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Uma leitura de A Raisin in the Sun, de Lorraine Hansberry

Diego Kehrle Sousa

Dentro do contexto pós-colonial, é interessante notar como a noção de “lugar de


fala” se torna relevante. Sua importância se dá não por alguma espécie de permissão que
seria dada a alguém para falar sobre outro alguém ou algum assunto, mas estaria
relacionada à concepção de diferença cultural e como ela, enquanto processo de
significação, descortina e descreve campos de forças e referências. Ela também nos
ajuda a perceber que em nenhum lugar a cultura esboça alguma unidade em si mesma,
que “o ato cultural de enunciação – o lugar de fala – é atravessado pela diferença da
escrita ou escritura”1.
Para Bhabha, isto significa que o sentido nunca advém de forma transparente, toda
performance cultural se constitui a partir de uma cisão entre aquilo que é enunciado e o
sujeito da enunciação, estes dois sendo informados por um terceiro espaço, que seria
uma espécie de pertencimento, posição cultural, de uma referência ao tempo e espaço
presentes. Como alerta Bhabha (2006, p. 208), a inconsciência destes processos é
que causa a ambivalência nas interpretações.
Estas considerações implicam que a existência de temporalidades distintas na
constituição destes lugares de enunciação contraditórios tornam insustentáveis noções
como a de pureza cultural e, por outro lado, reforçam que não existe fala neutra ou
desprovida de posições culturais, de classe, de gênero, de raça, etc. Recorrendo à
percepção de Frantz Fanon sobre as mudanças decorrentes de uma revolução cultural e
política, Homi Bhabha pensa uma espécie de estrutura de simbolização em que, as
condições discursivas de enunciação é que determinam como os mesmos signos podem
ser lidos de maneiras novas a depender do contexto e não de uma pureza original.
Esta percepção, está em consonância com aquilo que Spivak questiona a respeito
da crítica ocidental sobre a construção do conhecimento no Ocidente: uma encenação
que não retira seu protagonismo, mas que continuaria a reproduzir a “persistente
constituição do Outro como a sombra do Eu[self]” (SPIVAK, 2010, p. 46) ocidental,
europeu… Neste sentido, Spivak pensa e propõe uma crítica epistemológica deste lugar
que narra e que ao narrar, mesmo que criticamente, termina por silenciar e excluir. Nesta
direção, segundo ela, a tarefa é a de “tornar o mecanismo visível e tornar o indivíduo

1 Texto original: “(…) the act of cultural enunciation – the place of utterance – is crossed by the difference of
writing and écriture” (BHABHA, 2006, p. 207)
[subalternizado] vocal”(SPIVAK, 2010, p. 61), acrescente-se a isso as gradações da
opressão devido a classe, gênero e raça.
Neste sentido, nossa leitura da obra Raisin in the sun (1959), de Lorraine
Hansberry, a primeira artista e intelectual afro-americana a estrear uma peça na
Broadway, nos ajuda a compreender não apenas a substancialidade das noções
apresentadas, mas o impacto e a importância das discussões levantadas no texto
dramatúrgico que ainda hoje permeiam os debates sobre racismo, sexismo e os
mecanismos de invisibilidade e segregação.
A escritora
Lorraine Hansberry cresceu em um ambiente de engajamento com as questões políticas,
seus pais já eram ativistas contra o racismo e a opressão sofridas pelos afro-americanos naquela
altura. Para ela, tal engajamento não poderia estar relacionado apenas a questões raciais, ela
entendia que a luta não poderia ser reduzida aos anseios de um grupo somente, mas que
atravessava vários lugares e posições. Estudou história africana na Jefferson School of Social
Sicence, trabalhando como escritora para a publicação mensal Freedom. Ao estrear a sua
principal obra, A Raisin in the Sun, em 11 de março de 1959 na Brodway, se tornou a primeira
mulher negra a ter um espetáculo encenado naquele palco, em seguida recebeu o prêmio New
York Drama Critic’s Circle Award. A peça ainda deu origem a um filme (1961), um musical (1973) e
dois especiais para TV em 1989 e em 2008.
A peça
É num pequeno apartamento que mora a família Younger. O grande acontecimento
ao redor do qual se desenvolvem as ações da peça, é o recebimento do cheque de
10.000 dólares, oriundo do seguro de vida do falecido patriarca da família. No entanto,
cada personagem parece ter planos distintos para o dinheiro. Na casa moram Lena
Younger, a matriarca, de personalidade centralizadora e atenciosa; Walter, seu filho, que
quer tornar-se comerciante em vez de continuar como chofer de um branco rico;
Beneatha, também filha de Lena, uma estudante de medicina e feminista; Ruth, dona de
casa, casada com Walter, com quem tem uma relação problemática e Travis, filho do
casal. Por fim, Lena decide que usará parte do dinheiro para realizar o grande sonho
americano: a compra da casa própria num bairro de classe média e o pagamento da
faculdade da filha (Beneatha). Após uma série de acontecimentos e discussões com o
filho, a mãe termina cedendo e decide confiar nele e entrega-lhe todo o dinheiro para que
este, como novo chefe da família, o administre com a condição de guardar uma quantia
para a faculdade de Beneatha. No entanto, Walter sofre um golpe e perde a quantia que
lhe foi confiada. Desesperados, todos parecem entrar numa espiral de desesperança,
principalmente Walter, que pretende aceitar a proposta de um representante racista – do
bairro de maioria branca para onde eles iriam se mudar – para que venda a casa recém-
comprada. É neste momento em que as três mulheres, na tentativa de dissuadi-lo então o
provocam, interrogam-no sobre quem são, até que ele decide não desistir da mudança
para a nova casa com todas as implicações que isto acarretará.
Durante toda a peça, são abordadas questões sobre a segregação racial nos
Estados Unidos dos anos 50, bem como sobre o sexismo, o racismo e os padrões
estéticos e a silenciosa ou ruidosa opressão cultural, econômica sofrida pela população
afro-americana. Logo no início da peça, num diálogo entre Walter e Ruth, vemos o tom do
discurso sexista de Walter que se manterá por quase toda a obra:

