais confusos, à medida que seus negócios com Gavião ficaram mais
complexos.
Você ama o Zé? Amo mais ou menos, ela disse naquela noite, para Priscila,
enquanto aguardava a chegada do traficante. Estava preocupada com a sua demora.
Ficara de voltar depois de acompanhar Leitor, dormiria em casa. Já mandara recados
para Leitor e Onofre. Talvez, argumentou Priscila, ele esteja fodendo alguma dona por
aí. Ou então já desconfia de você. Era isso que preocupava Marta, não estava
preparada para o que ocorrera, se soubesse da fuga de Reizinho, teria conversado
mais com Gavião. Não há, neste nosso negócio, dissera-lhe Gavião, ao ser informado
de que José Luís fugira da prisão, neste nosso negócio não há essa coisa que se
chama “perda de tempo”. Gavião, semanas antes, lhe oferecera homens para a
tomada do morro. Interessava-lhe ajudar Marta, porque depois seria fácil tirá-la de lá,
quando lhe fosse conveniente. No comércio de drogas, minha filha, não pode haver
embaço. Você já devia ter tomado uma atitude. Você quer ou não o morro do
Berimbau? Se quiser, só há um jeito. Matar o cara. Só assim. Que horas são?,
perguntou Marta, preocupada. Quinze para as cinco. Vá, ela disse para um de seus
homens, ache o Reizinho e me traga ele aqui.
Eram quase cinco da tarde quando José Luís deixou o prédio da rua Santa Clara.
Uma situação como aquela era simples de resolver, sabia disso. Simples. Simples. Era
só alugar de algum traficante um bando de soldados, armas, e entrar no morro. Só
isso. Levar todos eles, os traidores, Marta, Gavião e mais todos os outros nomes que
ainda seriam denunciados, para um terreno baldio. Simples. Fuzilar. Porra. Odiava
aquela sensação de desamparo. E de estar sendo perseguido. Porra. Coisas
escondidas. Alguém na tocaia, espreitando. Odiava aquilo. Inimigos, morrer, ter que
matar. Porra. Tinha planos tão bons para quando estivesse fora da prisão, e, agora,
tudo estava muito ruim, muito pior do que antes, era como estar no inferno, um calor do
demônio, a cidade e seus esgotos, as lojas cheias de “porcarias para o Natal”. Porra.
O que mais irritava José Luís eram “esses idiotas vestidos de Papai Noel”. Conhecia
vários deles, no Berimbau. O ano inteiro trabalhando no tráfico, ladrões de carro,
vigaristas, assaltantes de bancos, e no mês de dezembro vinham com aquela história
de mudar de vida. Melhor do que ser preso, diziam. Palhaços. Muito simples, resolver
aquela situação. Mas o problema é que subitamente sentiu uma vontade enorme de não
resolver porra nenhuma, de simplesmente ir embora, abandonar tudo. E Marta, porra.
E o filho que nunca teriam? Jurei, juramos. Porra. José Luís perambulou pelas ruas um
tempo enorme, a cabeça quente, sem saber o que fazer. Muito simples. Matar todos
os traidores. Ou ir embora, para bem longe, não precisava daquela merda, porra.
Poderia muito bem viver sem aquilo. Matar todos, inclusive Marta. Não volte para cá,
disse Onofre, quando ele ligou, mais tarde, de um telefone público. Isto aqui está
estranho para caralho. Muito estranho.

Alô?, disse Marta, ao atender o telefone, José Luís? É você? Eu sei que é você,
José Luís, escute o que tenho para te dizer. Escute, pelo amor de Deus. Volte para
casa. José Luís? Gavião fez sinal, para que Marta maneirasse. Clique, José Luís
desligou o telefone. Queria xingar Marta de puta, vaca, escrota, mas ao ouvir a voz
dela, implorando, achou uma bobagem ter ligado. Foda-se a Marta. Melhor que ela não
tivesse certeza de nada, que ardesse em dúvidas. Desligou o telefone e andou
apressado até a plataforma 14, onde o ônibus da companhia Voo Azul acabara de
estacionar.
