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Rb biblioo

Revista
cultura informacional

Território
Leitor
Perspectivas para as
políticas públicas para
as áreas do livro, da
leitura e das bibliotecas
no Brasil em 2015

Claudio Soares,
escritor e editor
“O leitor na era da internet busca,
cada vez mais, um conteúdo rico,
informativo, dinâmico e
personalizado”

Retrospectiva 2015
Os 10 fatos que marcaram a
cultura informacional no ano

Bibliotecas para
quê e para quem?
Em um país onde pouco se

51
postulam meios para o
Edição

desenvolvimento humano,
a biblioteca passa a ser artigo de
luxo para quem tem condições de
Ano 5, nº 12 frequentá-la
Dezembro 2015
ISSN 2238–3336
Realização:
Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|1
2| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12
Fala, editor! Sumário
Boas Festas! 5 | Claudio Soares, escritor e editor
As lutas em prol da leitura e das bibliotecas “O leitor na era da internet busca, cada vez mais, um
devem continuar em 2016 conteúdo rico, informativo, dinâmico e personaliza-
do”
No ano de 2015 tivemos pequenos avanços no que diz
respeito às lutas em prol da democratização da leitura,
8 | Bibliotecas para quê e para quem?
dentre eles as discussões em prol da criação dos Planos
Municipais do Livro, Leitura e Bibliotecas (PMLLB) e a Em um país onde pouco se postulam meios para
aprovação dos PMLLB em alguns municípios brasileiros. o desenvolvimento humano, a biblioteca passa a
Evidentemente que ainda precisamos de mais esforços, ser artigo de luxo para quem tem condições de fre-
mas os primeiros passos já estão sendo dados. Uma vez quentá-la
que no país ainda temos 112 municípios sem bibliotecas
públicas, o Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) 10 | Porque as bibliotecas importam
precisa ser transformado em uma política pública per- Uma reflexão sobre a situação das Bibliotecas-Par-
manente. Essa tem de ser uma das conquistas que de- que do Rio
vemos almejar no ano que está por vir e a participação
dos bibliotecários e da sociedade civil neste processo é
14 | Retrospectiva 2015
fundamental.
Não podemos continuar aceitando de forma passiva e
Os 10 fatos que marcaram a cultura informacional
acomodada os cortes de verbas e os fechamentos das no ano
bibliotecas públicas em nosso país. Em 2016 temos elei-
ções municipais e a criação dos PMLLBs tem de entrar na 20 | Território Leitor
pauta política e no debate eleitoral. Perspectivas para as políticas públicas para as áre-
A edição 51 da Revista Biblioo tem como matéria de capa as do livro, da leitura e das bibliotecas no Brasil em
uma reportagem sobre o I Encontro Internacional de Po- 2015
líticas Públicas: Território Leitor. Como de costume apre-
sentamos os 10 fatos que marcaram a cultura informa- 25 | Memória Institucional
cional em 2015 e Moreno Barros fez uma reflexão sobre O que é, para que serve e como construí-la?
a atual situação das bibliotecas-parque do Rio.
Avante bibliotecários! Que 2016 seja um ano de lutas e
conquistas em prol da democratização da leitura e das 28 | O espelho de Machado de Assis
bibliotecas públicas! Conto machadiano fala sobre ego, loucura e iden-
tidade
Rodolfo Targino
Editor Adjunto 30 | Severino
targino@biblioo.info Versos de um dedo de prosa

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Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|3


4| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12
Claudio
Soares,
escritor
e editor
Por Rodolfo Targino

“O leitor na era
E
le é escritor e editor de livros. Recente-
mente editou a edição de 125 anos de,
O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, que
da internet busca, além de fazer parte da biblioteca Rio 450
anos, também foi a primeira obra mapea-
cada vez mais, um da pelo projeto Rio Cidade Livro. À Revista Biblioo
Claudio Soares contou como foi seu primeiro contato

conteúdo rico, com o livro e a leitura, revelou como se tornou editor


de livros, avaliou o mercado editorial no contexto de
crise e falou sobre o Projeto Rio Cidade Livro, uma
informativo, plataforma digital que mapeia lugares e histórias da
literatura permitindo ao leitor selecionar roteiros es-
dinâmico e pecíficos ou mesmo realizar uma navegação cruzada
de romances x lugares. Uma cartografia literária do

personalizado” Rio de Janeiro em que é possível acompanhar os pas-

Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|5


sos de vários clássicos da literatura brasileira. McLuhan: “o meio é a mensagem”. A relação entre
os dois, meio e mensagem, é simbiótica. Precisamos
Fazendo um exercício de memória, você se re- pensar no quanto os novos dispositivos móveis, que
corda dos seus primeiros contatos com o universo a meu ver, serão, cada vez mais, os principais supor-
da leitura? tes de leitura, influenciarão o “livro” como produto,
Lembro-me de ter lido, bem cedo, o Auto da Com- como formato de disseminação de informação e en-
padecida, de Ariano Suassuna. Contei isso no prefá- tretenimento. O que, certamente, influenciará tam-
cio do romance que lancei em 2006 (Santos-Dumont bém a forma como lemos. Eu repito por aí que o livro
Número 8). Mais ou menos nessa época, Ariano auto- digital é 3D porque admite o hiperlink, enquanto o
grafou um exemplar desse clássico. Guardo com cari- livro impresso é 2D, escrito no plano, aquele da ma-
nho. Sempre li de tudo um pouco. Clássicos brasilei- temática. E isso é fundamental para que nossa rela-
ros, estrangeiros, revistas, etc. A atividade de leitura ção com os livros digitais, principalmente, em seus
é um hábito importante que deve ser estimulado em variados formatos mude para sempre. Podendo ser
casa e na escola. melhor, inclusive. O Rio Cidade Livro é uma aborda-
gem que sugere que as obras clássicas podem estar in-
Como você se tornou editor de livros? seridos nas tarefas que normalmente realizamos com
Posso lhe garantir apenas que não foi planejado. os celulares. Ou seja, enquanto o leitor passeia pela
Hoje, porém, olhando para trás, vejo que era de fato cidade, usando seu smartphone, um mapa digital e o
algo inevitável. Eu já era escritor e, há tempos, traba- GPS ligado, ele vai poder descobrir lugares da cidade
lhava com gestão de informação, quando, em 2007, citados em clássicos da literatura brasileira. Quere-
comecei a editar um blog. Em 2010, fui convidado a mos estimular a curiosidade desses leitores. Como diz
assumir o cargo de e-publisher em uma grande edi- nosso slogan, queremos que os leitores leiam a cidade
tora brasileira. Desde então, não parei mais. Mas, e explorem os livros.
nos últimos 3 anos, desde quando editei a coleção de
clássicos da literatura brasileira do Google Brasil, eu Você editou a edição de 125 anos de O Cortiço,
tenho editado exclusivamente clássicos da literatura que além de fazer parte da biblioteca Rio 450 foi
brasileira. Nossa coleção, Obliq Clássicos, tem cerca a primeira obra mapeada pelo projeto Rio Cidade
de 500 títulos. Livro. Como surgiu a sua relação com a obra de
Aluisio Azevedo?
Como você avalia a atual situação do mercado Sim, O Cortiço, na minha opinião, é talvez uma
editorial, sobretudo nesse momento de crise? das maiores obras da nossa literatura. Se não for a
Fora da inovação, não há salvação. Escuto alguns maior. Por vários aspectos. Fortemente inspirada no
editores dizerem que o brasileiro não gosta de ler. Não Naturalismo do francês Émile Zola, certamente, mas
concordo. Penso que existe um hiato entre as editoras com características tão peculiares. Gilberto Freyre
e o leitor brasileiro. É preciso que as editoras saibam chamava Aluísio de etnógrafo. Eu acho que Aluísio,
escutar as ruas. As editoras deveriam pensar em no- em O Cortiço, escreveu a grande reportagem sobre o
vas formas de produzir conteúdo. O leitor na era da Rio de Janeiro do final do século XIX, um momento
internet busca, cada vez mais, um conteúdo rico, in- de mudanças profundas, da abolição da escravatura
formativo, dinâmico e personalizado. As editoras pre- à derrocada do Império e advento da República e do
cisam estar preparadas para essas novas necessidades proletariado brasileiro. Era quase inevitável a sua es-
do mercado. colha como o primeiro romance a ser “mapeado” no
Rio Cidade Livro, já que eu havia colecionado notas
Você poderia nos contar o que é o projeto Rio e mais notas sobre a obra. A edição de 125 anos que
Cidade Livro e como surgiu essa iniciativa? publicamos, e que faz parte da biblioteca oficial do
O projeto Rio Cidade Livro é, em algumas poucas aniversário de 450 da cidade do Rio de Janeiro, traz
palavras, uma das nossas propostas para incentivar à como novidade o conceito de anotações associadas
leitura entre os brasileiros de 8 a 80 anos usuários de à divisão dos capítulos em cenas e à nomeação dos
dispositivos móveis. Quero enfatizar que essa leitura capítulos. O que estamos fazendo, no fundo, é acres-
tende a ser ágil, dinâmica e personalizada. Na verda- centar metadados à obra para facilitar o acesso dos
de, eu tenho pensado e concordado, já há algum tem- leitores a passagens específicas, especialmente nos
po, com aquela famosa frase do canadense Marshall ambientes digitais. ✪

6| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12


Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|7
BIBLIOTECAS PARA QUÊ E PARA QUEM?
Em um país onde pouco se postulam meios para o desen-
volvimento humano, a biblioteca passa a ser artigo de luxo
para quem tem condições de frequentá-la
Por Jonathas Carvalho