WALTER That is just what is wrong with the colored woman in this world …
Don’t understand about building their men up and making ’em feel like they
somebody. Like they can do something.
RUTH (Drily, but to hurt) There are colored men who do things.
WALTER No thanks to the colored woman.
RUTH Well, being a colored woman, I guess I can’t help myself none.
WALTER (Mumbling) We one group of men tied to a race of women with
small minds! (HANSBERRY, 1959)

O discurso de Walter parece explicitar como dentro de um grupo subalterno, alvo


de toda sorte de opressões, ainda se perpetuam relações de opressão entre os próprios
sujeitos subalternizados, neste sentido a mulher negra parece ser duplamente oprimida:
tanto por ser negra, como por ser mulher. A relação entre Walter e Ruth parece ser
exemplar neste caso, já que em vários momentos da peça, é nítido como o marido
humilha a esposa ao questioná-la sobre suas atitudes serem sempre as mesmas, ao que
ela retruca: o que eu poderia oferecer, estando neste lugar, nesta condição, senão isto!?
Em A Raisin in the Sun, todos os personagens têm muitos sonhos, mas todos os
sonhos envolvem dinheiro. Neste sentido, a família Younger parece alienada e oprimida
principalmente pelas aspirações de consumo da classe média branca americana da
década de 1950 (GHANI, 2011, p. 1296). No entanto, quando Lena está com o cheque em
mãos e parece assim alcançar uma condição financeira jamais imaginada, ao ser
confrontada sobre a possibilidade de realizar uma viagem pela Europa, tal qual uma
senhora branca e rica, ela responde sobre a impossibilidade como uma espécie de
responsabilidade:
MAMA (Drily) You sound like I’m just about ready to die. Who’d go with me?
What I look like wandering ’round Europe by myself?
RUTH Shoot—these here rich white women do it all the time. They don’t
think nothing of packing up they suitcases and piling on one of them big
steamships and—swoosh!— they gone, child.
MAMA Something always told me I wasn’t no rich white woman.
(HANSBERRY, 1959)

Já Beneatha, a filha de Lena, parece determinada e ciente da responsabilidade que


possui como mulher negra e feminista. Em suas discussões com Asaghai ela parece
preocupar-se com a relação que os afro-americanos possuem ou deveriam possuir com
sua ancestralidade, em contraposição à cultura dominante que impõe padrões nem
sempre percebidos pela própria Beneatha, apesar de sua posição crítica. Neste caso,
Joseph Asagai aparentemente desperta nela uma consciência de si mais aguçada quando
levanta a discussão sobre black power e beleza como metáforas de uma consciência de
raça (MATTHEWS, 2008, p. 62) que Beneatha ainda parece formular de maneira pouco
consciente.