Kelly o aguardava, nervosa, você demorou, ela disse, cadê a minha Coca-Cola? José
Luís esquecera de comprar, vou voltar lá, num minuto. Não, disse Kelly, aflita, vá para o
banheiro do ônibus, lá atrás, ela pediu, é melhor, é mais seguro, já vi vários policiais
aqui na rodoviária. Horrível aquela sensação. Fazia três dias, desde que José Luís a
procurara com todas aquelas novidades, que Kelly não conseguia dormir. Esperava, a
qualquer momento, que entrassem na sua casa com pistolas e a levassem para um
mato, como fizeram com Suzana. Sentia-se observada no morro. Decidira que faria
aquilo desde o primeiro minuto em que José Luís lhe explicara tudo. Sim, eu vou,
respondera. E José Luís lhe dera uma lista de coisas para fazer, a maioria delas
relacionada a dinheiro, faça isso, faça aquilo, foi horrível. Temia que a seguissem, que
a capturassem. Graças ao apoio da mãe, fora bem-sucedida. Yolanda é que resolvera
tudo, afinal. E agora tudo estava prestes a acabar, em alguns minutos deixariam a
rodoviária, e pronto, vida nova. Só sentia pela mãe, Yolanda, ah, como chorara, a mãe.
Vá para o banheiro, por favor, José Luís, insistiu Kelly, deixa de ser teimoso pelo
menos uma vez na vida.
José Luís entrou no sanitário do ônibus, sentou-se no vaso e ficou pensando se agira
da melhor forma, se fizera bem em trazer Kelly consigo. Sim. Fizera bem. Gostava
dela, afinal. Tudo estava sendo resolvido da melhor maneira possível, essa era a
verdade.
Esperou o ônibus dar partida, e só quando sentiu que rodavam livres, sem parar nos
faróis da cidade, é que voltou para o seu lugar, ao lado de Kelly.
33

“D ona Juliana escrevo porque minha situação é muito difícil preciso de trezentos
reais urgente para comprar os remédios da minha perna a senhora sabe cortaram
a minha perna por causa da gangrena aquela ferida cresceu muito apodreceu o sangue
e teve que cortar e agora que não presto mais para trabalhar porque sou aleijada
ninguém quer me ajudar por favor só posso contar com a senhora porque os ricos
usam a gente e depois que a gente não presta eles jogam fora por favor me ajuda pelo
amor de Deus, assinado Alzira.” Agora, disse Carolaine, entregando a carta à mãe,
cuja perna esquerda fora recentemente amputada, é só assinar aqui, escreva o seu
nome, e pronto. Mas não quero que você diga isso de usar e jogar fora, comentou
Alzira, referindo-se ao que Carolaine escrevera contra sua vontade. A dona Juliana é
muito boa para mim.
Alex, o terceiro filho de Carolaine, nascido dois dias após a fuga de José Luís e que
agora estava completando seis meses de idade, começou a chorar. Boa? Se aquela
vaca ordinária for boa, retrucou Carolaine, retirando o filho do berço, sou a santa
Carolaine do Rio de Janeiro. Irritada, a moça trocou a fralda da criança, cala a boca,
infeliz. Não dava mesmo sorte com os filhos. Só chorões. Alas, Júnior, e agora esse
“trambolho”, um bebê gordíssimo, pesado, cheio de cólicas e chorão. Um saco, ter
filho. E sozinha, sem pai, sem avó. Desde que Alzira fora operada, Carolaine fazia tudo
sem ajuda de ninguém, lavar, passar e cozinhar, era por isso que nutria um sentimento
tão negativo em relação à dona Juliana. Considerava-a responsável direta por seu
estado lastimável. Afinal, se a mulher fosse razoável, não teria parado de ajudá-las
“sem mais nem menos, de uma hora para outra”. Durante seis meses, Carolaine ligou
regularmente para a antiga patroa de sua mãe, pedindo “dinheiro para remédios”,
dinheiro que era usado para tudo na casa, menos para os medicamentos da úlcera
varicosa de Alzira. Dessa forma é que as duas haviam conseguido sobreviver nos
meses anteriores, quando o dinheiro levantado com a venda dos eletrodomésticos e