E
m pesquisa realizada no ano de 2011, Estes fatores “óbvios” denotam que a biblioteca
com uma amostragem de pouco mais possui uma (má) exemplaridade de se constituir como
de 5000 mil pessoas, o Instituto Pró-Li- elemento de manutenção e dominação político-cor-
vro revelou que 76% dos brasileiros não porativa e não de transformação humana. Diante do
acessam ou utilizam as pouco mais de óbvio, qual seria o papel mais amplo e pleno de uma
1000 bibliotecas existentes no país, considerando biblioteca se não contribuir estrategicamente para
suas diversas tipologias (públicas, escolares, univer- o desenvolvimento humano? É com este desenvol-
sitárias, especializadas, comunitárias etc). Diante dos vimento que às pessoas conseguem produzir, atuar,
dados é possível extrair algumas impressões, sendo criar e transformar. É com desenvolvimento huma-
umas mais óbvias e outras mais insólitas que vêm ao no que às pessoas conseguem fazer a diferença nos
encontro da pergunta/tema deste texto “Bibliotecas diversos devires sociais como a política, economia,
para quê e para quem?” cultura, educação, meio ambiente.
Entre as mais óbvias posso destacar: Entre os fatores mais insólitos estão:
a) o número de pessoas que frequentam e utili- a) a biblioteca não é historicamente um ambien-
zam bibliotecas é ínfimo diante da realidade; te dedicado a compreensão da pluralidade e diversi-
b) a escassez de políticas públicas articuladas e dade, tanto de saberes, quanto de práticas sociais. Ao
consistentes em termos históricos torna a biblioteca contrário, comumente a biblioteca é a salvaguarda do
um ambiente hermético e estanque afastando a maior poder dominante representando pequenos/grandes
parte da população; grupos detentores de poder;
c) ainda persiste a ideia de uma concepção eli- b) a pluralidade deve ser entendida como o con-
tista da biblioteca acessível apenas a um grupo seleto junto de variações de sujeitos que buscam às biblio-
de pessoas por classe social ou intelecção formal ou tecas por razões distintas e se a biblioteca não está
permite o acesso a setores mais marginalizados da preparada para atendê-las (parcialmente ou ampla-
sociedade de maneira pré-determinada, controlada, mente), não atrairá aquele público ou terá daquele
limitada e inconstante. O elitismo trata a biblioteca público uma visão restrita de atuação da biblioteca;
como mantenedora de poder, seja estatal, seja de pe- c) a diversidade pode ser entendida como a
quenos (quantidade) grandes (força político-econô- capacidade que a biblioteca possui de INCLUIR
mica) grupos corporativos; sujeitos ou de apoiar a inclusão de sujeitos. Incluir
d) em virtude das duas concepções anteriores, no sentido de promover acesso à informação em lar-
é comum que o chamado não usuário possua tanto ga escala, facilitar o acesso livre ao conhecimento,
respeito pela biblioteca que chega a ter receio de fre- promover estratégias de incentivo à inclusão digital,
quentá-la por considerar que não é um ambiente ade- fomentar a inclusão via práticas de leitura, pesquisa,
quado para sua realidade; alfabetização/letramento, pensar a inclusão a partir da
e) a biblioteca, em caráter histórico, não faz criação de serviços e produtos técnicos e pedagógicos
parte do cotidiano das comunidades. Logo, um am- que satisfaçam desejos, demandas e necessidades dos
biente que não conhece ou dialoga com o dia-a-dia do públicos;
seu público dificilmente obterá reconhecimento mas- d) a biblioteca ainda não é efetivamente reco-
sificado e estratégico para contribuir ativamente com nhecida como uma instituição híbrida, ou seja, a ideia
a vida da sociedade. majoritária da sociedade é que a biblioteca é um espa-

8| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12


ço com paredes, estantes e acervos bibliográficos que dades intelectuais, artísticas e culturais. No entanto,
fomentam o empréstimo dos materiais e espaços para seria muito redutivo achar que a biblioteca simples-
estudos específicos; mente valoriza quem tem força (intelectual, política,
e) a hibridez da biblioteca só pode ocorrer se a econômica etc) e desvaloriza quem não tem. A ver-
concepção de biblioteca for multiplamente espacial dade é que a biblioteca no Brasil não foi conformada
no sentido da biblioteca estar na rua, na praça, nas para ir até o sujeito, mas sim para que o sujeito fosse
comunidades, nas residências das pessoas, nas redes até ela. Em um país onde pouco se postulam meios
sociais e no ciberespaço de uma forma geral; para o desenvolvimento humano da maioria da po-
f) no Brasil, a biblioteca tem sido estruturada pulação, a biblioteca passa a ser artigo de luxo para
como ambiente administrativo, menos como ambiente quem tem condições de frequentá-la. Em outras pa-
pedagógico (educação infantil/escolar) e quase nada lavras é como se criasse uma meritocracia do acesso
andragógico (educação adulta). Ora, sabidamente não à biblioteca, isto é, importa que as pessoas tenham
é possível que a biblioteca satisfaça as futuras gera- acesso, mas não importam prioritariamente às condi-
ções se as atuais não possuem dimensão do valor da ções que as pessoas têm para o acesso e, principal-
biblioteca e o não conhecimento desta dimensão afe- mente, quais condições são promovidas para que este
tam as práticas político-sociais da biblioteca em nível acesso e uso sejam eficientes e eficazes.
público, privado e autônomo. Por isso é preciso um Nestas condições e tentando responder a segunda
trabalho político de tomadas de decisão (construção parte da pergunta torna-se inegável que a biblioteca
de políticas públicas para práticas pedagógicas e an- será acessível por um grupo seleto que sempre teve o
dragógicas das bibliotecas) a fim de que a biblioteca despertar do acesso. No entanto, esta desigualdade de
seja reconhecida como prática histórico-informativa. oportunidades e acessos valorizando grupos específi-
Diante dos aspectos mencionados, a primeira parte cos mediocrizam o papel da biblioteca, já que não se
da pergunta, “Bibliotecas para quê?” possui algumas estabelece como elemento socialmente referenciável,
possíveis respostas: em caráter real às bibliotecas sur- mas um ambiente limitado, tanto em termos de ação,
gem para preservar e dinamizar conhecimentos mes- quanto em termos de satisfação.
mo que muitas não tenham condições estruturais e Portanto, enquanto a biblioteca não se constituir
humanas para conceber este legado em sua plenitude como ambiente fundamental na construção das políti-
e também para promover estratégias de preservação cas públicas de cultura, educação e desenvolvimento
da memória bibliográfica e humana. Por si só, este humano e informacional, uma média altíssima (76%
último papel denota que o caráter preservacionista da aproximadamente) não se sentirá atraída a frequentar
biblioteca não pode ser definido como algo natural, bibliotecas, o que é um sustentáculo para que o poder
mas é preciso que a biblioteca tenha investimentos público minimize o papel estratégico na atuação infor-
suficientes para conceber de maneira mais humana e macional das bibliotecas. É na capacidade de plurali-
pragmática o caráter do “para quê?”. Em caráter po- zar, diversificar (incluir) e hibridar suas ações no âm-
tencial (digo potencial em virtude de ser um fenôme- bito da promoção do acesso à informação em diversos
no ainda pouco amadurecido), às bibliotecas servem níveis que o “para quê e para quem da biblioteca” será
para estimular a pluralidade e diversidade humana no redimensionado. Biblioteca é desenvolvimento huma-
âmbito do acesso à informação, construção do conhe- no via informação. Este deve ser o grande legado atra-
cimento e norteamento das práticas sociais que pode tivo da biblioteca: para quê? (para o desenvolvimento
ser constituída através da criação de serviços e pro- humano e preservação da vida) e para quem? (para os
dutos que transformem o cotidiano das pessoas. Em múltiplos seres/sujeitos que compõem a sociedade e
síntese, as bibliotecas servem para promoção do de- não apenas uma parcela seletiva da sociedade). E a
senvolvimento humano em qualquer nível de classe, pesquisa do Instituto Pró-Livro revela que às biblio-
raça, credo, opção sexual ou religiosa. tecas não têm atuado no âmbito da leitura da palavra,
Quanto a segunda parte da pergunta a situação é leitura de mundo e leitura de desenvolvimento huma-
mais crítica, pois destaca claramente que historica- no. Normalmente apenas a primeira é considerada e
mente a biblioteca no Brasil tem sido um ambiente ainda de forma incipiente pela biblioteca em face das
mantenedor de desigualdade sócio-informacional. condições precárias comumente apresentadas. Não é
Historicamente, a biblioteca é para quem tem condi- coincidência que 76% da população não acessam ou
ções de manter um ambiente informacional particular utilizam bibliotecas no Brasil. ✪
ou quem é dedicado a práticas de pesquisa e ativi-

Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|9


Porque as bibliotecas importam
Uma reflexão sobre a situação das
Bibliotecas-Parque do Rio

Biblioteca Parque do Rio. Foto: divulgação

Por Moreno Barros

E
m 2011 eu visitei a recém inaugurada Bi- melhor em bibliotecas fora do Brasil e em outras bi-
blioteca-Parque de Manguinhos e saí de bliotecas de excelência por aqui (Mario de Andrade,
lá estupefato: uma biblioteca de primei- Biblioteca São Paulo, Biblioteca Pública do Paraná,
ro mundo, bem no meio da faixa de gaza Biblioteca Pública do Acre, por exemplo). A Biblio-
carioca, do ladinho da nossa cracolândia. teca-Parque Estadual (BPE) foi o exercício final de
Era a consolidação da santíssima trindade das biblio- sublimação das feias bibliotecas de bairro, que con-
tecas públicas (recreação, informação e formação) e vivemos nas décadas de 1980 e 1990, para o que as
um modelo para as demais bibliotecas no nosso quin- bibliotecas deveriam propor nos dias de hoje.
tal e toda uma classe de bibliotecários sem muitos pa- Mas vejam só, a alegria que durou pouco. Copio o
râmetros, como deveria ser uma biblioteca perfeita. Felix Richter: “é um projeto tão fantástico, que nem
Rapidamente eu quis realizar alguma atividade parece que estamos no Brasil. Pois bem, a metáfora
que congregasse amigos no espaço, para que pudes- fez sentido. Pezão já anunciou que deve fechá-la. E
sem saber que aquela biblioteca existia e ver como outras três também.”
ela funcionava, pois só acreditava quem via, e que No meio desse ano eu realizei o segundo Biblio-
nós, enquanto cidadãos, tínhamos o direito e o dever camp, exatamente no início do período conturbado
de usufruir. Lá foi realizado o primeiro Bibliocamp e de redução de horários e encerramento das atividades
foi onde conheci pessoas que tocavam o projeto das regulares da BPE. Recordemos: a Biblioteca Parque
Bibliotecas-Parque com amor e na raça, como Ale- Estadual permaneceu fechada por quatro anos. Ela foi
xandre Pimentel e Vera Saboya. reinaugurada poucos meses antes da eleição para go-
Depois vieram as Bibliotecas-Parque da Rocinha, vernador. R$ 70 milhões investidos na reforma, um
Niterói e Estadual, revigorando uma frente de design ano de funcionamento depois, a biblioteca fecha por
arquitetônico e de serviços, copiando o que se via de falta de grana.

10| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12


A primeira coisa que me vem à mente é que o mais contribuição mensal ou programa de associados (que
imbecil que se pode fazer em termos de gestão pú- as elites americanas adoram fazer com suas bibliote-
blica é fechar uma biblioteca, uma vez que o inves- cas, mas sem escapar da falácia da filantropia e das
timento e patrimônio se encerram ali dentro: o em- isenções fiscais).
préstimo dos livros, o espaço físico e os funcionários. A meu ver seria perfeitamente possível e oportuno
Fecha-se a biblioteca, interrompe-se toda uma cadeia assumir uma modalidade de subscrição (que histori-
de valor econômico positivo. Isto é, o contribuinte fi- camente foi como as bibliotecas públicas nasceram)
nancia a aquisição de ativos que podem ser distribuí- e realizar o delivery dos livros por meio de motoboys
dos a todos os demais cidadãos (neste caso, os livros ou uber em local e hora combinada. O mensalista teria
e a premissa do empréstimo domiciliar, o usufruto do direito a, digamos, cinco livros/entregas. Uma startup
espaço público e a presença do profissional qualifi- faria bem, mas a questão é que não precisamos de um
cado). novo sharing economy, porque as bibliotecas já estão
Se o patrimônio adquirido pelo erário não circula pagas.
ou não é acessível, o prejuízo é óbvio e cumulativo. Os contribuintes financiam a manutenção de bi-
É o mesmo crime que, desses recorrentes, um hospi- bliotecas e seria um equívoco investir diretamente em
tal repleto de equipamentos de ponta, mas que per- um produto ou serviço adicional, quando o esforço
manece fechado. O governo, invariavelmente, gasta despendido seria igual ou menor para estabelecer me-
mais com medidas posteriores e a economia imediata canismos de fiscalização do investimento realizado
perde sentido. Jamais poderia se alegar o fechamento (gestão participativa, transparência de contas, orça-
de uma biblioteca por contenção de despesas. É con- mento dedicado, basicamente). Se pagamos impostos
traproducente. diretos, imposto de renda, o valor do produto, mais o
Outro aspecto importante, bem lembrado pela Ma- adicional proposto na subscrição à biblioteca, então
lena Xavier, é que “fechar um equipamento assim é estamos pagando quatro vezes pelo valor de um. É a
o carimbo nítido do descaso com programas federais mesma lógica de pagar plano de saúde e escola parti-
como o Plano Nacional do Livro e Leitura, que ten- cular para os filhos, quando optamos pelo exclusivis-
do seu projeto de lei decretado em 2012, tem como mo em vez de fazer valer os impostos que já pagamos
seu eixo de nº 1, o acesso à informação. Descaso com previamente.
portarias ministeriais, frentes parlamentares, pessoas O ponto final é que o contrato entre a Secretaria
da sociedade civil se doando por inteiro para abrir de Cultura (SEC/RJ) e o Instituto de Desenvolvimen-
uma biblioteca comunitária aqui e ali, para suprir exa- to e Gestão (IDG) (O.S. – Organização Social) que
tamente este tipo de lacuna deixada pelos governos.” gerencia a rede de Bibliotecas-Parque do Rio) foi de
Em relação às iniciativas da sociedade civil, acho R$96 milhões por cinco anos. Recursos provenientes
louvável a vontade de assumir algum tipo de com- do “poder público”. As bibliotecas fecharam porque o
promisso com as BPs face ao fechamento temporá- governo do estado não repassou as parcelas conforme
rio: tão logo feito o anúncio do corte a conversa na combinado. Decerto, os recursos são ilimitados para
interweb girou em torno do estabelecimento de uma algumas ações de governo (blitz contra arrastão ou

Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|11

Biblioteca Parque de Manguinhos. Foto: divulgação


Crianças no 1º ato do Movimento Abre Biblioteca Rio. Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo

olimpíadas, por exemplo) e restritos em outras, mas do ideal, mas é o que nos é oferecido por enquanto.
enquanto contribuintes precisamos avaliar se: 1) vale No dia 28 de novembro deste ano aconteceu um
a pena investir em bibliotecas públicas; e 2) quanto ato em defesa das Bibliotecas-Parque. Cento e cin-
custa a manutenção de uma rede de bibliotecas pú- quenta funcionários do IDG estão em aviso prévio.
blicas. Nas poucas horas que permanecemos na entrada da
Sobre: 1) não sou capaz ainda de responder, mas BPE foi grande o número de pessoas frustradas por
estou interessado nisso e me afeta diretamente. Há não saber que naquele dia a Biblioteca estava fecha-
muitos casos no Brasil em que o lucro é privado, mas da. Muitas delas voltaram para casa sem saber a razão
o prejuízo é público (o IDG tem a concessão, mas do fechamento, apenas mais uma biblioteca fechada,
quem reforma o prédio e compra os livros é o estado); mais outra experiência ruim no uso dos aparelhos pú-
em relação ao ponto 2), meu voto é sim porque a bi- blicos. Quem sabe o CCBB!
blioteca pública é niveladora social. Espaço que não Me resta deixar aqui um abraço pro pessoal do
exige identificação para entrar e compartilha a ponto Movimento Abre Biblioteca Rio, que tem repercutido
de reduzir a zero o valor do objeto de consumo. Se o problema e feito a denúncia. Mídia independente
vale de incentivo, de janeiro a outubro de 2015, apro- cumprindo papel importantíssimo.
ximadamente 570 mil pessoas frequentaram as quatro É muito improvável que as Bibliotecas-Parque se
Bibliotecas-Parque do Rio. precarizem a ponto de implosão no curto prazo. Mas
Finalmente as prefeituras do Rio e Niterói se pron- é bom ficar de olho, já aconteceu no passado recente.
tificaram a ajudar a manter as Bibliotecas abertas até Seria uma perda enorme deixar escapar esse proje-
o final de 2016 ao custo de R$1,5 milhão por mês. to incrível, tão jovem, tão cheio de possibilidades. E
O que só causa comoção no eleitor desavisado e que que as pessoas se dêem conta que nós financiamos
desconhece as outras dezenas de bibliotecas munici- o projeto, sem deixar enganar pelos subterfúgios da
pais que sobrevivem em situação de calamidade. BPE cidade-negócio.
e BPN vêm funcionando meia-bomba desde maio, *Artigo publicado originalmente no Facebook do
com o horário de 11h às 19h, entre terça e sábado. autor. ✪
Manguinhos e Rocinha 10h30 às 18h30. Muito longe

12| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12


Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|13
Retrospectiva 2015
Os 10 fatos que marcaram
a cultura informacional no ano
Por CHICO DE PAULa

C
omo já é tradicional, a Revista Biblioo apresenta os 10 fatos que marcaram a cultura in-
formacional no ano. Em 2015 foram muitos os acontecimentos, indo da crise na cultura,
passando por greves e chegando nos eventos mais importantes da área de livro, leitura
e bibliotecas.

1. Cultura em crise sido reduzidos, bem como a realização de concur-


A crise da cultura em geral e das bibliotecas públi- so público para suprir os cargos da instituição hoje
cas ensejou a criação de extensões, por assim dizer, ocupados por funcionários terceirizados. O segundo
do Movimento Abre Biblioteca em diversos estados ato aconteceu no final de novembro após o Instituto
do Brasil. Além do Abre Biblioteca Rio, também fo- de Desenvolvimento e Gestão, Organização Social
ram criados os da Paraíba e Pernambuco. No Rio o responsável por gerenciar os espaços, anunciar que
Movimento, criado em abril, assumiu como missão encerraria as atividades das quatro unidades das Bi-
a luta contra a precarização das Bibliotecas-Parque bliotecas (Manguinhos, Rocinha, Niterói e Centro)
(BPs) que vieram ao longo do ano sofrendo um inten- em função do não repasse dos valores por parte do es-
so processo de desmantelamento. Foram realizados tado. A despeito da precarização das bibliotecas mu-
dois atos. O primeiro em abril reivindicava a retoma- nicipais, a Prefeitura do Rio resolveu assumir as três
da dos dias e horários de atendimento, que haviam unidades das BPs que ficam na cidade do Rio, ficando

14| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12


a de Niterói sob a responsabilidade da Prefeitura de lá. foi lido em quarenta países e traduzido para treze
Conforme denunciou o Abre Biblioteca Rio, em 2014 idiomas.
a cultura ficou com míseros 0,04% e a educação com Cinderela do Brasil, produto do consumo mundial,
3,7% (números de 2014) ao mesmo tempo em que o Carolina Maria de Jesus saiu da favela, correu o mun-
pagamento de juros e amortização da dívida por parte do, foi entrevistada e fotografada, premiada pelos
do governo federal consumiu mais de 45% de todo o críticos, agasalhada pelos cavalheiros e recebida por
orçamento da União. “O processo de precarização das presidentes.
bibliotecas-parque, como da cultura, da educação e Passaram-se os anos. No início de 1977, numa ma-
da saúde pública é um processo que está sendo insti- drugada de domingo, Carolina Maria de Jesus morreu
tuído pelo governo municipal, pelo governo estadual em meio ao lixo e aos urubus. Ninguém lembrava da
e pelo governo federal. […] Para cada funcionário de mulher que escrevera: “A fome é a dinamite do corpo
uma biblioteca-parque nós pagamos para uma OS o humano”.
triplo do que pagaríamos para um servidor público, Ela, que havia vivido de restos, pode ser, fugaz-
no entanto, o trabalhador dessa biblioteca não ganha mente, uma eleita. Foi permitido a ela sentar-se à
nenhum terço do salário desse servidor”, denunciou mesa. Depois da sobremesa, rompeu-se o encanto.
Bruno Cruz, integrante do Abre Biblioteca Rio. Enquanto seu sonho transcorria, o Brasil continua-
va sendo um país onde a cada dia, 100 trabalhadores
2. Morte do Eduardo Galeano ficam lesados por acidentes de trabalho e onde qua-
O escritor uruguaio, Eduardo Galeano, morreu aos tro de cada dez crianças que nascem, são obrigadas
74 anos no dia 13 de abril de 2015 em Montevidéu a converterem-se em mendigos, ladrões ou mágicos.
devido a complicações de um câncer de pulmão. Ainda que as estatísticas sorriam, as pessoas estão
Além de escritor, Galeano, era jornalista, ensaísta, arruinadas. Em sistemas organizados ao contrário,
historiador e ficcionista. Publicou mais de 30 livros, quando a economia cresce, cresce com ela a injustiça
quase todos traduzidos no Brasil. Dentre uma de suas social. No período de maior êxito do “milagre” bra-
obras com grande repercussão, traduzida para vários sileiro, aumentou a taxa de mortalidade infantil nos
idiomas, está o clássico, “As veias abertas da Améri- subúrbios da cidade mais rica do país. A súbita pros-
ca Latina”, em que denuncia a opressão, exploração e peridade do petróleo no Equador trouxe a televisão a
a colonização latina. cores em vez de escolas e hospitais.
Eduardo Galeano esteve no Brasil um ano antes de As cidades vão inchando até explodirem. Em 1950,
sua morte para divulgar seu último livro intitulado: a América Latina tinha seis cidades com mais de um
“Os filhos dos dias”. Um livro em formato de calen- milhão de habitantes. Em 1980, terá vinte e cinco. As
dário em que cada dia nasce uma história porque na vastas legiões de trabalhadores que o campo expul-
visão de Galeano cada pessoa é feita de átomos, mas sa, compartilham, nas margens dos grandes centros
também de histórias. urbanos, a mesma sorte que o sistema reserva aos jo-
Com a morte de Eduardo Galeano o mundo fica vens cidadãos que “sobram”. Aperfeiçoar-se – velha-
mais pobre, mas as suas obras continuam vivas e por- caria latino-americana – as formas de sobrevivência
que não dizer atuais e críticas. O legado de Galeano dos caça-vidas. “O sistema produtivo vem mostrando
pode ser considerado uma memória viva dos conde- uma visível insuficiência para gerar emprego pro-
nados ao esquecimento e “invisíveis” que são descar- dutivo que absorva a crescente força de trabalho da
tados pelo sistema capitalista. região, especialmente dos grandes contingentes de
A história continua e as veias da América Latina mão-de-obra urbana…” (Organizações das Nações
permanecem abertas e ainda não foram saradas: Unidas, CEPAL).
“Carolina Maria de Jesus nasceu no meio da sujei- Um estudo da Organização Mundial do Trabalho
ra e dos urubus. assinalava, faz pouco tempo, que na América Latina
Cresceu, sofreu, trabalhou duro; amou homens, existem mais de 110 milhões de pessoas em condições
teve filhos. Num livrinho, anotava com letra ruim de “grave pobreza”. Delas, setenta milhões podem ser
suas tarefas e seus dias. consideradas “indigentes”. Qual é a porcentagem da
Um jornalista leu esses livros por acaso e Carolina população que come menos do necessário? Na lingua-
Maria de Jesus converteu-se numa escritora famosa. gem dos técnicos, aqueles que tem, “orçamento infe-
Seu livro Quarto de Despejo, diário de cinco anos de rior ao custo da alimentação mínima equilibrada”, são
vida num sórdido subúrbio da cidade de São Paulo, 43% dos colombianos, 42% da população brasileira,

Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|15


49% da de Honduras, 31% dos mexicanos, 45% dos no Brasil. Esse sucesso se deve em grande medida ao
peruanos, 29% dos chilenos, 35% dos equatorianos. grau de organização que impera entre os associados e
Como afogar explosões de rebelião das grandes entusiastas do associativismo, congregados em torno
maiorias condenadas? Como prevenir essas possíveis da ACB. Não à toa o evento tenha alcançado uma lon-
explosões? Como evitar que essas maiorias sejam gevidade tão extensa. A própria ACB acaba de com-
cada vez mais amplas se o sistema não funciona para pletar 45 anos de fundação, comemorados durante o
eles? Excluindo-se a caridade, sobra a polícia”. Painel. “Nós também queremos alcançar e apimentar
(GALEANO, Eduardo. As veias abertas da Amé- não só o nosso estado, a gente espera ter sempre pes-
rica Latina. 36 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1994, p. soas de outros estados. Nós estamos abrindo pontes
302-304). e fechando elos para percorrer todo o Brasil e quem
sabe o mundo”, disse Kátia Costa, presidente da As-
3. Eventos importantes sociação.
O ano de 2015 ficará marcado pela realização de O I Encontro Internacional de Políticas Públi-
uma série de eventos, dos quais a Revista Biblioo cas: Território Leitor foi realizado em Brasília entre
teve oportunidade de participar de alguns fazendo os dias 30 de novembro a 04 de dezembro de 2015.
uma extensa cobertura in loco. Promovido pelo Ministério da Cultura e Sistema Na-
O primeiro desses eventos foi a quinta edição do cional de Bibliotecas Públicas, o encontro englobou
Bibliocamp realizado na Biblioteca Parque Estadual debates e reflexões acerca das ações e iniciativas dos
do Rio de Janeiro em maio de 2015. Uma iniciativa setores do livro e da leitura no Brasil e no exterior.
organizada por Moreno Barros que reuniu profissio- O Território Leitor abarcou três importantes encon-
nais de diversas áreas. tros: o I Encontro do Plano Nacional do Livro e da
“A ideia era que fosse um evento itinerante, inde- Leitura (PNLL), o XX Encontro do Sistema Nacional
pendente e voluntário para as pessoas levarem para de Bibliotecas Públicas (SNBP) e o XVI Encontro
suas cidades. Uma das dinâmicas do Bibliocamp é a Nacional do Proler (Programa Nacional de Incentivo
captação de talentos e de melhores práticas para con- à Leitura).
densar isso em um dia”, disse Moreno Barros no se- Para maiores informações sobre este evento confi-
gundo programa Diálogos Biblioo. ra nossa matéria de capa com uma reportagem com-
Em um dia inteiro de programação o evento contou pleta do que foi discutido e apresentado no Território
com palestras de grandes nomes da área de Bibliote- Leitor 2015.
conomia, dentre eles, Briquet de Lemos, Marina Ma-
cambyra, Soraia Magalhães, entre outros. 4. Greves e manifestações
O Seminário Diálogos Biblioo. Organizado pela Em 2015 o Brasil viu uma de suas greves mais in-
equipe da Revista, a primeira edição discutiu a Lei tensas e mais extensas na área da educação, tanto no
da Biblioteca Escolar, lançando a seguinte pergunta: ensino superior, quanto no ensino básico. Nas univer-
“houve avanços em seus cinco anos de existência?” O sidades mais de 60 instituições aderiram ao movimen-
Seminário aconteceu no auditório Mário Lago do Co- to paredista, numa greve que chegou a durar mais de
légio Pedro II, unidade de São Cristovão, no Rio, em quatro meses. O saldo parece ter sido negativo, uma
junho, e contou com a participação de bibliotecários, vez que o governo federal, aquele que tem como slo-
professores, pesquisadores, estudantes e interessados gan “a pátria educadora”, não cedeu à pressão e aos
pelo tema. apelos dos trabalhadores concedendo um aumento de
IV Fórum Brasileiro de Bibliotecas Públicas, reali- pouco mais de 10% dividido em dois anos. O acordo,
zado como evento paralelo ao XXVI Congresso Bra- inclusive, pode não ser cumprido pelo Planalto que já
sileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência sinaliza com essa possibilidade.
da Informação (CBBD), aconteceu na cidade de São No ensino básico, a sociedade assistiu atônita a
Paulo em julho, ocasião na qual foram discutidos te- polícia reprimir de forma violenta os professores que
mas como inovação e acessibilidade em bibliotecas. estavam em greve no Paraná.
Promovido pela Associação Catarinense de Biblio- Neste final de ano também foi possível acompa-
tecários (ACB), o 33º Painel de Biblioteconomia em nhar a luta dos estudantes de São Paulo que brava-
Santa Catarina, realizado na cidade de Joinville entre mente resistiram a ofensiva do governo Geraldo Alk-
os dias 12 e 14 de novembro, parece se firmar dentre min (PSDB) que pretendia fazer uma “reorganização”
os mais importantes eventos da categoria promovidos no sistema educacional, o que resultaria, entre outras

16| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12


coisas, no fechamento de pelo menos 93 escolas. foi criada em sessão plenária na Câmara Municipal
Mais uma vez a polícia reprimiu os manifestantes de do Rio a Frente Parlamentar do Livro, Leitura e Bi-
forma violenta. Mesmo tendo suspendido o decreto blioteca.
que determinava o fechamento das unidades escola- A Frente Parlamentar é um espaço criado com ob-
res, os estudantes resolveram permanecer ocupando jetivo de ser um canal de debate entre o poder pú-
as escolas até que o governo do estado revogue por blico, a sociedade civil e os vereadores em prol da
completo a medida. construção de políticas públicas em torno da área do
No Conselho Regional de Biblioteconomia da sé- livro, leitura e bibliotecas.
tima região (CRB7) os funcionários fizeram história Para a Frente ser instituída era necessário a assina-
ao decretar uma greve que durou pelo menos duas tura de 26 vereadores, os integrantes do Polo Cone-
semanas. Os trabalhadores reivindicavam reajustes xão Leitura visitaram 51 gabinetes de vereadores do
de 9.3% no salário, retroativos a maio (data-base) e Rio e conseguiram um total de 41 assinaturas.
no valor do vale-refeição/alimentação, entre outros. Além desse feito, o Conexão Leitura, também vem
O CRB7 tentou criminalizar o movimento paredista fomentando o debate para o desenvolvimento e cria-
ingressando com uma ação que pedia que a greve foi ção do Plano Municipal do Livro, Leitura e Biblio-
considerada ilegal. No entanto, em audiência realiza- teca (PMLLB) do Rio. Em novembro de 2015 orga-
da no dia 25 de novembro, na Seção de Dissídios Co- nizaram o II Seminário Conexão Leitura: “Por que
letivos (Sedic) do TRT-1ª Região, a desembargadora queremos um Plano Municipal do Livro, da Leitura e
remeteu aos trabalhadores e ao CRB7 o compromisso da Biblioteca na Cidade do Rio de Janeiro?”
de se ajustarem em conciliação. No dia 27 de novem-
bro o SINSAFISPRO enviou um ofício ao Conselho 7. Aprovação do PMLLB em São Pau-
solicitando o início do processo de conciliação para lo
tratar das reivindicações básicas dos funcionários do No dia 15 de novembro de 2015 foi aprovado em
órgão, que suspenderam a greve no último dia 26/11 sessão plenária na Câmara Municipal de São Paulo,
por orientação da SEDIC, mas até o fechamento desta o Plano Municipal do Livro, Leitura e Biblioteca (PL
matéria, a autarquia não havia dado retorno sobre a 168/2010 de autoria do vereador Antonio Donato).
solicitação, conforme informou a Biblioo o SINSA- Após mais de um ano de discussões, debates e ar-
FISPRO. ticulações entre a Sociedade Civil, o Executivo e o
Parlamento finalmente o texto final do PMLLB foi
5. Mudanças no MinC concluído. Logo após a sanção do prefeito Fernando
Embora Juca Ferreira esteja no comando da pasta Haddad será criado um conselho para acompanhar as
da Cultura desde o final de 2014, mudanças importan- ações presentes nas diretrizes do plano.
tes aconteceram por lá. Na Diretoria do Livro, Lei-
tura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), por exemplo, 8. Feira Internacional do Livro
Volnei Canônica, ex-coordenador do programa Pra- de Guadalajara
zer em Ler do Instituto C&A, assumiu no lugar de Je- A vigésima nona edição da Feira Internacional de
fferson Assumpção, que havia deixado a Diretoria em Guadalajara foi realizada de 28 de novembro até 06
abril deste ano. “A gente precisa mobilizar cada vez de dezembro de 2015. Um dos eventos mais impor-
mais os governos municipais para que a gente tenha tantes do mundo editorial, a Feira de Guadalajara de
esse entendimento de que a biblioteca é um equipa- 2015, recebeu autores, livreiros, bibliotecários, pro-
mento vivo e necessário para toda população” disse fessores, agentes literários e editoras de mais de 40
Canônica à Biblioo pouco antes de assumir oficial- países.
mente o cargo em agosto. O Reino Unido foi o país homenageado nesta 29ª
edição. O Brasil foi o país homenageado na edição da
6. Criação da Frente Parlamen- feira de 2001 e depois disso vem tendo grande parti-
tar do Livro, Leitura e Biblioteca cipação. Esse ano o evento contou com a maior par-
do Rio ticipação de brasileiros, e além disso, o Ministério da
Após uma grande mobilização organizada por in- Cultura também enviou uma delegação para conferir
tegrantes do Conexão Leitura, um polo que congrega a Feira Internacional do Livro de Guadalajara.
bibliotecas comunitárias e desenvolve ações de lei-
tura no Rio de Janeiro, no dia 20 de agosto de 2015 9. Eleições e posse do Conselho

Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|17


Nacional de Política Cultural
(CNPC)
Após consulta pública o Ministério da Cultura lan-
çou eleições para os Colegiados Setoriais e o Plenário
do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC)
para o biênio 2015-2017. O processo eleitoral para
escolha de representantes para o CNPC contou com
mais de 70 mil participantes. Ao todo foram eleitos
58 integrantes do Pleno do Conselho – 20 da socieda-
de civil e os demais representantes dos poderes públi-
cos federal, estadual e municipal.
Além dos integrantes do Pleno, o CNPC é com-
posto por 19 Colegiados Setoriais, são eles: Arquivos,
Arquitetura e Urbanismo, Artesanato, Arte Digital,
Artes Visuais, Cultura Afro-brasileira, Audiovisual,
Cultura Indígena, Cultura Popular, Circo, Dança, De-
sign, Literatura, Moda, Música, Museu, Patrimônio
Imaterial, Patrimônio Material e Teatro. Cada um
desses colegiados é composto por 20 membros titu-
lares, dos quais 15 são da sociedade civil e cinco do
poder público, com igual número de suplentes.
A posse dos eleitos foi realizada no último dia 16
de dezembro em Brasília e contou com a participa-
ção do ministro da cultura, Juca Ferreira, convidados,
membros dos fóruns estaduais e municipais de cultu-
ra, entre outros.
Dentre as atribuições dos eleitos estão a de acom-
panhar e fiscalizar a execução do Plano Nacional
de Cultura (PNC); estabelecer diretrizes gerais para
aplicação dos recursos do Fundo Nacional de Cultura
(FNC); apoiar os acordos para a implantação do Sis-
tema Federal de Cultura e aprovar o regimento inter-
no da Conferência Nacional de Cultura.

10. Morte de “Presidente”, mora-


dor de rua que marcou época na Ci-
nelândia
Sérgio Luis Santos das Dores era assim que se cha-
mava o” Presidente”, morador de rua e ativista que
veio a falecer vítima de falência múltipla dos órgãos
no dia 16 de dezembro. Figura marcante nas manifes-
tações de rua, Presidente, morava na região da Cine-
lândia, no centro do Rio, por mais de vinte anos.
Sempre presente em atos, protestos e nas manifes-
tações de 2013. Sérgio tinha 63 anos, era conhecido
pela sua espontaneidade e pelo seu ativismo. Presi-
dente recebeu despedida de chefe de estado. O seu
velório foi realizado na Câmara Municipal do Rio
e contou com a presença de autoridades, políticos e
amigos. O corpo saiu em cortejo até o cemitério do
Catumbi, onde foi sepultado. ✪

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Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|19
Território
Leitor
Perspectivas
para as
políticas
públicas para
as áreas do
livro, da
leitura e das
bibliotecas no
Brasil em 2015

Por Rodolfo Targino


Quase metade da população não tem o [en- bolsas de estudos para jovens e adolescentes.
sino] fundamental completo, mais de 13 mi- Segundo Rodrigo Círiaco, idealizador desta inicia-
lhões de jovens no Brasil são analfabetos. É tiva, o Sarau dos Mesquiteiros faz parte de um projeto
fácil virar insano quando não se tem ensino. de leitura que começou dentro de uma escola estadual
É fácil julgar o menino e pedir que a pena do- na Zona Leste de São Paulo usando a literatura de
bre, ainda mais quando se descobre que é quase sem- maneira artística e performática. O trabalho que co-
pre preto e pobre”. Foi o que declamou a jovem Sarah meçou dentro de sala de aula e depois expandiu para
Andrade, integrante do Sarau dos Mesquiteiros, du- as bibliotecas e espaços culturais, sempre envolveu
rante o I Encontro Internacional de Políticas Públicas: jovens e adolescentes.
Território Leitor, realizado em Brasília entre os dias O Sarau dos Mesquiteiros foi uma das atrações da
30 de novembro e 4 de dezembro deste ano. programação cultural do Território Leitor, evento que
O Sarau dos Mesquiteiros é um projeto realizado englobou debates, reflexões e exposições de ações re-
há quase 10 anos em São Paulo com foco na literatura lacionadas aos setores do livro, da leitura, das biblio-
marginal e tendo como modelo os saraus das perife- tecas e ao andamento de políticas públicas no Brasil e
rias. O grupo realiza várias ações regularmente, dentre no exterior acerca destes temas.
elas as oficinas semanais de prosa e poesia, encontros O Território Leitor, realizado pela Diretoria de Li-
literários, publicações de livros, concursos literários e vro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério

20| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12


da Cultura (DLLLB/MinC), abarcou três importantes maioria dos municípios brasileiros. “Sabemos que
encontros: o I Encontro do Plano Nacional do Livro para implantar os planos nos estados e municípios te-
e da Leitura (PNLL), o XX Encontro do Sistema Na- mos que batalhar. Cada um que der seu passo em prol
cional de Bibliotecas Públicas (SNBP) e o XVI En- da criação do seu plano municipal está construindo
contro Nacional do Proler (Programa Nacional de uma força a mais em prol da leitura no nosso país”,
Incentivo à Leitura). enfatizou Castilho.
Volnei Canônica, diretor do DLLLB, destacou que Ações do governo federal para o livro, leitura, li-
o Território Leitor é um encontro para trabalhar co- teratura e bibliotecas no Brasil foi um dos temas de-
nexões, pontos de contatos e parcerias. “Sem articu- batidos no terceiro dia de programação do Território
lação não podemos atacar os nossos problemas, no Leitor.
diálogo podemos avançar”, ressaltou. A senadora Fátima Bezerra (PT/RN), que integra
Durante a mesa de abertura do evento o ministro a Frente Parlamentar Mista em Defesa do Livro e da
da Cultura, Juca Ferreira, voltou a criticar os baixos Leitura, informou que considera um momento im-
índices de leitura do Brasil. “Nossa condição de leitu- portante para fortalecer a luta no que diz respeito às
ra é dramática. Quando o assunto é livro e leitura no políticas públicas do livro e leitura no país. Ela apre-
Brasil, ao ver nossos números e comparar com outros sentou as ações do legislativo e teceu um panorama
países, temos que ficar preocupados e envergonha- a respeito das leis brasileiras e proposições que estão
dos”. em tramitação para área da cultura, do livro, da leitura
Juca Ferreira apontou que quando foi ministro no e das bibliotecas.
governo Lula chegou a zerar o número de municípios Assim como Castilho, Fátima Bezerra também en-
brasileiros sem bibliotecas, mas a situação sempre re- fatizou a necessidade de que o PNLL seja transfor-
trocedia. “Zerávamos e meses depois as bibliotecas mado em lei e em uma política pública permanente.
eram fechadas porque as prefeituras tinham dificul- Apresentou o Projeto de Lei 49/2015, de sua autoria,
dades em colocar dois funcionários para administrar que tem por objetivo instituir a lei do preço fixo do
a biblioteca”, relatou em sua apresentação. livro no Brasil. “O que nos move para apresentar essa
Atualmente o país tem um total de 112 municípios iniciativa é o desejo de contribuir para o aumento dos
sem bibliotecas funcionando, segundo os números espaços de circulação e vendas de livros pelo país
do MinC. Para combater esse problema, Juca Ferrei- afora”, destacou a senadora.
ra pretende criar uma norma para que os municípios Colegiado do Conselho Nacional de Políticas Cul-
brasileiros que não tiverem bibliotecas funcionando turais (CNPC)
sejam impedidos de receber recursos da Cultura. O Colegiado do Conselho Nacional de Políticas
Território Leitor Culturais (CNPC), órgão colegiado integrante da es-
Na programação do primeiro dia do Território Lei- trutura básica do Ministério da Cultura, apresentou
tor também ficou marcada a assinatura do termo de duas moções. Uma em defesa das bibliotecas públicas
parceria entre o MinC e a Fundação Bill & Melinda brasileiras e outra em repúdio ao decreto do prefeito
Gattes e o lançamento do Cadastro Nacional de Bi- de Belém, Zenaldo Coutinho (PSDB/PA), que extin-
bliotecas. gue, entre outros, o cargo de bibliotecário do quadro
O segundo dia do evento foi marcado pela inte- efetivo da prefeitura.
gração com experiências internacionais de leitura. Após a leitura das moções pelo colegiado do CNPC,
Na mesa intitulada “Governo e Sociedade: Planos o diretor da DLLLB, Volnei Canônica, se manifestou
Nacionais do Livro e da Leitura”, representantes de em desacordo com alguns pontos do documento. O
países como Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai e Uru- primeiro foi em relação à questão da Biblioteca De-
guai relataram suas peculiaridades e dificuldades para monstrativa de Brasília que atualmente está fechada.
a implantação de suas políticas nacionais do livro e Segundo Volnei, em entrevista concedida à Revista
da leitura. Biblioo durante o evento, o prazo de reabertura é abril
José Castilho, secretário executivo do Plano Na- de 2016.
cional do Livro e Leitura (PNLL), destacou a necessi- Outro ponto discutido diz respeito às bibliotecas
dade da criação de uma política de estado permanente -parque do Rio de Janeiro que voltaram a funcionar
para essas áreas. Ele também ressaltou a importân- em 01 de dezembro de 2015 depois que as prefeituras
cia da criação dos Planos Municipais do Livro e da do Rio e Niterói assumiram os espaços, ensejando a
Leitura, os quais ainda estão por ser construídos na revisão dos documentos.

Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|21


Muitos dos participantes se manifestaram sobre as obter informações no endereço www.bibliotecasmt.
questões, demonstrando dúvidas e incertezas sobre as com.br; visitas para organização de bibliotecas, visto
informações. Assim, num espaço democrático, ficou que muitos espaços encontravam-se em estado de de-
decidido que as moções serão reavaliadas, além do sorganização do acervo e de equipes; visitas técnicas
Colegiado do CNPC ficar aberto a receber novas mo- em 16 municípios.
ções de outros profissionais, movimentos, coletivos Segundo Heloísa, o estado encontra-se atrasado no
ou organizações. que diz respeito à informatização. Para 2016, existe
previsão de concurso para cargos de bibliotecários,
Encontro do SNBP onde os investimento serão de 950 mil reais para o
Na manhã do dia 03 de dezembro, em continuidade SEBP/MT e 1 milhão para a Biblioteca Pública Es-
a programação do I Encontro Internacional de Políti- tadual Estevão de Mendonça. Ela também comentou
cas Públicas: Território Leitor foi realizado o XX En- que em 2014 existiam doze bibliotecas fechadas e de
contro do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas. lá para cá conseguiram reabrir apenas seis.
O evento contou com a presença de coordenadores e/ Maria Cristina, coordenadora do Sistema Estadual
ou representantes dos sistemas estaduais de bibliote- de Bibliotecas Públicas da Bahia, comentou que no
cas públicas, exceto do estado do Amapá e Rio Gran- estado 10 bibliotecas públicas estão fechadas, mas
de do Sul que não enviaram representantes. 443 encontram-se abertas. Algumas ações de 2015
Graça Pimentel, coordenadora do Sistema de Bi- apresentadas que, segundo ela, tiveram destaques
bliotecas Públicas do Distrito Federal, deu início às foram: lançamento do site do Sistema de Bibliotecas
apresentações. Graça apresentou alguns índices im- – www.bibliotecas.ba.gov.br e lançamento da Biblio-
portantes do Distrito Federal (DF), dentre os quais o teca Virtual Dois de Julho, que mudou o nome recen-
de que existem cerca de 53 mil analfabetos (com 15 temente para Biblioteca Virtual Consuelo Pondé, es-
anos ou mais), ou seja, 1,90% da população do DF, pecializada na história da Bahia.
sendo que 16,58% da população não têm o hábito de “Na Bahia são poucas as bibliotecas que possuem
leitura e 90,98% não frequentam biblioteca. bibliotecários […]. Cerca de apenas 20 bibliotecas
Na apresentação foram levantadas algumas pro- possuem bibliotecários”, destacou Maria Cristina. A
blemáticas das bibliotecas públicas do DF, tais como: coordenadora também apontou que em 2015 algu-
recursos orçamentários, recursos humanos, espaço mas bibliotecas públicas foram contempladas com os
físico, segurança pública, acesso à TICs, etc. A co- projetos CDI Bibliotecas, Acessibilidade em Biblio-
ordenadora ainda destacou a apresentação do progra- tecas Públicas e Iberbibliotecas (com lançamento de
ma Mala do Livro, que amplia as possibilidades de ebook, cujo acesso está disponibilizado no site www.
acesso à leitura com a utilização de minibibliotecas bibliotecas.ba.gov.br).
instaladas em residência para empréstimo de livros. A coordenadora do Sistema Estadual de Bibliote-
Fabio Mota Queiroz, coordenador do Sistema Es- cas Públicas do Ceará (SEBP/CE), Maria Apareci-
tadual de Bibliotecas Públicas de Mato Grosso do da, apresentou algumas ações 2014-2015, tais como:
Sul, fez um histórico das ações promovidas por sua execução do projeto de modernização e implementa-
coordenação, bem como a formação nos municípios, ção do Setor Braille em 53 bibliotecas municipais do
o Projeto Acessibilidade em Bibliotecas Públicas e Ceará. Conforme Apareceida, no final de 2013 cin-
em 2015 a realização do Encontro Estadual de Bi- co municípios foram contemplados com projetos de
bliotecas. modernização do setor, com quatro municípios con-
Maria Socorro, coordenadora do Sistema Estadual templados com o CDI Bibliotecas. O SEBP/CE pro-
de Bibliotecas Públicas de Goiás, informou que há moveu também: apoio e entrega de 40 Baús no II Se-
três anos sua coordenação não desenvolve nenhum minário de Baú de Leitura (Casa do Conto): 10 anos e
projeto por falta de investimento do estado, o que pa- incentivo à leitura escolar e bibliotecas comunitárias;
rece demonstrar o processo atual de precarização dos realização do VII Encontro do Sistema Estadual de
instrumentos culturais e educacionais no Brasil. Bibliotecas Públicas na XI Bienal Internacional do
A coordenadora substituída do Sistema Estadual de Livro do Ceará. Maria aparecida comentou ainda que
Mato Grosso, Ana Heloísa, apresentou diversas ações, 198 bibliotecas municipais integram o SEBP/CE.
mas destacou que o estado ainda carece de recursos. Aline do Nascimento, coordenadora do Sistema de
Algumas ações apresentadas por ela foram: 152 bi- Bibliotecas Públicas do Maranhão, comentou que a
bliotecas cadastradas no SEBP/MT, onde é possível partir de visitas a municípios, em 2015 o SEBP/MA

22| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12


pôde constatar que, até o momento, em 27 visitas re- SEPB/RN são precárias, não havendo recursos para
alizadas à municípios, existem 22 bibliotecas em fun- visitas aos municípios. Rejane destacou que seu de-
cionamento no estado e 5 municípios sem bibliotecas. sejo é criar um fórum para discutir as condições do
Algumas ações do SEBP/MA apresentados por Aline SEBP/RN e planejar atividades e informou que todos
foram: supervisão de bibliotecas, reunião com prefei- os equipamentos culturais do estado possuem algum
tos, secretários e gestores e entrega de acervos. tipo de problema.
Almiraci Dantas, coordenadora do Sistema de Bi- Maria Sônia, coordenadora do Sistema Estadual
bliotecas Públicas de Alagoas, esclareceu que acabou de Bibliotecas Públicas de Sergipe, destacou que o
de assumir o cargo, por este motivo não teve apresen- estado possui 82 bibliotecas públicas e que atualmen-
tações de ações para realizar. Almiraci comentou que, te o SEBP/SE não dispões de verbas para realização
além de coordenadora do SEBP/AL, também atua na de atividades e no momento ela trabalha sem receber
Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos, onde salário.
é a única bibliotecária. Segundo ela, em novembro de 2015 foram reali-
Marta Diniz, representando do Sistema de Estadual zadas visitas a municípios com bibliotecas fechadas
Bibliotecas Públicas de Pernambuco, apresentou al- e seis bibliotecas foram contempladas com o projeto
guns resultados no estado, tais como: 54 bibliotecas Bibliotecas em Rede, realizado numa “parceria entre
ativas na região do Sertão e uma desativada; região o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) e
Agreste possui 69 bibliotecas ativas e uma desativa- a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que
da; na região Mata Norte e Sul bibliotecas 41 ativas se propõe a promover debates que estimulem a circu-
e uma desativadas; na região Metropolitana nove bi- lação de informações e de experiências entre profis-
bliotecas ativas e duas desativadas e no Distrito de sionais de bibliotecas de um determinado contexto”.
Fernando de Noronha: uma biblioteca ativada. Pedro Silva, representante do Sistema de Bibliote-
Marta apresentou ainda o projeto “Bibliotecar”, cas Públicas do Piauí, comentou que o SEBP/PI foi
que visa “contribuir para a dinamização e revitaliza- criado em 2003 e desde então nunca houve investi-
ção das bibliotecas públicas municipais que compõe o mento por parte do estado. Ainda segundo Pedro, o
SEBP/PE através da formação de suas equipes em 24 Piauí possui 224 municípios e muitos possuem bi-
meses”, sendo que em 2015 apenas 50% do projeto bliotecas fechadas. Muitos kits doados pelo SEBP/
foi realizado; exposição itinerante nas bibliotecas pú- PI foram encontrados fora das bibliotecas, alguns
blicas municipais do Cabo de Santo Agostinho, Fer- encontrados nos gabinetes de prefeitos. Além disso,
reiros e Igarassu; premiações: Caixa-estante: quem se a instituição encontra-se atualmente sem telefone e
informa está mais forte, Boas Práticas e Inovação em internet.
Bibliotecas Públicas.
A coordenadora de Bibliotecas Públicas da Paraí- Vera Schroeder lê carta de repúdio ao CRB7
ba, Cibelle Macedo, destacou como ações do SEBP/ No final da mesa, “Articulações em Rede”, foi
PB o projeto de contação itinerante, o projeto de in- aberto espaço para perguntas dos participantes. Uma
centivo à leitura, a realização de audiências públicas das manifestações foi a de Vera Schroeder, Superin-
nos municípios e de curso de capacitações para pro- tendente da Superintendência da Leitura e do Conhe-
fissionais de bibliotecas públicas do estado, além do cimento da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de
projeto Agosto das Letras, realizado em agosto de Janeiro.
2015 onde a programação com oficinas, palestras, se- Vera leu uma carta de repúdio, em nome de Maria
minário de bibliotecas comunitárias. Destacou como Sebastiana Marques Palmeira (professora e incenti-
perspectivas futuras a criação legal do SEBP/PB e o vadora da leitura do município de Angra dos Reis,
gerenciamento do Plano Nacional do Livro e Leitura Rio de Janeiro), às atitudes do Conselho Regional de
– PNLL. Biblioteconomia da 7ª Região (CRB7/RJ) no que diz
Rejane Souza, coordenadora do Sistema Estadual respeito à forma como vem atuando e “inflacionan-
de Bibliotecas Públicas do Rio Grande do Norte, fez do” professores. Vera leu também uma carta aberta
um histórico de como chegou ao SEBP/RN. Rejane sobre o caso e pediu aos participantes presentes que
acaba de assumir o cargo e destacou alguns pontos da assinassem.
situação de seu estado. Segundo ela, há quatro anos O teor da carta apresenta acusação e autuação da
a Biblioteca pública está em reforma e mais um 1 professora Maria Sebastiana Marques Palmeira por
milhão foram investidos; as condições de atuação do “exercício ilegal da profissão de bibliotecário” por

Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|23


desenvolver atividades de leitura na biblioteca públi-
ca professor Guilherme Briggs no município de An-
gra dos Reis.
Em resposta sobre o caso o CRB7 divulgou uma
nota em sua página no facebook. O CRB7 alega que
a referida professora exercia o cargo de coordenadora
de biblioteca e leitura em Angra e que por ocasião
da fiscalização realizada pela autarquia também foi
constatada a ausência de profissional habilitado na re-
ferida biblioteca, gerando um auto de infração para o
município.
O CRB7 ainda destacou que cumpriu seu papel no
que diz respeito à legislação pertinente à profissão de
bibliotecário, sendo improcedentes as alegações da
carta de repúdio. Na nota, a instituição ainda exige
retratação.

Reflexões sobre o Território Leitor


Algumas observações sobre o evento foram rea-
lizadas a fim de contribuir para futuros encontros e,
sobretudo, melhor atender aos participantes, bibliote-
cários, mediadores de leitura, gestores etc. Os pontos
levantados foram:
– O que vai acontecer depois do evento: foi levan-
tada a questão sobre as ações pós-evento, sobre como
os debates contribuirão para efetivar resultados;
– Mais espaços para falas: os participantes de-
monstraram interesse em haver mais espaços para
perguntas e debates com os palestrantes;
Além dos pontos levantados pelos participantes,
cabe destacar a necessidade da criação de políticas de
estado para área do livro, leitura, literatura e biblio-
tecas do país o que, a propósito, foi enfatizado por
algumas pessoas durante os debates.
Conforme a Revista Biblioo vem denunciando, na
conjuntura atual existe um processo de desmantela-
mento da Cultura e da Educação, com cortes cada vez
maiores por parte dos governos para esses setores.
Com bibliotecas, escolas e universidades fechadas e
precarizadas existe a necessidade de se unir esforços
em prol de uma atuação política direta e consistente
para reverter este quadro alarmente.
As bibliotecas, a leitura e as políticas públicas pre-
cisam chegar a todos os cantos deste país. Por tudo
que foi apresentado durante o Território Leitor, é pre-
ciso combater a realidade apontada pela jovem Sarah
Andrade do Sarau dos Mesquiteiros no início desta
reportagem: “mais de 13 milhões de jovens no Brasil
são analfabetos. É fácil virar insano quando não se
tem ensino”. Os jovens paulistanos que estão ocupan-
do as escolas públicas já deram o primeiro passo. ✪

24| Revista Biblioo - Dezembro 2015, Ano 5, Nº 12


Memória Institucional
O que é, para que serve e
como construí-la?

A
Por Daniel Henrique da Silva, bibliotecário

produção técnico-científica da Bibliote- de informação decisional; suas relações sociais; e a


conomia, atualmente, está voltada para gestão da informação e do conhecimento.
a própria produção técnico-científica da Atualmente, no mundo empresarial e em diversas
Biblioteconomia e de áreas correlatas áreas do conhecimento, a memória institucional é efi-
que se voltam para as instituições, nas caz para garantia de informações estratégicas e fun-
formas de lidarem com a informação, nas ferramentas damental à gestão, ao planejamento organizacional
utilizadas, em suas práticas de gestão da informação e às tomadas de decisões no âmbito institucional. A
e de gestão do conhecimento no âmbito institucional. memória também possibilita a geração de inovações e
Essas novas abordagens e formas de tratar a infor- a produção de conhecimento para a empresa, além de
mação institucional dão ênfase aos novos meios de desempenhar o papel de consolidação de uma identi-
aplicação e manuseio das inovações tecnológicas de dade para a organização, servindo como um seguro
organizações oriundas da internet. existencial do individuo e de sua coletividade.
No século XXI as instituições deixaram visíveis o Michael Pollak, em seu trabalho Memória e iden-
grande interesse em resgatar, organizar, assegurar e tidade social, afirma que “quando a memória e a
disponibilizar a história da instituição, seus objetivos identidade estão suficientemente constituídas, sufi-
e suas memórias. Por lidar com o tratamento da infor- cientemente instituídas, suficientemente amarradas,
mação, pesquisa, preservação, organização, registro e os questionamentos vindos de grupos externos à or-
divulgação, compete ao profissional da informação o ganização, os problemas colocados pelos outros, não
dever de organizar, projetar e desenvolver a Memória chegam a provocar a necessidade de se proceder a re-
Institucional. arrumações, nem no nível da identidade coletiva, nem
A memória institucional ou centro de memória no nível da identidade individual. Quando a memória
possui diversos elementos que os consolidam e os de- e a identidade trabalham por si sós, isso corresponde
finem como memórias, entre eles se destacam: histó- àquilo que eu chamaria de conjunturas ou períodos
rico institucional/local; identidade da instituição; for- calmos, em que diminui a preocupação com a memó-
mação/definição/consolidação da instituição; geração ria e a identidade”.

Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|25


Essa identidade deve ser repassada a sociedade instituição, sua tipologia, principais assuntos abor-
através de um instrumento memorável que represente dados, funções dos materiais, formas de armazena-
seu contexto, sua cultura e sua socialização. As ins- mento e condicionamento. Sua aplicação se dá atra-
tituições podem representar grande parte da história vés de questionários estruturados, semi-entrevistas e
humana. Thiesen Magalhães Costa, ao tratar sobre entrevistas pessoais nos setores. O diagnóstico é uma
memória institucional em sua tese de doutorado Me- ferramenta de estudo e avaliação de grande eficácia,
mória institucional, afirma que a relação da institui- prática e funcionalidades, sendo usado nas mais va-
ção com a sociedade “refletem as formalizações das riadas áreas.
culturas, daquilo que as diferentes sociedades culti- Descrita pelo próprio nome, a seleção informacio-
vam como maneira de pensar: hábitos, usos, costu- nal é responsável por ‘filtrar’, selecionar as informa-
mes, comportamento, etc.” Onde mostra a importân- ções que serão trabalhadas na criação da memória da
cia de se ter registro, uma memória. instituição. Inicialmente o tratamento dessa dimensão
E por se tratar da organização, preservação e re- parece fácil, no entanto, deve-se levar em conside-
cuperação da informação, compete ao profissional da ração o tipo de memória a ser construída – física ou
área o dever de projetar e desenvolver uma memória virtual, o que deve ser ‘lembrado’, afinal de contas
para a instituição. A seguir é apresentada uma meto- a memória, tanto pessoal (cerebral) como a que será
dologia prática e de fácil entendimento para a cons- construída, são formadas por um conjunto de dados,
trução de uma memória para instituições. objetos e informações, todos de forma seletiva – não
Define-se memória institucional como um conjun- se pode colocar qualquer informação ou objeto em
to de atributos, histórias, momentos e trajetórias que uma memória institucional.
nós mesmos fazemos, formando nossas próprias ins- A seleção dependerá do que estiver disponível
tituições. “E a memória institucional é o reflexo des- para o profissional. Há muitas instituições que não
sa trajetória, não como mimesis, mas um cristal com guardam registros das atividades e nem objetos de
suas múltiplas e infinitas facetas.” expressa Costa em trabalho, o que prejudica no momento de consolidar
sua tese. Sendo assim, ela é formada pelas ações das a memória, mas tem como recolher informações dos
instituições, seu contexto, suas relações externas e funcionários e de documentos da mantenedora
suas trajetórias, que serão visualizadas hoje e no futu- Por fim, a dimensão de divulgação e controle. Essa
ro, contextualizando o passado e o presente. dimensão envolve os produtos finais que já se encon-
A elaboração da memória institucional vai envol- tram definidos e disponibilizados para o memorial.
ver três dimensões, sendo elas: o Diagnóstico arqui- Ela entrará em atividade quando a memória da empre-
vístico; a Seleção informacional; e a Divulgação e sa estiver pronta, realizando o serviço de divulgação/
controle. marketing do projeto e controlando o recebimento de
Ao longo do processo de criação da memória ins- materiais que ainda poderão fazer parte do memorial.
titucional as três dimensões devem ser desenvolvidas Uma memória pode estar aberta para recebimento de
individualmente para que não haja atropelamentos depoimentos e objetos de antigos funcionários, locais
nas etapas. Preferencialmente realiza-se o Diagnósti- de trabalho ou algo parecido, o que a torna um fluxo
co arquivístico. Ele abarca as sub-etapas: elaboração constante de alimentação – tudo que chega deve pas-
de um diagnóstico arquivístico; levantamento biblio- sar pelo diagnóstico e depois pela seleção do que será
gráfico; e levantamentos dos materiais tridimensio- exposto e o que deverá ser guardado e reorganizado,
nais. sendo que o projeto deve passar por constantes divul-
Em seguida a dimensão a ser desenvolvida é a Se- gações e controle do que chega.
leção informacional, que se subdivide em: seleção Podemos verificar que as três dimensões abordam
de documentos arquivísticos, seleção de documen- todo o desenvolvimento da construção da memória
tos bibliográficos e dos materiais tridimensionais. institucional sendo uma dependente da outra. As di-
E a terceira e última dimensão a ser trabalhada é a mensões orientaram as atividades do profissional da
Divulgação e controle, responsável pelas sub-etapas: informação, bem como dos demais profissionais, no
exposição; divulgação; e controle de novos materiais, decorrer do projeto, no planejamento, e na “finaliza-
que deve ser tratada continuamente para evoluir a me- ção” das tarefas de forma fundamental, básica e práti-
mória da instituição. ca. Sempre lembrando que o presente será o passado
O diagnóstico arquivístico será responsável por e que fará parte da memória institucional. ✪
identificar a abrangência documental e material da