ASAGAI (Coming to her at the mirror) I shall have to teach you how to
drape it properly. (He flings the material about her for the moment and
stands back to look at her) Ah—Oh-pay-gay-day, oh- bah-mu-shay. (A
Yoruba exclamation for admiration) You wear it well … very well …
mutilated hair and all.
BENEATHA (Turning suddenly) My hair—what’s wrong with my hair?
ASAGAI (Shrugging) Were you born with it like that?
BENEATHA (Reaching up to touch it) No … of course not. (She looks back
to the mirror, disturbed)
ASAGAI (Smiling) How then?
BENEATHA YOU know perfectly well how … as crinkly as yours … that’s
how.
ASAGAI And it is ugly to you that way?
BENEATHA (Quickly) Oh, no—not ugly … (More slowly, apologetically) But
it’s so hard to manage when it’s, well —raw.
ASAGAI And so to accommodate that—you mutilate it every week?
BENEATHA It’s not mutilation! (HANSBERRY, 1959)
Beneatha começa a perceber que os cabelos, assim como as roupas são emblemas de
uma determinada postura política diante da história, diante do mundo. Em outros momentos da
peça, quando já está usando o cabelo de modo natural, ela é questionada por George Murchison,
e pelo irmão, Walter, que zomba não apenas do seu “novo visual” como dos seus
questionamentos enquanto feminista. Mesmo Asagai, com seu pensamento revolucionário sobre
as questões de independência e consciência de raça, faz referência a um determinado papel
essencialista que as mulheres deveriam exercer.
Em certo momento, questiona-se mais uma vez a mudança de visual de Beanetha, ela
responde:
BENEATHA (Looking at GEORGE) That’s up to George. If he’s ashamed of
his heritage—
GEORGE Oh, don’t be so proud of yourself, Bennie—just because you look
eccentric.
BENEATHA How can something that’s natural be eccentric?
GEORGE That’s what being eccentric means—being natural. Get dressed.
BENEATHA I don’t like that, George.
RUTH Why must you and your brother make an argument out of everything
people say?
BENEATHA Because I hate assimilationist Negroes! (HANSBERRY, 1959)

Beneatha decide por continuar com o seu cabelo natural e deixa as vestes
nigerianas para usar suas roupas cotidianas. Aqui lembramos, com Bhabha, que para
pensar esse local de encontro entre culturas, é preciso compreender que nestes casos o
que ocorre é o processo de hibridação, de costura entre passado e futuro, nunca uma
volta, até porque o tempo e o espaço de constituição estão no presente que se lança
sobre o passado mas não é capaz de reproduzi-lo em sua inteireza.
Por fim, cabe ressaltar que no contexto estadunidense da década de 50, numa
sociedade profundamente segregada, a tentativa de isolar as populações negras em
guetos, numa espécie de política de higienização racista que estava em voga. Esta
preocupação aparece na peça quando ironicamente um representante do “comitê de
boas-vindas” do bairro para onde a família Younger pretende se mudar, aparece e faz uma
proposta para que eles desistam da mudança:

LINDNER Well—you see our community is made up of people who’ve


worked hard as the dickens for years to build up that little community.
They’re not rich and fancy people; just hard-working, honest people who
don’t really have much but those little homes and a dream of the kind of
community they want to raise their children in. Now, I don’t say we are
perfect and there is a lot wrong in some of the things they want. But you’ve
got to admit that a man, right or wrong, has the right to want to have the
neighborhood he lives in a certain kind of way. And at the moment the
overwhelming majority of our people out there feel that people get along
better, take more of a common interest in the life of the community, when
they share a common background. I want you to believe me when I tell you
that race prejudice simply doesn’t enter into it. It is a matter of the people of
Clybourne Park believing, rightly or wrongly, as I say, that for the happiness
of all concerned that our Negro families are happier when they live in their
own communities. (HANSBERRY, 1959)

Parece bastante simbólico que em sua fala Lindner expresse que não há nenhuma
questão de preconceito racial envolvida, “apenas” um pensamento comunitário que
separa, segrega, brancos e negros. Como questão que atravessa toda a obra através das
próprias falas da família Younger: o problema do racismo, da segregação pela cor da pele,
vai sendo formulado seja como distância entre classes, quando Walter se refere ao chefe
e aos jovens brancos que possuem tempo e posses, seja na fala da mãe, que revela sua
distância em relação às senhoras brancas e ricas, seja pela opressão de classe que
revela e aponta para uma história a ser revisitada, parafraseando Spivak, para que se
revelem os mecanismos discursivos e culturais que permeiam a história e as artes, como
neste caso.
Em A Raisin in the Sun, as forças que separam e excluem não vêm apenas de fora,
mas também de dentro da família, revelados os conflitos e as tramas que diferenciam
entre si os familiares, percebe-se finalmente o que eles também possuem de comum,
aquilo que os une diante da grande negação que são as limitações econômicas e o
racismo, duas faces da moeda. Daí em diante, unidos, lançam-se ao desafio de contrapor-
se às forças hegemônicas e às formas que estas assumem fora e dentro da composição
familiar.

Referências
BHABHA, HOMI K. Cultural Diversity and Cultural Differences. In: ASHCROFT, Bill;
GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen (Ed.). The post-colonial studies reader. Taylor &
Francis, 2006.
GHANI, Hana. I was Born Black and Female: A Womanist Reading of Lorraine Hansberry‘s
A Raisin in the Sun. Theory and Practice in Language Studies. 1. 2011
HANSBERRY, Lorraine. A raisin in the sun: A drama in three acts. New York: Random
House, 1959.
MATTHEWS, Kristin L. The Politics of “Home” in Lorraine Hansberry's A Raisin in the Sun
1. Modern Drama, v. 51, n. 4, p. 556-578, 2008.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora da
UFMG, 2010.