“tralhas” que seu irmão José Luís deixara no morro já não era mais suficiente. No último
telefonema, Juliana fora rude com Carolaine, eu acho, ela dissera, eu acho que você
devia trabalhar. O neném já não está com seis meses? Então. Bota na creche e vai
trabalhar. Ah, como Carolaine odiara ouvir aquilo, trabalhar? Que creche? Que mané
trabalhar? Endoidou, a madame? Três filhos, uma mãe perneta, trabalhar como? E isso
não fora o pior. Juliana sempre cedia quando Carolaine insinuava que, caso ela não
concordasse em “colaborar”, Carolaine iria falar com o dr. Rodrigo. Nessas ocasiões,
Juliana sacava o talão de cheques, rapidamente, sim, sim, sim, aqui está o dinheiro,
trezentos reais, mande um abraço para sua mãe. Juliana temia que Carolaine e Alzira
pudessem “meter minhocas” na cabeça do marido, contar coisas do seu passado, do
seu caso com o Fernando, o antigo personal trainer. Você precisa ver, Alicinha, ela
falava, agora que Alicinha tinha rompido “definitivamente” com Fernando, razão mais do
que suficiente para que elas se reconciliassem e voltassem a ser o que chamavam
orgulhosamente de “amigas inseparáveis”, você precisa ver o tom de voz insolente que
aquela menina adota para me ameaçar. Ela me chantageia, a favelada. Alzira nem
sabia que Carolaine conversava com dona Juliana nesses termos. Não lhe passava pela
cabeça a ideia de criar problemas para a antiga patroa, afinal, era-lhe muito grata,
Juliana fora a única que lhe dera alguma coisa na vida, ela dizia, referindo-se à conta
corrente aberta com o dinheiro doado pela patroa.
O que você está dizendo, Carolaine?, perguntara Juliana, no último telefonema, por
acaso você está me ameaçando? É isso? Sim, era uma ameaça, e Juliana, que contara
toda a história ao seu atual amante, Ricardo, professor de computação de sua filha
Marcela, e se sentia fortalecida pelos conselhos do rapaz, foi categórica, saiba, sua
pirralha, ela disse, saiba que gravei essa chantagem, essa conversa foi toda gravada e
se você me telefonar mais uma vez, uma vez que seja, procuro a polícia e te ponho na
cadeia por tentativa de extorsão. Carolaine ficara muito assustada. Tentativa de
extorsão devia ser algo muito importante. A vaca, imagina, colocá-la na cadeia.
Tentativa de extorsão. Com três filhos. Se estavam naquela situação, era por causa de
dona Juliana. Se Alzira não tivesse trabalhado tanto, a perna não teria apodrecido.
Agora, só lhe restava implorar, e a ideia da carta talvez ajudasse. Talvez dona Juliana
se sensibilizasse. Carolaine pensou até em anexar à carta uma foto de Alzira sem a
perna. Quem sabe? A vaca da dona Juliana. Toda vez que ia buscar o dinheiro na casa
dela, sentia um ódio enorme, sempre no telefone, aguarde um minutinho, Carolaine, ela
dizia, sempre colada a uma manicure, a uma massagista, sempre na vida boa,
enquanto ela, ela e a mãe e as crianças viviam naquele inferno. Sim, houve um lado
bom, Carolaine admitia, fora por causa de dona Juliana que arranjara um novo
namorado, o Edson, porteiro do prédio da vaca. Se bem que o Edson era um bosta. No
início, só falava em se separar da mulher. E agora, só embromação. Por que não
encontrava um rapaz bom e romântico como o Rick da nova novela das seis? O Edson,
comparado ao Rick, era um pedaço de cocô no asfalto. E casado, ainda por cima. E
não ia se separar coisíssima nenhuma, “mas tudo bem”, Carolaine também estava mais
interessada no Zino, sabe o Zino, o açougueiro?, perguntara para Yolanda. Pois é, o
Zino agora me convida para sair. Na verdade, o relacionamento dos dois já estava bem
adiantado, Carolaine suspeitava inclusive de uma gravidez indesejada, seu período
menstrual estava atrasado havia mais de um mês, mas não tinha certeza de nada.