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Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|27
O espelho de Machado de Assis
Conto machadiano fala sobre ego, loucura e identidade

Por Mara Vanessa Torres

O
ano era 1882. Em terras brasileiras, meçam a dedicar ao mais novo alferes toda sorte de
Joaquim Maria Machado de Assis pu- elogios e honras.
blicava no jornal Gazeta de Notícias O posto de Jacobina acende o ímpeto de hospi-
o conto O Espelho¹ – Esboço de uma talidade de uma tia, que o convida para passar uns
nova teoria da alma humana. Posterior- dias em seu sítio. Lá chegando, Jacobina deixa de ser
mente, a obra foi vinculada ao livro Papéis Avulsos, tratado pelo nome e passa a ser chamado de “senhor
publicado no mesmo ano. O texto narra a fantástica alferes”, vocativo estendido também aos escravos da
experiência vivenciada por Jacobina, um jovem po- casa. “Eu pedia-lhe que me chamasse de Joãozinho,
bre que, aos vinte e cinco anos, é nomeado alferes da como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que
guarda nacional. Tal acontecimento desperta os mais não, que era o ‘senhor alferes’”.
exagerados sentimentos em seus familiares, e eles co- As manifestações honrosas legaram ao jovem al-

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feres o melhor lugar na mesa, o primeiro prato a ser William Shakespeare, Jacobina permitiu que o poder
servido e a joia preciosa da casa: um grande espelho, o consumisse, alterasse sua identidade, forjasse sua
cercado pelas pompas de um suposto passado impe- alma. O jovem alferes apaixonou-se pelo poder³.
rial e resquícios de ouro. Diante de tanta opulência, “o Jacobina atravessa um processo de mutação de
alferes eliminou o homem”. Jacobina passou a sentir identidade, no qual circunstâncias, pessoas e objetos
dentro do peito que não existia mais nada além de fúteis reproduzem a ideia de nobreza, bens materiais,
seu status de alferes. Consumido pela vaidade, o jo- aristocracia e paixão pelo poder. A ambição e o delí-
vem começa a descortinar um vício profundo, nefasto rio se unem em um êxtase febril, fazendo com que o
e oculto em sua alma. No entanto, as circunstâncias jovem tenha sua identidade usurpada por algo inex-
mudam quando uma filha da entusiasmada tia passa plicavelmente mais forte e incontrolável.
mal, impelindo a anfitriã a deixar o sítio e o sobrinho No enredo de O Espelho, Jacobina permitiu que o
alferes para trás. Sozinho com os criados, o rapaz não alferes consumisse o seu coração humano, aceitando
consegue conter o tédio e a insatisfação até que, pou- seus delírios como tática de sobrevivência; para não
cos dias depois, é abandonado à própria sorte no sítio, sucumbir, ele permitiu-se levar pela loucura. No mo-
já que os escravos de sua tia o enganam e fogem. mento em que, anos mais tarde, relata sua história aos
Na mais profunda solidão, sem nenhuma plateia amigos e eles insinuam que a experiência do então jo-
para inflar seu ego, a intensidade de outrora se trans- vem alferes era de enlouquecer, ele afirma que o fato
forma em apatia, mecanicidade repetitiva, ponteiros de olhar para o espelho, encontrar-se em dois – seu
de relógios que morrem a cada batida² . Essa letargia reflexo e seu corpo físico – e vestir a farda de alferes
começa a provocar-lhe alucinações, delírios, confu- foi o que o salvou. Enquanto fitava o espelho despido
sões mentais e desespero. O mal estar só é apazigua- da vestimenta, o jovem alferes só via sombras, figuras
do com a aceitação da loucura, fato que se dá quando esfumadas, difusas. Ao utilizá-la:
Jacobina se veste de alferes, aceita que sua nova iden- Olhava para o espelho, ia de um lado para
tidade é a que lhe foi imposta e atravessa mais seis outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro
dias de isolamento com essa sensação de poder, fitan- exprimia tudo. Não era mais um autômato,
do-se fardado diante do grande e tradicional espelho era um ente animado. Daí em diante, fui outro.
depositado em seu quarto. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me duas,
Essa experiência é lembrada pelo protagonista na três horas, despia-me outra vez. Com esse re-
idade adulta, no meio de um debate sobre assuntos gime pude atravessar mais seis dias de solidão,
metafísicos com amigos íntimos. Em sua explanação, sem os sentir.
Jacobina separa a alma humana em alma interior e Dessa forma, Jacobina permitiu que sua alma exte-
alma exterior; esta última diz respeito ao que conso- rior, suas alucinações e instabilidades desnudassem o
me, apaixona, obceca o indivíduo. Ela é de fora para que carregava por dentro. Entrando nas profundezas
dentro. Já a alma interior é de dentro para fora, per- de sua desordem mental, ele salvou a si mesmo.
sonificando a essência. Com este conto, Machado de __________________________________________
Assis, aos quarenta e três anos, desenvolve mais uma
personagem cuja ótica está baseada no que se é, no ¹ O Espelho foi publicado no jornal Gazeta de No-
que se pensa que é e no que os outros pensam que se tícias no dia 8 de setembro de 1882.
é. ² Nesse fragmento, Machado faz uma referên-
Esse raciocínio pode ser percebido em outras obras cia sensacional ao poema ‘The oldclockonthestair’
machadianas, característica que faz do autor um ob- (1845), do poeta americano Henry Wadsworth Long-
servador arguto da sociedade. Nas palavras de José fellow. Essa citação é lembrada por John Gledson no
Carlos Garbuglio, expressas no artigo Desencontro livro 50 contos de Machado de Assis, Companhia das
e frustração, publicado no livro Crônicas da antiga Letras, São Paulo, 2007, o qual seleciona, organiza
corte: literatura e memória em Machado de Assis e introduz.
(2008):“Machado podia dar conta dos problemas ³ Referência ao prefácio escrito por Michel Fou-
porque tinha deles a visão por dentro, assim como a cault para a edição americana do Anti-Édipo, de Gil-
linguagem descolada dos compromissos de classe e les Deleuze e Felix Guattari, Nova York, Viking Press,
suficientemente distante da sedução da corte”. 1977, cuja potência da frase “Não se apaixone pelo
Assim como Lady Macbeth, personagem trans- poder” atravessa décadas. ✪
formada em lenda pelo dramaturgo e escritor inglês

Revista Biblioo - Dezembro, 2015, Ano 5, Nº 12|29


Severino,
Versos de um dedo de prosa
Por Ricardo Porto, autor temporão, idealizador do Clube dos Escritores e Alvorada

Simplório de nascença, — Que qui tem?


humilde, por herança — Ocê é mais feio que eu.
otário, por maioria de votos. — E daí? Só to aqui, pra te ajudá.
De família, nem lembrança. — Num diga. Que qui tu qué?
O que sabe, pouco ou nada, — Eu vim te avisá.
aprendeu sozinho (com a vida.) — Tá na minha hora?
Diga-se de passagem, sofrida. — Mais ou menos.
Mais que isso. Passada. — Vai sê pexêra? Eu não gosto de sangue.
Em branco, sem cores. — Cabra froxo. Num vai não.
Sem ninguém, sem amores. — Ah, bom.
Só a seca, a fome. — Vai se tiro.
Sem futuro, sem nome. — Vixe! Vou estribuchá?
Ninguém; só mais um Severino. — Já vice fala em cadera de roda?
Sem nada, só a certeza. — Ara! Mor de quê?
De ter sede, de ter fome, — É a sina.
igual a todos que conhece. — Sina é o que não farta no sertão.
Só uma criança, feito homem, — Ocê precisa si aprepará.
Sem esperanças, só uma prece. — A gente já sofre tanto.
Que acabe o sofrimento, a fome, — O sofrimento purifica.
que não faça outra criança, sem nome. — Prá que sertanejo qué pureza?
E um dia choveu no sertão. Severino, homem bom, — Tu merece sê mió.
deitou no chão, na água, no barro. Só queria agra- — Carece se incomodá.
decer. A Deus, no céu, a chuva, por ter caído. Feliz — Mecê foi iscolhido.
e agradecido chorou. A seu lado, viu outro caboclo — Pra sofrê? Eu num sô ruim.
sentado, molhado, chorando. Sorriu para o irmão de — Purisso. Nóis precisa docê.
fado. Gritou com uma alegria tão grande, como nem — Justo eu? Tanto povo aí.
lembrava ter tido. — Esse povo carece sê ajudado.
— Eu sô um Severino. — Vô ajudá numa cadera de roda?
— Eu, sô teu anjo-da-guarda. — É um úrtimo teste.
— Arre, égua! — Pra vê se eu morro?
— Que qui foi? — Tá fazendo farta gente que nem ocê.
—Antão é purisso. — Farta onde?
— O quê? — Aqui. Ocê vai sê anjo.
— As desgraça toda da minha vida —Vixe!

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