Edson poderia ser o pai, era verdade. E havia saído também com um rapaz, uma única
noite, se estivesse de fato grávida, não poderia dizer com certeza quem era o pai. E
não se importava nem um pouco, abortaria de qualquer maneira. A primeira coisa que
faria, com o dinheiro da dona Juliana, seria exatamente abortar. Sim, tiraria o bebê,
Alex lhe ensinara definitivamente uma lição, odiava crianças. Muito chato, ficar em casa,
presa, por causa dos fedelhos. Por todos esses motivos fez com que Alzira assinasse
a carta. Ou a senhora prefere morrer de fome? Nossa situação, mãe, é péssima.
Carolaine já estava saindo para entregar a carta a dona Juliana, no Leblon, quando
Onofre chegou em sua casa, esbaforido, avisando que José Luís estava no telefone do
bar. Deus é pai, gritou Alzira, vá, minha filha, vá e traga notícias do meu menino. As
duas não sabiam nada sobre José Luís e Kelly, desde que os dois fugiram, havia seis
meses. Yolanda, mãe de Kelly, recebia, vez por outra, telegramas da filha, estamos
bem, diziam os dois, e só. Corriam muitas histórias sobre o ex-líder do Berimbau. Que
José Luís tinha ficado rico. Que vivia no Paraguai e de lá comandava o tráfico. Que ele
voltaria para recuperar o seu lugar, ocupado por Volnei, aliado de Gavião. Que Volnei
era na verdade seu braço direito. Mas tudo eram zunzunzuns, e ninguém na verdade
conhecia os detalhes da nova vida de José Luís.
Carolaine, que perdera apenas oito dos vinte e oito quilos que engordara na última
gravidez, subiu a ladeira com dificuldade, arquejante, vamos, Carolaine, é interurbano,
dizia Onofre, é caro, depressa.
Oi, Zé, ela disse. Ao ouvir a voz do irmão, desatou a chorar. Ainda bem que você
está vivo. Ai, ai, ela dizia, está tudo muito difícil, Zé.
Muita coisa mudara desde a fuga do irmão. E a que trouxera mais alterações para a
vida no Berimbau fora a trágica morte de Marta, metralhada na principal rua do morro,
pelos homens do Volnei. Tudo ocorrera exatamente duas semanas após a partida de
José Luís. Marta recebera um telefonema de Gavião pedindo homens para uma
operação de urgência. Sem desconfiar da emboscada, Marta emprestou seus
soldados, e abriu as portas do Berimbau para os inimigos. Priscila e a avó foram
expulsas da favela. Mas Volnei fora “bacana” com a família de José Luís, contou
Carolaine. Permitira que ela pegasse tudo o que havia na casa do irmão, televisão,
geladeira, micro-ondas, e Carolaine vendera tudo, gastamos tudo, contou para o irmão,
no telefone, porque a mãe teve que cortar a perna, e também porque eu estou com um
neném novo, desde o Natal. Ele se chama Alex. E a mãe agora é aleijada. Porra. José
Luís ficou arrasado com a notícia. Compre uma cadeira de rodas para ela, ele sugeriu,
pergunte ao Leitor sobre a loja onde compramos a dele, é um lugar muito bom, só
vendem coisas para aleijados. O Leitor?, perguntou Carolaine, você não sabe? O Leitor
morreu.
Embora muita gente teimasse em dizer que a morte de Leitor fora obra do Volnei, a
verdade é que ele falecera num incêndio provocado por uma vela deixada em seu
barraco pelo amigo Onofre. Naquela noite, um temporal deixou todo o Berimbau sem
energia elétrica. De madrugada, uma forte ventania derrubou a vela acesa sobre uma
pilha de livros. Leitor ainda estava acordado e, muito antes de ser atingido pelas
chamas, soube que ia morrer. Ao contrário do que os amigos imaginaram, o seu fim
não foi um momento de terror, mas de paz e alívio. Ele viu a vela tombar e torceu para
que o fogo se alastrasse sem que ninguém chegasse a tempo de salvá-lo. Preso à
cadeira de rodas havia mais de um ano, sem poder fazer o que considerava as duas
melhores coisas do mundo, “ler e foder”, defecando em fraldas e, o que era pior,
compreendendo tudo, havia tempos acalentava a ideia de suicídio. Por isso, ao ver as
labaredas se aproximando da cama, foi tomado por tamanha euforia, que conseguiu
emitir uma sonora gargalhada.
José Luís ficou desolado com a notícia da morte do amigo. Mas não era tudo, ainda
havia mais tragédias. O pai sumiu, contou Carolaine. Não sem antes dar muito trabalho.
“Bebera” as duas Kombis, e aprontara muito na favela. Arranjara milhares de encrencas
com os vizinhos. E muitas dívidas também. Começou a ir lá em casa, contou Carolaine,
para pedir dinheiro para a mãe, ficava na janela, implorando. Agora sumiu, continuou
Carolaine. Ainda bem. Alguém o vira na praça Argentina, jogado num canto, no meio do
lixo.
E havia mais outras novidades, Rosa Maria voltou da Alemanha. Essa notícia foi
Onofre quem contou. De férias?, perguntou José Luís. Não, para sempre. Rosa Maria
havia flagrado o marido com a Jenifer. Lembra da Jenifer? Aquela escurinha que Rosa
Maria levou para ser empregada na Alemanha? Pois então. A mulatinha levou a melhor.
Rosa Maria pegou os dois peladinhos, fodendo na garagem. Antes que eu falasse
qualquer coisa, Onofre, contara Rosa Maria, a Jenifer começou a gritar que eu
arrumasse as minhas coisas e me pirasse dali. Ela nem deixou o Heinrich se explicar.
Berrava e me xingava, e o safado do meu alemão ficou lá, com aquela cara de bunda
branca, comedor de salsicha de uma figa, nem para falar gutentag. Fiz tanta batata,
tanto chucrute para o ingrato. E sabe o quê?, Onofre. Fodam-se os dois. Toda noite,
antes de me deitar, fecho bem os olhos e me concentro. Câncer no cu da menina, eu
mentalizo. Jogo um vodu na vida dos dois, tenho certeza que eles vão se foder. Filho,
se tiverem, vai nascer tantã, e cabeçudo, porque meu santo é forte. Vai ser um
mongoloide mulato, que vai deixar os dois doidinhos da Silva. Melhor. Vai ser preto, um
pretão aleijadão, que é para ela largar de ser besta. Tanto que ajudei aquela menina. Ia
ser uma puta como a Dadá, levei ela para a Alemanha, dei casa e comida, tudo do
bom, da Alemanha, mas Deus há de ouvir minhas preces. Todo dia acordo esperando
notícias. Até lá, já vou ter aprendido alemão para dizer para o Heinrich, vá se foder, vá
para o quinto dos infernos. Vá se foder com suas batatas. Ai, Onofre, como é ruim a
gente odiar quem a gente ama. Fazer o quê?, disse Onofre no telefone. Se ela ao
menos tivesse aprendido a falar alemão, ia saber que estava sendo passada para trás.
Agora, Rosa Maria estava de novo “na vida”. Tentara, no início, arranjar um emprego
como balconista. Mas o negócio da pretona aqui é rodar bolsinha, explicara para
Onofre. Odeio gente mandando em mim. Odeio patrão. Porra, que coisa, a Rosa
Maria, disse José Luís. Essas putas são foda. E o tal do Volnei?, a Carolaine me
contou do Volnei, quem é ele? Onofre não estava muito entusiasmado com o novo líder.
É legal. Matou só a Marta, o Cachaça e o Mário Paula. O resto está tudo aqui. A
mesma bosta de sempre. E a minha vó? Você tem notícias?
A ligação caiu bem naquele momento.
José Luís, que estava num telefone público perto de sua casa, pensou em comprar
mais uma cartela, mas teria que andar até o correio e falar com aquela mulher, a
Zulmira, detestava a Zulmira.
Em Depósito Novo, uma cidadezinha no norte do estado de Roraima, quase fronteira
com a Venezuela, a vida era muito besta. Ninguém se divertia, tudo era “muito lerdo”,
só televisão, ou então uma velharada na praça, jogando dominó, muito chato, porra.
No início, ele e Kelly pensaram que ia ser bom. Afinal, ali ninguém os conhecia, era
como viver no estrangeiro, isto aqui, Zé, nem parece o Brasil. Não sabia dizer com o
que parecia aquele lugar. Parecia o fim do mundo. Compraram um bar perto do rio,
mas José Luís não imaginava que fosse tão difícil ter um bar. Muito trabalho. Muito
chato, porra. Fritar pastéis. Limpar, comprar coisas, vender, e só prejuízo. Nunca fora
bom em lidar com dinheiro. E, depois, aquela vidinha o matava. Ninguém ali o conhecia.
Saía para dar um rolê, e nem os policiais sabiam quem ele era, claro, porra, isso era
bom. Mas ninguém lhe dava importância, e isso era completamente diferente de ser o
líder do morro do Berimbau. Porra.
Naquela tarde, voltou para o bar desanimado, saber que Marta e Leitor haviam
morrido, que sua mãe estava sem a perna, e que seu pai voltara para a rua, novamente
bêbado, aquilo tudo lhe cortou o coração. E Volnei. Lembrava-se vagamente desse
nome. Volnei. Talvez já o conhecesse, no tráfico, acontecia muito esse tipo de coisa,
aliás, aquela era uma regra de ouro, não menosprezar nenhum bunda-suja, porque você
despreza hoje, dizia Leitor, nos seus tempos de glória, e amanhã o cara está aí,
reinando.
Encontrou Kelly sentada ao lado do balcão, com ar amuado. Os pastéis estavam
murchos, e o cheiro de fritura velha empesteava o ar. Oi, Kelly. Havia dias, Kelly se
comportava daquela maneira, estranha, ausente, chorosa. Telefonei para o Onofre, ele
disse. Às vezes, ela se arrumava toda, para ir ao correio, e voltava alegre, e, depois de
algumas horas, entristecia-se novamente, e chorava no banheiro, estou com saudade
da minha mãe, dizia.
José Luís começou a contar as novidades, e Kelly desatou a chorar, um choro
convulsivo, ai, meu Deus, ela dizia, ai, meu Deus, que tristeza no coração, calma, porra,
falou José Luís, nós vamos voltar para o Rio de Janeiro um dia, vamos visitar a sua
mãe. Porra. Não é nada disso, respondeu Kelly. Não estou com saudade. Nem é por
causa do Leitor que eu estou chorando. O que é então?, perguntou José Luís. Eu tenho
mentido para você. Eu vou te deixar. Eu vou embora, ela disse.
Foi tudo muito ridículo, pensou José Luís, mais tarde. Eu sou mesmo uma merda, ela
dissera, estou chorando porque esperei por você a minha vida inteira, você passava na
frente da minha casa, com seus homens, seus cachorros, só faltava eu me jogar na
terra, para você pisar em cima, de tanta vontade que eu tinha de ser sua mulher. E
agora que estamos aqui, agora que está tudo bem, temos nosso bar, e esta não é a
cidade mais linda do mundo mas estamos aqui, enfim, em paz, você leva uma vida
decente, perdemos dinheiro, mas tudo bem, agora que está tudo bem, acontece essa
tragédia. E então a tragédia veio à tona. Kelly estava apaixonada por um baiano, um
rapaz muito bom, dono de uma lanchonete em Salvador e também cantor de
churrascarias, que havia dois meses estivera de passagem em Depósito Novo, para
visitar a avó. Pronto, o que eu posso fazer? Ele já foi embora e já voltou, três vezes,
saiba, nunca dormi com o Anderson, ele não tocou um dedo em mim, só um beijo e
mais nada, mas acontece que eu adoro o Anderson, adoro, amo, de paixão, falei para
ele, Anderson, eu sou amigada, suma da minha frente, pelo amor de Deus, não volte
mais aqui no meu bar, mas ele voltou, ontem ele veio aqui e me disse, vou falar com o
Zé Luís, vou explicar para ele a nossa situação. Só penso no Anderson, o dia inteiro,
Zé. Fiz promessa, se eu esquecer esse homem, fico um ano inteiro sem comer leite
condensado, mas acontece que eu não consigo, penso nele, só nele, é uma espécie de
doença. Nem com você foi assim. De você, eu gostava, mas não era assim. Eu
admirava você, ela disse, enquanto José Luís prestava atenção no tempo verbal que
ela empregava: gostava, amava, admirava. Eu amo o Anderson. E o Anderson me ama.
E tudo aconteceu, rolou, ela dizia. E se você quiser matar o Anderson, é melhor me
matar também.
Kelly foi embora naquela tarde. José Luís a ajudou a fazer as malas, ajudou-a
também a botar sua bagagem no carro do tal rapaz, e ao contrário do que ela
imaginava, não estava triste, nem contrariado. Sentia-se indiferente àquilo. Sentia-se
oco, sem miolo nenhum, sem recheio, como se fosse só um punhado de músculos, e
cansado, muito cansado. Gostava de Kelly, mas não se importava que ela se fosse.
Que fosse, porra. Que acabasse tudo, de uma vez. O tal rapaz, o Anderson, fique
tranquilo, ele dissera, vou cuidar bem dela. Ridículo, porra. Tchau.
Um velho entrou no bar, bem no momento em que José Luís havia decidido. Está
fechado, falou para o homem, fechamos. Fechado? E quando vai abrir?, perguntou o
velho. Nunca. Nunca mais, respondeu José Luís. Circulando. Porra.

José Luís abriu os olhos e só então notou que já estava na rodoviária do Rio de
Janeiro. Saltou, pegando sua mochila, a única bagagem que trouxera consigo, e desceu
sonolento, o corpo dolorido. O cheiro do Rio de Janeiro, porra, como era bom aquele
cheiro de maresia, peixe podre e gás carbônico. Ainda se sentia zonzo da longa
viagem, trocara três vezes de ônibus, quatro dias viajando.
Foi até o bar, pediu um pingado e pão com manteiga, mas não conseguiu comer, o
Rio de Janeiro lhe tirava a fome. Muito bom voltar, porra. Andou até o ponto, gostando
de ver aquela multidão, a confusão da cidade, aquilo era muito bom. Um policial logo na
frente. Passou por ele, talvez já tivessem esquecido de toda aquela confusão.
Quando desceu no Berimbau, em frente ao açougue do Zino, viu Rosa Maria
chegando de uma noite de trabalho. Dentro de uma saia cor-de-rosa minúscula, ela
subia o morro, requebrante, em cima dos saltos altos. Notou também a movimentação
dos novos moleques do tráfico, não conhecia nenhum deles, certamente já estariam
avisando Volnei sobre a sua chegada na favela. Nada havia mudado afinal. Àquela
altura, alguma metralhadora a laser já deveria tê-lo sob mira.
Dois de seus cachorros estavam ali, rondando o lixo do açougue. Magros,
esfomeados, Jaboti, Guliver, gritou José Luís. Os cães vieram, latindo, demoraram
alguns segundos para reconhecer o antigo dono.
Não havia nenhuma nuvem no céu, e o sol fazia tudo brilhar e arder. A previsão,
naquele dia, era de que a temperatura subisse a quarenta e dois graus, fato anormal
naquela época do ano, comentara o cobrador do ônibus. Porra. José Luís subiu
lentamente o morro, sem saber exatamente o que iria fazer, os cachorros na frente,
latindo.
PATRÍCIA MELO é roteirista, dramaturga e escritora e em 1999 a Time Magazine a
incluiu entre os cinquenta líderes latino-americanos do novo milênio. Acqua toffana é o
primeiro de seus sete romances publicados, seguido de O matador – vencedor do
Prêmio Deux Océans e Deutsch Krimi, Elogio da mentira, Inferno – Prêmio Jabuti,
Valsa negra, Mundo perdido, Jonas, o copromanta e Ladrão de cadáveres.
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